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INFORMATIVO COPTEC
No. 4, Fevereiro 23 de 2012
COMO ESTÁ O MUNDO NESTE INICIO DE 2012.
UM RECORRIDO GLOBAL
Contenido
EUA são piores do que a inquisição espanhola: Michel Chossudovsky ..................................... 2
Trabalho doméstico no Brasil .......................................................................................................... 6
Perdendo o mundo”: o declínio dos EUA em perspectiva Noam Chosmky:........................................... 8
Nas mãos de poucos, escassez de sementes preocupa fazendeiros ....................................... 15
EUA: crescem os "acampamentos da miséria"............................................................................ 18
China alerta que falta de água ameaça sua economia ............................................................... 20
EEUU 300 mil agricultores presentan una denuncia contra MONSANTO ................................ 22
Vendas globais de orgânicos sobem 9,2% .................................................................................. 25
Dilemas humanos perante a crise econômica: perspectivas...................................................... 26
Luta de classes ............................................................................................................................... 27
FAO avança em código para aportes em terras .......................................................................... 30
China 'troca' infraestrutura por grãos na América do Sul............................................................ 31
“O socialismo do futuro terá as cores das sociedades que por ele optarem” ........................... 34
A revolta da burguesia assalariada ............................................................................................... 41
México .............................................................................................................................................. 48
A caminho das eleições ................................................................................................................. 48
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Entrevista
EUA são piores do que a inquisição espanhola: Michel Chossudovsky
Presidente e diretor do Centro de Pesquisa em Globalização (Centre for Research on
Globalization), Michel Chossudovsky conversou com o ODiário.Info sobre a discussão
de uma possível terceira guerra mundial, de que fala no seu livro “Towards a World
War III Scenario: The Dangers of Nuclear War”.
Por Sara Sanz Pinto*
Crítico da fortificação militar que os Estados Unidos estão construindo em torno da
China, o professor canadiano da Universidade de Otava defende que a opinião pública
é fundamental para evitar uma guerra nuclear.
ODiário.Info: Diz no seu livro que a guerra com o Irã já começou e que os
Estados Unidos estão apenas à espera de um rosto humano para lhe dar.
Acredita que os objetivos políticos e geoestratégicos de Washington podem
levar-nos a uma guerra nuclear com consequências para toda a humanidade?
Michel Chossudovsky: Não quero fazer previsões e ir além do que aconteceu. Tudo o
que posso dizer, e tenho vindo a dizê-lo de forma repetida, é que a preparação para a
guerra está a um nível muito elevado. Se será levada a cabo ou não é outro patamar, e
ainda não o podemos afirmar. Esperemos que não. Mas temos de considerar
seriamente o fato de que este destacamento de tropas é o maior da história mundial.
Estamos assistindo o envio de forças navais, homens, sistemas de armamento de
ponta, controlados através do comando estratégico norte-americano em Omaha,
Nebrasca, e que envolve uma coordenação entre EUA, Otan e forças israelitas, além
de outros aliados no golfo Pérsico (Arábia Saudita e estados do Golfo).
Estas forças estão a postos. Isto não significa necessariamente que vamos entrar num
cenário de terceira guerra mundial, mas os planos militares no Pentágono, nas bases
da Otan, em Bruxelas e em Israel, estão a ser feitos. E temos de levá-los muito a sério.
Tudo pode acontecer, estamos numa encruzilhada muito perigosa e infelizmente a
opinião pública está mal informada. Dão espaço a Hollywood, aos crimes e a todo o
tipo de acontecimentos banais, mas, no que toca a este destacamento militar que
poderá levar-nos a uma terceira guerra mundial, ninguém diz nada. Isso é um dos
problemas, porque a opinião pública é muito importante para evitar esta guerra.
E isso não está a acontecer, as pessoas não estão se organizando para se oporem à
guerra. Isto não é uma questão política, é um problema muito maior, e tenho de dizer
que os meios de comunicação ocidentais estão envolvidos em atos de camuflagem
absolutamente criminosos. Só o fato de alinharem com a agenda militar, como estão a
fazer na Síria, onde sabemos que os rebeldes são apoiados pela Otan, na Arábia
Saudita e em Israel, e como fizeram na Líbia, é chocante do meu ponto de vista,
porque as mentiras que se criam servem para justificar uma intervenção humanitária.
Em vez de uma guerra nuclear, não podemos assistir a um cenário semelhante à
Guerra Fria, com os EUA, a União Europeia e Israel de um lado e a China, a Rússia e o
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Irã do outro?
Esse cenário já é visível. A Otan e os EUA militarizaram a sua fronteira com a Rússia e
a Europa de Leste, com os chamados escudos de defesa antimíssil – todos esses
mísseis estão apontados a cidades russas. Obama sublinhou em declarações recentes
que a China é uma ameaça no Pacífico – uma ameaça a quê? A China é um país que
nunca saiu das suas fronteiras em 2 mil anos. E eu sei, porque investigo este tema há
muito tempo, que está sendo construída toda uma fortaleza militar em volta da China,
no mar, na península da Coreia, e o país está cercado, pelo menos na sua fronteira a
sul. Por isso a China não é a ameaça. Os EUA são a ameaça à segurança da China. E
estamos numa situação de Guerra Fria. Devo mencionar, porque é importante para a
UE, que, no limite, os EUA, no que toca à sua postura financeira, bancária, militar e
petrolífera, também estão a ameaçar a UE. Estão por trás da destabilização do sistema
bancário
europeu.
ODiário.Info: E a colocação de mais tropas em torno da China vai trazer mais
tensão à região.
MC: Quanto a isso não tenho dúvidas, porque os EUA estão aumentando a sua
presença militar no Pacífico, no oceano Índico e estão tentando ter o apoio das
Filipinas e de outros países no Sudeste Asiático, como o Japão, a Coreia, Singapura, a
Malásia (que durante muitos anos esteve reticente a juntar-se a esta aliança). Portanto,
Washington está formando uma extensão da Otan na região da Ásia-Pacífico,
direcionada contra a China. Não há dúvidas quanto a isto. E não se vence uma guerra
contra a China. É um país com uma população de 1,4 bilhões de pessoas, com um
número significativo de forças, tanto convencionais como estratégicas. Por isso, com
este confronto entre a Otan e os EUA, de um lado, e a China, do outro, estamos num
cenário de terceira guerra mundial. E toda a gente vai perder esta guerra. Qualquer
pessoa com um entendimento mínimo de planejamento militar sabe que este tipo de
confronto entre superpotências – incluindo o Irã, que é uma potência regional no Médio
Oriente, com uma população de 80 milhões de pessoas – poderá levar-nos a uma
guerra nuclear. E digo isto porque os EUA e os seus aliados implementaram as
chamadas armas nucleares tácticas – mudaram o nome das bombas e dizem que são
inofensivas para os civis, o que é uma grande mentira.
ODiário.Info: Mentira porquê?
MC: Está escrito em todos os documentos que a B61-11 [arma nuclear convencional]
não faz mal às pessoas e planeiam usá-la. Tenho examinado estes planos de guerra
nos últimos oito anos, e posso garantir que estão prontos a ser usados e podem ser
acionados sem uma ordem do presidente dos EUA. Olhe para o que eles designam
“Nuclear Posture Review” de 2001, um relatório fulcral que integra as armas nucleares
no arsenal convencional, sublinhando a distinção entre os diferentes tipos de armas e
apresentando a noção daquilo que chamam “caixa de ferramentas”. E a caixa de
ferramentas é uma coleção de armas variadas, que o comandante na região ou no
terreno pode escolher, onde estão estas B61-11, que são consideradas armas
convencionais. Se quiser posso fazer uma analogia, é a mesma coisa que dizer que
fumar é bom para a saúde. As armas nucleares não são boas para a saúde, mudaram
o rótulo e chamaram–lhes bombas humanitárias, mas têm uma capacidade destruidora
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seis vezes superior à de Hiroxima.
ODiário.Info: Mas a maior parte das pessoas não parece consciente da gravidade
do cenário…
MC: A ironia é que a terceira guerra mundial pode começar e ninguém estará sequer a
par, porque não vai estar nas primeiras páginas. Na verdade, a guerra já começou no
Irã. Têm forças especiais no terreno, instigaram todo este tipo de mecanismos para
desestabilizar a economia iraniana através do congelamento de bens. Há uma guerra
da moeda em curso – isto faz parte da agenda militar. Desestabilizando-se a moeda de
um país desestabiliza-se a sua economia, bloqueiam-se as exportações de petróleo, e
isto antecede a implementação de uma agenda militar. Se eles puderem evitar uma
aventura militar contra o Irã e ocupar o país através de outros meios, fá-lo-ão. É isso
que estão a tentar neste momento. Querem a mudança de regime, o colapso das
petrolíferas, apropriar-se dos recursos do país, e têm capacidade para fazer isto tudo
sem uma intervenção militar, embora alguma possa vir a ser necessária. Mas o Irã é
considerado uma das maiores potências militares da região e basta olharmos para as
análises da sua força aérea, a sua capacidade em mísseis, as suas forças
convencionais que ultrapassam um milhão de homens (entre ativo e reserva), o que
permite que de um dia para o outro consiga mobilizar cerca de metade, ou até mais.
Tendo em conta estes números, os EUA e os seus aliados não conseguem vencer uma
guerra convencional contra o Irã, daí a razão pela qual estão a tentar fazer a guerra
com outros meios, e um desses meios é o pretexto das armas nucleares.
ODiário.Info: Acha que o Ocidente pode lançar um ataque preventivo contra o
Irão mesmo sem provas?
MC: Claro que sim! Olhe para a história dos pretextos para lançar guerras. Olhe para
trás, para todas as guerras que os EUA começaram, a partir do século XIX. O que
fazem sistematicamente é criar aquilo que chamamos incidente provocado para
começar a guerra. Um incidente que lhes permite justificar o início de um conflito por
motivos humanitários. Isto é muito óbvio. Em Pearl Harbor, por exemplo, sabe-se que
foi uma provocação, porque os EUA sabiam que iam ser atacados e deixaram que tal
acontecesse. O mesmo se passou com o incidente no golfo de Tonkin, que levou à
guerra do Vietnã. E agora são vários os pretextos que emergem contra o Irã: as
alegadas armas nucleares são um, outro é o alegado papel nos atentados 11 de
Setembro, pois desde o primeiro dia que acusam o país de apoiar os ataques, a
afirmação mais absurda que podem fazer, pois não existem quaisquer provas. Mas os
media agarram nestas coisas e dizem “sim, claro”.
ODiário.Info: Pode explicar às pessoas de uma forma simples a relação entre
guerra contra o terrorismo e batalha pelo petróleo?
MC: A guerra contra o terrorismo é uma farsa, é uma forma de demonizar os
muçulmanos e é também a criação, através de operações em segredo dos serviços
secretos, de brigadas islâmicas, controladas pelos EUA. Sabemos disso! Estas forças,
ligadas à Al-Qaeda, são uma criação da CIA de 1979. Por isso a guerra contra o
terrorismo é apenas um pretexto e uma justificação para lançar uma guerra de
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conquista. É uma tentativa de convencer as pessoas de que os muçulmanos são uma
ameaça e de que estão a protegê-las e para isso têm de invadir países perigosos,
como o Irã, o Iraque, a Síria e a Coreia do Norte, que perdeu 25% da sua população
durante a Guerra da Coreia, mas, no entanto, continua a ser tida como uma ameaça
para Washington. É absurdo! Os americanos são um pouco como a inquisição
espanhola. Aliás, piores! O que mais me choca é que os EUA conseguem virar a
realidade ao contrário, sabendo que são mentiras e mesmo assim acreditando nelas. A
guerra contra o terrorismo é uma mentira enorme, mas todas as pessoas acreditam e o
mesmo se passava com a inquisição espanhola – ninguém a questionava. As pessoas
conformam-se com consensos e quem assume a posição de que isto não passa de um
conjunto de mentiras é considerado alguém em quem não se pode confiar e
provavelmente perderá o emprego. Por isso esta guerra é contra a verdade, muito mais
séria que a agenda militar. Contra a consciência das pessoas – parece que ninguém
está autorizado a pensar. E depois vêm dizer-nos “Ah, mas as armas nucleares são
seguras para os civis”. E as pessoas acreditam.
ODiário.Info: Será Israel capaz de atacar Irã sem o apoio dos EUA?
MC: Não. Eles podem enviar as suas forças, por exemplo para o Líbano, mas o seu
sistema está integrado no dos EUA e, como o Irã tem mísseis, têm de estar
coordenados com Washington. É uma impossibilidade em termos militares. Em 2008, o
sistema de defesa aérea de Israel foi integrado no dos EUA. Estamos a falar de
estruturas de comando integradas. Quer dizer, Israel pode lançar uma pequena guerra
contra o Hezbollah ou até contra a Síria, mas contra o Irã terá de ser com a intervenção
do Pentágono. Embora tendo uma fatia significativa de militares, Israel tem uma
população de 7 milhões de pessoas e não tem capacidade para lançar uma grande
ofensiva contra o Irã.
*Por Sara Sanz Pinto é jornalista.
Fonte: ODiário.info
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Trabalho doméstico no Brasil
Uma mão de obra cada vez mais velha, escolarizada, escassa e, consequentemente,
mais cara. O trabalho doméstico passa por um lento processo de transformação,
decorrente das mudanças socioeconômicas do país na última década. A tendência
estatística já sugere que contar com uma trabalhadora doméstica em casa será um
“luxo” no Brasil dentro de alguns anos.
A reportagem é de Alexandre Costa Nascimento e publicada pela Gazeta do Povo,
20-02-2012
Na última década, o número de trabalhadoras domésticas cresceu em proporção
menor que a população, segundo estudo realizado pelo instituto de pesquisas Data
Popular a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo a pesquisa, o país tem 6 milhões de trabalhadoras, 3% da população, que
movimentam R$ 43 bilhões por ano – cifra equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB)
de Curitiba.
O rendimento médio da categoria cresceu 43,5% acima da inflação entre 2002 e 2011
– a renda média de todos os trabalhadores subiu 25% –, mas continua abaixo do
salário mínimo. As domésticas com carteira assinada ainda representam apenas 28%
da categoria, e ganham em média R$ 508,17, cerca de 80% do mínimo. As “semcarteira”, 72% das profissionais, recebem somente R$ 351,43, pouco mais da metade
do
piso.
“O trabalho doméstico continua sendo a atividade que mais emprega mulheres no
Brasil, em especial negras e pobres”, aponta a pesquisadora do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea) Luana Simões Pinheiro. Segundo ela, o Brasil ainda não
vive o “sumiço” do trabalho doméstico, mas já é possível observar um acentuado
processo de envelhecimento da força de trabalho. Na última década, a média de idades
das
trabalhadoras
cresceu
de
35
anos
para
39
anos.
“A extinção do trabalho doméstico é um fenômeno que não está muito distante da
gente. Não estão entrando novas trabalhadoras para repor as que se aposentam. As
jovens e meninas de regiões mais pobres têm tido acesso a escolaridade e vão cada
vez mais entrando em outras profissões. Cai a oferta de mão de obra, mas não a
demanda pelo serviço. Em algumas capitais já podemos perceber o reflexo disso nos
salários ou no preço das diárias”, diz a pesquisadora.
