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O ESTADO DE S. PAULO
DOMINGO, 26 DE OUTUBRO DE 2014
ENTREVISTA
Irineu Gianesi, diretor dos cursos de engenharia do Insper
‘Empresas buscam perfil empreendedor’
Para acadêmico do Insper, graduação mais próxima da administração e da economia contribui para formar trabalhadores inovadores
Com foco nas novas demandas de mercado por profissionais com mais foco em gestão,
o Insper lançará três cursos de
engenharia em 2015: mecânica,
mecatrônica e computação. Segundo Irineu Gianesi, coordenador dos cursos, a grade curricular estará voltada para ampliar a base tecnológica desses
profissionais e seu conhecimento por liderança, governança e gestão. Segundo ele, haverá uma sinergia com os cursos
de administração e economia
para atender as novas necessidades das empresas e gerar novos negócios. “As empresas estão cada vez mais querendo
pessoas com o perfil empreendedor para atuar na sua equipe. E é esta característica que
a gente quer desenvolver em
nossos alunos.”
● Por que o Insper escolheu as
áreas de engenharia mecânica,
mecatrônica e da computação
para inaugurar os seus cursos
no instituto?
Nossa ideia é criar sinergia
com nossos atuais cursos de
administração e economia e
oferecer uma base tecnológica
muito forte, além da visão empreendedora. Achamos que
existe um grande potencial
aqui para gerar inovação e fomentar o empreendedorismo.
Nosso critério foi tentar aproveitar a potencialidade da cidade de São Paulo, em função do
parque industrial aqui instalado, de empresas de software e,
especialmente, de um setor
que é bastante forte: o de saúde. Queremos aumentar a interação entre as áreas de medicina e de engenharia. A mecânica, por exemplo, tem um potencial bastante interessante
para fomentar uma formação
industrial que possa trazer inovação e novas oportunidades
de negócio para gerar bem-estar para a população. São Paulo tem os melhores hospitais
da América Latina, mas não
tem uma indústria de engenharia médica bastante desenvolvida. Então, juntando essa potencialidade da cidade e os cursos de engenharia que tenham
uma base tecnológica forte, é
onde entendemos que poderíamos ter mais sinergia com administração e economia para
fomentar empreendedorismo.
● Inovação seria a palavra
da vez para os cursos de
engenharia no Brasil?
Acredito que seja uma demanda de todo o País. Se olharmos
os principais gargalos que temos no Brasil, há uma grande
necessidade de investimento
em inovação. A própria indústria tem falado muito nisso. O
problema é que para inovar vo-
DIVULGAÇÃO
● Postura
A grade curricular da graduação
em engenharia precisa ser modernizada para poder atender
aos desafios criados pelas novastecnologias epor novas profissões, na opinião do diretor de
educação da Associação Brasileira de Recursos Humanos
(ABRH), Luiz Edmundo Rosa.
Para ele, os cursos de engenharia precisam ser renovados
e a grade curricular adaptada às
novas realidades do mercado.
“Um engenheiro civil, por
exemplo, precisa ter conhecimento sobre produtos e recursos sustentáveis já na gradua-
Veja 35 tipos de engenharia:
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Aeronáutica
Ambiental
Cartográfica
Da Computação
De Alimentos
De Controle e Automação
De Petróleo e Gás
De Segurança do Trabalho
Elétrica
Florestal
Industrial
Mecatrônica
Naval
Agrícola
Biomédica
Civil
De Materiais
De Produção
De Telecomunicações
Mecânica
Metalúrgica
Química
Têxtil
Hídrica
De Horticultura
De Minas
Sanitária
Física
De Pesca
Acústica
De Agrimensura
De Aquicultura
De Energia
Em Tecnologia Têxtil
e da Indumentária
● Nuclear
cê precisa de um engenheiro
inovador, ou seja, outro tipo
de profissional. As universidades precisam começar a investir nesta formação. Nos cursos
que vamos começar a oferecer
em 2015, o nosso objetivo principal é justamente este: formar
engenheiros inovadores.
