MULHERES E PARTO: VIVÊNCIAS QUE INFLUENCIAM AS ESCOLHAS Briena Padilha Andrade ( [email protected].) Enfermeira. Mestranda no Programa de Pós- Graduação Interdisciplinar em Desenvolvimento Comunitário- Universidade Estadual do Centro Oeste (UNICENTRO) Maria Luciana Botti ([email protected]) Universidade Estadual do Centro Oeste (UNICENTRO RESUMO: Introdução: A mulher é uma figura importante perante a sociedade, ora por sua atuação no meio social, ora no meio familiar. As mulheres representam a maioria da população brasileira, representando 50,77%, e as principais usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) (BRASIL, 2004). Diante desse contexto, e da ausência de políticas públicas que as contemplassem, em 1984, o Ministério da Saúde lança o Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM), trazendo como um dos objetivos específicos à promoção da atenção obstétrica e neonatal, qualificada e humanizada, incluindo à assistência ao abortamento em condições inseguras, para mulheres e adolescentes, e como subitem a qualificação da assistência obstétrica e neonatal nos estados e municípios e elaborar e/ou revisar, imprimir e distribuir material técnico e educativo (BRASIL, 2004). O processo de nascimento e parturição é essencial diante do viver da humanidade, de acordo com o meio em que essa mulher-mãe está inserida. O trabalho de parto e parto pode ser encarado com maior ou menor intensidade, influenciando direta ou indiretamente no seu modo de vida (CARRARO et al., 2006). Conhecer o conceito da puérpera quanto a vivência do trabalho de parto e parto é de fundamental importância, pois durante toda a gravidez a futura mãe constrói expectativas ao modo de vivenciar o parto (PACHECO et al., 2005).Além disso, fornece informações para uma readequação dos serviços de saúde para adaptar métodos de cuidado e conforto, e proporcionar um trabalho de parto humanizado, objetivando na mulher-parturiente confiança em si e nos profissionais de saúde (CARRARO et al., 2006).Dado o exposto, surgiu o interesse em investigar o conhecimento das mulheres quanto as vias de parto e sobre os fatores determinantes que influenciaram essas participantes na tomada de decisão do parto normal ou cesáreo. Objetivos: Como objetivo geral buscou-se descrever a percepção de mulheres em relação à escolha do tipo de parto, a partir de suas vivências. E objetivos específicos: a) averiguar percepção da mãe relacionada aos tipos de partos, benefícios e malefícios; b) identificar as práticas e procedimentos realizados no parto normal diante das diretrizes de humanização do parto; c) identificar quais os fatores que influenciaram na escolha do tipo de parto. Metodologia: Trata-se de um estudo descritivo exploratório com abordagem qualitativa. O local de estudo foi o domicílio de mulheres pertencentes à área de abrangência do Centro Integrado de Atendimento (CIA) Vila Bela, localizado no município de Guarapuava-PR. A amostra da pesquisa foi composta por 09 mulheres, dessas, cinco tiveram seus filhos por cesárea e quatro por parto normal, e encontravam-se no puerpério tardio, apresentavam idade igual ou superior à 18 anos. Os dados foram coletados, mediante ao aceite das mulheres, e a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido. A coleta deu-se no mês de março de 2012, por meio de entrevista semiestruturada. A análise aplicada aos dados foi à análise de conteúdo de Bardin (2011), que utiliza o princípio de codificação do material extraído das entrevistas, e permite produzir um sistema de categorias. Nessa pesquisa, utilizou-se a categorização por condensação dos dados brutos e dados organizados no material das entrevistas. Para o desenvolvimento do projeto de pesquisa, o estudo passou e foi aceito pelo Comitê de Ética de Pesquisa (CEP), da Universidade Estadual do Centro- Oeste – UNICENTRO, com oficio nº 429698 e parecer 106/2011. Resultados e discussões: Como resultados a pesquisa apresentou as seguintes categorias de análise: 1ª) A dor e o parto – a interseção a partir dos fatores culturais; 2ª) Parto normal: Não