ESTUDOS DA LITERATURA PORTUGUESA ESTUDO DA LITERATURA PORTUGUESA 1 SOMESB Sociedade Mantenedora de Educação Superior da Bahia S/C Ltda. Estudo Literatura Portuguesa da Presidente ♦ Gervásio Meneses de Oliveira Vice-Presidente ♦ William Oliveira Superintendente Administrativo e Financeiro ♦ Samuel Soares Superintendente de Ensino, Pesquisa e Extensão ♦ Germano Tabacof Superintendente de Desenvolvimento e>> Planejamento Acadêmico ♦ Pedro Daltro Gusmão da Silva FTC - EaD Faculdade de Tecnologia e Ciências - Ensino a Distância Diretor Geral ♦ Reinaldo de Oliveira Borba Diretor Acadêmico ♦ Roberto Frederico Merhy Diretor de Tecnologia ♦ Jean Carlo Nerone Diretor Administrativo e Financeiro ♦ André Portnoi Gerente Acadêmico ♦ Ronaldo Costa Gerente de Ensino ♦ Jane Freire Gerente de Suporte Tecnológico ♦ Luís Carlos Nogueira Abbehusen Coord. de Softwares e Sistemas ♦ Romulo Augusto Merhy Coord. de Telecomunicações e Hardware ♦ Osmane Chaves Coord. de Produção de Material Didático ♦ João Jacomel EQUIPE DE ELABORAÇÃO/PRODUÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO: ♦ PRODUÇÃO ACADÊMICA ♦ Gerente de Ensino ♦ Jane Freire Coordenação de Curso ♦ Jussiara Gonçalves Autores (as) ♦ Nildete Costa da Mata dos Reis / Celina Abbade Supervisão ♦ Ana Paula Amorim ♦ PRODUÇÃO TÉCNICA ♦ Revisão Final ♦ Carlos Magno Brito Almeida Santos Equipe ♦ Ana Carolina Alves, Cefas Gomes, Delmara Brito, Diego Maia, Fábio Gonçalves, Francisco França Júnior, Hermínio Filho, Israel Dantas e Mariucha Ponte Editoração ♦ Diego Maia Ilustração ♦ Mariucha Silveira Ponte/Francisco França Júnior Imagens ♦ Corbis/Image100/Imagemsource copyright © FTC EaD Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/98. É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito, da FTC EaD - Faculdade de Tecnologia e Ciências - Ensino a Distância. www.ftc.br/ead 2 Sumário A LITERATURA PORTUGUESA DA IDADE MÉDIA AO ARCADISMO ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ AS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES LITERÁRIAS EM PORTUGAL A Formação de um Estado Independente: Portugal ○ 1ª Época Medieval ○ ○ ○ A Novela de Cavalaria ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 07 10 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 14 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 17 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 23 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 25 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 25 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 27 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 29 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 33 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 37 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Romantismo: Contexto Histórico e 1ª Geração ○ ○ ○ ○ ○ DO ROMANTISMO AO SIMBOLISMO: PERÍODO DE GRANDES TRANSFORMAÇÕES LITERÁRIAS Romantismo: 2ª e 3ª Gerações ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ DO ROMANTISMO À LITERATURA CONTEMPORÂNEA ○ ○ ○ Atividade Complementar Realismo Simbolismo ○ ○ ○ ○ ○ ○ Barroco Arcadismo ou Neoclassicismo ○ ○ ○ DO TEATRO PORTUGUÊS AO ARCADISMO Classicismo ○ ○ ○ O Teatro Gil Vincente ○ 07 ○ 2ª Época Medieval Atividades Complementares ○ ○ 07 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 39 39 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 39 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 43 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 47 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 54 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 59 Atividade Complementar ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 3 Estudo Literatura Portuguesa da O MODERNISMO PORTUGUÊS E A LITERATURA CONTEMPORÂNEA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Modernismo: Contexto Geral e a Geração Orfeu Fernando Pessoa e os Heterônimos A Geração de Presença ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Glossário ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Referências Bibliográficas 4 ○ ○ José Saramago: O Nobel da Literatura Atividade Complementar Atividade Orientada ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 61 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 61 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 62 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 66 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 67 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 71 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 73 ○ ○ ○ ○ ○ 80 83 Apresentação da Disciplina Apresentamos, neste Módulo, uma visão geral da Literatura Portuguesa. O espírito que norteou nosso trabalho foi o de elaborar um material sério, consistente e agradável, que servirá como ponto de partida para o estudo da Historiografia Literária de Portugal. Quanto à apresentação dos assuntos, partimos do conceito de Estilo de Época para estudar cada momento literário, no contexto em que foi produzido e difundido, visando que vocês, alunos, possam desenvolver, através desse aprendizado, um espírito crítico em relação à literatura em questão. A opção por esta divisão tem um cunho didático e funciona como uma síntese. É impossível abarcarmos todo o conhecimento acerca de tudo o que chamamos de Literatura Portuguesa, porém, esperamos que o conteúdo disponibilizado aqui funcione como o início de uma longa e apaixonante viagem literária. Longe de ser a única possibilidade de trabalho, este Módulo é um instrumento que, utilizado como base de estudo, certamente contribuirá para promover a reflexão e a autonomia do seu aprendizado. Como o ensino de literatura deve estar sempre intimamente articulado com a leitura e a escrita, sugerimos que vocês, educandos, promovam momentos de leitura dos livros mencionados e elaborem resenhas dos capítulos estudados, procurando relacionar o conteúdo dos textos a outras fontes de pesquisas, como a Internet, filmes, etc. E, se possível, socializando essa reflexão com alguns de seus colegas através de e-mails e chats. O material está organizado em 2 Blocos temáticos, subdividido em 4 Temas e estes apresentados em 16 Conteúdos, nomeados de acordo com os assuntos e objetivos abordados. No Bloco 01, estudaremos desde a origem da Literatura em Língua Portuguesa ao Arcadismo. No Bloco 02, veremos o período que chamamos de “Romântico” até o que denominamos “Tendências contemporâneas”. No final de cada Tema acrescentamos questões para fixação dos assuntos estudados. Todas as atividades didático-pedagógicas deste Módulo partem da leitura do material impresso e da sua complementação virtual, disponível na home-page. Esperamos que este material vá ao encontro das atuais necessidades do curso e do aprendizado sobre a literatura lusa. Seja bem-vindo (a)! Roselana Trindade 5 Estudo Literatura Portuguesa da 6 A LITERATURA PORTUGUESA DA IDADE MÉDIA AO ARCADISMO AS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES LITERÁRIAS EM PORTUGAL A Formatação de um Estado Independente: Portugal Neste primeiro bloco, estudaremos as principais manifestações da Literatura Portuguesa, desde o Trovadorismo, na Idade Média, ao período denominado de Arcadismo, também conhecido como Neoclássico. Veremos que os primeiros textos literários portugueses remontam ao século XII, ou seja, muitos séculos antes da chegada da frota comandada por Pedro Álvares de Cabral ao território brasileiro. Veremos, portanto, que a Literatura Brasileira trás, em si, uma herança do período que estudaremos a seguir. Contextualizando o Medievo Literário Português O CONDADO PORTUCALENSE A independência de Portugal foi conseguida de forma gradativa, contra os reinos cristãos da Península Ibérica. A tranqüilidade conseguida com os casamentos reais1 (Reino de Leão e Reino de Borgonha) foi abalada com a morte do Imperador Afonso VI (final do Séc. XI) e a tênue unidade política se desfaz, ocorrendo as lutas entre os reinos cristãos. Abdala Junior e Paschoalin2 assinalam que “apesar do processo de independência de Portugal está ligado à diferenciação das atividades econômicas da região e às rivalidades entre os grupos feudais. Foi, entretanto, o povo quem participou ativamente desse processo, através de organizações municipais, os Concelhos populares”. Os Concelhos (dentro do sistema feudal) propiciaram a D. Afonso Henriques (reconhecido Rei, pelo papa, em 1179), filho de Tareja, as forças militares necessárias para a independência. O sistema vigente na Europa, o feudalismo, por predominar grupos sociais fechados, impossibilita a mobilidade de classes. Neste sistema social, competia aos servos trabalhar para, seus senhores; à nobreza feudal competia defender a sociedade; e à igreja, orar por toda a sociedade. Lembremos que em Portugal dentro dos “coutos” (propriedade da Igreja) ou da “honras” (propriedade da nobreza) os senhores eram autoridade absoluta e só prestava obediência ao rei – que detinha os direitos de justiça suprema. ¹ Casamentos Reais: URRACA – Filha legítima e herdeira do trono casa-se com o conde Raimundo de Borgonha e recebe a região da Galícia. D. TAREJA – Filha ilegítima, casa-se com D. Henrique de Borgonha (primo do conde Raimundo de Borgonha) e recebe a região denominada de Condado Portucalense, que abrange a área entre o Minho e o Tejo. ² História Social da Literatura Portuguesa 7 Temos, portanto, uma organização social fechada, que é reiterada pelo espírito teocêntrico. A Igreja, rica senhora feudal, além de ensinar os mistérios da fé nas freqüentes missas e/ou em outras cerimônias religiosas, como as peregrinações ou romarias, era também responsável pela difusão da educação Estudo da Literatura – o centro da instituição pública se localizava nas catedrais ou nas escolas Portuguesa episcopais, nos conventos e mosteiros. Mediante a esse contexto, as grandes massas adquiriam conhecimentos teóricos e práticos transmitidos por via oral. Tradições populares, romances, sermões e provérbios tinham papel importante na formação dos indivíduos, fato observado desde o reinado de Sancho I, filho de Afonso Henrique. Nas feiras circulavam a literatura oral, sendo divulgada por meio dos jograis, recitadores, cantores e músicos andarilhos. A poesia e a música estavam sempre ligadas, o trovador compunha o poema que era cantado pelo jogral, que percorria todo o reino, inclusive as peregrinações religiosas e as festas palacianas, acompanhado pelo menestrel, músico agregado a uma corte. Essa produção cultural trovadoresca, chamada de literatura cantada e, por isso, conhecida como cantigas, sobrevive até hoje em coletâneas renascentistas registradas em coleções, Os Cancioneiros. Infelizmente, as partituras das músicas se perderam quase todas, sobrando nos dias de hoje apenas cinco, escritas por Martim Codax. A Literatura De um modo geral pode dizer-se que apesar da Literatura portugue-sa ter expressão literária em todos os gêneros, predomina o lirismo em todas as suas formas até na épica, características aparentemente dominantes no temperamento nacional. A primeira forma das literaturas ocidentais é a poesia e é oral: e compilada de forma escrita posteriormente, transcritos os poemas de memória. O verso com ritmo e rima é mais fácil de memorizar e sobreviveu até ser registrado, o que não aconteceu com as estórias que necessariamente existiram e poderiam ter caráter literário também. A história da poesia moderna ocidental inicia-se com a poesia cavalheiresca da Idade Média. Depois de um período de três séculos em que a poesia provinha exclusivamente de monastérios, e tinha a religião como tema, a poesia cavalheiresca, em pleno teocentrismo medieval, tem como objeto o profano, o homem e os seus sentimentos, principalmente o amor. O lirismo provençal irradiou-se por toda a Europa meridional e não se compreenderia Petrarca e Dante sem ela como antecedente. É proveniente de Provença, região ao sul da França que tinha muita riqueza devido ao próspero comércio com a bacia mediterrânea e o norte de África de Massília, cidade fundada pelos romanos. Ali dominava a língua d’oc, doce e rica, enquanto no norte da Gália se falava a língua d’oil, rústica e veemente, que vem a ser usada na prosa. Prosa essa que influenciará também as outras literaturas do mundo ocidental com os romances do ciclo Bretão (rei Artur) e com as novelas do ciclo carolíngio (Carlos Magno e a demanda do Cálice Sagrado). Os provençais foram, portanto, os mestres e iniciadores da poesia européia moderna. Como sua influência aconteceu em Portugal: 1 - Casamento dos três primeiros reis de Portugal com princesas do sul da Gália, que traziam em seu séquito jograis e trovadores. 2 - A primeira dinastia é chamada de Borgonha porque foi fundada pelo conde de Borgonha e foi toda ligada à França. 8 3 - As romarias aos santuários famosos como o de Santiago de Compostela. O canto, a poesia e o drama litúrgico eram os meios com que o clero fomentava o interesse e a participação do povo. Esses foram evoluindo e expulsos para os adros. Vinham romeiros de França com seus cantares característicos. Nos santuários, vários povos confraternizavam culturalmente. 4 - O intercâmbio de várias espécies entre portugueses e provençais: relações comerciais, vida comum entre os cruzados, as viagens dos cruzados lusitanos, etc. Em toda a cristandade medieval, a Igreja viu-se obrigada primeiro a proibir a prática de ritos e festas pagãs que persistiam em cantos e danças eróticas de mulheres dentro dos próprios templos. Depois expulsou estas manifestações que se davam nos adros (manifestação persistente seria, por exemplo, as lavagens dos adros das Igrejas em Salvador. Os costumes e as práticas populares medievais nos adros das igrejas ou por ocasião de feiras de produtos é uma fonte de restauração das energias gastas no sacrifício e no trabalho durante o resto do ano. No momento da romaria, cessa o penoso trabalho de todos os dias, instaura-se o reino da abundância, da permissividade, da alegria; há trocas materiais, culturais e afetivas; danças, cortejos triunfais, aproximação entre pessoas, encontros e fusões de grupos e categorias pela conjuntural cessação das proibições, tudo isto se sente ou se pressente na poesia trovadoresca. Desde o fim do século XII, com a formação das cortes senhoriais, a produção cultural nobre diversifica-se: surge a poesia lírica e satírica, com as cantigas de amigo, de amor e de escárnio e maldizer. Assiste-se, então, a uma intensa atividade criativa, constantemente renovada pelos contatos e a competição com as cortes estrangeiras, que os cavaleiros jovens, idealistas, aventureiros e sem fortuna, visitavam freqüentemente, trazendo para Portugal as influências culturalmente preponderantes na Europa da época: as influências provençais. Os poetas conseguem dar vivacidade aos diversos estados emocionais da mulher enamorada: a saudade, o ciúme, o ressentimento, os amuos, as ansiedades, as desconfianças, a reivindicação da liberdade exigida à mãe são expressas de modo muito vivo; as mulheres ora são ingênuas ou sabidas ora compassivas ou calculistas e astutas, sensíveis ou indiferentes, ora se entregam ou se negam aproveitando-se dos seus namorados. Os poetas trovadores mostram uma ampla experiência que a sua vida sentimental variada lhes proporcionou. Nas canções de amigo, de origem local, o amor não é experiência idílica, platônica, ela é realista, física. ! Indicação de Filme TÍTULO DO FILME: O SÉTIMO SELO (Det Sjunde Inseglet, Suécia, 1957) DIREÇÃO: Ingmar Bergman ELENCO: Max von Sydow, Gunnar Bjomstrand, Bengt Ekerot, Nils Pope, Bibi Anderson, Ingá Gill, Maud Hanson, Inga Landgre; 102 min. O século XIV assinala o apogeu da crise do sistema feudal, representada pelo trinômio “guerra, peste e fome”, que juntamente com a morte, compõem simbolicamente os “quatro cavaleiros do apocalipse” no final da Idade Média. Nesse contexto de transição do feudalismo para o capitalismo, além do desenvolvimento do comércio monetário, notamos transformações sociais, com a projeção da burguesia, políticas, culturais e até religiosas com a Reforma Protestante e a Contra Reforma. 9 1ª Época Medieval A POESIA LÍRICA GALEGO-PORTUGUESA Estudo O nascimento da produção literária portuguesa Literatura acontece quase simultaneamente à formação da nação Portuguesa da lusa. Apesar de seus primeiros representantes serem todos ligados à corte, não devemos atribuir à primeira fase da Literatura Portuguesa, a da lírica dos trovadores – também conhecida como poesia lírica galego-portuguesa –, um caráter nacional. É necessário considerar que as fronteiras políticas e culturais na Península Ibérica, nesse período, eram muito flexíveis, pois os laços matrimoniais entre os nobres de diferentes cortes eram comuns, fato que favorecia a sua circulação. Outro fator de grande importância para o seu desfronteiramento foi a utilização de uma língua única para as composições. A língua usada ainda não é o português, mas o galego-português, um romanço (língua de origem latina) falada na costa da Península Ibérica. Apesar desta língua ser usada somente no Noroeste da Península, sua escolha não foi aleatória. Lembremos que a região formava uma unidade política cultural que abrangia a Galiza e o território que se tornaria o reino português. Acontece que, mesmo depois do desmembramento, Portugal continuou a manter relações culturais estreitas com a região galega, transformando-se em uma região de importante intercâmbio cultural, principalmente com as peregrinações a Santiago de Compostela. Não é fácil datar com precisão as primeiras composições do período trovadoresco português, seja pela escassez dos dados biográficos de muitos dos poetas, seja pela natureza própria a essa poesia: a da oralidade. Uma das mais antigas manifestações literárias galego-portuguesas que se tem notícia é a cantiga de maldizer feita por João Soares de Paiva “Ora faz ost’o Senhor de Navarra”, mas muitos consideram a Cantiga da Ribeirinha – também chamada de Cantiga da Garvaia – como a mais antiga, por ser esta a mais antiga registrada. A Cantiga da Ribeirinha foi composta por Paio Soares de Taveirós, provavelmente no ano de 1189 (ou 1198, há rasuras na datação). Como as datas não são claras e as controvérsias entre os estudiosos desse assunto são constantes e cabíveis, conveniou-se datar, portanto, como marco inicial da Lírica Medieval Portuguesa, o último decênio do século XII. Ela se estende até o ano de 1418, quando se inicia, em Portugal, o Quinhentismo; e, na Galiza, os chamados Séculos Escuros. A primeira geração histórica dos trovadores foi caracterizada pelo policentrismo e a extrema mobilidade dos poetas. Depois, uma segunda geração denominada “geração do meio” surge na corte de Fernando III, Afonso X de Leão e Castela e na do rei português D. Afonso III. A poesia desta nova fase possuía um caráter dirigido, ou seja, os interlocutores se apresentavam em forma de desafio, provocando, assim, a resposta de outros trovadores. As cantigas de maldizer foram bastante favorecidas pelo grupo. Embora este período seja de grande atividade poética, entra em declínio com a morte de Afonso X e, mesmo ainda existindo trovadores importantes, é a corte de D. Dinis que passa a ser o centro dos trovadores, sendo ele próprio um grande poeta, mas faltou em sua corte um movimento poético que envolvesse a todos, como na geração anterior. Com a 10 morte de D. Dinis poderíamos pensar no fim do lirismo trovadoresco, no entanto documentos comprovam ter existido, ainda, uma pequena atividade poética patrocinada por seu filho Pedro. As origens da poesia lírica: Uma poesia com influência Provençal e/ou uma poesia de caráter popular? A poesia trovadoresca Provençal surge no sul da França em fins do século XI, tem o seu apogeu no século XII, e declina no século XIII, quando a crise dos senhores do sul obriga os trovadores a abandonarem a região em busca de novos patrocinadores. É caracterizada por ser o primeiro lirismo Ocidental em língua vernácula e pelo caráter inovador dessa poesia. Mesmo com toda a influência socio-cultural somada, ela representou uma ruptura com o período clássico até então cultivado e, principalmente, uma nova visão de mundo. Um jeito novo de fazer poesia valorizando o erotismo e apresentando uma outra forma de falar de amor, marcada pelo código de comportamento amoroso chamado fin’amors mais tarde conhecido como o “amor cortês”. Esse código possivelmente tenha chegado filtrado em Portugal e na Espanha devido à religiosidade vigente, pois Provença era considerada a corte da luxúria e a poesia considerada demasiadamente erótica. “ Podemos, então, dizer que o erotismo provençal foi podado pelo moralismo religioso dos trovadores galego-portugueses? A relação amorosa cantada pelos trovadores provençais é a transferência do sistema de vassalagem existente na Idade Média. Representado por um amor cortês no qual um homem da baixa nobreza apaixona-se por uma dama de classe superior que, devido a esta diferença, não irá retribuir a esse amor, passando a existir uma vassalagem amorosa. Mas o amado não quer possuir a amada, e sim gozar desse estado de não-possessão, embora ele sonhe com a retribuição por parte da amada, mesmo porque ela representa a sua ascensão social. Percebemos ser o sentimento amoroso concebido numa tensão constante pelos trovadores desse período. E foi esta a poesia difundida por toda a Europa Ocidental, em diferentes proporções, a depender da região. O norte da Itália e a Catalunha, por estarem mais próximas e possuírem costumes parecidos aos da região Provençal, receberam uma influência mais direta, enquanto a Península Ibérica teve uma influência filtrada e menor. Os Cancioneiros As poesias trovadorescas galego-portuguesas são consideradas como Literatura Românica e não são propriamente portuguesas, pois abrangia a península Ibérica (hoje Portugal e Espanha). Foram, primeiramente, registradas pela oralidade e só depois de algum tempo fixadas por escrito e transmitidas em três coletâneas: Cancioneiro da Ajuda; copiado provavelmente na corte de D. Monso X. Contém apenas as cantigas de amor dos poetas mais antigos. Cancioneiro da Vaticana; feito na Itália, inclui cantigas de amor, de amigo e de escárnio e maldizer. 11 Cancioneiro da Biblioteca Nacional; é o mais completo. Contém a “Arte de Trovar”, tratado poético que possui instruções para os leitores quanto a arte de compor trovas. Estudo Por falta de registros suficientes, não há como ter uma Literatura melhor compreensão do período dos trovadores. Inicialmente, Portuguesa por ser uma poesia destinada à oralidade, e esse motivo da tornava desnecessário um registro escrito, e também pelo não reconhecimento da importância de conservá-la. Acreditase ter havido uma divulgação escrita dessas cantigas, porém em pequeno número. Gêneros principais da poesia trovadoresca A poesia trovadoresca apresenta dois gêneros principais: a lírico-amorosa e a sátira. A poesia lírico-amorosa divide-se em Cantiga de Amor e Cantiga de Amigo e a poesia satírica divide-se em Cantiga de Escárnio e Cantiga de Maldizer. Cantiga de amor O homem canta o seu amor à amada, sendo ela uma dama da alta nobreza e ele de classe inferior. De origem provençal, embora tenha perdido um pouco da variação das formas e da riqueza de expressão desta poesia. Isso porque, como já vimos, sofreu algumas modificações para se adequar a Península Ibérica. Um outro fator que indica diferença dessa cantiga de uma região para outra é que, enquanto na Provençal o amante nutre um desejo de recompensa por parte da amada e ele vive com alegria esse amor platônico; o amante da poesia galego-portuguesa se torna um coitado, vítima de um amor inacessível que só traz lamento e desilusões e amar é um grande pesar que culmina com o desejo da morte. Quanto à estrutura e regras formais, podemos dizer que embora a lírica galegoportuguesa não tenha desenvolvido tantos estilos como a Provençal, ela manifesta uma grande preocupação formal. As cantigas eram classificadas em dois tipos: cantigas de refrão e cantigas de mestria (sem refrão), e os trovadores utilizavam alguns recursos estilísticos para darem acabamento formal as suas cantigas. Cantigas de amigo Diferente das cantigas de amor, o eu-lírico desta é feminino. O trovador se expressa pela voz da mulher – que tanto pode se dirigir ao amigo, como à sua mãe, irmãs ou mesmo a algum elemento da natureza. Podemos, então, dizer que essas cantigas podem ser divididas em dois tipos. O primeiro tipo, que se dirige a um amigo, é muito parecido com as de amor, pois elas apresentam o ponto de vista feminino do amor cortês se dando às vezes até a substituição do vocábulo “amigo” por “mia senhor”. A semelhança era ainda maior quando os trovadores desenvolvem o mesmo tema nos dois gêneros. As características mais marcantes desse tipo de cantiga é o paralelismo, que consiste em montar uma composição com base em segmentos repetidos. Sendo este um recurso poético comum na chamada poesia tradicional, de cunho popular. Recurso que se tomou muito importante para os trovadores, e se espalhou por todos os gêneros, inclusive as cantigas de amor, onde o paralelismo semântico é facilmente encontrado. 