● Por que razão vocês acreditam
ser importante ampliar os
conhecimento dos engenheiros
em empreendedorismo?
Existem dois tipos de profissionais: o que é empreendedor e
quer ser dono do próprio negócio, e outro que é o engenheiro
com perfil empreendedor, que
age e pensa como o dono de
uma corporação que não é a dele. O empreendedor tem a capacidade de transformar um sonho em realidade, independentemente dos recursos que disponha. Ele busca pessoas e parceiros para viabilizar os seus
projetos. Esta competência
também é fundamental para
quem vai trabalhar em uma organização. E as empresas estão
cada vez mais querendo pessoas com o perfil empreendedor para atuar em suas equipes.
E é esta característica que a gente quer desenvolver em nossos
alunos. É diferente de querer
formar pessoas para abrir o próprio negócio. Nós formatamos
os cursos de engenharia com
uma estrutura de apoio para
que os alunos possam fazer e
acontecer esse sonho.
● Há uma demanda por
engenheiros para as funções
de gestor de equipes e de
projetos. Os novos cursos
focarão esta característica?
Há realmente uma demanda para esses profissionais terem,
além do perfil empreendedor,
facilidade para trabalhar e liderar uma equipe, além de comandar projetos e grupos multidisciplinares. O profissional que
tem este perfil é muito requisitado pela indústria hoje. E os
novos engenheiros terão que,
de alguma forma, desenvolver
isso ao longo da sua vida profissional. Por isso muitos acabam
voltando para a escola para buscar esses aspectos com os nossos cursos, queremos aprimorar essas competências nos alunos. Não só na forma de liderar
equipe, mas também no geren-
Cursos precisam se
adaptar às demandas
novas, diz especialista
Segundo diretor da ABRH,
problema maior está na
grade curricular, muito
teórica e sem disciplinas
focadas em temas atuais
VARIANTES
“O empreendedor tem a
capacidade de transformar
um sonho em realidade,
independentemente dos
recursos que disponha.
Ele busca pessoas e
parceiros para viabilizar
os seus projetos”
ção. Só assim ele poderá fazer o
projeto de uma construção que
usemenoságua,energiarenovável, entre outros aspectos. Hoje, o profissional que quer buscar informações neste sentido
precisa fazer especialização ou
MBA. Em países como EUA e
França, por exemplo, disciplinas sobre esses temas já são
abordadas na graduação.”
Rosadestacatambémaneces● Resistência
“A Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo
(USP) recentemente fez
pequenas melhorias no seu
programa. Mas são raras as
instituições que alteram a
sua grade de disciplinas”
Luiz Edmundo Rosa
DIRETOR DE EDUCAÇÃO DA ABRH
● Muitos especialistas criticam
● Universidade
ou organização
“Quando você vai para a
faculdade para se
desenvolver em uma
determinada área técnica,
a tendência é você focar
na sua especialização”
“Há demanda para esses
profissionais, além do perfil
empreendedor, facilidade
para trabalhar e liderar uma
equipe, além de comandar
projetos”
ciamento de projetos. Queremos que os engenheiros já
saiam mais prontos da graduação para entrarem no mercado
atendendo esta demanda. O
que não impede, no futuro, que
ele sinta necessidade de voltar
para a escola e fazer um MBA
com 10 ou 12 anos de formado
porque, obviamente, ele estará
enfrentando outra realidade
no mercado.
sidadedeasinstituiçõesdeensino do País investirem em disciplinas voltadas para as ciências
da vida. Ele cita como possibilidade de aproximação com as
áreas de biotecnologia e de nanotecnologia. “Elas podem melhorar nossa gestão na fabricação de produtos biodegradáveiscom o uso deenergialimpa,
por exemplo. Também podemos investir em disciplinas que
tragam soluções para o ser humano,comoaengenharia dealimentos”, acrescenta.