A coordenadora do Programa de Promoção da Igualdade de Gênero e Raça no Mundo
do Trabalho da OIT Brasil, Márcia Vasconcelos, avalia que a redução das
desigualdades sociais que ocorre no Brasil é mais lenta em relação às domésticas. “O
trabalho doméstico tem invisibilidade, déficit de direitos e desvalorização. Reage de
maneira mais lenta aos progressos verificados no resto da economia.”
Constituição discrimina a classe
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A discriminação social das trabalhadoras domésticas encontra amparo na própria
Constituição Federal. O artigo 7º da Carta Magna assegura a todos os trabalhadores
brasileiros 34 direitos fundamentais, mas o parágrafo único desse mesmo artigo dá à
categoria dos trabalhadores domésticos somente dez desses direitos. Essa
diferenciação exclui as domésticas de proteções básicas como férias remuneradas, 13º
salário, seguro desemprego, seguro acidente, remuneração por horas extras e limite
máximo
de
jornada
de
trabalho.
Ao longo dos anos alguns direitos foram garantidos com legislação infraconstitucional.
E um projeto de emenda constitucional propõe a exclusão do parágrafo que restringe
os direitos da categoria. “Existe uma resistência da sociedade com o argumento de que
a igualdade de direitos encareceria o trabalho doméstico. É um argumento cheio de
preconceitos, semelhante aos usados pelos escravagistas quando a sociedade
brasileira discutia a abolição no século retrasado”, compara a pesquisadora do Ipea
Luana Simões Pinheiro.
Ascensão por meio do estudo
A evolução social das domésticas vem sendo impulsionada pela elevação do grau de
escolaridade dessas profissionais. O número de trabalhadoras que chegou ao ensino
médio quase dobrou entre 2002 e 2011, passando de 12,7% para 23,3%. Apesar de
níveis ainda baixíssimos, a proporção de empregadas com curso técnico ou superior
cresceu 85%, saltando de 0,7% para 1,3%.
Ana Cristina Timóteo Silva foi uma das trabalhadoras que teve a oportunidade de
trocar a vassoura pelos livros e, posteriormente, pelas seringas. Ela faz um curso
técnico de enfermagem e hoje trabalha no Hospital Evangélico, em Curitiba. “Ninguém
escolhe ser doméstica por sonho. Comecei a trabalhar ainda jovem, com 17 anos, e
tive que abandonar os estudos. Depois me casei, tive filhos e fui adiando o sonho de
voltar a estudar”, conta Ana Cristina, hoje com 42 anos.
“Trabalhei 13 anos com a mesma família, com carteira assinada, e eles me ajudaram a
estudar para ter uma nova profissão. Eles me ajudaram a pagar metade do curso”, diz.
Segundo ela, o sonho de buscar uma nova qualificação ia além da questão financeira.
“Existe a vontade de crescer profissionalmente e melhorar de vida”, avalia.
Mesmo trabalhando no hospital, Ana Cristina resolveu voltar a trabalhar como diarista
há seis meses – justamente para a família que a ajudou com parte do financiamento do
curso. Segundo ela, a soma das duas rendas representa o triplo do que ganhava
apenas como doméstica. “Hoje temos casa própria, um carro financiado, computador e
posso pagar dar à minha filha um estudo melhor”, conta. No Natal, a filha ganhou um
iPad. “Posso dar a ela coisas que jamais tive ou imaginaria ter. A grande mudança foi
possível através do estudo”, diz Ana.
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Perdendo o mundo”: o declínio dos EUA em perspectiva
Noam Chosmky:
“
O declínio dos Estados Unidos entrou, há algum tempo,
em uma nova fase: a do declínio autoinfligido. Desde os anos 70 tem havido mudanças
significativas na economia dos EUA, à medida que estrategistas, estatais e do setor
privado, passaram a conduzi-la para a financeirização e à exportação de plantas
industriais. Essas decisões deram início ao círculo vicioso no qual a riqueza e o poder
político se tornaram altamente concentrados, os salários dos trabalhadores ficaram
estagnados, a carga de trabalho aumentou e o endividamento das famílias também. O
artigo é de Noam Chomsky.
Noam Chosmky - para Al Jazeera fev 2012
Aniversários significativos são comemorados solenemente – o do ataque japonês à
base da Marinha norteamericana de Pearl Harbor, por exemplo. Outros são ignorados,
e podemos sempre aprender importantes lições que eles nos dão de como é possível
seguir mentindo adiante. Na verdade, agora.
No momento, estamos errando em não comemorar o 50° aniversário da decisão do
presidente John F Kennedy de promover a mais assassina e destrutiva agressão do
período pós-Segunda Guerra: a invasão do Vietnã do Sul, e depois de toda a
Indochina, deixando milhões de mortos e quatro países devastados, com perdas ainda
crescentes causadas pela exposição do país aos carcinogênicos mais letais de que se
tem conhecimento, que comprometeram a cobertura vegetal e a produção de
alimentos.
O primeiro alvo foi o Vietnã do Sul. A agressão depois se espalhou para o Norte, e
então para a sociedade remota do nordeste do Laos, até finalmente chegar ao rural
Camboja, que foi bombardeado de tal maneira que chegou ao nível impressionante de
ser alvo de todas as operações aéreas aliadas da região do Pacífico durante a
Segunda Guerra Mundial, incluindo as duas bombas lançadas em Hiroshima e
Nagasaki. Aí, as ordens de Henri Kissinger estavam sendo obedecidas – “qualquer
coisa que voe ou se mova”; uma rara convocação para o genocídio na história.
Pouco disso tudo é lembrado. A maior parte desses massacres é escassamente
conhecida para além dos estreitos círculos de ativistas.
Quando a invasão teve início, há cinquenta anos, a preocupação era tão pouca que
havia poucos esforços de justificação; dificilmente iam além do impassível apelo do
presidente de que “estamos nos opondo, ao redor do mundo, a uma conspiração
monolítica e brutal que opera principalmente em meios disfarçados de expansão de
sua esfera de influência” e se a conspiração consegue realizar seus objetivos no Laos
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e no Vietnã, “os portões estarão amplamente abertos".
Em outro lugar, ele alertou em seguida que “as sociedades leves, complacentes e
autoindulgentes estavam para ser varridas para os escombros da história [e] só a
força... pode sobreviver”, neste caso refletindo a respeito do fracasso da agressão e do
terror estadunidenses em esmagar a independência cubana.
Quando os protestos começaram a crescer, meia dúzia de anos depois, o respeitado
historiador militar e especialista em Vietnã Bernard Fall, nenhum pacifista, previu que “o
Vietnã como
uma
entidade histórica
e
cultural...está ameaçada
de
extinção...[enquanto]...a sua área rural literalmente morre sob as explosões da maior
máquina militar jamais em operação numa área deste tamanho”. Ele estava, mais uma
vez, referindo-se ao Vietnã do Sul.
Quando a guerra acabou oito horrendos anos depois, a opinião dominante estava
dividida entre aqueles que a descreviam como uma “causa nobre” que poderia ter sido
vencida com mais dedicação e o extremo oposto, os críticos, para quem se tratou de
“um erro” que se provou altamente custoso. Por volta de 1977, o Presidente Carter
chamou pouca atenção quando explicou que “não havia dívida” nossa com o Vietnã
porque “a destruição foi mútua”.
Há lições importantes em tudo isso para hoje, mesmo deixando de lado os fracos e
derrotados que são chamados para responder por seus crimes. Uma lição é que para
entender o que está acontecendo devemos buscar não apenas criticar os
acontecimentos no mundo real, frequentemente dispensados pela história, mas
também aquilo em que os líderes e a opinião da elite acreditam, mesmo que com tintas
de fantasia. Uma outra lição é que, ao lado dos frutos da imaginação fabricados para
aterrorizar e mobilizar o público (e talvez acreditados por aqueles enganados pela
própria retórica), há também planejamento geoestratégico baseado em princípios que
são racionais e estáveis em longos períodos, porque estão enraizados em instituições
estáveis e na agenda destas. Isso também é verdade no caso do Vietnã. Eu voltarei a
isso, só destacando aqui que os elementos persistentes na ação estatal são
geralmente bastante opacos.
A guerra do Iraque é um caso instrutivo. Ela foi vendida para um público aterrorizado
com as ameaças usuais da autodefesa contra uma formidável ameaça à sobrevivência:
a “única questão” que George W. Bush e Tony Blair declararam foi se Saddam Hussein
iria encerrar o seu programa de desenvolvimento de armas de destruição em massa.
Quando a única questão recebeu a resposta errada, a retórica do governo mudou
rapidamente para o nosso “anseio por democracia”, e a opinião pública educada seguiu
devidamente o curso; o de sempre.
Mais tarde, à medida que a escalada da derrota no Iraque se tornou difícil de esconder,
o governo quietamente concedeu o que estava claro para todo mundo. Em 2007-2008,
a administração anunciou oficialmente que um acordo final deve assegurar a
permanência de bases militares dos EUA e o direito de operações de combate, no país,
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e deve privilegiar os investidores estadunidenses na exploração de seu rico sistema
energético – demandas que mais tarde foram relutantemente abandonadas diante da
resistência iraquiana. E tudo ficou bastante escondido da maioria das pessoas.
Padronizando o declínio americano
Com essas lições em mente é útil dar uma olhada ao que é destacado na manchete
dos maiores jornais de política e opinião, hoje. Peguemos a mais prestigiada das
publicações do establishment, Foreign Affairs. A manchete estrondosa da capa de
dezembro de 2011 estampava em negrito: “A América acabou?”.
O artigo da capa pedia “corte de gastos” nas “missões humanitárias” no exterior, que
estavam consumindo a riqueza do país, para impedir o declínio americano, que é o
maior tema nos discursos do ambiente de negócios, que frequentemente vem
acompanhado do corolário de que o poder está mudando para o Leste, para a China e
(talvez) a Índia.
Agora os principais artigos são a respeito de Israel e Palestina. O primeiro, de autoria
de dois altos oficiais israelenses, é intitulado “O Problema é a Rejeição Palestina”: o
conflito não pode ser resolvido porque os palestinos se recusam a reconhecer Israel
como Estado Judeu – então em conformidade com a prática diplomática padrão:
estados são reconhecidos, mas não seus setores privilegiados. A demanda é
dificilmente outra coisa que um novo dispositivo para deter a ameaça de solução
política para os assentamentos ilegais que minaria os objetivos expansionistas
israelenses.
A posição oposta é defendida por um professor estadunidense tem o título “O Problema
é a Ocupação”. No subtítulo se lê: “Como a Ocupação está Destruindo a Nação”. Qual
nação? A de Israel é claro. Ambos os artigos aparecem com o título, em cache: “Israel
sitiado”.
A edição de janeiro de 2012 lança ainda um outro chamamento para o bombardeio do
Irã, agora, antes que seja tarde demais. Alertando contra “os perigos da dissuasão”, o
autor sugere que “céticos com relação à ação militar falham em avaliar o verdadeiro
perigo que um Irã com armas nucleares imporia aos interesses dos EUA no Oriente
Médio e além. E em suas previsões sombrias imaginam que a cura pode ser pior do
que a doença – quer dizer, que as consequências de um ataque estadunidense ao Irã
seriam tão ruins ou piores do que se o país conseguisse levar a cabo suas ambições
nucleares. Mas essa é uma suposição falsa. A verdade é que um ataque militar visando
a destruir o programa nuclear iraniano, se for feito com cuidado, poderia significar para
a região e para o mundo uma ameaça muito real e melhorar dramaticamente a
segurança nacional dos Estados Unidos no longo prazo”.
Outros argumentam que os custos seriam altos demais e no limite alguns chegam a
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dizer que um ataque [ao Irã] violaria o direito internacional – como o fazem os
moderados, que regularmente lançam ameaças de violência, em violação à Carta das
Nações Unidas.
Vamos rever cada uma dessas preocupações dominantes
O declínio americano é real, embora a visão apocalíptica reflita a percepção bastante
familiar da classe dominante de que algum controle menor ou total implica o desastre
total. A despeito desses lamentos piedosos, os EUA persevera como poder dominante
mundial por larga margem, e não há competidores à vista, não apenas em dimensões
militares, a respeito das quais os EUA reina supremo.
A China e a Índia registraram crescimento rápido (embora altamente desigual), mas
permanecem países muito pobres, com problemas internos enormes não enfrentados
pelo Ocidente. A China é o maior centro industrial do mundo, mas majoritariamente
como uma linha de montagem para as potências industriais avançadas, em sua
periferia, e para as multinacionais ocidentais. É provável que isso mude com o tempo.
A indústria em regra provê as bases para a inovação e a invenção, como vem
ocorrendo às vezes, na China. Um exemplo que impressionou os especialistas
ocidentais foi a tomada chinesa da liderança no mercado crescente de painéis solares,
não apenas com base na mão de obra barata, mas no planejamento coordenado e,
crescentemente, na inovação.
Mas os problemas que a China enfrenta são sérios. Alguns são demográficos,
reportados na Science, o líder dos semanários estadunidenses de divulgação científica.
O estudo mostra que a mortalidade caiu bruscamente na China durante os anos
maoístas, “principalmente um resultado do desenvolvimento econômico e das
melhorias nos serviços educacionais e de saúde, especialmente ao movimento de
higiene pública que resultou num golpe drástico à mortalidade por doenças
infecciosas”. Esse progresso acabou com o início das reformas capitalistas no país, há
30 anos, e a taxa de mortalidade desde então tem aumentado.
Além disso, o crescimento econômico chinês recente contou substancialmente com um
“bônus demográfico”, uma grande população em idade economicamente ativa. “Mas a
janela para o uso desse bônus pode fechar logo”, com um “impacto profundo no
desenvolvimento”: “o excesso de mão de obra barata, que é um dos maiores fatores de
condução do milagre econômico chinês não estará mais disponível”. A demografia é
apenas um dos muitos problemas sérios pela frente. No que concerne a Índia, os
problemas são ainda mais graves.
Nem todas as vozes proeminentes anteveem o declínio americano. Na mídia
internacional, não há nada mais sério e respeitável que o Financial Times. O jornal
recentemente dedicou uma página inteira às expectativas otimistas de que nova
tecnologia para extrair combustível fóssil norteamericano pode fazer com que os EUA
se torne energeticamente independente, mantendo portanto sua hegemonia por um
século. Não há menção ao tipo de mundo que os EUA comandará nesse
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acontecimento feliz, mas não por falta de evidência.
Quase ao mesmo tempo, a Agência Internacional de Energia reportou que, com o
aumento rápido das emissões de carbono dos combustíveis fósseis, o limite de uso
seguro será atingido por volta de 2017, se o mundo continuar no atual curso. “A porta
está fechando”, disse o economista-chefe da AIE, e em muito breve “fechará de vez”.
Pouco antes, o Departamento de Energia dos EUA informou que as imagens mais
recentes das emissões de dióxido de carbono, com “a elevação para o maior índice já
registrado”, chegaram num nível mais elevado do que os piores cenários antecipados
pelo Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC). Isso não é surpresa para
muitos cientistas, inclusive os do programa do MIT para mudança climática, que por
anos alertou que os prognósticos do IPCC eram conservadores demais.
