UFRRJ
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM
DESENVOLVIMENTO, AGRICULTURA E
SOCIEDADE
MONOGRAFIA
“A DIVERSIDADE GENÉTICA E DE ESPÉCIES
NOS CULTIVOS E CRIAÇÕES NA AGRICULTURA
FAMILIAR EM DUAS LOCALIDADES DO
MUNICÍPIO DE TEUTÔNIA, RS”
DERLI PAULO BONINE
2002
UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO,
AGRICULTURA E SOCIEDADE
“A DIVERSIDADE GENÉTICA E DE ESPÉCIES NOS CULTIVOS
E CRIAÇÕES NA AGRICULTURA FAMILIAR EM DUAS
LOCALIDADES DO MUNICÍPIO DE TEUTÔNIA, RS”
DERLI PAULO BONINE
Sob a Orientação do Professor
M. Sc. Eli Lino de Jesus
Monografia submetida como requisito
parcial para obtenção do diploma de
Pós-graduação Lato Sensu em Desenvolvimento,
Agricultura e Sociedade
Seropédica, RJ
Novembro de 2002
UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO, AGRICULTURA
E SOCIEDADE
DERLI PAULO BONINE
Monografia submetida ao Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento,
Agricultura e Sociedade como requisito parcial para obtenção do diploma de Pósgraduação Lato Sensu em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade
MONOGRAFIA APROVADA EM 27/11/2002
_______________________________________________
Eli Lino de Jesus (M. Sc.) UFRRJ
(Orientador)
_______________________________________________
Nelson Giordano Delgado (Ph. D.) CPDA/UFRRJ
_______________________________________________
Silvana de Paula (Ph. D) CPDA/UFRRJ
_______________________________________________
Nora Beatriz Presno Amodeo (Ph. D.) REDCAPA
AGRADECIMENTOS
À EMATER/RS-ASCAR, pela oportunidade concedida para o aprimoramento
profissional através deste curso.
Aos agricultores e agricultoras das Linhas Boa Vista Fundos e São Jacó, pelo cordial
acolhimento em suas propriedades e tempo despendido nas entrevistas.
Ao professor Eli Lino de Jesus pela amizade, incentivo, confiança e orientação na
realização deste trabalho.
Aos colegas de curso, professores e funcionários do CPDA/UFRRJ e REDCAPA pelo
convívio, ensinamento e apoio.
Aos colegas Verner, Lídia e Odete, do Escritório Municipal da EMATER de Teutônia,
pela valiosa colaboração para que pudéssemos realizar a monografia.
Aos colegas do Escritório Regional da EMATER de Estrela que compreenderam a
importância deste estudo e relevaram o tempo que necessitei para concretizá-lo.
Aos colegas do Escritório Central da EMATER, em nome da direção, da colega
Johanna e do colega Alberto Bracaggioli, pelo acompanhamento e esforço para que este
curso fosse concretizado.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
1
1 MARCO TEÓRICO
2
2 O VALE DO TAQUARI E TEUTÔNIA
3
2.1 O VALE DO TAQUARI
3
2.2 TEUTÔNIA
3
2.2.1 MACROAMBIENTE
3
2.2.2 HISTÓRICO
4
2.2.3 ASPECTOS ECONÔMICOS
4
3 A BIODIVERSIDADE
6
3.1 A BIODIVERSIDADE EM GERAL
6
3.2 A BIODIVERSIDADE E A AGRICULTURA
6
3.3 A FUNCIONALIDADE DA BIODIVERSIDADE PARA
A AGRICULTURA
7
3.4 A MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA E OS EFEITOS
SOBRE A BIODIVERSIDADE
9
3.5 A AGRICULTURA FAMILIAR E A CONSERVAÇÃO
DA BIODIVERSIDADE
4 METODOLOGIA
11
12
5 A BIODIVERSIDADE NAS PROPRIEDADES DAS FAMÍLIAS
RURAIS DAS COMUNIDADES DE LINHA BOA VISTA E LINHA
SÃO JACÓ, MUNICÍPIO DE TEUTÔNIA
13
5.1 LINHA SÃO JACÓ
13
5.2 LINHA BOA VISTA FUNDOS
14
5.3 A DIVERSIDADE NAS CRIAÇÕES DE ANIMAIS
15
5.4 A DIVERSIDADE NOS CULTIVOS
17
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
21
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
22
RESUMO
BONINE, Derli Paulo. A diversidade genética e de espécies nos cultivos e criações
na agricultura familiar em duas localidades do município de Teutônia, RS.
Seropédica: UFRRJ, 2002. 30 p. (Monografia, Pós-graduação lato sensu em
Desenvolvimento, agricultura e Sociedade).
Neste trabalho estudou-se a dimensão da diversidade genética e de espécies nos
cultivos e criações em duas localidades do município de Teutônia, no Rio Grande do
Sul. A localidade de Linha São Jacó possui relevo e tipo de solo mais favoráveis à
mecanização dos cultivos, enquanto a localidade de Boa Vista Fundos tem relevo mais
declivoso e há presença de rochas na superfície do solo, sendo a mecanização dos
cultivos menos intensa. A pesquisa de campo foi feita através de entrevistas com cinco
famílias de cada localidade, onde foram enumeradas as espécies e variedades de plantas
cultivadas e animais criados atualmente, bem como as que eram criadas e cultivadas no
passado. Foi feita uma caracterização da propriedade e das técnicas de cultivo e de
criação. Para caracterização das comunidades utilizou-se como referência dados
fornecidos pela EMATER local. A adoção do modelo moderno de agricultura, nos
moldes da Revolução Verde, pela famílias rurais das localidades estudadas resultou em
redução da diversidade de espécies nos cultivos e criações ali praticados. A redução do
número de espécies ocorreu de forma equivalente nas duas localidades estudadas. A
forma de criação integrada de aves e suínos que predomina na região têm decisiva
influência na redução da diversidade animal nas propriedades. Nos cultivos, ocorreu a
substituição de variedades que eram tradicionalmente semeadas pelos agricultores por
variedades desenvolvidas por empresas produtoras de sementes. Este processo foi mais
intenso na localidade da Linha São Jacó, onde as condições de relevo e solo são mais
propícias a mecanização dos cultivos. Os cultivos onde ocorreu maior substituição das
variedades tradicionalmente plantadas foram o milho e a aveia, espécies destinadas a
alimentação das vacas leiteiras, principal atividade econômica da maioria das famílias.
Nos cultivos destinados a subsistência e naqueles de propagação vegetativa, como canade-açúcar e mandioca, ainda se mantém uma grande diversidade genética nas mãos dos
agricultores. No cultivo de hortaliças ocorre a conservação e manutenção
principalmente de espécies de propagação vegetativa e de espécies de produção
abundante de sementes e que não exigem técnicas apuradas para sua produção. Já para
as espécies de propagação via sementes, predomina a aquisição de sementes nas lojas de
produtos agropecuários, com conseqüente substituição das variedades anteriormente
cultivadas pelas variedades oferecidas nestes estabelecimentos.
Palavras chave: biodiversidade, agricultura colonial, modernização da agricultura
INTRODUÇÃO
A agricultura familiar se caracteriza pela produção de uma grande diversidade de
espécies e variedades vegetais. A manutenção desta diversidade na pequena propriedade
rural é fundamental para a sobrevivência das famílias. Entretanto, a manutenção e a
conservação das espécies vegetais cultivadas têm sido ameaçadas pela modernização da
agricultura (Gliessman, 2000: 47). Neste trabalho, analisa-se a manutenção ou a perda
desta diversidade nas propriedades da agricultura familiar do município de Teutônia, à
partir da década de 50, e a influência da modernização da agricultura neste aspecto. O
trabalho foi realizado em duas localidades do município, uma onde o relevo e o tipo de
solo são mais favoráveis à mecanização dos cultivos, Linha São Jacó, e outra onde o
relevo é mais declivoso e há presença de rochas na superfície do solo, onde a
mecanização dos cultivos é menos intensa, que é a Linha Boa Vista Fundos.
1
1 MARCO TEÓRICO
A modernização da agricultura, que deu origem à chamada revolução verde, foi
baseada na mecanização, na utilização de fertilizantes químicos solúveis e agrotóxicos,
e no cultivo de sementes melhoradas (Martine & Beskow, 1987: 20-21). No caso das
sementes melhoradas, estas substituíram as tradicionalmente usadas pelos agricultores.
