O NEGRO NA LITERATURA BRASILEIRA: DE OBJETO A SUJEITO
Helio José Luciano
Universidade Estadual de Londrina
Resumo
Este artigo intitulado “O negro na Literatura Brasileira: de objeto a sujeito”,
apresenta estudos que explicitam como o negro foi representado
historicamente nos textos literários. Para isso, em nosso estudo, a literatura é
vista como sendo uma arte social, que dá espaço para questionamentos, pois
delimita o lugar social de cada um, autor, obra e leitor, um agindo sobre o
outro. Por meio de nossa análise das obras da Literatura Brasileira e AfroBrasileira, percebemos que o negro é enquadrado em duas categorias, em
uma o mesmo é enxergando como objeto e na outra como sujeito. No presente
trabalho, também é evidenciado a importância do movimento social negro
nesse processo que busca dar uma real identidade a esse grupo étnico,
representando-o e dando visibilidade a sua cultura.
Palavras-chave: Literatura Brasileira, Literatura Afro-Brasileira, negro.
Introdução
O presente trabalho procurou salientar o percurso do negro na
Literatura Brasileira e Afro-Brasileira, trajetória que o atinge igualmente em sua
prática social concreta. Dito isso, temos como objetivo neste estudo a
explicitação e a desconstrução de um discurso hegemônico secular, que assim
como o estalar do açoite, ainda marca o negro, já que está internalizado pela
sociedade Brasileira.
Pretende-se neste estudo também, evidenciar a importância de
uma abordagem social da literatura, já que essa é construída conforme a
transformação da sociedade, deste modo, espera-se com isso, fomentar
discussões que revelam a importância da literatura Brasileira e Afro-Brasileira,
assim como dos movimentos sociais que lutam por uma real identidade do
negro, que ainda clama por liberdade.
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Literatura: qual a sua função?
É comum alguns críticos literários olharem a literatura apenas
pelo lado estético, acreditam que não é função da mesma se fixar em outros
valores que não seja apenas o de proporcionar ao leitor a contemplação da
beleza textual, assim, tiram da literatura qualquer outro compromisso, tornando o
aspecto formal seu maior objetivo, sobre isso, Braga coloca o seguinte:
[...] é importante pontuar que o texto literário dialoga e poetiza a
história social, mas nunca a reproduz fielmente. Sendo assim, é
preciso promover o ensino de Literatura focalizando-a enquanto
produção estética, e não enquanto retratos históricos [...] sua
função é promover antes da formação moral, a experiência
estética. (2006, p.1)
Claro que no estudo da literatura não devemos abandonar o seu
valor estético, porém, outros aspectos como os valores sociais, históricos, morais
não devem ser desprezados no texto literário, já que esses textos são produzidos
conforme as mudanças históricas e sociais por quais as sociedades passam ao
longo do tempo, dessa forma, a literatura está ligada a sociedade e ao seu
desenvolvimento, e sua função também é de proporcionar ao homem uma melhor
compreensão de sua existência, nesse sentido, podemos dizer que “a literatura
[...] é realista, na medida em que ela sempre tem o real como objeto de desejo”
(BARTHES, 1978, p. 23), pensando conforme Facina (2004), a literatura:
[...] expressa visões de mundo que são coletivas de determinados
grupos sociais. Essas visões de mundo são informadas pela
experiência histórica concreta desses grupos sociais que as
formulam, mas são também elas mesmas construtoras dessa
experiência. Elas compõem a prática social material desses
indivíduos e dos grupos sociais aos quais eles pertencem ou com
os quais se relacionam. (p.25).
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Sendo assim, ao pensarmos a literatura como sendo um tipo de
arte social, esta passa a ter valores ideológicos e culturais, uma vez que, ao
escrever o texto literário o autor representa esses valores, representação que
pode refletir diretamente no seu receptor, pois quando o leitor faz uma leitura
crítica do texto, esta o estimula a dar novos significados a escrita, levando-o a
perceber caminhos que mostram que a literatura não é apenas a arte do belo, já
que dá espaço para questionamentos, podendo colocar autor e leitor em papéis
sociais distintos, ou seja, o sentido do texto depende do olhar de cada um, de
seus contextos, seus objetivos, interesses e intenções. Desta forma, a literatura:
[...] é um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e
sobre os leitores; e só vivem na medida em que estes a vivem,
decifrando-a, aceitando-a, deformando-a. [...] A obra de arte só
está acabada no momento em que se repercute e atua, por que
sociologicamente, a arte é um sistema simbólico de comunicação
inter-humana. (CÂNDIDO, 2000, p.36).
