chave
cot yfm
EDITORIAL
texto escrito.
Assinam-se os artigos?
Por outro lado, os que defendiam a
Essa foi, durante algum tempo, uma
pergunta que
se ouvia com freqüência
preocupavam com o carátei individualis-
entre os membros do grupo Chave.
Realmente um problema, cada membro
com
uma
sua
posição,
argumentação.
cada qual com
Foi
então
posição de não se assinar os artigos se
que
se
ta
dos
textos
que
a
sua
assinatura
poderia acarretar, que toda a diversidade
e que todas as posições dos artigos são
mès de julho,
identificados pelo seu próprio conteúdo
fazer reuniões para se debater o tema à
e não por se fulano ou cicrano que o
procura de uma conclusão em conjunto.
escreveu.
decidiu,
em meados do
Longos os debates,
Havia ainda uma terceira posição em
os argumentos iam
mudando, as posições se definindo mais
que
e
daqueles que concordavam i:om a assina-
no
fim
três
posições
se
firmaram,
se
defendiam
os
mesmos
pontos
todas as três com base em alguns pontos
tura dos artigos,
em comum: existe um caráter de grupo
forma de se assinar através de pseudô-
na proposta de fazer a revista, portanto
nimos, e que não daria margens para que
não se deixa de lado em qualquer das
houvessem mistificações pelos leitores.
Todas
opções a importância de diagramadores,
distribuidores
e
qualquer
outra pessoa
das
essas
mas que propunha a
discussões e exposições
propostas
nos
levaram
a
uma
que não exerça a função de autor de
votação, desde que as três posições se
artigos,
mantinham.
além
de
que,
dentro
desse
Por maioria a proposta que
caráter de grupo, a diversidade de idéias
se manteve foi a primeira,
que
na
assinam os artigos de agora em diante, a
medida em que suscita debates e que as
como adendo, todo número consistirá de
mesmas não se mantém estáticas. Então
artigos de colaboradores,
havia
da
que
existe
tem
sua
importância
aqueles que defendiam a idéia de
se deveria assinar os artigos,
pois
que todo artigo é escrito por alguém e é
necessário que este seja identificado, o
que
levaria também ao reconhecimento
de uma diversidade interna.
De outro lado não se poderia deixar
os artigos sem assinai pois que muitas
revista
grupo
a
Chave
de
e
um
que
logo que se
dos membros
artigo
desse
assinado.
Juntamente com essa decisão, outro
fato importante ocorreu neste intervalo
de publicação: Dois membros do grupo,
não se identificando mais com a propôs
ta da revista, ttesde os seus objetivos até
vezes mesmo depois de debatidos, have-
a que
riam aqueles membros que não concor
anunciaram a sua demissão,
claiiain
leuniões e debates.
com
as
idéias
defendidas pelo
feito pelo
modo seria
público se destinava até então,
atiavés de
:
ELEIÇÕES
C70/ "76]
André Vitor Singer
Fazer um comentário, hoje no Brasil,
representa além de um esforço de
análise, um esforço de imaginação. O
rigor analítico parece não ser suficiente
para prever-se razoavelmente o futuro.
Além disso, eu pessoalmente não conheço leis válidas explicativas dos movimentos sociais. O que leva uma camada
social, ou mesmo uma comunidade a
tomar tal ou qual atitude em tal ou qual
momento?
Apesar de não ter resposta para esta
pergunta, e sabendo que o máximo que
posso fazer é alinhavar algumas informações, vou tentar relacioná-las de uma
maneira que talvez venha a ter alguma
utilidade para uma compreensão maior.
Nas eleições de 1970, como disse na
segunda parte deste trabalho, predominaram os votos brancos e nulos (nas
eleições municipais de 1972, ocorreu
mais ou menos a mesma coisa), enquanto que em 74 houve uma maciça vitória
do MDB Existem diversos fatores que
podem ser levantados para explicar essa
mudança, a onda de cassações de 69
desarticulou o MDB impedindo-o de
realizai uma campanha de monta, em 74
houve uma abertura que permitiu ao
MDB rearticular-se ao mesmo tempo que
assumir o seu piugrama. como bandeira
de luta. Por outro lado, a crise do
modelo econômico pode explicar, em
parte, um fator essencial: a pressão das
bases, o descontentamento generalizado,
o sentimento de oposição. Essa pressão
das bases, associada à atuação do MDB,
resultou naquilo que se viu.
O MDB tornou-se desembocadouro
dos descontentamentos, recebendo, digamos assim, um mandato popular. No
entanto, entre a possibilidade de receber
este mandato e poder cumpri-lo, media
muita coisa. Mediam cassações, pressões,
ameaças, situações estas não inteiramente explicadas. "Existiriam, no chamado
Sistema, forças contrárias à realização de
eleições diretas? ". pergunta o jornalista
da sucursal carioca do Estado de São
Paulo, a propósito do desmentimento de
um Senador que havia afirmado ter
ouvido do Presidente Geisel a confirmação do calendário eleitoral, inclusive
com eleições diretas em 78. Comentário
este publicado em março deste ano,
depois das cassações dos deputados
gaúchos,
Nadyr
Rosetti e Amaury
Müller, e às vésperas da cassação de
Lysaneas Maciel.
