ROBERTO CONCEIÇÃO DOS SANTOS OS IMPACTOS DA POLITICA MONETÁRIA NEOLIBERAL NO MERCADO DE TRABALHO DA REGIÃO METROPOLITANA DE SALVADOR. (1994-2002) SALVADOR 2006 ROBERTO CONCEIÇÃO DOS SANTOS OS IMPACTOS DA POLITICA MONETÁRIA NEOLIBERAL NO MERCADO DE TRABALHO DA REGIÃO METROPOLITANA DE SALVADOR (1994-2002) Versão Preliminar da monografia apresentada no curso de graduação de Ciências Econômicas da Universidade Federal da Bahia como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Ciências Econômicas. Orientador: Prof. Dr. Balanco SALVADOR 2006 Ficha catalográfica elaborada por Joana Barbosa Guedes CRB 5-707 Santos, Roberto Conceição dos P237 Os impactos da política monetária neoliberal no mercado de trabalho da Região Metropolitana de Salvador (1998-2004) / Roberto Conceição dos Santos. - Salvador: R. C. Santos, 2006. 67 p. tab. il. Monografia (Graduação em Economia) – Faculdade de Ciências Econômicas da UFBA, 2006. Orientador: Prof. Dr. Paulo Antônio de Freitas Balanco 1. Política Monetária. 2. Mercado de Trabalho. 3. Região Metropolitana de Salvador.4 Política Neoliberal – Mercado de Trabalho. CDD – 331.1144 “Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferenças para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade”.(Darcy Ribeiro, Atlas da Exclusão Social, vol. 5, pág. 2) “Porque àquele que tem, se dará, se terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado”. (Evangelho de São Mateus, Capítulo 13, Versículo 12) Este trabalho é dedicado a minha mãe Irenice Ângela e aos meus irmãos Ricardo e Rodrigo Conceição companheiros batalha diária e da minha vida. da NOTA DE AGRADECIMENTOS Este trabalho é resultado de um esforço pessoal muito grande e que teve participação efetiva de muitos companheiros. A lista de colaboradores é grande e sei que ao elaborála corro o risco de deixar alguns nomes de fora. Peço desculpas caso incorra involuntariamente nesse erro. Gostaria, inicialmente, de agradecer ao apoio material e emocional que me foi fornecido ao longo da minha vida e durante os anos de graduação pela minha família: Irenice Ângela minha mãe, a minha eterna gratidão. E aos meus irmãos Ricardo Conceição e Rodrigo Conceição. Companheiros de luta diária, pela superação das dificuldades imputada na nossa vida. Sou grato pelo excelente suporte teórico e sempre pela atenção que me foi concedida pelo meu orientador, Prof. Paulo Balanco. Que contribuiu bastante para a consolidação das idéias expostas nesse trabalho. Agradeço também aos “kamaradas” que me acompanharam ao longo desses anos na FCE-UFBA: Tiago Oliveira, Pedro Eduardo, Kenys, Bruno Villalva, Maxuell Barros, Igor, Pedro Marques, Anderson, Jocelino, Juarez. E ao grande “Kamarada” Antonio de Pádua um agradecimento especial, por esta sensível às causas alheias e pela disposição de sempre, em ajudar e à apoiar aos amigos, o meu muito obrigado. Por último, gostaria de agradecer à Assessoria Coletiva da Bancada Estadual do Partido dos Trabalhadores na Assembléia Legislativa da Bahia, que passei a fazer parte nos últimos dois anos, pela convivência prazerosa e sensibilidade neste período final e conturbado da Graduação, me proporcionando às condições materiais, para a elaboração desta monografia. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 2 AS MUDANÇAS NA ECONOMIA MUNDIAL E O PROCESSO DA FINANCEIRIZAÇÃO DA ECONOMIA 2.1 O COLAPSO DE BRETTOM WOODS E A “NOVA ORDEM DO CAPITAL” – A FINANCEIRIZAÇÃO DO CAPITALISMO 2.2 A Influência Neoliberal Na Estrutura da Economia - A Livre Movimentação De Capitais E A Globalização Financeira. 2.3 As transformações Estruturais no Mundo do trabalho e A Reestruturação Produtiva 3 INSERÇÃO RECENTE DA ECONOMIA BRASILEIRA NOS CIRCUITOS DA FINANÇA MUNDIALIZADA 3.1 As Mudanças Estruturais Na Economia Brasileira Proporcionada Pelo Neoliberalismo e a Adequação “A Nova Ordem Internacional”. 3.2 As Mudanças Estruturais No Mercado de Trabalho Brasileiro o Reflexo da Inflexão Da Política Econômica Dos Anos 90. 3.2.2 Os Reflexos da Política Macroeconômica Ortodoxa na Renda dos Trabalhadores. 4 A POLÍTICA ECONÔMICA ORTODOXA E SEUS EFEITOS NA DESARTICULAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO NA REGIÃO METROPOLITANA DE SALVADOR. 4.1 A Conjuntura Econômica baiana na década de 90 e sua influência no Mercado de Trabalho da RM de Salvador. 4.1.1 A evolução da economia baiana nos anos 90: A industrialização intermediaria. 4.2 As implicações da política monetária na taxa de desemprego formal e nível de renda dos trabalhadores da RMS 5 CONCLUSÕES REFERÊNCIAS 1 INTRODUÇÃO Este trabalho possui dois objetivos. O primeiro deles, e o mais geral, consiste em buscar e identificar quais os impactos que as políticas macroeconômicas neoliberais que se iniciaram no Brasil nos anos 90 e implementadas de fato no ano 1994, causaram no mercado de trabalho da região metropolitana de Salvador. Dentro dos limites de um trabalho monográfico elaborando novos conceitos úteis ao entendimento do fenômeno. Essa nova interpretação significa elaborar um trabalho, capaz de ultrapassar a superfície do fenômeno, desvendando as mudanças que ocorreram nas relações de classe que estão por detrás de sua manifestação, principalmente da classe que vive do trabalho. O segundo objetivo proposto é o de a partir desse instrumental analítico, investigar as principais transformações no mercado de trabalho da RMS a partir de 1998 até 2004 (que corresponde aos dois mandatos do governo FHC e os dois primeiros anos do governo Lula) e as principais transformações nas taxas de desemprego formal e níveis de renda dos trabalhadores nesse período. Para tanto, o foco definido foi o estudo da Região metropolitana de Salvador observando as particularidades da conjuntura econômica baiana na década de noventa, e sua relação com as outras regiões do país, dentro do limite de um trabalho monográfico, mais especificamente os setores industrial e de serviços. O objeto de estudo se dar em função de existir uma “coincidência” entre o período da implementação das políticas neoliberais em que consiste processo de ajuste fiscal e monetário, com as transformações no mercado de trabalho brasileiro e especificamente da RMS. Portanto elucidar questões essenciais sobre os impactos que essas políticas têm sobre um importante segmento da sociedade baiana, a classe trabalhadora. Além do interesse particular sobre os estudos do mercado de trabalho, portanto o assunto é particularmente interessante. Esse estudo pode também levantar alguns indícios sobre as intenções do governo no que diz respeito à política de distribuição de renda. A problemática a ser enfrentada é: Identificar qual a essencialidade dos impactos que as políticas macroeconômicas neoliberais, mais especificamente a política monetária engendraram no mercado de trabalho da Região metropolitana de Salvador? Nesse trabalho, é levantada a hipótese de que: As políticas ao facilitarem um processo de acumulação financeira hipertrofiada, desarticulam o mercado de trabalho readequandoo. Os próximos capítulos apresentam o seguinte conteúdo: no segundo capítulo coloca-se em evidencia as principais transformações ocorridas na economia mundial, com o fim do período de ascensão do capital, inversão das taxas de lucro e a resposta reacionária do grande capital com o fortalecimento das idéias neoliberais e a difusão do seu pensamento pelo mundo. Com a conseqüente liberalização do capital, globalização financeira e comercial ocorrida a partir da década de 70. O terceiro capítulo traça-se um panorama das modificações estruturais do capitalismo contemporâneo (o processo de financeirização, o avanço do neoliberalismo), na economia brasileira contemporânea, evidenciando as conseqüências internas da implementação da política neoliberal no Brasil. Dando maior ênfase nas conseqüências nos indicadores macroeconômicos (variação do PIB, a balança comercial, o comportamento da divida pública), desde sua implantação no inicio do governo Collor ressaltando como ocorreu a inserção brasileira “ a nova ordem mundial”. O quarto capítulo é o capítulo teórico. Revisão de alguns conceitos básicos com um enfoque na reestruturação produtiva e seus impactos no mundo do trabalho, sendo essa reestruturação entendida como o surgimento de novas (e o ressurgimento de velhas) formas de extração de mais-valia da classe trabalhadora. O trabalhador polivalente e a produção flexível são as novas características do capitalismo global. Entendida como mais uma das facetas dessa “atmosfera” de flexibilidade, sendo uma nova forma de remuneração variável. Faz-se a verificação dos impactos ocorridos na RMS nos anos 90, a analisando a variação da taxa de desemprego formal e variação do rendimento dos trabalhadores assim como os reflexos na precarização do trabalho, ressaltando as mudanças nos setores industriais e de serviços, no que diz respeito a geração de empregos. No último capítulo, estão contidas as conclusões sobre os efeitos da política monetária ortodoxa sobre os trabalhadores, e traçam-se algumas considerações sobre a continuidade da construção. 2AS MUDANÇAS NA ECONOMIA MUNDIAL E O PROCESSO DA FINANCEIRIZAÇÃO DA ECONOMIA. As décadas de 50 e 60 ficaram conhecidas como período de maior prosperidade do capitalismo global, pois as taxas de crescimento econômico foram significativas, a produtividade do trabalho elevou-se de forma persistente e os salários da classe trabalhadora conseguiram aumentos reais, incorporando uma parcela dos ganhos de produtividade. Mas já no final da década de 60 e início da década de 70 esse modelo de desenvolvimento capitalista, chamado pela Escola Francesa da Regulação de “modo de regulação fordista”, começou a apresentar problemas de expansão e de reprodução. Esse período se constitui como marco inicial do fim da prosperidade da burguesia especialmente nos países centrais, o que pode ser constatado pela redução de taxas de lucro e problemas de expansão. O controle sobre as decisões centrais, incluídas aí as decisões sobre a gestão macroeconômica da economia, escapavam das mãos da burguesia e o proletariado ganhava relativa força. A burguesia acuada vê seus lucros despencarem, seus modelos econômicos ruírem, seu poder político reduzir-se. Essa crise que destruiu as bases de acumulação fordista, derivou de vários aspectos micro e macroeconômicos. No âmbito microeconômico, passou a ocorrer um lento crescimento (e até mesmo uma queda) da produtividade do trabalho e um crescente descontentamento dos trabalhadores com a gestão taylor-fordista dos processos de trabalho, o que culminou em greves, absenteísmo, alta rotatividade, sabotagens e aumento no volume de erros e desperdícios (Filgueiras, 2000). “Era a revolução branca”, pois os trabalhadores boicotavam as firmas, o que acabava por prejudicar o desenvolvimento da produção. Esses problemas gerados pelo desgaste das relações entre capital e trabalho traduziram-se em um conflito distributivo que engendrou um quadro macroeconômico de inflação alta, pois os capitalistas repassavam aos preços as pressões por elevações reais dos salários dos trabalhadores. Num ambiente marcado pela desaceleração e estagnação econômica, o Estado passou a enfrentar um duplo problema que se traduzia na perda de receita, e na elevação de seus custos, principalmente os gastos com seguro-desemprego, tendo em vista o aumento de desempregados, o que significou um rápido crescimento do déficit público. Os déficits públicos crescentes aceleraram o processo inflacionário, minando a forma de intervenção estatal construída no pós-guerra: o Welfare State. Diante de um quadro de decomposição econômica e social, algumas idéias surgem com o propósito de restabelecer a essência do sistema capitalista, ou seja, a realização dos lucros dos capitalistas. Um receituário já conhecido passa a fazer parte deste cenário da economia mundial e entra de forma significante em cena. E é a partir de um quadro de estagflação (estagnação econômica + inflação acelerada) que as propostas neoliberais começam a ganhar espaço. Idéias essas que não são historicamente recentes, pois seu corpo doutrinário já havia sido elaborado desde os anos de 1944 com a publicação do livro O Caminho da Servidão, de Friedrich Hayek, e bastante discutido pelos membros da Sociedade de Mont Pèlerin1, a partir de 1947. Para os neoliberais, a causa principal dos problemas econômicos enfrentados pelo capitalismo ao final da década de 60 residia no... (...) poder excessivo e nefasto dos sindicatos e, de maneira mais geral, do movimento operário, que havia corroído as bases de acumulação capitalista com suas pressões reivindicativas sobre os salários e com sua pressão parasitária para que o Estado aumentasse cada vez mais os gastos sociais. (Anderson, 1995: 10) A partir desse diagnóstico, os neoliberais recomendavam a manutenção de um Estado com ampla capacidade de intervir sobre os sindicatos (esvaziando-lhes o poder) e de controlar de forma precisa à expansão monetária, sendo um dos instrumentos mais importantes uma política monetária restritiva. Esses dois eixos de ação para se alcançar à estabilidade monetária implicaram em uma ferrenha disciplina fiscal por parte do Estado. A busca por essa disciplina fiscal materializou-se em um conjunto de políticas econômicas caracterizadas por: redução dos gastos sociais, desregulamentação do mercado de trabalho, redução da carga tributária sobre o grande capital e as grandes rendas, retração da emissão de moeda, privatização de empresas estatais. Da qual faziam parte, além do próprio Hayek, Milton Friedman, Karl Popper, Lionel Robbins, Ludwing Von Mises, Wlater Lipman, entre outros (Anderson, 1995). 1 Os dois países que contribuíram de forma efetiva para a expansão global da “onda neoliberal” foram os Estados Unidos, no governo de Ronald Reagan, e a Inglaterra, no governo de Margareth Thatcher, ao longo da década de 80. O desmonte do Estado de Bem-estar Social e o dilaceramento do movimento sindical foram ferozes nesses dois países (de forma mais intensa na Inglaterra do que nos EUA), e serviram de exemplo a ser seguido em outras latitudes do globo. Na América Latina o primeiro país a implementar as medidas foi o Chile de Pinochet, que serviu de “cobaia” para se testar as idéias neoliberais, tendo em vista uma conjuntura política extremamente favorável para as classes dominantes, uma ditadura extremamente violenta que eliminava qualquer esboço de resistência, mas não teve a mesma dimensão da Inglaterra e dos EUA,uma vez que nesses países o receituário foi cumprido a risca. Então, é na década de 80 que o neoliberalismo ascende à condição de “pensamento único”, sendo muitos dos seus princípios postos em prática tanto no centro quanto na periferia do sistema capitalista, por partidos dos mais variados matizes ideológicos (de direita, de centro e até mesmo de esquerda). A partir daí, o neoliberalismo adquire uma impressionante hegemonia cultural, sendo muito mais do que um conjunto de políticas econômicas, ganhando status de “visão social de mundo”2 que permeia o imaginário das mais variadas classes e grupos sociais, mesmo aqueles que são explicitamente prejudicados com a adoção dessas concepções. A difusão maciça da “visão social de mundo” neoliberal ocorreu através da repetição exaustiva da “simples idéia de que não existem alternativas aos seus princípios” (Anderson, 1995, pg. 23). A reação monetarista mais conhecida por neoliberalismo unificou, decididamente, as bandeiras monopólicas sob a ditadura da dinâmica dos ajustes estruturais, principalmente o ajuste fiscal e monetário das economias, as reformas do FMI e do Banco Mundial. O neoliberalismo, sob o pretexto de controlar a inflação, construiu sociedades radicalmente desiguais a partir da crença em que os elevados recursos que seriam concentrados nas mãos dos ricos pudessem dar origem a uma autêntica elevação dos Segundo Michel Löwy, as visões sociais de mundo são conjuntos estruturados de idéias, valores e representações unificados por uma determinada perspectiva, por um ponto de vista de classes sociais determinadas (Löwy, 1999). Nesse sentido , o neoliberalismo é uma visão social de mundo construída pela e para a burguesia cosmopolita. 2 níveis de investimentos, poupança e em conseqüência disso promover o desenvolvimento econômico. O inicio da década 1980 foi marco inicial da supremacia dessa receita e se constitui no período da sua difusão por quase todo mundo contaminando toda à economia mundial. Essa estratégia, ancorada em políticas de “exclusão social”, pode não ter servido para a retomada do investimento produtivo (foi à especulação financeira a maior beneficiada por esse processo) e crescimento econômico. Contudo, facilitou em muito o aumento da subordinação das economias nacionais aos ditames dos organismos internacionais, como por exemplo o FMI. De fato, na periferia capitalista onde estão os paises da periferia do sistema, o neoliberalismo tornou-se sinônimo de “aplicar o que dita a ortodoxia econômica do Banco Mundial e do FMI”, sob pena de sofrer retaliações dos países centrais, caso não cumprissem a determinação dessas instituições. Nos dias atuais, não existe na América Latina qualquer Ministro de Estado que possa tomar uma decisão macroeconômica importante sem o consentimento da tecnoburocracia mundial do FMI; e, aparentemente, a situação não muda muito em relação aos países do Leste Europeu. Esses países passam por uma supervisão dessas instituições, podendo chegar até a uma intervenção na gerência do país caso não alcancem as metas pré-estabelecidas. A financeirização do capital, ou seja, o domínio do capital financeiro sobre o conjunto das atividades produtivas, redefiniu as grandes estratégias do sistema. Os ajustes estruturais das economias dependentes e a reestruturação produtiva correspondem a duas faces da mesma moeda e constituem um novo conceito o “Neocolonialismo”. Uma após a outra, as economias dos países subalternos caem diante da força desta nova etapa da internacionalização do capital. As burguesias nacionais capitulam vergonhosamente e passam, num rápido intervalo, de defensoras de um projeto nacional-desenvolvimentista relativamente autônomo (é importante ressaltar que não foram todos os países que adotaram esse projeto), a uma ditadura dos mercados financeiros transnacionais. Apesar da crise do neoliberalismo, a lógica da recolonização permanece inalterada. Podemos citar alguns países que mergulharam em crise graves, com conseqüências desastrosas para a sua economia e para os seus residentes em função do receituário imposto. O México, em dezembro de 1994; o Sudeste Asiático, em 1997; a Rússia, em 1998; ou o Brasil, em 1999; Observa-se que nesse intervalo de tempo a contaminação ocorre quase que seqüencialmente em nações mais subordinadas às determinações de instituições financeiras internacionais. A ofensiva dos mesmos parece ignorar a crescente instabilidade internacional. Aumentam o arrocho e intensificam a rapina. Passam a impor um receituário único, vindo de um “pensamento único”, míope e ortodoxo, que sufoca e aumenta de forma significativa a dependência de países periféricos, com problemas de crescimento econômico e instabilidade financeira, aos países centrais. 