INSTITUTO BÍBLICO PORTUGUÊS
ESCOLA SUPERIOR DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA EVANGÉLICA
SANTO ANTÃO DO TOJAL
O conflito
entre a vontade humana e a vontade divina
no Livro de Jonas
MONOGRAFIA
APRESENTADA EM CUMPRIMENTO ÀS EXIGÊNCIAS DA DISCIPLINA
GE 101 - METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTIFICO
DO
DIPLOMA BÁSICO DE ESTUDOS B. E TEOLÓGICOS
Maria Lucinda Tomaz Ribeiro Alves
2000/2001
Revisão 2009
2
Índice
Introdução
........................
2
........................
3
........................
3
........................
4
........................
4
........................
5
........................
6
........................
7
........................
7
........................
8
........................
8
........................
9
........................
9
........................
9
I. A vontade divina
A. A vontade para o colectivo
B. A vontade para o individual
II. A vontade humana
A. O individualismo e o pecado
B. O desejo da carne
C. A conversão e a renúncia própria
III. O caminho da desobediência
A. O pecado gera a morte
B. A confiança na justiça pessoal
C. A presença do Senhor na desobediência
IV. A repreensão correctiva
A. A necessidade de correcção
B. O arrependimento ou a morte
........................ 10
V. A cruz da obediência
........................ 11
A. O servo do Senhor
........................ 11
B. A alegria em obedecer
........................ 11
VI. A lição do amor
........................ 12
A. A misericórdia divina
........................ 12
B. A lei do amor
........................ 12
Conclusão
........................ 14
Bibliografia
........................ 15
3
Introdução
Este trabalho é o resultado de uma meditação no livro de Jonas por parte da autora,
recorrendo também a algumas citações que interessem ao assunto que irá sendo desenvolvido.
Não pretende ser um comentário exaustivo, mas uma reflexão acerca dos princípios nele
contido. O tema do conflito entre a vontade humana e a vontade divina é o foco do livro, tal
como o é em toda a Bíblia. Muitas vezes estas duas vontades opõem-se. Quando o homem
escolhe fazer a sua vontade em vez de seguir a vontade divina encontra sempre problemas.
Esta monografia pretende, assim, comentar a atitude de Jonas, símbolo de Cristo, por um
lado, mas, também, símbolo do homem comum em sua desobediência, em paralelo aos
princípios bíblicos em geral.
4
A vontade divina
A Bíblia fala da vontade divina como boa, perfeita e agradável, como diz em Rm 12:2,
“E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente,
para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.”. O amor
divino para connosco é incomparavelmente superior a qualquer amor que possamos sentir por
nós próprios ou por outros. Além disso, o Senhor é bom em si mesmo. Sendo assim, ele
deseja o nosso bem de forma mais intensa do que alguma vez nós o poderíamos fazer. As
seguintes passagens bíblicas exemplificam aspectos da boa vontade do Senhor para o homem:
“Pois eu bem sei os planos que estou projectando para vós, diz o Senhor; planos de paz, e não
de mal, para vos dar um futuro e uma esperança.” (Jr 29:11) e “Toda boa dádiva e todo dom
perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de
variação.” (Tg 1:17).
A vontade divina, no Antigo Testamento, era transmitida aos homens pela Lei escrita,
mas principalmente pelos profetas. A principal função do profeta era comunicar ao povo a
vontade do Senhor, como diz Archer: “A responsabilidade dos profetas do antigo Testamento
não era principalmente predizer o futuro no sentido moderno da palavra “profetizar”, era mais
anunciar a vontade de Deus que Ele comunicara através da revelação.”1 Na Nova Aliança,
continua a ser a Palavra escrita a indicar-nos a vontade do Senhor, em ligação ao Espírito
Santo que habita em cada nascido-de-novo (Hb1:1-2).
