HISTÓRIA E ARTES: O TRABALHO CONJUNTO NA ANÁLISE DAS FONTES-VISUAIS
Ivete Batista da Silva Almeida81
Johnn Alex Gonçalves de Oliveira82
RESUMO: Parece seguro afirmar que a Arte e a História realizaram uma parceria bastante intensa desde há muito
tempo. Todavia, nas quatro últimas décadas, uma questão se impõe: como abordar a fonte-visual na pesquisa
histórica. Os historiadores concordam que não se trata de criar uma nova área de pesquisa, qual seja a História da
Imagem, mas sim, de pensarmos na relação entre História e Imagem; como a História poderia se valer de alguns
dos princípios da análise das fontes-visuais, utilizados pelos estudiosos das artes, para ampliar a sua compreensão
sobre os fenômenos sociais. Essa questão é colocada como um desafio ao historiador a partir da adoção dos
princípios propostos pela Nova História, que, adotando uma postura interdisciplinar, considera vital o estreito
diálogo entre a História e outras ciências sociais, para viabilizar a utilização de uma maior gama de fontes, para o
trabalho do historiador. Para a Nova História, imagens, cartas, objetos, memórias, idéias, enfim, todo vestígio da
presença do homem e suas sociedades no tempo histórico, podem ser utilizados como objeto de análise do
historiador. Embora possamos analisar as fontes-visuais e a obra de arte dentro de sua dimensão social, a iconosfera
seria, de fato, um ambiente muito amplo, ao qual o historiador só terá acesso associando-se à leitura e às
ferramentas de análise das Belas Artes. Discutiremos aqui, alguns dos passos e princípios próprios do campo da
análise das artes visuais que contribuem para que o historiador possa que compreender melhor o conjunto de
relações de produção, de disseminação do conhecimento, divulgação, valorização e consumo que implicam
diretamente nas escolhas de formas e estilos aplicados a uma fonte-visual, e que lhes dão um sentido próprio.
ABSTRACT: It seems safe to say that Art and History have had a partnered very intense during virtually the entire
way related to the development of Human Science. However, in the last four decades, appeared a question to be
answered: how to approach the image as a visual-source in a historical research? Scholars in the field agree that it is
not necessary to create another area of study, namely the history of the image, but rather to think of the relationship
between history and image, how history could take advantage of some of the principles of analysis of the sources visual arts used by scholars to broaden their understanding of social phenomena. This question is posed as a
challenge to the historian who adopts the principles proposed by the New History, who, using an interdisciplinary
approach, believes it is vital the close dialogue between History and other social sciences, to enable the use of a
wider range of sources for the historian‘s work. For the New History, pictures, letters, objects, memories, ideas,
finally, all traces of man‘s presence and their societies in historical time, can be used as object of historian‘s
analyses. While we can analyze the visual-sources and the objects of art within its social dimension, the
iconosphere would be, indeed, a very wide field, to which the historian will have access only involving themselves
in the reading and analysis tools from the Fine Arts. We discuss here some of the steps and analysis principles of
visual arts that can contribute to the historian understand more clearly the set of relations of production, knowledge
dissemination, dissemination, exploitation and consumption that directly affect the choices of shapes and styles
applied to a visual source, and gives them a sense.
