VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada /
X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010
Em diálogo com o mundo: a paixão vegetal em The Country of the
Pointed Firs e A Morgadinha dos Canaviais
Isabel Maria Fernandes Alves
UTAD
Poderia ter-me sido negada /a tendência para comparar
(Wislawa Szymborska)
A trabalhar na área dos estudos americanos e motivada pela leitura que a Ecocrítica
faz da relação entre o homem e o mundo natural, pretendo ler o(s) sentido(s) da
representação de elementos da paisagem1 em The Country of the Pointed Firs de Sarah
Orne Jewett e A Morgadinha dos Canaviais de Júlio Dinis. Em tempo de crise ambiental,
privilegiamos a leitura de textos que apresentam uma visão consciente da interdependência
entre o homem e a (bio)diversidade do mundo, e estes textos, para além de terem em
comum a data de publicação, 1896, são habitados por personagens que apresentam uma
mesma paixão pelo mundo vegetal, sendo que em ambas as obras a ligação que as
personagens mantêm com a natureza lhes permite curar literal e simbolicamente aqueles
que as rodeiam.
Em The Environmental Imagination, num subcapítulo intitudado ‘women on
nature’, Lawrence Buell afirma que, na América, no final do século dezanove, metade dos
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Na definição dos termos ‘natureza’ e ‘paisagem’, optámos por seguir a proposta de Lúcia Lepecki: “temos
de coniderar a paisagem como um constituído, quer dizer, como resultante de uma relação cognoscente que
destaca, autonomiza, um segmento na totalidade do mundo natural”. (Lepecki, 2003: 61).
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artigos escritos para a prestigiada revista Atlantic Monthly são produzidos por mulheres.
Sugere igualmente que nessa época, e dentro da tradição vitoriana, se considera que
passear na natureza e observar a flora e a ornitologia de uma região são uma ocupação
respeitável para as mulheres, daí a relevância do pacto entre estas e a natureza: as
actividades ao ar livre representam uma forma de escapar à clausura da sala-de-estar e de
encontrar no mundo exterior uma ´casa’ mais propícia à liberdade e à criatividade. Desde
o espaço mais próximo da casa, o jardim, até aventuras mais longínquas, as mulheres
encontram na natureza um espaço de inclusão e de conhecimento. Por isso, os textos
publicados como resultado da aliança entre as mulheres e a natureza, e como aponta
Lorraine Anderson, traduzem respeito pelo mundo natural; vendo-o como um sistema de
relações, as mulheres escrevem sobre a natureza de forma criativa e emotiva, apontando
um caminho que nos dias de hoje definimos como ambientalmente responsável: o ser
humano é parte integrante de uma comunidade maior, a Terra (Anderson 7).
Estas considerações iniciais entram em diálogo aberto com a publicação na
América, em 1836, do texto
ature de Ralph Waldo Emerson, assim como com os
diferentes apontamentos contemplativos que Henry David Thoreau escreve enquanto
caminha à volta do lago Walden. Aspecto relevante uma vez que nestes textos – de
importância fundamental no contexto da independência literária do Novo Mundo - a
representação da natureza americana adquire um estatuto mítico e metafísico,
preconizando um diálogo permanente (ainda que paradoxal) entre a realidade geográfica e
cultural americana e as formas do mundo natural. Urge aqui salientar que a presença do
mundo natural nestes textos se prende não só com o facto de a natureza definir de forma
original e pujante a geografia do Novo Mundo, mas também com o facto de, nos meados
do século XIX, já decorrer em solo americano aquilo que George Steiner designa, num
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outro contexto, como uma grande ferida.2 É que a América, local onde desembarcaram as
utopias europeias e quimeras de muitos navegadores, era, na segunda metade do sec. XIX,
uma sociedade que na sua realidade histórica, social e económica se ia distanciando da
imagem do Jardim do Paraíso – imagem fundadora do destino desta nação e local de
nenhuma dor ou aflição -, e ia inscrevendo o seu futuro em coordenadas de grande
ambição económica e tecnológica, gerando, com isso, grandes conflitos e desassossegos.