A vontade para o colectivo
A vontade do Senhor para o mundo é a salvação de toda a humanidade: “...o qual
deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” ( I
1
ARCHER JR, Gleason L. O Antigo Testamento pág. 333
5
Tm 2:4). A vontade divina para o homem como colectividade é simbolizada no livro de Jonas
por Ninive. A ordem acerca da ida do profeta à cidade, reflecte uma preocupação pelo
colectivo, pois Jonas não foi enviado a uma pessoa única, como aconteceu a outros profetas
(por exemplo: Elias e a viúva de Sarepta em I Rs 17). Esta, é uma cidade pagã, inimiga de
Israel. No entanto, o desejo de salvação universal é claramente manifesto pela ordem dada a
Jonas de pregar ali o arrependimento (Jn 1:2).
A vontade para o individual
A vontade do Senhor para cada indivíduo é, também, a salvação (I Tm 2:4). No
entanto após a salvação do espírito, inicia-se um processo de restauração e transformação com
vista a atingir a perfeição de Cristo (Ef 4:12,13). A palavra “salvação”, no grego, é “sozo”,
que significa uma salvação, em sentido amplo, do espírito, alma e corpo, ou seja uma
redenção completa do homem.
No caso de Jonas, o objectivo parece ser a transformação do seu carácter e o ensino
acerca da misericórdia divina. Jonas era um profeta, mas precisava aprender a obediência
incondicional e que o amor de Deus se estende a todos os homens.
A vontade humana
O homem foi criado com vontade própria. A sua vontade pode ser um bem precioso,
mas também uma terrível maldição: depende como esta é utilizada. Adão utilizou-a para
trazer o pecado sobre toda a humanidade. Por outro lado, Cristo, pela sua obediência à
vontade do Pai disponibilizou a justiça para todo o que crê (Rm 5:12,18,19).
A vontade humana é simbolizada no livro de Jonas por Társis, pois era a vontade do
profeta a sobrepor-se. Jonas, ao invés de obedecer, indo para Nínive, decide fugir para o lugar
6
mais distante, então conhecido, isto é, a cidade de Társis, localizada ao sul da Península
Ibérica. A ida para Társis foi iniciativa humana e contrária à ordem do Senhor.
Na Bíblia, normalmente, os profetas são pessoas obedientes e exemplares. Contudo
isto não aconteceu no caso de Jonas: “Os profetas não eram meros autômatos, pois tinham
poder de resisitir à vontade de Deus. Todavia, este é o único caso de que se tem notícia de um
profeta que se recusou a levar a cabo a sua comissão.”2
O individualismo e o pecado
O pecado é sempre provocado por uma atitude individualista de rejeição da vontade
divina. A iniciativa de interrupção da comunhão e relacionamento com o Senhor é do homem.
Este, ao optar pelo pecado, coloca uma barreira entre si mesmo e Deus. Um cristão, nascido
de novo, por pecar ocasionalmente não perde a presença do Espírito Santo dentro de si, mas
perde a comunhão com Ele até que encontre arrependimento.
Quando Jonas toma a iniciativa de fugir para Társis, está apenas a pensar em si mesmo
e na sua nação. Ninive era um inimigo político de Israel. Deus olha para todos os homens com
o mesmo interesse. O profeta, porém, não considerou de importante pregar o arrependimento
a uma nação pagã, tão desagradável aos israelitas. Caio Fábio fez os seguintes comentários
acerca deste aspecto:
Ele estava pensando só em si, no seu bem-estar, naquilo que lhe agradava, no seu prazer, no seu
conforto. Esse é um paradoxo que se vivência quando se está encharcado de perspectivas
ideológicas do tipo colectivista. Neste caso o colectivismo pode gerar um tremendo egoísta em
relação a um único ser que a pessoa não deixa de levar em consideração, que é ele próprio.3
A visão de Jonas quanto à sua missão se reduziu em função da sua cartilha ideológica. Sua
atitude obstinada contra Ninive não é própriamente o resultado do seu senso de justiça, mas do
seu condicionamento ideológico. Prova disso é o fato de que encontramos nele duas categorias
de justiça. A primeira é aquela justiça que ele aplicava aos que estavam do lado de fora de Israel,
vistos por ele como inimigos dos seus sonhos políticos e nacionalistas.”4
2
FEINBERG, Charles L. Os profetas menores pág. 133
FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso pág. 42, 43
4
FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso pág. 30
3
7
Jonas esqueceu todos os votos que muito provavelmente fizera como profeta (Jn 2:9) e
decide “fugir” da presença do Senhor, como se isso fosse possível. Para Israel, a presença do
Senhor estava em Jerusalém, mais especificamente no templo, logo Jonas pensou que se
afastasse de Jerusalém o mais possível conseguiria fugir do Senhor (I Rs 9:7 II Rs 17:20,23;
24:20; Jr 52:3). O profeta em primeiro lugar procura isolar-se, mas não é o lugar físico onde
se encontre que o afasta de Deus e sim o seu pecado de desobediência. Assim como a sua
separação do Senhor não é da “sua presença”, mas da “sua comunhão”.