2.1- O Colapso de Bretton Woods e a “Nova ordem do Capital” – A Financeirização do Capitalismo. O acordo de Bretton Woods deu ao dólar o status de moeda forte do sistema financeiro mundial, e os países membros utilizavam-na para financiar os seus desequilíbrios comerciais, minimizando custos de detenção de diversas moedas estrangeiras. Durante vinte anos o sistema Bretton Woods funcionou como previsto, mas, chegandose à segunda metade da década de 60, começaram a surgir problemas derivados da degradação das finanças norte-americanas. Para financiar o seu déficit comercial houve um aumento da emissão de dólares que, por um lado, começou a criar problemas aos restantes países membros do acordo Bretton Woods porque os obrigava a emitir em suas próprias moedas para manterem o cambio "fixo", criando pressões inflacionarias na sua economia. Por outro, associado a uma degradação da conta corrente norte-americana, as importações a crescerem mais rápido que as exportações (a balança comercial passou de um excedente de 6,8 bilhões em 64 para um déficit de 2,9 bilhões em 71, sendo também um dos culpados a sobrevalorização do dólar, que mantinha o preço dos produtos norteamericanos muito elevados face aos europeus), a quantidade de dólares passou a exceder o estoque de ouro diminuindo a confiança dos outros países em deter dólares. Nesse estágio, já em 1971, o passivo norte-americano era de 70 bilhões de dólares e as reservas de ouro de apenas 12 bilhões Nesse cenário, no decorrer do primeiro semestre de 1971, já se observava valorização das moedas mais importantes face ao dólar, mesmo com medidas que visavam contrariar essa tendência. Mas, a 15 de Agosto, daquele ano Nixon, que era presidente desde 1969, pôs fim ao acordo de Bretton Woods e à conversibilidade do dólar em ouro, anunciando a sua vontade de realinhar as taxas de paridade. Após o anúncio, houve inquietação nos mercados financeiros, o dólar foi desvalorizando, e os Bancos Centrais tiveram que intervir para controlar a situação. Este contexto, delineado pelo fim do acordo de Bretton Woods, proporcionou uma nova situação financeira mundial, com as moedas cotadas livremente, tendo como conseqüência uma forte desvalorização do dólar (em 1973 e em 77/78). Somando-se a esse ambiente já instável, ocorrem as duas crises do petróleo (1973 e 1979) que reduziram drasticamente a liquidez internacional, afetando de modo particularmente violento a periferia do sistema capitalista (Filgueiras, 2000). A economia mundial vai conhecer um novo processo, a hegemonia do capital financeiro. No percurso da “onda neoliberal”, uma importante transformação ocorreu: a financeirização do capital, também conhecida como a mundialização financeira. Entretanto, o marco inicial e principal para o inicio do processo de mundialização financeira ocorreu com a adoção do regime de câmbio flexível após a revogação unilateral do sistema de Bretton Woods (Chesnais, 1999). A partir daí, processos de desregulamentação monetária e financeira, desintermediação e abertura de mercados financeiros nacionais favoreceram a hipertrofia da esfera financeira. Coube às políticas neoliberais, especialmente às de desregulamentação financeira, e desoneração tributária sobre altos rendimentos, o papel de catalisadores desses processos, que criaram um ambiente extremamente favorável às inversões meramente especulativas. Entre 1980 e 1992, enquanto a taxa média de crescimento da formação bruta de capital fixo nos países da OCDE foi de 2,3%, a taxa média de crescimento dos estoques de ativos financeiros nesses mesmos países foi de 6% (Chesnais, 1999). Estima-se que apenas 3% das transações realizadas nos mercados mundiais de câmbio sejam relativas ao comércio internacional de mercadorias, o que dá uma idéia da dissociação existente entre a esfera financeira e a esfera produtiva (Chesnais, 1996). A hipertrofia da esfera financeira, a hegemonia do capital financeiro, tem um impacto profundo sobre a estrutura do capitalismo contemporâneo, pois é só do investimento produtivo que é gerado o emprego, ou seja, é “o investimento produtivo que ajuda a determinar, no longo prazo, o ritmo da criação de riquezas” (Chesnais, 1999, pg. 14). Logo, a redução do crescimento econômico (com diminuição do número de postos de trabalho) e a hipertrofia financeira não são fenômenos desconexos. Entretanto, há um limite para a realização meramente financeira (D-D´), pois os capitais investidos nessa esfera foram gerados pelo investimento produtivo. Nas palavras de Chesnais, “a esfera financeira nutre-se da riqueza criada pelo investimento e mobilização de uma força de trabalho de múltiplas qualificações” (Chesnais, 1996, pg. 246). O capital financeiro é estéril, ou seja, apropria-se de parcelas da mais-valia social gerada por outros capitais. É somente se apropriando de parcelas do excedente econômico que o capital financeiro valoriza a si mesmo sem passar por nenhuma forma de investimento produtivo, nenhum processo de produção e comercialização de mercadorias. O confisco crescente da mais-valia social para garantir a realização meramente financeira reduz a capacidade de investimento do capital produtivo, o que implica em taxas de crescimento econômico medíocres, redução do número de postos de trabalho e, o mais importante, intensificação da exploração da força de trabalho, como forma de garantir a geração de um excedente econômico “satisfatório” para o capital investido na produção. Esse é um dos fatores que também explicam as recentes transformações no mundo do trabalho, com a adoção de novas formas de controle da força 2.2 de trabalho e a ressurreição de velhas formas. A influência neoliberal na estrutura da economia - A Livre movimentação de capitais e a Globalização Financeira. O regime atual de mundialização financeira é movido basicamente por três fatores interligados: o acúmulo de um volume crescente de riqueza monetária e financeira, na forma de ativos com diferentes graus de liquidez e denominados em diferentes moedas; a mobilidade crescente desses ativos, propiciada pelo desenvolvimento extraordinário da informática e das telecomunicações(Telemática), de tal forma que seu movimento foge aos controles dos bancos centrais; e, finalmente, pelo regime de taxas de câmbio flutuantes(que passaram a ser cotadas livremente depois do fim do acordo do Brettom Woods), que engendram oportunidades extraordinárias de ganhos especulativos. Neste contexto, o próprio ciclo econômico real assume forma errática e passa a ser comandado pelo ciclo de valorização e desvalorização dos ativos financeiros. A economia real passa a ser refém do capital financeiro, invertendo os papeis desses capitais, da forma que era concebida antes deste processo. A constituição de um mercado mundial de capital-moeda e a manutenção da taxa de juros reais num nível sem precedentes na história do capitalismo, constituem meios através dos quais o imperialismo busca recompor os fundamentos de seu domínio. Para Husson, tal processo, por muitos denominado de financeirização do capital(CHESNAIS), não pode ser compreendido sem levarmos em consideração o estabelecimento de uma renovada estrutura de reprodução do capital: “A realidade deve, pois, ser analisada a partir da repartição do produto em três grandes categorias de renda: os salários, as rendas financeiras e o lucro da empresa. A repartição primária entre salário e mais-valia obedece, hoje em dia, a uma lei tendencial bastante simples, segundo a qual o salário real não progride, de tal modo que o essencial dos ganhos de produtividade são apropriados sob a forma de mais-valia relativa. As taxas de lucros reais extremamente elevadas correspondem a direitos de extração sobre essa mais-valia que tendem a captar uma parte crescente da renda nacional e, portanto, marginalmente, uma proporção importante dos ganhos de produtividade. O lucro das empresas não se restabelece, pois, nas mesmas proporções que o bloqueio dos salários permitiria realizar, se a parte das rendas financeiras não viesse se interpor”(Husson).colocar a ref. A reorganização das bases do neocolonialismo encontra-se organicamente articulada às diversas ofensivas neoliberais, através de seu receituário, tanto no norte, quanto nas economias subalternas do sul - e mais recentemente no Leste Europeu. Processo este delineado e comandado pelos paises centrais. Este processo aponta para a predominância dos movimentos de investimento direto e sua concentração nos países industrialmente desenvolvidos. A interpenetração de capitais de diferentes nacionalidades e a conseqüente centralização do capital (80% do comércio mundial é controlado por não mais do que 500 grupos transnacionais) conduzem à constituição daquilo que poderíamos designar de oligopólios mundiais: “(..)Essa centralização do capital é contraditória e adota formas renovadas. Os grandes grupos são rivais e, dessa perspectiva, a constituição de oligopólios não reduz em nada o atrito dos efeitos da concorrência, mas esses são amenizados a partir da introdução de acordos de cooperação, notadamente no domínio dos gastos com pesquisa. Os grandes grupos encerram, logo, interesses comuns que resultam da necessidade de se defender tal espaço contra a entrada de novos concorrentes(...)”.colocar a ref. A novidade deste regime de mundialização financeira fica evidente quando confrontado com as principais regras do Sistema de Bretton Woods: taxas de câmbio flexíveis em vez das taxas fixas e ajustáveis, liberdade em vez de controle sobre o movimento de capitais, predomínio do crédito direto securitizado no mercado internacional de capitais em vez do crédito intermediado pelo sistema bancário, predomínio dos capitais privados em substituição aos créditos oficiais, de governos e organismos internacionais e, por fim, ampla desregulamentação, liberalização e integração dos mercados financeiros a nível nacional e internacional. A liberalização e as inovações financeiras significaram a ampliação dos movimentos de capitais, o desenvolvimento das instituições financeiras não bancárias, uma maior variação das taxas de juros e de câmbio, bem como a criação de novos produtos e mecanismos financeiros destinados a ampliar os ganhos e a deduzir os riscos dos investimentos financeiros internacionais. Este conjunto de características pode ser sintetizado no conceito de securitização, pois ele representa uma das mudanças fundamentais do Sistema Financeiro Internacional (SFI) ao substituir a intermediação bancária, como principal forma de financiamento, pela finança direta no mercado internacional de capitais. Para se contrapor à grande instabilidade e ao elevado risco que caracteriza esse mercado internacional de capitais, num contexto de ampla liquidez, flutuação das taxas de câmbio e intensa mobilidade dos capitais, foram criados os chamados contratos derivativos, um sistema de proteção e defesa contra os riscos inerentes a essa forma de investimentos financeiros. Eichengreen (2000: 247) coloca a flexibilidade das taxas de câmbio como uma das principais características do regime de globalização financeira pelas conseqüências que as mesmas provocam nas demais variáveis econômicas e associa sua intensa oscilação ao incontrolável movimento de capitais. Os controles sobre os fluxos internacionais de capital eram essenciais no SBW para conciliar a estabilidade do câmbio. A última fase dessa longa evolução histórica de um capitalismo nacional para um capitalismo mundial se materializa nas décadas finais do século XX com o processo de globalização dos mercados, especialmente os financeiros, através dos quais circulam livremente os capitais, movidos pela lógica da valorização financeira, que se impõe sobre as demais atividades econômicas. Nesse processo o que prevalece é a atratividade; ou seja, uma elevada rentabilidade do investimento, que coloca as economias nacionais em concorrência, visando uma maior atração de capitais externos. Entre outros aspectos Chesnais(2005) atribui o processo de globalização financeira ao surgimento do mercado de Eurodólares, seguido pelo regime de taxas de câmbio flexível, com o fim de Bretton Woods: (...)O mercado de câmbio foi, assim o primeiro a entrar na mundialização financeira contemporânea. Ele permanece um dos mercados onde os investidores institucionais continuam a manter parte de seus ativos. Mas foram as medidas de liberalização e desregulamentação de 1979-81 que deram nascimento do sistema ao sistema de finança mundializado tal como o conmhecemos. Elas puseram fim ao controle de do movimento de capitais com o estrangeiro(saídas e entradas), abrindo assim os sistemas financeiros nacionais para o exterior(...) (CHESNAIS,2005) Esse autor acrescenta que a primeira década (1980) foi o período de maior expansão, quando obrigações públicas interligadas internacionalmente, com maior ênfase da difusão do déficit público via emissão de títulos públicos, e subordinadas às regras impostas pelas práticas norte-americanas: (...) A primeira conseqüência foi à expansão muito rápida, desde a metade dos anos 80, dos mercados de obrigações públicas interconectados internacionalmente e a difusão internacional dos déficits pela emissão de títulos negociáveis. Mais do que uma decisão deliberada, a liberalização e a transformação em títulos dos compromissos públicos foram o resultado de um processo de contagio. Qualquer Estado que quisesse colocar bônus do Tesouro nos mercados liberalizados estava forçado a se alinhar às praticas norte – americanas(...) (CHESNAIS,2005) O dinheiro, acumulado enquanto forma do valor, transforma-se em capital monetário, cuja lógica e movimento de valorização tende a dominar o circuito do capital industrial, como indica a fórmula de Marx, D-M-D’, onde a mercadoria era meio para valorizar o capital. Nesta fase o que se busca é a valorização do capital, sem o intermédio da mercadoria. A tendência a autovalorização do capital monetário a juros procura abolir o processo produtivo, sua fonte de valorização, como indica a fórmula abreviada D-D’. Assim, o capital atinge sua forma mais desenvolvida, como capital financeiro e capital fictício, tornando-se hegemônico no sistema em detrimento do capital produtivo, tendo em vista o maior retorno do capital fictício. Esse capital se materializa na variedade das moedas, que são criadas nesse novo sistema, o que cria outro problema macroeconômico de controle monetário. Surge uma grande variedade de papéis e títulos, privados e públicos, constituindo o que se chama de investimento de portfolio. O surgimento de novas moedas configura a massa de riqueza financeira do capitalismo mundial nos dias atuais. Nesta perspectiva, a crescente integração financeira das economias nacionais num único espaço mundial de valorização, obedece à “lei de desenvolvimento do capital”.Uma lei tendencial, não linear, resultado de interesses, forças e fatores contraditórios, que, historicamente, avança e recua, assumindo configurações diversas de acordo com as correlações de força conjunturais nas economias, mas que tem um sentido e uma direção, a valorização ao máximo do capital. Neste sentido, as mudanças no sistema financeiro internacional, que provocaram o fim do Sistema Bretton Woods e deram origem ao regime da globalização financeira, não resultaram de decisões políticas ou de “políticas de globalização”, como afirma um conjunto numeroso de importantes autores, mas decorrem principalmente de forças profundas que atuam nas engrenagens da dinâmica contraditória do capital, ou seja, o regime do capital força a construção do espaço e dos mecanismos mais propícios a sua valorização financeira e fictícia., força a formação de um mercado mundial, mas não pode abolir os estados nacionais. Por outro lado, o capital não se desenvolve, nem atua de forma mecânica, e lnear, mas através de suas leis tendências de movimento, expressão de forças e interesses contraditórios dos agentes econômicos e dos atores políticos, dos quais o Estado é o principal. Suas políticas traduzem as correlações de forças dominantes na economia e na sociedade capitalista. Para Tavares e Melin (1997): a globalização financeira resulta de “políticas de globalização”, parte integrante da estratégia de retomada da hegemonia norteamericana. Para Fiori (1997): “foram políticas as decisões dos estados nacionais que aplainaram o caminho da riqueza financeira”. Helleiner (1994) afirma que: “o que explica a reemergência dos mercados financeiros globais, se não a permissão política dos mesmos Estados” Gowa (2003): as principais características da globalização tem suas origens em decisões deliberadas da administração Nixon. Plihon (1996:85) também defende que “as políticas públicas tem uma responsabilidade, em primeiro plano, nas mutações recentes que desestabilizaram a economia mundial”. O papel e a situação dos Estados-nacionais também se alteram dentro da dinâmica mundializada do capital. O rompimento dos mecanismos de regulação e das fronteiras nacionais para a livre circulação do capital (predominantemente financeiro), fez com que o mercado mundial assumisse proporções tais que os Estados periféricos perderam, de uma vez por todas, quaisquer resquícios de soberania que possuíssem e, mesmo aqueles mais poderosos, são obrigados a buscar barganhas com o capital financeiro em situações amplamente favoráveis a este último. Os fatos que acontecem hoje em dia evidenciam um processo de acirrada concorrência do capital, de predominância financeira (e quase sempre de forma especulativa), desregulamentado, com livre mobilidade de capitais e mundializado em que uns paises se fortalecem em detrimento de outros, pois trata-se de um jogo de forças entre os mesmos, apesar de terem um objetivo comum, à atração cada vez maior de capitais, mas com características e particularidades diferentes. Por outro lado, se não se pode falar de uma crise geral dos Estados-nacionais é plausível reconhecer que a financeirização e mundialização da economia criaram uma relação diferente entre o capital e os Estados. De um lado, temos os países periféricos cada vez mais endividados, submetidos aos credores internacionais e aos organismos internacionais (FMI e Banco Mundial) de controle político e econômico, cujos interesses se fundem. De outro, encontramos os países do centro do capitalismo sem a mesma capacidade de regulação do capital e precisando fazer o máximo de concessões ao capital financeiro e às grandes corporações capitalistas, impondo para o conjunto da sociedade políticas de cortes de gastos sociais, desregulamentando o mercado de trabalho, enfraquecendo os mecanismos de proteção trabalhista, etc. De modo que, mesmo os Estados que levam vantagem nessa correlação de forças, esse pseudo favorecimento só acontece quando existe associação com o capital, de forma submissa ao grande capital, oferecendo as vantagens necessárias a este, em troca de deter no universo econômico do seu “domínio” o maior volume de investimentos de capital, mesmo que especulativos. O capital sempre tem a palavra final, ditando as ordens de funcionamento do sistema. 