1° Ten Al MARIA LÚCIA DA COSTA BASTOS
FORMAÇÃO DE IDENTIDADE DA MULHER MILITAR:
Análise do Caso do Serviço de Saúde do Exército Brasileiro Curso de Formação de Oficiais do Ano de 2009
RIO DE JANEIRO
2009
1° Ten Al MARIA LÚCIA DA COSTA BASTOS
FORMAÇÃO DE IDENTIDADE DA MULHER MILITAR:
Análise do Caso do Serviço de Saúde do Exército Brasileiro –
Curso de Formação de Oficiais do Ano de 2009
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à
Escola de Saúde do Exército como requisito parcial
para aprovação no Curso de Formação de Oficiais
do Serviço de Saúde, especialização Lato Sensu
em Aplicações Complementares às Ciências
Militares.
Orientadora: Me. Flávia de Holanda Schmidt
RIO DE JANEIRO
2009
B334f
Bastos, Maria Lúcia da Costa.
Formação de identidade da mulher militar: análise do caso
do Serviço de Saúde do Exército Brasileiro – Curso de Formação
de Oficiais do Ano de 2009 / Maria Lúcia da Costa Bastos. - Rio
de Janeiro, 2009.
57f ; 30 cm
Orientadora: Me. Flávia de Holanda Schmidt
Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização) – Escola
de Saúde do Exército, Programa de Pós-Graduação em
Aplicações Complementares às Ciências Militares, 2009.
Referências: f. 46-50.
1. Mulheres Militares. 2. Exército Brasileiro. I. Schmidt,
Flávia de Holanda. II. Escola de Saúde do Exército. III. Título.
CDD 355.3
1° Ten Al MARIA LÚCIA DA COSTA BASTOS
FORMAÇÃO DE IDENTIDADE DA MULHER MILITAR:
Análise do Caso do Serviço de Saúde do Exército Brasileiro –
Curso de Formação de Oficiais do Ano de 2009
COMISSÃO DE AVALIAÇÃO
Cap FLÁVIA DE HOLANDA SCHMIDT – Diretoria de Intendência da Aeronáutica
Orientadora
Cap CHARLESTON DE OLIVEIRA FERNANDES – Escola de Saúde do Exército
Avaliador
1° Ten ALEXANDRE VICENTE VELOSO DE LIMA – Escola de Saúde do Exército
Avaliador
RIO DE JANEIRO
2009
Dedico àquelas
que trocaram seu vestido pela farda,
a noite tranqüila em casa,
para estar de serviço no quartel,
mas principalmente,
àquelas que não mais esperam o marido voltar da guerra,
porque vão à guerra em defesa da Pátria.
Dedico à Mulher-Militar.
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos meus pais, que sempre estiveram ao meu lado, dando-me força e coragem
para seguir em frente.
Ao meu companheiro, amigo e marido, Luciano, por ter tido paciência. Por tantas vezes, ele
foi o meu motivo para sorrir e para ver que tudo valia a pena.
À minha querida amiga e orientadora, Flávia. Amiga dos anos estudados no Colégio Militar do
Rio de Janeiro, ela confirma os laços indissolúveis que formamos dentro da caserna.
A todos os meu amigos e familiares que sempre torceram pelo meu sucesso.
A todos da Escola de Saúde do Exército que me apoiaram ao longo do Curso de Formação de
Oficiais do ano de 2009.
E obrigada a Deus, por tornar mais um sonho uma realidade.
"A mulher foi feita da costela do homem; não dos pés para ser pisada,
nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual,
debaixo do braço para ser protegida e do lado do coração para ser amada."
Maomé
RESUMO
Palavras-Chaves: Mulher. Militar. Exército Brasileiro.
Objetivou-se nesta monografia, analisar a inserção da mulher na carreira militar, caracterizando as
adaptações em sua identidade durante este ingresso, conquistando espaço num universo
originalmente masculino. A relevância deste estudo foi auxiliar a otimização entre homens (maioria
do universo militar) e mulheres (por muitos, consideradas penetras em um universo que não as
pertence), facilitando seu entendimento, até hoje tão conturbado. Neste trabalho, duas pretensões
foram bem claras: uma seleta revisão bibliográfica sobre um assunto que tanto desperta a atenção,
não só de estudiosos, como da população em geral e analisar o segmento feminino do Curso de
Formação de Oficiais do ano de 2009, da Escola de Saúde do Exército. O objetivo foi corroborar com
autores que já abordaram este assunto – mulheres na carreira militar – e aprofundar no tema, que
até então permanece inconclusivo. Durante o trabalho, foram abordados os aspectos históricos da
participação feminina nos campos de batalha, além de sua aceitação de forma regular nas Forças
Armadas de diversos países. Apesar disso, o efetivo feminino total ainda permanece muito inferior ao
masculino em números absolutos. Foi também abordado o estudo de organizações militares,
possibilitando a compreensão dos fenômenos ocorridos dentro dos muros dos quartéis e tecidas
algumas considerações sobre as suas especificidades. Da mesma forma, foi feita uma revisão
bibliográfica sobre a participação feminina no meio militar. A análise de caso, utilizou-se de uma
pequena amostra de 43 oficiais-alunas do Curso de Formação de Oficiais, da Escola de Saúde do
Exército, além de outras 7 oficiais do sexo feminino e 10 oficiais do sexo masculino, totalizando 60
indivíduos. Na pesquisa de campo, informações foram coletadas por meio de pesquisa documental e
análise participativa informal, utilizando-se questionários de avaliação, com a devida autorização dos
participantes. Observou-se a concordância entre a literatura e a análise de caso, em 8 das 12
proposições. Foram avaliadas questões abrangendo temas como as diferenças entre os sexos,
desigualdades no meio militar, aspectos profissionais em relação ao sexo do indivíduo e aspectos
culturais incutidos no militar. Pela análise dos resultados, chegou-se à conclusão de que muito pouco
tem se alterado nas relações entre o universo feminino e sua inserção na carreira militar. A maioria
das barreiras a esta adaptação continua intacta, demonstrando o escudo de um “gueto masculino” –
o meio militar – aos avanços femininos. Na formação militar, ocorre a internalização de valores, que
não se referem apenas a valores militares, mas sobretudo a valores tidos como masculinos. Neste
ponto, esbarramos na barreira ainda presente em toda a sociedade: a discriminatória em relação ao
sexo feminino. A mulher que opta por abraçar a carreira militar adaptará a sua identidade a fim de
respeitar novos preceitos, ideologias, renúncias, mas jamais abrirá mão da sua sexualidade. A
mulher só necessita ser respeitada por ser mulher e profissional e competente e militar.
ABSTRACT
Keywords: Woman. Military. Brazilian Army.
The objective of this monograph is to examine the women integration in the military career, showing
the changes in their identity during their admission, conquering space in a typical male universe. This
study is relevant to support men (most of the military universe) and women (for many, considered
entering into an universe that does not belong to then) in this integration, making their relashionship
easier. In this work, there were two main goals: to make a literature review on a subject that arouses
so much attention; not only to scholars but to the general population at all; and examine the female
segment of the Officers Training Course of the year 2009 in the Brazilian Army School of Health. One
of the objectives of this work was to support authors who have addressed this issue - women in the
military career - and go deeper in this theme, which remains inconclusive until now. During the work,
historical aspects of female participation on the battlefield were addressed, and their acceptance on a
regular basis in the Armed Forces of various countries was shown. Nevertheless, the actual total
number of females in the Army remains much lower than men in absolute figures. It was also made
an study of military organizations, allowing the understanding of this phenomena that occurs within
the walls of the headquarters, and finally, was done some considerations about its peculiarities. In the
same way, there was produced a literature review on women's participation in the military
environment. In this case analys, a small sample of 43 officers-students of the Officers Training
Course in the Brazilian Army School of Health and other 7 female officers and 10 male officers, was
used, totaling 60 individuals. In field research, information was gathered through desk research and
informal analysis, using questionnaires for evaluation, with the approval of the participants. There was
a correlation between the literature and cases analysis in 8 of the 12 propositions. Questions covering
subjects like the differences between sexes, inequality in the military environment, professional
issues regarding to sex differences and cultural aspects of the military were evaluated. From the
analysis of the results, the conclusion was that very little has changed concerning the feminine
universe and its insertion into the military career. Most of the barriers to this adjustment still intact,
showing the shield of a "man ghetto" - the military environment - to the achievements of women. In
military training, occurs the assimilation of values that do not refer only to military, but specifically of
values considered predominantly masculine. At this point, we were stopped by the barrier still present
in the whole society: the discrimination on women. The woman who chooses to embrace the military
career have to adapt their identity in order to comply with new rules, ideologies, resignations, but will
never abdicate their sexuality. The woman only needs to be respected as
a woman, as a
competent professional and as a military.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1
Figura 2
Figura 3
Estágios do Desenvolvimento da Pesquisa......................................... 26
Idade, em anos .................................................................................... 28
Especialidade profissional, entre Medicina, Odontologia, Farmácia,
Figura 4
Militar Combatente ou Enfermagem..................................................... 28
Anos de experiência profissional anteriores ao Exército...................... 29
Figura 5
Serviço Militar pregresso, como temporário ou em outra Força
Armada ou Auxiliar (antes da EsSEx).................................................. 29
Figura 6
Figura 7
Figura 8
Figura 9
Figura 10
Figura 11
Figura 12
Figura 13
Figura 14
Figura 15
Figura 16
Figura 17
Resposta à afirmação 1.......................................................................
Resposta à afirmação 2.......................................................................
Resposta à afirmação 3.......................................................................
Resposta à afirmação 4.......................................................................
Resposta à afirmação 5.......................................................................
Resposta à afirmação 6.......................................................................
Resposta à afirmação 7.......................................................................
Resposta à afirmação 8.......................................................................
Resposta à afirmação 9.......................................................................
Resposta à afirmação 10.....................................................................
Resposta à afirmação 11.....................................................................
Resposta à afirmação 12.....................................................................
SUMÁRIO
30
30
31
31
32
32
33
33
34
34
35
35
1
2
2.1
2.2
3
3.1
3.2
4
4.1
4.2
4.3
5
5.1
5.2
6
7
INTRODUÇÃO...........................................................................................
HISTÓRICO DAS “MULHERES GUERREIRAS”.......................................
No Mundo...................................................................................................
No Brasil.....................................................................................................
