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Palliative care:
communication as a strategy of care for the terminal patient
Cristiani Garrido de Andrade 1
Solange Fátima Geraldo da Costa 1
Maria Emília Limeira Lopes 1
1
Departamento de
Enfermagem, Centro de
Ciências da Saúde, Campus
I, Universidade Federal da
Paraíba. Cidade
Universitária - Campus I,
Castelo Branco. 58.059-900
João Pessoa PB.
[email protected]
Abstract Palliative care involves an approach in
the field of care for terminal patients and their
families that seeks to assure them better quality of
life by establishing good communication. The scope
of this study was to verify how nurses use communication in the field of palliative care when assisting patients in the terminal phase. This is exploratory research of a qualitative nature in which 28
nurses working in wards of a hospital in the city of
Joao Pessoa in the State of Paraíba participated in
the period from August to October 2012. A form
was used for data collection that was then analyzed using the content analysis technique. Three
categories emerged from the analysis of the material: “palliative care and communication – interpersonal relationship between the nurse and the
terminal patient”; “communication in palliative
care as a strategy for strengthening the bond between the nurse and the terminal patient”; and
“the importance of communication between the
nurse and the family of the terminal patient under palliative care.” The conclusion reached was
that communication is seen to be an effective element of care for the patient in the terminal phase
and it is extremely important for the promotion of
palliative care.
Key words Communication, Palliative care,
Nursing
Resumo Os cuidados paliativos compreendem
uma abordagem de assistência ao paciente sem
possibilidades de cura e sua família, com o objetivo de proporcionar-lhes uma melhor qualidade
de vida, a partir, essencialmente, de uma boa comunicação, sobretudo no campo do cuidado ao
paciente terminal. O estudo teve como objetivo
averiguar como enfermeiros utilizam a comunicação, no âmbito dos cuidados paliativos, ao assistir o paciente em fase terminal. Trata-se de uma
pesquisa exploratória, de natureza qualitativa, na
qual participaram 28 enfermeiros atuantes em
unidades de internação de um hospital da cidade
de João Pessoa (PB), no período de agosto a outubro de 2012. Para a coleta dos dados utilizou-se
um formulário. Os dados foram analisados mediante a técnica de análise de conteúdo. Da análise
do material, emergiram três categorias: “cuidados paliativos e comunicação – relação interpessoal do enfermeiro com o paciente terminal”; “comunicação em cuidados paliativos como estratégia para fortalecimento do vínculo entre enfermeiro e paciente terminal”; e “importância da
comunicação entre enfermeiro e família do paciente terminal sob cuidados paliativos.” Conclui-se
que a comunicação se configura como um elemento eficaz do cuidado com o paciente em fase
terminal e é de suma importância para a promoção dos cuidados paliativos.
Palavras-chave Comunicação, Cuidados paliativos, Enfermagem
ARTIGO ARTICLE
Cuidados paliativos: a comunicação como estratégia de cuidado
para o paciente em fase terminal
Andrade CG et al.
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Introdução
A filosofia dos cuidados paliativos iniciou-se na
Inglaterra, em 1967, a partir da iniciativa de Cicely Mary Strode Saunders (assistente social, enfermeira e médica) que disseminou essa nova maneira de cuidar aos pacientes que vivenciavam a
terminalidade e a proximidade com a morte1. Tais
cuidados visam a compreender todas as necessidades do paciente (dentro dos limites possíveis),
contemplando-o como um ser integral2.
É notório destacar que o vocábulo paliativo
deriva do latim pallium, que significa manto. Tal
terminologia denota a ideia principal dessa filosofia: de proteger, amparar, cobrir, abrigar, quando a cura de determinada doença não é mais
possível. Além disso, no latim, pallium são vestimentas usadas pelo Papa, portanto, há uma forte ligação desse termo histórico com o sagrado e
com a espiritualidade1,3.
