INSTITUTO BÍBLICO PORTUGUÊS ESCOLA SUPERIOR DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA EVANGÉLICA SANTO ANTÃO DO TOJAL O conflito entre a vontade humana e a vontade divina no Livro de Jonas MONOGRAFIA APRESENTADA EM CUMPRIMENTO ÀS EXIGÊNCIAS DA DISCIPLINA GE 101 - METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTIFICO DO DIPLOMA BÁSICO DE ESTUDOS B. E TEOLÓGICOS Maria Lucinda Tomaz Ribeiro Alves 2000/2001 Revisão 2009 2 Índice Introdução ........................ 2 ........................ 3 ........................ 3 ........................ 4 ........................ 4 ........................ 5 ........................ 6 ........................ 7 ........................ 7 ........................ 8 ........................ 8 ........................ 9 ........................ 9 ........................ 9 I. A vontade divina A. A vontade para o colectivo B. A vontade para o individual II. A vontade humana A. O individualismo e o pecado B. O desejo da carne C. A conversão e a renúncia própria III. O caminho da desobediência A. O pecado gera a morte B. A confiança na justiça pessoal C. A presença do Senhor na desobediência IV. A repreensão correctiva A. A necessidade de correcção B. O arrependimento ou a morte ........................ 10 V. A cruz da obediência ........................ 11 A. O servo do Senhor ........................ 11 B. A alegria em obedecer ........................ 11 VI. A lição do amor ........................ 12 A. A misericórdia divina ........................ 12 B. A lei do amor ........................ 12 Conclusão ........................ 14 Bibliografia ........................ 15 3 Introdução Este trabalho é o resultado de uma meditação no livro de Jonas por parte da autora, recorrendo também a algumas citações que interessem ao assunto que irá sendo desenvolvido. Não pretende ser um comentário exaustivo, mas uma reflexão acerca dos princípios nele contido. O tema do conflito entre a vontade humana e a vontade divina é o foco do livro, tal como o é em toda a Bíblia. Muitas vezes estas duas vontades opõem-se. Quando o homem escolhe fazer a sua vontade em vez de seguir a vontade divina encontra sempre problemas. Esta monografia pretende, assim, comentar a atitude de Jonas, símbolo de Cristo, por um lado, mas, também, símbolo do homem comum em sua desobediência, em paralelo aos princípios bíblicos em geral. 4 A vontade divina A Bíblia fala da vontade divina como boa, perfeita e agradável, como diz em Rm 12:2, “E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.”. O amor divino para connosco é incomparavelmente superior a qualquer amor que possamos sentir por nós próprios ou por outros. Além disso, o Senhor é bom em si mesmo. Sendo assim, ele deseja o nosso bem de forma mais intensa do que alguma vez nós o poderíamos fazer. As seguintes passagens bíblicas exemplificam aspectos da boa vontade do Senhor para o homem: “Pois eu bem sei os planos que estou projectando para vós, diz o Senhor; planos de paz, e não de mal, para vos dar um futuro e uma esperança.” (Jr 29:11) e “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.” (Tg 1:17). A vontade divina, no Antigo Testamento, era transmitida aos homens pela Lei escrita, mas principalmente pelos profetas. A principal função do profeta era comunicar ao povo a vontade do Senhor, como diz Archer: “A responsabilidade dos profetas do antigo Testamento não era principalmente predizer o futuro no sentido moderno da palavra “profetizar”, era mais anunciar a vontade de Deus que Ele comunicara através da revelação.”1 Na Nova Aliança, continua a ser a Palavra escrita a indicar-nos a vontade do Senhor, em ligação ao Espírito Santo que habita em cada nascido-de-novo (Hb1:1-2). A vontade para o colectivo A vontade do Senhor para o mundo é a salvação de toda a humanidade: “...o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” ( I 1 ARCHER JR, Gleason L. O Antigo Testamento pág. 333 5 Tm 2:4). A vontade divina para o homem como colectividade é simbolizada no livro de Jonas por Ninive. A ordem acerca da ida do profeta à cidade, reflecte uma preocupação pelo colectivo, pois Jonas não foi enviado a uma pessoa única, como aconteceu a outros profetas (por exemplo: Elias e a viúva de Sarepta em I Rs 17). Esta, é uma cidade pagã, inimiga de Israel. No entanto, o desejo de salvação universal é claramente manifesto pela ordem dada a Jonas de pregar ali o arrependimento (Jn 1:2). A vontade para o individual A vontade do Senhor para cada indivíduo é, também, a salvação (I Tm 2:4). No entanto após a salvação do espírito, inicia-se um processo de restauração e transformação com vista a atingir a perfeição de Cristo (Ef 4:12,13). A palavra “salvação”, no grego, é “sozo”, que significa uma salvação, em sentido amplo, do espírito, alma e corpo, ou seja uma redenção completa do homem. No caso de Jonas, o objectivo parece ser a transformação do seu carácter e o ensino acerca da misericórdia divina. Jonas era um profeta, mas precisava aprender a obediência incondicional e que o amor de Deus se estende a todos os homens. A vontade humana O homem foi criado com vontade própria. A sua vontade pode ser um bem precioso, mas também uma terrível maldição: depende como esta é utilizada. Adão utilizou-a para trazer o pecado sobre toda a humanidade. Por outro lado, Cristo, pela sua obediência à vontade do Pai disponibilizou a justiça para todo o que crê (Rm 5:12,18,19). A vontade humana é simbolizada no livro de Jonas por Társis, pois era a vontade do profeta a sobrepor-se. Jonas, ao invés de obedecer, indo para Nínive, decide fugir para o lugar 6 mais distante, então conhecido, isto é, a cidade de Társis, localizada ao sul da Península Ibérica. A ida para Társis foi iniciativa humana e contrária à ordem do Senhor. Na Bíblia, normalmente, os profetas são pessoas obedientes e exemplares. Contudo isto não aconteceu no caso de Jonas: “Os profetas não eram meros autômatos, pois tinham poder de resisitir à vontade de Deus. Todavia, este é o único caso de que se tem notícia de um profeta que se recusou a levar a cabo a sua comissão.”2 O individualismo e o pecado O pecado é sempre provocado por uma atitude individualista de rejeição da vontade divina. A iniciativa de interrupção da comunhão e relacionamento com o Senhor é do homem. Este, ao optar pelo pecado, coloca uma barreira entre si mesmo e Deus. Um cristão, nascido de novo, por pecar ocasionalmente não perde a presença do Espírito Santo dentro de si, mas perde a comunhão com Ele até que encontre arrependimento. Quando Jonas toma a iniciativa de fugir para Társis, está apenas a pensar em si mesmo e na sua nação. Ninive era um inimigo político de Israel. Deus olha para todos os homens com o mesmo interesse. O profeta, porém, não considerou de importante pregar o arrependimento a uma nação pagã, tão desagradável aos israelitas. Caio Fábio fez os seguintes comentários acerca deste aspecto: Ele estava pensando só em si, no seu bem-estar, naquilo que lhe agradava, no seu prazer, no seu conforto. Esse é um paradoxo que se vivência quando se está encharcado de perspectivas ideológicas do tipo colectivista. Neste caso o colectivismo pode gerar um tremendo egoísta em relação a um único ser que a pessoa não deixa de levar em consideração, que é ele próprio.3 A visão de Jonas quanto à sua missão se reduziu em função da sua cartilha ideológica. Sua atitude obstinada contra Ninive não é própriamente o resultado do seu senso de justiça, mas do seu condicionamento ideológico. Prova disso é o fato de que encontramos nele duas categorias de justiça. A primeira é aquela justiça que ele aplicava aos que estavam do lado de fora de Israel, vistos por ele