SISTEMA AGROINDUSTRIAL DA CARNE BOVINA BRASILEIRO: ANÁLISE DO IMPACTO DAS EXIGÊNCIAS DO CONSUMIDOR EUROPEU SOBRE A ESTRUTURA DE GOVERNANÇA MARIUSA MOMENTI PITELLI. MÁRCIA AZANHA FERRAZ DIAS DE MORAES RESUMO O objeto de estudo desse trabalho é analisar os impactos de uma mudança no ambiente institucional – o aumento das exigências do consumidor europeu quanto à qualidade do produto - sobre a forma de governança do Sistema Agroindustrial (SAG) da carne bovina brasileiro. Utiliza-se como referencial teórico a Nova Economia Institucional (NEI), nas vertentes da Economia dos Custos de Transação (Williamson, 1986) e Economia Institucional (North, 1990). A hipótese central do trabalho considera que uma alteração no ambiente institucional, devido ao crescimento das exigências do consumidor europeu, aumenta a especificidade do ativo, levando a adoção de uma estrutura de governança mais restrita como forma de redução dos custos de transação. A partir dos dados de duas empresas frigoríficas analisadas, conclui-se que embora o ambiente institucional tenha aumentado a especificidade do ativo, não houve alteração na forma de governança das transações, prevalecendo as relações via mercado. Palavras Chaves: carne bovina, ambiente institucional, estrutura de governança. 1 INTRODUÇÃO O Sistema Agroindustrial (SAG) de carne bovina brasileiro está enfrentando um processo de evolução, em que as empresas, pressionadas pelo aumento de competição, estão deflagrando processos de reestruturação voltados a produzir ganhos de produtividade e qualidade. A cadeia bovina é composta por aproximadamente 1 milhão de pecuaristas de gado de corte, mais de 800 estabelecimentos da indústria de carnes, derivados e serviços de armazenagem e aproximadamente 50 mil pontos varejistas (Bánkuti & Azevedo, 2004a). Em 2002, o rebanho bovino brasileiro era de 185,4 milhões de cabeças, sendo o maior rebanho comercial do mundo. Em 2003, a produção de carne foi de 7,53 milhões de toneladas em equivalente carcaça e um consumo interno de 6,46 milhões de toneladas em equivalente carcaça. Quanto ao comércio internacional, verificou-se uma importação de 70 mil toneladas em equivalente carcaça e uma exportação no valor de 1,14 milhões de toneladas em equivalente carcaça, com tendência crescente ao longo dos últimos anos, tornando-se o maior exportador de carne bovina mundial em 2003 (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA, 2004a). Com a evidência da doença da “vaca-louca” na Europa, em 1996, aumentou a preocupação dos consumidores, principalmente o europeu, quanto à qualidade do produto e segurança do alimento. A partir disso, a União Européia introduziu leis sanitárias rigorosas aos produtos cárneos, exigindo dos terceiros países dos quais importa carnes que seus estabelecimentos produtores fossem por ela habilitados devendo possuir um certificado de saúde pública emitido pela mesma, para então a comercialização ser aceita pelos estados membros (Secretaria do Comércio Exterior - SECEX, 2001). 2 Como a UE é o maior importador de carne bovina brasileira, as exigências impostas trouxeram a necessidade de um processo de reestruturação ao longo de toda cadeia de carne bovina no Brasil, incluindo ações dos agentes privados e do governo, implicando alterações no ambiente institucional brasileiro para viabilizar a implantação de um sistema rigoroso de rastreabilidade dos produtos cárneos, visando a manutenção da segurança do alimento e aumento da competitividade, atendendo às exigências dos consumidores, principalmente externos. Dessa forma, considerando-se que a União Européia é o maior mercado exportador de carnes do Brasil e o fato do Brasil ter um grande potencial em expandir suas exportações, o estudo sobre os impactos das exigências dos consumidores europeus sobre a coordenação da cadeia produtiva e sobre as estruturas de governança torna-se tema relevante de trabalho. 2 OBJETIVOS E HIPÓTESE O objetivo geral deste trabalho é verificar os impactos de uma mudança no ambiente institucional, sobre a forma de governança do Sistema Agroindustrial (SAG) da carne bovina brasileiro, frente às exigências do consumidor europeu quanto à qualidade do produto. Têm-se como objetivos específicos: i) caracterização do SAG da carne bovina bem como sua forma de coordenação atual; ii) identificar as principais exigências do consumidor europeu quanto à qualidade do produto; iii) apontar as principais mudanças no ambiente institucional e organizacional brasileiro e europeu; iv) analisar se a variação de especificidade do ativo está alterando a estrutura de governança. A hipótese deste trabalho é que a alteração no ambiente institucional, devido às exigências do consumidor europeu, aumenta a especificidade do ativo levando a adoção de uma estrutura de governança mais restrita como forma de garantir a qualidade do produto. 3 METODOLOGIA E FERRAMENTAL TEÓRICO Procedeu-se uma revisão de literatura secundária sobre o tema, através de pesquisa bibliográfica em livros, artigos, revistas e sites especializados. De acordo com Gil (1999), este tipo de pesquisa “é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”. Realizou-se um estudo de caso de duas empresas frigoríficas, A e B, com nível de inspeção federais e localizadas no mesmo estado, em que a empresa A não é exportadora, enquanto a empresa B exporta, inclusive para a UE. A coleta dos dados foi realizada através da emissão de questionário por e-mail balizado pelo contato via telefone. Segundo Yin (1981, apud Gil, 1999), “o estudo de caso é um estudo empírico que investiga um fenômeno atual dentro de seu contexto de realidade”. Todavia, deve-se ressaltar alguns problemas relacionados ao estudo de caso, tais como a dificuldade de generalização, pois a análise de um único ou de múltiplos casos fornece uma base muito frágil para a generalização dos resultados. O ferramental teórico utilizado na análise do presente trabalho é a Nova Economia Institucional (NEI), nas vertentes da Economia dos Custos de Transação (Williamson, O., 1985 e 1996), que analisa qual a estrutura de governança é eficiente, dados os pressupostos comportamentais e as dimensões das transações, considerando a especificidade do ativo como variável-chave, e Economia Institucional (North, D. 1990 e 1991), em que o ambiente institucional é uma variável endógena na determinação da estrutura de governança (Farina et al,1997). 