Eu concordo. E não é um problema apenas dos engenheiros, mas de profissionais de todas as áreas. Porque, quando
você vai para a faculdade para
se desenvolver em uma determinada área técnica, a tendência é você focar na sua especialização. Dificilmente você tem
espaço para enxergar a cadeia
DIVULGAÇÃO
Empresas fazem processo
seletivo na universidade
Conhecida por seu núcleo
de manufatura avançada,
unidade da USP em São
Carlos passou a atrair
potenciais empregadores
Morosidade. Rosa afirma que
as mudanças nos cursos de engenharia no Brasil são muito
lentas. “A Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo
(USP)recentementefez pequenas melhorias no seu programa. Mas são raras as instituições que alteram a sua grade de
disciplinas.”
Segundo o especialista, outro
aspecto negativo dessas instituições é a estrutura dos cursos. “Eles focam muito na teoria e deixam de lado a prática.
Isso faz com que o aluno fique
desestimulado. Tanto é verdade que a maioria das desistências ocorre no primeiro ano.”
os programas de graduação por
não darem conhecimento sobre
a cadeia produtiva como um todo. O senhor também concorda
com essa avaliação?
como um todo e se preocupar
com as interfaces. Onde é que
eu acho que se tem uma boa
oportunidade para deixar isso
claro para o engenheiro perceber esta necessidade? É quando você introduz empreendedorismo no curso. Porque, a
partir da identificação de uma
necessidade, da vinculação da
tecnologia e das demandas
não atendidas do mercado, você pode gerar um conceito de
um produto ou serviço que
possam atender a sociedade.
Aí você entra num conceito no
qual vai desenvolver um produto com uma solução técnica,
utilizando o conhecimento de
engenharia para atender a uma
necessidade de mercado. Nesse momento você confronta o
aluno sobre o impacto desse
produto na cadeia produtiva
como um todo. Questiona a
forma de colocá-lo no mercado com escala, de maneira viável, até chegar às mãos do usuário. Com isso, você sai da visão
local para olhar a cadeia como
um todo. Então, expor o aluno
a este tipo de desafio é o que
vai desenvolvê-lo. Porque assim ele vai se posicionar e começar a avaliar o negócio como um todo. ______________
Rosa. Hoje, especialização e
MBA suprem deficiências
Assim como outros especialistas, Rosa também acredita
que falta aprimorar o conhecimentoemgestãoeliderançapara os engenheiros na graduação. “Quem busca oportunidade profissional precisa recorrer
a um curso de especialização e
MBA. A graduação precisa entregar esses profissionais cada
vez mais prontos para o mercado de trabalho”, diz.
A unidade deSão Carlos daUniversidade de São Paulo (USP)
vem valorizando o “passe” de
seus alunos. A Escola de Engenharia de Produção incluiu este
ano a disciplina de gestão da cadeiaprodutivanagradecurricular e despertou o interesse de
potenciais empregadores.
“Diversas empresas dos mais
variados segmentos vieram nos
procurar, principalmente duranteaFeiraMercado,querealizamos todos os anos, para selecionar estagiários e trainees
aqui na universidade mesmo.
Chegaramafazeraprimeiratriagem e a dinâmica de grupo aqui
e, somente na fase final do processo, o aluno precisou ir até a
empresa”, diz Kleber Esposto,
professor do departamento de
engenharia da produção.
Antes de abordar o tema gestão,a universidadejáeraconhecidapeloseuNúcleodeManufaturaAvançada(Numa),querealiza pesquisa com os alunos de
engenharia de produção.
“Já mantínhamos um laboratório para tirar o aluno um pouco da teoria porque na sala de
aula, normalmente, eles aprendem sobre todos os aspectos da
cadeiaprodutivadeformaisolada.Queríamosfazê-lojuntartodos os pontos para entender o
seu funcionamento.”
No Numa, os alunos desenvolvem projetos reais para as
empresas conforme as suas necessidades.“Eles atuamna consultoria eprecisam buscar soluções para os problemas, como
sejáestivemnomercado.Quando saírem daqui, já estarão preparadosparaatuarem toda acadeia produtiva.” /M.R
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