2.3 As transformações estruturais no mundo do trabalho e a reestruturação produtiva A chamada “ofensiva conservadora” deve ser observada em conjunto com a tentativa de retomada dos altos patamares de acumulação, nunca como um movimento político autônomo, realizado pela mente “perversa” dos direitistas. Junta-se a isso um discurso ideológico dos setores hegemônicos para tentar explicar o desemprego pela excessiva regulamentação do mercado de trabalho, pelo avanço tecnológico e a falta de qualificação da força de trabalho, para se adequar a nova demanda do mercado de trabalho. A concorrência capitalista alia-se às medidas de desregulamentação do mercado de trabalho, junto com um processo de retirada dos capitais para o setor financeiro, o que obriga as empresas a diminuírem os custos de produção, acirrando ainda mais a competição no campo do desenvolvimento científico e tecnológico, cuja conseqüência, na lógica do sistema, é o desemprego em massa. Com o fim da “Era de Ouro”, ergue-se um cenário caracterizado por relações políticas, econômicas, sociais, etc., absolutamente desfavoráveis às classes populares. Aumenta a polarização social, crescem os índices de desemprego, não mais como um fenômeno circunstancial, mas como aspecto estrutural da nova fase de acumulação. Os investimentos produtivos diminuem drasticamente, passando a predominar os investimentos especulativos. O fim da regulação fordista e da produção voltada para o consumo de massa alteram todo o quadro econômico tanto no que diz respeito ao emprego, quanto ao consumo. O alto desenvolvimento científico e tecnológico movimentado pela concorrência, situado dentro da racionalidade do capital, aprofunda a situação do desemprego. É toda uma cadeia sistêmica que se orienta pela racionalidade da acumulação, que tem acelerado o processo que marginaliza e exclui grandes parcelas de indivíduos. É neste cenário que perdem terreno valores como democracia, bem público, bem-estar social, tão caros às classes trabalhadoras. Chenais (1996) aponta que uma das conseqüências do processo da mundialização do capital é o da destruição de postos de trabalho em proporção superior à criação de novos empregos; um fenômeno que resulta da total mobilidade do capital, que pode investir ou desinvestir a qualquer momento em qualquer mercado, independente da nacionalidade, e de acordo com os seus interesses viando sempre as vantagens oferecidas. Com a desregulamentação e liberalização dos mercados, num momento em que a concorrência capitalista extrapola todas as fronteiras, as políticas de combate ao desemprego perderam muito de seu sentido, pois “a mobilidade do capital permite que as empresas obriguem os países a alinharem suas legislações trabalhistas e de proteção social àquelas do Estado onde forem mais favoráveis a elas (isto é, onde a proteção for mais fraca). Essa mobilidade tende necessariamente a limitar a eficácia de medidas como a redução de tempo de trabalho, se não puderem ser impostas às empresas por toda parte - ou, pelo menos, nos principais países - onde estas sejam suscetíveis de se localizarem.” (CHESNAIS, 1996 pág. 304). Além da desregulamentação e liberalização econômica é preciso considerar ainda o fato de uma boa quantidade de postos de trabalho terem desaparecido sob a “racionalização” produtiva que foi promovida pela pressão competitiva que obriga o capital a reduzir custos, aumentando o volume de capital constante( como a automatização por exemplo) e eliminando cada vez mais o trabalho vivo (capital variável). O fim da forma capitalista de acumulação que se baseou no taylorismo-fordismo gerou uma nova condição do trabalho, criou uma realidade ainda mais contraditória, na qual convivem as mais avançadas tecnologias, ao lado das formas mais espúrias de exploração da força de trabalho. Uma realidade que combina processos de trabalho pautados em atividades complexas, salários competitivos, direitos e “benefícios” trabalhistas, com a existência, ao mesmo tempo, de desemprego, subemprego, precarização, baixíssimos salários, desqualificação e exclusão social. A criação de uma imensa camada da população que perdeu empregos ou corre riscos de perdê-los com a recessão, o incremento tecnológico e a mundialização da economia, que está fadada a viver às margens do trabalho regular e formal, da boa educação, do consumo de bens materiais e culturais, etc., é talvez a mais importante das grandes questões e se constitui a versão mais aproximada dos interesses dos trabalhadores, portanto, em um contexto sócio-político-econômico que já não existe mais. As transformações econômicas, políticas, tecnológicas, produtivas das últimas décadas são de tal grau de profundidade e amplitude3 dentro do atual estágio societário que “Segundo Ellen Wood, trata-se da fase em que transformações econômicas, as mudanças na produção e nos mercados, as mudanças culturais, geralmente 3 justificam a reflexão de MÉSZÁROS segundo a qual o atual estágio representa possivelmente uma reviravolta na raison d’etre do sistema capitalista.4 Assim, a crise do regime de acumulação fordista não representa apenas um novo estágio da sociedade capitalista, marcado pelas mais novas invenções tecnológicas, mas uma fase em que a sociedade humana, em sua esmagadora maioria, experimenta o lado mais amargo dos custos do desenvolvimento e sofisticação de um sistema destrutivo e excludente. Como observa ANTUNES, com a reestruturação produtiva capitalista, que exclui uma boa quantidade de países do processo de reprodução do grande capital, tem se acentuado o caráter destrutivo do sistema do capital: “Portanto, em meio a tanta destruição de forças produtivas, da natureza e do meio ambiente, há também, em escala mundial, uma ação destrutiva contra a força humana de trabalho que tem enormes contingentes precarizados ou mesmo à margem do processo produtivo, elevando a intensidade dos níveis de desemprego estrutural”.(ANTUNES, 1999, p. 33) Dentro do amplo processo de transformações da reestruturação capitalista, talvez a mais significativa, que se constitui no núcleo que irradia a força principal deste processo, parece ser exatamente as transformações do “mundo do trabalho”, precisamente no que diz respeito ao fato apontado acima por ANTUNES, ou seja, em relação à destruição de força produtiva na forma de força humana de trabalho. associadas ao termo ‘pós-modernismo’, estariam, em verdade, conformando um momento de maturação e universalização do capitalismo, muito mais do que um trânsito da ‘modernidade’ para a ‘pós-modernidade’.”(ANTUNES, 1999: 48). 4 “Ressalta-se, porém, que essa superação (das barreiras que impediam a dominação do capital sobre o trabalho) não permite ao capital se afirmar como sujeito absoluto, no sentido forte do absoluto hegeliano. E não o pode porque os meios aos quais ele recorre para impor sua dominação sobre a sociedade são, ao mesmo tempo, negadores desse absoluto. Realmente, para erigir-se como força que aspira a tudo dominar, o capital precisa desenvolver, incondicionalmente, as forças produtivas. Ao fazê-lo, ele ‘nega’ as bases de sua própria valorização: o trabalho vivo como criador de valor.” (TEIXEIRA, 1995, p. 29). Se, de um lado, o fordismo-taylorismo oferecia muitos postos de trabalho, mas desperdiçava o talento humano, subutilizando-o de outro, na nova fase da dinâmica mundializada da acumulação do capital há um enorme desperdício não só qualitativo, mas também quantitativo de força de trabalho. A reprodução ampliada do capital5 já não precisa do consumo de massa, nem tampouco se baseia na produção em massa, portanto, está fora de questão a larga incorporação de “exércitos de trabalhadores”. Nesse cenário, mesmo tendo a assim chamada globalização que caracteriza-se por transformações nas formas de acumulação de capital (o processo de financeirização) e nas formas de consumo da força de trabalho (alterações nos processos de trabalho), não conseguiram eliminar o trabalho assalariado como principal relação social de produção; elas são, antes de tudo, respostas encontradas pelas classes dominantes para garantir a reprodução do sistema, ou seja, a apropriação do excedente econômico gerado na esfera produtiva. Essas “respostas” só surgiram porque o capitalismo enfrenta uma crise estrutural de grandes proporções, que se traduz em taxas crescentes de desemprego, taxas decrescentes de investimento produtivo e reduzido crescimento econômico. As transformações que geraram a face contemporânea do capitalismo podem ser resumidas em três processos: a hegemonia do capital financeiro, a ascensão do neoliberalismo e as formas “flexíveis” de consumo da força de trabalho. Esses três processos não estão separados - eles são interdependentes -, o que faz do fenômeno da globalização algo multifacetado. Como bem coloca Druck (1999), (...) é fundamental buscar compreender a globalização como um processo que envolve multidimensões, sintetizando uma realidade histórica que expressa, de forma mais acentuada, uma ou outra face deste momento, mas sempre mantendo-se a idéia 5 MÉSZÁROS (1996) analisa muito bem esta questão. Segundo ele, o sistema produtor de mercadorias atingiu um estágio em que o ciclo reprodutivo pode ser cumprido sem o consumo de massas, mas através da acelerada diminuição do tempo de utilidade das mercadorias e da simples dissipação de força produtiva. Ou seja, o consumo não precisa ser necessariamente expandido, mas intensificado. Já para HOBSBAWM (1998), as massas apenas deixam de ser essenciais para a produção, mas permaneceram essenciais como consumidoras. (É importante destacar que não se trata de qualquer consumo mas do consumo de ponta). de que há uma imbricação indissolúvel entre os planos econômico, político e social. (DRUCK, 1999, p.15) È nesse contexto que surge a crise enfrentada pelo fordismo e a ascenção do toyotismo onde podemos associar as causas de forma resumida, segundo Alain Bihr, em alguns pontos: 1- Diminuição dos ganhos de produtividade. 2- Elevação da composição orgânica do capital – O fordismo baseava-se em um regime intensivo de acumulação de capital, com maciços investimentos em capital constante, o que se traduzia, mantendo-se as outras variáveis constantes, na redução da taxa de lucro. 3- – O crescimento do trabalho empregado em setores ligados à circulação do capital (o comércio e os serviços bancários e financeiros) e à reprodução social (especialmente os aparelhos estatais) contribuiu para limitar a valorização do capital e a sua escala de acumulação, pois implicava em consumo de parcelas crescentes da massa de mais-valia social6. A combinação desses fatores levou o “modo de regulação fordista” à decomposição. Combinação essa que deixou transparecer as contradições internas do próprio fordismo. Como bem coloca Alain Bihr (1998): (...) o próprio fordismo finalmente caiu na “armadilha” da massificação em que ele pegara o proletariado e que acabará impondo-lhe seus limites. Limites subjetivos, com a revolta do operário-massa contra as formas fordistas de produção (trabalho em cadeia e trabalho por turnos), mas também com o deslocamento das práticas de consumo para fora da norma fordista. Limites objetivos, com a massificação do capital constante (e, particularmente, fixo), levando à diminuição dos ganhos de produtividade e à alta da composição orgânica do capital, enquanto massificação do capital variável (força de trabalho) traduzia-se pela saturação dos mercados que sustentavam o crescimento fordista e pelo aumento dos “custos sociais” (Bihr, 1988: 73). O trabalho é considerado produtivo ou improdutivo a partir do ponto de vista do capital, ou seja, da sua capacidade de gerar mais-valia. O trabalho improdutivo não é, necessariamente, um trabalho socialmente inútil. Muito pelo contrário, o trabalho alocado em alguns setores, como, por exemplo, nos Aparelhos de Repressão Estatal (ARE), é extremamente útil para a garantia da propriedade privada dos meios de produção e a manutenção da exploração da classe trabalhadora. 6 Diante desse quadro de dissolução do domínio capitalista dentro e fora dos locais de trabalho, surge a necessidade de “reestruturar” as formas de gestão e controle da força de trabalho. Essa nova ofensiva do capital sobre o trabalho será caracterizada pela ascensão do modo toyotista7 de organização dos processos de trabalho e de uma nova base tecnológica (a microeletrônica). Duas observações acerca do toyotismo precisam ser feitas. A primeira delas diz respeito ao fato de que o toyotismo não implica em uma ruptura com o modo capitalista de produção, uma vez que ele repõe três características básicas desse modo de produção: é voltado para o crescimento; esse crescimento se apóia na exploração do trabalho vivo na esfera da produção; possui uma dinâmica tecnológica e organizacional própria (Antunes, 2000). Na verdade, a segunda característica é a mais relevante, visto que o toyotismo surge como uma resposta à redução do excedente econômico gerado pela classe trabalhadora; nesse sentido, ele apresenta-se como uma nova forma de exploração da classe trabalhadora, repondo o conflito entre capital e trabalho. A segunda observação refere-se ao fato de que o toyotismo, ao mesmo tempo em que supera, também conserva elementos do modo taylor-fordista de organização dos processos de trabalho. As transformações toyotistas não atingem igualmente o conjunto da classe trabalhadora, reservando as tarefas qualificadas (que aproximam, de forma muito superficial, a concepção e a execução) para pequenas parcelas da classe trabalhadora, enquanto a imensa maioria que fica de fora desse “oásis de prosperidade”, bate de frente com as formas e condições de trabalho dignas da Primeira Revolução Industrial. O toyotismo apresenta, segundo Gounet (1999), uma característica básica, qual seja, a terceirização e subcontratação da mão-de-obra e desverticalização parcial das unidades produtivas. 7 Preferimos aqui utilizar o termo “toyotismo” para designar as transformações nos processo de trabalho e na base tecnológica do capitalismo a partir do início da década de 70, pois esse termo não contém referências diretas a um país ou a uma região, como seria o caso do “modelo japonês” (muito embora seja derivado do nome de uma empresa japonesa) e nem mesmo referências a uma total superação de formas anteriores de controle da força de trabalho, como seria o caso do “pós-fordismo”. O termo toyotismo indica que, embora o processo tenha se iniciado na empresa japonesa Toyota, essas transformações não estão restritas a um determinado espaço geográfico, sendo apropriadas e implementadas por empresas capitalistas ao redor do globo. Isso resumi- se a uma única palavra: flexibilidade. Essa flexibilidade atinge a formação dos trabalhadores, o controle dos estoques, as formas de produção, a contratação da força de trabalho, a remuneração dessa força, entre outros. Empresas, trabalhadores e mercadorias têm que se adaptar rapidamente às mudanças conjunturais dos mercados. Vejamos cada uma dessas flexibilidades em específico. Não só os processos de trabalho tornaram-se mais flexíveis. As máquinas e equipamentos empregados na produção também ganharam essas características indispensáveis em uma conjuntura econômica marcada pela concorrência acirrada entre grandes conglomerados e por uma demanda cada vez mais fragmentada. A automatização de base microeletrônica implica no uso de equipamentos eletronicamente programáveis, capazes de sofrer reajustes em pequenos intervalos de tempo e de realizar operações dos mais variados tipos. Sendo assim, as máquinas flexíveis também contribuem para a intensificação do ritmo de trabalho e redução dos “tempos mortos” da jornada, além de aumentar o controle sobre o desempenho individual dos trabalhadores, uma vez que os equipamentos eletrônicos possuem memória digital capaz de registrar um número impressionante de eventos (como, por exemplo, o número de horas efetivamente ociosas de um terminal de controle). Em resumo, conforme afirma Alain Bihr (1998), A flexibilidade do processo de trabalho supõe, assim, em primeiro lugar, a introdução de meios de trabalho aptos para ajustar a capacidade produtiva a uma demanda variável em volume e em composição. Eis aí também toda a importância dos equipamentos produzidos pela eletrônica programável, flexíveis por sua capacidade para memorizar e executar um conjunto de operações diferentes ou para serem rapidamente reprogramados para uma série de tarefas diferentes. Graças a eles, o processo de produção pode adaptar-se aos imprevistos do processo de circulação. Disso resulta uma aceleração da rotação do capital (tanto fixo como circulante). Mas também ganhos de tempo (de intensidade e de produtividade do trabalho), comprimindo os tempos mortos entre as diferentes séries produtivas (Bihr, 1998: 91) Essas mudanças estruturais em direção à flexibilidade não excluíram a necessidade de transformações na existência objetiva e subjetiva da classe trabalhadora. Surge, com o toyotismo, a necessidade de um trabalhador polivalente, capaz de realizar múltiplas funções e operar várias máquinas. Ocorre assim, a substituição do binômio fordista “um homem = uma máquina” para o binômio flexível “um homem = sistema de máquinas automatizadas” (Antunes, 2000: 34 e Bihr, 1998: 89). Os trabalhadores são organizados em equipes, treinadas para operar as mais variadas máquinas, para realizar suas tarefas mesmo em “condições adversas”, para dar sugestões sobre como melhorar os processos de produção e para realizar o controle de qualidade das mercadorias produzidas (através dos Círculos de Controle de Qualidade). Como coloca Alves (2000), A instauração do operário polivalente vincula-se à necessidade da reintrodução, nas funções de operadores diretos, das tarefas ou funções de diagnóstico, reparo e manutenção e das tarefas de controle de qualidade nos próprios postos de produção. Desse modo, em cada ponto da produção, os trabalhadores incorporam atividades de controle de qualidade, algo diverso do fordismo, que destacava essas atividades em departamentos estanques de produção (Alves, 2000: 44-45). A flexibilidade dos trabalhadores não implica apenas na capacidade de realizar múltiplas tarefas, mas também na flexibilidade de contratá-los e de remunerá-los. É a partir daí que surgem as formas “modernas” de contratação da força de trabalho: terceirização e contrato temporário. Essas formas flexíveis de contratação permitem a redução dos custos com encargos sociais e ajustes do quadro de funcionários às flutuações da demanda. A flexibilidade da remuneração permite ajustar os gastos com salários e benefícios a períodos de ascensão ou de recessão dos negócios, transferindo para os trabalhadores parcela dos “riscos” inerentes à atividade do capitalista. 