O desejo do analista
Teresa Mendonça
A maneira como o desejo do analista opera nas estruturas foi a questão que
comecei a perseguir como membro do Cartel Estrutura, Clínica e Laço Social, iniciado
em maio de 2012. De que desejo se trata quando nos referimos ao desejo do analista?
Por sua fala o analisante reproduz a dimensão arcaica de seu desejo inconsciente,
desejo infantil que encontra na relação com o Outro o objeto que lhe é mais caro e que o
mantém em posição de gozo.
O protótipo dessa relação – as primeiras ligações
libidinais da criança com o cuidador, a figura materna - é atualizado na transferência,
em forma de demanda de amor. Dessa forma o analisante dá inconscientemente lugar ao
analista, que indica a reprodução de seu próprio lugar em relação ao desejo do Outro. O
desejo é sempre desejo do desejo do Outro e o analista, enquanto semblante de objeto a,
restaura a repetição da pulsão na transferência. O analisante acredita que o analista
contém a resposta para essa falta chamada desejo; em outros termos, o analisante confia
ao analista o elemento que lhe falta, o objeto a. É a transferência que se sustenta no
enigma de que o analista se reveste e que se apoia na possibilidade de ser o analista o
que o analisante desejar fazer dele. O analista está no lugar do objeto, finge sê-lo para
que a análise progrida.
Qual é, então, o desejo do analista? É um desejo advertido, já que sabe que não
há equivalente simbólico para a falta e que a demanda que o analisante lhe endereça não
pode ser suprida. O que se espera do analista é que suporte e reconheça seu não-saber
sobre a particularidade do desejo do analisante. Caso contrário, colocar-se-ia na análise
como complemento de seu analisante e não cumpriria sua função de objeto a, que lhe
permite esvaziar-se de qualquer substância bem como de qualquer identificação. Para
ser tomado como objeto na transferência o analista reendereça ao analisante a suposição
de saber, daquilo que ignora e ativamente recusa saber.
Não é o desejo de sujeito do analista que está em causa, pois não lhe cabe, é
certo, responder à demanda de amor. Se o fizesse, responderia ao analisante do lugar de
mestre, daquele que sabe e tem respostas. Não sustentaria o lugar de semblante do
suposto saber, abdicaria de sua posição de enigma, reproduzindo sem cessar o ciclo da
demanda que jamais se encontra com o seu objeto. Dessa maneira, o analista
descumpriria a ética da psicanálise de jamais ceder de seu desejo, em seu caso, a de
autorizar-se a supor a verdade do desejo de seu analisante.
“Não há passagem de analisante a analista que não seja pela própria legitimação
de sua posição analisante” *
O que está em jogo na análise, quando o analista se dispõe a escutar, é
precisamente o fato de o analista já tê-lo vivido em sua própria análise, ou seja, ter
deduzido de sua fantasia o objeto impossível de seu desejo. Supõe-se que o sujeito que
termine sua análise seja capaz de saber suportar a falta, já tendo e experimentado a
travessia de sua própria fantasia, cujo propósito foi mascarar a falta para sustentar sua
inexistência, pela existência da alteridade. Desse modo, o analista que mantém seu
desejo ultrapassa sua própria fantasia e pode, no lugar do objeto, servir-se dela. O
desejo do analista é, portanto, alimentado constantemente: o analista tolera um desejo
fora da demanda de amor, em outros termos um desejo que não significa desejo de
desejo, apoiado na sua transferência à Psicanálise, e isso não é tarefa fácil. O analista
não goza em sua função, abdica do gozo para tornar presente o desejo do analisante. O
gozo, obtenção de prazer em jogo no sintoma, na transgressão da lei ou na fantasia, está
fora da função analítica. Por isso pode-se considerar que o desejo do analista põe em
jogo mais sua castração do que seu próprio desejo. “Para ele, continuar a ser psicanalista
é menos não ceder em seu desejo do que não ceder em sua castração” (Guyomard apud
Andrade Junior, 2008, p.144). O que permanece – e este é o nível ético em que a
Psicanálise se sustenta – é sua política: a política da falta-a-ser, responsável pelas
diretrizes pelas quais o analista se orienta.
O desejo do analista nas elaborações sobre o passe
De acordo com Cottet, um passante pode reconstituir sua biografia, a
historicidade de seu sintoma e teorizar sobre sua análise. Mas a lógica do passe não
pode reduzir-se às elaborações das relações estabelecidas no romance familiar, nem à
causalidade psicológica das escolhas de vida do passante. Serge Cottet diz que num
relato de passe, mesmo com êxito terapêutico, não se sabe exatamente qual foi o
* Citação de Frederico Feu em “Retorno ao singular e enunciação analisante”, p. 15. Curinga - O analista
analisante. Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas, n. 31, dezembro de 2010.
operador desencadeante da mutação subjetiva ou da deflação no modo de gozo: se a
origem foi no próprio analisante - uma iluminação, revelação - ou se decorreu de uma
interpretação fundamental do analista. Pelo dispositivo do passe sabe-se que certas
intervenções do analista têm a função de despertar, de fazer com que todo o saber do
inconsciente do passante se mostre reduzido ao semblante. O analista também intercede
na tomada de consciência da posição de gozo pela repetição dela em análise; contudo
sabê-la não é suficiente para o fim de análise. De acordo com Cottet, para se fazer o
passe há que se perceber bem os avatares da pulsão, sair da situação de vítima, ir além
da posição de remeter o sintoma à sua causalidade familiar e, mais que isso, abordar de
fato o lugar de objeto na fantasia fundamental.
Cottet pergunta onde o analista provoca o bom momento, o momento necessário
em que o analisante se responsabiliza pelo seu sintoma e promove essa mutação
subjetiva em que o sujeito crê. Relata a análise de uma passante, ”comedora de
lágrimas” identificada com sua mãe melancólica, cujo analista fez equivaler o gozo da
tristeza das lágrimas a uma “voracidade oral”, operação que não foi de tomada de
consciência nem de revelação do inconsciente dela. Conforme Cottet, “é necessário o
Outro para lhe dizer que objeto ela é” (Cottet, 2012, p.24). E nesse caso funcionou pela
solidez da transferência; porque, em primeiro lugar, ser “comedora de lágrimas” é
verdade e, em segundo, porque pela transferência estabelecida em analise, a passante
estava completamente convencida, algo que não acontece todos os dias. Segundo Cottet,
nesse momento de ver percebe-se uma lógica e não uma cronologia e o sujeito
compreende. O fim da análise coincide com uma separação do objeto, uma deflação do
gozo e uma deflação do próprio desejo. Cottet afirma: “é o analista que o lembra de seu
ser de objeto” (Cottet, 2010, p.22). Portanto o passe é a confirmação de que o desejo do
analista operou.
REFERÊNCIAS
ANDRADE JÚNIOR, M. Ética da psicanálise e desejo do analista: bases conceituais
do desejo do analista na ética do seminário VII de Lacan. Dissertação de mestrado. Belo
Horizonte: UFMG, 2008.
COTTET, S. Passe na Escola. In: Curinga - O analista analisante. Escola Brasileira de
Psicanálise –Seção Minas, n. 31, dezembro de 2010.
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O desejo do analista - Escola Brasileira de Psicanálise. Minas Gerais