OS JORNAIS E AS REPRESENTAÇÕES DE GETÚLIO VARGAS
EM RIBEIRÃO PRETO
Autor: Lucas Dario ROMERO Y GALVANIZ
Orientador: Prof. Me. Rafael Cardoso de MELLO
APRESENTAÇÃO:
A cidade de Ribeirão Preto, no final do século XIX e início do XX, havia se
tornado uma grande produtora de café - produto que, segundo Celso Furtado (1971),
desde o início do século XIX reinseriu o Brasil no grande comércio mundial – e os
cafeicultores locais tiveram grande importâncias nas decisões políticas em âmbito local
e nacional durante o período conhecido como Primeira República.
A grande riqueza gerada pela produção cafeeira permitiu aos cafeicultores
imprimir mudanças nos aspectos físicos, culturais, sociais e econômicos da urbe.
Contudo, a ascensão de Getúlio Vargas ao poder em 1930 colocou em xeque o grande
poder político dos cafeicultores em âmbito nacional. A análise histórica pautada na
economia, aponta para os motivos que levaram a cafeicultura a um declínio e nos
auxilia na compreensão das consequências deste declínio cafeeiro para a política local.
Todavia, ao se debruçar sobre a macroeconomia, a vivência dos sujeitos
inseridos naquele contexto passa despercebida, estes são reduzidos a meros números
a serem contabilizados. Vargas, ao tomar o poder político dos cafeicultores paulistas,
tomou atitudes que incidiram diretamente na vida dos cidadãos de Ribeirão Preto,
cafeicultores ou não. Estes acontecimentos foram vivenciados por estes indivíduos,
que, dada suas experiências, se apropriaram das informações e das mudanças
ocorridas e passaram a representar de maneiras distintas o contexto e os atores
diretamente inseridos nestas mudanças.
OBJETIVOS:
Este resumo tem por intuito apontar de forma mais concisa os resultados do
terceiro capítulo da monografia “As representações de Getúlio Vargas nos jornais de
Ribeirão Preto” a partir da contribuição historiográfica de Roger Chartier, no que diz
respeito a relação representação/apropriação, compreendendo como as imagens
atreladas a Getúlio Vargas foram produzidas pelos jornais da cidade de Ribeirão Preto
durante a chamada “Era Vargas” (1930-1945). Tomando as notícias veiculadas por
estes suportes, poderemos perceber como tais periódicos se apropriaram dos
discursos e acontecimentos políticos ocorridos no período.
JUSTIFICATIVA:
Nosso trabalho adquiri relevância a medida em que a quantidade de estudos
acerca da Era Vargas em Ribeirão Preto são poucos, sendo que destes poucos
encontrados, a maioria se insere em perspectivas que privilegiam a relação Ribeirão
Preto/Vargas como uma consequência das decisões federais, e não como uma história
local, desejosa pela valorização das ações dos ribeirãopretanos e de como eles
negociaram, ao seu modo, com o período.
Sendo assim, ao nos debruçarmos sobre as representações de Getúlio Vargas,
e por consequência as apropriações feitas por alguns indivíduos ribeirãopretanos, nos
propomos a pesquisar algumas das formas pelas quais os cidadãos da localidade
leram o período, valorizarmos as ações destes sujeitos, ou como diria Chartier, “a parte
refletida da ação” (CHARTIER, 1989, p.188).
DESENVOLVIMENTO:
Para levar a cabo nosso intento, elegemos como fonte os jornais da cidade de
Ribeirão Preto que circulavam durante o período compreendido entre 1930 e 1945, a
saber: A Cidade, A Tarde, Diário da Manhã e Diário de Notícias. Tentamos, pois,
capturar como os acontecimentos ocorridos neste contexto foram apropriados pelos
periódicos, e como Vargas foi representado no período.
Contudo, para melhor entendermos as apropriações e consequentes
representações de Vargas criadas e divulgadas nestes periódicos, tivemos de
aprofundar no estudo do contexto histórico da criação da cidade, que como vimos, se
deu antes dos “verdes e infinitos cafezais”, e entender como esse processo criou uma
raiz cultural que, embora negada posteriormente pelos cafeicultores que chegaram à
urbe e olvidada pela própria historiografia, deixou marcas indeléveis nos cidadãos da
“terra do café”.