O desejo da carne
A carne opõe-se ao Espírito, isto é, opõe-se à vontade do Senhor. A carne procura as
coisas deste mundo, as coisas naturais e temporais, enquanto o Espírito procura as coisas
celestiais e eternas. A carne tende para a satisfação pessoal, mas o Espírito procura a salvação
universal. Podemos confirmar estas afirmações nos seguintes versículos:
Pois os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o
Espírito para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do
Espírito é vida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é
sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser; e os que estão na carne não podem agradar a
Deus... porque se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito
mortificardes as obras do corpo, vivereis. (Rm 8:5-8,13)
Digo, porém: Andai pelo Espírito, e não haveis de cumprir a cobiça da carne. Porque a carne
luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes se opõem um ao outro, para que não
façais o que quereis. (Gl 5:16-17)
Jonas toma uma posição carnal ao colocar o seu comodismo pessoal acima de valores
eternos. Enquanto a cidade de Ninive perecia, o profeta pensava apenas no seu bem-estar
pessoal. Tal como Jonas, muitas vezes os cristãos fogem á responsabilidade da pregação aos
ímpios (Jn 1:3).
8
A conversão e a renúncia própria
No meio da tempestade, depois da desobediência, Jonas desistiu da sua fuga e
ofereceu a sua vida para que a vida dos marinheiros fosse salva. É surpreende esta mudança!
Depois de ver que não pode escapar ao poder de Deus, resolve entregar-lhe a vida (Jn 1:12).
Enquanto Ninive era uma cidade distante, os marinheiros eram pessoas que conheceu face a
face. Jonas sentiu o seu medo e aflição. Talvez por isso Jonas tenha conseguido identificar-se
com aqueles homens pagãos e decidir trazer sobre eles a benção da vida. Muitas vezes os
cristãos não agem assim, mas ignoram os que os rodeiam. Caio Fábio, diz a esse respeito:
Isto porque para muitos de nós, diferentemente de Jonas, a tragédia do mundo parece nada ter
a ver conosco. Todavia tem tudo a ver. A razão é simples: aqueles que são designados a ser
benção para o mundo tornam-se maldição para a sociedade, quando não assumem seu papel de
benção na vida.5
Quando a vontade humana se submete à vontade divina e a carne se submete ao
Espírito, dá-se um fenómeno geralmente denominado de conversão. A conversão do homem é
sujeição da vontade ao Senhor. Isto implica a renúncia do “eu” humano em função do “Eu”
divino. Por isso Paulo diz de si mesmo: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais
eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus,
o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.” (Gl 2:20).
O caminho da desobediência
O pecado produz sempre algo negativo para aquele que o pratica, quer este seja ou não
servo do Senhor. A confiança em si próprio é já, em si mesma, pecado, e conduz à
desobediência. A desobediência, por seu lado, é a expressão da vontade humana.
5
FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso pág. 16
9
O pecado gera a morte
Jonas, devido à sua desobediência ia perdendo a vida na tempestade (Jn 1:4,15,17).
Assim, também, Cristo, ao tomar sobre si a nossa desobediência foi castigado em nosso lugar
pagando com a morte. O pecado é sempre uma desobediência e a sua consequência é sempre
morte, seja ela na vida espiritual, na vida material ou na vida física, como está escrito:
“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo
Jesus nosso Senhor.” (Rm 6:23).