REVISÃO BIBLIOGRÁFICA.......................................................................
Estudando Organizações Militares.............................................................
Ser Mulher, Ser Militar, Ser Mulher-Militar, Ser Militar-Mulher...................
METODOLOGIA.........................................................................................
Tipo de pesquisa........................................................................................
População do universo e amostra..............................................................
Método utilizado para a coleta de dados e para análise............................
RESULTADOS SOBRE O QUESTIONÁRIO DE AVALIAÇÃO..................
Informações pessoais................................................................................
Respostas às afirmações propostas .........................................................
DISCUSSÃO..............................................................................................
CONCLUSÃO.............................................................................................
REFERÊNCIAS..........................................................................................
APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E
10
12
12
13
17
17
19
26
26
26
26
28
28
29
36
42
46
ESCLARECIDO..........................................................................................
APÊNDICE B – QUESTIONÁRIO DE AVALIAÇÃO...................................
51
53
1 INTRODUÇÃO
As minorias nunca poderiam se traduzir como uma inferioridade numérica, mas sim, como
maiorias silenciosas que, ao se politizar, convertem o gueto em território e o estigma em
orgulho – gay, étnico, de gênero.
(LOURO, 2001).
O objeto a ser abordado neste estudo é a inserção da mulher na carreira militar e toda a
transformação de sua identidade. O que se altera na vida de uma mulher, por vezes já inserida no
mercado de trabalho, que opta por uma carreira historicamente masculina?
A predominância masculina no mundo do trabalho influencia fortemente o que é produzido,
estudado e difundido nas organizações. A maioria dos temas da Administração não é tratada por
uma perspectiva de gênero: assume-se e comunica-se que as organizações são neutras em relação
ao gênero, ou então, que são “um mundo de homens administrado por homens” (ALVESSON e
BILLING, 1997).
A entrada mais expressiva de mulheres no mercado de trabalho é marcada por períodos de
crise, como a I Guerra Mundial, em que elas substituíram temporariamente os postos de trabalho dos
homens que foram à guerra, ou por períodos de transformação produtiva, como na I Revolução
Industrial, quando o trabalho feminino passou a ser interessante para as indústrias nascentes. Sem
contar também com os movimentos feministas por direito ao trabalho, à remuneração e ao voto,
entre outras reivindicações sociais. No Brasil, em alguns setores econômicos, o trabalho feminino já
foi incorporado e aceito com naturalidade, havendo, inclusive, aspectos específicos dessa mão-deobra que têm sido muito valorizados (CAPPELLE e MELO, 2007).
Entretanto, há algumas áreas em que as mulheres ainda encontram dificuldades de inserção
ou de ascensão na carreira, o que gera uma necessidade de reconstrução e auto-regulação das
formas de expressão de homens e mulheres, bem como da sua concepção do espaço do trabalho
(CAPPELLE e MELO, 2007).
A carreira militar, analisada como um espaço organizacional de interação social, pode ser
considerada como uma espécie de “gueto masculino”, no qual admitiu-se o ingresso de mulheres há
pouco tempo. A inserção de mulheres na organização, principalmente as do oficialato, tem ocorrido,
predominantemente, em funções administrativas e de relações públicas, tidas como atividades-meio
e não atividades-fim. Percebe-se uma maior dificuldade de inserção daquelas militares que optam
por seguir carreira na área operacional, chamando a atenção por serem minorias num meio
predominantemente masculino (CAPPELLE e MELO, 2007).
A relevância deste estudo é auxiliar a otimização da inserção da mulher na carreira militar,
facilitando o entendimento, até hoje tão conturbado, entre homens (maioria do universo militar) e
mulheres (por muitos, consideradas penetras em um universo que não as pertence).
A imbricação entre os dois segmentos – masculino e feminino – só fortalecerá as Forças
Armadas, tornando-as mais uniformes e eficazes, objetivo fundamental para o militar.
Neste estudo, duas pretensões são bem claras: uma seleta revisão bibliográfica sobre um
assunto que tanto desperta a atenção, não só de estudiosos, como da população em geral e analisar
o segmento feminino do Curso de Formação de Oficiais do ano de 2009, da Escola de Saúde do
Exército.
Objetiva-se corroborar com autores que já abordaram este assunto – mulheres na carreira
militar – e aprofundar o estudo deste tema, que até então permanece inconclusivo. Vê-se, numa
rápida revisão bibliográfica, a divisão clara de opiniões sobre um assunto extremamente subjetivo: a
“alma feminina”.
Diante do exposto, objetiva-se com esta pesquisa, caracterizar as adaptações que a mulher
sofre para ingressar na carreira militar, conquistando espaço num universo originalmente masculino,
analisando médicas, dentistas e farmacêuticas, antes de tudo, mulheres, filhas, esposas, mães, que
optaram por abraçar a carreira militar.
O que significa “Ser Mulher, Ser Militar, Ser Mulher-Militar, Ser Militar-Mulher”?
2 HISTÓRICO DAS “MULHERES-GUERREIRAS”
2.1 No Mundo
Segundo Matos (2003), os primeiros relatos da presença de mulheres nos campos de
batalha remontam aos mitos gregos, onde, segundo estas lendas, havia uma nação composta de
mulheres-guerreiras, conhecidas como as “amazonas”. Palavra cujo significado quer dizer “sem
seios” (a=sem e mazos=seios), devido à crença de que as mesmas extirpavam seus seios para
melhorar o desempenho no campo de batalha, estas guerreiras teriam formado um reino
independente, onde haviam apenas mulheres. Aparecem em diversas passagens da mitologia grecoromana, entre elas, a participação na guerra de Tróia e combatendo Hércules, em um de seus 12
trabalhos. Referências a respeito desta civilização - que são encontradas em relatos de povos préhelênicos que viviam às margens do Mar Negro, ao Norte da África e na região conhecida como Ásia
Menor, onde hoje se localizam a Turquia e o Irã - além de descobertas arqueológicas recentes,
sugerem que o mito teria se baseado em guerreiras reais. A ferocidade destas guerreiras ficou
conhecida por séculos, e veio a dar nome ao maior estado do Brasil e ao maior rio do mundo, graças
ao explorador espanhol Francisco de Orellana, que em 1541, afirmou haver lutado com mulheres
guerreiras que, das margens do rio Maranhão, disparavam-lhe flechas e dardos de zarabatanas. A
região ficou conhecida no mundo como Amazônia (MATOS, 2003).
Relatos da participação feminina nos campos de batalha são freqüentes na história da
humanidade, como Joana D’Arc, Anita Garibaldi, entre outras. Porém, somente a partir da segunda
metade do século XX, as mulheres passaram a ser aceitas de forma regular nas Forças Armadas de
diversos países, quando começaram a receber formação idêntica a dos homens. Até então, elas
apenas participavam do teatro de operações de forma esporádica, em particular, desempenhando
funções de apoio ou atuando nas áreas de saúde (MARIUZZO, 2008).
Hoje, várias nações aceitam mulheres em suas fileiras, porém o efetivo feminino total ainda
é muito inferior ao masculino em números absolutos. Os maiores números são encontrados nos
países da América do Norte e Europa, mas mesmo os Estados Unidos, que têm a maior proporção
de mulheres nas suas FFAA, contam com apenas 14% do seu efetivo total pertencendo ao sexo
feminino. Outros países que se destacam no número de mulheres em suas Forças Armadas são o
Canadá, com quase 11% em relação ao total de soldados do país, Hungria, com 9% e França, com
8,5%, de acordo com dados da Organização do Tratado do Atlântico Norte do ano de 2000
(MARIUZZO, 2008).
Ainda segundo Mariuzzo (2008), os EUA são um dos raros países que apresentam
mulheres combatentes em suas fileiras, já havendo uma mulher em alta graduação, ocupando o
posto de General de Divisão. Em Israel, país onde o serviço militar é obrigatório para mulheres, elas
estão excluídas das posições de combate. Isso ocorreu porque contribuíam para aumentar o número
de mortos. A tendência do homem era proteger a companheira, enquanto o inimigo não queria se
render à mulher. Ambos os casos geravam mais mortes.
2.2 No Brasil
No Brasil, a primeira notícia da participação de uma mulher em uma campanha militar, se
deu durante a Guerra de Independência, em meados de 1820. Maria Quitéria de Jesus, disfarçada
de soldado e trajando uniforme masculino, sob a alcunha de Soldado Medeiros, lutou ao lado dos
homens e recebeu as honras de 1º Cadete. Mesmo descoberta, permaneceu no Exército Brasileiro
graças a sua bravura, sendo transferida para o Batalhão Voluntários do Príncipe. O Exército
Brasileiro, por decreto de 28 de junho de 1996, instituiu Maria Quitéria de Jesus patrona do Quadro
Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro, sendo assim considerada “Heroína da
Independência do Brasil” (FÁZIO, 2003).
Segundo Pascal (2006), participações femininas importantes aconteceram durante a Guerra
do Paraguai, entre 1864 e 1870, guerra esta que produziria profundas transformações na geopolítica
da América do Sul e marcaria a consolidação do Exército Brasileiro como instituição forte e
respeitável. A presença feminina neste conflito ocorreu de forma voluntária e sem apoio
governamental. O principal nome representando as mulheres na guerra foi o da enfermeira Ana Néri,
que optou por acompanhar seus filhos e irmãos no campo de batalha. Durante toda a campanha,
Ana Néri prestou serviços nos hospitais militares de Salto, Corrientes, Humaitá e Assunção, vendo
morrer na luta um de seus filhos. Regressando ao Brasil, foi condecorada com a Medalha Geral de
Campanha e a Medalha Humanitária de primeira classe. É considerada a matriarca da enfermagem
no Brasil e hoje emprega seu nome em diversos hospitais e escolas de enfermagem. Assim como
Ana Néri, muitas outras mulheres serviram à pátria na Guerra do Paraguai: Florisbela, Maria
Curupaiti e Jovita Alves Feitosa, foram algumas dessas mulheres, que mesmo sem qualquer tipo de
direito ou assistência, lutaram ao lado de outros brasileiros. Estas foram as pioneiras que abriram as
portas do Exército Brasileiro para as mulheres, porém, por mais de um século, a participação destas
ficaria restrita aos serviços de enfermagem, profissão símbolo das primeiras tentativas de
emancipação feminina no Brasil (PASCAL, 2006).
