POLÍTICA MACROECONÔMICA E REDUÇÃO DA POBREZA: UMA ANÁLISE DO DOCUMENTO DE ESTRATÉGIA DE REDUÇÃO DA POBREZA (POVERTY REDUCTION STRATEGY PAPER - PRSP) DE PAÍSES SELECIONADOS. Área: Economia Marcos Wagner da Fonseca. Professor Assistente da UNIOESTE, Campus de Cascavel. Pesquisador do GPEA Rua Universitária, 2069 Bairro Jd. Universitário Cascavel/PR. CEP: 85.819-110 E-mail: [email protected]. LUÍS ALBERTO FERREIRA GARCIA Professor Adjunto da UNIOESTE, Campus de Cascavel. Pesquisador do GPEA. Rua: Terra Roxa, 1425. Região do Lago II. Cascavel/PR. CEP: 85.816-360 E-mail: [email protected] Resumo Este artigo analisa o Documento de Estratégia de Redução da Pobreza (PRSP) de Moçambique, Bolívia, Benin, Chad, Gâmbia, Guiana e Mali, com o foco nas questões macroeconômicas. Observou-se que os países seguem estritamente as recomendações do Banco Mundial e do FMI para que a estratégia traçada efetivamente promova a redução da pobreza. Desta forma, as metas para o crescimento econômico sustentado são buscadas por meio de políticas fiscais, monetárias e cambiais consistentes com a estabilidade macroeconômica e, também, por meio de reformas estruturais. Palavras-chaves: Pobreza; Política Macroeconômica; Banco Mundial; FMI. 1 INTRODUÇÃO A pobreza é definida como uma privação inaceitável do ser humano, podendo ser esta privação fisiológica ou social1. O combate a este problema, que atinge parcela significativa da população mundial, tem sido preocupação de grande parte dos países, tanto ricos como pobres e principalmente das chamadas Instituições Multilaterais, das quais se destacam o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, os quais têm despendido esforços para implantar mecanismos que, ao menos, minimizem o problema. Das iniciativas de combate à pobreza, implementadas ao longo do século XX, destacase a que surge na década de 1990, denominada HIPC2. Esta iniciativa veio somar os esforços 1 Privação fisiológica envolve a não satisfação de necessidades básicas materiais ou biológicas, o que inclui alimentação, saúde, educação e moradia inadequadas. Privação social amplia o conceito para incluir risco, vulnerabilidade, falta de autonomia, impotência e ausência de auto-estima. 2 O HIPC (Heavily Indebted Poor Countries) foi uma iniciativa proposta pelo Banco Mundial e FMI e acordada por governos do mundo inteiro no outono de 1996. Trata-se da primeira tentativa global para reduzir a dívida Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 de redução da dívida dos países pobres com o combate à pobreza. Os países que estivessem dentro dos critérios estabelecidos pelo programa teriam que elaborar um Documento de Estratégia de Redução da Pobreza (PRSP). Neste documento deveria ser exposto um diagnóstico da pobreza no país e traçada uma estratégia clara e objetiva de combate a este quadro. Mais especificamente, o PRSP deverá conter: a) um profundo diagnóstico da pobreza no país; b) explicitação sobre o processo de participação da sociedade em sua elaboração; c) uma clareza na apresentação de ações prioritária quanto a aspectos macroeconômicos, estruturais e de políticas sociais; e d) metas apropriadas, indicadores e um esquema claro de monitoramento das ações. Para facilitar e guiar o processo de elaboração do PRSP pelos países, o Banco Mundial e o FMI criaram um Livro de Consulta para Estratégias de Redução da Pobreza (BANCO MUNDIAL & FMI 2001). Este Livro de Consulta sinaliza a experiência das instituições durante seus trabalhos em diversas regiões, representando um importante auxiliarem no trabalho desempenhado pelos países. Um capítulo do Livro de Consulta é dedicado exclusivamente a questões macroeconômicas, dado a relevância que estas têm para as estratégias de combate à pobreza. Será apresentada, na próxima seção, a diretriz que este capítulo indica, principalmente quanto aos impactos das políticas fiscal, monetária e cambial sobre o alívio da pobreza. Os PRSP’s dos países são acompanhados pelo Joint Staff Assessment (JSA), que é encarregado de elaborar relatórios de acompanhamento para a diretoria do Banco Mundial e do FMI. O JSA aponta algumas dificuldades de se encontrar compatibilidade entre a redução da pobreza e as políticas macroeconômicas e financeiras. Neste sentido, na terceira seção serão analisados os PRSP’s de sete países selecionados, buscando apresentar a forma de encaminhamento da questão macroeconômica, discutindo sua compatibilidade à estratégia de redução da pobreza. 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Impactos das Políticas Macroeconômicas sobre a Pobreza. De acordo com BANCO MUNDIAL & FMI (2001), o crescimento econômico é o determinante primário da redução da pobreza, sendo uma condição necessária, mas não suficiente. Uma estratégia apropriada de redução da pobreza deve contemplar um crescimento realizado de maneira sustentada. A estabilidade macroeconômica é a pedra fundamental de qualquer esforço para aumentar o desenvolvimento do setor privado e o crescimento econômico. A adoção de políticas econômicas sólidas, que estabeleçam sinais claros para o setor privado tomar suas decisões seria o primeiro ponto observado para tornar o crescimento econômico rápido e sustentável. O segundo ponto seria a realização de políticas macroeconômicas prudentes que mantivessem baixos os níveis de inflação, pois a variação nos níveis de preços pode ter efeitos diretos e indiretos sobre os pobres. Um terceiro ponto relevante seria a manutenção de sustentabilidade da dívida, pois a existência de uma dívida elevada poderia impedir o externa dos países mais pobres e mais profundamente endividados do mundo inteiro, e representou um passo importante ao colocar o alívio da dívida no seio de um enquadramento global de redução da pobreza. Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 investimento e crescimento pela criação de incertezas da parte dos credores quanto à capacidade do governo assumir novas dívidas. Um quarto ponto deve ser a manutenção de uma política cambial apropriada, de forma que a expansão econômica seja equilibrada e com padrões de investimento e comércio que correspondam à vantagem comparativa de cada país. Ainda, como passo importante, deve ser mantido um nível adequado de reservas internacionais que crie um amortecedor razoável contra potenciais choques externos. Em linhas gerais, segundo BANCO MUNDIAL & FMI (2001), a manutenção de uma macroeconomia estável é benéfica aos pobres. Os planejadores devem estabelecer no PRSP um conjunto de alvos macroeconômicos críveis, juntamente com políticas macroeconômicas coerentes para atingir tais metas. Sendo assim, as metas, tais como: de crescimento; inflação; dívida externa e reservas internacionais líquidas, devem ser buscadas por adoção de política fiscal, monetária e cambial que sustentem os objetivos traçados. 2.1.1 Impactos da Política Fiscal. De acordo com BANCO MUNDIAL & FMI (2001), a política fiscal pode ter impacto direto sobre os pobres, tanto no diz respeito à política de gastos governamentais, quanto na forma pela qual incidem os tributos. Outro fator que influencia a renda dos pobres é a forma de financiamento governamental, isto é, o endividamento interno ou externo que o governo necessita quando não consegue suprir os gastos com as receitas. Os gastos do governo devem ser estruturados para que a composição da despesa orçamentária presente seja dividida em gastos prioritários, gastos não discricionários e gastos discricionários não-prioritários, orientados para as metas de redução da pobreza. Estes gastos devem ser, prioritariamente, orientados para os pobres, tais como os programas de saúde, educação e infra-estrutura. Também na forma de prestação de serviços públicos essenciais, tais como educação pública, saúde pública, previdência social. O planejamento governamental deve ainda buscar objetivos de médio prazo para os gastos do governo. Assim, deve-se buscar a re-alocação destes gastos em áreas prioritárias de combate à pobreza ao longo do período especificado no PRSP, sempre em consonância com as metas estipuladas de redução da pobreza no país. O outro esforço que se deve fazer na política fiscal é o que envolve a avaliação da base de receita existente. Torna-se necessário à compreensão do impacto do atual sistema tributário sobre os pobres e do espaço para levantamento de recursos internos adicionais de maneira não-regressiva. Segundo BANCO MUNDIAL & FMI (2001), um sistema tributário transparente eficiente e eqüitativo contribui para o crescimento, minimizando os impedimentos para o investimento produtivo da poupança privada. Ainda o sistema tributário não deverá criar distorções, principalmente de preços relativos e nos aspectos distributivos. A tomada de recursos internamente ao país deve levar em consideração a necessidade de manter a estabilidade macroeconômica e de garantir a disponibilidade de crédito para o setor privado. O que implica que o governo deve ser parcimonioso em seus gastos, vinculando-os à geração de receitas, não devendo buscar toda a poupança interna para isso. O que se deve fazer é uma análise da produtividade e relevância do investimento público e do privado, devendo os recursos ser canalizados para aquele que criar melhores condições para o crescimento sustentado da economia e com inflação baixa. O espaço final para o financiamento orçamentário interno dependerá também da taxa de crescimento monetário, da Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 necessidade de crédito do setor privado e da meta desejada para as reservas internacionais líquidas. O financiamento externo é o item final para a identidade orçamentária, seja na forma de concessões de empréstimo externo líquido ou alívio da dívida. Quando um país está se beneficiando do HIPC este deve apresentar as informações pertinentes aos recursos advindos para combate à pobreza. Ainda deve dimensionar claramente os recursos esperados em forma de receita futura, com o nível de gastos esperados, devendo estes serem compatíveis com os níveis desejados das demais variáveis macroeconômicas especificas, principalmente o financiamento esperado. Quando o programa desejado de gastos não pode ser conciliado com a meta de financiamento interno e externo disponível, o planejamento do governo precisa reconsiderar os parâmetros e adequar de forma sustentável com a iniciativa de combate à pobreza. 2.1.2 Impactos da Política Monetária e Cambial. Conforme o BANCO MUNDIAL & FMI (2001), as políticas monetária e cambial podem afetar os pobres por meio da inflação, produção e taxa de câmbio real. A inflação consiste num poderoso imposto regressivo sobre os pobres diretamente e causa um efeito de queda na taxa de crescimento econômico que afeta os pobres de maneira indireta, mas não menos penosamente. A flutuação da produção pode ser causada pelos efeitos da política monetária sobre as variáveis reais da economia e, também, pelo regime cambial escolhido pelo país, deixando-o mais ou menos vulnerável a choques externos. A taxa de câmbio real pode afetar os pobres por afetar a competitividade externa do país e, portanto, a taxa de crescimento, ainda tendo efeito sobre os preços relativos de bens comercializáveis e nãocomercializáveis, o que pode determinar problemas distributivos. A utilização destas políticas de maneira ativa não é aconselhável, pois