12 Muitos estudiosos, ao se depararem com essas cantigas, se deslumbram não só por seu caráter inovador, mas, principalmente, por pensarem estar diante de uma poesia puramente popular. A origem dessa poesia pode ser explicada como sendo uma poesia feminina pré-trovadoresca, o que é reforçado pelos materiais encontrados. Isso nos leva a crer que inicialmente esse tipo de cantiga tradicional não encontrou lugar entre os nobres, embora eles tenham com certeza apreendido um pouco do gênero. Mas não podemos esquecer que os textos das cantigas que possuímos são obras de poetas conhecidos, dentro de uma poética aristocrática. Cantigas de escárnio e maldizer “ Antes de tudo, é necessário estabelecer uma pequena diferença entre esses dois tipos de cantiga. As cantigas de escárnio o trovador usa termos ambíguos que dificultam a compreensão imediata dos insultos, enquanto nas de maldizer o poeta usa palavras violentas e diretas. REFLITA Apesar das diferenças, as cantigas de escárnio e maldizer possuem algo que as unem: ambas falam mal de alguém, além de pertencerem ao gênero satírico, por vezes burlesco e obsceno, e serem muito apreciadas pelos poetas galego-portugueses. Devido a essas semelhanças, muitos estudiosos preferem uma classificação geral dessas cantigas por perceberem que em muitas poesias esses critérios se misturam. Devido à linguagem utilizada e por tratar de temas obscenos, parece ser um gênero totalmente distante dos demais, no entanto, se fizermos uma analise mais minuciosa veremos que elas estão ligadas a começar pelos autores, são os mesmos das de amor e de amigo e, sobretudo, pela capacidade desse gênero em incidir nos demais, parodiando-os. Um outro tipo de poesia é a Mariana, que existiu no século XIII, que são cantigas de Santa Maria. Por apresentarem temas e reflexões mais amplas e possuírem mais poesias narrativas que de louvor à virgem, muitos autores não as consideram quando analisam a poesia galego-portuguesa, todavia não se podem ignorar as pontes que ligam esse gênero aos demais. O primeiro é o fato de ela ser escrita em galego-português e também ser composta como uma unidade de música e poesia. Sem contar os traços líricos e satíricos encontrados em algumas dessas cantigas. Para concluir, é preciso ressaltar que, embora as inúmeras críticas feitas à poesia galego-portuguesa, muitas vezes vista como um ramo da poesia Provençal, é incontestável sua importância para a formação de uma nova geração poética, que muito influenciou na poesia procedente. Além de retratar a sociedade da época de uma forma inovadora e de vários ângulos sociais – a corte através das cantigas de amor, o ambiente mais simples e campestre do povo com as cantigas de amigo e ainda uma crítica cômica de todo o sistema social com as cantigas de escárnio e maldizer. 13 A Novela de Cavalaria A Demanda do Santo Graal Estudo Considerada pelos estudiosos como um dos assuntos mais espinhosos Literatura Portuguesa da literatura medieval, devido a enorme quantidade de textos e as inúmeras da versões de uma mesma obra, a “matéria da Bretanha” é também um dos temas fascinantes do medievo, embora não seja nada fácil estudar esse período. Muitas vezes é necessário que o especialista recorra a um trabalho arqueológico e filológico das obras existentes para esclarecer datas, local de origem, etc. O primeiro nó a desatar é quanto à originalidade da demanda portuguesa. O único documento existente é o códice 2594 da Biblioteca Nacional de Viena que é, na verdade, uma tradução de um outro original, possivelmente francês, cujo paradeiro é desconhecido. Um outro impasse é ter surgido nesta mesma época (1400-1438) uma outra versão castelhana do mesmo texto. Isso deu margem a inúmeras discussões acerca da prioridade de uma sobre a outra. Mas estudos feitos por Rodrigues Lapa e D. Carolina Michaeles de Vasconcelos demonstrou ser Portugal o responsável pela tradução e adaptação da obra. Com o objetivo de minimizar os problemas oriundos da diferença de datas entre o original (século XIII) e a tradução (século XV) e também os de diferença cultural e ainda distingui-las das canções de gestas – cantigas medievais que celebravam os grandes feitos de heróis da época – é tradição dividir a ficção cavalaresca em três ciclos: o Carolíngio – que tem no imperador Carlos Magno e seus pares as figuras centrais; o Clássico – que abrange matéria da Antiguidade clássica, episódios e heróis das literaturas grega e latina; e aquele mais interessante para nós: o Bretão ou Arturiano – onde encontramos a figura do Rei Artur e seus Cavaleiros na Bretanha, pois este é o único ciclo presente na prosa portuguesa. Um esclarecimento muito importante a fazer é quanto à distinção entre a lenda do Rei Artur e o mito do Graal. Apesar de aparecerem juntos na memória popular não são da mesma época, sendo o mito bem mais antigo que a lenda. O Rei Artur foi considerado um grande chefe guerreiro das Ilhas Britânicas, que entre os séculos VI e VII ficou célebre em perigosas batalhas contra os inimigos saxões, e teve suas histórias contadas principalmente pelos conteurs bretões (narradores de contos e fábulas folclóricas que passavam de pais para filhos). Observemos que este é um tema bélico por excelência, enquanto o tema do Graal era essencialmente religioso. Vendo por este ângulo, parece impossível a junção desses dois temas, no entanto temos textos históricos que traçam todo o caminho percorrido desde a primeira descrição dos feitos do Rei Artur, com Nennius, até a união desses dois temas com Chrétien Troyes na obra Perceval ou le conte du Graal em que o autor vai além dos episódios amorosos, mergulhando em um universo místico, embora sem caracteres cristãos, é, com certeza, a partir daí que se dá a cristianização desse material. 14 Se razões históricas e textuais explicam os laços entre o Graal e o Rei Artur, as afinidades temáticas parecem mais eloqüentes. A vida do rei Artur é totalmente envolvida pela magia de Merlin e pela proteção das fadas, pois foi ele gerado por meio da magia e mesmo depois de morto foi levado pela fada Morgana à ilha de Avalon. E o povo ficou a esperar messianicamente a volta de Artur. Percebemos nitidamente a presença marcante do misticismo não somente na vida do rei como também na vida do reino. São pormenores que acrescentaram á biografia de Artur aquele halo espiritual responsável pela mitificação da lenda. A ligação do elemento guerreiro ao místico na configuração do Império adquiriu, na verdade, proporções gigantescas. Artur não era somente um chefe político, ele tornou-se para o povo também um chefe simbólico e a ambição de qualquer cavaleiro era tornar-se membro da ordem do Rei Artur, mesmo que para isso fosse preciso renunciar a toda família. Quando a “ordem arturiana” adquire tal magnitude – ao situar os homens num plano de valores em que o heroísmo guerreiro rivaliza com as qualidades morais, sempre cultivadas por vias que exigem renúncias às vezes quase impossíveis, com vistas ao prêmio no fim da longa caminhada, quando isso ocorre – a confluência na tradição do Graal parece inevitável: “o próprio Graal pode, no fundo, representar o elemento transcendente com que esta cavalaria aspirava a completar-se”. Onde o fim justificava os meios, ou seja, a matança que ocorreu na Demanda não era pecaminosa e sim demonstração de bravura para se alcançar à premiação. Tendo em vista a importância da realidade histórica para toda e qualquer literatura não podemos deixar de ressaltar alguns fatores que contribuíram para o surgimento e desenvolvimento da matéria ficcional da demanda: A voga do neocetismo; com a conquista normanda, empreendida por Guilherme, abriu para o mundo as portas do folclore céltico-bretão, com seus inúmeros lutadores ferozes e amantes insaciáveis protegidos pelo fantasioso mundo das fadas. O movimento intenso das cruzadas, aproximando o Oriente e o Ocidente; com o objetivo de proteger e recuperar os lugares sagrados e também “recuperar” fiéis para a igreja. O surgimento da lírica trovadoresca; sendo o século XII considerado o século de ouro da literatura da França, cuja importância é indiscutível como fonte de todo o lirismo europeu dos séculos posteriores. A ascensão da cavalaria; que de simples organização militar começa a se transformar com Carlos Magno (Século IX) numa espécie de confraria religiosa, exigindo do ingressante a observância de uma série de rituais. Se aliarmos esses fatores ao intenso crescimento das cidades e surgimento das universidades, teremos uma idéia do extraordinário choque de valores que caracterizou os séculos XII e XIII, onde a matança em nome de Cristo e a preservação dos valores da Igreja eram sinônimo de obediência e valorização diante de Deus. E, as peregrinações eram uma forma de obter perdão dos pecados e reinstaurar a paz. Inserida no centro dessas forças antagônicas, a Demanda do Santo Graal tornou-se o retrato definido da Idade Média mística e, ao mesmo tempo, o maior monumento literário 15 que a época nos legou no campo da ficção. Quanto à estrutura, podemos dizer terem sido feitas em forma de novelas, o que permitia estruturar os capítulos em contos independentes, com significado próprio. Estudo Um dos pontos mais importante, quando analisamos a Demanda, é Literatura percebermos a influência da Igreja na sociedade da época. O remorso e a Portuguesa da expiação estão sempre presentes na vida dos cavaleiros. Na figura da “Besta Ladrador” temos uma amostra da punição para aqueles que cometerem o crime do perjúrio, considerado pecado mortal. Sendo o juramento uma condição para ingressar na santa busca. Uma outra condição é não levar mulher na viagem, sob pena de, também, cometer pecado mortal. Pela proibição e a pena imposta, aqueles que desobedecessem – não conseguiriam chegar ao Graal –, percebemos que a Igreja não via com bons olhos a liberdade amorosa cantada pelos trovadores e embalada pela fértil imaginação dos celtas. Pobre de Lancelot, que embora seja considerado o cavaleiro mais valente da corte arturiana é também o mais pecador. Como se não bastasse ser o pai bastardo de Galaaz, apaixonou-se pela esposa do rei Artur, cometendo pecado duplo: adultério e traição, o que vai contra a moral da Igreja e a ética da cavalaria. Apesar de conhecedor da sua enorme culpa e de padecer com o remorso que ela lhe causa, Lancelot não consegue deixar de amá-la e só a abandona depois que ela morre. Isso retrata a dualidade vivida por Lancelot, de um lado o amor forte e inabalável pela rainha; do outro, o respeito, a admiração e a amizade por Artur, que apesar de tudo, ele continuava cultivando. Acontecimentos que o afasta das honrarias as quais os outros cavaleiros participam e, inclusive, da possibilidade de alcançar a conquista do Graal. É nesse contexto que surge Galaaz como o “cavaleiro eleito”, “o puro dos puros” porque nunca pecou contra a castidade, passando, assim, a simbolizar um novo Cristo, que com a conquista do Graal salvaria o reino do pecado e implantaria a tão sonhada paz. Mesmo com todos esses méritos, Galaaz não está livre da tentação, e como Jesus, foi levado ao “deserto” para ser tentado pelo Diabo, aqui simbolizado pela mulher: durante a noite Galaaz estava deitado quando a filha do rei penetra no seu quarto, porém ela o encontra usando um cinto de castidade e vendo seus planos frustrados, a donzela ameaça matar-se. Ele, desesperado, cede, mas já era tarde e ela havia morrido, mesmo assim ele foi consolado e eximido de culpa por Boorz. Esse episódio prova que nem mesmo Galaaz, o escolhido, pode se descuidar e deixa claro as muitas provações encontradas pelos cavaleiros. Todavia pensava-se que quanto mais difíceis os obstáculos, maiores as chances de purificação e mais eminente o perdão de Deus. “ Vamos reconsiderar os séculos XII e XIII? A época é de conturbada polaridade; Deus e o Diabo estão como que lado a lado, com apelos igualmente sedutores; a Igreja e a cavalaria encontram na guerra santa e no monge guerreiro uma forma de minimizar suas diferenças e, na literatura, o erotismo trovadoresco e combatido pelas hagiografias sobre a vida de santos e mártires. Divididos entre a oração e o pecado, o homem medieval vê nas cruzadas uma forma de adquirir o perdão divino. Se confrontarmos essa realidade com a realidade dos Cavaleiros da Távola Redonda e a Demanda perceberemos uma grande afinidade entre ambas, pois as aventuras 16 existentes na busca do Graal eram formas de peregrinação. Sendo que na Demanda a fantasia e a realidade se misturam, a ponto de não discernimos os limites entre esses dois mundos. Em suma, não é sem razão que a Demanda é considerada o maior monumento literário da Idade Média, pois além de ser uma obra coesa e extraordinariamente bem estruturada, ela também retoma elementos de crença heterodoxas, não para puni-los ou cerceá-los, mas para revê-los e até absorvê-los, segundo os dogmas da Igreja. ! Indicação de Filme TÍTULO DO FILME: EXCALIBUR (Excalibur, inglaterra, 1981) DIREÇÃO: John Boorman ELENCO: Nigel Therry (Rei Arthur), Helen Mirren (Morgana),Nicholas Clay (Lancelot), Cherie Lunghi (Guinevere), Paul Geoffrey (Percival), Nicol Williamson (Merlin), Robert Addie (Mordred), Gabriel Byrne (Uther Pendragon); 142 min. Durante muitos séculos, historiadores consideraram Rei Arthur apenas um mito, mas a lenda, acredita-se, baseava-se em um herói real, dividido entre suas ambições pessoais e o dever para com o povo. 2ª Época Medieval As manifestações literárias da primeira época medieval caracterizavam-se pelo predomínio da oralidade e, por esta razão, as cantigas trovadorescas tiveram maior destaque. O século XV, segunda época medieval, representa um momento de transição entre a literatura trovadoresca e o Renascimento do século XVI, é quando a prosa e o teatro ganham o primeiro plano. É um dos períodos mais dinâmicos da história portuguesa, pois, nesse século, além de aumentar seus domínios, Portugal mostra para a Europa a força da coesão moral de um povo solidário e fiel ao seu rei e uma unidade política inviolável, até então desconhecida. Inicia-se em 1415, com a tomada de Celta, o período dos descobrimentos e das conquistas marítimas. Durante mais de cem anos a nação lusa se deteve no propósito mercantilista e a literatura acompanhou esse movimento, dando grande importância aos trabalhos históricos e didáticos: produção de textos de caráter documental, cuja finalidade primeira não seria exatamente literária e sim de doutrinação. Portanto, podemos deduzir que as grandes criações artísticas não encontravam espaço, e as canções, até então comum aos palácios, ficaram restritas às reuniões familiares. A prosa doutrinal encontra na família de Avis expoentes notáveis no séc. XV: O Livro da Montaria de D. João I, sobre a arte e os prazeres da caça; A Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela e Leal Conselheiro, sobre a arte de montar e sobre a ética e a prática da vida quotidiana, respectivamente, de D. Duarte; e Virtuosa Benfeitoria, adaptação de Séneca sobre os benefícios dos nobres, do Infante D. Pedro. 17 Estudo O gosto dos desportos Literatura Desde os meados do século XIV, a escola trovadoresca em Portugal, Portuguesa assim como o exercício da poesia, da imaginação e da sensibilidade começou da a ser substituído pela cultura da força física. É Afonso IV que inicia ostensivamente o predomínio do corpo sobre o espírito. Eram muitos os exercícios praticados naquela época, dentre os mais apreciados estavam as caçadas, a montaria, sem contar as lutas, os torneios, as justas, etc. Por conta dessa mudança no gosto da sociedade é que surgiu uma literatura que refletia as preocupações dominantes da época. Um bom exemplo é D. Fernando, ele trazia a casa cheia de falcões e encarregou seu falcoeiro Pero Menino de elaborar um tratado de mezinas para aplicar às doenças que atacavam os falcões. Este livro, entre outros semelhantes, tem reduzido valor literário; o que não acontece com o Livro da Montaria, de D. João I, considerado um valioso documento da literatura desportiva portuguesa. O livro da Ensinança de Bom Cavalgar D. Duarte, ainda príncipe, começou este livro, levado pelo desejo de ensinar aos seus súditos a teoria de bem cavalgar. É uma obra original, não decalcada dos modelos clássicos, onde não abundavam livros destes, é um fruto da sua experiência. Todavia esse livro não pode ser considerado apenas um ensinamento sobre equitação, pois ele transcende a esfera profissional e penetra no campo psicológico, falando sobre o medo no aprendizado da disciplina e recomenda a beleza das atitudes na prática dos exercícios. É a percepção estética do jogo clássico. O Leal Conselheiro Devemos a primeira edição deste livro aos esforços de dois portugueses, moradores de Paris: o visconde de Santarém e José Inácio Roquette, o conhecido dicionarista. Não tendo unidade de tempo nem de pensamento: é um tratado de recopilação enciclopédica, que versa as disciplinas mais variadas. D.Duarte, espírito exatíssimo, profundo observador, adquiriu cedo o costume de tomar apontamentos por escrito. Não confiava na memória. O livro era dedicado a sua esposa, a rainha, e tinha, como o título indica, um fim educativo, era como que um guia de moral caseira. O estilo de D. Duarte Sem nenhum talento poético, D. Duarte empregava uma linguagem excessivamente culta, prática pouco aceita no período medieval. Muito rigoroso no emprego dos vocábulos, chegava por vezes a discriminar as diferenças de sentido – É um dos primeiros em Portugal que não crêem na existência de sinônimos. Contudo, isso não deve ser atribuído ao seu instinto literário, e sim a sua cultura moral e desejo de perfeição. Lia e traduzia o latim no 18 desejo de se aproximar ao máximo do original e é este empenho de tradutor que dá ao seu estilo um caráter arrevesado e truncado, pois limitava-se a aplicar a sintaxe latina na frase portuguesa. O cronista Fernão Lopes Ao tempo em que D. Duarte compunha os últimos capítulos do Leal Conselheiro, começa Fernão Lopes, arquivista das escrituras desde 1417, a registrar em crônicas as estórias dos antigos reis de Portugal. Sua obra é fruto de um imenso trabalho, realizado em quinze anos de busca fadigosa de documentos antigos de toda espécie e em várias línguas. Compreendendo todas as crônicas, desde a do conde D. Enrique até à de D. João I. Inclusive, as crônicas dos reis antigos, que foram atribuídas a Rui de Pina – um furto literário denunciado por Damião de Góis com base, sobretudo, nas diferenças estilísticas existentes. Das crônicas que escreveu, só restam três: a) Crônica de D. Pedro Esta crônica abrange os dez anos de reinado de D. Pedro (1357 a 1367). É constituída por um prólogo e quarenta e quatro capítulos. Tal como fez para as restantes crônicas, Fernão Lopes apoiou-se em fontes narrativas e diplomáticas, como é o caso dos documentos dos livros da chancelaria de D. Pedro. História e mito tendem a se confundir no imaginário advindo do episódio que envolve Inês de Castro e seu amante, o futuro rei de Portugal D. Pedro, filho de D. Afonso IV. Os primeiros textos de que se tem notícia a enfocar o drama do “Romeu e Julieta português” (nas palavras de Alexandra MARTINS) são de Fernão LOPES (1380?-1460?), cronista que conduz a historiografia lusitana a novas perspectivas, ao filtrar as lendas dos fatos. b) Crônica de D. Fernando Esta crônica foi, provavelmente, redigida por volta de 1436. É constituída por um prólogo e cento e setenta e oito capítulos. Começa por relatar as peripécias de pouco depois da morte de D. Pedro, em março de 1367 e finda também pouco depois da morte de D. Fernando. Os últimos seis capítulos são de grande interesse, pois retratam a reação do povo e de uma parte da nobreza, quando D. Leonor Teles se torna regente do Reino, substituindo a sua filha D. Beatriz, rainha de Castela. c) Crônica de D. João I (1ª e 2ª partes) Esta crônica é considerada a obra-prima de Fernão Lopes e, segundo algumas opiniões, é classificada como sendo mais épica do que Os Lusíadas e muito mais nacional. Em cronologia é a maior das crônicas, visto que abrange acontecimentos ocorridos durante 28 anos. Na concepção de José Hermano Saraiva, a primeira parte da Crônica de D. João I não é uma crônica no sentido rigoroso do termo, mas um livro de história, na acepção que hoje damos a esta expressão. Trata-se do primeiro livro de História que se escreveu em Portugal e, durante muito tempo, o único. Nesta crônica, Fernão Lopes relata aquele que foi um dos momentos mais conturbados da história portuguesa: a crise de sucessão de 1383/85. 19 O CANCIONEIRO GERAL O fim do período de consolidação da língua (ou de utilização do português arcaico) é marcado pela publicação do Cancioneiro Geral de Garcia Estudo da Literatura de Resende, em 1516, período no qual o Português tornou-se uma língua Portuguesa madura, com uma tradição literária riquíssima, separando-se definitivamente do galego (no séc XV, a língua na Galiza começou a ser influenciada pelo Castelhano – basicamente o Espanhol moderno). Tempo em que as guerras e a instabilidade da política não refrearam a aspiração de uma vida melhor, pelo contrário, a nobreza compreendeu que só em volta do rei lhe restava viver para se abrigar da penúria e da opressão. A aristocracia começou a freqüentar e cultivar as reuniões e as maneiras do palácio. Nos tempos de D. João II, os serões tiveram grande esplendor, pois o rei prezava a poesia e sentindo que a sociabilidade poderia funcionar como uma obra de propaganda política, encontrou nesses encontros uma maneira de ter os fidalgos na mão. A corte, então, tornou-se o principal centro de produção cultural e literária, graças a esse fortalecimento da casa real. Freqüentador da corte, o risonho e inteligente Garcia de Resende, homem da criação de D. João II, teve a ótima idéia de compilar a produção poética do lirismo palaciano, obra que publicou em 1516, sob o nome de Cancioneiro Geral. A moda de colecionar a poesia cortesã viera da Espanha, pois lá, a vida cortesã e galante começou mais cedo do que em Portugal, graças ao favor de reis como D. João II, grande agasalhador de poetas. O que resultou, na segunda metade do século XVI, um acusado predomínio da cultura e da língua castelhanas. Não é, pois, de se admirar que topemos no Cancioneiro de Resende com numerosas composições em castelhano, e este hispanismo continuará pelo século de Quinhentos, favorecido já agora pela hegemonia política de Espanha. Mas, acentuar-se, a maior e melhor parte do Cancioneiro está em língua portuguesa. É certo que há na poesia palaciana mais futilidade, já que a própria ocasionalidade da inspiração dá um profundo acento a algumas composições feitas – lembremos que foram compostas para serem recitadas e não para serem publicadas em livro. O fato mais insignificante despertava a inspiração poética. E tudo isso se dava num ambiente de liberdade, característico da renascença. A tradição lírica galego-portuguesa Um dos fatos que devemos primeiramente destacar no Cancioneiro é a persistência da antiga tradição lírica, não é claro sob o aspecto formal, pois há muito desaparecera o paralelismo da cantiga de amigo, mas pelo que se refere às tendências permanentes do temperamento saudosista. O amor triste é ainda muito presente no Cancioneiro de Resende. 20 Mas o amor adquire aspectos novos, torna-se mais natural e mais atrevido. A dama aparece em acordo com a realidade e as relações afetivas são incrementadas por um toque de ardência sensual. Havia, pois, um conflito aberto entre as duas concepções do amor: a tradicional, platônica, e aquela que já se respirava na atmosfera cálida e sensual da renascença. A corrente satírica Obedecendo ainda a uma corrente da antiga tradição, encontramos no Cancioneiro freqüentes exemplos do escárnio de amor; o poeta, despeitado dos rigores da dama, retrataa em cores de fealdade física ou moral. Como modelo do poeta cômico, galhofeiro, que não desce ao fundo das coisas e se atém aos aspectos ridículos da vida, o Cancioneiro oferecenos Henrique da Mota que, em certo modo, pode ser considerado um precursor de Gil Vicente, pois que as suas composições, dialogadas, são teatralizáveis e constituem verdadeiras farsas. As peças satíricas mais notáveis em alcance social são as trovas de Álvaro de Brito Pestana a Luís Fogaça sobre os ares maus de Lisboa, as de Duarte da Gama às desordens da vida portuguesa e as de Luís da Silveira e Garcia de Resende à mudança dos tempos. Dantismo e petrarquismo A influência dantesca aparece já no período galego-castelhano, mas vai-se acentuando cada vez mais, até que, no último quartel do século XV, dá lugar a uma forma especial de poesia. Essa imitação de Dante de primeira mão deu-se primeiramente em Espanha e depois em a Portugal, por intermédio de Juan de Mena e do Marquês de Santilhana. A influência indireta de Dante foi igualada, senão até superada pela arte francesa, que era mais clara, superficial e acessível. Outra influência italiana e essa mais direta e profunda, porque encontrava correspondência no nosso temperamento, foi a de Petrarca, que renovara no século XIV o lirismo dos velhos trovadores. A atitude petrarquista manifestase nas antíteses, nas imprecações dolorosas e na utilização artística da natureza como espelho ou contraposição do estado de alma do poeta. Temos, pois, que a dupla influência de Dante e de Petrarca despertou, ou melhor, renovou a sensibilidade romântica na poesia portuguesa: porque há uma verdadeira antecipação romântica na poesia do Cancioneiro que se mostra nos contatos entre o poeta e a natureza e ainda em o poeta procurar, numa saudade triste, os lugares em que viveu os seus antigos amores. O espírito clássico Já na poesia alegórica é evidente um certo estendal de erudição mitológica, mas se a forma denuncia já uma curiosidade renascentista, o fundo é ainda mais romântico-medieval. 21 Esse mesmo espírito clássico provocou algumas tentativas falhadas de poesia épica. O ar andava, já então, carregado de inspirações heróicas. Simplesmente, ainda não chegara o tempo e o poeta que as havia de condensarem estrofes imortais. Um poeta de então, Luís Henriques, exercitara Estudo da Literatura o verso maior em assuntos graves. Nem todos, porém, se deixaram ir nessa Portuguesa corrente. E um pequeno grupo de poetas, tocado de espírito horaciano, cultivando o conceito filosófico da mediania dourada, começou a reagir à margem do bulício do palácio, contra as ambições do tempo. Esse pequeno núcleo aparece representado no Cancioneiro por Diogo de Melo, Nuno Pereira e João Roiz de Castelo Branco. ! ! 22 Indicação de Filme TÍTULO DO FILME: 1492 - A CONQUISTA DO PARAÍSO (1492: Conquest of Paradise, ESP/FRA/ING, 1992) DIREÇÃO: Ridley Scott ELENCO:Gérard Depardieu, Sigourney Weaver, Armand Assante, Ângela Molina, Fernando Rey, Tcheky Kario, 150 min, Vídeo Arte. A viagem de Cristóvão Colombo insere-se no cenário da expansão ultramarina liderada por Portugal e Espanha entre os séculos XV e XVI. Portanto, para compreender a passagem da Idade Média para a Idade Moderna, é necessário inseri-la no quadro das transformações por que passou a Europa na Baixa Idade Média (século XII ao XV), durante a transição do feudalismo para o capitalismo comercial. Atividades Complementares 1. O sentimento do eu-lírico ou eu-poético idealiza a mulher, elevando-a a um pedestal. Que versos expressam essa idealização? 