Por Lannes (2008), as mulheres brasileiras ainda voltariam a mostrar o seu valor no teatro
de operações da Segunda Guerra Mundial. Em 1944, o país colaborou com o esforço de guerra
aliado enviando 23.334 praças à Europa, através da Força Expedicionária Brasileira, a FEB - entre
eles, 73 enfermeiras - sob o comando do General Mascarenhas de Morais. Pela primeira vez na
história do Brasil, mulheres fizeram parte oficialmente das Forças Armadas do país, com a
publicação do decreto-lei 6097/43, que instituiu o Quadro de Emergência de Enfermeiras da Reserva
do Exército (QEERE). Após o Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva (CEERE),
ministrado pela Diretoria de Saúde do Exército, as enfermeiras voluntárias foram encaminhadas a
quatro hospitais do Exército Norte-Americano, sendo 67 delas enfermeiras hospitalares e 6
especialistas em transporte aéreo. Entre as voluntárias no Corpo de Enfermeiras da FEB, estava a
escritora de origem judia, Clarice Lispector. Com o fim da guerra, em 1945, e o regresso ao Brasil, as
enfermeiras foram condecoradas, ganharam patente de oficial e foram em seguida licenciadas do
serviço militar ativo. Com isso, as Forças Armadas Brasileiras voltariam a ser unicamente
masculinas, por mais de três décadas, quando no início da década de 80, a Marinha Brasileira
passou a admiti-las em seus quadros, ainda que em funções auxiliares e na área de saúde
(LANNES, 2008).
Em 1980, o Corpo Auxiliar Feminino da Reserva da Marinha (CAFRM) foi criado pelo
Almirante Maximiliano da Fonseca, visando a atuação das mulheres nas áreas técnicas e
administrativas. Em seguida, criou-se o Quadro Complementar de Oficiais (QCO) e o Quadro Auxiliar
de Oficiais (QAO), com a intenção inicialmente de suprir a demanda existente na área de saúde, em
especial, no Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Apesar do pioneirismo da Marinha, apenas em
1998, as mulheres puderam efetivamente participar de missões em navios hidrográficos,
oceanográficos, de guerra e em helicópteros (MARIUZZO, 2008).
Na Aeronáutica, a Academia da Força Aérea (AFA) foi a primeira instituição da América
Latina a incluir mulheres em seus Cursos de Formação de Oficiais, no ano de 1996, e desde então,
as mulheres representam cerca de 50% dos Cadetes deste curso, recebendo a mesma formação
dos homens. Em 2002, as mulheres puderam ingressar no Curso de Formação de Oficiais Aviadores
e em 2004, pela primeira vez na história da aviação brasileira, uma mulher pilotou sozinha uma
aeronave de instrução militar da AFA. Atualmente, a Aeronáutica é a única Força Armada a permitir
o ingresso de mulheres nos seus quadros de Oficiais Combatentes (MARIUZZO, 2008).
A participação feminina no Exército Brasileiro começou a se desenhar a partir de 1987,
através da Portaria Ministerial 810, que determinava a transformação do corpo discente em misto,
visando a melhoria do ensino preparatório e assistencial do Exército, com a destinação de vagas nos
Colégios Militares para o sexo feminino. Assim, em 1989, as primeiras meninas ingressaram nos
Colégios Militares do Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Fortaleza e Manaus (LOHMANN e
VOTRE).
Ainda em 1989, foi criado o Quadro Complementar de Oficiais (QCO), através da Escola de
Administração do Exército (EsAEx), em Salvador, Bahia. O QCO tinha como objetivo a formação de
oficiais para diversas funções militares, visando a incorporação de profissionais formados em nível
superior, nas áreas de direito, contabilidade, magistério, administração, análise de sistemas,
jornalismo e em outras áreas voltadas para as ciências humanas e exatas. Só em 1992, o QCO
possibilitou, pela primeira vez, a entrada da mulher no Exército Brasileiro como oficial (ESAEX,
2009).
No ano de 1997, foi instituída a carreira militar para médicas, dentistas e farmacêuticas na
Escola de Saúde do Exército (EsSEx), no Rio de Janeiro, formando-as oficiais do Quadro de Saúde
(ESSEX, 2009).
No mesmo ano, o Instituto Militar de Engenharia (IME) matriculou a primeira turma, com dez
alunas, as quais poderiam ser incluídas no Quadro de Engenheiros Militares. No IME, a perspectiva
na carreira é de 1º Tenente a General-de-Divisão (homens e mulheres), independente do tipo de
curso de formação. Neste caso específico, as mulheres podem ascender na escala hierárquica, mas
não chegam ao topo máximo e não participam ativamente das atividades militares, continuando
exercendo as atividades complementares (IME,2009).
Foi oficializado em 2001, com a adoção da Portaria 124 do ano de 2000, do Estado-Maior
do Exército, o curso de Formação de Sargentos de Saúde para técnicas de enfermagem (LANNES,
2008).
Hoje, 17 anos após a entrada das mulheres no Corpo de Oficiais do Exército Brasileiro,
estas ocupam cargos em organizações militares de todas as regiões do Brasil. Segundo o Exército
Brasileiro (2009), a maioria das oficiais encontra-se nos Quartéis-Generais, Organizações Militares
de Saúde, Estabelecimentos de Ensino e Órgãos de Assessoramento do Exército. Elas podem servir
como militar de carreira, o que pode ser conquistado por meio do ingresso no IME, na EsSEx e na
EsAEx ou como militar temporária, desde que tenham uma formação universitária e ingressem no
Sistema de Serviço Militar, cuja permanência é de oito anos no serviço ativo. As mulheres recebem a
mesma instrução básica ministrada aos homens, apesar da sua restrita participação em operações
militares, como as missões de paz no exterior.
Segundo dados do Ministério da Defesa do ano de 2008, 8403 mulheres estão empregadas
na Marinha, Exército e Aeronáutica, o que corresponde a 2,62% do efetivo das Forças Armadas
Brasileiras (MARIUZZO, 2008).
3 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
3.1 Estudando Organizações Militares
O estudo de organizações militares, assim como a possibilidade de compreensão dos
fenômenos ocorridos dentro dos muros dos quartéis, ganha bastante diante da possibilidade de que
sejam tecidas algumas considerações sobre as suas especificidades. A vida organizacional na
caserna é caracterizada por uma cultura forte, baseada em dois preceitos fundamentais e
constitucionais: a hierarquia e a disciplina, valores que são incutidos à exaustão nos militares desde
o primeiro dia de suas carreiras. Oliveiros Ferreira (2000) ilustra essa afirmação dizendo que “a
hierarquia e a disciplina – que se transformaram num segundo hábito pelo treinamento e são o
cimento da estrutura militar – permitem a cada um que entra em ação saber que a obediência às
ordens é a condição para que esta seja bem sucedida”.
Para Segal e Segal (1983), as organizações militares tendem a ser um microcosmos das
sociedades que as abrigam, e dessa forma, ainda que com traços especiais, podemos depreender
que é plausível esperar que sejam encontradas lá os mesmos desafios organizacionais presentes na
chamada “vida civil”.
Entretanto, Celso Castro (2000), realizador de um extenso trabalho de pesquisa em
organizações militares brasileiras, faz alguns importantes alertas para aqueles que se lancem na
empreitada de pesquisar fenômenos organizacionais nos intramuros dos quartéis. Para o
antropólogo, a análise de questões organizacionais pode ser uma verdadeira armadilha para os
pesquisadores, uma vez que elas apresentam um delineamento morfológico. Aos olhos, são claros
os muros com sentinelas, soldados com uniformes e diversas outras distinções físicas e simbólicas,
o que pode tentar o pesquisador a reduzir o seu trabalho a um inventário de elementos, traços e
regras próprias da identidade militar e da morfologia da instituição (CASTRO, 2004). O autor enfatiza
a necessidade de extrapolar o óbvio e destaca que o desafio não é perceber o que é a identidade,
mas “como” ela é, isto é, quais são os mecanismos simbólicos e de que maneiras o significado é
articulado. Restaria então, para o pesquisador, desenvolver possibilidades de captar as
subjetividades subliminares a todo aquele contexto visível e altamente ritualizado.
Um dos trabalhos de maior relevância do autor foi investigar a identidade militar dentro de
um dos microcosmos das Forças singulares mais propícios para tanto: uma Academia Militar de
formação de oficiais. Funcionando como uma redoma em volta do Cadete (o posto do aluno durante
todo o curso de formação), o período de formação na Academia pode ser visto como um ritual de
passagem com o objetivo de destruir a identidade civil e desenvolver o espírito militar nos indivíduos
(CASTRO, 2004). É ainda parte da missão da instituição, selecionar aqueles que são capazes de se
adaptar à dura e exaustiva vida na Academia e “homogeneizar” os alunos, ou seja, ensinar a todos a
doutrina e os exercícios militares exigidos, como a “ordem unida” (CASTRO, 2004). Ainda, referindose a Academias Militares, sugere que elas tendem a ser instituições totais, isto é, elas são “um local
de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados
da sociedade mais ampla por considerável barreira” (CASTRO, 2004).
Ao investigar os aspectos ideológicos relacionados ao uso da farda, um dos atributos visíveis
mais marcantes da cultura militar, Morais (2007) enfatiza que o tema é desafiador, com diversas
nuances e possibilidades de investigação, ressaltando, entretanto, que o indivíduo “se adapta e
insere suas perspectivas sobre a organização, adotando práticas que garantem sua sobrevivência na
organização, subvertendo todo imaginário dominador que a visão de mundo compartilhada na
organização pode impor”. Os seus achados indicam que os militares desenvolvem técnicas de
adaptação à realidade, viabilizando assim, a consecução dos seus objetivos individuais, mesmo à
custa da subversão do discurso da organização.
Tratando especificamente, sob a perspectiva do habitus de Bordieu, do processo de
socialização empreendido nas organizações militares, Rosa e Brito (2007) argúem que, na vida
militar, opera-se algo como uma “alternação” ou “conversão” do habitus, de modo a substituir a forma
primária pela secundária, representada pela subjetividade militar. Os autores chamam atenção,
especialmente, para a pedagogia corporal que educa o uso do corpo como um uso bélico,
sustentando ainda que quanto maior a intensidade e a duração do trabalho deste “corpo bélico”
durante a fase de formação, maior é a in”corpo”ração dessa lógica. Reforçando assim o acima
exposto, a sugestão dos autores vai ao encontro das características da formação militar nas
Academias citadas por Castro (2000): submetidos durante quatro anos a um processo rigoroso e
totalizante de socialização, espera-se do militar em formação uma disjunção total dos valores e
caracteres da sua “antiga vida civil”, de onde se espera a adoção de novos discursos e novas
práticas organizacionais, alinhadas à vida na caserna, pois somente dessa forma, há êxito na
formação da identidade militar.