Podemos ver assim, a literatura não apenas como uma obra de
ficção, de puro prazer estético, mas como uma arte que se torna social na medida
em que delimita o lugar social de cada um, autor, obra e leitor, um agindo sobre o
outro, isto é, o poder da palavra do texto literário causando a ação de um e a
reação do outro, já que:
[...] não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas
verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais,
agradáveis ou desagradáveis, etc. A palavra está sempre
carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou
vivencial. ( BAKHTIN e VOLOSHINOV, 1997, p. 95)
Em consequência disso, de olhar a literatura como tendo uma
função social, de denúncia, de indignação, de ação e reação, enfim, de um
engajamento social que define o autor, a obra literária e o leitor em papéis que
expressam valores ideológicos e culturais, apontando contextos históricos,
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sociais, econômicos, dentre outros aspectos que marcam a transformação da
sociedade, apresentaremos a seguir uma análise entre Literatura Brasileira e
Literatura Afro-Brasileira, evidenciando como cada uma explicitou a figura do
negro em seus textos.
Dicotomia entre Literatura Brasileira e Afro-Brasileira
Desde os primeiros escritos da Literatura Brasileira, nota-se
que essa deixa transparecer um etnocentrismo que limita determinados grupos
sociais, ficando evidente certa superioridade, em que a cultura dominante do
europeu dita as regras e referencia seus valores como sendo universais,
levando o grupo dominado a um processo de supressão da identidade. Na
citação abaixo, da “Carta de Pero Vaz de Caminha” que é considerado o
primeiro texto literário escrito no Brasil, está explicitado esse processo de
aculturação:
Parece-me gente de tal inocência que, se os homens
entendessem e eles a nós, que seriam logo cristãos, porque
eles não têm e nem entendem em nenhuma crença, segundo
parece [...] essa gente é boa e de boa simplicidade e implimirse-á ligeiramente neles qualquer cunho que lhes quiserem dar.
[...] Mas o melhor fruito que nela se pode fazer me parece que
seja salvar essa gente. (CAMINHA, 1999, p.54)
Essa é a primeira representação de um grupo étnico que
aparece inclusa em um texto, em que o imaginário é pautado em uma visão
etnocêntrica, representado por um indivíduo branco, cristão, europeu,
“civilizado” e colonizador, que, ao referenciar seu arquétipo religioso e cultural,
faz com que a cultura do índio sofra um processo de invisibilidade, e que a
partir de então seja seguido um ideal hegemônico, nesta perspectiva:
Se a cultura hegemônica constrói para si, um modelo de
produções textuais, este modelo deverá veicular as crenças, os
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símbolos, os significados que ela lhe atribui e que compõe seu
imaginário. Constantemente adaptado e atualizado de acordo
com as necessidades e interesses de uma tradição ocidental,
etnocêntrica e hegemônica. (Souza, 2005, p. 38)
Os aspectos citados acima contribuíram para a formação de
uma Literatura Brasileira ligada às ideologias dominantes, neste cenário, vale
ressaltar que o grupo social mais afetado em seus escritos foi o negro, já que
esse aparece nas obras literárias como objeto, o seu personagem é quase
sempre visto a certa distância, culminando em uma visão que manifesta feitios
que apontam para a estereotipação do negro dentro de uma ótica dominadora
do branco, neste panorama, a escrita das obras literárias nos mostram o negro
inferiorizado etnicamente, tornando a Literatura Brasileira uma narrativa que o
caracteriza somente com temas que lembram sua escravidão, ocultando do
mesmo sua cultura, e consequentemente, silenciando-o como sujeito, para
Dalcastagnè:
De modo geral, esse tipo de ausência costuma ser creditada à
invisibilidade desses mesmos grupos na sociedade brasileira
como um todo. Neste caso, os escritores estariam
representando justamente essa invisibilidade ao deixar de fora
das páginas de seus livros aqueles que são deixados à
margem de nossa sociedade. (2007, p.21)
Ao ponderarmos sobre a representação do negro na Literatura
Brasileira, esta nos dá uma ideia de inferioridade de uma raça e superioridade
de outra, sobre isso, convém atentarmos para o fato, de que, o negro teve o
ápice de sua representatividade negativa nas obras literárias ao longo do
século XIX e começo do século XX, justamente no momento que o contexto
brasileiro apontava para a o “século das ciências”, quando as raças passaram
a ser observadas nos moldes do cientificismo positivista, tornando o estudo das
sociedades e os vários aspectos que perpassam a mesma como algo
controlado pela ciência, que provocou entre outras coisas, a criação de teorias
raciais, como o darwinismo social, que pensava a civilização e suas práticas
sociais a partir de valores que implicavam em apontar “cientificamente”, dentro
300
de um determinismo biológico, que certas sociedades e civilizações eram mais
evoluídas que outras por serem beneficiadas pela natureza, e essa seleção
entre melhores e piores dá-se pela competição entre as raças, que de acordo
com os ditos pensadores sociais da época, o negro estaria inferiorizado por ser
um sub-humano e não ser capaz de se adaptar ao ambiente, por isso,
conforme essa teoria, o negro estaria fadado a desaparecer.
