Goethe-Institut Salvador-Bahia
Simpósio Internacional “Cacau e Sustentabilidade no Sul da Bahia”
TURISMO COMO POSSIBILIDADE
POSSIBILIDADE ALTERNATIVA DE
DE
DESENVOLVIMENTO REGI
REGIONAL? – ALGUNS EXEMPLOS DE
MELHORES PRÁTICAS
PROF. DR. HANS HOPFINGER
HOPFINGER
Cátedra de Geografia Cultural
Universidade Católica de Eichstätt-Ingolstadt
Coautor: Florian Kohnle
Tradução: Fabio M. Said
Resumo
Diante do gigantesco desenvolvimento pelo qual o turismo já passou sob a influência da globalização e
pelo qual ele continuará passando segundo projeções confiáveis, esse setor é tido como a “indústria
líder do século XXI”. Mundialmente, o turismo emprega 300 milhões de indivíduos, número que
corresponde a 9,2% de todos os profissionais em atividade em todo o mundo. Além disso, o turismo
corresponde a 9,2% do produto interno bruto mundial. Na média de longo prazo, o setor cresceu 8%
por ano, 2% mais que a média anual de crescimento da economia mundial.
Diante desses números positivos, não admira que o turismo seja frequentemente utilizado como
veículo para o crescimento econômico e desenvolvimento regional. O setor tem sido usado como
estratégia sobretudo em regiões geográficas periféricas, estruturalmente fracas ou arrasadas por
crises. Seria o turismo uma alternativa para a região cacaueira do sul da Bahia, que também atravessa
uma crise? O texto não responde diretamente essa pergunta, mas mostra, com base em três estudos
de caso e exemplos de melhores práticas, os aspectos que se deve observar caso se queira usar o
turismo como estratégia de desenvolvimento de uma região e os percalços e problemas que poderiam
surgir nesse processo.
1
Introdução
O ponto central de minha palestra é um dos setores econômicos mais importantes do mundo. Vocês
possivelmente não sabem e talvez nem acreditem que um dos setores mais importantes da economia
mundial é... o turismo! Ele é tido como a “indústria líder” do século XXI. Para evidenciar isso, recorro a
uma ilustração. Ela mostra o gigantesco crescimento pelo qual o turismo passou e continuará
passando. Uma das linhas (em vermelho) mostra o crescimento da quantidade mundial de turistas
internacionais desde os anos 1950 e uma projeção dessa quantidade até 2020. A outra (em azul)
representa o crescimento da receita mundial com o turismo internacional no mesmo período. O
crescimento ocorrido aqui e que continuará ocorrendo sob influência da globalização é gigantesco!
Há outros parâmetros econômicos (WTTC 2010) que destacam o turismo como um dos setores
econômicos mais importantes em escala global. Mundialmente, o turismo emprega 300 milhões de
indivíduos, número que corresponde a 9,2% de todos os profissionais em atividade em todo o mundo.
Além disso, o turismo corresponde a 9,2% do produto interno bruto mundial. E agora uma estatística
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muito importante: na média de longo prazo, o turismo cresceu 8% por ano, 2% mais que a média anual
de crescimento da economia mundial.
Ilustração 1: Passado e estimativa do desenvolvimento do turismo no mundo: Visitas de turistas
internacionais e receitas do turismo internacional (Fonte: WTO 1990,2010)
Esses são fatos concretos! Diante desses fatos concretos e números positivos, não admira que o
turismo seja frequentemente utilizado como veículo para o crescimento econômico e desenvolvimento
regional. O turismo tem sido usado como estratégia sobretudo em regiões periféricas e
estruturalmente fracas de países que, por exemplo, estejam enfrentando uma crise devido à
desindustrialização ou declínio da agricultura. Por que essa estratégia? Que vantagens ela traz? Para
citar os argumentos mais importantes: como já mostrei, o turismo é um setor econômico em
crescimento quando uma região sabe aproveitar bem seu potencial. Ao contrário da indústria, no
turismo não são necessários grandes investimentos iniciais em relação ao número de empregos
gerados. Como setor de serviços, o turismo oferece empregos não apenas em grande quantidade como
também com ampla gama de diversificação (embora nem sempre bem pagos). Porém, além dessas
vantagens, há também muitos desafios que se deve conhecer quando se deseja usar o turismo como
estratégia no desenvolvimento regional. Aqui também destaco apenas os aspectos mais importantes:
1.