Entretanto, algumas pesquisas sugerem que, quando se trata da questão do gênero dentro
das organizações militares, o discurso real, assim como as situações vivenciadas em situações de
mudança decorrentes da presença da mulher nas mesmas fileiras e com as mesmas possibilidades
de acesso aos quadros combatentes, apesar de marcados com traços distintos, não se revelam tão
diferenciados do que reverberam nos corredores das organizações civis.
3.2 Ser Mulher, Ser Militar, Ser Mulher-Militar, Ser Militar-Mulher
Da mesma forma que há poucos estudos antropológicos acerca de organizações militares,
há em menor número ainda, dentro das Ciências Sociais, sobre a participação feminina nas Forças
Armadas (SILVA e LEIRNER, 2007). Algumas pesquisas recentes, entretanto, dedicaram-se a
analisar as questões decorrentes da presença da mulher nos quartéis brasileiros, como as realizadas
por Sônia Carvalho (1990), Maria Celina D’Araújo (2004), Suzeley Kalil Mathias (2005), Emília
Takahashi (2002), Tomei et al (2007), Maria Cecília de Oliveira Adão (2007) e Cristiane Aparecida
Baquim (2007). O presente trabalho busca, a partir dos pontos de vista multidisciplinares colocados
sobre gênero e identidade por essas autoras, oriundas da Antropologia, da Educação, da Psicologia
Social e da Administração, evidenciar como ocorre a formação da identidade militar nas alunas do
Curso de Formação de Oficiais do Serviço de Saúde do Exército Brasileiro.
Segal e Segal (1983) destacam que os militares têm sido tradicionalmente uma “província
exclusivamente de homens caracterizada por normas tipicamente masculinas”. Mulheres militares
são assim ainda vistas como rompendo tanto os estereótipos tradicionais de papéis femininos quanto
os modos tradicionais através dos quais os homens vinham demonstrando sua masculinidade. Shilts
caminha na mesma direção ao afirmar que “a questão das mulheres como militares nunca girou em
torno delas; foi sempre em torno dos homens e das suas necessidades de definir sua masculinidade”
(THOMAS, 1996). Os militares mantêm o soldado homem, particularmente o soldado de combate,
como um tipo ideal, e dessa forma, buscam estimular que elas sejam o que não são nem nunca
serão, marginalizando-as em ambientes militares. Então, com esse pano de fundo, passa-se a
observar o olhar que tem sido dirigido à incorporação dessas mulheres às fileiras das Forças
Armadas Brasileiras (THOMAS, 1996).
Para Maria Celina D’Araújo (2000), a incorporação das mulheres às Forças Armadas
“corresponde, na pós-modernidade, ao processo de democratização das sociedades e à expansão
dos direitos de igualdade entre etnias, crenças, sexos e gêneros”. Entretanto, a autora faz questão
de destacar, na mesma linha de Shilts, que a idéia do “soldado profissional”, com imagem fortemente
associada à valentia e outros atributos masculinos, fica em xeque, e ainda são necessárias
transformações substantivas nos critérios estabelecidos da organização militar. Diversas questões
ainda careceriam maior reflexão: como admitir mulheres, por natureza fisicamente débil, em uma
instituição que por definição tem que lidar com o monopólio da força bruta? Como incorporar
pessoas que evocam os sentidos, a libido e o afeto em uma instituição que deve estar acima de
sentimentos pessoais?
Duas pesquisas, especialmente, apresentam resultados controversos que permitem
exemplificar bem o impacto do processo de socialização na formação da identidade ocorrido em um
centro de formação de oficiais, como sugerido por Castro (2004) e Rosa e Brito (2007). A
investigação foi realizada por Sônia Carvalho, em 1990, no Centro de Aplicações Táticas e
Recompletamento de Equipagens (atualmente denominado Base Aérea de Natal, em ParnamirimRN), com as militares dos quadros femininos e, portanto, egressas da vida civil para ter um processo
de formação militar realizado em poucos meses em centros de treinamento. Fora do contexto das
Academias Militares, ficou claramente evidenciado que elas viam seu reconhecimento no grupo
militar ocorrer, acima de tudo, sobre a sua condição de “ser mulher”, que se imporia sobre o fato de
“ser militar”. Por sua vez, a pesquisa realizada por Emília Takahashi (2002) com as primeiras turmas
admitidas no Curso de Formação de Oficiais Intendentes da AFA, com metodologia etnográfica,
sugeriu que as pioneiras reconheciam, ao fim dos seus quatro anos de formação, a sobreposição da
identidade militar sobre a identidade de gênero ‘feminino’, o que elas reconheciam como fator
essencial para que as mulheres fossem vistas como militares e não mais como ‘acochambradas’,
‘protegidas’, o que redundaria prejudicial à formação militar na Academia. Isso encoraja que sejam
forjadas identidades militares acima de todas as outras, em um processo em que a auto-identidade
se dilui ante a identidade profissional.
Nesse sentido, Silva (2007) aponta dois pontos aparentemente paradoxais na pesquisa de
Carvalho (1990): num momento a mulher militar é vista como “homem”, e num segundo momento
como “mulher”, ao invés de “mulher militar”. No seu trabalho, Silva, tocando na questão da
identidade, retoma que a internalização de valores que ocorre na Academia não se refere apenas a
valores militares, mas sobretudo a valores masculinos.
Takahashi (2002) conclui a possibilidade de que novos caracteres identitários de gênero
sejam discutidos à luz da aparente perda de referenciais externos, como sugere Davidoviscth (op.
cit., 2007). Na questão do poder nas relações de gênero (como em Cappelle et al, op. cit., 2004), há
espaço para que “as relações de gênero e poder vivenciadas pelos Cadetes no interior da AFA
revelem espaços que permitem a subversão do paradigma tradicional ou mesmo a igualdade entre
homens e mulheres. Estes espaços são garantidos por mecanismos tradicionais como por exemplo,
a hierarquia e a disciplina, ou por novas formas de relação entre homens e mulheres dentro da
instituição militar”.
O trabalho de Silva e Leirner (2007), também de natureza etnográfica, possui depoimentos
que reforçam a tese da sobreposição da identidade militar às outras formas de auto-definição de
identidade, como em: “A idéia das Forças Armadas, não só do Exército, é fazer algo assexuado. O
militar, eles dizem (a corporação), o militar é assexuado”. (grifo da autora).
Os depoimentos das Cadetes ouvidas por Silva e Leirner (2007), como em Takahashi
(2002), destacam que a presença das mulheres promoveu o surgimento de novas relações entre
homens e mulheres que não estavam prescritas anteriormente, e que são construídas de forma a
legitimar a tradicional divisão social dos papéis sexuais. Generalizações em torno do desempenho
delas, na situação de minorias, são presentes: “se uma mulher é desleixada, entre 20, então todas
são”. (grifo da autora)
Maria Cecília Adão (2007), nesse sentido, retoma os achados de campo de pesquisa
americana, em que o mau desempenho dos militares americanos é atribuído pelos militares à
presença feminina, que teria levado a uma feminilização da atividade militar, o que as autoras
contestam nas suas conclusões (Luddy, 1999). Para Adão, a mulher só conquistará a sua identidade
como militar, com uma certa condição de igualdade dentro do militarismo, se for submetida às
mesmas provas que os homens. Também a situação de comando, natural nos quadros combatentes
da vida militar, seria percebida como uma barreira, pois a militar precisaria, mais uma vez
contestando a sua identidade natural de gênero, “provar ter uma competência profissional que a
distinga do “padrão” feminino”.
A citação de Caire (2002) dá, em boa medida, a superposição de caracteres identitários
masculinos que se opera nesses contextos:
[...] Os homens não a respeitarão, a menos que se mostre superdotada em sua especialidade.
Também não deve hesitar em assumir responsabilidades para impor sua autoridade. Por fim,
não convém que copie servilmente atitudes masculinas para solicitar um consenso que não
encontrará facilmente num meio, antes de qualquer coisa, desconfiado, senão hostil. A
faculdade de adaptação tomada como qualidade necessária a uma chefe não implica uma
similitude forçada. A mulher deve, ao contrário, fazer com que o homem descubra esse novo
aspecto de sua personalidade, nos termos que lhe convém. Na realidade, ela precisa ser muito
competente, mas sem ostentação, provar a força de seu caráter, sem abusar da autoridade,
permanecer feminina banindo toda a vulnerabilidade emocional que lhe é geralmente
emprestada. É conveniente, por fim, guardar uma certa humildade de boa cepa.”
Ainda que características de cultura nacional devam ser consideradas em análises de
gênero, como sugere Hofstede (1984), outros países têm experimentado processos também
complexos como os vividos pelas militares combatentes brasileiras. Usando como lócus de pesquisa
o Colégio Militar da Nação (CMN), a Academia Militar de Formação do Exército da Argentina, onde
as mulheres foram recentemente admitidas como parte do Corpo de Cadetes, Badaró (2007) aponta
que, não obstante os avanços formais observados, no interior do CMN a maioria dos Cadetes
homens não somente não aceitam o ingresso de mulheres mas também evitam ter contatos com
elas em suas interações cotidianas, sobretudo nos primeiros anos da formação. O autor sugere
ainda que as relações lá observadas constituem um terreno privilegiado para explorar as
transformações entre as relações entre Forças Armadas, o Estado e a sociedade.
Em outra situação, Silva (2007) analisa a citação de uma Cadete da Academia da Força
Aérea, no seu 2º ano, tendo ingressado em 1996, na primeira turma feminina, de nome de guerra
(fictício) Peixoto:
“O fato de ser mulher aqui, eu acho que é diferente. Hoje em dia, sou eu numa sala de trinta e
nove, só eu num mundo de 113 homens. Acaba que a gente fica íntimo, porque eu passo mais
tempo com os homens do que com as mulheres. Eu tenho aula com eles das 7 da manhã até
às 4 da tarde. E acaba que a gente cria muita intimidade, você fica muito tempo com aquelas
pessoas e eles até brincam comigo, falam que eu não sou mais mulher, que eu sou homem,
que eu não tenho mais feminilidade, eles me chamam de Peixotão. Tudo pra diminuir a
diferença, eu acho. (...)Essa foi uma maneira que eu me inseri na aviação. Eu não considero
que isso seja preconceito, até porque se eles dizem que eu sou homem agora, que eu faço
tudo o que eles fazem, é porque eu alcancei os objetivos comuns para todos. Se eles me
vissem como mulher seria porque eu ainda pecava em alguns aspectos e ainda faltava
alcançar alguma coisa.”