os efeitos apontados acima não são verificáveis com clareza no curto prazo. Contudo, a política monetária e cambial deve ser direcionada para a exploração dos impactos que podem ser usados de maneira mais eficaz como controle, dos quais o mais importante é o impacto de longo prazo da inflação sobre a taxa de crescimento. Sendo assim, o objetivo principal destas políticas é de consecução e manutenção de uma taxa de inflação baixa e estável. Para isso, torna-se necessário a escolha de uma estrutura monetária, ou combinação de políticas, que permita a credibilidade das mesmas, o uso de uma âncora nominal e a natureza dos choques exógenos a que o país está exposto. Não existe uma forma específica de dar credibilidade às políticas, mas a coerência global da política macroeconômica é uma condição necessária. Pressupondo-se que o requisito básico da coerência seja atendido, o país pode adotar diversas estratégias diferentes para aprimorar sua estrutura monetária com o objetivo de melhorar a credibilidade de suas políticas. Uma das possibilidades é escolher uma taxa de câmbio fixa e apropriar-se essencialmente da credibilidade da âncora monetária. Outra alternativa, dentro de um regime de cambio flexível, é o país buscar a credibilidade com uma destas três estratégias ou uma combinação delas: (i) aumento da transparência das políticas; (ii) delegação da política monetária a uma autoridade monetária independente; e (iii) investimento em uma reputação antiinflacionária. As duas primeiras dessas estratégias estão associadas a regimes de “metas visadas de inflação”. (BANCO MUNDIAL & FMI, 2001, p. 15). Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 Ao buscar a credibilidade da política monetária e cambial, o país está definindo também o tipo de âncora nominal que estará adotando e, com isso, apresentando um conjunto de instrumentos que poderão ser utilizados para amenizar a vulnerabilidade a choques externos. Estes direcionamentos, quanto a estas políticas, partem de um quadro de equilíbrio macroeconômico. Sabe-se, contudo, que a maioria dos países enfrenta desequilíbrios macroeconômicos que direcionam medidas de curto prazo que podem ser incoerentes com o combate à pobreza. Porém, ao buscar os objetivos de manutenção de inflação baixa e estável no médio e longo prazo, passa o oferecer um apoio maior ao desempenho do crescimento no longo prazo e também da redução da pobreza. 3 RESULTADOS E DISCUSSÕES 3.1 Políticas Macroeconômicas e Financeiras no Documento de Estratégia de Redução da Pobreza (PRSP) de Países Selecionados. Os impactos das políticas macroeconômicas sobre a redução da pobreza, apresentados em BANCO MUNDIAL & FMI (2001), são os princípios norteadores de todos os PRSP’s analisados. Apesar das particularidades de cada país, a busca pela estabilidade macroeconômica é uma regra seguida à risca. Outro ponto de destaque é que a redução da pobreza será conseguida somente com um crescimento econômico rápido e sustentável, porém mantendo o equilíbrio macroeconômico. A diversidade de estágio que se encontram os países determina as metas mais ou menos otimistas quanto ao nível das variáveis macroeconômicas ao longo do tempo. Os países que atravessam crises acabam se desviando das metas, mas buscam reavaliação e retorno à trajetória de longo prazo apresentada antes. A vulnerabilidade que estes países apresentam é muito elevada principalmente em se tratando de choques internacionais, como o ocorrido nos países do sudeste asiático em 1997. Além disto, a vulnerabilidade também está presente quando de choques climáticos, como enchentes, secas, furacões, etc. Outro ponto não menos importante é a possibilidade de conflitos armados que, juntamente com as demais formas de vulnerabilidade, podem prejudicar a execução das políticas traçadas e o cumprimento das metas estabelecidas. Neste sentido, as subseções seguintes irão apresentar o tratamento dado, por sete países selecionados, aos aspectos macroeconômicos em seu PRSP. São eles: Moçambique, Bolívia, Guiana, Gâmbia, Benin, Chad e Mali. A escolha foi aleatória, buscando apenas contemplar as regiões mais pobres do planeta, como a América Latina, África Subsaariana e Sul da Ásia. 3.1.1 Moçambique. O PRSP de Moçambique (MOÇAMBIQUE 2000), denominado PARPA, apresenta como objetivo a redução da pobreza para menos de 30% nos 30 anos contados a partir de 1997, sendo que a meta para 2005 foi de 60% e para 2010 é de 50%. Para alcançar estas metas houve a preocupação com o crescimento econômico sustentado num ambiente de estabilidade macroeconômica. Partindo do pressuposto de que o Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 rápido crescimento econômico é benéfico aos pobres, o PRSP previu uma taxa média de crescimento anual de 8% entre 2001 e 2010. Esta meta de crescimento está unida ao aumento do rendimento per capita e do consumo privado em pelo menos 5% ao ano, sob uma inflação contida entre 5 e 7% ao ano. Outras metas estabelecidas pelo PRSP são: atingir um PIB per capita de US$330,00 em 2010; exportações de bens de 24,9% do PIB em 2010; importações de bens na faixa de 2,4% do PIB; Investimento Bruto em 18,8% do PIB em 2010 e poupança nacional em 25,0% do PIB em 2010 (Tabela 1). No PRSP de Moçambique a gestão macroeconômica e financeira é vista como uma área fundamental de ação para a redução da pobreza, dado que constitui um requisito crucial para o crescimento rápido, criação de emprego e a sustentabilidade do programa no longo prazo. Pelo propósito acima e para atingir as metas apresentadas, Moçambique estabeleceu política fiscal e monetária no PRSP de mobilização de recursos orçamentais; de gestão das despesas