CINEMA, PROPAGANDA E IMPÉRIO. O ROMANCE DO
LUACHIMO – LUNDA, TERRA DE DIAMANTES
Cristina Sá Valentim1
Luís Costa2
Resumo: Através da presença e ação da Companhia de Diamantes de Angola
(Diamang), instalada no nordeste de Angola em 1917, o contexto da Lunda é
aproveitado para revelar e fazer propaganda do efeito civilizador do Estado
colonial, numa fase tardia do colonialismo português em África. Com o
decorrer da Guerra Colonial, o ‘Romance do Luachimo’ emerge como espelho da
acção colonial da Companhia e divulga os trabalhos dos vários serviços da
empresa que, paralelamente à exploração das jazidas diamantíferas, se
estendem a áreas sociais de intervenção assistencial e científico-cultural. Esta
comunicação pretende explorar a narrativa de propaganda através do
filme/documentário “O Romance de Luachimo. Lunda, Terra de diamantes”,
realizado por Baptista Rosa em 1969.
Palavras-Chave: Discurso, Imagem, Colonialismo, Diamang, Propaganda.
Contacto: [email protected]; [email protected].
O Caso da Diamang, a Companhia de Diamantes de Angola
Apesar da presença portuguesa em Angola ser uma realidade desde o
século XV, a ocupação colonial portuguesa no nordeste angolano data do final
1
É licenciada e mestre em Antropologia e estudante de doutoramento em Sociologia no
programa de ‘Pós-Colonialismos e Cidadania Global’ no Centro de Estudos Sociais (CES) da
Universidade de Coimbra. Realiza o doutoramento com o auxílio de uma Bolsa de
Doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). É investigadora colaboradora
do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) e membro fundador do Grupo
Autónomo de Investigação em Estudos Pós-Coloniais (GAIEPC). Desde 2008 que colabora no
projeto Diamang Digital: http://www.diamangdigital.net/
2
É mestre em Antropologia e estudante de doutoramento em Antropologia Social e Cultural no
Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra. Realiza o doutoramento com o
auxílio de uma Bolsa de Doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). É
investigador colaborador do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA).
Valentim, Cristina Sá & Costa, Luís. 2014. “Cinema, Propaganda e Império. O Romance do
Luachimo – Lunda, Terra de Diamantes”. In Atas do III Encontro Anual da AIM, editado por
Paulo Cunha e Sérgio Dias Branco, 325-335. Coimbra: AIM. ISBN 978-989-98215-1-4.
Cristina Sá Valentim e Luís Costa
do século XIX, precisamente aquando da expedição de 1884 a 1888 chefiada
pelo comandante/explorador Henrique Dias de Carvalho (RAMD 1943; Neto
2000). Num contexto de instabilidade política e financeira na metrópole,
motivado pela instauração da República em 1910 e, mais tarde, pela Grande
Guerra, o colonialismo português moderno em Angola tem como figura central
a Diamang (Companhia de Diamantes de Angola), uma empresa majestática
que, com capitais portugueses, belgas, norte-americanos e franceses, ocupa e
desenvolve o nordeste angolano a partir de 1917. A Diamang inicia a
exploração dos depósitos de diamantes de toda a Lunda, e dá início a um
colonialismo de cariz assistencial, científico e cultural que tem como epicentro
o Museu do Dundo, criado em 1936 (Porto 2009). Essa ação baseava-se no leme
‘conhecer para colonizar’, ou seja, no par saber/poder na aceção de Foucault
(1980) e, assim, justificava-se a ‘missão civilizadora’ do Estado português.
Numa conjuntura internacional do pós-guerra a favor da descolonização, e
num contexto de ações nacionalistas angolanas e de luta anticolonial
emergente, a imagem não só serve para conhecer e estudar os 'povos da Lunda',
mas igualmente para preservar e legitimar a presença colonial em Angola. Em
1962, já iniciada a Guerra de Libertação, a Brigada Cinematográfica da Rádio
Televisão Portuguesa parte para o Dundo com o objetivo concreto em
documentar a ‘obra civilizacional’ da Diamang (NMFL V. II NR n. 138, 1962).