A infraestrutura geral e específica necessária para o desenvolvimento turístico em uma região
deve já estar presente ou ser construída com rapidez
2.
Os produtos de turismo nacional ou internacional que uma região é capaz de oferecer devem ter
atratividade e ser bem ajustados aos grupos-alvo que se deseja atrair para a região
3.
A estratégia de desenvolvimento regional por meio do turismo não pode ser vir “de cima para
baixo”, mas sim contar com a iniciativa e o apoio da própria população, no sentido de um
“community based tourism”.
4.
Desde a ECO-92 sabemos que o desenvolvimento econômico deve ocorrer de forma sustentável, e
isso se aplica especialmente ao turismo, que é bastante sensível nesse sentido, caso contrário o
turismo estaria cortando o próprio galho no qual está sentado
5.
E, em quinto lugar, algo absolutamente decisivo: o turismo tem muito a ver com fantasia,
criatividade e imaginação. As pessoas viajam preferencialmente para os locais onde lhes é
oferecido algo interessante, novo, diferente, onde elas podem ver algo belo, viver um momento de
felicidade ou pelo menos a ilusão disso!!! Em suma: todo produto turístico deve ser carregado
com uma história atraente, interessante e rica em fantasia – ou seja, com uma “story”, como
dizemos no jargão técnico. De que outro modo se poderia explicar o grande sucesso dos parques
da Disney? Não importa o que se pense deles, eles representam, afinal, nada além de histórias de
fantasia, as mesmas “stories” contadas nos famosos filmes da Disney.
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Mostrarei agora um breve trecho de filme – não da Disney, mas do filme Chocolate, com Juliette
Binoche. Por que exibir esse trecho de filme? Porque quero demonstrar que vocês e sua “cultura do
cacau” na região de Salvador dispõem de uma “story” no sentido que mencionei acima. Uma “story”
com um potencial único e promissor que, em minha opinião, poderia formar uma boa base para uma
estratégia de desenvolvimento turístico.
A meu ver, existe aqui a possibilidade de usar a longa tradição do cultivo do cacau da região como
base para criar uma estratégia de desenvolvimento turístico regional aproveitando as muitas histórias
e facetas que se entrelaçam com o cultivo e comercialização do cacau. Ou, como diria Bourdieu, de
aproveitar o capital cultural da região para gerar capital econômico. Essa é uma das grandes vias.
A outra grande via seria ignorar o cacau e pensar em outros elos que ainda haveria na região e que
poderiam ser valorizados para uma estratégia de desenvolvimento turístico regional. Infelizmente, não
tenho condições de ajudar nessa busca de elos possíveis, pois não conheço a região. Entretanto, fui
convidado a dar uma palestra tendo como ponto central os estudos de caso de regiões nas quais o
turismo foi usado como base para se criar e se concretizar uma estratégia de desenvolvimento
regional. São três exemplos de melhores práticas que eu gostaria de lhes mostrar.
2
2.1
Exemplos de melhores práticas
A rota da cultura industrial como elemento central da mudança de imagem e da ressurreição
econômica de uma região inteira
Começo com uma região que já esteve entre as mais sujas da Alemanha e da Europa de um modo
geral. Uma região que pode ser chamada de berço do milagre econômico alemão, mas que foi
marcada por um dos setores econômicos mais sujos: a indústria da extração do carvão e produção de
ferro e aço. E justamente essa indústria suja, que hoje sem dúvida pertence ao patrimônio cultural
dessa região, foi usada como base para uma estratégia de desenvolvimento regional fundamentada no
turismo. Apesar da contradição entre indústria do carvão e aço e turismo, o fato é que a estratégia deu
certo!
