COOPERAÇÃO SUBJETIVA, SOFTWARE LIVRE E PROBLEMATIZAÇÕES SOBRE A COMPUTAÇÃO EM NUVEM Giuseppe Cocco1 Gilvan Vilarim2 RESUMO O artigo objetiva identificar transformações recentes na área de produção de software, suficientes para justificar esta produção como parte do deslocamento produtivo do capitalismo industrial em direção ao chamado capitalismo cognitivo. É feita uma revisão teórica para fundamentação de tais transformações, e o modelo do software livre é descrito e analisado como o exemplo de uma cooperação subjetiva promovida pelas redes; nele se valorizam o papel coletivo e a liberdade de produtores e usuários, agora agindo em espaços de comunicação virtuais. A computação em nuvem, último estágio do desenvolvimento de software, a despeito da mobilidade e crescimento que lhe são inerentes, é apresentada e problematizada quanto a seus mecanismos atuais de controle e da redução da capacidade de intervenção dos usuários. Para os próximos passos, considera-se que o modelo da nuvem não é mais capaz de impedir as inovações trazidas pelas redes e pelo trabalho vivo, sugerindo que novas modalidades de resistência com tecnologias livres também podem fazer parte da computação em nuvem. Palavras-chave: Capitalismo Cognitivo. Redes de Cooperação. Software Livre. Computação em Nuvem. 1 INTRODUÇÃO Desde o momento em que o software tornou-se um construto desencarnado do hardware, quando os avanços da eletrônica digital permitiram que instruções simbólicas pudessem ser convertidas em sinais elétricos muito simples, o caráter material e homogêneo da computação física foi perdendo o fôlego nascido no contexto industrial, dando lugar a uma tremenda heterogeneidade possibilitada pelas lógicas da programação. Hoje o software encontra-se espraiado por diferentes artefatos e é a base para que muitos deles executem suas ações digitalmente (numerizadas); tornou-se tão onipresente que já se espera mais estudos sobre a computação ubíqua, isto é, integrada às pessoas de forma invisível, ou uma computação embutida (embarcada) em diversos dispositivos, sejam eles computadores de facto ou não. 1 D.Sc. - Universidade Federal do Rio de Janeiro - Email: [email protected] M.Sc. - Universidade Federal do Rio de Janeiro e Centro Universitário Serra dos Órgãos - Email: [email protected] 2 Os avanços proporcionados pelo software, contribuindo para a integração de novas tecnologias de informação e de comunicação (NTICs) aos processos produtivos, encontram-se inseridos no mesmo deslocamento que nos permite compreender as dinâmicas atuais como diferentes de um capitalismo industrial. No capitalismo de hoje, cognitivo, hardware e software estão na sustentação de todo o sistema, mas é o software que faz o elo entre uma base de suporte operacional e diversas formas de cooperação social que vem se estabelecendo entre usuários e produtores. No capitalismo cognitivo, prevalece o trabalho imaterial vivo e faz-se um deslocamento de processos de reprodução para outros imediatamente produtivos. Este artigo tem como objetivo identificar algumas das transformações ocorridas nos últimos tempos na área de produção de software, suficientes para justificar tal produção como típica do capitalismo cognitivo atual. Novas tecnologias de informação e de comunicação contribuem fortemente para a criação e disseminação de redes sociotécnicas, que acabam por favorecer tanto a cooperação subjetiva entre seus diversos participantes, como novas formas de interação e compartilhamento. Com base nestas transformações, a produção de software é utilizada para demonstrar as dinâmicas existentes nas redes de cooperação. Tendo em vista que o caráter material do hardware (o aparato eletrônico) se torna mais afastado da produção e do consumo, o software aparece como uma importante manifestação de um construto capaz de ser melhorado conforme vai sendo “consumido”. O modelo do software livre, já solidamente estabelecido, é analisado sob o ponto de vista da potência de liberdade e da inovação em rede que o mesmo traz em sua dinâmica. Como suposta contraposição ao modelo livre, a computação em nuvem é apresentada e analisada como sendo um dos fenômenos mais recentes na área da produção de software, tomando-se em consideração, em primeiro lugar, que a quantidade de serviços nela existentes tem aumentado rapidamente; segundo, ela rompe com antigos paradigmas técnicos de execução e uso dos softwares. São descritas algumas problematizações referentes ao que julgamos ser um desequilíbrio de poder na computação em nuvem, em especial a possibilidade de controle centralizado do acesso a dados e software, e diminuição da liberdade de intervenção sobre os mesmos, sob o ponto de vista produtivo. Por último, são tecidas algumas considerações finais que reforçam a importância do estímulo ao uso de tecnologias livres para promoção da liberdade. A computação em nuvem, neste caso, só poderá ser fonte de inovações em rede desde que tenha abertura para também contemplar o uso das tecnologias livres, e que seja capaz de oferecer interação produtorusuário sob as mesmas proporções de cooperação reticular. 