Esses críticos das previsões do IPCC receberam virtualmente atenção pública
nenhuma, ao contrário dos grupos denegadores do aquecimento global, que são
apoiados pelo setor corporativo, juntamente a imensas campanhas de propaganda que
tem levado os americanos para fora do espectro internacional dessas ameaças. O
apoio das corporações também se traduz diretamente no poder político. A denegação é
parte do catecismo que deve ser entoado pelos candidatos republicanos na ridícula
campanha eleitoral em curso, e no Congresso eles são poderosos o suficiente para
abortar até investigações sobre o efeito do aquecimento global, deixando de lado
qualquer ação séria a respeito. Numa palavra, o declínio americano pode talvez ser
interditado se abandonarmos a esperança pela sobrevivência decente, prognóstico
também bastante real, dado o equilíbrio de forças no mundo.
“Perdendo” a China e o Vietnã
Deixando de lado essas coisas desagradáveis, um olhar de perto para o declínio
americano mostra que a China na verdade joga um grande papel nele, tanto como o
jogava há 60 anos. O declínio que agora gera tanta preocupação não é um fenômeno
recente. Ele remonta ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA tinha metade
da riqueza do mundo e dispunha de níveis globais de segurança incomparáveis. Os
estrategistas políticos estavam naturalmente bastante conscientes dessa enorme
disparidade de poder e pretendiam mante-la assim.
O ponto de vista básico foi apresentado com admirável franqueza num grande
documento de 1948. O autor era um dos arquitetos da Nova Ordem Mundial da época,
o representante da equipe de Planejamento Político do Departamento de Estado dos
EUA, o respeitado estadista e acadêmico George Kennan, um pacifista moderado,
dentre os estrategistas. Ele observou que o objetivo político central era manter a
“posição de disparidade” que separava a nossa enorme riqueza da pobreza dos outros.
Para alcançar esse objetivo, advertiu, “nós deveríamos para de falar de objetivos vagos
e... irreais, como direitos humanos, a elevação do padrão de vida e a democratização”,
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e devemos “lidar com conceitos estritos de poder”, não “limitados por slogans
idealistas” a respeito de “altruísmo e o benefício do mundo”.
Kennan estava se referindo especificamente à Ásia, mas as observações dele se
generalizam, com exceções, aos participantes do atual sistema de dominação global
dos EUA. Ficou bastante claro que os “slogans idealistas” deveriam ser apresentados
sobretudo quando dirigidos aos outros, inclusive às classes intelectualizadas, das quais
se esperava que os disseminassem.
O plano de Kennan ajudou a formular e a implementar a tomada de controle dos EUA
do Hemisfério Oeste, do Extremo Leste e das regiões do ex-império britânico (incluindo
os incomparáveis recursos energéticos do Oriente Médio), e o quanto foi possível da
Eurásia, sobretudo seus centros comerciais e industriais. Esses não eram objetivos
irreais, dada a distribuição do poder. Mas o declínio foi então definido de vez.
Em 1949, a China declarou independência, um evento conhecido no discurso do
Ocidente como “a perda da China” – nos EUA, com algumas recriminações
amarguradas e o conflito interpretativo a respeito de quem tinha sido o responsável por
essa perda. A terminologia é reveladora. Só é possível perder o que em algum
momento se teve. A assunção tácita era que os EUA tinham a China, por direito,
juntamente à maior parte do resto do mundo, tanto como os estrategistas do pósguerra pensavam.
A “perda da China” foi o primeiro grande passo do “declínio americano”. Foi o que teve
grandes consequências políticas. Uma delas foi a decisão imediata de apoiar o esforço
francês de reconquista da sua ex-colônia da Indochina, para que esta também não
fosse “perdida”.
A Indochina mesma não era motivo de preocupação maior, a despeito das afirmações
de suas riquezas naturais por parte do presidente Eisenhower e outros. A preocupação
maior era antes com a “teoria do efeito dominó”, a qual é frequentemente ridicularizada
quando os dominós não caem, mas permanece um princípio regulador da política,
porque é bastante racional. Para adotar a versão Henri Kissinger dele, uma localidade
que cai fora do controle pode se tornar um “vírus” que irá “contagiar”, induzindo outros
a seguirem o mesmo caminho.
No caso do Vietnã, a preocupação era que esse vírus do desenvolvimento
independente pudesse infectar a Indonésia, que de fato é rica em recursos. E isso pode
levar o Japão – o “superdominó”, como o proeminente historiador da Ásia John Dower
chamava – a “acomodar” uma Ásia independente como seu centro tecnológico e
industrial num sistema que escaparia do alcance do poder dos EUA. Isso significaria,
com efeito, que o EUA tinha perdido a fase Pacífico da Segunda Guerra, na qual lutou
para tentar impedir que o Japão estabelecesse uma Nova Ordem na Ásia.
O modo de lidar com um problema desse é claro: destruir o vírus e “inocular” aqueles
que podem ser infectados. No caso do Vietnã, a escolha racional era destruir qualquer
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esperança de desenvolvimento independente bem sucedido e impor ditaduras brutais
nos arredores. Essas tarefas foram levadas a cabo com sucesso – embora a história
tenha sua própria astúcia, e algo similar ao que foi temido desde então tenha se
desenvolvido no Leste da Ásia, a maior parte para consternação de Washington.
A vitória mais importante das guerras da Indochina deu-se em 1965, quando um golpe
de estado militar, com o apoio dos EUA, liderado pelo general Suharto significou crimes
massivos comparados pela CIA aos de Hitler, Stalin e Mao. A “assombrosa matança
massiva”, como descreveu o New York Times, foi acuradamente reportada nos meios
dominantes, e com euforia desenfreada.
Foi um “brilho de luz na Ásia”%
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Nas mãos de poucos, escassez de sementes preocupa fazendeiros
Com o avanço da demanda, empresas responsáveis pela comercialização estão
cancelando os pedidos e oferecendo produtos de qualidade inferior para não deixar o
produtor na mão.
Produtores de milho em Mato Grosso temem atraso no plantio ou perda de
produtividade em decorrência da falta de sementes. Com o avanço da demanda,
empresas responsáveis pela comercialização estão cancelando os pedidos e
oferecendo produtos de qualidade inferior para não deixar o produtor na mão.
A reportagem foi publicada pelo MT Agora, 12-02-2012 e reproduzida pelo boletim da
AS-PTA.
Presidente da Associação do Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso
(Aprosoja/MT), Carlos Henrique Fávaro, explica que houve aumento até abusivo no
preço da sementes, mas que isso é consequência natural do mercado devido ao
crescimento na demanda. Segundo ele o que preocupa, na verdade, é o não
cumprimento dos compromissos na entrega das encomendas e possível atraso.
“Até mesmo os levantamentos de safra estão incertos porque os produtores estão de
pendendo das sementeiras. Preocupação é se as entregas serão ou não feitas a
tempo”. Data recomendável para semear o milho é 20 de fevereiro, mas o analista da
CONAB, Petrônio Sobrinho acredita que esta data será ultrapassada, mesmo que os
agricultores corram riscos de perder na produtividade.
Gerente do sindicato rural de Campo Novo do Parecis (a 384 km de Cuiabá), Antônio
de La Bandeira, explica que os produtores estão reclamando principalmente da troca
na hora de entregar os pedidos. “Como estão esgotando as sementes de primeira
linha, as empresas oferecem produtos de qualidade inferior para garantir a venda e os
produtores aceitam para não perder tudo”.
Fávaro revela que, como se prepararam para o plantio, com a compra de insumos e
planejamento, os produtores não podem perder o investimento e aceitam a semente,
mesmo que não seja a que foi pedida. De acordo com a Agroceres Sementes
[comprada pela Monsanto], que atende o Estado, os clientes e distribuidores estão
sendo abastecidos conforme o cronograma, sendo que o planejamento é feito com pelo
menos 1 ano de antecedência. Segundo a assessoria, a região de Mato Grosso
registrou aumento no volume de sementes em cerca de 30% em relação à safra
passada e a empresa desconhece a falta dos híbridos.
ja em alagoas..
Sementes Crioulas Avançam em Alagoas
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O agricultor Sebastião Damasceno, de Santana do Ipanema, se transformou num dos
símbolos do movimento chamado em Alagoas de “Sementes da Resistência”. Ele
participa de praticamente todos os encontros de agricultores familiares, feiras e
exposições exibindo uma coleção de sementes crioulas que inclui desde variedades
mais comuns de feijão e milho plantadas em Alagoas, até raridades como variedades
de algodão e fava que praticamente não são mais cultivadas no Estado. Por onde
passa, ele explica que as sementes que carrega, além de adaptadas às condições de
clima e solo do Estado, fazem parte das culturas e tradições dos agricultores
alagoanos.
A reportagem é do jornal Gazeta de Alagoas, 03-02-2012 e reproduzidada pelo
boletim da AS-PTA.
Mas engana-se quem pensa que Damasceno participa de um movimento “romântico”
ou saudosista. Ao contrário. Os produtores querem na verdade é melhorar de vida e de
renda com a seleção e plantio das próprias sementes. E estão conseguindo avanços
importantes. Este ano, pela primeira vez na história, os gastos públicos com a
aquisição de sementes crioulas vão superar os gastos com a compra de sementes
comerciais.
A Secretaria de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário prevê gastos da
ordem de R$ 6,7 milhões para o programa de aquisição de sementes. A expectativa é
que os recurso sejam suficientes para a aquisição, através de pregão eletrônico, de
cerca de mil toneladas de sementes selecionadas de milho, feijão, sorgo e mamona.
“Além dessas sementes devemos contar com o reforço da Conab (Companhia Nacional
de Abastecimento”, explicou recentemente a reportagem do Gazeta Rural o secretário
Jorge Dantas, da Agricultura.
E o reforço veio. E veio além do esperado, até mesmo pelos mais otimistas dos
agricultores. O superintendente da Conab em Alagoas, Eliseu Rego, antecipou ao
caderno Gazeta Rural que este ano a companhia tem um orçamento já assegurado de
R$ 6 milhões para a aquisição de sementes crioulas em Alagoas. “Serão cerca de 1,5
mil toneladas de sementes de milho e feijão”, assegura.
Nos últimos dois anos, a Conab vem reforçando o programa de distribuição de
sementes do Estado. Em 2011 o reforço foi de cerca de 300 toneladas de feijão
trazidas de outros Estados. Esse ano além de um volume maior, a diferença é que as
sementes serão compradas e distribuídas em Alagoas, através de parcerias com a
Seagri e com organizações de agricultores familiares. “Temos cinco cooperativas
cadastradas para vender as sementes”, explica Eliseu.
Uma dessas organizações que serão contempladas com o programa da Conab em
Alagoas é a Cooperativa dos Bancos Comunitários de Sementes, Coopabacs, sediada
em Delmiro Gouveia. Mardônio Alves da Graça que tomou conhecimento da novidade
pela reportagem do Gazeta Rural, adiantou outra importante novidade: duas
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organizações de Alagoas acabam de se credenciar no Ministério do Desenvolvimento
Social para vender sementes.
“O governo federal avançou nessa questão e o MDS abriu pela primeira vez uma
chamada pública no valor de R$ 10 milhões para a aquisição de sementes a
agricultores familiares. No país inteiro foram credenciadas sete organizações. Destas,
duas são de Alagoas, a própria Coopabacs e a Agra (Associação dos Agricultores
Agroecológicos de Igaci)”, explica o presidente da Coopabacs, Mardônio Alves da
Graça.
O projeto no MDS, acredita Mardônio, contempla a aquisição de 192 mil kg de
sementes de feijão, mais de 60 mil kg de sementes de milho produzidas por pouco
mais de 200 agricultores. “Esse projeto que tem um custo de R$ 870 mil vai beneficiar
mais oito mil famílias de agricultores familiares em Alagoas”, adianta.
Para Mardônio o reconhecimento do governo federal, ao destinar verbas para a
aquisição das sementes crioulas, reforça o movimento dos bancos comunitários de
sementes no Estado. Agora ele defende que o governo estadual faça o mesmo.
“Temos uma boa parceria com o governo, que hoje funciona na capacitação dos
agricultores e na formação dos bancos comunitários de sementes e ferramentas. Mas
defendemos que o Estado avance e também passe a adquirir sementes produzidas por
agricultores familiares”, enfatiza.
O presidente da Coopabacs sugere que o governo de Alagoas adote no programa de
sementes a mesma política federal para a compra de produtos da merenda escolar.
“Poderíamos estabelecer, a partir de 2013, uma vez que esse ano não é mais possível,
que no mínimo 30% dos recursos do programa de sementes do Estado sejam
destinados a aquisições de agricultores familiares do próprio Estado. Com isso, vamos
garantir o reforço no programa e uma maior circulação de riquezas no nosso Estado”,
destaca
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EUA: crescem os "acampamentos da miséria"
A BBC visitou nos Estados Unidos alguns acampamentos de sem-teto, cada vez mais
numerosos no país desde o início da crise econômica que explodiu em 2008.
Da BBC Brasil
Dados oficiais apontam que cerca de 47 milhões de americanos vivem abaixo da linha
pobreza e este número vem aumentando.
Atualmente há 13 milhões de desempregados, 3 milhões a mais do que quando Barack
Obama foi eleito presidente, em 2008.
Algumas estimativas calculam que cerca de 5 mil pessoas se viram obrigadas nos
últimos anos a viver em barracas em acampamentos de sem-teto, que se espalharam
por 55 cidades americanas.
O maior deles é o de Pinella Hope, na Flórida, região mais conhecida por abrigar a
Disney World. Uma entidade católica organiza o local e oferece alguns serviços aos
habitantes, como máquinas de lavar roupa, computadores e telefones.
Muitos acampamentos são organizados e fazem reuniões para distribuição de tarefas
comunitárias. Para alguns com poucas perspectivas de encontrar trabalho, as barracas
são habitações semi-permanentes.
Mofo
Várias destas pessoas tinham vidas confortáveis típicas de classe média até pouco
tempo atrás. Agora deitam sobre travesseiros tão mofados quanto suas cobertas, em
um inverno no qual as temperaturas baixam a muitos graus negativos.
"Esfregamos literalmente nossos rostos no mofo toda noite na hora de dormir", diz
Alana Gehringer, residente de um acampamento no Estado de Michigan, ao programa
Panorama da BBC.
O agrupamento de 30 barracas se formou em um bosque à beira de uma estrada, no
limite do povoado de Ann Arbor. Não há banheiros, a eletricidade só está disponível na
barraca comunitária onde os residentes se reúnem ao redor de uma estufa de madeira
para espantar o frio.
O gelo se acumula nos tetos das barracas e a chuva frequentemente as invade.
Mesmo assim, cada vez pessoas querem morar ali.
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A polícia, hospitais e albergues públicos ligam com frequência perguntando se podem
enviar pessoas ao acampamento.
"Na noite passada, por exemplo, recebemos uma ligação dizendo que seis pessoas
não tinham vaga no albergue. Recebemos de 9 a 10 telefonemas por noite", diz Brian
Durance, um dos organizadores do acampamento.
A realidade dos abrigados da Flórida e de Michigan é a mesma em vários lugares.
Na segunda-feira, Obama revelou planos de aumentar os impostos sobre os mais ricos.
"Queremos que todos tenham uma oportunidade justa."
O presidente norte-americano mencionou os que "lutam para entrar na classe média".
Em Pinella's Hope, em Arbor e em outros dezenas de locais no país, além dos que
querem entrar na classe média, há os que foram expulsos dela pela crise e que
desejam voltar.