2. Além de colocar nas mãos de Deus a possibilidade de ser feliz, o poeta atribui a Ele a responsabilidade pela beleza da mulher. Que fragmento da cantiga expressa a segunda idéia? 23 Estudo 3. O eu-lírico é masculino e tem um desejo. a) O que ele pede? Literatura Portuguesa da b) A quem ele dirige seus pedidos? c) Se os pedidos não puderem ser atendidos, qual é a solução entrevista pelo eulírico? 4. Nesse texto aparecem as características mais comuns da Cantiga de Amor. Trace um paralelo com o que você apreendeu sobre a Cantiga de amigo, confrontando as diferenças e semelhanças entre elas. 5. Alguns compositores se inspiram nesses tipos de cantiga para elaborar suas composições. Nos dias atuais, que exemplos de Cantiga de Amor e de Cantiga de Amigo podemos extrair da música brasileira. 24 DO TEATRO PORTUGUÊS AO ARCADISMO O Teatro de Gil Vincente Durante a Idade Média surge em Portugal o Teatro Vicentino, representação que se caracteriza pelos temas, linguagem e atores populares. A carreira literária de Gil Vicente começa em 1502, quando representa o Auto da Visitação, até o ano de 1536, ano da representação de sua última peça Floresta de Enganos. Durante os anos de sua trajetória teatral dedicou-se a escrever e representar teatro para o entretenimento da realeza e da fidalguia, são dezenas de peças de temas variados. Escreveu cerca de 44 peças: 17 bilíngües, 16 em português e 11 em espanhol. Na corte portuguesa usava-se, também, o idioma espanhol em razão da rainha Maria, segunda mulher de D. Manuel I, ser filha dos Reis Católicos da Espanha. Além disso, falar espanhol era sinal de distinção entre os nobres, pois o povo falava apenas português. Didaticamente, pode-se dividir em fazes o teatro vicentino. Temos três fazes principais: 1502-1514 – Sob influência de Juan del Encina. 1515-1527 – Corresponde ao ápice da carreira dramática. 1528-1539 – Teatro intelectualizado, sob influência do classicismo renascentista. Quanto ao tema, pode ser dividido em: Tradicional Peças de caráter litúrgico, ligados ao teatro de Juan del Encina, aos assuntos bucólicos e às novelas de cavalaria. Atualidade Caracteriza-se pela presença de um retrato satírico do modo de viver do seu tempo, e não perdoa nenhuma classe social, seja ela a fidalguia, a burguesia, o clero ou a plebe. É um teatro baseado na espontaneidade e com intento de divertir e organizava-se sob a lei do improviso. Supõe-se que Gil Vicente redigia um roteiro básico, apenas para ordenar a encenação em uma seqüência verossímil. Lírico ou cômico, seus textos continham a predominância da visão medieval e de uma nostalgia de um tempo perdido. O grande mérito do autor é o seu talento de poeta, sobretudo de poeta dramático, é em conseqüência disso que o teatro vicentino se tornou um marco dentro da Literatura Portuguesa. VOCÊ SABIA QUE... A obra literária vicentina possui uma linguagem arcaica, popular, não polida e sem termos eruditos? É que, mesmo escrita em linguagem popular, o vocabulário é rico, se adequando aos personagens, valendose ainda do latim eclesiástico e do baixo latim – usado pelo povo? . 25 Suas peças estão classificadas em obras de devoção, comédias, tragicomédias, farsas e obras miúdas, como monólogos e paráfrases de salmos e apresentam a seguinte divisão: Estudo Os Autos: são composições religiosas, pastoris, nos quais se nota a Literatura influência do teatro pastoril de João de Encima, dramaturgo espanhol. São Portuguesa da peças de temática devota e moral, alegórica, que refletem os valores do mundo medieval. As comédias: trazem valores greco-romanos e mitológicas, contendo relatos romanescos como as novelas de cavalaria. As farsas: preservam a mesma estrutura dos autos, traçando, porém, uma caricatura contra os maus costumes, apresentando uma crítica social contundente, mordaz, carregada de alusões pessoais. De caráter pedagógico moral, há uma longa tradição na farsa medieval sobre o tema do adultério feminino. RESUMINDO... Primeira fase: 1890 a 1198-1434 A criação literária portuguesa, no primeiro período medieval (1890 a 1198-1434), corresponde à floração trovadoresca e acontece quase simultaneamente à formação da nação lusa. Essa produção cultural denominada também de cantigas era composta pelos trovadores e cantada pelos jograis que percorria todo o reino em ambientes diversos. A fim de preservar essa literatura, que era transmitida oralmente, fora fixada por escrito em coletâneas denominadas cancioneiros. A poesia trovadoresca é dividida em dois tipos: lírico-amorosa compreendendo às Cantigas de Amigo, associadas ao canto e à dança, impregnadas do realismo da vida campesina, da sensualidade, queixume, euforia, amor popular e amor burguês; e as Cantigas de Amor de origem provençal, marcadas pela vassalagem amorosa, impregnadas pelo idealismo, a “coita” de amor e idealização da mulher. O outro tipo é a satírica subdivida em escárnio, maldizer, seguir e tenção de briga. Os principais trovadores desse período foram Paio Soares de Taveirós D. Dinis, Martim Codax, Aires Nunes e João Garcia de Guilhade. Além poesia a época trovadoresca se caracteriza também pelo aparecimento da prosa medieval: novelas de cavalaria, retratando um heroísmo de influência religiosa e feudal, biografias, crônicas e livros de linhagem. Segunda fase: 1434-1527 Período conhecido também como Humanismo, vai desde a nomeação de Fernão Lopes como cronista-mor da Torre do Tombo, em 1434, até o retorno de Francisco Sá de Miranda da Itália, quando introduziu uma nova estética, o Classicismo, em 1527. Teve como principais características a divulgação dos mestres da Antiguidade greco-latina, o incentivo às Universidades, a laicização da cultura e o Culto do Homem. A prosa, no humanismo português, consistiu, principalmente, na crônica histórica e teve como principal expoente Fernão Lopes um cronista realista de técnica literária da narrativa, um criador de perfis psicológicos que tratou o povo como agente da história. Destacaram-se, também, Gomes Eanes de Zurara e Rui de Pina. Outro tipo de prosa 26 inaugurado pelo regime absolutista da dinastia de Avis foi a prosa doutrinária, direcionada para a educação da realeza e da fidalguia, com o sentido de orientá-la no convívio social e no adestramento físico. Além da prosa tivemos a poesia palaciana recolhidas por Garcia de Resende no Cancioneiro Geral. São poesias já dissociadas de música, elaboradas para serem lidas e recitadas nas cortes. Surge também o Teatro popular de Gil Vicente produção literária caracterizada pela sátira à sociedade portuguesa e a visão religiosa medieval moralizadora. Classicismo O Renascimento e a Lírica Camoniana Considerado o marco inicial da era moderna, o Renascimento é o mais importante movimento de renovação cultural ocorrido na Europa durante os séculos XV e XVI. O crescimento gradativo da burguesia comercial e das atividades econômicas entre as cidades européias estimulou a vida urbana e o surgimento de um novo homem cujo reconhecimento de seu valor contribuiu para o enriquecimento do ambiente cultural, resultando na formação de um novo clima intelectual otimista e confiante na força do ser humano – que se torna o centro do universo (antropocentrismo), manifestado pela ruptura com a tradição feudal que era marcadamente religiosa e teocêntrica. A visão humanista é o primeiro impulso para o surgimento do Classicismo. Esse movimento literário surge em Portugal, em 1527. E, como resultado da mudança que o homem tinha de si mesmo – sendo, portanto, uma continuação do Humanismo – são traduzidas e difundidas numerosas obras gregas e latinas, de assunto literário, filosófico e científico, com o objetivo de reviver os ideais da Antigüidade Clássica, influenciando assim, as artes, a cultura e a literatura. Essa retomada à Antiguidade clássica influi diretamente na linguagem, na forma e nos temas. A linguagem clássico-renascentista é a própria expressão das idéias e dos sentimentos do homem do século XVI, sendo usada com clareza e objetividade, é sóbria, simples e precisa. A valorização da forma está expressa na preferência pelo soneto, com versos decassílabos distribuídos em duas quadras e três tercetos. Nesses versos é usada a chamada medida nova em oposição à redondilha medieval, chamada de medida velha. Nos temas, presenciamos o uso da mitologia, do amor platônico, da exaltação das faculdades humanas (o herói nacional), do nacionalismo, do culto à beleza e da perfeição. Temos, então, algumas características que individualizam o Classicismo: Humanismo Valorização da antiguidade Contenção lírica Locus Amoenus Carpe Diem Verossimilhança Ausência de Conflitos 27 “ VOCÊ SABIA QUE... Estudo Literatura Portuguesa da Entre os séculos XV e XVI, Portugal é um dos países mais importantes da Europa? Portugal é, então, um dos países mais importantes da Europa e se encontra mergulhado no espírito aventureiro das viagens marítimas e dos descobrimentos. O espírito renascentista pode ser entendido como oposto ao que orientou o mundo medieval. O antropocentrismo toma o lugar do teocentrismo e o homem passa a valorizar o conhecimento, a filosofia e se volta para a razão. Em Portugal, Luís de Camões é o homem-síntese, a expressão do Renascimento. Camões inaugurou, em se tratando de linguagem poética, o Classicismo em terras Lusas. Considerado o poeta máximo da língua portuguesa, tem sua obra dividida em duas fases, a Lírica e a Épica. A épica tem n’Os Lusíadas a sua mais importante obra classicista. A Lírica é representada pelos sonetos, mas também contribuiu com canções e redondilhas. E, no gênero Dramático, escreveu Anfitriões, Filodemo e El rei Seleuco. Suas obras se situam entre o Classicismo e o Maneirismo. Platão, Petrarca, Horácio, Virgílio entre outros do clássico grego e romano, assim como todo o Renascimento, pulsam na poesia de Camões, mas, dentre todas as influências recebidas, Platão é considerado a principal, pois foi nas passagens da doutrina Platoniana que Camões soube ver uma forma de investigar as relações da palavra com seu referente, fazendo dele um exímio “manipulador” das mesmas. [...] Que alma é tábua rasa Que com escrita doutrina Celeste tanto imagina. Que voa da própria casa E sove a pátria divina [...] Os sonetos contêm um grande lirismo. A preocupação técnica impressiona o mais parnasiano dos poetas, a mais comum das rimas de Camões possui os 14 versos em decassílabo, distribuídos em 2 quartetos e 2 tercetos, de rima abba-abba-cde-cde. É de clara descrição do ambiente, percebendo-se a presença de elementos pagãos e católicos. Os temas giram em torno do amor, abordado principalmente através da antítese amor platônico x amor carnal; da busca da perfeição; do desconcerto do mundo; da pátria; de Deus; da figura feminina, na figura idealizada da mulher x beleza física; e da visão da natureza. Infelizmente, dizem alguns estudiosos, que alguns sonetos que a ele são atribuídos, não são realmente de sua autoria, como por exemplo, um dos mais lidos e apreciados por seu lirismo de beleza universal: Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; [...] 28 RESUMINDO... O novo estilo de época que caracteriza o Renascimento é denominado de Classicismo e, em Portugal, é marcado pela convivência do feudalismo com o mercantilismo, pelas grandes descobertas e por importantes transformações culturais. As principais características do movimento foram a imitação dos clássicos gregos e latinos, o racionalismo, o antropocentrismo e o neoplatonismo. Os autores de destaque foram Sá de Miranda, introdutor do movimento; Bernardim Ribeiro poeta e novelista; Antônio Ferreira que, além de poeta, era também dramaturgo, e Luís Vaz de Camões escritor mais representativo do Renascimento sendo também o prenunciador do Barroco. Além de poeta Camões era dramaturgo e cabe-lhe no que concerne a linguagem poética a inauguração do movimento em terras Lusas. Considerado o poeta máximo da língua portuguesa, tem sua obra dividida em duas fases, a Lírica e a Épica. No século XVI comparece, também, a prosa historiográfica tendo como principal representante João de Barros, cuja concepção de história caracteriza-se pela preocupação de contribuir com o exemplo moral e superior dos heróis para a elevação dos espíritos. Outros historiadores desse período foram Gaspar Correia, Fernão Lopes de Castanheda, Damião de Góis e outros. A Novela de Cavalaria se nacionaliza com João de Barros que traz como herói nessas narrativas os portugueses. Barroco Dois fatos importantes ocorridos em 1580, quando se inicia o Barroco em Portugal, marcam a vida cultural e política do país, a morte de Camões e a de D. Sebastião na batalha de AlcácerQuibir na África. Com o desaparecimento do rei, o trono português é passado para Felipe II, da Espanha, sendo Portugal anexado à Espanha e permanecendo sob seu domínio durante 60 anos. Desse modo, o Barroco acontece em meio a uma crise de identidade do povo português, que sob o julgo espanhol esforça-se em preservar sua cultura e sua língua, todavia percebe a impossibilidade de ignorar as influências culturais espanholas. Ao mesmo tempo em que recebe forte influência da Contra-Reforma, de grande penetração nos países ibéricos. Segundo Massaud Moisés 1,o movimento Barroco – iniciado em Espanha e introduzido em Portugal durante o reinado filipino – “é de instável contorno por corresponder a uma profunda transformação cultural, cujas raízes constituem ainda objeto de polêmica.” Se tomarmos como base o aspecto literário, percebemos traços do Barroco já no Renascimento, no chamado Maneirismo. O Barroco, no entender de alguns estudiosos, tornou-se a arte da Contra-Reforma, a qual teria absorvido a estética barroca fazendo dela uma espécie de estratégia de catequese, mesmo porque nesse período o ensino fica quase por completo a cargo dos jesuítas. A censura eclesiástica, nesse sentido representou um obstáculo a qualquer avanço no campo científico cultural, por conta disso enquanto a Europa vivia um período de efervescência cultural a Península Ibérica permanecia um reduto da cultura medieval. 1 MOISES, Massaud. A literatura portuguesa, 3a edição, São Paulo: Cultrix, 1990. 29 A estética barroca procurava sintetizar a visão de mundo medieval de base teocêntrica e a ideologia clássica renascentista, pagã, terrena e antropocêntrica. Era a tentativa de conciliar elementos opostos como o claro e o escuro, a matéria e o espírito, a luz e a sombra visando anular pela Estudo da Literatura unificação a dualidade do ser humano, dividido entre os apelos do corpo e os Portuguesa da alma. A arte assume, assim, uma tendência sensorial ligada ao mundo físico, ao mundo das percepções dando preferência às figuras de linguagem, a um vocabulário rebuscado e aos jogos sonoros. Como vimos, a dicotomia barroca servia como representante das confusões no espírito do homem da época. Esse embate entre os dois pólos radica no problema do conhecimento da realidade, que nessa perspectiva se faria de dois modos. No primeiro modo, o conhecimento se faria pela descrição dos objetos, num estado de verdadeiro delírio cromático, em que se procurava saber o como das coisas. Conhecer seria descrever. Essa tendência recebe o nome de Gongorismo, por conta da influência do poeta espanhol Luís de Gôngora e seus adeptos, procuravam cultivar uma linguagem rebuscada, especiosa e rica e, para alcançá-la consideravam de bom tom o emprego de neologismos, hipérbatos, trocadilhos, dubiedades e todas as demais figuras de sintaxe que tornam o estilo pesado, tortuoso e alambicado. Expressão em forma de poesia. No segundo modo, o conhecimento se faria pela análise dos objetos no sentido de lhes conhecer a essência, ou melhor, saber o que são, conceituá-los, para tanto, utilizamse da inteligência e da razão sem prejuízo dos sentidos. Corrente denominada de conceptismo, expressa, sobretudo, em prosa, tinha como um dos principais representantes o espanhol Quevedo, do qual deriva o termo Quevedismo. Não devemos pensar com isto que tais correntes jamais se cruzaram, mesmo porque é comum encontrarmos numa mesma escritura traços tanto do Gongorismo como do Conceptismo. Ambos obedecem a uma concepção pragmática de arte: o primeiro, enaltecendo as sinestesias, procura criar um clima de brincadeira verbal com o objetivo de entreter; o Gongorismo não raras vezes se propõe como espetáculo para o gozo dos sentidos, no qual se confundem poesia e prazer lúdico. Não podemos esquecer que o Barroco começou nas artes plásticas, sendo essa época uma das mais importantes para as artes plásticas, embora não o seja para Portugal, onde poucas vezes alcançaram maior nível, relativamente ao resto da Europa, incluindo a Espanha aonde a arte barroca atingiu graus de primeira grandeza. Para Portugal esta literatura não apresentou o brilho do século anterior. Faltou à época uma “atmosfera” comum, pois os intelectuais eram guiados por clichês ou padrões estéticos de alambicamento e de forçado sentido literário. Falta à época a conexão entre os homens, apenas aproximados por coincidência. Alguns representantes do Barroco VOCÊ SABIA QUE... Padre Antônio Vieira também é estudado na Literatura Brasileira? 30 Padre Antônio Vieira O padre Antônio Vieira grande expressão do Barroco português e brasileiro era assistido por grande dinamismo e boa oratória. Pensou muita das questões candentes em seu tempo e procurou agir praticamente para lhes dá um rumo compatível com aquilo que julgava correto numa linha mental e política. Para o autor, o ato de pregar tinha como fim último a reafirmação dos dogmas da igreja, da redenção humana e da autoridade absoluta do papa. Tendo sempre objetivos morais, Vieira procura convencer para ensinar, orientar, excitando os fiéis no entendimento das mensagens evangélicas que pretende transmitir. Os sermões de Padre Antônio Vieira seguem a estrutura clássica que compreende intróito (ou exórdio), em que o orador declara o plano a utilizar na análise do tema em pauta; desenvolvimento (ou argumento), em que apresenta o sermão propriamente dito; e a peroração em que finaliza conclamando os ouvintes a seguirem prática das virtudes propostas. Para Vieira os valores constituintes de um perfeito orador são três: ensinar, deleitar e mover. Diante disso, pregar é agir, falar não é apenas falar, e sim pensar e fazer. Escreveu além de mais de quinhentas cartas, algumas delas em torno de importantes questões da época, obras de profecia, mas é por seus sermões que Vieira é mais conhecido. De contorno dilemático, contraditório, feito de antíteses e oposições, instável como o próprio ondular das idéias no esforço de orientar e persuadir, os sermões vieirianos correspondem à preocupação de anular a dicotomia radical existente no ser humano formado que é de corpo e alma. A característica comum às produções de Vieira é a união do tema religioso à questão política, ofensivo, atacava tanto a inquisição portuguesa na perseguição aos judeus, quanto à escravidão que se imprimia à vida do indígena. Barroco, conceptista e não gongórico, o padre Vieira parte sempre de um fato real, observado ou de flagrante presença para, de pronto, persuadir o ouvinte, chamando-o ao dever de pensar e de reagir. Para ele, o sermão não era apenas pensamento e palavra, era necessário pregar com gesto e voz. Voz forte, na tentativa de tirar o homem do tempo presente e projetá-lo para o futuro eterno. Sóror Mariana Alcoforado Sóror Mariana Alcoforado nasceu em Beja, onde professa cedo no Convento de Nossa Senhora da conceição. Em 1663 conhece Chamilly, oficial francês servindo em Portugal durante as guerras da Restauração. Enamoram-se. Um dia, porém, o militar regressa à França impelido por chamado superior, teriam trocado cartas, das quais só ficaram as escritas pela religiosa. Em 1969 publicam-se em Paris, pela primeira vez, as Lettres portugaises traduites em français. Naquele mesmo ano sai uma nova edição em Colônia e daí para frente foram lidas e traduzidas em várias línguas, sempre com progressivo interesse. Embora existam muitas dúvidas acerca da autoria e da originalidade da mesma é inegável a importância destas cartas para a literatura portuguesa. Perpassa-as um sopro de paixão incontrolada, insana, superior às inibições e convenções e ao impulso da vontade e da consciência moral. Paixão e não amor, pois o sentimento expresso contém na raiz um 31 avassalador ímpeto carnal, explicável, inclusive, pelo quadro barroco em que o caso amoroso se desenrola. As cartas ganham maior relevo ainda como documento literário precisamente por não visarem a publicação nem a serem encaradas como peça literária. Estudo Literatura Portuguesa da Dispostas da forma como se apresentam, as cartas descrevem uma curva cujo ápice é marcado pela terceira carta na qual o sofrimento atinge o limite máximo, graças à concentração de efeitos e sensações, apoiada numa linguagem precisa, concisa, ao mesmo tempo em que suficientemente plástica para apreender o ziguezague da paradoxal confissão. Outros autores barrocos No Barroco português, a prosa foi mais explorada. Tivemos além de Vieira, Padre Manuel Bernardes, cuja produção é marcada pela clausura. O autor procura mostrar em seus textos que a relação com Deus é possível pelo culto das virtudes morais. D. Francisco Manuel de Melo produziu uma obra variada e numerosa que compreende poesia, historiografia, teatro polêmica, biografia e literatura moralista. Francisco Xavier de Oliveira (o Cavaleiro de Oliveira, como ele assinava) escreveu obras de observação e com propósitos definidos: realizar conquistas amorosas, defender-se dos ataques que lhe eram dirigidos e satirizar os costumes da época. O teatro foi representado por Antonio José da Silva, que transforma a dramaturgia portuguesa. Escreveu suas peças em prosa utilizando-se de aspectos da sociedade de Lisboa para satirizar através do riso. A poesia barroca A poesia barroca portuguesa seguiu caminho diferente do da literatura doutrinária e moralista. Era poesia para entreter, valia pelo aspecto lúdico, pelo divertimento verbal, expresso no malabarismo das imagens e das correlações sintáticas. Em síntese correspondia mais ao culto da forma, do verso, que do conteúdo. Apresenta-se em figuras isoladas e em antologias organizadas com o mesmo intuito das compilações dos cancioneiros medievais. Sobressaem D. Francisco Manuel de Melo e Francisco Rodrigues Lobo, Gabriel Pereira de Castro, Vasco Mouzinho de Quevedo e Antônio de Souza de Macedo. ! 