praticado, porém reconhecido; 3ª) Abuso das intervenções desnecessárias e descaso perante os direitos da parturiente; 4ª) A cultura da cesárea; 5ª)Assistência pré-natal e sua importância para um parto digno e natural; 6ª)A escolha pelo tipo de parto. A deliberação e opção da mulher sobre a via de parto são influenciadas por aspectos socioculturais, em que o temor e as vertentes do parto natural versus cesáreo desempenham relevante influência (PEREIRA; FRANCO, BALDIN, 2011). A análise das categorias acima citadas, proporcionou resultados semelhantes aos encontrados em um estudo desenvolvido por Faúndes et al. (2004), onde esse traz que os fatores que levam as mulheres a escolher o parto normal são: menor sofrimento a mulher, recuperação mais rápida e a possibilidade de retomada da vida social Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.619 em curto espaço de tempo, dor após a cesárea, já no parto cesáreo aspectos como, menos dor e sofrimento durante o parto, mais tranquila, rápida, e confortável para a parturiente.Ainda, fatores culturais, a opinião de mulheres próximas, a vivência das mesmas, também é considerado um aspecto relevante na hora da preferência pelo parto cirúrgico(Figueiredo et al.,2010). Considerações finais: A pesquisa demonstrou que o culto ao parto cesáreo é relevante, tanto nas mulheres que tiveram esse tipo de parto, quanto nas que pariram por via vaginal. Essa predileção dá-se pela cultura que envolve os tipos de parto, sendo o normal atrelado à dor e sofrimento, enquanto o cesáreo considerado seguro e confortável. Dentre os fatores que levam à escolha da via normal está a melhor recuperação, e da cesárea o conforto, ausência de dor; medo de senti-la, ressaltando ainda a associação dos tipos de parto à dor/conforto. Ressalta-se que nem todas as mulheres tiveram a oportunidade de opinar sobre sua via de parto, ficando essa decisão restrita ao profissional médico. Considera-se que, a visão distorcida e limitada que as mulheres apresentam sobre os tipos de partos é produto da alta medicalização, e a ausência de cuidados e preparo para o momento da parturição, e ainda, devido a negligência perante de direitos que são inerentes à parturiente, fazendo com que esse momento, muitas vezes, torne-se algo traumático, e medicalizado, aumentando assim a incidência de cesárea. Palavras-chaves: Saúde da Mulher; Tipos de parto; Parturição. Introdução A mulher é uma figura importante perante a sociedade, ora por sua atuação no meio social, ora no meio familiar. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010) as mulheres são consideradas a maioria da população brasileira, representando 51%, e as principais usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS). Procuram os serviços para atender as suas necessidades de saúde e oferecer suporte a toda a sua família e comunidade. Assim, compreende-se que é de grande relevância ter visão integral da mulher levando em consideração os fatores demográficos, culturais, econômicos, sociais, para que assim, os profissionais de saúde possam delinear a assistência voltada às reais necessidades de saúde dessa população (MOTA et al., 2007). Diante deste contexto, em 2004, o Ministério da Saúde lança o Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM), trazendo como um dos seus objetivos específicos à promoção da atenção obstétrica e neonatal, qualificada e humanizada, incluindo à assistência ao abortamento em condições inseguras, para mulheres e adolescentes (BRASIL, 2004). O processo de nascimento e parturição é essencial diante do viver da humanidade, de acordo com o meio em que a mulher-mãe está inserida. O trabalho de parto e parto pode ser encarado com maior ou menor intensidade, influenciando direta ou indiretamente o seu modo de vida (CARRARO et al., 2006). A gestação e o parto representam eventos sociais que merecem atenção diferenciada por parte dos profissionais de saúde, pois podem ser caracterizados pela percepção individual em experiência especial no seio familiar e na comunidade (BRASIL, 2001). Dessa forma, o poder de decisão