2 COOPERAÇÃO SUBJETIVA E AS REDES O capitalismo industrial, vigente durante bastante tempo, tinha como uma de suas características uma separação rígida entre produção e circulação. No capitalismo cognitivo, contudo, quando os conhecimentos são compartilhados por meio de uma interação entre diversos atores, esta separação tende a se esvair. Os fluxos de cooperação ocorrem de modo não-linear e configuram um tipo de agir produtivo que pode ser simultaneamente produção, consumo, circulação. Na mudança para a economia informacional, a linha de montagem foi então substituída pela forma de rede, aquela que define o verdadeiro modelo de organização da produção, capaz de alterar as formas de cooperação e comunicação dentro de cada lugar que produz, e entre os próprios lugares da produção. Diversamente do comando industrial, a passagem para a produção informacional e para a estrutura de rede da organização fazem com que a cooperação e a eficiência produtivas deixem de ser tão dependentes da proximidade e da centralização (HARDT e NEGRI, 2006). A falta de centro único é justamente uma das características da topologia das redes, agora mais horizontalizadas. Favorecendo o uso das redes e ao mesmo tempo fluindo por meio das mesmas, as NTICs tendem a tornar as distâncias cada vez menos relevantes e com bordas difusas, como lembram Hardt e Negri (2005, p. 86): A rede está constantemente solapando os limites estáveis entre o interior e o exterior. Não se quer dizer com isso que toda rede está sempre presente em toda parte; significa, isto sim, que sua presença e sua ausência tendem a ser indeterminadas. Poderíamos dizer que a rede tende a transformar cada fronteira num limiar. É através das redes que se pode ter o trabalho imaterial e o seu agir. Elas são infraestruturas de circulação e locais de produção (COCCO, 1999) onde o trabalho imaterial pode se manifestar por meio da comunicação, da colaboração e das relações afetivas. Este desenvolvimento e difusão das redes sinaliza que, mais do que novas formas de produção e consumo de bens materiais, há também possibilidades novas de produção e circulação de conhecimentos. A novidade da infra-estrutura de informação é o fato de que ela está embutida nos novos processos de produção, sendo totalmente imanente aos mesmos: “No auge da produção contemporânea, a informação e a comunicação são as verdadeiras mercadorias produzidas; a rede, em si, é o lugar tanto da produção quanto da circulação” (HARDT e NEGRI, 2006, p. 319). Quando se trata aqui da cooperação em rede, não se quer relacionar esta cooperação a um meio de apropriação capitalista. É por isto que Virno (2003) diferencia um tipo de cooperação objetiva de outra subjetiva. Na cooperação objetiva, cada um dos indivíduos executa suas atividades, que são apropriadas pelo capitalista; a cooperação aqui é transcendente à atividade de cada um e não é, em si mesma, relevante para o trabalho. Mas na cooperação subjetiva, prevalecente no capitalismo cognitivo, as ações possuem uma tendência lingüístico-comunicativa e os indivíduos se expõem politicamente. Enquanto as grandes empresas tendem a se estruturar ao longo de redes de integração virtual, a nova organização do trabalho solicita sempre mais a subjetividade operária, isto é, sua capacidade independente de intervenção, sua imaginação, sua criatividade, bem como sua flexibilidade (COCCO, 2001). Ao tratar das redes como espaços de produção de conhecimentos, Jollivet (2003) distingue duas concepções diferentes. Na primeira a rede é cognitiva, isto é, promove o saber por si só; já na segunda, tanto a dimensão cognitiva quanto a dimensão social são tratadas em pé de igualdade – as redes sociotécnicas, como definidas por certos autores. Se a dinâmica da produção e difusão mobiliza capacidades comunicativas, sociais e culturais, então a segunda concepção é mais condizente com uma cooperação reticular cuja mobilidade vai além do nível cognitivo. Boutang observa que a rede em si tende à mobilidade, mas não que seja necessariamente uma mobilidade geográfica, e sim a mobilidade social entendida como “a capacidade de viajar e de cooperar com pessoas que não são do seu ambiente ou de sua ‘classe social’ de origem” (BOUTANG, 2007, p. 170). 3 RELAÇÕES DE SERVIÇO NO CAPITALISMO COGNITIVO A existência de redes de cooperação expõe a descaracterização cada vez mais forte daquilo que se considerava anteriormente como indústria. As dinâmicas de agora são caracterizadas por atividades de cunho imaterial articuladas no espaço-tempo. As relações existentes possuem uma relação típica da prestação de serviços, ou melhor, são processos e produtos que se confundem com o meio, com sua capacidade de criação e desenvolvimento virtual (COCCO, 2001). Ao tratar destas relações de serviço, não se retorna ao servicium original suserano (GORZ, 2005), hierárquico, mas o que temos agora é um serviço vivo que depende fortemente de um conjunto de desejos, crenças e cultura que circulam como fluxos ou correntes entre os cérebros (LAZZARATO, 2002), cuja comunicação e cooperação são partes integradoras do desempenho de cada um dos indivíduos envolvidos. A “relação de serviço” torna-se o modelo de toda a produção e é a forma mais consoante de organizar e capturar as relações, sejam elas produtivas, comerciais, comunicativas, de saber ou, mais genericamente, sociais (LAZZARATO e NEGRI, 2001). O trabalho imaterial passa, dessa forma, a não ser mais prescritível no