DESENHO UNIVERSAL E O DESENHO DO PROJETO:
Incorporando necessidades a conceitos projetuais.
MARTIN, CLÁUDIA; BARBOSA, WILSON; CORNÉLIO, CHRISTIE;
COSTA, ANA PAULA S.; DELIBERADOR, MARCELLA S.;
STAUT, LUCY ANA V.; KARAM, FELIPE; ROSA, ADRIANA A. C. (1);
KOWALTOWSKI, DORIS C. C. K.; BERNARDI, NÚBIA (2);
1. Pós-graduandos; Departamento de Arquitetura e Construção, Faculdade de Engenharia Civil (FEC),
Arquitetura e Urbanismo. Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.
Av. Albert Einstein, 951, Cidade Universitária Zeferino Vaz, Campinas, SP.
[email protected]
2. Professoras Doutoras; Departamento de Arquitetura e Construção, Faculdade de Engenharia Civil
(FEC), Arquitetura e Urbanismo. Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.
Av. Albert Einstein, 951, Cidade Universitária Zeferino Vaz, Campinas, SP.
[email protected]
Palavras-chave: Desenho Universal, Processo de Projeto, Wayfinding.
Resumo
Esse artigo aborda a importância do implemento dos conceitos do Desenho Universal (DU) em
projetos de arquitetura e apresenta uma Charrete de Projeto que teve como objetivo o
desenvolvimento de um projeto arquitetônico de uma edificação, integrado aos conceitos de
acessibilidade, com ênfase no Wayfinding. O exercício, desenvolvido com alunos de pósgraduação, teve por objetivo discutir métodos de apresentação de projetos de arquitetura para
pessoas deficientes, de modo a estimular sua participação no processo de projeto e a obter
informações importantes para melhoria da qualidade projetual. Foi adotado o processo
participativo através de uma apresentação da Charrete a usuários deficientes visuais, cadeirante,
e usuário sem deficiência, com a utilização de maquetes táteis e áudio visuais. Conclui-se que a
metodologia aplicada obteve resultados positivos ao processo e entendimento do projeto, porém
alertou os autores sobre necessidades de inclusão de dinâmicas que estimulem a pesquisa-ação
tanto na montagem da proposta como na apresentação, conclusão e avaliação da atividade.
Keywords: Universal Design, Architectural design process, Wayfinding.
Abstract
The present paper discusses the impact of Universal Design (UD) concepts on architectural design
and presents a design charrete with the purpose of developing a project with accessibility and
wayfinding as its main design goals. The exercise occurred in a graduate class on design factors
related to the needs of people with disabilities. The class included discussions on UD and ways of
stimulating a better approach to users with disabilities in the professional design process.
Participation of users was discussed in this discipline, as well as innovative approaches to a new
and inclusive design process. In the charrete a participative design process was adopted and
users in wheelchairs and with visual disability took part in specific design activities, which included
the use of tactile maps. Although the participation of such specific users was shown to be of
extreme importance to make adjustments to the design, the experience also showed that such
participation should occur early in the design process to increase awareness of special needs in
the design team and bring about changes in both attitude and design methods with universal
design in mind.
1. INTRODUÇÃO
São recorrentes as preocupações de pesquisadores com relação à adequação do processo de
trabalho dos arquitetos às novas demandas exigidas em termos projetuais. Os grandes avanços
tecnológicos e as mudanças globais, sociais e econômicas que ocorreram nas últimas décadas
influenciam diretamente os trabalhos realizados na área da arquitetura, aumentando a
complexidade e a exigência quanto à qualidade final dos edifícios em geral (KOWALTOWSKI et
al., 2006). Exige-se uma nova postura profissional, capaz de lidar de forma mais responsável e
sensível às situações específicas, que incluem diversos fatores, como por exemplo, os relativos
ao impacto ambiental, à sustentabilidade, à acessibilidade plena, entre tantos outros importantes
no processo de projeto atual (DELIBERADOR, 2010).
Nesse sentido, busca-se através desse artigo a discussão da inserção do parâmetro de
acessibilidade no processo de projeto atual. Tem-se como objetivo uma discussão do processo
que resulta em uma atuação democrática, através da aplicação dos conceitos de Desenho
Universal. Sabe-se que esta forma de normatizar e responder às necessidades diferenciadas faz
parte de um processo longo onde ainda tem-se muito a aprender e realmente atuar, apesar de já
serem observadas iniciativas e conscientizações nesse sentido.
A idéia de um Universal Design surgiu após a Revolução Industrial, decorrente do questionamento
ao processo de massificação de produção, principalmente na área imobiliária. A concepção de
conforto está fortemente ligada a fatores pessoais, ou seja, relacionado às características físicas
individuais, reestruturando e recriando o conceito do “homem padrão” (CAMBIAGHI; CARLETTO,
2008). O conceito de Desenho Universal considera a diversidade humana, respeitando as
diferenças existentes entre as pessoas e garantindo a acessibilidade a todos os espaços do
ambiente (SILVA; LUCENA; FERNANDES; VARANDAS; CUETO, 2008).
Historicamente, pode-se dizer que essa discussão sobre acessibilidade ainda é bastante recente.