Esta equipa, composta por Baptista Rosa, Navarro de Andrade e Aquilino
Mendes e com um guião de filmagem elaborado pela Companhia, desloca-se ao
Dundo em três viagens – de 17 a 24 de março, de 7 a 10 de abril e de 29 de
agosto a 3 de setembro (RAMD 1962, 29-32). Em 1964, e com a ajuda do
Laboratório de Fotografia do Dundo e da Tóbis em Lisboa, concluem-se os
trabalhos
de
montagem,
sonorização
e
locução
do
filme
–
um
filme/documentário com a duração de 163 minutos e gravado em película
Eastmancolor (RCA 1964, 34). Em 25 de abril de 1969, o Romance do Luachimo
estreia no Palácio da Foz, em Lisboa (Fig. 1).
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Atas do III Encontro Anual da AIM
Fig. 1 - Capa de O Romance do Luachimo. Lunda, Terra de Diamantes, 1969.
O Romance de Luachimo. Lunda, Terra de diamantes
O filme inicia a sua narrativa com um grande plano sobre o rio Luachimo,
num lento deslocar do plano acompanhando a corrente das águas, surgindo em
voz-off o ator Rui de Carvalho, que nos situa, que nos orienta e enaltece o labor
travado na Lunda do Luachimo, na Lunda dos Diamantes.
Luachimo é o nome de um rio que não corre em Trás-osMontes, nem na Beira Alta, nem no Alentejo, mas sim muito longe de
Lisboa e dos seus cafés, no canto nordeste da não menos portuguesa
[…] Província de Angola. […]
A luta que foi necessário travar com contra a natureza, contra o
nada, porque ali nada existia, e contra mil dificuldades de ordem
diversa, própria de uma iniciativa de tal envergadura, constitui de
início uma verdadeira odisseia.
Depois, bem sucedida, a Lunda do Luachimo, ou seja, a Lunda
dos diamantes, veio a converter-se uma grande escola de trabalho, um
dos valores fundamentais da economia e da civilização do nosso
Ultramar.
A concretizar-se, enfim, um nome por todos nós conhecido, que
é o da Companhia de Diamantes de Angola. Este filme visa assim a
mostrar a quem o não conheça ainda, esse exemplo vivo do que pode
o esforço português no espaço e no tempo, a persecução de obra
duradoura e não fugaz, quando bem conduzido e orientado.
Ele é exemplo também de expressão altamente oportuna
daquele mútuo entendimento e colaboração do português branco e do
português de cor que vem de há 5 séculos atrás. Um e outro
convivendo e trabalhando lado a lado, harmoniosamente, na
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Cristina Sá Valentim e Luís Costa
realização de tarefa comum, que se traduz na conquista do pão nosso
de cada dia e na construção de um Portugal maior. Vós direis, depois
das imagens que ides ver, qual o esforço que este empreendimento
traduz.
Este discurso expressa a glorificação da Nação e do Império com base em
premissas evolucionistas onde se destaca a missão de civilização realizada pelo
idioma do ‘trabalho’ e da ‘educação’, isto é, do domínio da ‘Técnica’ sobre o
‘nada’, do domínio da ‘Razão’ sobre o caos e o vazio. A partir do forjar de
categorias opostas entre si que representa o Outro apenas como o sucedâneo do
Mesmo (Said 2004), é demonstrado o esforço em ‘civilizar’, ‘desenvolver’,
estudar e ‘educar’ o Outro que seria, para isso, considerado inferior ao europeu,
indígena3, ‘Primitivo’ em oposição à ‘Modernidade’ (ocidental), ou seja, ao
Progresso, à Ciência e à Razão. Trata-se de um imperialismo que se legitima por
ser uma ação empreendedora, uma espécie de The White Man's Burden (O Fardo
do Homem Branco), o poema de Rudyard Kipling de 1899, e que vem heroicizar
o europeu para justificar a sua ação capitalista. Ao mesmo tempo, a ideia da
convivialidade harmoniosa entre ‘raças’ serve à política do ‘Portugal não é um
país pequeno’ protagonizada pelo Estado Colonial do Pós-Guerra. Como refere
Miguel Vale de Almeida (2000), esse discurso de feições lusotropicalistas
instituiu-se no espaço das colónias enquanto retórica da mestiçagem
celebratória da plasticidade do ‘Povo Português’, ajudando assim a legitimar a
continuidade da posse das colónias numa conjuntura internacional contrária a
isso.