Trata-se do Vale do Ruhr, no coração da Alemanha, que após a II Guerra Mundial, com o declínio da
indústria do carvão e aço entrou em uma crise radical (ver Route Industriekultur; European Route of
Industrial Heritage). Nessa região, na qual vivem hoje 5,2 milhões de indivíduos e cerca de 7% da
população da Alemanha, a parcela de profissionais em atividade na indústria do carvão e aço em
relação ao número dos profissionais em atividade em geral caiu de 58% em 1970 para apenas 28%
nos dias de hoje (ver Regionalverband Ruhr 2011, in: Schoeneberg 2011, p. 2). Mas os resquícios do
antigo florescimento, que marcaram enormemente o desenvolvimento do Vale do Ruhr desde o
começo da industrialização em meados do século XIX, ainda hoje estão à vista: inúmeros altos-fornos,
chaminés e torres de extração ainda caracterizam esse espaço.
O Vale do Ruhr se viu diante de grandes desafios não só devido ao desemprego decorrente do declínio
econômico como também devido à queda populacional. A dispendiosa manutenção de antigas
instalações industriais também exigiu linhas de ação inovadoras (ver European Route of Industrial
Heritage). Um marco nessa nova perspectiva foi a Exposição Internacional de Construção (conhecida
como IBA Emscher Park), realizada na região entre 1989 e 1999 (ver Internationale Bauausstellung
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Emscher Park a). A discussão sobre o patrimônio histórico industrial da região teve um papel crucial na
Exposição Internacional de Construção. Dela surgiu a ideia de uma rota turística, a chamada Rota da
Cultura Industrial. O ponto central dessa rota turística é o potencial da cultura industrial, que hoje se
tornou uma marca registrada de toda a região (ver Internationale Bauausstellung Emscher Park b). O
objetivo da Rota da Cultura Industrial era não apenas instituir um setor econômico totalmente novo
para a região com geração de inúmeros empregos, como também, vinculado a isso, criar uma nova
consciência regional e promover a mudança de imagem da região (ver Schoenenberg 2011).
A rota em si estende-se por aproximadamente 400 quilômetros. Seu ponto central são 52 elementos
de cultura industrial formados por altos-fornos, torres de extração, prédios industriais, alojamentos de
operários, mirantes e, claro, museus (ver Route Industriekultur).
Entretanto, não se ficou restrito à Rota da Cultura Industrial como estratégia de desenvolvimento
regional com base no uso do patrimônio histórico da cultura industrial para o turismo. Houve outros
marcos do desenvolvimento turístico para a região. Foi extremamente importante a elaboração do
“Plano diretor para passeios à região das minas”, cujo objetivo, entre outros, era garantir a
diversificação dos produtos turísticos do Vale do Ruhr. Foi igualmente importante a constituição da
empresa RuhrTourismus GmbH, que se propõe a ser uma plataforma organizacional para o
desenvolvimento turístico na região.
O sucesso da estratégia de desenvolvimento regional com base no turismo, que hoje já ocupa um
papel central na economia da cultura e lazer no Vale do Ruhr e cuja ausência seria inimaginável na
região, pode se medido em escala e número. Entre 1990 e 2002 a quantidade de pernoites subiu
28,5%. Antes da Rota da Cultura Industrial a quantidade de profissionais em atividade no setor
turístico era de apenas algumas centenas, mas em 2002 era de 14.000 pessoas. Em 2010, a região
registrou 6,5 milhões de hóspedes de pernoite, dos quais quase 1,1 milhão vieram do exterior (ver
Regionalverband Ruhr 2011a). O influxo de turistas, que em 1990 era de 1,6 milhões de pessoas,
ultrapassou em 2010 a marca dos 3 milhões, quase o dobro (ver Regionalverband Ruhr 2011b).