3 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES 4.1 Panorama do SAG da Carne Bovina Brasileira Neste tópico, apresenta-se a caracterização do SAG da carne bovina no Brasil, em que se destaca seus principais gargalos, cuja análise é referente, principalmente, até ao ano de1998. Goldberg (1968), definiu os sistemas agroindustriais como o conjunto de agentes envolvidos na produção, processamento e distribuição de um produto: o mercado de insumos agrícolas, a produção agrícola, a operação de estocagem, o processamento, o atacado, o varejo, demarcando um fluxo que vai dos insumos ao consumidor final. Inclui também todas as instituições que afetam a coordenação dos estágios sucessivos dos fluxos de produtos, tais como as instituições governamentais, mercados futuros e associações de comércio. Ou seja, são os segmentos compreendidos antes, dentro e depois da porteira. A pecuária de corte no Brasil pode ser analisada a partir de duas características básicas: a) diversidade: das raças, de sistema de criação, de condições sanitárias de abate e de formas de comercialização; b) descoordenação da cadeia produtiva: baixa estabilidade nas relações entre criadores, frigoríficos, atacadistas e varejistas, que tem como efeito a falta de rastreabilidade dos produtos. Segundo Faveret Filho & Paula (1997), embora o Brasil detivesse em 1997 o maior rebanho comercial do mundo, sua pecuária de corte ainda era, em média, muito atrasada e os animais são abatidos com cerca de quatro anos de idade, sendo a participação de novilho precoce no abate total do país extremamente pequena, da ordem de 0,84%. Em relação ao nível de preços, o crescimento da oferta de carne de frango e a liberalização comercial (especialmente o Mercosul) têm funcionado como fatores limitantes ao aumento do preço, mesmo na entressafra. Além disso, houve aumento da oferta de carne nesse período devido ao crescimento do número de animais tratados em confinamento, verificando-se assim, um aumento na produtividade. Contudo, o maior entrave a essa produtividade estava no relacionamento falho da produção com a indústria frigorífica e o setor varejista, pelo fato da transmissão de informações se realizar principalmente via preço (Siffert Filho & Faveret Filho, 1998). No que se refere à localização da produção, tem-se verificado um deslocamento das unidades de abate para o Centro Oeste, devido à migração da produção primária e à modernização da bovinocultura nos estados do Brasil Central, aumentando a oferta de boi gordo. De acordo com o SIF -Sistema de Inspeção Federal (apud Siffert Filho & Faveret Filho, 1998), em 1983 o Centro Oeste concentrava 17% dos frigoríficos e em 1996 passou a concentrar 29%. Em relação aos frigoríficos, observou-se que as margens de comercialização são pequenas, contrabalançadas pelos subprodutos ofertados. Também, verifica-se que o setor é fortemente penalizado pela carga tributária no Brasil, onde esta última provocou a saída de um representativo número de empresas do setor, bem como instalou a ação de evasão fiscal como uma forma de sobrevivência da atividade (Neves et al., 2001). Faveret Filho & Paula (1997) afirmaram que a maior parte dos frigoríficos trabalha sem marcas, e os produtores entregam animais em situações diferenciadas (idade, sexo, gordura etc). Dessa forma, a diferenciação de produtos é limitada e fica praticamente nas mãos dos varejistas, via manipulação dos vários tipos de cortes. Quanto ao nível tecnológico, Siffert Filho & Faveret Filho (1998), notaram que as indústrias ligadas ao segmento de exportação apresentam elevado nível tecnológico e de acordo com padrões internacionais de competição, mas apresentavam alto nível de ociosidade média devido ao fechamento ou paralisação de diversas unidades. 4 Mesmo com declínio dos grandes frigoríficos líderes da década de 80, o setor continua evoluindo em termos logísticos, tecnológicos e de estrutura empresarial, incorporando setores laterais como couro e sabões, além de se especializarem no fornecimento de cortes especiais e produtos industrializados. Algumas empresas têm investido no desenvolvimento de marcas próprias, através de lojas próprias e parcerias com redes de supermercados. Os principais projetos dos frigoríficos são: aquisição de unidades industriais, diversificação de atividades e modernização de unidades existentes. Não houve financiamentos para a construção de novas unidades. No que se refere à distribuição de carne bovina, verificou-se que é realizada por quatro canais: supermercados, açougues, boutiques e feiras livres. Os supermercados tornaram-se a mais importante forma de venda de carne bovina no Brasil, e passou a exigir novas formas de apresentação, qualificação e garantia da carne ofertada. Deve ser salientado que o setor de supermercados está mais concentrado que os tradicionais varejos de carne, o que lhe permite estabelecer forte poder de barganha sobre os demais segmentos do SAG (Aguiar, 2002). Além disso, o setor supermercadista possui predomínio sobre as informações por estar mais próximo do consumidor (Souza et al., 2004). Quanto à coordenação de uma cadeia produtiva, Farina & Zylbersztajn (1994), a define como a capacidade de um sistema se estruturar para atender a seus objetivos, os quais estão relacionados à obtenção de vantagens competitivas. Envolve um processo de transmissão de informações, estímulos e controles para que a mesma possa responder às mudanças no ambiente competitivo. Os autores Siffert Filho & Faveret Filho (1998) observaram uma descoordenação entre os elos da cadeia, que implica na falta de rastreabilidade do produto, fazendo com que o consumidor não consiga estabelecer uma ligação entre o produto que adquire e o respectivo fornecedor. Assim, o SAG da carne bovina brasileira carece de uma organização hegemônica, onde o fluxo de informação entre os diversos elos da cadeia é muito pequeno, e esta ausência é uma das principais responsáveis pela perda de competitividade da cadeia, sendo transmissão de informações realizadas principalmente via preço. Porém, portarias impostas pelo governo deverão acelerar mudanças na estrutura do setor, pois exigirão capacitação técnica e investimentos por parte dos agentes da cadeia, sendo, assim, necessário realizar um estudo mais recente e aprofundado das alterações ocorridas no setor a partir das novas exigências. 