É a partir do séc. XX, mais especificadamente a partir dos anos 60, que a discussão sobre essa
temática torna-se mais freqüente, apresentando a possibilidade de igualdade de oportunidades
para as pessoas deficientes, fazendo surgir uma nova demanda por projetos acessíveis. Apenas
em meados dos anos 80 iniciou-se um debate popular sobre acessibilidade no Brasil, surgindo
leis, decretos e documentos técnicos que visavam à garantia do direito de acessibilidade ao meio
físico, às pessoas portadoras de deficiência. Em 1985 é publicada a primeira norma técnica
brasileira sobre Adequações das Edificações e do Mobiliário Urbano à pessoa deficiente – a NBR
9050:1985 e em 1994 é publicada uma nova revisão desta norma (PRADO; LOPES; ORNSTEIN,
2010). Em junho desse mesmo ano, a Declaração de Salamanca (surgida após a Conferência
Mundial) sobre "Educação de necessidades Especiais: Acesso e Qualidade" tratou da inclusão na
educação, surgindo assim o direito de exigir sua inclusão em todos os aspectos da vida em
sociedade e em 1999 foi realizada a Convenção de Guatemala - Convenção Interamericana para
a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra Pessoas com Deficiência.
As barreiras físicas representam grandes entraves para o desenvolvimento de grupos
consideráveis da população. Estimativas da ONU, para os países em desenvolvimento como o
Brasil, definem que 10% da população apresentam algum tipo de deficiência. O Censo de 2000
levantou que: 14,5% dos brasileiros possuem pelo menos um tipo de deficiência ou incapacidade,
sendo que somente 10% das pessoas com mais de 11 anos de estudo são pessoas com
deficiências (BRASIL, 2000). Essas informações reinteram a importância e atualidade desse tema,
em um contexto social onde a demanda por espaços considerados “universais” é constante e
crescente.
Acredita-se que a falta de informação favorece a manutenção das baixas condições de
acessibilidade. Nesse sentido cabe uma melhor preparação dos profissionais envolvidos, visando
incluírem em seus processos de projeto o parâmetro de acessibilidade como uma premissa
presente desde as fases iniciais do processo criativo. Dessa forma, entende-se o profissional de
arquitetura como uma peça importante nesse processo e o desenvolvimento de sua formação, um
instrumento. Conforme destaca Bernardi (2007), “Para fomentar o debate sobre a inclusão da
acessibilidade no processo de ensino de projeto é interessante permear alguns aspectos da
formação de arquitetos. A discussão inclui uma abordagem sobre a vivência no ateliê de
arquitetura e como as atividades desenvolvidas neste ambiente contribuem para a formação
acadêmica e profissional, diante das atuais exigências humanas e ambientais, gerando atitudes
que têm reflexo direto na postura profissional quando da adoção de determinadas tipologias
arquitetônicas.”.
Essa formação mostra um aspecto fundamental, principalmente em uma sociedade onde os
modelos estabelecidos ainda são, geralmente, focados em aspectos puramente estéticos e
econômicos e onde nem sempre o senso de humanidade é o fator preponderante. Assim, são os
alunos, futuros profissionais, os que serão capazes de colaborar com uma mudança de
paradigmas que incluam aspectos mais humanos como a acessibilidade. Para isso, torna-se
necessária a ampliação de atividades didáticas que provoquem reflexões críticas dos alunos,
fazendo com que esses parâmetros humanizadores tornem-se parte da construção de seus
modelos pessoais (DUARTE e COHEN, 2003) e principalmente, tornem-se parâmetros sempre
presentes em seus processos de projeto.
Atividades de simulação (onde os alunos simulam serem portadores de alguma restrição física) e
o contato com pessoas deficientes são aspectos considerados interessantes no desenvolvimento
desses profissionais, que muito rapidamente incorporam esses conceitos, tomando consciência
dos problemas enfrentados pelas minorias deficientes e de sua responsabilidade em atuar para
melhoria dessas condições (DUARTE e COHEN, 2003). Duarte e Cohen (2003; p.12) colocam
“(...) Frente a esta situação de proximidade quase afetiva aliada ao reconhecimento da gravidade
da "falta de acesso", os alunos têm demonstrado atingir uma maior concentração que favorece a
assimilação do conteúdo pedagógico proposto. O aluno descobre, então, que a diferença entre ele
e o palestrante pode não ser a deficiência deste último, mas a falta de capacidade da Arquitetura
em acolher certas pessoas de forma igualitária”.
Assim, como exercício da discussão sobre a acessibilidade em projetos de arquitetura, o grupo de
autores participou de uma disciplina de pós- graduação ministrada pela Faculdade de Engenharia
Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que se propôs
a avaliar a importância do tema, seus conceitos principais e a realização de uma charrete de
projeto, cujo fator principal era o atendimento dos conceitos anteriormente estudados. O Tema do
projeto proposto para alcance dos objetivos foi de um Centro de Serviços ao Cidadão
(Poupatempo Universal) com ênfase no wayfinding.