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Professora da Faculdade Católica de Uberlândia. Doutoranda no Programa de História Social da
Universidade de São Paulo E-mail: [email protected]
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Graduado em História pela Faculdade Católica de Uberlândia. Pós-graduado em Gestão e Políticas
Públicas. E-mail: [email protected]
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Por muito tempo a História se valeu das imagens eternizadas pela pintura e também de imagens e objetos
regatados pela arqueologia, cujas formas relatavam aos homens do presente, um pouco do que fora o mundo e as
sociedades do passado. Todavia, nas quatro últimas décadas, uma questão se impôs aos historiadores: como abordar
de maneira mais profunda a fonte-visual na pesquisa histórica. Os historiadores concordam que não se trata de criar
mais uma área de pesquisa, qual seja a História da Imagem, mas sim, de pensarmos na relação entre História e
Imagem e como a História poderia se valer de alguns dos princípios da análise das fontes-visuais, utilizados pelos
estudiosos das artes, para ampliar a sua compreensão sobre os fenômenos sociais. Essa questão é colocada como
um desafio ao historiador a partir da adoção dos princípios propostos pela Nova História, a Terceira Geração da
Escola dos Annales, que ao adotar uma postura interdisciplinar, considerava vital o estreito diálogo entre a História
e outras ciências sociais, como a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia, a Museologia, dentre outras, para
viabilizar a utilização de uma maior gama de fontes, para o trabalho do historiador, é o momento descrito por
Soares e Ferreira (2008, p. 7-8):
‗Quando em 1974 Jacques Le Goff e Pierre Nora coordenaram a publicação de
Faire de L´Histoire, estavam evidenciando novos horizontes para a história, que
saía então da dicotomia factual versus interpretativa para buscar novas relações
com seu objeto de estudo. Nos rescaldos pós-maio de 1968, uma série de
historiadores franceses discutiam novos problemas, novas abordagens, novos
métodos.‘
Para a Nova História, imagens, cartas, objetos, memórias, idéias, enfim, todo vestígio da presença do
homem e suas sociedades no tempo histórico, podem ser utilizados como objeto de análise do historiador. Embora
possamos analisar as fontes-visuais e a obra de arte dentro de sua dimensão social, essa dimensão, que constitui a
chamada iconosfera seria, de fato, um ambiente muito amplo, ao qual o historiador só terá acesso associando-se à
leitura e às algumas ferramentas de análise das Belas Artes. Pensemos, portanto na forma como o docente de
História pode trabalhar, utilizando os objetos das artes plásticas e visuais como fonte de informação e
questionamento sobre as sociedades do passado, a partir de obras e peças que estão, via de regra, disponíveis e
acessíveis num ambiente que possui uma relação igualmente peculiar com o objeto de arte: as instituições
museológicas.
Apresentar ao aluno as noções que envolvem a compreensão das sociedades passadas é uma tarefa
extremamente árdua, pois ao contrário das ciências exatas que podem lidar com as experiências para transportarem
para o concreto o que antes era abstrato, a história não pode fazer o mesmo; não podemos remontar por completo
toda a complexidade da sociedade brasileira do período colonial ou da sociedade egípcia da antiguidade tardia. O
museu é, portanto um dos poucos espaços dotados de elementos que nos permite tornar visível um ambiente
material que compunha a vida cotidiana de pessoas no passado. O vídeo, o cinema ou mesmo os efeitos
computadorizados de animação podem oferecer-nos simulações do real, mas apenas o museu nos permite entrar em
contato direto e real com objetos, indumentárias, espécies ou ambientes inteiros que fizeram parte do passado, que
o testemunharam.
O museu como instituição já teve diferentes funções durante a história de nossa civilização Ocidental,
mesmo hoje, não é raro encontrarmos pessoas que associam a palavra museu, a imagem de coisas velhas. Para a
criança não é diferente. E isso não é fruto apenas de desinformação ou preconceito, mas, sim, fruto de um histórico
de transformações da concepção de museu e de preservação no Brasil.
A palavra museu, que vem do grego, significa templo das musas; templo das nove musas que
simbolizavam as nove formas de expressão da sensibilidade humana, eram elas: Calíope, musa da poesia épica;
Clio, musa da História; Polímnia, musa da retórica; Euterpe, musa da música; Terpsícore, musa da dança; Érato,
musa da lírica coral; Melpômene, musa da tragédia; Talia, musa da comédia e por fim, Urânia, musa da astronomia.
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O museu era, na Antiguidade Clássica um ambiente no qual a produção cultural florescente era levada a
público, a produção artística em seus variados espectros e dimensões era apresentada nos museus, poderíamos
assim, numa comparação livre aproximar o museu, do período clássico a algo próximo dos centros culturais, às
casas de cultura ou mesmo às galerias de arte de nossos dias. Lentamente, outras idéias irão se somar à de templo
das artes, outras funções serão atribuídas aos museus; como a de aglutinar uma grande variedade de um mesmo
estilo artístico – como na Pinacoteca da Acrópole, em Atenas (séc. V a.C.) ou na Biblioteca de Alexandria.
