CÂMARA DOS DEPUTADOS DEPARTAMENTO DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO NÚCLEO DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES TEXTO COM REDAÇÃO FINAL COMISSÃO ESPECIAL - PL 1627/07 - ATENDIMENTO SOCIOEDUCATIVO EVENTO: Audiência Pública N°: 1396/08 DATA: 29/10/2008 INÍCIO: 15h01min TÉRMINO: 17h25min DURAÇÃO: 02h23min TEMPO DE GRAVAÇÃO: 02h23min PÁGINAS: 52 QUARTOS: 29 DEPOENTE/CONVIDADO - QUALIFICAÇÃO MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS – Presidenta da Associação das Mães e Amigos da Criança e do Adolescente em Risco – AMAR. ANTÔNIO JOSÉ ÂNGELO MOTTI – Coordenador da Escola de Capacitação de Conselheiros Tutelares e Conselheiros Municipais e Estaduais dos Direitos da Criança do Adolescente. ANTÔNIO ROLDINO PEREIRA NETO – Conselheiro Titular e representante do Fórum Colegiado dos Conselhos Tutelares – FCNCT. SUMÁRIO: Discussão do parecer ao Projeto de Lei 1.627, de 2007, do Poder Executivo. OBSERVAÇÕES Houve intervenções fora do microfone. Inaudíveis. Houve intervenções simultâneas ininteligíveis. CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 O SR. PRESIDENTE (Deputado Alceni Guerra) - Declaro aberta a 9ª Reunião Ordinária desta Comissão Especial. Encontra-se à disposição dos membros aqui presentes a ata da 8ª Reunião. Indago sobre a necessidade de sua leitura. A SRA. DEPUTADA RITA CAMATA - Sr. Presidente, peço a V.Exa. a dispensa da mesma, tendo em vista a entrega das cópias. O SR. PRESIDENTE (Deputado Alceni Guerra) - Dispensada a leitura da ata, a pedido da Deputada Rita Camata. Em discussão a ata. (Pausa.) Não havendo quem queira discuti-la, passamos à votação. As Sras. Deputadas e os Srs. Deputados que a aprovam permaneçam como se encontram. (Pausa.) Aprovada a ata. A Organização de Direitos Humanos encaminhou a esta Comissão cópias dos documentos abaixo relacionados como forma de subsidiar a Relatora na elaboração do seu parecer: 1. Dossiê sobre o Sistema Socioeducativo no Estado do Rio de Janeiro. 2. Confinamento cruel. Abusos contra crianças detidas no Norte do Brasil. 3. Brasil, verdadeiras masmorras. Detenção juvenil no Estado do Rio de Janeiro. 4. Na Escuridão. Abusos ocultos contra jovens internos no Rio de Janeiro. Registro ainda o recebimento dos Ofícios nºs 167/08, da Secretaria Geral da Mesa, comunicando o afastamento do mandato do Deputado Alessandro Sabino, em vista da reassunção da titular, Deputada Fátima Pelaes; 571/08, da Associação dos Magistrados Brasileiros — AMB, solicitando sua participação em audiência pública a fim de discutir o Projeto de Lei nº 1.627/07. Comunicações. O Sr. Cláudio Augusto Vieira da Silva, Coordenador da ANCED — Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente, por intermédio da Sra. Evânia, manteve contato telefônico com a Comissão justificando sua ausência na presente reunião. Ordem do Dia. 1 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Audiência pública destinada a debater proposição em trâmite nesta Comissão, com a presença das seguintes autoridades: Sra. Maria da Conceição Andrade Paganele Santos, Presidente da Associação das Mães e Amigos da Criança e do Adolescente em Risco — AMAR; Dr. Antônio José Ângelo Motti, Coordenador da Escola de Capacitação de Conselheiros Tutelares; Sr. Antônio Roldino Neto, Conselheiro Tutelar e representante do Fórum Colegiado Nacional dos Conselhos Tutelares. Com a Mesa composta, registro a presença do Presidente da Comissão de Seguridade Social e Família, Deputado Jofran Frejat. Dando início aos trabalhos, passo a palavra à Sra. Maria da Conceição Andrade Paganele Santos, Presidente da Associação das Mães e Amigos da Criança e do Adolescente em Risco — AMAR. V.Sa. dispõe de 20 minutos. A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Boa tarde. Quero agradecer à Câmara dos Deputados o convite para participar desta audiência, o que muito me honra. Estou aqui para dar a minha contribuição em relação ao Projeto de Lei nº 1.627, de 2007. Prefiro, Sr. Presidente, que me façam perguntas para iniciar logo o debate sobre o projeto, esclarecendo dúvidas e posicionamentos. O SR. PRESIDENTE (Deputado Alceni Guerra) - Agradeço a V.Sa. Passo a palavra ao Dr. Antônio José Ângelo Motti, Coordenador da Escola de Capacitação de Conselheiros Tutelares. O SR. ANTÔNIO JOSÉ ÂNGELO MOTTI - Boa tarde a todos e a todas. Cumprimento o Presidente da Mesa, Deputado Alceni Guerra; a Deputada Rita Camata, um ícone na defesa dos direitos da criança e do adolescente; os demais colegas desta Mesa e aqueles que assistem a esta audiência. Faço um agradecimento especial pela indicação do meu nome para contribuir com a importante tarefa empreendida por esta Comissão, ao mesmo tempo em que parabenizo todos aqueles que decidiram por ouvir as experiências e as posições profissionais no sentido de tornar legítima a lei que surgirá em breve e que trata do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo. 2 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Quando eu preparava o texto, que foi distribuído aqui, fiz uma leitura das atas anteriores. Aí percebi que, muito mais do que uma discussão de um projeto, esta Comissão vem tratando principalmente de uma política pública para o Estado brasileiro nessa área. As políticas públicas calçadas em legislações competentes e consistentes são instrumentos de direitos na mediação entre o Estado e a sociedade. Constituem uma instância preventiva de superação das crises e tensões da sociedade. Aqui vale a pena falar das diversas crises o Estado brasileiro tem vivido em relação aos adolescentes que cometem ato infracional. Por essa compreensão, inicio a reflexão proposta fazendo alusão ao art. 3º do Estatuto: “A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.” Toda minha fala é inspirada um pouco nessa concepção de direitos humanos de crianças e adolescentes, e mais especificamente de adolescentes. Dessa forma, discutir um plano legal, jurídico e político sobre esse tema é estabelecer uma discussão sobre os direitos humanos de adolescentes que cometem crimes. A propósito, nossa história e os dias atuais revelam que, no campo dos direitos humanos e das políticas públicas, o Estado brasileiro, não obstante o esforço de determinados setores da sociedade civil e do Poder Público, nos dá como resultado prático o acúmulo de uma secular dívida com essa população infantojuvenil. Embora vivamos num Estado de Direito, de há muito tempo não percebemos e de fato não reconhecemos as crianças e adolescentes como seres humanos plenos e, por conseguinte, ignoramos seus direitos humanos. 3 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 A verdade cabal dessa afirmação é comprovada pela necessidade que tivemos de aprovar uma legislação que especificasse quais e como se dão os direitos humanos de crianças e adolescentes e junto a isso um código de conduta para as pessoas adultas, a sociedade e o Poder Público em relação a esses direitos. Legislar em favor da infância, da criança e do adolescente é magnífico; ao mesmo tempo, é preocupante, pois, embora a concepção de cidadania brasileira, de criança e adolescente tenha emergido da proposição de uma emenda popular, na Constituição, com o requerimento de mais 1 milhão de cidadãos, de fato uma sociedade que reconhece esses direitos oficialmente não deveria propor sanções a si, pois que elas não seriam necessárias. À luz de impor sanções aos responsáveis pelas estruturas previstas no Estado brasileiro, reconhecemos legalmente nossa dificuldade em ter a capacidade de cumprir com os deveres de todos frente aos direitos reconhecidos no texto legal. E é nesse aspecto que a contradição fica visivelmente estabelecida. Somos evoluídos a ponto de reconhecer magnânimas condições humanas, mas não conseguimos fazê-las valer de forma natural. Assim, os direitos que dizemos ser naturais à existência humana de crianças e adolescentes não são naturalmente observados e respeitados. É preciso coagirmo-nos legalmente para que de fato sejam garantidos. Essa reflexão, fazemo-la não para provocar o imobilismo, mas na busca de uma provocação de que de fato devemos fazer uma escolha. Qual a sociedade que queremos? Uma sociedade que reconhece os direitos humanos, mas só consegue garanti-los legalmente? Ou um povo que vivencia naturalmente seus direitos em condições de liberdade, igualdade, dignidade e respeito? Essa provocação vai no sentido de percebermos que, quando o exercício dos direitos humanos das crianças e adolescentes só se dá em função da obrigação legal, a relação estabelecida entre esses e a sociedade e as suas instituições deixa de ser natural. E essa artificialidade é perigosa, pois os direitos não são reconhecidos de fato, apenas de direito. Assim, provocamos os membros desta Comissão, desta Casa e a todos nós, seus representados, à importância de termos em conta a necessidade de legitimação social das regras que vamos estabelecer para todos do Estado brasileiro 4 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 no que concerne ao modo de nos organizarmos e agirmos quando um de nossos adolescentes quebrar as regras gerais de convivência, cometendo atos contra a vida, o patrimônio ou os costumes. Devemos ter a preocupação de tornar regra aquilo que naturalmente pensamos e fazemos na promoção dos direitos humanos de adolescentes, pois pouco adiantará impormos condutas que serão artificialmente exercidas por aqueles que têm a obrigação de promover, proteger e defender os direitos humanos dos adolescentes. Essas regras não pegam, a menos que imponham sanções econômicas severas, pois que infelizes vivemos sob a tirania da mais-valia, da necessidade de acumulação financeira e patrimonial. E qualquer situação que a ameace é por nós todos rapidamente respeitada. Muitos me perguntam se aquilo que já está estabelecido na Constituição e na Lei nº 8.069 não é suficiente para tornarmos de fato à sanção pedagógico-educativa e à proteção de direitos humanos de adolescentes brasileiros que cometem infração prevista no código penal. Por outro lado, muitos indagam por que a lei não trouxe uma melhor especificação de como devem ser organizadas as sanções socioeducativas. Ainda outros muitos não sabem nem imaginam que a nossa legislação já trata especificidade sobre como a sociedade e os poderes públicos devem agir quando um adolescente comete uma infração. Nos 2 primeiros casos, fica enunciada a chamada interpretação da lei. Nela, assistimos a decisões magníficas e nela constatamos decisões pífias; quando não injustas, desumanas. Pensávamos que quando fôssemos interpretar o texto legal seríamos sempre capazes de agir naturalmente sob a orientação da Doutrina da Proteção Integral, que iluminou a construção das regras brasileiras. De fato, às vezes, somente às vezes, temos sido capazes de fazê-lo. Na maioria das vezes, agimos com a mente daqueles que não imaginam que a nossa legislação fosse capaz de estabelecer regras especiais para adolescentes que infringem as regras. Então, é preciso nos questionarmos e, de fato, oferecermos respostas necessárias àquilo que não temos sido capazes de fazer. Será que devemos continuar a organizar nossas regras dando margem para a interpretação? Não será melhor estabelecermos todos os tintins por tintins para não darmos chance ao azar? 5 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Pois é, esse é um dilema. As leis são formuladas e aprovadas para superação de situações de emblema e não devem deixar que persista qualquer possibilidade de dilema. O dilema é resolvido, na maioria das vezes, com interpretações permeadas de pontos de vista, opiniões. Precisamos ser assertivos, pois, do contrário, continuaremos na mesma, sujeitos a nossa capacidade de interpretar. Com certeza, não temos confiado tanto nesta sublime capacidade humana, a de interpretar. Mas se diz que o Direito é subjetivo e sempre exigirá a interpretação para sua aplicação. Então, como ficamos? Não façamos dessa questão mais um dilema, pois precisamos, sim, dar fim aos dilemas em que vivem adolescentes brasileiros que estão sujeitos à proteção-sanção de nossa legislação. Precisamos, de forma cabal, definitiva e assertiva, manejar o leme na direção dos interesses superiores dessa faixa da população. Nesse sentido, propomos as seguintes reflexões. A que interesse servimos ao organizarmos esse conjunto de regras que denominamos por SINASE? O que pretendemos de fato alcançar com o seu estabelecimento no conjunto das normativas do Estado brasileiro? De que forma esse sistema incorpora aquilo que naturalmente os integrantes do Estado brasileiro pensam, agindo em direção dessa população? Qual foi o nível de participação dos destinatários aos adolescentes e suas famílias na construção desse conjunto de regras? A que legitimidade responde esse conjunto de regras que propomos? Anseios da sociedade? Reivindicação dos técnicos? Clamor da população? Apontamentos jurídicos? Proposição dos adolescentes e de suas famílias? Como ponto de partida para responder às indagações aqui propostas, servimo-nos da contribuição de Emílio García Mendez, que trata as medidas jurídicas do Estatuto como um código de responsabilidade penal dos adolescentes, visto por ele como a primeira inovação substancial latino-americana a respeito do modelo tutelar de 1919. Ressalva que durante mais de 70 anos as reformas das leis de menores no continente latino constituíram apenas variação da mesma melodia. Não podemos correr o risco de inaugurar um novo período quando tentaremos inventar inovações em uma melodia que consideramos moderna, contemporânea, pois que sem dúvida o modelo proposto no Estatuto da criança 6 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 constitui uma ruptura profunda, tanto no modelo tutelar quanto no modelo penal indiferenciado, como defendido por aqueles que propõem a redução da idade penal. O modelo da responsabilidade penal dos adolescentes é o modelo da justiça de garantias. Trazer para a legislação brasileira um conjunto de regras que melhor especifiquem as obrigações de se promover a socioeducação não pode ser alternativa à dupla crise que enfrenta a legislação brasileira nesse sentido: a de implementação pela precária ou ausente garantia orçamentária; a de interpretação, fruto dos velhos hábitos, usos e costumes que revelam nossas mazelas de natureza político-social. Como sabiamente aponta Emílio, a necessidade de leis reguladoras de medidas socioeducativas, áreas obscuras da administração da justiça juvenil, não se justifica nem se legitima por interpretações técnicas do ECA, e sim, ao contrário e sobretudo, para enfrentar a sobrevivência de uma cultura