Segundo Bernardi (2007, p.101), “(...) um dos principais fatores que garantem a acessibilidade
segura ao ambiente para uma pessoa com deficiência visual é a orientação espacial dada ao
usuário”. Bins Ely (2004, s.n.) também coloca que “(...) a orientabilidade é um processo cognitivo
que envolve a habilidade do indivíduo de mentalmente situar-se e/ou deslocar-se em um dado
arranjo físico e depende tanto das informações contidas no ambiente quanto da habilidade do
indivíduo em perceber e tratar estas informações”. Bernardi adiciona “Esta orientação necessita
de um exercício mental de representação do espaço, obtido através das informações ambientais
percebidas pelo usuário”. São os chamados mapas cognitivos ou mapas mentais. Já o
deslocamento do indivíduo em um ambiente e local onde ele utiliza a orientação advinda do mapa
mental é chamado movimento orientado, também conhecido como “wayfinding”. O wayfindinfg
define a maneira como as pessoas interagem e percebem o espaço, o que é influenciado pela
capacidade perceptiva do indivíduo e suas respostas aos estímulos, o conhecimento prévio e a
memória adquirida do lugar e a forma como este se comunica com seu ocupante (ROOKE et al,
2010).
A charrete desenvolvida teve como objetivo principal o estímulo dos participantes a pensarem em
soluções menos óbvias e mais conceituais, que atendessem os princípios do Desenho Universal,
através de um projeto que oferecesse ambientes, trajetos, sentidos espaciais e respostas
programáticas com responsabilidade social e que fossem “naturalmente” inclusivos. A própria
escolha do tema - um edifício para o funcionamento de um Poupatempo - já partiu da idéia de se
trabalhar um espaço para atendimento a todos os cidadãos de uma determinada cidade, cujo
oferecimento de serviços é feita sem discriminação ou segregação sócio-econômica.
Nesse contexto, o termo inclusivo significa o atendimento aos princípios do Desenho Universal,
possibilitando a autonomia do individuo no seu uso, conferindo direitos e oportunidades iguais
para todos os cidadãos e permitindo a utilização do ambiente construído de forma plena. Nesse
sentido, torna-se indispensável uma atuação profissional dos arquitetos, na direção de considerar
a questão da acessibilidade um dos parâmetros mais importantes da fase de concepção,
possibilitando a criação de ambientes que permitam a utilização por um número maior de
pessoas, com diferentes habilidades e necessidades.
Considerando os conceitos acima enunciados, para que o projeto possa realmente atingir seus
objetivos acessíveis, decidiu-se incluir os possíveis usuários ao processo de projeto estimulando
um processo participativo, dada a importância de suas contribuições para a compreensão de suas
necessidades. O processo participativo nas decisões de projeto envolve um fator que transcende
o diálogo entre projetista e potencial usuário: a percepção (advinda do usuário) do ambiente
construído através da leitura do projeto, representada através de uma documentação gráfica. Esta
representação gráfica de um projeto arquitetônico pode assumir diversas fases e também se
direcionar a diferentes leitores. Entre os profissionais arquitetos e engenheiros um dos objetivos
desta representação é transmitir informações técnico-construtivas e características estéticas do
ambiente projetado. Para o usuário do ambiente é importante que a leitura da simbologia auxilie
(primeiramente) na compreensão das dimensões e localização do ambiente e na orientação
espacial do indivíduo no espaço físico. (BERNARDI & KOWALTOWSKY, 2009).
Na experiência relatada nesse artigo, fizeram parte do processo dois usuários deficientes visuais e
um deficiente físico, tornando a discussão sobre a maneira de apresentar os projetos parte
essencial do exercício de projeto. Como colocam as autoras Almeida e Loch (2005, p.5), “As
representações gráficas de difícil transcrição para o Braille podem ser recriadas a partir de
códigos táteis diferenciados pela forma, tamanho, textura, e altura (ou espessura). Estas se
constituem em um trabalho artesanal demorado e que possivelmente precisará ser refeito várias
vezes, sempre testado pelos cegos até chegar a ser entendido”.
2. OBJETIVO
Esse artigo apresenta, através de um trabalho de discussão contínua em várias fases, a
importância do implemento dos conceitos do Desenho Universal em projetos de arquitetura e
discute os resultados de uma experiência prática de projeto com ênfase nesses conceitos,
realizada a partir de uma disciplina de pós-graduação e com a participação de usuários
deficientes. Pretende-se ampliar a discussão sobre a importância da inclusão da acessibilidade
plena como parâmetro de projeto desde as fases iniciais, assim como apresentar a importância de
processos participativos. Também se pretende discutir o tipo de material de apresentação dos
projetos de arquitetura para pessoas deficientes, de modo a estimular sua participação no
processo de projeto e a obter informações importantes para melhoria da qualidade projetual.
3. METODOLOGIA E MATERIAIS
O exercício de projeto de um Poupatempo Universal para o Distrito de Barão Geraldo, Campinas
foi colocado como desafio aos estudantes de pós-graduação com formação em arquitetura e
urbanismo e inserido em um contexto de discussões teóricas sobre a acessibilidade e o Desenho
Universal no processo de projeto. Inicialmente foram estudadas as metodologias de trabalhos
acadêmicos e/ou artigos publicados nos últimos cinco anos, além de projetos de arquitetura
produzidos dentro da temática do Desenho Universal, para obter-se uma base teórica e
abrangente capaz de dar suporte à atividade proposta: uma Charrete de Projeto. Esta atividade
teve como objetivo o desenvolvimento de um projeto arquitetônico integrado aos conceitos do
Desenho Universal, com ênfase no processo participativo através de uma apresentação e
integração com usuários, configurando-se também como uma pesquisa-ação. O partido adotado
teve como premissa a clareza do wayfinding, também conhecido como orientabilidade no
percurso.