como inimigos dos seus sonhos políticos e nacionalistas.”4 2 FEINBERG, Charles L. Os profetas menores pág. 133 FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso pág. 42, 43 4 FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso pág. 30 3 7 Jonas esqueceu todos os votos que muito provavelmente fizera como profeta (Jn 2:9) e decide “fugir” da presença do Senhor, como se isso fosse possível. Para Israel, a presença do Senhor estava em Jerusalém, mais especificamente no templo, logo Jonas pensou que se afastasse de Jerusalém o mais possível conseguiria fugir do Senhor (I Rs 9:7 II Rs 17:20,23; 24:20; Jr 52:3). O profeta em primeiro lugar procura isolar-se, mas não é o lugar físico onde se encontre que o afasta de Deus e sim o seu pecado de desobediência. Assim como a sua separação do Senhor não é da “sua presença”, mas da “sua comunhão”. O desejo da carne A carne opõe-se ao Espírito, isto é, opõe-se à vontade do Senhor. A carne procura as coisas deste mundo, as coisas naturais e temporais, enquanto o Espírito procura as coisas celestiais e eternas. A carne tende para a satisfação pessoal, mas o Espírito procura a salvação universal. Podemos confirmar estas afirmações nos seguintes versículos: Pois os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser; e os que estão na carne não podem agradar a Deus... porque se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis. (Rm 8:5-8,13) Digo, porém: Andai pelo Espírito, e não haveis de cumprir a cobiça da carne. Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes se opõem um ao outro, para que não façais o que quereis. (Gl 5:16-17) Jonas toma uma posição carnal ao colocar o seu comodismo pessoal acima de valores eternos. Enquanto a cidade de Ninive perecia, o profeta pensava apenas no seu bem-estar pessoal. Tal como Jonas, muitas vezes os cristãos fogem á responsabilidade da pregação aos ímpios (Jn 1:3). 8 A conversão e a renúncia própria No meio da tempestade, depois da desobediência, Jonas desistiu da sua fuga e ofereceu a sua vida para que a vida dos marinheiros fosse salva. É surpreende esta mudança! Depois de ver que não pode escapar ao poder de Deus, resolve entregar-lhe a vida (Jn 1:12). Enquanto Ninive era uma cidade distante, os marinheiros eram pessoas que conheceu face a face. Jonas sentiu o seu medo e aflição. Talvez por isso Jonas tenha conseguido identificar-se com aqueles homens pagãos e decidir trazer sobre eles a benção da vida. Muitas vezes os cristãos não agem assim, mas ignoram os que os rodeiam. Caio Fábio, diz a esse respeito: Isto porque para muitos de nós, diferentemente de Jonas, a tragédia do mundo parece nada ter a ver conosco. Todavia tem tudo a ver. A razão é simples: aqueles que são designados a ser benção para o mundo tornam-se maldição para a sociedade, quando não assumem seu papel de benção na vida.5 Quando a vontade humana se submete à vontade divina e a carne se submete ao Espírito, dá-se um fenómeno geralmente denominado de conversão. A conversão do homem é sujeição da vontade ao Senhor. Isto implica a renúncia do “eu” humano em função do “Eu” divino. Por isso Paulo diz de si mesmo: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.” (Gl 2:20). O caminho da desobediência O pecado produz sempre algo negativo para aquele que o pratica, quer este seja ou não servo do Senhor. A confiança em si próprio é já, em si mesma, pecado, e conduz à desobediência. A desobediência, por seu lado, é a expressão da vontade humana. 