Havendo ou não forças contrárias à
realização das eleições diretas, o governo
não contou mais com o consenso
eleitoral a partir de novembro de 74, e
tenta recuperá-lo este ano, em eleições
municipais, nas quais é mais fácil ganhar
em número de prefeitos pois conta com
a máquina governamental e a inexistência ou fraqueza do MDB em diversos
municípios; existe além disso uma tendência do MDB em vencer nas cidades
de maior porte, o que lhe dá mais votos nos
municípios em que ganha, f^or isso deve
obter maioria de votos. É nesse sentido
que a ARENA e o governo (não como
tendência única e uniforme, mas existente), estão tentando transformar as
eleições numa espécie de plebiscito,
contando exatamente com essa maioria
relativa Para garantir essa vitória, vem a
Lei Falcão proibir a propaganda eleitoral
na televisão e no rádio. Os meios de
comunicação têm um papel discutível,
mas de alguma maneira influencia o
comportamento eleitoral efetivo. Parece
que aqui se delineia a opção fundamental: se o governo não detém apoio para
seu projeto, ou permite que essa oposição atue efetivamente ou não. Existe no
entanto outra saída
que o governo
consiga essa apoio (nem que seja passivo). Até que ponto pode consegui-lo?
A Arena é um partido dividido; assim
mostrou-se em 74. Além disso existe
uma desarticulação gradual dos tradicionais currais eleitorais e na sua forma
orgânica de conseguir votos, embora esse
seja um assunto controvertido: "No
atual momento político brasileiro, a
figura mais importante do país é a do
coronel" / afirma José Bonifácio, líder
do governo na Câmara Sendo José
Bonifácio mineiro, sua afirmação adquire
um sentido concreto, sendo muito provável que no interior do estado, e
%l O Estado de São Paulo - 22/7/76
principalmente na região sul essa ainda
seja a força amplamente dominante. Mas
existem diferenças regionais muito grandes, como por exemplo no nordeste,
onde ao que parece, algumas dessas
situações começam a modificar-se. Parece difícil, portanto, que haja uma
recuperação muito granda
Essa questão da divisão interna nos
remete a outra, a da própria representação dos partidos, já que a divisão não
é privilégio da Arena
Embora já tenhamos mencionado esse
ponto nos artigos anteriores, vale a pena
retomá-lo. Por um lado, os partidos
não são representativos em sua unidade,
ou seja, facções com interesses próprios
de cada um deles, colocam em cheque
constantemente, sua própria permanência e ou apoio ao partido. No caso, a
sublegenda ainda serve para contornar a
situação.
Por outro lado, os partidos não são,
de fato, representantes da maioria da
população brasileira
Este quadro sofreu algum tipo de
modificações nas eleições de 74 e desde
então as eleições têm adiquirido uma
importância nova, na medida em que
servem como forma de expressão da
maioria, e não somente como uma
atitude de sabotagem ou indiferença ao
próprio ato eleitoral.
Os políticos sentindo esta situação,
respondem aos anceios populares de uma
maneira ou de outra, e não somente os
do MDB. Observemos no caso, as
diversas
manifestações de diretórios
juvenis da Arena contra o 477, evidente
concessão ou isca para o movimento
estudantil, que pode ser enquadrado
nessa ampla categoria "povo".
Terminando, perguntamo-nos quais
são as tendências do processo. Estas
fogem-nos, junto com a própria subterraneidade do processo que parece ser de
transição.
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possível —
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gesto.
Chico
M.TüflT
CIÊNCIA
E
POLÍTICA
"O debate científico pode estar desvinculado do
debate da realidade nacional? "
Henrique Ostronoff
A 28? reunião anual da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência,
realizada em Brasília neste mês de Julho,
suscitou um debate entre a imprensa e
outros círculos não científicos e se
intensificou nos meios acadêmicos. Lsse
debate girou em torno da questão: "O
debate científico pode estar desvinculado do debate da realidade nacional? "
Em torno desta questão, várias cor
rentes se manifestaram. Entre essas, as
mais
intensamente
defendidas
são:
aqueles que defendem um certo purismo
científico, fundamentado pela teoria
positivista do afastamento do cientista
do seu objeto, como se todas as várias
ciências, sejam das naturais ou humanas,
fossem tratadas em laboratórios com a
ajuda de tubos de ensaio e reagentes.
Por outro lado, há aqueles que ligam a
ciência à política apenas através da
discussão da
política científica do
governo, no que tange à participação do
cientista nos projetos estatais ou na falta
de subvenção governamental à pesquisa
As duas correntes que foram aqui
citadas não atingem o ponto principal da
questão. Sabemos que toda realidade
tem duas facetas, sob as formas das
quais se apresenta: a aparência e a
essência. O papel da ciência é exatamente o de procurar mostrar a essência
da realidade que se manifesta como
aparência. Se tivéssemos a coincidência
entre essas duas facetas, não haveria a
necessidade de uma ciência. Portanto, o
produto científico nada mais é que a
descoberta da realidade tal como ela é
no seu mais amplo sentido, ou melhor,
na sua interação dialética.
A corrente "purista" è a que tem
regido a ciência tal como ela se
apresenta hoje nos países capitalistas.
Isto é, tanto as ciências naturais como as
sociais, na sua maior parte não ligados a
uma prática política, vão também fazer
descobertas científicas do funcionamento de grupos sociais, sem uma
participação na transformação da realidade destes grupos.
12
Vemos então como esta corrente
científica é alienante e ideologicamente
demarcada Por um lado, veta a participação do cientista na prática política
das sociedades, mantendo-o afastado da
realidade e assim sem poder interferir
ativamente na transformação real desta.