32 Indicação de Filme TÍTULO DO FILME: A MISSÃO (The Mission, ING, 1986) DIREÇÃO: Roland Joffé ELENCO: Robert de Niro, Jeremy Irons, Lian Neeson, 121 min., Flashstar Ao longo dos séculos XVI e XVII várias missões católicas foram criadas pelos jesuítas na América do Sul. Surgidas no século XIII, com as ordens mendicantes, esse trabalho de evangelização e catequese, desenvolveuse principalmente nos séculos XV e XVI, no contexto da expansão marítima européia. Embora o objetivo fosse a difusão da fé e a conversão dos nativos, as missões acabaram como mais um instrumento do colonialismo. RESUMINDO... O início do Barroco em Portugal é marcado por dois fatos importantes que modificam a vida cultural e política do país, a morte de Camões e a de D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir na África. Este último evento acarreta a incorporação de Portugal ao domínio espanhol, sob o qual permanece durante 60 anos. Desse modo, o Barroco acontece em meio ao fracasso econômico, estagnação cultural, recrudescimento da inquisição, Sebastianismo e patriotismo, além de uma crise de identidade do povo português que se esforça em preservar sua cultura e sua língua, embora perceba a impossibilidade de ignorar as influências culturais espanholas. Ao mesmo tempo em que recebe forte influência da Contra-Reforma. Podemos apontar como principais características do movimento o dualismo: razão e emoção; o medievalismo e renascimento; o conceptismo e cultismo. O principal representante desse movimento foi Padre Antônio Vieira que se dedicou a uma atividade literária bastante diversificada, compreendendo sermões, cartas e obras proféticas. Considerado o maior prosador barroco, pertence tanto à literatura portuguesa quanto à brasileira, era conceptista e não apenas religioso, mas político e profético. É importante salientar ainda a presença de outros escritores desse momento como D. Francisco Manuel de Meio, os historiadores de Alcobaça, Frei Luís de Sousa, Sóror Mariana Alcoforado e Antônio José da Silva. Arcadismo ou Neoclassicismo O Arcadismo ou Neoclassicismo é o período que caracteriza principalmente a segunda metade do século XVIII e deu as artes uma nova tonalidade burguesa. Vive-se, agora, o Século das Luzes, o Iluminismo burguês. Derivado do espírito crítico do Iluminismo, visa um retorno renovado aos gêneros, às formas, às técnicas e às expressões clássicas, que vingaram em Portugal no séc. XVI. O desenvolvimento das técnicas de produção acarretou a grande evolução das ciências naturais, pois se acredita que para expandir a produção fazia-se necessário conhecer as propriedades da matéria. Neste período, os filósofos passam a acreditar que a razão é a única fonte de conhecimento da natureza e da vida em sociedade. Portanto, a religião e a Igreja são vistas como instrumentos de ignorância e tirania. Assim, cientistas e filósofos não aceitam, no plano político, o Estado absolutista e suas instituições. São contra a constante intervenção do poder real na economia, pois isso limitava o direito da propriedade. O Arcadismo é a expressão, na literatura, do momento ideológico que se impõe em meados do século XVIII representando a crítica da burguesia culta ao modo de vida da nobreza e do clero. De espírito reformista, pretendeu reformular o ensino os hábitos e o comportamento social em prol dos ideais da burguesia em ascensão. Se no século XVII Portugal esteve influenciado pela cultura espanhola, no século XVIII a influência veio da França, mas especificamente da burguesia francesa, politicamente forte e responsável pelo desenvolvimento da economia. Sua força política se manifesta a partir de 1750, nos constantes ataques dos filósofos burgueses aos poderes real e clerical e na denúncia da corrupção dos costumes. Podemos perceber que era um tempo de transformações em toda a Europa, sobretudo na França. Mas Portugal, apesar de procurar seguir alguns dos passos dessas transformações convive ainda com o peso de uma tradição ideológica fundamentada em dogmas e princípios arraigados na cultura medieval, o que não significa ter o país se ausentado por completo dessas mudanças. O século XVIII representou também para os 33 portugueses o início de um processo de modernização nos setores econômico, político, administrativo, educacional e cultural. A partir do reinado de D. José (1750-1777), o ministro Marques de da Literatura Pombal, apoiado por diversos intelectuais, em especial Pe. Antônio Verney, Portuguesa promove uma série de medidas que coloca Portugal num clima de efervescência cultural. Dentre as mudanças efetuadas, merece destaque a proibição do ensino jesuítico e sua substituição por uma educação renovada e mais progressista. Tais posturas originaram um amplo debate sobre a necessidade de renovar a cultura portuguesa. Estudo Em 1756, funda-se a Arcádia Lusitana por iniciativa de Antônio Dinis da Cruz, Manuel Nicolau Esteves Negrão e Teotônio Gomes de Carvalho. Inicia-se, assim, uma nova etapa literária empenhada em expressar o repúdio às coisas inúteis (inutilia truncat) que adornavam a poesia barroca. Acreditando que esta representou o desequilíbrio e a decadência dos valores clássicos, querem restabelecer a simplicidade da arte renascentista, para tanto, recuam no tempo até à Antiguidade greco-latina em busca da mitológica Arcádia e dos princípios norteadores da nova arte. Características do movimento: Empenhados em restaurar a literatura clássica e combater a arte barroca, o escritor árcade elegeu alguns princípios orientadores de sua escrita: A arte devia ser regida pelo princípio da verossimilhança, devendo, portanto, ser constituída de imaginação, mas de uma imaginação que não se chocasse com a “natureza das coisas”, pretendia-se, assim, atrelar a imaginação à razão. Pregam a volta aos clássicos antigos (greco-latinos) e quinhentistas principalmente, Camões. Parte-se do pressuposto de que a beleza absoluta foi atingida por estes escritores, nada mais restando aos posteriores do que seguir-lhes as pegadas. Elogio da vida simples, sobretudo da natureza, no culto permanente das virtudes morais, uma vida medíocre materialmente, mas rica em realizações espirituais (aurea mediocritas). Fuga da cidade para o campo (fugere urbem), pois a primeira é considerada foco de mal-estar e corrupção, o campo, por sua vez, resguarda o homem mantendo-o natural, síntese de espontaneidade e simplicidade. Desprezo ao luxo, à riqueza e à ambição, que enfraquecem o homem e elogio da vida serena, plácida pela superação dos desejos carnais. Idealização amorosa, neoplatonismo, convencionalismo amoroso. O gozo pleno da vida, minuto a minuto, (carpe diem) na contemplação da beleza e da natureza. Racionalismo, a razão deve governar a emoção. Quanto à estrutura literária ainda seguem os modelos antigos, defendem, portanto, a separação de gêneros e a abolição da rima por considerá-la uma contrição para o pensamento e o verso. Reivindicam também o emprego de metros simples e ressaltam a importância da mitologia. Adotam pseudônimos pastoris para que o “fingimento” poético seja maior e imaginam-se vivendo num mundo habitado por deuses e ninfas, numa Natureza e num tempo fictícios, utópicos. Deve-se salientar que as características da estética arcádica dizem respeito exclusivamente à poesia, pois embora se cultivasse a prosa, esta não 34 obedecia às regras rigorosas do arcadismo. Sendo um movimento de oposição aos exageros do Barroco, buscava-se, ainda, a clareza absoluta, o equilíbrio e a simplicidade formal e de conteúdo. Representantes do movimento Manuel Maria Barbosa du Bocage Bocage é o pastor Elmano Sadino da Nova Arcádia, poeta que foi consagrado pela imaginação popular como autor de piadas e anedotas picantes. Mas, além desse anedotário acrescido pelo gosto popular, Bocage possui vasta obra poética, legada pela tradição literária, em duas vertentes principais, a satírica e a lírica. A veia satírica de Bocage diferencia-se dos poetas anteriores por não ser impessoal, nem genérica, nem zombeteira, mas extremamente contundente, grosseira, feita de sarcasmo e ditada por um amor-próprio ferido, incapaz de perdoar. Inúmeros aspectos sociais da época não escapam à sua crítica mordaz, critica o poder, percebendo a estreita união existente entre os dogmas da Igreja e o poder absolutista dos reis. Escritores, frades, mulheres esquivas, senhores todo-poderosos, nada escapa à crítica ou maledicência de Bocage. Mas, é a poesia lírica de Bocage, popularmente menos conhecida, a mais comentada pela critica literária que a considera sua produção superior. Nessas poesias revela-se a orientação do academicismo do século XVIII como a presença do pseudônimo pastoril, da mitologia clássica, a ânsia do locus amenus, ilustrando o fugere urbem, a produção de sonetos. Todavia, por sua originalidade e pessoalismo, particulariza, sobretudo nos sonetos, sua poesia, retratando nela o seu drama poético indissociável do seu drama pessoal; a sua obra, mais do que qualquer outra, é permeada de experiências pessoais, marca-lhe a vida com suas grandezas, misérias, esperanças e desajustes. Sentimentos desmedidos transformam-se em matéria poética na qual perpassa a natural indisciplina do poeta, fonte de uma permanente irritabilidade e orgulho desmedido e pressente-se a sua inconstância amorosa exacerbada por um temperamento impulsivo e inclinado a um ciúme delirante. Escreveu em todos os gêneros literários em voga no seu tempo - idílios, odes, canções, epístolas, epigramas, fábulas - em todas elas, demonstrando a mesma qualidade de estilo, perfeito na adequação e no apuro do vocabulário, na fluência da dicção e na sedução melódica, mas nos sonetos surgem composições de tipos completamente diferentes: eróticos, morais e devotos, heróicos joviais, libertinos e satíricos e ainda filosóficos. Apesar de ser fortemente influenciado pelo estilo dominante em sua época é comum encontrar na poesia de Bocage, principalmente nos poemas escritos depois de sua prisão, uma luta constante entre a razão iluminista e a emoção. Nessa luta dolorosa e angustiante a emoção sobrepuja a razão, nas suas composições combina elementos neoclássicos com o gosto pelo pré-romantismo como a solidão, o sofrimento, o amor-ciúme, a morte. Essas transgressões fazem de Bocage um poeta de transição entre o Neoclassicismo e o Romantismo, sua poesia anuncia os primeiros valores do Romantismo em Portugal, sendo o poeta, portanto, considerado por vários estudiosos como um poeta pré-romântico. 35 Outros autores Além de Bocage, outros autores participaram do movimento árcade, como Antônio Dinis da Cruz e Silva, Padre Antônio Correia Garção, Domingos Estudo da Literatura dos Reis Quita pertencentes à Arcádia Lusitana; Domingos Caldas Barbosa Portuguesa e padre José Agostinho de Macedo que faziam parte da Nova Arcádia. Alguns poetas, porém, renegaram a Arcádia ou fundaram grupos para combatê-la, como Filinto Elísio pseudônimo do padre Francisco Manuel do Nascimento, que pretendia renovar a linguagem literária, pré-romântico pelo tom confessional de alguns poemas, exerceu influência em muitos escritores do romantismo, inclusive Garrett e poetas brasileiros. Um outro escritor que não participou de nenhuma academia foi Nicolau Tolentino de Almeida, grande representante da crítica aos costumes sua obra é constituída de sátiras e de homenagens aos poderosos dos quais dependia, o curioso é que essas sátiras criticavam exatamente os poetas que viviam da mendicância de favores. RESUMINDO... O Arcadismo ou Neoclassicismo caracteriza a segunda metade do século XVIII e deu às artes uma nova tonalidade burguesa. Vive-se, agora, o Iluminismo burguês e visa-se um retorno renovado aos gêneros, às formas, às técnicas e à expressão clássicas. De espírito reformista, pretendeu reformular o ensino os hábitos e o comportamento social em prol dos ideais da burguesia em ascensão no país. Mas, embora Portugal tenha procurado seguir alguns dos passos das transformações em voga, convive, ainda, com o peso de uma tradição ideológica fundamentada em dogmas e princípios da cultura medieval. Apesar disso, esse século representou para os portugueses o início de um processo de modernização nos setores econômico, político (Despotismo Esclarecido), administrativo, educacional e cultural. Surgimento das Academias de Ciências e as Academias Literárias. O Arcadismo é a expressão, na literatura, desse momento ideológico representando a crítica da burguesia culta ao modo de vida da nobreza e do clero e teve como características o racionalismo, o princípio da verossimilhança, a imitação dos clássicos, o ideal de vida pastoril (locus amenus) e a oposição ao Barroco: inutilia truncat. Principais autores: Nicolau Tolentino de Almeida - poeta satírico; Manuel Maria Barbosa du Bocage - poeta satírico e lírico considerado árcade e pré-romântico e Filinto Elísio que renovou linguagem literária em Portugal. 36 Atividades Complementares O amor e a razão 1. Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos [...] nunca chega à idade de uso da razão. Usar de razão e amar são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino que vem a ser? Uma vontade com afetos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. (Pe. Antônio Vieira, Sermão do Mandato, In Sermões) O jogo de oposição de idéias é típico do Barroco. Justifique essa afirmativa com base no texto acima. 2. A razão e o amor sempre foram discutidos pelos poetas e escritores. Veja um soneto de Camões com o mesmo tema do texto anterior e, a partir do que foi estudado, identifique as características próprias do estilo de época: Sempre a Razão vencida foi de Amor, mas, porque assim o pedia o coração, quis Amor ser vencido da Razão. Ora que caso pode haver maior! Novo modo de morte, e nova dor! Estranheza de grande admiração, que perde suas forças a afeição, por que não perca a pena o seu rigor. Pois nunca houve fraqueza no querer, mas antes muito mais se esforça assim um contrário com outro por vencer. Mas a Razão, que a luta vence, enfim, não creio que é razão, mas há de ser inclinação que eu tenho contra mim.” Luís de Camões, In rimas 37 3. Ao analisar o texto, é possível dizer que ele revela traços em comum com os cantares trovadorescos. Nesse caso, faça o que se pede: Estudo Literatura Portuguesa da Abandonada por você Apaixonada por você Eu vejo o vento te levar Mas tenho estrelas pra sonhar E ainda te espero todo o dia (In Fafá: Pássaro sonhador.) a) A que tipo de composição medieval relaciona-se o texto? b) Justifique sua resposta. Texto para as questões 4 e 5 4. Oh! Maldito o primeiro que, no mundo, Nas ondas vela pôs em seco lenho! Digno da eterna pena do Profundo, Se é justa a justa Lei que sigo e tenho! Nunca juízo algum, alto e profundo, Nem cítara sonora ou vivo engenho, Te dê por isso fama nem memória, Mas contigo se acabe o nome e a glória. (Camões, Os Lusíadas) Considerando este trecho da fala do velho do Restelo no contexto da obra a que pertence, explique os dois primeiros versos, esclarecendo o motivo da maldição que, neles, é lançada. 38 5. Nos quatro últimos versos, está implicada uma determinada concepção da função da arte. Identifique essa concepção, explicando-a brevemente. DO ROMANTISMO À LITERATURA CONTEMPORÂNEA DO ROMANTISMO AO SIMBOLISMO: PERÍODO DE GRANDES TRANSFORMAÇÕES LITERÁRIAS Romantismo: Contexto Histórico e 1ª Geração O Romantismo corresponde não só a uma revolução literária, mas designa, também, uma tendência geral de vida e de arte. Com esse movimento, abre-se um ciclo de cultura novo, correspondente à diminuição do poder das oligarquias reinantes em prol das monarquias constitucionais ou das repúblicas federadas, e ao aparecimento do Liberalismo em política, moral, arte etc. O comportamento romântico caracteriza-se por uma atitude emotiva e subjetiva diante do mundo no qual o sujeito está imerso. O romântico idealiza um universo melhor, defendendo a idéia da expressão do eulírico, no qual prevalece o tom melancólico e nostálgico. Enfim, o ideal romântico tenta colocar o universo presenciado de forma subjetiva. Nesse sentido, a expressão do sentimento não precisa obedecer a nenhuma regra, antes adorada pelos clássicos. O movimento romântico recusa a cosmovisão racionalista e a estética neoclássica a ela ligada. Contexto Histórico O Romantismo é proveniente de dois acontecimentos marcantes na segunda metade do século XVIII na história européia: a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, responsáveis pela abolição das monarquias aristocratas e pela introdução da burguesia que, então, dominava a vida política, econômica e social da época. 39 “ REFLITA Estudo Literatura Portuguesa da Como as novas ideologias políticas, econômicas e sociais intervêm em todos os campos da sociedade do século XIII, instaurando novos modos de expressão artística e cultural? Em Portugal, inicia-se, com as mudanças econômicas ocorridas no Brasil a partir de 1807 provenientes da chegada da corte de D. João VI, uma nova fase moderna da vida econômica e social. Ainda com a família real fora de casa arrebenta em 1820, no Porto, uma revolução em defesa da implantação do liberalismo no país a qual com o auxílio de Lisboa e do resto do país saiu vitoriosa. O rei D. João VI, que havia se refugiado no Brasil, então regressa. Todavia os problemas em Portugal não terminam aí, a luta pelo trono português continua com veemência gerando conturbação e desordem interna na nação. De um lado, D. João VI, representante do liberalismo; de outro, D. Miguel, seu irmão absolutista. Depois da morte de D. João VI os absolutistas apoderam-se do poder e iniciam uma perseguição aos liberais, levando muitos deles a exilar-se em Inglaterra e França. Diante de tantas turbulências, o processo de instauração do movimento romântico no país foi lento e incerto. Enquanto o realismo tomava forma no horizonte parisiense, o romantismo português procurava ainda afirmar-se. Alguns autores chegam a assegurar que esta afirmação só houve como uma cultura de importação, pela via indireta dos exílios a que se sujeitaram Almeida Garrett e Alexandre Herculano. Almeida Garrett acaba por exilarse na Inglaterra, onde entra em contato com a Obra de Lord Byron e Scott. Ao mesmo tempo, por estar presenciando o Romantismo inglês, envolve-se com o teatro de William Shakespeare. Em 1825, Garrett publica o poema Camões, que passa a ser considerado o ponto de partida para a fixação da cronologia do romantismo português, que durou cerca de 40 anos terminando por volta de 1865 com a Questão Coimbrã ou Questão do Bom Senso e do Bom Gosto, encabeçada por Antero de Quental. Características O Romantismo foi uma forma de repúdio às regras que contornavam e preenchiam o campo literário da época – o classicismo. Opondo-se às regras e modelos, os românticos buscavam a total liberdade de criação, além de defender a mistura dos gêneros literários. Com o domínio burguês, ocorre a profissionalização do escritor, que recebe uma remuneração para produzir a obra, enquanto o público paga para consumi-la. Dentre as características do movimento destacam-se pela recorrência nas obras do período: Subjetivismo, sentimentalismo, egocentrismo escapismo: O escritor romântico trata os assuntos de uma forma pessoal, de acordo com o que sente, aproximandose da fantasia. Exaltam-se os sentidos, e tudo o que é provocado pelo impulso é permitido. Cultua-se o “eu” interior, numa atitude narcisista, em que o individualismo prevalece. O escritor romântico projetava-se para dentro de si, tendo como fonte o eu-lírico, numa espécie de escapismo por não aceitar a realidade que o cerca. Idealização e culto ao fantástico: motivado pela fantasia e pela imaginação, o artista romântico passa a idealizar tudo; as coisas não são vistas como realmente são, mas como deveriam ser, segundo uma ótica pessoal. A natureza e a mulher são importantes 40 pontos desse momento, o homem idealizava a mulher como uma deusa, algo divino. Recorria também à presença do mistério, do sobrenatural, representando o sonho, a imaginação; frutos da pura fantasia, que não carecem de fundamentação lógica, do uso da razão. Liberdade de criação: O escritor romântico recusa formas poéticas, usa o verso livre e branco, libertando-se dos modelos greco-latinos, tão valorizados pelos clássicos, e aproximando-se da linguagem coloquial. O homem deve realizar-se na criatividade e na sensibilidade. A inspiração instantânea, a centelha intuitiva é o verdadeiro guia do escritor romântico. A métrica, a rima, não podem ser empecilhos para a explosão sentimental do poeta. A sua criação é fruto da pura espontaneidade. Não pode nem deve ser retocada, torneada e acabada por critérios artesanais. Medievalismo: Há um grande interesse dos românticos pelas origens de seu país, de seu povo. Na Europa, retornam à Idade Média e cultuam seus valores, por ser uma época obscura. Nativismo: Fascinação pela natureza. Muitas vezes, o nacionalismo romântico é exaltado através da natureza, da força da paisagem. Pode-se falar, também, em um interesse romântico pelo exotismo e pelo indianismo, pois, estando no encalço do homem em estado “natural”, o romântico se põe a procurá-lo em outras regiões que se distinguiam pela presença dos denominados “selvagem” ou “indígena” pela diferença acentuada de seu modo de “bárbaro” e “bizarro” em relação aos padrões europeus e ocidentais. Luta entre o liberalismo e o absolutismo: Poder do povo X poder da monarquia. Até na escolha do herói, o romântico dificilmente optava por um nobre. Geralmente, adotava heróis grandiosos, muitas vezes personagens históricos, que foram de algum modo infelizes: vida trágica, amantes recusados, patriotas exilados. Religiosidade: Como uma reação ao Racionalismo materialista dos clássicos, a vida espiritual e a crença em Deus são enfocadas como pontos de apoio ou válvulas de escape diante das frustrações do mundo real. Os românticos almejavam a reabilitação do cristianismo praticado na Idade Média. Nacionalismo: Também chamada de patriotismo é a exaltação da Pátria, de forma exagerada, em que somente as qualidades são enaltecidas. Pessimismo: O artista vê-se diante da impossibilidade de realizar o sonho do “eu” e, desse modo, cai em profunda tristeza, angústia, solidão, inquietação, desespero, frustração. O romântico era pessimista também em relação à sociedade e à civilização. Não acredita nem em uma nem em outra, pregava a idéia de uma natureza humana primitiva, que, no entanto, vai sendo corrompida pela cultura. Sentem-se criaturas infelizes e desajustadas, que não conseguem enquadrar-se no contexto social e que tampouco querem fazê-lo porque a sociedade só iria cindi-las ainda mais. Decorem disso o sentimento de inadequação social, a aflição e a dor que induz o sujeito à busca de evasão da realidade por meio de fugas ou, mesmo, suicídios. A vitória das idéias românticas em Portugal não foi rápida nem do mesmo modo durante todo o período que compreende o movimento. Desse modo, podemos falar em três momentos diferenciados tanto no que concerne às idéias preponderantes como aos autores que se destacaram. Primeira Geração Atuante a partir de 1825 é ainda bastante ligado ao Classicismo, mas muito contribuiu para a consolidação do liberalismo em Portugal. Os ideais românticos dessa geração estão embasados na pureza e originalidade, no nacionalismo, historicismo e medievalismo. Como toda tendência nova, o Romantismo não veio implantar-se totalmente nos primeiros 41 momentos em Portugal. Inicialmente, buscava-se, gradativamente, apagar os modelos clássicos que ainda permeavam o meio sócio-econômico. Os escritores dessa época eram românticos em espírito, ideal e ação política e literária, mas ainda clássicos em muitos aspectos. Estudo Literatura Portuguesa da Alexandre Herculano Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (1810-1877) foi um dos líderes do Romantismo português. Em decorrência da situação política em Portugal é obrigado a exilar-se na França, onde aprimora os estudos. Em 1833, tornou-se segundo-bibliotecário na Biblioteca Municipal do Porto, mas demitiu-se três anos depois por discordar dos políticos dominantes. Em 1839, foi nomeado bibliotecário na Biblioteca Real da Ajuda. Editor de revista no meio tempo, Herculano escreveu poesia, prosa e ensaios. Foi na prosa que se destacou, principalmente com Eurico, o Presbítero. Escreveu também muitos contos. Ficou conhecido por suas narrativas históricas e tornou-se um intelectual atuante nos programas de reformas da vida portuguesa. Na ficção de Herculano, prevalece o caráter histórico dos enredos, voltados para a Idade Média, enfocando as origens de Portugal como nação. Além disso, ocorrem muitos temas de caráter religioso. Quanto à sua obra não-ficcional, os críticos consideram que renovou a historiografia, uma vez que se baseia não mais em ações individuais, mas no conflito de classes sociais para explicar a dinâmica da história. Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854) foi o introdutor do Romantismo em Portugal. Garrett foi educado nos Açores, já que sua família fugiu para lá pela ocasião da invasão de Portugal por Napoleão. Em 1816 voltou a Portugal para estudar em Coimbra. Cinco anos depois se mudou para Lisboa, onde se tornou funcionário público. Quando aconteceu a revolução de 1823, Garrett exilou-se na Inglaterra e depois na França. Voltou a Portugal mais tarde, mas retornou à Inglaterra pela ocasião da subida ao poder de D. Miguel. Em 1834, após a vitória dos liberais, passou a se dedicar ao teatro. Foi embaixador, ministro, parlamentar, jornalista, soldado (durante a luta contra o absolutista D. Miguel). Escreveu Camões (1825) inspirando-se na epopéia Os Lusíadas. A narrativa é uma biografia sentimental de Camões, poema considerado introdutor do Romantismo em Portugal, por apresentar características que viriam se firmar no espírito romântico: versos decassílabos brancos, subjetivismo, nostalgia, melancolia, e a grande combinação dos gêneros literários. Almeida Garrett teve uma obra extensa, que contempla desde o resgate do teatro português – com seus grandes autores como Gil Vicente – a uma renovação da poesia e incursões na prosa. Garrett cultivou a oratória parlamentar, o pensamento pedagógico e doutrinário, o jornalismo, a poesia, a prosa de ficção e o teatro, o qual entrou em contato com o de Shakespeare quando em exílio na Inglaterra. Teve uma vida sentimental bastante atribulada em que se sobressai o seu romance adúltero com a viscondessa da Luz, a qual inspirou seus melhores poemas. Na vasta obra de Garrett encontramos, além de Camões, 42 outros poemas como Retrato de Vênus (1821), Dona Branca (1826) e Lírica de João Mínimo (1829). Na prosa de ficção agrupam-se três obras: Viagens na minha terra, O arco de Sant‘Ana e Helena. Em matéria de teatro produziu entre outras Um auto de Gil Vicente (1838) O Alfageme de Santarém (1842) Frei Luís de Sousa (1843) Dona Filipa Vilhena (1840). Antônio Feliciano De Castilho Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) perdeu a visão quase completamente aos 6 anos. Contou com o apoio de seu irmão, Augusto Frederico de Castilho, que o incentivou a continuar a estudar. Com muita força de vontade conseguiu se formou em Direito na Universidade de Coimbra. Foi também tradutor. A partir de 1842, passou a dirigir a “Revista Universal Lisbonense”, o que lhe permitiu exercer influência sobre o meio cultural português. Teve como principal papel traduzir poetas clássicos. Começou sua carreira como um poeta árcade, mas já na metade de sua vida apresentava traços românticos bem acentuados. Sempre combativo, criticava as renovações da Literatura Portuguesa e foi o iniciador da Questão Coimbra. Algumas de suas obras: Cartas de Eco a Narciso (1821), A Primavera (1822), Amor e Melancolia ou a Novíssima Heloísa (1828) Tratado de Versificação Portuguesa (1851), Felicidade pela Instrução (1854), A Chave do Enigma (1861), O Outono (1863), dentre outras. Romantismo: A 2ª e 3ª Gerações Segunda Geração Também conhecido como Ultra-Romantismo, marcado pelo exagero, desequilíbrio, sentimentalismo, acontece entre os anos 1838 e 1860. Pode-se perceber a partir desse momento maior emoção nas obras, dando maior ênfase ao tédio, melancolia, desespero, pessimismo, fantasia e liberdade de expressão. Neste momento, desfazem-se os enlaces arcádicos que ainda envolviam os escritores da época. Aqui, nota-se com plena facilidade o domínio da estética e da ideologia romântica. Os escritores tomam atitudes extremas, transformando-se em românticos descabelados, caindo fatalmente no exagero, nos temas soturnos e fúnebres, tudo expresso numa linguagem fácil e comunicativa. Os poetas ultraromânicos reuniram-se em três grupos principais: o dos medievalistas, um segundo grupo liderado por João de Lemos de Seixas e Castelo Branco, e o grupo O Novo Trovador. Camilo Castelo Branco Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (1825-1890) foi um escritor romântico e, a contragosto, um escritor realista depois (Ele muito criticou e se opôs a esta escola.). Camilo Castelo Branco impressiona, primeiro que tudo, pela vida aventuresca e trágica que levou. Órfão de pai e mãe casa-se aos 16 anos com uma aldeã que abandona em seguida com uma filha. Em 1858, Ana Plácido, mulher casada, abandona o marido e vai viver com Camilo; o marido a processa por adultério. Em 1885, Ana Plácido morre; em 1890, deprimido pela cegueira iminente e a demência do filho, suicidase com um tiro na cabeça. Tendia a escrever sobre situações ridículas e originais, novelas passionais, acontecimentos dramático e finais trágicos. 