Percebe-se, desta forma, que este contexto foi decisivo na
escrita das obras literárias, e, mesmo que o negro já tenha sido citado de forma
negativa na Literatura Brasileira antes deste cientificismo, foi a partir de então
que sua representação na literatura apareceu mais significativamente. Quanto
a isso, é importante salientar de que a Literatura Brasileira a partir desta
perspectiva, de olhar o negro sem voz ativa e estereotipado, era uma escrita
produzida por homens brancos e de classe média, pertencentes a uma elite
social, assim, as obras literárias eram textos que seguiam um padrão
homogêneo, ditado por um cânone literário, ou seja, as obras teriam que seguir
este modelo para serem aceitas em suas épocas, sobre a ideia de cânone,
Jacomel (2008) diz:
A ideia do cânone agrega em si um sistema de valores. Em sua
etimologia, o termo cânone, que vem o grego kanón,
compreendia uma regra, um modelo ou norma representada
por uma obra ou um poeta. Semelhantemente, a Igreja utilizou
este termo para designar uma lista de santos e também uma
seleção de livros reconhecidos como dignos de autoridade. Ou
seja, as origens do termo estão fundamentadas em um
processo de exclusões. (p.112)
Desta maneira, ao hierarquizar a Literatura Brasileira, nota-se
que o cânone é uma forma de oficializar a escrita de determinado grupo social,
desprestigiando outras que não estariam de acordo com as normas a serem
seguidas, pois:
Estar dentro das normas é estar bem com seus pares, é
frequentar as rodinhas da Gamier ou os cafés da moda, ter
301
seus livros recebidos com notas elogiosas e artigos críticos. Os
rituais de aceitação e posterior canonização incluem atos de
sociabilidade aos quais alguns autores esquecidos não se
submeteram. (MUZART, 1995, p.87)
Em contrapartida a essa literatura canônica, e na ânsia de
recuperar uma identidade perdida, que já tinha sido representada tanto por
movimentos sociais como por escritores negros, entre eles, Luís Gama (1830–
1882), Lima Barreto (1881–1922) e Solano Trindade (1908–1974), que
denunciavam por meio de suas escritas a invisibilidade e o preconceito que o
negro sofria, mas que não eram considerados escritores da “literatura oficial”, e
por isso tiveram seus escritos “apagados” por muito tempo, é que surgiu a
Literatura Afro-Brasileira, que deu voz ao negro e representou tudo aquilo que
tinha sido considerado marginal até então, deste modo:
A partir do ano de 1978, alguns escritores com intuito de
trabalhar com a figura do negro no Brasil, assim como
materializar-se por serem eles próprios vítimas das
estereotipias impostas dentro do círculo literário e intelectual,
surge o primeiro exemplar dos Cadernos Negros, livro que
reunia, e ainda reúne, contos e poemas que tinham como
princípio a valorização da imagem do negro em uma literatura
elaborada por eles próprios, já refletindo o desmembramento, a
descontinuidade e a descentralização proposta pelas literaturas
pós-modernas, pois não se trata mais do negro escravo,
alienado ou objeto do senhor como se observava até então,
mas sim como um participante da sociedade com sentimentos,
prazeres e sensações.(SILVA, 2010, p.23)
Foi com esse intuito de desconstrução de um discurso
hierárquico, sustentador do pensamento ocidental que “nasceu” a Literatura
Afro-Brasileira nos “Cadernos Negros”, sendo que o primeiro número foi
publicado em 1978, ou seja, em plena ditadura militar, o que nos leva a pensar
que foi na efervescência de vários movimentos sociais no Brasil, campo fértil
para a construção de novas ideias, que fez dos “Cadernos Negros” uma
ferramenta determinante para o negro representar sua verdadeira identidade,
302
razão que tornou a Literatura Afro-Brasileira presente nos “Cadernos Negros”
um espaço para este movimento se organizar em torno de um projeto comum
de ação, que foi o de dar voz ao negro, e assim mostrá-lo como sujeito nesta
luta em que a palavra escrita é a arma mais poderosa, neste sentido, “o negro
já articula uma linguagem literária própria, rompe o discurso da cultura oficial e
se manifesta como um elemento de resistência à sua marginalização social”.