A ferida de que fala Steiner podê-la-emos entender como a perda da paisagem, de
uma paisagem benigna e rural. Como já referimos, ao longo do século XIX os americanos
foram modificando a sua forma de dialogar com o mundo; os seus interesses estavam
centrados na aquisição de uma linguagem mais mecânica, mais utilitária, mais próxima
das engrenagens que Walt Whitman (e também Pessoa, com ele) cantaria. Não será pois
coincidência que estando a maioria dos homens empenhados em fazer avançar a
civilização, em construir paisagens de ferro e aço, as mulheres tenham encontrado um
espaço de liberdade na observação e estudo da natureza. O encontro entre as mulheres e o
mundo natural proporciona um espaço de criatividade e liberdade na medida em que esse é
um espaço que permite às mulheres dialogarem com o mundo exterior, arredadas que
estão da esfera política e artística. A observação dos fenómenos naturais, a elaboração de
herbários e o estudo das aves, por exemplo, permite às mulheres encontrar um novo modo
de expressão e identidade.
A ligação das mulheres à natureza acontece um pouco por todo o vasto espaço
americano, embora se registem especificidades de acordo com as variáveis geográficas em
que se encontram. Assim, por exemplo, Annette Kolodny lembra que as mulheres
europeias que povoaram as planícies se mostram observadoras exímias da paisagem, não
2
Steiner refere que o mundo onde existe a bestialidade política, a injustiça social, a violação do mundo
natural, é um mundo distante daquele vivido no Paraíso. Aí, como afirma, não se fazia sentir a necessidade
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apenas por uma questão de sobrevivência, mas também devido ao desejo de moldarem a
paisagem a formas mais reconhecíveis e familiares. As cartas que escrevem relatam o seu
afecto pelas flores que vão encontrando pois elas representam uma linguagem antiga numa
paisagem nova, lembrando não só as flores dos lugares familiares que haviam deixado na
sua viagem para o Oeste, mas porque elas correspondem a um ritual que sela amizades:
partilhar sementes e flores intensifica os laços afectivos (Kolodny, 1984: 37). Ainda
relativamente à ligação entre as mulheres e a natureza, veja-se como durante a escravatura,
e como lembra Mart Stewart, as mulheres negras procuram no mundo natural,
concretamente no conhecimento das plantas, sustento e cura quer para o corpo quer para a
comunidade:
Slave knowledge of herbal medicine was akin to their knowledge of everything else in the
plantation environment – discrete, detailed, and close to the ground. It was also conditioned by
experience; slave women, especially, went out into the woods and wetlands to find supplies for
household manufacturing and healing (Stewart, 2006: 15).
O conhecimento que os escravos adquirem quer na floresta quer no pequeno jardim que
plantam perpetuam-no depois através da troca de sementes e das histórias que num registo
oral passam de geração em geração.
Assinalamos estes exemplos porque eles permitem compreender a cumplicidade
que ao longo do século dezanove se desenvolve e fortalece entre as mulheres e as formas
da natureza, relação que na região de Nova Inglaterra ganha contornos muito particulares,
de que resulta uma tradição literária também muito própria. Contra uma sociedade que
avança rapidamente para a industrialização, a produção literária da região de Nova
Inglaterra, cujos nomes são essencialmente femininos, apresenta uma temática mais
de livros ou obras de arte. Estes, traduzindo aquilo que é grave e constante, traduzem igualmente o mistério
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centrada na ruralidade, nas relações entre a mulher e a natureza.3 De salientar, uma vez
mais, que a natureza americana é espaço onde a voz feminina se faz texto, na medida em
que é através das suas formas e das relações de organicidade que a definem, que as
mulheres escritoras dos finais do século XIX recriam uma forma original e própria de ler a
sociedade. É desse mundo ligado à natureza que as escritoras se alimentam artisticamente;
disso é exemplo a obra The Country of the Pointed Firs, de Sarah Orne Jewett, publicada
em 1896. Nela, a personagem que chega, solitária, à ilha, vem apenas com o desejo de
escapar à vida da cidade e mergulhar na paz do campo para assim poder escrever. Não
compreende nem ouve aqueles que vivendo na ilha acolhem a solidão dos dias com uma
sabedoria própria. A sua estadia revela-se, porém, uma aprendizagem: aprende a ler a
forma como a natureza se relaciona com a alma daqueles que habitam perto dela. O
mundo rural que a personagem encontra, e do qual quer fugir por vezes, acaba por se
apresentar como uma paisagem espiritual onde irá apre(e)nder de que modo a condição
humana dialoga com o mundo envolvente.
