Terceira e última edição... 5
1. Apresentação ............ 12
2. Obama quer que os
Estados
Unidos
sejam
conquistados pela Rússia
ou pela China ................ 17
3. A ecologia foi inventada
numa espécie de projeto
Manhattan .................... 22
4. Democratizar o ensino é
quase tão nefasto quanto
distribuir pedras de crack
na merenda .................. 26
5. Pecado é coisa de pobre
................................... 32
6. Chega de liberdade de
expressão! .................... 40
7. A
imprensa
é
uma
ameaça à civilização e à
espécie humana ............ 44
8. As
crianças
são
programadas
pela
psicologia
e
serão
programas pela engenharia
genética ....................... 48
9. Os fins justificam os
meios........................... 53
10. Desconstruindo
Olavo
de Carvalho I ................ 63
11. Desconstruindo
Olavo
de Carvalho II ............... 70
12. Sobre
a
física
aristotélica .................... 82
13. Sobre a física clássica
................................... 99
14. Sobre o ateísmo de
Newton ...................... 111
15. Sobre o darwinismo 118
16. Sobre Kant ............ 136
17. Herrar é umano ..... 157
18. Um pouco de filosofia
................................. 158
19. O tempo na primeira
antinomia de Kant ....... 160
20. A origem do universo
na física contemporânea
................................. 165
21. O tempo na física
contemporânea ........... 174
22. Sobre mim ............ 201
23. Papai
Noel
existe
mesmo!...................... 206
Terceira e última
edição
Este livrinho (formatado
para celulares) é mais do
que suficiente para mostrar
que o pensamento de Olavo
de Carvalho não pode ser
levado a sério.
Se o texto fosse maior ou
mais detalhado, isto não
mudaria a fé dos que se
proclamam olavettes.
Não é por falta de
argumento
que
Olavo
duvida da inércia.
5
Não é por falta de aviso
que
Olavo
insiste
no
conceito
de
juízo
autoevidente provando que
Papai Noel existe.
A democracia permite que
Olavo de Carvalho escreva
e Tiririca deputeie.
Isto é bom porque só
assim
um
autor
desconhecido
tem
a
oportunidade de liderar a
lista
dos
livros
mais
baixados da Amazon, nem
que seja por alguns dias,
para dizer o que pensa sem
6
pedir
a
permissão
de
ninguém.
Pena que são poucos os
que realmente defendem a
democracia. Felipe Moura
Brasil, da Veja, escreveu o
seguinte:
A
canalhada
não
sossega enquanto não
calar de vez as vozes
discordantes.
Está
difícil de aturar o
sucesso
do
filósofo
Olavo de Carvalho,
depois que o nosso
best seller “O mínimo
que você precisa saber
7
para
não
ser
um
idiota” bateu a marca
dos 60 mil exemplares
vendidos.
Na
incapacidade
de
argumentar e debater,
os
invejosos
de
plantão
querem
é
derrubar a página em
que ele escreve para
impedir
que
sua
imensa
“legião”
de
alunos, leitores e fãs
tenham acesso às suas
palavras. Assim como
já
aconteceu
com
outras páginas de teor
8
conservador,
como
“Meu
professor
de
História mentiu pra
mim”, seu perfil do
Facebook saiu do ar
nesta manhã e segue
indisponível.
Reinaldo
Azevedo
deixou por menos.
não
A questão agora é
saber se o Facebook
vai se tornar refém
dessas milícias.
E o que aconteceu com
minha conta do Facebook?
Foi tirada do ar!
9
Ainda bem que a rede
social tem meios de validar
um usuário. Já estou de
volta.
Com a palavra: Olavo de
Carvalho,
Felipe
Moura
Brasil e Reinaldo Azevedo.
10
11
1. Apresentação
Olavo de Carvalho está
para Newton, Darwin e
Kant
assim
como
MC
Britney está para Bach,
Mozart e Beethoven.
Hoje na casa do seu Zé
vai rolar uma putaria /
Tava cheia de novinha
doida pra fazer orgia /
Uma fodia no chão
outra em cima da na
pia / Na casa do seu
Zé
vai
rolar
uma
putaria
12
Nos primeiros capítulos
deste
livro,
apresento
alguns dos absurdos mais
evidentes do best seller O
mínimo que você precisa
saber para não ser um
idiota. Nos capítulos finais,
uso um pouco da filosofia
que se aprende na USP
para
desmontar
o
filosofismo que Reinaldo
Azevedo,
Rodrigo
Constantino
e
outros
confundem com erudição.
Não é a razão que
conquista os louros,
mas a eloquência; e
13
ninguém precisa ter
receio
de
não
encontrar
seguidores
para suas hipóteses,
por
mais
extravagantes que elas
sejam, se for hábil o
bastante para pintá-las
em cores atraentes.
(HUME. Tratado da
natureza humana. São
Paulo: Unesp, 2009, p.
20)
Reinaldo Azevedo, aliás,
disse que O mínimo...
provocou
um
enorme
silêncio e que não debater
14
é uma das formas do
moderno
exercício
da
violência. Espero que ele
leia o meu texto da mesma
forma que costumo ler os
dele:
concordando
ou
discordando, sem imaginar
um inimigo do outro lado.
Na
segunda
edição,
acrescentei o capítulo 23
comentando uma discussão
que tive com Olavo de
Carvalho no Facebook, no
dia 8 de março de 2014. Na
discussão,
duas
coisas
ficaram óbvias. Primeira:
que a filosofia de Olavo de
15
Carvalho prova que Papai
Noel existe. Segunda: que
Olavo de Carvalho não tem
o
equilíbrio
emocional
mínimo para se aventurar
pela filosofia.
16
2. Obama quer que
os Estados Unidos
sejam conquistados
pela Rússia ou pela
China
Segundo
Olavo
de
Carvalho, Barack Hussein
Obama quer acabar com a
liberdade de expressão nas
transmissões
radiofônicas
porque, com as televisões
absolutamente dominadas,
com o conservadorismo
insuficiente da Fox News, o
rádio se tornou o último
17
refúgio da cristandade, a
esperança derradeira da
civilização ocidental no país
mais poderoso do mundo.
Poderoso por enquanto,
porque
Barack
Hussein
Obama quer desarmar a
população e os militares —
a população para implantar
uma ditadura; os militares
para que os Estados Unidos
sejam conquistados pela
Rússia ou pela China.
O plano macabro tem o
patrocínio de bilionários
como George Soros, que,
entre
outras
maldades,
18
aposta na legalização da
maconha.
Nenhum
jornal
ou
canal de TV brasileiro
jamais informou que
Obama é um apóstolo
da
Media
Reform,
calculada para eliminar
a liberdade de opinião
no rádio, um defensor
ardente da proibição
total de armas de fogo
pela população civil
(na mesma linha que
Hitler
adotou
na
Alemanha),
um
partidário fervoroso do
19
imediato
desmantelamento das
defesas
americanas
antimíssil (portanto, da
rendição incondicional
ante qualquer poder
nuclear
estrangeiro).
Ninguém
jamais
informou que ele votou
contra a proibição de
matar
bebês
que
sobrevivam ao aborto,
e que é um discípulo
da
“teologia
da
libertação”
na
sua
versão mais radical e
extremada.
Ninguém
20
informou
que
os
grupos que o apoiam
são círculos bilionários
globalistas aos quais
ele serve como agente
para a destruição da
soberania americana e
a imediata implantação
de
um
governo
mundial pelos meios
mais antidemocráticos
que se pode imaginar.
21
3. A ecologia foi
inventada numa
espécie de projeto
Manhattan
O
projeto
Manhattan
reuniu os maiores cientistas
do Ocidente para produzir a
bomba atômica, uma arma
tão absurda que ninguém
ousaria enfrentar.
Segundo
Olavo
de
Carvalho,
um
esforço
parecido, com dezenas de
intelectuais,
produziu
a
causa das causas, e assim
nasceu a ecologia.
22
Nos anos 1950, grupos
globalistas bilionários
— os metacapitalistas,
como
os
chamo,
aqueles sujeitos que
ganharam
tanto
dinheiro
com
o
capitalismo que agora
já não querem mais se
submeter às oscilações
do mercado e por isso
se
tornam
aliados
naturais do estatismo
esquerdista
—
tomaram a iniciativa
de contratar algumas
dezenas de intelectuais
23
de
primeira
ordem
para que escolhessem
a vítima das vítimas,
alguém
em
cuja
defesa, em caso de
ameaça, a sociedade
inteira correria com
uma solicitude de mãe,
lançando
automaticamente
sobre
todas
as
objeções possíveis a
suspeita de traição à
espécie
humana.
Depois de conjeturar
várias hipóteses, os
estudiosos chegaram à
24
conclusão
de
que
ninguém se recusaria a
lutar em favor da
Terra,
da
mãe
natureza.
25
4. Democratizar o
ensino é quase tão
nefasto quanto
distribuir pedras de
crack na merenda
Segundo
Olavo
de
Carvalho, democratizar o
ensino é ruim.
A democratização do
ensino, abolindo as
barreiras econômicas,
deveria ter instituído
barreiras
intelectuais
em compensação, para
impedir que a descida
26
do
padrão
social
trouxesse,
de
contrabando,
uma
queda do nível de
consciência. A nova
elite de pés-rapados
talvez fosse menos
numerosa, mas teria
superado em mérito e
qualidade
suas
antecessoras.
Na
verdade, o que se fez
foi o contrário: já que
o ensino é para todos,
por que haveria de ser
um ensino de elite?
Para
qualquer
um,
27
basta qualquer coisa. A
massa
dos
neoletrados, lisonjeada
até as nuvens, corre às
escolas, às livrarias, à
mídia, aos teatros e
aos
cinemas
para
receber
sua
ração
diária de lixo, que ela
imagina
superior
à
educação de um nobre
do Renascimento ou de
um clérigo do século
XIII.
Segundo
Olavo
de
Carvalho, dizer que os
alunos merecem escolas
28
decentes,
professores
dedicados e métodos de
ensino cativantes é quase
tão
nefasto
quanto
distribuir pedras de crack
na merenda.
Quando a criança de seis
anos de idade não percebe
a importância da educação
formal, o problema é dela.
O Estado não tem nada a
ver com isso.
A ideia de que a
educação
seja
um
direito é uma das mais
esquisitas
que
já
passaram pela mente
29
humana.
É
só
a
repetição
obsessiva
que lhe dá alguma
credibilidade.
(...)
Educação
é
uma
conquista pessoal, e só
se obtém quando o
impulso para ela é
sincero, vem do fundo
da alma e não de uma
obrigação imposta de
fora.