4.2 Mudanças no Ambiente Institucional Os consumidores europeus passaram a defender o bem–estar animal, a saúde animal, a saúde pública e a preservação ambiental Essas novas demandas surgiram principalmente em função dos problemas causados pela doença da “vaca-louca” na Europa, decorrente do consumo pelo gado de rações à base de proteína animal, que resultou na introdução de sistemas rigorosos de rastreabilidade dos produtos cárneos, tornando necessário o estabelecimento de um enfoque integrado entre os elos da cadeia de modo a recuperar a confiança dos consumidores através de padrões de rastreabilidade do produto. Diante disso, pecuaristas, frigoríficos e governo brasileiros começam a discutir formas de qualificar e certificar a carne bovina. (Faveret Filho e Paula, 1997). 4.2.1 Análise na União Européia. 5 De acordo com o Relatório Anual de Barreiras Externas das Exportações Brasileiras em relação à UE (SECEX, 2001), a Comissão Européia é o principal órgão executivo da União, agindo com total autonomia em relação aos Estados Membros e desempenha papel relevante na concepção e implementação da política comercial comum da UE. Em relação à saúde e proteção ao consumidor, a prioridade deve ser a restituição da confiança do cidadão comunitário em suas instituições, confiança essa abalada em função da crise da dioxina e doença da vaca louca. No que se refere ao regulamento sanitário, fitossanitário e de saúde animal, as importações de produtos animais têm de ser originárias de estabelecimentos aprovados pela Comissão Européia (Diretiva nº 92/46). O processo de aprovação exige que as autoridades dos países exportadores relacionem, para cada categoria de produto, os estabelecimentos responsáveis pela produção, assegurando que tais estabelecimentos atendem os requerimentos de saúde pública e animal da UE. Além disso, as inspeções sanitárias feita pela UE em terceiros países incluem referência ao atendimento das exigências de bem estar animal, que não corresponde às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) (SECEX, 2001). De acordo com a Diretiva 96/23/CE (SECEX, 2001), que entrou em vigor em janeiro de 1997, sobre resíduos biológicos, a importação de animais e de carne de animais que foram administrados com determinados hormônios de crescimento é proibida pela UE, mas essa diretiva não foi notificada à OMC. As carnes bovinas com osso e os bovinos vivos estão proibidos de entrar na UE sob alegação de contaminação por febre aftosa. As exportações de carne desossada são autorizadas se provirem de estados brasileiros livres da febre aftosa. Devido à doença da “vaca-louca” (encefalopatia espongiforme bovina ou BSE), foi emitida a Decisão 2000/418 da Comissão Européia (SECEX, 2001), que regulamenta o uso de materiais específicos de risco em relação a BSE, estabelecendo as exigências sobre as importações da Comunidade oriundas de terceiros países, sendo que estes devem apresentar um informe das análises de risco geográfico da BSE. A UE, em 1997, instituiu um programa de etiquetagem da carne bovina, que na primeira fase foi voluntário (01/04/98 a 31/08/00), sendo que a partir de 01/09/00 passou a ser obrigatório com a publicação do Regulamento 1760/2000, que revogou a regulamentação anterior. Assim, toda carne bovina comercializada na UE deverá ter obrigatoriamente etiqueta com indicação do código de rastreabilidade e dos locais de abate e de desossa. A partir de 2002 completa-se a implantação do sistema obrigatório, passando a ser necessário indicar informações referentes à fase “ante-mortem” (SECEX, 2001). 4.2.2 Análise no Brasil As mudanças nos padrões de consumo, decorrentes das exigências relativas à segurança do alimento implicaram na necessidade de aplicação de mecanismos mais efetivos de controle sanitário em toda a cadeia produtiva bovina, exigindo um maior grau de coordenação e adaptação da legislação nacional. No que se refere à coordenação vertical do SAG, de acordo com o estudo feito pelo IEL et al. (2000), notou-se que normalmente não havia nenhum contrato formal entre pecuaristas e frigoríficos, existindo apenas uma parceria tácita ou tradição de entrega de animais para um mesmo frigorífico, que por parte deste se baseava no conhecimento de animais de melhor qualidade, enquanto que do lado dos pecuaristas baseava-se na credibilidade da empresa. De modo geral não havia contratos formais dos varejistas com os frigoríficos, e mesmo nos programas de novilho precoce, o que prevalecia era um comprometimento de entrega para garantir regularidade na oferta de carne de precoce, 6 também não havendo contratos, além de existir um grande número de abatedouros clandestinos em paralelo aos frigoríficos. Espera-se que com o aumento das exigências dos consumidores e conseqüente crescimento da especificidade de ativos, este arranjo organizacional tenha se alterado nos anos recentes, em direção a uma maior hierarquização das formas de governança. Alguns dos fatores, levantados por este estudo, que dificultavam uma maior coordenação vertical são a falta de percepção do consumidor do valor da carne de qualidade e a ineficiente inspeção sanitária, em que esta, juntamente com as regras informais (costume de comprar carne com osso, por exemplo), favoreciam a presença de unidades clandestinas. Em relação à legislação sanitária, o quadro abaixo resume as principais medidas sanitárias estabelecidas: Quadro 1- Evolução Histórica da Regulamentação da Cadeia Bovina Principais Medidas Institucionais Data Área de Atuação Lei nº 1.283 18/Dez/1950 Território Nacional Decreto nº 30.691 Lei nº 5.760 29/Mar/1952 Território Nacional Território Nacional 03/Dez/1971 Decreto nº78.713 11/Nov /1976 Território Nacional Portaria SIPA nº 5 Portaria Ministerial nº 612 Lei nº 7.889 08/Nov/1988 Território Nacional Território Nacional Portaria Ministerial nº268 Portaria nº 304, MAARA 04/Maio/1995 05/Out/1989 23/Nov/1989 22/Abr/1996 Portaria 15/Jul/1996 nº 89 da DAS do MAARA Portaria 15/Jul/1996 nº 90 da DAS, Território Nacional Território Nacional Território Nacional Objetivo Estabelece o Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produto de Origem Animal, por meio da fiscalização dos produtos de origem animal, bem como dos estabelecimentos para abate e preparação da carne e transporte. Aprova o Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal Criação da Lei de Federalização da Inspeção, de forma progressiva todos os frigoríficos passam a ter fiscalização federal. Os Estados, o Distrito Federal e os Territórios, que pretendam celebrar convênios com a União, para a realização dos serviços de inspeção industrial e sanitária dos produtos de origem animal, de que tratam as Leis nºs 1.283, de 18/12/50, 5.760, de 03/12/71 e respectivos regulamentos e a Lei nº 6.275 de 01/12/l975, deverão dispor de organismos próprios, em condições