públicas; de desenvolvimento do mercado financeiro; de comércio internacional; e de gestão da dívida pública. TABELA 1. Indicadores econômicos de Moçambique contidos no PRSP, em % do PIB 1999 2000 2001 2002 2005 2010 Taxa de Crescimento do PIB real 7,3 2,1 9,6 9,8 9,3 7,9 PIB per capita (US dólares) 250 240 200 210 260 330 Exportações de Bens 28,3 98,9 3,3 24,2 24,9 Importação de Bens -3,5 18,0 57,8 6,3 2,4 Conta Corrente 0,7 -2,5 -9,0 -10,4 -9,0 -9,6 Saldo do Balanço de Pagamentos -5,7 -9,9 -14,7 -10,8 -4,3 -2,5 Investimento 23,6 19,9 26,6 41,8 20,6 18,8 Poupança Interna 1,2 0,6 5,7 0,4 22,2 25,0 Poupança Externa 22,4 19,3 20,9 41,4 -1,6 -6,1 Resultado Primário -3,1 -5,8 -10,3 -5,0 -3,5 -2,6 Investimento Direto Externo 9,3 3,5 5,6 23,3 2,6 1,8 Fonte: MOÇAMBIQUE (2001). O objetivo principal da política monetária e fiscal, como uma política global, é manter a estabilidade macroeconômica. Sendo assim busca-se, através de seu controle, impulsionar a taxa de crescimento econômico por meio da expansão do crédito e da manutenção de uma taxa de câmbio competitiva, reduzindo o déficit fiscal por meio de uma mobilização mais vigorosa de receitas internas. Dentre as ações previstas estaria à busca de manutenção de equilíbrio entre receitas e despesas governamentais para um cenário fiscal de médio e longo prazo, a criação de uma programação financeira para controlar a emissão de moeda e o fortalecimento do processo de acompanhamento macroeconômico. A política de mobilização de recursos orçamentários apresenta como objetivo principal a realocação de receitas, que deverão atingir entre 16 e 17 % do PIB em 2010. Neste sentido uma reforma tributária é prevista, para estabelecer um sistema tributário mais eficiente, abrangente e justo. É também objetivo o reforço da capacidade e da eficiência da administração tributária. Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 As ações neste sentido seriam: o alargamento da base tributária; a criação de um órgão para gerenciar e controlar a arrecadação de tributos; a articulação das informações entre a arrecadação de impostos internos e aduaneiros; a revisão periódica no código fiscal e a maximização possível da tributação sobre a extração de recursos naturais, principalmente os não renováveis. O objetivo principal da política de gestão das despesas públicas é orientar os gastos governamentais para a redução da pobreza e para a manutenção do crescimento, além de acompanhar os esforços de desconcentração e descentralização da administração pública. As ações seriam o fortalecimento do processo de contabilidade pública, a incorporação de determinadas despesas e receitas offbudget ao orçamento, a revisão anual das despesas em setores prioritários e a desconcentração e descentralização da administração pública. A política de desenvolvimento dos mercados financeiros do país busca minimizar a ocorrência de crises financeiras, principalmente pelo fortalecimento da supervisão bancária. Outro objetivo é a inclusão na tomada de crédito dos habitantes das áreas rurais e das pequenas e micro empresas. A redução da taxa de juros da economia é buscada pelo processo de fortalecimento dos mercados financeiros. As ações incluem o fortalecimento e a supervisão do sistema financeiro de acordo com os princípios do Acordo da Basiléia; a revisão e definição de regras de gestão prudencial da atividade bancária; a realização de estudos de viabilidade para a criação de instituições alternativas de crédito; a redução das taxas de juros e a melhoria do sistema de pagamentos; a diversificação de produtos financeiros e a diminuição dos riscos. Com o objetivo de sustentar o crescimento por meio do setor externo, o PRSP contempla a política de comércio internacional e de promoção das exportações. As ações pretendidas são a de manter uma taxa de câmbio competitiva, de eliminar barreiras às exportações e importações, promover as exportações tradicionais e as não tradicionais, desenvolver e melhorar os processos alfandegários e fornecer crédito à exportação. A política da gestão da dívida pública busca desenvolver uma estratégia de médio e longo prazo de sustentabilidade da dívida pública interna e externa, além de fortalecer o sistema de controle, registro e gestão da mesma. Seguindo estas políticas o PRSP vislumbra atingir as metas traçadas, mas cabe chamar a atenção para os problemas conjunturais que possam atrapalhar a trajetória traçada. Neste sentido, as revisões anuais contempladas, bem como o acompanhamento realizado pelo Banco Mundial e pelo FMI servem para reorientar as políticas, buscar as metas e, até mesmo, realizar a revisão das metas se os problemas persistirem. 3.1.2 Bolívia. As metas estipuladas pelo PRSP3 da Bolívia (BOLIVIA 2001), para redução da pobreza foram da ordem de 62,4% em 2000 e de 40,6% em 2015. Já as metas de redução da “extrema pobreza” ficaram na ordem de 36,2% em 2000 e de 17,3% em 2015. A meta para o crescimento do PIB, constante no plano, é de 5 a 5,5% ao ano até 2015, sendo que o PIB per capita deverá crescer cerca de 59,7% até o final do período. Já o consumo per capita deverá aumentar em 2,5% anual até 2015, com um déficit fiscal descendente de 3,75 do PIB em 2000 para 1,3% do PIB em 2008. A inflação deverá ficar em torno de 4% ao ano durante os 15 anos, com uma política cambial de manutenção de uma taxa de câmbio real favorável às 3 Também conhecido por Estratégia Boliviana de Redução da Pobreza (EBRP) Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 exportações. A balança comercial deverá manter-se em torno de 5% do PIB, enquanto que a poupança e o investimento deverão aumentar em 2015 para 18% do PIB e 23,2% do