Após esta introdução, assiste-se ao longo de todo o filme a um desfilar de
cenas, de realizações e concretizações, dirigindo o olhar para os mais diversos
aspetos do ‘Progresso’ levado até à Lunda pela Diamang. Este filme retrata essa
construção complexa e é ele próprio um produto de uma interpretação que
representa identidades de forma a naturalizar a dominação colonial, isto é, de
forma a tornar inquestionável o processo da colonialidade que construiu
estrategicamente as hierarquias entre pessoas e saberes.
3
No contexto colonial português, a designação de indígena sinaliza um estatuto sociojurídico
legal (Estatuto do Indigenato) instaurado em 1926 que negava o acesso aos direitos de
cidadania portuguesa à comunidade negra que não apresentasse hábitos culturais europeus.
Reformulado em 1929 pelo nome de “Estatuto Político, Civil e Criminal dos Indígenas das
colónias portuguesas de África”, este estatuto excluía da sua abrangência os habitantes de Cabo
Verde, Macau e do Estado da Índia (cf. Meneses 2010, 84). Este estatuto serve a partir de 1946
os habitantes nativos de São Tomé e Príncipe e de Timor, e é abolido oficialmente em 1961 (cf.
Thomaz 2001, 61).
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Atas do III Encontro Anual da AIM
Instrumentos de ocupação colonial
Este filme, enquanto instrumento de propaganda, mais não vai do que
cartografar
minuciosamente,
até
à exaustão,
a suposta ‘modernidade’
introduzida. As imagens que documenta perante uma sequência perviamente
pensada representam as várias atividades da Companhia a cargo dos seus
diversos Serviços. Por ordem de entrada na narrativa do filme, destacamos os
trabalhos de prospeção mineira, as oficinas da Escola de Trabalho, as atividades
de Pecuária e Agricultura, os ‘Mercados Indígenas’, os Refeitórios nas minas, os
Transportes e vias de comunicação, os eventos culturais e recreativos da Casa
do Pessoal, a Filarmónica Tradicional, o Desfile da Escola de Ginástica do
Dundo, as Festas Folclóricas com os Grupos Folclóricos, os Hospitais, o Museu
do Dundo, as Visitas institucionais à Diamang, o Laboratório de Biologia, as
investigações de Antropologia Física, a Capela de Nossa Senhora da Conceição
do Dundo e a Escola do Indígena. Com intuito de organização temática,
procurámos reorganizar todas essas cenas da vida colonial da Lunda,
sintetizando-as em sete grandes áreas temáticas, que se configuram como
instrumentos de ocupação colonial aqui representados por fotogramas do filme
e interpretados sumariamente.
Tecnologia e Ciência
Lançar âncora a um projeto da envergadura da Diamang, passa
obrigatoriamente pelo uso de toda uma tecnologia levada da Europa, e da sua
propaganda. Desde a prospeção mineira, as comunicações aéreas, a Central
Hidroeléctrica do Luachimo, as Máquinas Agrícolas, os Transportes, o
Urbanismo, as Telecomunicações à Investigação Científica, tudo isto é
catalogado como sendo realizações locais de um projeto português.
A Geologia, a Medicina, a Biologia, a Veterinária, a Arqueologia, a
Antropologia Física e a Etnomusicologia, assumiram-se como áreas de
investigação científica fundamentais, para levar a cabo um projeto de ocupação
científica do território, áreas estas que o filme aborda e demonstra como
‘sucessos’ da Diamang (fig. 2). Estes ‘sucessos’ são confirmados pela frequente
visita de cientistas e investigadores em várias áreas, internacionalmente
reconhecidos, e que o filme documenta: Desmond Clarck e Prof. Leackey
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Cristina Sá Valentim e Luís Costa
(arqueólogos), Prof. Herman Baumann (etnólogo), Prof. Olbrechts (historiador
de arte africana) e Hugh Tracey (etnomusocólogo). Tendo como principal
epicentro o Museu do Dundo, criado em 1936, a Diamang insere-se numa rede
mundial de ciência colonial, e para tornar mais eficaz essa presença lança uma
publicação de divulgação científica e cultural que se difunde e enraíza noutros
espaços, como é o caso das Publicações Culturais e Científicas da Diamang.
Fig. 2 - Fotograma d'O Romance do Luachimo. Lunda, Terra de Diamantes, 1969.