domínio das tarefas fragmentadas nas atividades de outrora, mas sim sobre a subjetividade. Essa produção contemporânea, “virtuosa” nas palavras de Virno (2008), tem instrumentos que não são necessariamente máquinas, mas sim competências lingüístico-cognitivas indissociáveis do trabalho vivo. Ela é virtuosa porque depende da presença de outros para sua execução, sem se depositar em um produto/obra; o que conduz a sua execução é o general intelect de um público e a cooperação social entre os virtuosos produzindo conhecimentos. Negri (2003) observa que a produção por meio deste general intelect não pode ser considerada a partir de uma visão economicista do trabalho; o valor do trabalho se apresenta, na realidade, sob a forma biopolítica. Significa que a vida está completamente investida de condições e atos artificiais de reprodução; significa que “a própria natureza socializou-se e tornou-se uma máquina produtiva. O trabalho, neste cenário, requalifica-se completamente”. (NEGRI, 2003, p. 263) É claro que tal produção também é passível de apropriação por parte do capital, e isto pode ser percebido pelas tentativas de controle por meio, por exemplo, da propriedade intelectual. Entretanto, quando se trata da produção de conhecimentos, o valor surge justamente quando há a troca, isto é, quando há difusão. O sistema de propriedade intelectual, nascido na época dos livros físicos (LAZZARATO, 2002), intervém para provocar algum tipo de raridade no que é abundante, atuando como um freio ao processo de socialização (COCCO; GALVÃO; SILVA, 2003). Todavia, ao longo da socialização (difusão), os conhecimentos vão se enriquecendo com a criatividade gerada pelo general intelect, e é isto que assegura o crescimento da riqueza. Os envolvidos com objetos digitais vivenciam isso, como observa Barlow: A lei sobre a propriedade intelectual não pode ser estendida até cobrir a expressão digitalizada. A maior parte daqueles que produzem objetos soft, os programadores, os hackers e os net surfers sabem disso. Infelizmente, as grandes companhias e os advogados a serviço delas não têm experiência suficiente acerca das mercadorias imateriais para entender qual é o problema. Comportam-se como se as velhas leis voltassem a ser vigentes de alguma forma, com alguma extensão grotesca ou com a força. (BARLOW, 1994, apud BERARDI, 2005, p. 105) Isto posto, hoje existem questionamentos com respeito ao papel do sistema de propriedade intelectual como real promotor do avanço técnico-científico (ALBAGLI, 1999). Indo além, questiona-se, ao contrário, se não é importante haver mecanismos que tragam mais estímulos à livre circulação de conhecimentos, sejam eles técnicos, científicos, culturais ou sociais. É a partir disso que surgem movimentos de promoção, por exemplo, do chamado copyleft, isto é, que estimulem as trocas e doações e não a escassez. O Creative Commons é outro exemplo em ascensão: ao registrar uma obra no projeto Creative Commons, seja ela um texto, uma imagem, registro de áudio ou produções de vídeo, o autor abre mão das proteções legais de copyright que impedem a reprodução, e também tem a possibilidade de escolher formas mínimas de restrição que se aplicam a sua utilização. Passa a se manifestar a lógica do some rights reserved (alguns direitos reservados) no lugar de all rights reserved (todos os direitos reservados), algo diferente de extremos como “todos” ou “nenhum” (LESSIG, 2005). Se os conhecimentos são reproduzidos sem custo e de forma acelerada pelas NTICs, tem-se para alguns autores o deslocamento de uma economia baseada na escassez para uma outra economia baseada na abundância e na possibilidade de doação entre os seus envolvidos; para Barbrook (2003) e outros, é a base de uma gift economy ou economia da dádiva. Ela abrange todas as relações e realizações não computáveis e não remuneráveis, cuja motivação é “a alegria espontânea na colaboração livre, no convívio e na doação livres. Dela resulta a capacidade de sentir, de amar, de se unir e de viver em paz com o próprio corpo, com a natureza e com o próximo” (GORZ, 2005, p. 57). O que começou no interior do campo da pesquisa científica – pois ela, entre seus pares, sempre envolveu compartilhamento de conhecimento, como lembra Jollivet (2002) – está agora transformando a produção musical e muitas outras formas de expressão cultural. No começo da década de 1990, apenas poucos acadêmicos e usuários amadores podiam acessar esta forma aberta de comunicações mediadas por computador, a Internet; agora, a presença na rede é comum. Todos os usuários da rede podem então participar na economia hitech da dádiva (BARBROOK, 2003). É importante, neste caso, não confundir tal situação com a gratuidade oferecida em determinadas modalidades da própria economia da escassez. No caso da produção de software, por exemplo, há produtos entregues gratuitamente mas sem permitir participação ou compartilhamento de conhecimento (isto é, permanecem fechados). No paradigma da cloud computing, analisado adiante, também tem ocorrido tal gratuidade sem necessariamente haver implicação em produção compartilhada de conhecimento. 