XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 DIÁLOGO ENTRE LITERATURA E OUTRAS LINGUAGENS NO ENSINO MÉDIO: UMA PROPOSTA DE WILLIAM R. CEREJA Caroline de Oliveira Barão Taís Mireli Jorge (PGs-CLCA-UENP/CJ) Penha Lucilda de Souza Silvestre (Orientadora-CLCA-UENP/CJ) RESUMO Atualmente, tornou-se comum o discurso sobre a falta de interesse dos adolescentes pela leitura de textos literários. Da mesma maneira, várias formas de manifestações de incentivo à leitura no contexto escolar, surgem. A par de tais constatações e à luz do livro Ensino de Literatura – uma proposta dialógica para o trabalho com literatura, do renomado autor didático William Roberto Cereja, a presente comunicação tem a pretensão de sugerir algumas alternativas onde a literatura dialogue com diferentes linguagens culturais. Sugestões que poderão ser utilizadas em sala de aula sob a finalidade principal de desenvolver habilidades de leitura do discente e estimular o gosto literário no mesmo, mostrando exemplos práticos de como conduzir a inter-relação entre textos literários de diferentes épocas e com outras linguagens, como cinema, música e pintura. Palavras-chave: William R. Cereja. Literatura. Ensino. Leitor. Abordagem dialógica. 1 INTRODUÇÃO Supostamente, o papel do ensino de literatura deveria ser a formação de leitores competentes e a instituição do hábito da leitura nos alunos. Contudo, temos plena consciência que isto não acontece. É comum nos depararmos com pessoas que passaram pelo Ensino Médio e não conseguem se quer interpretar um outdoor na esquina, devido ao seu insuficiente caráter de compreensão textual. Consciente deste problema no ensino brasileiro, mais especificamente, no Ensino Médio, William Roberto Cereja publicou o livro Ensino de Literatura: uma proposta dialógica para o trabalho com literatura (2005) tendo como foco principal a proposta de pesquisar, questionar e relatar a condição do ensino de literatura no país e, por fim, sugerir uma aplicação mais dinâmica em acordo com a expectativa do aluno. Para tanto, o autor entrevistou professores e alunos em quatro escolas: duas públicas e duas particulares, comprovando que os mesmos desacordos ocorrem nos dois estilos de ensino nacional. 264 XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 Através deste livro, pode-se notar a enorme possibilidade de ensinar literatura de forma a construirmos leitores hábeis para notarem o dialogo de textos, e conhecimento de áreas afins, isto dentro do ambiente escolar. Faltava ao autor construir uma obra que revelasse o seu ponto de vista sobre o ensino de língua portuguesa, mais especificamente, o ensino de literatura, no Brasil. Após tantas publicações diretamente didáticas, Cereja empenhou-se em publicar sua tese de doutorado de uma forma que revela dados que podem até ser considerados comuns, mas, que agora, veem com a função de documentar a real e atual condição do ensino de literatura no país. Acredita-se que o autor demorou um pouco para apresentar esta sua análise tão crítica desconhecida da maior parte dos estudantes da área, porém isto comprova, mais uma vez, a preparação do autor para este trabalho, que arrecadou relatos unidos à própria experiência para tratar do assunto com autoridade. Com base no livro Ensino de Literatura – uma proposta dialógica para o trabalho com literatura, nas nossas próprias reflexões acarretadas durante o período acadêmico à partir da fundamentação teórica e de nossa experiência em sala de aula, neste artigo, nos atemos aos objetivos do livro em questão; as concepções pedagógicas dos professores com relação ao ensino de literatura; o quanto o professor influi sobre os alunos, dando o exemplo de ser leitor; a visão do aluno analisando aulas transmissivas; a preparação para o vestibular no âmbito literário; além de uma análise e uma proposta de abordagem dialógica literária em sala de aula. 2 A OBRA E O AUTOR William Roberto Cereja é professor, graduado em Português e Linguística, licenciado em Português pela Universidade