(...)
Nessas
condições, campanhas
publicitárias
que
enfatizem a educação
como um direito a ser
cobrado, e não como
30
uma obrigação a ser
cumprida pelo próprio
destinatário
da
campanha, têm um
efeito corruptor quase
tão grave quanto o do
tráfico de drogas.
31
5. Pecado é coisa de
pobre
Olavo de Carvalho é
conservador
quando
assume
a
persona
de
cristão
fundamentalista
diante da ciência, mas se
faz de cortesão quando se
prostra submisso à nobreza
e à aristocracia.
Num tempo em que a
França era o país mais
cristão da Europa, Luís
XIV tinha nada menos
de 28 amantes, mas
sua rotina de trabalho
32
era mais pesada que a
de qualquer executivo
de multinacional. (...)
Já na Idade Média, os
encargos da defesa
territorial
incumbiam
inteiramente à classe
aristocrática: ninguém
podia
obrigar
um
camponês
ou
comerciante a ir para a
guerra, mas o nobre
que fugisse aos seus
deveres bélicos seria
instantaneamente
executado pelos seus
pares. (...) A classe
33
aristocrática
era
liberada de parte dos
rigores morais cristãos
na mesma medida em
que pagava pela sua
liberdade
com
a
permanente oferta da
própria
vida
em
sacrifício pelo bem de
todos.
A
democratização
da
permissividade espalha
os
direitos
da
aristocracia por uma
multidão de recémchegados
que
de
repente
se
veem
34
liberados da pressão
religiosa sem ter de
assumir
por
isso
nenhum encargo extra,
por mínimo que seja,
capaz de restaurar o
equilíbrio entre direitos
e deveres. (...) A
liberação de massas
imensas de população
para o desfrute de
prazeres e requintes
gratuitos é uma das
situações psicológicas
mais ameaçadoras já
vividas
pela
35
humanidade desde o
tempo das cavernas.
Segundo
Olavo
de
Carvalho, os empresários
são sempre bons, inclusive
os
que
roubam
os
consumidores,
os
trabalhadores e o governo.
Pelo que ele diz, quem cria
um
site
para
vender
produtos fictícios e some
com o dinheiro movimenta
a economia e gera riqueza;
quem usa trabalho escravo
para desmatar ilegalmente,
no fim das contas, beneficia
o país.
36
O empresário pode dar
golpes
em
seus
fornecedores, vender
produtos
fraudados,
sonegar o pagamento
devido aos operários,
ou então pode pagar
tudo
direitinho
e
vender produtos bons.
(...) Da atividade do
empresário, mesmo o
mais
desonesto,
resultam sempre uma
ativação da economia,
uma
elevação
da
produtividade,
a
expansão
dos
37
empregos.
Esses
resultados podem vir
em quantidade grande
ou pequena, mas têm
de
vir
necessariamente, pela
simples razão de que
“empresa” consiste em
produzi-los e em nada
mais.
(...)
Um
empresário,
honesto
ou desonesto, está no
auge
do
sucesso
quando
pode,
sem
prejuízo
de
seus
investimentos,
comprar
mansões,
38
iates, carros de luxo,
jatinhos, jatões etc.
Ele
alcança
isso
quando se torna um
mega-empresário.
Para chegar a esse
ponto, ele tem de
deixar em seu rastro
fábricas,
bancos,
plantações,
jornais,
canais de TV e mil e
um outros negócios
dos quais vivem e
prosperam milhares de
pessoas.
39
6. Chega de
liberdade de
expressão!
Olavo de Carvalho odeia a
esquerda, mas não pelo
que ela tem de ruim.
Quando Richard Dawkins
combate o criacionismo,
por exemplo, um gulag
bem que faz falta.
Sem
o
campo
de
concentração soviético, o
que resta é usar os
instrumentos democráticos
para solapar a democracia.
Se
inúmeras
igrejas
40
processassem
Richard
Dawkins ao mesmo tempo,
a litigância de má fé
poderia
inviabilizar
economicamente
o
lançamento de seus livros.
O
sr.
Dawkins
já
ultrapassou
aquele
limite da truculência
mental e do desprezo
à verdade, para além
do
qual
toda
a
discussão de ideias se
torna inútil. Não se
trata de provar nada
para o sr. Dawkins.
Trata-se de provar seu
41
crime
perante
os
tribunais. O dele e o de
inumeráveis
organizações
militantes, subsidiadas
por
fundações
bilionárias, dedicadas a
fomentar por todos os
meios
o
ódio
às
religiões.
Todas
as
organizações religiosas
que
não
se
mobilizarem para a
defesa comum não só
no campo midiático,
mas no judicial, devem
ser
consideradas
42
traidoras,
colaboracionistas
e
vendidas ao inimigo.
43
7. A imprensa é uma
ameaça à civilização
e à espécie humana
Thomas
Jefferson
século XVII:
no
Se
eu
tivesse
de
decidir entre ter um
governo sem jornais e
ter jornais sem um
governo,
eu
não
hesitaria nem por um
momento
antes
de
escolher a segunda
opção. (VEJA, 27 de
janeiro de 2010)
44
Lênin no século XX:
Dar à burguesia a
arma da liberdade de
imprensa é facilitar e
ajudar a causa do
inimigo.
Nós
não
desejamos
um
fim
suicida, então não a
daremos. (VEJA, 27 de
janeiro de 2010)
Olavo de
século XXI:
Carvalho
no
Poucos
fatos
na
história foram jamais
tão bem averiguados,
testados e provados
45
quanto
a
falsidade
documental
do
presidente americano
e
o
esquema
de
dominação continental
do Foro de São Paulo.
(...) Ambos esses fatos
foram
sistematicamente
suprimidos
do
noticiário por tempo
suficiente para que os
beneficiários da cortina
de
silêncio
alcançassem, sob a
proteção dela, seus
objetivos
mais
46
ambiciosos. (...) Por
isso, Daniel Greenfield
foi
até
eufemístico
quando, escrevendo no
Front Page Magazine
de David Horowitz,
afirmou que a grande
mídia é hoje “a maior
ameaça à integridade
do processo político”.
Ela tornou-se, isto sim,
uma
ameaça
à
inteligência,
à
civilização, a toda a
espécie humana.
47
8. As crianças são
programadas pela
psicologia e serão
programas pela
engenharia genética
Se Olavo de Carvalho
fosse reconhecido como
autor de trash books, tudo
bem. Para alguns, seria
divertido.
Há quatro décadas a
tropa
de
choque
acantonada
nas
escolas
programa
esses meninos para ler
48
e raciocinar como cães
que salivam ou rosnam
ante meros signos,
pela
repercussão
imediata dos sons na
memória afetiva, sem
a menor capacidade ou
interesse de saber se
correspondem
a
alguma
coisa
no
mundo.
Um
deles
ouve, por exemplo, a
palavra
“virtude”.
Pouco
importa
o
contexto.
Instantaneamente
produz-se em sua rede
49
neuronal
a
cadeia
associativa: virtude –
moral – catolicismo –
conservadorismo
–
repressão – ditadura –
racismo - genocídio. E
o bicho já sai gritando:
É a direita! Mata!
Esfola! Al paredón! De
maneira
oposta
e
complementar,
se
ouve
a
palavra
“social”,
começa
a
salivar
de
gozo,
arrastado pelo atrativo
mágico das imagens:
social – socialismo –
50
justiça – igualdade –
liberdade – sexo e
cocaína de graça –
oba!
Não
estou
exagerando em nada.
Talvez fosse divertido se
Olavo
de
Carvalho
escrevesse
ficção,
mas
parece que ele está mais
para
Lafayette
Ronald
Hubbard
do
que
para
Stanley Martin Lieber — o
primeiro criou a religião
hollywoodiana
chamada
cientologia;
o
segundo,
mais conhecido como Stan
Lee,
criou
o
Homem51
Aranha, o Incrível Hulk e o
Homem de Ferro.
Hoje os governantes já
estudam
como
programar
geneticamente
a
conduta das gerações
futuras.
Não
se
contentam
com
o
poder destrutivo dos
demônios: querem o
poder
criador
dos
deuses.
52
9. Os fins justificam
os meios
Olavo de Carvalho não é
contra as revoluções. Diz
que é porque só considera
revolucionário o movimento
que nega o mundo perfeito
— onde democratizar o
ensino é sempre ruim;
onde
roubar
os
consumidores,
os
trabalhadores e o governo
é sempre bom.
O
movimento
revolucionário
é
o
flagelo maior que já se
53
abateu sobre a espécie
humana desde o seu
advento sobre a Terra.
(...) O socialismo e o
nazismo
são
revolucionários
não
porque
propõem
respectivamente
o
predomínio de uma
classe ou de uma raça,
mas
porque
fazem
dessas bandeiras os
princípios
de
uma
remodelagem
radical
não só da ordem
política, mas de toda a
vida
humana.
(...)
54
Muitos
processos
sociopolíticos
usualmente
denominados
“revoluções” não são
“revolucionários”
de
fato,
porque
não
participam
da
mentalidade
revolucionária,
não
visam à remodelagem
integral da sociedade,
da cultura e da espécie
humana,
mas
se
destinam unicamente à
modificação
de
situações
locais
e
55
momentâneas,
idealmente
para
melhor.
Não
é
necessariamente
revolucionária,
por
exemplo, a rebelião
política
destinada
apenas a romper os
laços entre um país e
outro.
Nem
é
revolucionária
a
simples derrubada de
um regime tirânico
com o objetivo de
nivelar uma nação às
liberdades
já
desfrutadas
pelos
56
povos em torno. (...)
Se,
nesse
sentido,
vários
movimentos
político-militares
de
vastas
proporções
devem ser excluídos
do
conceito
de
“revolução”, devem ser
incluídos
nele,
em
contrapartida,
vários
movimentos
aparentemente
pacíficos e de natureza
puramente intelectual
e
cultural,
cuja
evolução no tempo os
leve a constituir-se em
57
poderes políticos com
pretensões de impor
universalmente novos
padrões
de
pensamento e conduta
por
meios
burocráticos, judiciais
e policiais. A rebelião
húngara de 1956 ou a
derrubada
do
presidente
brasileiro
João Goulart, nesse
sentido, não foram
revoluções de maneira
alguma. Nem o foi a
independência
americana, um caso
58
especial que terei de
explicar num outro
artigo. Mas sem dúvida
são
movimentos
revolucionários
o
darwinismo
e
o
conjunto
de
fenômenos
pseudorreligiosos
conhecido como Nova
Era.
