3 VIVENCIANDO O CONTATO PELE A PELE COM O RECÉMNASCIDO NO PÓS-PARTO COMO UM ATO MECÂNICO VIVENCIANDO EL CONTATO PIEL A PIEL CON EL RECIÉN-NACIDO EN EL POSTPARTO COMO UN ACTO MECÂNICO EXPERIENCED THE SKIN TO SKIN CONTACT WITH NEWBORN IN POSTPARTUM AS A MECHANICAL ACT. 1 2 Luciano Marques dos Santos Jucélia Cavalcante Rodrigues da Silva 3 Santana, Rosana Castelo Branco de 4 Moreira, Valdimeires Santos 5 Cerqueira, Karolina Souza 6 Neves, Elton dos Santos 1 Enfermeiro. Mestre em Enfermagem. Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Desigualdades em Saúde (NUDES). Feira de Santana, Bahia, Brasil. Endereço para correspondência: Universidade Estadual de Feira de Santana, Departamento de Saúde. Av Transnordestina, SN, Novo Horizonte; CEP 44 036 900. Email: [email protected] 2 Enfermeira. Petrolina, Pernambuco, Brasil. E-mail: [email protected] 3 Estudante. Enfermeira. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Salvador, Bahia, Brasil. E-mail: [email protected] 4 Estudante. Curso de Graduação em Enfermagem da UEFS. Voluntária do NUDES. E-mail: [email protected] 5 Estudante. Curso de Graduação em Enfermagem da UEFS. Voluntária do NUDES. E-mail: [email protected] 6 Estudante. Curso de Graduação em Enfermagem da UEFS. Voluntário do NUDES. E-mail: [email protected] RESUMO Objetivou-se compreender a vivência da puérpera durante o primeiro contato pele a pele com o recém-nascido no pós-parto imediato, no centro obstétrico de um hospital público de uma cidade no interior da Bahia. É um estudo exploratório, descritivo e qualitativo, aprovado por Comitê de Ética e realizado com 14 puérperas, através de entrevistas semiestruturadas, no período de julho a agosto de 2011. Os dados foram analisados através da Teoria Fundamentada nos Dados, identificandose o fenômeno “Vivenciando o contato pele a pele como um ato mecânico” e suas três subcategorias “Incentivando só o contato”, “O contato como um ato mecânico” e “Sendo obrigada a iniciar o aleitamento materno”. O incentivo do contato pele a pele e aleitamento imediatos ocorrem de forma mecânica, sendo destacado só o contato, obrigando a puérpera a iniciar o aleitamento materno de forma brusca e repentina, não sendo respeitada sua vontade em executar ou não essa prática. 4 Descritores: Parto humanizado; enfermagem obstétrica; aleitamento materno; relações mãe-filho. ABSTRACT The objective was to understand the experience of postpartum during the first skin to skin contact with the newborn in the immediate postpartum period, the obstetric ward of a public hospital in a town in Bahia. It is an exploratory, descriptive and qualitative, approved by the Ethics Committee and conducted with 14 mothers, through interviews, in the period from July to August 2011. Data were analyzed using Grounded Theory, identifying the phenomenon "Living the skin to skin contact as a mechanical act" and its three subcategories "Encouraging only contact", "contact as a mechanical act" and "Being required to initiate breastfeeding". The incentive of skin contact and breastfeeding immediately occur mechanically, and only the highlighted contact, forcing the postpartum to initiate breastfeeding abruptly and suddenly, not being respected his willingness to run or not this practice. Descriptors: humanized childbirth; obstetric nursing; breastfeeding; mother and son relationships. RESUMEN Se objetivó comprender la vivencia de la puérpera durante el primer contacto piel a piel con el recién-nacido en el postparto inmediato, en el centro obstétrico de un hospital público de un ciudad del interior da Bahia. Es un estudio exploratorio, descriptivo y cualitativo, aprobado por Comité de Ética y realizado con 14 puérperas, a través de encuestas semiestructuradas, en el período de julio a agosto de 2011. Los datos fueron analizados a través de la Teoría Fundamentada en los Datos identificándose el fenómeno “Vivenciando el contacto piel a piel como un acto mecánico” y sus tres subcategorías “Incentivando sólo el contacto”, “El contacto como un acto mecánico” y “Siendo obligada a iniciar el amamantamiento materno”. El incentivo del contacto piel a piel y amamantamiento inmediatos ocurren de manera mecánica, siendo destacado sólo el contacto, obligando la puérpera a iniciar el amamantamiento materno de manera brusca y repentina, no siendo respectada su voluntad en ejecutar o no esa práctica. Descriptores: Parto humanizado; enfermería obstétrica; amamantamiento materno; relaciones madre hijo. INTRODUÇÃO O atual estado da arte relacionado ao aleitamento materno aponta para o valor do leite materno como fonte nutricional adequado para a criança, entende-se que essa prática é um direito da sociedade, sendo, portanto dever do estado incentivar e proteger essa técnica natural como patrimônio público e riqueza da nação(1). Por isso, para reduzir as taxas de morbimortalidade e obter um progresso na qualidade de vida das crianças menores de cinco anos nos países em desenvolvimento, a Organização Mundial de Saúde (OMS) juntamente