A presença de plantas que curam faz-se sentir desde cedo na narrativa, atenuando
os efeitos de se viver numa paisagem caracterizada por uma natureza agreste e severa,
onde a pedra, elemento dominante, adquire alguma suavidade apenas quando a narradora
descreve os jardins que envolvem as casas de Dunnet. A visitante fica hospedada na casa
de Almira Todd, uma viúva que se entrega à recolha de plantas e ao fabrico de xaropes
que aliviem a dor do corpo e da alma. O seu jardim, local onde as flores dão lugar a
diferentes espécies de ervas, reflecte a paixão vegetal de Mrs Todd - rosa-amarela, salva,
absinto, hortelã, erva-cidreira, tomilho – e afirma-se como o centro de toda a comunidade.
da nossa condição (Steiner, 1993:199).
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Em ew England Local Color Literature: A Women’s Tradition, Donovan aponta alguns dos nomes que,
ao longo do século XIX, estabelecem esta tradição literária feminina: Harriet Beecher Stowe, Rose Terry
Cooke, Elizabeth Phelps, Sarah Orne Jewett e Mary Wilkins, entre outras. Para Donavan, e surgindo como
contraponto a uma sociedade maioritariamente patriarcal, estas escritoras forjam uma tradição literária
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As ervas curam não só porque agem sobre os sistemas do corpo, mas porque a sua
utilização é já profundamente antiga, lembrando sociedades de matriz pastoril e ritos
sagrados, comunidades e teias de relações que contrastam com a realidade do mundo
industrializado americano de finais do século.
The Country of the Pointed Firs afirma-se como uma obra que põe em relevo o
diálogo entre a aspereza das pedras e a beleza dos jardins, entre a solidão das personagens
e a consciência da necessidade dos afectos. No que respeita a Mrs. Todd, esta consciência
é apreendida na forma como dialoga com as formas da natureza. Veja-se, por exemplo, o
passo em que esta personagem recorre à observação das árvores para falar da alma
humana, sublinhando a grandeza das árvores nascidas em solo pobre e pedregoso, mas que
sobrevivem desenvolvendo raízes fortes que se agarram ao solo, conseguindo manter uma
copa verdejante ao longo do verão mais seco, sinal claro de que a alma humana pode
sobreviver com grandeza em local inóspito e agreste (Firs 63). É o caso das personagens
que habitam a comunidade de Dunnet: vivendo em local isolado e hostil, essas
personagens sobrevivem porque uma rede de relações os fazem sentir parte de uma
comunidade e os jardins, que cultivam e acarinham, evocam tradições embebidas num
saber matriarcal e vegetal e, por isso, representando o local da memória onde o presente
vai beber a fim de sobreviver.
Não por acaso, no momento acima referido, Mrs. Todd lembra que toda a árvore
tem a sua fonte de vida e, por isso, se adivinha que perto dessa árvore passa um pequeno
fio de água. Esta referência é importante se tivermos em consideração uma outra
personagem, Joanna, que, tendo vivido uma ferida de amor, decide isolar-se numa das
pequenas ilhas da região, mas a quem a narradora vê como exemplo de alguém que
encontrou na sua vida um lugar remoto de secreta felicidade. Neste caso, a sua fonte de
feminina, criando um mundo imaginativo onde a ruralidade serve de sustento a figuras femininas fortes e
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vida, é o jardim que constrói, pois dele colhe alimento e cura para o corpo e para a alma
(Firs 55). Ou, numa outra metáfora de Mrs. Todd, Joanna foi capaz de lançar raízes à
procura de um outro solo a que se agarrar, recomeçando corajosamente (Firs 62), imagem
reforçada pela firmeza dos abetos que dão título à obra (Firs 29).4
Quando regressa ao mundo citadino, a narradora e visitante da comunidade de
Dunnet leva como oferta de Mrs Todd um ramo de loureiro e de erva-lombrigueira, dando
a entender que esteve atenta à sua inquilina, antecipando, através do ramo de loureiro, a
sua glória como escritora, e pretendendo, através da erva-lombrigueira, reforçar a ideia de
que esta deve perseverar na vontade de escrever (ou, como Joanna, encontrar um lugar de
secreta felicidade). A narradora leva também a convicção de que através da ligação ao
mundo rural, nomeadamente ao saber botânico, as mulheres se ligam a uma herança de
saberes ancestrais que têm no centro não só a cura dos males do corpo, mas que ensinam a
arte da paixão pelo Outro, concedendo-lhe simpatia e conforto.