Olavo de Carvalho não é
contra o extremismo. Diz
que é porque só considera
extremista quem não aceita
o mundo perfeito — onde a
59
liberdade
de
expressão
deve ser combatida.
Se esbarrasse na rua
com algum dos nossos
políticos
ditos
“de
direita”,
eu
lhe
perguntaria
o
seguinte: “Você quer
destruir a esquerda,
destruí-la
politicamente,
socialmente,
culturalmente,
de
modo que ela nunca
mais se levante e que
ser
esquerdista
se
torne uma vergonha
60
que
ninguém
ouse
confessar em público?”
(...)
Quem
precisa
ostentar moderação é
quem se envergonha
da sua própria opinião
ao ponto de admitir,
cabisbaixo e submisso,
que ela só vale alguma
coisa quando usada
em doses moderadas.
Em doses moderadas,
filhinho,
até
a
estricnina vale alguma
coisa. Só o que é
indiscutivelmente bom,
como a inteligência, a
61
beleza, a santidade ou
a saúde, vale tanto
mais quanto maior a
dose.
62
10. Desconstruindo
Olavo de Carvalho I
Olavo
de
Carvalho
emprega a palavra Bíblia no
sentido cristão.
A Bíblia tem de ser
relida o tempo todo
(...) atenção especial
para Mateus 11:1-6,
onde o próprio Jesus
ensina o critério para
você tirar as dúvidas a
respeito d’Ele.
E diz que a Bíblia (cristã)
é a semente de toda
cultura ocidental possível.
63
Um mito fundador não
é
um
“produto
cultural”, pela simples
razão de que ele, e só
ele, é a semente de
toda cultura possível.
Um
mito
fundador
constitui-se, em geral,
da narrativa simbólica
de
fatos
que
efetivamente
sucederam, fatos tão
essenciais
e
significativos
que
acabam por transferir
parte do seu padrão de
significado para tudo o
64
que venha a acontecer
em
seguida
numa
determinada
área
civilizacional.
Assim,
por exemplo, Northrop
Frye demonstrou que
todos os esquemas
narrativos conhecidos
na grande literatura
ocidental são variações
de enredos bíblicos.
Ora,
os
esquemas
narrativos da literatura
superior
são
os
padrões
de
autocompreensão
imaginativa de uma
65
civilização.
E
os
padrões
de
autocompreensão
imaginativa são, por
sua vez, os esquemas
de ação possíveis. A
Bíblia, mito fundador
da
civilização
ocidental,
está
no
fundo de toda a nossa
compreensão de nós
mesmos e de todas as
nossas possibilidades
de ação. Fora disso,
não
há
senão
ideologia,
erro,
loucura.
66
Se a Bíblia fosse a
semente de toda cultura
ocidental possível, as coisas
anteriores ao século I não
fariam parte da cultura
ocidental.
Mas
fazem
parte
da
cultura ocidental a filosofia
grega
(com
Platão
e
Aristóteles), a literatura
grega (da Ilíada e da
Odisseia), a escultura grega
(produzindo a Vênus de
Milo e inspirando o Davi de
Michelangelo).
Faz parte da cultura
ocidental o prédio Suprema
67
Corte americana, que tem
as colunas da arquitetura
grega e fica perto do
Capitólio, nome de um
templo dedicado ao deus
romano Júpiter.
Fazem parte da cultura
ocidental tanto o latim (que
nos deu o italiano, o
espanhol e o português)
quanto o grego, usado para
escrever
o
Novo
Testamento.
Não é verdade, portanto,
que a Bíblia esteja no fundo
de
toda
a
nossa
compreensão
de
nós
68
mesmos e de todas as
nossas possibilidades de
ação. Sófocles conhecia
alguma coisa da condição
humana quando escreveu
Édipo Rei. Euclides ampliou
as possibilidades humanas
desenvolvendo
a
geometria.
O texto de Olavo de
Carvalho não passa de uma
ladainha.
69
11. Desconstruindo
Olavo de Carvalho II
Discutir o aborto não é o
propósito deste capítulo,
apenas
discutir
os
argumentos quase infantis
de Olavo de Carvalho sobre
o tema.
Os
adversários
do
aborto alegam que o
feto é um ser humano,
que matá-lo é crime de
homicídio.
O texto começa com uma
tautologia. Se o aborto que
está em discussão é o que
70
ocorre na espécie humana,
o feto é um ser humano
tanto para quem acredita
que abortar é um crime,
quanto para quem acredita
que abortar é um direito.
Segundo o Houaiss, o feto
humano é um ser humano
com pelo menos três meses
de gestação porque, antes
disso, é um embrião.
Os partidários alegam
que o feto é apenas
um pedaço de carne,
uma parte do corpo da
mãe, que deve ter o
71
direito de extirpá-lo à
vontade.
Não é verdade que os
defensores
da
descriminalização do aborto
partam do princípio de que
o feto é um pedaço de
carne qualquer. A situação
é muito mais complexa.
Primeiro é preciso discutir
como arbitrar o começo da
vida. Quando o cérebro de
alguém sofre um processo
de
degenerescência
irreversível pelos critérios
da medicina, o coração que
está batendo pode ser
72
retirado e doado para
alguém que precise de um
transplante. O aborto do
anencéfalo e até o aborto
de um embrião sem o
sistema nervoso central
razoavelmente
desenvolvido talvez possa,
então, ser considerado.
No presente score da
disputa, nenhum dos
lados conseguiu ainda
persuadir o outro. Nem
é razoável esperar que
o consiga, pois, não
havendo na presente
civilização o menor
73
consenso quanto ao
que é ou não é a
natureza humana, não
existem
premissas
comuns que possam
fundamentar
um
desempate.
Mas
o
empate mesmo acaba
por transfigurar toda a
discussão: diante dele,
passamos
de
uma
disputa
éticometafísica,
insolúvel
nas
presentes
condições da cultura
ocidental,
a
uma
simples
equação
74
matemática
cuja
resolução deve, em
princípio, ser idêntica e
igualmente
probante
para todos os seres
capazes
de
compreendê-la.
Essa
equação
formula-se
assim: se há 50% de
probabilidades de que
o feto seja humano e
50% de que não o
seja, apostar nesta
última
hipótese
é,
literalmente, optar por
um ato que tem 50%
de probabilidades de
75
ser um homicídio. Com
isso, a questão toda se
esclarece mais do que
poderia exigi-lo o mais
refratário
dos
cérebros. (...) Dito de
outro modo: apostar
na inumanidade do
feto é jogar na cara ou
coroa a sobrevivência
ou
morte
de
um
possível ser humano.
Admitindo que o feto seja
humano (porque ele é) e
deixando de lado qualquer
aplicação
indevida
dos
conceitos mais elementares
76
da estatística (porque não é
sempre
que
dois
acontecimentos
mutuamente
exclusivos
têm probabilidades iguais),
o que Olavo de Carvalho
tenta dizer é que, na
dúvida, não devemos matar
a criança.
Se a intenção é proibir o
aborto, o argumento é
ruim.
Não foi por consenso que
foram
adotados
a
universalização da vacina, a
transfusão de sangue, o
77
transplante de órgãos, o
aborto em caso de estupro.
Na dúvida, a igreja pode
condenar à vontade, mas
os
tribunais
têm
que
absolver. Não faz sentido
punir criminalmente uma
pessoa
quando
não
sabemos se ela cometeu
realmente algum crime.
Diante
de
tantas
dificuldades, o que resta é
a insensatez: o ataque que
transforma
a
discussão
numa luta do bem contra o
mal.
78
O
abortista
não
poderia
ceder
nem
mesmo ante provas
cabais da humanidade
do feto, quanto mais
ante meras avaliações
de um risco moral. Ele
simplesmente
deseja
correr o risco, mesmo
com chances de 0%.
Ele quer porque quer.
Para ele, a morte dos
fetos indesejados é
uma questão de honra:
trata-se
de
demonstrar, mediante
atos e não mediante
79
argumentos,
uma
liberdade autofundante
que
prescinde
de
razões, um orgulho
nietzschiano para o
qual a menor objeção
é
constrangimento
intolerável. (...) É claro
que,
em
muitos
abortistas,
esta
vontade [de matar]
permanece
subconsciente,
encoberta por um véu
de
racionalizações
humanitárias, que o
apoio
da
mídia
80
fortalece
e
a
vociferação
dos
militantes corrobora.
81
12. Sobre a física
aristotélica
Os maiores nomes da
filosofia antiga são Platão e
Aristóteles;
da
filosofia
medieval:
Agostinho
e
Tomás
de
Aquino;
da
filosofia
moderna:
Descartes, Hume, Kant e
Hegel;
da
filosofia
contemporânea: Nietzsche
e
Wittgenstein.
Alguns
acrescentariam Hobbes e
Rousseau pela contribuição
à
filosofia
política. Eu
acrescentaria Thomas Kuhn
82
pela contribuição à filosofia
da ciência.
Todos estes pensadores
transcendem seu próprio
tempo, mas apenas na
medida do possível.
Platão descreve a criação
do mundo dizendo que o
demiurgo juntou o fogo, a
terra, a água e o ar.
É forçoso que aquilo
que
deveio
seja
corpóreo,
visível
e
tangível;
mas,
separado do fogo, sem
dúvida que nada pode
ser visível, nem nada
83
pode ser tangível sem
qualquer coisa sólida e
nada pode ser sólido
sem terra. (...) Foi por
isso
que,
tendo
colocado a água e o ar
entre o fogo e a terra,
(...) o deus uniu estes
elementos e constituiu
um
céu
visível
e
tangível.
(PLATÃO.
Timeu.
Universidade
de
Coimbra,
2011.
p.100)
Tomás de Aquino usa
Aristóteles para justificar a
fé cristã numa época em
84
que a ciência (ciência
mesmo) simplesmente não
existe.
A mais extraordinária
dessas tentativas de
descrever a relação
entre Deus e o homem
e de adequar a plena
complexidade
da
natureza humana a
uma teologia coerente
é indubitavelmente a
Summa teologica, de
São Tomás de Aquino.
(...)
Além
de
incorporar em sua obra
o que considerava ser
85
a totalidade do que era
verdadeiro
e
bem
demonstrado
nas
fontes clássicas que
lhe eram disponíveis,
Aquino
tentou
completar o quadro da
natureza e da vontade
humanas apresentado
por Aristóteles em sua
Ética a Nicômaco e
demonstrar
sua
compatibilidade com as
doutrinas da religião
revelada.
(...)