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China alerta que falta de água ameaça sua economia
Leslie Hook - Financial Times
As autoridades chinesas emitiram um grave aviso em relação à escassez de água
No alerta, elas advertem que a situação piora a cada dia que passa e que mais de
dois terços das cidades do país estão afetados
As autoridades chinesas emitiram um grave aviso em relação à escassez de água. No
alerta, elas advertem que a situação piora a cada dia que passa e que mais de dois
terços das cidades do país estão afetados.
A segunda maior economia do mundo está lutando para enfrentar os custos da
degradação ambiental que vem acompanhando o crescimento econômico. O
agravamento da escassez e da poluição da água representa uma crescente ameaça ao
desenvolvimento econômico e social, disse ontem Hu Siyi, vice-ministro de Recursos
Hídricos.
"As restrições das nossas fontes de água disponíveis ficam mais aparente a cada dia",
disse Hu. "A situação é extremamente séria em diversas áreas. Com o excesso de
desenvolvimento, o uso da água ultrapassou a capacidade de nossos recursos
naturais."
"Se não adotarmos medidas fortes e firmes, será difícil reverter as graves escassezes e
o agravamento diário da situação da água", acrescentou.
Pequim tentou lidar com a questão por meio de políticas que limitam o consumo,
controlam a poluição e aumentam a monitoração de canais remotos. O governo
também investiu enormes somas de dinheiro em conservação de água e sistemas de
irrigação e gerenciamento, e planeja gastar 4 trilhões de yuans (US$ 638 bilhões) no
setor ao longo dos próximos dez anos.
Ma Jun, um ativista ambiental e especialista em água, afirma que as políticas do
governo têm ido na direção certa, mas fracassaram em contar a crescente demanda.
"Nós construímos todas essas represas, estamos perfurando cada vez mais fundo para
atingir aquíferos, muitas cidades estão construindo projetos de desvio de água. Sob
certos aspectos, estamos atingindo nossos limites em termos de suprimento de água",
disse Ma.
Um derramamento de metais pesados no rio Longjiang, no sul, recentemente pôs em
evidência os desafios que o governo tem diante de si enquanto tenta resolver os
problemas de poluição da água.
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O derramamento de cádmio, que foi encoberto pelas autoridades locais, contaminou
mais de 320 quilômetros do rio e tornou-se um grande assunto da mídia. Dois terços
das cidades da China têm falta de água, quase 300 milhões de habitantes rurais não
dispõem de acesso a água potável e dois terços dos lagos do país apresentam
deficiências químicas causadas por poluição, de acordo com estimativas
governamentais.
Ambientalistas afirmam que muitas das políticas para a água tiveram impacto limitado,
devido à dificuldade em fazer a lei ser cumprida no interior, onde autoridades locais
podem dar preferência ao crescimento do produto interno bruto - algo que há muito
tempo é levado em consideração para promoções oficiais - em detrimento do respeito
às diretrizes ambientais.
Num gesto raro para uma autoridade chinesa, Hu reconheceu algumas dessas
limitações. "Se as nossas fracas políticas originais de administração de recursos
hídricos forem mantidas, será difícil cumprir as urgentes demandas por água que são
necessárias para melhorar a condição de vida das pessoas e para o desenvolvimento
econômico", ele disse.
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EEUU 300 mil agricultores presentan una denuncia contra MONSANTO
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Agricultores 300k esperar demanda en contra de Monsanto
Publicado: 15 de febrero 2012, 00:47
Un activista anti-OMG tiene una bolsa que contiene “MON 810″, una variedad de maíz
modificado genéticamente (maíz) desarrollada por Monsanto. (AFP Photo / Eric
Cabanis)
Alrededor de 300.000 agricultores orgánicos pensar que Monsanto, el gigante de la
biotecnología conocida por la modificación genética de trabajo hecho a mano de la
madre naturaleza con fines de lucro y empuje sobre los pequeños todo el tiempo, es
bastante
cutre.
Ahora, un juez de Nueva York está debatiendo si los métodos cuestionables de
Monsanto
se
presentará
ante
un
jurado.
Naomi Buchwald el juez de la Corte del Distrito Sur de Nueva York dice que va a tomar
una decisión el 31 de marzo en cuanto a si una demanda judicial emprendida en contra
de
la
mega-corporación
Monsanto
debe
ir
a
juicio.
El año pasado, 270.000 agricultores orgánicos de alrededor de 60 granjas familiares
trataron de tomar la empresa Monsanto a los tribunales por cuestiones relacionadas
23
con una semilla genéticamente
modificada ideada por la empresa.
No sólo las explotaciones más pequeñas que se trate sobre la forma en que las
semillas habían sido manufacturados transportados por el viento y la criatura por igual
en sus propias plantaciones, pero el mayor problema quizá fue que Monsanto fue la
presentación
de
demandas
contra
los
agricultores
mismos.
Monsanto fue después de que cientos de agricultores en caso de infracción de su
semilla patentada después de las auditorías revelaron que sus granjas había contenido
su producto-como resultado de la polinización de rutina de los animales y los actos de
la naturaleza. Incapaz de pagar una defensa adecuada, que compiten las pequeñas
fincas
han
sido
adquiridas
por
la
empresa
en
masa.
Como resultado de ello, Monsanto vio sus ganancias aumentarán en los cientos de
millones
en
los
últimos
años
como
resultado.
Entre 1997 y 2010, Monsanto abordado 144 granjas orgánicas con las demandas e
investigado cerca de 500 plantaciones por año durante ese período, con un
denominado
“Policía
de
la
semilla.”
Los agricultores han estado preocupados de que a menos que Monsanto está detenido,
su reinado sobre la agricultura en el mundo superará todo lo imaginable.
Ellos están buscando protección preventiva de esos juicios cuestionables y el mes que
viene el juez Buchwald se pesan sobre si el asunto debe ir a juicio.
Su honor recientemente escuchó los argumentos orales sobre la petición de Monsanto
para desestimar la causa, que la empresa espera ganar al cese de los cargos que se
por un total de 83 demandantes que representan ahora más de 300.000 afiliados
orgánicos
de
granja
empresas.
El equipo legal de los pequeños agricultores a tiempo también ofreció sus argumentos.
“Las amenazas de Monsanto y el abuso de los agricultores familiares se detiene
aquí”, dice Jim Gerritsen, presidente de los Productores de Semillas Orgánicas y la
Asociación
de Comercio.
“La contaminación genética de Monsanto de semillas orgánicas y los cultivos orgánicos
termina ahora. Los estadounidenses tienen el derecho a elegir en el mercado – para
decidir qué tipo de comida que va a alimentar a sus familias – y estamos tomando esta
acción
en
su
nombre
para
proteger
ese
derecho
a
elegir
“.
Isabel Archerd, el director de un alimento Minneapolis cooperativa, añade en apoyo de
los agricultores para el New York Times “, el polen y el ADN no jugar con las reglas de
la USDA.” A pesar de cientos de miles de agricultores se sienten de la misma manera,
se va a tener un juez para decidir el siguiente paso en el caso.
Desde allí, sin embargo, las cosas podrían ensuciarse. Michael Taylor, un ex abogado
del Departamento de Agricultura de EE.UU. y el grupo de presión de Monsanto ha sido
nombrado recientemente a un papel del gobierno federal como el comisionado adjunto
de alimentos en los Estados Unidos Food and Drug Administration (FDA).
Desde entonces, la FDA ha rechazado las peticiones para etiquetar los productos
24
modificados genéticamente como tales a pesar de las demandas de los grupos de
protección al consumidor.
25
Vendas globais de orgânicos sobem 9,2%
As vendas globais de produtos orgânicos subiram 9,2% em 2010 diante da
demanda mais forte dos Estados Unidos, França e Alemanha
As vendas globais de produtos orgânicos subiram 9,2% em 2010 diante da demanda
mais forte dos Estados Unidos, França e Alemanha. Foram comercializados US$ 59,1
bilhões, em relação aos US$ 54,1 bilhões de 2009, informou a Federação Internacional
dos Movimentos de Agricultura Orgânica, entidade sediada em Bonn, na Alemanha e
que possui 750 membros, em 116 países. Os produtores rurais desse tipo de
agricultura evitam usar pesticidas sintéticos e fertilizantes.
"O mercado para os produtos orgânicos continua a crescer", disse a entidade, com
sede em Bonn, que costuma divulgar os dados com atraso de um ano. "Os primeiros
dados disponíveis para 2011 mostram mais avanços".
A área plantada com sementes orgânicas praticamente não sofreu variações - 37
milhões de hectares globalmente.
Os EUA foram o principal mercado destes produtos em 2010, com vendas de US$ 26,7
bilhões. A Alemanha teve a segunda maior movimentação comercial no ano, com
vendas de 6,02 bilhões de euros e a França com 340 milhões de euros movimentados.
26
Dilemas humanos perante a crise econômica:
perspectivas
Escrito por Guilherme C. Delgado
Terça, 14 de Fevereiro de 2012
Pensar que a vida humana em sociedade depende de maneira crescente
do funcionamento do sistema econômico é uma idéia que chega a provocar
medo, especialmente em momentos de crise funcional ou estrutural da
própria economia. Como essas situações críticas ocorrem cada vez mais
freqüentemente e de maneira profunda, provavelmente temos problemas de
fundamentos não devidamente enfrentados.
Veja-se no receituário aviado esta semana pela União Européia para os
novos ‘ajustes’ impostos a Grécia: corte de valores do salário mínimo, das
aposentadorias e pensões e demissão expressiva de funcionários públicos,
para uma economia que já carrega o mais alto nível de desemprego da
Europa, depois de quatro anos de decréscimo da atividade econômica. Tudo
isso é imposto, sob pena de exclusão da zona do euro, pela União Européia
e, indiretamente, pela própria economia mundial na sua conformação atual.
Implícita a essa punição aos gregos, há uma curiosa captura teológica da
tese do sacrifício purgatório, mas de maneira completamente invertida do
seu significado cristão. A cruz na qual o povo grego está sendo pregado é a
mesma que os romanos utilizaram para desmoralizar publicamente os
rebeldes do império – exemplo de crueldade exemplar para punir com morte
dolorosa os ‘criminosos’, segundo a visão de Roma. Esse sacrifício impõe
escravização e morte e nada tem a ver com a experiência de liberdade,
Ressurreição e plenitude da vida que é a resposta de Jesus Cristo à cruz
romana.
O exemplo da Grécia é apenas um caso particular de uma situação mais
geral, que em pleno século XXI assume uma densidade nunca dantes
verificada na história do capitalismo dos últimos 250 anos. Uma proporção
grande demais dos 7 bilhões de seres humanos em todo o mundo depende
do funcionamento da economia mercantil para produzir e reproduzir
condições essenciais à vida humana em sociedade. Moradias, alimentos,
vestuário, água potável, terras, saúde e educação, convertidos em bens
mercantis. Dependem de empregos, que em última instância provêem
dinheiro – meio de troca para suprir necessidades. Observe-se que no
século 21 a dependência da reprodução da vida humana em relação ao
funcionamento da economia capitalista é infinitamente maior do que fora nos
anos 30 do século passado.
Necessidades humanas básicas quando convertidas em mercadorias de
consumo de massa impõem à economia política exigências éticas que são
completamente estranhas ao utilitarismo social, fundamento ético da
27
economia capitalista desde Adam Smith até os nossos dias. E não basta,
como propunha Keynes na sua obra clássica, uma agenda de justiça social
para além da sua ‘Teoria Geral’. Hoje há que se pensar a “idéia da justiça” e
da liberdade no cerne do desenvolvimento humano, a exemplo do
economista indiano Amartya Sen, sob pena de reproduzirmos uma
contradição insanável no processo de crescimento material da economia
relativamente às condições de cidadania da maioria da população.
Por outro lado, a dinâmica real de crescimento do capital financeiro em
escala global e sua absoluta hegemonia nos planos econômico e político
nos Estados centrais do sistema mundial obstam a concretização de limites
políticos à completa liberalidade de acumulação e circulação desse capital.
Em tais condições, crises sucessivas de caráter estritamente financeiro,
como foi o caso das hipotecas imobiliárias nos EUA em 2008 e atualmente a
crise de endividamento dos países menos desenvolvidos da zona do euro,
convertem-se rapidamente em problemas de desemprego em massa, com
alto potencial de contaminação para a economia mundial. Em face desse
risco iminente, a solução das crises financeiras tem sido pela via da
‘socialização das perdas’, sem afetar e responsabilizar seriamente os
promotores do super-endividamento das famílias.
Os remédios contra o desemprego, a instabilidade e a desigualdade
econômica que emergiram nos anos 30 e 40 do século passado, de
inspiração keynesiana – planejamento governamental do investimento,
“Estado do bem Estar”, estrito controle das operações monetário-financeiras
pelos Bancos Centrais - continuam válidos para economias nacionais, mas
impotentes no plano global. Mesmo nas economias nacionais, estão sob
intenso ataque dos arautos do capital e do dinheiro plenamente liberados.
Do exposto parece-nos evidenciada a necessidade de reconstrução das
próprias bases da economia política contemporânea, no contexto da qual a
política social adquiriria centralidade, no sentido da garantia das condições
de reprodução da vida humana em sociedade. Isto certamente só é possível
sob a égide de um sistema econômico protegido da instabilidade intrínseca
da acumulação financeira. Tais assertivas soam evidentemente utópicas
quando confrontadas com os poderes globais ora constituídos. O problema
maior é que tais poderes em crises sucessivas de dominação não sinalizam
bons presságios para a humanidade.
Guilherme Costa Delgado é doutor em Economia pela UNICAMP e
consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.
Luta de classes
Escrito por Wladimir Pomar
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Terça, 14 de Fevereiro de 2012
Parece que boa parte da esquerda ainda não saiu da perplexidade de ter um governo
central dirigido por uma coalizão política de socialistas e comunistas, da qual
participam democratas liberais e conservadores de diferentes tipos. Essa perplexidade,
como comentamos em artigos recentes, se reflete na emergência de dois novos tipos
de análise, ambos relacionados com a possibilidade ou não do desenvolvimento da luta
de classes no Brasil.
Uma dessas análises conclui simplesmente que a melhoria das condições de vida do
povo amortece seu espírito de luta e é um impeditivo para o crescimento da luta de
classes. O exemplo histórico das classes operárias norte-americana e européia,
particularmente após a segunda guerra mundial, poderia ser um exemplo a ser
esgrimido por essa análise que, no fundo, advoga a tese de que quanto pior, melhor.
O problema, que ela não responde, é se estão se criando no Brasil as mesmas
condições que permitiram, aos Estados Unidos e à Europa, instaurarem vastos
sistemas de exploração e transferência de riquezas dos países do terceiro mundo para
eles. Sistemas que permitiram a tais países satisfazer as demandas salariais e de
assistência social da maior parte de seus trabalhadores e criar, inclusive, uma
aristocracia operária.
Embora o Brasil tenha ingressado num processo tentativo de realizar o crescimento
econômico com redistribuição de renda, não há indícios de que o capitalismo e a
burguesia brasileira tenham condições de explorar países periféricos e organizar um
processo mais profundo de redistribuição de grandes migalhas, como fizeram os norteamericanos e europeus, amortecendo as lutas dos trabalhadores. Ainda mais que
esses sistemas de transferência de riquezas estão sendo minados, cada vez mais,
pelas transformações estruturais do próprio capitalismo, o que começa a obrigar os
trabalhadores norte-americanos e europeus a retomarem a luta de classes.