Com a destruição da biblioteca de Alexandria em 641, desaparece o uso da palavra museu, mas outras
instituições continuam realizando atividades que darão origem ao nosso modelo contemporâneo de museu.
Basicamente, a diferença que teremos entre o museu antigo e as instituições que abrigam as artes na Idade
Média é que na antiguidade havia a preocupação de aproximar ou facilitar o acesso de um certo público o produto
do trabalho dos artistas, enquanto que na Idade Média, as coleções serão sempre propriedade particular, com o
único objetivo de uso e desfruto de seu proprietário. Estaria excluída, portanto a necessidade de exposição.
Cumprindo esta função medieval de museu temos: Os gabinetes de raridades, formados por tesouros reais ou por
tesouros do alto clero. Tanto os tesouros reais, quanto os do clero, eram constituídos por peças antigas, jóias, peças
em prata, ouro, marfim, moedas, relíquias religiosas e por tudo aquilo que tivesse um altíssimo valor, não um valor
social, mas um valor de capital, de troca. Quanto às coleções, nos centros comerciais e depois com o renascimento,
ricos mecenas e burgueses colecionavam também peças raras, moedas, jóias, ouro e prata, não apenas em função do
seu valor estético, mas fundamentalmente por seu valor monetário.
A conservação de peças antigas e obras de arte só irá se desvincular desta proposta particular e desta
visão monetária após a Revolução Francesa, com a fundação do Museu do Louvre. Criado em 1.793, o museu nasce
com o objetivo de auxiliar o Estado na construção da memória e da identidade nacional, o exemplo francês será
seguido por todo o movimento museológico mundial; e no Brasil, não será diferente.
Dessa forma encontramos a raiz contemporânea de nossos museus no século XIX, quando os museus
renascem do desejo romântico de construir a História nacional. No Brasil, temos que o primeiro impulso foi dado
ainda antes da Independência, quando D. João VI fundou o Museu Real com o objetivo de concentrar toda a
documentação - sobre comércio, produção e arte - dispersa pelo Brasil. A partir da Independência teremos a
fundação do Museu Real do Rio de Janeiro (1.828) seguido da inauguração de outros, que passarão a ter como
objetivo fundamental a reinterpretação do passado histórico nacional para possibilitar a construção de uma
memória nacional.
Portanto, não seria demais concluirmos que, o discurso imagético criado pelos museus, ao constituírem e
organizarem seus acervos, sobre o passado de uma sociedade é o que acaba por se cristalizar na memória coletiva,
pois, embora os museus nos pareçam instituições estáticas, não o são. Seu discurso sobre o passado é a base para
que a ficção reconstrua tempos remotos (filmes, novelas, peças de teatro), é também a base para que a mídia fale
sobre o passado (documentário jornalístico, especiais da TV, esclarecimentos sobre datas ou fatos históricos), e é
base também para que a escola fale sobre o passado (visitas monitoradas, consulta dos autores de livros didáticos
aos museus). Portanto, são várias as instâncias da sociedade que recorrem aos museus para tentarem compreender
determinadas faces da história de um povo, o que significa dizer que em vários momentos a intervenção da leitura
museológica far-se-á presente em nossa visão sobre a história será o material que irá dar base, fundamentação à
nossa memória, nossas impressões sobre um passado que não presenciamos, e que, portanto deve nos ser
apresentado.
Desta forma chegamos a um outro ponto desta questão, que é o do discurso imagético construído pelo
próprio museu. Cada museu, seja de arte, seja uma reserva botânica, seja de invenções ou mesmo histórico, ao
selecionar os objetos, as obras de arte e artefatos que deverão fazer parte do acervo museológico, já o faz a partir de
determinados critérios, que serão compatíveis com aquilo em que a instituição – a partir de seus estudos, pesquisas
e debates internos - acredita ser crucial para a construção da história de seu tema motor (a arte, a flora natural, a
tecnologia, a história, etc.).