As ideias acima expressas entram em diálogo aberto e frutífero com a obra A
Morgadinha dos Canaviais de Júlio Dinis que, como já se referiu, foi igualmente
publicada em 1896. Não nos interessa aqui assinalar as óbvias divergências entre os dois
textos: produzidos em países diferentes, os respectivos enquadramentos económicos,
sociais, culturais e literários são necessariamente diversos: um é assinado por uma mulher
e o outro por um homem, um tem como figura central uma personagem do sexo feminino,
e na obra de Júlio Dinis a maior aprendizagem tem lugar no corpo e na alma de Henrique
de Souselas. Também no que respeita à personagem que na obra portuguesa emblematiza
a paixão pelo mundo vegetal, estamos perante uma figura masculina, o Tio Vicente. Mas
vigorosas (Donovan, 1983: 3).
4
Um passo da obra de John Ruskin ilustra o que pretendemos sugerir: que as coníferas (Ruskin refere os
pinheiros) são árvores conotadas com força e perseverança: “the pine is trained to need nothing, and to
endure everything. It is resolvedly whole, self-contained, desiring nothing but rightness, content with
restricted completion (Ruskin 92).
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estas maiores distinções não deixam ofuscar o que numa e noutra obra pode ser entendido
como a transformação da paisagem e as implicações deste facto na alma humana. Além
disso, estamos perante dois autores com um estilo próximo, na medida em que ambos
usam um realismo imaginativo a fim de descrever situações e personagens, e tanto Jewett
como Dinis podem ser definidos como paisagistas.5 E desde já sustentamos que uma e
outra obra não são meramente exercícios de saudosismo em relação ao passado; pelo
contrário, são exemplos da necessidade de movimento e de continuidade. Aberto, o espaço
dos abetos em The Country of the Pointed Firs encontra em A Morgadinha dos Canaviais
uma equivalente espacialidade no vasto vale de Alvapenha onde Henrique de Souselas
chega, cansado e deprimido, vindo de Lisboa. Embora exista um paralelismo de situação
relativamente ao facto de em ambas as obras o início da narrativa coincidir com a chegada
das personagens – aquelas a quem o espaço rural e um saber vegetal acabam por ajudar -,
o facto é que se na obra portuguesa a personagem permanece na aldeia, tornando-se
agricultor próspero e feliz, em The Country of the Pointed Firs a personagem/narradora
parte. Aspirando a um futuro como escritora, o espírito da época exigia que esta
personagem encontrasse um espaço de liberdade criativa correspondente ao jardim que
Mrs. Todd e Joanna cultivam; ela é a primeira de uma geração a abandonar uma
experiência de isolamento (físico, intelectual) para se aventurar na criação literária6.
5
No caso da expressão ‘realismo imaginativo’, tendo sido utilizada por Donovan para caracterizar a escrita
de Jewett – uma escrita que utilizando embora factos, os utiliza com o fim de alcançar uma dimensão que vai
para além do real (Donovan, 1983: 102). Esta afirmação serve, a nosso ver, para ilustrar o modo de escrita de
Júlio Dinis, que segundo Lepecki é tributária de dois tipos de sensibilidade: a romântica e a realista
(Lepecki, 1979: 15). Egas Moniz vê Júlio Dinis como um paisagista que, à semelhança de Gainsborough,
soube incluir o elemento humano na paisagem (Moniz, 1924: 250); também Jewett é uma autora para quem
a paisagem é importante na medida em que define a alma humana. Como refiro num outro texto: “Em The
Country of the Pointed Firs encontramos sobretudo a beleza dos laços humanos implodindo numa paisagem
caracterizada essencialmente pelo isolamento e por uma natureza agreste e severa” (Alves, 2004: 195). Este
aspecto surge desenvolvido nomeadamente no texto de Gwen Nagel, onde se pode ler: “Jewett sees and
experiences intensely the natural landscape of Maine. Her letters as well as her poetry suggest her intimate
knowledge of the flora and fauna of her region and the role that gardens played in her life” (Nagel, 1984:
44).