de exercer a inspeção e fiscalização sobre as pequenas e médias empresas que não se dediquem ao comércio interestadual ou internacional. Estabelece normas para a Padronização de Cortes de Carne Bovina Estabelece normas para a Tipificação das Carcaças de bovinos Passa a responsabilidade pela inspeção sanitária até então exclusivamente da União, para Estados e Municípios. Estabelece os Padrões de Qualidade do Novilho Precoce Estabelece que somente poderá ser feita a entrega de carne de bovinos, com temperatura de até 7°C, em cortes padronizados, devidamente embalados e identificados, apresentando-se para comercialização contendo as marcas e carimbos oficiais com a rotulagem de identificação São Paulo, SP Institui o Programa de Distribuição de Carnes Bovina e e Porto Bubalina ao comércio varejista, previamente, embalada e Alegre, RS, identificada, visando à implantação da Portaria 304. A sendo identificação deve conter informações de interesse ao ampliada aos consumidor, previstas na legislação, como a espécie, o sexo do poucos animal e data de abate Território Institui a obrigatoriedade da fixação de etiquetas-lacre de Nacional segurança nos cortes de bovinos, bubalinos e suíno, 7 do MAARA independentes da aplicação de carimbos oficiais Fonte: IEL et al. (2000) e MAPA (2004b). Quadro 1- Evolução Histórica da Regulamentação da Cadeia Bovina - continuação Portaria nº 36 Decreto nº 2.244 Portaria nº 290 Portaria nº 142 Portaria nº 46 Portaria nº 25 Portaria nº214 Portaria nº 145 Lei 9.712 Instrução Normativa nº 26 Instrução Normativa nº 1 Portaria nº 7 Portaria nº 134 30/Abr/1997 Território Nacional Ampliação dos Estados e municípios que devem adaptar-se à Portaria 304 – São 180 municípios dos Estados do RS, SC, PR, SP, RJ, ES, BA, SE, GO, MS, MT, DF. Além disso, a implantação de grupos técnicos para a análise e futura inclusão de municípios com mais de 200 mil habitantes no Programa de Distribuição de Carnes ao Comércio Varejista 04/Jun/1997 Território Altera dispositivos do Decreto nº 30.691. Em função da Nacional adesão do Brasil ao Mercosul, passa a ser permitido o sacrifício de animais apenas por métodos humanitários, utilizando-se de prévia insensibilização baseadas em princípios científicos, seguida de imediata sangria. 16/Jul/1997 Território Proibir, em todo o Território Nacional, o uso de qualquer Nacional fonte de proteína de ruminantes na alimentação de ruminantes. 23/Dez/1997 Território Descreve sobre o Programa de Distribuição de carnes bovina Nacional e bubalinas ao comércio varejista 10/Fev/1998 Território Instituir o sistema de análise de perigos e pontos críticos de Nacional controle - APPCC a ser implantado, gradativamente, nas indústrias de produtos de origem animal sob o regime do serviço de inspeção federal - SIF, de acordo com o manual genérico de procedimentos. 24/Mar/1998 Território Institui os Comitês Técnicos, com a finalidade de coordenar Nacional e orientar a execução das atividades de implantação do Sistema de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle – HACCP – nas indústrias de produtos de origem animal, sob o regime do SIF 20/Maio/1998 Território A entrada no país de bovinos destinados à cria, recria e Nacional engorda, para posterior abate somente será permitida aos animais identificados individualmente por um brinco plástico numerado, no modelo aprovado pela Secretaria de Defesa Agropecuária deste Ministério Editada em Municípios A Portaria prevê a venda de carne desossada ou cortada com Setembro de que se osso dos frigoríficos ou distribuidores para o setor. A venda 1998, porém em enquadram na para o setor varejista deverá ser em caixas ou containeres vigor desde Portaria 304 apropriados. Os demais municípios possuem até agosto do 04/Jan/1999 ano 2000 para se enquadrarem 1998 Território Estabelece regras para a formação das Agências Executivas Nacional 12/Jun/2001 Território Aprovar o Manual de Procedimentos Operacionais da Nacional Vigilância Agropecuária Internacional, a ser utilizado na fiscalização e inspeção do trânsito internacional de produtos agropecuários, nos aeroportos internacionais, portos estruturados, postos de fronteira e aduanas especiais. 09/Jan/2002 Território Instituir o Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação Nacional de Origem Bovina e Bubalina - SISBOV. 02/Abr/2003 Território Nacional 14/Jul/2003 Território Nacional Aprova os procedimentos operacionais relativos à habilitação, auditorias e supervisões em estabelecimentos produtores de carnes e derivados e de ovos e derivados habilitados ao comércio internacional, em conformidade com os anexos. Autoriza o ingresso no Estado de Santa Catarina de carne bovina fresca, com osso, oriunda dos estados integrantes da zona livre de febre aftosa com vacinação. 8 Fonte: IEL et al. (2000) e MAPA (2004b). Em virtude das exigências dos consumidores europeus, principalmente após a doença da “vaca-louca” em 1996, foram estabelecidas portarias a fim de aumentar a qualidade da carne e atender os requisitos exigidos pela EU. A seguir, são descritas as principais portarias implementadas com esse propósito. A Portaria nº 304 de 22/04/96, segundo Jank (1996), regulamentou uma nova forma de comercialização para a carne bovina, efetivando a obrigatoriedade de desossa e embalagem das carnes para o abatedouro. Nas embalagens deverão constar, entre outros, a identificação do abatedouro, os dados sobre a tipificação da carcaça, a procedência, a classificação, a qualidade e o carimbo do Serviço de Inspeção Federal (SIF). Em 15/07/96 foram editadas as Portarias 89 e 90, ampliando a Portaria 304, estabelecendo a prévia embalagem e identificação das carnes, e não mais a desossa obrigatória no local de abate, como a Portaria 304 previa. (Bánkuti & Azevedo, 2004a). Segundo os autores, como essas medidas não inibiram os clandestinos, em 04/01/99 foi estabelecida a portaria 145, que implantava definitivamente a obrigatoriedade de desossa, corte, embalagem e rotulagem com informação a respeito do peso, tipo de carne e prazo de validade. Assim os frigoríficos estavam autorizados a comercializarem carnes com osso (carcaça) para outros frigoríficos e entrepostos que possuem sala de desossa aprovada e sistema de inspeção sanitário, e comercializarem carne desossada para estabelecimentos sem sala de desossa. Essas medidas têm como objetivo a busca da qualidade da carne, através da modernização e racionalização dos sistemas, tentando diminuir os abates clandestinos, assim como aumentar o fluxo de informações ao