Para a inserção da proposta foi apresentado um terreno localizado no Distrito de Barão Geraldo e
o público alvo formado por moradores da região e comunidades próximas. Metodologicamente o
desenvolvimento do projeto arquitetônico apresentado pelos alunos está dividido em 04 etapas:
Programa de Necessidades, Realização de Plano de Massas, definição do Estudo Preliminar e
Apresentação.
3.1. Considerações sobre Poupatempo
O Programa Poupatempo foi criado através da Resolução SGGE-21, de 02 de setembro de 1996,
quando a Secretaria do Governo e Gestão Estratégica de São Paulo formou um Comitê Executivo
para desenvolver um projeto que visasse à implantação de uma Central de Atendimento a
População das cidades paulistas com os seguintes objetivos: prestação de serviços públicos
concentrados em um único espaço físico; proporcionar atendimento ao cidadão de forma rápida,
eficiente e adequada; proporcionar ao cidadão uma equipe de atendimento capacitada para o
novo modelo de atendimento; planejamento e criação de um ambiente físico que apresente
qualidade espacial e formal, digno e acolhedor para os funcionários e cidadãos; introduzir
tecnologias de informação e comunicação avançadas (PAINELLI, 2008). A cidade de Campinas
possui duas unidades de Poupatempo: o Posto Poupatempo Campinas Centro e o Posto
Campinas Shopping. Os serviços mais procurados nos postos Poupatempo são os de emissão de
Carteira de Identidade, no Instituto de Identificação; emissão de Carteira de Trabalho,
intermediação de mão-de-obra e Seguro Desemprego, na Secretaria do Emprego e Relações do
Trabalho (SERT); e Licenciamento de veículos, renovação e segunda via da Carteira Nacional de
Habilitação (CNH), no DETRAN (Portal do Governo de São Paulo, 2011).
3.2. Sítio – Distrito Barão Geraldo
O Município de Campinas (onde se encontra inserido o distrito de Barão Geraldo) localiza-se na
região centro-oeste do Estado de São Paulo (Latitude 220 53’ S e Longitude 470 05’ W),
abrangendo uma área de aproximadamente 800 quilômetros quadrados (CALDEYRO, 2005). A
proposta de implantação de um Poupatempo no Distrito de Barão Geraldo se fundamenta na
consolidação do distrito e junto com o bairro Santa Mônica, São Marcos, Campineiro, Amarais,
eixo da Rodovia Dom Pedro I e a região de entorno do Condomínio Sítios Alto da Nova Campinas
são formadores de uma macro zona ao norte do município de Campinas, carente deste tipo de
serviço. Com população total de aproximadamente 60.000 habitantes (IBGE, 2000) e distância de
aproximadamente 12 km do Centro de Campinas, a implementação do Posto torna-se
interessante para os usuários das áreas citadas anteriormente.
3.2.1. Escolha do local para implantação
Um dos pontos mais importantes que envolvem um projeto é a escolha do terreno, pois suas
características físicas devem ser compatíveis com o uso a ser dado ao edifício, ao tema
arquitetônico, ao objetivo principal e à clientela a que se destina. A escolha do terreno deve
respeitar os critérios de seleção previamente estabelecidos (NEVES, 1998). Diante das
informações e recomendações pesquisadas, o terreno escolhido para implantação e
desenvolvimento da proposta do Posto Poupatempo Barão Geraldo está situado no distrito de
Barão Geraldo entre as ruas Angelo Vicentim, L. C. Menegheti e Maria Adame Pataro (Figura 01)
e possui área de 9.668,43m², pertinente aos Poupatempos analisados anteriormente. Seu entorno
é composto por residências unifamiliares, igrejas, comércio e principalmente uma grande praça
arborizada. O terreno está próximo do Terminal Barão Geraldo, inaugurado em 10 de novembro
de 1985 pelo Dr. José Roberto Magalhães Teixeira, então prefeito de Campinas, oferecendo
assim aos usuários moradores de Barão Geraldo e comunidade da Unicamp, facilidade no acesso
e a possibilidade de criação de uma Rota Acessível até a proposta do Posto Poupatempo.
Terreno
Praça
Terminal Barão Geraldo
APAE Barão Geraldo
Figura 01 – Foto aérea terreno e contexto.
Fonte: Google Earth
3.3. Rota Acessível
Em ambientes complexos como o Poupatempo, o processo de orientação espacial é essencial.