A outra análise reconhece que o desenvolvimento do capitalismo está promovendo a
conformação da classe trabalhadora brasileira como força ativa, tanto por seu
crescimento quantitativo, quanto pela retomada de lutas por aumentos salariais,
dignidade no trabalho, melhoria nas condições de transporte, moradia, saúde e
segurança. No entanto, ela supõe que as novas lutas que estão surgindo parecem não
caber perfeitamente no pacto de poder atualmente existente.
No contexto desse pacto de poder inexistiriam canais por onde os movimentos sociais
pudessem fazer demandas institucionais. Isso estaria levando o Brasil a um paradoxo.
Por um lado, ele parece viver um momento de radicalização em sua base social, fruto
do recente crescimento do capitalismo e de suas contradições. Por outro, ele parece
assistir às organizações políticas de esquerda engolfadas em disputas institucionais,
sem que seus militantes possam diferenciar o desenvolvimento na nação das
pretensões individuais de ascensão pessoal.
Em outras palavras, essa avaliação comprova que a luta de classes talvez esteja
29
retomando, inclusive de forma radicalizada, enquanto grande parte da militância de
esquerda talvez não esteja se dando conta dessa retomada, nem saiba como tratá-la.
Isso apenas demonstra que não são as militâncias políticas, por mais esclarecidas e
revolucionárias que sejam, que desenvolvem a luta de classes. Esta, historicamente,
tem seu próprio ritmo e emerge de contradições econômicas, sociais e políticas reais e
determinadas.
Em geral, mesmo quando a militância política não está antenada na evolução dessas
contradições, a luta de classes rompe com possíveis barreiras ou canais estreitos que
impedem a promoção de suas demandas.
Muitas vezes faz isso contra as próprias instituições, forja suas próprias lideranças, e
conquista suas reivindicações através de diferentes formas de luta. A história da classe
operária do ABC, durante o regime militar, é um exemplo bem nosso desse processo.
Portanto, se há uma parte da militância e das lideranças engolfada nas disputas
institucionais, isso se deve em parte ao fato de que a classe operária emergente no
Brasil ainda não sacudiu essa militância e lideranças como deveria. Ela é uma nova
classe operária, diferente daquela do ABC, no final dos anos 1970. Está em processo
de recomposição, tem pouca experiência de luta, e ainda não mostrou sua
potencialidade.
É lógico que boa parte da militância de esquerda poderia estar trabalhando na base
dessa classe e de outras classes populares da sociedade brasileira, vivenciando e
contribuindo para sistematizar suas pequenas experiências de luta, que existem, e para
elevar sua consciência de classe. No entanto, mesmo que essa militância esteja
empenhada nessa missão estratégica, isto não quer dizer que ela conseguirá alavancar
imediatamente grandes movimentos classistas. Ela simplesmente estará junto com
essas classes, e em condições de orientá-las, no momento em que decidirem lutar.
Nesse sentido, convém analisar com mais atenção as lutas e conflitos recentes
envolvendo algumas camadas de trabalhadores e outros setores populares. Em
primeiro lugar, eles mostram que, apesar das melhorias nas condições de vida, e talvez
principalmente por causa delas, esses trabalhadores já não suportam a continuidade
de certas condições herdadas do período neoliberal.
Super-exploração, como nos casos de Jirau, Santo Antônio e alguns canteiros de
obras; transportes ineficientes, como nos casos de ônibus em Brasília e Goiás, metrô
de São Paulo e Supervia, no Rio; educação deficiente, saúde maltratada, salários
baixos e outras distorções presentes na sociedade brasileira: tudo isso tem sido motivo
para lutas em diversos pontos do território nacional.
Por não suportarem mais essas mazelas, e também por falta de lideranças experientes,
quase todas as camadas que protagonizaram essas lutas têm apresentado uma
radicalização que, aparentemente, se confronta com a postura do governo federal em
não criminalizar nenhuma luta democrática e popular. O que deveria alertar a esquerda
30
para o fato de que o desenvolvimento capitalista, mesmo com distribuição de renda,
não impede as lutas de classes. Mas, sem uma esquerda participante, para fazer com
que tais lutas sejam travadas com razão e com limite, elas podem colocar o governo
democrático e popular contra a parede e abrir janelas por onde a direita crie um
ambiente de insegurança e pânico.
Wladimir Pomar é analista político e escritor.
FAO avança em código para aportes em terras
Negociadores da Agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)
já chegaram a termos importantes para um acordo sobre o texto de código de conduta
capaz de regular investimentos estrangeiros em terras agrícolas. A adesão dos países
ao acordo será voluntária.
O Valor apurou que um dos temas em discussão envolve uma proposta para que os
governos utilizem uma taxação para estimular a boa ocupação da terra e evitar seu uso
especulativo ou uma tendência de concentração. Nesse caso, a recomendação do
imposto valeria para a origem de qualquer investimento em terras nacionais. Outra
polêmica é sobre a abrangência do código, que engloba áreas rurais e as chamadas
"periurbanas".
A expectativa é que a negociação do texto final, com mais de 200 artigos, seja
concluída no mês de março. Os países que decidirem adotar as diretrizes voluntárias
deverão incorporá-las em seus programas e legislações. No entanto, essas regras não
substituem as leis nacionais e internacionais, acordos ou tratados. Por segurança, o
Brasil é um dos países que pedem que essa ressalva explicitada no texto.
O Brasil quer também que o texto aponte para o legítimo direito da terra que pode não
estar previsto em lei, mas que é garantido por condições históricas - casos das terras
indígenas e de quilombos.
Uma recomendação é para os governos assegurarem que os projetos de investimentos
em terras passe por negociações ou consultas públicas com as comunidades
tradicionais. Outro artigo, sem acordo, recomenda que os Estados devem "respeitar e
preservar os direitos de posse dos povos tradicionais e oferecer-lhes reconhecimento e
proteção jurídica"".
O código é acompanhado na cena internacional como a primeira tentativa de controlar
a tendência de acordos de "land grab", pelos quais países com volumosos recursos
como China, Arábia Saudita e Coreia do Sul investem na compra de terras estrangeiras
para assegurar a própria segurança alimentar.
31
A polêmica cresceu nos últimos anos, quando vários países da África, com problemas
de fome crônica, deram quase de graça terras em troca de promessas - nem sempre
cumpridas - de criação de emprego e gastos em infraestrutura.
O código pretende fazer esta correção e tentar facilitar o investimento privado na
agricultura de forma responsável, por meio de um texto considerado abrangente. "Uma
empresa que vai produzir alimentos em um país africano seguindo estas diretrizes
voluntárias estará fazendo investimento. Se estiver fora, é land grabbing", explica uma
fonte que acompanha as negociações.
Os 192 países membros da FAO negociam um texto final. Os governos serão
aconselhados a definir os direitos e deveres dos investidores estrangeiros em terras.
Isso poderá incluir o compromisso de respeitar aos direitos humanos, assegurar a
promoção da segurança alimentar, a utilização sustentável do meio ambiente e seguir
as principais normas da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Ainda sem consenso, outro artigo prevê que os governos não devem fazer
expropriações ou expulsões forçadas para fins privados.
A negociação vem sendo acompanhada de amplo debate com empresas privadas e
sociedade civil, em um processo que a FAO considera o mais transparente possível.
(AM)
China 'troca' infraestrutura por grãos na América do Sul
Por Assis Moreira | De Genebra
A China está mudando seu modelo de investimentos na agricultura da América do Sul.
Diante das restrições a estrangeiros para a aquisições de terras no Brasil e na
Argentina, os chineses passaram a privilegiar aportes em infraestrutura em troca do
direito exclusivo de comprar a colheita.
Para o Rabobank, banco holandês líder em financiamentos ao setor de agronegócios, a
China tende a aumentar exponencialmente seus investimentos na América do Sul
como forma de garantir seu abastecimento, sobretudo de soja, e aumentar cada vez
mais as compras de milho.
O banco menciona que estimativas da consultoria Deloitte sobre investimentos
chineses no Brasil indicam que, em geral, o montante poderá alcançar US$ 40 bilhões
até 2014. Em 2007, o estoque era inferior a US$ 100 milhões. Na Argentina, os aportes
passaram de US$ 10 bilhões desde 2009. Outros US$ 3 bilhões a 4 bilhões foram
anunciados em novos projetos agrícolas.
32
Renato Rasmussen, economista do Rabobank e um dos autores do estudo do banco
sobre a expansão chinesa no agronegócio da América do Sul, nota que o plano inicial
de Pequim era comprar terras e produzir. Agora, para evitar problemas depois que
Brasil e Argentina impuseram restrições à aquisição ou leasing de terras por
estrangeiros, grupos chineses partiram para um modelo que corresponde, em parte, ao
desejo desses países em atrair investimentos em infraestrutura e exportar produtos de
maior valor agregado.
Para o Rabobank, provavelmente o primeiro grande investimento chinês nesse novo
modelo ocorrerá em Barreiras, na Bahia. É onde a companhia Chongqing Grain
passará a processar 2 milhões de toneladas de soja já nesta safra 2011/12, produzida
por parceiros em joint venture em 100 mil hectares de terra. Rasmussen voltou de
Pequim com a convicção de que o projeto em Barreiras será maior do que o previsto
inicialmente. Em 2011, o plano era de investimentos de US$ 2 bilhões.
Conforme o banco, outro grande projeto pelo novo modelo pode envolver US$ 7,5
bilhões em investimentos em Goiás pela companhia Hopeful Sanhe. O plano é investir
em transporte e armazenamento de soja para assegurar o suprimento anual de 6
milhões de toneladas para a China, o equivalente a 80% de toda a produção de soja de
Goiás, que foi de 8,2 milhões de toneladas no ciclo 2010/11. Pequim também poderá
fornecer fertilizantes, defensivos e sementes para aumentar a produção agrícola no
Estado e viabilizar o comércio.
O mesmo modelo está sendo proposto na Argentina. O Beidahuang Group fez um
acordo com o governo da Província de Rio Negro para investir US$ 1,5 bilhão durante
dez anos na irrigação de vales que atualmente não têm produção agrícola. Em troca, a
empresa garante exclusividade para comprar a produção local de soja, milho e trigo. O
projeto envolve 300 mil hectares de terra.
Companhias chinesas também investem em insumos. A Tierra Del Fuego Energia y
Química quer construir uma planta na área, e a Sinochem International está abrindo
uma subsidiária na Argentina focada em agroquímicos.
O banco vê potencial também para a expansão de acordos, por meio dos quais as
companhias chinesas asseguram o acesso à produção na América do Sul através de
financiamento barato das colheitas. Pequim tem centenas de bilhões de dólares em
reservas e pode financiar a custos bem mais baixos do que a maioria dos concorrentes.
A China tanto assegura contratos de longo prazo para reduzir sua exposição a
vulnerabilidades no abastecimento agrícola, como torna-se menos dependentes das
grandes companhias tradings e evita custos de intermediação.
O país é o maior consumidor desses produtos e não pode atender sua demanda com a
produção doméstica. Por isso, é o maior importador do complexo soja para atender sua
indústria de suínos e aves, representando metade do volume negociado
33
internacionalmente. Suas importações podem alcançar 58 milhões de toneladas de
soja em grão em 2011/12, mais do que a produção da Argentina (53 milhões).
34
“O socialismo do futuro terá as cores das sociedades que por ele optarem”
Miguel Urbano Rodrigues acredita que um socialismo humanizado abrirá ao homem a
possibilidade de desenvolver todas as suas potencialidades e de se realizar
integralmente, liberto das forças que o oprimem há milênios
01/02/2012
Nilton Viana
da Redação
“O mundo está num caos em conseqüência da crise global do capitalismo”. Assim, o
jornalista e escritor português Miguel Urbano Rodrigues define o atual cenário mundial.
Para ele, a crise atual do capitalismo é estrutural. Segundo o escritor, a crise, iniciada
nos EUA, alastrou à Europa e as medidas tomadas por Bush, primeiro, e Obama
depois, em vez de atenuarem a crise, agravaram-na. “Os EUA, polo do sistema que
oprime grande parte da humanidade, mostram-se incapazes de controlar os colossais
défices do orçamento e da balança comercial”.
Miguel Urbano: crise atual do capitalismo é estrutural - Em entrevista exclusiva ao
Brasil de Fato, Urbano diz
que o grande capital pouco
Foto: Miriam Zomer-Alesc
alterou
as
práticas
criminosas e fraudulentas que originaram a crise. Para ele, a fatura é paga pelos
trabalhadores que tiveram os seus salários brutalmente diminuídos e suprimidas
conquistas históricas. Taxativo, afirma que as guerras fazem parte das alternativas
imperialistas e que as agressões militares são sempre precedidas de uma campanha
midiática de âmbito mundial. Embora avesso a profecias, Urbano acredita que o
socialismo do futuro terá as cores das sociedades que por ele optarem de acordo com
as suas tradições, cultura e peculiaridades de cada uma.
Brasil de Fato – O mundo vive hoje uma de suas maiores crises financeiras. Que
avaliação o senhor faz dessa crise que tem se agudizado principalmente nos
Estados Unidos e na Europa?
Miguel Urbano Rodrigues – O mundo está num caos em conseqüência da crise global
do capitalismo. É uma crise estrutural. Nos países centrais a teoria da acumulação não
funciona mais de acordo com a lógica do capitalismo e, na busca de uma solução, os
Estados Unidos, polo hegemônico do sistema, multiplicam as guerras contra países do
Terceiro Mundo para saquear os seus recursos naturais.
35
As medidas tomadas pelos governos, a seu ver, resolvem os graves problemas
dessa crise? E o agravamento dessa crise, que é estrutural do capitalismo, a seu
ver, irá enfraquecer ainda mais o imperialismo?
A crise, iniciada nos EUA, alastrou à Europa. As medidas tomadas por Bush, primeiro,
e Obama depois, em vez de atenuarem a crise, agravaram-na. O objetivo foi salvar a
banca, as seguradoras e grandes empresas à beira da falência como as da indústria do
automóvel. Mais de mil bilhões foram investidos pelo Estado Federal nessa estratégia
com resultados medíocres. Um volume gigantesco de dinheiro (os dólares emitidos) foi
encaminhado para os responsáveis pela crise, enquanto a principal vítima, os
trabalhadores estadunidenses, foi esquecida. Centenas de milhares de famílias
perderam as suas casas, e o desemprego aumentou muito em consequência de
despedimentos maciços. O grande capital pouco alterou as práticas criminosas e
fraudulentas que originaram a crise. É significativo que o atual secretário do Tesouro,
Thimothy Geithner, que goza da total confiança de Obama, seja um homem de Walt
Street comprometido com as políticas de desregulamentação que tiveram efeitos
funestos.
Na União Europeia, que é um gigante econômico mas um anão político, a estratégia
adotada para enfrentar a crise foi diferente. A fragilidade do euro é inseparável do fato
de o dólar ser, na prática, a moeda universal cujas emissões são incontroláveis. O
Banco Central Europeu não pode imitar Washington.
A crise atingiu primeiro países periféricos, como a Irlanda, a Grécia e Portugal. A
Alemanha e a França, que põem e dispõem em Bruxelas, sobrepondo-se à Comissão
Europeia e às instituições comunitárias em geral, impuseram a esses três países
“políticas de austeridade” orientadas para a redução drástica dos défices orçamentais e
a salvação da banca. A fatura foi paga pelos trabalhadores que tiveram os seus
salários brutalmente diminuídos, suprimidas conquistas históricas como os subsídios
de Natal e de férias, enquanto setores sociais como a Educação e a Saúde eram
duramente golpeados.