4 O SOFTWARE LIVRE Com base nos conceitos apresentados anteriormente, fixemos nossas considerações no que julgamos ser um bom exemplo de cooperação subjetiva, a programação de computadores. Arte ou técnica, a programação desvencilhou-se do hardware e tornou-se hoje peça-chave para a disseminação das TICs. De um modo mais abrangente, a produção de software é realizada com participação de diversos indivíduos que contribuem com seus conhecimentos, técnicos ou não, para a criação de um produto que, em essência, é não-rival, pois o seu valor de uso só faz aumentar com sua disseminação (REZENDE, 2008). Entretanto, seguindo a lógica econômica da escassez, as corporações passaram a tratar o software como bem rival a partir do momento que definiram mecanismos de controle de propriedade, como licenças de uso e fechamento do acesso ao código-fonte, isto é, às instruções e documentos contendo a essência de como o software foi criado. É impossível deixar de perceber os altíssimos ganhos advindos destes modelos de negócio que se consolidaram nas últimas décadas do século passado. Contudo, a expansão das redes nos últimos anos tem viabilizado, cada vez mais, modelos de produção colaborativa que crescem à parte destas corporações. Além disso, a cooperação subjetiva no desenvolvimento de software é resgatada com a revalorização do papel conjunto de usuários e programadores na produção coletiva e difusora dos conhecimentos, apoiados também por espaços de comunicação virtuais. O maior exemplo desta cooperação é o desenvolvimento de software livre, que passa a minar as barreiras de sustentação criadas para gerar a escassez artificial dos produtos de software. No software livre, é possível para qualquer um ter acesso às instruções e outras documentações utilizadas pelos seus criadores. Os participantes desse tipo de processo de desenvolvimento contribuem com um trabalho individual que é compartilhado entre os seus produtores; mas uma vez envolvidos em redes, muitas vezes os produtores também são usuários, o que vai então modulando uma produção de conhecimentos cada vez mais refinada. A competência pessoal foge à norma das atribuições profissionais que poderia existir em ambientes mais piramidais e hierárquicos, e tende a se aproximar mais da atividade virtuosa mencionada anteriormente. Quando um software embute tecnologias que favoreçam a liberdade de se fazer certas modificações, um usuário/técnico pode fazer alterações e ajustes (hacks) que adaptam um software às suas necessidades e, em última instância, contribuem para a disseminação de determinados conhecimentos. Em diferentes graus, estes hacks permitem recombinar ou reprogramar os artefatos originais. No extremo do espectro do acesso e do uso, os softwares livres são os que mais potencializam esta modificação de suas características e a sua liberdade de cópia. Quando apresentam as formas de enfrentamento do controle da propriedade no terreno da cibernética e da Internet, Hardt e Negri (2005) mencionam o movimento do código-fonte aberto como o seu exemplo mais radical. Segundo os autores, os defensores do software livre alegam que não são capazes de visualizar como um software proprietário funciona internamente, e muito menos podem identificar seus problemas ou modificá-lo para que funcione melhor. Desta forma, os softwares deveriam então ter seu código-fonte liberado para consulta: “o código dos softwares é sempre um projeto colaborativo, e quanto mais pessoas puderem vê-lo e modificálo, melhor ele se tornará” (HARDT e NEGRI, 2005, p. 380). Se a liberdade de consulta e modificação permite expor as “entranhas” do conhecimento embutido em determinados softwares, é possível também levar em consideração a possibilidade de que os usuários tenham uma potência despertada que os tornem tão produtores quanto os assim rotulados técnicos. Mesmo que um usuário não domine determinados conhecimentos específicos sobre a construção de software, a própria possibilidade de modificar configurações localmente, no seu computador, ou decidir quando e como atualizar o programa, ou ainda como fazer cópia dos seus dados, permite torná-los parte da produção. Isto significa que o fato de um software estar disponível localmente, ainda que codificado de forma fechada, pode dar abertura para determinadas configurações e ajustes ao gosto do usuário, visto que o espaço de instalação e configuração é seu (um disco rígido, por exemplo). Lazzarato (2006), ao lembrar que hoje a riqueza pode ser pensada também sob uma lógica da abundância, reforça a importância desta liberdade no caso do software: Se a economia é a ciência da otimização dos recursos escassos, e se hoje em dia a escassez não é mais uma condição natural, mas um produto do direito, parece-nos necessário lançar as bases de reflexão para pensar a riqueza a partir da lógica da abundância própria aos bens comuns. A ambigüidade que encerra o termo inglês que distingue o software livre do software proprietário – free software – pode ser um bom ângulo de aproximação dessas questões, que ultrapassam amplamente a própria questão do software livre. O termo free software remete a dois conceitos diferentes: liberdade e gratuidade. As comunidades do software livre insistem no fato de que um software livre se define antes de mais nada pela liberdade, mais do que pela gratuidade. (...) O software livre coloca o usuário em uma situação potencial – ao demandar um engajamento específico