quanto à via de parto, seja normal ou cesárea é de fundamental importância para esse momento único da mulher, pois sua opção deverá se dar de forma consciente, uma vez, que ela esteja esclarecida de todas as dúvidas em relação aos procedimentos adotados na realização do parto. Conhecer a percepção da puérpera quanto à vivência do trabalho de parto é de fundamental importância, pois durante toda a gravidez a futura mãe constrói expectativas ao modo de vivenciar o parto (PACHECO et al., 2005). Além disso, fornece informações para uma readequação dos serviços de saúde para adaptar métodos de cuidado e conforto, e proporcionar um trabalho de parto humanizado, objetivando na mulher-parturiente confiança em si mesmo e nos profissionais de saúde (CARRARO et al., 2006). Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.620 Dados do DATASUS (2010) mostram uma ligeira prevalência do número de partos normais em relação aos cesáreos no ano de 2007, com 1.542.359 e 1.343.733, respectivamente. No entanto, analisando apenas a região Sul, observa-se um número significativo de partos cesáreos, com 191.655 partos, contra 171.004 partos normais. Os fatores que podem levar as mães escolherem o tipo de parto, são inúmeros e individuais, englobando aspectos relacionados a questões de recuperação, socioeconômicas, emocionais, fisiológicas, culturais, entre outras. Em pesquisa realizada por Faúndes et al. (2004) foram levantadas as opiniões das mulheres quanto a escolha da via de parto. Dentre essas, o parto vaginal foi eleito por representar menos dor/sofrimento para a mulher, recuperação rápida e fácil, possibilidade de retornar à vida social em breve e redução quanto à permanência no ambiente hospitalar. Já os fatores apontados pela escolha do parto cesáreo englobaram: menos dor/sofrimento durante o trabalho de parto, duração do procedimento em menor tempo e proporcionar maior comodidade para a mulher. Vale destacar, que independente da escolha da mulher, cada via apresenta indicações especificas e benefícios, desde que utilizada de forma correta. O parto cesáreo é uma intervenção cirúrgica, e como tal facilita a parturição, sendo utilizado principalmente para proteger o binômio mãe e filho, entre as situações que necessitam do seu emprego estão: a apresentação pélvica ou no caso de doença sexualmente transmissível, como a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) e o Papiloma Vírus Humano (HPV), o descolamento prematuro da placenta, diabetes gestacional, dentre outros (QUEIROZ et al., 2005). Já o parto vaginal, é considerado mais tranquilo, por não se tratar de um procedimento cirúrgico. Acarreta maior segurança, ora para o bebê, ora para a mãe, devido à diminuição do risco de sangramento pós-parto e a probabilidade de adquirir infecções é menor. Além disso, a recuperação é mais rápida comparada ao parto cesáreo (BRASIL, 2008). Dessa forma, a mulher tem duas opções de escolha quanto à forma de parturição, cabendo somente a ela decidir o que for melhor para seu caso. Dado o exposto, a pesquisa apresenta como objetivo descrever a percepção de mulheres em relação à escolha do tipo de parto, a partir de suas vivências. Materiais e métodos Para alcançar os objetivos do estudo, foi realizado um estudo descritivo, com abordagem qualitativa. Os sujeitos do estudo foram puérperas que tiveram a data do seu último parto nos meses de março a abril de 2012, residentes na área de abrangência da Unidade Básica de Saúde da Vila Bela, perímetro urbano do município de Guarapuava – PR. A amostra foi composta por 04 puérperas que tiveram seus filhos por parto normal, 05 puérperas que tiveram seus filhos por parto cesáreo. Utilizou-se de um instrumento semiestruturado que em sua primeira parte abordou a caracterização das puérperas (questões fechadas) e na segunda parte possibilitou-as relatar a experiência do parto (questões abertas). As entrevistas foram coletas, transcritas e excluídas. Os dados coletados foram avaliados conforme a Análise de Conteúdo de Bardin. De acordo com Bardin (2004), a Análise de Conteúdo é um