Quando esta Cadete diz que passou a ser vista como homem por seus companheiros, ela
acredita que isso a torna mais militar: “alcancei os objetivos comuns a todos”. Neste sentido, para ser
vista mais como militar do que como mulher, é preciso apresentar um conjunto de elementos tidos
como mais masculinos. Esses elementos são os próprios valores apreendidos na formação militar,
como os ideais de liderança e coragem, que sempre foram marcados, seja no mundo militar ou no
civil, como valores “inatos” do homem (SILVA, 2007).
A instituição militar, portanto, é vista como um espaço masculino. Mas a chegada de
mulheres nessa corporação não implica dizer que elas deixem de ser femininas ou que elas passem
a ser masculinas; e sim que as mulheres, na sua formação como oficiais militares, apresentariam
elementos masculinos mais preponderantes do que femininos. A idéia do masculino e do feminino,
como já mencionado anteriormente, é entendida como histórica e socialmente construída, sendo
esses dois elementos imbricados um no outro e presentes em todas as pessoas (STRATHERN,
1997). Dessa forma, as mulheres, aos poucos, vêm incorporando às Forças Armadas – o que elas
consideram como um “traço de feminilidade na masculinidade”, para voltarmos a Strathern.
O motivo que nos leva a pesquisar o Curso de Formação de Oficiais da Escola de Saúde do
Exército do ano de 2009 é analisar essas profissionais da área biomédica, que de um dia para o
outro, deixaram sua vida civil para ingressar na carreira militar. O que muda no comportamento
dessas mulheres?
Em outras pesquisas foram observadas algumas dificuldades enfrentadas pelas mulheres no
meio militar. Esse tipo de tratamento, que evidenciaria uma desigualdade na relação entre homens e
mulheres dentro de uma Academia Militar, é a reapropriação da tradicional dicotomização dos papéis
sexuais vivenciada pela nossa sociedade, de uma forma geral – sociedade onde se impera uma
dominância masculina.
No entanto, com a análise de outros dados, também foi evidenciado uma outra idéia, a de
que a mulher se reconhece como militar no seu ambiente de trabalho, quando passa a ser menos
feminina e mais masculina. Assim, o dilema mostrado em Carvalho (1990), de que num momento a
mulher militar é vista como “homem”, e num outro momento como “mulher”, ao invés de “mulhermilitar”, é freqüentemente encontrado nos discursos das mulheres que foram entrevistadas. Logo, as
duas afirmações são evidentes, e, se por um lado as mulheres consideram que para serem mais
vistas como militares, precisam apresentar menos qualidades tidas como femininas (fragilidade,
delicadeza) e incorporar qualidades “naturalmente” tidas como mais masculinas (liderança,
coragem), por outro lado, elas reconhecem que o fato de serem mulheres num meio
predominantemente masculino, embora apresente algumas dificuldades, também proporciona
algumas mudanças positivas, principalmente em atitudes e comportamentos, gerando, de acordo
com elas, uma maior flexibilidade e um maior sentimentalismo no militarismo.
Tudo isso mostra que, com as mulheres nas Forças Armadas, as percepções de feminilidade
e masculinidade estão, a todo o momento, sendo articuladas e (re)construindo as relações do
cotidiano no ambiente militar. A longo prazo no militarismo, supomos, que a mulher consiga articular
melhor os elementos femininos e masculinos na sua profissão. Até porque, como Takahashi (2002)
nos descreve, a pressão por padrões de homogeneização é mais presente nos primeiros anos de
Academia Militar. Por fim, o que já foi proposto em outros estudos, é que a análise sobre as Forças
Armadas e gênero, busque superar binarismos lingüísticos e conceituais rígidos, levando-se em
consideração as percepções sobre masculino e feminino como interdependentes e constituintes uma
da outra. Com isso, espera-se lidar com a multiplicidade, além de questionar as relações de poder
fixas que acabam nos parecendo tão naturais.
Mathias (2005) afirma que a luta pelos direitos das mulheres tem seu ponto de partida na
luta pela identidade, pela construção do próprio eu feminino. Nesse sentido, parece bastante
discutível se simplesmente “ocupar os espaços”, “chegar lá”, mas à custa da adoção de caracteres
identitários masculinos, representa de fato uma conquista das mulheres, e da sociedade, ou se
observa-se nesses casos apenas um sucesso mimético: elas adaptam-se às regras do jogo,
negando a identidade feminina e desconstruindo o seu “eu feminino”. Davidovistch (2007), com base
em Pinheiro (1999), discute, entretanto, que as subjetividades pós-modernas, diante da necessidade
de criar continuamente novos referenciais internos, e repensar crenças e modelos, já carentes dos
antigos referenciais externos fragilizados na modernidade, podem ensejar a discussão sobre as
novas características da identidade dos gêneros, de modo que cabem ainda reflexões sobre o que
de fato representa a presença da mulher nas organizações contemporâneas: uma diluição de
identidade, um mero mimetismo ou a possibilidade de estarmos diante de uma desconstrução do
entendimento anterior de feminino e masculino? Nesse sentido, Miskolci (2005) já aponta a
necessidade de uma discussão sobre uma possível crise das identidades de gênero diante das
transformações percebidas nas relações de poder entre homens e mulheres.
4 METODOLOGIA
4.1 Tipo de pesquisa
Foi utilizada análise de caso, com pesquisa de natureza aplicada, abordagem quantitativa
por coleta de dados, visão prospectiva e epidemiologia com estudo transversal, além da revisão
bibliográfica relacionada ao assunto.
4.2 População do universo e amostra
Pretendeu-se estudar a população feminina militar, utilizando como amostra 43 oficiaisalunas do Curso de Formação de Oficiais, da Escola de Saúde do Exército, além de outras 7 oficiais
do sexo feminino e 10 oficiais do sexo masculino, totalizando 60 indivíduos. Objetivou-se recolher
informações, levando em consideração os aspectos éticos e legais, de forma a concluir dados sobre
a inserção feminina no meio militar, com finalidade de divulgação no Trabalho de Conclusão de
Curso da Pós-Graduação Lato Sensu em Aplicações Complementares às Ciências Militares.
4.3 Método utilizado para a coleta de dados e para análise
Estágios de Desenvolvimento da Pesquisa
Pesquisa
Bibliográfica
Seleção da
Metodologia
Case de
Estudo
Study
Caso
Resultados e
Final
Considerações
and
Finais
Considerations
– Pesquisa
Documental
–
Questionários
Estruturados
– Observação
Informal e
Participante
Figura 1 - Estágios do Desenvolvimento da Pesquisa
Fonte: Elaborado pela autora
A pesquisa foi iniciada por uma revisão bibliográfica e um estudo dos principais conceitos
relacionados à diversidade, gênero, mulheres em ambientes militares e formação da identidade
militar. A fase subseqüente foi a utilização da metodologia aplicada à organização – Exército
Brasileiro, de acordo com critérios como acessibilidade, disponibilidade de dados para pesquisa e
confiabilidade do método.
Na pesquisa de campo, informações foram coletadas por meio de pesquisa documental e
análise participativa informal, utilizando-se questionários de avaliação, com a devida autorização dos
participantes. Todos os dados coletados foram tratados como uma pesquisa quantitativa e a análise
final levou em consideração dados estatísticos.
5 RESULTADOS SOBRE O QUESTIONÁRIO DE AVALIAÇÃO
O Questionário de Avaliação (Apêndice B) foi aplicado na Escola de Saúde do Exército –
EsSEx, no período entre abril e maio de 2009. O mesmo foi devidamente autorizado pelo comando
da unidade, além da autorização de todos os participantes, pela assinatura no Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice A), respeitando-se os critérios éticos e legais da
pesquisa.
Foram aplicados 60 questionários, sendo 43 em oficiais alunas do Curso de Formação da
EsSEx, 7 em oficiais do sexo feminino e 10 em oficiais do sexo masculino.
Segue abaixo, o resultado do Questionário de Avaliação.
5.1 Informações pessoais
Idade do participante:
Figura 2 – Idade, em anos
Fonte: Elaborado pela autora
Especialidade profissional do participante:
Figura 3 – Especialidade profissional, entre Medicina, Odontologia, Farmácia,
Militar Combatente ou Enfermagem
Fonte: Elaborado pela autora
Anos de experiência profissional anteriores ao Exército:
Figura 4 – Anos de experiência profissional anteriores ao Exército
Fonte: Elaborado pela autora
Anteriormente, já era militar:
Figura 5 – Serviço Militar pregresso, como temporário ou em outra Força
Armada ou Auxiliar (antes da EsSEx)
Fonte: Elaborado pela autora
5.2 Respostas às afirmações propostas
Afirmação 1:
A sobreposição da identidade militar sobre a identidade do gênero “feminino” é fator
essencial para que as mulheres sejam efetivamente reconhecidas como militares.
Figura 6 – Resposta à afirmação 1
CP: Concordo plenamente
CR: Concordo relativamente
NCND: Não concordo nem discordo
DR: Discordo relativamente DT: Discordo totalmente
Fonte: Elaborado pela autora
Afirmação 2:
Durante a fase de formação como oficiais militares, as mulheres apresentam elementos
masculinos mais preponderantes que os femininos.
Figura 7 – Resposta à afirmação 2
CP: Concordo plenamente
CR: Concordo relativamente
NCND: Não concordo nem discordo
DR: Discordo relativamente DT: Discordo totalmente
Fonte: Elaborado pela autora
Afirmação 3:
No Exército Brasileiro, nem todos têm oportunidades iguais, de modo que cabe à instituição
criar as oportunidades de ascensão profissional aos grupos minoritários.