Dessa forma, os cuidados paliativos constituem um campo interdisciplinar de cuidados totais, ativos e integrais, destinados a melhorar a
qualidade de vida do paciente sem possibilidades
de cura e dos seus familiares, por meio de avaliação correta e de tratamento adequados para o
alívio da dor e dos sintomas decorrentes da fase
avançada de uma doença, além de proporcionar
suporte psicossocial e espiritual, em todos os estágios, desde o diagnóstico de uma doença incurável até o período de luto da família4.
Assim sendo, é inegável a valorização dos cuidados paliativos direcionados ao paciente na terminalidade de vida, bem como de diversas estratégias de cuidar utilizadas nesta modalidade, dentre as quais destaca-se a comunicação.
A comunicação é intrínseca ao comportamento humano e permeia todas as suas ações no desempenho de suas funções. Etimologicamente, a
palavra comunicar origina-se do latim communicare, que significa pôr em comum. Assim, a
comunicação pode ser compreendida como uma
técnica de trocas e de compreensão de mensagens, emitidas e recebidas, mediante as quais as
pessoas se percebem e partilham o significado de
ideias, pensamentos e propósitos3.
No âmbito da Enfermagem, a comunicação
representa uma estratégia de suma relevância para
a prática dos cuidados paliativos. E quando subsidiada por uma relação de atitude, cooperação,
sentimento e sensibilidade, este instrumento é um
importante impulsionador da relação entre o
enfermeiro e o paciente em fase terminal5.
Vale salientar que a comunicação vai muito
além das palavras e do conteúdo, uma vez que
contempla a escuta atenta, o olhar e a postura,
porquanto o emprego eficaz desse recurso é uma
medida terapêutica comprovadamente eficiente
para pacientes que dele necessitam, sobretudo os
que se apresentam em fase terminal6.
Nessa perspectiva, a comunicação adequada
é considerada um método fundamental para o
cuidado integral e humanizado porque, por meio
dela, é possível reconhecer e acolher, empaticamente, as necessidades do paciente, bem como
de seus familiares. Quando o enfermeiro utiliza
esse recurso de forma verbal e não verbal, permite que o paciente possa participar nas decisões
e cuidados específicos relacionados com a sua
doença e, dessa forma, obtenha um tratamento
digno5.
Trata-se, pois, de um aspecto fundamental
para intermediar as relações humanas, promover a sustentabilidade e a consolidação da autonomia, diante das perspectivas individuais, e traduz-se como um elemento diagnóstico e terapêutico, capaz de identificar demandas assistenciais e acolher terapeuticamente, proporcionando fortes vínculos dos enfermeiros com os
pacientes na finitude de vida e com sua família7.
Diante do exposto, considerando a relevância da temática na área e o quantitativo ínfimo de
estudos acerca dos cuidados paliativos e da comunicação em relação ao cuidado com o paciente terminal na literatura nacional, emergiu o interesse em desenvolver este estudo que teve como
fio condutor o seguinte questionamento, também seu objetivo: como enfermeiros utilizam a
comunicação, no âmbito dos cuidados paliativos, ao assistir o paciente em fase terminal?
Métodos
Trata-se de uma pesquisa exploratória, de natureza qualitativa. O cenário da investigação foram as unidades de internação de um hospital
público, localizado na cidade de João Pessoa (PB),
considerado como de referência nesse Estado.
Os participantes da pesquisa foram 28 enfermeiros assistenciais da instituição selecionada para
o estudo, que prestam cuidados direcionados ao
paciente em fase terminal, selecionados mediante
os seguintes critérios: que o profissional atuasse
há pelo menos um ano na referida unidade, estivesse em atividade profissional durante o período de coleta de dados e tivesse disponibilidade e
interesse para participar da pesquisa, confirmando sua concordância com a assinatura do Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido. A coleta de
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Resultados e Discussão
Neste estudo foram contempladas três categorias temáticas cujo conteúdo desvela como os enfermeiros utilizam a comunicação para humanizar o cuidar em enfermagem para o paciente em
fase terminal e sua família, com ênfase na valorização da comunicação verbal e não verbal, pautadas nos cuidados paliativos.
