CARVALHO JUNIOR
CARVALHO JUNIOR
São Luís, 2011
Copyright © 2011 by Francisco de Assis Carvalho Junior
Editoração: Café & Lápis
Editores: Claunísio Amorim Carvalho & Germana Costa Queiroz Carvalho
Revisão: Claunísio Amorim Carvalho
Diagramação: Germana Costa Queiroz Carvalho
Ilustração (Capa): Ernesto Augusto
Projeto de Capa: Fernando Sampaio
Ilustração (Miolo): Richele Rego
Capa (arte final): Eduardo César Machado de Jesus
Impressão: Halley S. A. Gráfica e Editora
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
_________________________________________________________
Carvalho Junior, Francisco de Assis, 1985 C3311m
Mulheres de Carvalho / Francisco de Assis Carvalho Junior - São
Luís: Café & Lápis, 2011.
88 p.
ISBN 978-85-62485-11-4
1. Poesia Brasileira. I. Título.
CDD B869.1
_________________________________________________________
Índice para catálogo sistemático:
Poesia Brasileira : B869.1
2011
Direitos em língua portuguesa reservados ao autor através da Café & Lápis (Lei n.º 9.610/98).
CASA EDITORIAL QUEIROZ CARVALHO LTDA.
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A gota de orvalho
Tremendo no galho
Do velho carvalho...
(Poesia e Amor, de Casimiro de Abreu)
SUMÁRIO
Poesia antitepeêmica ...................................................
Carvalhos em diálogo (Prefácio) .................................
Imagem e amor máximo de mãe ..................................
Mãe gentil ....................................................................
Amor desatado ............................................................
Amor participado ........................................................
E se me faltarem palavras? ............................................
A princesinha ...............................................................
Beleza sertaneja ...........................................................
Mulher de vestido ........................................................
Falta de sentido ............................................................
Indeléveis e inleváveis marias ......................................
A mulher da minha morte ...........................................
A bela da fotografia .....................................................
Esse meu romantismo ..................................................
Mulheres de Carvalho .................................................
Da Silva e dos silvos da selva ........................................
Rosa da alvorada ..........................................................
A Fonologia explica? ...................................................
Amor frutiforme ..........................................................
Amor frutiforme II ......................................................
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Queixo de bundinha ....................................................
Acidente geográfico .....................................................
Mel, inesquecível amor ................................................
De repente cabelos .......................................................
A tentação de desamar-te ............................................
A preta de perto é um porto de petróleo .....................
Ponha-se no meu lugar ................................................
É ver para crepúsculo! .................................................
Ciúme acima da dose ...................................................
Amoródio ....................................................................
Que lábios são esses? ...................................................
Blefes e beijos ..............................................................
Dando cabo às minhas tormentas ...............................
Eis a escultura de uma cultural Caxias! .......................
Canção de um filho .....................................................
Cobra-prima ...............................................................
Aula da lua ...................................................................
Perfeita posição para poetar ........................................
Primata ........................................................................
Poeta insuportável .......................................................
TPM ............................................................................
Jogo de cintura ............................................................
Olhos avassaladores ....................................................
O ângulo anglo da brasileirinha ..................................
Há fogo na cama ..........................................................
Armação dos olhos .......................................................
Mantenha o segredo .....................................................
Sol longe ......................................................................
Papai, mamãe e eu ........................................................
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A essência .....................................................................
Coração furado ............................................................
É lícito amar assim? ......................................................
O amor é colírico .........................................................
Nalgum lugar, alguma coisa .........................................
Relógica do poeta ........................................................
Licença poética ............................................................
Mágica poesia ..............................................................
Poetara .........................................................................
Poema-piaba ................................................................
O beijo do sétimo céu ..................................................
Deus te dê fortuna! ......................................................
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POESIA
ANTITEPEÊMICA
Quero, por meio destes versos, prestar homenagem às mais
admiráveis criaturas que Deus inventou para estar na companhia
do homem. Nas páginas deste meu tão sonhado livro-filho, dedico
palavras de carinho à minha cidade natal, Caxias (epigrafada como
a Princesinha do Sertão Maranhense), a amores que passaram
para o tempo e para a folha de papel foram passados, para amigas
e professoras queridas, para minha companheira de todas as horas,
Poesia, e, obviamente, para a mulher que fez o Carvalho dar frutos
na vida: minha mãe Antonia Ferreira. Esta última, além de dar-me
à luz, ensinou-me as primeiras letras e o caminho para tornar-me
o homem que sou. Também não poderia deixar de oferecer versos
de carinho ao homem da semente, o qual é a minha raiz principal,
meu pai Francisco Carvalho, que não bastava apresentar TPM,
nasceu no Dia Internacional da Mulher. Espero que todos os
leitores, independentemente de gênero ou sexo, possam se divertir
no balançador armado nestas firmes folhas de papel formadoras dos
galhos poéticos de uma grande árvore regada pelo amor que brota do
seio feminino.
