franco-moçambicano
De hotel
a centro cultural
texto / text António Sopa
fotos / photos Artur Ferreira
O
foto / photo Arquivo Histórico de Moçambique
rápido desenvolvimento
de Lourenço Marques, no
último quartel do século XIX,
centrado sobretudo na linha
ferroviária para o interior, viria
a tornar a povoação na porta
natural para uma massa heterogénea de trabalhadores e aventureiros que procuravam chegar
às minas de ouro e diamantes
da África do Sul. Esta população itinerante obrigou a que a
povoação se dotasse de infraestruturas destinadas a acolher
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e a divertir estes visitantes de
passagem e as tripulações dos
navios surtos no porto.
O primeiro hotel que a povoação viria a ter - o Hotel Real
- foi criado por iniciativa de
Manuel Fernandes da Piedade,
tendo sido inaugurado em
1887. Na primeira década do
século passado, este tipo de
estabelecimentos rondavam a
meia dúzia, todos eles praticamente localizados na baixa da
cidade, em casas mais ou menos
adaptadas para o efeito. Só o
Hotel Cardoso destoava deste
panorama, localizando-se na
parte alta, na antiga residência
do comandante de marinha do
mesmo nome.
A existência dum hotel de
luxo, de nível internacional, fazia
parte dos projectos municipais.
Apesar de se conhecerem diversas intenções, a mais antiga
foi de iniciativa de Alfredo Camileri que, em 1897, pretendeu
construir um “grande hotel”, na
actual Praça dos Trabalhadores.
A cidade só viria a ter um hotel
deste tipo em 1922, com a inauguração do Hotel Polana após
demoradas negociações entre
o Governo-Geral de Moçambique e a Delagoa Bay Lands
Syndicate, sendo o seu custo
orçado em cerca de 400.000
libras esterlinas.
O HOTEL CLUBE
A existência do Hotel Clube
insere-se perfeitamente neste
percurso de dotar a cidade com
empreendimentos que pudessem acolher a pequena elite
local e a massa heterogénea de
estrangeiros de passagem ou
em turismo.
Segundo a tradição, a sua
criação deveu-se à iniciativa do
empresário e advogado Eduardo
de Almeida Saldanha, tendo-se
realizado a cerimónia de lançamento da primeira pedra em 30
de Junho de 1898. Ao que parece,
o objectivo inicial do advogado
era a constituição de um clube
social com casino. O segundo
objectivo, aparentemente, nunca
se concretizou. Mas, segundo a
memória que ainda existia em
1916, ali esteve a funcionar o
Clube de Lourenço Marques, realizando-se bailes e concertos. A
sua transformação em hotel deve
ter ocorrido nas duas primeiras
décadas do século passado,
tendo sido construído um anexo
com cerca de 50 quartos. O edifício ergueu-se em terreno que
pertenceu ao antigo residente
António Maria da Silveira, que
ali possuía uma pequena casa de
habitação e o terreno necessário
para a exploração da sua indústria de transportes.
Em 1883 a Câmara Municipal, em vez de transaccionar
visando a expropriação da
referida propriedade e trazer
o cercado do futuro Jardim até
a actual Av. Samora Machel, tal
como a opinião pública insistia
que se fizesse, entendeu abrir
a rua obliquamente e pôr em
hasta pública o aforamento de
três talhões em que dividiu o
terreno limitado pela Av. Samora Machel e a nova rua.
Foi num desses talhões que
Saldanha construiu o edifício
do hotel; outro foi ocupado
por uma fábrica de limonadas;
e no terceiro foi construída a
primeira estação telefónica que
Lourenço Marques teve.
Ao longo do tempo, o Hotel
Clube foi tendo sucessivos
proprietários mas, em data
indeterminada, passou para
a posse da Câmara Municipal
para ser concessionado a quem
oferecesse melhores condições
à municipalidade.
O CENTRO CULTURAL
FRANCO-MOÇAMBICANO
Apesar dos estatutos que
criaram o Centro Cultural Franco-Moçambicano terem sido
oficialmente assinados em 25
de Fevereiro de 1993, o centro já
se encontrava instalado no país
cerca de três anos antes, após a
assinatura duma convenção de
financiamento entre o Governo
Moçambicano e a Missão de
Cooperação Francesa.
Imediatamente após à assinatura deste documento,
iniciou-se o estudo arquitectónico visando a reconversão
daquelas instalações, de forma
a salvaguardar o traço inicial
do edifício, sobretudo a sua
fachada frontal. Este estudo
esteve a cargo de uma equipa
dirigida pelo arquitecto francês
C. Rolland, tendo ficado concluído em Maio de 1993.
Em Novembro desse mesmo
ano, os ministros da Cooperação
de Moçambique e da França,
Jacinto Veloso e Michel Roussin,
procederam ao lançamento da
primeira pedra, visando inaugurar o processo de reabilitação
do edifício.
Estas obras viriam a iniciar-se
cerca de um mês mais tarde,
estando a sua execução dividida
em duas fases. A primeira compreendeu o restauro do antigo
edifício do Hotel Clube, construção de duas salas de teatro (uma
ao ar livre, com capacidade para
acolher cerca de 600 pessoas, e
outra fechada, para 150 lugares,
vocacionada especialmente
para projecções), varandas,
auditórios, salas de exposições,
ateliers de produções impressas
e audio-visuais e uma cafetaria.
A segunda fase do projecto compreendia a construção de uma
biblioteca pública, apetrechada
com uma mediateca, bem como
de um serviço de documentação
especializado.
