COZINHAR: UM CAMINHO PARA SEDUÇÃO Por Mª Laura Ramalho Vasquez I – Introdução “Pra se viver um grande amor é muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista muito mais, muito mais, que na modista para o prazer de um grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo é de amor, é de amor, de amor a esmo. Depois um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor!” Vinícius de Moraes Baseando-nos segundo Freud na teoria psico-evolutiva, a criança passa por quatro fases na construção da sexualidade infantil: fase oral, fase anal, fase genital e o período de latência. A fase oral é considerada como a primeira fonte de prazer reconhecida pelo bebê, caracterizada pelo ato de sugar, através da boca, o bico do seio da mãe, a chamada “amamentação”. Esta nossa velha conhecida, que desde os primórdios da civilização até hoje é considerada como a mais perfeita forma de alimentar o bebê, em prol dos inúmeros benefícios que proporcionam a saúde física e mental da criança. A amamentação é definida por Ferreira (1999) como, “alimentar, nutrir”. A fusão entre mãe e filho, primordialmente nesta primeira etapa do desenvolvimento, são vistas como as bases essenciais para o contato* e aprendizagem das sensações de amor e proteção, na construção da sexualidade infantil e desenvolvimento do SER. Suscitam emoções, fantasias, desejos e satisfação das necessidades, através do estímulo dos sentidos (visão, audição, degustação, olfato e tato) e que irão influenciar diretamente na sexualidade do adulto, no sentido de desfrutar as sensações de prazer ou desprazer. Partindo desta concepção, percebemos que o prazer em nossa vida tem uma relação direta “com o outro”, em detrimento de “cuidados” especiais e necessários tanto para a sobrevivência, quanto para o desenvolvimento humano. Quando mencionamos anteriormente a importância das fases e dos cinco sentidos na construção da sexualidade infantil e no desenvolvimento sexual do adulto, é necessário pontuar que as defasagens das emoções que não foram preenchidas neste período, irão refletir em várias esferas de nossas vidas, como é o caso da obesidade. A qual é uma deficiência, que concerne desde os primórdios do simbolismo na relação infantil com a alimentação, passando a utilizar o alimento como compensação na substituição da realização emocional e sensações desagradáveis. * Polster, M e E. (2001), No momento da união, o senso mais pleno que o Indivíduo tem de si mesmo é movido rapidamente para uma nova criação. II- A transformação da mulher O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis. Fernando Pessoa Neste capítulo, inicio uma breve análise sobre um comportamento vivido pela mulher numa sociedade machista, e como foram as repercussões psicológicas e sociais, em virtude de conseqüências reprimidas durante longo tempo. Valores que sofreram adequações, para que a mulher encontrasse condições que lhe permitissem assumir um novo lugar. Com a modernidade, por volta dos anos 60/70, ocorreu à explosão e à consolidação social liberada de um novo papel sexual feminino. A mulher teve que deixar sua casa para enfrentar o mercado de trabalho, numa disputa acirrada nesta relação, em que lhe era exigido: competência, independência, objetividade, autoconfiança e realização. A partir daí, ser mãe e mulher, no sentido próprio da palavra, muitas vezes havia se tornado um acessório indesejado, descartável e estereotipado, como o de Amélia, em função do “resquício de um velho conhecido” machismo. O novo modelo da mulher consumidora, capaz de administrar e racionalizar o trabalho doméstico contribuiu para que se afastasse da cozinha ou, de qualquer tipo no preparo de refeições. Contou com o apoio de novas tecnologias, e a influência dos meios de comunicação, no sentido da oferta de eletrodomésticos que foram surgindo nos países capitalistas. Sob este novo paradigma da mulher moderna, nossa cultura foi aceitando este novo papel feminino, permitindo-lhe gradualmente atingir a possibilidade de inteirar com seus desejos imaginários, que até então, não lhes era permitido. Mas, ao mesmo tempo em que ocorreu esse mito da igualdade pelo trabalho entre homens e mulheres, uma boa parte delas, tornaram-se seres divididos vivendo em conflitos permanentes, pela dificuldade em conciliar as duplas, triplas....ou sei lá quantas jornadas hoje, como:a profissional, mãe, esposa, mulher, amante, ensinar ou rever tarefas escolares ..... Dentro de uma visão histórica e atual, se percebe que ainda há um número significativo de mulheres que parecem que continuam amarradas a certos estereótipos do passado, cobrando-se inúmeras exigências. Como ônus, carregam uma sobrecarga da competição entre os sexos, abrindo mão até mesmo da maternidade. Ser mãe hoje está sendo deixada para tão tarde, que quando a mulher se dá conta, não há mais tempo, pois seus óvulos já passaram do tempo de serem