Um caso típico é o do cultivo do milho, em que as sementes híbridas produzidas por
empresas especializadas substituíram os diversos tipos de sementes anteriormente
utilizadas pelos agricultores familiares. Esta situação se repete em diversos cultivos que
são propagados via sementes, como é o caso das hortaliças, onde ocorreu a perda da
habilidade de produzir sementes por parte dos agricultores e agricultoras.
O tema da biodiversidade é um dos componentes da Agroecologia, definida
como a área de estudo que fornece embasamento científico para o redesenho e manejo
de agroecossistemas. A biodiversidade engloba a diversidade genética tanto da flora
como da fauna, e pode ser entre espécies ou intra-específica, isto é, diferentes
variedades ou raças dentro da mesma espécie. A biodiversidade vegetal também pode
ser dividida em biodiversidade natural, remanescente da cobertura vegetal original, e a
biodiversidade agronômica ou funcional, aquela que é mantida pelos agricultores
através do cultivo.
A manutenção da diversidade genética funcional no ambiente natural se dá
através do permanente cultivo das espécies vegetais, criação de animais domésticos e de
técnicas de conservação das mudas e sementes produzidas na propriedade.
A existência da diversidade genética é importante para agricultura familiar na
medida em que contribui para a sua segurança alimentar. A prática de um maior número
de cultivos e criações é fator de estabilidade frente às oscilações de preço dos produtos
agrícolas comercializados. Por outro lado, a aquisição de material propagativo tal como
sementes e mudas através dos comerciantes de insumos, além de representar um custo
para os agricultores significa perda de autonomia.
2
2 O VALE DO TAQUARI E TEUTÔNIA
2.1 O VALE DO TAQUARI
O Vale do Rio Taquari, usualmente referido como Vale do Taquari, foi
colonizado por ordem cronológica por portugueses, alemães e italianos, que afastaram
ou dizimaram os ameríndios existentes na região. Afora estes, é bem menor a
contribuição de outros grupos étnicos. A partir da metade do século XIX começaram a
chegar os imigrantes europeus, provenientes de regiões empobrecidas, principalmente
da Alemanha e da Itália. A maioria absoluta dos imigrantes eram agricultores, vindo a
constituir a base da agricultura familiar no Rio Grande do Sul (Hessel, 1983:11).
A região do Vale do Taquari se caracteriza por possuir uma agricultura
consolidada, combinada a um processo de urbanização e industrialização
descentralizada, predominando indústrias do setor alimentício, como de produtos
lácteos e frigoríficos de abate de aves e suínos. A região tem conseguido estabelecer um
processo de desenvolvimento equilibrado, absorvendo tanto os excedentes de mão-deobra da área rural local como de outras regiões. A produção tanto do setor primário
como do secundário é diversificada, gerando um excedente exportável para outras
regiões. A agricultura de base familiar, consolidada e diversificada, se constitui em um
grande mercado interno, fornecedor de matérias primas, principalmente leite, aves e
suínos, além de ser consumidora de produtos industrializados e de serviços. Têm-se
verificado um crescente processo de urbanização do meio rural, com o surgimento de
atividades e serviços não-agrícolas, destacando-se a indústria de calçados, que absorve
grande contingente de mão-de-obra da agricultura familiar.
2.2 TEUTÔNIA (baseado no Diagnóstico da Realidade Municipal - 2000
elaborado pelo Escritório Municipal da EMATER de
Teutônia)
2.2.1 MACROAMBIENTE
O município de Teutônia localiza-se na região fisiográfica denominada Encosta
Inferior da Serra do Nordeste, distando 100 Km de Porto Alegre, capital do Estado. Faz
parte da microrregião homogênea do Vale do Taquari. Sua área geográfica abrange
177,40 Km2, a altitude média é de 84 metros e situa-se na Latitude – 29o 26‟ 53” e
Longitude 51o 48‟ 23”. Possui ligação por estradas asfaltadas com os municípios
vizinhos e com os principais municípios do Estado, contando, inclusive, com o
asfaltamento de vias vicinais para algumas comunidades do interior do município. De
acordo com o Censo Demográfico de 2000 (IBGE, 2002), conta com população total de
22.891 habitantes, sendo que 17.358 (75,83 %) residem em áreas urbanas e 5.533 (24,17
%) em áreas rurais. O clima é sub-tropical, com temperatura média máxima de 35o C,
temperatura média anual de 20o C, com ocorrência de geadas nos meses de junho, julho
e agosto, e regime pluviométrico com distribuição anual de 1.500 mm de chuvas.
3
2.2.2 HISTÓRICO
Teutônia foi ocupada por imigrantes vindos da Alemanha por volta de 1858. A
emancipação política ocorreu em 24 de maio de 1981. O nome Teutônia tem origem
etimológica de teuto ou teutônico, adjetivo relativo aos germânicos.
Emancipado do município de Estrela, nasceu basicamente da união de três
distritos: Teutônia, Languiru e Canabarro. Com o passar dos anos, chegaram migrantes
vindo de outras cidades e estados, o que mudou um pouco sua característica até então
unicamente germânica. Contudo a predominância de descendentes de alemães persiste
até hoje, atingindo 90 % da população. Salienta-se que o dialeto alemão é linguagem
usual no município, sendo a primeira língua ensinada aos filhos pelas famílias do meio
rural.
A predominância germânica é facilmente observável através da arquitetura
predominante na cidade e no meio rural, que mantém em seus prédios e casas o estilo
enxaimel, caracterizado pelas paredes constituídas de ripas na forma de um engradado
sustentando o barro amassado no interior. Observa-se também nas residências a
presença de jardins, evidenciando outra característica marcante do povo de origem
alemã, que é o hábito de cultivar flores. De resto, o cultivo de flores e plantas
ornamentais é observado ainda nas praças, ruas e trevos de acesso à cidade e bairros.
A religião predominante é a Evangélica, sendo que em todas as comunidades
existe uma igreja, vinculada a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil –
IECLB.
O sistema de escolas comunitárias, trazido pelos imigrantes alemães, é tido
como responsável pelo elevado nível cultural de todas as comunidades, sendo Teutônia
um dos municípios com maior índice de alfabetização do Brasil (97,5 %, conforme o
IBGE, 2002). O município conta com uma Escola Agrícola Comunitária de Segundo
Grau, que forma Técnicos Agrícolas.
O município conta com 45 grupos de canto coral, existentes em todas as
localidades, que praticam o canto folclórico, religioso e fúnebre. Estas entidades são
formadas por mais de 1000 membros associados. A música é bastante cultivada pela
população, sendo que o município mantém uma Orquestra composta por 26 membros. O
poder público patrocina aulas de música para todas as crianças interessadas.
2.2.3 ASPECTOS ECONÔMICOS
A agricultura do município de Teutônia está baseada no minifúndio
diversificado conduzido com mão-de-obra familiar. São 2.709 estabelecimentos rurais,
com área média de 8,0 hectares. A principal ocupação nas propriedades é a pecuária,
com destaque para produção de leite, suínos e aves. A pecuária leiteira está presente em
mais de 90 % das propriedades.
O cultivo que ocupa a maior área no município é o milho, com 7200 ha, sendo
que 70 % deste total tem como destino a confecção de silagem para alimentar o gado
leiteiro. Os demais cultivos da propriedade são utilizados para a alimentação dos
4
animais ou para consumo humano, sendo insignificante a prática de cultivos para venda.
Além do milho, os principais produtos cultivados para alimentação do gado leiteiro são
as pastagens com aveia e azevém, cana-de-açúcar e aipim. Para o consumo familiar
cultiva-se ainda feijão, batata-doce, batatinha, hortaliças e frutíferas, entre outras.
A produção de leite, suínos e aves é industrializada quase que integralmente no
município. O leite é processado, dentre outras indústrias, pela Elegê Alimentos,
considerada a maior indústria de laticínios da América do Sul. Os suínos e aves,
principalmente através do frigorífico da Cooperativa Regional Agropecuária Languiru.
Além das indústrias que beneficiam a produção agrícola, outras indústrias estão
instaladas no município, com destaque para as do setor mobiliário, de esquadrias,
metalurgia (implementos agrícolas) e calçadista. Esta última responde pela maior
parcela de empregos no município.
5
3 A BIODIVERSIDADE
3.1 A BIODIVERSIDADE EM GERAL
A Biodiversidade é responsável pela manutenção do equilíbrio biológico e
indispensável para a sobrevivência da humanidade. Assegura, não só os alimentos,
como também um sem número de matérias primas como fibras para o vestuário,
habitação, fertilizantes, combustíveis e medicamentos. A preservação da diversidade
genética é um seguro e um investimento necessário para manter e melhorar a produção
agrícola, e possibilita futuras opções de aproveitamento como matéria prima para
possíveis inovações científicas e industriais. Para MAELA, 2002: 3, a segurança
alimentar está baseada na capacidade local para o uso racional dos recursos genéticos
existentes. O uso destes recursos constitui-se em fator essencial para a determinação da
soberania na administração dos recursos naturais pelas populações locais.