6
Como defende Elaine Showalter, a produção literária feminina do final do século XIX na América deve ser
entendida tendo por base a alteração dos códigos sociais, raciais e de género: “By the end of the nineteenth
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Em A Morgadinha dos Canaviais o leitor encontra um espaço rural, uma aldeia na
região do Minho confinando com a ‘alpestre e severa Trás-os-Montes’, lugar de dura
paisagem, que a personagem Henrique de Souselas testemunha logo no início da narrativa
quando, fustigado pela chuva e pelo vento, se dirige por estradas sinuosas e menos lógicas
(MC 12) à aldeia onde o esperam a sua tia e um leito repousante de lencóis de linho e
memórias de uma infância feliz. O dia seguinte à sua chegada é caracterizado por uma luz
esplêndida e uma brisa cheia de aromas que vem dos campos (MC 43), começando nessa
manhã a cura de Henrique, uma cura coincidente com a transformação da paisagem: dos
tons sombrios do dia anterior nada resta, o que via era a ‘mais risonha paisagem em que os
olhos de Henrique tinham pousado’ (ibidem).7 A cura de Henrique – que, como já se
apontou, chega à aldeia sem vitalidade nem alegria - começa quando ele se apercebe das
diferentes texturas da terra e do tempo atmosférico, aspecto que reitera a afirmação de
Lúcia Lepecki em considerações sobre a personagem dinisiana: ‘Os lugares geográficos,
‘continentes’ de personagens e acontecimentos, transmutam-se em espaços desde que
assumam conteúdo semântico suficientemente forte para definir um carácter’ (Lepecki,
1979: 70). O mundo a que ele chega está em transformação; o mundo rural vive não só as
mudanças trazidas pela construção da estrada e inovações agrícolas, mas também as
alterações dentro da escala social.8 Qualquer destas transformações é, contudo,
simbolicamente precedida das mudanças climatéricas que Henrique testemunha no dia
seguinte à sua chegada: “Descerrando o véu de nuvens que encobre o fulgor do sol,
century, however, patterns of gender behavior and relationship were being redefined. Women’s culture was
breaking down from the inside as early as the 1870s, when relationships between mothers and daughters
became strained as daughters pressed for education, work, mobility, sexual autonomy, and power outside the
female sphere” (Showalter 15).
7
Ver, a este propósito, o comentário de Helena Carvalhão Buescu, Incidências do Olhar, p. 232.
8
António José Saraiva resume as muitas transformações ocorridas em Portugal entre 1858 e 187, período
correspondente à actividade literária de Júlio Dinis; refere: “Durante este período o País conhece uma fase
de acalmia, desenvolvem-se as obras públicas, as estradas, os caminhos de ferro, aparecem as primeiras
máquinas agrícolas; abre-se ao público o telégrafo, amplia-se o crédito e completa-se a legislação liberal de
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elevando acima do horizonte, esse majestoso lampadário do Mundo (...) a natureza opera,
a cada momento, as mais admiráveis e completas metamorfoses. Durante o sono de
Henrique realizara-se um desses efeitos mágicos” (MC 43). As transformações do tempo
atmosférico e a presença significativa das nuvens sempre em mutação intensificam a
transformação de Henrique de Souselas que, de um ser apático e céptico, se transforma
numa personagem que vive também melhoras morais ‘tão verdadeiras nele como as
físicas’ (MC 256) e que no final da narrativa se vê a si mesmo como um próspero
agricultor, em paz com as árvores, com os lameiros e os rebanhos, com as noras e os
lagares. Em suma, em paz consigo mesmo.
Esta aprendizagem não acontece sem que outras personagens contribuam com a
sabedoria própria de quem, imerso no mundo rural, se ocupa da observação da natureza e
procura entendê-la nos seus mistérios mais profundos, mesmo que a comunidade veja o
seu comportamento como excêntrico, como é o caso da personagem Tio Vicente. Este
partilha com Jean Jacques-Rousseau o gosto pelo devaneio e a paixão pela botânica, factos
que o impedem de deixar germinar no coração fermentos de vingança ou de ódio. Embora
avesso a ver as plantas apenas tendo fins medicinais, Rousseau diz-se atraido pelas ervas e
plantas que apresentam um mundo agradável aos sentidos, enquanto que o ser humano
alimenta traições e ódios (Rousseau, 1989: 99, 105). Tio Vicente, um velho ervanário da
aldeia, que é sábio para uns, louco para outros, é uma personagem definida moralmente
pela franqueza e caracterizada pelo hábito de errar por vales e montes à procura dos
símplices, cujas ocultas virtudes conhece. Além disso, é uma personagem que tem na sua
vida uma única paixão: a paixão vegetal: ‘a borragem, a salva, a fumária, a erva-terrestre,
Mouzinho com a extinção dos morgados. (...) Júlio dinis reflecte com optimismo este estado de coisas. Sobre
as ruínas do velho mundo está-se levantando o mundo novo (Saraiva 54-5).