Mas o desenvolvimento turístico do Vale do Ruhr é acompanhado intimamente de um fenômeno
extremamente importante: uma fundamental mudança de imagem. Por um lado, os visitantes não
veem mais o Vale do Ruhr como um destino impensável, mas sim, pelo contrário, como uma região que
ganhou muita atratividade. Por outro lado, a população da região passou por uma mudança de
imagem cuja importância é quase mais importante que isso, pois ela gera uma nova autoconsciência e
estimula novas ações. (ver Schoenenberg 2011, p. 16).
2.2
A história de sucesso da região de Dadia – graças à aplicação bem-sucedida de projetos
turísticos inovadores
Neste meu segundo exemplo, deixo a Alemanha e partimos para a Grécia, que hoje está sendo muito
falada. Vamos visitar o vilarejo de Dadia, situado no lado sudeste do sopé do Ródope grego, na região
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fronteiriça entre Grécia, Bulgária e Turquia. Ao contrário do Vale do Ruhr, a região no entorno de Dadia
não possui potencial industrial, mas sim um extraordinário potencial de paisagens naturais. Ela é
habitat de grande número de répteis, anfíbios e mamíferos. É de especial importância a infinidade de
aves de rapina, entre elas muitas ameaçadas de extinção.
No século XX, as regiões montanhosas da Grécia foram atingidas gravemente pela emigração. Oitenta
por cento da população mudou-se para os vales ou para o exterior. Ficaram nas montanhas sobretudo
os mais idosos. A maciça emigração teve como consequência uma perda dramática de infraestrutura,
especialmente na área de educação e saúde.
Durante muito tempo, a economia da região montanhosa foi caracterizada, por um lado, pela extração
de madeira e, por outro lado, pela extensiva criação de gado de pasto, que mantinha o gado em
habitat natural. Porém, após a II Guerra Mundial, foram criadas grandes áreas de cultivo para poder
praticar a agricultura industrial em maior escala. A consequência foi que o habitat de muitas espécies
de animais correu risco de destruição irreversível.
Mas nos anos 1970, por um golpe de sorte, a riqueza biológica da região foi reconhecida. Um grupo
internacional de pesquisadores descobriu a diversidade singular das aves de rapina da região e
elaborou um estudo sobre o tema, chamando atenção para Dadia. O estudo chegou às mãos do
governo grego, que em seguida elevou grandes extensões da região à condição de área de preservação
ambiental – ato que gerou uma ampla restrição das atividades econômicas e trazia consigo um
potencial de conflito. Houve necessidade de se criar projetos inovadores. Sobretudo a promoção
sistemática do turismo através do aproveitamento do potencial do espaço natural prometia sucesso.
Em cooperação com a Comissão Europeia, foi possível, em uma primeira etapa, garantir a
infraestrutura turística de base, ou seja, criar um local para dar alimentos aos animais e um mirante
nas proximidades para os visitantes; além disso, foi construído um centro de informações e um
albergue. Em uma segunda etapa, tentou-se ampliar a oferta de produtos turísticos, com treinamento
sistemático de guias de turismo e criação de trilhas.
Mas a inclusão da população local nas atividades turísticas foi de importância decisiva para todo o
projeto. Por exemplo, fundou-se uma cooperativa de mulheres com o objetivo de preparar as
associadas para os múltiplos desafios do turismo. Como a cooperativa teve muito sucesso, foram
fundadas outras cooperativas de mulheres em vilarejos vizinhos. O trabalho de cada uma dessas
cooperativas foi voltado para acentuar as peculiaridades locais de cada vilarejo. Com o tempo, surgiu
na região uma gama de produtos turísticos bem diversificada e decididamente sustentável. O resultado
foi que o influxo de turistas aumentou, assim como a duração da estadia dos hóspedes na região.
A implementação bem-sucedida da estratégia turística baseada na sustentabilidade levou o governo
grego a realizar outros investimentos públicos, atraindo, por sua vez, uma maior participação do setor
privado. Isso fez os investimentos atingirem uma proporção várias vezes maior que o valor do
investimento inicial. Como consequência, surgiram outros estabelecimentos hoteleiros para turistas, o
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centro de informações foi ampliado e um mosteiro situado nas imediações foi reformado e aberto para
fins turísticos. Aquele destino turístico se tornou cada vez mais conhecido. Todo ano são realizados em
Dadia muitos eventos nacionais e internacionais. Em média, chegam à região cerca de 200 turistas por
dia. Hoje, a região já é um importante centro do ecoturismo na Grécia.