Figura 8 – Resposta à afirmação 3
CP: Concordo plenamente
CR: Concordo relativamente
NCND: Não concordo nem discordo
DR: Discordo relativamente DT: Discordo totalmente
Fonte: Elaborado pela autora
Afirmação 4:
No Exército Brasileiro, prefiro ser identificada como oficial do serviço de saúde a ser
identificada como mulher.
Figura 9 – Resposta à afirmação 4
CP: Concordo plenamente
CR: Concordo relativamente
NCND: Não concordo nem discordo
DR: Discordo relativamente DT: Discordo totalmente
Fonte: Elaborado pela autora
Afirmação 5:
No Exército Brasileiro, apesar dos esforços da organização em querer promover a igualdade
de oportunidade e a diversidade, há uma atmosfera que não alimenta efetivas relações de trabalho
entres homens e mulheres.
Figura 10 – Resposta à afirmação 5
CP: Concordo plenamente
CR: Concordo relativamente
NCND: Não concordo nem discordo
DR: Discordo relativamente DT: Discordo totalmente
Fonte: Elaborado pela autora
Afirmação 6:
No Exército Brasileiro, o militar é “assexuado”.
Figura 11 – Resposta à afirmação 6
CP: Concordo plenamente
CR: Concordo relativamente
NCND: Não concordo nem discordo
DR: Discordo relativamente DT: Discordo totalmente
Fonte: Elaborado pela autora
Afirmação 7:
No Exército Brasileiro, para serem avaliadas como boas profissionais, as oficiais ainda
dependem de contradizer as expectativas acerca de adotarem um comportamento nomeadamente
feminino. Assim, elas devem se portar como heroínas, no sentido viril do termo, e enfrentar as
situações da mesma forma que os homens enfrentariam.
Figura 12– Resposta à afirmação 7
CP: Concordo plenamente
CR: Concordo relativamente
NCND: Não concordo nem discordo
DR: Discordo relativamente DT: Discordo totalmente
Fonte: Elaborado pela autora
Afirmação 8:
Considero-me, por ser mulher, menos apta a desempenhar as tarefas que o Exército
Brasileiro espera de mim.
Figura 13 – Resposta à afirmação 8
CP: Concordo plenamente
CR: Concordo relativamente
NCND: Não concordo nem discordo
DR: Discordo relativamente DT: Discordo totalmente
Fonte: Elaborado pela autora
Afirmação 9:
No Exército Brasileiro, há a percepção, por parte dos militares da organização, de que as
mulheres não conseguem se impor quando no comando.
Figura 14 – Resposta à afirmação 9
CP: Concordo plenamente
CR: Concordo relativamente
NCND: Não concordo nem discordo
DR: Discordo relativamente DT: Discordo totalmente
Fonte: Elaborado pela autora
Afirmação 10:
No Exército Brasileiro, há a percepção, por parte dos militares da organização, de que as
mulheres recebem tratamento diferenciado, sendo consideradas “acochambradas”.
Figura 15 – Resposta à afirmação 10
CP: Concordo plenamente
CR: Concordo relativamente
NCND: Não concordo nem discordo
DR: Discordo relativamente DT: Discordo totalmente
Fonte: Elaborado pela autora
Afirmação 11:
O Exército Brasileiro espera de mim que a minha identidade como militar se sobreponha à
minha identidade de profissional de saúde, de forma que eu devo adotar o sistema de referências da
profissão militar em detrimento do sistema de referência da minha formação profissional original
(medicina, odontologia, farmácia e enfermagem).
Figura 16 – Resposta à afirmação 11
CP: Concordo plenamente
CR: Concordo relativamente
NCND: Não concordo nem discordo
DR: Discordo relativamente DT: Discordo totalmente
Fonte: Elaborado pela autora
Afirmação 12:
O processo de socialização a que são submetidos os alunos do Curso de Formação de
Oficiais objetiva incutir nos novos participantes do espaço social a dinâmica cultural em vigor no
Exército Brasileiro.
Figura 17 – Resposta à afirmação 12
CP: Concordo plenamente
CR: Concordo relativamente
NCND: Não concordo nem discordo
DR: Discordo relativamente DT: Discordo totalmente
Fonte: Elaborado pela autora
6 DISCUSSÃO
Pela natureza subjetiva do assunto abordado, observamos, ora concordância e ora
discordância, em relação à pesquisa de campo e à literatura consultada. O tema: Identidade da
Mulher Militar – é delicado, controverso e sem resposta única, já que cada mulher apresenta uma
identidade diferente da outra. O que podemos observar, é que dependendo do questionamento,
temos um agrupamento de respostas semelhantes, ratificando alguns conceitos já apresentados pela
literatura.
Outra observação a ser analisada, é que a maioria dos trabalhos sobre a formação da
identidade militar – esta transição entre a vida civil e a militar – foi feita em alunos de Academias
Militares. O público da nossa análise de caso é bem distinto, composto por indivíduos de maior faixa
etária, mais experientes e já profissionalizados anteriormente ao ingresso na carreira militar.
Analisemos cada proposição feita, comparando a revisão bibliográfica e a apuração dos
resultados dos questionários de avaliação aplicados na EsSEx.
Afirmação 1:
A sobreposição da identidade militar sobre a identidade do gênero “feminino” é fator
essencial para que as mulheres sejam efetivamente reconhecidas como militares.
Pouco mais da metade dos indivíduos concordou com a afirmação, ratificando a pesquisa
realizada por Emília Takahashi (2002). Vale ressaltar, que a faixa etária dos indivíduos pesquisados
é bem divergente nos 2 trabalhos. Takahashi avaliou Cadetes da AFA, com idades entre 17 e 23
anos, enquanto na Escola de Saúde, utilizamos um público alvo, com idades entre 21 e 50 anos.
Mesmo com esta divergência etária, a maioria concorda com a idéia de uma identidade militar se
sobrepor à identidade civil feminina.
Afirmação 2:
Durante a fase de formação como oficiais militares, as mulheres apresentam elementos
masculinos mais preponderantes que os femininos.
Neste caso, houve a discordância da maioria avaliada na pesquisa, em relação a esta
afirmação. Segundo Strathern (1997), como a instituição militar é vista como um espaço masculino,
as mulheres, na sua formação como oficiais militares, apresentariam elementos masculinos mais
preponderantes do que femininos. Porém, a própria autora ressalta a outra possibilidade: a das
mulheres, aos poucos, incorporarem às Forças Armadas, um “traço de feminilidade na
masculinidade”.
Afirmação 3:
No Exército Brasileiro, nem todos têm oportunidades iguais, de modo que cabe à instituição
criar as oportunidades de ascensão profissional aos grupos minoritários.
Nesta proposição, as respostas ficaram bem divididas, com uma ligeira discordância. É fato
de que vivemos em uma sociedade desigual, mas dentro do Exército, isto é menos sentido. Por ser
uma corporação com unidade, o grupo tende a se sentir mais coeso.
Afirmação 4:
No Exército Brasileiro, prefiro ser identificada como oficial do serviço de saúde a ser
identificada como mulher.
Houve uma concordância bem positiva, em relação a esta proposição, com quase 70% de
aceitação. Mas vale ressaltar, que este não é apenas um pensamento dentro do meio militar. Uma
mulher prefere ser reconhecida pela sua profissão e não pelo seu sexo, evitando desta forma uma
discriminação em relação ao sexo masculino.
Afirmação 5:
No Exército Brasileiro, apesar dos esforços da organização em querer promover a igualdade
de oportunidade e a diversidade, há uma atmosfera que não alimenta efetivas relações de trabalho
entres homens e mulheres.
Pouco mais da metade dos indivíduos concordou com a afirmação, ratificando o estudo de
Cappelle e Melo (2007). A carreira militar, ainda é vista como um “gueto masculino” no qual admitiuse o ingresso de mulheres há pouco tempo. Ainda percebe-se uma dificuldade de inserção feminina,
apesar da unidade da corporação do Exército Brasileiro.
Afirmação 6:
No Exército Brasileiro, o militar é “assexuado”.
Houve a discordância da maioria, retificando, desta forma, a pesquisa de Silva e Leirner
(2007). Neste caso, como anteriormente abordado, a pesquisa dos autores foi feita com Cadetes de
faixa etária bem divergente a da nossa pesquisa. Além disso, na verdade, este parece ser o
pensamento da corporação – Exército, na tentativa de igualar a todos, sem diferenciação, quanto ao
seu sexo.
Afirmação 7:
No Exército Brasileiro, para serem avaliadas como boas profissionais, as oficiais ainda
dependem de contradizer as expectativas acerca de adotarem um comportamento nomeadamente
feminino. Assim, elas devem se portar como heroínas, no sentido viril do termo, e enfrentar as
situações da mesma forma que os homens enfrentariam.
Houve a concordância da maioria pesquisada. Novamente, ratificamos um pensamento
presente também na sociedade civil, onde ainda há uma grande discriminação à mulher. Segundo
Carvalho (1990), as mulheres para serem vistas como profissionais, precisam apresentar menos
qualidades tidas como femininas e incorporar qualidades “naturalmente” tidas como mais
masculinas. Este pensamento é corroborado por Silva (2007), que cita que os elementos
apreendidos na formação militar, como os ideais de liderança e coragem, sempre foram marcados,
seja no mundo militar ou no civil, como valores “inatos” do homem.
Afirmação 8:
Considero-me, por ser mulher, menos apta a desempenhar as tarefas que o Exército
Brasileiro espera de mim.
Nesta afirmação, a discordância foi bem acentuada, com quase 85% de rejeição. Não é
surpreendente, já que esta proposição é altamente discriminatória, colocando a mulher como inferior
ao homem. Que tarefas a mulher é menos apta a desempenhar? Segundo Segal e Segal (1983), os
militares têm sido tradicionalmente uma “província exclusivamente de homens caracterizada por
normas tipicamente masculinas”. Mulheres militares ainda estão rompendo os tradicionais
estereótipos de papéis femininos e masculinos. Shilts caminha na mesma direção ao afirmar que “a
questão das mulheres como militares nunca girou em torno delas; foi sempre em torno dos homens e
das suas necessidades de definir sua masculinidade” (THOMAS, 1996). Os militares mantêm o
soldado homem, particularmente o soldado de combate, como um tipo ideal, e dessa forma, buscam
estimular que elas sejam o que não são nem nunca serão, marginalizando-as em ambientes militares
(THOMAS, 1996).
Afirmação 9:
No Exército Brasileiro, há a percepção, por parte dos militares da organização, de que as
mulheres não conseguem se impor quando no comando.