de São Paulo. Mestre em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo. Doutor em Linguística Aplicada e Análise do Discurso na PUCSP. E, atualmente, é professor em escola particular na cidade de São Paulo. É uma pessoa discreta com relação à sua vida pessoal – já que não encontramos nada sobre esta –, mas com um repertório grandioso na área educacional, onde é conhecido pelas publicações de livros didáticos – os quais são referências de pesquisas no âmbito acadêmico – em conjunto com Thereza Cochar Magalhães. Analisando os títulos de suas publicações, percebe-se que Cereja é um estudioso das áreas de gramática e linguística – o que se refere à sua formação –, apesar de existirem algumas obras específicas em determinadas áreas da literatura (portuguesa e brasileira), fato que desponta o que o autor, depois de vários anos lecionando, 265 XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 condensaria numa rica obra sobre a abordagem da literatura em sala de aula, no Ensino Médio: Ensino de Literatura – uma proposta dialógica para o trabalho com literatura, publicado no ano de 2005. O objetivo desta obra, segundo o próprio autor, é explanar uma reflexão feita analisando as práticas pedagógicas (p. 13) que vêm sendo utilizadas no ensino de literatura na altura do nível médio. Esta reflexão é produto da observação de Cereja enquanto professor, durante vinte anos, e autor de livros didáticos, os quais, ele afirmará, durante a obra, serem orientadores e não objeto único para o desenvolvimento do ensino (p. 57-9). O autor comenta sobre as expectativas de seu livro sobre o ensino de literatura, afirmando: “Espera-se que essa proposta de ensino de literatura possa dar subsídios ao debate em torno de uma redefinição tanto dos objetivos quanto do próprio objeto de ensino da disciplina na escola; apontar caminhos alternativos de ensino de literatura, sincronizados com as pesquisas mais recentes no âmbito da teoria literária, da análise do discurso e da educação; contribuir efetivamente para o desenvolvimento de capacidades leitoras, fator indispensável à vida profissional e ao exercício da cidadania.” (CEREJA, p. 13) Os pontos ressaltados pelo autor são todos abordados ao longo da obra, comprovando a autenticidade de sua pesquisa, bem como o empenho de Cereja em acrescentar, num olhar bastante positivo, recursos que podem auxiliar professores na abordagem literária em sala de aula. O autor acredita que a educação pode apropriar-se de novos caminhos, como a intertextualidade, proposto pelo método rizomático, por exemplo, que modificariam o resultado previsto nos alunos. Na obra, Cereja, conhecido por seus livros didáticos, critica o modo como eles são adotados pelos professores, esclarece que seu surgimento foi sob o propósito de auxiliar o professor não capacitado – reflexo dos projetos educacionais dos anos 60 e 70. William, ainda, oferece uma releitura das leis nacionais sobre educação, sem criticá-las diretamente, mas chamando a atenção do leitor para como estas leis são colocadas em prática em desacordo com sua fundamentação. Até aqui, percebe-se uma forte influência de Antonio Cândido – que é comparado com Bakhtin, no quarto capítulo do livro –, especialmente, do artigo Iniciação à literatura brasileira (1997). Tudo isto, partindo de uma pesquisa, desenvolvida em São Paulo, com professores da rede pública e particular, onde fica comprovada a oscilante abordagem literária ao longo dos anos, a partir do século XIX (quando a crítica literária nascia, junto com o Romantismo, de forma cronológica), e que a maioria dos professores, mesmo depois de um século e meio, ainda não foi – e não está – preparada para lecionar sobre 266 XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 literatura, e consequentemente, não compreendem a grande significação da mesma no crescimento intelectual do discente. 