(MOURA, 1980, p.11)
As visões apresentadas, em que o negro de estereotipado
passa a ser sujeito de sua própria ação, mostram que esse desmembramento
da Literatura Brasileira que originou a Literatura Afro-Brasileira, foi providencial
para criar uma identidade real do negro para que seu contexto histórico e
sociocultural fosse representado, visto que até então, essa identidade tinha
sido deturpada por uma elite colonialista que só conseguia enxergar no negro
um mero serviçal, que não possuía humanidade e por isso não teria direito a
voz. Dito isso, explicitamos que fizemos um estudo em algumas obras da
Literatura Brasileira e da Literatura Afro-Brasileira com o intuito de recuperar as
representações que foram atribuídas ao negro ao longo do tempo, os dados
coletados mostram que as obras compreendem o negro em duas categorias, a
de objeto, explicitado em nosso estudo nas obras da Literatura Brasileira que
vão do século XVII até o modernismo no século XX, e a de sujeito, que foi uma
espécie de contra ataque do negro, que em nosso estudo deu-se com os textos
da Literatura Brasileira e Afro-Brasileira, que englobam o século XIX e chegam
até a contemporaneidade.
O negro como objeto
Ao analisar as obras da Literatura Brasileira, percebemos que o
negro dentro dessa escrita literária é quase sempre evidenciado com
estereótipos negativos, nesse sentido, a significação desse grupo étnico nas
obras, quase sempre aparece de modo pejorativo, submetendo-o a
humilhações, às vezes percebe-se até um preconceito explícito, que deixa
transparecer atitudes de rejeição, fatos que vemos no fragmento do poema
303
abaixo, quando o poeta barroco Gregório de Matos ataca os negros, mulatos e
mestiços:
Que falta nesta cidade?................................. Verdade
Que mais por sua desonra..............................Honra
Falta mais que se lhe ponha............................Vergonha.
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.
Quem a pôs neste socrócio?........................Negócio
Quem causa tal perdição?............................Ambição
E o maior desta loucura?..............................Usura.
[...]
Quais são os seus doces objetos?....................... Pretos
Tem outros bens mais maciços?......................... Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?....................... Mulatos.
Dou ao demo os insensatos,
Dou ao demo a gente asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, mestiços, mulatos.
[...] (MATOS, 1996, p. 54)
O poema citado, no qual Gregório fala da fome que assolava a
Bahia, ele destila suas palavras satíricas tanto para figurões da alta sociedade
como para os menos favorecidos, neste caso, representados por negros,
304
mestiços e mulatos; no trecho evidenciado, nota-se que estes também são
culpados pelo infortúnio por qual passa a Bahia, visto que, os mesmos, devido
à procura de uma ascensão social, faltam com a verdade, não têm honra e
nem vergonha, ou seja, no poema, Gregório explicita que negros, mulatos e
mestiços não possuem valores morais, já que são contaminados pelo
“negócio”, pela “ambição” e pela “usura”, e por isso são nocivos para a
sociedade baiana, e igualmente prejudiciais são aqueles que estimam essa
gente, como deixou claro o poeta.
No Romantismo, em sua terceira fase, Castro Alves, que foi
considerado o “poeta dos escravos”, sempre explicitou em seus poemas a
indignação com a escravidão, porém, assim como a maioria dos escritores de
seu tempo, também lançava estereótipos contra o negro, fato que notamos
nestas estrofes da obra “O navio negreiro”:
[...]
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães.