por parte deste mesmo usuário – de liberdade e independência. Já o software proprietário, mesmo que tenha sido adquirido gratuitamente, deixa o usuário em uma condição de dependência e passividade. (LAZZARATO, 2006, p.138) O que se quer reforçar aqui é que a liberdade embutida em determinadas tecnologias, que não necessariamente é mera gratuidade, permite confundir positivamente usuários e desenvolvedores e potencializar a capacidade de mudança. A hierarquia de saberes entre os dois atores pode dar lugar a inovações de caráter cada vez mais reticular, como lembra Jollivet: “esta natureza coletiva, cooperativa e reticular do processo de inovação é particularmente pronunciada na dinâmica da indústria informática, através da importância, recentemente afirmada, das comunidades informais de informaticistas de software livre (JOLLIVET, 2003, p. 89). A palavra-chave é o compartilhamento: a relação entre produtores e consumidores possui as características da cooperação, da participação no mesmo ciclo produtivo de um jeito que foge às regras da economia capitalista (BERARDI, 2005). Esta cooperação é um dos fundamentos de uma ética hacker, cuja atividade repousa numa ética de cooperação voluntária, na qual cada um se compara aos outros pela qualidade e pelo valor de uso da sua contribuição para seu grupo, coordenando-se livremente entre si. Não é uma produção com a finalidade de trocas comerciais; o valor de troca nunca é levado em conta; considera-se apenas o valor de uso que, na essência, não é mensurável (GORZ, 2005). Indo além da correta lembrança de Gorz, podemos afirmar que as redes de cooperação estimuladas por tecnologias livres, das quais o software livre faz parte, dão margem para que os usuários, na verdade, também se tornem hackers. Estamos aqui bem longe da conotação sombria sobre o significado de hacker, freqüentemente (mal) associada a invasões de computadores e roubos cibernéticos. Ao contrário, o uso do termo hack embute a idéia de uma modificação criativa, uma solução que seja fora-de-padrão para um problema, não necessariamente exclusiva de uma suposta elite técnica. 5 A COMPUTAÇÃO EM NUVEM COMO PRÓXIMO PARADIGMA Mesmo com o modelo do software livre rompendo com a lógica econômica proprietária disseminada na área de informática, as possibilidades trazidas pela comunicação em redes, como a produção colaborativa e o compartilhamento de conhecimento, e ainda as próprias necessidades levantadas pelos participantes, não haviam, até pouco tempo atrás, modificado o paradigma atual da computação, fortemente baseado na existência de máquinas contendo memórias capazes de armazenar localmente e executar localmente dados e instruções. O software foi “desencarnado” das máquinas físicas, uma vez que tornou-se numerizado eletronicamente, mas dependia de um “corpo” local (o hardware) para ser posto em execução. A computação pessoal e a microeletrônica, iniciadas na década de 1970, expandiram para pessoas comuns o uso dos softwares em larga escala por meio do hardware local (LÉVY, 1993). Durante a década atual, entretanto, um novo fenômeno tem gerado uma discussão crescente sobre as possibilidades de criação e uso dos softwares. Trata-se do que vem sendo chamado de cloud computing, ou computação em nuvem. O conceito parte da idéia de se explorar o acesso remoto a dados e programas ao extremo. O acesso remoto já existe desde o momento em que se delineou o uso das redes de computadores, mas o que vê agora é que a velocidade de transmissão permite que os dados, e principalmente os softwares, possam ser manipulados remotamente de um modo muito mais disperso e fluido. Tecnicamente, a computação em nuvem é uma evolução dos grids computacionais, agregando supercomputadores e aglomerados de milhares de computadores. Delic e Walker (2008) representam a nuvem como um nexus de hardware, software, dados e pessoas que provê serviços on-line, trazendo uma maciça participação, colaboração e criação de conteúdo. Para os usuários, a computação em nuvem permite que um software seja executado não a partir do seu computador local, mas sim de um servidor funcionando à distância em algum lugar da rede, isto é, em algum lugar da “nuvem”. A fronteira entre o que está gravado localmente e o que está na nuvem se torna muito fluida, pois determinados softwares de um computador local podem na realidade estar executando instruções e manipulando dados que estão na rede, sem que o usuário saiba exatamente onde está cada parte. Um dos exemplos mais difundidos atualmente é o webmail. O correio eletrônico, um dos serviços mais antigos da Internet, é baseado na troca de mensagens entre usuários a partir de endereços individuais. Durante um longo período, cada usuário precisava utilizar um software (como o Outlook, Pegasus, Thunderbird e muitos outros) capaz de “puxar” as mensagens armazenadas em servidores e gravá-las localmente para consulta. Com o webmail, o usuário não precisa mais trazer as mensagens para si: o acesso é feito diretamente a algum servidor na nuvem e alguma interface amigável (provida pelos navegadores web) permite a manipulação direta das mensagens. Com isto o usuário pode consultar suas mensagens de qualquer computador que tenha acesso ao webmail, seja de casa, do trabalho, de uma lan house, etc. É