3 A influência do professor na leitura dos alunos e o ensino de literatura voltado para o vestibular Sem hipocrisia – considerando que há exceções –, não é um hábito do brasileiro, ler. Acontece que a escola não prega isto. A educação sempre teve a preocupação de fornecer um conteúdo básico aos seus alunos, sem a perspectiva de um pensamento crítico. No entanto, em passos muito curtos, esta realidade vem sendo modificada, devido à mobilização do Estado em levantar leis que reclamam a formação da cidadania junto aos alunos, bem como fornecer recursos aos professores para que isto aconteça. A literatura começa a ser vista com olhos de otimismo. Num plano mais objetivo, é preciso que o professor saiba dar exemplos positivos aos seus alunos, muitas vezes ele exerce maior influência do que os próprios pais das crianças. De nada adianta o professor dizer aos alunos que eles devem ler, se aquele não o faz. Temos que admitir que quando o professor se prontifica a dar uma aula sobre um livro ele deverá se preparar para tal e, como consequência, ler o livro em questão, no entanto, mesmo que a aula não seja dedicada a um livro é necessário uma amplificação do seu conhecimento literário. Quando um professor se propõe a dar o exemplo aos seus alunos, as aulas tornam-se mais produtivas, e os alunos desprendem-se da fixação pelas provas dos vestibulares. Visionando isto, Cereja, abertamente, questiona o posicionamento do Ensino Médio com relação ao vestibular, onde o que interessa são as obras listadas pelas instituições que aplicarão o exame, não deixando espaço para a reflexão ou a inclusão de obras contemporâneas, por exemplo, perdendo um amplo acervo que poderia ser bem utilizado no desenvolvimento crítico do aluno. As aulas regulares tomaram os cursinhos pré-vestibulares como referência inicialmente separando Língua Portuguesa de Literatura de Redação, fato inconcebível já que a boa realização de uma depende das outras. E mais, a inserção dos simulados periódicos e das apostilas também é um reflexo do método dos cursinhos. Ou seja, o Ensino Médio dedica-se aos vestibulares, desconsiderando o potencial crítico do aluno que auxiliaria na interpretação de uma questão ou, melhor, no desenvolvimento da redação da prova. 267 XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 4 Arrecadação da pesquisa Durante a pesquisa com os professores, Cereja levanta a seguinte questão: “Você acha importante ensinar literatura? Por quê? As respostas dadas a essa pergunta revelam que há falta de clareza por parte de algumas professoras quanto aos objetivos do ensino de literatura na escola e ao papel do especialista dessa disciplina. (...) as repostas: Professora 1: ‘Sim. Para melhor definir ao educando o sentido da palavra ‘cultura’, seja ela brasileira ou não, bem como estimular o ‘artístico’ que existe em cada um de nós.’ Professora 2: ‘Sim, para conscientizar o aluno, ser humano, do que realmente ele é e do que pode ser capaz.’ Professora 3: ‘Sim, pois, muitas vezes, o alunado terá, no ensino médio, a única oportunidade de conviver com os tipos de obras estudadas. [...]’ Professora 4: ‘Sim, o aluno instrumentaliza-se para ler um texto literário [...]’” [grifo do autor] (CEREJA, p. 37) Apesar de todas as professoras assumirem que acham importante ensinar literatura, suas respostas ainda são um pouco vagas. As duas primeiras vêm a literatura como uma fonte de desenvolvimento de outras áreas – o que aproxima-se um pouco da função da literatura de desenvolver o pensamento crítico do leitor. A terceira quer apresentar “obras estudadas”, não se sabe ao certo o que seria isto. E a quarta acredita que o ensino de literatura apenas dará suporte para a leitura. Percebe-se que não existem estudos teóricos que formaram estas professoras, ou elas não souberam demonstrar sua fundamentação teórica, levando a crer que seus alunos continuam na maçante descoordenação literária, sem metodologia adequada e sem caráter evolutivo. Percebe-se que, infelizmente, a maioria dos professores não possui o devido preparo para uma abordagem eficiente da literatura na sala de aula. Isto ocorre, porque, há pouco tempo, a literatura