Graças à promoção bem-sucedida do turismo sustentável foi possível, por um lado, aumentar a
conscientização da população local e o potencial do espaço natural, com consequências positivas
inclusive para a proteção do ecossistema. E, por outro lado, a população local pôde se beneficiar
enormemente com o progresso econômico. Antes, a região era marcada pela emigração, mas hoje ela
mais uma vez registra crescimento populacional. Isso se evidencia inclusive no aumento da demanda
por habitações, que, por sua vez, contribui para uma melhora do mercado de trabalho. A maior
transformação, porém, foi no papel da mulher na região. Enquanto antes a vida das mulheres mal se
passava fora do ambiente familiar, hoje sobretudo as jovens se beneficiam de novas possibilidades de
educação e da situação favorável no mercado de trabalho (ver Valaoras et al. 2002; Embaixada grega
em Washington, DC).
2.3
A Ruta del Café – um projeto de diversificação da estrutura econômica da Sierra Madre de
Chiapas
O próximo exemplo nos leva à Ruta del Café, no México. A Ruta del Café originou-se de uma iniciativa
de proprietários de fincas da região de Soconusco. A rota foi criada com o objetivo de aproveitar o
potencial turístico do cultivo do café e também para combater a dependência econômica da província
em relação à produção do café (ver Embaixada alemã na Cidade do México). A região de Soconusco
situa-se no estado mexicano de Chiapas, na Sierra Madre de Chiapas, uma cordilheira próxima à
fronteira com a Guatemala. A economia do estado é fortemente caracterizada pela agricultura. O
cultivo do café ocupa um lugar importante nessa economia (ver Richter 2010).
O contexto das atividades dos proprietários de fincas é que entre 1975 e 1985 o cultivo do café na
região foi totalmente reestruturado. Sob a influência do Instituto Mexicano de Café, a região teve de se
dedicar exclusivamente à produção em massa de café, a fim de aumentar os rendimentos. A produção
de café de alta qualidade passou para segundo plano. Mas entre 1989 e 1995 o cultivo do café entrou
em uma profunda crise que atingiu todo o estado de Chiapas, inclusive a região de Soconusco. Os
agricultores sofreram drásticas perdas de renda, pois nessa época Chiapas detinha 35% de toda a
produção de café do México (ver Masserrat 1989 / Schmidt-Eule 2002 in: Richter 2010).
Mas as crises nem sempre são apenas maléficas. Neste caso específico, a crise foi o estopim de uma
revolução no modo de pensar, pois fez com que começasse uma ênfase na fabricação de café de alta
qualidade. Todavia, não foi possível superar a crise, pois surgiram outros desafios para o cultivo do
café, inclusive com a crescente concorrência do Vietnã. Tudo isso contribuiu para que se buscasse
alternativas na região para diversificar a gama de produtos e superar a dependência em relação ao
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café. Desse modo, surgiu entre os organizadores da Ruta del Café a ideia de usar o turismo como
possibilidade alternativa de desenvolvimento regional (Richter 2010, 10). A Ruta del Café é uma união
de uma série de fincas na região de Soconusco com o objetivo de aproveitar o potencial turístico da
região com base no cultivo do café. Os proprietários de fincas haviam reconhecido a singularidade de
seu produto, constituída pela cultura do café e pela história, e transformado esse produto em um
produto turístico (ver Richter, p. 40). O elemento central desse processo é a visitação ao plantio de
café e a tudo que diz respeito a ele, mas esse elemento é apenas um de muitos outros que
complementam a Ruta del Café. Nas fincas há alojamentos para hóspedes, foram criados restaurantes
que oferecem inclusive cozinha de altíssimo nível e há atividades como trilhas equestres ou passeios
voltados para a riqueza ornitológica da região atraindo uma clientela especial e disposta a pagar bem
(Richter 2010, 19). De um modo geral, há aqui também uma estratégia de desenvolvimento regional
voltada para a sustentabilidade com base em produtos e atividades de cunho turístico.