Os ecossistemas são auto-organizações que requerem um mínimo de diversidade
de espécies para capturar energia solar e desenvolver as relações cíclicas que ligam e
sustentam os produtores, consumidores e decompositores que são os responsáveis pela
manutenção da produtividade biológica. Esta diversidade de espécies é também
indispensável para que os ecossistemas suportem as perturbações a que são submetidos
por fatores externos (Toledo, 1998: 50).
Pela definição da WRI, 1992: 2, biodiversidade é o total de gens, espécies e
ecossistemas de uma região. A diversidade genética, refere-se à variação dos gens
dentro das espécies. A diversidade de espécies refere-se à variedade de espécies
existentes dentro de uma região. Já a diversidade de ecossistemas diz respeito às
associações de espécies e organismos nas comunidades que formam os diversos
ecossistemas. De acordo com Pessanha, 1995: 3, o termo germoplasma é utilizado para
designar o conjunto dos recursos genéticos de uma espécie, ou seja, a totalidade dos
gens de um conjunto interfecundo de organismos. Os recursos genéticos, por sua vez,
englobam toda e qualquer característica, mesmo que potencial, transmitida
geneticamente. Ambos os termos designam o material hereditário contido em toda
célula viva.
3.2 A BIODIVERSIDADE E A AGRICULTURA
O meio ambiente natural sofre modificações através da interferência do ser
humano. O homem primitivo conseguia seus alimentos através da coleta de plantas e
frutos, da caça e de outros produtos da natureza. Sua interferência, então, era muito
pequena. Há cerca de 10 mil anos o homem começou a praticar a agricultura, através da
domesticação de plantas selecionadas e de animais. Desta forma, com a necessidade de
um maior sedentarismo para a prática da agricultura, a natureza determinou novos
hábitos sociais para o homem. Por outro lado, o homem modificou mais
substancialmente o meio ambiente, manejando o solo para a prática da agricultura,
6
adotando formas de cultivo que garantissem nutrientes, água e luz para as plantas, e
selecionando espécies, e variedades dentro das espécies, para atender suas necessidades.
A ação do homem tanto pode incrementar como pode reduzir a biodiversidade.
Durante a maior parte da história da agricultura o homem aumentou a diversidade
genética das plantas cultivadas e dos animais através do cruzamento, seleção de
variedades e raças apropriadas e constante domesticação de plantas silvestres e animais.
A forma milenar de praticar agricultura itinerante, pela queima e semeadura em
determinadas áreas, intercalados com longos períodos de descanso, manteve o equilíbrio
e não comprometeu a biodiversidade natural.
Na domesticação das plantas silvestres, dois fatores importantes influenciaram a
diversificação das espécies cultivadas: a ação do ambiente, fornecendo os recursos
físicos e biológicos e a ação das pessoas que cultivavam, escolhendo os tipos de plantas
a partir dos aspectos que conformavam a sua cultura e influenciadas pelas diferentes
possibilidades de sabor, cor, odor, altura, ciclo, etc. Ou seja, a variabilidade das plantas
cultivadas estava intimamente relacionada com a diversidade cultural das populações
humanas. Assim foi nos milênios que se seguiram ao surgimento da agricultura.
O melhoramento genético vegetal e animal depende fundamentalmente da
diversidade genética das espécies. O melhoramento moderno utiliza-se de material
genético das variedades melhoradas modernas, das variedades tradicionais e das formas
silvestres. As cultivares têm que ser substituídas a cada cinco anos nos Estados Unidos,
período depois do qual tornam-se susceptíveis às doenças que evoluem, e para tanto, os
melhoristas lançam mão da variabilidade genética disponível (Querol, 1993: 19).
3.3 A FUNCIONALIDADE DA BIODIVERSIDADE PARA AGRICULTURA
Com exceção de poucos lugares, como as calotas polares, a agricultura é
praticada em todo o globo terrestre. A enorme diversidade genética das plantas
cultivadas e dos animais domesticados permite uma adaptação aos mais diferentes
ambientes e as mais diversas condições de crescimento. Os próprios agricultores têm
feito da prática milenar de trocar sementes e do acasalamento de animais de diferentes
regiões e raças um artifícios para selecionar as espécies, cultivares e raças mais
adaptadas aos diferentes agroecossistemas.
Uma das características notáveis dos sistemas criados pelos agricultores
mencionado por Clawson, 1985, citado por Altieiri, 1988: 22, é o grau de diversidade
das plantas, geralmente na forma de policultivos e/ou padrões agroflorestais. A
sustentabilidade ecológica dos agroecossistemas está estreitamente vinculada a estrutura
e preservação da biodiversidade, que conduz a uma eficiente reciclagem dos nutrientes e
promove a estabilidade em relação às pragas e doenças nos sistemas (Altieri, 2002:
177).
A produção de uma maior quantidade de grãos foi um objetivo que sempre
esteve presente durante os milênios em que os agricultores realizaram o processo de
seleção e melhoramento das variedades e raças domesticadas. Entretanto, a
produtividade nem sempre foi a principal característica buscada. Várias outras
características agronômicas, de resistência a pragas e doenças e de qualidades culinárias
7
foram observadas e manejadas. Mooney, 197:7-8, nos fornece um exemplo de
agricultores chineses, que no século XI, através do cruzamento com uma variedade de
arroz da Birmânia, conseguiram reduzir o período de crescimento da planta de 180 para
100 dias.
O manejo da diversidade é fundamental para o manejo sustentável de
agroecossistemas, como bem esclarece Gliessman, 2000:46:
“ Em agroecossistemas, a diversidade pode assumir muitas formas,
incluindo o arranjo específico de cultivos numa área, a maneira como
as diferentes áreas são organizadas e como elas são distribuídas na
paisagem agrícola de uma região. Com o aumento da diversidade,
podemos explorar as formas positivas de interferência que levam a
interações entre as partes componentes do agroecossistema, incluindo
aí não apenas as plantas e animais de interesse do agricultor, mas
todos os demais elementos que compõem o ecossistema em questão”.
Altieri, 2002: 184-87, lista uma série de vantagens do sistema de cultivos
múltiplos, com alto grau de diversidade de cultivos, em comparação com o sistema de
monocultivo: maior produção por unidade de área; uso mais eficiente dos recursos
naturais luz, água e nutrientes pelas plantas de diferentes alturas, estruturas da parte
aéreas e diferentes necessidades nutricionais; nas misturas leguminosas/cereais, o
nitrogênio fixado pelas leguminosas fica disponível aos demais cereais, melhorando,
assim, a qualidade nutricional da policultura; redução de enfermidades e pragas;
supressão de invasoras pelo sombreamento provocado pela cobertura vegetal múltipla
das culturas; garantia contra o fracasso de culturas, especialmente em áreas sujeitas a
geadas, inundações e secas; ampliam as oportunidades para o mercado, garantindo um
suprimento estável de uma série de produtos sem muito investimento em armazenagem;
distribuição dos custos de mão-de-obra mais uniformemente durante o ano agrícola; e,
melhora a dieta local.
Gliessman, 2000: 365, fornece a explicação científica para a prática do cultivo
consorciado, quando o rendimento resultante da combinação de espécies é maior do que
aquele das culturas solteiras, sendo este fato devido ao resultado da complementaridade
das características de nicho, onde uma espécie tem um nicho levemente diferente da
outra. Exemplifica, relatando um estudo de caso (p. 366-67) com o cultivo consorciado
de brócolis e alface, onde os rendimentos totais por área no consórcio superaram em até
36 % o monocultivo.