(Carvalho Junior, Caxias-MA, junho de 2009)
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CARVALHOS
EM DIÁLOGO
(PREFÁCIO)
O canto poético traduz uma característica mimética
entre a mensagem e o mundo real. E esse real é recriado
pela concepção do mundo no qual vive o poeta e formulado
segundo traços simbólicos da sensibilidade dele. Portanto, o
canto poético é multiplicado, caracterizando-se pelo novo e
original. É reinvenção.
O conteúdo literário, no gênero da poesia, em Mulheres
de Carvalho, é, também, múltiplo e acompanha o canto
mimético, procurando captar suas astúcias num processo de
reinvenção. Obviamente, quanto mais é recriado e percebido,
o canto poético desta obra expressa as arquiteturas textuais
em análise ao sentido dos poemas.
É o caso deste livro de poesia, em graciosa luz, de autoria
do jovem poeta, Carvalho Junior, o que não nos surpreende,
pois seu canto poético é resultado de pesquisa dele, o homem,
e a construção dos retratos de seu espírito contido em cada
poema por ele, o poeta, escrito com segurança analítica e,
sobretudo, crítica à sensibilidade da vida como a árvore de
Carvalho: vigorosa e de semente eternizada à inalação de seu
aroma como alimento da alma acasalada na morada humana
do homem/poeta.
Wybson Carvalho
Poeta/Membro da Academia Caxiense de Letras
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IMAGEM E
AMOR MÁXIMO
DE MÃE
Para minha mãe Antonia Ferreira
amor de mãe, amor demais
no peito da mãe existe um curativo
todas as feridas do filho ela pode sarar
o cuidado, o carinho, a compreensão e o etc.
nenhum desses serviços prestados posso pagar
imagine o que há de mais valioso entre o céu e a terra
a minha mãe só Deus pôde um dia imaginar.
MÃE
GENTIL
o cheiro verde das manhãs
a fruta diária do mercado
uns doces puxõezinhos de orelha
o beijo antes de dormir
o “toma cuidado, filho!”
o sorriso quando tornamos à casa
a mãe é o nosso cotidiano
botando nossa comida à mesa
tão gentil como a pátria
sem ela não há nação nem noção
o seu coração é um aconchego só
a gentileza que gera poesia e beleza.
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AMOR
DESATADO
acho que dou muita corda para o amor
te amo tão desenroladamente
que nós não existe entre nós
teu abraço é meu desembaraço
por isso, sou tão amarrado em ti.
AMOR
PARTICIPADO
comedido e moderado
bem-dormido e demorado:
um poeta
dolorido e apertado
encolhido e sufocado:
um coração
desmedido e exagerado
entristecido e terminado:
um amor
enlouquecida e disparatada
maldormida e descabelada:
uma saudade.
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E SE ME
FALTAREM
PALAVRAS?
de neologismos escuto falar
palavras novas vejo surgir
não inventaram a palavra exata
que eu possa usar para te definir
preciso recorrer a uma lista infindável
aos sem-número adjetivos
nesse elenco de palavras — interminável
tenho que usar diversos termos
para te demonstrar meus sentimentos apreciativos
mais do que admiração
por ti eu tenho amor
se nalgum momento me faltarem as palavras
inventarei uma maneira nova de te dizer
que tu és o meu fôlego de vida
que fui feito para em teus braços morrer.
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A
PRINCESINHA
teu estado é uma verde verdade
vestida em verso, banhada em ouro
a pele vermelha de sol e batalhas
rebrilha os teus relevos
revela e ratifica tua realeza
tocar tua beleza é sem palavra
dela com o perdão...
são teus, princesa dos poetas...
os mais belos seios do sertão!
BELEZA
SERTANEJA
é por ser tão assim — majestosa
que Caxias impera nos campos do interior
como a princesinha do ser tão poética.
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MULHER
DE VESTIDO
a mulher de vestido é uma graça só
esse traje tem todo um toque de tesoura
uma ternura tecida em fios de atração
não que valha mais o vestido
mas a mulher se desgasta menos vestida assim
uma mulher de vestido balança melhor
tem a beleza e a sedução realçadas
uma mulher de vestido não é um retalho feminino
a mulher de vestido pegando água no chafariz
o corpo molhado com as águas dos meus tecidos
a mulher de vestido é um legítimo chamariz
vou passar essa lua com a mulher de vestido
contexturando cada uma de suas linhas
chego a gaguejar observando seus detalhes
como se nu nunca tivesse anoitecido
ao lado duma desfiante e desafiante mulher.