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a erva-moura, os trevos, os gerânios, as papoulas, as violetas’ faziam-lhe companhia, não
lhe deixando sentir a solidão em que vivia.9
Momento fulcral da narrativa é aquele em que Tio Vicente desenha a sua paisagem
interior e a de Augusto, outra personagem a viver a solidão, mas a quem Tio Vicente quer
ajudar. Porque lhe conhece a timidez e o segredo da paixão pela morgadinha, utiliza a
linguagem botânica para lhe apontar o caminho:
Umas [plantas] prendem-se pouco ao chão; precisam, pois, de se abrirem muito ao ar
para poderem viver; outras, porém, profundam tanto na terra, com tantas raízes se
seguram, que delas lhe vem todo o sustento e não desdobram muitas folhas, nem
crescem em grandes ramos para o ar. Como umas e como outras há homens no mundo.
Tu és dos que deixam ganhar raízes ao coração e delas vivem..Mas é preciso cautela.
Hácorações como a hera que, onde quer que se encosta, prende-se com raízes...se se
encosta a árvore de preço.mal dele. Que o separarão com força, fazendo-lhe estalar
todas as raízes, que o prendiam (MC: 229).
Tio Vicente consegue ajudar Augusto, mas não pode impedir que a decisão do
Conselheiro, aspirante a ministro, o homem grave e sério das salas de Lisboa, (MC 240) e
seu amigo de infância, se concretize: a nova estrada passará pelo local onde Tio Vicente
tem a sua casa, o seu herbanário e as suas árvores. Quando chega o momento de elas
serem cortadas, com o cair das árvores parte também a alma de Tio Vicente e a morte da
personagem é a única saída a quem tinham sido cortadas as raízes e a ligação às memórias
da infância e aos sonhos de juventude (MC 371). A morte desta personagem não impede,
porém, de se fazer sentir uma visão optimista no romance: a par da transformação da
9
Esta perspectiva demarca-se da de António Dória que, ao falar das crendices presentes nos romances do
século XIX, apresenta o tio Vicente como a figura que, detendo o poder de curar, está próxima da do
‘barbeiro’ ou da ‘bruxa’, as personagens que aconselham as ‘mezinhas’, e que, segundo Dória, ilustram a
ignorância aldeã (Dória, 1950: 330).
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paisagem, as personagens evoluem, e porque Julio Dinis acredita na ‘aprendizagem e [na]
formação aniquiladora dos erros’ (Buescu, 1991: 167), essas personagens estão preparadas
para construir uma melhor sociedade. Assim, através de um saber preciso - botânico,
meteorológico e agrícola -, Júlio Dinis constrói uma paisagem que se afirma lugar e
sentido do mundo, um lugar de natureza e humanidade. A afirmação de Helena Buescu:
“podemos afirmar que a vivência da natureza aparece como elemento definidor do homem
(...) e do modo como a personagem é entendida no texto” (Buescu 150), aplica-se a cada
uma das personagens aqui em análise, sendo que a paisagem é um conjunto de signos que
interessa decifrar, pois nela está inscrita não só a organização do espaço mas, e tratando-se
de uma obra literária, nela se encontra sobretudo o modo como o homem tem comunicado
com o mundo que o envolve.
Para finalizar, queremos sublinhar que tanto em The Country of the Pointed Firs
como em A Morgadinha dos Canaviais a representação do saber botânico surge como um
campo de possibilidades, contrabalançando o cepticismo da época de crise e de turbulência
social que caracteriza o tempo de Jewett na América e de Dinis em Portugal, apresentando
ambos os textos uma mesma visão dialogante do ser humano com o mundo; dialogar com
a natureza – com as plantas, com as árvores – significa não só tocar a dimensão concreta
da paisagem, mas também a sua dimensão simbólica, na medida em que a paisagem traduz
desejos, ideias e valores protagonizados pelo homem - individual e colectivamente.
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