Por outro lado, como sua produção
científica ó determinada pela dinâmica
de mercado do modo de produção
capitalista, suas descobertas científicas
tendem a um fim que não o bem estar
da população em geral, mas à retenção
destas nas mãos da classe dominante que
as utilizará para reforçar sua dominação,
seja através de um maior controle social
a partir das descobertas provenientes das
ciências ditas do Homem, ou pela
retenção das técnicas produtivas dos
meios de produção pelos poucos donos
de capital, o que faz com que se dêem
condições para a exploração capitalista
A outra corrente, apesar de reinvidicatória, põe em cheque apenas a
política científica do governo, sem
questionar estruturalmente os problemas
que a afligem. Não percebe que a
questão da não participação do cientista
nos projetos nacionais, como é o caso da
Usina Nuclear de Angra dos Reis e a
falta de recursos materiais para o
fomento à pesquisa, ê um problema
intimamente ligado ao desenvolvimento
do capitalismo brasileiro. Podemos ver
que com o incremento à instalação de
empresas multinacionais no país, como
uma forma de instigar um "desenvolvimento" tecnológico e econômico a curto
prazo — o famoso "milagre brasileiro" —
importamos "know-how" juntamente
com o capital estrangeiro. Conseqüentemente, os nossos técnicos não participam
de
nossa
''emancipação"
tecnológica.
Assim, através dessa discussão surgida
na citada reunião da SBPC, vemos que
tanto as ciências naturais como as
humanas, em seu debate, estão intimamente ligadas não só à política mas
também às outras visões da realidade,
totalizando-se dialeticamente; não tratando apenas de aspectos conjunturais, mas
também estruturais.
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0 que você vai ser quando crescer?
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15
A AGULHA
E O VENTO
Og R. Dória
I
Ouvia os passos de D. Carla de longe. Logo abriria a porta e seu volume
preencheria o quarto, sufocando-me. Minha solidão não seria tão sentida e meu
sossego talvez não se esvaísse inteiramente se não contrastasse com a presença de D.
Carla no quarto. Aquele corpo desproporcional e feio. Explorador.
— Olá D. Gracinda.
— Bom dia. O vestido está pronto para ser experimentado. Aqui no canto.
— Parece bom. .. Gracinda, você está acertando.
— O que posso.
Não podia. Se quisesse transformar meus pensamentos em vestidos, seria na certa
objeto de condenação, de injúrias e, quem sabe, prisão.
Não se repugnava a idéia de deformá-las e imaginá-las dentro de vestidos, a
introduzir-lhes estes meus alfinetes nas suas bundas e tetas. Odeio todas ao vê-las
confortáveis e satisfeitas nos vestidos, pois sim, corno jaca no chão. Um crescer e
decrescer — como o ato de respirar — de carne a preencher os espaços vazios. As
madames. E como todos de espírito pequenininho, dependem de nós para calçar-se,
vestir-se e maquiar-se; reconstituir o cosmos. Olhos, nariz e boca num plano
harmônico. Basta um abrir de boca desajeitado e pronto, esvai-se tudo. Eriçam-se os
pelos quebrando o plano em milhares de pedacinhos, terra em tempo de seca.
Tragando-se, então, em desespero, tornarão o ar pesado e sufocante e áspero. É
inútil negar, contornar, envolver o vazio em panos de cetim; afinal a vida não é feita
de asperezas e insatisfações? Odeio todas.
— Volto amanhã novamente.
— Está bem. Ficará pronto até . . .
— Não gostei daquele corte na manga
— Vou repará-lo. Não se . . .
— Até mais então.
— Até.
O trinco, a brecha, os pés, o blan e a porta, assentando restos de lembranças no
chão.
Tranquilizei-me. Definia-se o ambiente, os objetos vacilantes e provocantes
ganhavam presença; a ação recomeçava: ponto, vago, ponto, vago, ponto, vago .. .
Era inadmissível aceitar, achar-me aqui por vingança de uma miséria qualquer.
Para viver, pôr à venda panos coloridos sem conseguir estabelecer a mais simples
relação entre eles, e o pior, cobrir corpos mais dispersos ainda; fragmentos como
perus tentando Vencer o círculo demarcatório, tentando decifrar insignificâncias.
Bracei-me longamente ao peitoril da janela, varando a neblina com os olhos e
"concentrando ouvidos à procura de seus informantes: asas de conversas, piar de um
roller abocanhado pelo vento; nada me orientava. O tempo deixava de sé-lo,
tornava-se um emaranhado de insoluções e incontinuidade, e nessas brechas
"vertiginosas perdia-me, escorregava. Tremores na espinha como quando um ziper a
raspar a pele de um corpo há muito sem sexo. Certamente, se tudo à minha frente
se tornava vago e incompreensível, cá dentro seria diferente; então retornava à
máquina de costuras, esta não emperrava, corria o pano: ponto, vago, ponto,
vago ...
Irritava-me, às vezes, perceber que tornava-se estúpida em demasia. Não me
recordava de ter dito uma única palavra de desacordo a D. Carla Quase bestificada,
ficava a admirar as decisões da rainha-mestra Um odor de ratoeira suja fustigava
meu nariz. Eram meus sentidos que pediam socorro: peguei um alfinete e o
introduzi várias vezes em minha mão até conseguir gota de sangue; começava, então,
a sentir meus ossos se recompondo, os dentes a recuperarem sua firmeza. Com os
dedos deslizava pelo alfinete como por uma veia; recomeçava a pulsação forte. Já
podia falar, já podia sentir.