FALTA
DE SENTIDO
as pessoas ditas “normais” têm cinco sentidos
não sei exatamente onde perdi os meus
eu só tenho sentido tua falta.
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INDELÉVEIS
E INLEVÁVEIS
MARIAS
levaram o sol do meu céu
levaram a linha do meu trem
levaram um pedaço da minha infância...
mas elas que costumavam seguir as outras
as minhas levadinhas ficaram comigo
e nem o momento da anunciação
nem o livro da glória
nem o vento da paz
nem o tempo das dores
nenhuma loucura da paixão
nenhuma cidade da luz
nem o posto do desterro
nem mesmo a hora da cruz
nada pode, nada levará as minhas marias
as minhas marias são pontinhos negros que pontuam
a pontual beleza da pele da minha musa
há muitas marias cunhadas na alma dos meus familiares poemas
por tantas marias aparecidas e do meu socorro
é que minha poesia e minha vida são cheias de graça.
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A MULHER
DA MINHA
MORTE
À mulher que me matou com o “L” do seu nome
num pitoresco e poético domingo
fui desarmado por um embalado beijo
fios de cabelos tentadores me enlaçaram
prisão perpétua fez cativo um coração
fui torturado apenas na semana santa
mas num outro dia, enegrecido pela noite...
depois de muitas ameaças e penas...
a promessa de pernas compridas se cumpriu
por pura crueldade fui libertado para morrer
puro mesmo foi o primeiro de abril...
tive mais do que uma experiência de quase morte
naquele dia ensanguentado de ficção poetífica
a verdade foi que morri pela primeira vez
e da primeira vez que me mataram, meu velho menino azul
foi só ela que levou a minha vida e me deixou o amor
ela arrancou meu antigo coração, deu-me novo fôlego poético
estou morto para o desamor e vivo para a poesia
a mulher da minha vida é, também, a mulher da minha morte.
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A
BELA DA
FOTOGRAFIA
ela tem um quê de mistério
sei que segredos a me revelar
possui um coração sincero e sério
um jocoso amor a me entregar
ela esconde um Sorriso de Monalisa
descobertas, enigmas a serem resolvidos
seus criptogramas montam uma brisa
olhar de perto o seu coração, conhecê-la
está no meio dos meus desejos vívidos
ela tem uma aparência tão Lúcida
acredito uma alma mui Linda
só poderia ter mesmo esse nome
ela tem uma beleza Lucinda.
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ESSE
MEU
ROMANTISMO
esse meu romantismo que vem brotando de dentro
que sai das regiões mais interiores do meu interior
até alcançar todo o meu tecido epitelial
e se lançar loucamente rumo às ruas do seio feminino
como um tornado tentando arrastar toda a impureza de coração
pra bem longe
um querer que quer fazer da mulher ainda mais mulher
uns desejos espirituosos de arrancar o âmago da existência
juntar gametas, trombetas, trapos e maletas
esse meu romantismo que ascende aos sentidos
que me lava, mata, arrebata, faz serenata
é por meio dele que meu dia nasce feliz
dele me sirvo para ficar bem
e fazer de uma mulher uma deusa do amor
não como Vênus, mas como minha amada.
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MULHERES
DE
CARVALHO
a matéria-prima está na floresta de cabelos
as palmáceas masculinas derrubadas aos seus pés
casas, mesas, banhos e homens inteiramente preparados
tudo afiado por desafiadoras lâminas enfiadas em afeminadas línguas
odoríferas flores que disseminam sementes de carinho
amores apalArvorados, suavemente temperados
em seus úberes úteros, no duplo peito arbustados
até pode ser que beleza não se ponha em mesa
e apenas uma dona ser minha
mas todas as mulheres, todas sem exceção...
todas as mulheres são de boa madeira
a lenha da fogueira, a chama do amor
todas as mulheres são, portanto...
por tanta tentação, por tanta tinta de batom...
todas as mulheres são de Carvalho!
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DA SILVA E
DOS SILVOS
DA SELVA
este que vês sou eu
pelado de preconceito
desenvolvido pela vida
de vez envolvido pela virgem
carvalho juvenil, filho de Vênus
descendente dos Césares
escravo das moças bonitas
moro na casa dos Silva
no coração da selva
este que vês sou eu
um animal ferido
faminto por afeto
um silvícola perdido na urbe.
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ROSA
DA
ALVORADA
Para Rosidalva Oliveira
um nome meio de flor
um nome meio de estrela
um cheiro que nunca morre
meu olhos brilham ao vê-la
minha falta de experiência no ramo
me fez buscar outros céus e aromas
foi o inferno perdê-la.
A
FONOLOGIA
EXPLICA?
saudade não tem som
e se escreve com sete letras:
l-u-c-i-n-d-a.