foi priorizada como necessária e muitos professores ainda não tiveram oportunidade de aprimorar-se na metodologia contemporânea da literatura, ofertada, por exemplo, nos preceitos de Antonio Cândido, como recurso humanizador do aluno. Ocorre que, devido a este pouco tempo de concepção literária como meio de desenvolvimento crítico, a literatura ainda só é abordada como tal no Ensino Médio. Além de sua iniciação ser atrasada – afinal deveria ser focada desde as séries iniciais, juntamente, com a alfabetização –, os métodos de abordagem não condizem à função crítica da literatura. A mesma é apresentada dentro de seus movimentos (barroco, arcadismo, romantismo...), instituída dentro de uma cronologia como se um movimento 268 XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 se encerrasse para iniciar o outro, isolando as características diacrônicas. Obviamente, considerando a necessidade didática, este é o meio mais fácil de apresentar a literatura aos alunos, no entanto, a literatura deve partir da sua subjetividade, relacionada com a realidade do leitor, para formar uma nova concepção sobre o texto. E ainda, o aluno deve ser localizado no em torno da obra, ou seja, quando analisamos uma obra literária é necessário estar ciente, pelo menos, do momento histórico e das prováveis aspirações do autor, isto sem contar seus antecessores, que podem ter influenciado-o, enfim, não é uma tarefa fácil, mas só assim a literatura cumpre com seu papel de formadora de opiniões. Não raramente, as obras literárias servem apenas como exemplo para os movimentos literários, elas não são analisadas, na verdade, a obra não é o foco principal da aula, serve apenas para apresentar à classe as características do movimento em questão, desmerecendo o potencial de influência da obra nos alunos. Para demonstrarmos como seria este tipo de exercício, utilizamos como exemplo alguns exercícios retirados do livro de Hildebrando Campestrini, no livro Literatura Brasileira: textos e testes (1989): “1 – Estabeleça o domínio histórico do quinhentismo, do barroco e do arcadismo. 2 – Compare quanto à forma, Uraguai e Caramuru. (...) 4 – Quem foi o primeiro prosador brasileiro? E o primeiro brasileiro a publicar verso? (...)” [grifo nosso] (CAMPESTRINI, 1989, p. 29) Este exemplo reflete o que era literatura há cerca de vinte e dois anos, exercícios desprovidos de mobilidade crítica. O reflexo desta curta modificação no conceito de literatura em sala de aula, será apresentado a seguir. Um exemplo retirado do livro didático em vigor, neste ano de 2011, nas escolas públicas do Paraná. Após uma reflexão sobre a escravidão e o preconceito, é feita a leitura do extenso poema de Jorge de Lima, Essa negra Fulô, e, em seguida, as atividades solicitam: “O poema nos conta uma história. Que história é essa? (...) Quais eram as atribuições de Fulô? (...) Como este autor alagoano articula, no poema, a questão negritude?” [grifo nosso] (BUENO, 2006, p. 47) da Os dois primeiros exercícios demonstram que a literatura dentro da sala de aula, ainda busca a interpretação superficial do texto, ressaltando elementos escritos no mesmo e não solicitando o pensamento crítico do aluno. A última questão ganha destaque por aplicar a intertextualidade, mesmo que forma indireta, já que não faz 269 XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 menção aos textos lidos anteriormente, mas ainda assim estimula o aluno a pensa no que é a “questão da negritude” para determiná-la no texto. Portanto, mesmo depois de vinte anos, percebe-se que não houve modificações que pudessem ser consideradas exemplo de abordagem literária, mas, comparando a proposta de Hildebrando com a proposta do Governo paranaense, conclui-se que aos poucos está sendo colocado em prática aquilo que é previsto pelas leis educacionais: a formação crítica de cidadãos. 