O tempo corria como trem apressado. Não havia momento para mais nada. De
que valeu tudo isto? O que fazer? Desistir e partir. Um gemido, a brecha, os pés e
0 trinco. Caminhei a passos vagos sem tocar o chão como um pássaro que sonhei em
noite passada, que subia alto e descia sem tocar a terra O vento não deixava.
9
17
ANUNCIE NA CHAVE
•
QUANTO VALE UMA
ASSINATURA DE MOVIMENTO?
B,1 i<,
um0
A oo^ ♦ '•'
""P'""0 ",,l*pe',d•n"■• c'<!mc":'ó"co e <;ombo1'va,
da nofieio d«$»lncu|a(fa,do» mt«rtis»v do* grandes gruoo»Konov.cos
.,.,
FAÇA AS ÇONTASj
Mo !j .„mp\o>mporm. a»«íO<Ubow. 0,0*7.00 rortonto, OI 364,00. Como ol.rto ,pc. f.:^.
VatBitontMt. »0 .«•mplarw oni.rier»», * wè ««olho (et«rt<í »àlid« opinai «m t.rr,(6t« nocionol) U>ij».
«M4 Cf% 70,00. Semondo hfdo. ua ofcinaium *>«al vai» O» 434.00. Mgi.yot* pod» «ox»r «m bom i«»»6Vi* • «ndo M inoMír b«m "mformodo, «tinw* M«»liii«oKi ppr op»'*» Cri 300.00.,
VOCÊ PAGA 43 JORNAIS È RECEBE 621
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N»>te sentido, «ttou enviando e cheque de A* ■
, «m nonw d» Edição S/A
— Cdilara de livro», Jornaa e Revistos
Se o pedido de aninaturo for feito na Europo, o pagomenlti deve ter enviado .
paro o Conlo fo»n>« CC* 23*) 535 € 020 M. FOUTI, BwrMo 142 — fari» ?»«««#,
're^O da ossmaturo no exterior: ANUAl USS 70 / SEMESTRAL USt 35
□ SEMBTRAl
Cr$ 150,00
Detefé f«<*b»f gtatvitamente 1 •«•■ r:are» olro«"J«>'
FALA ALBERT
Entrevista a Ligia Fromer, Gisela
1594 TRIBUTO A
O Eis Joglars apresenta-se em São Paulo em
Junho, a peça Alias Serrailonga é o ponto alto do
Festival Internacional de Teatro. Não pode-se deixar
de ver a peça, o grupo catalão é excelente, não
importa que a peça seja na lingua catalã, as raízes
do grupo estão na mímica.
Realmente a peça é impressionante, os atores aos
nossos olhos arregalados estão perto da perfeição.
Da o que pensar.
Para pensar melhor, conversamos com Albert
Boadella, diretor do grupo, no último dia de sua
estadia aqui.
O aparente absurdo de escrevermos esta apresentação no presente, justifica-se na medida em que a
sensação do momento permanece em nós.
CH — Numa declaração sua, você disse
que se concluíssem a peça na cena em
que os camponses sobem ao palco, isso
seria trunfante, fascista e irreal. Que
significa exatamente isso?
A. BOADELLA — Quis dizer que existem
dois aspectos da questão; o primeiro é
que nunca na Espanha cortou-se a
cabeça de um rei, e não existe um só rei
que tenha sido morto pelo povo e
naturalmente nunca se terminou uma
revolução a esse ponto triunfalista, mas
o que acontece é que nós no ano de 76
temos um regime, agora evoluiu em certa
medida, mas que no fundo não é um
regime em absoluto produzido por esse
cortar de cabeças por aqueles que sobem
com as foices. Portanto apresentaríamos
um final Irreal diante do público espanhol, que se sentiria completamente
19
BOADELLA
Wajskop e André Vitor Singer
SERRALLONGA 1634
compensado com o final muito bonito e
triunfante e iria para sua casa tranqüilamente. Então a outra proposta que nós
fazemos, porque há uma coisa muito
curiosa, é que nós terminávamos a peça
aqui, teoricamente, durante os ensaios;
então vimos que a obra não poderia
terminar com as foices, tinha-se que
buscar uma realidade mais próxima
Então é o que nós pretendemos com
este final que damos, no qual em certa
medida damos quatro pinceladas na
realidade nacional e em parte na realidade internacional, dessa espécie de
pseudo-compra de revoluções. No fundo
é um final muito polêmico e que em
certa medida não compraz, desde o
ponto de vista triunfalista, o espectador.
Então o espectador fica com uma
sensação incômoda com este final,
discute-o, não se acha completamente
compensado, um final provocador para
realmente estimular a realidade que
exista Este é um pouco o fato deste
final, quer dizer, o outro final seria
irreal, portanto entendo que seria um
final triunfalista. Digo inuntalista porque
faço uma união entre a palavra triunfalista e a fascista, isto existe e nós o
conhecemos. 0 triunfalismo, os grandes
NASCEU EM VILADRAU,
LAVRADOR E ESPERTO
dogmas do nosso país, por exemplo.
Império em direção a Deus^ tudo pela
Pátria etc. . Quer dizer, seria muito de
acordo com aquele final, então nós
queremos evitar este aspecto porque é
irreal. Se é irreal já é para nós de certa
forma inútil. E muito diferente se nós
contássemos uma história completamente desligada de uma realidade de
nosso país, ou de nosso contexto quase
mundial, então talvez pudéssemos aplicar
20
um tnidl arqueológico a história, quei
di/ei o tmal real no ano de 1640, uma
revoliJi.ao dos ceitadores que termina
com o vice-tei em Catalunha, etc
depois de um descontentamento de anos
e jiios, este sim se fizemos a reprodução
aiqueològica de Seirallonga, mas como
em nenhum momento se pretendia isso,
e constantemente ocorrem ações que nos
transporiam a nossa época. Se vocês
conhecessem per tertarnente a realidade
espanhola vocês perceberiam que o
turrsmo comeu metade do pais além de
comer também parte dos costumes.