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AMOR
FRUTIFORME
acabou de nascer...
está verdinho o nosso amor
tomara que fique de vez
e possamos colher com maturidade
as tâmaras desse sentimento
o amor ficará tamarindo sem parar.
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AMOR
FRUTIFORME
II
caramba!
como esse AMOR cresceu!
tocando as graviolas e suando as mangas
corre de pera aberta sobre os pés de abaCaxias –
a framboesinha do sertão
à sombra de doces nuvens de abacate-amo
ensaborado com salada sentimental da selva
preparei um mixado com o azedinho da terra
um multiprocessado de laranjinha e acerola
passado da cidade dos homens à cidade de Deus
de tão enamorado pareço ter pomares-de-adão
o suco de tuas maçãs mata a sede da minha siriguela
teus goiabraços me caem perfeitos como uvas
não me frutuques com vara chocha
podes pitombar na fruta do meio do cachinho
não ameixa com quem está tentando amadurecer!
jambos apaixonados devemos seguir
vermelhos de vontade vivendo
tu matas-me de desejo
como és bago assado, amor!
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QUEIXO
DE
BUNDINHA
sentou Deus na areia da praia
e ficou desenhado sobre a terra
o teu queixo em forma de bundinha
a arte divina é tão abundante
que não tenho do que me queixar.
ACIDENTE
GEOGRÁFICO
um forte tremor de terra nos meus montes de sentimento...
um grave abalo sísmico me sucumbiu
quase caí em depressão, mas achei um lugar plano
a cisma do meu coração se confirmou
veio, sorrateiramente, uma onda do mar
e levou minha relevante companheira de todas as horas
fiquei sem planalto e planície
minha cumpliCidade se mudou para outro Estado.
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MEL,
INESQUECÍVEL
AMOR
mulheres atravessam o meu caminho
eu travesseiro com algumas delas
mas tudo não passa de mulheres de passagem
o passado está aqui comigo
e tua falta está presente
quem agora me vai dar água na boca?
me agradar e água dar como só tu sabias?
é tão azeda a vida sem teu doce sorriso!
só tua boca me beijava como o beijo deve ser beijado!
ó Amanda, minha pequena levada
o vento te arrastou para o litoral
donzela digna de ser amada,
pelo dom da beleza zela
cuida também dos nossos filhos de papel
e guarda com fé a embalagem da bala,
do bombom que deu início ao affair,
apesar de tudo não há o que pesar
a balança não marcaria, não sentiria...
a leveza do nosso amor de algodão-doce.
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DE
REPENTE
CABELOS
cabelos se espalham no sofá
cabelos se derramam sobre a casa
cabelos se entrançam em meu pescoço
cabelos se enroscam em minha vida
cabelos, como cabê-los em toda parte?
cabelos, infinitamente cabelos...
e, por um fio, não me matou
aquele teu beijinho de domingo.
40
A
TENTAÇÃO DE
DESAMAR-TE
tento tanto não me atrair por ti
tentura vã...
por tiquira e te querer
fico tonto, quero até morrer
toda tinta de caneta é pouca
todo risco meu tem a cor do teu ser
meu intento é em tempo te esquecer
mas de mundo ou sociedade não me lembro
antes do teu seio vir a ser
não entendes, entendo tua incompreensão
porém não te faças de desentendida
meu bem, teu mal é malquerer-me
dizes que como ator tudo enceno
quando só quero que me ensines
como calar esse amor, tirá-la do palco
dize-me sem me dizimar o coração
o que devo com esse sentimento fazer
quiçá em teu florido e repetido dizer
esteja a minha doce solução...
desse tolo amor em que me acho
até o peito atolado...
a dissolução.
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A PRETA DE
PERTO É UM
PORTO DE
PETRÓLEO
Para a amiga Maria do Desterro
a raça é negra
a cor é preta
a descendência é afro
a beleza é de toda cor
o importante é não diminuir ninguém
todavia, em muitas vias e vezes...
o próprio negro não aceita
sua própria condição de negro
se de negro o chamarem
diga que tem orgulho
se de preto o chamarem
diga que tem orgulho
se de afrodescendente o chamarem
diga que tem orgulho
somente quando o ofenderem
com comparações símias e cínicas
diga que tem agulha
encontre uma maneira de espetá-lo também
a vida é melhor à noite
ser negro é um grande espetáculo
ser negra, então, é simplesmente sem sinônimo...
tesouro mais que três infinitas quantias de ouro
ser negra é um combustível para a paixão.