Trabalho
A situação de subalternidade foi construída pela estereotipia que
conjugava a categoria discursiva de raça e teorias evolucionistas com a
necessária educação pelo idioma do trabalho de cariz ocidental, levando até aos
‘africanos’ o ‘Progresso’ e, com isso, a ‘Civilização’. Para isso se retrata não só os
trabalhos nas minas (para os homens) e na agricultura – nas lavras – (para as
mulheres) como também os que ocorriam nas oficinas da Escola de Trabalho, e
que eram espaços onde os indígenas obtinham a formação em trabalhos
especializados, e que poderiam integrar a categoria de “indígenas especializados”
ou “diferenciados” (Porto 2009, 194) e, assim, auferir um salário próximo de
um assimilado. De salientar igualmente a ideia de um trabalho produzido num
ambiente de harmonia racial, tal como é indicado pelo texto da Voz Off que
descreve o final de mais uma manhã de trabalho nas oficinas: “E finalmente, à
hora da saída para o almoço, o espetáculo alegre da boa camaradagem feita e
cimentada no âmbito do trabalho realizado em comum.”
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Atas do III Encontro Anual da AIM
Esta temática surge intimamente relacionada com as performances festivas
organizadas pelo Museu do Dundo, tais como o ciclo comemorativo da Grande
Festa Anual Indígena, e que surge igualmente documentado no filme. Estes
momentos de celebração do trabalho decorreram de 1950 a 1963 e
homenageavam os trabalhadores contratados que trabalhavam na Companhia há
mais de 10 anos. Este ciclo repartia-se pela Festa Desportiva Indígena, pela Festa
da Melhor Aldeia e pela Festa Grande.
Tradição
O Museu do Dundo é criado em 1936 e é um museu etnográfico que
alegava procurar preservar as culturas nativas face à presença da ‘modernidade’
(Fig. 3). Ao mesmo tempo, é o cartão de visita para as visitas institucionais e
para a imagem internacional de Portugal, onde a existência de indígenas
tradicionais e tribalizados significa a necessidade em continuar a ‘civilizar’ o
Outro. Conjugando propósitos políticos com motivações românticas, o Museu é
retratado no filme a partir das suas Salas e que expõem os objetos trazidos das
campanhas de recolha nas aldeias. Também se destaca a Aldeia do Museu criada
em 1943 e onde ocorrem as Festas Folclóricas. Nestas ações, as culturas nativas
são idealizadas como sendo ‘tradicionais’, ‘autênticas’ e antigas, e é com base
nesta ideia de ‘Tradição’ que se legitima a presença colonial na Lunda.
Fig.3 - Fotograma d'O Romance do Luachimo. Lunda, Terra de Diamantes, 1969.
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Cristina Sá Valentim e Luís Costa
Assistência Social
A assistência social era vasta e era destinada tanto à comunidade branca
como negra, e distribuía-se por várias áreas de atuação: educação, religião,
alimentação, habitação, saúde e ‘lazer’. Criaram-se escolas, não só de trabalho
especializado mas também de ensino primário, como a Escola Oficial de Ensino
Primário criada no Dundo em 1936 e destinadas aos brancos, e a Escola do
Indígena criada em 1942. No entanto, o que o filme mostra é a convivência
entre crianças brancas e negras na escola, o que revela explicitamente o tom
propagandístico da imagem. No âmbito da assistência religiosa, foram criadas
em 1949 as Escolas-Catequese destinadas aos indígenas. Também nesse âmbito
se realizavam casamentos entre assimilados. A área da alimentação surge
ilustrada pela construção dos Silos ou armazéns de armazenamento de géneros
alimentares, como também pelos Refeitórios que serviam os trabalhadores nas
minas (Fig. 4).
Para
assistir
na
habitação,
construíam-se
aldeamentos
para
os
trabalhadores contratados próximo das minas, e bairros para os ‘empregados’
(trabalhadores brancos) e para os trabalhadores assimilados. Na assistência à
saúde construíram-se hospitais, postos sanitários e dispensários/enfermarias
em todo o distrito da Lunda. Quanto à gestão do ‘tempo livre’ ou de ‘lazer’, no
filme surge com principal destaque a Casa do Pessoal, e que era um organismo
que organizava atividades lúdicas e formativas destinadas à comunidade branca
residente nos centros urbanos. Estas atividades serviam para educar o ‘branco’
de forma a distingui-lo do indígena, articulando o gosto com as categorias sociais
de classe e ‘raça’. Desenvolviam-se jogos de voleibol, ténis, construíam-se
piscinas, davam-se aulas de equitação na Escola de Equitação do Dundo, e
organizavam-se bailes, festas e teatros. Neste âmbito de ação, o filme mostra a
‘Filarmónica Tradicional’ – uma banda filarmónica composta por indígenas que
tocavam repertórios metropolitanos europeus e que atuava nas tardes de
domingo no coreto da cidade para entretenimento da comunidade branca.