conjunto de técnicas de análise das comunicações que visa obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens e falas, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.621 produção/recepção, que são as variáveis inferidas destas mensagens. Salienta-se que todos os aspectos éticos foram respeitados conforme a Resolução do CNS 196/96. Resultados e discussão Caracterização da População de estudo Ao caracterizar-se a população de estudo elaborou-se o quando 1. Verificou-se que das nove mulheres participantes do estudo apenas duas eram multíparas. A faixa etária concentrou-se entre dezoito (18) anos e trinta e um (31) anos. No que diz respeito ao parto, a maioria das entrevistadas tiveram seu parto por via cesárea. Das cinco entrevistadas que tiveram seus filhos por via abdominal, três (maioria) realizaram o prénatal e parto em instituição privada, sendo essas com melhores condições socioeconômicas e nível de escolaridade, apresentando terceiro grau completo, sendo casadas, com apenas um filho. QUADRO 1: Caracterização da população de estudo SUJEITOS IDADE (EM ANOS) TIPO DE PARTO CONVÊNIO Tulipa Lírio Orquídea Açucena Hortênsia Begônia Camélia Amor Perfeito Gérbera 25 18 21 22 28 31 30 23 19 Cesárea Normal Cesárea Normal Cesárea Normal Cesárea Cesárea Normal Privado SUS SUS SUS Privado SUS Privado SUS SUS Nº DE FILHO S 1 2 1 1 1 4 1 1 1 ESCOLARIDAD E Superior Fundamental Médio Superior Superior Fundamental Superior Superior Fundamental Análise qualitativa – o encontro das categorias Segundo Bardin (2011), a análise de conteúdo pode utilizar o princípio de codificação do material extraído das entrevistas, e esta permite produzir um sistema de categorias. Nessa pesquisa, utilizou-se a categorização por condensação dos dados brutos e dados organizados no material das entrevistas. A análise de conteúdo realizada objetivou o encontro de categorias que pudessem responder a hipóteses traçadas para responder aos objetivos da pesquisa. A categorização empregou o processo de organização do material decorrente diretamente dos funcionamentos teóricos hipotéticos - procedimento denominado “Caixas”. Esta análise foi representada no quadro 2: QUADRO 2: Categorias de análise: resposta aos objetivos OBJETIVO Averiguar a percepção das mulheres relacionada aos tipos de partos, seus CATEGORIAS 1ª Categoria: A dor e o parto – a interseção a partir dos fatores culturais Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.622 benefícios e malefícios. Reconhecer as práticas e procedimentos realizados na experiência vivida no parto diante das diretrizes de humanização da assistência ao parto 1ª Rubrica de análise: O medo das dores 2ª Categoria de Análise: Parto normal: Não praticado, porém reconhecido. 3ª Categoria de Análise: Abuso das intervenções desnecessárias e descaso perante os direitos da parturiente. 4ª Categoria de Análise: A cultura da cesárea Identificar os fatores que influenciaram na escolha do tipo de parto a partir da experiência vivida na assistência perinatal. 5ª Categoria de Análise: Assistência pré-natal e sua importância para um parto digno e natural. 6ª Categoria de Análise: A escolha pelo tipo de parto 1ª Categoria de Análise: A dor e o parto – a interseção a partir dos fatores culturais A dor relacionada a situação da parturição é normalmente encontrada, já que historicamente muitas mulheres reforçam a valorização deste fenômeno. Antropologicamente a dor é resgatada por interpretações que remota da mitologia arcaica e em diferentes culturas que destacam a dualidade entre o bem e o mal, ou seja, a mulher fez o mal, sentirá dor (TEIXEIRA, OKADA, 2003). O processo doloroso sentindo, é caracterizado como uma reação psicológica que interfere diretamente nas sensações físicas. Ressaltando, que a dor que a parturiente sente no momento do parto é singular, ou seja, expõe-se de maneiras diferentes para cada mulher, potencializando-se ou não pela ansiedade, preparação para o momento, medo, parto passado e pelo suporte oferecido (LORDEWMILK; PERRY; BOBAK, 2002). Pode-se perceber este acontecimento nas falas