43
PONHA-SE
NO MEU
LUGAR
saia, ao menos por um minuto
desse seu ronco de menina
entre em minha vida como se fosse sua
ela já está nas suas mãos
mas digo para tomar parte da minha situação
saber tudo que, irremediavelmente, engulo
para não deixar esse fogo parar
há coisas que para avistar com clareza
só mesmo mudando de posição
mesmo só de posição mudando
é preciso manter-se do lado certo
vire-se às avessas e descubra, descubra-se
ponha-se no meu lugar, menina
se por uma simples sequência de segundos
passar a sentir com o coração que bate em meu peito
vai querer voltar correndo para a sua posição
esperando-me sentar ao seu lado no banco da praça
depois que o sol e a lua se puserem nos seus devidos lugares.
45
É VER
PARA
CREPÚSCULO!
fim de tarde, quase noite...
fuscas contemplando o lusco-fusco
quanta nuança no vestido do céu!
o anel rubro de um sol se despedindo
abrasado com o azul das nuvens “sobeijantes”
minha terra tem mais que palmeiras
os mais belos pores do Sol
exibindo músculos de crepúsculo
que bom, o trabalho na academia!
e foi por acaso do ocaso que pude
assistir a esse show da natureza
viva o céu de Caxias!
47
CIÚME
ACIMA DA
DOSE
com ciúme não se une um casal
com ciúme não se unge a cabeça do amor
todos recomendam confiança
mas nem com fiança o ciúme se desprende
de uma senhora situação suspeita
afogar-se na bebida só aumenta a dose do ciúme
talvez seja apenas uma crise
talvez seja apenas uma crase (ela foi à zona)
melhor conversar, ver se há fundamento
se for apenas devaneio, imaginação
faz um poema, meu irmão
o colchão pode tirar todas as tuas dúvidas
se o ciúme sobe à cabeça
o ciúme desce e se umedece
ciúme acima da dose
termina em cima da cama.
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AMORÓDIO
entre amar e odiar
pouca diferença há
tão próximos que...
sem uma pitada de ódio
o amor não é nem está
amo nossas datas
teus dotes
nossos ditos
teus decotes...
amo teus frutos benditos
nossos abraços fortes
odeio tua mania de perfeição
as tuas dúvidas que são as nossas
as tuas vidas que minhas não são
a diferença entre tuas pernas e palavras
aquelas finas, estas grossas
odeio te amar
mas não amo te odiar
amor e ódio são dois irmãos
mamando no mesmo seio
o ódio criamos de qualquer jeito
o amor balançamos no peito.
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QUE
LÁBIOS SÃO
ESSES?
que lábios são esses,
que me fazem voar no vão
cheio duma umidade relativa de amar?
que lábios são esses,
que se confundem com os meus
e decidem, à meia-noite, a minha noite?
que lábios são esses,
de um tecido que aconteceu
de quem teceu esqueceu como ter sido?
que lábios são esses,
que me levam ao céu da boca
e me trazem à terra da atração?
que lábios são esses,
que beijo, que mordo, que lambo...
como queijo o seu leite derramando?
que lábios são esses,
que minha boca tanto deseja
enxugando o prazer, me molhando de cerveja?
que lábios são esses,
que me sugam, sulcam-me com sucos
puxam e lançam-me contra “bualcoólicas” paredes?
que lábios são esses,
que unidos à minha boca nua nos braços dos becos
nos beiços da noite da princesinha do sertão
fazem os “esses” com sabor de sempre?
esses lábios, esses lábios, “esses” lábios...
esses lábios cheios de letras e de singular textura
são os lábios da santa aparecida não sei de onde
os lábios que trouxeram o céu para a minha boca.
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BLEFES
E
BEIJOS
se sinceramente me odeias,
por que a minha vida rodeias?
por que pulas como uma louca em meus braços,
da minha roupa tirando todos os laços?
por que dizes que de mim tem nojo,
quando queres apenas, em verdade
me arrancar um beijo novo?
se só digo estultices e coisas sem nexo
anexa-te ao meu desejo
cala-te, ala-me, não alarma
me desarma, me diz “amo-te”.
53
DANDO CABO
ÀS MINHAS
TORMENTAS
hoje vou navegar sem destino
apanhar as rosas dos ventos
como um marinheiro menino
colher flores, fabricar cata-ventos
vou me entregar, ficar ao sol dado
desnorteado pra qualquer rumo vou
seguir luas, voos de sonho acordado
naufragar numa ilha de profundo amor
hoje às minhas agitações darei cabo
meu coração desancorado afundou
sol contigo minhas tormentas acabo
por teus estreitos meu coração escorregou
tu em meu barco não morro, eu riacho
não me deixa ser um cara velado
nau consigo velejar nesse amor afogado
se eu morrer amanhã em teu braço
hoje mesmo o canal do céu ultrapasso.