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É importante ressaltar que a função didática do museu não é apenas a de relembrar ou comemorar os fatos
e acontecimentos do passado, mas sim apresentar o desenvolvimento, o processo de formação e transformação da
vida política, econômica, científica, artística, literária ou mesmo dos aspectos cotidianos da vida de pessoas que
viveram num passado próximo, distante ou mesmo no presente, por meio do objeto e da imagem.
Pensemos que a História é o grande conjunto de idéias e ações de todos os indivíduos de uma sociedade;
dada sua complexidade, cabe ao professor, buscar formas de oferecer ao aluno uma visão plural, valendo-se de
diferentes materiais e mesmo de diferentes ferramentas metodológicas. Hoje o aluno sofre um constante
bombardeio de informações, seja via internet, TV, rádio e vários outros meios de mídia e propaganda. Então é
preciso estar conectados com uma realidade vivida anteriormente e que constantemente, é repaginada, porém
mantendo normas criteriosas. Conforme Bittencourt (2002, p. 14):
‗A escola sofre e continua sofrendo, cada vez mais, a concorrência da mídia, com
gerações de alunos formados por uma gama de informações obtidas por
intermédio de sistemas de comunicações audiovisuais, por um repertório de dados
obtidos por imagens e sons, com formas de transmissão diferentes das que têm
sido realizadas pelo professor que se comunica pela oralidade, lousa, giz,
cadernos e livro, nas salas de aula. Se esse perfil diferenciado do público escolar
tem apresentado desafios para educadores, no caso da História as questões se
avolumaram á medida que a sociedade consumista tem se estruturado sob a égide
do mundo tecnológico, responsável por ritmos de mudanças acelerados, fazendo
com que tudo rapidamente se transforme em passado, não um passado saudosista
ou como memória individual ou coletiva mas, simplesmente, um passado
ultrapassado. Trata-se de gerações que vivem o presenteísmo de forma intensa,
sem perceber liames com o passado e que possuam vagas perspectivas em relação
ao futuro pelas necessidades impostas pela sociedade de consumo que transforma
tudo, incluindo o saber escolar, em mercadoria. A História oferecida para as
novas gerações é a do espetáculo, pelos filmes, propagandas, novelas, desfiles
carnavalescos...‘
Ora, o aluno deve ser sempre levado á pensar e repensar as suas ações, sejam elas no seu viver diário,
sejam no mundo acadêmico. Se conseguirmos fazer com que este procure outros meios de assimilação do
aprendizado, que não são somente os do meio escolar, mostramos que todos podem fazer algo pelo ensino, basta
que se queira fazer. O novo, muito antes de ser algo que separa, une. Participar de forma opinativa, instrutiva, é o
que forma o conglomerado do aprendizado. Uma escola não pode ser melhor ou pior, somente por sua estrutura
bem organizada ou localizada em local nobre. O aluno não deve ser menosprezado em sua situação de aluno,
simplesmente porque ainda o é. O professor que não lhe responde uma pergunta de imediato, não deve ser
exonerado de suas funções, por tal falha. O repensar no agir, constrói o refazer futurista. O caráter de esperança é o
que deve ungir pensamentos. O niilismo em nada ajudaria a reformular concepções. Freire (2006, p.76-77), diz:
‗Um dos saberes primeiros, indispensáveis a quem, chegando a favelas ou a
realidades marcadas pela traição a nosso direito de ser, pretende que sua
presença se vá tornando convivência, que seu estar no contexto vá virando estar
com ele, é o saber do futuro como problema e não como inexorabilidade. É o saber
da História como possibilidade e não como determinação. O mundo não o é. O
mundo está sendo. Como subjetividade curiosa, inteligente, interferidora na
objetividade com que dialeticamente me relaciono, meu papel no mundo não é só
de quem constata o que ocorre, mas também o de quem intervém como sujeito das
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ocorrências.‘
O que podemos observar é que, tomando-se por um lado o potencial do museu como espaço de
questionamento e redescoberta de ações e relações e considerando-se, por outro, a afinidade entre o jovem de hoje
e a comunicação visual, o trabalho com o conteúdo de História no ambiente museológico poderá vir a tornar-se
muito proveitoso, todavia, antes de apenas selecionar um museu temático que se aproxime do assunto que se deseja
desenvolver, o professor deve observar alguns princípios.