de proteção subjetiva e discricional. O desafio, pois, é de estabelecer um conjunto de regras não para melhorar o entendimento, mas que, de fato, em vez de alternar, seja capaz de alterar o quadro atual e que de forma definitiva garanta um orçamento público compatível com os desafios que se tem, rompa com o excesso de possibilidade de interpretações por parte de seus operadores, leve em conta a complexidade das situações de vida vividas por milhares de jovens que hoje e amanhã estão e estarão na dependência desse sistema, respeite e fortaleça o papel dos Conselhos Municipais dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, o papel que eles têm na definição sobre como devem ser garantidas as estruturas físicas, técnicas e pedagógicas nas unidades que compõem esse sistema, seja legítimo e traga no seu bojo a visão, o pensamento, a opinião e a proposição dos jovens e das famílias que se servem dessa sistema, respeite e explore com competência a capacidade infanto-juvenil. A própria convenção internacional da qual o Brasil é signatário prevê o respeito a essa capacidade de participação. Também, de forma definitiva, que a sociedade possa reconhecer-se em cada um dos aspectos abordados nessa lei. Que ofereça respostas objetivas às pesquisas e levantamentos produzidos nos âmbitos regionais e nacionais, rompendo com as velhas práticas que tendem sempre à construção de 7 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 soluções dos chamados problemas com base apenas na capacidade empírica dos seus atores. A Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, desde o início deste ano, vem promovendo, em todo o País, com o apoio das universidades, uma pesquisa sobre o nível de adequação das unidades de internação ao que estabelece o SINASE. O programa Escola de Conselhos, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, à qual me encontro vinculado e onde exerço a função de coordenação, vem realizando esse levantamento em todo o Estado. Os resultados desse trabalho, somados àqueles produzidos pelas demais instituições, estarão, em breve, à disposição da sociedade e das suas instituições. Com certeza, esses resultados em muito podem colaborar para o aperfeiçoamento da proposta do SINASE, antes que se torne um conjunto de regras federais. Há que se levar em conta o potencial de resposta dessa pesquisa para melhor analisarmos o nível de adequação do projeto de lei em questão àquilo que hoje entendemos como necessário estar estabelecido. Nesse sentido, podemos dizer, com segurança, que a lei é justa e legítima quando dá conta da complexidade do seu objeto e quando encarna o pensamento e a opinião de todos os interessados. Do contrário, corremos o risco de ver prevalecer os velhos paliativos. Uma outra questão que gostaríamos de apontar como preocupante é o fato de o PL não deixar definida a responsabilidade da titularidade da coordenação geral e execução das medidas socioeducativas. Em cada Estado brasileiro existe um modelo de gestão diferenciado, alguns estabelecendo a titularidade ao campo da Justiça, outros à área da educação — e, em diversos, sob a égide da Assistência social —, alguns como um campo especial. É preciso que seja oferecida uma definição segura sobre a quem cabe a titularidade desse sistema. Também alertamos para a questão, que julgamos preocupante, do que está estabelecido no art. 43 do PL, que fixa que o financiamento é da seguridade social e dos demais órgãos responsáveis pela política. A permanecer essa vinculação tácita como principal fonte financiadora do sistema ao orçamento da seguridade social, estaremos reforçando as velhas práticas e visões que a vinculam como uma função de assistência social, porque poucos verão também como uma questão de saúde. 8 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Há que se constituir uma nova idéia de financiamento — pois que, de um lado, essa proposição é revestida de medida jurídica — e um conjunto de políticas, cujos setores responsáveis compreendam um conjunto articulado e integrado de ações governamentais, representados pelos setores da educação, cultura, esporte, lazer, trabalho, segurança, justiça, além da assistência social e saúde, que compõem a seguridade social. A participação desses outros setores deve estar objetivamente definida no Texto Legal, sob pena de termos a reprodução das velhas práticas, que saqueiam o orçamento da assistência social e da saúde, para o financiamento de despesas estranhas às suas finalidades. Deixo, por último, a nossa contribuição, anexando a esta manifestação os resultados de um diagnóstico produzido pela equipe do programa Escola de Conselhos numa fase preparatória ao processo de capacitação de todos os servidores que atuam nesse sistema no Mato Grosso do Sul. Nesse trabalho, fica evidente a necessidade da formação de um quadro de recursos humanos de alta especialidade, posto que se trata de uma medida de educação diferenciada, que requer, além da vocação específica para exercê-la, alta capacidade técnica, o que não significa simplesmente a exigência da formação universitária, mas, sim, de especialidade social e educacional nos moldes do que a medicina moderna organiza as suas intervenções científicas. Definitivamente, não estamos tratando de uma situação básica ou geral. Estamos, sim, diante de especificidades singulares que exigem uma atuação profissional de alto gabarito — incluem-se aí os atores do chamado sistema de justiça. Nossos meninos e meninas não podem estar à mercê de qualquer juízo. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Alceni Guerra) - Agradeço a contribuição ao Dr. Antônio José Ângelo Motti, a quem cumprimento pela explanação. Convido o Presidente desta Comissão, Deputado Givaldo Carimbão, a assumir a Presidência. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - V.Exa. merece nosso respeito e carinho. Estamos juntos. 9 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 O SR. PRESIDENTE (Deputado Alceni Guerra) - Com a autorização do Sr. Presidente, passo a palavra ao Sr. Antônio Roldino Neto, Conselheiro Tutelar, representante do Fórum Colegiado Nacional dos Conselhos Tutelares. V.Sa. dispõe de 20 minutos. O SR. ANTÔNIO ROLDINO PEREIRA NETO - Boa a tarde a todos. Cumprimento o Presidente da Mesa e a Deputada Rita Camata. Parabenizo a todos por estarem aqui. Quando se trata de questionamento com relação principalmente à medida socioeducativa, para muitos aí fora parece haver uma punição para o adolescente. Eu sempre dou palestra em faculdades e colégios e ouço falar que o Estatuto veio para dar muito direito à criança e ao adolescente. Eu sempre questiono que o Estatuto não veio para dar direito. A criança já nasce com direitos. O Estatuto vêm apenas garantir esse direito que a criança já tem quando nasce. É muito interessante uma audiência pública focada no questionamento de criança e adolescente, principalmente esta de hoje, que se refere à medida socioeducativa. No âmbito da política, há sempre uma discussão em torno da geração de votos para um determinado político, autor ou Relator de um PL. Mas quando se trata de criança, geralmente não se vê gerar voto para o político. Quando um político está envolvido com uma causa nobre como a da criança e do adolescente, ele visa não apenas a sua promoção política, mas a promoção social da criança e do adolescente. Acho muito interessante alguém se envolver nessa causa. São poucos os que se envolvem nela, que querem assumir a rédea e fazer esse questionamento, porque por muitas vezes são mal vistos. Mais uma vez parabenizo a Deputada Rita Camata por esse empenho, por ser a Relatora deste PL. Creio que o PL surtirá grande efeito e aperfeiçoará o Estatuto. O nosso colega fez uma observação que achei muito interessante. Às vezes, as pessoas que estão do outro lado dizem que querem alterar o Estatuto. Mas na verdade não se trata de uma alteração, mas de uma complementação, de acrescentar aquilo que falta. 10 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Eu li a matéria a manhã toda. O Paulo, de Porto Alegre, recebeu o convite e me autorizou a vir porque ele estava impossibilitado. E eu li a matéria e a achei muito interessante. É por aí que andaremos e chegaremos ao lugar que queremos: o melhor para nossos adolescentes. Esperaremos, no decorrer da audiência pública, as perguntas. O debate continua. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Alceni Guerra) - Agradeço ao Dr. Antônio Roldino Neto. Indago à Sra. Maria da Conceição Andrade Paganele Santos se deseja fazer alguma manifestação antes do início do trabalho da Comissão como um todo. A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Eu sou da AMAR — Associação de Mães e Amigos da Criança e do Adolescente em Risco, organização que nasceu da luta de mães que tiveram os filhos submetidos a medidas socioeducativas no Estado de São Paulo. Eu sou uma dessas mães. Também tive o meu filho internado e não concordei com o modelo. Há 12 anos lutamos para mudar esse modelo e para que o Estatuto de fato seja respeitado e implementado em âmbito nacional. O SINASE traz uma ansiedade nossa. Essa lei também vem nos dar garantia. A partir do momento que um projeto de lei se torna lei, há a garantia de que possa realmente ser implementada, que haja participação ativa das famílias como peça principal nas medidas socioeducativas para adolescentes que dela necessitam. Entendemos que a família é a base da sociedade, a base do mundo, não é uma instituição, mas algo de origem. Ninguém cria a instituição família. A família nasce, tem raízes, relações. Mesmo surgindo outros modelos, nós ainda acreditamos que a família é a prioridade absoluta que pode defender o direito de crianças e adolescentes. Estou aberta para contribuir no que puder. O SR. PRESIDENTE (Deputado Alceni Guerra) - Encerrada a exposição dos senhores participantes e convidados, passo a palavra à Sra. Relatora, Deputada Rita Camata. 11 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 A SRA. DEPUTADA RITA CAMATA - Mais uma vez, agradeço a todos os convidados e à Dona Maria. Qual é o sentido? Podemos dar a nossa contribuição no momento em que se está apreciando matéria que não é de hoje. Eu dizia há pouco ao Dr. Ângelo Motti que parece estarmos voltando a 20 e poucos anos atrás, quando discutíamos a necessidade de uma política, de um braço firme para que houvesse não só política preventiva, mas para que aqueles que não tiveram as políticas preventivas tivessem a oportunidade de se recuperar, alguns do vício, outros da falta de escola, e para que as famílias tivessem os aparelhos necessários para formar seus filhos. Esta tarde enriquece também. Dr. Antônio José Ângelo Motti, da Escola de Capacitação de Conselheiros Tutelares, e o Sr. Antônio Roldino Pereira Neto, companheiro que representa o Fórum Colegiado Nacional dos Conselhos Tutelares, deixo algumas preocupações. No decorrer dos 18 anos do ECA, nós já tivemos várias propostas de alteração do Conselho Tutelar. No primeiro momento, qual era o nosso sentimento? Que o Conselho Tutelar pudesse ser composto por pessoas comprometidas com a causa da criança e do adolescente na comunidade, tivesse o olhar no sentido de acionar o Estado para as políticas públicas preventivas e que aqueles jovens que já estivessem em situação de risco tivessem o atendimento e a acolhida necessários. Muitas vezes, o próprio Ministério Público entende que esses papéis são dúbios. No decorrer dos 18 anos, tivemos mudanças. No primeiro momento, esperava-se uma atuação voluntária dos conselheiros, que eles fossem eleitos e desempenhassem o papel de guardião do Estatuto da Criança e do Adolescente. Grande parte dos Conselhos são remunerados por determinação de uma lei municipal, o que nada diminui a importância do trabalho do Conselhos Tutelares em nosso País. No entanto, sentimos um problema muito sério de falta de estrutura para desempenhar o seu papel e a capacitação. Estou aqui hoje um pouco nesse sentido. Qual é a visão dos nossos 2 convidados, que têm papel importante? Um representa o Fórum de todos os Conselhos Tutelares. O professor coordena a Escola de Capacitação. O que está sendo feito? O que está sendo feito, no entendimento, é o suficiente? 12 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Na minha visão — e vou falar de forma bem pessoal e não na condição de Relatora —, não conseguimos alcançar o que idealizamos. Estou cansada, na condição de Deputada, de ouvir entidades ou, de forma individual, conselheiros pedindo carros, pois no Município sequer há transporte para o desempenho desse trabalho. Percebemos que o trabalho é ainda rudimentar, e muitos têm uma interpretação equivocada do próprio Estatuto. Todo o meu trabalho é muito corpo a corpo. Sou Deputada de um Estado pequeno. Então, temos condições de aferir isso pessoalmente e não só quando a imprensa registra esses fatos. Nesse último trágico episódio, o Conselho Tutelar falhou ao permitir que as crianças voltassem e fossem assassinadas em São Paulo. É lamentável? É. Mas acho que não cabe buscarmos culpados nisso e tachar o Conselho Tutelar de omisso. Sabemos que há uma deficiência. Gostaria de ouvir de quem legitimamente desempenha esse papel importante não só na capacitação, mas na ponta — e o Sr. Antônio aqui está representando o Fórum —, o que pode ser feito no sentido de aperfeiçoarmos a legislação. Gostaria de solicitar à D. Maria um testemunho sobre os maiores dramas vividos quando uma família vítima da ausência de políticas públicas tem um filho em conflito com a lei. Toda a preocupação que temos é o fortalecimento da família, para que ela não venha sofrer essas dificuldades. No momento do problema, a família é acolhida? E quanto às mães desses jovens, são acolhidas da forma como está proposto no SINASE? Qual é a visão das mães que vivem esse drama? E sabemos que não é fácil para as mães, como percebemos. Na semana que vem vamos discutir a questão dos dependentes químicos. O que o Estado está oferecendo hoje? Eu queria ouvir um pouco sobre essa experiência da D. Maria, que há muitos anos está com esse trabalho, compartilhando com tantas outras mães essa angústias. Qual é a maior deficiência que a senhora vê no sistema implementado, quando ainda buscamos essa recuperação, ressocialização, e muitas vezes não alcançamos nossos jovens em conflito com a lei? 13 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 O SR. PRESIDENTE (Deputado Alceni Guerra) - Dando continuidade à intervenção dos Deputados, passo a palavra à Deputada Nilmar Ruiz. A SRA. DEPUTADA NILMAR RUIZ - O nosso sentimento é esse que foi expresso pela Deputada Rita Camata, no sentido de buscarmos soluções e que, também, a legislação venha atender às necessidades. Quem conhece bem a situação dos Estados sabe que já estamos buscando soluções há bastante tempo, mas não encontramos, na prática, resultados que venham realmente fazer com que a grave situação das famílias dos adolescentes incursos em ato infracional seja minimizada. De tudo o que pude escutar nesta tarde, o que mais me chamou a atenção foi a questão levantada pelo Dr. Antônio, primeiro, no que se refere a estabelecer muito bem quais as competências de cada um dentro do processo, não só no quanto às políticas públicas, como também quanto ao sistema de atendimento como um todo. Na realidade, Deputada Rita Camata, sabemos que quem tem mais vontade ou um pouco mais de condição, independente da falta de aparelhamento, é quem corre atrás de forma muito empírica e muito pouco institucionalizada. Acho que precisamos institucionalizar mais e ter as competências de forma muito clara. Outro ponto importante é a questão do financiamento. Sabemos que não podemos pensar no Sistema de Proteção à Criança e ao Adolescente se não for de maneira integrada. Não podemos pensar em educação separada da saúde ou da qualificação profissional. Deve haver um sistema integrado. Se tivermos uma fonte de financiamento dirigida a apenas um setor, haverá uma dependência que fará com que o sistema não funcione. Então, temos que pensar no financiamento de forma a integrar as diferentes ações, para que tenhamos um resultado mais sistêmico, mais efetivo na questão das medidas socioeducativas. Então, o que muito chamou minha atenção foram as dificuldades que há — e V.Sa. colocou muito bem — no que se refere à qualificação. Notamos, também, que muito se diz de forma intuitiva, que as pessoas muitas vezes sequer conhecem o Estatuto e, ainda assim, o criticam. 