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EIS A
ESCULTURA DE
UMA CULTURAL
CAXIAS!
perderam teus azulejos, ó princesinha
estão desedificando tuas construções históricas
arremataram teus teatros e cinemas
teu Centro de Cultura só o Centro tem
sei que existem algumas poucas movimentações
mas mereces muito além, amada cidade
tua relevância e teus recursos são de bom volume
em teus relevos altos festins de alecrim
teus morros atestam que tuas guerras não acabam
inda agora, inda glória tua escultural cultura
o mundo bem conhece teu Gonçalves
já dos teus dias sabe uma malcontada história
desconhece o velho o quanto és vasta em saberes
quão renovável e boa-praça cidade és
não sabem dos teus artesanatos, artistas natos...
não sabem dos teus fogaréus
não sabem da tua viva Poesia
não está muito bom o teu estado
independentemente disso, minha caipirinha
tens mais que beberrões em tua ilha de regueiros
é uma pena, porém meu papel não esqueci
teus filhos são polivalentes, diligentes guerreiros
tens avenidas, não sei de tuas arteriais
sei que vampiros sugaram vasos de teu sangue
mas tuas poéticas veias sempre minam novos versos
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de tuas bolsas, glóbulos de sonho e esperança se libertam...
meninos pobres indo pra escola com romantismo condoreiro
soltando as asas dos sabiás presos em si mesmos
derrubando as palmeiras amochiladas no coração...
os políticos não podem ser pomposos ou poupados
toda a câmara precisa de um ar, voltar às aulas
teus poetas não querem uma ex-cultura do sertão
te querem num belo quadro impressionante
pintado com venezas, rosários e pontes poéticas
teus artistas estimula, eles se sacodem como podem
precisava desse poema para incentivar-te?
não digas nada, mãe querida
eu precisava desse desabafo ex-cupido
até os ineruditos como eu do tipo come-dorme-escreve...
salva, preciosa, teus profetas, poetas e vinhos
não cochiles nas coxias, Caxias
permanece com teus artífices filhos aqui dentro
pra que saias desse incômodo silêncio vestida de samba e canção
pra que os outros venham dos seus cantos escutar teus hinos
venham conhecer o núcleo de cultura que és fera
e saber que existe uma gloriosa Caxias
que todo poeta fora dela é um exilado
a Caxias mais gloriosa que existe está nos braços do agreste
noutras brasas dos brasis, nas mesmas páginas da história
onde os fervorosos historiadores de todos os cardeais estudam
logo existem pessoas pensantes pensando que só há Caxias do sul
quando o teu mais jovem Carvalho surge, amada urbe
semeando uma modesta poesia pelos cantos
e mesmo que não tenha o nome em carreira esculpido
espera que tenhas a merecida glória nos muros calçada
com poéticas sandálias sapateando nos teus finos dedos
sobretudo, tua reinante cultura, soberana subindo sobre as ramas
ó Caxias do Itapecuru, dum Maranhão de veracidade
teus ramos são únicos, ninguém mais tem
a poética liberdade para pisar na grama.
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CANÇÃO DE
UM FILHO
minha terra não tem Bandeira
mestre Drummond também não é de cá
mas os poetas que aqui nasceram
do mesmo modo sabem encantar
nossas estrelas também conversam
nossos pássaros sabem mesmo voar
nossas matas têm gonçalvinas e verdes palmeiras
nossas musas sabem “verde-doira-mente” inspirar
o solar da tardinha, a lua da noite...
que quadro de impressionar!
minha terra tem morenas, pardinhas...
e quando vejo minha branquinha: bem-te-vi!
vou logo querendo beijar!
minha terra tem sabores
sabores que não te posso revelar
só eu, juntinho, à noite
desse prazer posso desfrutar
minha terra tem certas coisas
que nesse poema não posso contar
não permita Deus que eu morra
que eu morra noutro lugar
se tenho que tornar ao pó
que seja nesse pedaço de chão
quero morrer à sombra dessas palmeiras
cantando e fazendo versos com a majestade:
o sábio e sibilante sabiá.
59
COBRA-PRIMA
tuas curvas não mais me impressionam
a peçonha de tuas mentiras matará a ti mesma
enquanto os dias rastejam no calendário
vou cobrar amor de quem não me deve.
AULA
DA
LUA
a noite é a hora do recreio
quando esperar pelo lanche
já não aguenta a libido
meninos e meninas correm e pulam
no intervalo de uma perna e outra.
61
PERFEITA
POSIÇÃO PARA
POETAR
adoro pegar a branquinha por trás
e com meu lápis sedento
enfiar no seu verso
todo o meu sentimento.
PRIMATA
a prima me mata de desejo
depois me dá banana.
POETA
INSUPORTÁVEL
o amor me suporta
a literAtura-me.