Houve a concordância da maioria pesquisada. Para Maria Cecília Adão (2007), a mulher só
conquistará a sua identidade como militar, com uma certa condição de igualdade dentro do
militarismo, se for submetida às mesmas provas que os homens. Também a situação de comando,
natural nos quadros combatentes da vida militar, seria percebida como uma barreira, pois a militar
precisaria, mais uma vez contestando a sua identidade natural de gênero, “provar ter uma
competência profissional que a distinga do “padrão” feminino”.
Afirmação 10:
No Exército Brasileiro, há a percepção, por parte dos militares da organização, de que as
mulheres recebem tratamento diferenciado, sendo consideradas “acochambradas”.
Pouco mais da metade dos indivíduos concordou com a afirmação. A pesquisa realizada por
Emília Takahashi (2002) com Cadetes da AFA, sugeriu que a sobreposição da identidade de gênero
‘feminino’ sobre a identidade militar, era fator essencial para que as mulheres fossem vistas como
‘acochambradas’ e ‘protegidas’, e não como militares.
Afirmação 11:
O Exército Brasileiro espera de mim que a minha identidade como militar se sobreponha à
minha identidade de profissional de saúde, de forma que eu devo adotar o sistema de referências da
profissão militar em detrimento do sistema de referência da minha formação profissional original
(medicina, odontologia, farmácia e enfermagem).
Houve a concordância da maioria pesquisada. Reforçando assim o acima exposto, a
sugestão de Castro (2000) é a de que as características da formação militar são um processo
rigoroso e totalizante de socialização, esperando do militar em formação, uma disjunção total dos
valores e caracteres da sua “antiga vida civil”. Espera-se a adoção de novos discursos e novas
práticas organizacionais, alinhadas à vida na caserna, pois somente dessa forma, há êxito na
formação da identidade militar. Para Castro (2004), a formação de oficiais funciona como uma
redoma em volta do militar, sendo visto como um ritual de passagem com o objetivo de destruir a
identidade civil e desenvolver o espírito militar nos indivíduos.
Afirmação 12:
O processo de socialização a que são submetidos os alunos do Curso de Formação de
Oficiais objetiva incutir nos novos participantes do espaço social a dinâmica cultural em vigor no
Exército Brasileiro.
Houve uma concordância bem positiva, em relação a esta proposição, com mais de 80% de
aceitação. Ratifica-se a sugestão de Castro (2000), em que na formação militar, espera-se a adoção
de novos discursos e novas práticas organizacionais, alinhadas à vida militar, pois somente dessa
forma, há êxito na formação da identidade militar. Para Oliveiros Ferreira (2000), a vida
organizacional na caserna é caracterizada por uma cultura forte, baseada em dois preceitos
fundamentais e constitucionais: a hierarquia e a disciplina – valores que são incutidos à exaustão
nos militares desde o primeiro dia de suas carreiras. O autor ilustra essa afirmação, dizendo que “a
hierarquia e a disciplina – que se transformaram num segundo hábito pelo treinamento e são o
cimento da estrutura militar – permitem a cada um que entra em ação saber que a obediência às
ordens é a condição para que esta seja bem sucedida”.
7 CONCLUSÃO
Esta avaliação baseou-se numa pequena amostra de 60 indivíduos, diferindo da maioria dos
trabalhos já publicados, pela faixa etária mais avançada e pela alta profissionalização dos
pesquisados.
Apesar disso, pela análise dos resultados, chegamos à conclusão de que muito pouco tem
se alterado nas relações entre o universo feminino e sua inserção na carreira militar. A maioria das
barreiras a esta adaptação continua intacta, demonstrando o escudo de um “gueto masculino” – o
meio militar – aos avanços femininos.
Observa-se a concordância entre a literatura e a nossa pesquisa, em todas as avaliações
relativas às diferenças entre os sexos, demonstrando desta forma, a persistência no estigma – a
mulher ter que “provar uma competência profissional que a distinga do “padrão” feminino” (ADÃO,
2007).
Uma mulher prefere ser reconhecida pela sua profissão, a ser vista como um indivíduo do
sexo feminino. Isto ocorre pela discriminação, não só no meio militar, mas na sociedade como um
todo. Além disso, como na pesquisa realizada por Emília Takahashi (2002), a maioria concorda com
a idéia de uma identidade militar se sobrepor à identidade civil feminina. Com isso, corroboramos
com a preferência das entrevistadas em serem vistas como profissionais da saúde e militares a
serem reconhecidas como mulheres.
Somando-se ao exposto, para Castro (2004), a formação de oficiais funciona como uma
redoma em volta do militar, sendo visto como um ritual de passagem com o objetivo de destruir a
identidade civil e desenvolver o espírito militar nos indivíduos. Ainda ratificamos mais um
pensamento, segundo Carvalho (1990): as mulheres para serem vistas como profissionais, precisam
apresentar menos qualidades tidas como femininas e incorporar qualidades “naturalmente” tidas
como mais masculinas. Este pensamento é apoiado por Silva (2007), que cita que os elementos
apreendidos na formação militar, como os ideais de liderança e coragem, sempre foram marcados,
seja no mundo militar ou no civil, como valores “inatos” do homem. Desta forma, ratificamos a
preferência das entrevistadas em serem vistas como militares a profissionais civis da saúde e a
serem reconhecidas como profissionais competentes por características tidas como masculinas.
Percebemos
ainda
a
discordância
das
entrevistadas
em
relação
a
afirmações
discriminatórias de menor aptidão e à necessidade da masculinização para ser tida como militar.
Shilts afirma que “a questão das mulheres como militares nunca girou em torno delas; foi
sempre em torno dos homens e das suas necessidades de definir sua masculinidade” (THOMAS,
1996). Os militares mantêm o soldado homem, particularmente o soldado de combate, como um tipo
ideal, e dessa forma, buscam estimular que elas sejam o que não são nem nunca serão,
marginalizando-as em ambientes militares (THOMAS, 1996). Novamente, a mulher tem que
demonstrar mais atitudes para ser reconhecida como um militar competente, ultrapassando a
barreira discriminatória criada por séculos.
Quanto à masculinização, segundo Strathern (1997), como a instituição militar é vista como
um espaço masculino, as mulheres, na sua formação como oficiais militares, apresentariam
elementos masculinos mais preponderantes do que femininos. Porém, a própria autora ressalta a
outra possibilidade: a das mulheres, aos poucos, incorporarem às Forças Armadas, um “traço de
feminilidade na masculinidade”.
Outras situações abordadas foram quanto à dificuldade da mulher se impor no comando e à
sensação de serem acochambradas pela instituição.
Houve realmente a concordância da maioria pesquisada em relação a ambas as situações.
Para Maria Cecília Adão (2007), a mulher só conquistará a sua identidade como militar, com uma
certa condição de igualdade dentro do militarismo, se for submetida às mesmas provas que os
homens. Também a situação de comando, natural nos quadros combatentes da vida militar, seria
percebida como uma barreira, pois a militar precisaria, mais uma vez contestar a sua identidade
natural de gênero.
Emília Takahashi (2002) sugeriu que a sobreposição da identidade militar sobre a identidade
de gênero ‘feminino’ seria fator essencial para que as mulheres não fossem mais vistas como
‘acochambradas’ e ‘protegidas’, e sim como militares.
Quanto a oportunidades, pelo fato de vivermos em uma sociedade desigual, notamos que
dentro do Exército, isto é menos sentido. Por ser uma corporação com unidade, o grupo tende a se
sentir mais coeso. Apesar disto, a carreira militar, ainda é vista como um “gueto masculino” no qual
admitiu-se o ingresso de mulheres há pouco tempo, ainda sendo percebida uma dificuldade da
inserção feminina (CAPPELLE E MELO, 2007).
Observa-se ainda a tentativa do Exército em unificar, admitindo que o militar deva ser
“assexuado”. Segundo Silva e Leirner (2007), este parece ser o pensamento da corporação, na
tentativa de igualar a todos, sem diferenciação, quanto ao seu sexo.
No processo de socialização a que são submetidos os alunos do Curso de Formação de
Oficiais, o objetivo seria incutir nos novos participantes do espaço social, a dinâmica cultural em
vigor no Exército Brasileiro. Rosa e Brito (2007) chamam atenção, especialmente, para a pedagogia
corporal que educa o uso do corpo como um uso bélico, sustentando ainda que quanto maior a
intensidade e a duração do trabalho deste “corpo bélico” durante a fase de formação, maior é a
in”corpo”ração dessa lógica. É ainda parte da missão da instituição, selecionar aqueles que são
capazes de se adaptar à dura e exaustiva vida na caserna e “homogeneizar” os alunos, ou seja,
ensinar a todos a doutrina e os exercícios militares exigidos (CASTRO, 2004).
Então, depois de toda essa explanação: o que significa “Ser Mulher, Ser Militar, Ser MulherMilitar, Ser Militar-Mulher”? O que ocorre com a mulher nesta transição entre o meio civil e o militar?
Ela sofre uma diluição de identidade, um mero mimetismo ou estamos diante de uma desconstrução
do entendimento anterior de feminino e masculino?
Na pesquisa de Carvalho (1990), num momento a mulher-militar é vista como “homem”, e
num segundo momento como “mulher”, ao invés de “mulher- militar”. No seu trabalho, Silva (2007),
tocando na questão da identidade, retoma que a internalização de valores que ocorre na formação
militar, não se refere apenas a valores militares, mas sobretudo a valores tidos como masculinos.
Neste ponto, esbarramos na barreira ainda presente em toda a sociedade: a discriminatória em
relação ao sexo feminino.
Mulher, Militar, Mulher-Militar ou Militar-Mulher, são todas a mesma pessoa. O que as
diferem são os olhares do observador. A mulher que opta por abraçar a carreira militar adaptará a
sua identidade a fim de respeitar novos preceitos, ideologias, renúncias, mas jamais abrirá mão da
sua sexualidade. Até porque o Exército Brasileiro ou qualquer outra Força Armada não necessita
disso. A mulher só necessita ser respeitada por ser mulher e profissional e competente e militar.