fecundados. Será esta competição entre os sexos, o resultado deste perfil que se apresenta hoje da mulher moderna, de uma verdadeira aversão à cozinha. Quem não conhece uma mulher que constantemente diga não suportar cozinha, e nem chega perto da porta? Com certeza, várias! III – Qual o lugar ocupado hoje pela mulher? “Como é possível representar, no mundo do trabalho, um papel que faz abstração do seu sexo e, ao mesmo tempo, um papel que se apóia exclusivamente no seu sexo?” (Freire, 1980). No passado, uma boa parte da sedução, era feita pela mulher a preparação da comida, pela qual os homens se sentiam altamente atraídos, cercados de cuidados especiais..... Segundo Ferreira (1999) seduzir é o: “ato ou efeito de seduzir ou ser seduzido, atração, encanto ou fascínio.” Era até bem comum ouvir das pessoas mais velhas, o ditado popular: “o homem se pega pela boca”. Hoje, uma boa parte dos homens se queixa por estar em extinção à mulher que fazia as refeições da família ou contribuía em primar pela qualidade. Há uma boa parte masculina, que está junto por um tempo razoável com a pessoa que ama, e não ter tido a oportunidade em poder saborear algum prato feito por ela. Deixando transparecer o sentido que teria para ele como, uma criança que tem necessidade de interagir no afago do aleitamento, pedindo atenção, contato, cuidado, demonstrando o prazer que seria proporcionado em poder sentir o sabor do leite dado pela mulher amada. Parece que na atualidade, é até mais comum ver homens cozinhando, e que afirmam seu prazer em cozinhar e fazer outras tarefas domésticas, antes destinadas somente às mulheres. É possível imaginar, que este afastamento da mulher possa vir a ser proposital, como um desejo de vingança, em não querer mais ocupar o lugar de Amélia? Será que, para a mulher pensar em preparar algo para seu companheiro é ocupar um estereótipo pertinente ao passado? Segundo a perspectiva teórica evolucionista de Darwin, poderíamos comparar este tipo de comportamento ao “Olho por olho”? O qual define: “favor com favor se paga e, desfavor também”. Se pensarmos desta forma, haveria então a confirmação de que em algum momento a mulher contemporânea deixou de assumir preventivamente, uma postura própria de comportamentos e atitudes sócio-sexuais, ou sentimentos que possam ser mais profundos. Seguindo esta nova postura pragmática, a mulher veio a expressar-se de acordo com seu ambiente atual. Justificaria que, se comparada aos gêneros, deva ser considerada como a mais efêmera! E, quanto ao sexo frágil dos gêneros? Mas, é esta mulher atual que domina, seduz e dita às regras! “O que seduz é entrar em relação permanecendo livre e anônimo, fazer troca rapidamente e sem cerimonial com desconhecidos, multiplicar e renovar frequentemente os contatos, comunicar por intermédio de tecnologia. A comunicação contemporânea requer relés, sofisticação tecnológica; ela entrou no ciclo moda das redes “deslocadas”. Lipovetsky,G. (1944) IV – O momento mágico O que nos importa não é descobrir de qual mina foi extraída uma pedra preciosa, mas se ela encontrou seu lugar no colar: é a coerência e não a origem das técnicas que constitui o valor dos métodos. Ginger; S.E. Visando o prazer da relação com o alimento, critério pelo qual Freud desde um princípio manifestou uma atenção especial, ainda hoje esse espaço continua sendo privilegiado em diferentes tipos de cenários. Sejam eles festivos, de união familiar, início de encontros amorosos e até religiosos: Pois, se considerarmos a Bíblia após Adão e Eva terem provado o fruto do pecado, “a maça”........ “É a mágica do prazer! O ritual santo da manutenção da vida. Afinal, nós somos o sal da terra! Comemos o corpo e bebemos o sangue de Cristo” Dourado, R.(2001). O sentido do prazer em comer hoje tem seu diferencial, pelo afastamento da mulher em fazer o prato especial: “já não se faz mais as coisas como antigamente!” Os antropólogos como os psicólogos darwinistas, ao estudarem os diferentes povos focalizam menos as diferenças superficiais entre as culturas. Procuram algo mais profundo na espécie humana com capacidade de evoluir, através das tendências sociais. Não descartando que a base da diferenciação entre as pessoas são, os traços genéticos comuns, moldados sob um ambiente e pelo ajuste da mente em formação. Ou seja, a natureza humana gera mecanismos em prol de sua harmonia. De acordo com esta visão histórica e atual, é necessário criar novos paradigmas que vinculem o ato de cozinhar, com o prazer sexual. Amélia ficou no passado! A mulher pode pelo menos uma vez, abrir os espaços internos de modo a ficar disponível e dar-se uma oportunidade em experienciar, reconstruir novas estruturas de pensamentos e possibilidades, que possam gerar algum tipo de motivação. Aprender a bela essência do cozinhar, como uma verdadeira declaração de amor, ou até mesmo, podendo ser intencional, atrair a presa através da comida. Pode dar certo! Existem muitos livros que falam sobre comidas, receitas, ingredientes......mas, pouco se fala de quem faz a comida e de quem a come. De quantas emoções são suscitadas, quando você sabe que alguém dedicou algumas horas de sua vida, para lhe proporcionar aquele momento mágico de prazer. Mágico e prazeroso, porque significa um ritual santo da manutenção da vida, pois de acordo com as considerações bíblicas: comemos o corpo e bebemos o sangue de Cristo........ A mágica se torna possível, quando você acrescenta aquela pitadinha, onde pode estar contido o seu segredo da magia, o seu mistério, o seu feitiço........ E para isso é só começar, acreditando em sua criatividade, deixando sua imaginação fluir e suscitar novas emoções. Nada de receitas prontas, que são uma verdadeira ditadura! Quem sabe, as afrodisíacas talvez possam ser bem-vindas! A partir do momento em que a mulher se dedicar “por inteira” ao preparo da comida, tudo dará certo, permitindo-se: tentar, experimentar, criar, inventar, transformar, com medo ou sem medo, queimando, salgando, esturricando, ou saindo vitoriosa da magia. O importante é fazer e descobrir qual a pitadinha será o seu segredo! Quando alguém prepara algo para o outro, ela está se doando. Já pensou o tempo que lhe foi dedicado em elaborar o cardápio, como fazer, disponibilizar tempo para comprar os ingredientes, ter o cuidado de pensar sobre os pratos que são do seu agrado! Para complementar esse feitiço culinário, o acompanhamento do prato deverá compor um ambiente próprio, para o feitiço das mil e uma noites, que só as mulheres têm a capacidade de criar, de atrair, de seduzir através de todo um conjunto de complementos: velas perfumadas, incensos, tendas, almofadões, flores....Use e abuse da sua imaginação para enfeitiçá-lo também, com suas roupas, ou se preferir sem roupas, um lingerie especial, aquele perfume, a maquiagem, o salto agulha como fetiche.... Use toda a sua sensualidade, charme e especialmente a sua feminilidade. Tenha a certeza, que a qualidade da comida foi outra, já é! Aproveito para deixar uma receita especial, que contribuirá para essa magia: RECEITA RETIRADA DE UM LIVRO DE BRUXARIA DA IDADE MÉDIA, CAPAZ DE CURAR QUALQUER TIPO DE BLOQUEIO SEXUAL DE UM AMANTE. DELÍCIA ENFEITIÇADA INGREDIENTES: • 175 gramas de damascos secos • 125 gramas de passas • 125 gramas de figos secos • 50 gramas de pêssegos secos • 1 ½ xícara de suco de pêssego • 75 gramas de manteiga • 50 gramas de açúcar mascavo • 50 gramas de nozes picadas MODO DE FAZER: Queime incenso de dentes de cravo e canela no ambiente. Molhe sua nuca com água de rosas deixando-a escorrer pelas costas. Coloque um cristal sob uma torneira e deixe escorrer um filete sobre a pedra por dez minutos. Relaxe. Retire o cristal e ponha-o sobre um pano branco perfumado com óleo de rosas. Olhe-o e perceba suas formas internas. Uma grande porta se abrirá dentro dele; entre sem medo e veja uma borboleta cor-de-rosa, que pousará em seu ombro. Penetre numa caverna cujo interior reflete as cores do arco-íris. Colha as cores e coloque dentro de você. Em seguida visualize outro interior da caverna, todo em esmeraldas, onde pequeninas gotas d’água escorrem pela parede transformando-se em pérolas. A borboleta pousará numa pérola rosada, que você deverá pegar e guardar dentro de uma noz. Comece o feitiço colocando as frutas dentro de um recipiente de cristal junto com o suco de pêssego. Deixe descansar por um minuto, e coloque agora numa panela de cerâmica, cozinhando em fogo baixo por 15 minutos. Derrame tudo numa assadeira de barro untada e leve ao forno por 10 minutos. Retire e misture a manteiga e a farinha, seguida do açúcar e das nozes. Volte ao forno e deixe assar por 30 minutos. Sirva sobre uma toalha lilás bem clarinha perfumada com óleo de almíscar, ao lado de velas cor de rosa, margaridas ou violetas, e alguns cristais. Se puder, coloque uma esmeralda ao lado do prato. Sirva a seu amante. Bibliografia: DOURADO, Regina. Quero comer!!! – Rio de Janeiro : Ediouro,2001. FERREIRA, A.B.L. Novo Dicionário Aurélio. Século XXI . 3ª Edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. FREUD, S. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1975. FREIRE-MAIA, N. Teoria da evolução: de Darwin à teoria sintética. São Paulo: Itatiaia, 1988. SERAPIÃO, J.J. Gosto e Sexo (1998) LIPOVETSKY, G. O império do efêmero: A moda e seu destino nas sociedades modernas 1ª - 4ª reimpressão ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 294 p. POLSTER, E.; POLSTER, M. Gestalt-terapia integrada. São Paulo: Summus, 2001 WRIGHT, R. O animal moral - porque somos como somos: a nova ciência da psicologia evolucionista. Rio de Janeiro: Campus, 1996. FREIRE, P. O prazer e o pensar: orientação sexual para educadores e profissionais de saúde. In: RIBEIRO, M. (org). São Paulo: Gente, 1999. 2.