Da mesma forma, tratamos de mostrar como se deu a chegada do café e dos
cafeicultores em Ribeirão Preto, apontando para a disputa ocorrida entre os novos
habitantes e os fundadores da cidade na liderança política e econômica local.
Mostramos como os novos habitantes tentaram impor aos ribeirãopretanos novos
hábitos, pautados em uma dita modernidade trazida da Europa e possibilitada pela
chegada do trem à região e pelo capital que a cafeicultura propiciou. Modernidade
imposta aos indivíduos não prontamente e nem totalmente acatada por estes, mas
antes foi readaptada segundo uma lógica pré-existente devido às apropriações que
estes fizeram. Da mesma maneira, tentaremos mostrar como os cafeicultores do
estado de São Paulo, principalmente os da região de Ribeirão Preto (a maior produtora
de café do país), conseguiram ascensão política em escala local e nacional, mantendo
uma certa hegemonia, e com estes conseguiram, na maioria das vezes, usar a
máquina estatal para levar a cabo seus projetos até serem tirados do poder em 1930
pelas tropas lideradas por Getúlio Vargas.
RESULTADOS:
Desde que Getúlio Vargas, liderando as tropas gaúchas e mineiras, iniciou a
marcha rumo à capital para depor o então presidente paulista Washington Luiz,
impedindo que o também paulista Júlio Prestes assumisse o cargo, os jornais da
cidade passaram a representar Vargas como um dos “políticos feridos nas suas
ambições e nos seus sonhos de conquista” (JORNAL A CIDADE, 17 out.1930), um
ditador contrário à moral cristã, que para fazer valer seus “caprichos odientos”
(JORNAL A CIDADE, 17 out.1930), estava privando os brasileiros de seus direitos, tal
como ao tirar os paulistas da liderança política do país, estaria atrasando, ou mesmo
impedindo, sua marcha de progresso. Sendo assim, seria necessário que o país
voltasse ao regime constitucional para que, com a garantia dos direitos dos cidadãos e
a consequente eleição de um presidente, o país voltasse a progredir.
O ápice desta animosidade contra Vargas foi a Revolução Constitucionalista, em
1932, onde os paulistas, “bandeirantes”, corajosos, desbravadores, progressistas,
batalharam para restabelecer o país à legalidade, para restituir aos brasileiros os
direitos tirados pelo ditador, o vil, o ambicioso, o contrário às tradições cristãs. Como
aponta Boris Fausto (2010), São Paulo perdera nas armas, mas o governo viu que não
poderia ignorar a elite paulista. Da mesma forma, estes perceberam que teriam de
manter certas relações com o poder central. Neste contexto, os jornais da cidade
diminuíram o ímpeto, mas ainda sim mantiveram a animosidade contra Getúlio.
Após a revolução, e principalmente após a promulgação da Constituição, os
jornais da cidade passaram a objetivar as eleições, o que fez com que o discurso de
legalidade constitucional perdesse espaço para o do liberalismo, onde a eficiência era a
meta, e claro, Getúlio e seu governo deixavam a desejar.
No período entre a promulgação da Constituição e as eleições que deveriam
ocorrer em 1938, Getúlio foi representado como um líder incapaz, seu governo
permeado por erros desde 1930, cujas poucas coisas proveitosas foram a luta contra
os comunistas e uma certa atenção dada à cafeicultura. Essas ações valeriam a
Getúlio Vargas alguns elogios, e criariam alguma estima por parte dos brasileiros,
desde que, chegado 1938, ele saísse do poder, caso contrário, perderia a consagração
pública a que teria direito, transformando-se em um ditador.
Ocorre que Getúlio instaurou o Estado Novo e centrou o poder em suas mãos,
contrariando as expectativas dos jornais, que à época estavam inclusive apontando
qual o melhor candidato para sucedê-lo.
Mesmo Getúlio Vargas frustrando as expectativas dos jornais da cidade, após a
instauração do Estado Novo, poucas foram as críticas contundentes, as
representações negativas que foram veiculadas. O que se viu, ao contrário, foi que as
representações por esta época foram pautadas em apropriações dos próprios
pronunciamentos de Vargas (que se apropriava dos mesmos discursos dos paulistas modernidade, religioso, democracia), por vezes até reescrevendo parte destes
pronunciamentos.