3 - A Inserção recente da economia brasileira nos circuitos da finança mundializada. O neoliberalismo começou a ser implementado no Brasil, a partir do governo Collor, no inicio dos anos 90, com consistiu com a abertura comercial aliada com uma política macroeconômica restritiva. Essa fase inicial a implantação das políticas neoliberais no país foi ainda superficial em função de divergências políticas, precisamente devido ao desgaste político que Collor teve junto à sociedade brasileira, em virtude das medidas impopulares dos seus planos econômicos. Embora o governo de Fernando Collor tenha sido o precursor da implementação de políticas neoliberais no Brasil, e tenha colocado o país no bojo dessas políticas, é a concepção e a efetivação do Plano Real que marca o ponto de inflexão no desenvolvimento recente da economia brasileira. Tabela 1 - Dívida Líquida do Setor Público - Saldos em R$ milhões Setor Público Consolidado Data DEZ/1991 56,07 DEZ/1992 678,33 DEZ/1993 17.714,65 DEZ/1994 153.162,92 DEZ/1995 208.460,27 DEZ/1996 269.193,43 DEZ/1997 308.426,25 DEZ/1998 385.869,63 DEZ/1999 516.578,67 DEZ/2000 563.162,94 DEZ/2001 660.867,01 DEZ/2002 881.108,07 DEZ/2003 913.145,48 NOV/2004 941.053,89 Fonte: Banco Central do Brasil Governo Federal e Banco Central 18,78 221,82 5.194,23 65.836,21 90.406,30 128.413,28 167.741,82 231.267,74 316.221,69 352.967,13 411.771,95 560.828,81 578.748,01 590.792,38 Governos Estaduais e Municipais 10,62 168,55 5.000,89 51.090,85 72.476,44 93.337,85 115.891,52 130.905,02 170.785,81 185.322,69 229.564,68 292.977,65 316.719,12 347.001,73 Empresas Estatais 26,67 287,96 7.519,54 36.235,87 45.577,53 47.442,30 24.792,90 23.696,88 29.571,17 24.873,12 19.530,38 27.301,61 17.678,35 3.259,78 A necessidade de sanear as contas públicas era identificada pelos economistas ortodoxos próximos a Fernando Henrique Cardoso como o meio mais eficaz de se combater a aceleração inflacionária. É importante perceber como, em uma etapa posterior do Plano Real, o assim chamado equilíbrio fiscal se traduziu em um aumento espantoso do estoque da dívida pública tanto em valores nominais quanto em proporção do PIB (Tabelas 1 e 2). Tabela 2 - Dívida Líquida do Setor Público - em % PIB Data DEZ/1991 DEZ/1992 DEZ/1993 DEZ/1994 DEZ/1995 DEZ/1996 DEZ/1997 DEZ/1998 DEZ/1999 DEZ/2000 DEZ/2001 DEZ/2002 Setor Público Consolidado Governo Federal e Banco Central 38,14 37,06 32,56 30,01 30,56 33,28 34,35 41,71 48,68 48,78 52,63 55,50 12,78 12,12 9,55 12,9 13,25 15,88 18,68 25 29,8 30,57 32,79 35,32 Governos Estaduais e Municipais 7,22 9,21 9,19 10,01 10,62 11,54 12,91 14,15 16,09 16,05 18,28 18,45 Empresas Estatais 18,14 15,73 13,82 7,1 6,68 5,87 2,76 2,56 2,79 2,15 1,56 1,72 Esse crescimento exponencial da dívida pública é resultado direto de uma política monetária assentada em juros elevados para garantir a rentabilidade das frações rentistas da burguesia interna e estrangeira que se tornaram grandes compradoras de títulos da dívida pública e, com isso, credoras do Estado. Quanto mais elevadas às taxas de juros que remuneram os títulos da dívida pública, mais rápido cresce a necessidade do Estado obter recursos para cobrir essa rolagem da dívida. Assim, o Estado brasileiro recorreu à captação de recursos externos (o que contribuiu para o crescimento da dívida externa total) e ao aumento da carga tributária - que a partir de 1999, atingiu pela primeira vez na história do Brasil o patamar de 30% do PIB. O crescimento da carga tributário nos anos 90 é resultado direto da necessidade de financiamento da dívida pública. Essa parcela da renda da sociedade apropriada pelo Estado é retransferida para as frações rentistas da burguesia que detêm a maior quantidade de títulos da dívida pública. Assim, o capital financeiro, via mecanismo da dívida pública, se apropria de parcelas da massa de mais-valia social e dos salários dos trabalhadores que são tributados e arrecadados pelo Estado. O ajuste fiscal trata-se, na verdade, de ajustar as transferências de renda que financiarão a acumulação meramente financeira. Esse é um dos momentos mais importantes das reformas neoliberais. Conforme Francisco de Oliveira: (...) o governo nacional não tem mais capacidade para remanejar seus gastos e nem a sua arrecadação. Examine-se as rubricas de gasto do orçamento nacional, onde se vê que a maior rubrica de gasto do orçamento nacional é dedicada ao serviço de pagamento da dívida interna e externa, e disso o governo não foge, porque a retaliação vem no outro dia (OLIVEIRA, 1999, p. 76). É interessante observar que já no livro primeiro de O Capital, Marx caracterizava a dívida pública como uma espécie de “duto de mais-valia” que garantia a acumulação primitiva de capital para os capitalistas credores do Estado, ou seja, a bancocracia. Segundo suas próprias palavras: A dívida pública torna-se uma das mais enérgicas alavancas da acumulação primitiva. Tal como o toque de uma varinha mágica, ela dota o dinheiro improdutivo de força criadora e o transforma, desse modo, em capital, sem que tenha necessidade para tanto de se expor ao esforço e perigo inseparáveis da aplicação industrial e mesmo usurária. Os credores do Estado, na realidade, não dão nada, pois a soma emprestada é convertida em títulos da dívida, facilmente transferíveis, que continuam a funcionar em suas mãos como se fossem a mesma quantidade de dinheiro sonante. Porém, abstraindo a classe de rentistas ociosos assim criada e a riqueza improvisada dos financistas que atuam como intermediários entre o governo e a nação – como também os arrendatários de impostos, comerciantes e fabricantes privados, aos quais uma boa parcela de cada empréstimo do Estado rende o serviço de um capital caído do céu – a dívida do Estado fez prosperar as sociedades por ações, o comércio com títulos negociáveis de toda espécie, a agiotagem, em uma palavra: o jogo da Bolsa e a moderna bancocracia (MARX, 1996, Vol. II, p. 373-374). Ao ajuste fiscal devem ser somadas as medidas de liberalização dos fluxos de capital que permitiram o aumento das transferências de capital-dinheiro, sob a forma de lucros e dividendos, para o exterior (o crescimento da remessa de “mais-valia” torna-se mais significativo a partir, justamente, de 1994; conforme atesta a Tabela 3) e a liberalização das atividades financeiras, o que permitiu que o capital bancário nacional acumulasse variadas funções de intermediação financeira, aumento dos seus ganhos, e a entrada em ação no território brasileiro de capital bancário e de capital financeiro estrangeiros. Tabela 3 - Lucros e dividendos (resultado líquido) Data 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 US$ milhões -721 -1.111,00 -2.141,10 -1.452,60 -1.268,10 -1.599,30 -1.799,00 -1.526,50 -2.252,60 -2.913,90 -1.864,50 -1.030,10 -748,4 -1.930,40 -2.565,90 -2.951,20 -2.830,50 -5.443,10 O crescimento da atuação de formas financeirizadas de capital estrangeiro no Brasil pode ser indiretamente observado a partir da elevação dos saldos negativos da conta de serviços financeiros na Conta de Transações Correntes do Balanço de Pagamentos do Brasil (Figura 1). Essa conta registra todas as receitas e despesas feitas por entidades nacionais em relação a entidades estrangeiras, e dá uma idéia aproximada de quanto da renda nacional está sendo transferida para o pagamento de serviços financeiros de diversos tipos, desde juros a seguros. Figura 1 - Serviços financeiros - resultado líquido em relação ao exterior Em US$ milhões -200 -120,6 -152,3 -199,4 -300 -206,1 -184,6 -526,6 -600 -607,8 -800 -900 -884,7 Fonte – Banco Central do Brasil 2004 2003 -382,7 -500 -1000 2002 -232,4 -215 -293,7 -269,4 -307,4 -400 -700 2001 2000 1999 1998 1997 -76,7 1996 1995 1994 1993 1991 1990 1992 9,6 -11,1 46,5 -50,2 1989 1988 8,5 7 13,2 1987 1985 1984 1983 1982 1980 -100 1981 -110,8 -50,4 -2 0 1986 100 Além disso, a liberalização financeira afrouxou as regras para o endividamento das empresas nacionais e transnacionais em moeda estrangeira. Isso também contribui para a elevação da dívida externa total brasileira (pública e privada), conforme os números mostrados na Tabela 4. O montante da dívida externa brasileira tem um peso considerável nas transferências de excedente econômico para o financiamento das economias capitalistas desenvolvidas, tanto na esfera da acumulação produtiva quanto na esfera da acumulação financeira. Tabela 4 - Dívida externa líquida total Data US$ milhões 1990 104.888,80 1991 107.869,40 1992 99.625,70 1993 98.645,20 1994 88.203,50 1995 92.347,40 1996 100.561,80 1997 130.854,70 1998 182.267,03 1999 190.318,67 2000 190.316,99 2001 162.704,10 2002 164.999,14 2003 150.992,59 Fonte: Banco Central do Brasil Os efeitos de grande envergadura das políticas neoliberais que permitiram as condições materiais para a hegemonia do capital financeiro - no desenvolvimento da economia brasileira contemporânea podem ser traduzidos no bloqueio às possibilidades de crescimento econômico. A comparação das taxas de crescimento do PIB e do PIB per capita mostram que se a década de 80 foi, sem sombra de dúvida, uma década perdida do ponto de vista do crescimento econômico, a década de 90 foi uma década desperdiçada, visto que as taxas de crescimento da renda nacional não conseguiram sequer se aproximar das taxas alcançadas nas décadas de 60 e 70. A depressão e a estagnação econômicas que marcaram a economia brasileira nas décadas de 80 e 90 respectivamente fato comprovado pelo sistemático decréscimo das taxas de variação anual real do PIB nessas duas décadas, têm se traduzido em um avanço ciclópico da desigualdade e da desestruturação social. A figura 2 evidencia muito bem essa situação principalmente quando se observa à variação na década de 90. As impossibilidades do crescimento econômico brasileiro atestam o caráter parasitário da hegemonia do capital financeiro permitida pela implementação das políticas neoliberais. A desmontagem dessa armadilha criada pela política macroeconômica neoliberal deve ser um dos pilares centrais em qualquer programa de ruptura clara e irrestrita com o neoliberalismo. 10 Figura 2 - Taxa de variação real anual do PIB do Brasil 1980-2003 9,23 7,85 8 7,49 6 5,4 4,92 4 Em % 5,85 3,53 2 4,36 3,27 3,16 0,83 4,22 0,79 1,03 -0,06 0 1,93 2,66 -0,54 0,13 1,31 0,54 -2 -2,93 -4 -4,25 -4,35 Fonte: Banco Central do Brasil -6 3.1 - As mudanças estruturais na economia brasileira proporcionada pelo neoliberalismo e a adequação do sistema financeiro brasileiro a nova ordem internacional. Nesse contexto estrutural do neoliberalismo, para o Brasil, o raiar dos anos 1990 representou um marco de transição do ponto de vista do paradigma político e econômico, tendo o setor financeiro um papel muito importante nessas mudanças. Os anos 1980 afirmavam os porta-vozes do liberalismo tinham sido pródigos em demonstrar o esgotamento do que se convencionou chamar de Estado desenvolvimentista. Afinal, não haveria prova mais cabal da falência do capitalismo regulado brasileiro do que o errático crescimento econômico associado a um processo inflacionário crônico, produzidos na “década perdida”. A partir desse diagnóstico, o projeto liberal se apresentou como a única alternativa de superação dos problemas estruturais e conjunturais da economia brasileira. Dois acontecimentos importantes são dignos de nota a respeito da virada dos anos 1980 para os 1990: o primeiro é o retorno dos países latino-americanos ao mercado internacional de crédito, de onde foram alijados a partir da crise da dívida que incidiu sobre os países latino-americanos no início da década de 1980. Ademais, data também desse período à consolidação das conquistas advindas da Constituição “cidadã” de 1988 e seu ensaio em prol de uma estrutura de proteção social nos moldes do registrado no continente Europeu. Infelizmente, o cenário externo favorável e as conquistas das forças democráticas cristalizadas na Constituição de 1988 não foram canalizadas no sentido de promover uma verdadeira reforma civilizatória do capitalismo brasileiro. Muito pelo contrário, o contra-ataque das elites, representado pela vitória de Fernando Collor de Mello, tratou de implementar um receituário econômico de cunho liberalizante ao sabor dos preceitos do Consenso de Washington. A partir daí o que se registrou foi uma abertura generalizada e abrupta da economia brasileira sustentada por um eixo financeiro e outro eixo comercial-produtivo. Do ponto de vista da abertura financeira, procedeu-se por uma série de mudanças no marco regulatório com o objetivo de ajustar as leis brasileiras à nova dinâmica transmitida pelos mercados centrais fundada na preponderância de operações securitizadas – e facilitar a livre movimentação (entradas e saídas) de capitais. Como corolário, houve um aumento da conversibilidade da conta de capital do balanço de pagamentos8 e, paralelamente, uma desnacionalização do sistema bancário. Todo esse movimento contribuiu sobremaneira para o aprofundamento da vulnerabilidade externa da economia brasileira, como será evidenciado mais adiante. A liberalização do setor produtivo, por sua vez, ensejou, de um lado, uma abertura comercial por intermédio da supressão de barreiras não tarifárias acompanhada de uma 8 “O grau de conversibilidade da conta de capital traduz a facilidade com que são permitidas as entradas e saídas de capitais de não residentes e residentes. Ou seja, refere-se às normas de conversão da moeda estrangeira em moeda doméstica para fins de investimento e empréstimo (CARNEIRO, 2002: 265)”. valorização da moeda nacional e, de outro, uma desnacionalização da propriedade que teve como artífice principal o processo de privatizações (CARNEIRO, 2002). O resultado desse processo foi o estabelecimento de uma concorrência predatória que acabou levando a bancarrota boa parte das empresas privadas nacionais. Ademais, registrou-se uma especialização da estrutura produtiva brasileira em direção a setores intensivos em recursos naturais e mão de obra setores em que o país teria, por “vocação”, um maior poder de concorrência, afirmavam os seus defensores abdicando de setores industriais mais dinâmicos assentados em um uso mais intenso de tecnologia e capital. Em conseqüência, presenciou-se uma ruptura nos elos da cadeia produtiva brasileira. Não fica difícil perceber os problemas impostos à economia brasileira por esse movimento. A perda de densidade industrial pode se tornar um obstáculo importante à retomada do crescimento econômico em patamares respeitáveis uma vez que estímulos setoriais não possuem mais, em tese, a ramificação necessária para alavancar à produção dentre os demais segmentos da atividade econômica, ou seja, houve uma desarticulação intersetorial da indústria nacional. Quanto às privatizações, vale dizer que foi a principal modalidade de ingresso dos investimentos diretos externos ao longo da última década. Do ponto de vista do balanço de pagamentos, o fato do Investimento Direto Externo não terem representado uma adição à capacidade produtiva do país e, ao mesmo tempo, ter privilegiado setores de bens não comercializáveis (serviços de utilidade pública, por exemplo), comprometeu, ou pelo menos não contribuiu, no esforço do país em incrementar o saldo das exportações e aprofundou a dependência brasileira dos fluxos de capitais externos. Partindo dessa realidade, em 1994, é implementado o Plano Real como resposta às altas taxas de inflação que assolavam o país desde a década de 1980. O pano de fundo desse processo, como já foi exposto, assentou-se no cenário internacional de alta liquidez dos anos 1990 acompanhado por uma forte liberalização da economia. Internamente, o declínio da dívida pública e a desvalorização patrimonial implementada pelo governo Collor e o manejo de políticas monetária e fiscal rígidas conformaram o suporte necessário ao início do programa de estabilização. Em sua primeira versão, a política cambial do Plano Real notabilizou-se por uma banda cambial assimétrica (Bacha 1997), ou seja, o controle da taxa de câmbio só foi exercido no intuito de coibir as desvalorizações. Não por acaso, nos primeiros meses do Plano a taxa de câmbio nominal (R$ / US$) chegou a patamares próximos a 0,83. O objetivo central da adoção de um câmbio extremamente valorizado era, de um lado, conter as taxas de inflação incrementando a competitividade interna e, de outro, compensar o “curto período” de duração da URV. As conseqüências cristalizaram-se sob a forma de déficits comerciais, de déficits em transações correntes, do aumento das amortizações e de um crescimento das necessidades de financiamento externo. Com efeito, uma vez que as exportações ficaram bastante comprometidas, a adoção de uma moeda sobrevalorizada colocou a economia brasileira em uma armadilha: Como as exportações físicas não crescem a uma taxa robusta de 10% a 12% ao ano, cada vez que a taxa de crescimento do PIB insiste em voltar à sua “taxa natural” de 6% ou 7% ao ano, o movimento é frustrado pela ampliação do déficit em conta corrente, devido à resposta das importações (DELFIM NETO, 1998: 08). De fato, a balança comercial após os consecutivos superávits registrados nos primeiros anos da década de 1990, entrou em um longo período de déficits crônicos, só revertendo essa tendência a partir de 2001, após a desvalorização cambial efetuada em janeiro de 1999. Movimento parecido ocorreu com o saldo das transações correntes que, por sua vez, só registrou superávit em 2003. Outro aspecto de sustentação de grande importância( talvez o mais significante) da política econômica do Real residiu e reside na manutenção de elevadíssimas taxas de juros. Tendo como objetivos principais manter a atratividade do país ao fluxo de capital internacional e, ao mesmo tempo, equacionar o problema do balanço de pagamentos e conter a pressão de uma desvalorização cambial em tempos de crise internacional. A condução severa desse instrumento de política econômica trouxe consigo efeitos extremamente nocivos para a economia brasileira. Uma primeira implicação a destacar é o reduzido crescimento econômico e o aumento desenfreado das taxas de desemprego. A título ilustrativo, é importante pontuar que durante os anos de hegemonia do pensamento econômico ortodoxo (1990-2004), o país registrou um crescimento médio anual do PIB (2,1%) bastante inferior ao período conhecido como “a era desenvolvimentista (1950-1979)” (7,3%) e até mesmo em relação à década de 1980, tida como “a década perdida” (3,0%).9 Não é difícil perceber, partindo desse quadro de estagnação econômica, que as taxas de desemprego nas regiões metropolitanas brasileiras registraram um aumento substancial nos 1990. Em decorrência das elevadas taxas de juros também se verificou um aumento substancial da dívida líquida do setor público que nos primeiros meses do plano girava em torno de 35% do PIB, passando ao final de 1998 para a casa dos 42,0% e atingindo, no final de 2004, perto de 52% do PIB.10 Percebe-se, portanto, que essa política tem ensejado, um desequilíbrio fiscal permanente. Portanto, havia uma clara inconsistência neste modelo: as taxas reais de juros mais elevadas do que as taxas de crescimento econômico geravam um crescimento explosivo da dívida pública; e a defesa contra os ataques especulativos, preservando o regime cambial, era a elevação da taxa de juros, o que agravava o desequilíbrio fiscal. A cada novo ataque especulativo a elevação dos juros agravava o crescimento não-sustentável da dívida pública, e a confiança na manutenção do regime cambial era solapada (PASTORE & PINOTTI, 1999: 175). É nesse contexto que no início de 1999 se instaura uma taxa de câmbio flutuante. Em termos de projeto de desenvolvimento não houve mudanças significativas em relação à primeira etapa do Plano, permanecendo, deste modo, o modelo liberal. Mas, no âmbito da política econômica houve mudanças significativas. Nesse quesito, é importante destacar que a partir de agora a sustentação do Plano Real se dava, por um lado, pela manutenção de elevadas taxas de juros e, por outro, pela condução extremamente rígida da política fiscal. 