Cuidados paliativos e comunicação:
relação interpessoal do enfermeiro
com o paciente terminal
No que diz respeito a essa categoria, os participantes resgatam a importância da relação humana, mostrando que a comunicação com o
paciente que vivencia o processo de terminalidade é considerada o alicerce para um bom relacionamento interpessoal, como mostram estes discursos:
A comunicação é uma ferramenta extremamente relevante no processo de cuidar, principalmente quando se trata de paciente terminal, no
sentido de fortalecer o vínculo entre paciente/profissional, estimular o paciente a verbalizar anseios, preocupações e dúvidas acerca da situação clínica, dar oportunidade ao paciente/familiar de
verbalizar preferências no atendimento e ajudálos na tomada de decisões. (Enf.3)
[...] a comunicação traz tranquilidade e confiança com a equipe que o está acompanhando,
fazendo com que o paciente se sinta a vontade em
falar e expressar suas angústias, medos e ansiedades, ajudando no fortalecimento do vínculo. (Enf.8)
A comunicação é um elemento essencial na relação humana, através dela podemos detectar problemas, facilitar o alívio dos sintomas, estimular e
melhorar a autoestima do paciente, conhecer valores, favorecer o bem-estar e detectar as necessidades dos pacientes. (Enf.17)
Mesmo que não seja um paciente que verbaliza, é importante proporcionar confiança, fazer com
que ele saiba que tem um profissional que demonstra atenção, afeto e compromisso com o doente.
(Enf.23)
O paciente só permite ser cuidado quando ele
sente segurança no profissional que está lhe assistindo, e essa segurança só se dar através da comunicação, conversando com ele. (Enf.20)
Diante dos trechos dos depoimentos supracitados, os enfermeiros destacam a relevância da
comunicação entre o enfermeiro e o paciente na
terminalidade, visto que a condição em que ele se
encontra coloca-o em situações que, às vezes, são
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dados ocorreu durante o período de agosto a
outubro de 2012 e somente foi iniciada após a
aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de
Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Lauro Wanderley da Universidade Federal da Paraíba
(HULW/UFPB). Dessa forma, ressalte-se que o
estudo foi realizado considerando-se as observâncias éticas contempladas na Resolução 196/
968 do Conselho Nacional de Saúde, no que concerne às normas e às diretrizes regulamentadoras
da pesquisa com seres humanos.
Para a obtenção do material empírico, foi utilizado um formulário com questões pertinentes
ao objetivo proposto: Qual a importância da
comunicação na prática dos cuidados paliativos
no que concerne à assistência de enfermagem direcionada ao paciente em fase terminal? Como
você utiliza a comunicação na prática dos cuidados paliativos para assistir o paciente em fase
terminal? Convém mencionar que, para manter
o anonimato dos enfermeiros inseridos no estudo, os depoimentos oriundos do referido formulário foram identificados pela sigla “Enf.”, seguido de números de um a vinte e oito. Exemplo:
o primeiro enfermeiro entrevistado foi codificado da seguinte maneira: “Enf.1”; o segundo profissional, “Enf.2” e assim por diante.
Os dados obtidos através dos instrumentos
propostos foram analisados qualitativamente,
mediante a análise de conteúdo proposta por
Bardin9, definida como conjunto de técnicas de
análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição
do conteúdo das mensagens, indicadores que
permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção destas
mensagens.
Esta seguiu as seguintes etapas: pré-análise,
que consistiu em organizar os dados coletados
por meio dos formulários; exploração do material, identificando-se os pontos relevantes de cada
questão, com seus respectivos pontos convergentes de acordo com o seu foco comum para, depois, agrupá-los em categorias e tratar os resultados, momento em que foram abordadas as
inferências e as interpretações9.
Da análise, emergiram as seguintes categorias: “Cuidados paliativos e comunicação – relação interpessoal do enfermeiro com o paciente
terminal”; “Comunicação em cuidados paliativos como estratégia para fortalecimento do vínculo entre enfermeiro e paciente terminal”; e “Importância da comunicação entre enfermeiro e
família do paciente terminal sob cuidados paliativos”.