Toledo, 1998: 53, considera a polinização e o controle de pragas e doenças
benefícios de importância fundamental para os ecossistemas decorrentes da
biodiversidade, já que a imensa maioria da espécies que integram o agroecossistema
dependem de polinizadores naturais para sua reprodução e muitas das pragas dos
cultivos são mantidas sob controle pelos predadores. A bibliografia científica mostra
que as pragas são freqüentemente menos abundantes nas policulturas que nas
monoculturas (Altieri, 1989:136). Comparadas com as monoculturas, as policulturas
podem fornecer maiores fontes de pólen e néctar (o que pode atrair os inimigos naturais
e aumentar seu potencial de reprodução), maior cobertura do solo (o que favorece a
8
certos predadores) e maior diversidade de insetos herbívoros (o que pode funcionar
como fonte alternativa de alimento para os inimigos naturais e fazê-los permanecer no
campo nas épocas em que a população da praga principal está baixa) (Altieri,
1989:176). Bach, 1980, citado por Lara, 1991:181-82, comparou a monocultura de
pepino e a policultura pepino-milho-brócolis com respeito ao ataque do coleóptero
Acalymma vittata , concluindo que a população do inseto foi de 10 a 30 vezes maior em
monocultura do que na presença das outras culturas.
Dentro de uma mesma espécie vegetal existem plantas naturalmente mais ou
menos resistente ao dano de insetos. A utilização destas variedades bem como o
aproveitamento desta característica no melhoramento de plantas desponta como a tática
ideal no controle de pragas, pois sua utilização reduz as populações de insetos a níveis
que não causem danos; não interfere com o ecossistema pois não promove desequilíbrio
ambiental; seu efeito é cumulativo e persistente; não é poluente; não acarreta ônus ao
custo de produção e, finalmente, não exige conhecimentos específicos, por parte dos
agricultores, para sua utilização (Lara, 1991: 15). A resistência a pragas é comum em
plantas domesticadas, escondendo-se no genoma, mas aguardando para ser usada por
melhoristas de plantas. Entretanto, quando as variedades são perdidas, reduz-se o
tamanho do valioso reservatório genético de características, e algumas, potencialmente
de valor incalculável para cruzamentos futuros, são perdidas para sempre (Gliessman,
2000: 47).
A biodiversidade agrícola a ser considerada no manejo sustentável dos
agroecossistemas vai além das plantas e animais que estão na superfície. A diversidade
e quantidade de organismos do solo são imensas e fundamentais no equilíbrio biológico
e na nutrição das plantas. Siqueira et al., 1994: 10, salienta que em apenas 1 cm3 de solo
sob pastagens podem ser encontrados milhões de bactérias, milhares de protozoários,
centenas de metros de hifas de fungos, centenas de térmitas, insetos, além de outros
organismos, que são componentes críticos dos ecossistemas naturais ou manipulados
pelo homem, uma vez que atuam na decomposição da matéria orgânica, alterando a
disponibilidade de nutrientes para as plantas.
3.4 A MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA E OS EFEITOS SOBRE A
BIODIVERSIDADE
A partir da metade do século passado, com o advento da modernização da
agricultura, a diversidade geral das plantas domesticadas caiu. Muitas variedades foram
extintas, e muitíssimas outras estão caminhando nessa direção. Enquanto isso, a base
genética da maioria das principais plantas cultivadas tornou-se cada vez mais uniforme
(Gliessman, 2000: 46; Reijntjes et al., 1994: 19). Toledo, 1998: 204, concorda que a
maior ameaça para as variedades tradicionais na América Latina é o processo de
modernização agrícola. Nos últimos 20 anos um pequeno número de variedades
modernas substituiu as antigas variedades crioulas, como parte dos esforços nacionais e
internacionais para tornar a agricultura dos países periféricos moderna. Este processo de
perda dos recursos genéticos é denominado „erosão genética‟. Pessanha, 1995: 16,
acrescenta que, aliada a perda da diversidade genética nos países em desenvolvimento,
que são centros de diversidade, verifica-se também a perda da identidade e diversidade
cultural dos povos, que é intensamente ligada ao modo de produzir e preparar o seu
alimento. A redução da diversidade genética e de espécies têm forte significado social, e
9
isto fica patente nas palavras de Salazar: 1994: 17, a respeito deste processo no cultivo
de arroz no Sudeste Asiático:
“O uso largamente disseminado de poucas variedades de arroz
geneticamente uniformes e de alta produtividade vem dizimando a
riqueza de raças locais existentes no Sudeste Asiático, adaptadas às
condições específicas de cada lugar. Isso enfraquece também a
estrutura social, o equilíbrio ecológico, e aumenta a pobreza dos
pequenos produtores rurais.”
São inúmeros os exemplos e constatações que confirmam a redução da
diversidade vegetal dos cultivos e a concentração da produção de alimentos baseada em
poucas espécies e cultivares. Conforme a FAO, 1993:7, desde o começo do século XX
perdeu-se cerca de 75 % da diversidade genética dos cultivos agrícolas e apenas três
espécies – arroz, milho e trigo – fornecem quase 60 % das calorias e proteínas que os
homens obtêm das plantas. Atualmente, apenas seis variedades de milho são
responsáveis por mais de 70 % da produção mundial deste grão (Gliessman, 2000: 46),
75 % do trigo cultivado no Canadá corresponde a somente quatro variedades sendo que
a metade destes trigais são de apenas uma variedade e 72 % da produção de batatas no
Estados Unidos dependem de somente quatro variedades (Cheshire citado por
UICN,1980: p. irreg. Il.). Na Indonésia, 1500 variedades locais de arroz foram extintas
nos últimos 15 anos (WRI et al. , 1992: 9). A redução da diversidade continua no
mesmo ritmo. Conforme Mooney, 2002: 5, a taxa de erosão no campo dos recurso
genéticos de plantas continua sendo de cerca de 2 % ao ano.
Com a modernização da agricultura ocorreram diversas transformações no modo
de produzir alimentos. Houve então um processo que levou a busca da máxima
artificialização do ambiente, visando controlar todos os fatores naturais que interferem
na produção agrícola. O processo de maior impacto, talvez tenha sido as alterações
genéticas a que foram submetidos os principais cultivos praticados pelos agricultores. A
dinâmica do mercado de sementes articulou-se fortemente com o processo de
modernização da agricultura brasileira. Esse processo levou a concentração,
especialização e regionalização da produção.
Recentemente, a partir da entrada em vigor da Lei de Proteção de Cultivares –
LPC (Lei n. 9456, de 25/04/97), houve uma enorme concentração do mercado de
sementes híbridas no Brasil, quando diversas empresas nacionais de sementes, pequenas
e grandes, foram compradas ou absorvidas por multinacionais, principalmente as
detentoras de tecnologia de ponta na área de biotecnologia, com altos investimentos na
geração de organismos geneticamente modificados. Um exemplo que ilustra bem a
situação é a do mercado da semente de milho híbrido. Conforme Wilkinson e Castelli,
2000:62, hoje as quatro maiores empresas produtoras de sementes detêm 90 % do
mercado brasileiro, todas elas transnacionais. A Monsanto, por intermédio da empresa
Monsoy (sua filial no Brasil), abocanhou as fatias da Agroceres, da Cargill e da
Braskalb, e atualmente reina absoluta, com 60 % do mercado. Ainda, de acordo com
Wilkinson e Castelli, 2000:74, as transnacionais têm investido nos mercados de soja,
arroz e algodão, com o que se pode esperar no futuro rearranjo ainda maior das fatias de
mercado detidas por cada uma das empresas.
10
3.5
A AGRICULTURA
BIODIVERSIDADE
FAMILIAR
E
A
CONSERVAÇÃO
DA
O que explica a maior conservação da biodiversidade nas propriedades da
agricultura familiar em oposição às propriedades empresariais, onde predomina o modo
de produção moderno agro-industrial, são as diferentes racionalidades subjacentes
nestes dois sistemas produtivos. Miranda, 1997: 25, estudando o processo decisório dos
produtores familiares do oeste catarinense, em ambiente e situação bastante similar ao
dos agricultores de Teutônia, concluiu que suas estratégias perseguem objetivos que
visam primordialmente garantir a reprodução da unidade familiar de produção. Nesta
estratégia, o peso da maior diversificação de cultivos e criações se transforma em um
seguro contra eventos adversos de ocorrência imprevisível, que possam afetar tanto
cultivos quanto criações. Com um maior número de variedades de um determinado
cultivo, por exemplo, onde ocorre maior variabilidade genética, há maior probabilidade
de se obter produção no caso de ocorrência de uma doença, o que significa maior
segurança alimentar para a família.
Os recursos genéticos vêm sendo coletados por centros de pesquisa, mas
costumam ser armazenados em bancos de germoplasma de alta tecnologia, situados seja
nos países desenvolvidos, seja em centros de pesquisa agrícola internacionais.
Entretanto, as limitações desses sistemas são bem conhecidos. A concentração de um
grande capital genético em um único local é temerária, em razão do risco de expor ao
perigo de um acidente o que a natureza levou milhões de anos para criar. Os bancos de
germoplasma retiram o controle dos recursos genéticos das mãos dos agricultores e das
populações autóctones que os conservaram por milhares de anos, além de que, os
agricultores dificilmente têm acesso a eles. Por último, através deste meio de
conservação congela-se a evolução natural das variedades.