É possível que os aparelhos que o Estado Novo criou para acabar com as
oposições e impedir críticas à Vargas e ao governo tenham influenciado de maneira
sensível as publicações na cidade de Ribeirão Preto, pois notamos que durante este
período (1937 a 1944) as representações de Getúlio Vargas são quase todas positivas,
uma vez que deixa de ser representado como contrário à moral cristã, pois os “dons
abençoados, que jamais se reuniram intensamente no mesmo homem, condensaram
em Getulio Vargas” (Jornal Diário da Manhã, Abr/1943)”; seu governo é representado
como solução para os problemas do país, pois “O sr. Getulio Vargas levou para o
governo central um programa de grandes realizações e reajustamento da maquina
governamental” (Jornal A Tarde, Jan/1941). Deixa de ser alguém que “acabaria por
devorar” (Jornal A Tarde, Jan/1936) qualquer um devido a “suas ambições e […]
sonhos de conquista” (Jornal A Tarde, Jan/1936), e passara a ser o “Presidente da
Republica, o sr. Getulio Vargas” (Jornal Diário da Manhã, Dez/1939), “um juiz
incorruptível” (Jornal Diário da Manhã, Abr/1943), que "com sua lucidez e penetração
habituais desceu ao exame de problemas da maior significação e importância para o
Brasil” (Jornal Diário da Manhã, Jul/1941), cuja presença ajudou a encher “de
imponencia as cerimonias de trasladação dos despojos do imperador Pedro II e da
imperatriz Thereza Christina” (Jornal Diário da Manhã, Dez/1939), um chefe que está
de tal forma “realizando um governo eminentemente construtivo e pondo o pais em
ordem de marcha para o futuro” (Jornal A Tarde, Out/1941), que o fato da Academia
Brasileira de Letras indicá-lo para uma cadeira significa apenas que se estará
“Imortalizando um imortal” (Jornal A Tarde, Mai/1941), “o bandeirante Getúlio Vargas”
(Jornal A Tarde, Mai/1941).
Essa postura dos jornais é bem distinta se comparada à do período anterior,
onde Vargas, na maioria das publicações, era representado de maneira negativa. A
possibilidade da censura ter interferido diretamente nestas representações favoráveis a
Vargas ganha vulto a medida em que notamos que, com o enfraquecimento do governo,
os jornais tornam a representá-lo como ditador, contrário à moral cristã, atravancador
do progresso, inclusive apontando que foram vítimas de censura durante o Estado
Novo.
Como vimos, a animosidade, a contrariedade dos jornais da cidade contra
Getúlio Vargas durou os 15 anos de seu governo, contudo, as publicações (críticas ou
elogios) surgiam conforme o contexto político que o país atravessava. Quando o
governo parecia bem consolidado, forte e coeso, a animosidade parecia cessar, ou
quando se fazia presente, era de maneira velada. Todavia, quando o governo parecia
ter perdido apoio, as representações de Vargas e de seu governo eram negativas. Foi
assim em 1930, quando os jornais acreditavam que o governo poderia se manter
intacto face ao movimento revolucionário; quando Vargas parecia ter perdido o apoio do
Rio Grande do Sul, tanto em 1932 quanto no período que antecedia o pleito que
elegeria o presidente em 1938; e principalmente quando o Estado Novo deixou de ter o
apoio de grande parte dos militares, quando os jornais passaram a fazer as críticas
mais contundentes e a representá-lo de forma mais negativa.
O Estado Novo parece ter imposto sérias dificuldades e sansões aos jornais,
sendo que esse reflexo se fez sentir nas publicações da cidade de Ribeirão Preto. Das
representações feitas de Vargas fora o período em que censura foi mais eficaz e forte,
as únicas representações positivas de Vargas provinham de nítidos ataques ao
comunismo. Fora isso, Vargas era persona non grata nas publicações dos jornais
ribeirãopretanos, que tendiam a se colocar como os intérpretes dos anseios da
população, como seus porta-vozes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Podemos perceber que, ao criar e propagar a representação da figura de Getúlio
Vargas e de seu governo, os periódicos reibeirãopretanos se apropriaram de vários
discursos: o religioso; o da “modernidade”; o da constitucionalização; o liberal, aquele
que abraçava a democracia; o de “salvação nacional”. Dois, porém, se fizeram
presentes durante todo o período estudado: o religioso e o da modernidade,
apontando que mesmo os cafeicultores tendo sobrepujado econômica e politicamente
os fundadores da cidade, impondo aos cidadãos a modernidade, os hábitos religiosos
há muito enraizados permaneceram, fazendo com que o “novo” fosse adequado
segundo uma lógica já existente.