A Itália e a Espanha encontram-se também à beira de um colapso, na iminência de
pedirem à Comissão Europeia e ao FMI uma “ajuda” que agravaria extraordinariamente
as condições de vida da classe trabalhadora. Na Espanha o desemprego ultrapassa já
os 21%.
A chanceler Merckel e o presidente Sarkosy estão, porém, conscientes de que os
efeitos da crise atingem também perigosamente os seus países. O Reino Unido, fora
da zona euro, não é exceção; teme igualmente o agravamento da situação.
Neste contexto o futuro do euro e da própria União Europeia apresentam-se sombrios.
São a cada semana mais numerosos os políticos e economistas que preconizam a
saída do euro de alguns países.
36
Obviamente, as tensões sociais na contestação ao sistema assumem características
explosivas, sobretudo na Grécia, em Portugal, na Espanha e na Itália.
Os EUA e as grandes potências da União Europeia puseram fim às guerras
interimperialistas, substituindo-as por um imperialismo coletivo. O senhor
poderia explicar como têm se dado guerras?
O imperialismo evoluiu nas últimas décadas para responder à crise do capitalismo. As
guerras interimperialistas que na primeira metade do século 20 devastaram a Europa e
a Ásia não vão repetir-se; remotíssima essa hipótese. As contradições entre as
potências imperialistas mantêm-se. Mas não são hoje antagônicas.
Um imperialismo coletivo – a expressão é do argentino Cláudio Katz – substituiu o
tradicional.
Os seus contornos principiaram a definir-se na primeira guerra do Golfo e tornaram-se
nítidos com as agressões aos povos do Afeganistão, do Iraque e da Líbia.
Hegemonizada pelos Estados Unidos, formou-se uma aliança tática de que participam
o Reino Unido, a Alemanha e a França, além de sócios menores como a Itália, a
Espanha, o Canadá e a Austrália, inclusive países da Europa do Leste, ex-socialistas.
Então é esse bloco imperialista que comanda o mundo hoje e fomenta as
guerras?
A superioridade militar e tecnológica do bloco imperialista permite-lhe, com um custo de
vidas reduzido, atacar e ocupar países do Terceiro Mundo para saquear os seus
recursos naturais, nomeadamente os petrolíferos.
Isso ocorreu já no Afeganistão, no Iraque e na Líbia. Atinge agora a África com a
intervenção militar dos EUA em Uganda. O Africa Comand, por ora instalado na
Alemanha, anuncia a criação de um exército permanente para o continente africano,
previsto para 100 mil homens.
Obama já afirmou que a “ajuda militar” (leia-se intervenção) ao Sudão do Sul, ao Congo
e à República Centro Africana depende de um simples pedido a Washington.
As guerras têm sido as saídas para o capitalismo. Com essa crise, teremos novas
guerras?
As agressões militares são sempre precedidas de uma campanha midiática de âmbito
mundial. A receita tem sido repetida com algum êxito. Para impedir a solidariedade
internacional com os povos a serem alvo de agressões previamente planejadas e
semear a confusão e a dúvida em milhões de pessoas nos países desenvolvidos, os
Estados Unidos e seus aliados promovem campanhas de satanização de líderes
apresentados como ditadores implacáveis, ou terroristas que ameaçam a humanidade.
37
A invasão do Afeganistão foi precedida da diabolização de Bin Laden – definido como
inimigo número 1 dos EUA – e a guerra do Iraque, da satanização de Sadam Hussein.
No caso da Líbia, Kadafi , que um ano antes era recebido com todas as honras em
Paris, Londres, Roma e Madri, e tratado com deferência por Obama, passou de
repente a ser apresentado como um monstro sanguinário que submetia o seu povo a
uma opressão cruel. O desfecho é conhecido: a aprovação pelo Conselho de
Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) de uma “zona de exclusão
aérea” para “proteger as populações”. Logo depois começaram os bombardeios de
uma guerra que durou sete meses, definida como “intervenção humanitária”. Sabe-se
hoje que a “insurreição” de Benghasi foi preparada com meses de antecedência por
comandos britânicos e agentes da CIA, dos serviços secretos britânicos e franceses, e
da Mossad israelense.
Como o senhor avalia as consequências dessa crise para os países pobres, do
chamado Terceiro Mundo?
O custo destas agressões imperiais para os países por elas atingidos tem sido
altíssimo. Não há estatísticas credíveis sobre as destruições de infraestruturas e o
saque de bens culturais e sobre o número de mortos civis resultante das guerras no
Afeganistão, no Iraque e na Líbia. Mas o saldo dessa orgia de barbárie ocidental
ascende – segundo grandes jornais da Europa e dos EUA – a centenas de milhares.
A satanização de Bachar Assad e do seu exército gera o temor de que a intervenção
imperial na Síria esteja iminente. Mas o grande “inimigo” a abater é o Irã. Motivo: é o
único entre os grandes países muçulmanos que não se submete às exigências do
imperialismo.
Israel ameaça atacar e incita os EUA a bombardear as instalações nucleares de
Natanz. Obama conseguiu que o Conselho de Segurança aprovasse vários pacotes de
sanções ao Irã, mas o Pentágono hesita em envolver-se numa nova guerra contra um
país que dispõe de uma capacidade de retaliar ponderável. A invasão terrestre está
excluída e o bombardeio das instalações subterrâneas de Natanz com armas
convencionais poderia, na opinião dos especialistas, ser ineficaz.
O balanço das guerras do Afeganistão e do Iraque não é animador para a Casa
Branca. O presidente Obama ao anunciar a retirada das últimas tropas estadunidenses
do Iraque sabe que mentiu aos seus compatriotas. Num discurso eleitoreiro, triunfalista,
que pode ser qualificado de modelo de hipocrisia, afirmou que os Estados Unidos
alcançaram ali os objetivos previamente fixados. Na realidade a resistência prossegue
e dezenas de milhares de mercenários substituíram as forças do Exercito e da Força
Aérea. Mas qualquer previsão sobre futuras agressões é desaconselhável. Tudo se
pode esperar da engrenagem do sistema imperial, comandado por um presidente
elogiado como humanista e defensor da Paz quando, na realidade, a sua estratégia de
dominação planetária configura uma ameaça sem precedentes à humanidade.
Como o senhor avalia o papel de organismos como a ONU, o FMI, o Banco
38
Mundial e a OMC?
O Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM) e a Organização
Mundial do Comércio (OMC) são instrumentos do sistema imperial, criados para o
servir. Quanto à Organização da Nações Unidas (ONU), há que estabelecer a distinção
entre a Assembleia-Geral e o seu órgão executivo, o Conselho de Segurança. A
primeira, representativa de quase 200 Estados, é uma instituição democrática, mas as
suas resoluções somente produzem efeito se referendadas pelo Conselho de
Segurança. Ora este, manipulado pelos EUA, com o apoio do Reino Unido e da
França, funciona há muito como instrumento da vontade dos três, até porque a Rússia
e a China, os outros membros permanentes, não têm exercido o direito de veto, com
raríssimas exceções.
Como o senhor vê os protestos e as mobilizações que têm ocorrido em vários
países, na chamada Primavera Árabe, na Grécia e nos Estados Unidos?
Em primeiro lugar é útil esclarecer que a expressão “Primavera Árabe”, muito divulgada
pelos governos ocidentais e pela mídia é, por generalizante, fonte de confusão. Os
levantamentos populares no Egito e na Tunísia foram espontâneos e inesperados para
o imperialismo. Triunfaram ambos, provocando a queda de Hosni Mubarak e de Ben
Ali.
No caso da Tunisia, a vitória de um partido islamista moderado nas recentes eleições
não representa um problema para o imperialismo. Tudo indica que as relações dos
Estados Unidos e os grandes da União Europeia com Tunis serão cordiais como eram
com o governo da ditadura.
No Egito tudo permanece em aberto, porque o povo não aceitou o governo dos
militares comprometidos com o imperialismo e continua a exigir a sua renúncia.
No Bahrein e no Iémen não houve qualquer “primavera”. Washington e os seus aliados
abstiveram-se de criticar os regimes que eram alvo dos protestos populares. No
tocante ao Bahrein, base da IV Frota da US Navy, os EUA manobraram de modo a que
tropas sauditas e dos Emirados do Golfo invadissem o pequeno país e reprimissem
com violência as manifestações.
Os protestos populares na Europa e nos Estados Unidos contra regimes de fachada
democrática, que na prática são ditaduras da burguesia e do grande capital
apresentam também características muito diferenciadas.
O acampamento inicial dos indignados em Madri funcionou como incentivo a
movimentos similares em dezenas de cidades da Europa e dos EUA. Esses jovens
sabem o que rejeitam e os motiva a lutar, mas não definem com um mínimo de
precisão uma alternativa ao capitalismo.
39
Inspirado pelos espanhóis, o acampamento de Manhattan, realizado sob o lema
“Ocupem Wall Street”, alarmou a engrenagem do poder. A solidariedade de intelectuais
progressistas como Noam Chomsky, Michael Moore e James Petras contribuiu para
que o movimento alastrasse a muitas cidades.
No caso estadunidense, os protestos foram uma surpressa? Como o senhor
analisa a reação do governo dos Estados Unidos a estas manifestações?
A reação da administração Obama foi inicialmente de surpresa. Mas perante a
amplitude assumida pelo movimento recorreu a uma repressão brutal. As
conseqüências dessa opção foram inversas das esperadas pelo governo. Os
acontecimentos de Oakland, na Costa do Pacífico, demonstraram que a contestação é
agora dirigida contra a engrenagem capitalista responsável pela crise que afeta 99%
dos cidadãos e beneficia a apenas 1% , tema de um slogan que já corre pelo país. A
profundidade do descontentamento popular é transparente. Uma certeza: alarma
Obama e Wall Street.
Paralelamente aos protestos espontâneos referidos, desenvolvem-se na Europa outros,
promovidos pelos sindicatos e por partidos revolucionários.
A greve geral de novembro, em Portugal, e as grandes manifestações de protesto ali
realizadas traduziram não só a condenação de políticas de direita impostas por
Bruxelas e a submissão ao imperialismo, com perda de soberania, como a exigência de
uma política progressista incompatível com a engrenagem capitalista.
É sobretudo na Grécia que as massas exprimem em gigantescas e permanentes
concentrações populares a sua determinação de lutarem contra o sistema capitalista
até a sua destruição Quinze greves gerais num ano, empreendidas sob a direção de
uma Frente Popular na qual o papel do Partido Comunista da Grécia é fundamental, os
trabalhadores da pátria de Péricles batem-se hoje com heroísmo pela humanidade
inteira.
Frente a esse cenário de crise mundial do capitalismo, qual a alternativa para os
povos? Como o senhor vê o futuro da Humanidade?
A única alternativa credível à barbárie capitalista é o socialismo. O capitalismo
conseguiu superar desde o século 19 sucessivas crises. Desta vez, porém, enfrenta
uma crise estrutural para a qual não encontra soluções. Os EUA, polo do sistema que
oprime grande parte da humanidade, mostram se incapaze de controlar os colossais
défices do orçamento e da balança comercial. Forjaram um tipo de contracultura
monstruosa que pretendem impor a todo o planeta. Mas o declínio do seu poder é
transparente e irreversível.
Por si só, as gigantescas reservas de dólares e os títulos do Tesouro norte-americano
que a China e o Japão acumularam, estimados aproximadamente em dois mil bilhões
40
de dólares, são esclarecedores da fragilidade da economia dos Estados Unidos, um
colosso com pés de barro, hoje o país mais endividado do mundo.
Sou avesso a profecias de qualquer natureza. Mas creio que o socialismo do futuro terá
as cores das sociedades que por ele optarem de acordo com as suas tradições, cultura
e peculiaridades de cada uma – um socialismo humanizado que abrirá ao homem a
possibilidade de desenvolver todas as suas potencialidades e de se realizar
integralmente, liberto das forças que o oprimem há milênios.
<QUEM É>
Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e escritor português. Redator e chefe de redação
de jornais em Portugal antes de se exilar no Brasil, onde foi editorialista principal do
jornal O Estado de S. Paulo e editor internacional da revista brasileira Visão.
Regressando a Portugal após a Revolução dos Cravos, foi chefe de redação do jornal
do Partido Comunista Português (PCP) Avante!, e diretor de O Diário. Foi ainda
assistente de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de
Lisboa, presidente da Assembleia Municipal de Moura, deputado da Assembleia da
República pelo PCP entre 1990 e 1995 e deputado da Assembleias Parlamentares do
Conselho da Europa e da União da Europa Ocidental, tendo sido membro da comissão
política desta última. Tem colaborações publicadas em jornais e revistas de duas
dezenas de países da América Latina e da Europa e é autor de mais de uma dezena
de livros publicados em Portugal e no Brasil.
41
A revolta da burguesia assalariada
Por Slavoj Žižek.
Traduzido por Chrysantho Sholl e Fernando Marcelino.
Embora os protestos sociais em curso nos países ocidentais desenvolvidos pareçam
indicar o renascimento de um movimento emancipatório radical, uma análise mais
detalhada nos compele a elaborar uma série de distinções precisas que, de alguma
forma, embaçam essa clara imagem. Três coisas caracterizam o capitalismo de
hoje: a tendência de longo prazo de transformação do lucro em renda (em suas
duas principais formas: a renda do “conhecimento comum” privatizado e a renda
pelos recursos naturais); o papel estrutural mais forte do desemprego (a própria
chance de ser “explorado” em um emprego duradouro é percebida como um
privilégio); e a ascensão de uma nova classe que Jean-Claude Milner chama de
“burguesia assalariada” [Veja Jean-Claude Milner, Clartes de tout, Paris, Verdier,
2011].
Para explicar a relação entre estas características, comecemos com Bill Gates: como
ele se tornou o homem mais rico do mundo? Sua riqueza não tem nada a ver com o
custo de produção daquilo que a Microsoft vende (pode-se até mesmo argumentar que
a Microsoft paga a seus trabalhadores intelectuais um salário relativamente alto), isto é,
a riqueza de Gates não é o resultado de seu sucesso em produzir bons softwares por
preços mais baixos do que seus concorrentes ou por uma “maior exploração” de seus
trabalhadores intelectuais contratados. Se este fosse o caso, a Microsoft teria ido a
falência há muito tempo: as pessoas teriam optado massivamente por programas como
Linux que são de graça e, de acordo com especialistas, de melhor qualidade que os
programas da Microsoft. Por que, então, existem milhões de pessoas que ainda
compram Microsoft? Porque a Microsoft se impôs como um padrão quase universal,
“quase” monopolizando o setor, uma espécie de personificação direta daquilo que Marx
chamou de General Intellect (Intelecto Coletivo), o conhecimento coletivo em todas as
suas dimensões, da ciência ao prático know how. Gates se tornou o homem mais rico
em algumas décadas através da apropriação da renda pela permissão de que milhões
participem na forma do “intelecto coletivo” que ele privatizou e controla.