A alternativa aos bancos de germoplasma é a conservação dos recursos genéticos
pelas próprias populações residentes, o que também é conhecido como conservação in
situ. Este papel que por séculos têm sido desempenhado pela agricultura familiar se vê,
nas últimas décadas, ameaçado pela modernização da agricultura. As variedades
melhoradas são desenvolvidas para condições de monocultivo, não se adaptando a um
sistema diferenciado de policultivos e criações, que tradicionalmente foi utilizado na
agricultura familiar. As normas do crédito rural no Brasil forçavam os agricultores a
substituir as sementes tradicionalmente cultivadas por sementes geneticamente
uniformes, pois vinculavam a liberação do crédito ao cultivo destas. A extensão rural,
tanto oficial como das cooperativas agrícolas, difundia o uso de sementes melhoradas,
sendo que a difusão do cultivo do milho híbrido inicialmente se deu exatamente através
da extensão rural. O cultivo do milho híbrido sempre foi associado ao moderno, ao
tecnologicamente avançado, enquanto o cultivo do milho crioulo tradicional era
considerado tecnologicamente atrasado. Uma citação que ilustra bem tal fato foi feita
por um agricultor, quando de um trabalho de resgate de sementes crioulas realizado pela
EMATER-RS/ASCAR mais recentemente, já quando a promoção da Agroecologia fazia
parte da missão (MENEGUETTI et al. , 2002: 13):
“... eu tinha vergonha de falar para os técnicos que plantava semente
crioula...”
11
4 METODOLOGIA
O trabalho de campo foi desenvolvido através de entrevistas com agricultores e
agricultoras de duas localidades do município de Teutônia: a localidade de Linha Boa
Vista Fundos, situada na região de relevo mais acidentado, e a localidade de Linha São
Jacó, situada na região de relevo plano. Nestas entrevistas foi averiguada a diversidade
genética dos cultivos ainda existente e a alteração ocorrida ao longo dos anos. Em todas
as entrevistas houve a participação do casal, com exceção da família de Norberto
Fiegenbaum, solteiro, que foi entrevistado juntamente com seu irmão Milton.
Para a caracterização das comunidades onde foi realizado o estudo, além das
informações obtidas através das entrevistas, recorremos aos dados disponíveis no
Escritório Municipal da EMATER-RS de Teutônia.
A escolha das famílias a serem visitadas foi feita entre as que o casal
proprietário tivesse idade superior a 55 anos. Foram sorteadas cinco famílias entre as
pertencentes a comunidade da Linha Boa Vista Fundos e cinco da comunidade da Linha
São Jacó. Estas famílias e suas propriedades rurais foram caracterizadas quanto a
atividades agrícolas desenvolvidas, integração ou não a agroindústrias, modo de
produção, mecanização, utilização de insumos como fertilizantes, agrotóxicos e
sementes melhoradas.
A dimensão da diversidade genética de cultivos e criações nas propriedades foi
comparativa na mesma propriedade ao longo do tempo, entre as diferentes propriedades
na mesma comunidade, e entre as duas comunidades investigadas. Para tanto, foram
enumerados os cultivos e criações destinados à comercialização, os cultivos destinados
à alimentação dos animais e aqueles destinados à alimentação da família.
Para uma mesma espécie citada, foram enumeradas as variedades cultivadas e
raças criadas. Foi questionada a forma de obtenção do material propagativo, se por
compra, troca, doação ou outro meio. Também foram enumerados os cultivos e criações
que eram realizados há um determinado período passado, com a finalidade de comparar
a evolução da diversidade no tempo.
Sobre a forma de manutenção e conservação dos recursos genéticos vegetais, os
agricultores e agricultoras foram instados a descrever as formas como conservam e
multiplicam as sementes e mudas das diferentes espécies.
12
5 A BIODIVERSIDADE NAS PROPRIEDADES DAS FAMÍLIAS RURAIS DAS
COMUNIDADES DE LINHA BOA VISTA FUNDOS E LINHA SÃO JACÓ,
MUNICÍPIO DE TEUTÔNIA
5.1 LINHA SÃO JACÓ
Na Linha São Jacó residem 113 famílias em uma área de 1200 ha, sendo que
95 % dos estabelecimentos rurais têm área até 25 ha, 5 % têm área entre 25 e 50 ha e
nenhum estabelecimento possui área superior a 50 ha. De acordo com a nova
classificação dos solos descrita por Streck et al., 2002: 42, os solos desta localidade
classificam-se como Nitossolo Vermelho distroférrico latossólico, com características
de solos profundos, apresentando no perfil uma seqüência de horizontes A-B-C, com
horizonte B nítico, com baixo gradiente textural em relação ao horizonte A e estrutura
bem desenvolvida. Parcela de 75 % das áreas estão incluídas nas classes de uso do solo
de I a III, e se caracterizam por terem topografia plana a levemente ondulada, propícios
à mecanização, enquanto que 25 % pertencem a classe IV, de relevo acidentado onde
não é possível a mecanização. A área cultivada corresponde a 800 ha, 580 ha cultivados
com milho, 120 ha com pastagens implantadas, 25 ha com soja, 10 ha com laranja, 80
ha com reflorestamento e 60 ha com mata nativa remanescente.
Os primeiros habitantes europeus da Linha São Jacó ali se instalaram por volta
de 1864. Utilizavam a prática da derrubada da mata nativa e queimada para instalação
de lavouras, onde cultivavam para subsistência, dentre outros, trigo, feijão, batata, milho
e linho. Criavam animais domésticos, caçavam e pescavam. Em 1892 foi construída a
primeira serraria. Por volta de 1940 o cultivo da mandioca se desenvolveu intensamente,
com a construção de quatro atafonas que processavam o produto, as quais funcionaram
até 1951. A partir de 1960 o processo de modernização se acentuou na comunidade. O
cultivo da soja foi introduzido e teve rápida expansão. Os agricultores tiveram acesso ao
crédito rural, e com a assistência técnica da ASCAR (Associação Sulina de Crédito e
Assistência Rural, órgão de Extensão Rural) passaram a utilizar fertilizantes e semente
de milho híbrido. O Clube 4-S da comunidade foi o primeiro do Rio Grande do Sul. A
mecanização agrícola teve impulso com a criação de uma Cooperativa de prestação de
serviços, também denominada Círculo de Máquinas. Na década de 80 houve
considerável redução no cultivo de trigo e soja e incremento na produção de leite, e
criação integrada de suínos e aves. Na década de 90 foi criada APSAT (Associação de
Prestação de Serviços e Assistência Técnica) para armazenamento de milho.
Neste trabalho foram entrevistadas as famílias de Álvaro Linn, Arno Schneider,
Erio Dörr, Hedo Nabinger e Norberto Fiegenbaum. A idade dos casais está entre 53 e 68
anos. O número de filhos varia de 2 a 4, sendo que a maioria trabalha na cidade e mora
nos núcleos urbanos de Teutônia ou nas cidades próximas. Alguns trabalham na cidade
(fábrica de calçados) e continuam residindo na propriedade dos pais, porém, mesmo os
solteiros, quando com idade superior a 20 anos, possuem sua própria casa.
A propriedade foi herdada dos pais (pai ou sogro) ou foi comprada logo antes de
casar. A área está entre 10 e 25 ha. Em todas as famílias a principal atividade é a
13
produção leiteira, sendo que na propriedade de Arno Schneider além desta ocorre
também a produção de suínos e na de Norberto Fiegenbaum a comercialização de milho
em grãos. Em três das propriedades já não há mais mata nativa, em uma ainda há 1,5 ha
e na outra 2,0 ha. A lavoura de milho ocupa a maior área, entre 50 e 60 % da área total
das propriedades. Todas as famílias utilizam o crédito rural, tanto de investimento
quanto de custeio, com exceção de Hedo Nabinger que não faz custeio.
Para os serviços de máquinas agrícolas na propriedade, como o cultivo do milho,
todos contratam serviços de terceiros, que estão facilmente disponíveis na comunidade,
onde existem agricultores especializados na prestação de serviços de todos os tipos. A
Cooperativa Languiru tem convênio com os prestadores de serviço, sendo que o
agricultor sócio da cooperativa desconta o valor a ser pago no valor do leite entregue.