Nossas costas, nossos povoados que
antes eram maravilhosos, são hoje bal
neános imensos que algum dia podem
servir para recolhei a Armada Norte
Americana, se necessário.
Além disso, a reação ao regime
franquista è, digamos assim, uma reação
um pouco desunida. Não tem havido
uma reação fortíssima, senão natural
mente o regime não teria se mantido
duiante quarenta anos, não teria ficado
no poder com esta facilidade
E
um pouco esta revolução de
che-guevaristas que dizíamos no espetáculo.
CH
Mais especificamente o que vocês
queriam dizer com o adjetivo fascista?
Porque achamos esse, dos três adjetivos
é o que toca mais, porque o fato de que
seria triunfalista e irreal é óbvio.
A. BOADELLA
Eu posso dizer o que
é fascista porque vivi quarenta anos num
país fascista, pelo menos durante os
quinze ou vinte primerros anos depois da
nossa guerra, desde o ano de 39. Então
em certa medida unifico como uma
medrda de demagogia fascista, normalmente a demagogia tascrsta utiliza como
base o triunfalismo, você lé os discursos
de Hitler, por exemplo, e são todos
realmente medidas
tnuitfalrstas
nós
somos os melhores, a raça mars lorra, e a
mais bonita da Europa, etc, etc; é um
pouco neste sentido que eu quero dizer
Certamente que os filmes da época de
Hitler
e não vi todos
terminam um
pouco com este final, num outro sentido
é claro, cortando a cabeça de outras
pessoas, mas o procedimento é o mesmo
em certo sentido. Quer dizer, é um
problema de procedimento, eu não
quero dizer que cortar a cabeça de um
rei seja um fato fascista, mas a forma
como pode terminar um espetáculo é
uma forma realmente triunfalista e
portanto fascista desde o ponto de vista
demagógico
CH
Na entrevista dada por vocês ao
Jornal da Tarde, você disse que a
Catalunha estaria procurando uma independência
cultural,
ou
por
meios
culturais, ao contrário dos Bascos que
estariam buscando através de uma luta
armada Como funciona isto?
A. BOADELLA
Isto está dito muito
sintéticamente
A situação é muito
complexa. O país Basco e a Catalunha,
suponho que devem saber, tem um
CANSADO DE TANTAS
DIFICULDADES, SERRALLONGA
JUNTA-SI: A BANDOLEIROS
21
FELIPE REINAVA DE DIREITO
MAS ERA OLIVARES QUEM
REINAVA DE FATO
problema de nacionalismo multo importante dentro ao teçjime espanhol. Não só
no regime mas também tradicionalmpnte Pratirampntp desde o ano do
1640, quando houve uma revolução dos
ceitadores, e o pais Basco e Catalunha
foram anexados ao sistema central.
Então o país Basco e o Catalão são
praticamente como dois países, o basco
naturalmente é um homem impulsivo,
muito reto, geralmente muito nobre, de
procedimento muito violento; quando se
propõe a uma coisa a sua violência é
total para consegui-la. Um catalão é
filho de fenícios, gregos, mediterrâneo,
então é um negociante, antes de pegar
na metralhadora ele prefere negociar
com ela na mão, de qualquer forma ele
a vende e com o que consegue compra
outras coisas: é um procedimento muito
diferente. Então nas duas políticas existe
um ponto comum, o de buscar a
autonomia. No país Basco o trabalho
tem sido feito pela E.T.A., quer dizer,
por terroristas da E.T.A., por meios
absolutamente violentos declarando a
Espanha como inimigo, tem-se que
atacar, como seja, desde os governadores
até os chefes de sindicatos. Na Catalunha tem-se negociado com a Espanha,
tem-sp abe^o arandp<: hanr-os o^ arintip^
industriais cataíões
participam
em
grandes negócios do resto do pais,
tem-se dado muito valor — e este é lado
mais positivo da Catalunha — à educação
das crianças, que seja feita em catalão,
que seja feita através do conhecimento
de nossos poetas, de nossa História, das
nossas pequenas regiões, etc. Então
chegou-se a um ponto bastante importante
nesse sentido,
ao que
não
chegou-se, naturalmente, foi a um grau
de violência tão grande como no país
Basco. Quer dizer, são duas linhas
completamente diferentes, apesar de que
as duas posições criem problemas gravíssimos ao regime espanhol de formas
muito diferentes; uma porque o regime
tem que se utilizar de uma grande
quantidade de policiais para enfrentá-la e
descobri-la, mas ao mesmo tempo tem
gente que diz que a única forma de
terminar com o terrorismo é dando
liberdades democráticas ao país Basco; e
a outra é porque é um sistema de
infiltração, existem oito milhões de
pessoas que falam catalão, existe um
status econômico e cultural muito
importante; então é um país reconhecido como um ente muito especial, além
disso, temos uma lingua que também é
diferente.
São
duas formas completamente
diferentes, a nossa é talvez a mais
degenerada, a dos bascos é a mais
primitiva.
CH - Relacionado com isso, como se
processaria a Revolução Cultural, se é
que se pode chamar assim, à qual vocês
se propõe como cidadãos cataíões, num
contexto de insatisfação camponesa que
se coloca na peça e que permanece.