O turismo fortalece a disposição para cooperação dos protagonistas locais. Além disso, ele inclui na
cooperação protagonistas não envolvidos nas plantações de café (ver Richter 2010, p. 44). Para uma
de minhas orientandas que realizou esse estudo foi interessante observar que os protagonistas não
apenas cooperam, como também se movimentam em uma área de tensão entre cooperação e
concorrência, pois, por um lado, a rota turística somente pode funcionar se os protagonistas
cooperarem uns com os outros e, por outro lado, eles são, ao mesmo tempo, concorrentes uns dos
outros na luta pelos turistas que se quer atrair para a região. Durante o estudo ficou demonstrado que
nessa área de tensão houve um claro aumento da disposição para a inovação (ver Richter 2010), algo
que pode ser perfeitamente benéfico para o desenvolvimento econômico da região.
Através da Ruta del Café os produtos originais e os componentes naturais e socioculturais a eles
vinculados fizeram surgir uma gama de produtos turísticos que se alarga cada vez mais. Mas o mais
importante é o aumento do capital cultural, por exemplo, através da abertura de rotas do café e de
plantas ornamentais ou da construção de museus sobre a história do café e da região. Com isso se
gera um novo capital econômico, pois devido à construção da infraestrutura turística surgiu na região
de Soconusco um claro aumento dos preços de terrenos, produzindo impacto positivo na forma de
aumento do crédito dos proprietários de fincas (Richter 2010, p. 32).
3
Resumo: Considerações finais e recomendações concretas
3.1
Conclusões gerais
Como vimos nos exemplos discutidos, a promoção do turismo pode ser um meio para enfrentar a
transformação estrutural ou pelo menos atenuar seus impactos sérios em regiões sujeitas a uma
transformação estrutural, independente da causa desta. Em todo caso, a composição setorial da
economia regional sujeita-se a fortes transformações (ver Gabler Verlag 2011, in: Schoenenberg 2011,
p. 5).
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As estruturas políticas tampouco ficam incólumes, pois elas também são atingidas pelas
transformações. Idealmente, a transformação estrutural contribui para melhorar a cooperação entre os
protagonistas, mas também para aumentar a concorrência entre eles, algo que, por sua vez, pode
contribuir para o aumento do potencial para inovação (a Ruta del Café e o Vale do Ruhr são bons
exemplos disso). Além disso, traços e elementos característicos de uma região podem vir a ser usados
para determinados fins. No Vale do Ruhr até existe literalmente uma mistura de usos da qual as áreas
de indústria, serviços, cultura e lazer/turismo participam de igual para igual. Aqui se vê perfeitamente
como a promoção sistemática do turismo pode contribuir para a diversificação da economia regional.
A vantagem é que regiões com diversificação econômica sofrem menos de oscilações conjunturais do
que regiões economicamente monoestruturadas (ver Schoenenberg 2011).
A implementação bem-sucedida de um mercado turístico é muitas vezes a oportunidade para
cooperações com parceiros atraentes; ver o exemplo de Dadia e a cooperação com a União Europeia.
Cooperações entre parceiros privados e públicos também podem ser estimuladas no âmbito de uma
estratégia de desenvolvimento turístico (ver Valaoras et al 2002). Mais uma vez, Dadia é um exemplo.
A infraestrutura criada no âmbito de uma estratégia de desenvolvimento regional com base no turismo
tem consequências positivas para o desenvolvimento econômico como um todo, de modo que as
empresas ganham incentivo para se mudar para a região. Concretamente: os grandes efeitos de
multiplicação que se pode obter com o turismo contribuem para que os investimentos na região
continuem crescendo (ver Valaoras et al 2002). Dadia e o Vale do Ruhr são bons exemplos disso.