Além desta modalidade, existe o Círculo de Máquinas na comunidade, uma associação
de prestação de serviços de máquinas que serve aos associados e a terceiros. Porém,
nenhum dos agricultores entrevistados é sócio do círculo de máquinas.
5.2 LINHA BOA VISTA FUNDOS
Na Linha Boa Vista Fundos residem 82 famílias em uma área de 1250 ha, sendo
que 85 % dos estabelecimentos rurais têm área inferior a 25 ha e 15 % área entre 25 e
50 ha, não havendo estabelecimentos com área superior a 50 ha. No que se refere a
classificação dos solos quanto a sua capacidade de uso, 35 % enquadram-se nas classes
I, II e III, com topografia plana a levemente ondulada, propícios à mecanização, 35 %
estão na classe IV, de relevo acidentado onde não é possível a mecanização, sendo os
restantes 30 % enquadrados nas classes V, VI ou VII, inaptas para a agricultura em
função da elevada declividade, alta suscetibilidade a erosão, afloramento de rochas ou
excesso de água. A cobertura florestal nativa ou reflorestamento abrange 12 % da área.
Uma parcela de 40 % da área é classificada como Nitossolo Vermelho distroférrico
latossólico (Streck et al., 2002: 42), enquanto 60 % é classificada como Neossolo
Litólico, que são solos de formação recente, apresentando o horizonte A assentado sobre
a rocha parcialmente alterada no horizonte C (Streck et al., 2002: 38). A área onde se
pratica agricultura soma 900 ha, sendo que as principais atividades em ordem
decrescente são: Bovinocultura de leite, cultura do milho e extração da madeira.
A chegada dos colonos europeus de origem alemã em Boa Vista Fundos ocorreu
na mesma época em que chegaram os imigrantes em São Jacó, por volta de 1864. Para a
formação das lavouras e implantação das pastagens para os animais foi derrubada a
mata nativa na medida das necessidades das famílias. Em função de possuir um maior
percentual das terras com alta declividade, onde torna-se difícil o cultivo do solo, existe
uma maior área com cobertura florestal remanescente da original. O mesmo fato é
responsável pelo incremento no cultivo de eucalipto e acácia-negra ocorrido nos últimos
anos. A comunidade conta com um Círculo de Máquinas, que além de servir aos sócios
presta serviço para terceiros.
Para o presente trabalho, os agricultores Hedo Heinemann, Helmo Schaeffer,
Lotário Dickel e Nilo Thies e Seno Stahlhofer foram entrevistados juntamente com suas
esposas. A idade dos membros dos casais variou de 52 a 67 anos. Coincidentemente
todos os casais entrevistados têm quatro filhos. Em duas famílias, todos trabalham na
cidade. Nas outras três, apenas um filho em cada família trabalha na agricultura, sendo
14
que na família de Lotário Dickel o filho mais velho, já casado, trabalha em conjunto
com os pais. A propriedade onde cultivam e residem foi herdada dos pais da esposa em
dois casos, dos pais do marido em uma e comprada antes do casamento nas outras duas
situações. A área da propriedade em 4 famílias varia de 10 a 12,5 ha, sendo que na de
Lotário Dickel tem 27 ha.
Todos os agricultores utilizam crédito agrícola, tanto de custeio como de
investimento. Para os trabalhos de cultivo nas lavouras a situação é bastante
diversificada. Em uma propriedade, de Nilo Thies, os trabalhos são feito integralmente
com tração animal. Já Hedo Heinemann e Lotário Dickel realizam o cultivo das
lavouras integralmente de forma mecanizada, sendo que Hedo possuí trator e
implementos próprios, enquanto que Lotário é sócio de um Círculo de Máquinas. Já
Helmo Schaeffer e Seno Stahlhofer fazem parte do trabalho com tração animal e parte
com máquinas na forma de serviços contratados.
A produção leiteira é uma das principais fontes de renda em todas as
propriedades, juntamente com a criação de suínos nas propriedades de Lotário e Hedo, e
a avicultura comercial integrada para Helmo e Hedo.
5.3 A DIVERSIDADE NAS CRIAÇÕES DE ANIMAIS
A principal criação animal e base econômica das propriedades nas duas
comunidades é a bovinocultura leiteira. A reprodução se dá através da inseminação
artificial, fornecida pela Cooperativa Languiru, sendo a principal raça criada a
Holandesa e em menor proporção a de gado Jérsey, sempre cruzado com o Holandês.
Um dos agricultores da Linha São Jacó, Hedo Nabinger, referiu estar participando do
Programa de Melhoramento Genético da Cooperativa Languiru, que mantém um
registro genealógico, já em sua fase mais adiantada. Apenas na Linha Boa Vista Fundos
houve menção de que vizinhos dos entrevistados não utilizam a inseminação artificial.
O agricultor Helmo Schaeffer, da Linha Boa Vista Fundos, é o único dentre os
entrevistados que possui um touro, de raça Zebu Nelore. Faz inseminação nas vacas de
maior produção leiteira e cobertura natural nas vacas menos produtivas.
A alimentação destinada às vacas está baseada em silagem de milho,
normalmente híbrido, pastagens, milho verde planta inteira triturada, milho em espiga
triturado, concentrado a base de farelo de soja e sal mineral.
Os agricultores mencionaram que a criação de vacas das raças Holandesa e
Jérsey é bastante antiga, desde o tempo de seus pais.
Apesar de ser uma região em que predomina a produção leiteira, onde os
terneiros machos não têm maior valor de comercialização e poderiam ser utilizados
como animais de tração, isto praticamente não existe, pois os agricultores consideram os
animais das raças Holandesa e Jérsey inadequadas para tração. Nas palavras do
agricultor Erio Dörr, o boi Holandês não se presta para o trabalho porque „é mole para o
sol‟, isto é, não tem resistência para agüentar o trabalho pesado na lavoura sob o sol.
Para o trabalho como animais de tração os agricultores utilizam as raças de gado zebu,
sendo que mesmo onde há disponibilidade de mecanização para os trabalhos de lavoura,
o agricultor mantém uma junta de bois para outros trabalhos, como cultivos de
15
subsistência (mandioca, cana, abóbora, batata-doce, etc) e para puxar a carroça que
transporta pasto ao estábulo.
A criação de suínos para venda, de forma integrada, é realizada por Arno
Schneider, da Linha São Jacó, e por Lotário Dickel, da Linha Boa Vista Fundo. Já Hedo
Heinemann, da Linha Boa Vista Fundos, cria suínos de forma independente, não
vinculado a empresa integradora. Arno Schneider é especializado na recria de suínos.
Recebe lotes de mil leitões pesando de seis a sete quilos e repassa para outros criadores
quando atingem 25 Kg. Lotário engorda lotes de suínos na forma de lotes contratados.
Recebe os lotes de leitões pesando 25 Kg, em número de 140 leitões por lote, engorda
até atingirem 90 a 100 Kg, quando são entregues a empresa integradora. Cria três lotes
por ano. A raça dos suínos, nos dois casos, é determinada pela empresa integradora,
sempre suíno branco tipo carne. Hedo Heinemann, que cria suínos independente da
integração, utiliza matrizes das raças Landrace ou Large White, cruzadas com
reprodutores Landrace ou Duroc. Não confia na inseminação artificial, por este motivo
possui reprodutores. Não cria suínos das raças comuns, de pele escura, mais rústicos,
porque os frigoríficos não compram este tipo de porco. Hedo menciona que antigamente
tinha criação de porco comum, mas como não conseguia vender para o frigorífico,
desistiu destas raças.
Os demais agricultores criam suínos para o consumo familiar, eventualmente
vendendo algumas cabeças para vizinhos ou para açougues da cidade. Utilizam
inseminação artificial, por considerarem antieconômico manter um reprodutor na
propriedade para cobrir apenas uma ou duas matrizes. A maioria cria „porco de raça‟, ou
seja, cruzas de Landrace, Large White ou Duroc. A exceção é o agricultor Seno
Stahlhofer, da Linha Boa Vista Fundos, que cria porco comum (preto) para consumo
familiar.
A alimentação dos suínos, para os de criação integrada, tem por base a ração
fornecida pela empresa integradora. Já os agricultores que criam para o consumo
familiar alimentam os suínos principalmente com milho produzido na propriedade,
acrescentando outros alimentos disponíveis como aipim, moranga, abóbora, batata-doce,
etc.