14 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Portanto, há, sim, uma falta de qualificação para lidar com a questão dos adolescentes, os quais precisam de apoio, por conta do uso de drogas, de relacionamento familiar, independentemente das medidas socioeducativas. As pessoas não conhecem o sistema, até porque não há sistema montado, não há capacitação, enfim, tudo está muito em nível empírico. E sabemos que tudo acaba no Conselho Tutelar, que também não é aparelhado ou capacitado para tal. Como falei antes, acho que avançamos muito pouco. Não concordo quando se diz que em nada avançamos, mas avançamos muito pouco. A lei completará 20 anos. Devo dizer que, quando trabalhamos a questão do Estatuto da Criança e do Adolescente, houve repercussão mundial, no sentido de que a lei era moderna e até além do tempo em que estávamos vivendo. Então, acredito que avançamos pouco em relação ao esforço empreendido na época, quando tudo indicava que poderíamos ter um resultado efetivo na situação em que se encontravam — e se encontram, nesse caso em especial — os nossos jovens. Portanto, a tarefa da nossa Comissão é muito importante. Quero agradecer aos convidados a contribuição dada nesta tarde. Hoje, o que me mais me deixa preocupada é a questão do financiamento, porque sabemos que se a responsabilidade recair sobre a Secretaria, para a ação social ou para a saúde, enfim, para qualquer desses setores, restará impedida a ação articulada necessária para que possamos resolver o problema. Acompanhando o problema da qualificação, há o problema da competência. Sabemos que o Estatuto já traz essa previsão, mas na prática não acontece o que está escrito na lei. A nossa preocupação é que a previsão legal seja factível, para que soframos menos essa angústia e, principalmente, para que as pessoas que lá estão lidando com os problemas lá na ponta, com as famílias, possam ter um atendimento e um resultado melhor. Ao agradecer aos nossos convidados, quero dizer que, na pessoa do nosso Presidente em exercício, a cada tarde que nos reunimos colocamos um ingrediente a mais para chegar a um resultado que venha promover uma mudança efetiva no atendimento e nas medidas socioeducativas em nosso País. Muito obrigada. 15 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 O SR. PRESIDENTE (Deputado Alceni Guerra) - Obrigado, Deputada Nilmar Ruiz. Concedo a palavra o Deputado Givaldo Carimbão, Presidente desta Comissão. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Obrigado, Presidente. Gostaria, com a devida vênia, se fosse possível, de solicitar que conversássemos um pouco, em vez de fazermos perguntas. A senhora é representante de uma associação de mães de filhos que passaram pela FEBEM de São Paulo. A senhora representa apenas o Estado de São Paulo ou também exerce a representação nacional? Com a devida vênia, pois autorizado pelo Presidente, vamos conversar um pouco. A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Hoje já temos representação nacional, porque a AMAR já tem núcleos, organizações formadas, em 8 Estados. Sete já têm formação jurídica e 1 tem formação de grupo. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - A senhora tem visitado os Estados, tem conhecido pessoalmente? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Tenho. Tenho ido a todas as AMARs criadas. Vou aos Estados e passo a metodologia que criamos, desenvolvida por nós em São Paulo. Dou orientação e apoio para que elas possam se fortalecer para esse protagonismo. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - A senhora foi Presidente antes da mudança da FEBEM para a Casa Lar, ou apenas quando da criação da Casa Lar? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Fui eu quem fundou essa associação. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Quantos anos tem? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - A nossa associação tem dez anos de criação. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Então, ainda era FEBEM, na época, pois a Casa Lar deve ter uns 6 ou 8 anos. Foi na época de transição. A senhora, portanto, viveu lá dentro e conheceu o sistema? 16 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Sim. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Retrate-me um pouco, se possível, para que eu possa fazer um valor de juízo e tentar contribuir, porque aqui estamos tratando de medida socioeducativa. Claro que, para chegar à medida socieducativa, antes há as políticas sociais, mas estamos tratando de medidas socieducativas, que estão na FEBEM, na Casa Lar, no Lar Casa, no que quer que seja, enfim, nas unidades, porque em Alagoas é Núcleo Estadual de Atendimento Socioeducativo — NEAS, em outros lugares é Núcleo de Assistência Social — NUAS, noutros é Casa Lar, em outro é Casa do Inferno, cada um adota uma casa. Era FEBEM, virou FEMAL. Dê-me, então, se possível, um retrato da educação, da profissionalização, do esporte; enfim, dê-me um retrato de como o seu filho era tratado lá. É o que peço à senhora, que viveu esse problema. A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - O meu filho foi para a FEBEM por dependência química. Depois de procurar, em todos os setores do nosso País, não só no Município de São Paulo e no Estado, mas também fora, um atendimento, uma orientação, um apoio, um tratamento para sua dependência química e, não encontrando e para pagar os traficantes, a fim de não morrer devido às dívidas no tráfico, não suportando isso, ele cometeu um assalto e foi preso. E eu acreditei que, ao chegar à Fundação do Bem-Estar do Menor, sob a soberania do Estado, com o segundo maior orçamento de São Paulo, meu filho teria atendimento de técnicos especializados, o que eu, na condição de mãe simples, não consegui dar até então, mas tinha a clareza de que o meu papel de mãe eu cumpri com muita tranqüilidade, o que falhou foi outro útero que não o meu, foi o bem social. Na primeira visita que fiz à unidade da FEBEM, já fiquei muito assustada: submeteram-me a vexatória revista, tive de tirar toda a roupa, fazer canguru, tirar o sapato, entrar com chinelo de dedo. Aí, eu quis saber o porquê de tudo aquilo, que crime eu estava cometendo para ser despida das minhas roupas e do meu calçado. A resposta foi a de que eu poderia entrar com drogas — e vejam que eu era vítima da droga. Então, de repente, eu fui subjugada, junto com aqueles adolescentes e com todas as mães, porque eu poderia carregar droga no meu 17 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 sapato, enfiar droga no meu corpo ou sei lá onde. Por isso tive de me abaixar e levantar tantas vezes, de frente e de costas, e aquilo eu não conseguia aceitar, porque, se era uma fundação de bem-estar, por que estava me causando tanto mal? Eu comecei a me sentir mal nesse primeiro momento. E, quando entrei, encontrei um campo de concentração de jovens, todos iguais, parecia que todos tinham a mesma identidade. Até hoje, eu acho que todos eram o Cássio. Foi isto o que eu consegui verificar naquele momento: todos tinham a mesma fisionomia, a mesma roupa, a mesma forma de falar, de olhar, e eu saí muito incomodada. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - E a educação, como era? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - A educação era todo mundo junto numa sala — 1ª, 2ª, 3ª e 4ª séries —, e um professor para dar aula para as diversas séries. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Ainda hoje é assim? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Ainda é muito deficiente, ainda juntam duas, três séries numa sala e, dependendo dos dias, não há aula. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Por que não há aula? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Porque se houver um pouco de tensão nas unidades, ou se houve um espancamento e não se queira que os professores... Nós temos identificado na Pedagogia um pouco mais de sensibilidade, e eu fico muito triste quando falo sobre esse assunto, porque nós esperávamos que essa sensibilidade viesse mais da Psicologia e do Serviço Social, mas temos verificado, em São Paulo e até em outros Estados, que os pedagogos, que os professores se sensibilizam muito mais diante da violação aos adolescentes do que os técnicos que estão lá diretamente e dos quais depende a recuperação desses jovens. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - A profissionalização deles? Profissionalização, educação física etc.? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Olha, não tinha. Na época, não tinha, e hoje ainda existe grande deficiência, algumas 18 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 unidades têm alguns cursos, outras não têm nada, fica muito à disposição das famílias a elaboração de trabalhos manuais, artesanais, com folhas de papel... O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Das famílias, como? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - As famílias levam folhas de sulfite, papéis, para que os meninos... O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Não há metodologia própria, as mães chegam lá, e eles fazem artesanato com palito de picolé, cestas etc.? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Isso. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Não há metodologia própria? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Não, não há ainda. Esse projeto existe no papel, a fundação em São Paulo é muito bem escrita, é um projeto muito bem-feito, mas, na prática, ainda existe muita dificuldade. E já avançamos muito nesses anos. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Há escola de computação lá para eles? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS Algumas unidades têm. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Têm computador, mas há aula mesmo, a senhora sabe, por acaso...? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Não, é a iniciação. É uma iniciação, aula de digitação, de... É iniciação mesmo, tal qual os telecentros. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Como a senhora disse que andou por 8, 10 Estados, pergunto se esse retrato se reproduz por esses outros Estados e se a senhora viu algum que sirva de exemplo. A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS Infelizmente, nos Estados que visitei, as unidades por onde passei são todas iguais. Era tão igual nos outros Estados quanto era em São Paulo, há 10 anos, quando entrei pela primeira vez nas unidades da FEBEM, hoje Fundação CASA, que de casa não tem nada. Mas já tivemos alguns avanços em razão de grande cobrança, de uma grande movimentação da sociedade organizada e das próprias famílias. 19 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Foi bom esse debate, dá para eu fazer valor de juízo. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Alceni Guerra) - Com a palavra o Deputado Eduardo Valverde. O SR. DEPUTADO EDUARDO VALVERDE - Sr. Presidente, quero fazer uma pergunta a V.Exa. e ao Relator, uma vez que o Sr. Cláudio Augusto Vieira da Silva, Coordenador da Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente — ANCED, faltou em razão de um problema de passagem, e parece que ele não poderá estar presente. Quero saber se, na agenda da Comissão, haveria oportunidade de ouvi-lo, afinal, é um ator importante nesse contexto e poderia ser encaixado numa outra audiência. Talvez esta seja uma das reuniões de que participei em que as opiniões foram expostas de forma mais lúcida. E isso ocorre porque os depoentes não são essencialmente técnicos, mas pessoas que, no dia-a-dia, sofrem as agruras do sistema — no caso, uma mãe e o pessoal do Conselho Tutelar, pessoas que estão no contato direto, diferentemente do promotor e do juiz, que ficam afastados do contexto e a quem os problemas apenas são relatados; eles, na verdade, estão vivendo o problema. Creio que a aplicação de medidas socieducativas se torna necessária quando falham as medidas sociais, ou seja, o acesso à educação, à saúde, à relação familiar, ao aparato do Estado para promover o bem comum. Tenho assistido à posse de membros em diversos conselhos, inclusive numa dessas posses disse aos novos conselheiros que a legislação foi sábia ao permitir... Talvez esse seja um dos únicos conselhos em que não existe a participação do Estado. É um conselho totalmente formado pela sociedade civil, até para que tenha mais autonomia e possa exercitá-la melhor, e ele não teria poder de pressão se fosse composto por membros do Governo, mas são todos eles eleitos pela sociedade. No estatuto, o papel do Conselho Tutelar passa a ser relevante em face dessas prerrogativas que o instituto lhe deu. A propósito, depois, quero indagar ao Sr. Antônio Roldino Neto, Coordenador e também Conselheiro Tutelar, acerca da 20 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 limitação dada pelo estatuto. Quer dizer, o Conselho Tutelar não tem capacidade postulatória, ele tem de se reportar ao Ministério Público e acioná-lo para que, por meio da Justiça, sejam tomadas algumas iniciativas de caráter legal, ou mandado de segurança ou ação civil pública, quando falha a relação direta entre o Conselho com o Prefeito, com a autoridade pública. Ou seja, quando há omissão do Estado, e essa omissão não é superada pelo Conselho por meio da relação direta, ele tem de se apoiar no Ministério Público para manusear algum instrumento jurídico e, assim, provocar a correção do problema. Como seria se o Conselho tivesse capacidade postulatória, assim como têm os PROCONs, por exemplo, na defesa do consumidor, se além do Ministério Público para fazer esse acionamento, pudesse fazê-lo de maneira direta ao provocar o Poder Judiciário. Pergunto, portanto, se isso ajudaria ou não a melhorar o trabalho do Conselho Tutelar. A outra indagação é no tocante às medidas socioeducativas, conforme se referiu a Deputada que me antecedeu. A internação, seja na FEBEM, seja na Casa Lar, seja na Casa Abrigo, que deveria ser uma exceção, passou a ser regra. O ideal seria todas as medidas socioeducativas fossem cumpridas em liberdade, com acompanhamento por parte dos agentes públicos. Então, creio que o cumprimento das medidas socieducativas em regime aberto exigirá um aparato talvez não tão concentrado, como é no cumprimento das medidas de caráter restrito, em que se deve concentrar em um canto só todos os agentes do Estado. Ao dar efetividade a esse sistema e se fazer o atendimento de maneira prioritária, em regime semi-aberto ou aberto, será exigido maior aparato do Estado para fazer o acompanhamento. E isso envolve também a relação entre a família e o agente do Estado, a necessária rotina a ser adotada e a capacitação desse agente do Estado para fazer o acompanhamento. Pergunto à Dona Maria e ao Dr. Antônio sobre a capacitação desse agente. Afinal, uma coisa é concentrar, colocar o adolescente dentro de um local fechado e fazer o acompanhamento; outra coisa é o correto e que deveria ser regra, ou seja, é fazer esse acompanhamento em regime aberto. Que precondições os servidores públicos deveriam ter para que isso pudesse ser feito? 21 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 E outra dúvida é no tocante de quem financia. Sabemos que a lei é um ato abstrato, ela coloca uma situação ideal. Mas entre a lei, que tem o caráter de propor o ideal, e a realidade fática, há o como fazer, como dar efetividade. Se existe problema para financiar os sistemas fechados, que são mais concentrados e exigem menor quantidade de agentes, porque os jovens são colocados todos juntos, num canto só, desumanamente. Como, então, financiar esse sistema, que é mais caro, é mais melindroso, mais cuidadoso e possui as mais diversas nuanças? Situações de todos os tipos serão tratadas individualmente. Como achar as condições materiais para fazê-lo e conciliar a lei, que se reporta ao ideal, com aquilo que pode ser praticado? O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Com a palavra o Deputado Alceni Guerra. O SR. DEPUTADO ALCENI GUERRA - Sr. Presidente, faço minhas as palavras da Deputada Nilmar Ruiz, que discorreu com muita propriedade sobre a necessidade de proteção integral à criança, e não apenas educação e prática de esportes. Também considero muito feliz a observação de Dona Maria, quando flagrou que, no sistema fechado, quem mais tem sensibilidade para captar conflitos, ocorrências, mesmo aquelas tradicionais e costumeiramente escondidas, ocorridas na infância e na adolescência, é a professora. Eu tenho experiência nesse sentido e me orgulho da belíssima descoberta que fiz. Criança protegida integralmente e o dia inteiro à disposição do sistema de educação — e não só para educação, mas para tudo que ela precisa para ser formada para a vida — cria algo que apelidei de clube social e hoje chamo de rede de proteção social. Se a criança estiver incluída numa sala de aula comum, ela adquirirá auto-estima e se sentirá igual aos outros, trata-se de um processo de inclusão social. Quando uma criança apenada e de conceito ruim se vê com junto outras crianças, numa sala de aula normal, isso aumenta sua auto-estima. E ela passa a fazer, com a professora, com a diretora e, principalmente, com outros alunos, uma rede de confidências e acaba exteriorizando o problema por que passa em casa: a violência. Hoje eu chamo — está assim no meu livro que está no prelo e daqui a uns dias será publicado — de rede de proteção social. É isto o que a educação integral 22 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 faz: cria enorme rede de proteção social à criança. Participam daí os professores, a diretora, os colegas e, finalmente, as famílias das outras crianças. A criança revela a um colega que é espancada em casa ou em algum outro lugar, ou que tem algum problema — ela não conta para a professora, mas o colega conta, ou conta em casa, e as outras famílias passam a fazer parte dessa rede de proteção social. Então, a rede de proteção integral, Deputada Nilmar Ruiz, só se faz a partir das verbas da educação, e nisso o Governo Lula é muito generoso. Para cada criança que entra nessa rede de proteção social, com a educação integral, o FUNDEB aumenta no ano seguinte. E todos os Ministérios do Governo Lula têm verbas específicas para apoiar a rede de proteção social e a rede integral. Quero, então, cumprimentar a Dona Maria, que flagrou a professora como ente maior da sensibilidade na rede de proteção à criança, e perguntar à Relatora, Deputada Rita Camata, se eventualmente podemos apresentar emendas ao seu parecer relativas à objetividade do financiamento dos Governos Federal e Estadual e se tem consciência de que se pode criar, em regime aberto, uma rede de proteção social, que efetivamente protegerá efetivamente a criança. Eram as minhas considerações, Sr. Presidente. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Com a palavra a Deputada Nilmar Ruiz. A SRA. DEPUTADA NILMAR RUIZ - Sr. Presidente, concordo com o Deputado Alceni Guerra disse no que se refere à rede de proteção, só que ela é anterior ao sistema de medidas socieducativas. A meu ver, deve haver um sistema integrado de ações. A efetivação de medidas socioeducativas em sistema aberto é muito mais barata do que o sistema de internação. O problema é não termos o estabelecimento de competências de cada setor para que isso se efetive. Se passarmos para os Núcleos de Assistência Social a competência de, junto com a escola, com as entidades profissionalizantes, com a saúde e com a Justiça, cada um financiando a sua parte, realizar um sistema integrado de ações em prol da criança, o juiz poderá determinar que os serviços prestados à comunidade ou a liberdade assistida, num Município onde não haja sistema de legislação social, seja vinculado à escola. Por exemplo, o juiz poderá determinar: “Pedrinho, Joãozinho e Maria estão cumprindo medida socieducativa de liberdade assistida ou de prestação 23 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 de serviços, e os senhores ficarão responsáveis por integrar as diferentes ações para recuperar o filho da Dona Maria antes de ele chegar no centro de internação”. Se, nos Estados, houver sistemas de semiliberdade em funcionamento em que o jovem possa manter contato com a comunidade, ficar perto da família e entender que aquele período é apenas para ele refletir e receber as necessárias ações para ter uma vida de sucesso, não vamos encher as FEBEMs, ou seja lá o nome que tiver a instituição — porque muda o nome, mas não muda a ação, a ação é a mesma. Então, faremos com que se reduza o número de jovens enviados para lá e daremos um atendimento que realmente dê condições de sucesso para esses jovens. Em 1991, salvo engano, quando eu era vinculada à Fundação Educacional do Distrito Federal — estou há 16 anos no Tocantins, Estado que aqui represento, mas fui funcionária da Fundação Educacional do Distrito Federal —, tive oportunidade de representar a Secretaria da Educação justamente no Conselho de Direitos da Criança e do Adolescente e também no Grupo de Medidas Socioeducativas. O grande problema do Brasil é a falta de continuidade das ações. Não temos uma política de Governo, temos políticas momentâneas. Não temos uma política de Estado, mas uma política de Governo, que muda quando sai o gestor. Cada um que chega muda tudo. No papel era lindo. Eu representava a Secretaria de Educação, outro representava a Secretaria de Segurança Pública; outro, a de Saúde; outro, a do Trabalho. O que acontecia? Cada um traçava — e fizemos isso no papel — as suas ações no que diz respeito às medidas socioeducativas. Era assim: para semiliberdade, a educação vai fazer isso; para a liberdade assistida, aquilo; para a internação, aquilo outro. E aproveito para dizer que, se houver número muito pequeno, é preciso ser classe multisseriada mesmo. Não podemos deixar que o vínculo da criança com a escola se desfaça. Por exemplo, se um menino rouba uma bicicleta e é encaminhado para uma delegacia qualquer, na maioria das vezes tem de esperar 40 dias para o julgamento. E o que aconteceu nesses 40 dias? Ele roubou uma bicicleta, mas estava na escola. Se vai para um centro de internação nesse período, já perde o vínculo com a escola, porque, se ficar 40 ou mais dias esperando, não tem mais vínculo com a escola. E esse menino vai aprender ali o que ele não sabia fazer. Assim, quando sair, estará 24 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 mais propenso a voltar para lá rapidamente, porque perdeu os vínculos que tinha com a família, com a escola, com a sociedade, e foi para um lugar aprender o que não serve. Tem solução? Tem. Sinceramente, lamentei quando vi que um trabalho que poderia ter dado certo no Distrito Federal virou papel bonito em gaveta. Hoje, na condição de Deputada, falo muito em fazer com que a lei aconteça. Sei que não é nosso papel; afinal, estamos aqui legislando. As leis, porém, devem mudar a realidade do nosso povo. Papel bonito, gaveta aceita que é uma maravilha. E lata do lixo também — e aceita com uma facilidade muito grande. Vi um sistema que poderia ter dado certo. Nesse sistema, as Secretarias se reúnem, e cada uma diz o que pode fazer para esses jovens. Se houvesse um sistema coordenado funcionando, hoje não teríamos essa realidade no Brasil. Por isso, nobre Deputada Rita Camata, naquele dia eu disse que se avançou pouco. Isso eu vi em 1991; hoje, se eu entrar no Centro de Atendimento Juvenil Especializado —CAJE, tenho certeza de a constatação será a de que a realidade até retrocedeu. Naquela época, pelo menos, a educação se fazia presente, assim como o trabalho e a saúde, tentando fazer uma mudança. Naquela época — sei porque eu estava respondendo pela educação —, quando um menino chegava no CAJE, a primeira coisa que fazíamos era perguntar que escola ele freqüentava. Entrávamos em contato com a escola, levávamos as provas para o CAJE, fazíamos um trabalho individualizado com o menino para que, quando ele saísse dali, continuasse na turma dele. Se ele perde o contato com a escola, com a família e com a sociedade, enquanto está aguardando o julgamento, temos uma escola de quê? De crianças em situação de risco. Fazer isso não é difícil nem é caro. O que falta é vontade política e continuidade das ações que se iniciam e param, e se avança muito pouco. Era a contribuição que eu queria dar, Sr. Presidente. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Com a palavra a Deputada Rita Camata. A SRA. DEPUTADA RITA CAMATA - Sr. Presidente, quero me referir ao que a companheira acabou de dizer de forma muito prática. 25 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Tenho a mesma compreensão. Na próxima semana, inclusive, está prevista uma audiência pública para discutirmos a questão da dependência química, que é um grande desafio para todos nós. Gostaria que, depois, nós, membros da Comissão, fizéssemos uma reunião nossa, porque já temos um acúmulo bom de conteúdo para trabalhar. A propósito, lembro a V.Exas. que não cabe emenda ao parecer. Já oficiei aos meus pares que quero muito ter a contribuição, além das dos convidados, dos Deputados. Na hora em que eu apresentar o relatório, não caberá a apresentação de emendas. Assim, as contribuições têm de chegar antes. E já estou tentando colhê-las durante as falas dos Parlamentares. É importante receber e acolher sugestões. Quanto ao que foi dito aqui, a Comissão tem o importante papel de definir competência. Para mim, até hoje não conseguimos fazê-lo. A internação, por exemplo, deveria ser a exceção e destinada ao adolescente que põe em risco a sociedade, mas ela tem sido regra. Hoje, a regra é internar. Acho que é há imensa angústia em torno disso. E a maioria dos crimes praticados é contra o patrimônio, 99% dos crimes são contra o patrimônio público. Por que não há medidas para serem cumpridas em meio aberto? Então, é hora de definirmos aqui que será punido o Município que não implementar isso, e os Conselhos Tutelares têm o importante papel de acionar o Ministério Público, para que essas medidas sejam um instrumento de proteção aos adolescentes em risco. A nossa maior contribuição será definir tudo isso de forma cabal. Quando fui Relatora do Estatuto, há 18 anos, entendia que estava definida a competência de cada ente da Federação, mas, na prática, isso não ocorreu. Não vamos definir aqui que Secretaria Municipal vai destinar orçamento para o Conselho Tutelar. Fazê-lo não é competência nossa. São as diretrizes gerais da política socioeducativa. O Presidente tem dito — e temos de prever que, de fato, isso aconteça — que o Município que não implementar as políticas estabelecidas vai ter de ser responsabilizado. Hoje, aliás, já poderia haver essa responsabilização pelo Ministério Público. Essa é a realidade. Infelizmente, estamos recorrendo a mais um instrumento legal para fazer valer essa situação. 