23
que me chamem "ei espanolito" como
aos outros, quero que me chamem "ei
catalan".
Por outro lado existe o
problema político, que pode resolver-se
de diversas maneiras, eu não tenho
nenhum inconveniente em ter um passaporte espanhol e ter uma carteira de
identidade
espanhola,
ou
ter
que
pertencer ao exército espanhol, este é um
problema diferente. Resolve-10, assim a
nível de condições como hoje em dia se
tenta resolver o Mercado Comum é
possível, por que eu me sinto mais
perto, naturalmente, de um homem de
Madrid ou de Servilha do que de um
homem de Paris ou de Londres. Portanto dentro de tudo existe uma história
mais comum e eu estou mais disposto a
burocratizar isto um pouco mais. Eu
quero que reconheçam a minha personalidade É simplesmente isto, suponho
que é suficientemente amplo.
CH — No espetáculo, o fato de que
sejam os mesmos atores que representam
diversos papéis muito importantes não
deixa claro em nenhum momento o que
é certo, o que é errado, o que é bom, o
que é mau. Poderíamos dizer que isto
faz parte de um plano de mistificação?
Como devemos entender, por exemplo,
o fato de que sejam os mesmos atores
que representem os companheiros de
Serrallonga e depois transformam-se em
policiais?
A. BOADELLA — Isto tem várias causas,
a primeira é que nós não podemos
contar com uma companhia de cem
atores e este me parece um fato muito
importante. Uma companhia como a
nossa que se auto-financia com onze
atores, já é muito difícil de se manter na
Europa. Este é o primeiro dos fatores, e
um fato técnico. Depois existe um outro
fator importantíssimo, ao qual nós
damos
importância vital, é um certo
distanciamento constante, quero dizer
que o espectador não se afeiçoe em
demasia com um ou outro personagem.
Não fazemos teatro no sentido psicológico, como o propõe Stanislavski, um
tipo de teatro no qual você se afeiçoe
com o personagem e segue sua evolução
psicológica. Nós propomos, por assim
dizer, um teatro de imagens, que vai
mais ao sentido que à própria razão.
Então, cortamos toda a possibilidade de
carinho com o personagem. 0 único
personagem que se mantém até o final é
Serrallonga porque naturalmente é necessário, e o Rei, que em alguns momentos
se converte em Conde ou Duque, mas
que vem a ser a mesma coisa; no resto
dos personagens existe uma variação. Por
outro lado descobrimos, por tabela, esta
espécie de círculo, na qual de repente
uma pessoa pode ser um camponês e
outra hora policial, aquele que era o
oprimido pode passar a ser o opressor.
Existe um lado humanístico na questão,
que também é muito interessante; num
dado momento, depois da execução dos
bandoleiros, quando eles são enforcados,
muda-se a música para uma marcha
APÔS DEZ ANOS CONSEGUEM
DESBARATÁ-LOS
22
EM CATALUNHA HAVIA
MUITA FOME E PESTE
embora não da mesma forma? ou
proposta de revolução é cultural e nada
mais?
A. BOADELLA - Na
Catalunha
o
primeiro problema de todos os existentes é a nossa relação com o regime
espanhol, antes de toda a revolução
interna.
O
que
nós
precisamos
primeiramente, antes de colocar qualquer fenômeno interno, é um respeito a
nossa maneira de ser, é o que nós vamos
colocar política e socialmente, quer
dizer, essa é a primeira das condições,
então, uma vez feito isso, é um
problema de auto-determinação.
A Catalunha é um país bastante
conservador. Geralmente não é dada a
grandes extremismos, somente o anarquismo teve muita força na Catalunha,
mas tem sido geralmente um anarquismo
provocado pelos imigrantes, os andaluzes, por exemplo, mais que pelos
cidadãos catalões. 0 catalão é comparado com o resto da Europa, como o
suiço e o dinamarquês, ele gosta de viver
em paz. Havia, por exemplo, um grande
político catalão e o seu lema eleitoral
era sempre a casinha e a horta para cada
catalão, quer dizer, um grande respeito a
propriedade privada, mas diríamos também uma repartição equânime dessa
propriedade. E é verdade que cada
catalão deseja ter sua casinha e sua
horta Esse é o nosso contexto. No caso
dos bascos eles têm mais força do tipo
marxista socialista, porque tem regiões
minerais, grandes indústrias do tipo
pesada, geralmente na Catalunha há
indústrias mais médias, e toda a situação
dos bascos provoca um tipo de operário
muito mais radical do ponto de vista
social. Esse é um pouco o aspecto
político, eu acredito, que na Catalunha
do ponto de vista cultural que a
revolução que se deseja fazer é uma
revolução de personalização, que a nós
nos reconheçam como país. Nós não
pertencemos
aos
conquistadores da
América, não pertencemos à Espanha de
Goya, quer dizer, Catalunha não tem
nada que ver com toda essa história. Nós
não pertencemos aj Lorca, por exemplo.
É um país totalmente diferente,
estamos mais perto da Itália do Norte,
da Suiça, do que dessa Espanha, não
digo no sentido pejorativo, mas no
sentido de personalidade. Muita gente
me diz: ahl você é espanhol, vem cá e
tal — e isto no fim me revolta pois eu
não me sinto um absoluto um espanhol,
nesse sentido que estão me dizendo; eu
não tenho nada a ver com os toreiros e
os flamengos. Minha cultura não tem
nada a ver com isso, é radicalmente
oposta; nossa dança, por exemplo, é
absolutamente hierática, insossa, é uma
dança que se dança em círculos e na
qual praticamente não se movimentam.