A confiança na justiça pessoal
Jonas reconheceu que a tempestade tinha origem divina, e que a finalidade era impedir
a sua fuga. Ele sabia discernir quando era o Senhor a agir, por isso dormia calmamente
enquanto se dava a tempestade (Jn 1:5). Sabia que estava nas mãos do Senhor, e tal qual uma
criança que sabe ter agido mal se deixa açoitar pelo pai, assim Jonas recebia os acoites
daquelas ondas. Ele estava consciente da repreensão divina.
Jonas precisava aprender, que pelo facto de ser profeta do Senhor, não significava que
pudesse ter qualquer atitude impunemente. Os cristãos muitas vezes têm a sua salvação por
garantida e colocam em segundo plano a obediência ao Senhor. A Bíblia diz que a eleição
divina não depende de obras: “... (pois não tendo os gémeos ainda nascido, nem tendo
praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme,
não por causa das obras, mas por aquele que chama)...” (Rm 9:11). No entanto, ainda que a
eleição não dependa de obras, após a eleição devem existir obras (Tg 2:14).
10
A presença do Senhor na desobediência
Seja qual for o nossa opção o amor paterno do Senhor está connosco para nos ajudar,
sem desistir de nós, a encontrar o caminho certo. Na desobediência humana, a presença do
Senhor mantém-se e pode contemplar-se, como em nenhuma outra ocasião, a incompreensível
misericórdia divina.
Jonas, quase a afogar-se na tempestade, foi salvo pelo peixe que o engoliu. O Senhor
não deixou, simplesmente, que o profeta morresse, mas voltou a dar-lhe mais uma
oportunidade. O Senhor deseja dar-nos sempre uma nova oportunidade! Ao “castigo” sobre
Cristo seguiu-se também uma nova oportunidade para a humanidade.
Foi sempre o amor que provocou a acção do Senhor para com Jonas: o amor por
Ninive, o amor pelos marinheiros, o amor por Jonas,... É por amor que Deus intervém na
viagem do barco onde viajava o profeta, como comenta Caio Fábio: “De repente os até então
bem sucedidos planos de Jonas são confrontados pelo pior de todos os oponentes: o amor
apaixonado de Deus. Isso porque nenhuma fuga de Deus dura para sempre, quando aquele
que foge é alguém que o conhece.”6
A repreensão correctiva
A repreensão divina é correctiva e não punitiva para com os seus servos. O objectivo
é que o homem encontre arrependimento e não destruição.
A necessidade de correcção
O arrependimento e a mudança de carácter estão sempre nos objectivos de Deus ao lidar
com o ser humano. O Senhor corrige aqueles que ama como diz a seguinte passagem:
11
Ainda não resististes até o sangue, combatendo contra o pecado; e já vos esquecestes da
exortação que vos admoesta como a filhos: Filho meu, não desprezes a correcção do Senhor,
nem te desanimes quando por ele és repreendido; pois o Senhor corrige ao que ama, e açoita a
todo o que recebe por filho. É para disciplina que sofreis; Deus vos trata como a filhos; pois qual
é o filho a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos se têm tornado
participantes, sois então bastardos, e não filhos. Além disto, tivemos nossos pais segundo a
carne, para nos corrigirem, e os olhávamos com respeito; não nos sujeitaremos muito mais ao
Pai dos espíritos, e viveremos? Pois aqueles por pouco tempo nos corrigiam como bem lhes
parecia, mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. Na verdade,
nenhuma correcção parece no momento ser motivo de gozo, porém de tristeza; mas depois
produz um fruto pacífico de justiça nos que por ele têm sido exercitados. (Hb 12:4-11)
A experiência de Jonas dentro do peixe foi para ele o mais valioso dos “retiros
espirituais”. Alí encontrou arrependimento e consciência da grandeza e poder de Deus.
Existem semelhanças entre a experiência de Jonas e a experiência de Cristo. Jonas sente-se
como estando no “Sheol”, termo hebraico para “lugar dos mortos” ou “inferno”. A oração de
Jonas poderia ser a oração do Senhor quando se encontrava nas “profundezas da terra”,
durante o tempo em que esteve morto. Ela reflete a angústia e o isolamento como
consequência directa do pecado (Jn 2).