[...] ( ALVES, 1997, p. 280)
Castro Alves, apesar de lutar contra o tráfico de negros e a
favor da abolição, não dá voz aos mesmos, como era muito comum na época,
mantém certo distanciamento quando fala do negro em seus poemas, diante
disso, não o reconhece como sujeito, que também tem voz, tem seus heróis e
sua cultura, fatos ignorado por Alves, já que no poema “O navio Negreiro”,
pede ajuda a “heróis” do novo mundo, e estes, em nada lembram o negro e sua
305
cultura, mas apenas colonização e colonizados, e consequentemente
escravidão:
[...]
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca! esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares! (ALVES, 1997, p. 283)
A mulher, negra ou mulata, também é outra figura bastante
presente na Literatura Brasileira, esta é quase sempre vista como sensual, na
obra “O cortiço”, de Aluisio de Azevedo, temos as personagens Bertoleza e
Rita Baiana, essas são caracterizadas com os mais variados estereótipos, que
vão desde a promiscuidade até a negação da raça por acharem-se inferiores
ao branco, abaixo temos um trecho da obra falando da negra Bertoleza:
[...] ele propôs-lhe morarem juntos, e ela concordou de braços
abertos, feliz em manter-se de novo com um português,
porque, como toda a cafuza, Bertoleza não queria sujeitar-se a
negros e procurava instintivamente o homem numa raça
superior à sua. (AZEVEDO, 1997, p.16).
Um fato curioso que fica claro nas páginas de “O cortiço”, é a
diferenciação empregada por Azevedo entre a mulher negra e a mulata,
enquanto a primeira, mesmo que livre, nunca deixaria de ser escrava; visto que
a personagem Bertoleza andava “[...] sempre suja e tisnada, sempre sem
domingo nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as panelas e enchendo
os pratos” (AZEVEDO, 1997, p.65-66), enquanto isso, a mulata Rita Baiana é o
oposto na obra, já que é uma mulher autônoma e nunca é dominada, porém
não foge do estereotipo de mulher sensual e promíscua, já que é sempre vista
como objeto sexual:
306
E toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual
de trevos e plantas aromáticas. Irrequieta, saracoteando o
atrevido e rijo quadril baiano, respondia para a direita e para a
esquerda, pondo à mostra um fio de dentes claros e brilhantes
que enriqueciam a sua fisionomia com um realce fascinador.
(AZEVEDO, 1997, p. 65-66)
A literatura infantil é outro espaço literário recheado de
conceitos negativos impostos ao negro, em uma das obras mais famosas desta
literatura, “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”, do não menos famoso Monteiro
Lobato, a negra tia Anastácia, além de ficar reservada a um ambiente que
marca sua condição de inferioridade, já que fica sempre na cozinha servindo
aos demais personagens da história, também é discriminada e considerada
sem cultura pela boneca Emília:
Negra beiçuda! Deus que te marcou, alguma coisa em ti achou.
Quando ele preteja uma criatura é por castigo. Essa burrona
teve medo de cortar a ponta da asa do anjinho. Eu bem que
avisei. Eu vivia insistindo. Hoje mesmo eu insisti. E ela com
esse beição todo: “Não tenho coragem... é sacrilégio...”
Sacrilégio é esse nariz chato. (LOBATO, 2004a, p.41)
Ao fazer a análise em algumas obras da Literatura Brasileira,
as quais apontam o negro como objeto e sem voz ativa, cremos que a escrita
das mesmas contribuiu para reforçar a condição do negro enquanto um ser
excluído socialmente, este tipo de pensamento representado no início por uma
elite colonial, atravessou os tempos, sendo assimilado e internalizado pela
sociedade em geral, tornando o Brasil um país de desiguais, dessa forma, o
negro ainda sofre com a exclusão social, pois não foi inserido satisfatoriamente
na sociedade.
O negro como sujeito
307
Ao falar do negro como sujeito, é impossível excluir Luís
Gama desse processo, pois este foi um dos primeiros escritores a defender
e dar voz ao negro na literatura Brasileira, fato que fica claro no poema a
seguir:
Quero que o mundo me encarando veja
Um retumbante Orfeu de carapinha,
[...]
Nem eu próprio a festança escaparei;
Com foros de Africano fidalgote,
Montado num Barão com ar de zote Ao rufo do tambor e dos zabumbas,
Ao som de mil aplausos retumbantes,
Entre os netos da Ginga, meus parentes,
Pulando de prazer e de contentes Nas danças entrarei cl'altas caiumbas (GAMA, 1944, p.20).