longo da cadeia. A Portaria nº 46 de 10/02/98 está relacionada, tendo como base o texto do IEL et al. (2000), com a indústria frigorífica voltada ao comércio interestadual e/ou internacional, onde orienta tais frigoríficos na implantação do Sistema de Prevenção e Controle, com base na Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle –Hazard Analysis and Critical Control Points – HACCP. Este sistema tornará mais eficaz o Serviço de Inspeção Federal e sua implantação é imprescindível para atendimento das exigências internacionais. O sistema HACCP tem como base a prevenção, eliminação ou redução dos perigos em todas as etapas da cadeia produtiva. Possui sete princípios básicos: 1) identificação do perigo; 2) identificação do ponto crítico; 3) estabelecimento do limite crítico; 4) monitorização; 5) ações corretivas; 6) procedimentos de verificação; 7) registros de resultados. É de responsabilidade do DIPOA (Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal) validar e realizar auditorias nos Planos HACCP dos estabelecimentos que fazem comércio interestadual e internacional. Em relação ao programa de rastreabilidade, a partir da Instrução Normativa nº 01, de 09/01/2002, o MAPA instituiu o Sistema Brasileiro de Identificação de Origem Bovina e Bubalina (SISBOV), que tem a finalidade de identificar, registrar e monitorar, individualmente, todos os bovinos e bubalinos nascidos no Brasil ou importados. O programa é um regime de parceria entre o MAPA e a iniciativa privada, via entidades Certificadoras Credenciadas. Os prazos para registro de propriedade segue a Instrução Normativa n°01 de 10/01/2002, na qual diz que: a) os criatórios voltados à produção para o comércio internacional com os países membros da União Européia deverão integrar o SISBOV até o mês de junho de 2002; b) os criatório voltados à exportação para os demais mercados consumidores deverão registrar-se até dezembro de 2003; c) tosos os criatórios de bovinos e bubalinos pertencentes aos estados da zona livre de aftosa ou em processo de declaração de 9 integração ao sistema deverão registrar-se até dezembro de 2005; d) os demais criatórios de bovinos e bubalinos brasileiros, até dezembro de 2007 (SISBOV, 2004). O aspecto cultural da população brasileira em adquirir carne sem osso ou então presenciar a desossa e corte no local de compra é um exemplo típico de como os costumes e tradições (regras informais) dificultam o cumprimento das portarias, e apesar de conflitarem com as regras formais (leis e portarias), fornecem condições para transações clandestinas (Bánkuti & Azevedo, 2004a). 4.3 Ambiente Organizacional O ambiente organizacional do SAG da carne bovina brasileira compõe-se de entidades tanto públicas quanto privadas. Relacionam-se, a seguir, os principais programas e os responsáveis pelos mesmos. 4.3.1 Programas e Alianças Mercadológicas A ausência de organismos de articulação sistêmica faz com que problemas presentes em determinados elos, ou comportamentos oportunistas de determinados agentes, comprometem o desempenho da cadeia como um todo (IPARDES et al., 2002). Assim, um esforço de coordenação tem sido realizado através de alianças mercadológicas, geralmente atreladas ao programa de novilho precoce. No que se refere aos programas de novilho precoce, estes estão geralmente associados à formação de alianças mercadológicas entre produtores, frigoríficos e supermercados para a comercialização de carnes diferenciadas (IEL et al., 2000). Segundo Pigatto et al. (2004), a associação Brasileira de Novilho Precoce procurou conscientizar os criadores, autoridades governamentais e os segmentos industrial e comercial a agirem com vista à melhoria da produção e produtividade como também a oferta de uma carne de melhor qualidade aos consumidores. O verdadeiro estímulo em participar deste programa não reside na isenção de uma parte do ICMS na venda do boi aos frigoríficos, mas no fato do pecuarista poder ganhar simplesmente por estar vendendo um animal muito mais jovem e de melhor qualidade e do frigorífico poder obter um animal com maior rendimento de carcaça e de melhor qualidade. Em relação às Alianças Mercadológicas, programas como a Aliança Mercadológica da Carne, do Fundo de Desenvolvimento da Pecuária do estado de São Paulo (FUNDEPEC-SP), e Carne com Qualidade, do Rio Grande do Sul (RS), são esforços para aumentar o grau de coordenação da cadeia. O primeiro tem como objetivo estabelecer canais estáveis de distribuição de carne de boa qualidade via acordo entre pecuaristas, frigoríficos transportadores e supermercados, para assegurar a qualidade do produto ao consumidor final, e numa segunda etapa, será instituída a certificação, introduzindo assim a rastreabilidade, e os produtos de melhor qualidade poderão obter preços diferenciados. O segundo tem como objetivos a recuperação da produção pecuária, o aumento do abate inspecionado, a redução da capacidade ociosa das empresas e a melhoria da qualidade dos produtos oferecidos à população, sendo o principal instrumento o incentivo fiscal. Nos países onde esse esforço encontra mais dificuldade, varejistas (principalmente supermercados), estão desenvolvendo marcas próprias para recapturar a confiança dos consumidores (Faveret Filho e Paula, 1997). Entretanto, constatou-se que a dificuldade de se obter uma coordenação efetiva tem atrasado a montagem de um programa nacional de certificação de qualidade, sendo que esta ausência abre espaço para a proliferação de selos e marcas de qualidade, que poderá trazer prejuízo para o “marketing” da carne (IEL et al., 2000). 