O arrependimento ou a morte
O arrependimento cancela toda a maldição ou consequência espiritual de pecados
passados (Jn 3:10). Não há outro caminho possível, apenas arrependimento ou morte, seja ela
espiritual ou física. Jonas só quando se encontrava próximo da morte encontrou
arrependimento (Jn 2:7). Ao seu arrependimento seguiu-se vida na presença do Senhor, como
está escrito: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos
pecados, de sorte que venham os tempos de refrigério, da presença do Senhor.” (Ac 3:19).
6
FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso pág. 12
12
A cruz da obediência
A obediência tem grande importância para o Senhor. Foi com uma desobediência que
entrou o pecado no mundo, mas foi com uma obediência que esse pecado foi vencido (I Co
15:21-48). “Tomar a cruz” é obedecer e todos somos exortados a tomar a nossa cruz e a
seguir o Senhor, como está escrito: “E chamando a si a multidão com os discípulos, disselhes: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me.” (Mc
8:34). A importância da obediência é tal que no livro de Actos o Espírito Santo é referido da
forma seguinte: “... o Espírito Santo, que Deus deu àqueles que lhe obedecem. “ (Ac 5:32).
O servo do Senhor
Ser servo opõe-se ao individualismo e culto do eu. Em Is 53, fala do Servo que se
oferece a sim mesmo para obedecer. Jonas obedeceu a segunda vez, dizendo: “ o que votei
pagarei...” (Jn 2:9). Provavelmente havia prometido, como profeta que era, ir onde o Senhor
o enviasse. Na sua segunda oportunidades decide pagar o seus votos.
A alegria em obedecer
Cristo obedeceu sempre à vontade do Pai, dizendo: “...A minha comida é fazer a
vontade daquele que me enviou, e completar a sua obra. “ (Jo 4:34). Ele obedeceu até à morte:
“...e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a
morte, e morte de cruz.” (Fp 2:8). Fp 2 contrasta com a atitude de Jonas. Este obedeceu, mas
não de coração, pois foi necessário chegar perto da morte.
13
A lição do amor
Toda a obediência deve, acima de tudo, ter como raiz o amor. Sem amor nenhum acto
tem valor para o Senhor, como está escrito: “E ainda que distribuísse todos os meus bens para
sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse
amor, nada disso me aproveitaria.” (I Co 13:3).
A misericórdia divina
Deus é universal e ama todo o mundo (Jo 3:16): ele ama tanto o judeu como o gentio e
deseja o arrependimento de todas as nações. O livro de Miquéias refere esta ideia: “Quem é
Deus semelhante a ti, que perdoas a iniquidade, e que te esqueces da transgressão do resto da
tua herança? O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque ele se deleita na benignidade.”
(Mq 7:18). A misericórdia divina é sem limites e foge à nossa compreensão. Em Jn 4:11, diz
ter compaixão dos homens e até mesmo dos animais, por isso derramou sobre Ninive o seu
perdão. No final todos aprenderam acerca do amor do Pai. Caio Fábio comenta esta lição da
seguinte forma: “Jonas diz: “Eu sabia”, mas na realidade não sabia nada sobre o amor de Deus
(4:2). Já os ninivitas dizem: “Quem sabe?” (3:9) afirmando suspeita cheia de convicção. E
recebem a graça que suspeitam existir no coração de Deus.”7.
A lei do amor
A lei do Espírito é a lei do amor, pois está escrito: “Porque a lei do Espírito da vida, em
Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte.” (Rm 8:2) e “...o fruto do Espírito é: o
amor,...; contra estas coisas não há lei.” (Gl 5:22-23). O objectivo da lei era também o amor
como diz em Lv 19:18 e Dt 6:5. No entanto, o homem não podia cumprir o mandamento
7
FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso pág. 59
14
porque não tinha o Espírito, mas nascendo de novo e tendo o Espírito pode cumprir a lei do
Espírito, que é a lei do amor: “Pois toda a lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás ao
teu próximo como a ti mesmo.” (Gl 5:14)
Todo o capítulo 4 do livro de Jonas é uma lição acerca do amor e misericórdia de Deus.