9 Números disponibilizados pelo IPEADATA (http://www.ipeadata.gov.br). Idem. 10 No tocante à política monetária, a principal novidade ficou por conta da adoção do regime de metas de inflação. O principal instrumento de política monetária desse regime é a determinação sistemática da taxa básica de juros em função da meta de inflação prevista e do hiato de produto – de forma a levar o índice de preços a convergir para a meta determinada. De acordo com os princípios teóricos que lhe servem de base, as taxas de juros agem sobre a inflação por diversos canais: sinaliza o compromisso do Banco Central com a inflação baixa, influi nas expectativas inflacionárias e por fim provoca desaquecimento da demanda, que se reflete em quedas de preços, aumento da taxa de desemprego e redução de salários. Ademais, embora esse efeito não esteja explicitamente incluído no modelo teórico, ela provoca a apreciação da taxa de câmbio. A política fiscal, por sua vez, alcança a centralidade da política econômica pósdesvalorização cambial. Como bem aponta Geraldo Biasoto Junior, na política econômica do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso: (...) os bons fundamentals da economia brasileira parecem se resumir a dois elementos de natureza fiscal. O primeiro, o sólido compromisso governamental de fazer o superávit primário necessário para colocar sob controle a relação entre a evolução da dívida pública e o PIB, de forma a garantir a solvência do Estado e controlar as expectativas dos mercados. O segundo, a forte disposição em promover as reformas estruturais que garantiriam a sustentabilidade fiscal no longo prazo (BIASOTO JUNIOR, 2003a: 73). Sendo assim, a construção da noção de sustentabilidade da relação dívida/PIB, a partir do comportamento da Dívida Líquida do Setor Público, assenta-se na obtenção do superávit primário que visa garantir a solvência da dívida de acordo com o cenário que se concebe olhando prospectivamente para o comportamento do câmbio, dos juros e do PIB. A lógica desse mecanismo é de fácil compreensão: a obtenção de sucessivos superávits primários implicaria em uma sustentabilidade da dívida. Esta, por seu turno, permitiria a queda do risco país e, conseqüentemente, o declínio das taxas de juros. Acompanhando Biasoto Junior (2003a), é importante destacar as mudanças estruturais ocorridas com o setor público brasileiro por conta da necessidade de obtenção dos superávits primários. A primeira mudança repousa no comprometimento federal em buscar, a qualquer custo, os objetivos previamente traçados. Deriva-se daí a sanha arrecadadora que se instalou na Receita Federal, facilmente visualizável pela elevação da carga tributária em percentagem do PIB. Um segundo elemento de mudança está no lado do gasto governamental. A desvinculação de receitas da união permitiu uma realocação de recursos com destinações constitucionalmente específicas, com reduções importantes na área social. Um último aspecto a ser destacado é o novo comportamento das finanças estaduais e municipais. Este, por sua vez se desmembra em quatro pontos: a) a renegociação das dívidas estaduais passou a estar condicionada a geração de superávits primários; b) o comprometimento das empresas estaduais e municipais por conta da contenção de crédito ao setor de saneamento; c) a privatização dos bancos estaduais, decretando de uma vez por todas o financiamento dos estados e d) a privatização de inúmeras empresas estaduais. Não obstante todo o esforço desprendido no controle das contas públicas, o que se verificou ao longo dos anos foi um crescente aumento da dívida líquida do setor público. O problema reside no fato de que a relação dívida pública/PIB não depende única e exclusivamente do superávit primário. Em diversos anos, em que pese a prejudicial contração dos gastos, esta relação não manteve uma trajetória cadente devido ao comportamento desfavorável das taxas de juros, do PIB e do câmbio que esterilizaram os esforços representados pelo superávit fiscal. 3.2 As mudanças estruturais no mercado de trabalho brasileiro - O reflexo da inflexão da política econômica dos anos 90. A economia brasileira passou por importantes modificações ao longo da década de 90. Durante esse período ocorreram as aberturas da economia ao fluxo de comércio e de capitais internacionais e a queda na taxa de inflação seguido de redução da presença do Estado na economia. Essas mudanças estruturais resultaram em efeitos importantes sobre o ritmo e a estrutura do crescimento da economia, afetando, significativamente, o desempenho do mercado de trabalho. Primeiramente, a queda no emprego industrial foi compensada pelo aumento do emprego nos serviços e no comércio. Entretanto, a partir de 1997 esse fenômeno não foi mais observado, de forma que a taxa de desemprego passou a aumentar sensivelmente. A retração da economia passou a ter reflexos nas altas taxas de desemprego que passaram a atingir o setor de serviços acompanhando o setor industrial. Quase todas as regiões metropolitanas do país são atingidas pela reestruturação produtiva que foi resultado da falência da regulação fordista11 e o surgimento de um novo modelo o (Toyotismo), que é caracterizado pela flexibilidade não só do processo de produção, das maquinas integradas e da microeletrônica, mais também pela flexibilidade das contratações do trabalho, o que prejudica sensivelmente os trabalhadores, mas aliado a esse processo (que foi uma resposta dos capitalistas a queda da taxa de lucro do capital), surge a desregulamentação financeira, a liberalização de capitais e as políticas neoliberais, vindas do centro para a periferia, e que se constituem na desregulamentação do mercado de trabalho e as suas conseqüências danosas para a classe trabalhadora. Os impactos sobre o mercado de trabalho ficam evidentes quando se verifica o seu desempenho nos anos 90 através da análise da evolução do nível e da estrutura do emprego, dos rendimentos reais, da produtividade do trabalho nos setores da economia e da taxa de desemprego. Observa-se também que houve um grande aumento do desemprego estrutural, conseqüência dessa nova fase produtiva da economia. Nos anos 90, ampliou-se a precarização no mercado de trabalho brasileiro: foram extintos cerca de dois milhões de postos de trabalho no setor formal da economia e a taxa de desemprego quase dobrou. A taxa medida pela Pesquisa de Emprego e É bom salientar que internamente no Brasil , a questão da regulação fordista é bastante discutida. Alguns autores não consideram a existência de modelo fordista no Brasil. 11 Desemprego (PED), realizada pelo DIEESE/Seade na Região Metropolitana de São Paulo, saltou de 10,3%, em 1990, para cerca de 18,3 %, em 1998. Após o Plano Real, mesmo com uma taxa acumulada de crescimento do PIB da ordem de 16,6%, a taxa de desemprego não cedeu. Ao contrário, por duas vezes muda de patamar, passando a oscilar em níveis mais elevados (ver Tabela). 3 Tabela - Taxas de Desemprego, PIB e PIB per capita (1) Brasil e Região Metropolitana de São Paulo 1990-1998 - (em %) Taxa / Ano Desemprego (RM São Paulo) PIB (Brasil) PIB per capita (Brasil) 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 (2) 10,3 11,7 15,2 14,6 14,2 13,2 15,1 16 18,3 -4,3 1 0,5 4,9 5,9 4,2 2,8 3 0,7 -5,5 -0,6 -2,1 3,4 4,3 2,8 1,4 1,5 -0,7 Fonte: DIEESE/SEADE. PED-SP Pesquisa de Emprego e Desemprego e Banco Central do Brasil. Relatório 1997 Notas: (1) Para o desemprego: taxas médias anuais. Para o PIB e PIB per capita: taxa de variação anual. (2) Valores do PIB e PIB per capita de 1998 são estimados As políticas neoliberais, ao ganharem status de “pensamento hegemônico” no mundo, vindo do centro capitalista para os países periféricos de economias vulneráveis e dependentes do setor externo, impõem uma “nova lógica” de se conduzir a política econômica. O modelo ortodoxo de ajuste fiscal e monetário é colocado em prática através de políticas macroeconômicas restritivas, tanto do ponto de vista fiscal como monetário. A política fiscal é conduzida de forma que o estado reduza ao máximo seus gastos e investimentos no país, tendo como objetivo a redução do déficit fiscal, sem levar em consideração o bloqueio do crescimento econômico e suas conseqüências para os residentes do país, principalmente aqueles menos favorecidos que dependem dos serviços públicos e do seu trabalho para sobreviver. Por conseguinte, a política monetária ortodoxa segue o caminho do controle monetário ao extremo, via política restritiva. A estabilidade monetária é o fator principal, e se torna prioridade na condução da política econômica, via restrição de crédito e altíssimas taxas de juros (O Brasil possui umas das maiores taxas de juros do mundo) com a intenção de atrair capitais externos e frear a economia, e com isso evitar o efeito inflacionário garantindo as condições estáveis e previsíveis para se remunerar o capital estrangeiro. Por conseguinte o Ministério da Fazenda se torna o mais importante do governo, pois é através dele que se conduz a política e de onde partem todas as decisões em detrimento a outras pastas importantes para o desenvolvimento de um país. O ministro da fazenda determina redução de gastos, contingenciamentos de verbas para outras pastas, tudo para assegurar a remuneração dos capitais, o equilíbrio fiscal e o controle monetário. Essa é a receita ortodoxa de se conduzir uma política monetária que assegure as condições impostas pelos organismos internacionais sob a política econômica dos países periféricos dependentes do centro capitalista. Assim, “A relação centro/periferia torna-se mais complexa e mais instável; ao mesmo tempo em que há transferências de capitais especulativos e atividades produtivas, algumas vezes com alto conteúdo tecnológico, de países centrais para países periféricos, cresce a subordinação destes últimos e, portanto, os riscos de interrupção abrupta dos elementos impulsionadores do processo de desenvolvimento. Pelo mesmo motivo, fragiliza-se o poder da maioria dos Estados nacionais e estreita-se à capacidade de se fazer política macroeconômica, à medida que se fortalece o poderio das maiorias potências , tendo por instrumentos as instituições financeiras multilaterais, como o FMI, o Bird o BID etc”. (Filgueiras, 2000; 61). A condução desses métodos gera conseqüências bastante prejudiciais para os países, e uma importante conseqüência desse desaquecimento da economia, é vista no mercado de trabalho. A desarticulação do mercado acontece de forma acentuada e muito rápida, e o Brasil não fugiu a essa regra. Uma política que, ao favorecer a acumulação financeira, através da liberalização de capitais e difusão de produtos financeiros, com retornos extremamente lucrativos para esses investimentos; em detrimento do investimento produtivo que se vê duplamente prejudicado, uma vez que tem que sobreviver nesse cenário de recessão e economia travada, com retornos muito abaixo daquele obtido pelo setor financeiro as taxas de juros altíssimas praticadas principalmente pelo capital bancário inviabilizam o investimento produtivo, e acirram uma concorrência desleal entre os seguimentos financeiro e produtivo, com larga vantagem do setor financeiro. O setor produtivo procura meios para garantir sua rentabilidade e garantir a sua existência. Como explicita Filgueiras (2000). “No Brasil, o processo de reestruturação produtiva iniciou-se timidamente já na segunda metade da década de 1980, acelerando-se já na segunda metade da década dos anos 90, quando da abertura econômica implementada pelo Governo Collor. Centrado principalmente na adoção de novas formas de gestão/organização da produção, esse processo se aprofundou, mais recentemente, com a política de estabilização consubstanciada no Plano Real, com a subvalorização do dólar e uma grande facilidade para importações que exigiu das empresas transformações em ritmo acelerado e associações com o capital estrangeiro para poderem sobreviver. (Filgueiras, 2000: 55-56)”. É nesse sentido que as classes de trabalhadores são afetadas de forma prejudicial, perdendo direitos trabalhistas, com queda de rendimento, precarização do trabalho e aumento de taxa de desemprego. Acontece uma readequação do mercado de trabalho com prejuízos significativos para os trabalhadores. Aparece uma nova forma de relação capital/trabalho, com redefinições profundas, alterando a correlação de forças entre as partes, com o reaparecimento de velhas formas de consumo da força de trabalho e o aparecimento de novas formas de exploração da “classe que vive do trabalho” afetando inclusive o comportamento da mesma (Antunes, 1995). O aumento das taxas de desemprego no inicio dos anos 90 foram explicitas e, se comparadas as da década de 80, observa-se o efeito dos governos neoliberais. Nos anos 80 a taxa de desemprego total (aberto mais oculto) média da grande São Paulo era de 9,8%, subindo para 13,2% no período de 1990 a 1995. Em números absolutos a média anual passa de 664 mil desempregados para 1,02 milhões nos anos neoliberais. Verifica-se que a política monetária é responsável quase que diretamente pelo aumento das taxas de desemprego, principalmente em setores onde não houve incrementos tecnológicos ou organizacionais consideráveis. Do lado da política fiscal a redução dos gastos e investimentos resulta num processo de paralisia e redução de empregos principalmente no setor público. O resultado das medidas neoliberais no Brasil, no que diz respeito à taxa de desemprego, foi apresentar ao país um patamar desconhecido na sua história econômica (Boito, Jr. 1999). A precarização do trabalho foi outra conseqüência conhecida na década de noventa, apesar das medidas de desregulamentação legal não terem avançado muito, principalmente se for feita uma comparação no tocante à abertura comercial e financeira em outros países. Como coloca Alves “O mundo do trabalho precário é decorrente de uma das motivações indutoras da terceirização. Por trás da lógica da precarização do trabalho, que atinge parcelas das firmas de subcontratação da cadeia produtiva está a necessidade das grandes empresas – e de seus fornecedores de primeira, segunda e terceira linha – de descentralizar a produção, com o objetivo de reduzir custos, repassando os riscos dos negócios para as pequenas empresas e, por conseguinte, para as condições de trabalho, emprego e salário. (ALVES, 2000, p.265)”. Sobre este ponto o marco inicial foi à desindexação dos salários que começou com a imposição de Collor sendo ratificada por Fernando Henrique Cardoso, após a revogação de Itamar Franco. Outro aspecto importante que corroborou para o aumento da precarização do trabalho nesse período foi o relaxamento das fiscalizações, facilitadas pelo governo FHC ao permitir a degradação das delegacias Regionais do Trabalho. Esse relaxamento foi o responsável pelo aumento da exploração do trabalho, através do crescimento das horas extras e do trabalho infantil e de adolescentes. Assim “O relaxamento da fiscalização tem estimulado os empregados a forçar a pratica de horas extras; o desemprego e a degradação dos salários têm levado os trabalhadores a ceder. Na Grande São Paulo, nos setores industrial, comercial e de serviços, a porcentagem de trabalhadores que trabalhou acima da jornada legal de trabalho no ano de 1995 foi, respectivamente, de 42,5%, 55,1%, e 35,9%” (Boito, Jr. 1999). Outro fator preponderante para acelerar o processo de precarização do trabalho esta associada à crise de identidade e representação dos trabalhadores, através da desfiguração e segmentação dos “coletivos do trabalho” em função das práticas de subcontratação e terceirização que desvinculam parcelas significativas dos trabalhadores das grandes empresas e agravam as crises dos trabalhadores, (Druck,1995). As oscilações sobre a renda dos mais pobres no período dos governos neoliberais conseguiram ser mais desvantajosas para estes do que em períodos anteriores da economia brasileira. Por exemplo, na década de 60, os 50% mais pobres tinham, como média anual, 18% da renda nacional; passando para 15%, em 70; e caindo para 14% na década de 80. A partir dos anos 90 esse percentual conseguiu cair mais ainda, chegando, entre 1990 e 1996, a 12%, o que pode ser traduzido pela persistente queda do salário médio real dos anos 90. Os rendimentos do total da população ocupada, que entre a introdução da URV e julho de 1996, tiveram uma melhora de 18,6%, se estabilizaram a partir do segundo semestre: “A explicação para a interrupção desses ganhos não pode deixar de considerar que a partir de julho de 1996, houve mudança da regra de correção dos salários, que deixaram de ter reajuste automático pela inflação do período anterior e passaram a ser negociado entre patrões e empregados” (Mattoso e Baltar, 1996). Os trabalhadores com carteira assinada tiveram melhora menos acentuada, com 2,7% entre março de 1994 e março de 1998, enquanto os sem carteira e por conta própria tiveram crescimento de 21,6% e 32,1%, respectivamente, sendo as categorias mais beneficiadas. Nota-se uma melhora na redistribuição da massa de rendimentos do trabalho, mas uma queda na participação dos rendimentos do trabalho no PIB e, por outro lado, aumento na parcela relativa aos lucros (Filgueiras, 2000). No que se refere ao crescimento do desemprego, os neoliberais sustentam a tese de que as políticas macroeconômicas não exercem influência no aumento das persistentes taxas de desemprego. Atribuem o processo de evolução tecnológica, que ocorrem em todo o mundo, para explicar o aumento do desemprego, mesmo tendo o “progresso técnico”, suprimido vários postos de trabalho, com a substituição de trabalhadores por máquinas tanto no setor industrial como no setor de serviços, o que de fato pode gerar efeito negativo ou seja, a redução de postos de trabalho. Mas, não se pode esquecer que o aumento do desemprego tem relação com as políticas de estabilização .Assim, “A evolução das taxas de desemprego, por qualquer pesquisa que se queira considerar – PME/IBGE ou PED-SEADE/DIEESE, em que pesem as suas distintas metodologias, indicam que , embora existam, de fato fatores estruturais que influenciaram os patamares de desemprego em sua tendência de longo prazo- que se associam ao processo de reestruturação produtiva pelo qual passa a economia brasileira , principalmente desde o inicio da presente década – a política de estabilização, consubstanciada com o Plano Real, tem provocado flutuações conjunturais nas taxas de desemprego que acompanham de perto as flutuações no níveis de atividade econômica” (Filgueiras, 2000). Outros autores contra-argumentam sobre essa discussão Maria da Conceição Tavares e Gerson Gomes12 dizem que essa tese não se sustenta já que em paises industrializados e centrais (Japão e Eua) e periféricos (Coréia do Sul) onde o aporte de modernização Maria da Conceição Tavares e Gerson Gomes “mordenização neoliberal e desemprego” in Desemprego no país do real, vários autores, edição Partidos dos trabalhadores,1996,p.32-36 12 tecnológica e muito mais significativa que o Brasil, as taxas são abaixo da taxa brasileira (Boito Jr., 1999). De fato, as grandes empresas têm reduzido um numero expressivo de postos de trabalho, aumentado a produção e os seus lucros. Apenas só no período entre 1992 e 1997 o setor bancário eliminou 500 mil postos de trabalho, o que não equivale a dizer que o aumento da produtividade ocorrem somente em função da mordenização, (tendo em vista a ocorrência em empresas monopolistas e sendo resultado também de inovações organizacionais.) A forma caricatural que se faz da relação do emprego e inovação tecnológica é resultado do descaso das relações macroeconômicas, sociais e institucionais, que são bem mais amplas e onde a inovação tecnológica esta inserida. A relação entre emprego e tecnologia sempre foi conflituosa, mas nesse novo quadro econômico mundial agrava-se mais ainda (Mattoso). Segundo Mattoso, a introdução da inovação tecnológica no processo produtivo não mudou o seu papel histórico na sociedade capitalista, que é reduzir o trabalho vivo, ligado diretamente à produção, gerando transformações quantitativas e qualitativas no emprego, mas acredita que a tecnologia também pode gerar postos de trabalho, como bem coloca. “A inovação tecnológica, no entanto, ao mesmo tempo que destrói produtos, empresas, atividades econômicas e empregos, também pode criar novos produtos, novas empresas, novos setores e atividades econômicas e, portanto, novos empregos. Em outras palavras, a inovação tecnológica, embora possa modificar a qualidade e a quantidade do emprego, não determina a priori seu resultado, sobretudo quando observada a economia mundial. O resultado das mudanças quantitativas do emprego não precisa necessariamente transformar-se em mais desemprego. Pode ser mais emprego, consumo, tempo livre ou desemprego e essa é mais uma escolha social, historicamente determinada pelas formas de regulação do sistema produtivo e de distribuição dos ganhos de produtividade.”