43 Produziu obras ultra-românticas e satíricas. Escreveu em colaboração com outros autores, traduziu, editou e foi jornalista; todavia, o eixo ao redor do qual gira toda a importância do autor é constituído pela novela passional. Autor de obra vastíssima, inicialmente romântica, aderiu ao realismo com A Brasileira Estudo da Literatura de Prazins, em 1882, tendo escrito Eusébio Macário em 1879 ridicularizando Portuguesa esta escola recém-introduzida. Sua obra mais importante é Amor de Perdição, que foi seguida por Amor de Salvação, mas não ficou restringido a estas obras: publicou muitas novelas – com destaque para Maria Moisés – livros de poesias e peças de teatro. Soares de Passos Antônio Augusto Soares Passos (1826-1860) filho de família burguesa estudou na Universidade de Coimbra onde fundou o jornal “O Novo Trovador”. Nele, muitos poetas da época publicaram algo. Em 1856, Soares Passos reuniu todas essas poesias publicadas em um livro chamado “Poesias”. Mesmo tendo uma vida curta, é considerado um dos poetas ultra-românticos portugueses mais importantes. Soares de Passos constitui a encarnação mais significativa do “mal-do-século”. Vivendo na própria carne os devaneios de que se nutria a fértil imaginação de tuberculoso, sua vida e sua obra espelham claramente o prazer romântico do escapismo das responsabilidades sociais da época, acabando por cair em extremo pessimismo, um incrível desalento derrotista, cultivava em suas obras a liberdade, exaltação cívica, confiante na vitória do homem, poesia delicada, reflexo da dor pessoal. É desse dilema, impulsionado por angústias metafísicas e religiosas que decorre a poesia do autor. Obra: Poesias (1855). Terceira Geração Acontece, aqui, um tardio florescimento literário que corresponde ao terceiro momento do Romantismo, em fusão dos remanescentes do Ultra-Romantismo. Esse período é marcado pela presença de poetas, como João de Deus, Tomás Ribeiro, Bulhão Pato, Xavier de Novais, Pinheiro Chagas e Júlio Dinis, que purificam até o extremo as características românticas. Júlio Dinis Pseudônimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, nasceu em 1839 e faleceu em 1871. Visão detalhada do ambiente. Cultivou o romance do namoro ambientados no campo. Os poemas de Júlio Dinis armam-se sobre uma tese moral e teleológica, na medida em que pressupõem uma melhoria, embora remota, para a espécie humana, frontalmente contrária à desesperação e ao amoralismo cético dos ultra-românticos, numa linguagem coerente, lírica e de imediata comunicabilidade. Considerado pela crítica como pré-realista, conduz suas histórias, sempre a um epílogo feliz, não considerando a heroína como “mulher demônio”, mas, sim, como “mulher anjo”. Escreveu romances, sendo As Pupilas do Senhor Reitor, sua principal obra, e também poesias e teatro. 44 João de Deus João de Deus Ramos (1830-1896), retoma a tradição lírica portuguesa. Foi admirado pelos realistas. Teófilo Braga foi quem reuniu seus poemas e publicou-os sob o título Campos de Flores (1893). Escritor apenas de poesia, lírico de incomum vibração interior, pôs-se à margem da falsa notoriedade e dos ruídos da vida literária e manteve-se fiel até o fim a um desígnio estético e humano que lhe transcendia a vontade e a vaidade. Contemplativo por excelência, sua poesia é a de um “exilado” na terra a mirar coisas vagas e, por vezes, a se deixar estimular concretamente. Considerado pela crítica como pré-realista, mantinha, no entanto em algumas obras, o idealismo amoroso e a visão espiritualizada da mulher. Sua poesia biparte-se em lírico-amorosa e satírica, o amor é o motivo permanente de sua poesia. ! Indicação de Filme TÍTULO DO FILME: Don Juan DeMarco (Don Juan DeMarco, EUA, 1995) DIREÇÃO: Francis Ford Coppola ELENCO: Marlon Brando; Johnny Depp; Faye Dunaway A melhor parte do amor é perder todo senso de realidade. Don Juan é um personagem literário que se converte em mito. Don Juan visa o poder em suas relações amorosas: sacrificar as mulheres à sua glória, pela glória dominar os homens, e sua dominação se exerce de forma teatral. RESUMINDO... 1. A introdução do Romantismo O movimento romântico aparece vinculado a dois acontecimentos importantes da segunda metade do século XVIII europeu: a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, responsáveis pela abolição das monarquias aristocratas e pela introdução da burguesia que então dominava a vida política, econômica e social da época. As novas ideologias políticas, econômicas e sociais, intervêm em todos os campos da sociedade que instaura novos modos de expressão artística e cultural. Os autores desse movimento enfatizavam o subjetivismo, o sentimentalismo, o egocentrismo e escapismo, a idealização e culto ao fantástico, a liberdade de criação, o medievalismo, o nativismo, a religiosidade, o nacionalismo e o pessimismo. Em Portugal inicia-se, com as mudanças econômicas ocorridas no Brasil a partir de 1807 provenientes da chegada da corte de D. João VI, uma nova fase moderna da vida econômica e social. Ainda com a família real fora de casa, arrebenta em 1820, no Porto, uma revolução em defesa da implantação do liberalismo no país. Diante de tantas turbulências o processo de instauração do movimento romântico no país foi lento e incerto. O termo foi introduzido em Portugal por Almeida Garrett, escritor de vida amorosa intensa e militante político. Pertencia à tradição do Iluminismo, participando tanto do Arcadismo como do Romantismo. Suas principais produções foram na poesia “Retrato de Vênus” – obra que escandalizou os conservadores –, “Camões” – considerado o primeiro poema romântico 45 português e “Folhas Caídas” seus poemas mais românticos. Além de poemas, escreveu “Viagens na minha terra”, romance com grande observação da realidade e de denúncia da oligarquia; e “Frei Luís de Sousa”, uma obra-prima do teatro romântico português. É de sua autoria ainda na prosa o “Romanceiro” Estudo da Literatura uma Pesquisa de narrativas tradicionais. Merece destaque também Alexandre Herculano, escritor liberal Portuguesa moderado, formado dentro do Romantismo, de grande coerência política que se empenhou em fazer uma pesquisa histórica para definir nacionalidade. Na ficção, preocupava-se com o problema da integração entre a matéria histórica e ficcional, desse estilo são as obras O bobo; Eurico, o presbítero; O monge de Cister e Lendas e narrativas. Na História, possuía um método objetivo de investigação e documentação. Suas principais produções foram História de Portugal; História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal. Escreveu, ainda, poesia e uma coleção documental - Portugaliae Monumenta Histórica. 2. O ultra-romantismo O período considerado de transição para o Realismo é marcado pelo exagero, desequilíbrio, sentimentalismo, acontece entre os anos 1838 e 1860. Ênfase ao tédio, melancolia, desespero, pessimismo, fantasia e liberdade de expressão. São considerados ultra-românicos o escritor Camilo Castelo Branco, um dos grandes prosadores em língua portuguesa. Dono da biografia paixão e desgraças, que apresenta uma correlação com os temas de sua obra. Fez uso da técnica folhetinesca, tendo se notabilizado como autor de novelas, sendo as passionais as mais típicas. Suas principais produções foram as novelas de mistério ou terror Os mistérios de Lisboa e Livro negro de padre Dinis; as novelas históricas O judeu; O santo da montanha e A filha do regicida ; as novelas passionais Amor de Perdição; Carlota Ângela; Amor de Salvação e A Doida do Candal; também as novelas satíricas Coração, cabeça, estômago e A queda dum anjo ainda as novelas de influência realista EusébioMacário; A corja e A brasileira de Prazins As novelas do Minho. Um outro escritor de destaque é Soares de Passos; considerado um paradigma do poeta ultra-romântico, fora um escritor caricaturizado pelos escritores realistas e escreveu “Noivado do Sepulcro”. 3. A transição para o Realismo Acontece, aqui, um tardio florescimento literário que corresponde ao terceiro momento do Romantismo, em fusão dos remanescentes do Ultra-Romantismo. Esse período é marcado pela presença de poetas, como João de Deus, que atualiza as formas poéticas da tradição popular e tem como característica o espiritualismo e a criticidade, sua principal produção literária é o Campo de Flores; Júlio Dinis, mais significativo na prosa de ficção, ligando-se à formação da consciência da classe média liberal-burguesa, afasta-se do passionalismo ultra-romântico para enfocar as tensões psicológicas das personagens atreladas à situação sócio-econômica. Suas principais produções foram As Pupilas do senhor reitor; Uma Família Inglesa; A Morgadinha dos Canaviais e Os Fidalgos da Casa Mourisca. Além desses dois autores merecem destaque Tomás Ribeiro, Bulhão Pato, Xavier de Novais, Pinheiro Chagas. 46 Realismo Contextualizando o Realismo A partir da segunda metade do século XIX, o ambiente sócio-cultural europeu apresenta significativas mudanças. A Revolução Industrial entra em uma nova fase, utilizando agora, por exemplo, o petróleo, o aço, a eletricidade. É um período também de grandes descobertas científicas, no qual a ciência passa a ser cada vez mais defendida: antes de expor idéias é preciso prová-las cientificamente; era a defesa do pensamento científico. A civilização burguesa industrial começa a se firmar e as idéias de liberalismo e democracia ganham dimensões cada vez maiores, as ciências naturais desenvolvem-se e os métodos de experimentação e observação da realidade passam a ser encarados como os únicos capazes de explicar racionalmente o mundo físico. Diante de tantas mudanças, as exigências literárias também passam a serem outras. O desenvolvimento científico da época transformou a intelectualidade que, das cátedras universitárias aos bares boêmios, adere ao cientificismo e ao materialismo, opondose à metafísica, à religião, aderindo ao pensamento científico, às doutrinas filosóficas e sociais e assumindo atitudes liberais e republicanas redimensionam a literatura da época. O Realismo foi um movimento de oposição à idealização e ao subjetivismo do Romantismo, acusado de abordar temas desligados da vida comum. Nesse sentido, o escritor realista irá enfatizar a localização precisa do ambiente descrito, a descrição de costumes e acontecimentos contemporâneos em seus mínimos detalhes, a reprodução da linguagem coloquial, familiar e regional e a busca da objetividade na descrição e análise dos personagens. Almejavam, ainda, técnicas narrativas e descritivas perfeitas, negando a hipérbole e a retórica, proferiam a realidade tal como ela era, ou melhor, a captavam, recriando-a através da narração ou da descrição, tornando a obra um espelho da realidade. Por conta disso, preferiam a expressão simples. Motivados pelas teorias científicas e filosóficas da época, principalmente o positivismo, o determinismo e o darwinismo, os escritores realistas desejavam retratar o homem e a sociedade em sua totalidade. Não bastava mostrar a face sonhadora e idealizada da vida como fizeram os românticos, era preciso mostrar a face que ainda não haviam revelado: a do cotidiano massacrante, do amor adúltero, da falsidade e do egoísmo humano, da impotência do homem comum diante dos poderosos. Em lugar do egocentrismo romântico, verifica-se um enorme interesse em descrever, analisar e até criticar a realidade. A visão subjetiva e parcial da realidade é substituída pela visão que procura ser objetiva, fiel, sem distorções. Em lugar de fugir à realidade, os realistas procuram apontar suas falhas como forma de estimular a mudança das instituições e dos comportamentos humanos. Em lugar de heróis, surgem pessoas comuns, cheias de problemas e limitações. Na Europa, o realismo teve início com a publicação do romance realista Madame Bovary (1857) de Gustave Flaubert. Desdobramentos do movimento em Portugal Os homens da chamada geração de 70 acabaram de se formar depois de institucionalizado e consolidado o liberalismo em Portugal. Mas, por outro lado, as novas instituições inseriam-se numa sociedade que sob o ponto de vista tecnológico, econômico e mesmo social pouco progredia. E, por falta de dinamismo econômico interno, por falta de uma expansão da produção nacional, o grupo político dirigente dependia cada vez mais do 47 capital bancário interno ou externo. Emerge, então, uma massa de descontentes formada pela pequena burguesia industrial e o resíduo do artesanato, assim como uma parte da burguesia comercial que tende a ficar fora do sistema, enquanto não se organiza o partido republicano. À base, os Estudo da Literatura camponeses, mudos, constituíam a massa de manobra dos partidos Portuguesa governantes, na dependência imediata dos poderosos locais. É nessas condições que as novas idéias européias penetraram, embora tardiamente, mas ainda a tempo de criar certo mal-estar e gerar polêmicas entre realistas e românticos em Portugal. O movimento realista operou mudanças radicais na consciência literária e na mentalidade dos intelectuais do país. Eclodiu com a chamada Questão Coimbrã, polêmica literária que opôs, de um lado, Antero de Quental, Teófilo Braga e a geração de escritores surgida na década de 1860 e, de outro, os representantes da geração anterior, em 1871. Foram importantes também para a consolidação do movimento as Conferências do Casino, nesta nova manifestação da chamada Geração de 70. Os contornos do que seria o realismo apareceram com maior nitidez, especialmente através da conferência realizada por Eça de Queiroz intitulada “O realismo como nova expressão da arte”. Sob a influência do Cenáculo, e da sua figura central de Antero de Quental, Eça de Queiroz funde as teorias de Taine, do determinismo social e da hereditariedade com as posições estético-sociais de Proudhon. Ataca, também, o estado das letras nacionais e propondo uma nova arte, uma arte revolucionária, que respondesse ao “espírito dos tempos” (zeitgeist), uma arte que agisse como regeneradora da consciência social, que pintasse o real sem floreados. Para Eça, só uma arte que mostrasse efetivamente como era a realidade, mesmo que isso implicasse entrar em campos sórdidos, poderia fazer um diagnóstico do meio social, com vista à sua cura. Assim, reagia contra o espírito da arte pela arte, visando mostrar os problemas morais e dessa maneira contribuir para aperfeiçoar a humanidade. “ VOCÊ SABIA QUE... O Realismo firmou-se em Portugal como resposta à artificialidade, formalidade, exageros e a sentimentalidade mórbida do Romantismo? Para os representantes dessa nova literatura, o trabalho do escritor devia consistir na observação e experiência, na análise psicológica dos tipos, no esclarecimento dos problemas humanos e sociais, no aperfeiçoamento da literatura, isentando-a da retórica, da fantasia. Pregavam uma arte revolucionária que reagisse contra o marasmo em que tinha caído o Romantismo. A obra literária passou a ser considerada utensílio, arma de combate, de reforma e ação social. Repudiando o reinado da “Arte pela Arte”, pregavam a arte comprometida com o social, ou seja, a arte engajada. A estética literária realista caracterizava-se por um conteúdo ideológico profundo, pois, ao contrário do romantismo que parecia estar vazio de idéias, os escritores realistas propunham uma literatura em que as teorias do positivismo, do socialismo e do hegelianismo fossem visíveis. Acreditava-se que somente essas teorias poderiam exprimir a problemática real do Homem. Pretendiam, também, uma impassibilidade na análise do real, iam, portanto, contra todos os sentimentos exagerados dos românticos e preferiam a análise, a síntese e a exposição da realidade com uma verdade e neutralidade de emoções. A natureza deveria ser recriada com exatidão, como um retrato dessa mesma realidade, sem deturpações a literatura deveria funcionar como espelho e por meio dela a sociedade burguesa do tempo veria patenteada sua decomposição moral. 48 Os escritores realistas proclamavam uma religião sem dogmas, muito mais panteísta, com atitudes que chegavam a ser anticlericais. Demonstravam, também, um inconformismo com a tradição, muitos literatos consideravam que a sociedade portuguesa devia deixar de olhar constantemente para seu passado e começar a assentar novos princípios de justiça e dinamismo. Pregavam a crítica social e de costumes por considerarem o passado estéril e o presente sem nada que se conseguisse aproveitar, desejavam fazer uma reforma da sociedade. Assim, começaram a ser feitos inúmeros ataques contra a alta e média burguesia, contra o clero, contra a política, a literatura do tempo, a educação, a economia, enfim contra toda a sociedade com o objetivo que esta pudesse melhorar. Além disso, para que a literatura pudesse revestir-se de certo teor científico, fazia-se necessário um esforço por analisar as causas biológicas ou sociais do comportamento das personagens do romance. Acreditavam ainda em uma supremacia da verdade física, considerada a única verdade válida. Toda a crença metafísica e moral era relegada ao universo das conjecturas, enquanto as novas teorias filosóficas eram tomadas como base para o movimento. A implantação efetiva do Realismo em Portugal dá-se com a publicação do O Crime do Padre Amaro (1875), seguida dois anos mais tarde pelo Primo Basílio (1876), obras ambas de Eça, que são caracterizadas por métodos de narração e descrição baseados numa minuciosa observação e análise dos tipos sociais, físicos e psicológicos, aparecendo os fatores como o meio, a educação e a hereditariedade a determinarem o caráter moral das personagens. Em ambos os romances, a descrição minuciosa e a análise psicológica baseada em princípios deterministas, nas idéias da hereditariedade e influência do meio, além da severa crítica de costumes, tomam nítida feição naturalista. São romances que têm afinidade com os de Émile Zola, com o intuito de crítica de costumes e de reforma social. O primeiro destes romances foi acolhido pelos críticos de então com um silêncio generalizado. O segundo provocou escândalo aberto. A polêmica e a oposição entre Realismo e Romantismo instalam-se definitivamente. Pinheiro Chagas ataca Eça, considerando-o antipatriota, pelo modo como apresenta a sociedade portuguesa. Chegaram a aparecer panfletos acusando os realistas de “desmoralização das famílias” (Carlos Alberto Freire de Andrade: “A escola realista, opúsculo oferecido às mães”) Camilo Castelo Branco vai parodiar o Realismo com Eusébio Macário (1879) e voltando a parodiar com A Corja (1880). Mas, curiosamente, mesmo através da paródia, Camilo vai absorver a nova escola, como é nítido na novela A Brasileira de Prazins. (1882). Entretanto, Eça vai desorientar os seus seguidores ortodoxos com a publicação de O Mandarim. O que faz com que Silva Pinto (1848-1911), que tinha exposto a teoria da escola realista e elogiado Eça num panfleto intitulado Do Realismo na Arte, vai agora atacar Eça em Realismos, ridicularizando o novo estilo deste. Reis Dâmaso, na “revista de estudos livres” também insurgi contra a publicação de O Mandarim acusando Eça de ter atraiçoado o movimento. Estas acusações não eram infundadas porque de fato Eça já estava a descolar de um realismo ortodoxo para o seu estilo mais pessoal onde o humor e a fantasia se aliam num estilo único. Desde a implantação do Realismo que o movimento logrou um núcleo de apoiantes que se empenhavam em explicar e defender o seu credo estético. Todavia esse núcleo se resvalou, regra geral, para uma posição mais extremamente realista, o Naturalismo, tornando-se ortodoxos e dogmáticos. Os defensores desta posição eram José Antônio dos Reis Dâmaso (1850-1895) e Júlio Lourenço Pinto (1842-1907) autor da “Estética naturalista”, que pretendia ser um evangelho do naturalismo, todavia estes autores foram considerados fracos do ponto de vista literário e esquecidos. Aqueles que não enveredaram por posições tão rígidas estão menos esquecidos como Luís de Magalhães com a obra O Brasileiro 49 Soares (1886), prefaciado por Eça de Queiroz. Outros nomes são Trindade Coelho, Fialho de Almeida e Teixeira de Queiroz. Por volta de 1890, o Realismo/Naturalismo tinha perdido o seu ímpeto em Portugal. Em 1893, o próprio Eça o declarava morto nas Notas Contemporâneas. Estudo Embora por vezes doutrinariamente fraco e/ou confuso o Realismo em da Literatura Portugal apresenta-se por isso mesmo, mais do que um movimento Portuguesa consistente, como uma tendência estética, um sentir novo, que se opôs ao Idealismo e ao Romantismo. A sua conseqüência mais importante foi à introdução em Portugal das descobertas estrangeiras nos vários domínios do saber. Alargando as escolhas literárias e renovando um meio literário que estava muito fechado sobre si mesmo. Assim, com a absorção de teorias estrangeiras, como a irreligiosidade de Loisy e Renun, a supremacia da verdade física, com o desenvolvimento das ciências exatas e experimentais, as novas teorias filosóficas - Idealismo de Hegel, Socialismo de Proudhon, Positivismo de Comte, e Evolucionismo de Darwin e Lamark, que levam à crença nos princípios de justiça e igualdade; o materialismo otimista graças ao progresso técnico, que explica o atraso do passado pela passividade do Homem e a sua crença nas forças sobrenaturais, provocando uma verdadeira revolução cultural: repensa e questiona toda a cultura portuguesa desde as origens, fixando-se no ponto alto das descobertas; pretende-se assim preparar uma profunda transformação na ideologia política e estrutural social portuguesas isto é, a revolução republicana de 1910. Como não podia deixar de ser, a obra construída pelos realistas apresenta vários ângulos, uma vez que estavam conscientes da necessidade de fornecer a cultura portuguesa exemplos significativos em cada setor da atividade intelectual. Explica-s, assim, que essa geração, ao lado da poesia, do conto e do romance, ainda desenvolvesse, com igual convicção, a literatura de combate e de idéias assim como a literatura de viagens, a historiografia e crítica literária e, em menor proporção, o teatro. Principais autores Guerra Junqueiro Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850-1923), fez curso de Direito em Coimbra, tendo sido deputado e embaixador. Quando mais jovem, acalentou idéias revolucionárias e participou de alguns movimentos reivindicatórios, o que resultou em alguns poemas de ataque ou protesto. Foi, sobretudo, um poeta e, ocasionalmente, prosador; sua obra inicial se caracteriza por um forte apelo revolucionário contra o conservadorismo católico lusitano. Associando a beatice ao próprio Romantismo, atacava duramente o movimento. Formalmente, contudo, o poeta ainda era bastante influenciado pelo próprio estilo que atacava. De fato, o arrebatamento e a eloqüência refletiam formas tardias da poesia social do último período romântico, que teve no poeta francês, Victor Hugo, seu principal praticante. As obras marcantes desse período são: A morte de D. João (1874) e A Velhice do Padre Eterno (1885). Nesta fase não é muito coerente com os postulados científicos que passa a defender, talvez em conseqüência de sua formação religiosa ou temperamento pende entre os extremos. A partir de Os simples (1892), o poeta deu novo rumo à sua poesia. Com o próprio título, voltou-se para a temática das pessoas humildes, refletindo uma visão lírica da vida 50 rural portuguesa que, no entanto, não abandona o registro realista. Começa a repelir os rigorosos compromissos estético-científicos e a desfazer as contradições íntimas. Os simples é dividido em várias partes, cada uma delas tratando de um tipo de trabalhador português. Nele, reúnem-se os elementos que, segundo a crítica, caracterizaram a poesia da Guerra Junqueiro: a linguagem direta e simples, a temática do trabalho, a visão fatalista da existência. Tais elementos que criam um lirismo de forte tonalidade social, marcado pela nota popular da repetição rítmica do lamento que, como um refrão, entremeia os versos. Antero Tarquínio de Quental Mais do que um poeta importante da literatura portuguesa e figura ímpar do final do século XIX, Antero Tarquínio de Quental (1842-189) constituiu-se líder intelectual da geração de 70. Poeta comprometido com os problemas filosóficos e sociais do seu tempo, cultivou a poesia e a prosa polêmica e filosófica. A influência do Romantismo observa-se nas primeiras obras: Raios de extinta luz e Primaveras românticas. Mas a publicação de Odes Modernas assinala a adesão plena do poeta aos ideais revolucionários dos novos tempos, a que se segue, mais tarde, uma poesia marcadamente filosófica, angustiada por incertezas religiosas e metafísicas, claramente presentes em seus Sonetos. Deixou ainda inúmeras cartas e escritos filosóficos. Podemos identificar três fases distintas na obra de Antero de Quental. A primeira delas corresponde a uma poesia revolucionária e de entusiasmo juvenil, representada pelas Odes Modernas (1865), poemas que representam a fase do autor e sua adesão às idéias de justiça social, igualdade e dignidade humanas. Para ele, o ato de escrever é um ato revolucionário, revelando nítida influência das idéias de Proudhon. Os poemas dessa fase refletem o drama social da segunda metade do século XIX. As crenças socialistas, as filosóficas e as científicas congregam-se para criar uma poesia realista revolucionária e compromissada. A terceira fase documentada em Sonetos completos revela o poeta atormentado por questões humanas, filosóficas e metafísicas, resultando uma poesia dilemática, angustiada e pessimista, envolvida com as idéias de morte e as tentativas de explicar e entender Deus. De certa forma, essa fase representa uma síntese das perturbações que ocupavam o poeta desde a juventude. Nela, Antero atinge o ponto alto de sua carreira, com um raro refinamento artístico que une a força de reflexões filosóficas bem fundamentadas com beleza rítmica, criando frases imponentes e eloqüentes. Sua obra representa uma incessante busca do Ideal, isto é, a essência humana, corporificada em Deus, na Sociedade, ou no próprio Homem – dependendo das oscilações ideológicas pelas quais passou o poeta. Cesário Verde José Joaquim Cesário Verde nasceu em Lisboa em 1855, filho de um lavrador e comerciante, dedicou-se desde muito jovem a essas atividades. No ano de 1873, matriculou-se no curso de Letras da Universidade de Coimbra, mas freqüentou o curso somente por alguns meses. Nesse período, começou a publicar poesias no Diário de Notícias, no Diário da Tarde, no Ocidente e em alguns outros periódicos. Nessa época também surgem os sintomas mais agudos da tuberculose, doença 51 que o levaria a morte em 18 de julho de 1886. No ano seguinte, Silva Pinto, seu amigo dos tempos de universidade, reúne seus poemas em um livro intitulado O Livro de Cesário Verde. Estudo A poesia de Cesário Verde serviu de trânsito entre o Romantismo e o Literatura Realismo, de um lado, e de ponte de passagem para algumas das atitudes Portuguesa da que estarão em moda na estética simbolista e na modernista. Tal caráter transitivo explica sua posição em face do inconformismo revolucionário da geração de 70. Alheio às lutas ideológicas em curso, só de passagem o poeta se deixar envolver pela atmosfera contemporânea. O pensamento socialista, que levava às atitudes de reforma social, toca-lhe apenas de passagem a poesia, e assim mesmo, sem cor política. Em suas poesias, a realidade objetiva funde-se com a realidade subjetiva. Dotado de um temperamento anti-literário, o poeta projeta-se nas coisas exteriores com o peso de sua vida interior, a fim de apreender a imagem fugaz das coisas, em perpétuo dinamismo. É, então, que nasce a poesia do cotidiano, do trivial, marca da poesia de Cesário Verde que se coloca numa zona limítrofe que compreende o impressionismo e o expressionismo. Entre 1877 e 1880, Cesário enfocará a cidade e os seus mistérios: o cotidiano entralhe em cheio na poesia. Todavia, depois de 1881, aborrece-se da cidade e do gênero de vida que chegou a admirar e seu amor à cidade transforma-se em amor ao campo. No contato com o ar livre, o poeta encontrava inspiração para sua poesia e como isso a modificava de modo que ao sombrio de antes, sucede agora a claridade; à morbidez, a robustez; à inação, a ação. Eça de Queirós José Maria Eça de Queirós (1845-1900) – Considerado o mais importante prosador realista e da literatura portuguesa, Eça de Queirós deixou uma imensa produção literária que muita influência exerceu sobre a evolução do próprio romance em língua portuguesa. Participou ativamente das polêmicas de seu tempo por meio de escritos críticos (As Farpas), de conferências (participou dos debates e foi um dos palestrantes nas Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense), de sua copiosa correspondência e, sobretudo, por meio das próprias obras de ficção. Com a publicação de O Crime do Padre Amaro, em 1875, Eça de Queirós inicia o romance realista em Portugal, apresentando nessa obra algumas características básicas de sua postura literária: crítica violenta da vida social portuguesa, denúncia da corrupção do clero e da hipocrisia dos valores burgueses. Essas características acentuam-se ainda mais no romance O Primo Basílio, impiedosa expressão da decadência da sociedade burguesa. Sua visão corrosiva e satírica, por outro lado, manifesta-se em O Mandarim e A Relíquia. Com Os Maias (1888) observa-se, porém, uma mudança nessa atitude irreverente e destruidora de Eça de Queirós. Segue-se, então, uma nova fase literária do autor, em que a descrença no progresso e nos ideais revolucionários se manifesta na expressão saudosa da vida do campo e na valorização das virtudes nacionais. É o momento de obras como A Cidade e as Serras e A Ilustre Casa de Ramires, de contos como Suave Milagre e de biografia religiosas. A crítica literária costuma identificar três fases distintas na obra de Eça de Queirós. 