Andrade CG et al.
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difíceis de compreender, por serem caracterizadas pela dor e pelo sofrimento, que geram angústia e depressão. Portanto, a comunicação é
uma das habilidades que devem ser empregadas
pelo enfermeiro, para que ele possa expandir a
habilidade de apreender as mensagens – implícitas ou explícitas – que permeiam sua relação com
o paciente e os familiares.
No âmbito dos cuidados paliativos, a comunicação realizada de forma adequada é considerada como um pilar fundamental para a implementação de tal prática. Trata-se de um suporte que o
paciente pode empregar para expressar seus anseios. Para isso, precisa de um cuidado integral e
humanizado, que só é possível quando o profissional recorre às suas habilidades de comunicação,
essencialmente, com o paciente em fase terminal,
para estabelecer uma relação efetiva com ele10.
Verifica-se que o paciente em fase terminal,
deseja ser compreendido como um ser humano
que sofre, porque, além da dor física, passa por
conflitos existenciais e necessidades que os fármacos ou os aparelhos de alta tecnologia não
podem prover. Assim, além de compartilhar seus
medos e anseios relacionando-se com seus pares, através da comunicação, ele necessita sentirse cuidado, amparado, confortado e compreendido pelos enfermeiros. Expressões de compaixão e de afeto na relação com o paciente trazem a
certeza de que ele é parte importante de um conjunto, o que ocasiona sensação de proteção, de
consolo e de paz interior11.
No momento em que o profissional se comunica com o paciente que vivencia a terminalidade de maneira adequada, fortalece o vínculo,
adquire confiança e quase sempre, consegue decifrar informações essenciais e amenizar-lhe a
ansiedade e a aflição12. Ressalta-se, então, que a
comunicação se for explanada de maneira compreensível, ao paciente em fase terminal, contribui para que ele tenha consciência de sua dignidade durante toda a assistência prestada e lhe
proporciona autonomia, quando precisa tomar
decisões sobre sua vida e seu tratamento13.
A literatura esclarece13 que o enfermeiro ao
prestar assistência ao paciente de forma holística, fazendo o uso da comunicação como uma
ferramenta para o estabelecimento de uma relação de confiança, atende as suas necessidades e se
fortalece diante do enfrentamento de perdas, de
doença, de incapacidades e de morte. Esse fortalecimento incide do resultado do cuidado, pela
promoção do conforto, do alívio da dor e da
preservação da autoestima do paciente. Portanto, ao estabelecer relação com o paciente, com
base na confiança, o enfermeiro favorece um vínculo de cuidado com ele, que embasa o relacionamento interpessoal, tem a sensação de missão
desempenhada e sente-se realizado e satisfeito14.
Destarte, é primordial que o enfermeiro desenvolva conhecimento, habilidades e sensibilidade no relacionamento interpessoal, com base
em suas próprias ações, constituindo uma interação pautada no encontro verdadeiro com os
pacientes na finitude da vida, em que a intencionalidade do agir e a compreensão de cada profissional no processo de cuidar sejam manifestos15.
Comunicação em cuidados paliativos como
estratégia para fortalecimento do vínculo
entre enfermeiro e paciente terminal
A comunicação é um processo de envolvimento que deve ser constituir com o estabelecimento de vínculo entre o enfermeiro e o paciente
terminal, de maneira verbal e não verbal. Logo,
trata-se de um processo ativo, de atenção e de
escuta ativa. Esse aspecto é referenciado pelos
enfermeiros, conforme os relatos, a seguir:
Utilizo tanto a verbal, através da fala, como a
não verbal por meio do olhar, de gestos, do toque,
do carinho e do conforto. (Enf.21)
[...] sempre é importante verbalizar todas as
ações realizadas previamente, transmitindo segurança, com empatia e otimismo. Comunicando
procedimentos, elogiando a sua contribuição.