(Mattoso)”. O atual cenário da economia mundial dominada pelo capital sem fronteiras e sem regulação onde são ignoradas as relações macroeconômicas, sociais e institucionais amplas, o efeito da tecnologia, principalmente da informação/comunicação, pode parecer mais desastroso para o mundo do trabalho do que efetivamente são. Portanto, a redução dos gastos do Estado, a concentração dos ganhos da produtividade nas mãos do capital financeiro, a elevação do tempo do trabalho e o crescimento cada vez menor do produto, tornam-se variáveis explicativas do desemprego e da precariedade do trabalho. 3.2.1 – Os reflexos da implementação da política macroeconômica ortodoxa na renda dos trabalhadores A partir dessa realidade, observa-se que não se parece surpreendente que as desigualdades brasileiras tenham se mantido estáveis durante toda a década de 1990. O desenvolvimento capitalista em bases rentistas tende a ser um instrumento poderoso de concentração da renda, uma vez que os juros escorchantes tendem a sugar a renda do trabalho em prol do capital financeiro. A dispersão da renda do trabalho também se encontra na berlinda em um cenário de elevadas taxas de desemprego e de crescente precarização. O que se percebe pela dinâmica do mercado de trabalho nos anos 1990 é uma tendência perniciosa de substituição da força de trabalho mais bem remunerada em favor dos trabalhadores com remunerações mais baixas, muitas vezes utilizando-se de mecanismos de contratação à margem da legislação trabalhista. O resultado, obviamente, é um aumento do leque salarial e a perpetuação da desigualdade. Na verdade, é preciso pontuar que houve sim uma pequena melhora na distribuição da renda e uma diminuição da pobreza nos primeiros momentos do Plano Real. Isso se deveu à liberalização comercial e seus efeitos depressivos sobre os preços, à boa safra agrícola do período e a alta dos preços não-comercializáveis que se traduziu em maiores ganhos para a força de trabalho menos qualificada (ROCHA, 2000). Contudo, a tendência logo se dissipou e o índice de Gini – indicador mais utilizado na mensuração das desigualdades de renda13 – estabilizou-se novamente ao redor de 0,57 (ROCHA, 2000). Tabela 01 Renda - Desigualdade - Coeficiente de Gini 1981 1985 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 0,58 0,60 0,61 - 0,58 0,60 - 0,60 0,60 0,60 0,60 0,59 - 0,60 0,59 Fonte: IPEAData. A manutenção da absurda concentração de renda no Brasil se nutre do pernicioso imbricamento existente entre as elites econômicas e as elites de poder, plasmando um ambiente pouco propenso a mudanças substanciais. Como salienta Medeiros (2003, p. 09): “Se as elites econômicas são também elites políticas e sociais, seu poder não se limita a gerenciar sua própria riqueza de acordo com interesses particulares e de grupo, tal poder estende-se também ao gerenciamento da riqueza de terceiros, inclusive os fundos públicos. 4A Política monetária ortodoxa brasileira e seus efeitos na desarticulação do mercado de trabalho na região metropolitana de Salvador. A política de juros altos que acompanhou a valorização do real durante esse período teve como objetivo principal atrair capitais externos interessados numa rentabilidade superior às oferecidas no mercado internacional. Estes capitais tiveram a função de cobrir os déficits comerciais criados e aumentar as reservas brasileiras, permitindo ao país a sustentação da política adotada. As elevadas taxas de juros também visaram à contenção do crescimento econômico como forma de controlar o desequilíbrio da balança comercial causado pela política cambial (câmbio sobrevalorizado) e evitar 13 O índice de Gini varia de 0 a 1, sendo que o piso inferior indica uma máxima desconcentração de renda, ao passo que o extremo oposto aponta uma concentração absoluta da renda. pressões de demanda sobre os preços. As combinações dessas políticas (câmbio valorizado e altas taxas de juros), geraram conseqüências. O desemprego (talvez foi a mais grave para os trabalhadores), que aumentou no período do real, passando de 14,2%, em 1994, para 18,3 %, em 1998, na Região Metropolitana de São Paulo, chegando a 21,6% em 1998, na Região Metropolitana de Recife e em 24,9% na Região Metropolitana de Salvador, segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego - PED, realizada pelo DIEESE/Seade. Entre outros impactos negativos sobre o mercado de trabalho (dificuldade na obtenção de reajustes salariais em conformidade com a inflação, perda de benefícios etc), este foi o efeito mais grave gerado pela política econômica. Além da armadilha que essa política criou para si própria ao alimentar o endividamento externo e interno. Analisando esse período, observa-se a inversão que ocorreu na economia mundial, caracterizando dois momentos bastante distintos: o Pós-Segunda Guerra, conhecido como um dos mais prósperos períodos da história do capitalismo, ( a mais expansionista de todas as demais fases do sistema), com altas taxas de crescimento, que permitiam a satisfação de importantes demandas sociais e, inclusive, o quase pleno emprego; uma época marcada pela produção e consumo massivos. Com o inicio de outra fase, que se caracteriza pela queda das taxas de crescimento e dos índices de lucratividade, por sua vez favorecendo o ataque às conquistas sociais, conduzido pelos setores políticos conservadores que ascenderam ao poder em importantes países. É nesse ponto que se localizam as chamadas “políticas neoliberais”, o ataque às conquistas sociais, às organizações representativas das classes trabalhadoras e à participação política destas. 4.1 A Conjuntura Econômica baiana na década de 90 e sua influência no Mercado de Trabalho da RM de Salvador. A economia baiana apresentou, na última década, taxas de crescimento do PIB positivas. Entretanto, elas não foram suficientemente elevadas para garantir taxas de crescimento per capita razoáveis. Por exemplo, em 2001, o PIB baiano per capita decresceu 0,1%. E em 2002 e 2003, apresentou taxas reduzidas de 1,1% e 2,2% (Tabela 1). Isso significa, entre outras coisas, que o PIB baiano não tem crescido a taxas espetaculares, pois ele não tem acompanhado de forma satisfatória (do ponto de vista da geração de empregos, por exemplo) o crescimento da população. Entretanto, essas taxas têm sido ligeiramente superiores às taxas de crescimento nacional. Tabela 1 - Evolução do PIB da Bahia - 1992-2003 PIB Per Capita (Valores Correntes) Unidade Monetária PIB Total (Valores Correntes) 1992 Cr$ Milhão 77.313.805,89 1,8 11.990 6.448.128,80 0,4 1993 CR$Milhão 1.680.577,57 3,1 12.138 138.457,59 1,9 1994 R$Milhão 14.972,46 3,6 12.283 1.218,95 2,4 1995 R$Milhão 26.769,07 1,0 12.426 2.154,26 -0,1 1996 R$Milhão 32.989,50 2,7 12.568 2.624,85 1,5 1997 R$Milhão 37.020,91 6,6 12.710 2.912,80 5,4 1998 R$Milhão 38.759,10 1,7 12.853 3.015,59 0,6 1999 R$Milhão 42.040,11 2,2 12.928 3.251,92 1,6 2000 R$Milhão 48.197,17 3,9 13.070 3.687,55 2,8 2001 R$Milhão 52.249,32 1,0 13.214 3.954,05 -0,1 2002(*) R$Milhão 62.977,26 1,9 13.323 4.726,88 1,1 2003(*) R$Milhão 76.075,44 3,0 13.436 5.662,22 2,2 Anos Taxa de Crescimento População em 1.000 hab. Taxa do PIB Per Capita PIB Bahia / PIB Brasil (%) 4,4 4,3 4,3 4,1 4,2 4,3 4,2 4,3 4,4 4,4 4,7 5,0 Fonte: SEI / IBGE (*) Dados sujeitos a retificação, depois de consolidados os resultados de todas as UF´s (Projeto de Contas Regionais - SEI / IBGE). (3) Em 2001 e 2002 dados retificados. A literatura econômica especializada na investigação das metamorfoses na economia baiana durante a segunda metade do século XX traça, em geral, alguns ciclos de industrialização com os seguintes pontos de inflexão: a instalação da refinaria Landulfo Alves na década de 50, a constituição do Centro Industrial de Aratu na década de 60, a instalação do Pólo Petroquímico na década de 70, a entrada em operação da Caraíba Metais na década de 80 e as possibilidades de crescimento abertas com a implantação do complexo automobilístico da Ford em 2001.(GUERRA e TEIXEIRA, 2000). 4.1.1 A evolução da economia baiana nos anos 90: A industrialização intermediaria. A questão é que, mesmo com o crescimento dos anos 90, a estrutura econômica baiana continua assentada em setores produtores de bens industriais intermediários14.Uma análise superficial da estrutura do PIB da Bahia permite vislumbrar o impacto econômico das políticas de modernização conservadora levadas a cabo nos últimos 14 É o que afirma Simone Uderman, ao se referir especificamente à industria de transformação baiana: “A industria de transformação baiana apresenta-se ainda concentrada em torno de segmentos marcados por processos produtivos intensivos em capital, especializados na fabricação de bens intermediários, destinados, em grande medida, a abastecer os mercados das regiões mais dinâmicas do país (UDERMAN, 2005, p.10). anos. A tabela 2 mostra que setores como agropecuária e indústria de transformação têm aumentado a sua importância na formação do PIB da Bahia nos últimos anos. Juntos, em 2003, esses dois setores responderam por 43,8% do PIB baiano. Sabe-se que o moderno agronegócio, a locomotiva da agropecuária na Bahia, não é necessariamente um grande empregador de forças de trabalho, e a indústria de transformação é cada vez mais dependente de investimentos intensivos em capital. Portanto, poupadores líquidos de trabalho (a reestruturação empreendida pelas firmas localizadas no Pólo Petroquímico de Camaçari é um exemplo claro desse fenômeno). Não se questiona aqui a importância que esses setores possuem na geração de valor; mas, o que se deve ponderar é que a permanência da dependência do crescimento econômico baiano em relação a esses setores apenas faz aprofundar a redução da elasticidade emprego do crescimento. Observa-se também que setores intensivos em trabalho, como construção civil, alojamento e alimentação, saúde e educação, e comércio, perderam ou estagnaram sua participação na formação do PIB. A própria indústria de transformação baiana, ao invés de se diversificar, continua dependente de antigos setores, que foram implantados ainda nas “ondas de industrialização” das décadas de 70 e 80. A Tabela 3 mostra que a indústria de transformação baiana ainda continua fortemente dependente de dois segmentos: indústria metalúrgica e indústria química, que juntas responderam, em 2003, por 66,7% do PIB da indústria de transformação baiana15. Além disso, o recente crescimento do setor de papel e papelão através da cristalização de investimentos produtivos no extremo sul da Bahia, mesmo se traduzindo em uma elevação da participação deste segmento no valor gerado pela indústria de transformação baiana (essa participação saiu de apenas 0,8% em 1990 para 3,2% em 2003, conforme a Tabela 3), não representa uma alternativa para o estabelecimento de um crescimento sólido da economia baiana por 15 De acordo com Guerra e Teixeira (2000, p.92): “Na metade da década de 80, esse setor [metalurgia] e o mecânico empregavam 20 mil pessoas, número esse que, para se ter uma idéia, em meados de 1995 tinha caído para algo em torno de 8 mil”. Sobre o segmento petroquímico, os autores em questão afirmam: “No início dos anos 90, na área do COPEC, as empresas em operação representavam um investimento de quase US$ 8 bilhões. Elas utilizavam um pouco mais de 24 mil trabalhadores como mão-de-obra direta. Como se nota, empreendimentos de alta relação capital/trabalho: para cada emprego eram necessários US$ 321 mil ou para cada milhão de dólares aplicado geravam-se apenas três postos de trabalho” (GUERRA e TEIXEIRA, p. 92). A reestruturação produtiva implementada pelo grande capital monopolista contribuiu, inclusive, tanto para a elevação da composição orgânica do capital através tanto da introdução de inovações tecnológicas quanto da redução dos quadros de pessoal através de inovações organizacionais que elevaram o grau de intensidade do trabalho e reduziram os custos diretos de contratação. Essa foi uma realidade empiricamente constatável também na cadeia produtiva petroquímica baiana. causa de basicamente dois motivos: reduzidas sinergias com outros setores econômicos16 e elevados custos sociais. 3,9 3,8 3,7 4,0 4,4 3,4 3,5 3,9 3,9 3,7 3,6 2,2 3,3 3,5 2,5 2,3 2,1 2,6 2,9 2,7 2,5 2,2 2,4 2,1 2,2 2,1 1,7 1,6 11,5 10,9 9,9 9,6 9,6 10,3 8,8 8,8 8,5 8,5 8,5 8,5 6,9 6,3 2,3 2,4 2,4 2,2 2,2 1,8 2,0 2,0 2,3 2,2 1,8 1,7 1,8 1,9 1,1 1,3 1,6 1,8 1,8 2,1 2,8 2,5 2,8 3,3 2,2 2,3 2,3 2,3 2,4 2,8 2,8 2,6 2,7 2,9 3,3 3,2 3,1 3,0 2,6 2,5 2,0 1,7 0,3 0,3 0,3 0,4 0,4 0,5 0,4 0,4 0,4 0,5 0,4 0,5 0,5 0,4 2,2 2,6 2,6 1,9 1,8 2,3 2,5 2,7 2,8 2,7 2,5 2,5 2,4 2,2 TOTAL 12,5 11,5 9,2 11,1 12,2 14,0 14,0 12,9 13,4 13,1 14,2 13,9 13,8 13,3 OUTROS SERVIÇOS 6,6 12,6 9,3 6,5 7,0 9,7 12,2 12,7 11,9 11,7 10,7 10,6 9,2 8,3 SERVIÇOS DOMÉSTICOS 10,0 7,9 13,8 14,9 9,1 5,0 4,2 4,3 4,7 4,0 3,1 3,3 4,4 4,6 SAÚDE E EDUCAÇÃO COMUNICAÇÕES TRANSPORTES E ARMAZENAGEM COMÉRCIO ALOJAMENTO E ALIMENTAÇÃO CONSTRUÇÃO 7,5 6,7 6,4 6,8 8,5 10,4 9,8 11,9 12,1 10,8 10,5 9,5 8,1 7,1 ADM. PÚBLICA 24,2 21,6 23,7 23,7 21,6 19,5 20,1 19,5 20,6 23,7 25,6 27,0 27,9 32,3 SERVIÇOS INDUSTRIAIS DE UTIL. PÚBLICA INDÚSTRIA TRANSFORMAÇÃO IND. EXTRATIVA MINERAL 2,4 2,6 2,6 2,7 2,4 1,9 1,5 1,4 1,3 1,4 1,4 2,9 2,9 3,1 ALUGUEL DE IMÓVEIS 10,4 10,6 9,7 9,2 13,4 13,6 12,4 11,5 9,7 9,4 10,7 10,5 12,8 11,5 FINANCEIRO 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003(*) AGROPECUÁRIA ANO Tabela 2 - Estrutura do Produto Interno Bruto da Bahia (em %) - 1990 a 2003 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Fonte:SEI (*) Dados sujeitos a retificação, depois de consolidados os resultados de todas as UF's (Projeto de Contas Regionais - SEI/IBGE) Tabela 3 - Estrutura da Indústria de Transformação Baiana (em %) - 1990 a 2003 INDÚSTRIA DE TRANSFORMAÇÃO ANO 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 (*) METALURGICA 14,3 14,0 15,0 12,9 14,5 15,3 17,4 16,8 17,2 16,8 16,8 16,0 13,0 13,2 PAPEL E PAPELÃO QUÍMICA 0,8 0,9 1,9 3,1 3,6 5,1 4,3 3,9 2,8 3,1 3,4 3,7 3,9 3,2 45,9 47,9 52,0 54,9 51,0 47,3 46,2 49,4 51,8 56,6 57,1 59,5 57,7 53,5 PRODUTOS ALIMENTARES 14,8 15,3 11,4 10,2 10,5 10,2 10,4 9,1 8,3 6,9 6,0 5,3 4,8 4,1 OUTROS 24,1 21,8 19,7 18,9 20,4 22,1 21,8 20,8 19,9 16,5 16,6 15,6 20,6 26,0 Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Fonte:SEI (*) Dados sujeitos a retificação depois de consolidados os resultados de todas as UFs (Projeto de Contas Regionais - SEI/IBGE) 16 O que caracteriza este setor como um verdadeiro enclave. Segundo Guerra e Teixeira (2000, p. 95): (...) este ramo industrial [o de papel e celulose], por seu caráter concentrador – capital intensivo, estreita base de fornecimento, demandante de grandes extensões de terra – e seu baixo nível de articulação interindustrial, caracteriza-se como um enclave, não proporcionando as necessárias sinergias para servir como centro econômico dinâmico”. Uma estrutura econômica muito concentrada em poucos setores se traduz em pouco dinamismo econômico, pouca capacidade de produzir produtos de grande valor agregado, que dependem de recursos e de mão-de-obra mais sofisticados. A tabela 4, que mostra a estrutura da pauta de exportações da Bahia, deixa claro que aquilo que as firmas instaladas na Bahia têm exportado para o resto do mundo consiste basicamente em bens intermediários e combustíveis e lubrificantes. Essas duas espécies de produtos responderam, em 2004, por 77,33% do valor das exportações baianas. Ao contrário do que tem penetrado no imaginário coletivo baiano, a Bahia continua sendo um produtor e exportador de commodities e não de bens finais. O aparelho produtivo montado no Estado continua a servir de mera engrenagem de processos de produção cuja parte mais lucrativa não está estabelecida aqui17. Tabela 4 - Estrutura das exportações baianas em US$ FOB - 1999 a 2004 Tipo de Mercadoria Bens de Capital Bens Intermediários Alimentos e Bebidas destinados à indústria Insumos Industriais Peças e acessórios de equipamentos de transporte Bens de Consumo Duráveis Não-duráveis Combustíveis e Lubrificantes Outras Operações TOTAL Tipo de Mercadoria Bens de Capital Bens Intermediários Alimentos e Bebidas destinados à indústria Insumos Industriais Peças e acessórios de equipamentos de transporte Bens de Consumo Duráveis Não-duráveis Combustíveis e Lubrificantes Outras Operações TOTAL Fonte: SECEX - MDIC 17 2004 Valor % do Total 0,68 27.774.516 63,86 2.594.555.455 9,50 386.023.054 53,09 2.157.007.938 1,27 51.524.463 21,01 853.439.351 16,03 