26 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Então, o Conselho Tutelar tem papel extremamente importante a exercer. Precisamos agora ver os gargalos que ele enfrenta para exercer, de forma plena, a política de Estado, e os conselheiros podem exercê-la, porque são eleitos, em nome da população para fazê-lo, entra Governo, sai Governo. Mas, Sr. Presidente, esta audiência pública é muito importante, e eu não queria perder esse foco — a experiência vivida e os gargalos encontrados pelos conselheiros e como fazer para superá-los. Quero ainda convidar os membros da Comissão — o Presidente também deverá fazê-lo — para participar, amanhã, da entrega do Prêmio Sócio-Educando. Fiz parte da comissão julgadora desse trabalho, que é muito legal. Vi que há coisas acontecendo no País, sim, e é necessário dar visibilidade ao que há de bom. Foram mais de 200 os programas inscritos. Há aqueles de cerceamento de liberdade, outros de liberdade assistida e outros de municipalização de políticas. Não posso dizer ainda o resultado, só amanhã. Mas asseguro que há coisas acontecendo em rede, e a Deputada Nilmar trouxe essa preocupação. Se não tivermos uma rede, a quem uma mãe vai recorrer quando o filho tem dependência química? Gostaria que a Dona Maria dissesse qual é hoje a realidade de seu filho. A dependência química é um grande, um imenso desafio que temos de enfrentar. Nem pagando, muitas vezes, há como recorrer a uma clínica de dependentes químicos. Temos de ter uma política pública para essa enorme ameaça que está às nossas portas. O nosso Presidente, Deputado Givaldo Carimbão, também é membro da Comissão de Segurança. E a Secretaria de Direitos Humanos pediu para que a Comissão de Segurança apresente uma emenda ao Orçamento — e, tratando-se de orçamento pode, sim, haver apresentação de emendas — destinada à formação de operadores do sistema. Eu já até tenho uma sugestão para essa emenda de Comissão: 10 milhões, para capacitar os operadores do sistema de implementação das medidas socioeducativas. É urgente tomar atitudes como esta. Precisamos de dinheiro para capacitar pessoal, qualificá-lo a exercer de forma adequada as importantes funções que têm sob a sua responsabilidade. 27 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Peço à Deputada Nilmar que fique aqui mais um pouquinho, porque sei do seu compromisso e da sua luta em prol desse setor — a Deputada Nilmar é professora e milita na área social. Vou esclarecer melhor a tese que defendo. Vivi em instituições, então procurei conhecê-las. A Dona Maria conheceu 10 instituições, eu visitei 6, inclusive no seu Estado. Estou tentando contribuir com a Relatora. O SR. DEPUTADO EDUARDO VALVERDE - Sr. Presidente, só uma dúvida: com relação ao pit bull, qual foi o Estado...? O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - (Risos.) O “pitbullzeiro” é o Tocantins. Veja só, Deputada Rita: ontem fui ao INEP para uma audiência pessoal com o Sr. Reynaldo Fernandes. O Ministério da Educação faz hoje, por intermédio do INEP, a avaliação das universidades e das escolas brasileiras — Provinha, Provão etc. etc. Pois bem. Defendo a seguinte tese: a lei existe e é boa. Falta um ajuste aqui, um ajuste acolá etc., falta estabelecer uma pena para o descumprimento? Sim. Afinal, sem pena não tem jeito. Ora, nós, Deputados, criamos a Lei de Responsabilidade Fiscal. Com isso, os Governos que gastam mais de 45% com pessoal ficam inelegíveis, e têm de gastar no mínimo 25% com educação e 15% com saúde para não ficarem inelegíveis. As escolas de ensino médio e fundamental e as universidades brasileiras estão sendo avaliadas pelo MEC. Os alunos também. O aluno que recebe uma bolsa de estudos vai ter de ser avaliado. Hoje, há quase 1 milhão de pessoas recebendo bolsa de estudos por conta da avaliação que está sendo feita. O Deputado Alceni Guerra lembrou muito bem que nesse aspecto o Presidente Lula é generoso. Aliás, esse processo começou com o Ministro Paulo Renato, no Governo Fernando Henrique, e tem tido continuidade no Governo Lula. Justiça seja feita. Ora, minha tese é a seguinte: a Secretaria de Direitos Humanos terá a obrigação, como o INEP, de avaliar as unidades de internação do Brasil. Cria-se a avaliação nacional, feita nos 4 anos de cada Governo. Ou seja, ao Governo do Estado é dada a competência sobre as medidas socioeducativas de internação. Ponto. As medidas outras do art. 112, como liberdade assistida, reparo a danos etc., estas competem ao município. Então, ao município cabe a prestação de serviços à 28 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 comunidade, a liberdade assistida, a semiliberdade, e ao Estado, a internação. Vamos separar as responsabilidades. E a avaliação vai ser nacional. Estamos em 2008, em 2009 o Governo do Estado será o mesmo. Nos 4 próximos anos de Governo começará a avaliação. No mínimo, será preciso ter nota 4. Daí para baixo, já é miséria absoluta. Os Governos têm 4 anos para se adaptar, e, se a nota for menor que 4, também cairão na lei de inelegibilidade, do mesmo mordo como ocorre quando ultrapassam o limite de gasto com o funcionalismo, quando não investem 25% na educação e 15% na saúde. As medidas socioeducativas seriam avaliadas durante os 4 anos de um Governo. Proponho que, no início seja zerado; então, cada Governo será avaliado e terá de obter uma nota de no mínimo “x”. Ficaria inelegível o Governo que não atingisse, por exemplo, no mínimo nota 5. Dessa forma, os Governos darão rigorosa atenção a esse setor. Se assim não for, não terá jeito. Está lá a pessoa simplesmente ... (Intervenções simultâneas ininteligíveis.) O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Deputada Rita Camata, V.Exa. não pode imaginar a estrutura do INEP. O INEP é um instituto brasileiro que está na estrutura do Ministério da Educação para fazer certas pesquisas. Por exemplo: há educação regular? Sim. Quais são as melhores notas do aluno? Nesse caso, vale 1 ponto. Há profissionalização? Sim. O curso de profissionalização tem grade curricular e certificado? Se tem, vale mais 1 ponto. Sobre as condições físicas, o instituto diz que tem de ser assim, assim e assado. Quem é está lá? Já vale mais um ponto. A pontuação é feita naturalmente. O INEP faz isso de uma forma fantástica. Verifica se a escola tem ensino regular, como está a alimentação servida, como é a relação escola/família? Cada item tem uma pontuação. Estou falando aqui grosso modo, claro. Então, o proponho é que seja estabelecida uma avaliação. Quero ainda dizer à Deputada Rita Camata que conversei com o pessoal da Secretaria dos Direitos Humanos. Parece-me que eles comungam do nosso sentimento de que é preciso dar responsabilidade. E se não for assim, repito, não tem jeito, e vamos ficar brincando aqui. 29 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Quando o INEP faz a avaliação, os financiamentos são vinculados à qualidade. E o Governo deve ser responsabilizado, responsabilizado mesmo, diretamente, como disse a Deputada Rita Camata. Com a palavra o Deputado Alceni Guerra. O SR. DEPUTADO ALCENI GUERRA - Fico feliz com as observações de V.Exa., Sr. Presidente. Apaixonado pela educação como sou, ainda hoje de manhã, num programa de televisão que vai ao ar amanhã à noite, disse exatamente que, na História do Brasil, vislumbro duas ações fundamentais para a educação no nosso País. A primeira foi do ex-Ministro Paulo Renato: a criação do FUNDEF, que depois foi substituído pelo FUNDEB e revolucionou a educação nos Municípios. A segunda é uma iniciativa do atual Ministro da Educação, Fernando Haddad: o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica — IDEB. Qualquer escola hoje no Brasil é avaliada. Todos os Municípios são avaliados, todos os Estados são avaliados, com 3 indicadores: o aproveitamento, ou seja, a nota do rendimento escolar; a evasão, e a aprovação ou reprovação. Todas as escolas do Brasil são avaliadas, e isso vai fazer uma revolução na educação brasileira, porque o professor se sente observado, a família se sente observada, e a criança sabe que vai ser avaliada. A avaliação significará, com o passar do tempo, a eqüidade da educação no Brasil. E acho que a nobre Relatora, que declarou ser o seu parecer “inimendável” (risos), tem de ficar atenta a estas sugestões que considero boas: a avaliação das medidas socioeducativas no Brasil, a premiação e a punição. E não adianta regulamentar, informar e fiscalizar, se não houver a punição. A SRA. DEPUTADA RITA CAMATA - Apenas para esclarecer: sou uma adepta do Regimento Interno. Eu respeito as leis. Eu não estou dizendo que o parecer não pode ser modificado. O Regimento Interno não permite emendas ao parecer. As emendas só podem apresentadas no plenário da Câmara dos Deputados. Não sou eu, Deputado, que o determinou. Estou alertando a Comissão para esse fato. Preciso de contribuições e quero recebê-las. 30 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Deputada Rita Camata, antes de passar a palavra aos nossos convidados, quero dizer que antes de encerrarmos a fase de audiência públicas... O SR. DEPUTADO ALCENI GUERRA - Acho interessante essa discussão com a Deputada Rita Camata. Por isso, pergunto a S.Exa., em que Parlamento do mundo um Deputado que discorde do parecer de um Relator ou de uma Relatora não tem o direito de emendar? Serve para que o Deputado, então? O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - S.Exa. disse o seguinte: no plenário pode, sim, haver emendas. Aqui na Comissão.... O SR. DEPUTADO ALCENI GUERRA - Aqui também não cabe voto em separado nem substitutivo? O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Cabe, cabe. O SR. DEPUTADO ALCENI GUERRA - Ah, bom! Então é uma emenda lato senso. O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Como conhecemos a Deputada Rita Camata, não há dúvida de que antes de fecharmos o relatório, sentaremos com S.Exa. Cada um aqui naturalmente viu, ouviu e viveu todo o processo, por isso vamos construir juntos, sem sombra de dúvida. É claro que, se não houver jeito, não poderá ser assim, mas parece-me que estamos nos encaminhando para um grande entendimento. Então, vamos ver se o parecer da Relatora poderá sair daqui sem emendas e sem votos em separado, mas construído previamente. A Deputada quer dizer que não cabe emenda agora, mas cabe voto em separado. A SRA. DEPUTADA RITA CAMATA - Sr. Presidente, acho que o Deputado Alceni está me provocando. E não quero ser desrespeitosa com os convidados; ao contrário, quero ouvi-los, mas não cabe... O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - A emenda? A SRA. DEPUTADA RITA CAMATA - Não, não cabe imputar à minha vida parlamentar autoritarismo. Sempre fui uma pessoa extremamente aberta, democrática, por isso tenho lembrado a importância de discutirmos com os membros da Comissão e colhermos as sugestões. Agora, porém, estamos em uma audiência pública para ouvir as contribuições que os convidados trouxeram para enriquecer o debate. Vamos fazer essa discussão depois, numa reunião só nossa. 31 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 O SR. DEPUTADO GIVALDO CARIMBÃO - Claro. Concederei primeiramente a palavra ao Sr. Antônio Neto. O SR. ANTÔNIO ROLDINO PEREIRA NETO - Mais uma vez, Sr. Presidente, quero falar da minha satisfação em participar deste debate. É realmente discutindo que se constrói. Ninguém chega a um denominador comum, sem que primeiro haja discussão para nos encaminhar para a direção certa. Foram feitas muitas perguntas, mas os assuntos foram sendo mudados e, por isso, até nos esquecemos das perguntas, mas anotei algumas referentes à eleição dos conselheiros. Considero a eleição dos conselheiros uma das mais legitimas da nossa história, porque as pessoas não são obrigadas a votar. Só vota quem quer. Ela não é igual à eleição partidária, em que a pessoa ou vota, ou justifica a falta do voto, ou paga uma multa. Então essa é uma eleição legítima, a mais democrática da nossa história. Sou também Presidente da Associação de Conselheiros do Distrito Federal, no segundo mandato, e representante do Distrito Federal no Fórum Nacional de Conselheiros Tutelares. Então, participo de muitas reuniões por aí. E já ouvi falar que, em alguns Estados, as instituições é que elegem os conselheiros. Isso, porém, não está certo. O Estatuto não é claro: ele diz que é a sociedade. Então, parece que em alguns lugares há o entendimento de que a instituição representa a sociedade e, por isso, pode escolher o conselheiro. Mas aqui, no Distrito Federal, onde eu sou conselheiro, é a sociedade que vota. Ela vai lá na urna e dá o voto ao conselheiro que escolheu. Então, considero essa uma votação legítima. Com relação ao nosso vínculo com o Estado, muitas vezes procuramos o Ministério Público — não sei quem fez esse questionamento — para que o Estado seja acionado no sentido de cumprir o que não está sendo cumprido. Muitas vezes, por intermédio da Associação, nós provocamos discussões como essa com o Governo do Estado. Então, como não temos prefeito no Distrito Federal, temos ligação direta com o Governador. E já tivemos vários impasses com o Governador. Ele já ameaçou suspender o salário dos conselheiros, disse que o conselheiro tem de prestar serviços de graça, que não pode receber, que tem de ser voluntário. Ocorre que, aqui no Distrito Federal, essa é uma função exclusiva. E se ela é 32 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 exclusiva, como vamos sobreviver? Conselheiro também tem família, tem filhos para criar. E como vai fazer isso se não ganhar nada? Já tivemos essa discussão com o Governador. A população do Distrito Federal é muito grande. O Conselho de Brasília atende mais de 7 cidades-satélite. É um contigente muito grande, e os conselheiros não dão conta. São 10 conselhos tutelares no Distrito Federal. (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. ANTÔNIO ROLDINO PEREIRA NETO - O último Censo mostrou que temos 2,6 milhões de habitantes. Agora, eu não sei como está. Então, é muito difícil para nós. Já fizemos a reformulação da lei distrital, que rege os Conselhos Tutelares, mas o Governador segurou-a. Está no gabinete dele. Eu conversei com o Secretário de Justiça na semana passada, e ele disse que o Governador não tem interesse em mandar a lei para a Câmara para ser votada, porque nessa reformulação nós criamos mais 11 Conselhos. Seriam 21 Conselhos no total, e ele não tem dinheiro para manter esses novos órgãos. Eu até conversei com ele. Disse que o Governo olha para o Distrito Federal pensando em reduzir gastos. Mas nós sabemos que muitos outros investimentos nem são necessários e estão sendo feitos, porque geram votos. O Governo está fazendo viaduto em lugar que nem casa tem, que nem trânsito pesado tem. Nós temos, no Distrito Federal, esse grande problema com o gestor público, com o Governo. Mas isso não acontece só aqui. Outros Estados também têm o mesmo problema. Em alguns, o Conselho nem tem onde colocar a cabeça, como se diz, porque vive numa dependência da Prefeitura, subjugado ao Prefeito. Nós sabemos disso. Tem conselheiro que passa 3 meses sem receber pagamento. O estatuto não diz que ele tem de receber. No art. 134, fala-se numa eventual remuneração. Então o conselheiro fica num beco sem saída. Esses entraves impossibilitam a ação do conselheiro no seu Município. Por exemplo, o conselheiro sem carro, sem uma estrutura básica, não tem condições de atender a comunidade. Fica inviável o atendimento. É muito difícil. Mas a sociedade não quer saber disso. Ela cobra. Nós somos cobrados pelo Ministério Público, pela Justiça, pela delegacia, pelas escolas. 