Para oferecer aos usuários condições de orientação e legibilidade do espaço, as informações dos
ambientes devem ser de fácil entendimento, com layout compreensível, elementos referenciais,
zoneamento claro e objetos com funções determinadas (RIBEIRO, 2004). Para que haja uma
inserção efetiva das pessoas com deficiência no ambiente urbano, os percursos disponíveis
devem ser acessíveis. Este percurso, denominado Rota Acessível, consiste no percurso livre de
qualquer obstáculo de um ponto a outro (origem e destino) e compreende uma continuidade e
abrangência de medidas de acessibilidade (COHEN & DUARTE, 2006). “Para pessoas com
limitações visuais, uma orientação prévia é fundamental para o reconhecimento do espaço físico,
orientação possível através de instrumentos como mapas e maquetes táteis” (BELTRAMIN,
BERNARDI, KOWALTOWSKI, 2009).
Quando um grupo percebe o ambiente de outros ângulos de visão, compreendendo melhor as
possíveis apreensões do espaço, a diferença no caminhar leva a diferentes maneiras de
percepção, dificulta a compreensão dos significados do espaço e afeta o comportamento social.
Aspectos referentes ao espaço como distâncias, percursos, “longe” e “perto” passam a ser
medidos pelo esforço, pelo cansaço e não podem ou devem ser compreendidos a partir de
referenciais de pessoas que não apresentam nenhuma dificuldade em seus deslocamentos
(DUARTE; COHEN, 2004). Pode-se acrescentar que o espaço, a imagem e a experiência afetiva
que ela tem de espaciosidade, uma vez relacionados, poderão facilitar seu conforto e a rapidez
dos seus deslocamentos.
3.4. Desenvolvimento do Projeto
Programa de Necessidades ou Programa Arquitetônico é um método analítico que antecede o
projeto e tem por finalidade descrever as condições onde o projeto será executado, estabelecendo
o problema ao qual a edificação deverá responder (KOWALTOWSKI; MOREIRA, 2009). Visando a
qualidade do resultado, o Programa de Necessidades integra-se na reflexão em grupo como etapa
essencial para o entendimento e desenvolvimento projetual envolvendo levantamentos,
compreensão e organização das informações essenciais para o desenvolvimento do projeto
proposto. Foram estabelecidos dois grupos de coleta de dados para o processo inicial de projeto:
Grupo A para avaliação e leitura da área escolhida e do entorno, destacando as potencialidades e
fragilidades da situação encontrada, realizando levantamento fotográfico e de plantas da área;
Grupo B, realizando pesquisas bibliográficas sobre o tema, sobre o local, sobre características dos
usuários e estudo de projetos referenciais.
Para estruturação das informações de projeto e
criação de um checklist, o grupo utilizou o método de identificação do problema (Problem Seeking)
que divide o Programa Arquitetônico em cinco passos (PEÑA; PARSHALL, 2001 apud
KOWALTOWSKI; MOREIRA, 2009), estabelecendo Metas - O quê o cliente quer obter e por
quê?; coletando e analisando Fatos - O que sabemos? O quê é dado?; descobrindo e testando
Conceitos - Como o cliente quer alcançar a meta?; determinando as Necessidades - Quanto
dinheiro e espaço? Qual nível de qualidade?; situando o Problema - Quais são as condições
significativas que afetam o projeto do edifício? Quais são as direções gerais que o projeto deve
tomar?; e assim, desenvolveu-se uma listagem do Poema dos Desejos, destacando fatos, metas e
requisitos projetuais incluindo premissas do Desenho Universal e processo de orientação espacial.
Para a realização do método o grupo desenvolveu uma listagem do Poema dos Desejos,
destacando fatos, metas e requisitos projetuais. A seguir serão destacados alguns exemplos
dessa listagem: Metas: Função - Respeitar o usuário; baixa complexidade de uso; atendimento
seguindo demandas de horários; oferecer serviços diferenciados no edifício (lanchonetes, espera
confortável); manter árvore de grande porte existentes; atendimento diferenciado através de
informações claras no edifício; sinalizar o entorno; Forma - Criar um lugar acessível e homogêneo;
dialogar com a praça; construir edifício marcante, porém sem descaracterizar a região; ser um
prédio que se destaca através do belo; Economia – Baixo custo de manutenção da edificação;
edificação sustentável; Tempo - Local destinado a exposições temporárias de artistas do local;
Fatos - Função: Barão Geraldo não possui Poupatempo; atende muitas pessoas ao mesmo
tempo; milhares de pessoas vão primeiro ao setor de informações; atendimento a públicos
específicos; deve ser instalado em centros urbanos (onde há concentração de pessoas); o bairro
está crescendo e necessita de serviços para sua população, próximos as residências; grande
concentração de estudantes na região; Forma: O terreno está sendo utilizado como depósito de
caçambas e poderia ser utilizado para serviços à população; o terreno possui uma configuração
que permite o uso de um estacionamento no pavimento inferior com acesso pela rua de trás;
próximo a praças e locais arborizados; a praça em frente é interessante para ser englobada no
projeto; unidade próxima à universidade; próximo a terminais de ônibus e taxis; terreno possui
dimensões interessantes para o programa; Economia – Terreno possui conformação modificada,
propiciando menores custos em relação à proposta de estacionamento coberto; Tempo – Terreno
com dimensões que permitem futuras ampliações;
3.4.1. Plano de Massas
O Plano de Massas contemplou o estudo de viabilidade de implantação; caracterização dos
espaços em públicos, semipúblicos e privativos; caracterização do wayfinding definindo acessos e
fluxos principais; estudo de volumetria e plantas. Nesta etapa projetual verificou-se que a
localização do terreno condiz com os interesses do tema arquitetônico, dos usuários, das funções
e atividades conhecidas através de pesquisa e das características físicas do local. Conforme
relatado no método Problem Seeking, o grupo configurou alguns requisitos projetuais que
deveriam ser contemplados nas propostas a serem desenvolvidas: Relação externo/interno
marcantes; Identificação visual para a localização do edifício no seu entorno (placas e marcos de
acesso); Criação de percursos livres de obstáculos (rota acessível) unindo a praça, a edificação e
percursos importantes. Cada integrante do grupo elaborou proposta de setorização, salientado o
processo de orientação espacial e a legibilidade de percurso, originando uma proposta final
demonstrando todos os requisitos explanados nas propostas desenvolvidas. O conceito da
proposta baseia-se na organização de serviços, integração de espaços, ambientes qualificados
para os funcionários e usuários e Acessibilidade alcançada através de espaços convidativos,
legíveis, atrativos e promotores da inclusão social.