5 FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso pág. 16 9 O pecado gera a morte Jonas, devido à sua desobediência ia perdendo a vida na tempestade (Jn 1:4,15,17). Assim, também, Cristo, ao tomar sobre si a nossa desobediência foi castigado em nosso lugar pagando com a morte. O pecado é sempre uma desobediência e a sua consequência é sempre morte, seja ela na vida espiritual, na vida material ou na vida física, como está escrito: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Rm 6:23). A confiança na justiça pessoal Jonas reconheceu que a tempestade tinha origem divina, e que a finalidade era impedir a sua fuga. Ele sabia discernir quando era o Senhor a agir, por isso dormia calmamente enquanto se dava a tempestade (Jn 1:5). Sabia que estava nas mãos do Senhor, e tal qual uma criança que sabe ter agido mal se deixa açoitar pelo pai, assim Jonas recebia os acoites daquelas ondas. Ele estava consciente da repreensão divina. Jonas precisava aprender, que pelo facto de ser profeta do Senhor, não significava que pudesse ter qualquer atitude impunemente. Os cristãos muitas vezes têm a sua salvação por garantida e colocam em segundo plano a obediência ao Senhor. A Bíblia diz que a eleição divina não depende de obras: “... (pois não tendo os gémeos ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama)...” (Rm 9:11). No entanto, ainda que a eleição não dependa de obras, após a eleição devem existir obras (Tg 2:14). 10 A presença do Senhor na desobediência Seja qual for o nossa opção o amor paterno do Senhor está connosco para nos ajudar, sem desistir de nós, a encontrar o caminho certo. Na desobediência humana, a presença do Senhor mantém-se e pode contemplar-se, como em nenhuma outra ocasião, a incompreensível misericórdia divina. Jonas, quase a afogar-se na tempestade, foi salvo pelo peixe que o engoliu. O Senhor não deixou, simplesmente, que o profeta morresse, mas voltou a dar-lhe mais uma oportunidade. O Senhor deseja dar-nos sempre uma nova oportunidade! Ao “castigo” sobre Cristo seguiu-se também uma nova oportunidade para a humanidade. Foi sempre o amor que provocou a acção do Senhor para com Jonas: o amor por Ninive, o amor pelos marinheiros, o amor por Jonas,... É por amor que Deus intervém na viagem do barco onde viajava o profeta, como comenta Caio Fábio: “De repente os até então bem sucedidos planos de Jonas são confrontados pelo pior de todos os oponentes: o amor apaixonado de Deus. Isso porque nenhuma fuga de Deus dura para sempre, quando aquele que foge é alguém que o conhece.”6 A repreensão correctiva A repreensão divina é correctiva e não punitiva para com os seus servos. O objectivo é que o homem encontre arrependimento e não destruição. A necessidade de correcção O arrependimento e a mudança de carácter estão sempre nos objectivos de Deus ao lidar com o ser humano. O Senhor corrige aqueles que ama como diz a seguinte passagem: 11 Ainda não resististes até o sangue, combatendo contra o pecado; e já vos esquecestes da exortação que vos admoesta como a filhos: Filho meu, não desprezes a correcção do Senhor, nem te desanimes quando por ele és repreendido; pois o Senhor corrige ao que ama, e açoita a todo o que recebe por filho. É para disciplina que sofreis; Deus vos trata como a filhos; pois qual é o filho a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos se têm tornado participantes, sois então bastardos, e não filhos. Além disto, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e os olhávamos com respeito; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, e viveremos? Pois aqueles por pouco tempo nos corrigiam como bem lhes parecia, mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. Na verdade, nenhuma correcção parece no momento ser motivo de gozo, porém de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos que por ele têm sido exercitados. (Hb 12:4-11) A experiência de Jonas dentro do peixe foi para ele o mais valioso dos “retiros espirituais”. Alí encontrou arrependimento e consciência da grandeza e poder de Deus. Existem semelhanças entre a experiência de Jonas e a experiência de Cristo. Jonas sente-se como estando no “Sheol”, termo hebraico para “lugar dos mortos” ou “inferno”. A