52 A primeira fase compreende, basicamente, crônicas jornalísticas reunidas posteriormente em volume, sob o título de Prosas Bárbaras. Nessa fase, Eça escreveu um romance, O Mistério da Estrada de Sintra, em parceria com Ramalho Ortigão. Fase de indecisão, preparação e procura, percebe-se um realismo ainda incipiente que convive com heranças românticas. A segunda fase tem início com a publicação do romance, O Crime do Padre Amaro, em 1875. Três anos depois, o autor daria continuidade a ela com O Primo Basílio. Aderindo às teorias do Realismo, o autor coloca-se sob a bandeira da República e da Revolução, começa a escrever obras de combate às instituições vigentes (Monarquia, Igreja, Burguesia) e de ação e reforma social. A ironia utilizada nesses romances desmascara o comportamento hipócrita e ocioso da burguesia lisboeta. São algumas das obras dessa fase que marcam o aparecimento do romance em Portugal. A partir de 1880, com a publicação de Os Maias, percebe-se um escritor mais confiante em seus próprios recursos expressivos, dando livre vazão ao seu lirismo. Escapando da rigidez das normas realistas-naturalistas, confere lugar de destaque à fantasia, sem abandonar o registro crítico realista. Em romances como A Relíquia (1887), A Ilustre Casa de Ramires (1897) e A Cidade e as Serras (1901), o escritor se permite alguns vôos de imaginação. Acrescente-se a nota saudosista das tradições portuguesas. Sua linguagem vai assumindo um registro cada vez mais pessoal. Ao derrotismo e pessimismo analítico da etapa anterior, sucede um momento de otimismo, de esperança e de fé. ! Indicação de Filme TÍTULO DA MINISSERIE: Os Maias (Brasil, 2001) DIREÇÃO: Luiz Fernando Carvalho ELENCO: Ana Paula Arósio , Fabio Assunção , Walmor Chagas Uma produção muito cuidadosa da Globo com uma caracterização de época magnífica e com ótimas atuações de todo o (muito bem selecionado) elenco: “uma soberba adaptação que a TV Globo exibiu em 44 capítulos, podendo perfeitamente ser incluída num rol de produtos teledramatúrgicos de excelência artística, realizados pela nossa televisão”, diz Cristina Brandão. RESUMINDO... O período histórico que marca os últimos anos do Romantismo em Portugal já indicava uma sociedade em crise, pois, mesmo já estando institucionalizado e consolidado o liberalismo no país, as novas instituições inseriam-se numa sociedade que sob o ponto de vista tecnológico, econômico e mesmo social pouco progredia. Emerge, então, uma massa de descontentes formada pela pequena burguesia industrial e o resíduo do artesanato, assim como uma parte da burguesia comercial que tende a ficar fora do sistema, enquanto não se organiza o partido republicano. Os camponeses, mudos, apareciam nesse cenário como massa de manobra dos partidos governantes. O movimento realista Eclodiu em Portugal em 1871 e firma-se como resposta à artificialidade, formalidade, exageros e à sentimentalidade mórbida do Romantismo. Os adeptos do realismo tinham como bases teóricas o determinismo de Taine, o positivismo de Comte, o socialismo “utópico” de Proudhon, o evolucionismo de Darwin, o fisiologismo de Claude Bernard e o anticlericalismo de Renan. Diante de tais idéias, ocupavam-se de 53 uma crítica à educação romântica, ao conservadorismo da Igreja, almejando a reforma social, a representação da vida contemporânea e uma visão objetiva da realidade. Para os representantes dessa nova literatura, o trabalho do escritor consistia na observação da experiência, na análise psicológica dos Estudo da Literatura tipos, no esclarecimento dos problemas humanos e sociais, no Portuguesa aperfeiçoamento da literatura, isentando-a da fantasia. Pregavam a arte comprometida com o social, ou seja, a arte engajada, prezavam também a descrição de costumes e acontecimentos contemporâneos em seus mínimos detalhes e a reprodução da linguagem coloquial, familiar e regional. Sinteticamente, podemos vislumbrar três momentos do Realismo em Portugal: a eclosão com a Questão Coimbrã quando Castilho no Posfácio Poema da mocidade critica o estilo poético da “escola coimbrã cita os nomes de Antero Quintal, Teófilo Braga e Vieira Castro. As respostas vieram através dos folhetos Bom senso e bom gosto e A dignidade das letras e as literaturas oficiais ambos de Antero de Quental, que recebeu também o apoio de Teófilo Braga em Teocracias Literárias. Um momento posterior seria o da afirmação com o grupo do Cenáculo, nesse momento destacam-se As Farpas de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão e as conferências do Cassino. A última etapa ou a decadência marcada pela crise de desalento da “Geração de 70” que acabam formando o grupo dos “Vencidos da Vida” nesse período ocorre também o episódio do Ultimato e o suicídio de Antero de Quental. Os principais escritores desse período foram o poeta Antero de Quental principal líder realista e que revela em sua ora e em suas atividades políticas as contradições do movimento em Portugal. Sua produção poética pode ser dividida em três fases: as poesias da juventude – Sonetos; as de combate – Odes modernas e as Dilemáticas – Sonetos completos. Destacou-se também Eça de Queirós o escritor, cuja obra é a mais representativa das tensões ideológicas do realismo português, sendo também a mais importante do ponto de vista da elaboração artística. Sua obra pode ser dividida em três Fases uma Neoromântica com Notas marginais outra Realista-naturalista com O crime do padre Amaro e a última de Afastamento do Naturalismo com A ilustre casa de Ramires. Cesário Verde outro escritor importante registrou o processo de urbanização, tematizou o operariado, sendo também o precursor do Modernismo. Temos, ainda, Guerra Junqueiro autor de uma poesia militante e popular que se afastava dos padrões realistas. Simbolismo O Simbolismo é um movimento literário que surge em finais do século XIX tendo Baudelaire como um dos mais influentes precursores. Esta arte sugestiva é teorizada em 1886 por Jean Moréas quando publica no Figaro Um Manifeste Littéraire no qual define, pela primeira vez, o que denomina simbolismo. A este escritor juntam-se nomes como Rimbaud, Mallarmé, Paul Verlaine, Jules Laforgue, Gustave Kahn, Pierre Louys, entre outros. Em Portugal os primeiros sinais da escola Simbolista aparecem no ano de 1889 nas revistas Boémia Nova e Os Insubmissos, que contavam com a colaboração de Eugênio Castro e Antônio Nobre e divulgavam os grandes nomes contemporâneos das letras francesas, em especial aqueles empenhados no movimento. Com a publicação do livro de poemas Oaristos, de Eugênio de Castro, em 1890, inicia-se oficialmente o Simbolismo português, durando até 1915, época do surgimento da geração Orpheu, que desencadeia a revolução modernista no país, em muitos aspectos baseada nas conquistas da nova estética. O termo Oaristo é de origem grega e significa “diálogo íntimo” ou “diálogo entre amantes”. Essa obra, além dos poemas, que tratam de um amor ardente e fatal, apresenta em seu prefácio o programa da estética Simbolista. 54 Neste prefácio, o autor critica a poesia portuguesa da época afirmando ser esta repleta de lugares comuns e pobre nas rimas e no vocabulário. Traz como proposta a liberdade do ritmo e um vocabulário escolhido e variado e o uso de palavras menos vulgares. O término do Simbolismo português se dá em 1915, já em meio à primeira guerra mundial, quando Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa lançam a revista Orpheu e dão início ao movimento Modernista. Durante os 25 anos de predomínio da estética Simbolista, Portugal foi governado por D. Carlos I, seguido por D. Manuel II e no ano de 1910 acontece a Proclamação da República. Portugal atravessa um período muito conturbado, devido a grave crise econômica e financeira e, para piorar a situação, a Inglaterra deu um ultimato a Portugal, exigindo que fossem retirados os exércitos portugueses que se encontravam entre Angola e Moçambique, caso contrário a guerra seria declarada. A tentativa de enfrentar os exércitos ingleses em qualquer tipo de batalha seria considerado uma verdadeira loucura. Por isso, o governo português acabou cedendo, atitude que deixou o povo português humilhado. Aproveitando-se dessa crise que se instaurava na monarquia, os republicanos fizeram uma série de campanhas para a derrubada da monarquia e após muitas tentativas, em 5 de abril, a revolução, iniciada na madrugada do dia anterior em Lisboa, termina com a vitória dos republicanos apoiados pela Inglaterra. Foi estabelecido, então, um governo provisório presidido por Teófilo Braga. Em 1911 foi Promulgada a Constituição de 1911 e, ainda nesse mesmo ano, foi eleito o primeiro presidente da República: Manuel de Arriaga. No final do seu mandato, Manuel de Arriaga, alarmado com as lutas políticas procedeu a um autêntico golpe de Estado: ele demitiu todo o governo e encarregou, em ditadura, o general Pimenta de Castro de organizar um ministério, com o objetivo de pacificar a Nação e preparar próximas eleições legislativas. A ditadura Pimenta Castro durou pouco. Ainda em 1914 o povo rebelou-se e a ditadura chegou ao fim com a renúncia de Manuel Arriaga. Mais uma vez Teófilo Braga assume a Presidência da República até que se organizasse novas eleições. Como pudemos perceber, o Simbolismo português surge num momento em que a crise espiritual e o decadentismo de certos meios filosóficos e artísticos europeus, do final do século, coincidem com o sentimento de pessimismo e frustração do povo português, relacionada com algumas causas históricas como o ultimatum da Inglaterra, a queda da monarquia e a instauração da república. Os poetas simbolistas portugueses vivenciam um momento de intensa agitação social, política, cultural e artística. Características É uma corrente de reação contra o positivismo científico, o materialismo. Busca a espiritualidade, a transcendência física e a imaginação, proclama o retorno à mentalidade mística, a integração cósmica e valorização do espiritual para se conseguir a paz interior. Interesse pelo noturno, pelo mistério e pela morte, assim como pelos momentos de transição como o amanhecer e o crepúsculo; interesse pela exploração das zonas desconhecidas da mente humana. Valorizava o conhecimento intuitivo e não-lógico, enfatizando a imaginação e a fantasia, as concepções voltam-se ao místico e sobrenatural. Maior ênfase pelo particular e individual do que pelo geral e universal, os simbolistas se voltam para dentro de si à procura de zonas mais profundas. 55 Utilização de substantivos abstratos, efêmeros, vagos e imprecisos. Os textos comumente retratam elementos como fumaça, gases, neve e imagens grandiosas para expressar a idéia de liberdade. Pouco interesse pelo enredo e ação narrativa: pouquíssimos Estudo da Literatura textos em prosa. Foi na poesia que o Simbolismo se firmou recebendo Portuguesa influências do formalismo parnasiano, dos motivos da poesia francesa e do neogarretismo, apegando-se ao tradicionalismo de base historicista e folclórica. Linguagem vaga, fluida, sugestiva e não nominativa, ela devia ser ornada, colorida, exótica, bem rebuscada e cheia de detalhes: as palavras são escolhidas pela sua sonoridade, num ritmo colorido, devendo evocar e não descrever, aludir e não definir. Os procedimentos técnicos mais ligados ao Simbolismo são a sinestesia e a musicalidade. A sinestesia corresponde à mistura de sensações, provocada exatamente para acionar no leitor uma série de sentidos. A musicalidade é obtida com a exploração da camada sonora dos vocábulos. Acredita-se na existência de um mundo que se supunha existir para além da realidade visível e concreta. Os objetos, as figuras humanas, enfim toda a realidade era focalizada através de imagens vagas e imprecisas, que propositadamente dificultavam sua compreensão e interpretação. A inovação na combinação de expressões conhecidas conduziu naturalmente os simbolistas à criação de neologismos, isto é, novas palavras. Alguns autores Antônio Nobre Antônio Nobre nasceu na cidade do Porto em 1867 e morreu em 1990, vítima de tuberculose. Em 1888, matriculou-se no curso de Direito na Universidade de Coimbra. Como os estudos lhe corressem mal, partiu para Paris onde freqüentou a Escola Livre de Ciências Políticas, licenciando-se em Ciências Jurídicas. Autor de grande e refinada sensibilidade, que tomado de um sentimento ambíguo e entristecedor por um lado a vida parece-lhe um fio ininterrupto de dores, mas lastima abandoná-la. Mesmo porque reconhece receber dela um gozo estético e afetivo, no amor da mulher, na contemplação da terra natal e no encontro com os familiares e no encontro de valores espirituais. Entretanto ao debruçar-se em seu mundo interior o poeta realiza uma espécie de amarga reflexão sentimental de sua vida. Sua principal contribuição para o Simbolismo português foi a alternância do vocabulário refinado dos Simbolistas com um outro mais coloquial. A princípio, sua poesia mostra certa influência de Almeida Garret e de Júlio Dinis, porém, em uma segunda fase fica clara a influência do Simbolismo Francês. Obras poéticas: Só (publicada em Paris em 1892), Despedidas (1902) e Primeiros Versos (1921), ambas publicadas postumamente. Eugênio de Castro Eugênio de Castro e Almeida nasceu em Coimbra em 1869 e faleceu em 1944. Por volta de 1889 formou-se em Letras pela Faculdade de Coimbra e mais tarde veio a lecionar nessa faculdade. Colaborou com a publicação das revistas “Os insubmissos” e “Boêmia nova”, ambas seguidoras do 56 Simbolismo Francês. Em 1890, entrou para a história da literatura portuguesa com o lançamento do livro de poemas “Oaristos”, marco inicial do Simbolismo em Portugal. Poeta que manifestava uma forte atração por um barroquismo de linguagem algo estranho à estética simbolista em voga. A obra de Eugênio de Castro pode ser dividida em duas fases: Na primeira fase ou fase Simbolista, que corresponde a sua produção poética até o final do século XIX, Eugênio de Castro definiu algumas características da Escola Simbolista, como, por exemplo, o uso de rimas novas e raras, novas métricas, sinestesias, aliterações e vocabulário mais rico e musical. Na segunda fase ou neoclássica, que corresponde aos poemas escritos já no século XX, percebemos um poeta voltado à Antiguidade Clássica e ao passado português, revelando certo saudosismo, característico das primeiras décadas do século XX em Portugal. Além de Oaristos, podemos citar como obras do poeta Belkkiss (1894), Saudades do céu (1899), Constança (1900), O cavaleiro das mãos irresistíveis (1916), Últimos versos (1938), entre outras. Camilo Pessanha Poeta português, natural de Coimbra, nasceu filho ilegítimo de um estudante de Direito, oriundo de uma família aristocrática, e de uma mulher de condição social muito inferior. Acometido de tuberculose, morre em 1º de março de 1926 em Macau. Sua poesia, que influenciou vários poetas modernistas, mostra o mundo sob a ótica da ilusão, da dor e do pessimismo. O exílio do mundo e a desilusão em relação à Pátria também estão presentes em sua obra e passam a impressão de desintegração do seu ser. A sua obra mais famosa é Clepsidra, relógio de água, que contém poemas com musicalidade marcante e temas até certo ponto dramáticos. Poeta notabilizado pela qualidade rítmica e musical dos versos e cultivando uma forma meticulosa, de grande equilíbrio e rigor, afastou-se do tradicional lirismo romântico e do sentimentalismo tão comuns na poesia portuguesa. Camilo Pessanha é considerado o mais simbolista dos poetas da época e influenciou a geração de Orpheu, que iniciou o Modernismo em Portugal. Considerado de difícil leitura, pois trabalha bem a linguagem. Em sua obra, Clepsidra (1926), distancia-se de uma situação concreta e pessoal, e sua poesia é pura abstração. Os seus poemas caracterizam-se por um forte poder de sugestão e ritmo, apresentando imagens estranhas, insólitas, não lineares, isto é, repletas de rupturas e cores – elementos tipicamente simbolistas. Em seus poemas predomina o tema do estranhamento entre o eu e o corpo; o eu e a existência e o mundo, cujos elementos mais familiares, ao mesmo, tempo tornam-se esquivos, perante uma sensibilidade poética fina e sutil, mas na qual não se encontra os derramamentos emocionais e a subjetividade egocêntrica. Além da obra citada, é também de sua autoria: China, estudos e tradições (1944). Raul Brandão Autor de uma literatura forte e dramática. A sua melhor produção está na prosa de ficção: A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore (1926), A Farsa (1903), Os Pobres (906), Húmus, O Pobre de Pedir. O estilo de Raul Brandão aproxima-se mais da poesia que do romance, o que lhe acompanha nas diversas fases de sua carreira. Mais poeta que ficcionista graças à 57 linguagem estruturalmente poética, pelo jogo das imagens, pelo metafórico, pelo ritmo, emociona e, sobretudo, pela liberdade expressiva. Considerado pela crítica como o escritor que melhor realizou a tendência fundamental da prosa simbolista, acabando por ser o mais importante prosador do Simbolismo Estudo da Literatura português. Portuguesa RESUMINDO... O Simbolismo é um movimento literário que surge em finais do século XIX, tendo Baudelaire como um dos mais influentes precursores. Em Portugal, os primeiros sinais da escola Simbolista aparecem no ano de 1889 nas revistas Boémia Nova e Os Insubmissos. Todavia é em 1890 com a publicação do livro de poemas Oaristos, de Eugenio de Castro, que se inicia oficialmente o Simbolismo português, durando até 1915, época do surgimento da geração Orpheu, que desencadeia a revolução modernista no país. Essa obra, além dos poemas, que tratam de um amor ardente e fatal, apresenta em seu prefácio o programa da estética Simbolista, no qual o autor critica a poesia portuguesa da época. Traz como proposta a liberdade do ritmo e um vocabulário escolhido e variado e o uso de palavras menos vulgares. O movimento em portugal surge num momento em que a crise espiritual e o decadentismo de certos meios filosóficos e artísticos europeus, do final do século, coincidem com o sentimento de pessimismo e frustração do povo português. Após o ultimatum da Inglaterra e a queda da monarquia e a instauração da república, no país afirma-se uma reação idealista contra o Realismo-Naturalismo, identificado com o progressismo burguês que só beneficiava o grande capital. Diante disso, os poetas simbolistas portugueses vivenciam um momento de intensa agitação social, política, cultural e artística. As principais características do movimento foram o registro da decadência da realidade e produções bastante elaboradas; impressionismo com o registro de impressões fugazes e indo contra a estandartização; afastamento do sensualismo impressionista; irracionalismo e espiritualismo; coexistência do neo-romantismo e construção artesanal do poema. Reação ao positivismo científico e ao materialismo; valorizava do conhecimento intuitivo e não-lógico, enfatizando a imaginação e a fantasia. Maior ênfase pelo particular e individual. Utilização de substantivos abstratos, efêmeros, vagos e imprecisos. Pouco interesse pelo enredo e ação narrativa: pouquíssimos textos em prosa. Linguagem vaga, fluida, sugestiva e não nominativa. Os procedimentos técnicos mais ligados ao Simbolismo são a sinestesia e a musicalidade. Acredita-se na existência de um mundo que se supunha existir para além da realidade visível e concreta. É possível apontar três momentos do simbolismo em Portugal: a introdução, com as revistas Boêmia Nova e Os Insubmissos, merecendo destaque o esteticismo de Eugênio de Castro com Oaristos; a busca da realidade enfatizando o neogarrettismo; o saudosismo com Antonio Nobre (Só) e Teixeira dos Pascoais que aproxima o Simbolismo do Modernismo e a maturidade artística com Camilo Pessanha na poesia e Raul Brandão na prosa. Antônio Nobre autor de grande e refinada sensibilidade contribuiu alternando ao vocabulário refinado dos Simbolistas um outro mais coloquial. A princípio, sua poesia mostra certa influência de Almeida Garret e de Júlio Dinis, porém, em uma segunda fase fica clara a influência do Simbolismo Francês. Temos, também, Eugênio de Castro e Almeida que entrou para a história da literatura portuguesa com o lançamento do livro de poemas “Oaristos”, marco inicial do Simbolismo português. Sua obra pode ser dividida em duas 58 fases: a fase simbolista, que corresponde a sua produção poética até o final do século XIX e a segunda fase ou neoclássica, que corresponde aos poemas escritos já no século XX, nos quais ele se volta para a Antiguidade Clássica e ao passado. É desse período ainda Camilo Pessanha, cuja poesia influenciou vários poetas modernistas e mostra o mundo sob a ótica da ilusão, da dor e do pessimismo. É considerado o mais simbolista dos poetas da época e autor de apenas um livro: Clepsidra. Ainda faz parte dessa geração Raul Brandão, autor de uma literatura forte e dramática. A sua melhor produção está na prosa de ficção, seu estilo aproxima-se mais da poesia que do romance, o que lhe acompanha nas diversas fases de sua carreira. Atividades Complementares Texto para as questões 1 e 2 1. 2. “Quero uma virgem com uma tez bem alva / pálida e pálida, amorosa e mole / quero uma virgem, que convide os lábios / a beberem-lhe o amor gole por gole / Quero uma virgem que receie ainda / quebrar com um ai o fio dos pen-sares / quero uma virgem que me entenda todo / por um volver de místicos olhares / Quero assim minha virgem: pela terra /, louco, deitome enfim a pro-curá-la / Um ente assim, Deus tê-lo-á formado / Guia-me anjo do amor que eu hei de achá-la”. (Junqueira Freire) Identifique as características do texto. A que estilo de época pertence o texto a seguir? Idealismo e Realismo Eu sou, pois associado a estes dois movimentos, e se ainda ignoro o que seja a idéia nova, sei pouco mais ou menos o que chamam aí a escola realista. Creio que em Portugal e no Brasil se chama realismo, termo já velho em 1840, ao movimento artístico que em França e em Inglaterra é conhecido por “naturalismo” ou “arte experimental”. Aceitemos, porém, realismo, como a alcunha familiar e amiga pela qual o Brasil e Portugal conhecem uma certa fase na evolução da arte. (…) Não – perdoem-me – não há escola realista. Escola é a imitação sistemática dos processos dum mestre. Pressupõe uma origem individual, uma retórica ou uma maneira consagrada. Ora o naturalismo não nasceu da estética peculiar dum artista; é um movimento geral da arte, num certo momento da sua evolução. A sua maneira não está consagrada, porque cada temperamento individual tem a sua maneira própria: Daudet é tão 59 Estudo Literatura Portuguesa da 3. diferente de Flaubert, como Zola é diferente de Dickens. Dizer “escola realista” é tão grotesco como dizer “escola republicana”. O naturalismo é a forma científica que toma a arte, como a república é a forma política que toma a democracia, como o positivismo é a forma experimental que toma a filosofia. Tudo isto se prende e se reduz a esta fórmula geral: que fora da observação dos factos e da experiência dos fenômenos, o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade. Outrora uma novela romântica, em lugar de estudar o homem, inventava-o. Hoje, o romance estuda-o na sua realidade social. Outrora no drama, no romance, concebia-se o jogo das paixões a priori; hoje, analisa-se a posteriori, por processos tão exactos como os da própria fisiologia. Desde que se descobriu que a lei que rege os corpos brutos é a mesma que rege os seres vivos, que a constituição intrínseca duma pedra obedeceu às mesmas leis que a constituição do espírito duma donzela, que há no mundo uma fenomenalidade única, que a lei que rege os movimentos dos mundos não difere da lei que rege as paixões humanas, o romance, em lugar de imaginar, tinha simplesmente de observar. O verdadeiro autor do naturalismo não é, pois, Zola – é Claude Bernard. A arte tornou-se o estudo dos fenômenos vivos e não a idealização das imaginações inatas… (Eça de Queirós. Cartas Inéditas de Fradique Mendes. In: Obras de Eça de Queirós.) Independentemente das idéias de IDEALISMO apontada no texto, relate a sua concepção acerca do idealismo. 