A inauguração do Centro Cultural veio a ocorrer a 13 de Julho
de 1995, nas vésperas do Dia
Nacional da França, tendo o seu
custo final sido estimado em 20
milhões de francos. A sua gestão
ficou a cargo dum Conselho de
Administração, constituído por
seis elementos, três de cada um
dos países.
Deste então, o Centro Cultural Franco-Moçambicano tem
tido uma actividade intensa e
variada, nas mais diversas áreas
da cultura, sendo uma pedra
basilar da actividade realizada
na capital do país, acolhendo
as mais diversificadas iniciativas e projectos, promovendo
o intercâmbio entre os dois
países.
Por isso, para quem visita
Maputo pela primeira vez e
quer conhecer alguns aspectos
da rica cultura moçambicana,
impõe-se uma visita ao Centro
para assistir a um espectáculo
musical, ver uma exposição de
artes plásticas ou simplesmente passear pelos seus imensos
jardins.
Índico 27
french-mozambican
From hotel
to cultural centre
L
ourenço Marques’ quick development in the last quarter
of the 19th century concentrated
chiefly on the railway line to the
interior, turning this settlement
into a natural gateway for a
heterogeneous mass of workers
and adventurers seeking to reach
the gold and diamond mines
of South Africa. This itinerant
population impelled the local
settlers to build infrastructures
to welcome and entertain these
wayfaring visitors and crews
from the ships anchored in the
port.
Hotel Real, the first one of the
future hotels - was built at the
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initiative of Manuel Fernandes da
Piedade, and officially opened in
1887. On the first decade of the
last century half a dozen similar
establishments opened up, all
virtually located downtown in
houses that were more or less
adapted to the purpose. Only
Hotel Cardoso stood out against
this panorama, situated uptown
in the former residence of the
navy commander by the same
name.
Building a luxury hotel of
international standards was a
target established by municipal
commissions. Although several plans became known, the
oldest of them all was by Alfredo Camileri who in 1897
wanted to build a “big hotel” on
what became today’s Praça dos
Trabalhadores. But only in 1922
would the city get an establishment of this kind with the official opening of Hotel Polana,
after lengthy negotiations between the Governor-General of
Mozambique and the Delagoa
Bay Lands Syndicate, at a cost
of around £400,000.
HOTEL CLUBE
Then came Hotel Clube, fitting
perfectly into this scheme of providing the city with complexes
capable of welcoming the small
local elite and the heterogeneous mass of foreigners passing
by or visiting as tourists.
Tradition has it that it was built
at the initiative of businessman
and lawyer Eduardo de Almeida
Saldanha, and that the building’s
foundation stone was laid officially on 30 June 1898. It seems
that the lawyer’s initial aim was
to set up a social club with a
casino, an objective apparently
never fulfilled.
Nevertheless, according to
what people still remembered
in 1916, the Club of Lourenço
Marques operated there,
foto / photo Arquivo Histórico de Moçambique
staging balls, and also concerts
that women were permitted to
attend. Its transformation into
a hotel probably took place in
the first two decades of the last
century with the construction
of a wing boasting around 50
rooms. The building went up on
the plot of land that belonged
to the former resident António
Maria da Silveira who owned a
small house there and the necessary space for operating his
transport industry.
In 1883, instead of conforming to public opinion, of trying
to seize the said property and
of taking the fence of the future
garden up to the (current) Av.
Samora Machel, the City Council
decided to open the street at
an oblique angle and open to
public auction a leasing of the
three plots into which it divided
the space limited by Av. Samora
Machel and the new street.
It was on one of these plots of
land that Saldanha built his hotel;
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the second plot was occupied by
a lemonade factory. On the third
plot the first telephone station of
Lourenço Marques was built.
Hotel Clube subsequently
changed hands over time but
later became the property of
the City Council in order to be
allotted to whoever would offer the best conditions to the
municipality.
A FRENCH-MOZAMBICAN
CULTURAL CENTRE
Although the charter that
founded the French-Mozambican Cultural Centre was officially signed on 25 February
1993, the centre had already
been set up in the countr y
around three years earlier following the signing of a funding
agreement between the Mozambican Government and the
French Cooperation Mission.
Immediately after, an architectural study was begun with the
aim of converting the facilities
in such a way as to preserve
the building’s original features,
above all its frontal façade. The
study was carried out by a team
led by French architect C. Rolland
and concluded in May 1993.
In November of the same year,
the Cooperation ministers of
Mozambique and France, Jacinto
Veloso and Michel Roussin, laid
the building’s foundation stone
to officially open its process of
rehabilitation.
The works were started about
one month later to be carried
out in two phases. The first one
included the restoration of Hotel Clube’s former building, the
construction of two theatre halls
(one open air hall for around 600
people and another indoor hall
with150 seats intended only for
projections), balconies, auditorium, exhibition rooms, studios
for printed and audio-visual
productions and a cafeteria. The
second phase encompassed the
construction of a public library,
equipped with a media archive
and a specialised documentation service.
The Cultural Centre was officially opened on 13 July 1995,
on the eve of France’s National
Day, at an estimated final cost of
20 million francs. Management is
the responsibility of a six-member board of directors, three from
each country.
Since then the French-Mozambican Cultural Centre has had an
intense activity in the most diverse areas of culture developed
in the country’s capital, hosting
initiatives and projects and
promoting cultural exchanges
between the two countries.
Hence, those who visit Maputo for the first time and wish to
learn about some aspects of the
rich Mozambican culture should
pay a visit to the Centre and
attend a musical performance,
see a plastic arts exhibition or
simply stroll through its vast
gardens.
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