O
triunfo do tomismo
teve, no entanto, vida
86
curta. Seu primeiro
inimigo sério foi o
humanismo do início
do Renascimento. Este
foi acompanhado por
revoluções na prática
da
educação
que
tendiam
a
tirar
autoridade intelectual
dos clérigos e conferila
às
mãos
dos
cortesãos e literatos; e
também
por
uma
gradual
ascendência
de um espírito de
indagação
científica
hostil
à
pronta
87
recepção do dogma
teológico. (SCRUTON.
Uma breve história da
filosofia moderna. Rio
de
Janeiro:
José
Olympio, 2008. p. 37)
Quando Olavo de Carvalho
se
faz
de
escolástico
citando
preceitos
aristotélicos e tomistas, seu
anacronismo mimetiza o
pensamento do século XIII
para discutir os problemas
do século XXI. Isto não é
filosofia.
Você lê nos manuais,
por
exemplo,
que
88
Galileu “superou” a
física de Aristóteles.
Durante quatro séculos
essa
bobagem
foi
repetida como verdade
terminal. Só por volta
de 1950 os estudiosos
perceberam
que
a
física de Aristóteles
não era uma física,
mas uma metodologia
científica geral, bem
mais sutil do que
Galileu poderia jamais
ter percebido, e muito
bem
adequada
às
necessidades
da
89
ciência mais recente.
Os
famosos
erros
assinalados por Galileu
existiam, mas eram
detalhes
secundários
que não afetavam de
maneira
alguma
o
conjunto da proposta.
A física de Aristóteles é o
estudo das coisas móveis,
das coisas que mudam (não
apenas de lugar). As coisas
móveis são explicadas por
quatro causas: a causa
material, a causa formal
(que tem a ver com a
essência), a causa eficiente
90
(que tem a ver com o
motor que deu início ao
processo de mudança) e a
causa final (que tem a ver
com a finalidade, com a
explicação metafísica ou
religiosa dos motivos que
levam
uma
coisa
a
acontecer).
Com estas características,
a física de Aristóteles tem
um
forte
componente
qualitativo, diferente da
física de Galileu, Newton,
etc.
que
se
preocupa
principalmente
com
os
aspectos quantitativos.
91
A física de Aristóteles
discute
se
uma
coisa
precisa ser movida para se
mover, mas não descobre
uma única lei do tipo
s = s0 + vt.
Dizer
que
as
coisas
precisam ser movidas não
acende uma lâmpada, mas
serve
para
provar
a
existência de Deus — o que
é suficiente para quem
pode
comprar
uma
lâmpada no supermercado
enquanto diz acreditar que
Galileu não sofreu com a
Inquisição.
92
Entre muitas outras, a
lenda mais deformante
é talvez a de Galileu
Galilei como “mártir da
ciência”, fundador da
ciência experimental e
homem corajoso que
enfrentou a Inquisição
em nome do direito de
investigar a verdade.
Para
começar,
qualquer pesquisador
sério da história das
ciências
sabe
que
Galileu
nunca
raciocinou a partir de
dados experimentais,
93
mas de construções
matemáticas
hipotéticas que depois
ele
legitimava
com
pseudoexperimentos
puramente
imaginários,
jamais
levados à prática, e
usados sempre como
meios de persuasão
retórica,
nunca
de
verificação. Os poucos
experimentos efetivos
que ele realizou foram
todos errados. (...) Em
segundo
lugar,
ele
jamais sofreu pressão
94
ou
intimidação
de
qualquer
natureza.
(...) Por fim, a única
penalidade
que
a
Inquisição lhe impôs
foi
de
uma
benevolência
quase
obscena,
que
hoje
soaria
como
favorecimento
ilícito:
ele foi condenado a
rezar uma vez por
semana, durante três
anos, os sete salmos
penitenciais, podendo
fazê-lo em privado,
95
isto é, sem nenhum
controle da autoridade.
Vale notar que a posição
de Olavo de Carvalho não é
a
posição
da
Igreja
Católica, que, por mais
conservadora que seja, não
vive no século XIII.
O Papa Bento XVI
também entrou nas
celebrações dos 400
anos do primeiro uso
de um telescópio na
astronomia,
pelo
cientista
italiano
Galileu Galilei. (...)
Bento XVI disse que a
96
compreensão das leis
da
natureza
pode
estimular
a
compreensão
e
apreciação
dos
trabalhos
de
Deus.
(...) A Igreja Católica
condenou Galileu, no
século 17, por apoiar a
teoria copernicana de
que a Terra girava ao
redor
do
Sol;
os
ensinamentos
religiosos,
naquela
época, colocavam a
Terra no centro do
universo. Em 1992, o
97
Papa João Paulo II
pediu
desculpas,
dizendo
que
a
condenação de Galileu
foi um trágico erro.
(G1)
98
13. Sobre a física
clássica
Reinaldo Azevedo elogia
Olavo de Carvalho porque
este escreve bastante.
É autor, por exemplo,
da monumental — 32
volumes! — “História
Essencial da Filosofia”
(livros acompanhados
de
DVDs).
Alguns
filósofos de crachá e
livro-ponto
poderiam
ter feito algo parecido
— mas boa parte
estava ocupada demais
99
doutrinando
criancinhas.
Mas quantidade não é
qualidade, como se pode
ver no texto em que Olavo
de
Carvalho
critica
a
primeira lei de Newton,
texto disponível apenas na
internet.
Um
dos
paradoxos
inaugurais dos tempos
modernos
está
na
facilidade sonsa com
que a parte pensante
da Europa aceitou os
dois
princípios
da
mecânica newtoniana
100
— a eternidade do
movimento e a lei de
inércia — sem parar
por um instante sequer
para notar que eram
mutuamente
contraditórios. A física
antiga dizia que um
corpo, se não movido
por outro, tende a ficar
parado.
Newton
contestou
isso,
afirmando que a força
da sua própria inércia
mantém cada corpo
eternamente no seu
estado presente, seja
101
de repouso ou de
movimento retilíneo e
uniforme. Só há um
problema:
se
o
movimento é eterno,
não faz sentido falar
em “estado presente”
a
não
ser
por
referência
a
um
observador
vivo
dotado do sentido da
temporalidade.
Olavo de Carvalho coloca
um problema tipicamente
filosófico, mas comete o
erro primário de criticar
Newton por uma coisa que
102
Newton não escreveu, pelo
menos na obra-prima que
estabelece
a
mecânica
clássica: os Principia —
Princípios matemáticos da
filosofia natural.
Todo
objeto
permanece em seu
estado de repouso ou
de
movimento
uniforme numa linha
reta, a menos que seja
obrigado
a
mudar
aquele
estado
por
forças
imprimidas
sobre ele. (HEWITT.
103
Física
48)
conceitual,
p.
Newton não fala nem em
movimento eterno, nem em
eternidade do movimento;
até porque, para Newton,
três coisas são eternas:
Deus e as duas sequelas da
existência
divina
—
o
tempo
e
o
espaço
absolutos.
E Newton não fala que o
estado de repouso ou de
movimento uniforme numa
linha reta seja infinito, mas,
se falasse, estaria falando
104
do infinito em potência, não
em ato.
Exemplo de infinito em
potência é a era cristã, que
começou há dois mil e
poucos anos e, pelo menos
para os propósitos desta
explicação, não acabará
nunca mais. Exemplo de
infinito em ato é o conjunto
dos
números
naturais
supondo que um deus
onisciente
consiga
visualizar todos os números
de uma vez só.
Mas o texto de Olavo de
Carvalho é tão confuso que
105
merece
um
zero
sem
maiores
explicações.
Quando Olavo de Carvalho
diz que todo movimento é,
por
definição,
uma
mudança ocorrida dentro
de uma escala de tempo, a
expressão ocorrida dentro
de uma escala de tempo é
pura invencionice.
A contradição é tão
flagrante, que chega a
ser escandaloso que
durante tantos séculos
quase
ninguém
a
tenha percebido, ou
pelo menos assinalado
106
expressamente. Porém
a
absurdidade
ostensiva
continha
dentro de si outra
ainda
pior.
Todo
movimento
é,
por
definição,
uma
mudança
ocorrida
dentro de uma escala
de
tempo
determinada. Se você
esticar indefinidamente
os limites do tempo,
não
haverá
mais
diferença
possível
entre a mudança e a
permanência, entre o
107
acontecer e
acontecer.
o
não
O
tempo
absoluto,
verdadeiro e matemático de
Newton não tem relação
com qualquer coisa externa
e é inapreensível. O tempo
relativo, aparente e vulgar
é uma medida do tempo
absoluto
por
meio
do
movimento. Ora, se o
tempo
absoluto
é
inapreensível, não é dele
que Olavo de Carvalho está
falando. Mas não é do
tempo relativo porque o
tempo relativo não pode
108
definir o movimento para
depois ser apreendido a
partir dele.
O problema com a
física de Newton é que,
quando
um
sujeito
aceita
uma
tese
autocontraditória como
se fosse uma verdade
definitiva,
a
contradição
não
percebida se refugia no
inconsciente e danifica
toda
a
inteligência
lógica do infeliz.
Quem duvida da inércia
pode pegar um ônibus e
109
seguir de pé com os braços
cruzados
e
os
olhos
fechados.
110
14. Sobre o ateísmo
de Newton
Segundo
Carvalho:
Olavo
de
Newton não espalhou
só o ateísmo pela
cultura
ocidental:
espalhou o vírus de
uma
burrice
formidável.
Mas Newton não é ateu.
Na Ótica, ele escreve:
[Deus] é mais capaz
por Sua vontade de
mover os corpos em
111
seu sensório uniforme
ilimitado [o espaço]
(...) do que nós somos
capazes, por nossa
vontade, de mover as
partes
de
nossos
próprios
corpos.
(NEWTON. Ótica. São
Paulo: Abril Cultural,
1979. p. 56)
Na segunda carta de sua
correspondência
com
Clarke, Leibniz escreve:
Encontra-se
expressamente
no
apêndice da Ótica de
Newton que o espaço é
112
o sensório de Deus.
Ora,
a
palavra
“sensório”
sempre
significou o órgão da
sensação [para uns o
cérebro, para outros o
coração].
(LEIBNIZ.
Correspondência com
Clarke.
São
Paulo:
Abril Cultural, 1974)
Na
Enciclopédia
ciências filosóficas,
escreve:
das
Hegel
Segundo Newton, o
espaço é o sensório de
Deus.
(HEGEL.
Enciclopédia
das
113
ciências filosóficas em
compêndio, volume 2.