Mathias (2005) afirma que a luta pelos direitos das mulheres tem seu ponto de partida na
luta pela identidade, pela construção do próprio eu feminino. Nesse sentido, parece bastante
discutível se simplesmente “ocupar os espaços”, “chegar lá”, mas à custa da adoção de caracteres
identitários masculinos, representa de fato uma conquista das mulheres, e da sociedade, ou se
observa-se nesses casos apenas um sucesso mimético: elas adaptam-se às regras do jogo,
negando a identidade feminina e desconstruindo o seu “eu feminino”. As percepções de feminilidade
e masculinidade estão, a todo o momento, sendo articuladas e (re)construindo as relações do
cotidiano no ambiente militar.
Nesse sentido, Miskolci (2005) já aponta a necessidade de uma discussão sobre uma
possível crise das identidades de gênero diante das transformações percebidas nas relações de
poder entre homens e mulheres.
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APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
MINISTÉRIO DA DEFESA
EXÉRCITO BRASILEIRO
DECEx – DEE
ESCOLA DE SAÚDE DO EXÉRCITO
(Es Apl Sv Sau Ex/1910)
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Você está sendo convidada, como voluntária, a participar da pesquisa de Formação de identidade da
mulher militar: análise do caso do Serviço de Saúde do Exército Brasileiro - Curso de Formação de
Oficiais do Ano de 2009. Você foi selecionada por fazer parte do CFO 2009 e sua participação não é
obrigatória. Você é livre para recusar-se a participar, retirar seu consentimento ou interromper a participação a
qualquer momento. Sua recusa não trará nenhum prejuízo na sua relação com a pesquisadora ou com a
instituição e não acarretará qualquer penalidade ou perda de benefícios.
A justificativa desta pesquisa é analisar o problema: Ser Mulher, Ser Militar, Ser Mulher-Militar, Ser MilitarMulher. O objetivo dessa pesquisa é saber o que está mudando em sua vida, neste processo de migração da
vida civil para a vida militar. Os resultados serão estudados de forma a observar o comportamento da mulher
nesta transição. Sua participação nessa pesquisa consistirá apenas em preencher a um questionário, sem
nenhum desconforto ou risco. Você não será identificada, já que o objetivo da pesquisa não é pessoal, e sim
coletivo.
Você terá esclarecida qualquer dúvida sobre a pesquisa em qualquer aspecto que desejar. A pesquisadora
irá tratar a sua identidade com padrões profissionais de sigilo. Os resultados da pesquisa servirão para
análise do segmento feminino do CFO do ano de 2009. A sua participação permanecerá confidencial, não
sendo identificada em nenhuma publicação que possa resultar deste estudo. Este consentimento será
arquivado no Curso de Formação de Oficiais / Seção de Pós-Graduação. A participação no estudo não
acarretará custos para você.
Eu, _______________________________________________ fui informada dos objetivos da pesquisa acima
de maneira clara e detalhada e esclareci minhas dúvidas. Sei que em qualquer momento poderei solicitar
novas informações e modificar minha decisão se assim o desejar. A pesquisadora Maria Lúcia da Costa
Bastos – 1° Ten Al certificou-me de que não haverá exposição de dados pessoais nesta pesquisa.
Declaro que concordo em participar desse estudo, já que me foi dada a oportunidade de ler e esclarecer as
minhas dúvidas.
Nome
Nome
Assinatura da Participante
Data
Assinatura da Pesquisadora
Data
Maria Lúcia da Costa Bastos
1º Ten Al - EsSEx
Tels.: 3502-1842 (res.)
9116-1868
[email protected]
Em caso de necessidade, entrar em contato com o Comitê de Ética em Pesquisa do HCE
R. Francisco Manuel, 126 – Triagem – Rio de Janeiro / RJ
[email protected] – Tels.: 3891-7214 / 3891-7216
APÊNDICE B – QUESTIONÁRIO DE AVALIAÇÃO
MINISTÉRIO DA DEFESA
EXÉRCITO BRASILEIRO
DECEx – DEE
ESCOLA DE SAÚDE DO EXÉRCITO
(Es Apl Sv Sau Ex/1910)
QUESTIONÁRIO DE AVALIAÇÃO
Formação de identidade da mulher militar: análise do caso do Serviço de Saúde do Exército Brasileiro
- Curso de Formação de Oficiais do Ano de 2009
1° Ten Al LÚCIA BASTOS
Objetivo do Questionário
Este questionário busca obter das respondentes informações acerca do que está mudando nas suas vidas,
neste processo de migração da vida civil para a vida militar. Os resultados serão estudados de forma a
observar o comportamento da mulher nesta transição. Sua participação nessa pesquisa consistirá apenas em
preencher a um questionário, sem nenhum desconforto ou risco. Você não será identificada, já que o objetivo
da pesquisa não é pessoal, e sim coletivo.
Apresentação
Neste questionário, o importante é que você responda livremente sobre as suas percepções, decorrentes do
seu ingresso no Curso de Formação de Oficiais da Escola de Saúde do Exército. Não existe resposta certa ou
errada. O importante é que você nos dê o conhecimento de como esta experiência está ocorrendo para você.
O tempo estimado de preenchimento é de 15 minutos.
Garantia de Confidencialidade
Informo a V. Sa. que os dados serão mantidos em sigilo e serão usados de forma agregada, de modo a
impossibilitar a identificação de opiniões individuais.
Envio dos resultados
Caso você deseje, nós poderemos lhe enviar posteriormente os resultados consolidados desta pesquisa.
INFORMAÇÕES PESSOAIS
Estas informações serão utilizadas apenas para controle da pesquisa. Estas informações não serão utilizadas,
sob quaisquer circunstâncias, para fins de divulgação. Seu preenchimento é necessário para que seja
possível se avaliar, estatisticamente, a existência de grupos profissionais com expectativas e percepções
semelhantes.
a) Qual a sua idade?
( ) 21-30
( ) 31-40
( ) 41-50
b) Qual a sua especialidade profissional?
( ) medicina ( ) odontologia
( ) farmácia ( ) enfermagem ( ) militar combatente
c) Quantos anos de experiência profissional você teve na sua especialidade antes de ingressar no
Exército Brasileiro?
( ) menos de 1 ano
( ) entre 1 e 5 anos
( ) entre 5 e 10 anos
( ) acima de 10 anos
d) Você já havia feito parte, como militar (inclusive como temporária), dos quadros de alguma Força
Armada ou Auxiliar (Polícias Militares, Corpos de Bombeiros) antes de ingressar no Curso de
Formação de Oficiais 2009?
( ) sim
( ) não
1. Marque a alternativa que melhor representa a sua percepção em relação às afirmações abaixo. Preencha
obrigatoriamente uma opção em cada uma das alternativas.
•
A sobreposição da identidade militar sobre a identidade do gênero “feminino” é fator essencial para que as
mulheres sejam efetivamente reconhecidas como militares.
•
(
) Concordo plenamente
(
) Concordo relativamente
(
) Não concordo nem discordo
(
) Discordo relativamente
(
) Discordo totalmente
Durante a fase de formação como oficiais militares, as mulheres apresentam elementos masculinos mais
preponderantes que os femininos.
•
(
) Concordo plenamente
(
) Concordo relativamente
(
) Não concordo nem discordo
(
) Discordo relativamente
(
) Discordo totalmente
No Exército Brasileiro, nem todos têm oportunidades iguais, de modo que cabe à instituição criar as
oportunidades de ascensão profissional aos grupos minoritários.
•
•
(
) Concordo plenamente
(
) Concordo relativamente
(
) Não concordo nem discordo
(
) Discordo relativamente
(
) Discordo totalmente
No Exército Brasileiro, prefiro ser identificada como oficial do serviço de saúde a ser identificada como mulher.
(
) Concordo plenamente
(
) Concordo relativamente
(
) Não concordo nem discordo
(
) Discordo relativamente
(
) Discordo totalmente
No Exército Brasileiro, apesar dos esforços da organização em querer promover a igualdade de oportunidade e a
diversidade, há uma atmosfera que não alimenta efetivas relações de trabalho entres homens e mulheres.
(
) Concordo plenamente
(
) Concordo relativamente
(
) Não concordo nem discordo
(
) Discordo relativamente
(
) Discordo totalmente
•
•
No Exército Brasileiro, o militar é “assexuado”.
(
) Concordo plenamente
(
) Concordo relativamente
(
) Não concordo nem discordo
(
) Discordo relativamente
(
) Discordo totalmente
No Exército Brasileiro, para serem avaliadas como boas profissionais, as oficiais ainda dependem de contradizer
as expectativas acerca de adotarem um comportamento nomeadamente feminino. Assim, elas devem se portar
como heroínas, no sentido viril do termo, e enfrentar as situações da mesma forma que os homens enfrentariam.
•
•
(
) Concordo plenamente
(
) Concordo relativamente
(
) Não concordo nem discordo
(
) Discordo relativamente
(
) Discordo totalmente
Considero-me, por ser mulher, menos apta a desempenhar as tarefas que o Exército Brasileiro espera de mim.
(
) Concordo plenamente
(
) Concordo relativamente
(
) Não concordo nem discordo
(
) Discordo relativamente
(
) Discordo totalmente
No Exército Brasileiro, há a percepção, por parte dos militares da organização, de que as mulheres não
conseguem se impor quando no comando .
•
(
) Concordo plenamente
(
) Concordo relativamente
(
) Não concordo nem discordo
(
) Discordo relativamente
(
) Discordo totalmente
No Exército Brasileiro, há a percepção, por parte dos militares da organização, de que as mulheres recebem
tratamento diferenciado, sendo consideradas “acochambradas”.
(
) Concordo plenamente
(
) Concordo relativamente
(
) Não concordo nem discordo
(
) Discordo relativamente
(
) Discordo totalmente
•
O Exército Brasileiro espera de mim que a minha identidade como militar se sobreponha à minha identidade de
profissional de saúde, de forma que eu devo adotar o sistema de referências da profissão militar em detrimento
do sistema de referência da minha formação profissional original (medicina, odontologia e farmácia).
•
(
) Concordo plenamente
(
) Concordo relativamente
(
) Não concordo nem discordo
(
) Discordo relativamente
(
) Discordo totalmente
O processo de socialização a que são submetidos os alunos do Curso de Formação de Oficiais objetiva incutir
nos novos participantes do espaço social a dinâmica cultural em vigor no Exército Brasileiro.
(
) Concordo plenamente
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) Concordo relativamente
(
) Não concordo nem discordo
(
) Discordo relativamente
(
) Discordo totalmente
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FORMAÇÃO DE IDENTIDADE DA MULHER MILITAR