Nos versos acima, ao se colocar no poema e usar palavras que
lembram a terra mãe, Luís Gama reafirma suas origens e deixa claro que o
negro tem identidade própria, por fim, ao inserir-se no meio do seu povo,
pulando, dançando, o poeta representa toda a cultura negra.
Assim como Luís Gama, Lima Barreto foi outro escritor que deu
voz ao negro, seus escritos também criticava a opressão que os pobres e
oprimidos sofriam, fatos que fizeram com que esse autor não tivesse uma
aceitação por parte da elite e dos críticos literários de sua época, dessa forma
ficou à margem do que era considerado como sendo a “alta literatura”. No
romance “Clara dos Anjos”, Barreto, entre outros fatores, denuncia a
submissão da mulher frente ao homem e também o preconceito contra o pobre
308
e o negro. Neste trecho da obra, a mulata Clara dos Anjos sente na pele essa
exclusão social, de ser mulher e mulata:
Na rua, Clara pensou em tudo aquilo, naquela dolorosa cena
que tinha presenciado e no vexame que sofrera. Agora é que
tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora
preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de
solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se
convencer de que ela não era uma moça como as outras; era
muito menos no conceito de todos. (BARRETO, 1994, p.132)
Apesar da citação acima mostrar a mulata em um processo de
exclusão, a escrita de Lima Barreto se diferencia dos escritores canônicos, pois
evidencia que a partir de agora o negro tem consciência de sua exclusão, não
é mais passivo, é um sujeito que pensa e tem voz.
Igualmente ao escritor Lima Barreto, vários outros autores e
intelectuais negros, mulatos e mestiços vinham se ressurgindo no Brasil
república, esse ressurgimento gerou entre outras coisas no aparecimento de
vários movimentos sociais, e um nome de destaque na época, foi o de Solano
Trindade, este foi “um intelectual e artista da primeira metade do século XX
cuja produção reconfigurou a história e a memória dos afro-brasileiros”
(SOUZA, 2004, p.282). Como poeta, Trindade deixou uma vasta obra de
denúncia, de afirmação, de um engajamento social que procurava a
conscientização do negro para este se perceber enquanto sujeito e cidadão em
um país que era marcado pela exclusão social:
Lincharam um homem
entre os arranha-céus
(li num jornal)
procurei o crime do homem
o crime não estava no homem
309
estava na cor de sua epiderme... (TRINDADE, 1961, p.37)
Nesse poema de denúncia, fica claro que Solano Trindade
procura por meio da palavra, um diálogo com uma sociedade que estava em
transformação, evidenciando que o negro mesmo após a escravidão é julgado
pela sua cor, dessa forma, mostra que a sociedade ainda pensa conforme
padrões impostos pelo pensamento europeu. Vale esclarecer que, Solano
Trindade, idêntico aos escritores canônicos, também falava do negro em seus
poemas como escravo, porém com uma diferença, o negro era visto como
humano e não como um animal, e mesmo que fosse melancólico por sua
condição, não deixava de ter poesia, ou seja, o negro não é mais um objeto, e
sim um sujeito que tem atitudes e poder de reação, no poema abaixo
percebemos esses fatores:
Lá vem o navio negreiro
Trazendo carga humana...
Lá vem o navio negreiro
Cheio de melancolia
Lá vem o navio negreiro
Cheinho de poesia...
Lá vem o navio negreiro
Com carga de resistência
Lá vem o navio negreiro
Cheinho de inteligência... (TRINDADE, 1961, p. 44)
Os autores citados acima, que viam o negro enquanto sujeito,
de certa forma influenciaram no movimento social que criou os “Cadernos
Negros”, a partir do nascimento deste, e mesmo que sua escrita ainda não seja
considerada uma
“literatura oficial”, foi a partir de então que o negro ganhou
310
um espaço só dele, podendo se mostrar e evidenciar sua identidade, se
assumindo enquanto sujeito. O primeiro texto da Literatura Afro-Brasileira que
analisaremos mostra esse desejo, de o negro se reconhecer, respeitando suas
origens, para finalmente se libertar:
Primeiro o ferro marca
A violência nas costas
Depois o ferro alisa
A vergonha nos cabelos
Na verdade o que se precisa
É jogar o ferro fora
É quebrar todos os elos
Dessa corrente
De desesperos. (CUTI, 1982, p. 51)
No
trecho
em
evidencia,
o
autor
analisa
o
negro
historicamente, pois ao falar do ferro que marca, lembra a escravidão e a
violência física que o mesmo sofria, e o ferro que alisa remete a
contemporaneidade, no ato do negro alisar o cabelo, com isso mostra a
violência psicológica e simbólica, que devido a um preconceito explícito e
implícito sofrido pelo negro, o mesmo tenta se aproximar do branco na
aparência, internalizando assim, ele mesmo, um preconceito contra si e contra
seu grupo étnico.
