TÍTULO: O PLANEJAMENTO TURÍSTICO E SUA INTERFACE COM A CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE. Helton Luiz Gonçalves Damas Mestrando em Ciência, Tecnologia e Sociedade pela Universidade Federal de São Carlos. [email protected] Maria Teresa Miceli Kerbauy Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica – São Paulo. Docente do Programa de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade Federal de São Carlos [email protected] RESUMO Este trabalho tem o objetivo de analisar como saber científico pode auxiliar no planejamento sustentável da atividade turística. Nos últimos tempos, o turismo desponta como um fenômeno social de grande atratividade econômica, em que o seu crescimento vem gerando um deslocamento populacional significativo, capaz que trazer prejuízos às localidades turísticas. As políticas públicas do turismo não costumam avaliar os impactos socioambientais que o turismo pode causar, assim, torna-se interessante verificar como a ciência e a tecnologia podem ajudar na elaboração do planejamento sustentável do turismo. Como metodologia, este estudo está baseado na pesquisa qualitativa, como a obtenção de dados por meio da pesquisa bibliográfica. Como resultado, pode-se perceber que a ciência e a tecnologia podem fazer do turismo uma atividade sustentável, que cause o mínimo de dano a sociedade. Por meio desse trabalho é possível concluir que o campo CTS, através da intersecção entre diversas áreas do conhecimento, auxilia no planejamento da atividade turística. PALAVRAS- CHAVE: Ciência, Tecnologia e Sociedade; Turismo; Planejamento. ABSTRACT This paper aims to analyze how scientific knowledge can assist in the planning of tourism. In recent years, tourism has emerged as a social phenomenon of great economic attractiveness, in that its growth has generated a significant population shift that could bring harm to the tourist areas. Tourism public policies do not usually assess the environmental and social impacts that tourism can cause thus becomes interesting to see how science and technology can help in the development of sustainable tourism planning. As a methodology, this study is based on qualitative research, such as obtaining data through literature search. As a result, one can see that science and technology can make tourism a sustainable activity, which cause minimal damage to society. Through this study we conclude that the field STS assists in planning sustainable tourism. KEYWORDS: Science, Technology and Society; Tourism; Planning. INTRODUÇÃO O turismo se constitui em um importante fenômeno social, de grande atratividade econômica, passível de proporcionar uma série de benefícios às localidades onde se desenvolve, como: interação social, geração de divisas e empregos, desenvolvimento socioeconômico, entre outros. Assim, no início do século XXI, o turismo surge como uma força social, cultural e econômica capaz de movimentar centenas de milhões de pessoas pelo mundo todo. É uma atividade relativamente nova, compreendida como fenômeno de massa há apenas meio século (ANSARAH, 2000) No Brasil, observa-se esforços no sentido de implantar um conjunto de políticas públicas com o objetivo de fomentar a atividade turística no país, tanto por parte do governo federal, quanto nas esferas estaduais e municipais, com o argumento de que o turismo pode ajudar a alavancar o desenvolvimento econômico em diversas regiões brasileiras (SILVEIRA, 2002). Contudo, não é viável fomentar o desenvolvimento do turismo sem planejamento. Os impactos socioambientais provenientes da atividade turística muitas vezes não são levados em conta pelos articuladores do turismo. Assim, quando surgiu o turismo de massa, caracterizado pelo deslocamento e pela permanência nos núcleos receptores de um grande número de turistas, acreditava-se que os recursos naturais eram inesgotáveis e por isso, estabelecia-se poucas restrições ao seu uso. Porém, o tempo e o número excessivo de turistas em locais específicos demonstraram que o turismo agride as características e a originalidade das atrações. A constatação de que os recursos turísticos são finitos e de que seu uso deve ser monitorado levaram especialistas e os responsáveis