(Enf.13)
Chegando perto do mesmo, muitas vezes segurando sua mão, conversando, olhando em seus
olhos e deixando que ele fique a vontade para expressar seus sentimentos. (Enf.28)
[...] podendo-se estabelecer uma comunicação
verbal ou não verbal, no intuito de atender a necessidade do paciente em todas as suas dimensões.
(Enf.26)
Nas falas desses enfermeiros, é nítida a preocupação em atender às necessidades dos pacientes por meio da comunicação verbal e da não
verbal. Eles destacam a importância do olhar, do
toque, do carinho e do conforto, inseridos no
universo do modo não verbal de se comunicar,
na relação direta com o paciente terminal.
Assim sendo, a participação no cuidado de
maneira verbal e não verbal, depende da abertura estabelecida entre as pessoas envolvidas, de
forma que isso permita a sua proximidade no
relacionamento existencial, e elas apresentem sua
própria singularidade16.
Convém ressaltar que o emprego apropriado da comunicação verbal e não verbal é uma
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[...] a questão de ouvir o outro é de suma relevância para entender as necessidades e anseios do
paciente/cliente. (Enf.7)
Procuro ser empático, interagindo, acolhendo,
ouvindo com calma e prudência, respeitando a
vontade do paciente. (Enf.12)
[...] é importante acolher o paciente e seus familiares e fazer a escuta com qualidade, para assim
fornecer segurança para eles. (Enf.27)
Os relatos mostraram que os enfermeiros, a
partir de uma comunicação eficaz, demonstram
preocupação e interesse pelos pacientes terminais
e por sua família, escutando-os, buscando esclarecer dúvidas a respeito do estado de saúde e proporcionando-lhes segurança.
Vale salientar que uma das principais habilidades de comunicação necessária aos profissionais da Saúde é a escuta, que deve ser atenta e
reflexiva, para que o profissional possa identificar as reais necessidades dos pacientes. Mostrarse disponível para ouvi-lo e compreendê-lo é uma
maneira eficaz de ajudá-lo emocional e espiritualmente19. Escutar os pacientes terminais significa concentrar-se no paciente e em suas reais
neces-sidades, em diferentes aspectos. Quando o
profissional está preparado para a escuta, o paciente e seus familiares se sentem atendidos e satisfeitos em seus anseios e preocupações20.
Para tanto, é imprescindível que o enfermeiro transforme sua forma de assistir, passando
do fazer para o escutar, perceber, compreender,
identificar necessidades, para somente então, planejar ações. Nesse sentido, o escutar não é apenas ouvir, mas permanecer em silêncio, empregar gestos de afeto e sorriso que expressem aceitação e estimulem a expressão de sentimentos12.
Nessa perspectiva, os enfermeiros que trabalham em cuidados paliativos com pacientes em
iminência de morte e com sua família devem valorizar o uso da comunicação verbal e da não
verbal, bem como da escuta qualificada como
instrumentos terapêuticos efetivos para promoção dessa modalidade de cuidar, embora, nem
sempre, façam o uso delas. Tal fato corrobora os
discursos de dois participantes do estudo: [...]
apesar da importância da comunicação verbal e
não verbal, estas são pouco praticadas no ambiente hospitalar. (Enf.19), [...] eu sei que é importante utilizar a verbalização com o paciente, utilizar
o toque. Mas, é muito difícil eu fazer o uso dessas
práticas, pois a rotina não permite. (Enf.16).
Desse modo, o serviço de educação continuada mostra-se de extrema relevância e indispensável para o treinamento e o constante aperfeiçoamento dos profissionais, mesmo os que já
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medida terapêutica eficaz para os pacientes terminais. É considerado um componente essencial
do cuidado no fim da vida, uma vez que minimiza o estresse psicológico dos mesmos e lhe permite compartilhar o sofrimento. Assim, independentemente da capacidade de comunicação verbal do paciente, é dever do enfermeiro ouvi-lo e
percebê-lo, identificando qual o estágio do processo de morrer em que se encontra e quais são
suas necessidades, para orientar e capacitar sua
equipe a suprir as demandas, possibilitando-lhes
uma interação terapêutica, por meio da empatia
e da criação de um ambiente saudável, humanizado e sistematizado11,17.