São
Paulo:
Loyola,
1997. p. 64)
Num
livro
em
que
confunde o conceito de
sensório com o de éter, o
bispo
fundador
da
Comunidade
Evangélica
Sara Nossa Terra escreve:
[Newton] dizia que o
espaço era o sensório
de Deus e, portanto,
poderia ser, por seu
caráter
divino,
o
agente transmissor das
forças gravitacionais.
114
(RODOVALHO. Ciência
e fé: o reencontro pela
física quântica. São
Paulo: Leya, 2013)
Mas nem os fatos, nem as
pessoas convencem Olavo
de Carvalho.
Newton não concebeu
sua teoria gravitacional
só
para
explicar
determinados fatos da
natureza — embora ela
ainda seja ensinada
assim
à
população
ginasiana
—,
mas
como parte de um
projeto abrangente de
115
destruir o cristianismo
trinitário e substituí-lo
por uma religião da
“unidade absoluta”, de
inspiração esotérica. É
preciso
ser
muito
sonso para não notar
aí
o
alcance
da
ambição
totalitária
subjacente.
A afirmação de que dois
corpos se atraem na razão
direta do produto de suas
massas e na razão inversa
do quadrado da distância
entre eles não destrói o
cristianismo, destrói apenas
116
as convicções excêntricas
de Olavo de Carvalho.
117
15. Sobre o
darwinismo
Olavo de Carvalho
entende
nem
lamarckismo,
nem
darwinismo.
não
o
o
Darwin não inventou a
teoria da evolução:
encontrou-a
pronta,
sob
a
forma
de
doutrina esotérica, na
obra do seu próprio
avô, Erasmus Darwin,
e
como
hipótese
científica em menções
inumeráveis
118
espalhadas nos livros
de Aristóteles, Santo
Agostinho, São Tomás
de Aquino e Goethe,
entre outros. Tudo o
que fez foi arriscar
uma nova explicação
para essa teoria — e a
explicação
estava
errada. Ninguém mais,
entre
os
autoproclamados
discípulos de Darwin,
acredita em “seleção
natural”. A teoria da
moda,
o
chamado
“neodarwinismo”,
119
proclama que, em vez
de
uma
seleção
misteriosamente
orientada
ao
melhoramento
das
espécies, tudo o que
houve
foram
mudanças aleatórias.
Que eu saiba, o mero
acaso é precisamente
o contrário de uma
regularidade fundada
em
lei
natural,
racionalmente
expressável.
Sobre Erasmus Darwin e
Lamarck:
120
O alicerce mais sólido
para uma teoria da
evolução anterior ao
século
XIX
desenvolveu-se
por
meio das pesquisas e
escritos de Erasmus
Darwin
(1731-1802)
(avô
de
Charles
Darwin)
e
JeanBaptiste
Lamarck
(1744-1829). Erasmus
Darwin era um médico
proeminente
na
Inglaterra,
sendo
conhecido
também
como um pensador
121
radical e inovador. Sua
versão
da
teoria
evolucionista afirmava
que as espécies se
modificavam
adaptando-se ao meio
graças a algum tipo de
esforço
consciente;
esse conceito tornouse conhecido como a
doutrina
das
características
adquiridas.
JeanBaptiste
Lamarck,
contemporâneo
de
Erasmus Darwin, foi o
mais conhecido dos
122
dois, e defendia uma
filosofia evolucionista
semelhante. (...) Em
sua obra publicada em
1809,
Filosofia
zoológica, ele expôs
dois princípios que a
seu ver explicavam a
enorme variedade e
desenvolvimento
das
formas de vida: os
órgãos aperfeiçoam-se
com
o
uso
e
enfraquecem com a
falta de uso; essas
mudanças
são
preservadas
nos
123
animais e transmitidas
à prole. Por exemplo,
Lamarck
acreditava
que as girafas têm
pescoço longo porque
se
esticam
para
alcançar folhas nas
árvores. Esse conceito
era uma espécie de
“darwinismo invertido”,
no qual a criatura
controla seu próprio
destino em vez de o
meio criar a criatura.
Eram conjecturas, sem
base
em
uma
abordagem
ou
124
comprovação
científica. A versão
lamarckiana
da
doutrina
das
características
adquiridas era uma
combinação das ideias
do próprio Lamarck
sobre o plano de Deus
e da Escala do Ser de
Aristóteles.
Lamarck
escreveu que a vida
ascendia a níveis mais
elevados
para
aperfeiçoar a Criação.
(BRODY.
As
sete
maiores
descobertas
125
científicas da história.
São Paulo: Companhia
das Letras, 1999. p.
234)
Sobre Charles Darwin:
Em
posse
das
observações
de
Malthus [de que a
população humana e a
demanda
sempre
excederiam a produção
de alimentos e outros
bens
necessários],
[Charles]
Darwin
aplicou-as
às
suas
próprias observações
sobre
as
espécies
126
vegetais e animais.
Reconheceu
que
o
potencial reprodutivo
das plantas e animais
excede
substancialmente
a
razão necessária para
manter a população
dessas
plantas
e
desses animais em um
nível constante, porém
ainda assim o tamanho
dessas
populações
permanece
razoavelmente
constante. Com base
nisso, Darwin concluiu
127
que as plantas e os
animais
que
sobrevivem à acirrada
competição
entre
todos os seres vivos
têm de ser mais bem
equipados para viver
em seu meio específico
do que aqueles que
não
sobrevivem.
Predadores lutam por
território
e
presas,
animais
de
pastio
buscam as melhores
terras, a vida vegetal
compete por espaço no
qual
expandir-se
e
128
proliferar, os machos
de muitas espécies
lutam pelo direito às
fêmeas. Prevalecem os
mais
rápidos,
mais
fortes e mais espertos,
e essas características
vitais são herdadas por
seus descendentes. A
seleção
natural
permite
que
as
mudanças
que
favorecem
a
sobrevivência
sejam
passadas adiante e
elimina as mudanças
desfavoráveis. Embora
129
a ciência da genética
ainda não existisse,
Darwin presumiu que
qualidades essenciais
do ser sobrevivente,
fosse ele predador,
animal
de
pastio,
vegetal
ou
conquistador
da
fêmea, eram de algum
modo transmitidas em
sua semente. (BRODY.
As
sete
maiores
descobertas científicas
da história. São Paulo:
Companhia das Letras,
1999. p. 245)
130
Resumindo:
Charles
Darwin não encontrou a
teoria da evolução pronta.
Desenhando: O acaso e a
seleção natural são dois
momentos
distintos
da
evolução. As girafas que
têm,
POR
ACASO,
o
pescoço um pouco mais
comprido são favorecidas
pela SELEÇÃO NATURAL e
acabam gerando filhotes
que
têm
a
tendência
(genética) de ter o pescoço
mais comprido.
Vale notar (porque o texto
citado não é tão claro em
131
relação a isto) que a
seleção
natural
não
privilegia os melhores no
sentido
que
Olavo
de
Carvalho
parece
usar,
privilegia
os
mais
adaptados.
Numa área invadida por
predadores desconhecidos,
as presas mais covardes
talvez tenham mais chance
de
sobreviver.
Numa
população em que alguns
morcegos têm o cérebro
maior e outros têm os
testículos maiores, se a
vantagem dos primeiros
132
para
sobreviver
for
pequena e a vantagem dos
últimos para reproduzir for
grande, a seleção natural
privilegiará o tamanho dos
testículos.
Puramente
farsesco,
no entanto, é o esforço
geral para camuflar a
ideologia genocida que
está
embutida
na
própria lógica interna
da teoria da evolução.
Quando os apologistas
do cientista britânico
admitem a contragosto
que a evolução “foi
133
usada” para legitimar o
racismo
e
os
assassinatos
em
massa, eles o fazem
com
monstruosa
hipocrisia.
Não é porque a natureza
apresenta
aspectos
moralmente
reprováveis
que devemos fingir que as
coisas não são como são. O
leão macho que toma o
território de outro leão
macho mata os filhotes do
perdedor para que as
fêmeas se ocupem apenas
da prole do leão que
134
venceu. Quando Darwin
descobre a seleção natural,
descobre uma regra que,
ou não foi deliberadamente
criada,
ou
foi
deliberadamente criada por
Deus.
Se o darwinismo foi usado
para legitimar o racismo e
os assassinatos em massa,
a religião também foi. E
nenhum dos dois deve ser
abolido por causa disso.
135
16. Sobre Kant
O curso de bacharelado
em filosofia da USP não é
enciclopédico. Não começa
com os pré-socráticos, não
discute dezenas e dezenas
de filósofos como as duas
mil e setecentas páginas da
História da filosofia de
Reale e Antiseri.
Tem aluno que lê Platão,
tem
aluno
que
lê
Aristóteles; tem aluno que
lê Agostinho, tem aluno
que lê Tomás de Aquino;
tem aluno que lê Hobbes,
tem aluno que lê Rousseau.
136
Mas todos leem Kant.
Todos leem a Crítica da
razão pura.
O primeiro e o mais
básico
dos
limites
assinalados por Kant é
que
o
campo
da
experiência
está
circunscrito pelas duas
formas a priori da
sensibilidade, o espaço
e o tempo. Mas aquilo
que está num lugar
determinado
está
também, a fortiori, no
infinito supraespacial;
e aquilo que ocorre
137
num
instante
determinado acontece
também, a fortiori,
dentro da eternidade
— duas necessidades a
priori das mais óbvias
que, por si, dariam por
terra com os famosos
limites que a filosofia
crítica
procurava
estabelecer.
O que Kant diz, muito
resumidamente, é que as
noções de espaço e tempo
são anteriores a qualquer
experiência (não é vendo o
tempo passar que você
138
percebe o que o tempo é) e
que
toda
experiência
acontece no espaço e no
tempo.
Olavo de Carvalho diz que
o que está no espaço está
no infinito supraespacial;
que o que está no tempo
está na eternidade; e que
tudo isto é muito óbvio.
O primeiro erro de Olavo
de Carvalho é imaginar que
os problemas do espaço e
do tempo se correspondem
com perfeição. O espaço e
o
tempo
podem
ser
absolutos
ou
relativos,
139
finitos ou infinitos, mas a
noção de eternidade não
tem um equivalente como
este
negócio
chamado
infinito supraespacial.
Isto
acontece,
entre
outros motivos, porque a
relação que se estabelece
no espaço é entre sujeitos
(coisas) e a relação que se
estabelece no tempo é
entre
predicados
(acontecimentos). Supondo
que o espaço e o tempo
sejam
infinitos,
por
exemplo, o espaço inteiro
existe, mas o tempo não —
140
porque, pelo menos em
princípio, o passado existiu
e o futuro existirá.