pelo desenvolvimento da atividade, considerar a necessidade de planejamento para regiões com potencialidade turística (RUSHMANN, 1997). O planejamento do turismo pressupõe o cuidado não somente com o meio ambiente natural, mas também com sustentabilidade social, política e econômica, fatores estes que não possuem fácil conciliação (BARRETO, 2005). O turismo, por sua vez, trata-se de um campo científico multi e interdisciplinar que abrange diversas áreas do conhecimento como a biologia, ciências sociais, engenharia, arquitetura, direito, história entre outros. Assim, esses campos do saber podem ajudar na elaboração do planejamento sustentável do turismo. A proposta deste trabalho é analisar como a ciência pode auxiliar no planejamento sustentável do turismo por meio das mais diferentes áreas do conhecimento. O saber científico ajuda o desenvolvimento da atividade turística, tornando-a sustentável, minimizando seus impactos negativos e maximizando os seus benefícios. O turismo feito sem planejamento pode acarretar impactos socioambientais para as comunidades receptoras. O planejamento turístico vai ao encontro dos preceitos do campo da Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), ao promover um turismo sustentável, com responsabilidade socioambiental, visando o bem-estar da sociedade. O presente estudo está baseado no método qualitativo, ancorado na pesquisa bibliográfica. CIÊNCIA, TECNOLOGIA E O PLANEJAMENTO DO TURISMO A ciência, uma criação do ser humano, faz parte da sua cultura e tem como um dos seus compromissos auxiliar na solução dos problemas enfrentados pela sociedade no seu cotidiano. De acordo com Salles e Kovaliczn (2007), a ciência não deve caminhar sozinha, isto é, tem que evoluir ao lado da sociedade por meio de uma postura holística, contemplando aspectos históricos, éticos, ambientais, políticos e sociais. No século XX, o desenvolvimento tecnológico e científico trouxe inúmeros progressos, porém, havia a necessidade de se fazer uma reflexão crítica sobre a C&T, visando uma aproximação desses dois conceitos com as questões sociais. A partir de então, os estudos sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) estabelecem que a C&T precisam contribuir de maneira efetiva para bem-estar social e ir ao encontro das demandas da sociedade, A Ciência e a Tecnologia evoluíram eficazmente a partir da segunda metade do século XX, fruto, entre outras coisas, da Guerra Fria ocorrida entre os Estados Unidos e a União Soviética, o que contribuiu para o surgimento de um novo campo de investigação científica associado ao domínio da Sociologia denominado Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), amplo movimento de repercussão mundial que vem influenciando a metodologia do ensino de ciências há mais de três décadas. A sua finalidade maior é instruir o cidadão, visando a sua participação efetiva em assuntos correlacionados à ciência e à tecnologia que contribuam efetivamente para a promoção do bem-estar social (CRUZ et al., 2005, p.17). Bazzo, Linsingen e Pereira (2000, p.04), destacam que as pesquisas em CTS visam entender os aspectos sociais do fenômeno científico-tecnológico, tanto nos assuntos que ressaltem os condicionantes sociais da tecnologia, quanto nas temáticas relacionadas ao meioambiente, Esse campo de estudo trata também de favorecer o desenvolvimento e a consolidação de atitudes e práticas igualitárias com relação às questões de importância social relacionadas com a inovação tecnológica ou a intervenção ambiental. Propicia o compromisso a respeito da integração das mulheres e minorias, assim como o estímulo para um desenvolvimento socioeconômico respeitoso com o meio ambiente e equitativo com relação às futuras gerações. As preocupações do campo CTS em proporcionar o desenvolvimento econômico da sociedade de forma que se respeite às questões socioambientais também se referem aos propósitos do planejamento sustentável do turismo. A Organização Mundial de Turismo (2001, p.36) define turismo como “as atividades que as pessoas realizam durante suas viagens e estadas em lugares diferentes ao seu entorno habitual, por um período consecutivo inferior a um ano, com finalidade de lazer, negócios