PIB, respectivamente. O PRSP da Bolívia assume que é necessário manter as políticas fiscal, monetária, comercial e financeira presentes no Programa Econômico Boliviano em vigor no momento da elaboração do mesmo. Porém, há necessidade de se aprofundar as reformas estruturais para estimular o crescimento. O crescimento econômico sustentável é essencial para a redução da pobreza, por isso as metas apresentadas anteriormente devem ser buscadas num contexto de priorizar os setores que tenham maior impacto sobre sua redução. Neste sentido, o PRSP sinaliza ações de apoio às pequenas e microempresas, ao desenvolvimento rural e a construção de infra-estrutura voltadas para benefício da população pobre. Claramente estas ações teriam o objetivo de aumentar a criação de empregos e permitir maior acesso da população rural aos mercados de bens e serviços. Esta estratégia esta voltada para um crescimento que privilegie os setores que utilizem mão-de-obra em larga escala. Um ponto a ser tratado com maior critério é a desregulamentação do mercado de trabalho que se encontra rígido no momento da elaboração do PRSP. A política fiscal presente no PRSP defende a sustentabilidade do déficit público com base em financiamento não inflacionário, buscando não prejudicar a estabilidade dos preços. O crescimento do PIB, conforme estimado, possibilitaria uma queda gradativa do déficit, diminuindo a necessidade de tomada de recursos do Banco Central e também do setor privado, liberando mais recursos para que este realize seus investimentos produtivos. Os gastos do governo devem ser orientados para priorizar os projetos sociais, tanto de investimentos quanto de gastos correntes, segundo determinado no PRSP. Os gastos governamentais devem ficar comprometidos nos próximos anos, dado o impacto das reformas estruturais em vigor, principalmente a da previdência social. Assim, os recursos provenientes da iniciativa HIPC devem ser utilizados para o avanço dos projetos prioritários em áreas sociais. Ainda na política fiscal, espera-se que a reforma aduaneira realizada em 1999 permita um aumento na arrecadação de impostos. Ainda, espera-se que a promulgação de um novo Código Tributário crie um ambiente favorável para ampliação da base tributária e com isso também permita uma melhora na arrecadação. A política monetária seguira sua trajetória para manter a estabilidade preços com taxas de inflação em torno de 4% ao ano. Neste mesmo sentido, a política cambial buscará manter a taxa de câmbio real em níveis que permitam competitividade para as exportações. Busca-se com estas duas políticas evitar que a população pobre sofra uma queda em seu poder aquisitivo por não poder defender-se de taxas elevadas de inflação. No setor externo, a sustentabilidade do balaço de pagamentos está relacionada ao crescimento sustentado das exportações e a entrada de capital estrangeiro para investimentos diretos nos setores de mineração e de extração de gás natural. Desta forma, haverá financiamento das importações e condições de manter o pagamento do serviço da dívida, reduzindo o déficit em conta-corrente a níveis abaixo de 5% do PIB. A iniciativa HIPC é de extrema relevância para manter a sustentabilidade do endividamento. Esta redução da dívida deve impulsionar a redução do déficit em conta corrente, a manutenção de fluxos de investimentos diretos, contribuindo para elevados níveis de reservas internacionais que dêem sustentação contra eventuais choques externos. Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 3.1.3 Guiana. O PRSP da Guiana (GUIANA 2000) vincula o crescimento econômico ao aumento das exportações, da estabilidade política e da rapidez nas reformas estruturais e regulatórias. Neste sentido, ficaram estipuladas algumas metas para buscar este crescimento. Uma delas e diminuir o déficit público (após doações) de 1,3% do PIB em 2003, para zero em 2005. O alcance deveria ocorrer via aumento de receitas e diminuição de despesas. Outra meta é adequar o crescimento dos salários, principalmente do setor público, de acordo com a expectativa de inflação para o médio prazo. Busca-se também o aumento da competitividade por meio de uma reforma na política comercial. Dentro destas metas, encontra-se a implementação de políticas macroeconômicas apropriadas e manutenção de endividamento externo prudente, através de doações e empréstimos concessionais. Outro objetivo e criar um ambiente propício ao investimento privado por modificação rápida da legislação existente. Enfim, a reorientação das despesas públicas para os pobres é colocada claramente no PRSP. A meta para o crescimento econômico era de uma média de 4,5% ao ano no período 2000-2005. Neste crescimento, esperava-se que o setor da agricultura (arroz e açúcar) lidere o processo, juntamente com uma reestruturação e modernização do setor agroindustrial, principalmente na empresa GUYSUCO. A meta para poupança foi de 10% do PIB em 2000 e de 17,5% em 2005. Esta meta deveria ser buscada pela redução do crescimento real do consumo do setor público e por uma reforma no setor financeiro. A proposta é que o investimento bruto deva aumentar significativamente, sendo que para 2000 a meta foi de 28,7% e de 33,4% em 2004. A meta deveria ser atingida basicamente por estímulo ao capital privado, seja estrangeiro ou nacional. Quanto ao setor externo busca-se um crescimento anual de 2,1% nas exportações e 3% nas importações. Esperava-se que o déficit em conta corrente que ficou em 11% em 1999, aumente para 22,6% em 2004, criando problemas para sustentabilidade do Balanço de Pagamentos. A dívida externa é uma restrição considerável para a Guiana, desta forma o PRSP coloca