O amor do Senhor estende-se a todos os homens e não apenas aos seus profetas ou servos. Até
os animais são alvo da misericórdia divina. Sabiamente, usando uma aboboreira, Deus
ensinou acerca da compaixão.
Isto porque Jonas traz a Deus sua queixas, suas razões, seus complexos, sua amargura, seus
direitos, suas reivindicações, e no fim ouve Deus dizer: “Alto lá! Tu te preocupas com a
sombra para a tua cabeça enquanto queres que o meu fogo caia na cabeça de uma cidade? Tu
te preocupas com a vida de uma planta, e não dás a mínima para a existência de toda uma
civilização? Tu sofres a perda do que não te custou nada e queres que eu despreze o que criei?
Então Deus diz: “Alto lá, Jonas, eu tenho mais o que fazer!”. Numa linguagem mais popular
ainda Deus estava dizendo: “ Jonas, já que tu gostas tanto de planta, vai plantar batatas!8
Jonas foi enviado a pregar salvação para o maior inimigo de Israel: a Assíria. Esta é a
nova lei de Cristo, amar o mundo, amar o inimigo... Cristo soube perdoar aqueles que
executavam a sua própria morte.
Esta é a sua vontade: o amor a Ele mesmo e o amor aos homens. Tudo o que Ele nos
ordena caminha para este alvo. Este é o “caminho excelente” que Paulo descreve em I Co
12:31.
8
FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso pág.
15
Conclusão
Jonas, é o mais humano de todos os profetas. Talvez por isso tenha sido escolhido para
simbolizar Cristo no seu sacrifício pela humanidade. A história de Jonas pode descrever de
forma simples a tentativa divina de conduzir o homem à obediência incondicional, ao amor ao
inimigo e ao entendimento acerca da pessoa de Deus.
Cristo, agindo em substituição do homem pecador, foi castigado em seu lugar
descendo ao Sheol. Após esta experiência seguiu-se salvação para o mundo. Assim também
Jonas pagou pela sua desobediência e seguidamente proclamou salvação que resultou no
perdão à cidade de Ninive.
Ninive representa a vontade do Senhor, que está sempre ligada à Palavra de Deus.
Certamente na nossa vida têm surgido Ninives! Sabemos qual é a vontade do Senhor, mas
teimosamente resistimos, porque não aceitamos ou não compreendemos qual o propósito
divino. Obediência é estar disposto a cumprir uma ordem mesmo que não seja compreendida.
Társis representa a nossa vontade. É o “lugar” para onde queremos fugir.
Desobediência é seguir o nosso próprio desejo numa atitude egocêntrica e individualista.
Optar pelo nosso querer coloca-nos numa posição de distancia para com o Senhor, no que diz
respeito à comunhão com ele e não a uma distância física. Ele continua presente
convencendo-nos do pecado (Jo 16:8) e corrigindo-nos sem nunca desistir.
Jonas escolheu o caminho mais difícil. Foi necessário, quase perder a vida, para
compreender a obediência. Talvez nem tenha chegado a compreendê-la: aquela obediência
que age apenas por amor.
16
Bibliografia
ARCHER JR, Gleason L. O Antigo Testamento. ( A survey of Old Testament introduction,
tradução: Gordon Chown) São Paulo: Vida Nova, 1979.
CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versiculo por versículo. São Paulo:
Candeia, 2000, 6 v, v5.
DAVIDSON, F. O novo comentário da Bíblia. (
) São Paulo: Edições Vida Nova, 1963 (The new Bible ).
, tradução:
FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso. Venda Nova, Brasil: Vinda Comunicações, 1991.
FEINBERG, Charles L. Os profetas menores. Miami, Florida: Editora Vida, 1988.
HART-DAVIES, D. E. Jonah: prophet and patriot. London: Chas. J. Thynne & Jarvis, ltd.
1925.
YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova , 1964
KILPP, Nelson Jonas, Comentário bíblico Petrópolis: Sinodal Vozes, 1994.
LASOR, William S. Introdução ao Antigo Testamento. (
Yamakami) São Paulo: Vida Nova, 1999.
, tradução Lucy
17
Download

- buscandoluz.org