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Atas do III Encontro Anual da AIM
Fig. 4 - Fotograma d'O Romance do Luachimo. Lunda, Terra de Diamantes, 1969
Economia
Num projeto colonial e capitalista, a atividade económica assume a
centralidade. Os sectores da pecuária, da agricultura, da fruticultura, os próprios
Mercados Indígenas e, é claro, o sector diamantífero, têm um desenvolvimento e
projeção que é debatida ao longo do filme (Fig. 4). No fundo, a Lunda é
retratada como sendo uma terra fértil em produzir alimentos e em extrair
diamantes, o que foi possível pela distinção entre o ‘tradicional’ e ‘moderno’ ,
entre o ‘Primitivo’ e o ‘Civilizado’. E é justamente com essa mensagem que o
filme termina, através de uma encenação de como tudo isto começou. Como é
referido em voz off:
Águas do Luachimo. Em dia de maio de 1912 junto do leito
deste grande e belo rio, trabalhava uma prospeção. […] as mães
quioco com toucados, usando ainda os tradicionais toucados de argila
e óleo, ocupavam-se da comida dos seus homens, da limpeza […].
Prosseguiam as pesquisas, longas. Até que naquela tarde, já com o sol
a baixar, o acaso fez com que esse dia não fosse igual aos demais [um
prospetor descobre um diamante]. Águas do Luachimo, Lunda, terra
de diamantes.
Para Concluir
O processo de ocupação efetiva dos espaços além-mar e a imposição de
uma ordem colonial recorreu a instrumentos de controlo das populações e dos
espaços dominados (Haedrick 1981), e que eram de índole administrativo,
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Cristina Sá Valentim e Luís Costa
militar, religioso, técnico e científico. Porém, e de forma complementar,
proliferaram os ‘instrumentos visuais’, que muito contribuíram para esse
controlo.
A recolha e acumulação de informação de natureza diversa, escrita e
visual; os dados coligidos e todo o conhecimento produzido e vertido para o
papel, ou plasmado no celuloide, onde se inscrevem as descrições de espaços, as
populações ‘exóticas’ e a obra levada a cabo pela ‘missão civilizadora’, tiveram
quase sempre como destino a metrópole, disseminando-se por múltiplas
instituições e espaços. Toda essa informação, ao ser manuseada, visionada,
classificada e arquivada, contribuiu para fomentar e impulsionar sentimentos de
posse e domínio sobre os territórios ocupados, esbatendo a distância física. A
imagem aproxima, esbate o espaço entre a observação empírica na colónia e o
espaço da sua interpretação na metrópole (Edwards 2001).
A difusão de imagens pelo documentário assume uma força relevante
nesse sentido. Vendo a imagem como conhecimento/saber, o Estado colonial
cria a Missão Cinegráfica às Colónias de África. Alguns filmes propagandísticos
resultam das imagens filmadas no âmbito dessas Missões, tal como o 'Feitiço do
Império' de 1940 realizado por António Lopes Ribeiro (Thomaz 2002), indo de
encontro à 'Política do Espírito' de António Ferro. No entanto, o filme O
Romance do Luachimo não resulta de nenhuma Missão Cinegráfica, mas
corresponde aos propósitos que motivaram esses processos de captação de
imagens para fins políticos.
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Fontes publicadas
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de Angola, 1964
Universidade de Coimbra, Arquivo Audiovisual dos Serviços Culturais da
Diamang
O Romance do Luachimo. Lunda, Terra de Diamantes. Filme realizado por
Baptista Rosa, ano de 1969, VHS, 163m.
Fontes não publicadas
RAMD, Relatórios Anuais do Museu do Dundo, 1943, 1962.
NMFL V.II NR, Notas da Missão do Folclore da Lunda, Nota Recebida,
1962.
Universidade de Coimbra, Arquivo Documental dos Serviços Culturais da
Diamang.
335
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