3.4.2. Implantação e Setorização
A implantação e setorização do Poupatempo originaram-se da proposta de uma organização
centralizada, linear e de fragmentação do edifício, objetivando melhor a divisão dos serviços,
legibilidade e orientação espacial do espaço. Todos os blocos convergem para uma espera central
(Figura 02), proporcionando aos usuários uma espera humanizada, com visualização de jardins e
área externa da edificação; possibilitando a autonomia do indivíduo no seu uso; conferindo direitos
e oportunidades iguais para todos os cidadãos; permitindo que o ambiente seja utilizado em plena
forma; proporcionando uma acessibilidade intrínseca ao projeto, com soluções de tal forma
integradas à solução arquitetônica que raramente seriam notadas de forma exclusiva; propondo a
otimização das distâncias entre percursos principais e secundários e ambientes que permitam a
visibilidade do conjunto através de uma orientação do percurso.
Figura 02 – Implantação com setorização
Fonte: Projeto. UNICAMP, 2011
3.4.3. Estudo Preliminar
Na etapa do Estudo Preliminar a execução e criação dos desenhos, instrumentos de leitura
tridimensionais (maquetes táteis) e a preparação da apresentação participativa - destaca-se o
desenvolvimento realizado de maneira colaborativa entre os alunos da pós-graduação, através de
discussões em sala de aula (Figuras 03 e 04) e também à distância.
Figura 03 – Atividade em sala de aula sobre wayfinding.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011
Figura 04 – Desenvolvimento do projeto coloborativo.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011
Para etapa de finalização do projeto foi adotada a estratégia de projeto participativo, onde
projetistas e potenciais usuários discutem os resultados conjuntamente (Figura 05). Para que se
tornasse possível a apresentação deste trabalho com sua completa compreensão por parte do
público com algum tipo de deficiência, tanto visual, quanto motora, foram desenvolvidas
ferramentas de apresentação adaptadas, procurando tornar universal, não apenas o projeto em si,
mas também a apresentação do mesmo.
Figura 05 – Atividade de apresentação participativa com potenciais usuários.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
O desenvolvimento dessas ferramentas baseou-se em duas vertentes, as ferramentas gráficas
visuais e as táteis. O grupo das ferramentas visuais foi composto por uma apresentação virtual, a
qual continha gráficos, organogramas e maquete virtual (Figura 06). Já o grupo das ferramentas
táteis foi composto por maquetes físicas (Figura 07), sendo elas do organograma conceitual da
proposta, da implantação e do edifício em si.
Figura 06 – Apresentação virtual.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
Figura 07 – Maquete física.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
Durante a preparação da apresentação direcionada à pessoas com deficiência visual, surgiram
algumas questões relacionadas ao tato e a leitura tátil, as quais foram bem exemplificadas pela
teoria Heller (apud LIMA, 1991): como pensamos sobre o mundo em termos de imagens? Será
que as pessoas cegas imaginam os objetos da mesma forma como pessoas sem deficiência
visual? Será que entendem o espaço da mesma forma que as outras pessoas? Os cegos têm
imagens como as imaginam? Quais são as implicações da falta de experiência visual para as
imagens? As imagens mentais são necessárias para alguns tipos de compreensão espacial?
Após estudos relacionados a essas questões, concluiu-se que seria necessário o uso de métodos
que não se baseassem em símbolos visuais gráficos, mas que mantivessem a representação
cartográfica, pois esta conceitua-se em um precioso auxilio na localização espacial de lugares,
tais como, ruas, endereços, cidades. Sendo assim, foram desenvolvidas maquetes táteis onde as
variáveis gráficas foram a textura, a dimensão e as formas. Para a criação das maquetes táteis de
forma eficiente, foi necessário criar uma codificação objetiva que proporcionasse ausência de
falsas interpretações e foram desenvolvidos padrões de codificação únicos para cada objeto a ser
representado. Por exemplo, para as recepções um único tipo de textura, para as áreas de espera
outro tipo e assim por diante, tanto na maquete referente ao organograma, quanto na do edifício
em si.