Também percebemos que os jornais, ao publicarem suas notícias, colocavam-se
como porta-vozes dos anseios ribeirãopretanos e dos paulistas. Ocorre que, para além
das representações que os jornais criaram da figura de Getúlio Vargas durante todo o
período em questão, os próprios habitantes da urbe tiveram acesso a outros discursos,
veiculados por outras mídias (principalmente o rádio), o que lhes possibilitou, em
muitas situações, representarem Vargas de forma distinta aos jornais. Isto se evidencia
tanto na votação que o “ditador” recebeu no pleito em 1945, quando foi eleito pelos
próprios paulistas, como no número de crianças batizadas na catedral da cidade com o
nome “Getúlio”1 – números curiosos que nos chamam a atenção e nos convidam a
outras interpretações sobre as representações de Vargas para além das dos jornais.
Como podemos perceber, embora os jornais se apropriassem dos
acontecimentos políticos à época e divulgassem uma certa representação de Getúlio
Vargas, a apropriação que os indivíduos tinham do mundo que os cercava, por vezes
gerava representações que destoavam dos periódicos.
1
Pesquisamos e elencamos o número de crianças batizadas de 1918 a 1946 na catedral de Ribeirão Preto, ou seja, doze anos antes e um ano
depois da Era Vargas. O “primeiro” Getúlio nasceu em 1930 e até março de 1946 foram computados doze outros “Getúlios” na cidade. Não afirmamos
com isso, que haja uma relação direta de homenagem a figura de Vargas, mas deixamos para outras pesquisas a reflexão sobre tais indícios. CF.
ROMERO y GALVANIZ, L. D. As representações de Getúlio Vargas nos jornais de Ribeirão Preto (1930-1945). Ribeirão Preto, 2013. 144p.
REFERÊNCIAS:
CHARTIER, R. O mundo como representação. Estudos Avançados. São Paulo: USP,
11(5), 1991, pp.173-191.
______. Por una sociologia histórica das prácticas culturáis. In _____ História cultural:
entre práticas e representações. Rio de Janeiro: DIFEL/Bertrand Brasil, 1988, p.1328.
FAUSTO, B. História do Brasil, 13ª ed. 2ª reimpr.- São Paulo: Editora da Universidade
de São Paulo, 2010, 660p.
FURTADO, C. Formação econômica do Brasil, 11ª ed. São Paulo: Companhia Editora
Nacional,1971, 248 p.
MELLO, R. C. de. “Um coronel de saias” no interior paulista: a “rainha do café” em
Ribeirão Preto (1896-1920) – Franca: UNESP, 2009.
ROMERO y GALVANIZ, L. D. As representações de Getúlio Vargas nos jornais de
Ribeirão Preto: (1930-1945). Monografia Curso de Historia do Centro Universtir’ario
Barao de Maua: Ribeirão Preto, 2013. 144p.
Fontes:
Jornal A Cidade, Sexta Feira, 17 de Outubro de 1930. APHRP.
Jornal A Tarde, Quinta Feira, 16 de Janeiro de 1936. APHRP.
Jornal A Tarde, Quinta-feira, 02 de Janeiro de 1941. APHRP.
Jornal A Tarde, Sexta-feira, 02 de Maio de 1941. APHRP.
Jornal A Tarde, Sexta-feira, 16 de Maio de 1941. APHRP.
Jornal A Tarde, Sexta-feira, 10 de Outubro de 1941. APHRP.
Jornal Diário da Manhã, Quarta-feira, 06 de Dezembro de 1939. APHRP.
Jornal Diário da Manhã, Quinta-feira, 10 de Julho de 1941. APHRP.
Jornal Diário da Manhã, Domingo, 18 de Abril de 1943. APHRP.
Jornal Diário da Manhã, Terça-feira, 20 de Abril de 1943. APHRP.
Download

OS JORNAIS E AS REPRESENTAÇÕES DE GETÚLIO VARGAS EM