ou outros”. Sendo assim, vê-se que turismo surge atualmente como um importante fenômeno social, de grande atratividade econômica, ele é capaz de proporcionar desenvolvimento sócioeconômico, com a geração de renda e emprego, interação entre as pessoas, ocasiona a difusão cultural, entre outros. Entretanto, apesar dos inúmeros benefícios, o desenvolvimento do turismo pode trazer algumas desvantagens, como: Desenvolve demanda em excesso; gera perdas tão grandes, que os benefícios econômicos não cobrem o custo; desvia fundos de formas mais promissoras de desenvolvimento econômico; cria problemas sociais decorrentes de diferenças de renda, diferenças sociais e introdução de prostituição, do jogo e do crime; pode degradar o ambiente físico e cultural, entre outros (GOELDNER, et.al, 2002). Rushmann (p. 10, 1997) avalia que em quase todas as destinações turísticas é possível perceber a falta de cultura turística das pessoas que viajam, pois elas se comportam de forma alienada em relação ao meio que visitam, “acreditando não terem nenhuma responsabilidade na preservação da natureza e na originalidade das destinações”. Ainda segundo a autora, os turistas entendem que seu tempo livre é “sagrado”, que têm direito ao uso daquilo pelo que pagaram e, por permanecerem pouco tempo na destinação turística, não podem ser responsabilizados pelas agressões ao meio ambiente (RUSHMANN, 1997). Assim, para que o turismo não traga impactos negativos é preciso planejar. O planejamento faz parte de uma ação anterior, em que muitos fatores precisam ser coordenados para que o seu objetivo possa ser alcançado (BARRETO, 2005). A finalidade do planejamento turístico consiste em ordenar as ações do homem sobre o território e direciona a construção de equipamentos e facilidades de forma apropriada evitando, dessa forma, os efeitos negativos que podem destruir ou reduzir sua atratividade do turismo (RUSHMANN, 1997). De acordo com Barreto (2005), o planejamento turístico tem sido objeto de muitas definições ao longo do tempo. Isso não é uma peculiaridade, mas algo normal dentro das ciências humanas e sociais, nas quais as definições não obedecem aos mesmos critérios de elaboração seguidos pelas ciências exatas, Quando elaboramos conceitos que se referem a leis da física, da química, da matemática ou da biologia, não há muita possibilidade de variações sob pena de perder-se o sentido da definição. Mas quando os conceitos se referem às leis sociais, há uma maior flexibilidade e cada pessoa pode elaborar a sua própria definição de fenômenos, desde que entenda os princípios básicos que os produzem. (BARRETO, p.29, 2005) Em meio a essa flexibilidade, o bom planejamento do turismo vai muito além de metas que maximizem os lucros, muito embora o desenvolvimento lucrativo traga benefícios econômicos e sociais para a comunidade, a atividade turística também pode trazer danos. Assim, os empreendedores turismo ao estimular essa atividade devem se preocupar em manter a qualidade arquitetônica das edificações que são visitadas, assim como os recursos naturais; escolher meios de transportes adequados, promover a educação turística, entre outros (GOELDNER, et.al, 2002). Dessa forma, o planejamento turístico se refere a um conceito holístico, apropriandose do conhecimento de diversos campos científicos, pois eles auxiliam na sustentabilidade da atividade. Primeiramente, pode-se destacar que as ciências sociais dão suporte ao campo científico do turismo pelo fato do turista ser considerado um agente social. A ciência do turismo ainda está em formação, mas alguns estudiosos já arriscam a mencionar, principalmente na Europa, como a “ciência social de viagens” (ANSARAH, 2000). Assim, Barreto (2004) acredita que o turismo é um fenômeno socioantropológico, em que a antropologia ajuda a averiguar o comportamento das populações receptoras e emissoras, buscando assim, planejar o turismo de forma que não gere grandes impactos sociais. Por meio da biologia é possível conhecer os biomas existentes e que podem ser apropriados pelo turismo, visando sempre a implantação de projetos de educação ambiental para que o turista além de apreciar os recursos naturais possam também conservá-los (RODRIGUES, 