abaixo: “De ruim as dores... É uma dor horrível, dói tudo, dói corpo, doíam costas, é horrível a dor. [...] não me lembro, a mãe falou tanta coisa... “(Begônia) “...Falavam que doía muito... Que quando a gente fosse fazer o parto normal, a gente já tava morrendo. Vendo Jesus! De tão doído que é...” (Lírio) 1ª Rubrica de análise: O medo das dores O medo potencializa-se perante o desconhecido. No caso do parto, parte da dor sentida advém das experiências de ancestrais, de relatos e vivências dos mesmos. O medo em sentir a dor do parto vaginal, existente no imaginário das mulheres, é potencializado pelo relato de vivência traumática do parto para algumas mulheres, Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.623 fazendo com que as gestantes observem o momento da parturição como psicologicamente traumático. (FIGUEIREDO, et al., 2010; REYNOLDS, 1997). “... Mais eu morria de medo de ficar sentindo dor e ter que esperar as contrações e tudo mais...” (Tulipa) “...Eu tinha muito medo de sentir dor de parto, tanto que duas vezes começou a doer minha barriga, fui correndo no médico...” (Camélia). 2ª Categoria de Análise: Parto normal: Não praticado, porém reconhecido O parto normal como já citado envolve muitas discussões, entre elas dois extremos. De um lado, a condenação de tal ato e sua associação com sofrimento, de outro, os seus benefícios, sendo esses inquestionáveis e reconhecidos. A via vaginal traz a possibilidade de um parto mais tranquilo, por não se tratar de um procedimento cirúrgico. Acarreta maior segurança, ora para o bebê, ora para a mãe, devido à diminuição do risco de sangramento pós-parto e a probabilidade de adquirir infecções é menor. Além disso, a recuperação é mais rápida comparada ao parto cesáreo (BRASIL, 2012). O grupo de puérperas participantes da pesquisa apresentou em sua maioria predileção pelo parto cesáreo, porém, demonstraram conhecimento e reconhecem as inúmeras vantagens do parto normal, e ainda estudaram as mesmas. “... Eu me informei de algumas coisas a recuperação da mulher é mais rápida, o leite desce mais rápido, a criança fica com maior resistência imunidade” (Hortênsia)... “ “... A recuperação é mais rápida, dois ou três dias você já está boa, parto normal é da natureza [...]e ainda, não precisa depender dos outros...” (Orquídea) Apesar de reconhecerem os benefícios, não são impulsionadas pelos médicos, e por algumas mulheres que tiveram a experiência ao realizarem o mesmo, preferindo firmar-se nas inúmeras crendices a cerca da parturição normal. Ressalta-se a importância do profissional médico, pois o mesmo exerce influência considerável no tipo de parto que a mulher realiza, podendo esse, desmistificar e orientar a mesma, para um parto natural. 3ª Categoria de Análise: Abuso das intervenções desnecessárias e descaso diante da assistência ao parto. O parto é um momento único e inesquecível na vida da mulher, dessa forma, o cuidado despendido pelos profissionais deve ser de forma singular, respeitando o protagonismo da mulher, tornando esse momento o mais natural possível. O corpo da mulher durante o parto vem sendo notado pelos médicos, como objeto de sua ciência e prática, dessa forma os cuidados com a mesma, seus sentimentos, percepções ficam deficientes (NAGHAMA;SANTIAGO, 2005). Nas falas das participantes da pesquisa, fica clara a ausência de preocupação com a mulher em si, onde a atenção médica fica restrita a prática do parto em si. “O médico foi bem estúpido comigo, eu não falava nada, só queria mesmo saber de me falar mal, dizia que eu não precisava fazer tanto escândalo, eu me senti muito mal com isso Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.624 “(Gérbera). “Não ele não me falou nada... Só chegou e me levou para a sala de parto,sem dizer nada “(LÍírio). 