651.188.173 4,98 202.251.178 13,47 547.080.654 0,99 40.066.284 100,00 4.062.916.260 2001 Valor % do Total 1,05 22.151.417 66,27 1.404.751.284 6,56 139.120.818 59,44 1.259.938.305 0,27 5.692.161 5,73 121.380.471 0,48 10.106.824 5,25 111.273.647 24,39 517.009.568 2,56 54.358.348 100,00 2.119.651.088 2003 Valor % do Total 0,77 25.152.819 61,22 1.994.911.434 8,46 275.543.423 52,35 1.705.963.869 0,41 13.404.142 18,19 592.711.396 13,02 424.170.516 5,17 168.540.880 18,48 602.128.823 1,35 43.867.939 100,00 3.258.772.411 2000 Valor % do Total 1,46 28.382.185 82,02 1.593.624.697 7,65 148.653.885 73,74 1.432.797.585 0,63 12.173.227 4,76 92.449.760 0,19 3.730.184 4,57 88.719.576 9,22 179.127.780 2,54 49.383.476 100,00 1.942.967.898 2002 Valor % do Total 0,98 23.586.276 68,80 1.658.068.348 7,33 176.641.821 61,25 1.476.128.654 0,22 5.297.873 11,30 272.314.796 5,69 137.141.956 5,61 135.172.840 17,18 414.144.084 1,74 41.923.648 100,00 2.410.037.152 1999 Valor % do Total 1,72 27.142.005 84,37 1.333.992.036 9,08 143.610.955 74,50 1.177.983.840 0,78 12.397.241 4,39 69.409.304 0,37 5.903.916 4,02 63.505.388 7,64 120.739.616 1,89 29.862.896 100,00 1.581.145.857 Isso reforça a tese de que a “desconcentração concentrada” e a reprodução do caráter complementar da industrialização baiana continuam a operar ainda no século XXI. Segundo Brito (2004, p.44): “As indústrias que se instalaram na região Nordeste, a partir de então, eram, em grande parte, novas, intensivas em capital e produtoras de bens intermediários; essa base industrial era complementar, portanto, às indústrias localizadas na região Sudeste. Assim, o processo de “desconcentração concentrada” cumpriria sua dupla função: conter a efervescência das massas camponesas na região mais pobre, ao tempo em que forjava a emergência de uma classe social nova com relativo poder de consumo, via melhor remuneração nas indústrias; ampliar o processo de produção/acumulação e centralização do capital no Brasil, com a instalação de filiais industriais”. A política industrial baiana tem se caracterizado pela atração, via pesados incentivos fiscais, de grandes empresas industriais e de serviços (especialmente no ramo de hotelaria). É intrigante o fato de que os governos estaduais dos últimos anos não conseguiram montar um sistema regional de inovações capaz de dinamizar a produção industrial e gerar fatores de atração que não propriamente os fiscais. Entretanto, a questão essencial é que essa política de favorecimentos ao grande capital monopolista não tem se traduzido em aumento da oferta de empregos no Estado. A região metropolitana de Salvador continua sendo aquela com a maior taxa de desemprego do país (Tabela 5). Em dezembro de 2004, segundo dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) do DIEESE, essa taxa atingiu o patamar de 24,8%, o que significa o impressionante número de 421.000 desempregados. A magnitude do “exército social de reserva” que a Região Metropolitana de Salvador ostenta, serve, consciente ou inconscientemente, como um atrativo essencial para a instalação de empreendimentos (especialmente daqueles que não necessitam de forças de trabalho com qualificação relativamente elevada)18. 4.2 As implicações da política monetária na taxa de desemprego formal e nível de renda dos trabalhadores da RMS. A região metropolitana de Salvador sofreu também com as mudanças implementadas pela inflexão da política econômica na década de 90, e o seu mercado de trabalho foi desarticulado tendo que se readequar ao novo contexto da economia brasileira, marcado por política monetária restritiva com elevadas taxas de juros e redução de crédito. (O que inviabilizou o investimento produtivo e facilitou a acumulação financeira através do investimento financeiro com altíssima rentabilidade). 18 Segundo Marx (1996, Vol. II, p. 267): “Grosso modo, os movimentos gerais do salário são exclusivamente regulados pela expansão e contração do exército industrial de reserva, que correspondem à mudança periódica do ciclo industrial. Não são, portanto, determinados pelo movimento do número absoluto da população trabalhadora, mas pela proporção variável em que a classe trabalhadora se divide em exército ativo e exército de reserva, pelo acréscimo e decréscimo da dimensão relativa da superpopulação, pelo grau em que ela é ora absorvida, ora liberada. Para a indústria moderna, com seu ciclo decenal e suas fases periódicas, que, além disso, no decorrer da acumulação, são entrecruzadas por oscilações irregulares em sucessão cada vez mais rápida, seria, de fato, uma linda lei a que regulasse a demanda e a oferta de trabalho não pela expansão e contração do capital — portanto, de acordo com suas necessidades momentâneas de valorização, de modo que o mercado ora parece relativamente subsaturado porque o capital se expande, ora novamente supersaturado porque ele se contrai — mas, inversamente, fazendo a dinâmica do capital dependente do movimento do tamanho da população”. O que se observa é que nos anos 90, a taxa de desemprego da Região Metropolitana de Salvador sofreu aumentos consideráveis ano após ano, se tornando a região campeã do desemprego no Brasil, e com uma precarização do trabalho acentuada. A Região metropolitana de Salvador é caracterizada por ter um setor industrial razoavelmente desenvolvido, com uma indústria de bens intermediários e um setor de serviços diversificado, que representa aproximadamente a metade do produto da Bahia, com o setor industrial correspondendo a uma parcela significativa na formação do Pib baiano. A reestruturação que ocorreu no setor industrial no fim da década de 80 teve um impacto significativo no aumento da taxa de desemprego da RMS; foram extintos quase 50% de empregos nesse ramo de atividade, mais especificamente no pólo petroquímico de Camaçari, seguido pelo Centro industrial de Aratu, que não teve muito sucesso no que se propunha, que era a formação de um Pólo do ramo de plásticos. Mas o que de fato se configura é que a tendência de reestruturação produtiva é um fenômeno mundial, com reflexos na economia nacional e em particular na Bahia. O diferencial dessa questão é analisar as particularidades dessa reestruturação na Bahia e como influenciou a RMS, qual foi a influência na Região campeã do desemprego no Brasil e até que ponto ela pesa na readequação do mercado de trabalho. O que se pode inferir nesse dado é que a capital baiana é mais sensível às mudanças estruturais do que outras regiões brasileiras tendo em vista a sua economia ser pouco diversificada e concentrada. O que se pode depreender dessa situação é que os efeitos da política monetária brasileira foram bastante negativos para Salvador, uma vez que com o declínio do Pólo petroquímico de Camaçari e do CIA, o setor de serviços se tornou a válvula de escape para os trabalhadores desempregados, e aí surge o grande problema. O que se pode notar é que os novos investimentos feitos aqui na Bahia, principalmente no setor industrial, são investimentos com capital intensivo, deixando de lado setores intensivos em mão de obra, como a Construção civil, por exemplo. Com uma economia em recessão e sem perpesctiva de crescimento esse setor fica estagnado, não gerando novos postos de trabalho tanto para os trabalhadores que perderam sua vaga, quanto para quem está entrando no mercado de trabalho. Resultando em taxas de desemprego assustadoras, em função de crescimentos “pífios” e demanda agregada retraída. Ai surge outro problema para a “classe que vive do trabalho” em Salvador, a precarização do trabalho, que pode ser vista através de subcontratações, terceirização, contrato por tempo determinado e a exploração através do aumento de jornada de trabalho, horas extras e outros artifícios como o banco de horas. O trabalhador aceita esse tipo de condições por não ter alternativa. O desemprego é a grande arma dos empregadores como instrumento de intimidação frente ao enorme “exército de reserva” que está fora do mercado de trabalho formal. Aliado a restrição monetária que impede o crescimento do setor, se insere outro elemento complicador, o alto custo do investimento produtivo que desestimula qualquer novo empreendimento. O setor produtivo, além de ter de criar situações para garantir a sua rentabilidade, se depara com a falta de condições de investimento. Soma-se a isso o fato de que o investimento financeiro é muito mais rentável e com uma enorme variedade de produtos e facilidades de investimentos, com retorno garantido e praticamente sem risco (na sua grande maioria – os Títulos públicos), garantido pelo governo que estimula este tipo de negócio, tendo em vista esse ser um dos objetivos da política econômica, oferecer tranqüilidade ao capital e rentabilidade segura para que esse capital fique no país. Houve uma intensificação na difusão de postos de trabalho de baixa qualidade, aliado ao avanço das formas de contratação flexíveis (trabalho assalariado sem carteira assinada, trabalho autônomo etc.), tornando a estrutura ocupacional mais frágil, num contexto em que o setor industrial perde força no papel de criação de novos postos de trabalho para o setor de serviços – processo denominado de terciarização. Na breve síntese de Pochmann (2000, p.78): O período pós-1980 foi de reversão na trajetória geral das ocupações, com fortes sinais de uma progressiva desestruturação do mercado de trabalho. O desassalariamento de parcela crescente da População Economicamente Ativa e a expansão das ocupações nos segmentos não-organizados e do desemprego têm ocorrido paralelamente ao abandono do projeto de industrialização nacional e a adoção de políticas macroeconômicas de reinserção passiva e enfraquecimento do estatuto do trabalho. Essas tendências se refletem, abstraindo as particularidades de cada região, de forma comum em todas as regiões do país. A região Nordeste apresenta taxas significativas de ocupações de baixa qualidade, como as por conta própria e não-remuneradas, assim como a proporção de assalariados é reduzida em comparação com as outras regiões do país. Isso se deve em grande parte ao padrão de acumulação que se desenvolveu, integrado de forma subordinada ao processo de industrialização do país liderado pelas regiões Sul e Sudeste. O padrão de desenvolvimento do Nordeste, baseado na complementaridade em relação à expansão concentrada e centralizada do capital industrial no Centro-Sul do país, deu forma a um mercado de trabalho bastante heterogêneo, com forte presença do subemprego. Nesse contexto, o mercado de trabalho na região metropolitana de Salvador não foge a regra explicitada acima, as tendências apontadas para o mercado de trabalho das demais regiões metropolitanas do país: também se aplicam à RMS taxas elevadas de desemprego, redução dos empregados com carteira de trabalho assinada e aumento das contratações sem registro e das atividades informais o que se configura a precarização do trabalho e expansão do setor de serviços. A economia baiana, especialmente o seu núcleo situado na RMS, onde estão concentradas as principais atividades econômicas formadoras do PIB estadual, o equivalente a mais de 50% do produto da Bahia, refletiu, na década de 1990, as mudanças macroeconômicas das políticas de estabilização da economia nacional. A subordinação dessa economia à dinâmica da acumulação nacional, principalmente às regiões Sul e Sudeste do país, faz com que os efeitos das transformações na produção e no emprego tenham características particulares em relação às demais regiões industrializadas do país. A evolução do mercado de trabalho na RMS nos anos 90 ratifica essa situação, em que se verificam o crescimento da precariedade das relações de trabalho, com o predomínio da geração de postos de trabalho sem proteção social e expansão da informalidade de forma totalmente desregulada (trabalho autônomo, “bicos” etc.) como alternativa ao desemprego, configurando-se em meios de garantir a sobrevivência, captada nas elevadas taxas de desemprego oculto por trabalho precário. Conforme indica o quadro abaixo, há uma presença marcante das altas taxas de desemprego, tanto aberta quanto oculta, na Região Metropolitana de Salvador. Tabela 5 - Taxa de desemprego total nas Regiões Metropolitanas e no Distrito Federal - 1998/2004 (em %) Regiões Metropolitanas e Distrito Federal Período Belo Distrito Porto Recife Salvador São Paulo Horizonte Federal Alegre 21,6 18,2 15,9 19,7 15,9 1998 24,9 22,1 19,3 17,9 22,1 19,0 1999 27,7 20,7 17,6 17,8 20,2 16,6 2000 26,6 21,1 17,6 18,3 20,5 14,9 2001 27,5 20,3 19,0 18,1 20,7 15,3 2002 27,3 23,2 19,9 20,0 22,9 16,7 2003 28,0 23,0 19,1 20,4 21,7 15,3 jan/04 26,0 23,1 19,8 21,0 22,5 15,8 fev/04 26,6 24,2 20,6 21,3 23,1 17,2 mar/04 26,7 24,7 20,7 21,1 22,9 17,7 abr/04 26,7 24,5 19,7 21,2 21,8 17,2 mai/04 25,7 24,1 19,1 20,7 21,4 16,8 jun/04 25,5 23,5 18,5 19,6 20,9 16,3 jul/04 25,3 23,8 18,3 18,6 20,3 15,9 ago/04 25,2 22,8 17,9 18,0 19,9 15,1 set/04 25,1 22,7 17,6 17,2 19,6 14,8 out/04 25,0 21,7 17,4 16,9 19,8 14,5 nov/04 25,2 21,2 17,1 17,0 19,3 14,4 dez/04 24,8 Fonte: Convênio DIEESE/SEADE, MTE/FAT e convênios regionais. PED Pesquisa de Emprego e Desemprego A dinâmica do mercado de trabalho e sua estrutura sócio-ocupacional ganharam novas características ao longo dos anos de abertura comercial, privatizações, taxas de juros elevadas, reestruturação do parque produtivo nacional (com destaque para a desindustrialização). O desenvolvimento industrial baiano baseado na produção intensiva em capital de bens intermediários para atender à demanda nacional - também externa - apresenta uma baixa capacidade de expansão do nível de ocupação e de absorção de mão de obra e de diversificação da estrutura produtiva da indústria baiana. Essas formas de reprodução do trabalho [não tipicamente capitalista] representam o fato de que a crescente superpopulação relativa da força de trabalho liberada pelo desenvolvimento capitalista na região, não foi absorvida na forma social tipicamente capitalista, o capital tendeu a recriá-la e a comprá-la no mercado de acordo com o ritmo da expansão e das novas condições de produção. Em conseqüência, esse processo condicionará na Bahia, particularmente em Salvador e RMS, a predominância de formas de incorporação do excedente da força de trabalho bastante precarizada, sem a mínima proteção social, agravando-se em extensão e profundidade a depender das variáveis conjunturais das crises econômicas e das estratégias de reestruturação produtiva. O quadro do processo de precarização das relações e trabalho pode ser constatado no plano empírico com alguns dados de precarização, representando em seu conjunto a singularidade da formação histórica das relações de trabalho na região, marcada por elementos de baixo grau de organização e racionalização nas atividades produtivas, e que persistem em muitas dimensões até os anos mais recentes. Basta destacar que na RMS, entre 1987 e 1989, a taxa de informalização do mercado de trabalho na indústria foi de 8,2%, construção civil 44,4%, comércio 48,9%, serviços 20,6%, serviços assinada representava 51,45% do total de ocupados; em 1990, cai para 50,9% (PNAD, 1990). (ANDRADE, 2000, p.148) Observa-se que já no século XXI, a política industrial baiana mostra-se incapaz de produzir soluções, tanto para a diversificação do parque produtivo industrial, quanto para atenuar o elevado índice de desemprego. Apesar da implantação de novos empreendimentos industriais e de serviços, como, por exemplo, a planta do Projeto Amazon da Ford foi implantado em Camaçari na Bahia contemplando um investimento total de US$ 1,3 bilhão e a perspectiva de produzir 250 mil veículos de cinco modelos por ano e gerar 5 mil empregos diretos, que marcou, nos anos recentes, uma mudança no padrão de industrialização da região, e que não surtiu efeito em termos de promoção de uma maior diversificação e integração da estrutura industrial regional, capaz de criar uma expansão considerável do nível de ocupação. De fato, as transformações no padrão de acumulação da RMS, segundo dados mais recentes, têm acentuado as características estruturais “excludentes” deste mercado de trabalho, a concentração da renda e da propriedade. A partir do panorama exposto acima acerca das relações de trabalho que se vêm estabelecendo ao longo da década de 1990 nos mercados de trabalho regionais, buscarse-á compreender a essencialidade dos impactos da política econômica no mercado de trabalho da região metropolitana de Salvador neste “novo e precário mundo do trabalho” (ALVES,2000). O cenário descrito acima elenca algumas questões que nos permite inferir que as conseqüências das taxas de desemprego formal, na Região metropolitana de Salvador, estão inseridas nas duas questões que procuram explicar o desemprego na década de 90 nas regiões metropolitanas brasileiras. Pode-se concluir que dois conjuntos de fatores são responsáveis pelos dois principais problemas que os trabalhadores brasileiros enfrentam na atualidade - desemprego estrutural de massa e a precariedade das ocupações, sendo que a informalidade é a principal e a mais violenta delas: as determinações conjunturais, relativas aos ciclos de crescimento da economia brasileira após o ajuste neoliberal e as determinações estruturais, associadas ao processo de reestruturação produtiva. Esse conjunto de fatores interfere de forma diferenciada em cada uma das regiões, obedecendo às particularidades da estrutura e conjuntura econômica de cada região metropolitana, observa-se que a região Nordeste foi historicamente desenvolvida em função das economias Sul e Sudeste, ou seja, dependente dessas duas regiões. O processo de industrialização da Bahia baseado na indústria de bens intermediários que começou com a implantação da Refinaria de Mataripe na década de 50, aproveitando-se da disponibilidade de petróleo existente no Estado, com a formação de um complexo mínero-metalúrgico em Candeias na década de 60, a implantação do CIA — (Centro Industrial de Aratu), do Complexo Petroquímico de Camaçari e da metalurgia do cobre entre a década de 70 e 80. Todo esse conjunto de empreendimentos foi concentrado na RMS — Região Metropolitana de Salvador que responde por 70% da produção industrial do Estado. A consolidação da industrialização na Bahia fez com que ocorressem profundas transformações na estrutura econômica do Estado, com uma redução do peso da agricultura e um aumento significativo da participação do setor secundário no PIB estadual, principalmente dos segmentos químico e petroquímico. O desenvolvimento desses setores fez com que a Bahia se transformasse em uma das principais fornecedoras nacionais de matérias-primas e bens intermediários (intensivos em capital e tecnologicamente modernos). Visando complementar à matriz de produção já desenvolvida na região Sudeste do país. Essa estratégia contemplava a atração de grandes empresas produtoras de bens intermediários que atuariam como pólos do desenvolvimento industrial juntamente com as empresas produtoras de bens finais que se instalariam a jusante nos centros e distritos industriais criados para abrigá-las, na Região