Quando se supõe que
Deus criou o espaço e o
tempo, a pergunta difícil é
o que Deus fazia antes da
criação?, não onde Deus
estava?
porque,
sendo
imaterial, não estava em
lugar nenhum.
Agostinho
tratou
da
primeira
questão
mostrando uma eternidade
e
um
tempo
incomensuráveis entre si.
Deus é na eternidade (fora
141
do tempo) e o homem é no
tempo (fora da eternidade).
Mal comparando, Deus está
para o nosso tempo assim
como o autor de um
romance está para o tempo
vivido pelos personagens
da obra literária. Numa
passagem
bastante
conhecida das Confissões,
Agostinho argumenta que
não faz sentido perguntar o
que Deus fazia antes de
criar o céu e a terra porque
antes
diz
respeito
ao
tempo, não à eternidade
divina.
142
Eis a minha resposta
àquele que pergunta:
“Que fazia Deus antes
de criar o céu e a
terra?”
Não
lhe
responderei
(...)
“Preparava
(...)
a
geena [o inferno] para
aqueles
que
perscrutam
estes
profundos mistérios!”
(...) Se pelo nome de
“céu
e
terra”
se
compreendem todas as
criaturas, não temo
afirmar que antes de
criardes o céu e a terra
143
não
fazíeis
coisa
alguma.
Pois,
se
tivésseis feito alguma
coisa, que poderia ser
senão criatura vossa?
Oxalá
eu
soubesse
tudo o que me importa
conhecer, como sei
que Deus não fazia
nenhuma
criatura
antes que se fizesse
alguma criatura! (...)
Como poderiam ter
passado
inumeráveis
séculos, se Vós, que
sois o Autor e o
Criador de todos os
144
séculos, ainda os não
tínheis criado? Que
tempo poderia existir
se
não
fosse
estabelecido por Vós?
E como poderia esse
tempo decorrer, se
nunca tivesse existido?
(...)
Se
antes
da
criação do céu e da
terra não havia tempo,
para que perguntar o
que fazíeis então? Não
podia haver “então”
onde não havia tempo.
(AGOSTINHO.
Confissões. São Paulo:
145
Nova Cultural,
p.320)
1999.
Embora
seja
muita
informação
para
pouco
espaço,
não
dá
para
duvidar que o que Olavo de
Carvalho diz ser óbvio não
tem nada de óbvio.
Mais falaciosa ainda é
a refutação kantiana
do argumento de Sto.
Anselmo. Sto. Anselmo
diz que a existência de
Deus é autoevidente
por mera análise, de
vez que o Ser infinito e
necessário não poderia
146
ser
privado
da
existência, sendo toda
privação
uma
limitação, contraditória
portanto
com
a
infinitude,
e
a
possibilidade
mesma
de
uma
limitação
sendo
uma
contingência,
contraditória com a
necessidade.
O argumento de Anselmo
é o seguinte:
O insipiente há de
convir igualmente que
existe
na
sua
147
inteligência “o ser do
qual não se pode
pensar nada maior”,
porque
ouve
e
compreende
essa
frase; e tudo aquilo
que se compreende
encontra-se
na
inteligência. Mas “o ser
do qual não é possível
pensar nada maior”
não
pode
existir
somente
na
inteligência. Se, pois,
existisse apenas na
inteligência, poder-seia pensar que há outro
148
ser existente também
na realidade; e que
seria
maior.
Se,
portanto, “o ser do
qual não é possível
pensar nada maior”
existisse somente na
inteligência,
este
mesmo ser, do qual
não se pode pensar
nada maior, tornar-seia o ser do qual é
possível, ao contrário,
pensar algo maior: o
que, certamente, é
absurdo. Logo, “o ser
do qual não se pode
149
pensar nada maior”
existe, sem dúvida, na
inteligência
e
na
realidade. (ANSELMO.
Proslógio. São Paulo:
Nova Cultural, 1973. p.
102)
O que Kant diz é que a
suposta
existência
necessária de Deus não
passa de uma existência
pensada. Não é porque
penso no ser que existe
necessariamente que ele
existe necessariamente.
Kant
dá
pressuposto,
por
nessa
150
objeção, que nossa
mente pode criar como
mera
hipótese
o
conceito de um ser
absolutamente
necessário, ou seja,
que este conceito pode
ser
um
mero
“conteúdo”
do
pensamento.
Sim.
Ou seja: o conceito do
ser necessário seria
apenas
hipoteticamente
necessário.
151
Não: o conceito do ser
necessário seria apenas
uma hipótese.
Só que, para esse
conceito ser apenas e
exclusivamente
uma
criação
da
nossa
mente, sem qualquer
realidade objetiva, ele
teria
de
ser
necessariamente
hipotético, ou seja,
teria
de
excluir
totalmente
a
possibilidade de ser
mais
que
mera
hipótese. Ora, esta
152
exclusão
autocontraditória.
é
Kant não diz que Deus
não existe. Diz apenas que
o argumento ontológico não
prova esta existência.
Mais que logicamente
certo, o argumento
ontológico
é
autoevidente.
Não é.
Denomino
autoevidente o juízo
que não pode ter uma
contraditória unívoca,
ou
seja,
cuja
153
contraditória não é
sequer formulável sem
o vício redibitório da
ambiguidade. Que eu
saiba,
esta
característica
dos
juízos
autoevidentes
não
tinha
sido
ressaltada até agora.
No
caso,
qual
a
contraditória do juízo
“O
ser
necessário
existe
necessariamente”?
É
“O
ser
necessário
inexiste
necessariamente”
ou
154
“A existência do ser
necessário
não
é
necessária”?
Impossível decidir.
Qual a contraditória do
juízo Papai Noel existe
necessariamente? É Papai
Noel
inexiste
necessariamente
ou
A
existência do Papai Noel
não é necessária?
A
contraditória
do
argumento
de
Sto.
Anselmo
é
informulável. Rejeitar
portanto
esse
argumento é abdicar
155
do senso mesmo da
unidade do discurso, é
cair
na
linguagem
dupla que terminará
por nos levar aonde
chegou Kant.
Papai Noel existe!
156
17. Herrar é umano
Espero ter errado pouco,
nos
argumentos
e
no
português, mas gostaria de
deixar claro que este não é
um livro filosófico.
A filosofia de verdade é
detalhista
e
trabalhosa.
Começa com os autores
consagrados e só depois
segue em frente. A Crítica
da razão pura dialoga com
Leibniz e Hume citando
Platão,
Aristóteles,
Descartes, Hobbes, Locke.
157
18. Um pouco de
filosofia
Quem
quer
dar
os
primeiros
passos
na
filosofia pode começar com
a primeira parte de Uma
breve história da filosofia
moderna de Roger Scruton,
com
as
Meditações
metafísicas de Descartes e
com a segunda parte de
Uma breve história da
filosofia moderna de Roger
Scruton. Começar com Kant
(Crítica da razão pura,
Crítica da razão prática,
158
Crítica do juízo) ou Hegel
(Ciência
da
lógica,
Fenomenologia do espírito)
é impraticável.
Os capítulos seguintes
mostram dois trechos da
primeira antinomia de Kant
e um pouco do que já
escrevi.
159
19. O tempo na
primeira antinomia
de Kant
Tese: O mundo tem um
começo no tempo.
Admita-se
que
o
mundo não tem um
começo no tempo; até
qualquer instante dado
decorreu
uma
eternidade e deu-se,
por
conseguinte,
o
decurso de uma série
infinita
de
estados
sucessivos das coisas
no mundo. Ora, a
160
infinitude de uma série
consiste precisamente
em nunca poder ser
terminada por síntese
sucessiva.
Sendo
assim, é impossível
uma
série
infinita
decorrida no mundo e,
consequentemente,
um começo do mundo
é condição necessária
da
sua
existência.
(KANT. Crítica da razão
pura. Lisboa: Calouste
Gulbenkian, 2001)
161
Antítese: O mundo não
tem um começo; é infinito
no tempo.
Suponhamos,
com
efeito, que o mundo
tem um começo. Como
o
começo
é
uma
existência precedida de
um tempo em que a
coisa não é, tem que
ter
decorrido
previamente um tempo
em que o mundo não
era,
ou
seja,
um
tempo vazio. Ora, num
tempo vazio não é
possível o nascimento
162
de
qualquer
coisa,
porque nenhuma parte
de um tal tempo tem
em si, de preferência a
outra,
qualquer
condição que distinga
a existência e a faça
prevalecer sobre a não
existência (quer se
admita
que
essa
condição surja por si
mesma ou através de
uma
outra
causa).
Podem,
por
conseguinte, começar
no mundo várias séries
de coisas, mas o
163
próprio mundo não
pode ter começo e é
pois infinito em relação
ao tempo passado.
(KANT. Crítica da razão
pura. Lisboa: Calouste
Gulbenkian, 2001)
164
20. A origem do
universo na física
contemporânea
A teoria do big bang parte
de
duas
constatações
empíricas. A primeira diz
que as galáxias estão se
afastando umas das outras
e que o universo, portanto,
está
em
expansão.
A
segunda diz que existe uma
radiação cósmica de fundo
e que esta radiação mostra
que o universo se comporta
como se fosse um corpo
negro homogêneo com 270
165
graus
negativos
de
temperatura.
Estes fatos, interpretados
pelos
modelos
teóricos
derivados da relatividade
geral, sugerem que o
universo
esteve
concentrado
num
único
ponto há pouco menos de
14 bilhões de anos e que,
neste ponto, com volume
zero
e
densidade
de
energia
infinita,
foram
criados o espaço e o tempo.
Se o Timeu (de Platão) e o
Gênesis (da Bíblia) falham
categoricamente
na
166
tentativa de explicar o
começo de tudo, o big bang
não deixa por menos. O
que a teoria diz é que
rodando
o
filme
da
expansão do universo para
trás, o todo ocupa um único
ponto
antes
de
desaparecer.
Rodando o filme para trás,
no entanto, o universo tão
pequeno quanto se queira
não chega ao tamanho de
um único ponto porque o
ponto, por definição, é
adimensional.
167
Por outro lado, dizer que
os corpos celestes estão se
afastando é diferente de
dizer que o espaço ou o
espaço-tempo estão em
expansão. Dizer que o
tempo é algo em si já é
temerário. Dizer que o
espaço-tempo surgiu num
momento que, no fim das
contas,
é
tão
mágico
quanto o momento da
criação do mito platônico
ou da religião cristã não se
justifica.