Observa-se que um dos aspetos da comunicação que influencia as estratégias da linguagem
verbal pelos enfermeiros é o tom de voz, que deve
ser firme e seguro quando necessário, como, por
exemplo, para dar um diagnóstico, e doce o suficiente para se expressar numa situação de apoio
psicológico ou um gesto de afeto. Portanto, a
comunicação verbal é estabelecida por meio de
palavras que expressam um pensamento, clarificam um fato ou validam a compreensão de algo,
porém não é suficiente para caracterizar a complexa interação do que ocorre no relacionamento humano6. Destarte, é essencial ser acompanhada por emoções e sentimentos para que se
possa compreender não só o significado próprio
da palavra, mas também os sentimentos que vêm
implícitos na mensagem. Tais fatos são realizados através da comunicação não verbal, por meio
da qual é possível compreender os senti-mentos
nos relacionamentos interpessoais11.
Por sua vez, a noção de que a comunicação
não verbal permeia toda emissão verbal deve estar presente, uma vez que revela sentimentos e
intenções, razão por que os sinais devem ser clarificados e questionados a fim se se compreender
bem mais o momento vivido18.
Nesse sentido, ressalta-se que o estabelecimento de vínculo que é o objetivo do relacionamento
interpessoal, requer a comunicação não verbal,
imprescindível na relação entre o cuidador e o ser
que é cuidado, que passam a confiar um no outro
a partir da demonstração de empatia e de transmissão de segurança, por meio do olhar, do toque,
dos gestos, das posturas corporais e do ouvir11.
A grandeza da escuta ativa, na prática dos
cuidados paliativos, também foi considerada nos
trechos dos depoentes:
É importante que o profissional sempre escute
as preocupações dos pacientes e de sua família, seus
anseios, suas dúvidas, seus desabafos, promovendo
um cuidado com qualidade. (Enf.5)
Andrade CG et al.
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exercem atividades em instituições hospitalares
com pacientes na finitude de vida.
Importância da comunicação entre
enfermeiro e família do paciente terminal
sob cuidados paliativos
Nesta categoria, os trechos dos depoimentos
dos enfermeiros inseridos no estudo mencionaram a importância da comunicação como estratégia, no campo dos cuidados paliativos, direcionada aos familiares de pacientes em fase terminal, conforme evidenciado nos relatos a seguir:
A comunicação é um importante canal entre o
paciente/família e a equipe, [...] é essencial para
que haja um respeito mútuo e assim promover uma
melhor qualidade de vida ao paciente e um melhor
processo de luto aos familiares. (Enf.9)
A comunicação é fundamental para que todos
da equipe de enfermagem assistam de maneira holística e com maior sensibilidade. O carinho e o
amor ao paciente e aos seus familiares são essenciais, pois os familiares fazem parte do processo da
terminalidade. (Enf.14)
Durante a visita, sempre comunico ao familiar acerca da assistência de enfermagem prestada e
do estado geral do paciente, dou um abraço no familiar e acolho da melhor maneira possível, passando segurança e confiança para ele, procuro ter
uma assistência humanizada (Enf.16)
[...] faz com que o paciente e o familiar ao se
comunicar com a equipe tenha segurança e confiança acerca do serviço prestado, essa segurança deve
ser passada para nós profissionais de enfermagem,
que acabamos por manter um vínculo maior com
o paciente. (Enf.18)
Os discursos desses enfermeiros ressaltam,
de modo enfático, a importância da comunicação verbal e não verbal utilizada com a família
do paciente em fase terminal. Esclareceram, ainda, que a família é o elo fundamental no processo de cuidado com o paciente e que, para se adquirir a confiança destes, é imprescindível uma
boa interação entre os profissionais, pacientes e
familiares.