33 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Eu achei interessante quando a Deputada disse que a escola é fundamental. Ela não é fundamental apenas para o menino que precisa do atendimento socioeducativo. A violação de direitos, o espancamento, o trabalho infantil, tudo isso a escola descobre, porque a criança se abre com a professora. A professora sabe se ela tomou café, se jantou, se o dela pai bateu na mãe, se ela dormiu bem. Sabe tudo. A escola descobre tanta coisa da família que às vezes nós nos perguntamos como aquela criança está sobrevivendo. (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. ANTÔNIO ROLDINO PEREIRA NETO - Denunciar. (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. ANTÔNIO ROLDINO PEREIRA NETO - Não tem carro, não tem nada. É preciso cobrar do Governo. É como o senhor disse: se não exigirmos do Governo a prestação de contas, ele vai ficar empurrando o problema com a barriga, como diz a história, e ele não será resolvido. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Não é preciso investir 25% em educação e 15% em saúde? Então é preciso determinar na lei algum percentual também para o Conselho Tutelar. O SR. ANTÔNIO ROLDINO PEREIRA NETO - Foi lançado este ano, Deputado, não me lembro em que mês, a Cartilha do Conselho Tutelar. Ela ia ser lançada no Ministério Público do Distrito Federal. Na semana do seu lançamento, o Ministério Público entrou com um processo contra o Governo, porque este não estava investindo o suficiente para atender às necessidades. O Governador, então, transferiu o lançamento da cartilha para o Palácio do Buriti, onde ele está sediado. O Ministério Público pressionou-o, e o Governador decidiu que não seria mais lá. No dia do pronunciamento, o Promotor de Justiça, Dr. Oto, cobrou do Governo investimento para cuidados com a criança e o adolescente, investimento nos Conselhos Tutelares. Quando o Dr. Oto terminou de falar, o Governador pegou o microfone e disse: “Eu vou rever o art. 134”. Sublinhou o artigo e disse: “Eu vou rever isso aqui e vou tirar o salário dos conselheiros”. Vejam a ameaça. Quando se mexe no bolso, todo mundo fica com medo. Ele achou esse caminho para ameaçar os conselheiros. 34 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Tivemos um impasse, um embate, digamos assim. Os senhores sabem que nós não temos medo do Governador, porque ele não pode exonerar-nos. Nós não estamos fazendo nada ilegal, apenas estamos cobrando aquilo a que temos direito. Só que ele está com a máquina na mão. Se não for pressionado, não fará o que deve ser feito. E nós vamos continuar nessa penúria, sendo cobrados por todas as instituições. Nós não temos varinha mágica para solucionar os problemas das pessoas. Todos os atendimentos que fazemos geralmente são encaminhados para uma instituição do Governo. Não tem uma creche, não tem um abrigo bom. Preferimos colocar num abrigo particular. Conversamos com o dono do abrigo. Quando se coloca num abrigo do Governo, é no meio de pessoas que vão ensinar coisas ruins. É por isso que primamos por não colocar nenhum menino no abrigo. Procuramos um parente, um tio, alguém que seja amigo, para que a criança fique lá até contornarmos a situação, porque o abrigo também não é a solução. É igual a internamento. Estão aqui a Deputada Erica Kokay e sua assessora, Maju. Ela fez um levantamento no CAJE. Ficou demonstrado que mais de 7 mil reais são gastos por mês com um interno. É muito dinheiro! Se isso fosse investido em serviço social, seria possível atender várias famílias, em vez de se gastar com um adolescente no CAJE. Então, eu acho que isso tem de ser revisto, tem de ser cobrado. Tem de haver maior investimento nas famílias para que esses meninos não sejam encaminhados para alguma internação, porque é muito difícil. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Com a palavra o Dr. Antônio Motti. O SR. ANTÔNIO JOSÉ ÂNGELO MOTTI - Eu vou, propositadamente, deixar essa questão do Conselho para o final, Deputado. Pode ser? Antes eu quero referirme a algumas outras questões que foram apresentadas aqui. Elas são importantes para esse projeto de lei que está em discussão. Precisamos equiparar esse projeto de lei com o que o Estatuto já prevê. Refiro-me ao direito que as famílias têm de opinar no processo pedagógico dos seus filhos. Tem de ficar assegurado que a proposta pedagógica deve reservar e 35 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 comprovar a participação das famílias nesse processo, e isso o Estatuto prevê como um direito da família. Eu tive oportunidade de experimentar essa medida socioeducativa, durante 10 meses, na direção desse sistema em Mato Grosso do Sul, no fim do Governo Wilson Martins. O Governo e o sistema estavam falidos. Eu aceitei ficar na direção nesses últimos 10 meses, com uma condição: o Governador teria de dar-me a educação, apoiando integralmente as ações que eu iria executar lá dentro, e a saúde. A educação bancou 100% do que nós fizemos. Tiramos o terceiro lugar, na época, no Prêmio Sócio-Educando. A saúde, infelizmente, não bancou... Nem me recebeu. Recentemente, a saúde brasileira está promovendo reuniões regulares, por meio de suas coordenações estaduais, com as cidades onde há unidades de internação, mostrando a importância do atendimento especializado em saúde mental dos adolescentes que estão no sistema. Então, quero voltar a falar do financiamento. Deve ficar claro nessa medida que quem financia, quem custeia as despesas de educação das medidas socioeducativas é o orçamento da educação do Município, do Estado e da União. Quem financia 100% das despesas da saúde desse adolescente é o orçamento da saúde da União, do Estado e do Município. Quer dizer, se existe uma medida jurídica, que é a privação de liberdade... E aí encerra o papel do juiz. Infelizmente, na realidade, não encerra, porque eles metem o bedelho nas unidades o tempo todo, fazem intervenção. Também precisa ficar claro nessa lei que o juiz precisa ter sua competência estabelecida. Não pode fazer uma invasão, como faz hoje no processo socioeducativo. Ele proíbe atividades externas de maneira coletiva sem que tenha ocorrido qualquer fato que denunciasse a fragilidade do processo. Por exemplo, se ele cisma que um menino levou maconha para dentro da casa, proíbe todos os meninos de ter atividade externa. Isso é um absurdo! Então, a medida de exceção às atividades externas tem de estar na medida jurídica. Na hora em que ele decidir, sancionar, o menino vai ser interno, está proibida a atividade externa. Também tem de estar na lei o papel do juiz. O Ministério Público não fiscaliza. É uma barbaridade o que acontece. 36 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 A defesa técnica jurídica desse menino tem de ser financiada, tem de estar garantida no orçamento, não pelos Centros de Defesa. Hoje, por exemplo, os CREAS, unidades de assistência que sucederam o Programa Sentinela, que tive a honra de implantar no País — fui seu coordenador —, contam com a figura advogado, o que já era uma reivindicação nossa desde aquela época, porque a criança vítima de violência não tem defesa técnica jurídica. O menino violador, que faz vítimas de sua conduta, também não tem defesa técnica jurídica. Se fizermos um dossiê, vamos encontrar nos Estados em que há Defensoria Pública Infanto-Juvenil o defensor assinando a oitiva, da qual ele nem participou, concordando com todas as medidas que o promotor e o juiz acordaram. Isso ocorre em vários lugares. Precisam ser definidas essas competências. Não vamos fazer investigação nem denúncia vazia. É preciso saber o que o juiz, o promotor e o defensor fazem e assegurar a defesa técnica jurídica. O Estado que não tiver defensor... Eu acho que a proposição de V.Exa. é boa, Sr. Presidente. O que qualifica a ação de um Estado nessa área? Ter defensoria atuante; ter um número suficiente de defensorias para que os meninos sejam defendidos. Não pode o defensor acumular um monte de defensorias, inclusive a do adolescente autor de ato infracional, porque ele não comparece às oitivas por ter outras economicamente mais importantes. É uma questão de economia. Considero a capacitação essencial. Eu falei sobre a importância de termos, de fato, pessoas vocacionadas. A maior herança que existe no sistema socioeducativo restritivo de liberdade é o sistema penal. A maioria das pessoas tem uma cultura carcerária muito forte. No meu Estado estamos vivendo uma situação muito ruim. O Governador está pensando em passar essa ação da assistência social para a Justiça. Os agentes de educação vibraram, porque acham que vão ganhar muitos benefícios — aqueles relacionados à periculosidade e outros que os agentes penitenciários têm. Na assistência social não há previsão de pagamento de benefício relacionado a periculosidade, entre outros. Existe falta de localização real sobre de quem é a titularidade dessas medidas. O Rio de Janeiro passou-a agora para a educação. Foi uma atitude 37 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 ousada, questionável. Mas o Governador tomou essa decisão. Estava com ele no seu gabinete. Antes estava na Justiça. Ele a tirou de lá e colocou-a em seu gabinete. Depois decidiu que era uma questão da educação. É preciso avaliar o impacto disso. Eu teria tendência a gostar do Governador do Rio de Janeiro. Agora, não tenho análise técnica suficiente para dizer que essa é uma questão essencialmente de titularidade da educação. Mas é possível que entendamos a medida do Governador. É uma medida socioeducativa? Então, que a educação tome conta dela e a financie. Ela tem orçamento garantido, constitucional. Com certeza não vai faltar dinheiro para isso. E normalmente falta. Então, não há número suficiente de pessoas qualificadas e não há orçamento. Quem é o titular dessa ação, como coordenação geral? Ele é apenas o titular. Vai organizar essa rede de intervenções, que têm de ser autofinanciáveis. Saúde financia saúde. Educação... Cultura, esporte e lazer. É essencial que seja previsto na lei que tem de haver dotação na Secretaria de Saúde para intervenções... Tive uma experiência emocionante, Sr. Presidente. Como eu tinha pouco tempo, quando dirigi esse sistema, trabalhei na educação com projetos. Eles tinham começo, meio e fim. Eu sabia que aquele Governo não iria fazer sucessor, que viria a Oposição. Eu tinha de mostrar a ela que aquele sistema era viável, que, se acreditássemos nos meninos e na nossa capacidade, poderíamos ter bons frutos. Trabalhei só com projetos. Botei educação dentro das casas, montando salas de aula etc., e trabalhei essencialmente com projetos culturais, recreativos e desportivos, pelo que ganhei esse prêmio aqui. Os meninos — para os senhores terem uma idéia, eu comecei em março e terminei em dezembro —, de outubro em diante, faziam a abertura de um programa regional caipira, dançando a dança do catira. A abertura, todos os domingos, quem fazia eram os meninos internos, e ninguém sabia que eram meninos internos. Eram os meninos do Programa Jovem Cidadão. E esses meninos que fizeram parte desse grupo, nenhum deles reincidiu no crime. Nenhum deles! Como os do grupo de Sarandi, como os do grupo de Coral. Então, a reincidência era muito pequena quando a gente apoiava. Por isso, eu acho que tem de haver previsão legal, orçamento da cultura, do esporte e do lazer 38 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 para essas ações socioeducativas. Senão, não adianta! Se a assistência social continuar financiando cultura neste País, o dinheiro da assistência vai ser sempre menos do que ela deveria ter. Se ela continuar financiando esporte... não é? Porque quem financia esporte e cultura no Brasil hoje — ações sistemáticas, não essas ações esporádicas dos 2 Ministérios? De um lado, a educação; de outro lado, a assistência social. Portanto, o orçamento da educação e o da assistência social são assaltados por ações de outro cunho. Na nossa Constituição, cultura, esporte e lazer são políticas fundamentais, não são políticas especiais. Na prática, são os Ministérios que têm menos orçamento, que têm menos gente, que têm menos ação. Então, essa é uma questão que eu também queria... Na questão dos recursos humanos, dentro e fora, Deputada Rita Camata, eu acho que a vocação influi muito, sabe? Há 10 anos eu fundei a Escola de Conselhos do meu Estado, na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. E eu fundei, Deputada, porque fui provocado, com a extinção do CBIA por Fernando Henrique. Eu era servidor do CBIA, era coordenador do CBIA no meu Estado. Com a extinção do Centro, os Estados não tinham equipes para dar suporte aos Municípios na implantação dos Conselhos Municipais e Tutelares. Eu fui redistribuído, como servidor, para a universidade, e as pessoas ligavam diariamente querendo que a gente continuasse com aquele trabalho que o CBIA fazia. A universidade não tinha essa vocação. E como eu poderia dar...? Eu não podia sair, eu não tinha autorização da universidade para me descolar até o Município, porque lá eu era um servidor, eu era um técnico. Nem professor era. Então, fizemos um projeto de extensão, em que previmos a participação de professores da universidade na capacitação de conselheiros tutelares, na capacitação de conselheiros municipais. Apresentei ao Governo Federal o projeto, ele foi financiado, e começamos então o processo de formação de conselheiros. E agora vai aqui minha análise: nós promovemos 3 cursos de formação de conselheiros com 320 horas. É quase uma especialização. E é adaptada, porque há conselheiros que têm até a 4ª série, há outros que têm mestrado — conselheiros tutelares. Há também conselheiros municipais com até a 4ª série, outros com 39 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 mestrado. Então, tem-se de adaptar a linguagem e o conteúdo a essas condições de diversidade. “Qual o resultado prático disso?”, perguntou-me a Dra. Carmen de Oliveira, Subsecretária de Promoção dos Direitos da Criança. Eu disse a ela: temos de ter um sistema de avaliação do dinheiro que investimos em capacitação, e essa avaliação tem de ser das pessoas que diretamente se servem desses serviços — porque