a necessidade de se manter a sustentabilidade da dívida em médio prazo, por meio da ajuda do FMI e Banco Mundial via empréstimos concessionais e iniciativa HIPC, bem como por continuidade de doações. Outro ponto que se destaca é a expectativa favorável de resultados na exportação de açúcar, tanto por melhora no mercado externo quanto pela modernização da GUYSUCO. Para realização destas ações e para o alcance das metas estipuladas, há necessidade de que a política fiscal e monetária implementadas seja prudente. Assim, busca-se uma eficiência gerencial do setor público com destaque para a adoção de um sistema tributário com base mais ampla e com maior capacidade de arrecadação, além de promover um aumento dos salários. A política monetária e creditícia deve ser implementada para reduzir e manter a inflação baixa sendo, também, responsável por manter equilibrado o Balanço de Pagamentos. Outra meta é construir e manter a estabilidade no setor financeiro. Percebe-se que a questão macroeconômica não foi totalmente elaborada devido a ser um PRSP não definitivo, devendo haver algumas revisões e complementação. Porém, percebe-se claramente a seqüência ilustrativa do Livro de Consulta. Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 3.1.4 Gâmbia. O principal objetivo expresso no PRSP de Gâmbia (GAMBIA, 2002) é o da estabilidade macroeconômica. Esta é imprescindível e deverá ser buscada para o fortalecimento do setor privado e o alívio da pobreza no país. O foco de ações era: - O controle das finanças públicas para diminuir o déficit orçamentário e com isso o nível da dívida interna, liberando os níveis de preços domésticos e a taxa de juros; - A dependência de reformas estruturais para o crescimento do setor privado; - O desenvolvimento dos serviços do setor público; - A implementação de uma agenda social compreensiva, principalmente na agricultura, saúde e educação; - A melhora na confiabilidade dos dados macroeconômicos e sociais para servirem de base para a implementação de políticas. Na Tabela 2 são apresentadas algumas metas fixadas para a economia de Gâmbia até 2005. Percebe-se uma taxa de crescimento do PIB por volta de 6% ao ano, com uma queda na inflação de 5,5% em 2002 para 3,0% em 2005. TABELA 2. Indicadores econômicos de GÂMBIA contidos no PRSP, em %. 2002 2003 2004 Taxa de Crescimento do PIB real 6,0 6,0 6,0 Inflação 5,5 4,0 3,0 Taxa de Crescimento das Exportações 8,4 8,2 5,3 Reservas Internacionais (meses de Import.) 5,0 5,2 5,4 Déficit em Conta Corrente (sem doações) % PIB 13,2 12,3 11,6 Déficit em Conta Corrente (com doações) % PIB 5,4 5,0 5,8 Déficit Fiscal % PIB 5,0 2,7 2,3 Fonte: GAMBIA (2002). 2005 6,2 3,0 3,5 5,5 10,3 2,7 1,9 A previsão era que o investimento para sustentar este crescimento aumentasse de 18% para 22% em 2004, devendo ocorrer algumas mudanças na composição deste investimento. Uma das metas é buscar uma maior estabilidade do investimento privado através de iniciativas que promovam a credibilidade para o retorno dos valores aplicados na produção. Esta participação da iniciativa privada deverá, preferencialmente, ocorrer em empreendimentos intensivos em mão-de-obra com o objetivo explícito de diminuir a pobreza. Nesta linha ainda de investimentos, o PRSP coloca a necessidade de que os investimentos públicos e privados tenham um elevado grau de complementaridade para que haja melhoria social e também participação privada nos investimentos em infra-estrutura necessária para o crescimento da economia. Quanto ao setor externo, o PRSP apresenta, inicialmente, uma expectativa de sustentabilidade da dívida externa por meio da iniciativa HIPC, devendo diminuir de 108,9% do PIB em 2000, para 90% do PIB em 2006. Há uma expectativa de queda gradual no déficit em conta corrente com aumento das exportações – reforma tarifária para incentivar o Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 comércio transitório, criação de zonas de livre comércio e turismo – e queda nas importações. Ainda verifica-se a necessidade de que a balança de capital continue superavitária, porém com a modificação dos recursos vindos por doações para os de investimentos diretos. No setor fiscal o principal objetivo é reorientar as ações para os pobres. Neste sentido, torna-se emergencial adquirir assistência técnica para adequar o sistema tributário para que promova eficiência no sistema econômico. Outra necessidade é de promover transparência nos gastos e orientá-los para as prioridades do PRSP. Neste contexto, a queda no déficit fiscal é indispensável, pois geraria queda nos empréstimos tomados do Banco Central, aumentando a disponibilidade de crédito, e também permitiria a reorientação das despesas para as áreas sociais prioritárias. Ainda seria indicado um esforço para melhorar o processo de arrecadação, criando um órgão central para fiscalizar a aplicação da legislação. No setor financeiro, o Banco Central trabalha com o objetivo de limitar a inflação atual em 10% ao ano, mas a base para o crescimento deve ser buscada além desta ação, sendo necessário à melhoria das operações no mercado monetário, maior flexibilidade das taxas de juros e aumento da eficiência e integridade do sistema financeiro. Cabe ainda ao Banco Central estreitar a regulamentação do setor bancário e financeiro, além de criar uma infraestrutura estatística de acompanhamento das variáveis macroeconômicas. 3.1.5 Benin. O PRSP de Benin (BENIN 2002), na questão macroeconômica, apresenta o objetivo de crescimento com maior participação dos investimentos privados, externo e interno. Para isso é obrigatória uma política para estabelecer a confiança do investidor privado por meio do pilar central do PRSP, isto é, a estabilidade macroeconômica. TABELA 3. Indicadores econômicos de BENIN previstos no PRSP, em % de variação. 