A escrita da Literatura Afro-Brasileira também denúncia o
apagamento do negro na história do Brasil, visto que a história oficial só mostra
heróis brancos, até hoje o ensino escolar mostra a princesa Isabel como sendo
um tipo de heroína para os negros, já que “foi ela quem os libertou”, Zumbi é
raramente citado e Ganga Zumba totalmente desconhecido. No trecho abaixo
vemos a menina Geni, da obra “Leite do peito” de autoria de Geni Guimarães,
311
se revoltar contra sua raça, quando descobriu na escola, no dia da abolição,
que os negros eram amarrados no tronco e eram espancados:
[...] Vinha mesmo era de uma raça medrosa, sem histórias de
heroísmo. Morriam feito cães. Justo era mesmo homenagear
Caxias, Tiradentes e todos os Dons Pedros da história. Lógico.
Eles lutavam, defendiam-se e ao seu país. Os idiotas dos
negros, nada. (Guimarães, 2001, p. 64)
Um motivo que marca a diferenciação entre Literatura
Brasileira e Literatura Afro-Brasileira é o modo como a primeira trata o negro
em suas páginas, mostrando o mesmo descaracterizado de humanidade,
sendo assim, a Literatura Afro-Brasileira também é um veículo que denuncia e
contesta essa literatura canônica, que quase sempre olha o negro como objeto:
Irene preta
Irene boa
Irene está sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não
Precisa pedir licença.(BANDEIRA, 2007, p.144)
Manuel Bandeira, escritor da modernidade, considerado um
dos maiores autores de todos os tempos da Literatura Brasileira, não perdeu o
costume da época colonial, que era o de estereotipar o negro, no poema o
mesmo é mostrado como sendo bom e submisso, contradizendo essa escrita, o
poeta afro-brasileiro Márcio Barbosa dá sua versão da história, em que mostra
312
Irene totalmente diferente, em seu poema ela tem voz ativa, e não se submete
ao branco:
Irene preta!
Boa Irene um amor
Mas nem sempre Irene
Está de bom humor
Se existisse mesmo o Céu
Imagino Irene à porta:
- Pela entrada de serviço - diz S. Pedro
Dedo em riste
– Pro inferno, seu racista – ela corta.
Irene não dá bandeira
Ela não é de brincadeira. (BARBOSA, 1992. p. 64)
A Literatura Afro-Brasileira, neste processo de construção de
identidades coletivas, evidencia uma escrita quilombola, ou seja, uma escrita
de resistência, que busca por meio da arte representar culturalmente um povo,
para isso, remexe em um passado na esperança de construir um presente sem
correntes.
Considerações Finais
O presente texto procurou abordar como o negro é visto na
Literatura Brasileira e Afro-Brasileira, representação que o atinge de igual modo
em sua prática social concreta, vemos nesse estudo, uma necessidade para a
desconstrução de um discurso hegemônico que ainda insiste em aparecer no
contexto da sociedade, para isso, sem desmerecer a estética literária e seu
313
aspecto formal, cremos que devemos primar por uma abordagem social no
estudo da literatura.
Ao fazer esta abordagem, dentro de uma perspectiva social,
fica evidente que o negro, por seu histórico de exclusões e séculos de
escravidão, ainda não conseguiu se inserir na sociedade, pois ainda sofre com
esse processo discriminatório, dessa forma, os movimentos sociais que lutam
pela causa do negro também os escritores negros que se expressam
historicamente nas páginas da Literatura Afro-Brasileira, têm de estar sempre
ativos em sua luta, sempre com o intuito de “lutar pela igualdade sempre que
as diferenças os discriminem, lutar pelas diferenças sempre que a igualdade
os descaracterize” (SANTOS, 1995, grifo nosso).
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O NEGRO NA LITERATURA BRASILEIRA: DE OBJETO A