minha experiência foi muito ruim; porque, quando eu volto ao Município em que eu capacitei, em que eu formei pessoas durante esses anos, vejo que o quadro pouco se alterou; porque, essencialmente, falta o compromisso do sujeito que é informado, que recebe a formação, que recebe um certificado, e aquilo inclusive qualifica-o para um melhor salário. O compromisso dele com a questão para a qual ele foi qualificado é muito pequeno, e isso reverte em muito pouco resultado. Então, acho que temos de aprimorar o processo de seleção dos conselheiros, e a universidade tem feito essa experiência nestes últimos anos. Às vezes temos a intervenção da Justiça anulando nosso trabalho de seleção de conselheiros, juiz que diz que não está prevista no Estatuto essa ação e anula-a, simplesmente. Então, aí há uma arbitrariedade. Nós vivemos a crise da interpretação. Nossa lei dá margem a esse tipo de coisa. O juiz anula, garante que a pessoa concorra ao pleito, a pessoa concorre, ganha, e continua sendo um péssimo conselheiro. Isso acontece em muitos lugares, no meu Estado e fora do meu Estado. Já fizemos capacitação de conselheiros em 8 Estados do Brasil. Em 6 deles, o Governo Federal repassou R$ 1 milhão para que a gente equipasse, Deputada Rita, os Conselhos Tutelares com o que de mais moderno existe em termos de móveis, equipamentos de comunicação e locomoção. Até carro nós entregamos a Conselhos Tutelares de 6 Estados do Brasil, dentro de um projeto que tínhamos. Qual é o resultado prático do impacto das condições físicas dos Conselhos Tutelares? Muito pequeno, perto do investimento feito. Então, foi R$ 1 milhão, investido em pouco mais de 14 Conselhos, equipados com veículo, computadores, mesas, ar condicionado, máquina fotográfica, filmadora, tudo. Capacitamos todos esses conselheiros. Qual é o impacto produzido? Muito pequeno. Por quê? Por estar faltando, talvez, um instrumento que garanta essa obrigação do sujeito em relação ao investimento que é feito nele. 40 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 E os conselheiros tutelares, eu estou convencido disso — posso estar enganado, e posso rever isso a qualquer momento, se for necessário —, não funcionam não é por falta de condições físicas; é por falta de identidade com a função deles. Essa é uma questão. Então, acho que temos de fazer um processo de formação do sujeito que quer ser conselheiro tutelar. Tem de haver um processo de formação anterior e um processo de medição do nível de habilidade, de vocação do sujeito para aquela função. Temos conselheiros maravilhosos, mas não é a regra dominante, e o próprio Antônio deve enfrentar a concorrência de colegas que não têm nenhum compromisso com a função dele. A SRA. DEPUTADA RITA CAMATA - Professor, só para avançar um pouquinho, porque eu estou achando até interessante, em minha primeira avaliação, 300 horas é tempo demais quando a gente tem um mandato de 2 anos, com uma possível recondução. Acho que seria... não é? E o próprio professor comenta que foi frustrante, de certa forma. Agora, quando o professor propõe alterar, ter a vocação, eu também concordo. Vejamos, por exemplo, a reforma tributária; eu sou a favor, luto, quero demais que cada um tenha um pedacinho de terra, mas não adianta colocar na terra pessoas que não têm vocação para lidar com ela. Elas não vão saber sofrer, viver as intempéries, esperar a chuva, irrigar, não irrigar. Eu sou da roça, sou do interior, acompanho isso a vida inteira. Minha família, lá, com 7 alqueires de terra, educou 10 filhos, na enxada. E antigamente não era como hoje. Quando eu era pequena, eu ouvia meu pai dizer: “Ah, não choveu, a colheita do café vai ser pequena, mas no ano que vem vai ser melhor”. Isso fazia com que ele continuasse acreditando e plantasse o milho, plantasse o feijãozinho para sobreviver. E eu acho que trabalhar nessa área também é um pouco assim, é ter de fato vocação. Agora, como vamos ter uma eleição, se a decisão tem que ser muito mais seletiva — é o que o professor está dizendo aqui —, para a definição de quem vai ser candidato? Então, nós vamos ter de mudar, não vai ser o voto direito. Quero entender um pouquinho melhor e aprofundar isso. O SR. ANTÔNIO ÂNGELO MOTTI - Não, eu continuo defendendo, eu não abro mão dessa escolha. Eu acho que essa escolha é muito importante. Ela é de fato um instrumento democrático, e não dá para abrir mão dessa conquista. O 41 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 problema é quem chega para o processo de escolha e a manipulação política em que infelizmente isso se transformou nos últimos anos. É muito comum um conselheiro ser manipulado politicamente, fazer parte de grupos políticos que têm interesses que não são os interesses superiores da infância. Essa é a questão. E agora há grupos religiosos. É muito comum, com todo o respeito, a dominação de conselhos por uma igreja. É comum que em determinadas cidades haja um conselho em que 3 conselheiros fazem parte de uma igreja. E foi todo um processo de mobilização, foi legítimo. Foi legítimo! Então, são dados da realidade que nos impõem um grande desafio. Nessa questão do processo de seleção, Deputada, eu acho que o que tem de acontecer é o sujeito participar de um processo anterior à sua candidatura. Em sendo habilitado, aí ele concorre. Percebe? (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. ANTÔNIO ÂNGELO MOTTI - Recentemente, no próprio PAC, agora, o Governo Lula previu... Eu não estou dizendo que essa é a solução, mas eles acharam que, mesmo com toda essa decepção que tivemos lá no Mato Grosso do Sul, a Escola de Conselhos era uma boa experiência. Então, no PAC, os senhores podem ver lá que neste ano o Governo se dispôs a financiar a criação de 11 Escolas de Conselhos no Brasil, entendendo aí o status da agenda social. Qual foi a premissa básica que o Governo usou para financiar as ações nos moldes da Escola da Conselhos — ele usa a expressão “Escola de Conselhos”? A de que os Estados tenham a formação permanente de conselheiros, e não cursos ocasionais, como a gente vem promovendo. Eu faço cursos todo ano, promovo cursos todo ano, não é? Agora, não tenho mais curso todo ano; eu tenho uma Escola de Conselhos que permanentemente está à disposição dos 78 Municípios de Mato Grosso do Sul para o processo de formação de conselheiros, e os conselheiros que estão trabalhando contam com um canal exclusivo para fazerem sua orientação em tempo real. De segunda a sexta, durante o período diurno, eles têm um canal de orientação no nosso portal. Então, além de eles terem a permanente assessoria de um órgão especializado, esse órgão também promove permanentemente a formação de conselheiros por ações presenciais. Portanto, eu tenho uma grade de trabalho com conselheiros. 42 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Nossa próxima etapa é fazer o processo de formação para pessoas que querem ser conselheiros. Então, aqueles Municípios que quiserem colocar isso como uma condição para o sujeito se candidatar vão contar com essa possibilidade. Vamos usar o ensino presencial e o ensino a distância para esse processo, que continua democrático; continua tendo a pessoa a escolaridade que for definida na lei municipal — se é de segundo grau, se é de nível superior, a lei municipal é soberana nesse ponto —, vamos oferecer um curso básico de formação de conselheiros, e certificar aqueles que estariam então, teórica e praticamente, vamos dizer, habilitados para ser conselheiro, ou em condições de ser conselheiros. Isso vai resolver o problema? Eu não acredito, Deputada, que vá resolver, mas que a gente vai aprimorando, com certeza vai, porque ainda vai escapar aquele sujeito que foge a todas as possibilidades de medição, como acontece em qualquer outro setor da vida pública. Há o mau político, o mau dirigente público, o mau juiz, o mau promotor. Então, vai haver o mau conselheiro também, que vai estar super-habilitado, do ponto de vista teórico e prático, e vai usar... Agora, eu quero alertar para uma questão: os Conselhos Tutelares e as nossas unidades de internação, as das medidas socioeducativas, já estão invadidos pelo crime organizado. É sabido que em muitas de nossas comunidades há garotos ligados ao PCC e a outros comandos, como também Conselhos Tutelares estão invadidos por pessoas que fazem parte de esquemas de exploração sexual de crianças e adolescentes e crimes de outra natureza. Então, o crime organizado ocupa espaços onde menos esperamos, e ele está sempre infiltrado, dentro de nossos meios e dos nossos recursos. Estão nas ONGs, nos movimentos de luta, de defesa, e estão também, hoje, plantando meninos dentro de nossas unidades. Eles fazem de tudo para que o menino seja pego cometendo crimes, exatamente para arregimentarem as pessoas que vão sair de lá, porque quem vai sair de lá, hoje, infelizmente, pelo quadro geral, não tem muito a perder, não é? Então, se ele puder ganhar alguma coisa na saída, mesmo que seja a proteção pelo mundo do crime, já se acha em vantagem, principalmente quando não temos uma proposta competente. E infelizmente está invadindo — como já invadiu a Justiça, segundo denúncias que recebemos e vemos na imprensa — também os nossos Conselhos Tutelares. Então, não vamos conseguir, infelizmente, evitar que pessoas com interesses escusos 43 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 ocupem esses lugares. Mas aqueles de bom interesse, de interesse comum, podemos aprimorar a chegada deles a esses lugares. Qual a vantagem disso em relação às nossas discussões aqui? Vejo 2. A primeira delas, como a Deputada disse, na sua provocação, é antecipar a ocorrência do crime cometido pelo menino. É garantir que, na primeira dificuldade que ele tenha, no processo de saúde, no processo educativo, no processo cultural, no processo desportivo, recreativo, na convivência com a comunidade, essa comunidade disponha de um Conselho Tutelar competente para rapidamente acionar os meios e estabelecer as medidas de proteção que são necessárias para que ele então não seja um menino dragado pelos atos marginais, pelo mundo do crime. A segunda é garantir que tenhamos um Conselho Tutelar que vai fiscalizar com competência as medidas restritivas de liberdade, porque ele também tem essa prerrogativa de fiscalizar o atendimento que é prestado, que é um direito do menino, um direito da menina que é interna, e cabe a ele fiscalizar — e fiscalizar com competência, com capacidade de fiscalização. Agora, esse Conselho Tutelar que almejamos tem de ser fruto de uma construção da sociedade. Não pode ser uma coisa artificial. Então, a sociedade tem que reconhecer a importância desse Conselho Tutelar. Infelizmente, quando os Conselhos Tutelares foram lançados no Brasil houve muito equívoco, a senhora sabe disso, por parte de pessoas que demandavam do Conselho Tutelar atribuições que nada têm a ver com aquilo que pensamos em fazer quando criamos essa figura jurídica na nossa legislação. Então, acho que também falta um bom aproveitamento do processo de informação de como a sociedade pode utilizar-se desse recurso que ela tem. Ela usa mal porque ela não sabe do recurso que tem. Ela não acompanha o Conselho Tutelar. Ela elege, ela escolhe, mas não acompanha. Então, é importante que a gente faça esse processo de divulgação. De vez em quando a mídia faz esse bom serviço, mostra que o Conselho Tutelar atuou e evitou determinadas situações, estabeleceu medidas de proteção, fiscalizou e acompanhou. Acho que é importante ocuparmos mais o espaço da informação, para melhor dizer à sociedade que instrumento é esse de que ela dispõe, e que ela não é mais hoje uma sociedade que depende do juiz para resolver questões administrativas em relação à infância, apenas as questões de conflito. 44 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 A SRA. DEPUTADA RITA CAMATA - Professor, só para... Acho que já foi uma contribuição larga, e D. Maria vai fazer aqui também sua manifestação, e ainda temos a nossa votação, mas eu queria saber... Dentro dessa observação sobre importância do Conselho Tutelar, a gente já sabe que há alguns conflitos. E agora, no primeiro semestre, votamos também várias medidas do PRONASCI. Eu acho que fui uma figura destoante quando veio também a “mãe da paz”, a figura da “mãe da paz” foi aprovada e criada como programa específico, que seria a líder comunitária ter esse olhar e essa preocupação, ser remunerada pelo Estado e ter o olhar e a preocupação de forma preventiva, para alertar e demandar o poder público, o Conselho Tutelar, para as políticas públicas de atendimento aos jovens no nosso País. De certa forma, na minha visão, primeiro, essa é uma proposta — como comentei no momento — machista, excludente, porque há homens que são líderes comunitários também, que têm a abnegação, que têm esse olhar solidário. E é uma dupla função. Estamos tirando, enfraquecendo uma atribuição que cabe ao Conselho Tutelar que ainda não conseguimos, e ainda estamos desafiados a ver qual é a melhor forma de capacitar, de preparar de forma adequada, de dar as condições para que ele exerça sua função, e de forma muito mais democrática. Então, há essas coisas, e não sei qual é a opinião do senhor em relação a esse programa, que me incomodou muito. Fui voto vencido dentro da minha bancada na votação, e a matéria hoje é uma realidade. O SR. ANTÔNIO ÂNGELO MOTTI - É, quando tomei conhecimento, também tive essa impressão de que era um conselho tutelar geral. Particularmente, acho que isso enfraquece as estruturas que já criamos, não é? Se há um recurso, já, do Orçamento da União, que pode fazer valer a designação dessas pessoas, nós devíamos pensar como a União pode, então, contribuir para a remuneração dos conselheiros tutelares, o que eu acho seria muito mais interessante neste momento, até porque os Conselhos Tutelares atendem a todo o Município, não atendem a uma determinada comunidade. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Está havendo votação nominal em plenário, mas me parece que falta somente um Deputado. Por gentileza, pode falar, e depois vamos encerrar. 