Foi adotado um organograma (Figura 08) e o mesmo foi representado em maquete tátil (Figuras
09 e 10), elaborada a fim de explicar de forma esquemática o funcionamento interno de um
Poupatempo, desde a chegada do usuário no edifício, passando pela recepção, triagem, espera e
finalmente o balcão de atendimento desejado. Este fluxograma foi a fase conceitual para a
elaboração do projeto.
Figura 08 – Croqui do organograma adotado.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
Figura 09 – Legenda tátil do organograma.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
Figura 10 – Representação tátil do organograma
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
Com o objetivo de localizar o edifício dentro do contexto urbano local, tendo como pontos de
referência locais já conhecidos dos usuários como terminal de ônibus, supermercados, igrejas e
praças, foram elaboradas maquetes táteis (Figura 11) referentes ao entorno. Nessas maquetes a
diferença de texturas foram utilizadas para demarcar os pontos de referência, o edifício em si e os
possíveis trajetos entre eles. Foram realizados dois testes com diferentes materiais com o intuito
de verificar a eficiência das texturas escolhidas para leitura tátil e por fim, verificou-se a
preferência dos usuários pela maquete com maior contraste de texturas entre a base e a linha da
rota, além da observação que quanto mais inclusos na maquete pontos de referências já
conhecidos pelos usuários, mais fácil e compreensível pode-se tornar a formação de mapas
mentais.
Figura 11 – Maquetes táteis em PVC e MDF representando o entorno do projeto.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
A partir da proposta da volumetria (Figura 12) foi elaborada a maquete tridimensional do projeto
(Figura13) foi desenvolvida de forma que o usuário, ao fazer a leitura tátil, “percorresse” o edifício,
desde as entradas até as saídas, passando por todos os blocos que o compõe, enfatizando todos
os acessos, tanto horizontais como verticais. Essa maquete foi elaborada utilizando materiais de
diferentes texturas, onde pudesse diferenciar os pontos de permanência como recepção, triagem
e espera; e pontos de fluxo como os acessos e as alças que interligavam os blocos. Por fim,
verificou-se que o material utilizado para representar a vegetação proposta poderia ser alterado –
fios pontiagudos de cobre, devido o comprometimento da segurança durante a manipulação do
instrumento pelo usuário.
Figura 12 – Proposta da volumetria.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
Figura 13 – Foto da maquete tridimensional.
Materiais utilizados: Isopor, papelão corrugado, papelão liso, lixa de madeira e fios de cobre.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
A elaboração dessas maquetes táteis que representam um espaço geográfico, tem como meta
criar um instrumento facilitador de inclusão social para os deficientes visuais pois, tais
equipamentos podem facilitar enormemente a mobilidade do portador de deficiência visual
trazendo autonomia na locomoção, autoconfiança, aumento de auto-estima e de independência. O
desconhecimento do caminho que leva a um determinado lugar impõe limitações variáveis nos
diversos níveis de mobilidade de uma pessoa. Se é problemático até mesmo para pessoas com
visão normal, a dificuldade enfrentada, pelas pessoas com limitação visual pode ser ainda maior.
(ALMEIDA; LOCH, 2005).
4. APRESENTAÇÃO DA CHARRETE
A Charrete do Projeto foi apresentada pelos autores, através das maquetes táteis e da
apresentação áudio visual a quatro usuários, sendo que um era cadeirante, dois eram deficientes
visuais e o quarto, o professor responsável pela instituição dos deficientes. Também estavam
presentes as duas professoras que orientaram a execução do trabalho.
A pedido dos deficientes visuais, simultaneamente à apresentação áudio visual com desenhos,
plantas, implantação do terreno, implantação do entorno, assim como perspectivas, ocorreu a
apresentação das maquetes táteis.
Através das duas primeiras maquetes (Figuras 14 e 15) foram demonstrados o diagrama
organizacional
(organograma)
do
projeto
proposto
em
forma
de
diferentes
texturas.
Posteriormente foram apresentadas duas maquetes táteis de Rota Acessível, mostrando o
entorno e “wayfinding”, um tipo de estruturação linear, onde sua representação aproxima-se de
um mapa de caminho. Foi mostrado que nele o indivíduo estrutura o ambiente em termos de vias,
isto é, refere-se aos pontos onde muda de direção, aos ângulos desta mudança e as distâncias de
um ponto ao outro. Na sequencia, apresentou-se a maquete volumétrica do projeto (Figuras 16 e
17) inserido no terreno onde os dois deficientes visuais puderam tateá-las acompanhados por
parte do grupo.
Figura 14 –Leitura tátil do organograma pelo usuário com deficiência visual
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
Figura 15 – Leitura tátil do organograma.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
Figura 16 – Leitura tátil e visual da maquete arquitetônica pelo usuário com limitação motora e visual.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
Figura 17 – Leitura tátil da maquete arquitetônica pelo usuário deficiente visual.
Fonte: Foto dos autores. UNICAMP, 2011.