Primeiramente é necessário iniciar com os alunos um processo de educação patrimonial. Esta educação,
tal qual a escolar, inicia-se com uma alfabetização cultural, ou seja, desenvolvendo nas crianças a noção de
patrimônio cultural, despertando-lhes a atenção para as fontes que lhes podem esclarecer como é ou era o mundo
em que vivem e o quanto isso é importante não apenas para uma, mas para muitas pessoas. Desde a preservação
de uma árvore que pertence ao que restou da paisagem original da cidade, às fotos do vovô que mostram o bairro
ainda bem diferente do viria a se tornar ou até mesmo o mais novo e moderno prédio que demonstra o quanto a
cidade cresceu. Cada um destes objetos possui seu valor por terem o poder de representar uma época, um tempo
na vida de pessoa de um lugar.
Ao iniciarmos a educação patrimonial de nossas crianças é fundamental que deixemos claro que, para o
museu, ou seja, para a reconstrução da memória sobre nosso passado, não escolhemos objetos apenas por serem
velhos, muito menos por serem caros – valiosos no sentido monetário – não raro, as crianças se surpreendem por
entrarem em museus e encontrarem baús de madeira, colchas em tecido já puído ou amarelado, cômodas que
lembram a da casa da vovó e não compreendem o porquê estes objetos merecem tanto destaque. Isso acontece
porque os objetos das coleções museológicas são escolhidos a partir de seu potencial documental, ou seja, a partir
de sua capacidade de nos revelar modos de agir e pensar de uma sociedade.
Sendo assim, o objeto não apenas ilustra o cenário do passado, mas também nos conta um pouco da
história da cultura material, da política ou mesmo da sensibilidade e do senso de estética das sociedades passadas.
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Isso significa dizer que aquela história que o museu se propõe a contar é construída a partir do depoimento de cada
objeto museológico. Fazer com que a criança perceba, ao seu redor, quais seriam os documentos capazes de
recompor seu passado e dar-lhes o devido valor é o primeiro passo para que ela compreenda o quanto um simples
pedaço de cerâmica ou de vidro podem significar para milhares de pessoas.
Ao falarmos em educação patrimonial, não podemos esquecer da questão da preservação. Extremamente
polêmica, a preservação hoje se depara com a questão do desenvolvimento. Afinal, quando falamos em preservar
perfis arquitetônicos, áreas inteiras construídas em períodos longínquos do passado, ou mesmo na preservação da
natureza original de uma região, estamos fadando este lugar à estagnação econômica? As áreas consideradas
museus a céu aberto, patrimônios históricos de uma sociedade ou de toda a humanidade só poderão manter sua
economia com o subsídio e a tutela governamental?
Na verdade, hoje, queremos crer que não. A educação patrimonial dos próprios moradores de áreas
tombadas pelo Patrimônio Histórico é o primeiro passo para alcançarmos uma preservação sustentável, que seria
a preservação do que de fato fosse significativo para a sociedade, de forma consciente; possibilitando assim à
própria comunidade formas de crescer economicamente sem provocar a destruição do patrimônio, para que as
gerações futuras possam desfrutá-lo estética e economicamente. Programas de turismo e visitação controlados,
formação de um sistema auxiliar de infra-estrutura para as regiões tombadas pelo patrimônio e, é claro, um
programa extensivo de educação patrimonial podem contribuir muito para alcançarmos o equilíbrio entre
preservação e desenvolvimento.
Uma vez compreendido seu valor, é possível então entrarmos em contato direto com o objeto. Este
contato nos oferecerá uma nova gama de aprendizados.