5 A participação do aluno durante a aula Não é preciso muito tempo de vida para um bebê aprender que se chorar alguém irá atendê-lo. Isto prova que o ser humano é capaz de acumular conhecimento nos primeiros momentos de vida, o que tende a crescer devido à nossa capacidade de observação. Portanto, ao escolher uma metodologia de abordagem da literatura para a sala de aula, o professor deve se preparar para as possíveis participações dos alunos durante a exposição do tema. Já que, por mais jovem que o aluno seja, ele carrega consigo o conhecimento empírico, e, durante a aula, é o momento mais propício para que este se aflore. Sendo assim, o professor deve estar preparado para aproveitar este conhecimento em função do conteúdo proposto, afinal isto servirá de estímulo à turma que se sentirá envolvida com a matéria apresentada pelo professor. Além disso, conhecer a turma ao preparar a aula derruba possíveis equívocos, afinal não se pode falar de corrida de Fórmula 1, numa turma que tem sua maioria formada por meninas, – sem preconceito – é preciso bom-senso. Cereja comprova, ao entrevistar alunos de diferentes classes sociais, que eles sentem-se mais abertos à compreensão quando participam do desenvolvimento da aula, seja através de uma pesquisa ou de um debate onde tenham a possibilidade de expor a sua opinião: “Quanto à metodologia adotada e às estratégias utilizadas pelos professores, fica evidente que os alunos rejeitam a aula transmissiva. Seja debatendo textos literários, seja debatendo obras de leitura extraclasse, ou preparando e apresentando seminários, os alunos declaram desejar participar ativamente do processo de construção do conhecimento (...)” (CEREJA, p. 34-35) Comprovando esta afirmação, durante a pesquisa feita por Cereja, os alunos responderam à seguinte questão: 270 XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 “(...) Como seria para você uma aula ideal de literatura? Aula com discussão ou debates sobre os textos literários ou sobre as obras lidas Aula que estabelece relação entre a literatura e o mundo contemporâneo Aula dinâmica, menos expositiva, capaz de prender a atenção Aula que estabelece relações entre a literatura e outras áreas do conhecimento Aula que estabeleça relações entre literatura e cinema, música, teatro Os alunos fariam trabalhos extraclasse: pesquisa, preparação de seminários Os textos deveriam ser de mais fácil compreensão ou mais curtos Aula voltada para a leitura de mais textos e obras literárias, apesar da falta de tempo Aula em que o professor explique bem os textos Os alunos escolheriam livremente os livros a serem lidos Uma vez por semana, cada aluno leva nas aulas de literatura um livro escolhido por ele Os alunos leriam os textos em casa e debateriam em sala Respostas em branco 1 2 3 4 TOTAL 30,2 % 22% 34% 24% 41% 5% - 6% 29% 4% 14% 3% 22% 8% 11,7% 2% - 2% 8% 3% 11% 10% 22% 8% 10,2% - 24% - 4% 7% 5% - - - 1,2% - 10% - - 2,5% 10% - - - 2,5% - 3% - - 0,7% 2% - - - 0,5% - - 4% - 1,2% 27% 8% 6% 2% 16,7% A questão (...), apesar de ser aberta, apresenta respostas dadas com certa regularidade, o que permitiu organizá-las e apurá-las. Como geralmente foi citado mais de um aspecto considerado essencial numa aula ideal de literatura, tomamos como critério registrar todos os aspectos mencionados.” [grifo nosso] (CEREJA, p. 31-2) Observando a tabela construída pelo autor, em que os números de 1 a 4 representam as escolas onde a pesquisa foi realizada, percebe-se que a primeira linha foi a resposta que teve maior destaque entre os alunos, comprovando que eles são atraídos pelas aulas que os convidam a participarem da mesma. A terceira resposta, numa porcentagem muito menor, também ganhou destaque apresentando especificamente que os alunos não aprovam aulas totalmente expositivas. Já, na quinta resposta, é comprovada a boa recepção da intergenericidade, quando os alunos concordam – mesmo que numa porcentagem média –, com a inserção de temas diferentes, mais próximos de sua realidade. E a alta porcentagem das respostas em branco, pode ser a demonstração 271 XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 da ausência de conhecimento dos alunos com referência à literatura. Ou, até mesmo, o desânimo deles com relação às aulas expositivas, que pode ser apenas o tipo de aula que conhecem. 