2001 2002 2003 2004 2005 Taxa de Crescimento do PIB real 5,0 5,3 5,8 6,8 7,0 Inflação 4,0 3,3 2,7 3,0 3,0 Taxa de Cresc. Renda per capita 2,8 3,0 3,2 3,5 3,8 Conta Corrente -6,7 -8,3 -8,5 -8,7 -7,8 Saldo do Balanço de Pagamentos 5,6 -0,7 -1,5 -2,3 -1,8 Investimento em % PIB 19,2 21,5 20,9 21,4 20,7 Poupança em % PIB 12,5 11,0 12,4 12,7 12,9 Déficit Público Cenário I 4,2 5,2 4,7 4,2 4,0 Déficit Público Cenário II 6,1 5,7 4,5 Fonte: BENIN (2002) A Tabela 3 apresenta alguns indicadores de Benin, incluindo as previsões do PRSP. Persegue-se uma elevação da taxa de crescimento do PIB acima de 7% após 2005 e uma inflação em queda, ficando em torno de 3% no médio prazo. O déficit em conta corrente deve ficar com sua variação em torno de - 8%, o que indica uma queda no déficit para equilibrar o balanço de pagamentos. Os níveis de investimento deverão aumentar como proporção do PIB, ficando num patamar de 21%, enquanto que a poupança interna deverá ficar em torno de Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 13%, o que indica a necessidade de manutenção da entrada de capitais estrangeiros para complementação. O déficit público deve manter-se em queda no médio prazo. Para executar estas metas o PRSP de Benin deverá aplicar uma política fiscal rigorosa, com uma redistribuição do crescimento. A flexibilidade da política fiscal deve ser a forma de redistribuir os benefícios do crescimento e também uma harmonização com as políticas da WAEMU (West African Economic and Monetary Union) da qual Benin faz parte. No setor externo, o PRSP estabelece um déficit em conta corrente sustentável em torno de –7,2% do PIB. Este Déficit deve surgir em função do aumento das importações de bens de capital (meta almejada) e, também, pelos baixos níveis de poupança doméstica. A política monetária vislumbra um aumento da liquidez na economia nos padrões estipulados pela WAEMU, porém o objetivo principal é a estabilidade no nível de preços. A política de crédito é prudentemente voltada para a concessão de empréstimos com maior viabilidade de retorno dos recursos. Há também preocupação com a regulação da taxa de juros e com o controle da taxa de câmbio. 3.1.6 Chad. O PRSP de Chad (CHAD, 2003) apresentava uma expectativa de crescimento econômico em torno de 11% ao ano a partir de 2000, fruto da prospecção de petróleo e da construção de um oleoduto até Camarões, para exportação do mesmo. Ainda não havia, em 2000, a extração do petróleo. Não obstante, os investimentos realizados entre 2000 e 2002, no setor, já foram suficientes para aumentar a taxa de crescimento da economia e modificar outros indicadores. A expectativa é que as reservas de petróleo encontradas durem até 2015, portanto a receita advinda deverá ser temporária. Assim, a estratégia colocada no PRSP é de aproveitamento deste momento de receitas extraordinárias para criar um crescimento sustentado de outros setores da economia e, principalmente, para combater a pobreza. Neste sentido, estima-se um crescimento de 8,9% ao ano até 2015 do setor da economia não ligado ao petróleo. O setor primário teria uma média de 4,2%, enquanto o secundário 10,1% e o terciário 6,5% de crescimento ao ano até 2015. O investimento e a poupança nacional deverão crescer para sustentar este crescimento. O investimento passa de 17,4% do PIB em 2003 para 18,5% até 2015, enquanto que a poupança de 6,5% do PIB em 2003 para 13,6% em 2015, demonstrando a necessidade de poupança externa para realização destes investimentos. Para conseguir este crescimento, o PRSP demonstra a necessidade de estabilidade macroeconômica, devendo manter a inflação em torno de 3% ao ano entre 2003 e 2015, a taxa de câmbio real fixa e apropriada às necessidades de participação na CEMAC (Central African Economic and Monetary Community), além de uma dívida sustentável e adequado nível de reservas internacionais. No entender dos elaboradores do PRSP, a manutenção da inflação baixa é fundamental para o combate à pobreza. Desta forma a política monetária e fiscal deverá tomar contornos rígidos. A dívida externa é um sério problema para o país, pois é insustentável com os ditames de política macroeconômica adotada, principalmente quanto ao câmbio fixo. A presença de déficit nas contas do governo e a necessidade de pagamento dos serviços da dívida externa criam alguns problemas para a manutenção do câmbio fixo, sendo que a resolução para este problema é a iniciativa HIPC e as receitas de exportações de petróleo iniciadas em 2003. Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 Segundo o PRSP, a manutenção do câmbio fixo depende de um elevado nível de reservas, desta forma busca-se manter alta a quantidade de reservas em relação às importações, passando de 5,2 meses em 2003 para 11,9 meses em 2010. O déficit em conta corrente, que no período 2002-2003 ficou em 46,7% do PIB, deverá passar para 8,6% em 2004 e seguir uma trajetória de queda ficando em 3,4% entre 2005 e 2009. A necessidade de importação de equipamentos para a extração de petróleo foi o grande responsável pelo déficit do atual período. A política fiscal adotada por Chad obedece às regras estipuladas pela CEMAC, com o objetivo de manter a estabilidade macroeconômica e a distribuição eqüitativa do crescimento. Com a adoção da taxa de câmbio fixa a política fiscal ganha maior responsabilidade sobre as metas traçadas. O objetivo nos gastos governamentais é estipular um conjunto de dispêndios prioritários que não sofram variação conforme os preços internacionais do petróleo. Deve-se assim, criar