fato que, mesmo na nuvem, o software ainda depende de uma execução em uma máquina física, mas a questão é que, do ponto de vista de quem está fazendo uso do serviço (o usuário do webmail, por exemplo), o acesso é remoto e pode ser feito a partir de qualquer “nó” da rede, aumentando o grau de mobilidade (KNORR e GRUMAN, 2008). Tudo se comporta como se os dados e o software estivessem sempre no mesmo lugar do acesso. Isso é ainda mais impulsionado quando o acesso é feito a partir de dispositivos móveis que permitem o uso em trânsito, como no caso de smartphones e notebooks, cada vez mais comuns. Justamente pelo crescimento da importância da “porta de acesso” aos serviços on line, a chegada da computação em nuvem impulsionou a sofisticação das tecnologias embutidas nos navegadores, que se tornaram hoje uma peça-chave; depende-se deles para o acesso às aplicações, e as corporações de tecnologia vêem nos mesmos a possibilidade de conquista de um espaço de atuação estratégico. Um verdadeiro “coquetel” de tecnologias vem sendo desenvolvido de modo a tornar o uso de certas aplicações mais dinâmico, sofisticado e amigável por parte dos usuários, como seria com os softwares gravados localmente, só que agora tendo como base a interface de um navegador. É caso dos navegadores mais conhecidos, como o Microsoft Internet Explorer, o Mozilla Firefox e o Google Chrome – este último chegando ao mercado já fortemente atrelado ao uso na nuvem. Sob o ponto de vista das corporações, a computação em nuvem tem sido propalada como um paradigma capaz de prover um conjunto de aplicações on line que fortalecem a idéia do software como um serviço, trazendo uma maior mobilidade para os seus usuários e otimizando recursos computacionais (IBM, 2009). Isto tem fortalecido uma migração da venda de software “de caixinha” (ou mesmo que, sem caixinha nem mídia física, são oferecidos via Internet) para a venda de um serviço que condiz com as dinâmicas do capitalismo cognitivo descritas anteriormente. Um dos exemplos mais significativos atualmente tem sido a estratégia da Google, que procura oferecer um leque de serviços on line a seus usuários, desde o webmail até ferramentas de manipulação de documentos. Sob o ponto de vista dos usuários, duas mudanças podem ser mencionadas. A primeira é a migração crescente para interfaces de comunicação com os softwares cada vez mais web like, isto é, disponíveis dentro da interface dos navegadores. A segunda é o uso de produtos sem a necessidade de instalação no computador local. As ações possíveis são puxadas remotamente e apresentadas dentro do navegador com tal grau de sofisticação que dão a impressão de estarem instaladas localmente. 6 ALGUMAS PROBLEMATIZAÇÕES Nos últimos tempos, em especial no ano de 2009, parece-nos que a discussão sobre o paradigma da computação em nuvem extrapolou os limites da área tecnológica e atingiu um público mais amplo. O que antes envolvia apenas discussões de caráter técnico no meio computacional aos poucos começa a se disseminar para pessoas comuns, que na realidade já são muitas vezes usuárias deste paradigma; matéria recente em revista de grande circulação sinaliza que a nuvem “marca o fim de um universo digital “PC-cêntrico” (Rydlewski, 2009, p.65). Como outro exemplo dessa extrapolação pode-se citar ainda o texto de Fusco (2009), dirigido ao público de negócios, onde a nuvem é apresentada como a maior transformação da indústria de software desde o seu nascimento; aqui são ressaltados os benefícios, para os clientes, da migração de um sistema baseado em uma licença de uso, paga no ato de compra e depois complementada por atualizações, para um modelo onde a lógica é a do aluguel: a partir de um pagamento, os softwares são acessados pela internet e ficam sob responsabilidade do prestador. Este novo modelo reforça a idéia de que, na computação em nuvem, o que se fortalece é o conceito de software como um serviço. Seja para clientes-pessoas ou clientes-empresas, o que mais tem sido difundido é o fato de que a computação em nuvem traz mobilidade de acesso a programas e documentos, ambos na nuvem, e a possibilidade de concentrar recursos num só lugar, ainda que não se saiba exatamente onde. Contudo, julga-se que tem havido um desequilíbrio na forma como a computação em nuvem tem sido apresentada, uma vez que, até o momento, os atores que têm tido mais voz são as corporações economicamente interessadas em explorar as tecnologias envolvidas no paradigma. Portanto, algumas questões merecem ser problematizadas. Primeiro, há pouca discussão sobre o grau de confiança nas empresas que hospedam as informações dos usuários. Quando as informações estão fisicamente em um espaço que lhes diz respeito, cabe ao usuário decidir quando realizar cópias de segurança (backup). Com uma migração crescente de informações para a nuvem, pouco se tem discutido sobre quem está garantindo a existência de backups que possam ser utilizados no caso de contingências futuras. Moraes (2009) cita uma lista de problemas relacionados ao Google nos últimos anos e situações onde documentos de usuários desapareceram de uma hora para outra. Em segundo lugar, há a questão da privacidade. Ao mesmo tempo que se tem uma informação posta na nuvem, capaz de ser compartilhada entre