6 Uma alternativa: interrelação de textos literários com outras linguagens Quando um professor opta por uma metodologia de ensino, ele deve considerar a condição da escola e, principalmente, dos alunos, como sugere Cereja na tabela a seguir. HIPÓTESE DE TRABALHO Organizar o curso em unidades temáticas. CAUSAS POSITIVAS Confronto de autores e gêneros. Organizar o curso em torno dos gêneros literários. Fácil determinação de tempo: origem, evolução e extinção (se for o caso). CAUSAS NEGATIVAS Falta de domínio do aluno. Textos de diferentes épocas, podendo ocorrer distanciamento histórico, linguagem inacessível. (p. 162-3) Existem muitas outras hipóteses, no entanto, nos atemos às duas citadas acima, das três que foram sugeridas pelo autor. Ambas possuem pontos positivos de grande valia, portanto, consideremos as supostas causas negativas: a primeira hipótese se favorece no “fácil” suprimento de conteúdo dos alunos, sendo que este problema pode ser resolvido com alguns esclarecimentos fornecidos pelo próprio professor. No entanto, voltamos à sequência cronológica tanto criticada, que é esclarecida: “Desde que a diacronia não sofra um ‘engessamento’, isto é, não se transforme num fim em si, elas são válidas. Nesse caso, a sequência histórica seria o ponto de partida para o estabelecimento de relações e cruzamento com outros períodos da literatura e da cultura. Essa abordagem pode se dar por dois caminhos: de trás para frente ou da frente para trás.” [grifo nosso](CEREJA, p. 163) Cereja apresenta uma hipótese de abordagem um pouco incomum, iniciar o ensino de literatura, no Ensino Médio, pela Literatura Contemporânea, apostando numa linguagem mais acessível ao aluno do primeiro ano, considerando que quando este aluno ingressar no terceiro ano estará apto a compreender a linguagem de Camões, por exemplo. Contudo, o professor há de se atentar para a dificuldade do fluxo de consciência muito encontrado nas obras atuais, fator que pode complicar o entendimento dos alunos. 272 XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 7 Dialogismo: uma proposta de abordagem literária Representando tudo o que foi sugerido neste artigo, a seguir, é apresentada uma proposta de abordagem dialógica literária, sem desconsiderar a proposta de Cereja. Procuramos obter uma abordagem mais simplificada, com o objetivo de demonstrar que não é impossível colocar em prática o dialogismo em sala de aula. Considerando também a realidade de nossa região, na perspectiva de oferecer uma abordagem simples, porém dinâmica da literatura de Graciliano Ramos dialogando com a música de Luiz Gonzaga. Graciliano Ramos (Vidas Secas, 1938) e Luiz Gonzaga (Asa Branca, 1947) Objetivos: - Buscar a interação entre literatura e sociedade, arte e consciência, percebendo que os conteúdos interligam-se, formando um todo: a vida; - Desenvolver a expressão oral e escrita, através da leitura, da reflexão; - Aprimorar a formação intelectual do aluno, tornando-o num leitor crítico; - Relacionar o problema da seca retratado por Graciliano Ramos com os dias atuais. Conclusão do processo: Organização de apresentações sobre o autor e o cantor, bem como o momento histórico de ambas as obras. Desenvolvimento: - Solicitar antecipadamente a leitura do livro Vidas Secas; - Apresentar o Romantismo aos alunos de forma clara, utilizando os principais autores, obras e características. - Encaixar a obra dentro deste período e ressaltar seus pontos principais: os elementos narrativos, a fala dos personagens, o homem como “bicho” dentro da trama, a personificação da cachorra Baleia entre outros. - Apresentar a música, ressaltando a intertextualidade com o livro, principalmente, o tema, o contexto histórico e os autores. Enfatizando que é possível transpor certos temas para diferentes artes, fato que aproxima o aluno da literatura. - O professor também pode ressaltar a linguagem