Nunca na dança catalã, por exemplo, se
movimentam os quadris como fazem
vocês, as pessoas têm uma reserva
interior tremenda. Isto quer dizer que
temos particularidades, eu não quero
24
militar e eles passam a ser adestrados
como policiais, sofrem uma espécie
de lavagem cerebral.
Mas é assim
a polícia de nosso país, como a de todos
os países, nutre-se de operários de
classes baixíssimas ou de camponeses,
portanto nutre-se muitas vezes de gente
que tem sido extremista por um lado, e
que depois, por uma evolução de seu
pensamento ou por uma decepção,
voltam-se para o outro lado. Muitas
vezes pistoleiros que haviam atuado a
favor do anarquismo eram posteriormente utilizados como policiais depois
da guerra por exemplo. Quer dizer que
em certo aspecto, existe uma massa que
não tem nada a ver com os grandes
líderes revolucionários mas é uma massa
pistoleira que se movimenta tanto de um
lado como do outro, e isso nós temos
vivido muito. Nós o vivemos muito, por
exemplo, nos anos trinta; haviam um
divisão de dois sindicatos em Barcelona,
Sindicato Único e Sindicato Livre, um
era democrático e o outro era do
Estado,
mas
intercambiavam-se
os
pistoleiros, de vez em quando um
SERRALLONGA FICA Sõ COM
JOANA QUE O SEGUE
sindicato pagava mais, de vez em quando
o outro.
CH — Existe algum tipo de Improvisação,
durante o espetáculo?
A. BOADELLA - Não, durante o espetáculo geralmente não, porque poderia
provocar algum tipo de acidente, o que
já nos ocorreu, então nòs já ficamos
meio escamoteados.
Existem alguns
limites de improvisação, a gente pode
fazer uma piada entre nòs mesmos,
podemos algum dia aportar alguma
coisa, mas temos que andar com muito
cuidado, pois como tudo esta milimetrado em três ou quatro cenários, se eu
me atraso em algumas das minhas ações,
prejudico ao outro.
CH — Qual a relação que existe entre o
processo de criação de vocês que é
coletivo, e o conteúdo da peça? Ou
seja, como vão decidindo o que vão
dizer? Porque em geral existe uma peça
que está escrita e depois é interpretada,
mas se vocês a vão criando, devem ter
idéias muito comuns.
A. BOADELLA - O nosso é um processo de interpretação dirigida, de uma
forma ou de outra eu dirijo o espetáculo. Eu não sou um diretor como
qualquer outro, que contrata atores que
não conhece, mas trabalho com atores
que conheço faz sete ou dez anos. Então
o processo é muito diferente do que se
eu contratasse um ator pela primeira
vez. Eu geralmente seleciono o material
de criação, o grupo cria situações e isto
tudo vai sendo acumulado, mais tarde eu
vou selecionando esse material e vou
montando um pouco o esquema da
peça. Nesta peça, o esquema foi mais ou
menos o inverso, quer dizer, já havia um
esquema inicial da peça, e o pessoal ia
criando em cima desse esqueleto. Mas
diante de uma dúvida, de uma discussão,
Je alguma questão de conteúdo, a
ultima palavra quem dá sou eu. Por
25
exemplo, eu proponho um tema, suponhamos o julgamento de Serrallonga, e
dou as bases para o processo de criação,
digamos, que as pessoas aparecerão sob
uma capa só com as cabeças para fora,
vamos fazê-lo em latim, etc ... a partir
daí o grupo começa a improvisar sobre
esse tema. E é nesse momento que eu
entro tentando encaixar à peça aquilo
que melhores resultados darão.
CH — O que entendemos do seu teatro é
que é uma proposta de teatro popular,
ou uma tentativa de se fazer teatro
popular. Vocês representam em bairros
na Catalunha ou algo assim?
A. BOADELLA - Não somente na Catalunha mas em toda Espanha temos
representado em praças; por exemplo,
durante o verão passado estivemos trabalhando unicamente em praça ao ar livre,
em conseqüência disso havia um grande
ajuntamento de pessoas; e a entrada era
praticamente gratuita na maioria das
vezes e isso implicava que quem quisesse
poderia assisti-lo. Eu não sou partidário
de levar o teatro em guetos particulares,
mas que haja uma difusão de grande
importância, que qualquer pessoa possa
ir vê-lo sem distinção de classes e que
naturalmente os preços sejam adequados
a essa possibilidade; mas por outro lado
não sou partidário de levar o teatro a
fábricas ou a um determinado subúrbio
da cidade (se o subúrbio tem um lugar
adequado para se fazer teatro, fantástico, vamos ao subúrbio) pois isso nos
levaria a uma atitude paternalista. Eu
acredito que o homem de subúrbio
quando quer ver algum espetáculo que o
interesse,mesmo que seja um espetáculo
erótico no centro da cidade, ele vai e o
assiste, portanto tem também a opção
de assistir uma peça de teatro. Nos
povoados e nas pequenas cidades costumamos fazer circuitos. Nas cidades
cuidamos mais da questão de preço e da
A JUSTIÇA CONTINUA NO
SEU ENCALÇO ATÉ
APRISIONA-LOS
difusão do espetáculo do que levar o
espetáculo especialmente aos bairros.
CH — Vocês dão condições para que as
pessoas dos bairros possam vir à peça?