diversas pessoas e por isso acelerando o processo de difusão de conhecimento, também aumenta-se a possibilidade de que pessoas não-autorizadas tenham acesso a estas informações. Como regra geral, há também um grau de confiança dos usuários de que as informações estarão disponíveis apenas para os que forem autorizados. Em terceiro lugar, a tendência de execução dos softwares remotamente se choca com a liberdade de interferência sobre os mesmos, seja pelos próprios usuários, seja por técnicos. A computação em nuvem tem mostrado até o momento uma situação oposta à liberdade; os usuários perdem a capacidade de intervenção justamente porque têm acesso somente à interface provida pelo software remoto, trazida à distância e montada dentro do navegador a partir de um conjunto de tecnologias (Ajax, Java, Flash, etc). Weber (2008) observa que a dependência tecnológica de outro pode limitar a flexibilidade e a criatividade, lembrando que o computador pessoal foi bem-sucedido justamente porque o modelo anterior dos mainframes, acessados por terminais “burros”, era muito frustrante para os que ficavam à frente dos terminais. Esta perda da capacidade de intervenção é observada de modo cada vez mais freqüente com as atualizações dos softwares. Num primeiro momento, os softwares só podiam ser atualizados quando o usuário assim o desejava. No segundo momento, com a chegada das redes e da Internet, as atualizações poderiam ser automaticamente baixadas, mas o usuário ainda poderia decidir quando quer fazer a atualização – é o caso do sistema operacional Windows, por exemplo. Mas com os programas on line, qualquer atualização realizada pelo provedor – do que agora é um serviço – é refletida imediatamente para todos os seus usuários do globo. Usuários do GMail, por exemplo, têm acompanhado diversas modificações nesta aplicação nos últimos tempos: inclusão de novas opções; modificações de layout; possibilidade de ativação de gadgets (adendos). A questão é que, na maioria das vezes, não há avisos sobre o momento das mudanças. Como maior ícone das empresas interessadas no desenvolvimento da computação em nuvem, a Google tem ofertado uma série de serviços a seus usuários, sejam eles gratuitos ou pagos. Nos últimos anos, a Google distanciou-se da imagem de um mero, mas não menos importante, mecanismo de busca na web, para se tornar uma empresa que oferece diferentes aplicações para as mais variadas situações, incluindo o webmail, agenda de compromissos, gerenciamento de tarefas, redes sociais, criação de documentos on-line, etc. Segundo Doria e Affonso (2009), 65% dos usuários da Internet no mundo utilizam alguma ou algumas das ferramentas oferecidas pela empresa. A questão é que o modelo da cloud computing pode trazer um desbalanceamento entre quem provê e quem usa e levantar a barreira entre produção e difusão. Além das possibilidades de produção de escassez por meio do acesso às aplicações on line (controle por meio de um login) e das questões de segurança dos dados pessoais, dispostos em um lugar que não se conhece, a computação na nuvem pode ofuscar o potencial de compartilhamento de conhecimentos entre os seus usuários, justamente um dos pontos mais importantes para a prática de atividades colaborativas. É fato que a Google tem interagido com seus usuários na criação dos seus produtosserviços. Tanto que várias aplicações são chanceladas como versões “beta” eternas: o termo que antes indicava uma aplicação quase acabada, passível de últimas modificações, agora é usado como forma de mostrar que a cooperação é constante e que a aplicação nunca estará finalizada. Na realidade, são os usuários que têm mobilizado uma grande quantidade de inovações; bastar observar quanto o Orkut, o serviço de redes sociais da empresa, mudou ao longo do tempo a partir das necessidades dos seus usuários (inclusive do Brasil, onde o serviço teve um sucesso até inesperado em comparação com outros países). Contudo, isto não significa que se possa ter um desequilíbrio das capacidades de participação ativa dos usuáriosprodutores ou mesmo uma concentração de poder e de controle, o que nos faria retroceder a um paradigma anterior. Sendo um dos pioneiros do movimento do software livre no mundo, Richard Stallman já opinou que o fenômeno da computação em nuvem é como uma armadilha (JOHNSON, 2008), uma vez que é capaz de amarrar as pessoas a sistemas proprietários e trancá-las do lado de fora dos locais dos seus próprios dados. Se organizações como a Google têm oferecido serviços de forma gratuita, não se pode garantir que não haja cobrança futura nem o que irá ocorrer com os dados, isto num momento em que os usuários já estarão em um nível muito mais elevado de dependência. 