4ª Categoria de Análise: A cultura da cesárea Atualmente, existem concepções distorcidas a cerca do parto cesáreo, sendo esse visto como o parto seguro, ausente de dor. Seu uso é indiscriminado, devido à intensa medicalização, porém, esse “benefício” não abrange toda a população, ficando restrito às classes dominantes. A caracterização do parto cesáreo e sua associação com melhores condições, foi apresentado na pesquisa onde as cinco entrevistadas que tiveram seus filhos por via abdominal, três realizaram o pré-natal e parto em instituição privada, sendo essas com melhores condições socioeconômicas e nível de escolaridade, apresentando terceiro grau completo, sendo casadas, com apenas um filho. A mulher não sente dor, não sofre, fica mais calma, não precisa passar todas as dores, como eu tinha medo de sentir as dores falei para o médico, e ele respondeu não precisa ficar com medo, se você vê que começa as dores ligue para meu celular, que já vamos para a clinica e fazemos a cesárea...” (Camélia). A cesariana é vista como um parto conveniente a todos os atores nele envolvidos; aos obstetras por ser um parto considerado mais rápido, podendo atender mais mulheres e ainda apresenta maior domínio da prática exercida, ressaltando a medicalização que envolve a parturição, e por fim a mulher, onde essa poderá antecipar o nascimento, não sendo necessário sentir as contrações dolorosas, as quais são tão temidas pela mesma, sendo assim, o parto cesáreo ganha destaque na sociedade atual, onde a intervenção cirúrgica tornou-se banal, sendo vista como a forma mais rápida e segura de nascimento (LARGURA, 2012). 5ª Categoria de Análise:Assistência pré-natal e sua importância para um parto digno e natural No momento das consultas de pré-natal, as mulheres deveram receber informações sobre múltiplos assuntos, sendo um deles a expectativa do momento do parto, o médico deverá ajudar a gestante a amenizar suas angústias e medo em relação ao momento do parto, devendo ainda transparecer o quanto esse pode ser natural (SOARES et.al, 2009). No entanto, não é o que vem sendo observado na prática onde a atenção fica restrita à fisiologia, e as gestantes não são preparadas para o momento do parto, potencializando assim, seus medos perante o desconhecido. Dessa, forma as mulheres acabam priorizando as intervenções cirúrgicas por considerarem mais segura, essa decisão sendo apoiada na maioria das vezes pelo obstetra. É o que fica evidente nas falas abaixo: “Pedia exames, pesava, escutava o coração do nenê, mas nunca perguntou se eu queria Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.625 normal ou cesárea” (Gérbera) “Não ele não me falou nada, até um dia em que eu disse que tinha medo do parto normal, e ele respondeu: normal, não sei onde que isso é normal foi então que resolvi fazer cesárea” (Camélia) 6ª Categoria de Análise: A escolha pelo tipo de parto Com base nos relatos conseguidos através da pesquisa, observou-se que as mulheres vinculam o parto normal ao sofrimento, dor, espera, enquanto a cesárea é vista como meio de garantir a segurança tanto para mãe quanto para o bebê, e ainda torna-se mais confortável, visto que elas podem agendar a data escolhida e ainda não sentem as contrações uterinas, próprias do processo natural da parturição. No entanto, em algumas falas podem-se observar colocações positivas a respeito do parto natural sendo para essas, associado a melhor recuperação e independência. E o mesmo caso da cesárea, apesar da preferência da maioria das mulheres, essa foi associada a aspectos negativos. Entre esses, dor no pós-parto, dependência, questão estética Assim como ilustra as seguintes falas: “ ... Pela tranquilidade, tive a sensação assim que é tranquilo. Se eu for ter mais um filho com certeza vai ser cesárea...” (Hortênsia) “... Escolhi pelo fato que diziam que era mais fácil recuperar, era só aquela dor na hora” (Lírio) Considerações finais Ao final da pesquisa pode-se verificar que as mulheres criam expectativas durante o período gestatório sobre o momento do parto. Elas são influenciadas pelo meio sociocultural em que estão inseridas, pelas crenças e mitos familiares e ainda pela assistência prestada durante os meses de gestação. As mulheres apresentaram dificuldades em reconhecer benefícios e malefícios de cada via de parto, e este fato decorre da ausência de informações nas