4. Diante do que você já estudou anteriormente, como poderia ser definido o REALISMO? 4. Considerando que, em seu texto, Eça de Queirós defende e assume os princípios mecanicistas e deterministas na composição literária, explique o que ele quer dizer com a frase seguinte sobre a técnica de composição da narrativa realista: “Outrora no drama, no romance, concebia-se o jogo das paixões a priori; hoje, analisa-se a posteriori, por processos tão exactos como os da própria fisiologia”. 60 O MODERNISMO PORTUGUÊS E A LITERATURA CONTEMPORÂNEA Modernismo: Contexto Geral e a Geração Orfeu Contexto Histórico-Social Gestadas no século anterior, profundas e amplas transformações culturais e estéticas, que serviram de ensaio para alguma coisa de novo, só veio a declarar-se, explosivamente, na Europa nos primeiros anos no início do século XX. Surgiram várias manifestações artísticas, sob a denominação genérica de correntes de vanguarda (do francês avant-garde, que significa “estar à frente, tomar a dianteira”). Esses diferentes movimentos tinham – além do ismo em seus nomes – posições comuns em relação às artes: liberdade, interpretação pessoal da realidade, rebeldia, ilogicidade, busca de novas formas de expressão, etc. Assim, aparece o Futurismo de Marinetti (Itália), o Cubismo de Picasso (espanha), o Dadaísmo suíço, o Expressionismo alemão e o Serrealismo francês. Portugal, então, procura adaptar-se ao ritmo da mudança européia e, ao mesmo tempo, busca beneficiarse do progresso cultural em curso. Em 1890, o governo inglês lançou um ultimatum a Portugal: o país deveria abandonar imediatamente as colônias que ainda mantinha. A obediência a essa imposição encheu o povo português de vergonha e abalou profundamente a crença na monarquia, já desacreditada por seu anacronismo. Neste período de grandes transformações se avolumou uma onda de insatisfação contra o regime monárquico que se mostrava incapaz de resolver os problemas mais urgentes da Nação e de oferecer um clima de tranqüilidade e progresso. A desordem e a sanguinolência generalizou-se quando o Rei D. Carlos foi assassinato por um homem do povo em 1908, ao voltar, em carruagem aberta, de uma de suas habituais estações de caça em Vila Viçosa. Como no atentado também falecera o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe, D. Manuel II –sobrevivente do morticínio no Terreiro do Paço – é imediatamente chamado a ocupar o trono. Ainda muito jovem ascende ao poder em clima de turbulências e mantém o posto de monarca até 1910, quando, precisamente a 4 de outubro, se instala a República em Portugal. A República, incapaz de resolver os problemas mais profundos do país, e sem conseguir equacionar as diferenças existentes entre os próprios republicanos, acabou por dar lugar à ditadura salazarista, que durou cerca de cinqüenta anos, até a Revolução dos Cravos, de caráter socialista, em 1975. Portanto, as mudanças sociais esperadas não aconteceram de forma a contentar os republicanos mais exacerbados. Na verdade, a República tinha como principal objetivo integrar Portugal no quadro do imperialismo europeu, sinônimo de modernização. Esse ambiente favoreceu a difusão das idéias modernistas. Assim, o Modernismo Português é um movimento estético que nasce em clima de tensas mudanças e é empreendido pela geração de Fernando Pessoa, M. Sá-Carneiro e AlmadaNegreiros em conjunto com a arte e a literaturas Européia, expressando toda a uma particularidade nacional. Foi na capital, Lisboa, em 1913, que se constituiu o núcleo do grupo modernista. O Modernismo se tornara basicamente lisboeta, apenas com algumas adesões de Coimbra (o poeta e ficcionista Albino de Meneses, etc.) e ecos vagos noutros pontos da província. Nesse ano de 1913, escreveu Sá-Carneiro, aplaudido pelo seu amigo Fernando Pessoa, os poemas de Dispersão; ambos nutriam o sonho duma revista. 61 O Modernismo em Portugal A “GERAÇÃO DE ORFEU” Estudo Em 1915, os jovens modernistas e artistas de Literatura vanguarda, estimulados pela aragem de atualidade Portuguesa da vinda de Paris com Sá-Carneiro e Santa-Rita (Pintor), adeptos do futurismo, aderiram ao projeto que Luís da Silva Ramos (Luís de Montalvor) acabava de trazer do Brasil: o lançamento duma revista luso-brasileira. Cria-se, então, a revista Orpheu, marco inaugural do Modernismo em Portugal. Através dela, as novas propostas artísticas foram divulgadas e discutidas. A duração da revista foi efêmera, prejudicada pelo suicídio de Sá-Carneiro. Esses primeiros modernistas ficaram conhecidos, exatamente em função da revista, por “geração de Orpheu”. A primeira atitude dos novos escritores foi de desprezar o “sentimentalismo falso” dos românticos, adotando uma participação ativa e primando pela originalidade de idéias e, na poesia, não deveriam se prender à rima e a métrica. Os autores modernos não fundaram propriamente uma nova escola literária, com regras rígidas, pelo contrário, desvincularam-se das teorias das escolas anteriores e procuraram os fatos da vida atual e a realidade do país para transmitir suas emoções, de uma forma livre e descompromissada. Era preciso para isso esquecer o passado, comprometer-se com a nova realidade e interpretá-la cada um a seu modo. A sociedade portuguesa vivia uma situação de crise aguda e de desagregação de valores. Os modernistas portugueses respondem a esse momento, agredindo o sistema com escândalo e sarcasmo, investigando as regiões inexploradas e indefinidas do inconsciente e entregando-se à vertigem das sensações da vida moderna, da velocidade, da técnica, das máquinas. Os modernistas portugueses tiraram proveito da herança simbolista, sem renegá-la totalmente. Assim, o saudosismo do poeta Antônio Nobre, que tinha fortes conotações nacionalistas, ganhou força entre os membros da “geração de Orpheu”. Ao lado disso, a absorção das conquistas futuristas que tomavam conta da Europa inteira, como a apologia da máquina e do progresso urbano, conduz o movimento à vanguarda. Assim, o que se destaca, no panorama modernista português, nesse primeiro momento, é a forma de elaboração entre tradição e o novo. Com isso, eles conseguem retomar formar e temas arcaicos, enquadrando-os dentro de propostas modernistas. “ Fernando Pessoa e os Heterônimos VOCÊ SABIA QUE... Fernando Pessoa possui uma faceta rica, densa e intrigante e diz respeito ao fenômeno da heteronímia, ou seja, à sua capacidade de despersonalizar-se e reconstruir-se em outros personagens? . 62 Fernando Antônio Nogueira Pessoa (1888-1935) é um poeta que se transfigura em vários poetas, os seus heterônimos, e para cada um deles deu uma biografia, caracteres físicos, traços de personalidade, formação cultural, que resultam em diferentes maneiras de interpretar o mundo. Foi assim que Fernando Pessoa “fez nascer” os poetas Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. OBSERVE: É importante não confundir heterônimo com pseudônimo. Pseudônimo é um nome falso, sob o qual alguém se oculta. O heterônimo vai além: é um outro nome, uma outra personalidade, uma “outra individualidade”, diferente, portanto, da do criador. Como nos explica o próprio Fernando Pessoa: “Por qualquer motivo temperamental que me não proponho analisar, nem importa que analise, construí dentro de mim várias personagens distintas entre si e de mim, personagens essas a que atribuí poemas vários que não são como eu, nos meus sentimentos e idéias, os escreveria. Assim têm os poemas de Caeiro, os de Ricardo Reis e os de Álvaro de Campos que ser considerados. Não há que buscar em quaisquer deles idéias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem idéias que não aceito, sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que os ler como estão, que é aliás como se deve ler”. Fernando Pessoa - obra poética. Foi um dos diretores da revista “Orpheu”, participando ativamente do Modernismo em Portugal. Queria ser absoluto e abrangente; universal, e talvez por isso, multiplicou-se para poder sentir os vários ângulos da realidade por meio da sua heteronímia. Tornou-se, então, vários poetas ao mesmo tempo, com características próprias, biografias próprias, etc. Quis reconstruir o mundo, organizar o caos. Escreve como F. Pessoa - ele mesmo e seus heterônimos. PERFIL DOS HETERÔNIMOS Para que você conheça um pouco melhor esses “poetas”, apresentamos, a seguir, os heterônimos: ALBERTO CAEIRO Nasceu em Lisboa em 1889 e morreu tuberculoso, também em Lisboa, no ano de 1915. Considerado o mestre dos outros heterônimos e do poeta ortônimo, Alberto Caeiro escreveu em versos livres (sem métrica regular) e brancos (sem rimas), de forma lírica, espontânea, instintiva, de candura e placidez ideais. Caeiro não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária, daí, algumas vezes, a simplicidade quase infantil do estilo. Órfão, é o heterônimo menos culto e complicado, e por ter vivido no campo, escreve com a linguagem simples e o vocabulário limitado de um poeta camponês pouco ilustrado. Ficou conhecido como o Poeta das sensações, pois considerava que a sensação seria a única fonte válida do conhecimento. Assim sendo, a sua produção literária é completamente entregue à infinita variedade do espetáculo das sensações, principalmente as visuais. Para ele o real é a própria exterioridade - “tudo é como é, e assim é o que é”. 63 Um rápido esboço de suas características: Fuga para o campo - rural clássico reinventado. Pretende ser objetivo - o mundo não carece de subjetivismos. da Literatura Sensacionismo - Objetiva o registro das sensações sem a Portuguesa mediação do pensamento (objetivismo visualista): “pensar é estar doente dos olhos” Proclama-se antimetafísico - pratica o realismo sensorial, numa atitude de rejeição as elucubrações do Simbolismo. Poeta-filósofo, fruto do seu contato direto com a realidade (influencia Antônio Mora). É um poeta por natureza - “um poeta e nada mais”. Agnóstico – nega qualquer forma de espiritualismo ou de transcendência. Paganismo – “pensar como os deuses, pelos pés, pela boca, pelo ouvido, pelos olhos.” É (ou pretende ser) um homem franco, alegre, de visão ingênua. Bucólico. Prestava-se à descrição pictórica impressionista. Estudo ÁLVARO CAMPOS Nasce em Tavira, em 1890 e viveu em Lisboa na inatividade sem constar data da morte. Era alto, magro e corcunda. Intelectual, teve uma educação vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar Engenharia, primeiro a Mecânica e depois a Naval, mas não exerceu a profissão. É todo emoções - É o heterônimo mais nervoso e emotivo, que por vezes vai até à histeria. É considerado um poeta futurista. Possui uma evolução literária caracterizada em 3 fases: 1ª Fase Inicia-se como “decadente-simbolista” – Decadentismo (poemas ainda metrificado e rimado). Homem hiper-civilizado, é o poeta moderno cosmopolita, melancólico. Entediado com o mundo, fuma ópio para escapar da doença da vida (escapismo). (OPIÁRIO) 2ª Fase Ingressa no modernismo - na segunda fase - com a sua vitalidade transbordante, e o seu amor ao ar livre e ao belo feroz. Sofre a influência de Alberto Caeiro (a quem toma como mestre) Passa a cultuar a energia e a força. Ele é, pelo tom e pelo estilo, um Sensacionalista – Explosão de emoções e vida. É o poeta que pretende sentir tudo de todas as maneiras”, ultrapassar a fragmentaridade numa “histeria de sensações”. Subjetivista, Campos defende uma estética não aristotélica baseada na idéia de força, na emotividade individual - Poesia de força e não de contemplação. Revolucionador das formas. 64 Futurista da exaltação da energia, da velocidade e da força da civilização mecânica (adotando um estilo febril, entre máquinas e a agitação da cidade). Entusiasta do mundo moderno. É um homem sujeito à máquina. É por meio da reflexão do homem inserido na realidade moderna e naquilo que gerará a progressão dela que Campos desenvolve os problemas existenciais. Pela técnica, o homem pode abrir o seu caminho de regresso ao paraíso”. Vanguardista. Explora os aspectos fonéticos, onomatopaicos (dadaísmo). 3ª Fase Por fim, amargurado, reflete de forma pessimista e desiludida sobre a existência. Volta ao vazio. Inadaptação às condutas sociais. Canta a angústia do homem de seu tempo e a crise de valores espirituais. Amargura angustiada. Desencontro do sujeito com o mundo e com a existência. Seu estilo é marcado pela oralidade e pela forma prolixa que se espalha em versos longos, próximos à prosa. Lirismo desencantado (aproximação com F. Pessoa, ortônimo). Para ele a metafísica é a pseudociência de se figurar mundos impossíveis. RICARDO REIS Nasce em Porto, em 1887, e não há registros de morte. Estudou com os Jesuítas e se formou em Medicina. Discípulo de Caeiro, o segue no amor da vida rústica, junto da natureza. Reis é um ressentido que sofre e vive o drama da transitoriedade, doendo-lhe o desprezo dos deuses. Afligem-no a imagem antecipada da Morte e a dureza do Fado, por isso é considerado um poeta fatalista, nos diz ele: “Acima de nós e dos deuses está o fado (destino)”. Seus poemas têm forte influência do poeta romano Horácio, sendo assim latinizante no vocabulário e na sintaxe. O seu estilo é densamente trabalhado e revela ainda, muito claramente, o seu tributo à tradição clássica no uso de estrofes regulares, quase sempre de decassílabos nas referências mitológicas, na freqüência do hipérbato, na contenção e concisão altamente expressivas e lúcidas. Considerava-se neoclássico, classicista na expressão das emoções e sentimentos. Um rápido esboço de suas características: Monárquico, auto-exila-se no Brasil (1919). O pensamento como fator inerente à criação artística. Sensacionismo - Parte das sensações. A disciplina a serviço do pensamento. Busca da perfeição e do equilíbrio – disciplina mental. Clareza das idéias. Simboliza uma força humanista de ver o mundo. Busca o refúgio dum epicurismo temperado de algum estoicismo. 65 Estudo Literatura Portuguesa da Estoicismo – “Seremos mais felizes quanto menor forem nossas necessidades”. Epicurismos – Necessidade de gozar o aqui e o agora. Versos elegantes e nostálgicos. Culto da ode. Um permanente convite ao amor, ao vinho, às flores. Culto ao paganismo - “pagão por caráter”. A Geração de Presença A REVISTA PRESENÇA Da revista Orpheu saíram, com efeito, dois números (os únicos publicados) em 1915; Feitos, em parte, para irritar o burguês, para escandalizar, estes dois números alcançaram o proposto, tornando-se alvo das troças dos jornais; mas a empresa não pôde prosseguir por falta de dinheiro. Na seqüência, surgiram duas outras revistas, dentro da mesma tendência: Centauro (1916) e Portugal Futurista (1919). Em 1917 Almada-Negreiros, “o poeta do Orpheu e o Narciso do Egipto”, organizou no Teatro República (hoje São Luís) uma escandalosa sessão futurista, ainda dentro da corrente modernista – definida como uma nova concepção da literatura como linguagem que põe em causa as relações tradicionais entre autor e obra, e ao mesmo tempo suscita uma exploração mais ampla dos poderes e limites do Homem, o momento em que defronta um mundo em crise, ou a crise duma imagem congruente do Homem e do mundo. Alguns anos mais tarde, em 1927, surgiu a revista Presença, que não só valorizou as obras dos artistas da Orpheu, como também as divulgou e deu continuidade a elas, adotando uma participação ativa e dentro da realidade da vida moderna. A revista Presença, aparecida em 1927, não só deu a conhecer e valorizou criticamente as obras dos homens do Orpheu, como lhes herdou o espírito por intermédio de alguns dos presencistas, pertencentes já a uma segunda geração modernista. Nela também colaborou Fernando Pessoa. O modernismo português conheceu ainda mais uma geração estética: O NEO-REALISMO Rejeitando a temática psicológica e metafísica que tinha dominado a geração anterior, o Neo-realismo defende uma arte participativa, de temática social. Por sua postura de ataque à burguesia, encontraram pontos de contato com o Realismo de Eça de Queirós. Mas receberam também forte influência do chamado Neo-realismo nordestino da literatura brasileira (que incluía nomes como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz Jorge Amado, entre outros). Parte dos artistas alinhados no Neo-realismo derivara para uma literatura marcada pela exploração do fantástico e do absurdo. Seus principais representantes foram: Alves Redol, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Ferreira de Castro. 66 Características do Modernismo Combate ao passadismo; contra os padrões clássicos e tradição. Irreverência contra o preestabelecido. Liberdade formal; versos livres; ausência de rima; liberação do ritmo; liberdade de estrofação. Linguagem coloquial, do dia-a-dia; regionalismo. Humor, ironia, paródia e poema-piada. Busca do novo, original, dinâmico refletindo a industrialização, máquinas, motores. Sem enfeites e rebuscamentos; a simplicidade. Abstenção de uma postura sentimentalóide. Preocupação com a observação e análise crítica da realidade. Consciência nacional. Outros autores MÁRIO DE SÁ – CARNEIRO Nasceu em Lisboa em 1890 e cometeu suicídio em Paris, 1916. Em 1915 lançou a revista “Orpheu” junto com o amigo F. Pessoa. Profunda crise moral e financeira. Mostrou inadaptação ao mundo, deixava levar-se pelas emoções, pela megalomania perdendo-se da realidade. Interiorizou-se, mostrando-se inseguro e egocêntrico. Principal obra: A Confissão de Lúcio. José Saramago: O Nobel da Literatura Vimos que a trajetória da Literatura Portuguesa, ao longo do século XX, foi marcada por rupturas e confrontos efetuada pelos Modernistas da Vanguarda, que se iniciou com a geração do Orfeu e da Presença. Neste entremeio de tempo, o romance e a poesia seguiram caminhos por vezes divergentes e foi o neo-realismo, nos anos 30 e 40, que se constituiu como movimento ideológico e estético unificador. Após a ruptura e a aceitação da diversidade de estilos e de processos literários, os anos sessenta corresponderão, então, à superação definitiva do Neo-realismo. Escritores como José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira ou Almeida Faria, vão explorar toda uma gama de possibilidades estéticas do novo romance e “num cenário inteiramente renovado”, a partir de 1947, surge José Saramago, que em busca de uma singularidade própria redescobre a História através da “efabulação” narrativa, quando publica o seu primeiro livro, o romance Terra do Pecado. A escrita de Saramago integra-se, portanto, nos novos caminhos do romance em Portugal dos últimos anos, recriando os caminhos do fantástico. “Uma escrita de subversão na subversão da escrita” José Saramago assume para si um estilo de escrita aparentemente incorreta, pois usa a pontuação de uma maneira não convencional. Nos diálogos de seus personagens abole os travessões fazendo com que estes sejam inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem: “este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas 67 um pensamento”. Ele é conhecido também por utilizar-se de frases e períodos compridos, sendo que suas sentenças, muitas vezes, ocupam mais de uma Estudo página, pois usa as vírgulas onde normalmente se usaria pontos finais. da Literatura Entretanto, seu estilo não torna a leitura mais difícil: seus leitores acostumamPortuguesa se facilmente com seu ritmo. São características que tornam o estilo de Saramago único na literatura contemporânea: é considerado por muitos críticos um mestre no tratamento da língua portuguesa. “ VOCÊ SABIA QUE... José Saramago foi o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura (1998)? Mesclando o real e o imaginário, sua obra é uma das mais conhecidas e traduzidas da literatura portuguesa contemporânea e “aborda, freqüentemente, o fenômeno histórico em seus movimentos e contingências, enquanto investiga e recria situações que relatam e analisam as ansiedades e esperanças humanas. Seu estilo se caracteriza por uma pequena influência barroca, temperada por refinada ironia”. Publicou desde poesia a peças teatrais, mas é como autor de romances que José Saramago mais se destacou. Obras publicadas Poesia Os Poemas Possíveis, 1966 Provavelmente Alegria, 1970 O Ano de 1993, 1975 Crônica Deste Mundo e do Outro, 1971 A Bagagem do Viajante, 1973 As Opiniões que o DL teve, 1974 Os Apontamentos, 1976 Literatura de Viagem Viagem a Portugal, 1981 Teatro A Noite, 1979 Que Farei Com Este Livro?, 1980 A Segunda Vida de Francisco de Assis, 1987 In Nomine Dei, 1993 Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, 2005 Contos Objecto Quase, 1978 Poética dos Cinco Sentidos - O Ouvido, 1979 68 Romance Terra do pecado, 1947 Manual de pintura e caligrafia, 1977 Levantado do chão, 1980 Memorial do convento, 1982 O ano da morte de Ricardo Reis, 1984 A jangada de pedra, 1986 História do cerco de Lisboa, 1989 O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991 Ensaio sobre a cegueira, 1995 Todos os nomes, 1997 A caverna, 2001 O homem duplicado, 2002 Ensaio sobre a lucidez, 2004 As intermitências da morte, 2005 ! Indicação de Filme TÍTULO DO FILME: Lingua - Vidas em Português (BRA/POR, 2004) DIREÇÃO: Victor Lopes ELENCO: Mia Couto; José Saramago; Martinho da Vila; João Ubaldo Ribeiro; Teresa Salgueiro; Edinho. 105 minutos Retrata o cotidiano de 200 milhões de pessoas, de seis diferentes países, que falam a Língua Portuguesa. No documentário, a Língua Portuguesa é apresentada como patrimônio imaterial, pelo qual, todos os dias, se revela a diversidade de costumes e valores de milhões de pessoas que expressam em português situações cotidianas, seja realizando negócios, escrevendo poemas, brigando no trânsito ou declarando seus amores. Todo dia o Português nasce e renasce em bocas brasileiras, moçambicanas, goesas, angolanas, japonesas, cabo-verdianas, portuguesas e guineenses. RESUMINDO... Modernismo é uma designação genérica para um variado grupo de correntes estéticas de vanguarda do século XX. No início do século XX. Surgiram várias manifestações artísticas, sob a denominação genérica de correntes de vanguarda. Esses diferentes movimentos tinham posições comuns em relação às artes: liberdade, interpretação pessoal da realidade, rebeldia, ilogicidade, busca de novas formas de expressão, etc. Assim, aparece o Futurismo de Marinetti, o Cubismo de Picasso, o Dadaísmo, o Expressionismo e o Serrealismo. Portugal, então, procura adaptar-se ao ritmo da mudança européia e, ao mesmo tempo, busca beneficiar-se do progresso cultural em curso. As bases filosóficas do movimento eram a Filosofia de Nietzche o intuicionismo de Bergson e o anti-humanismo de Heidegger e os escritores modernos pregavam a irreverência contra o preestabelecido, a liberdade formal, a linguagem coloquial, o humor, a ironia, a paródia e o poema-piada. Além da busca do novo, original e dinâmico e de uma preocupação com a observação e análise crítica da realidade e uma consciência nacional. 69 A jovem República portuguesa, encontrava-se num impasse, pois não conseguia resolver os problemas mais profundos do país, nem equacionar as diferenças existentes entre os próprios republicanos. As mudanças sociais esperadas não aconteciam de forma a contentar os republicanos mais Estudo da Literatura exacerbados. Assim, nasce o primeiro modernismo português (o orfismo) Portuguesa associado à profunda instabilidade político-social da primeira república e constituindo uma resposta artística de setores sociais mais inovadores das classes médias urbanas. Empreendido pela geração de Fernando Pessoa, M. Sá-Carneiro e Almada-Negreiros em consonância com a arte e a literatura européia, sem, contudo deixar de expressar uma particularidade nacional se constituiu o núcleo do grupo modernista na capital Lisboa, em 1913. A “Geração de Orfeu” A revista Orpheu, marco inaugural do Modernismo em Portugal, é criada em 1915 por jovens modernistas e artistas de vanguarda que estimulados pelas novidades trazidas de Paris por Sá-Carneiro e Santa-Rita, aderem ao projeto de Luís da Silva Ramos de lançar uma revista luso-brasileira, partir de então as novas propostas artísticas foram divulgadas e discutidas. A primeira atitude dos novos escritores foi abandonar o “sentimentalismo falso” dos românticos, defender a originalidade de idéias e abolir a rima e a métrica na poesia. Esses autores não fundaram propriamente uma nova escola literária e sim se desvincularam das teorias das escolas anteriores e procuraram os fatos da da realidade do país para transmitir de forma livre e descompromissada suas emoções. Saíram da revista Orpheu apenas dois números em 1915, mas surgiram dentro da mesma tendência duas outras revistas: Centauro (1916) e Portugal Futurista (1919). Fernando Pessoa foi um dos diretores da revista “Orpheu”, participando ativamente do Modernismo em Portugal era um escritor de alto nível artístico e possuía a atitudeexperiência, própria do futurismo e a ausência de síntese poética (descontinuidade). O autor teve como principais tendências artísticas o saudosismo, o paulismo, o sensacionismo, o futurismo e o interseccionismo. Conhecido por suas “máscaras” poéticas é dono de uma obra ortônima/heterônica e faz uso da dialética fingimento/sinceridade. Seus heterônimos principais são: Alberto Caeiro - poeta bucólico; Ricardo Reis - poeta neoclássico e Álvaro de Campos - poeta modernista. Outros escritores de destaque foram Sá-Carneiro escritor herdeiro do decadentismosimbolismo e Almada Negreiros propagandista do Modernismo fez a ponte entre Modernismo e tendências contemporâneas atuando em vários campos artísticos. A Geração de Presença Em 1927, um grupo de estudantes funda, edita e dirige em Coimbra a revista Presença, que não só valorizou as obras dos artistas da Orpheu, como também as divulgou e deu continuidade a elas, adotando uma participação ativa e dentro da realidade da vida moderna. Nela também colaborou Fernando Pessoa. Tinha como marca a oposição ao evasionismo, o grupo Presença procurava realizar simultaneamente à consolidação do Modernismo e implantar um regime de rigor e severidade artística. Os escritores mais significativos foram José Régio, Miguel Torga - prosador com literatura social Branquinho da Fonseca - contista Edmundo de Bettencourt - precursor do Surrealismo Adolfo Casais Monteiro - Poeta, ensaísta e professor de literatura no Brasil. 