A avicultura comercial integrada é desenvolvida nas propriedades de Hedo
Heinemann e de Helmo Schaeffer, da Linha Boa Vista Fundos. Nos dois casos são
aviários de 60 x 10 m, em que são criados em média cinco lotes por ano com 6500
frangos no verão e 8500 no inverno. Os frangos são geneticamente uniformes. Os
pintos, a ração e os medicamentos são fornecidos pela empresa integradora
(Cooperativa Languiru). Nestas duas situações a presença da avicultura integrada é
responsável direta pela redução da diversidade de aves nas propriedades, já que é uma
exigência das empresas integradoras que os agricultores não possuam criação de outras
aves nas proximidades do aviário, havendo proibição da criação de aves soltas. Como,
por questões de ordem prática no cuidado da criação, o aviário fica localizado perto da
casa da família, torna-se difícil, senão impossível, a criação de outras espécies nas
proximidades, já que todas exigem cuidados.
Apesar da proibição decretada pelas empresas integradoras de criar outras
espécies de aves, há uma forte resistência por parte dos agricultores em se desfazer de
suas criações. Nas duas situações, quando da realização das entrevistas, haviam galinhas
16
„caipiras‟, de raças diversas, soltas nas propriedades. Na propriedade do Sr. Helmo
Schaeffer, o mesmo mencionou que antes de ingressar na criação de frangos integrado
possuía criação de patos e perus para subsistência. Ainda mantém aproximadamente 75
galinhas, sendo 25 presas e 50 soltas. Com o envolvimento com a criação comercial de
frangos não sobrava tempo para dedicar cuidados a criação de abelhas, então deu as
colmeias para o vizinho. Já o Sr. Hedo Heinemann, além das galinhas „caipiras‟, ainda
mantém três perus e uma galinha d‟angola. Antes de criar frangos no sistema integrado
mantinha uma criação de mais de 30 galinhas d‟angola, as quais, além de servirem para
subsistência familiar, vendia a uma loja de produtos agropecuários da cidade, obtendo o
expressivo valor de R$5,00 por ave.
Em todas as famílias, quando questionados sobre as criações que existiam há 30
ou 40 anos atrás em suas propriedades, respondiam que a diversidade era bem maior.
Foram enumerados, além dos patos, galinhas, galinhas d‟angola, perus e gansos, já
citados, marrecos, cabras, ovelhas, coelhos e cavalos. De todas as criações, as galinhas
caipiras, de raças diversas, foram as que se mantiveram, estando presentes em todas as
propriedades. Os agricultores comentaram que era costume os padrinhos presentearem
os afilhados com patos e marrecos, que passavam a constituir um patrimônio da criança
na casa paterna. O maior número e diversidade de raças de galinhas foi encontrado na
propriedade de Seno Stahlhofer, Linha Boa Vista Fundos, que além do consumo da
carne, vende regularmente ovos. Dentre as mais de dez raças visualizadas, foram
identificadas pescoço pelado, carijó, de chapeuzinho e garnizé. Para manter a
diversificação e evitar a endogenia, troca ovos com vizinhos. Já fez tentativa de criar
galinhas da raça das produzidas em aviários (pena branca), mas não obteve sucesso
porque as galinhas não são boas chocadeiras: „saem do ninho antes do pinto sair da
casca‟, nas palavras da Sra. Heddy, esposa do Sr. Seno Stahlhofer. Na propriedade de
Nilo Thies, Linha Boa Vista Fundos, também foram observados ao redor de dez raças
diferentes de galinhas. Outros animais criados são peixes, principalmente espécies de
carpas.
5.4 A DIVERSIDADE NOS CULTIVOS
O milho é o cultivo de maior expressão nas propriedades dos agricultores
entrevistados, ocupando 50 a 60 % da área de cultivo. Com exceção de Norberto
Fiegenbaum, da Linha São Jacó, que vende parte do milho cultivado na forma de grão,
os demais entrevistados ocupam-no integralmente na propriedade. A principal forma de
aproveitamento é a confecção de silagem para as vacas leiteiras. Onde o relevo oferece
condições o cultivo é totalmente mecanizado. O sistema de cultivo principal é o plantio
direto na palha, sobre a pastagem de aveia consorciada com azevém. É realizada a
dessecação com herbicida, utiliza-se fertilizantes industriais formulados, esterco de
frangos de aviário e adubação de cobertura com uréia. A confecção de silagem é feita
com auxílio de máquinas ensiladeiras, através do pagamento pela prestação de serviços.
A introdução do milho híbrido ocorreu no início dos anos 60 na Linha São Jacó,
conforme as informações do Sr. Erio Dörr, através da distribuição de uma revenda dos
adubos Trevo de propriedade de Arno Dick. A ASCAR (Extensão Rural) fazia palestras
e dias de campo e encaminhava financiamentos para a lavoura através do Banco
Agrícola de Estrela, município ao qual a Linha São Jacó pertencia na época. A
Prefeitura Municipal de Estrela subsidiava o frete do adubo e da semente. As primeiras
sementes de milho híbrido precoce vieram de São Paulo. Nas primeiras vendas, a
17
semente de milho híbrido já era cara, na opinião do Sr. Erio Dörr, mas a empresa fez
uma promoção com preços menores para os agricultores poderem comprar.
Todos os agricultores entrevistados da Linha São Jacó cultivam exclusivamente
milho híbrido. Na Linha Boa Vista Fundos, os agricultores Hedo Heinemann, Seno
Stahlhofer e Nilo Thies mantém o cultivo do milho crioulo denominado „Brasil‟. Helmo
Schaeffer plantava a variedade Brasil ainda há dois anos. Não mais cultiva porque a
semente de milho híbrido do sistema troca-troca é muito barata. O troca-troca de
sementes é feito através do Sindicato de Trabalhadores Rurais e Secretaria da
Agricultura Municipal, com recursos do Governo do Estado. Os agricultores que ainda
cultivam o milho crioulo o fazem principalmente em virtude da conservação das espigas
no paiol, pois devido ao excelente empalhamento (nas palavras do Sr. Seno Stahlhofer,
a variedade Brasil „tem a palha mais dura e o caruncho não fura‟) e bom fechamento da
extremidade da espiga, o que o torna mais resistente ao ataque de insetos que danificam
grãos armazenados. Além da conservação no paiol, a variedade Brasil possui ótimo
rendimento de massa verde, sendo bastante utilizada para fornecimento às vacas,
triturando-se a planta inteira e servindo no cocho. Todos os agricultores entrevistados
que hoje utilizam apenas milho híbrido mencionaram já ter plantado duas variedades de
milho crioulo: a variedade Brasil e o milho branco comum. Nenhuma outra variedade
foi mencionada nas dez entrevistas.
No local em que cultiva-se milho no verão, no inverno é semeada aveia, que
juntamente com o azevém, que possui uma boa ressemeadura natural, forma a pastagem
para alimentar as vacas leiteiras. Todos os agricultores entrevistados da Linha São Jacó
compram semente de aveia preta para a formação das pastagens. Já na Linha Boa Vista
Fundos, os agricultores Lotário Dickel e Nilo Thies ainda produzem sua própria
semente de aveia preta. Entretanto, a produção de semente de aveia está condicionada a
abundância de pasto. Destina-se uma parcela da lavoura para semente quando há sobra
de pastagem, pois há necessidade da retirada dos animais daquele talhão para que a
planta produza sementes. Caso não haja sobra de pastagem, os animais permanecem
durante todo o período no talhão, o que impossibilita a produção de sementes. Todos os
agricultores entrevistados mencionaram uma variedade de aveia amarela comum que era
cultivada entre 20 e 30 anos atrás, e que perdeu-se a semente. Esta variedade tinha porte
mais elevado, folhas largas, resistência a doenças e excelente palatabilidade para as
vacas. Quando semeada em fevereiro e início de março, em solo de boa fertilidade,
possibilitava de 4 a 5 cortes antes de produzir semente. As vantagens do cultivo desta
variedade de aveia podem ser observadas na declaração da Sra. Maria Ana Schneider,
esposa do Sr. Arno, da Linha São Jacó: „Isto tudo é uma pena. A aveia amarela brotava,
brotava, brotava e brotava, e só no fim dava semente. A preta, logo dá semente. Hoje,
ninguém mais tem aveia amarela.‟
O cultivo da cana-de-açúcar é realizado em todas as propriedades dos
agricultores entrevistados. No cultivo da cana não é utilizado nenhum dos insumos
modernos, como herbicidas ou fertilizantes, apenas utiliza-se esterco. A escolha do local
de plantio depende para qual finalidade se destina a cana. A que se destina ao consumo
animal é cultivada em solo mais argiloso, para produzir maior quantidade de matéria
verde. A cana que se destina a fabricação do melado é plantada em solo de encosta de
morro, de textura mais franca, onde existe pedregulho. Os agricultores utilizam as
mudas (toletes) produzidas na propriedade e freqüentemente trocam variedades com os
vizinhos. Foram enumeradas no mínimo três variedades cultivadas em cada propriedade
18
onde ocorreram as entrevistas. O agricultor Nilo Thies afirmou cultivar ao redor de dez
variedades diferentes de cana. Existem variedades preferidas para cada uso. As mais
macias, como a bambu e a ligeirinha, são utilizadas na alimentação das vacas, após
serem trituradas. A cana vermelha ligeira é especial para fabricação de melado por seu
alto teor de açúcar. Para confecção de doce tipo schmier é preferida a cana bambu, com
menor teor de açúcar, pois cana com muito açúcar endurece rapidamente durante a
confecção do doce, não se obtendo a consistência desejada. Outras variedades
mencionadas foram a taquarinha e a cana de burro („muhler suckra‟, no dialeto alemão).