Metropolitana de Salvador. È importante ressaltar é que as industrias e em particular o Complexo Petroquímico, que ao se instalar no estado tinham como projeto fechar a cadeia produtiva, não produziu os efeitos multiplicadores esperados com a implantação de um parque de indústrias de transformação produtoras de bens finais. Ampliando a dependência da Bahia às flutuações da economia nacional e internacional. (Spinola,2001) As novas polarizações do mundo do trabalho no Brasil decorrem da precarização do mercado (e do estatuto) de trabalho nos pólos ‘modernos’ da indústria brasileira. Constituem-se novas disparidades no interior da cadeia produtiva dos setores ‘modernos’ da produção capitalista. Ocorre uma fragmentação de classe, com a desintegração entre segmentos operários ‘privilegiados’ e segmentos operários ‘perdedores’, seja no interior da cadeia produtiva, seja no interior da planta industrial. Surge uma série de discriminações de estatutos salariais, de gênero e faixa etária (é exemplar, o caso da disparidade dos estatutos salariais entre os operários metalúrgicos das montadoras – ‘os ganhadores’ – e os operários metalúrgicos das autopeças – ‘os perdedores’ -, no complexo automotivo do ABC paulista, principalmente a partir de 1990). (ALVES, 2000, p.270). Partindo desse principio percebe-se que a conjuntura econômica baiana, esta estruturada no entorno da região metropolitana, onde estão presente o setor industrial baiano na sua maioria, e o setor de serviços que esta mais concentrado na capital, ou seja, a região metropolitana de Salvador corresponde em termos de produto mais de 50% do que se produz na Bahia. Os poucos investimentos ocorridos nesse setor trata-se em industria intensiva em capital, que necessita um grande aporte de capitais com geração de poucos postos de trabalho. Portanto este setor não tem mais capacidade de absolver a mão de obra que absolvia na década de 80 e que desempregou na década de 90, devido às inovações tecnológicas e organizacionais. Muito menos gerar postos de trabalho para o contingente de pessoas que adentram no mercado de trabalho. Esses fatores levam as pessoas a migrar para o setor de serviços, como única alternativa para entrar no mercado formal de emprego. Ou entrar para informalidade o que caracteriza a precarização do trabalho, visto que essas pessoas não possuem nenhum tipo de proteção social, ou garantia de renda. É nesse contexto que o ajuste neoliberal mais precisamente a política monetária ortodoxa, interfere de forma bastante desastrosa no mercado de trabalho da região metropolitana de Salvador. Uma região que em termos de geração de empregos formais necessita muito do setor de serviços (particularidade que não é privilégio da RMS, e sim uma tendência nacional), uma vez que o setor industrial baiano não consegue nem de longe atender a necessidade de geração de empregos da economia regional. Uma economia marcada pelo baixo crescimento e por uma demanda agregada reprimida, sendo resultado dos ajustes macroeconômicos da política macroeconômica neoliberal, que tem por objetivo justamente conter a demanda agregada. Tem responsabilidade quase que diretamente no processo de recessão da economia gerando problemas diretos no mercado de trabalho. Observa-se que as altas taxas de desemprego formal ocorrido na região metropolitana de Salvador é resultado dessa particularidade da economia baiana. Uma economia que era muito dependente do setor industrial, em que pese, a geração de postos de trabalho formal que se consolidou no inicio da industrialização, marcado por uma industrialização intermediaria, tendo como meta se transformar em industria de bens finais (o que de fato nunca se realizou na Bahia). Este setor sofreu um impacto muito forte quando ocorreu a desindustrialização, onde houve inovações tecnológicas e organizacionais que decorreu o desemprego estrutural em massa. Não conseguiu se reabilitar se perpetuando em industria de bens intermediários, dependente do centro (nesse caso as regiões Sul e Sudeste, onde estão localizados as industrias de bens finais) e de alguns países, não conseguindo suprir a demanda por vagas sempre crescente. O setor de serviços por sua vez acaba ficando sobrecarregado, visto que ele é muito dependente do crescimento da economia, o que não acontece desde década de 80, que ficou conhecida como década perdida (período de estagflação), e continuou nos anos 90, que ficou denominada a década desperdiçada. Uma política monetária que inviabiliza o crescimento da economia, o investimento produtivo e que privilegia o investimento financeiro, só pode ter como conseqüência uma recessão da economia, com reflexos negativos para o mercado de trabalho, tendo em vista a readequação desse mercado com prejuízos direto para os trabalhadores. A RMS sofre diretamente esses impactos, sendo há muitos anos a região com a maior taxa de desemprego do Brasil, o que evidencia a influência da particularidade da região. Onde tem um setor industrial que praticamente se estagnou na geração de empregos formais, se caracterizando um setor industrial de bens intermediários com industria intensiva em capital. O que pode ser evidenciado nos centros de papel e celulose e o complexo da Ford, que se constituem em novos investimentos que foram realizados no setor industrial baiano recentemente, como resultado da política industrial do estado O setor de serviços permanece sobrecarregado se mostrando incapaz de gerar vagas de empregos formais. O que realmente acontece na RMS é o aumento da Informalidade e aumento da precarização do trabalho, uma vez que os abusos aos trabalhadores são mais que freqüente, com aumento da exploração do trabalho, aumento da jornada, horas extras, contratações temporárias e por tempo determinado. Isso é visto quando analisamos as pesquisas que retratam tal situação, onde se verifica nível de renda, taxa de desemprego e informalidade. Esses aspectos retratam uma realidade da RMS que se verifica durante toda a década de 90, e de difícil resolução visto que a política monetária que é a principal responsável desse fenômeno continua com seu principal tronco, altas taxas de juros, política restritiva de crédito, metas de inflação. O que resulta em condições desfavoráveis para o investimento produtivo que proporcionaria as condições para o crescimento da economia e a geração de empregos formais. Quando analisamos a estrutura das pessoas ocupadas e desempregadas que formam a PEA (População Economicamente Ativa) observa-se que o perfil do trabalhador brasileiro, na década de 90, apresentava, segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios) as seguintes características: 50,5% dos trabalhadores nacionais são jovens adultos na faixa de 20 a 39 anos, 59,6% têm menos de oito anos de escolaridade e 59,7% são do sexo masculino. No período, a redução do nível de ocupação da indústria na RMS e a mecanização da agricultura no campo se traduziram em crescimento das taxas de desemprego aberto e oculto, tanto por trabalho precário quanto por desalento. Os mercados de trabalho estão mais deprimidos nas principais regiões metropolitanas, com baixo dinamismo na capacidade de ampliação dos níveis globais de ocupação para absorver o crescimento da força de trabalho. A perda da capacidade de geração de postos de trabalho nos setores industriais é acompanhada da expansão na absorção da força de trabalho no setor de serviços e do “aumento das relações de trabalho à margem da legislação trabalhista, além da crescente importância dos trabalhos autônomos e em serviços domésticos, como alternativa ao desemprego”.(DIEESE, 2001, p.61). È importante observar que essa analise ratifica a situação que aconteceu na RMS, nos anos 90. Uma região que tinha um setor industrial que gerava um numero considerável de empregos, na década de oitenta, com baixo dinamismo da sua economia, sendo insuficiente para gerar postos de trabalho que absorvesse a demanda por ocupações, acarretando em um maior prejuízo para a região em decorrência das mudanças ocorridas na década de 90. Houve uma perda da capacidade de geração de vagas do setor industrial aliada a uma expansão da absorção de trabalhadores no setor de serviços, e aumento de relações de trabalho irregulares, do ponto de vista da legislação trabalhista, como alternativa ao desemprego. O que se constata é que essa mudança não foi suficiente para suprir a deficiência de postos de trabalho, que a reestruturação gerou, na região metropolitana de Salvador, tendo esta região persistindo durante toda a década de 90, com as maiores taxas de desemprego do país. Tendo em vista a sua maior deficiência na dinâmica de sua economia. A tabela abaixo fornece uma visualização de modificações que ocorreram, no fim da década de 90, e inicio dos anos 2000 na taxa de participação e no tipo do desemprego na RMS. TABELA 3 TAXAS DE PARTICIPAÇÃO E DESEMPREGO POR TIPO NO TRIMESTRE REGIÃO METROPOLITANA DE SALVADOR - BAHIA (RMS) Abril 1997 - Abril 2006 (Em Porcentagem) Participação (PEA/PIA) Período Abril/1997 Abril/1998 Abril/1999 Abril/2000 Abril/2001 Abril/2002 Abril/2003 Abril/2004 Abril/2005 59,7 59,4 59,1 60,1 60,8 62,1 62,2 62,2 60,3 Taxa de desemprego por Tipo Aberto Total 21,2 24,6 27,5 28,2 28,2 29,4 26,7 25,6 24,8 12,4 14,3 16,2 16,2 16,1 17,6 18,6 15,9 14,9 Oculto Trab. Precário Desalento 5,4 6,9 7,8 8,3 7,9 7,8 7,4 7,3 7,3 3,4 3,3 3,5 3,7 3,1 3,4 3,4 3,5 2,4 Total 8,8 10,2 11,3 12 11 11,2 10,8 10,8 9,7 As taxas de desemprego que foram apresentadas na tabela acima revelam as dimensões atuais do desemprego na região metropolitana de Salvador, com destaque para o crescimento das taxas de desemprego oculto ao longo da década de 90. Esse aumento do desemprego oculto, que esta dividido entre trabalho precário e por desalento, pode ser explicado pela falta de capacidade do setor de serviços em absorver os trabalhadores legalmente, uma vez que a realidade impõe dificuldade de sobrevivência desse setor devido a retração econômica que o país começou a conhecer na década passada, que evidenciou crescimento econômico inexpressivos e prejudiciais ao setor da economia real em particular. A chegada da década de 90 pôs fim a uma característica que existia, entre as décadas de 40 e 80, onde o mercado de trabalho apontava na direção da incorporação de uma parcela maior dos trabalhadores à rede de proteção social pela via do emprego formal. A ruptura desse processo como já foi dito, ocorre com a ascensão e hegemonia do projeto liberal dominante de integração passiva ao mercado mundial na década de 1990. Houve uma intensificação na difusão de postos de trabalho de baixa qualidade, aliado ao avanço das formas flexibilizadas de contratação (trabalho assalariado sem carteira assinada, trabalho autônomo etc.), Nesse contexto, o mercado de trabalho na região metropolitana de Salvador segue, como foi dito acima, as tendências apontadas para o mercado de trabalho das demais regiões metropolitanas do país: taxas elevadas de desemprego, redução dos empregados com carteira de trabalho assinada e aumento das contratações sem registro e das atividades informais e expansão do setor de serviços como já foi explicitado anteriormente. E com um elemento complicador que é a maior debilidade da região em relação as outras capitais do Brasil em dinamizar a sua economia, dotando a região de instrumentos capazes de gerar emprego formal e dentro da legislação trabalhista vigente. A descrição dos dados da tabela acima ilustra e revela a condição do trabalhador, demarcado por um novo sistema de relações de trabalho que determina as tendências recentes de ampla "desestruturação do mercado de trabalho”. Os dados observados a partir dos anos 90 são resultados de algumas tendências que se sobrepuseram ao mercado de trabalho, em razão das transformações estruturais ocorridas no decorrer da década de 90, ditadas pelas novas necessidades da acumulação capitalista, frente a uma nova realidade de abertura comercial e financeira sem precedentes na economia contemporânea, onde o principal prejudicado nessa nova fase do capitalismo é, sem sombra de dúvida, o trabalhador. Conclusões A partir do exposto nos capítulos descritos acima e nos seus tópicos, podemos identificar algumas questões importantes que permearam o cenário da economia brasileira contemporânea, podendo tirar algumas conclusões sobre o resultado de uma política ortodoxa. Com relação às mudanças no mundo do trabalho, observamos que a readequação surgiu como resposta do setor produtivo a política econômica, de forma a conseguir se sustentar diante de uma realidade nada favorável para a economia real, uma realidade em que o setor financeiro é favorecido diretamente pela política ortodoxa. O trabalhador, vai conhecer uma nova realidade no que diz respeito às condições de trabalho, forma de contratação e remuneração de sua força de trabalho, bastante desfavorável à períodos anteriores, tendo seus direito suprimidos mesmo que de forma ilegal com a deteriorização das Delegacias Regionais do Trabalho. No que diz respeito ao crescimento econômico a economia brasileira conheceu uma recessão, com taxas irrelevantes ocasionando taxas elevadíssimas de desemprego formal o crescimento da informalidade aumento da precariedade do trabalho. As custas do controle inflacionário, através das elevadas taxas de juros e do câmbio sobrevalorizado, o que reflete em uma desaceleração de outro setor real da economia o das exportações com reflexos negativos para o mercado de trabalho. A divida pública tem um crescimento exponencial, no período da década de 1990, colocando o país em situação extremamente vulnerável ao capital financeiro, em particular o internacional, o que externa outra vulnerabilidade do país, a sensibilidade dos “choques externos” e crises internacionais. Essa nova realidade da economia brasileira tem impactos profundos na classe que vive do trabalho, a intensificação do ritmo de trabalho, com conseqüente elevação do desgaste da força de trabalho, visando à elevação da produtividade do trabalho cujas conseqüências diretas são redução do tempo de trabalho necessário e elevação da maisvalia relativa produzida pela classe trabalhadora. Esse impacto é percebido pelos trabalhadores que ainda resistem ao elevado desemprego nessa década, outra parte que é empurrada para a informalidade sofre outros recalques, a precarização é um dos fatores mais cruéis da nova fase do mercado de trabalho, sem nenhuma proteção social e garantia de renda aos trabalhadores. O traçado de um breve panorama das mudanças estruturais da economia no Brasil na década de 1990 permitiu visualizar que a inserção brasileira a “nova ordem internacional” de favorecimento aos circuitos financeiros trouxe sérias conseqüências a economia real, vide a variação das taxas de crescimento nacional, crescimento espantoso da divida pública, e dos serviços financeiros pagos ao exterior com saldo sempre negativo para o país. A partir daí o mercado de trabalho sofre efeitos negativos, tendo em vista essa nova fase da economia brasileira, com o primeiro reflexo negativo em função da retração econômica e recessão que assola o país, proporcionada pela queda da rentabilidade do setor produtivo. Que para garantir sua sobrevivência e rentabilidade passa a reduzir postos de trabalho, direitos trabalhistas, e aumentar a intensidade do trabalho e precarização. Esse movimento é percebido basicamente nas regiões metropolitanas, onde é feito levantamento e pesquisa sobre o emprego e renda dos trabalhadores, e a constatação é que os efeitos dessa política não são nada favoráveis à classe que vive do trabalho, o aumento constante das taxas de desemprego, aumento da informalidade e diminuição da renda, é um fato. Nesse primeiro momento essa constatação foi evidenciada através dos efeitos negativos na renda dos trabalhadores, tendo em vista o aumento da concentração de renda no Brasil. Observa-se que cada região metropolitana sofre efeito um pouco diferenciado tendo em vista as particularidades da região, em que pese a estrutura econômica e em particular dos setores das regiões. O mercado de trabalho em todo Brasil teve impactos negativos depois da implementação das políticas neoliberais macroeconômicas, os trabalhadores foram os principais prejudicados, devido o aumento do desemprego, aumento da exploração do trabalho, vide aumento da produtividade e aumento da extração da maisvalia, redução dos níveis de renda e aumento da precarização do trabalho, através do aumento da informalidade que não proporciona nenhuma proteção social ao trabalhador. Na região metropolitana de Salvador a particularidade de como foi construída a estrutura da sua economia, particularmente o setor industrial, que no inicio da década de 80, era gerador de muitos postos de trabalho, foi bastante abalado, tendo em vista as inovações tecnológicas e organizacionais, que assolaram o mercado de trabalho na década de 90. Esse setor tornou-se insuficiente para absolver a massa de trabalhadores que adentram no mercado de trabalho além de gerar desemprego em massa e em alguns casos acabar com empregos, ou seja deixaram de existir e não vai mais voltar a existir. O setor de serviços surge como alternativa para o emprego formal, e geração de postos de trabalho, extintos da indústria aqui na RMS uma vez que o setor industrial aqui na Bahia foi formado no entorno da região metropolitana e era o maior gerador de empregos. O que se evidenciou internamente na RMS foi que o baixo crescimento do país, vide implementação das políticas neoliberais e em particular da monetária restritiva, foi que o impacto aqui em Salvador foi muito grande em comparação as outras regiões do país, o que levou a capital baiana a ter desde o inicio dos anos 90 a maior taxa de desempregados do Brasil. È nesse ponto que a política econômica do país interfere quase que diretamente na RMS, gerando impactos bastante negativos para o trabalhador soterapolitano, principalmente no que diz respeito a desemprego formal e diminuição da renda média, proporcionando aos trabalhadores expulsos do mercado formal para o mercado cruel da informalidade. Conclui-se que essa política foi desastrosa para todo o país e em particular em Salvador onde devido a estrutura e conjuntura econômica da região, o baixo dinamismo da sua economia gerou impactos bem mais significativos do que outras regiões metropolitanas brasileiras, esse fenômeno fica agravado para a RMS quando ocorre a concorrência com outras regiões, para se atrair novos investimentos, o prejuízo torna-se muito maior, o que pode-se constatar nos indicadores do mercado de trabalho. REFERÊNCIAS ALVES, Giovanni. O Novo (e Precário) Mundo do Trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo. São Paulo: Boitempo, 2000. ANDRADE, Eliziário. Nova Ofensiva do Capital sobre o Trabalho. Salvador: Universidade Católica do Salvador, 2000. ANDERSON, Perry. Balanço do neoliberalismo. In: SADER, Emir; GENTILI, Pablo. Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. Petrópolis: Vozes, 1995. ANTUNES, Ricardo. 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