Esse
modo
de
descrever a criação, os
168
momentos iniciais do
universo,
tem
seu
análogo em diversas
religiões
que
identificam em suas
cosmogonias o tempo
mítico/mágico no qual
os
deuses
se
debruçaram para além
de
suas
atividades
usuais
a
fim
de
empreender a criação
do
mundo.
Na
comunidade
judaicocristã, em particular, a
ideia de um começo
único
e
singular
169
pareceu a muitos –
incluindo o Papa Pio
XII – uma descrição
científica da criação do
universo
bastante
aceitável
e
até
desejável, posto que
de fácil adaptação aos
ensinamentos de livros
religiosos
fundamentais, como a
Bíblia. (NOVELLO. Do
big bang ao universo
eterno. Rio de Janeiro:
Zahar, 2010. cap. 1)
As teorias do universo
eterno dizem que a história
170
do universo não começa no
átomo primordial previsto
pela teoria do big bang: ou
a
expansão
atual
do
universo
tem
infinitos
séculos ou o momento
mágico de 14 bilhões de
anos atrás foi apenas o
ponto de inflexão mais
recente de um universo que
se expande e se retrai
também
há
infinitos
séculos.
Não
é
razoável,
no
entanto, imaginar que um
tempo
infinito
tenha
transcorrido
porque
o
171
infinito é problemático até
na
abstração
da
matemática.
Wittgenstein
pergunta,
por exemplo, se o conjunto
dos
infinitos
números
naturais existe de fato ou
não passa de uma regra
geradora
de
números
indefinidamente grandes.
De
forma
semelhante,
mas paradoxal, poderíamos
perguntar
se
Deus
conseguiria somar todos os
números naturais – porque
o resultado esperado seria
um número natural maior
172
do que cada um dos
números somados, ou seja,
um número natural que
Deus não conseguiu colocar
na
soma
proposta
inicialmente.
173
21. O tempo na
física
contemporânea
A mecânica quântica não
explica o que o tempo é
porque
apresenta
resultados
tão
contraintuitivos que tende a
ser
reconhecida
apenas
como um modelo que
funciona.
Não
é
fácil
compatibilizar o realismo
científico com situações
típicas
da
mecânica
quântica, como a do fóton
174
que às vezes é partícula, às
vezes é onda.
Um sistema quântico
ou
exibe
aspectos
corpusculares
(seguindo
trajetórias
bem
definidas),
ou
aspectos ondulatórios
(como a formação de
um
padrão
de
interferência),
dependendo do arranjo
experimental,
mas
nunca
ambos
ao
mesmo
tempo.
(PESSOA JR. Conceitos
de física quântica. São
175
Paulo: Editora Livraria
da Física, 2003. p. 18)
Bohr
e
Heisenberg
propõem que a realidade
corpuscular e a realidade
ondulatória coexistem até
que uma seja obrigada a se
manifestar. Einstein, Planck
e
Schrödinger
não
se
convencem.
Em 1935, Schrödinger
preocupava-se com a
interpretação
de
Copenhague. Ele podia
ver que ela funcionava,
num nível pragmático,
para
sistemas
176
quânticos
como
elétrons ou fótons. Mas
o mundo em volta,
ainda que, bem no
fundo, fosse apenas
uma massa fervilhante
de
partículas
quânticas,
parecia
diferente.
Buscando
uma forma de deixar a
diferença mais clara
possível, Schrödinger
apresentou
um
experimento mental no
qual
uma
partícula
quântica
tinha
um
efeito
dramático
e
177
óbvio sobre um gato.
Imagine uma caixa
que, quando fechada,
seja impenetrável a
toda
e
qualquer
interação
quântica.
Dentro dela, coloque
um átomo de material
radiativo, um detector
de radiação, um frasco
de veneno e um gato
vivo. Agora feche a
caixa e espere. Em
algum
momento
o
átomo radiativo sofrerá
decaimento, emitindo
uma
partícula
de
178
radiação. O detector
está acionado de tal
maneira
que
ao
registrá-lo provoca a
quebra
do
frasco,
liberando o veneno no
seu interior. Isso mata
o gato. Na mecânica
quântica, o decaimento
de um átomo radiativo
é um evento aleatório.
Do
lado
de
fora,
nenhum
observador
pode dizer se o átomo
decaiu ou não. Se
decaiu, o gato está
morto; senão, está
179
vivo.
Segundo
a
interpretação
de
Copenhague,
até
alguém
observar
o
átomo, ele está numa
superposição de dois
estados
quânticos:
decaído e não decaído.
O mesmo vale para os
estados do detector,
do frasco e do gato.
Logo, o gato é uma
superposição de dois
estados: vivo e morto.
(STEWART. Dezessete
equações
que
mudaram o mundo.
180
Rio de Janeiro: Zahar,
2013. p. 301)
O paradoxo do gato (entre
outros)
demanda
explicações complexas que,
quando
colocadas
em
cheque,
demandam
explicações
ainda
mais
complexas, num processo
interminável.
Kant diz que a metafísica
é dogmática porque não
examina
suas
próprias
possibilidades
antes
de
especular sobre Deus ou
sobre a liberdade. A física
contemporânea
é
mais
181
dogmática
que
a
precedente neste aspecto.
O desfecho é que a
função de onda do
gato
não
precisa
colapsar
para
contribuir com uma
observação
clássica
única.
Ela
pode
permanecer totalmente
inalterada, sem violar
a
equação
de
Schrödinger. Em vez
disso, existem dois
universos coexistentes.
Num deles, o gato
morre; no outro, não
182
morre. Quando você
abre
a
caixa,
há
correspondentemente
dois vocês e duas
caixas. Um deles é
parte da função de
onda de um universo
com um gato morto; o
outro é parte de uma
função
de
onda
diferente,
com
um
gato vivo. Em lugar de
um mundo clássico
único que de algum
modo
emerge
da
superposição
de
possibilidades
183
quânticas, temos uma
vasta gama de mundos
clássicos,
cada
um
correspondendo a uma
possibilidade quântica.
(STEWART. Dezessete
equações
que
mudaram o mundo.
Rio de Janeiro: Zahar,
2013. p. 308)
O
mais
razoável
é
considerar que o tempo, na
mecânica quântica, seja
apenas a variável t das
equações
da
mecânica
quântica
–
uma
representação, um modo
184
bastante
pensar.
específico
de
A mecânica quântica
(...)
descreve
o
comportamento
dos
átomos
e
das
partículas
subatômicas, e nos
revelou
um
mundo
microscópico em que
espaço e tempo se
manifestam
apenas
como
variáveis
matemáticas, e onde
conceitos
como
medição e realidade
física
perdem
seu
185
sentido
habitual.
(HACYAN.
Física
y
metafísica del espacio
y el tiempo. Cidade do
México:
Fondo
de
Cultura
Económica,
2011. Introdução)
O tempo da relatividade é
relativo porque tem uma
relação
(no
sentido
matemático do termo) com
a velocidade do referencial
adotado, relação que se
expressa
pelas
transformações de Lorentz
na relatividade restrita e
pelas equações de campo
186
de Einstein na relatividade
geral.
Rigorosamente falando, a
relatividade não diz o que o
tempo é, diz como ele
funciona,
tornando
igualmente válida a crítica
que fizemos à mecânica
quântica.
As
coisas
que
são
indescritíveis
na
matemática
e
experimentalmente
inverificáveis
não
são
objeto de estudo nem da
relatividade em particular,
nem
da
física
187
contemporânea de maneira
geral.
Além disso, embora os
resultados da relatividade
não sejam tão estranhos
quanto os da mecânica
quântica,
o
tempo
da
relatividade é apenas uma
das
dimensões
da
abstração matemática que
é o espaço-tempo.
A teoria da relatividade
especial [ou restrita],
de 1905, foi o ponto
culminante de uma
longa
aventura
do
pensamento,
188
unificando a descrição
da física, ao fundir o
espaço tridimensional
ao tempo e formar
uma
nova
unidade
chamada
estrutura
espaço-tempo.
A
geometria
desse
espaço-tempo consiste
em uma configuração
rígida, imóvel, capaz
de servir de arena ou
pano de fundo para
todos os processos
físicos. Na relatividade
geral,
matéria
e
energia sob qualquer
189
forma influenciam as
propriedades
geométricas do espaço
e do tempo. Tudo se
passa
como
se
o
espaço-tempo
fosse
uma substância com
propriedades elásticas
afetadas pelos corpos
materiais, produzindo
sulcos e reentrâncias
nessa
estrutura,
modificando assim o
movimento dos corpos
em
interação.
(NOVELLO.
Do
big
bang
ao
universo
190
eterno. Rio de Janeiro:
Zahar, 2010. cap. 3,
comentário C)
O espaço-tempo não é
algo
que
possa
ser
encontrado, como o bóson
de Higgs. É uma estrutura
tão verdadeira quanto as
esferas do sistema do
mundo ptolomaico.
Para
explicar
os
movimentos
planetários,
os
astrônomos
criaram
sistemas de círculos
(ou esferas) que se
movem sobre outros
191
círculos (ou esferas). O
círculo
principal
associado a cada astro,
que serve de base para
o
movimento
dos
outros
círculos
menores, é chamado
deferente (ou seja:
transportador).
O
centro do deferente
poderia coincidir com o
centro da Terra ou ele
poderia ser excêntrico.
Os círculos ou esferas
menores,
que
se
apoiam
sobre
o
deferente,
são
192
denominados epiciclos.
Um
movimento
relativamente simples
pode ser descrito por
um deferente com um
único epiciclo. Outros,
mais
complexos,
exigem vários epiciclos
– um se apoiando
sobre
o
outro.
(COPÉRNICO.
Commentariolus. São
Paulo: Nova Stella,
1990. p. 52)
Não seria um despropósito
se a dilatação do tempo
propalada pela relatividade
193
fosse
questionada.
No
clássico experimento do
múon, por exemplo, a
dualidade partícula-onda é
desprezada; o decaimento
aleatório é tomado como
relógio; e a teoria que
sustenta
as
medições
realizadas é justamente a
teoria que o experimento
se propõe a provar.
Estudos
mais
detalhados têm sido
feitos
envolvendo
partículas
instáveis
chamadas múons, que
são criadas na alta
194
atmosfera,
a
uma
altura em torno de 60
km,
quando
raios
cósmicos
de
alta
energia colidem com
moléculas
do
ar.
Experimentos
realizados
em
laboratório revelaram
que
os
múons
estacionários decaem
com uma meia-vida de
1,5 μs, isto é, metade
dos múons decai em
1,5 μs, enquanto a
metade
dos
que
restaram decairá no
195
próximo 1,5 μs e assim
por
diante.