10 De acordo com IEL et al. (2000), verificou-se que os programas de novilho precoce e alianças mercadológicas envolvem conscientização e adesão de diferentes agentes e empresas da cadeia produtiva, e que essa conscientização implica na mudança da cultura de condução dos negócios em cada elo da cadeia e inclui um processo de aprendizagem de novas formas de competição e cooperação entre os agentes. Além disso, a mudança que deve ocorrer no comportamento de compra do consumidor final também é um fator a ser considerado, pois se espera que aos poucos comece a experimentar e torne-se cliente do produto diferenciado. O quadro abaixo mostra os órgãos ativos de coordenação da cadeia de carne bovina no Brasil: Quadro 2- Ambiente Organizacional do Sistema Agroindustrial da Carne Bovina do Brasil Órgãos de Classe/Associações privadas/Órgãos governamentais Elos da Cadeia • • • Pecuária • • • • • Abate/Frigorífico • • • Distribuição PNPC – Programa Novas Fronteiras do Cooperativismo (Ministério da Agricultura e Abastecimento) DAS – Secretaria de Defesa Agropecuária (MAA) DIPOA – Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SDA/MAA) SIF – Serviço de Inspeção Federal (SDA/MAA) FUNDEPEC – Fundo de Desenvolvimento da Pecuária do Estado de São Paulo CNPC – Conselho Nacional da Pecuária de Corte FNPPC - Fórum Nacional Permanente da Pecuária de Corte (CNA) ABIEC – Associação Brasileira das Indústrias de Carne Industrializada ABIEF – Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Frios SINDIFRIO – Sindicato das Indústrias de Frio do Estado de São Paulo ABIF – Associação Brasileira da Indústria de Frigoríficos • SCVCF – Sindicato do Comércio Varejista de Carnes Frescas do Estado de São Paulo Fonte: (IEL et al., 2000). Algumas das instituições destacadas no quadro acima, têm como missões: • ABIEC –defender os interesses do setor exportador de carnes bovinas nos âmbitos nacional e internacional, tentar reduzir as barreiras comerciais tarifárias e não-tarifárias, garantir a representação do setor nos fóruns nacionais e internacionais influenciando a tomada de decisões e o processo normativo e legislativo que afetam o comércio internacional de carnes bovinas (ABIEC, 2004); • DIPOA: garantir que o produto de Origem Animal seja sadio, seguro e confiável para o consumidor (Defesa Agropecuária, 2004b); • SINDIFRIO: representar todo o setor da indústria frigorífica na base territorial do Estado de São Paulo. Sem fins lucrativos é constituído para fins de estudo, coordenação, proteção e representação legal da categoria, econômica integrada pelos matadouros, frigoríficos de bovinos, suínos, aves, animais exóticos e aves silvestres, sob regime de inspeção federal (Sindifrio, 2004); 11 • SDA: propor subsídios à formulação da política agrícola no que se refere à defesa agropecuária; normatiza e supervisiona, na forma da legislação específica as atividades de fiscalização da produção, da comercialização e da utilização de agrotóxicos, seus componentes e afins. Implementa as ações decorrentes de decisões de organismos internacionais e acordos com governos estrangeiros relativas a essas substâncias químicas (Defesa Agropecuária, 2004a). Excluído: 4.3.2 Sistema de Inspeção Sanitária O Sistema de Inspeção Sanitária por meio da Lei 5.760/71 esteve sob total controle da esfera federal – Sistema de Inspeção Federal (SIF) até a promulgação da Lei 7.889/89, quando foi desmembrado em três níveis de atuação: federal, estadual e municipal. Assim, o Sistema de Inspeção Federal (SIF) foi mantido na fiscalização de carnes comercializadas em todo território nacional e nas que se destinam às exportações. Criou-se o Sistema de Inspeção Estadual (SIE), que prioriza a comercialização de carnes no âmbito estadual, e o Sistema de Inspeção Municipal (SIM), que autoriza o controle da inspeção sanitária nos municípios (Bánkuti & Azevedo, 2004a). Segundo Cardoso (1998, apud Bánkuti & Azevedo, 2004b), um dos principais problemas da cadeia é a falta de pessoal habilitado para inspecionar os abates e fiscalizar a comercialização de carnes, além da falta de recurso do Ministério da Agricultura. Foi possível constatar através de pesquisa de campo que algumas plantas não aprovadas pelo SIF foram aceitas pelo SIE, sob a mesma legislação sanitária, o que traduz baixo rigor no controle sanitário (Mathias, 1999 e Pigatto, 2001 apud Bánkuti & Azevedo, 2004 b). Devido à incapacidade das três instâncias de inspeção, tem sido aceito pelo setor a criação de instituições independentes, como por exemplo, FUNDEPECs e FEFA (Fundo de Erradicação da Febre Aftosa). Dessa forma, houve um avanço na legislação sanitária, mas não foi acompanhada por uma fiscalização/inspeção eficiente. No que diz respeito à Febre Aftosa no Brasil, observou-se que apenas os estados Rio Grande do Sul e Santa Catarina possuem o certificado de zona livre de febre aftosa com vacinação, e pelo fato de estarem a dois anos sem notificação de focos da doença, entram com o pedido de reconhecimento de zonas livres de febre aftosa com vacinação na Organização Internacional de Epizootia (OIE), órgão da ONU para sanidade animal, na qual foi aceito em 1998 (IEL et al., 2000). O certificado de zona livre se febre aftosa serve como um selo de qualidade para os criadores. Os Estados Unidos utilizam a febre aftosa como uma barreira não tarifária e não representam nenhuma expectativa para reconhecer apenas alguns estados como áreas livres. Os cortes nos orçamentos do setor público são uma ameaça ao sucesso da erradicação da doença no Brasil, tornando-se necessária à participação da iniciativa privada, através da união entre os agentes privados e entre estes e os estados. Tem-se como exemplo o FUNDEPEC criado em 1990, e com maior participação do estado foi criado o FEFA (Fundo de Emergência da Febre Aftosa), em 1993, no Mato Grosso. 4.3.4 Especificidade do Ativo Segundo Vinholis & Azevedo (2004), as exigências dos consumidores europeus, refletidas no ambiente institucional, em relação à qualidade da carne, tornou necessário à utilização de uma matéria-prima de maior confiança. 12 Dessa forma, portarias foram implementadas pelo governo, impondo requisitos ao fornecimento de carne, o que impulsionou a modernização da cadeia através da adoção de novas tecnologias de produto e processos. As Portarias 304 e 145 permitiram a geração de marcas próprias das unidades industriais, o que fortaleceu sua posição no mercado, vinculando sua imagem ao produto à qualidade dos produtos ofertados. Segundo IEL et al. (2000), verificou-se que os empresários das empresas frigoríficas estão investindo fortemente na reestruturação de suas unidades de produção. Outros investimentos em tecnologias de processamento, que representam uma agregação de valor à carne bovina, estão sendo feitos pelas empresas exportadoras e importantes empresas que atendem o mercado nacional. Observou-se também a implantação de novas unidades frigoríficas nos centro de produção animal, o que reduz os custos de transporte dos animais e os custos de obtenção de carne e derivados. Vinholis & Azevedo (2004) dividiram o segmento frigorífico em dois grupos estratégicos, em que o primeiro é formado por pecuaristas mais tecnificados, frigoríficos fiscalizados pelo SIF e que vendem para os super e hiper mercados nacionais e boutiques de carne ou para a exportação, e o segundo é composto por agentes menos tecnificados e clandestinos e que vendem para açougues tradicionais e feiras livres. Em complemento