70 Neo-Realismo: uma outra geração estética Rejeitando a temática psicológica e metafísica que tinha dominado a geração anterior, o Neo-realismo defende uma arte participativa, de temática social. Por sua postura de ataque à burguesia, encontraram pontos de contato com o Realismo de Eça de Queirós, mas receberam também forte influência do chamado Neo-realismo nordestino da literatura brasileira. Parte dos artistas do Neo-realismo derivou para uma literatura marcada pela exploração do fantástico e do absurdo. Seus principais representantes foram: Alves Redol, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Ferreira de Castro. Superação do Neo-Realismo Após a ruptura e a aceitação da diversidade de estilos e de processos literários, os anos sessenta correspondem à superação definitiva do Neo-realismo. Escritores como José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira ou Almeida Faria, vão explorar uma gama de possibilidades estéticas do novo romance e “num cenário inteiramente renovado”. A partir de 1947, surge José Saramago, que em busca de uma singularidade redescobre a História através da “efabulação” narrativa, quando publica o seu primeiro livro, o romance Terra do Pecado. A escrita de Saramago recriando os caminhos do Fantástico integra-se nos novos caminhos do romance em Portugal dos últimos anos. Saramago assume para si um estilo de escrita aparentemente incorreta, pois usa a pontuação de uma maneira não convencional. É conhecido também por utilizar-se de frases e períodos compridos, particularidade que não torna a leitura mais difícil: seus leitores acostumam-se facilmente com seu ritmo, características que tornam o estilo desse autor único na literatura contemporânea. Mesclando o real e o imaginário Saramago é autor de uma vasta produção literária que compreende poesias, crônicas, literatura de Viagem, teatro, contos e romances. Atividades Complementares 1. O poema “Falso diálogo entre Pessoa e Caeiro”, de José Paulo Paes, remete-nos ao poema X de “O guardador de rebanhos”, de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa). Leia atentamente os dois poemas, transcritos a seguir, e identifique no poema de Alberto Caeiro as falas que, segundo o poema de José Paulo Paes, poderiam ser atribuídas a Pessoa e a Caeiro, respectivamente. Justifique sua resposta. Falso diálogo entre Pessoa e Caeiro [Pessoa] - a chuva me deixa triste... [Caeiro] - a mim me deixa molhado. Poema X (O guardador de rebanhos) “Olá, guardador de rebanhos, Ai à beira da estrada, Que te diz o vento que passa?” “Que é vento, e que passa, E que já passou antes, E que passará depois. E a ti, o que te diz?” 71 Estudo Literatura Portuguesa da 2. 3. 4. 5. 72 “Muita cousa mais do que isso, Fala-me de muitas outras cousas De memórias e de saudades E de cousas que nunca foram.” “Nunca ouviste passar o vento. O vento só fala do vento. O que lhe ouviste foi mentira, E a mentira está em ti”. Qual a temática do poema? Quem poderia estar sendo representado pelo guardador de rebanhos? Quais as características desse poema? Analisando o primeiro poema, que características podem ser extraídas dele? Atividade Orientada Caro aluno, A atividade a seguir é de caráter obrigatório e tem por objetivo avaliar o seu aprendizado durante o curso. Para isso, você poderá utilizar todos os recursos disponibilizados neste período e complementar com pesquisas em livros, revistas e sites. A atividade deverá ser realizada em ambiente de tutoria e em equipe. A proposta é criar um jornal/painel informativo-cultural acerca de um dos temas abordados nos quadros e textos a seguir. Crónica Breve do Arquivo Nacional é uma narração bastante sumária da vida dos seis primeiros reis de Portugal, desde D. Afonso Henriques até D. Dinis. As Crónicas Breves de Santa Cruz de Coimbra, ou Crónicas Avulsas, são quatro textos que foram compilados no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Os manuscritos estão actualmente na Biblioteca Pública Municipal do Porto. Datam a maior parte da segunda metade do século XV, sendo possível que a primeira redacção tenha ocorrido no século XIII. Todas estas crónicas foram publicadas por Alexandre Herculano nos Portugaliae Monumenta Historica, volume correspondente aos Scriptores, tendo algumas delas inspirado o mesmo autor na elaboração de certos textos de Lendas e Narrativas. In: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/index.html D. Sebastião, rei de Portugal D. Sebastião Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a Sorte a não dá. Não coube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está Ficou meu ser que houve, não o que há. ‘Sperai! Caí no areal e na hora adversa Que Deus concede aos seus Para o intervalo em que esteja a alma imersa Em sonhos que são Deus. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia. Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria? Fernando Pessoa, Mensagem Que importa o areal e a morte e a desventura Se com Deus me guardei? É O que me sonhei que eterno dura, É Esse que regressarei. Fernando Pessoa, Mensagem 73 Estudo Literatura Portuguesa da O Sebastianismo O Sebastianismo foi um movimento místico-secular que ocorreu em Portugal na segunda metade do século XVI como conseqüência da morte do rei D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. Por falta de herdeiros, o trono português terminou nas mãos do rei espanhol Felipe II. Apesar do corpo do rei ter sido removido para Belém, o povo nunca aceitou o fato, divulgando a lenda de que o rei encontrava-se ainda vivo, apenas esperando o momento certo para volver ao trono e afastar o domínio estrangeiro. Seu mais popular divulgador foi o poeta Bandarra que produziu incansáveis versos clamando pelo retorno do Desejado. Explorando a crendice popular vários oportunistas se apresentavam como o rei oculto na tentativa de obter benefícios pessoais. O maior intelectual a aderir ao movimento foi o Padre Vieira. Finalmente em 1640, pelo golpe restauracionista liderado pelos Braganças, no Porto, Portugal voltou a ser independente e o movimento começou a arrefecer no interior do Nordeste, também ser motivo da crença na chegada de um “rei bom”. Basicamente é um messianismo adaptado às condições lusas e depois nordestinas. Traduz uma inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre. In: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/500br/canudos7.htm Barroco - Momento Histórico Lisboa era considerada a capital mundial da pimenta, a agricultura lusa era abandonada. Com a decadência do comércio das especiarias orientais observa-se o declínio da economia portuguesa. Paralelamente, Portugal vive uma crise dinástica: em 1578 D. Sebastião desaparece em Alcácer-Quibir, na África; dois anos depois, Felipe II da Espanha consolida a unificação da Península Ibérica. A perda da autonomia e o desaparecimento de D. Sebastião originam em Portugal o mito de Sebastianismo (crença segundo qual D. Sebastião voltaria e transformaria Portugal no Quinto Império). O mais ilustre sebastianista foi, sem dúvida, o Pe. Antônio Vieira, que aproveitou a crença surgida nas “trovas” de um sapateiro chamado Gonçalo Anes Bandarra. In: http://members.tripod.com/~netopedia/Literatura/barroco.htm “[...] Veio depois a derrota de Alcácer-Quibir e o desaparecimento do Rei (1578). A nação caiu sob o domínio castelhano. A literatura chorou, com a perda de D. Sebastião, o desfazer das esperanças desmedidas, a ruína dum povo que, havia pouco, deslumbrara o mundo com os Descobrimentos e a criação de um grande Império. Vasco Mouzinho de Quevedo, por exemplo, recorda doridamente o Rei, «Sebastião cuja morte inda hoje é viva, / Renovando-se sempre de ano em ano». Foi então que surgiu, como instintiva reacção, o sebastianismo. Julgou-se que só a fé visionária poderia salvar-nos. Na primeira metade do séc. XVI vários pretensos profetas, desafiando os rigores da Inquisição, haviam aliciado adeptos, nomeadamente cristãos novos. Entre esses «profetas» contava-se Gonçalo Anes, de alcunha «o Bandarra», sapateiro de Trancoso (Beira Alta), homem cujas trovas, largamente divulgadas, se tornariam «o evangelho do sebastianismo». O Bandarra (falecido em 1545, segundo um epitáfio mandado gravar no séc. XVII) tinha-se inspirado na Bíblia 74 para verberar a corrupção da época e fazer obscuras predições, entre as quais, parece, estavam a da conquista de Marrocos, a da derrota dos Turcos e a do Quinto Império. [...] Durante o séc. XIX, o sebastianismo foi passando da esfera política para os domínios literário e culturológico. O sonho heróico de D. Sebastião, a sua morte na batalha, o mito do seu regresso e a quimera do Quinto Império inspiram poetas e prosadores. [...] No Frei Luís de Sousa de Garrett, é Telmo, o velho criado, quem associa à fé no retorno do Rei a convicção de que D. João de Portugal, seu amado amo, um dia aparecerá.” (Coelho, Jacinto do Prado, DICIONÁRIO DE LITERATURA) Alexandre Herculano: em busca das origens Um exército de homens, montados em cavalos e armados com lanças, atiradeiras e escudos, põe-se em fileira. Em suas bandeiras vêem-se brasões e o símbolo da cruz. À sua frente, coloca-se outro exército de homens de feições diferentes, com turbantes na cabeça, roupas compridas e largas, falando uma língua estranha e defendendo um deus diferente: Alá. Não se trata de um filme da “sessão da tarde” na televisão, embora esse seja um tema de filmes de aventura. Trata-se de uma das situações criadas por Alexandre Herculano (1810--1877), escritor português que se interessou por temas históricos, principalmente aqueles cujo cenário é a Idade Média, mundo de fantasias em que cavaleiros heróicos lutam contra o exército árabe e procuram salvar donzelas indefesas. Embora também tenha cultivado a poesia, foi na prosa de ficção que Alexandre Herculano deixou sua maior contribuição. Nela o autor fez uso de seu largo conhecimento da história de Portugal, particularmente a relativa à Idade Média, introduzindo o romance histórico no país. Esse gênero renovou e revigorou a prosa de ficção portuguesa, dado o desgaste das novelas de cavalaria e das novelas sentimentais. Herculano é autor dos romances O bobo (situado no século XII), Eurico, O presbítero (situado no século VIII) e O monge de Cister (situado no século XVI). Cereja & Magalhães, 1999:20 Os Lusíadas Os Lusíadas são considerados a principal epopéia da época moderna devido à sua grandeza e universalidade. As realizações de Portugal desde o Infante D. Henrique até à união dinástica com Espanha em 1580 são um marco na História, marcando a transição da Idade Média para a Época Moderna. A epopéia narra a história de Vasco da Gama e dos heróis portugueses que navegaram em torno do Cabo da Boa Esperança e abriram uma nova rota para a Índia. As armas e os barões assinalados Que, da ocidental praia lusitana, Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo reino, que tanto sublimaram. (...) Cantando espalharei por toda a parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte Camões, Lusíadas, Canto I. É uma epopéia humanista, mesmo nas suas contradições, na associação da mitologia pagã à visão cristã, nos sentimentos opostos sobre a guerra e o império, no gosto do repouso e no desejo de aventura, na apreciação do prazer e nas exigências de uma visão heróica. In: http://pt.wikipedia.org 75 Estudo Literatura Portuguesa da D. Sebastião Décimo sexto rei de Portugal, filho do príncipe D. João e de D. Joana de Áustria, nasceu em Lisboa a 20 de Janeiro de 1554, e morreu em Alcácer Quibir, a 4 de Agosto de 1578. Sucedeu a seu avô D. João III, sendo o seu nascimento esperado com ansiedade, enchendo de júbilo o povo, pois a coroa corria o perigo de vir a ser herdada por outro neto de D. João III, o príncipe D. Carlos, filho de Filipe II de Espanha. De saúde precária, D. Sebastião mostrou desde muito cedo duas grandes paixões: a guerra e o zelo religioso. Cresceu na convicção de que Deus o criara para grandes feitos, e, educado entre dois partidos palacianos de interesses opostos - o de sua avó que pendia para a Espanha, e o do seu tio-avô o cardeal D. Henrique favorável a uma orientação nacional -, D. Sebastião, desde a sua maioridade, afastou-se abertamente dum e doutro, aderindo ao partido dos validos, homens da sua idade, temerários a exaltados, que estavam sempre prontos a seguir as suas determinações. Nunca ouviu conselhos de ninguém, e entregue ao sonho anacrónico de sujeitar a si toda a Berbéria a trazer à sua soberania a veneranda Palestina, nunca se interessou pelo povo, nunca reuniu cortes nem visitou o País, só pensando em recrutar um exército a armálo, pedindo auxílio a Estados estrangeiros, contraindo empréstimos e arruinando os cofres do reino, tendo o único fito de ir a África combater os mouros. Chefe de um numeroso exército, na sua maioria aventureiros e miseráveis, parte para a África em junho de 1578; chega perto de Alcácer Quibir a 3 de Agosto e a 4, o exército português esfomeado a estafado pela marcha e pelo calor, e dirigido por um rei incapaz, foi completamente destroçado, figurando o próprio rei entre os mortos. O QUINTO IMPÉRIO - Ontem como Hoje Realizador - Manoel de Oliveira Ano de Produção - 2004 www.madragoafilmes.pt Sinopse Este filme a que dou o título de O QUINTO IMPÉRIO - ONTEM COMO HOJE, baseiase na peça teatral EL-REI SEBASTIÃO, de José Régio. José Régio (1900 a 1968) foi crítico, poeta, dramaturgo, romancista e ensaísta, figura cimeira do seu tempo e de hoje, que segundo uma sua própria declaração, pretendeu analisar o Rei, o Homem e a mítica personagem. O rei Sebastião, depois da estrondosa derrota na batalha de Alcácer-Kibir (1578), mais conhecida pela Batalha dos Três Reis, e por jamais ter sido identificado o seu corpo após a batalha, se tornou no mito do encoberto ele que fora antes o desejado e o destinatário ao mito. Mito, aliás cantado e exaltado nos sermões do Padre António Vieira (Século XVII), pelo filósofo Sampaio Bruno (século XIX) e no século XX pelo poeta Fernando Pessoa e pelo filósofo José Marinho, entre outros escritores e psicólogos portugueses, 76 como ainda por estudiosos estrangeiros. Curiosamente, este mito também faz parte da mitologia muçulmana com a mesma nomenclatura do encoberto e, tal como o rei Sebastião, é suposto vir a acontecer o mesmo com o Iman muçulmano (o da décima segunda geração) cuja crença comum é a de que virá num cavalo branco, em uma manhã de nevoeiro para derrubar definitivamente o mal do mundo e estabelecer a concórdia entre os povos. Alcácer Quibir battle. In: http://genealogia.netopia.pt/home/article.php?id=57 77 Etapa 1 Os acontecimentos da História de Portugal estão intimamente ligados a sua produção literária. A fim de colher informações a respeito da atividade Estudo proposta, observe os quadros e textos acima e escolha um dos temas, para da Literatura em seguida discutir o tema e criar as duas primeiras partes do jornal/painel Portuguesa informativo-cultural: o editorial e a reportagem. Para isso veja algumas dicas e sugestões. PRODUZINDO UM EDITORIAL Leve em conta as características de um editorial: Expressa a opinião do jornal sobre um assunto quase sempre polêmico; Tem intenção de persuadir os leitores, esclarecer ou alterar seus pontos de vista, alertar a sociedade e, às vezes, até mobilizá-la; É uma tese ou ponto de vista fundamentado por comparações, exemplificações, depoimentos, pesquisas e dados estatísticos, citações, retrospectiva histórica, etc.; Possui uma estrutura convencionalmente organizada em três partes: introdução, desenvolvimento e conclusão; Deve ter linguagem clara, objetiva e impessoal; Com base nas informações colhidas, na pesquisa e no próprio conhecimento a respeito do tema elabore um editorial apresentando aos leitores os assuntos que serão abordados. Sugere-se que o editorial possua entre 20 a 30 linhas, que seja empregado o padrão culto e formal da língua portuguesa, como é próprio desse gênero literário. PRODUZINDO UMA REPORTAGEM Leve em conta as características de uma reportagem: Normalmente, apresenta título, lead e, em seguida, desenvolve de modo mais aprofunda- dos fatos que interessam ao público a que se destina o jornal ou a revista; Costuma estabelecer conexões entre o fato central e fatos paralelos, por meio de citações. Trechos de entrevistas, boxes informativos, dados estatísticos, fotografias; Pode ter um caráter opinativo, questionando as causas e os efeitos dos fatos, interpretan-do-os, orientando os leitores; Apresenta versões e opiniões diferentes sobre um mesmo fato; Predomínio da função referencial da linguagem; Se necessário, busque informações em jornais, revistas e livros, além dos textos disponibilizados. Escreva a reportagem, considerando as características do gênero e, se possível, ilustre-a com fotografias, gravuras ou figuras. Dê-lhe um título que atraia a atenção do leitor e, ao mesmo tempo, anuncie o assunto. Coloque um subtítulo, se julgar necessário. A linguagem deve ser impessoal, objetiva, direta, de acordo com o padrão culto da língua. 78 Etapa 2 Para complementar o jornal/painel informativo-cultural é necessário criar agora algumas produções de caráter mais pessoal como a crônica e a crítica, conforme orientação a seguir. PRODUZINDO UMA CRÔNICA Leve em conta as características de uma crônica: Texto publicado geralmente em jornais e revistas; Relata de forma artística e pessoal fatos colhidos no noticiário jornalístico e no cotidiano; Consiste em um texto curto e leve; Tem por objetivo divertir e/ou refletir criticamente sobre a vida e os comportamentos humanos; Pode apresentar os elementos básicos da narrativa: fatos, personagens, tempo e lugar; O tempo e o espaço são normalmente limitados; Pode apresentar narrador-observador ou narrador-personagem; às vezes, emprega a 2ºpessoa. 1ª Opção: Pensar em uma situação corriqueira, semelhante às narradas nos textos acima, que tenha sido presenciada por vocês no decorrer do curso, diretamente relacionada com o estudo desse módulo. Escreva uma crônica sobre ela. 2ª Opção: Tomar como base um fato ocorrido e amplamente divulgado pela imprensa escrita (exemplificada nos textos). Elabore uma crônica que revele uma visão pessoal do acontecimento. Aborde o fato ou a situação escolhida procurando ir além do circunstancial, narrando com sensibilidade ou, se quiser, com humor. Terminando o texto, dê a ele um título sugestivo. Lembre-se que a linguagem, geralmente, está de acordo com o padrão culto e informal da língua. PRODUZINDO UMA RESENHA CRÍTICA OU CRÍTICA LITERÁRIA Leve em conta as características de uma crítica: Texto de natureza argumentativa, que tem por objetivo informar o leitor sobre um objeto cultural e avaliar seus pontos positivos e negativos; Estrutura livre; normalmente se faz um resumo do texto, apresentando um breve histórico de seu(s) autor(es) seguido de uma avaliação, na qual aponta os aspectos mais importantes, estabelecendo relações com outros textos e contexto histórico, comentando a sua importância e defendendo um ponto de vista. Linguagem clara, objetiva e dinâmica, que procura prender a atenção do leitor até o fim; Escolha um texto literário para fazer uma crítica: um livro, um conto, um poema, etc. de sua preferência, estudado durante o curso, tomando o cuidado de registrar: autor do texto e a escola literária a qual pertence. Sugere-se que o texto possua entre 20 a 30 linhas. 79 Etapa Estudo 3 Agora é chegado o momento de reunir todas as produções criadas Literatura Portuguesa nas etapas anteriores e montar o jornal/painel informativo-cultural. Para compor da a parte visual do jornal/painel, você poderá selecionar fotografias/figuras de fontes diversas. Se houver entre vocês poetas e/ou contistas, seus textos serão bem vindos para serem integrados ao jornal, pois este terá, também, cunho cultural. 80 Glossário ABSOLUTISMO – O chamado absolutismo, etimologicamente falando, é o ato de governar à solta, isto é, sem limites internos, sem contra-poderes, travões ou forças de bloqueio. a forma de governo na qual um chefe de estado goza de um poder sem controle e sem limites. ANTROPOCENTRISMO – Doutrina que coloca o homem no centro do universo e medida de todas as coisas. Necessidade inerente à raça humana de afirmar-se como criatura suprema e acabada, o que algum dia fez com que o homem vinculasse sua imagem à dos deuses. BUCOLISMO – Tendência poética referente às obras que fazem o elogio da vida campestre. Essas poesias são também chamadas de pastoris, porque nelas os pastores são presenças constantes. O bucolismo foi uma das características da poesia arcádica. CANTIGA DE REFRÃO – Forma poética caracterizada pela repetição de um ou mais versos no final de cada estrofe, que corresponde à estrutura típica da cantiga peninsular medieval. CARPE DIEM – “Colhe o dia”, exortação de Horácio, poeta latino da época do Imperador Augusto; foi o lema persuasivo do galanteio e da conquista dos corações femininos, na medida em que chama a atenção para a perecibilidade da beleza, da morte de tudo. DICOTOMIA – Divisão em duas partes de alguma coisa. EVOLUCIONISMO – A teoria da evolução, também chamada evolucionismo, afirma que as espécies animais e vegetais existentes na Terra não são imutáveis, mas sofrem ao longo das gerações uma modificação gradual, que inclui a formação de raças e espécies novas. FARSA – Modalidade teatral cômica que surgiu por volta do século XIV, e se caracteriza pelos personagens e situações exageradas, a farsa se distingue da comédia propriamente dita por não observar regras de verossimilhança e difere da sátira ou da paródia por não pretender questionar valores. Geralmente desligada da reflexão a respeito da beleza e de propósitos éticos ou didáticos, pretendendo assim, provocar o riso explorando situações engraçadas, grotescas e ridículas da vida quotidiana, apelando para a caricatura e os exageros. Às vezes ganha conteúdo crítico ou de denúncia à revelia do autor. Não tem outra intenção a não ser provocar o riso. FEUDALISMO – O feudalismo é um modo de produção típico de sociedades agrárias, caracterizado por relações de servidão do trabalhador ao proprietário da terra, dividida em lotes produtivos (feudos). Predominou na Europa durante a Idade Média. LAICIZAÇÃO – Da palavra laico - adjetivo que significa oposição a tudo o que tenha qualquer ligação com a religião. 81 Estudo Literatura Portuguesa da LUSA – Refere-se a Portugal MEDIDA VELHA E MEDIDA NOVA – Duas técnicas versificatórias, no séc. XVI: a primeira designa a tradicional (estruturas e metros utilizados pelos poetas do Cancioneiro Geral, em redondilha menor ou maior); a segunda, a importada de Itália por Sá de Miranda e António Ferreira (com um novo verso, o decassílabo, e novas formas e sub-gêneros, como o soneto, a canção, etc.). PANTEÍSTA - Panteísmo é uma doutrina que identifica o universo (em grego: pan, tudo) com Deus (em grego: theos). POSITIVISMO – O positivismo foi uma corrente filosófica cujo mentor e iniciador principal foi Auguste Comte, no século XIX. Apareceu como reação ao idealismo, opondo ao primado da razão, o primado da experiência sensível (e dos dados positivos). Propõe a ideia de uma ciência sem teologia ou metafísica, baseada apenas no mundo físico/material. REDONDILHA – São versos de cinco ou sete sílabas poéticas. O de cinco sílabas é chamado de redondilha menor; o de sete, de redondilha maior. ROMANCES – Do Romanceiro - Poesia Portuguesa e espanhola de carácter épico, anónima, destinada ao canto e transmitida por tradição oral, durante a Idade Média. Compilação desses poemas tradicionais, os romances. TEOCENTRISMO – Baseia-se na concepção de que Deus é o centro do universo. Foi a corrente de pensamento predominante no período medieval. TROVA – (Latim, tropare = inventar, compor tropos) Durante a Idade Média (galaicoportuguesa), o vocábulo “trova” era sinônimo de “cantiga”, e, portanto, designava toda a espécie de poema em que havia aliança entre letra e música. A partir do século XVI, com a desvinculação havida entre música e letra, o termo fixou-se como equivalente da quadrinha. 82 Referências Bibliográficas ABDALA JR & PASCHOALIN, M. Aparecido. História social da literatura portuguesa. São Paulo: Ática, 1982. MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1990. MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 26 ed. (rev. e aum.), São Paulo: Cultrix, 1991. MOISÉS, Massaud (org.). A literatura portuguesa em perspectiva. São Paulo: Atlas, 1994, 4 vols. SARAIVA, António José e LOPES, Óscar. História da literatura portuguesa. 10 ed. Porto: Porto Editores, 1978. SPINA, Segismundo. A Cultura Literária Medieval. São Paulo: Ateliê, 1997. SITES CONSULTADOS: http://www.instituto-camoes.pt http://www.secrel.com.br http://www.pt.wikipedia.org http://www.itaucultural.org.br http://www.vidaslusofonas.pt http://www.mundocultural.com.br http://www.citi.pt 83 Estudo Literatura Portuguesa da FTC - EaD Faculdade de Tecnologia e Ciências - Educação a Distância Democratizando a Educação. www.ftc.br/ead 84