É importante ressaltar que o trabalho com o museu independe do trabalho com a análise ou com a
crítica das obras de arte que estejam ali expostas, posto que, primeiro, nem todo museu é um museu de arte e
segundo, porque mesmo sendo um museu de arte, para o trabalho com a História, o que interessa para o professor
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é levar o aluno a acompanhar o desenvolvimento, a construção da história sobre uma sociedade que o museu
pretende contar, portanto a compreensão da existência do conjunto do acervo é muito mais importante do que a
compreensão de seu valor artístico. Exatamente por isso, muitos museus não oferecem a assessoria de monitores,
por entenderem que o diálogo entre o visitante e o conjunto exposto não necessita imediatamente de intervenção ou
controle técnico.
Uma vez preparados para o contato direto com as peças e cientes do tema que engloba as obras expostas
no museu, devemos então seguir um roteiro, que fará o elo entre o que o museu fornece e o que o professor
necessita.
Muitas vezes encontramo-nos em museus, cujos espaços físicos de suas dependências, bem como o
número de obras de seu acervo são bastante reduzidos. Apesar da pequena variedade material, uma visita assim
ainda será rica porque torna as possibilidades de ação do professor mais pontuais, isto é, o professor deverá
discutir profundamente o tema ao qual as poucas peças se remetem.
Mas existem muitos museus que possuem uma gama mais variada de coleções, exposições temporárias,
espaços de apresentação de arte alternativa (curta-metragem, fotografias) nesse caso, o roteiro deverá ser mais
cuidadoso, pois são várias as histórias que este museu nos apresenta, assim sendo, será necessário que o professor
faça uma visita anterior (ou solicite prospectos das salas de exposição, ou faça uma visita virtual pela internet) e
defina qual o caminho que deseja seguir dentro do museu, para que a história que será remontada a partir da
visitação possa de fato contribuir com as discussões em sala de aula.
Com um grupo devidamente esclarecido sobre o valor das peças museológicas e informados sobre o
espaço físico que encontrarão e o caminho que percorrerão, o grupo poderá começar sua visita.
O que dizer, porém, ao olharmos uma carta, ou uma xícara ou mesmo uma estaca de madeira? Será que
basta dizermos: o papel no passado era assim, a porcelana no passado era assim, as pessoas no passado cortavam
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madeira assim? Obviamente não! Esta seria justamente a abordagem errada, por ser superficial, por reduzir o
objeto à uma vitrine do passado; e o objeto museológico é muito mais que isso, ele é testemunha (Bloch, 2002), e
que como, tal tem muito a dizer, e para tanto precisamos questioná-los, precisamos lançar perguntas para e sobre
o objeto.
Portanto, o museu demonstra seu potencial como fonte no trabalho didático com a História a partir do
momento em que o visitante abandone a postura estática de admiração e comece a interagir e questionar o objeto.
Quem o utilizava, Como era utilizado, Com qual técnica foi construído, Como chegou até aqui, Qual o valor que ele
tinha em sua época, De onde ele veio, e assim por diante.
Muitas destas perguntas poderão ser respondidas pela própria observação da peça, ou pela ficha que ele
trará ao seu lado, ou ainda, em alguns casos, por meio dos monitores do próprio museu.
Enfim, para acompanhar e até mesmo instigar a criança a lançar perguntas que se remetam à história da
vida vivida pela peça de museu, o professor não precisará se desdobrar entre cientista e crítico de arte, mas
apenas realizar o seu papel de mestre, maestro, dessa experiência que pode se tornar muito especial.
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Referências Bibliográficas
Bittencourt, C. (2002). O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto.
Bloch, M. (2002) Apologia da História, ou o Ofício do Historiador, tradução: André Telles, Jorge Zahar Editor,
Rio de Janeiro.
Freire, P. (2006) Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra.
Le Goff, J. (1992) História e Memória. Tradução Bernardo Leitão, et all. 2° Ed. Campinas: UNICAMP.
Mocellin, R. (2006) História para o ensino médio: curso completo. São Paulo: IBEP.
Soares, M. C & Ferreira, J. (2008) A História vai ao cinema. Rio de Janeiro: Recorte.
Suano, M, (1986) O que é museu. São Paulo: Brasiliense.
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81 Professora da Faculdade Católica de Uberlândia. Doutoranda no