Os
decaimentos
podem
ser usados como um
relógio.
Os
múons
movem-se
pela
atmosfera
a
uma
velocidade
bem
próxima da velocidade
da luz (...) portanto
(...) apenas 1 em
1.040 múons deveria
chegar
ao
solo.
Todavia, de fato, os
experimentos
revelaram
que
aproximadamente
1
196
em cada 10 múons
chegava ao solo. (...)
Essa
discrepância
deve-se à dilatação
temporal.
(KNIGHT.
Física: uma abordagem
estratégica, volume 4.
São Paulo: Bookman,
2009. p. 1159)
Se o tempo na mecânica
quântica é apenas o que se
tem nas equações daquela
metade da física, o tempo
da relatividade é o tempo
das
transformações
de
Lorentz (na relatividade
restrita) e das equações de
197
campo de Einstein (na
relatividade geral).
Nos três casos, o que se
tem não é uma descrição
com
pretensões
ontológicas, apenas uma
ferramenta que funciona
para os problemas que
cada pedaço da física se
dispõe a resolver.
Quando
os
físicos
contemporâneos têm um
problema
que
envolve
dimensões reduzidíssimas
(menores
do
que
um
átomo), usam a mecânica
quântica, suas fórmulas e a
198
variável tempo que estas
fórmulas expressam.
Quando estes mesmos
físicos têm um problema
que envolve velocidades
próximas à velocidade da
luz, usam a relatividade
restrita ou a relatividade
geral. A relatividade restrita
tem cálculos mais simples
porque não considera a
existência
de
campos
gravitacionais.
A
relatividade
geral
tem
cálculos mais complexos e
só é usada quando os
campos gravitacionais não
199
podem
desconsiderados.
ser
200
22. Sobre mim
Tenho 44 anos e sou um
consultor de informática
especializado em pesquisas
de
remuneração
e
no
gerenciamento
eletrônico
de documentos.
Pela
Escola
Técnica
Federal de São Paulo, sou
técnico em processamento
de
dados.
Pela
Universidade
Mackenzie:
tecnólogo
em
processamento de dados,
licenciado para o ensino
médio e especialista em
didática do ensino superior.
201
Pela Universidade de São
Paulo:
bacharel
e
mestrando em filosofia.
Não gosto do PT, nem
morro de amores pelo
PSDB. Em 2012, pedi o
impeachment
de
Dias
Toffoli.
HÉLIO RICARDO DE
SOUZA PIMENTEL (...)
vem (...) representar
pelo impeachment do
Ministro
JOSÉ
ANTONIO
DIAS
TOFFOLI, do Supremo
Tribunal Federal, por
crime
de
202
responsabilidade,
consoante os fatos de
conhecimento público
a seguir descritos. (...)
Esperava-se
que
o
Ministro DIAS TOFFOLI
se
afastasse
do
processo, declarandose
suspeito,
pela
absoluta
falta
de
isenção para julgar
fatos
criminosos
imputados ao seu exchefe,
especialmente
porque certas condutas
criminosas teriam sido
praticadas no âmbito
203
da
Casa
Civil
no
mesmo período em
que o representado
exercia
função
de
confiança no referido
órgão. (...) Ora, em
razão do cargo que
ocupava
e
da
proximidade com o
principal
réu
do
processo,
o
representado poderia,
circunstancialmente,
ter figurado como réu
ou testemunha desse
caso, de tal sorte que
sua opção de julgar o
204
Mensalão se afigura
indefensável, moral e
juridicamente. (...)
205
23. Papai Noel existe
mesmo!
Quando Olavo de Carvalho
diz que Obama é um
partidário fervoroso (...) da
rendição
incondicional
[americana] ante qualquer
poder nuclear estrangeiro,
o absurdo é grande demais
para ser levado a sério;
grande demais para se
formular um argumento
contrário. Quando diz que
sou
um
analfabeto
funcional, que me mandar
à merda é pleonasmo, que
206
sou um bosta, que tenho
problemas mentais, seu
objetivo é inviabilizar o
debate transformando a
discussão que poderia ser
filosófica em molecagem. É
por isso que insisto na
discussão do conceito de
juízo autoevidente.
O capítulo 16 mostrou que
Olavo
de
Carvalho
considera
autoevidente
todo juízo que não pode ter
uma contraditória unívoca.
No
caso,
qual
a
contraditória do juízo
“O
ser
necessário
207
existe
necessariamente”?
É
“O
ser
necessário
inexiste
necessariamente”
ou
“A existência do ser
necessário
não
é
necessária”?
Impossível decidir.
O capítulo 16 mostrou
também que, segundo a
filosofia
de
Olavo
de
Carvalho, o juízo Papai Noel
existe necessariamente é
tão autoevidente quanto O
ser
necessário
existe
208
necessariamente
ou
X
existe necessariamente.
Olavo de Carvalho sentiu
o estrago que a questão
pode fazer em sua fama de
filósofo e tentou rebater os
argumentos.
www.facebook.com/ola
vo.decarvalho/posts/1
0152217393637192
Primeiro fez considerações
que não dizem respeito ao
conceito
de
juízo
autoevidente.
O sr. Hélio Pimentel é
manifestamente
209
incapaz de perceber a
diferença
entre
o
conceito universal de
um ser necessário e o
nome de um ente
contingente qualquer.
O conceito de “ser
necessário” postula por
si mesmo a existência,
cabendo
portanto,
como contraditória do
juízo modal que afirma
a sua necessidade,
seja negar o modo,
seja negar a validade
do conceito mesmo; e
o
juízo
“o
ser
210
necessário não existe
necessariamente” tem
inevitavelmente
esse
duplo
sentido.
Do
mesmo modo, “a = a”
afirma
simultaneamente, seja
a identidade de dois
signos abstratos, seja
a dos entes que eles
designam,
mas,
quando dizemos “a ≠
a”,
é
impossível
discernir de imediato,
da simples formulação
da
sentença,
se
estamos afirmando a
211
existência
de
uma
autocontradição
no
próprio ente designado
por
“a”
ou,
ao
contrário, uma simples
denominação equívoca
que nomeia com um
mesmo
signo
dois
entes diversos. Por
isso é que digo que os
juízos auto-evidentes
não
têm
uma
contraditória unívoca.
Depois, desdenhou meus
argumentos.
Para contestá-lo, o sr.
Pimentel cria o juízo
212
“Papai
Noel
existe
necessariamente” e diz
que pode ter duas
contraditórias:
“A
existência de Papai
Noel não é necessária”
e
“Papai
Noel
necessariamente
inexiste”. Donde ele
conclui,
com
ares
triunfantes, que meu
método
leva
à
conclusão de que Papai
Noel existe.
Depois, desviou o foco da
discussão.
213
Há obviedades que não
deveria ser necessário
explicar, que deveriam
ser
apreendidas
intuitivamente,
num
relance,
por
uma
espécie
de
instinto
lógico que todos os
seres humanos têm. A
tragédia
do
analfabetismo
funcional é justamente
que ele bloqueia esse
instinto e coloca em
seu
lugar
o
automatismo
das
combinações
verbais
214
postiças que, aos olhos
do seu inventor, têm a
força
probante
de
verdadeiras
demonstrações lógicas,
quando na verdade só
provam uma completa
incapacidade
de
raciocinar.
Num
primeiro instante, uma
dessas
combinações
pode
confundir
momentaneamente o
ouvinte desprevenido,
que antevê nelas algo
de errado mas nem
sempre sabe dizer de
215
imediato onde o erro
está. Neste caso, é
preciso decompor o
juízo imbecil nos seus
elementos para que a
imbecilidade apareça,
com
todo
o
seu
esplendor, à plena luz
do dia. É por isso que
digo que discutir com
imbecis
pode
aprimorar
a
nossa
expressão
verbal,
obrigando-nos
a
transpor em palavras o
que antes estávamos
acostumados
a
216
apreender
somente
num relance intuitivo
mudo.
Por fim, tentando ou
fingindo argumentar, disse
uma coisa óbvia (sobre a
diferença entre Deus e
Papai Noel) e chegou à
conclusão de que só existe
uma contraditória para a
proposição
Papai
Noel
existe necessariamente.
Ao
contrário
do
conceito
de
“ser
necessário”, o conceito
de “Papai Noel” não
implica, por si mesmo,
217
a
existência.
É
o
conceito de um ente
que pode existir ou
não existir. Logo, um
juízo
modal
que
qualifique
a
sua
existência
como
contingente
ou
necessária só pode ser
formulado
DEPOIS
QUE A EXISTÊNCIA
DESSE ENTE TENHA
SIDO
AFIRMADA
COMO
REALIDADE
EMPÍRICA. Portanto, a
afirmação “Papai Noel
existe
218
necessariamente”
só
pode ser contraditada
por um juízo que
negue a necessidade
dessa existência, não a
existência
mesma,
como
acontece
na
contraditória de “o ser
necessário
existe
necessariamente”. Dito
de outro modo, em “o
ser necessário existe
necessariamente”,
o
modo
decorre
logicamente do próprio
conceito, de maneira
que,
pela
mesma
219
negativa,
pode-se
negar seja o modo,
seja o conceito. Isso
não
acontece
na
sentença “Papai Noel
existe
necessariamente”.
A
contraditória
desta
última só pode negar a
modalidade,
não
a
existência. “Papai Noel
existe
necessariamente” tem
uma
e
uma
só
contraditória,
“A
existência de Papai
Noel
não
é
220
necessária”,
duas.
e
não
Ao vivo, no Facebook,
Olavo de Carvalho mudou
de
ideia.
Confrontado
algumas vezes com a
questão,
disse
que
a
proposição
Papai
Noel
existe necessariamente não
faz sentido — quando é
óbvio que a proposição é
apenas falsa.
Assim, Papai Noel existe
necessariamente (que tinha
uma
e
uma
só
contraditória) passou a não
ter contraditória nenhuma.
221
Hélio Pimentel: Você
disse que “o juízo que
não pode ter uma
contraditória unívoca”
é autoevidente. Esse
juízo [do Papai Noel]
tem ou não tem a tal
contraditória unívoca?
Olavo de Carvalho: Se
você não percebe isso
IMEDIATAMENTE, você
tem
problemas
mentais.
Hélio Pimentel: Sim ou
não?
222
Olavo de Carvalho:
Que estupidez! Um
juízo non sense não
tem
contraditória
NENHUMA, porque não
diz nada.
FIM
223
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necessariamente - Hélio Pimentel