A. BOADELLA-Bem,
vejamos,
São
Paulo deve ter problemas diferentes do
ponto de vista urbanístico,, é muito
grande e as distâncias são grandes, mas
isto não ocorre em Barcelona. Nós
temos um sistema de transporte mais ou
menos regularizado e as distâncias
também não são tão grandes.
Cn - forque, se e encenada uma peça
dessas aqui, os moradores dos subúrbios
não vão assisti-la?
À. BOADELLA - Bem,
há um fator
fundamental, em Barcelona os habitantes
dos subúrbios geralmente têm carros ou
motos. Podemos dizer talvez que o grau
de miséria que ocorre no Brasil não
aparece com tanta intensidade na Catalunha.
CH — Esse parece ser o problema básico,
porque aqui quando se propõe fazer
teatro popular é necessário que se leve o
espetáculo aos locais de trabalho, pois se
26
isso)não ocorre pessoas não assistirão à
peça, mas isto não invalida o que você
coloca em relação ao paternalismo.
A. BOADELLA — Eu digo que o nosso
teatro hoje tenta ser mais popular que
outros teatros simplesmente por uma
questão de linguagem. O que eu entendo
basicamente por teatro popular (se bem
que eu não gosto muito da palavra
popular, podemos designá-lo por "teatro
para todos") se resume no problema de
linguagem; por exemplo, se faço tais ou
quais elocubrações intelectuais numa
peça eu elimino automaticamente a
possibilidade de que um certo público
não formado neste nível intelectual
compreenda a minha peça. Portanto as
minhas peças tentam ser adequadas a
uma linguagem que possa ser entendida
pela maioria das pessoas. Eu penso que
"Allias
Serrallonga"
consegue
uma
popularidade muito grande principalmente quando é representada numa
praça. No aspecto visual podemos dizer
que é uma peça que não cansa o
espectador, quer dizer, as pessoas tém
que estar constantemente em ação. Não
digo que não existam coisas que não
entenderão ou que tergiversarão em
algum sentido, mas em geral é muito
simples em alguns aspectos. A corte é
um bando de degenerados e isso fica
claríssimo, não se tem que elocubrar
muito para entender; podemos dizer que
a nossa peça alcança uma compreensão
da maioiia, dentio dos limites do que se
pode ser majoritária, porque hoje o
teatro não è uma arte majoritária e esse
é um problema muito grave. Hoje em
dia, ao contrário do teatio representativo de uma tribo ou do teatro encenado
no« mercados da Itália, o nosso teatro
concorre em termos de populai ização
com a TV e o cinema, e o teatro tal
qual nós o fazemos é mais reduzido e
infelizmente mais elitista, então quando
SERRALLONGA É TORTURADO
PARA ESCARNECIMENTO
PÚBLICO
vamos aos bairros o que mais me
preocupa é o interesse com que as
pessoas vão assistir à peça Temos que
estar muito cientes dos nossos limites e
sermos muito honestos conosco mesmos
quanto à espectativa e interesse do
espectador. Não podemos pensar que
vamos derrubar o mundo com o teatro,
pois nunca se fez uma revolução através
do teatro e menos ainda com gente do
teatro.
CH
A transposição que nós poderíamos
fazer da peça de vocês para o Brasil se
torna muito complexa porque o final de
uma maneira ou de outra nos pareceu
muito difícil de digerir, mas sabemos
que esta é a intenção, pois de repente se
mostra que aquele movimento que
poderia ser uma ascenção não significa
praticamente nada, as pessoas se vendem
e Serrallonga faz strip-tease e fica muito
difícil nos colocarmos frente a uma
situação que não sabemos como á na
Espanha, mas que na América Latina e
no Brasil é uma situação de terror e
frente à qual temos que agir de algum
modo
27
A. BOADELLA — Eu compreendo muito
bem o que ocorre, mas não se pode
esperar que o teatro dê soluções. Nós
retratamos certas situaços mas não
temos obrigação de dar-lhes solução pois
não somos nem políticos nem filósofos.
Somos apenas gente que faz teatro e
tentamos fazer uma paródia sobre o
mundo que vivemos. Nós transpassamos
um pouco a realidade para o espectador,
esta é nossa obrigação como comediantes, como bufões por
assim dizer; por
exemplo, a violência terrível do poder
é vista através do julgamento de Serrallonga que é uma grande burla; a cena com
a carne é outro exemplo, são cenas que
de uma forma ou de outra tocam a
sensibilidade do espectador. Portanto
pode-se dizer que o nosso teatro não é
um teatro político, como fez Sartre por
exemplo, mas o que ocorre é que ao meu
ver o teatro de Sartre é muito pouco
teatro.
ENTRETANTO A FOME
CONTINUA E OS
CEIFADORES SE REVOLTAM
28
ERRATA
Na página 23, linha 29, onde se lê
mistificação leia-se desmistifica-
ção.
»->"upo Chave Ana Lycta ftomtíf, Ana Ma» ta Wilheim, Andió Vítor Slngm, Fernando
tíai>Mu^/u Gisela Wajskop, Hanfiqua Üstrono*f, Jenmfer Souza Stuart. Ligia Fromer, Marcello
de Azevedo Fonseca, Marina Massi. Muno de Azevedo Fonseca. Og Roberto Dória.
Agi.ideciitieruos Albeno Goldman, Carmo Gallo Neto. Fernão Ma/zei. Jocimar Archagelo.
Maxjelo Nogueira Iene, Vera Helena Fern de Barios
Critica* • sugestfies: rua Maria Carolina,
150
casa 1 01445. Sâo Paulo, SP
REG. PUBL- 1.625-P. 209/73
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