Deve-se transformar criticamente o aparato conceitual de Marx: por causa de sua
negligência em relação à dimensão social do “intelecto coletivo”, Marx não vislumbrou a
possibilidade de privatização do próprio “intelecto coletivo”. É isto que está no coração
da luta contemporânea pela propriedade intelectual: a exploração tem cada vez mais a
forma de renda, ou, como diz Carlo Vercellone, o capitalismo pós-industrial é
caracterizado pelo “tornar-se renda do lucro” [Veja Capitalismo cognitivo, editado por
Carlo Vercellone, Roma, manifestolibri, 2006]. Em outras palavras, quando, por conta
do papel crucial do “intelecto coletivo” (conhecimento e cooperação social) na criação
de riqueza, as formas de riqueza se tornam cada vez mais desproporcionais em
42
relação ao tempo de trabalho diretamente empregado na produção, o resultado não é,
como Marx parecia esperar, a autodissolução do capitalismo, mas a transformação
gradual do lucro gerado pela exploração da força de trabalho em renda apropriada pela
privatização do “intelecto coletivo”.
O mesmo acontece com os recursos naturais: sua exploração é uma das maiores
fontes de renda hoje, acompanhada da luta permanente pra saber quem ficará com
esta renda – os povos do Terceiro Mundo ou as corporações ocidentais (a suprema
ironia é que, para explicar a diferença entre força de trabalho – que, em seu uso,
produz mais-valia sobre seu próprio valor – e outras mercadorias – que somente
consomem seu próprio valor em seu uso e, portanto, não envolvem exploração -, Marx
menciona como exemplo de uma mercadoria ordinária o petróleo, a própria mercadoria
que hoje é a fonte de extraordinários “lucros”…). Aqui também não faz sentido vincular
as altas e baixas do preço do petróleo com altos e baixos custos de produção ou
preços do trabalho explorado – custos de produção são negligenciáveis, o preço que
pagamos pelo petróleo é a renda que pagamos para os proprietários deste recurso por
conta de sua escassez e oferta limitada.
A consequência deste crescimento na produtividade alavancado pelo impacto
exponencialmente crescente do conhecimento coletivo é a transformação do papel do
desemprego: embora o “desemprego seja estruturalmente inseparável da dinâmica de
acumulação e expansão que constitui a própria natureza do capitalismo enquanto tal”
[Fredric Jameson, em Representing Capital, Londres, Verso Books, 2011, p. 149], o
desemprego adquiriu atualmente um papel qualitativamente diferente. Naquilo que,
possivelmente, é o ponto extremo da “unidade dos opostos” na esfera da economia, é o
próprio sucesso do capitalismo (crescimento produtivo etc.) que produz desemprego
(produz mais e mais trabalhadores inúteis) – o que deveria ser uma benção (menos
trabalho duro necessário) se torna uma sina. O mercado global é, assim, em relação a
sua dinâmica imanente, “um espaço no qual todos já foram, um dia, trabalhadores
produtivos, e no qual o trabalho, em todos os lugares, foi aos poucos retirando-se do
sistema” [Fredric Jameson, em Valences of the Dialetic, Londres, Verso Books, 2009,
p. 580-1]. Isso é, no atual processo de globalização capitalista, a categoria dos
desempregados adquire uma nova qualidade além da clássica noção de “exército
industrial de reserva”: devemos considerar em relação a categoria do desemprego
“aquelas enormes populações, que ao redor do mundo foram ‘expulsas da história’, que
foram deliberadamente excluídas dos projetos modernizadores do capitalismo de
primeiro mundo e apagadas como casos terminais sem esperança” [Jameson, em
Representing Capital, p. 149]: os assim chamados estados falidos (Congo, Somália),
vítimas da fome ou de desastres ecológicos, presos a “rancores étnicos” pseudoarcaicos, objetos da filantropia e das ONGs, ou (frequentemente os mesmos
personagens) da “guerra contra o terror”. A categoria dos desempregados deve assim
ser expandida para agregar uma população de largo alcance, dos temporariamente
desempregados, passando pelos não mais empregáveis, até pessoas vivendo nas
favelas e outras formas de guetos (todos aqueles desconsiderados pelo próprio Marx
como “lúmpem-proletariado”) e, finalmente, áreas inteiras, populações ou estados
43
excluídos do processo capitalista global, como os espaços em branco nos mapas
antigos.
Mas esta nova forma de capitalismo não traz também uma nova perspectiva de
emancipação? Nisto reside a tese de Hardt e Negri em Multidão: guerra e democracia
na Era do Império [Rio de Janeiro: Record, 2005] onde eles pretendem radicalizar
Marx, para quem o capitalismo corporativo altamente organizado já era uma forma de
“socialismo dentro do capitalismo” (uma espécie de socialização do capitalismo, com os
proprietários tornando-se cada vez mais supérfluos), de maneira que seria necessário
apenas cortar a cabeça do proprietário nominal e nós teríamos socialismo. Para Hardt
e Negri, entretanto, a limitação de Marx foi estar historicamente limitado ao trabalho
industrial mecanicamente industrializado e hierarquicamente organizado, razão pela
qual a sua visão de “intelecto coletivo” seria como uma agência central de
planejamento; somente hoje, com a elevação do trabalho imaterial ao padrão
hegemônico, a transformação revolucionária se torna “objetivamente possível”. Esse
trabalho imaterial se desdobra entre dois pólos: trabalho (simbólico) intelectual
(produção de ideias, códigos, textos, programas, figuras etc. por escritores,
programadores…) e trabalho afetivo (aqueles que lidam com afecções corpóreas, de
médicos a babás e aeromoças). O trabalho imaterial é hoje hegemônico no sentido
preciso em que Marx proclamou que, no capitalismo do século XIX, a produção
industrial em larga escala era hegemônica, como a cor específica dando o tom da
totalidade – não quantitativamente, mas cumprido um papel chave, emblematicamente
estrutural. Assim, o que surge é um inédito vasto domínio dos “comuns”: conhecimento
compartilhado, formas de cooperação e comunicação etc. que não podem mais ser
contidos na forma da propriedade privada – por quê? Na produção imaterial, os
produtos já não são objetos materiais, mas novas relações sociais (interpessoais) – em
suma, a produção imaterial já é diretamente biopolítica, produção de vida social.
A ironia é que Hardt e Negri se referem aqui ao próprio processo que os ideólogos do
capitalismo “pós-moderno” celebram como a passagem da produção material para a
simbólica, da lógica centralista-hierárquica para a lógica da autopóiese e da autoorganização, cooperação multi-centralizada etc. Negri é aqui efetivamente fiel a Marx: o
que ele tenta provar é que Marx estava certo, que a ascensão do intelecto coletivo é,
em longo prazo, incompatível com o capitalismo. Os ideólogos do capitalismo pósmoderno estão afirmando exatamente o oposto: é a teoria marxista (e sua prática) que
permanecem dentro dos limites de uma lógica hierárquica e sob controle centralizado
do Estado, e assim não conseguem lidar com os efeitos sociais da nova revolução
informacional. Existem boas razões empíricas para esta afirmação: de novo, a suprema
ironia da história é que a desintegração do Comunismo é o exemplo mais convincente
da validade da tradicional dialética marxista entre forças produtivas e relações de
produção com a qual o marxismo contou na sua tentativa de superar o capitalismo. O
que arruinou efetivamente os regimes Comunistas foi sua inabilidade em acomodar-se
à nova lógica social sustentada pela “revolução informacional”: eles tentaram dirigir
esta revolução com um novo projeto de planejamento estatal centralizado de larga
escala. O paradoxo, assim, é que aquilo que Negri celebra como chance única de
44
superação do capitalismo, é exatamente o que os ideólogos da “revolução
informacional” celebram como ascensão de um novo capitalismo “sem fricção”.
A análise de Hardt e Negri possui três pontos fracos que, em sua combinação,
explicam como o capitalismo pode sobreviver ao que deveria ser (em termos marxistas
clássicos) uma nova organização da produção que o tornaria obsoleto. Ela subestima a
extensão do sucesso do capitalismo contemporâneo (pelo menos em curto prazo) de
privatizar o “conhecimento comum”, assim como a extensão com que, mais do que a
burguesia, são os próprios trabalhadores que se tornam “supérfluos” (número cada vez
maior deles torna-se não somente desempregado, mas estruturalmente inempregável).
Além disso, mesmo que seja verdade, em princípio, que a burguesia está
progressivamente se tornando desfuncional, deve-se qualificar esta afirmação –
desfuncional para quem? Para o próprio capitalismo. Isto quer dizer que, se o velho
capitalismo envolvia idealmente um empreendedor que investia dinheiro (seu ou
emprestado) em produção organizada e dirigida por ele próprio, recolhendo o lucro,
hoje está surgindo um novo tipo ideal: não mais o empreendedor que possui sua
própria empresa, mas o gerente especialista (ou um conselho administrativo presidido
por um CEO) de uma empresa de propriedade dos bancos (também dirigidos por
gerentes que não possuem os bancos) ou investidores dispersos. Neste novo tipo ideal
de capitalismo sem burguesia, a velha burguesia desfuncional é refuncionalizada como
gerentes assalariados – a nova burguesia recebe cotas, e mesmo se ela possui uma
parte na empresa, eles recebem as ações como parte da remuneração pelo trabalho
(“bônus por sua gerência bem sucedida”).
Esta nova burguesia ainda se apropria da mais-valia, mas da forma mistificada daquilo
que Milner chama de “mais-salário”: em geral, a eles é pago mais do que o salário
mínimo do proletário (este ponto de referência imaginário – frequentemente mítico –
cujo único verdadeiro exemplo na economia global de hoje é o salário de um
trabalhador numa sweat-shop na China ou na Indonésia), e é esta diferença em relação
aos proletários comuns, esta distinção, que determina seu status. A burguesia no
sentido clássico, assim, tende a desaparecer. Os capitalistas reaparecem como um
subconjunto dos trabalhadores assalariados – gerentes qualificados para ganhar mais
por sua competência (razão pela qual a “avaliação” pseudo-científica que legitima os
especialistas a ganharem mais é crucial hoje em dia). A categoria dos trabalhadores
que recebem mais-salário não está, obviamente, limitada aos gerentes: ela se estende
a todos os tipos de especialistas, administradores, funcionários públicos, médicos,
advogados, jornalistas, intelectuais, artistas… O excesso que eles recebem tem duas
formas: mais dinheiro (para gerentes etc.), mas também menos trabalho, isto é, mais
tempo livre (para alguns intelectuais, mas também para setores da administração
estatal).
O procedimento de avaliação que qualifica alguns trabalhadores para receberem maissalário é, claramente, um mecanismo arbitrário de poder e ideologia sem nenhuma
ligação séria com a competência real – ou, como diz Milner, a necessidade de maissalário não é econômica, mas política: para manter uma “classe média” com o
propósito de estabilidade social. A arbitrariedade da hierarquia social não é um erro,
45
mas todo o seu propósito, de forma que a arbitrariedade da avaliação cumpre um papel
homólogo à arbitrariedade do sucesso de mercado. Isto é, a violência ameaça explodir
não quando existe muita contingência no espaço social, mas quando se tenta eliminar
esta contingência. É neste nível que se deve buscar pelo que se pode chamar de, em
termos um tanto vagos, a função social da hierarquia. Jean-Pierre Dupuy [em La
marque du sacre, Paris, Carnets Nord, 2008] concebe a hierarquia como um dos quatro
procedimentos (“dispositivos simbólicos”) cuja função é fazer com que a relação de
superioridade não seja humilhante para os subordinados: a hierarquia (a ordem
externamente imposta de papéis sociais em clara contraposição ao valor imanente dos
indivíduos – eu, portanto, experimento meu menor status social como totalmente
independente do meu valor intrínseco); a desmistificação (o procedimento críticoideológico que demonstra que as relações de superioridade/inferioridade não estão
fundamentadas na meritocracia, mas são resultado de lutas objetivamente ideológicas
e sociais: meu status social depende de processos sociais objetivos, não de méritos –
como diz Dupuy sarcasticamente, a desmistificação social “cumpre o mesmo papel, em
nossas sociedades igualitárias, competitivas e meritocráticas do que a hierarquia nas
sociedades tradicionais” [p. 208] – isto nos permite evitar a conclusão dolorosa de que
“a superioridade do outro é o resultado de seus méritos e conquistas”; a contingência (o
mesmo mecanismo, porém sem a sua forma crítico-social: nossa posição em escala
social depende de uma loteria natural e social – sortudos são aqueles que nascem com
melhores disposições e em famílias ricas); a complexidade (superioridade ou
inferioridade dependem de um processo social complexo independente das intenções
ou méritos dos indivíduos – digamos, a mão invisível do mercado pode causar o meu
fracasso ou o sucesso do meu vizinho, mesmo que eu tenha trabalhado muito mais e
seja muito mais inteligente). Ao contrário do que parece, todos estes mecanismos não
contestam ou sequer ameaçam a hierarquia, mas a tornam palatável, uma vez que “o
que desencadeia o turbilhão da inveja é a ideia de que o outro merece a sua sorte e
não a ideia oposta, a única que pode ser abertamente expressa” [p.211]. Dupuy extrai
desta premissa a conclusão (óbvia, para ele) de que é um grande erro pensar que uma
sociedade que seja justa e que se perceba como justa será assim livre de todo o
ressentimento – ao contrário, é precisamente em tal sociedade que aqueles que
ocupam posições inferiores encontraram uma válvula de escape para seu orgulho
ferido em violentas explosões de ressentimento.
Aí reside um dos maiores impasses da China hoje: o objetivo ideal das reformas de
Deng Xiaoping era introduzir um capitalismo sem burguesia (como classe dominante);
agora, entretanto, os líderes chineses estão descobrindo dolorosamente que o
capitalismo sem hierarquia estável (conduzida pela burguesia como nova classe) gera
permanente instabilidade – portanto, que caminho tomará a China? Mais
genericamente, esta é possivelmente a razão pela qual (ex-)comunistas reaparecem
como os mais eficientes gestores do capitalismo: sua histórica inimizade com a
burguesia enquanto classe se encaixa perfeitamente na tendência do capitalismo
contemporâneo em direção a um capitalismo gerencial sem burguesia – em ambos os
casos, como Stalin disse a muito tempo, “os quadros decidem tudo” (está surgindo
também uma diferença interessante entre a China de hoje e a Rússia: na Rússia os
quadros universitários eram ridiculamente mal pagos, eles de fato se confundiam com
46
os proletários, enquanto na China eles são bem remunerados com um “mais-salário”
como meio de garantir sua docilidade).
Além disso, esta noção de “mais-salário” também nos permite lançar novas luzes sobre
os atuais protestos “anti-capitalistas”. Em tempos de crise, o candidato óbvio para
“apertar os cintos” são os níveis mais baixos da burguesia assalariada: uma vez que o
seu mais-salário não cumpre nenhum papel econômico imanente, a única coisa que
permite diferenciá-los do proletariado são seus protestos políticos. Embora estes
protestos sejam nominalmente dirigidos pela lógica brutal do mercado, eles
efetivamente protestam contra a gradual corrosão de sua posição econômica
(politicamente) privilegiada. Lembremos da fantasia ideológica favorita de Ayn Rand
(de seu Atlas Shrugged), a de “criativos” capitalistas em greve – esta fantasia não
encontra sua realização perversa nas greves de hoje, que em sua maioria são greves
da privilegiada “burguesia assalariada” motivada pelo medo de perder seu privilégio (o
excedente sobre o salário mínimo)? Não são protestos proletários, mas protestos
contra a ameaça de ser reduzido à condição proletária. Isto quer dizer: quem ousa se
manifestar hoje, quando ter um emprego permanente já se tornou um privilégio? Não
os trabalhadores mal pagos (no que sobrou) da indústria têxtil etc. mas o estrato de
trabalhadores privilegiados com empregos garantidos (muitos da administração estatal,
como a polícia e os fiscais da lei, professores, trabalhadores do transporte público etc.).