62
TPM
Ao meu pai Francisco de Assis Carvalho da Silva
desculpe-me se o decepcionei, pai
haverei de honrá-lo em nome do nosso Pai
meu velho, meu amigo, meu patrocinador
é uma honra puxar ao senhor, pai
homem responsável, controlado
às vezes, perde um pouco o controle
mas se é duro nas palavras
no sentimento é doce
provoca-me, aborrece a minha mãe
mas logo vem a adulação
mamãe reclama, mas o ama
ela diz que sou sua cópia
ela conhece os seus, os nossos defeitos
ela o acha perfeito para pai dos filhos dela
se foi concebido no dia internacional da mulher, pai
isso foi para fazê-lo exatamente com tal figura
um homem com TPM —
temperamento puramente “mãesculino”
parabéns por mais uma primavera, pai
um dia, o dia da mulher o entregou às luzes todas
para que em seu semblante sempre resplandecesse
essas suas cores de super-homem
esse seu brilhantismo na arte de ser pai.
64
JOGO DE
CINTURA
Para Fernanda Sousa
ela dança
ela canta
ela interpreta
carimba um carimbó
solta a voz
se joga na cena
sorte de quem
com ela contracena
meu mega coração é dela
se joga a menina na sena.
65
OLHOS
AVASSALADORES
eu noctivagava pelas ruas da cidade
até encontrar numa barraca de milho:
um par de olhos avassaladores...
por forças divinas, o tempo, naquele instante, parou
não pude cronometrar, muito menos lembrar
que existia algo além do paraíso daqueles olhos
foi algo tão cinematográfico que nem sei dizer direito
a noite era pano de fundo e encenava conosco
o colosso cenário ficou perfeito para um beijo
mas minha timidez jogou “cacos” na história
a noite ficou de coração cortado
e o dia apareceu sangrando de saudade
na madrugada que passou, sonho e destino por acaso
na casa do cupido se encontraram
e desse concílio veio a perfeita conspiração do mundo
tudo para eu reencontrar aqueles olhos imponentes
na tarde do dia seguinte, deparei-me novamente ...
pude ficar bem perto da menina dos olhos impactantes
e agora os meus olhos viajam continuamente pelo céu
pelo jardim encantado dos olhos dela
fui arrebatado antes do juízo final.
67
O ÂNGULO
ANGLO DA
BRASILEIRINHA
numa perfeita sintonia, o meu olho encontrou
um ângulo que a matemática não estuda
o ângulo mais que perfeito de ver a vida
por ele, percebi, com total nitidez
uma brasileira beleza com um toque anglo
uma daquelas belezas com poder sinestésico
pelo prisma do amor tudo ficou no grau
exato!
apaixonei-me pela majestosa Angla
no entanto, apenas o ângulo é anglo
ela até parece uma princesa inglesa
mas faz meus sentidos sambarem
e eu desejar seus beijos latinos...
o seu toque genuinamente brasileirinho.
68
HÁ
FOGO
NA CAMA
deitado de bruços com o travesseiro entre os braços
me lembro daqueles beijos, daqueles amassos
nossos corpos tão lassos, arranjando forças
que vigor no desatamento de laços!
meu fôlego sonha com novos cansaços
teus líquidos me banham com travesseiros de almaço
fogos queimavam em fogueira de afagos
antes do momento em que inflamara
depois das dez, em minhas deitaças
durante meus momentos de tara
lembro daquelas brasas que só existem por encanto
quando estou com o travesseiro entre os braços.
70
ARMAÇÃO
DOS
OLHOS
Para Jhuliene Mendes
a garota é tão encegueirada pelo ato de ler
que nunca, quase nunca tira os óculos
e quando os tira, seus próprios olhos se assustam...
se chocam com a dependência que têm das lentes
à primeira vista, numa olhadela no olhar dela
logo se vê que é uma criatura ultra-adjetivável
numa visão curta e fina: meiga e vistosa menina
mas sem os óculos no rosto, não há jeito
não dá nem para fazer vista grossa
minha amiga fica mal-encaradíssima
sem os óculos se vê em difícil situação
com eles na cara, ela jamais é perdida de vista
ela dá o seu ponto, uma marcante opinião
todos ficam desarmados quando surge ao longe
a majestosa menina com sua imponente mente
o aguçado sabre da leitura está desembainhado em suas mãos.
72
MANTENHA
O SEGREDO
À professora Cláudia Motta
a traição é uma questão de morfologia
trata-se de um antigo termo
de gênero e sexo femininos
quando passa para o masculino
não é mais traição
é tradição.
73
SOL
LONGE
Para Solange Morais
só lanches de Literatura fizeram de mim um xeletra
minha mestra me soprou no ouvido que o Sol é muito longe
melhor é perceber a realidade do próximo
aprendi a perceber giros poéticos nos raios de bicicletas di-versificadas
e agora só letras brilham no meu telhado
quebrei minhas cadeias para diários banhos de sóis
giro agora nesse raio da vida
agradeço à professora Solange, essa é lente!
depreendi as suas Morais da história:
o Sol está longe de ser o raio de luz da alma humana
mas a poesia, tão próxima do homem ...
a poesia é a intensa fonte de luz do espírito.