às instituições, foram implementados programas de iniciativa privada e pública, como por exemplo, os programas de Aliança Mercadológica e Novilho Precoce, que também envolvem técnicas de produção específicas para poder ofertar um produto com atributos de qualidade que a diferencie da carne-commoditie disponível no varejo (IEL et al., 2000). Assim, é interessante observar que, do ponto de vista teórico – teoria dos custos de transação (Williamson) e teoria do ambiente institucional (North) - as exigências do consumidor europeu conduziram a uma maior especificidade do ativo, mas o grau dessa especificidade varia de acordo com o tipo de investimento realizado. Dessa forma, o primeiro grupo - pecuaristas mais tecnificados, frigoríficos fiscalizados pelo - caracteriza-se por investimentos mais específicos, o que leva a uma maior grau de especificidade de ativos do que o segundo grupo - agentes menos tecnificados e clandestinos. Então, esperar-se-ia que para o primeiro grupo as transações fossem realizadas via contratos, enquanto que para o segundo grupo, as transações fossem feitas através do mercado, pois de acordo com a teoria, a medida que aumenta a especificidade do ativo, relações hierárquicas tornam-se mais eficientes, diminuindo, assim, os custos de transação. 4.4 Estudo de Caso A fim de se analisar os impactos da mudança institucional sobre as formas de governança existentes entre frigoríficos e produtores de carne, bem como entre os frigoríficos e seus canais de distribuição, procedeu-se ao estudo de caso de duas empresas, sendo uma exportadora e outra que atende somente ao mercado doméstico. Espera-se que a empresa exportadora, que se defronta com maior exigências dos consumidores – e portanto que trabalha com ativos mais específicos – organize suas transações de forma mais hierarquizada que o outro frigorífico. Apresentam-se a seguir os resultados dos estudos de caso das duas empresas frigoríficas, A e B, com nível de inspeção federal (SIF), e localizadas no mesmo Estado, sendo a empresa A não exportadora e a empresa B exportadora, inclusive para a União Européia. 4.4.1 Empresa A 13 Atua há 32 anos no mercado, cuja origem de seu capital é nacional. Possui um faturamento anual entre R$ 10 milhões e R$ 50 milhões e atende somente o mercado interno. Em relação à produção, o número de bois abatidos é demonstrado no quadro abaixo: Quadro 3- Número de bois abatidos pela empresa A – mil/ano. Ano Abate Total 1996 24.875 1997 28.140 1998 31.441 1999 27.047 2000 26.969 2001 30.731 2002 28.625 2003 31.848 Fonte: Dados da pesquisa Nota-se pelos dados do Quadro 3 que o número médio de bois abatidos pela empresa foi de aproximadamente 28.709 mil animais/ano, considerando o período entre 1996 e 2003. No que se refere aos aspectos institucionais e organizacionais, a empresa possui um nível de inspeção federal (SIF). Não possui nenhum nível de rastreabilidade e também não adota nenhum outro programa de qualidade, como por exemplo, o HACCP, e sua dificuldade em atender às Portarias 304 e145 é devido ao fato dos produtores ainda não se enquadrarem a essas exigências institucionais. Apesar da empresa não participar de Programas como Aliança Mercadológica e Novilho Precoce, reconhece que ambos melhoram a coordenação da cadeia. Quanto à relação da empresa com o fornecedor, tanto antes da “doença da vacalouca” como atualmente, a empresa adquire matéria-prima via compra no mercado de qualquer produtor, não existindo assim, nenhum tipo de contrato. Compra tanto boi não rastreado quanto rastreado, não pagando um preço maior pelo último. O principal conflito enfrentado pela empresa em relação aos seus fornecedores é sobre preço e qualidade da matéria-prima e não existe relação da empresa com os produtores de boi para melhorar a qualidade da carne. Em se tratando da relação da empresa com o varejo, seus clientes são os supermercados, açougues e indústrias, tendo como principal exigência desses clientes quanto à carne ofertada o preço e qualidade, porém, não há relação entre ambos a fim de aumentar a qualidade da carne, bem como a ausência de contratos nas negociações. Nota-se que a empresa realizou poucos investimentos em programas de qualidade para atender as novas exigências dos consumidores, não estando também em conformidade com as portarias, caracterizando-se como uma empresa com baixa tecnificação, em que o grau da especificidade do seu ativo aumentou muito pouco, o que a leva transacionar via mercado. 4.4.2 Empresa B Funciona há 21 anos no mercado, cuja origem de seu capital é nacional. Tem um faturamento anual de mais de R$ 250 milhões e atende tanto o mercado interno quanto o mercado externo. Seus principais clientes internacionais são a UE, Oriente Médio e países da Ásia, sendo a maior parte de sua exportação destinada à UE. 14 Quanto à produção, o número de bois abatidos pela empresa teve uma tendência crescente ao longo do período 1996-2003, como pode ser visualizado no quadro abaixo: Quadro 4- Número de bois abatidos pela empresa B –mil/ano Ano 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 Fonte: Dados da pesquisa. Abate Total 94.611 96.371 123.256 156.399 164.031 171.915 202.284 289.229 Em relação aos aspectos institucionais e organizacionais, a empresa possui nível de inspeção federal (SIF), adotando um nível de rastreabilidade completa e outros programas de qualidade, tal como HACCP, BPF (Boas Práticas de Fabricação) e PPHO (Programa de Higiene Operacional), mas não participa de nenhum programa relacionado à Aliança Mercadológica e Novilho Precoce. A dificuldade da empresa em atender às Portarias 145 e 304 é devido à falta de animais rastreados para aquisições, pois os pequenos produtores as desconhecem. No que se refere à sua relação com os fornecedores, tanto antes quanto depois da “doença da vacalouca”, a compra da matéria-prima ocorre via mercado, não existindo, dessa forma, contrato entre ambos. A empresa compra tanto boi não rastreado quanto boi rastreado, mas paga um preço maior pelo último. É interessante observar que embora a empresa afirme que adota um nível de rastreabilidade completa, reconhece a dificuldade de se encontrar animais rastreados, e, ao mesmo tempo não adota estratégia no sentido de hierarquizar a transação – seja via contratos com fornecedores, seja via verticalização da produção – de modo a atender as exigências impostas pelos clientes europeus. O único incentivo dado é o pagamento de um preço maior à carne rastreada, o que não garante a oferta de animais se houver a rivalidade