Isto também vale para a nova onda de protestos estudantis: sua maior motivação é o
medo de que a educação superior não mais lhes garanta um mais-salário na vida
futura.
Está claro, obviamente, que o enorme renascimento dos protestos no último ano, da
Primavera Árabe ao Leste Europeu, do Occupy Wall Street à China, da Espanha à
Grécia, não devem definitivamente ser desconsiderados como uma revolta da
burguesia assalariada – eles guardam potenciais muito mais radicais, de forma que
devemos nos engajar numa análise concreta caso a caso. Os protestos estudantis
contra a reforma universitária em curso no Reino Unido são claramente opostos às
barricadas do Reino Unido em agosto de 2011, este carnaval consumista de
destruição, a verdadeira explosão dos excluídos. Em relação aos levantes do Egito,
pode-se argumentar que, no começo, houve um momento de revolta da burguesia
assalariada (jovens bem educados protestando contra a falta de perspectiva), mas isto
foi parte de um amplo protesto contra um regime opressivo. Entretanto, até que ponto o
protesto conseguiu mobilizar trabalhadores e camponeses pobres? Não seria a vitória
eleitoral dos islâmicos também uma indicação da base social estreita do protesto
secular original? A Grécia é um caso especial: nas últimas décadas surgiu uma nova
“burguesia assalariada” (especialmente na administração estatal superdimensionada)
graças à ajuda financeira e empréstimos da União Europeia, e muitos dos protestos
atuais, mais uma vez, reagem à ameaça de perda destes privilégios.
Além disso, esta proletarização da baixa “burguesia assalariada” vem acompanhada do
excesso oposto: as remunerações irracionalmente altas dos grandes executivos e
banqueiros (remunerações economicamente irracionais, uma vez que, como
demonstraram as investigações nos Estados Unidos, elas tendem a ser inversamente
47
proporcionais ao sucesso da empresa). É verdade, parte do preço pago por essa super
remuneração é o fato dos executivos ficarem totalmente disponíveis 24 horas por dia,
vivendo assim num estado de emergência permanente. Mais do que submeter estas
tendências a uma crítica moralista, deveríamos interpretá-las como a indicação de
como o próprio sistema capitalista não é mais capaz de encontrar um nível interno de
estabilidade autorregulada e de como esta circulação ameaça sair do controle.
***
Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão
disponíveis em ebooks, confira:
Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917, de Slavoj Žižek * ePub (Livraria
Cultura |Gato Sabido)
A visão em paralaxe * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)
Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Livraria Cultura | Gato
Sabido)
Em defesa das causas perdidas * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)
Lacrimae rerum: ensaios
Cultura | Gato Sabido)
sobre cinema
moderno * PDF * R$25 (Livraria
Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)
***
Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo,
psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas
do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan,
efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da
European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana,
Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos
diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo
publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de
Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009) e os mais
recentes Em defesa das causas perdidas e Primeiro como tragédia, depois como
farsa(ambos de 2011). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.
48
México
A caminho das eleições
México, (Prensa Latina) A poucos meses das eleições gerais de 1 de julho, a
esperança de muitos mexicanos hoje se concentra na possibilidade de que o próximo
Governo mudará suas vidas. Durante os 11 anos de dois governos do Partido da Ação
Nacional (PAN), a segunda economia de América Latina passou por momentos
complexos.
Em 2009 contraiu-se 6,1%, enquanto que o crescimento anual foi de pouco mais de
dois por cento, muito inferior ao que se precisa para enfrentar a pobreza.
Os raquíticos aumentos de salário se esfumaçam com os índices de inflação, motivo
pelo qual aceder aos produtos da cesta básica é já praticamente impossível, advertiu a
secretária geral de Sindicato Único de Trabalhadores da Universidade Autônoma da
Cidade de México (Sutuacm), Auxilio Heredia.
Para 2012, a Comissão Nacional de Salários Mínimos autorizou um incremento de
4,2% ao pagamento mensal, enquanto que no último dia 7 de janeiro o Banco do
México informou que a inflação de 2011 foi de 4,6%.
A situação atual é muito crítica e todos somos afetados, seja um pouco ou muito,
afirmou à Prensa Latina Arturo Blancas, empregado de serviços da Universidade
Autônoma Metropolitana, durante a marcha deste 27 de janeiro, convocada por
dezenas de sindicatos.
Uma convocação à que se uniram outros grêmios que coincidem em suas exigências
de melhoras para o cidadão comum.
Partidário da esquerda, Blancas considera que o próximo Governo terá que resolver
muitos problemas especialmente econômicos e sociais.
O Instituto Federal Eleitoral (IFE) informou que até o momento recebeu 54 mil 971
solicitações por correio de mexicanos no exterior que solicitam exercer seu direito ao
voto nas próximas eleições, e se prevê que o registro eleitoral esteja composto por uns
80 milhões de cidadãos.
Para o dia 1 de julho, além de realizar eleições para determinar o próximo presidente
do país, se renovará o Congresso (128 cadeiras do Senado e 500 da Câmara de
Deputados) e o México terá eleições locais em 15 entidades federativas, uma delas a
capital.
Alguns especialistas opinam que a Cidade do México é estratégica, não será uma
eleição qualquer, já que seu Governo está em poder do Partido da Revolução
Democrática (PRD) desde 1997.
49
Também a Assembleia Legislativa do Distrito Federal (DF) e as 16 delegações políticas
são espaços nos quais a esquerda é maioria.
Na semana passada, o PRD indicou seu candidato, o ex-procurador Miguel Ángel
Mancera, para contender pela cadeira do governo local, enquanto pelo PAN a
candidata é Isabel Miranda de Wallace.
O Partido Revolucionário Institucional (PRI) ainda deve selecionar seu representante
para esta briga pelo DF.
A nível nacional os três grandes partidos se beneficiarão ou serão prejudicados pelo
que fazem seus governos locais, mas ainda não há nada definido.
Enrique Peña Neto (PRI) e Andrés Manuel López Obrador, candidato pelo PRD, PT
(Partido do Trabalho) e Convergencia, já foram indicados pelas suas organizações;
mas os panistas ainda não elegeram sua carta entre Ernesto Cordero, Santiago Creel e
Josefina Vázquez.
Quem assumirá como novo presidente no dia 1 de dezembro de 2012 é uma incógnita.
Isso sim, "esperemos que não tenha muita "tranza" (fraude), que as eleições sejam
limpas, porque afinal de contas isto é como tapar o olho do macho com as votações,
pois sempre fica o próximo da lista", sublinhou Blancas.
Equador
Presidente equatoriano promete continuar caminho alfarista
Quito, (Prensa Latina) No mesmo lugar onde foram
incinerados o General Eloy Alfaro e seus companheiros de luta, o presidente Rafael
Correa assegurou hoje que continuará o caminho traçado pelo líder revolucionário até
conseguir a justiça no Equador. "Não vamos vacilar, nem embainhar nosso facão
enquanto exista miséria, enquanto fique uma criança sem sapatos nem alegria ou um
deficiente não receba atenção em uma Pátria com dignidade", afirmou Correa no
parque do Ejido em Quito, onde ocorreu o crime alfarista há 100 anos.
O mandatário, quem presidiu neste sábado a homenagem ao General em Montecrisiti,
sua cidade natal, assinalou que a morte do "Condor da América" marcou a história
moderna da República ao consagrar os direitos pelos quais ele lutou.
Em um discurso breve porém emotivo, Correa assinalou que Alfaro e seus colegas
consagraram com seu sangue os direitos civis como o da livre associação, a liberdade
de expressão e os direitos cidadãos.
Apontou que é importante reafirmar essa ideia porque seus assassinos diziam que ele
tinha acabado com as liberdades públicas quando foi, na verdade, o "campeão das
liberdades".
50
Seu espírito, continuou, vive na Constituição de Montecristi que pôs fim à longa noite
neoliberal, e por isso desde o parque onde foi massacrado partem importantes
convocações cidadãs como a do Primeiro de maio, para celebrar os direitos civis e
trabalhistas conquistados por Alfaro.
bservou que com seu desaparecimento não só se pretendia dar por terminada a vida
do maior equatoriano de todos os tempos, senão também terminar sua obra
revolucionária alfarista, reduzir a cinzas o laicismo e apagar com fogo o brilho das
mudanças.
No entanto compreenderam tarde demais que o alfarismo mudou para sempre o rosto
da
Pátria.
Alfaro vive com seu povo e não morreu, sentenciou o mandatário ao concluir seu
discurso
com
um
"até
a
vitória
sempre".
Com este ato não conclui a jornada nacional pelo Centenário do crime do também
chamado Velho lutador, já que estão previstas mais de uma centena de ações durante
2012
com
este
mesmo
motivo.
51
IRÃ
www.iranews.com.br
IRÃ: O QUE ESTÁ POR DETRÁS DO EMBARGO EUROPEU
NEWS
Por Anna Malm
De Estocolmo para o Irã News
Não só as vastas reservas de energia e recursos naturais do Irã atiçam a cobiça dos
dirigentes dos países economicamente impotentes da união européia assim como do
líder delas todos os Estados Unidos. Sabemos que sempre foi essa cobiça de mãos
dadas com a debilidade econômica que esteve por detrás das guerras ilegais dos
últimos vinte anos, a última das quais a da Líbia.
Agora temos que os caminhos que levam à Moscou e a Pequim passam por Teerã,
capitais essas localizadas respectivamente na Rússia, China e Irã. O que se tem
passado em relação às atitudes ocidentais agressivas dos últimos anos em relação à
Síria e ao Irã enquadra-se também num ramo de maiores considerações políticas geoestratégicas. [1]
No estudo apresentado em [1] considera-se que os caminhos que levam à Moscou e à
Pequim passam por Teerã do mesmo modo que os caminhos que levam à Teerã
passam por Damasco na Síria, Bagdá no Iraque e Beirute no Líbano.
Ressalta-se que os Estados Unidos querem controlar o Irã por razões políticas e
econômicas assim como para satisfazer as suas próprias necessidades de energia.
Eles querem também poder controlar a forma de pagamento da exportação do petróleo
do país. Querem que o pagamento das exportações de petróleo do Irã seja feita em
dólares.
Isso é para que o uso global e contínuo do dólar nas transações internacionais seja
mantido e não dilapidado, como tem sido nos últimos tempos. Lembramo-nos que o
uso do dólar como moeda de pagamento internacional é uma das duas pernas em que
o controle americano sobre o mundo se sustenta, apesar dos pesares. Digo apesar dos
pesares porque o dólar não tem valor nenhum por si mesmo. Poderia e deveria ser
trocado por sistemas de pagamento mais condizentes com a realidade de 2012 e não
condizente com a realidade de 1945, como é o caso. A outra perna em que o poder
americano sobre o mundo se sustenta é a força militar.
Controlando o Irã através de um regime de marionetes posto no poder através de uma
guerra dirigida pelos Estados Unidos e executada pelos seus aliados (como foi o caso
52
na Líbia e como estão ameaçando a fazer na Síria) Washington também estaria a pôr
uma corda no pescoço da China.
Essa corda deveria ser apertada ou afrouxada de acordo com os interesses norte
americanos, dando a eles o controle da segurança energética da China. Se a China
não se comportasse de acordo com os interesses americanos lá estariam eles a
estripá-la através do estripamento do fornecimento do petróleo. Estripamento esse que
seria garantido pelas marionetes estabelecidas no Irã ao custo do sangue de muitos
milhares e milhares de inocentes no Irã e no Oriente Médio, assim como à custo de
uma destabilização econômica no mundo inteiro, se não por uma catástrofe global.
É fato de conhecimento geral que a ameaça de guerra aberta que vemos hoje é uma
continuação dos acontecimentos desencadeados por ações encobertas há já uns anos.
Essas ações encobertas incluem serviços de informação específica, ataques e vírus
cibernéticos, grupos militares secretos, espiões, assassinos, agentes de provocação e
sabotadores agindo contra o Irã em favor dos interesses ocidentais.
O seqüestro e assassinato de cientistas iranianos e de comandantes militares é de
conhecimento público. Sabe-se de diplomatas iranianos seqüestrados no Iraque e de
iranianos visitando a Arábia Saudita e Turquia que foram detidos e seqüestrados.
Sabe-se de oficiais sírios, assim como vários palestinos e representantes de Hezbolah
que também foram assassinados. Ressalta-se que esses foram assassinados e não
detidos e colocados perante um tribunal de justiça.
Pressupõe-se que Israel tenha atacado o Líbano não só para exterminar ou pelo
menos enfraquecer Hezbolah, mas também para estrategicamente ferir a Síria. É
como dito, os caminhos que ferem a Síria vão através do Líbano. Os caminhos que
estrategicamente ferem Irã vão através da Síria. Os caminhos que estrategicamente
ferem ou afetam a Rússia e a China vão através da Síria e do Irã.
Síria é o apoio e o eixo do bloco da resistência contra os abusos ocidentais na região.
Essa resistência é apoiada pelo Irã. Há já cinco ou seis anos que os Estados Unidos
seguido dos seus irmãos em armas tentam desligar a Síria do Irã. Essa tentativa vinha
sido feita por esforços de seduzir a Síria. Sendo que a Síria não se deixou seduzir
pelas ofertas ocidentais as tentativas de sedução já se transformaram em ameaças e
preparações de guerra.
Combater a Síria é combater o Irã. Esse é um ponto central a se ter em conta no
contexto atual. A balança do poder e da influência política hoje na região tende a favor
do Irã, mas nada enfraqueceria mais o Irã do que a perda da Síria.
Há aqui cenários potenciais e devastadores. Iria o Irã manter-se passivo frente a um
53
ataque à Síria, ataque esse liderado pelos interesses ocidentais? Podemos pressupor
que não. Os Estados Unidos não desejam que esse potencial cenário veja a luz do dia.
O que eles querem é atacar a Síria e depois atacar o Irã, não os dois juntos. Seria
demais até mesmo para os EUA-EU-OTAN. Isso já para nem se mencionar a cadeia
de acontecimentos a serem desencadeados imprevisivelmente.
A marcha para uma guerra total e devastadora continua enquanto os Estados Unidos
intensificam a guerra política e econômica da qual a decisão de embargo da União
Européia só é um passo a mais. É uma marcha fúnebre dirigida por loucos falidos e
letalmente armados.
REFERÊNCIAS E NOTAS:
[1] Mahdi Darius Nazemroaya, é sociólogo e autor consagrado especializado em
questões do Oriente Médio e da Ásia Central. Tendo estudado e analisado em extenso
a situação atual ele argumentou em favor do núcleo das idéias que aqui
retransmitimos. Originalmente o núcleo sequencional das idéias e conclusões aqui
apresentadas foram publicadas em “News”- “Obama´s Secret Letter to Tehran: Is the
war against Irã on Hold? Em www.strategic-culture.org - Strategic Culture
Foundation, Moscou.
Download

Informativo No 4-2012 Como está o Mundo no inicio de 2012