2002). A engenharia de tráfego juntamente com a arquitetura podem ajudar na elaboração do roteiro que deverá ser percorrido pelos ônibus de turismo de modo a não piorar o trânsito urbano e também não afetar edificações históricas, pois os ônibus causam certa trepidação nesse tipo de construção, que com o passar do tempo, causam trincas e rachaduras. Além disso, a fumaça que exala dos escapamentos também danificam a pintura desses edifícios históricos (DAMAS, 2007). Aliás, o campo científico da história possui grande importância na atividade turística, pois por meio dela é possível ressaltar os aspectos culturais e artísticos de uma sociedade e que podem despertar o interesse do turista em viajar, fazendo com que ele possa valorizar o passado e o simbolismo histórico das localidades turísticas (CHOAY, 2001). As ciências jurídicas estudam o conjunto de relações e fenômenos que se originam do ato ou fato jurídico que o indivíduo leva a efeito de compreender ou realizar uma viagem; permite ainda conhecer os direitos e deveres dos viajantes, bem como o código de ética do bacharel de turismo. “O turismo é considerado exercício do direito à liberdade individual de trânsito”. (ANSARAH, 2000, p. 16). E por fim, o campo científico do turismo tem missão de fazer convergência de diferentes áreas do saber e buscar soluções criativas e inovadoras que venham suprir as necessidades do mercado, preocupando-se não só com o lado econômico, dando a devida importância aos aspectos sociais e culturais dessa atividade, além de avançar nos conhecimentos científicos do próprio turismo, para que se possa aumentar a eficácia do planejamento da atividade turística (GUZELA, 2004) Segundo Barreto (2005, p.32), “O planejamento implica a aplicação de políticas preexistentes ou a elaboração de novas, assim como de planos, programas, projetos (...)”. Dessa forma, o planejamento do turismo implica uma articulação das mais diferentes entidades públicas. E os objetivos governamentais são de fundamental importância. As metas do governo não devem ter como foco o desenvolvimento turístico somente sob o ponto de vista econômico. É necessário levar em conta os aspectos sociais, culturais e ambientais da atividade, pois eles não devem ser negligenciados e exigem envolvimento e estudo por parte das entidades governamentais. “Historicamente, o êxito do turismo em uma destinação depende da ação do Estado” (RUSHMANN, p.155, 1997). De acordo com Barreto (2005), umas das propostas mais recentes para propiciar o desenvolvimento do turismo realmente sustentável é a do planejamento cooperativo, que vai além da proposta das parcerias entre os setores público e privado, incluindo a união entre os diferentes níveis de governo, entre as diversas agências governamentais e entre estas e os diferentes interessados do setor privado. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os estudos em CTS ajudam a averiguar como os mais diferentes campos científicos congregam o planejamento sustentável do turismo, possibilita constatar que a ciência e a tecnologia podem auxiliar no desenvolvimento do turismo de forma que ele não traga prejuízos à sociedade. As políticas públicas de turismo, por sua vez, necessitam fomentar o turismo com planejamento, observando sempre os impactos socioambientais que essa atividade pode causar. O turismo e a busca por um tempo livre que possa ser dedicado às viagens desponta como um anseio do homem pós-moderno, que lida com diversas pressões referentes ao cotidiano vivido nos grandes centros urbanos. Assim, pode-se perceber que a expansão da atividade turística se refere a um processo natural da sociedade do lazer e a ciência e tecnologia podem prover os sustentáculos desse fenômeno social, fazendo com que o turismo traga mais impactos positivos do que negativos. As discussões levantadas nesse trabalho se referem apenas a uma apreciação inicial sobre a relação existente entre a ciência e o planejamento do turismo, sendo pertinente a realização de pesquisas que complementem as explanações desse estudo. REFERÊNCIAS ANSARAH, Marília. Como aprender turismo – Como ensinar. São Paulo: Editora Senac, 2000. 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