Observa-se que a comunicação com o paciente e com os membros da família é primordial
para que os profissionais da saúde, em essencial
o enfermeiros, possam oferecer um serviço de
qualidade, pois somente através de uma comunicação efetiva com todos os membros é que ele
estará apto a incluí-la adequadamente na terapêutica dos cuidados paliativos21.
Com base em tal entendimento, o estabelecimento de uma comunicação efetiva entre a tríade
enfermeiro-paciente-família é sobremaneira relevante, para se conhecer bem mais o paciente e
suas necessidades, com habilidade e compreensão, e proporcionar-lhe uma assistência terapêutica singular. Neste prisma, o diálogo entre o profissional da Saúde e a família do paciente terminal pode desvendar muitos anseios, medos e dúvidas presentes nessa dimensão e, de tal modo,
promover a criação de vínculo, importante e necessário nessa etapa da vida18.
A questão da segurança e da confiança é explanada nos relatos dos profissionais (Enf. 16 e
Enf. 18), que referem os seus cuidados consubstanciados em uma abordagem humanizada, que
é permeada por uma relação legítima com os familiares, mais próximos deles. Essa relação ocorre
pelo fato de os enfermeiros passarem a maior
parte do tempo dispensando sua assistência ao
paciente e a sua família, estabelecendo uma relação de amizade e, consequentemente, desenvolvendo um vínculo maior22.
Ante o exposto, ressalta-se que a comunicação (verbal e não verbal) foi compreendida pelos
enfermeiros envolvidos no estudo como parte
essencial do cuidado com o paciente terminal e
aos seus familiares. A relevância do tipo de linguagem utilizada depende do grau de comprometimento do paciente, porém é possível se comunicar passando informações que confortam,
esclarecem e dignificam a finitude humana. Logo,
o relacionamento interpessoal que ocorre entre
o enfermeiro e o paciente/familiar, no processo
do cuidar, tem sua essência nas habilidades de
comunicação, e isso é fundamental para que a
assistência de enfermagem seja humanizada.
Considerações Finais
O presente estudo, por meio do qual se abordou, com base na filosofia dos cuidados paliativos, a comunicação entre os enfermeiros e o paciente terminal, ressalta a importância de um
cuidar centrado no paciente em sua totalidade, e
não, apenas, em sua doença.
Ficou evidente, por meio dos depoimentos
dos enfermeiros participantes do estudo, que estes consideram o relacionamento interpessoal
com o paciente em fase terminal e com seus familiares como uma ferramenta imprescindível
para a promoção dos cuidados paliativos nessa
etapa de vida, haja vista que lhes permite esclarecer dúvidas, através de uma linguagem verbal e
não verbal que seja simples e acessível, de forma
que os pacientes exteriorizem suas angústias e
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Ciência & Saúde Coletiva, 18(9):2523-2530, 2013
seus medos. Outro ponto que merece destaque
diz respeito ao reconhecimento, por alguns enfermeiros envolvidos na pesquisa, quanto à participação da família no processo de cuidar do
paciente em fase terminal.
Nesse sentido, a pesquisa evidenciou a relevância da comunicação como uma estratégia fundamental para respaldar a prática clínica do enfermeiro direcionada ao paciente em fase terminal. Entretanto, acredita-se ser necessária a reaplicação deste estudo com os pacientes na terminalidade e sua família para confirmarem a relevância da comunicação como uma estratégia fundamental para respaldar a prática dos cuidados
paliativos direcionada ao paciente na finitude da
vida.
Colaboradores
CG Andrade trabalhou na análise e interpretação dos dados e na redação do artigo. SFG Costa
trabalhou na revisão crítica e na aprovação da
versão a ser publicada. MEL Lopes trabalhou na
revisão crítica e na aprovação da versão a ser
publicada.
Andrade CG et al.
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Artigo apresentado em 29/04/2013
Aprovado em 22/05/2013
Versão final apresentada em 27/05/2013
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Cuidados paliativos: a comunicação como estratégia de