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste texto procuramos identificar as transformações do capitalismo atual como sendo características do capitalismo cognitivo, focalizando a importância das redes como uma topologia capaz de promover uma produção colaborativa horizontalizada e também de permitir o agir comunicativo típico do trabalho imaterial. Nestas redes prevalece uma forma de cooperação muito mais subjetiva, no sentido de solicitar a subjetividade de seus participantes independentemente de um comando transcendente. As dinâmicas passam, portanto, a valorizar relações de serviço de caráter imaterial que fogem aos padrões anteriores de produção, compondo um serviço vivo que depende da fricção proporcionada por um general intelect. Dentre os espaços de produtividade inerentes ao capitalismo cognitivo, a produção de software foi apresentada como exemplo significativo destas dinâmicas; com este recorte, o modelo de software livre é descrito como um dos que mais tem impulsionado a livre produção colaborativa, aproximando e confundindo produtores e usuários. Consideramos que este modelo tem sido um marco significativo na construção e compartilhamento de conhecimentos em rede, abrindo espaço para a existência de gambiarras produtivas que representem a manifestação plena de criatividade e inovação na produção de software. Com o crescimento do conceito de software como serviço, julgamos que a computação em nuvem tem assumido o posto de novo paradigma de computação, uma vez que a oferta de aplicações na nuvem tem aumentado rapidamente nos últimos tempos. Contudo, procuramos identificar que há um desbalanceamento de poder entre as corporações provedoras e os seus usuários. Dados e programas têm sido dispostos on line em espaços virtuais desconhecidos e são manipulados por mecanismos de login que podem representar tentativas de exercício de controle por parte de determinadas corporações. Ao mesmo tempo em que atua como uma tranca para acesso aos dados, o login típico para acesso aos serviços tem se mostrado uma forma de rastreamento e de controle de privacidade bastante eficaz. Usuários da Google tem toda a sua navegação registrada no serviço de web (registro que, embora possa ser desligado, encontra-se ativado por padrão) e ainda há pouca discussão sobre as implicações do uso de tal acúmulo de dados por parte da empresa. A lógica capitalista já apresentava anteriormente formas de cerceamento e de geração de raridade no ciberespaço, embutindo uma “cultura da falta” que procura manter suas bases econômicas clássicas; é o caso dos licenciamentos de produtos digitais, a criminalização e o combate à pirataria, a mercantilização do digital, etc. Na situação atual, a computação em nuvem pode se tornar mais uma tentativa pulverizada de controlar digitalmente os indivíduos no ciberespaço, ofuscando o potencial de compartilhamento entre os seus usuários, cuja capacidade produtiva é parte integrante e fundamental para a fluidez das redes. Indo além, a nuvem pode contribuir para o enfraquecimento de um espaço de compartilhamento de conhecimentos e de exercício de uma cibercultura livre ao se tornar uma via de mão única. Entretanto, a própria natureza das redes de cooperação, capaz de fugir de um centro de comando e permitir o trabalho vivo de produtores-usuários, levanta possibilidades de resistência na produção de software, como a que já se iniciou com o movimento do software livre. Indo além, nada impede que a disseminação de tecnologias livres também entremeie a computação em nuvem. A mesma mobilidade trazida pela nuvem, se se supõe fonte de lucratividades futuras – ainda que no momento seja oferecida em grande parte de forma gratuita – pode também ser fonte de novas possibilidades de configuração das aplicações em modalidades ainda não pensadas (mudanças em códigos diretamente on line, por exemplo), indicando que não há mais como deter as inovações proporcionadas pelas redes e pelo trabalho vivo. COOPERATION THEORY, AND FREE SOFTWARE problematizations ON COMPUTERS IN CLOUD ABSTRACT The article aims to identify recent changes in the area of software production, which are sufficient to be justified as part of a productive shift towards cognitive capitalism. A theoretical review is made in order to explain these changes, and the free software model is presented as an example of a subjective cooperation promoted by the networks; we emphasize the collective role and the freedom for producers and users, which now act in virtual spaces of communication. Cloud computing, the last stage in software development, despite the growth and mobility that are inherent in it, is problematised about its current mechanisms for controlling and reducing the capacity of intervention of users. For the next steps, we consider that the cloud model is no longer capable of preventing the innovations brought by the networks and the living labor, suggesting that new forms or resistance with free technologies may also be part of cloud computing. Keywords: Cognitive Capitalism. Cooperation Networks. Free Software. Cloud Computing. REFERÊNCIAS ALBAGLI, S. Novos espaços de regulação na era da informação e do conhecimento. In: LASTRES, H. M. M.; ALBAGLI, S. (orgs). Informação e globalização na era do conhecimento. Rio de Janeiro: Campus, 1999. BARBROOK, R. A regulamentação da liberdade: liberdade de expressão, liberdade de comércio e liberdade de dádiva na rede. In: COCCO, G.; GALVÃO, A. P.; SILVA. G. (orgs.) Capitalismo cognitivo: trabalho, redes e inovação. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. BERARDI, F. A fábrica da infelicidade: trabalho cognitivo e crise da new economy. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. BOUTANG, Y. M. Le capitalism cognitif: la nouvelle grande transformation. 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