Na explanação visual, os usuários foram apresentados ao projeto por meio de uma exibição de
conteúdo gráfico e textual (utilizando equipamento de datashow e programa power point) que
continha os conceitos de Desenho Universal, um breve histórico do Poupatempo, as referências
pesquisadas, a metodologia utilizada na concepção do projeto e os gráficos e organogramas que
explicavam tanto o funcionamento de uma agência padrão quanto o da proposta pelo grupo. Além
disso apresentava também a implantação, mantendo como base os pontos de referência já
conhecidos pelos usuários, bem como as rotas de acesso possíveis; as plantas dos pavimentos,
enfatizando os acessos e fluxos internos do edifício; e por fim uma maquete virtual do edifício com
seu entorno próximo, com o intuito de esclarecer ainda mais a volumetria dos blocos que compõe
o edifício.
Finalizada a apresentação, deu-se espaço a uma discussão com todos os envolvidos no processo
(autores, orientadores e usuários), onde foram levantadas questões sobre a importância deste tipo
de atividade para a melhoria da qualidade de vida de todos os usuários.
5. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
O exercício apresentou algumas questões positivas e outras que estimulam pesquisas e
discussões futuras. Demonstrou que um espaço acessível deve apresentar propostas além das
Normas de Acessibilidade, deve ser convidativo e possuir atrativos, reduzir a distância funcional
entre os elementos do espaço e as capacidades das pessoas.
Discutiu-se a importância de uma Rota Acessível para garantia de acessibilidade satisfatória.
“Para que haja uma inserção efetiva das pessoas com deficiência no ambiente urbano, os
percursos disponíveis devem ser acessíveis”. Este percurso, denominado Rota Acessível,
“consiste no percurso livre de qualquer obstáculo de um ponto a outro (origem e destino) e
compreende uma continuidade e abrangência de medidas de acessibilidade” (COHEN &
DUARTE, 2006). Entretanto, este percurso acessível deve se configurar em uma escolha do
próprio usuário, onde os "pontos referências" são importantes para que ele o eleja como o “melhor
caminho”.
Como pontos a serem re-trabalhados, ficou evidente que a participação dos usuários
(principalmente os deficientes) deveria ser antecipada. Assim, algumas peculiaridades na vida
destas pessoas poderiam ser melhor incorporadas às fases preliminares do projeto. Por exemplo,
pode-se investigar mais profundamente a participação do usuário na etapa do Problem Seeking,
onde as experiências e vivências específicas poderiam fornecer informações valiosas na coleta de
fatos e necessidades.
Durante a apresentação, notou-se que o entendimento era satisfatório, mas o feedback era
inconclusivo. Mediante a uma apresentação já elaborada, um método de retirada de informações
poderia ter sido mais discutido anteriormente. Houve dificuldade em extrair dos usuários maiores
necessidades específicas de transformação do projeto, fazendo desta etapa mais uma a ser
vencida, objetivando um resultado ainda mais satisfatório.
No decorrer da atividade participativa ficou claro que a grande preocupação dos alunos ocorreu na
explanação do projeto aos indivíduos com deficiência visual. A realidade do indivíduo que não
enxerga com os olhos - este “mundo” desconhecido para os videntes - causou uma expectativa
maior durante a explicação do projeto, talvez pela ânsia em ter respostas sobre as questões
colocadas no início do projeto: como tais indivíduos reconhecem o espaço físico projetado? Como
reagem à leitura dos instrumentos táteis? Como traduzem as suas imagens mentais? Ficou
explícita a necessidade de trabalhar-se melhor a elaboração de dinâmicas que auxiliem a
compreensão do ambiente físico por indivíduos com deficiência locomotora, pois a comunicação
através dos desenhos arquitetônicos é dotado de simbologias específicas muitas vezes
compreensíveis apenas para profissionais da área.
A atividade desenvolvida na disciplina mostrou que podem ser exploradas e investigadas novas
dinâmicas pedagógicas de inclusão do conceito do Desenho Universal na prática de projeto e
alertou os autores sobre necessidades de inclusão de atividades que estimulem a pesquisa-ação.
Tais atividades participativas podem ser colocadas como subsídios para o desenvolvimento
conceitual de projetos arquitetônicos, atuando em todas as fases do processo, deste a montagem
da proposta até as etapas finais de apresentação, conclusão e avaliação do projeto.
Mostrou também que o estudo preliminar dos conceitos de acessibilidade através de referências
bibliográficas e projetuais, contribui para as discussões da fase preliminar de desenvolvimento do
projeto arquitetônico, colocando frente ao arquiteto as demandas de uma sociedade cada vez
mais consciente de seus direitos e reforçando a responsabilidade deste profissional perante os
desafios da inclusão espacial e de uma acessibilidade que possa realmente ser universal.
Na etapa do desenvolvimento das primeiras idéias do projeto a equipe preocupou-se
principalmente com questões formais e de funcionalidade do tema abordado. As questões da
acessibilidade, mesmo sendo preliminarmente discutidas, ainda não tiveram uma integração
profunda na resposta do projeto, prevalecendo as questões tradicionais do projeto arquitetônico.
Verificou-se na etapa de apresentação que a participação de pessoas com deficiência no
processo de projeto conseguiu então priorizar as questões da acessibilidade. Dessa forma
recomenda-se que esta participação aconteça desde o início do processo para que o conceito do
Desenho Universal seja a base do desenho e da qualidade do projeto.
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