dos textos, especialmente, os regionalismos - Pode ser apresentado também o filme Vidas Secas, acrescentando o estímulo visual à aula. 273 XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 Anexo: Asa Branca (Luiz Gonzaga) Quando "oiei" a terra ardendo Qual a fogueira de São João Eu perguntei a Deus do céu, ai Por que tamanha judiação Eu perguntei a Deus do céu, ai Por que tamanha judiação Que braseiro, que fornaia Nem um pé de "prantação" Por farta d'água perdi meu gado Morreu de sede meu alazão Por farta d'água perdi meu gado Morreu de sede meu alazão Inté mesmo a asa branca Bateu asas do sertão "Intonce" eu disse, adeus Rosinha Guarda contigo meu coração "Intonce" eu disse, adeus Rosinha Guarda contigo meu coração Hoje longe, muitas légua Numa triste solidão Espero a chuva cair de novo Pra mim vortar pro meu sertão Espero a chuva cair de novo Pra mim vortar pro meu sertão Quando o verde dos teus "óio" Se "espaiar" na prantação Eu te asseguro não chore não, viu Que eu vortarei, viu Meu coração Eu te asseguro não chore não, viu Que eu vortarei, viu Meu coração 274 XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS Conclui-se que a proposta de Cereja foi relatar as considerações arrecadadas ao longo de seus vintes anos como professor, bem como, traduzir a abordagem da literatura de forma sincrônica e diacrônica e não de forma isolada como é costume nas escolas. É nítida a forte ânsia de revolução nas palavras do autor. Durante todo o livro, Cereja levanta as míninas críticas sobre o território que analisa. Portanto, ganhamos um crítico da abordagem literária que vem contrariar sua posição de autor de livro didático, afinal, desde o surgimento deste, o planejamento pronto das aulas tem sido um grande vilão no desenvolvimento pedagógico dos docentes, que se acomodam às aulas prontas e respondidas oferecidas pelo livro. Podemos concluir que Cereja também se incomodou ao ver a supervalorização de seu trabalho, é como se o autor dissesse: “ei, acordem, isto não está pronto!” Alguns de seus apontamentos podem parecer utópicos considerando as reais condições da educação dentro da sala de aula: pouco tempo, excesso de conteúdo, despreparo docente, desinteresse discente, desestruturação pedagógica entre outras coisas, porém é necessário apresentar as fontes para as mudanças, e Cereja, como professor, pode apontar com destreza aquilo que cabe nas aulas de literatura dentro da sala de aula em acordo com a competência do professor. Aqueles que aderirem à leitura de Ensino de Literatura – uma proposta dialógica para o trabalho com literatura estarão muito bem encaminhados a alçarem vôos de grande escala para a abordagem dos alunos de maneira coerente. Portanto, de acordo com a proposta dialógica de Cereja acompanha o pensamento de Bakhtin, o texto literário deixa de ser uma peça de antiguidade, para se transformar em um conhecimento significativo para os adolescentes. 9 REFERÊNCIAS BUENO, Rosa E. Discursos da negritude. In: Língua Portuguesa e Literatura - Ensino Médio. Curitiba: SEED-PR, 2006. (p. 45-53) CAMPESTRINI, Hildebrando. Literatura para 2º grau: Literatura Brasileira: textos e testes. São Paulo: FTD, 1989. CEREJA, William R. Ensino de Literatura: uma proposta dialógica para o trabalho com literatura. São Paulo: Atual, 2005. 275 XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O Educar para a Emancipação: a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 1 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 http://www.editorasaraiva.com.br/nossosAutoresDetalhes.aspx?autor=661 – Acesso 10 mai 2011 Para citar este artigo: BARÃO, Caroline de Oliveira; JORGE, Taís Mireli. Diálogo entre literatura e outras linguagens no ensino médio: uma proposta de William R. Cereja. In: XI CONGRESSO DE EDUCAÇÃO DO NORTE PIONEIRO Jacarezinho. 2011.Anais...UENP – Universidade Estadual do Norte do Paraná – Centro de Ciências Humanas e da Educação e Centro de Letras Comunicação e Artes. Jacarezinho, 2011. ISSN – 18083579. p. 264 – 276. 276