uma independência para que haja efetiva luta contra a pobreza. Um objetivo já mencionado é o de utilizar ao máximo as receitas adicionais provenientes do petróleo para poder sustentar o crescimento no longo prazo. O governo tem como responsabilidade segundo o PRSP: a) Manter a moderação na demanda e manutenção de baixa inflação; b) Melhorar a posição fiscal, permitindo a reconversão dos débitos externos para acumulação de reservas; c) Reduzir o déficit público, limitando assim os empréstimos domésticos e externos e mantendo a dívida sustentável no longo prazo; d) Diminuir a dependência de ajuda financeira para equilíbrio do balanço de pagamentos, o que aumenta a confiabilidade dos investidores; e) Orientar os gastos públicos para os objetivos prioritários do PRSP. A política monetária e financeira deverá também ser prudente e adequada aos padrões da CEMAC, além de manter a inflação baixa e a competitividade externa do país. Outro objetivo buscado é o de fazer com que se utilize mais intensamente a moeda nas transações econômicas do país. As desigualdades e a pobreza do país fazem com que, uma pequena parte da população, realize as trocas econômicas de forma muito rudimentar, sem a utilização da moeda nacional. Assim, alguns itens são fundamentais para que se chegue aos objetivos propostos: - Integrar o mercado de crédito no país; - Criar um fundo para gerações futuras; - Controlar a entrada de dinheiro para que não provoque excesso de liquidez; - Crescimento da base monetária consistente com a baixa inflação; - Desenvolvimento do sistema bancário; - Melhoria dos produtos financeiros; - Fazer a ligação entre a poupança-crédito-investimento; - Estreitar a supervisão bancária; - Criar o microcrédito para a área rural. Assim, espera-se que a estratégia para redução da pobreza alcance seus objetivos, porém a vulnerabilidade ainda fica evidente. Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 3.1.7 Mali. O PRSP de Mali (MALI, 2002) apresenta o objetivo de crescimento acelerado com redistribuição da renda gerada. O crescimento esperado para o período 2002-2006 ficou acima de 6,7% ao ano, buscando reduzir a pobreza de 63,8% para 47,5% em 2006. Para isso, a política fiscal terá um importante papel, devendo reorientar as despesas para os setores prioritários do PRSP, além de buscar um rápido aumento das receitas públicas. As metas de limitar os gastos e empréstimos líquidos a 27,7% do PIB entre 2002 e 2006 têm o claro objetivo de contenção, mas com reorientação dos gastos, pois parte deverá ser orientada para investimento do governo (13,4%) e os gastos correntes deverão ficar com o restante. O rápido crescimento das receitas depende de um esforço concentrado para aumentar a base tributária, elevar a eficiência da administração tributária e estabelecer um sistema tributário que melhores a distribuição de renda e a mobilização de poupança. Estas medidas além de buscar o combate à pobreza têm também a importância por criar a convergência para as regras da WAEMU (West African Economic and Monetary Union). A dívida externa do país deverá tomar um novo rumo com a iniciativa HIPC, pois será estreitado o controle para que a dívida atinja a proporção de 80% do PIB e que a razão entre o serviço da dívida e as exportações não ultrapasse 10%. A política monetária deverá aumentar a eficiência do sistema bancário por criar condições de maior intermediação financeira. A idéia é manter uma política monetária prudente e de acordo com a manutenção de uma taxa de câmbio fixa, além de permitir a consolidação da posição externa da WAEMU. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS. Ao analisar o PRSP dos sete países percebe-se a ligação dos mesmos com os indicativos presentes em BANCO MUNDIAL & FMI (2001), pois o Livro de Consulta foi construído sob a experiência dos primeiros países a elaborarem o PRSP e para servir de base aos que elaboraram recentemente. As estimativas para as variáveis macroeconômicas são realizadas com base em cenários que rapidamente podem sofrer alterações, por isso a reavaliação destas metas e das políticas é realizada anualmente. A análise realizada pelo Banco Mundial e pelo FMI aponta problemas de inconsistência, porém há uma ligação estreita entre as metas e as políticas traçadas. Como destacado anteriormente, o problema maior é a vulnerabilidade macroeconômica que estes países estão sujeitos, por diversos motivos, dentre eles os conflitos internos, choques externos nos mercados financeiros e de produtos primários (base de exportação destes países), choques naturais (enchentes, secas, tempestades e furacões). Contudo, o objetivo maior de redução da pobreza está sendo buscado pelo que apresenta as políticas e reformas apresentadas no PRSP de cada país. O caminho a ser seguido por estes países é longo e demanda muito esforço, porém representa uma das poucas alternativas que estes têm de mudar o estado secular de miséria e pobreza que se encontram. Cascavel – PR – 17 a 19 de junho de 2008 REFERÊNCIAS BANCO MUNDIAL. A User´s Guide to Poverty and Social Impact Analysis. Banco Mundial: Washington, 2003. Disponível em http://www.worldbank.org . BANCO MUNDIAL. Relatório Sobre o Desenvolvimento Mundial 2000/2001: Luta Contra a Pobreza. Estados Unidos: Oxford University Press, 2001. BANCO MUNDIAL & FMI. Livro de Consulta para Estratégias de Redução da Pobreza. [on line]. Abr, 2001. Disponível na internet em www.worldbank.org. BENIN. Benin Poverty Reduction Strategy Paper 2003-2005 [on line]. National Comitee for Development and Figth Against Poverty, dec, 2002. Disponível em www.worldbank.org . 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