de outro frigorífico. Ou seja, não se adota uma estrutura de governança eficiente. Não existe nenhum conflito na relação da empresa com seus fornecedores, bem como não há relação entre ambos para a melhoria da qualidade da carne, sendo considerado pela empresa uma pretensão futura. Quanto à sua relação com o varejo, seus principais clientes internos são supermercados, boutiques de carne, açougues e grandes redes de distribuição, em que as principais exigências feitas por eles estão relacionadas ao grau de resfriamento, embalagem adequada, qualidade e higiene da carne. Não existe nenhuma relação contratual entre ambos, mas há uma relação para aumentar a qualidade da carne que se dá através de visitas constantes de supervisores na empresa frigorífica. Em se tratando da relação da empresa com os clientes europeus, o nível de preocupação que a empresa tem observado por parte da UE em relação à segurança do alimento é altíssimo. Os programas de qualidade que exigem são HACCP e rastreablidade total, e em relação à matéria-prima, a ausência de hormônios de crescimento e o uso de ingredientes de origem animal. A empresa não tem conhecimento de nenhuma exigência futura. A questão central é como a empresa garante o fornecimento de carne com as características requeridas comprando via mercado, ou sob a ótica da ECT, esta não é a forma mais eficiente de se governar esta transação. 15 A opinião da empresa quanto a essas exigências é de que realmente retratam a preocupação dos consumidores e que também precisam ser cumpridas para permanecer no mercado europeu, porém, discorda que tais exigências reflitam barreiras não tarifárias. Desde que iniciou suas exportações à UE, sempre satisfez a essas exigências, cujas medidas adotadas pela empresa foram investimento em pesquisa e tecnologia, implementação da rastreabilidade, da certificação, de programas de qualidade e assegurar as fontes de fornecimento da matéria-prima. Todas as vendas da empresa ao exterior são realizadas por meio de contratos. A empresa optou por exportar à UE por ser um mercado que atende ao real valor de qualidade da carne, que adquire por um preço bem mais elevado em relação aos outros países com quem a empresa comercializa. Verifica-se que a empresa realizou investimentos em programas de qualidade, o que aumentou a especificidade do seus ativo, caracterizando-se, assim, como uma empresa tecnificada, sendo condizente, do ponto de vista teórico, a adoção de transações via contratos e não através do mercado. 5 CONCLUSÃO As exigências dos consumidores europeus quanto à segurança do alimento, conduziram à mudanças no ambiente institucional e organizacional no Brasil, pelo fato da União Européia ser a principal importadora de carne bovina brasileira, conduzindo o setor de carne bovina brasileiro a se adaptar a essas exigências, modernizando-o através de investimentos tecnológicos, o que alterou o grau da especificidade dos ativos empregados nessa atividade. Contudo, é interessante ressaltar que as alterações não ocorreram de forma uniforme em todo o setor, coexistindo tanto produtores e frigoríficos tecnificados, aptos a atender as exigências dos consumidores, com aqueles que não adotaram estratégias visando o aumento da qualidade e competitividade. Verificou-se que a variação do ambiente institucional europeu, com conseqüente mudanças no ambiente institucional brasileiro (através de alterações na legislação, portarias, decretos, etc), principalmente através das Portarias n° 304 e 145, aumentou a especificidade dos ativos, o que implica numa maior dependência entre os agentes. De acordo com a Economia dos Custos de Transação, as relações hierárquicas tornam–se mais eficientes à medida que a especificidade do ativo aumenta, diminuindo assim os custos de transação, sendo portanto a forma mais eficiente de governança. Em relação aos estudos de caso, observou-se que a empresa B possui investimentos mais específicos que a empresa A, em decorrência de suas exportações sobretudo para a UE, a qual exige que determinados requisitos sejam cumpridos em relação à qualidade da carne. Mesmo que a empresa A não exporte, sofre reflexos das exigências da UE através do seu impacto sobre o ambiente institucional, em que este se altera para poder viabilizar as exportações de carne bovina, o que a leva a realizar investimentos para aumentar a qualidade do produto e para se enquadrar nas leis, portarias, instruções normativas, entre outros, embora isso ter sido muito pouco verificado no estudo de caso dessa empresa, o que mostra a dificuldade da empresas em adaptar-se a esse novo ambiente institucional. Em ambas as empresas, verificou-se que não há estabelecimentos de contratos, tanto antes da “doença da vaca-louca” como atualmente, ou seja, a relação entre as empresas e seus fornecedores bem como a relação da empresas com seus clientes internos se dá via mercado, apenas na relação da empresa B com seu cliente externo há relação contratual. Assim, apesar de ter ocorrido uma maior nível de investimento por parte das empresas, principalmente da empresa B (exportadora), não houve evolução no sentido de 16 realização de contratos. Esperaria-se que o aumento da especificidade de ativos levasse a uma maior hierarquização das relações entre a empresa B e seus fornecedores, mas ainda nota-se a adoção de uma estrutura de governança via mercado. Percebe-se, portanto, que formas organizacionais mais eficientes poderiam ser adotadas pela empresa. As exigências crescentes do mercado consumidor europeu trouxeram impactos importantes sobre o ambiente institucional brasileiro, com conseqüências sobre as formas mais eficientes de governança ao longo da cadeia produtiva bovina. O aumento dos requisitos de qualidade e segurança impostos pelos importadores implica em crescimento das especificidades de ativos e adoção de estruturas de governança tendendo para a hierarquia. Contudo, o que se verificou nas duas empresas analisadas, tanto na que exporta como a que atende ao mercado interno, é que as transações com os fornecedores de carne continuam sendo feitas via mercado. A expansão da amostra para outras empresas e regiões torna-se tema importante de pesquisa, de forma a permitir um conhecimento maior das alterações recentes do Sistema Agroindustrial da Carne Bovina. REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO AGUIAR, D.R.D.; SILVA, A.L. da. Changes in beef consumption and retailing competitiveness in Brazil: a rapid appraisal. 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