Um ponto central da ideia de “turismo como possibilidade alternativa de desenvolvimento regional” é,
como já mencionei no início, a sustentabilidade. A promoção sistemática do turismo pode contribuir
para uma configuração sustentável do espaço em questão. Isso se vê perfeitamente na Rota da Cultura
Industrial, que permitiu uma valorização das instalações industriais abandonadas e criou um espaço
que é marcado pela cultura industrial e não tem mais fama de sujo e sim de local com grande prestígio
turístico. A promoção do turismo como possibilidade alternativa de desenvolvimento regional também
pode ter consequências sociais sustentáveis – no sentido de uma mudança de imagem e identidade
no longo prazo. Como se viu no exemplo do Vale do Ruhr e da região de Dadia, a implementação de
uma estratégia de turismo sustentável contribuiu enormemente para uma maior autoconsciência da
população local (ver Schoenenberg 2011). Isso se estende à posição da mulher na sociedade através
de melhores possibilidades educacionais e novas oportunidades no mercado de trabalho. Basta
lembrar da cooperativa de mulheres de Dadia (ver Valaoras et al 2002).
3.2
Possíveis problemas e percalços
É preciso, porém, apontar os problemas e percalços. Em uma época marcada por rápidas
transformações sociais e por uma imprevisibilidade cada vez maior do comportamento de consumo
das pessoas, existe o perigo de os projetos turísticos terem um período de semidesintegração,
sobretudo quando os aspectos “eventos e entretenimento” estiverem em primeiro plano e se
destacarem por uma especial brevidade. Usando categorias definidas por Urry, falamos atualmente do
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turista “híbrido”, “multiopcional” e “pós-moderno”, que consume esses produtos turísticos hoje e
amanhã consome outros bem diferentes. Por isso, nem todos os destinos e regiões poderiam
beneficiar-se em igual medida dos impulsos de desenvolvimento positivos do turismo. Em
determinadas circunstâncias, diferenças e disparidades regionais podem até serem reforçadas ainda
mais (ver Schoenenberg 2011). Além disso, o crescente número de visitantes torna difícil implementar
projetos sustentáveis com sucesso.
3.3
Recomendações concretas
O que fazer? Que recomendações concretas de natureza geral se pode fazer?
Para poder promover sistematicamente uma região, é necessário, em primeiro lugar, definir com mais
exatidão seu potencial, que via de regra é composto pelo espaço natural, espaço cultural e
infraestrutura. Para gerar valor agregado para os clientes, é fundamentalmente importante poder
aproveitar os elementos naturais, materiais e imateriais de alto nível de uma região na elaboração de
produtos adequados (Romeiß-Starcke 1995, p. 21). A atratividade de uma região pode ser elevada
quando se consegue destacar sua peculiaridade e criar com ela uma marca regional com alto grau de
reconhecimento (Richter 2010, p. 49). Ou seja: para estimular a valorização turística de uma região,
deve-se apurar qual é a “dotação global de um espaço […] em sua capacidade produtiva” (Leupolt
2002, in: Richter 2010: p. 20) e usá-la de forma adequada. Na valorização turística de uma região com
vistas à aceitação social desse processo, a integração e a participação da população local nas
atividades turísticas têm um papel central. Somente quando se consegue fixar o turismo como
possibilidade alternativa de desenvolvimento regional firmemente na consciência das pessoas de uma
região é que se cria uma história de sucesso geradora de benefícios para todos os envolvidos.
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Referências bibliográficas:
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Richter, Julia (2010): Die Ruta del Café in Chiapas/ Südmexiko – Ein touristisches Konzept im
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Route der Industriekultur: http://www.route-industriekultur.de/home/, acesso em 04/10/2011
Schoenenberg, Hannah (2011): Tourismus im Ruhrgebiet und sein Beitrag zum Strukturwandel einer
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Valaoras, Georgia/ Pistolas, Kostas/ Sotiropoulou, Helen Yombre (2002): Ecoturism Revives Rural
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