consultas de pré-natal, o que configura em assistência pré-natal estritamente fisiológica e tecnicista. Os relatos mostraram que as mulheres somente foram examinadas e orientadas superficialmente, e não foram preparadas para o momento do parto. O resultado da desinformação e má assistência pré-natal resultaram em experiências traumáticas e assustadoras do momento que deveria ser de amparo e positivo. No que diz respeito ao tipo de parto algumas mulheres vincularam o parto normal como algo doloroso, demorado e de risco, independente da circunstância, fazendo com que esse tipo de parto não pareça ser da sua natureza. No entanto, apesar de algumas não terem experimentado o tipo de parto em questão, elas reconhecem os seus benefícios para o binômio mão e filho, como por exemplo, o vinculo, imunidade adquirida pela criança e a melhor recuperação da mãe. A cesariana é vista por todas as puérperas do estudo, independente das que vivenciaram ou não essa via de parto, como tranquila, indolor e praticamente ausente de riscos, o que caracteriza a predileção pela cesárea na maioria dos casos. Algumas Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p.626 citaram como pontos negativos do parto cirúrgico a anestesia, e a recuperação mais demorada, porém, esses fatores não foram relevantes na hora de escolher a via de parto. Observou-se ainda na pesquisa que independente do tipo de parto e do local de realização ser público ou privado, todas as mulheres foram submetidas a práticas intervencionistas, entre elas: o enteroclisma, uso indiscriminado de ocitocina, restrição de posição, jejum, e a ausência de acompanhantes. A Política Nacional de Humanização proposta pelo Ministério da Saúde, visa tornar o parto um momento singular na vida da mulher, livre de práticas intervencionistas desnecessárias, fazendo com que esse momento seja o mais natural e humano possível. Porém, como já citado anteriormente, as mulheres foram submetidas a esses procedimentos, o que fere brutalmente o que a política busca. Em casos esporádicos utilizaram-se técnicas de alivio da dor como banho com água morna, deambulação, porém no decorrer do processo de parto, esses eram confrontados com as técnicas acima citadas, o que não caracteriza esses partos como humanos e totalmente naturais. Quanto à escolha pelo tipo de parto, a maioria das mulheres não foi questionada sobre sua preferência e acabou tendo que seguir o que o profissional médico impôs. As mulheres que puderam optar, o fator primordial que influenciou foi à dor,ou seja, o medo em senti. No caso do parto normal o medo refere-se a dor de parto propriamente dita, já em relação a cesárea há o medo do pos-cirurgico, Além disso, a cultura do parto cesáreo como indolor, o conforto de poder agendar e não precisar esperar as contrações, foi referenciado pelas mulheres que tiverem essa via, como primordial para a decisão pela cirurgia. Já o parto normal, apresentou como aspectos influenciadores a melhor recuperação, independência, e ausência de recursos financeiros para optar pelo outro tipo de parto. Contudo, a visão que as mulheres apresentaram em relação aos partos, sendo essas limitadas e distorcidas, são produtos da alta medicalização, e da ausência de cuidados e preparo para o momento dos mesmos, fazendo com que muitas vezes se torne algo traumático, e intervencionista, aumentando assim a incidência de cesárea, ofuscando a naturalidade e singularidade do momento do parto. Referências: AGÊNCIA Nacional de Saúde Suplementar (Brasil) – O Modelo de Atenção Obstétrica no Setor de Saúde Suplementar no Brasil: cenários e perspectivas. p. 95-126, Rio de Janeiro, 2008. BARDIN, L.. Análise de conteúdo 2 Laurence Bardin ; tradução [de] Luís Antero Reto, Augusto Pinheiro. São Paulo, SP: Edições 70, 2011. 279 p. BRASIL. Cirurgia cesariana pode trazer mais complicações e uma pior recuperação no pós-parto. Portal do Ministério da Saúde. Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=20911>. Acesso em: 18 jan. 2012. BRASIL. Ministério da Saúde. 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