45 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 O SR. DEPUTADO ALCENI GUERRA - Sr. Presidente, sentado nesta cadeira, exatamente nesta cadeira, tive uma divergência de opinião em relação ao Regimento com a Deputada Rita Camata no ano passado. Isso custou-me o mau humor da Deputada por alguns meses. Então, eu quero dizer à Deputada que eu a conheço, sei o quanto estuda o Regimento, desde o tempo da Constituinte, e quando fiz intervenção talvez tenha acontecido com uma seriedade que eu não queria passar. Eu fui o que mais ri na presença do meu colega Ministro quando ele usou a palavra “imexível”. E ri muito e continuo rindo até hoje. E quando usei a palavra “ inemendável”, sabia que não estava no dicionário. Era para provocar riso mesmo. Queria dizer à Deputada que se a ofendi, por favor, desculpe-me. Não tive essa intenção, não quis chamá-la de autoritária. Quero que depois conversemos sobre o relatório de S.Exa. Eu entendo que é passível, sim, de modificações, por meio de voto em separado, de substitutivos ou seja lá o que for. É passível de modificação. Diante da convocação de V.Exa. para que colaboremos antes, acho que nos deveríamos reunir freqüentemente, para ajudarmos a Deputada a fazer um relatório. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Sem dúvida. Antes de passar a palavra, quero comunicar que foi sancionada uma lei cujo projeto foi de minha autoria. Ela determina o dia 18 de novembro como o Dia Nacional do Conselho Tutelar. Então, no próximo mês, teremos o encontro nacional e o Dia Nacional do Conselho Tutelar. Tive a felicidade e a honra de ser o autor desse projeto. Com a palavra a Maria da Conceição. A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS Perguntaram-me quais foram as maiores dificuldades que eu encontrei dentro da fundação. Todas as dificuldades. Desde a fiscalização até o compromisso, a estrutura, os funcionários, a violência e o desperdício de dinheiro. Um adolescente internado tem hoje um alto custo hoje para a cidade de São Paulo. Com gestões compartilhadas, eu não tenho ainda certeza do valor. Por isso não vou ainda falar. Mas é muito mais alto, porque está adotando-se um modelo de gestão compartilhada. 46 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Em alguns Municípios pequenos houve a descentralização. Estão sendo construídas unidades pequenas dentro dos Municípios onde não existia nenhuma organização. E foi criada imediatamente uma ONG que nunca lidou com criança nem com adolescente, que não conhece nada de política pública direcionada para essa população, para administrar a fundação, as unidades de internação. Isso tem causado alguns problemas, que não são ditos, porque a questão é calar, é fechar-se para que a coisa não apareça na imprensa. Então, nós também temos enfrentado essa questão das gestões compartilhadas em São Paulo. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - São muitos? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Vários Municípios já têm essa gestão compartilhada. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Pode citar uns 3? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Olha, eu sei de Cerqueira Cesar, Bragança, Campinas, Iaras. Todos estão tendo problemas. É uma pena, porque as pessoas formam as ONGs com a intenção de levar os seus representantes — está muito articulado com o Prefeito da cidade — para geração de emprego e não porque têm uma identificação com a causa. E aí a terra não é fértil de jeito nenhum, e isso causa muitos problemas. Então, não apenas em São Paulo, mas em todo o Brasil — em Brasília também —, temos enfrentado uma difícil situação relacionada ao compromisso das pessoas de fiscalizar. Acho que aquilo que é fiscalizado é obrigação não só das famílias, mas da sociedade civil organizada, dos Parlamentares, que podem entrar e sair na hora que necessitarem. E nós não contamos com o apoio dos Parlamentares, das autoridades que têm a prerrogativa da fiscalização. Então, quando nós denunciamos, não podemos contar com o apoio de quem de fato poderia fazer isso. Então, fica uma coisa fechada. O Governo fecha e abre a unidade na hora que bem quer. E nunca quer abrir. Ele quer mais é fechar essa situação. Outra grande dificuldade nossa é a questão de a família ficar de fora. Se há um conflito, se o menino desobedeceu regras, se foi espancado, se está trancado, se há o isolamento, as visitas são reduzidas. Muitas vezes elas são negadas. Já 47 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 tivemos casos de adolescentes ficaram até 90 dias sem nenhuma visita, incomunicáveis, e brigamos muito para isso ter fim. Houve muita briga nesses 10 anos, no Estado de São Paulo, por conta disso, mas ainda lidamos com esse problema. Eu acho que a internação, que deveria ser o último estágio, depois de exploradas todas as outras medidas em ambiente aberto, é muito danosa, principalmente para os jovens que vêm de uma relação com a dependência química. Hoje já se sabe que a dependência química é um caso de saúde pública. E como a saúde ainda não se preocupou muito com isso, está empurrando com a barriga, a questão cai na Justiça. A Justiça não tem o que fazer e interna o adolescente. Eu sofro com isso, e outras mães sofrem. Nós temos analisado muito isso na AMAR. Os adolescentes que chegaram a cometer atos infracionais por conta da dependência química e que por isso foram presos, foram penalizados, não foram cuidados nem tratados e passaram por todo um processo de violência, tornam-se muito mais resistentes a um tratamento numa clínica, que não existe. Não existe no plano do governo. O que existem são clínicas ligadas a igrejas — evangélicos, católicos e agora espíritas estão criando clínicas — ou clínicas fechadas, muito caras, só para quem tem condições financeiras. A família carente que tem um filho dependente químico e que busca ajuda passa por dificuldade. No final da linha, ou esse filho morre ou vai preso. Tenho um caso pessoal. Meu filho caçula tornou-se dependente químico, autor de ato infracional, e foi para a Fundação Casa. Eu não concordei com aquilo tudo e comecei a denunciar as barbáries que eu via. Busquei ajuda junto ao Conselho Tutelar, que estava começando àquela época, muito perdido ainda, sem saber qual era o caminho, sem conhecer o estatuto ainda. Então, eu comecei a me agregar com a imprensa. Foi fundamental o papel da imprensa no fortalecimento das nossas ações. Isso porque não havia mais nenhuma instância para denunciar, ninguém ouvia, ninguém podia fazer nada. E a Justiça, na hora de prender, é muito rápida, mas na hora de olhar as violações é lenta demais. O sujeito depois que está lá dentro morre, porque a Justiça não consegue avançar, é muito complicado. Então, quem nos auxiliou muito foi a imprensa. 48 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 Quando eu descobri esse meio de comunicação, que tinha esse potencial — as pessoas não quererem ver seu nome veiculado —, eu fiz uso dele. Era uma imprensa mais séria, mais respeitosa, não essa imprensa que faz sensacionalismo. Hoje, eu tenho toda uma dificuldade de tratar o meu filho, que ainda é dependente químico, porque ele se sente perdendo a liberdade. Uma vez ele foi preso porque cometeu um ato infracional. Agora ele não está cometendo nenhum ato infracional, a Justiça não está determinando sua prisão, e ele não vai sozinho tratar-se porque não quer ficar preso numa clínica. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Por que preso? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Porque há internação. A clínica é uma internação. Ele precisa ficar lá. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Por quê? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Para recuperar-se da dependência química. Então, faz 12 anos que eu procuro discutir. Vejo a fisionomia do Deputado. Também acho que não é necessário clínica em muitos momentos. Mas existem momentos na vida, Deputado, em que é preciso se ter algum equipamento do Estado para se controlar, porque ou morre ou mata. Dos meninos que eu vi morrer por contra do tráfico, por conta da dependência química, já perdi as contas. E dos amigos do meu filho... O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Já viu algum recuperado? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Da dependência? O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Sim. A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Não, Deputado. Infelizmente, não. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Vou trazer uns 200 aqui. A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Que estão recuperados? Sim. Só através da religião que nós temos tido... Então, essa é a grande dificuldade que temos em avançar na questão. E eu queria, Deputada, contribuir com uma forma de pensarmos alguma política em nível nacional, em nível mundial, porque a droga hoje atinge todos os 49 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 nossos continentes. E ela está acabando com as nossas famílias, ela está destruindo o futuro do nosso País e o presente do nosso País, que são os nossos jovens. Hoje, no Estado de São Paulo, dentro da Capital, no Centro de São Paulo, é vergonhosa a quantidade de crianças e adolescentes que estão na rua usando crack. Quando dá 7h da noite, é estranho, porque parece uma grande feira, em algumas ruas mais escuras da Praça da República, a quantidade de crianças, meninos e meninas, matando-se nas drogas. Durante o dia nós passamos naquelas ruas e vemos uma esteira de seres humanos que não parecem seres humanos, jogados, porque as famílias não têm como tratar, não têm como socorrer, não sabem o que fazer, e esses filhos terminam sendo moradores de rua. Durante o dia eles pedem. Após o meio-dia eles acordam, começam a pedir moedinhas nas portas dos bancos, nas ruas. Quando cai a noite eles se juntam em várias ruas — é muita gente! — e matam-se no crack. (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Pois é, mas vai chegar o momento em que ninguém vai dar e eles vão roubar. Eu acabei de viver, Deputado, uma situação muito difícil com meu filho, numa recaída dele agora. Meu filho está com 25 anos. (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Olhe, tem tentado, tem-se esforçado. Em todos os locais onde ele ficou, o que me dizem é que ele se tem esforçado e não consegue. Tem as recaídas. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Ele esteve onde já? A SRA. MARIA DA CONCEIÇÃO ANDRADE PAGANELE SANTOS - Olhe, já esteve em várias clínicas. Já esteve em clínicas evangélicas, já esteve em comunidade terapêutica, já esteve numa clínica fechada paga por Marília Gabriela — muito cara a clínica, eram R$ 2.500,00 por mês naquela época. Não deu jeito. Agora, ele está numa outra clínica. Acabou de sair de uma evangélica, teve uma recaída e vendeu tudo que eu tinha na minha casa. Até minha casa ficou na mão dos traficantes. E nós precisamos enfrentar os traficantes, eu com os meus filhos, e pagar para o sujeito sair da minha casa. Na minha casa não tenho um copo para 50 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 tomar água. Tudo o traficante levou. Então, chega de sermos reféns na mão do tráfico. E enquanto não tivermos clínicas, pessoas comprometidas, projetos comprometidos para a recuperação da saúde mental da nossa população, nós vamos continuar perdendo os nossos jovens, perdendo a nossa família, perdendo o mínimo para viver, que é uma cama para dormir. Na minha casa não tenho uma cama para dormir, na minha casa hoje não tenho um copo para tomar água, porque foi tudo para o tráfico. E para se acabar com o tráfico, não é com violência, é com tratamento. E tratamento através da religião, sim, da espiritualidade, sim, da terapia, sim, da medicina, sim. Senão, não vamos conseguir avançar. O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Que Deus a abençoe. Nós temos votação nominal agora. Deputada Rita Camata, na semana que vem vamos fazer uma reunião aqui sobre a questão da dependência química. Eu queria roubar 2 minutos para dizer que há 20 anos trabalho com meninos de rua e com dependentes químicos. Eu tenho cursos em 6 países do mundo. Fui estudar. No Brasil, conheço em uns 20 Estados essa questão da dependência química. Hoje, efetivamente, moram comigo 20 pessoas dependentes químicas. Posso trazer aqui 200 pessoas que nós recuperamos e que não voltaram nunca mais para as drogas, graças a Deus. Companheiros, hoje moram comigo, foram adotados por mim 20 dependentes químicos, pessoas que usaram crack, maconha, cocaína, roubaram, estupraram, seqüestraram e o que se possa imaginar. Uma menina que cometeu 18 crimes veio morar comigo, graças ao meu bom Deus! Uma menina que cheirava cola, cocaína, fumava maconha, traficava, fazia sexo por R$ 10,00, foi presa 3 vezes, eu adotei, e faz 4 anos que ela saiu da dependência química. Está recuperada, graças a Deus. É verdade que todos nós somos... (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. PRESIDENTE (Deputado Givaldo Carimbão) - Só um segundo. Eu também não votei. É que me apaixona ver essa senhora nessa situação. O Ministério da Saúde enumera as questões de saúde mental, mas os grupos são fechados rigorosamente, porque os CAPSad não cumprem seu papel. Nós seres humanos somos carne e espírito. Existe patologia depois da droga? Existe. O 51 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - PL 1627/07 - Atendimento Socioeducativo Número: 1396/08 Data: 29/10/2008 crack, por exemplo, que é um composto de refugo de cocaína, veneno para matar rato, soda cáustica, solução de bateria, vidro quebrado, gasolina — o crack não é mais do que isso —, leva a pessoa a perder o fator sensitivo, a não sentir mais o cheiro de uma manga ou de um caju. Aí se tem o fator patológico. Não existe hoje no Brasil — em Porto Alegre há pouco começou a haver — nenhum hospital que trate da patologia causada pela dependência química. Depois de identificada a patologia, a pessoa vai para uma clínica. Em Alagoas, o filho do Governador é dependente químico e está recuperando-se, o filho do Senador Renan Calheiros é dependente químico e está recuperando-se, o filho da Secretária de Direitos Humanos é dependente químico e está recuperando-se, o filho do Prefeito da maior cidade do Estado, o filho do Vice-Governador é dependente químico. O Governador determinou a todos: é para cumprir. O pior é que o pessoal não cumpre. Criem, pelo amor de Deus, 10 leitos em hospitais para tratar das patologias. Olhem os casos do Governador, do Vice-Governador, do Senador. Estou dando nome aos bois. Criem uma clínica para dar apoio. Criem, depois, naturalmente, o tratamento espiritual. Tratem da patologia, da questão clínica e depois, naturalmente, levem o paciente a uma mudança de conceitos, de forma de vida. Não consegui formar essa rede em Alagoas, embora envolvendo o Governador, o Vice-Governador, o Senador, a Secretária de Direitos Humanos; imagine a senhora! Na próxima semana essa questão será discutida. Esperamos contribuir. Se Deus quiser, vamos encontrar caminhos. Deus abençoe cada um dos senhores. Muito obrigado. Declaro encerrada a presente reunião. 52