74
PAPAI,
MAMÃE E
EU
papai que tem pavio resumido
gosta de falatório
mamãe que é cristã convertida
gosta de oratório
e eu que sou metido a poeta
prefiro escritório.
A
ESSÊNCIA
ao nascer — a existência
na puberdade — a saliência
quando adulto — a independência
ser sempre criança — a essência.
76
CORAÇÃO
FURADO
só sei chamar de saudade isso que me invade
essa incompletude minha na tua ausência
o pote não para de pedir em gritos guturais
teu mel, meu néctar, nosso amor
quero beber na fonte mais doce do universo
mergulhar e ficar ébrio de amor e amor
só entendo a lógica de amar te amando
gasto minutos e horas pensando no gosto de tuas beijocas
tenho carência de tuas caras carícias
pago alto preço por não ter sabido retribuir
quero me jogar e morrer nesse buraco que há no meu coração
minha vida está sem cor, sabor, olor ou vigor
vem de novo me colorir, embebedar-me de amor
vem de novo encher meu vasilhame de mel...
se você não vier, não sei se vou
posso até ir, mas vou coxeando, claudicando
vou cambaleando rumo ao buraco do meu coração.
78
É LÍCITO
AMAR
ASSIM?
que tipo de droga será o amor?
será coca-cola misturada à cegueira?
qual erva pode causar mais delírio?
nunca fui craque nesse assunto
talvez eu precise duma clínica
mas já que estou tão dependente
tragam os braços da minha amada
melhor é morrer de overdose
com pitadas de alucinógenos beijos
baseado nos efeitos dos herbáceos braços dela
quero morrer fumaçando de vício amoroso
como um maluco cheirando os pés da paixão.
80
O AMOR
É COLÍRICO
o amor é o menino dos meus olhos
o amor é dono de um colirismo sem igual
quem diz que o amor é cego
só avista cataratas no Iguaçu.
NALGUM
LUGAR,
ALGUMA COISA...
sem casa nenhuma
por causa alguma
fui parar sem calça nenhuma
na cama duma...
isso acontece com qualquer um
quando se quer alguma coisa em algum lugar.
81
RELÓGICA
DO POETA
o poeta nunca se entendeu com os ponteiros
o relógio é para ele apenas um acessório –
elemento secundário que lhe desperta a dor
para o poeta é sempre a mesma hora:
um quarto para a introspecção.
LICENÇA
POÉTICA
o melhor de ser poeta...
é debaixo da tenda da Poesia
poder “chutar o pau da Gramática”.
MÁGICA
POESIA
há duas modalidades de poeta:
a dos iludidos que pensam fazer poesia
e a dos ilusionistas que fazem arte poética.
83
POETARA
as artes estão interligadas
mas muita gente liga erroneamente
a arte de poetar com a arte que vem do punho
cuidado, confuseira, confundidora e confundada gente!
não confundir fundo com fungo com fuga com fuzuê...
poetar é uma tarde se pondo!
quando poetares, pois...
(depois da poetara da noite)
tenhas crepuscular cuidado com o que dizes
para que mais tarde não te arrependas
poetar, só para te deixar bem explicadinha:
é a tara que me põe a te amar.
POEMA-PIABA
o poema não queria morder a isca
mas pus no anzol um papel multicolorido
aconteceu que o peixinho virou papel
e agora totalmente descamado
eu e minha senhora podemos abocanhá-lo
descamisados sobre a cama.
84
O BEIJO
DO SÉTIMO
CÉU
após aquele beijo sem palavras
pobre nunca mais serei
a fortuna que um dia sonhei
recebi direto das mãos de Deus
eu que sou amigo do Verbo
com a graça divina
invento mundos em sete minutos
descansando está minha boca, menina
ainda não me devolveste o fôlego.
85
DEUS TE DÊ
FORTUNA!
Em memória de minha avó
Maria Concebida Ferreira Sobrinho
tantas bênçãos solicitadas
tantas bênçãos concedidas
que Deus me desse fortuna
era o que aos céus ela pedia
nem só de crítica vive um poeta
mas do pão feito com carinho
devo a firmeza de minhas pernas
à farinha quentinha da casa de forno
que a mesa da minha avó trazia...
sentados nas suas pernas
de sabedoria, os mais belos sonetos
só netos da concebida sem malícia ouviam
o amor, olho d’água que abastece o mundo
eis o tesouro que no peito ela escondia.
86
CARVALHO JUNIOR
(99) 3421-3513/ 8135-0789/8801-4135
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