oração de Jonas poderia ser a oração do Senhor quando se encontrava nas “profundezas da terra”, durante o tempo em que esteve morto. Ela reflete a angústia e o isolamento como consequência directa do pecado (Jn 2). O arrependimento ou a morte O arrependimento cancela toda a maldição ou consequência espiritual de pecados passados (Jn 3:10). Não há outro caminho possível, apenas arrependimento ou morte, seja ela espiritual ou física. Jonas só quando se encontrava próximo da morte encontrou arrependimento (Jn 2:7). Ao seu arrependimento seguiu-se vida na presença do Senhor, como está escrito: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, de sorte que venham os tempos de refrigério, da presença do Senhor.” (Ac 3:19). 6 FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso pág. 12 12 A cruz da obediência A obediência tem grande importância para o Senhor. Foi com uma desobediência que entrou o pecado no mundo, mas foi com uma obediência que esse pecado foi vencido (I Co 15:21-48). “Tomar a cruz” é obedecer e todos somos exortados a tomar a nossa cruz e a seguir o Senhor, como está escrito: “E chamando a si a multidão com os discípulos, disselhes: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me.” (Mc 8:34). A importância da obediência é tal que no livro de Actos o Espírito Santo é referido da forma seguinte: “... o Espírito Santo, que Deus deu àqueles que lhe obedecem. “ (Ac 5:32). O servo do Senhor Ser servo opõe-se ao individualismo e culto do eu. Em Is 53, fala do Servo que se oferece a sim mesmo para obedecer. Jonas obedeceu a segunda vez, dizendo: “ o que votei pagarei...” (Jn 2:9). Provavelmente havia prometido, como profeta que era, ir onde o Senhor o enviasse. Na sua segunda oportunidades decide pagar o seus votos. A alegria em obedecer Cristo obedeceu sempre à vontade do Pai, dizendo: “...A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e completar a sua obra. “ (Jo 4:34). Ele obedeceu até à morte: “...e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.” (Fp 2:8). Fp 2 contrasta com a atitude de Jonas. Este obedeceu, mas não de coração, pois foi necessário chegar perto da morte. 13 A lição do amor Toda a obediência deve, acima de tudo, ter como raiz o amor. Sem amor nenhum acto tem valor para o Senhor, como está escrito: “E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.” (I Co 13:3). A misericórdia divina Deus é universal e ama todo o mundo (Jo 3:16): ele ama tanto o judeu como o gentio e deseja o arrependimento de todas as nações. O livro de Miquéias refere esta ideia: “Quem é Deus semelhante a ti, que perdoas a iniquidade, e que te esqueces da transgressão do resto da tua herança? O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque ele se deleita na benignidade.” (Mq 7:18). A misericórdia divina é sem limites e foge à nossa compreensão. Em Jn 4:11, diz ter compaixão dos homens e até mesmo dos animais, por isso derramou sobre Ninive o seu perdão. No final todos aprenderam acerca do amor do Pai. Caio Fábio comenta esta lição da seguinte forma: “Jonas diz: “Eu sabia”, mas na realidade não sabia nada sobre o amor de Deus (4:2). Já os ninivitas dizem: “Quem sabe?” (3:9) afirmando suspeita cheia de convicção. E recebem a graça que suspeitam existir no coração de Deus.”7. A lei do amor A lei do Espírito é a lei do amor, pois está escrito: “Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte.” (Rm 8:2) e “...o fruto do Espírito é: o amor,...; contra estas coisas não há lei.” (Gl 5:22-23). O objectivo da lei era também o amor como diz em Lv 19:18 e Dt 6:5. No entanto, o homem não podia cumprir o mandamento 7 FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso pág. 59 14 porque não tinha o Espírito, mas nascendo de novo e tendo o Espírito pode cumprir a lei do Espírito, que é a lei do amor: “Pois toda a lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” (Gl 5:14) Todo o capítulo 4 do livro de Jonas é uma lição acerca do amor e misericórdia de Deus. O amor do Senhor estende-se a todos os homens e não apenas aos seus profetas ou servos. Até os animais são alvo da misericórdia divina. Sabiamente, usando uma aboboreira, Deus ensinou acerca da compaixão. Isto porque Jonas traz a Deus sua queixas, suas razões, seus complexos, sua amargura, seus direitos, suas reivindicações, e no fim ouve Deus dizer: “Alto lá! Tu te preocupas com a sombra para a tua cabeça enquanto queres que o meu fogo caia na cabeça de uma cidade? Tu te preocupas com a vida de uma planta, e não dás a mínima para a existência de toda uma civilização? Tu sofres a perda do que não te custou nada e queres que eu despreze o que criei? Então Deus diz: “Alto lá, Jonas, eu tenho mais o que fazer!”. Numa linguagem mais popular ainda Deus estava dizendo: “ Jonas, já que tu gostas tanto de planta, vai plantar batatas!8 Jonas foi enviado a pregar salvação para o maior inimigo de Israel: a Assíria. Esta é a nova lei de Cristo, amar o mundo, amar o inimigo... Cristo soube perdoar aqueles que executavam a sua própria morte. Esta é a sua vontade: o amor a Ele mesmo e o amor aos homens. Tudo o que Ele nos ordena caminha para este alvo. Este é o “caminho excelente” que Paulo descreve em I Co 12:31. 8 FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso pág. 15 Conclusão Jonas, é o mais humano de todos os profetas. Talvez por isso tenha sido escolhido para simbolizar Cristo no seu sacrifício pela humanidade. A história de Jonas pode descrever de forma simples a tentativa divina de conduzir o homem à obediência incondicional, ao amor ao inimigo e ao entendimento acerca da pessoa de Deus. Cristo, agindo em substituição do homem pecador, foi castigado em seu lugar descendo ao Sheol. Após esta experiência seguiu-se salvação para o mundo. Assim também Jonas pagou pela sua desobediência e seguidamente proclamou salvação que resultou no perdão à cidade de Ninive. Ninive representa a vontade do Senhor, que está sempre ligada à Palavra de Deus. Certamente na nossa vida têm surgido Ninives! Sabemos qual é a vontade do Senhor, mas teimosamente resistimos, porque não aceitamos ou não compreendemos qual o propósito divino. Obediência é estar disposto a cumprir uma ordem mesmo que não seja compreendida. Társis representa a nossa vontade. É o “lugar” para onde queremos fugir. Desobediência é seguir o nosso próprio desejo numa atitude egocêntrica e individualista. Optar pelo nosso querer coloca-nos numa posição de distancia para com o Senhor, no que diz respeito à comunhão com ele e não a uma distância física. Ele continua presente convencendo-nos do pecado (Jo 16:8) e corrigindo-nos sem nunca desistir. Jonas escolheu o caminho mais difícil. Foi necessário, quase perder a vida, para compreender a obediência. Talvez nem tenha chegado a compreendê-la: aquela obediência que age apenas por amor. 16 Bibliografia ARCHER JR, Gleason L. O Antigo Testamento. ( A survey of Old Testament introduction, tradução: Gordon Chown) São Paulo: Vida Nova, 1979. CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versiculo por versículo. São Paulo: Candeia, 2000, 6 v, v5. DAVIDSON, F. O novo comentário da Bíblia. ( ) São Paulo: Edições Vida Nova, 1963 (The new Bible ). , tradução: FÁBIO, Caio Jonas, o sucesso do fracasso. Venda Nova, Brasil: Vinda Comunicações, 1991. FEINBERG, Charles L. Os profetas menores. Miami, Florida: Editora Vida, 1988. HART-DAVIES, D. E. Jonah: prophet and patriot. London: Chas. J. Thynne & Jarvis, ltd. 1925. YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova , 1964 KILPP, Nelson Jonas, Comentário bíblico Petrópolis: Sinodal Vozes, 1994. LASOR, William S. Introdução ao Antigo Testamento. ( Yamakami) São Paulo: Vida Nova, 1999. , tradução Lucy 17