O aipim é cultivado tanto para o consumo familiar, como para os animais. Para
alimentação dos animais, como vacas e suínos, a principal parte da planta utilizada são
as raízes. Entretanto, alguns agricultores entrevistados também utilizam as folhas e
ramos da ponta da planta, como é o caso do Sr. Helmo Schaeffer, que fornece a parte
verde triturada para as vacas. Além da fator nutritivo, o Sr. Helmo Schaeffer faz uso das
folhas do aipim porque observou o seu efeito anti-parasitário, pois, nas suas palavras, „a
folha de aipim limpa as vacas dos carrapatos‟. A tecnologia de produção dispensa o uso
de fertilizantes industrializados e agrotóxicos. São escolhidas áreas para cultivo com
boa fertilidade e boa drenagem, já que o aipim não tolera umidade excessiva. É comum
a utilização de esterco bovino quando do plantio. As manivas são produzidas e
guardadas na propriedade de ano para ano, normalmente sob a copa de árvores e
cobertas com capim seco. É comum a troca de material vegetativo entre os vizinhos. A
aquisição de mudas só acontece quando ocorrem geadas muito fortes que queimem as
manivas guardadas na propriedade. As variedades citadas como cultivadas são
vassourinha, pronta-mesa, eucalipto (casca vermelha), rama branca e gema de ovo.
Diversas outras espécies e variedades de plantas de lavoura foram citadas.
Geralmente são cultivadas duas variedades de feijão: preto e carioca. As variedades de
batata-doce cultivada são a branca e a vermelha. A moranga é cultivada apenas por
algumas famílias.
O agricultor Erio Dörr, da Linha São Jacó, cultivava vime, com o qual faz cestos
que são vendidos aos agricultores ao preço de R$18,00, o que lhe confere uma renda
extra considerável. O vime se desenvolvia ao lado de um valo de drenagem, em um
terreno úmido da propriedade. Para realizar a limpeza deste valo o Sr. Erio utilizou o
herbicida 2,4 D (U-46 D éster), que matou todo o vime. Agora, para fazer os cestos, o
Sr. Erio depende do fornecimento de vime de um vizinho.
Em todas as propriedades existe uma horta e as hortaliças são cultivadas durante
todo o ano. Nos últimos anos, entretanto, está havendo uma redução no cultivo de
algumas hortaliças, como é o caso do tomate, batata e cebola, em função da
disponibilidade proporcionada pela venda ambulante, através de vendedores de
hortigranjeiros e produtos coloniais procedentes da região da Serra Gaúcha,
principalmente de Garibaldi, Carlos Barbosa e Bento Gonçalves. Este vendedores
percorrem estas localidades regularmente uma vez por semana.
Nas famílias entrevistadas, o serviço de horta é realizada pela mulher. A
tecnologia de cultivo utilizada, em todos os casos, é totalmente orgânica, não ocorrendo
o uso de fertilizantes químicos solúveis ou de agrotóxicos. O número de espécies e
variedades cultivadas varia bastante de família para família. As espécies de propagação
vegetativa, como a couve todo-o-ano e o morango, são multiplicadas na propriedade.
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São guardadas de ano para ano as sementes das espécies que as produzem em
abundância e com facilidade, como pepino, melão, melancia, abóbora e moranga. Para
as espécies que exigem tecnologia apropriada ou que necessitam de condições
climáticas específicas para produção de sementes, como é o caso do brócoli e da couveflor, estas são compradas nas lojas de produtos agropecuários. Além da aquisição de
semente de algumas hortaliças, determinadas famílias compram também mudas já
desenvolvidas, disponibilizadas pelas lojas de produtos agropecuários. Tal é o caso das
famílias de Hedo Nabinger e de Erio Dörr, da Linha São Jacó, que compram mudas de
cebola, comercializadas nas lojas de produtos agropecuários do Sindicato de
Trabalhadores Rurais e da Cooperativa Languiru, em molhos com 150 mudas.
Algumas famílias entrevistadas produziam sementes de algumas espécies de
hortaliças, mas não mais o fazem, alegando a facilidade de aquisição das mesmas. Lair
Nabinger, esposa do Sr. Hedo, Linha São Jacó, produzia semente de alface e cenoura.
Síria Dörr, esposa do Sr. Erio, Linha São Jacó, produzia semente de cebola. Verni Linn,
esposa do Sr. Álvaro, da Linha São Jacó, relatou uma tecnologia que era utilizada para
produção de semente de rabanete: quando a planta esta desenvolvida, arranca-se e no
dia seguinte replanta-se. O stress induz a formação de sementes. Na Linha Boa Vista,
algumas famílias entrevistadas relataram ainda produzir semente de algumas espécies,
além das de pepino, abóbora, melancia, moranga e melão. A família de Nilo Thies ainda
produz semente de cenoura e salsa, a de Hedo Heinemann de salsa e a de Lotário Dickel
e de Seno Stahlhofer de alface, cenoura, salsa e cebola
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6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A adoção do modelo moderno de agricultura, nos moldes da Revolução Verde,
pela famílias rurais das localidades de Linha São Jacó e Linha Boa Vista Fundos,
município de Teutônia, Rio Grande do Sul, resultou em redução da diversidade de
espécies nos cultivos e criações ali praticados. A redução do número de espécies
vegetais cultivadas e de espécies de animais domésticos criadas ocorreu de forma
equivalente nas duas localidades estudadas.
A forma de criação integrada de aves e suínos que predomina na região têm
decisiva influência na redução da diversidade animal nas propriedades de economia
familiar. A aquisição exclusiva de suínos “tipo carne” por parte das indústrias
frigoríficas integradoras condiciona os agricultores, mesmo os não integrados, a criarem
estas raças, sob pena de não terem para quem comercializar a produção. Já as normas
sanitárias das empresas integradoras que abatem aves restringem a criação de outras
espécies de aves que não as objeto da integração. Entretanto, os agricultores opõem
resistência a se desfazerem de suas criações tradicionais de aves.
Nos cultivos, ocorreu a substituição de variedades que eram tradicionalmente
semeadas, multiplicadas e mantidas pelos agricultores por variedades desenvolvidas por
empresas produtoras de sementes. Este processo foi mais intenso na localidade da Linha
São Jacó, onde as condições de relevo e solo são mais propícias a mecanização dos
cultivos. Os cultivos onde ocorreu maior substituição das variedades tradicionalmente
plantadas foram o milho e a aveia, espécies destinadas a alimentação das vacas leiteiras,
principal atividade econômica da maioria das famílias. A manutenção do cultivo de uma
variedade crioula de milho foi verificada em três famílias da Linha Boa Vista Fundos.
Nos cultivos destinados a subsistência e naqueles de propagação vegetativa,
como cana-de-açúcar e mandioca, ainda se mantém uma grande diversidade genética
nas mãos dos agricultores, ocorrendo com freqüência o intercâmbio de material
propagativo entre as famílias. Estas espécies são cultivadas com utilização de técnicas
tradicionais, dispensando o uso de fertilizantes químicos solúveis e agrotóxicos.
No cultivo de hortaliças ocorre a conservação e manutenção principalmente de
espécies de propagação vegetativa, como a couve de todo-o-ano e morango, e de
espécies de produção abundante de sementes e que não exigem técnicas apuradas para
sua produção, como morangas, abóboras, pepinos, melancias e melões. Já para as
espécies de propagação via sementes, predomina a aquisição de sementes nas lojas de
produtos agropecuários, com conseqüente substituição das variedades anteriormente
cultivadas pelas variedades oferecidas nestes estabelecimentos.
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