com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) vem apoiando e incentivando o aleitamento materno como uma ação básica de saúde para alcançar essa melhoria(1). Em 1990 a OMS, juntamente com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), organizou um encontro em Florença, Itália com o intuito de 5 desenvolver propostas que promovessem e apoiassem a amamentação. Nesse encontro foi elaborado o documento “Aleitamento Materno na Década de 90: Uma iniciativa Global” onde abordava um conjunto de metas denominado “Declaração de Innocenti” que resgatava o direito da mulher de aprender e exercer a prática da amamentação com êxito de forma exclusiva até os seis meses de idade e complementado com outros alimentos até os dois anos (2). Além da “Declaração de Innocenti”, nesse encontro foi idealizada a "Iniciativa Hospital Amigo da Criança" (IHAC) que abrange os “10 passos para o sucesso do aleitamento materno” com o intuito de nortear as nutrizes sobre os benefícios da amamentação bem como de sensibilizar os profissionais de saúde para mudanças nas suas condutas que pudessem vir a interferir a amamentação(3). Neste estudo dá-se ênfase ao quarto passo da IHAC, que versa sobre a ajuda às mães a iniciar o aleitamento materno na primeira meia hora após o parto com o propósito de incentivar o contato precoce entre mãe e filho após o nascimento. Este deve perdurar até a primeira mamada, ou pelo tempo que a puérpera determinar. Esse primeiro contato facilita a adaptação do recém-nascido no seu novo espaço de vida e é avaliado como uma potente conduta da promoção do aleitamento materno precoce(4). Além disso, tal passo favorece a sucção precoce que irá estimular a produção láctea através da incitação pela hipófise para a produção de prolactina e ocitocina que terá efeitos sobre a involução uterina mais rápida e menor sangramento. Além disso, incentiva o vínculo afetivo entre mãe e filho nas primeiras duas a três horas de vida, especialmente se houver contato pele a pele, caracterizando-se como um fator importante na colonização da pele do recém-nascido através da flora bacteriana materna(4-5). Ainda, acalma o recém-nascido, auxilia na estabilização sanguínea, dos batimentos cardíacos e respiração da criança; diminui o choro e o estresse do bebê resultando em menor perda de energia e o mantém aquecido pela transmissão de calor de sua mãe(5). Para tanto, é importante incentivar o quarto passo da IHAC, no período em que o recém-nascido e a mãe estão em estado de alerta e interagindo de forma natural para que assim possa existir o primeiro contato e consequentemente o reflexo da busca e sucção por parte do bebê ao seio materno, já que após o parto, normalmente o recém-nascido adormece por prolongado tempo dificultando assim o estabelecimento do contato precoce(4-6). Na visão humanizada dos cuidados prestados ao recém-nascido ainda na sala de parto, o contato pele a pele precoce entre mãe e filho tem prioridade em relação aos procedimentos de rotina desempenhados no pós-parto imediato em bebês de baixo risco. Assim, impediria separações desnecessárias entre mãe e filho, o que poderia prejudicar o aleitamento materno e a aproximação ao seu filho(7). A partir da vivência acadêmica e profissional em uma maternidade pública do interior da Bahia, foi possível perceber empiricamente que o incentivo do quarto passo ocorria de forma protocolada e rotineira, pois após o parto, os profissionais de enfermagem priorizavam os cuidados imediatos ao recém-nascido, que só era apresentado à sua genitora após a prestação destes cuidados imediatos, levando uma média de 1 hora ou mais para estabelecer o primeiro contato pele a pele, emergindo assim a seguinte questão: como a puérpera vivencia o contato precoce com o recém-nascido no pós-parto imediato? Sendo assim, este estudo teve como objetivo compreender a vivência da puérpera durante o primeiro contato pele a pele com o recém-nascido no pós-parto 6 imediato, no centro obstétrico de um hospital público de uma cidade no interior da Bahia. METODOLOGIA Realizou-se um estudo do tipo exploratório, descritivo e qualitativo na maternidade pública de uma cidade do interior da Bahia, escolhida por ser uma organização hospitalar de referência para atenção humanizada à mulher em processo parturitivo. Participaram deste estudo 14 mulheres selecionadas mediante os seguintes critérios de inclusão: puérperas de partos simples, natural e em vértice; contato com o recém-nascido na primeira meia hora de vida no parto atual e idade superior a 19 anos. Este estudo seguiu os preceitos da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Vale do São Francisco, sob o parecer n° 2505201115. Os princípios éticos foram contemplados no desenvolvimento deste estudo para proteger os direitos das participantes durante o processo de coleta dos dados, já que a participação dos sujeitos da pesquisa deu-se em conformidade com a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, autorizando a reprodução e divulgação das informações colhidas, prezando pelo anonimato dos informantes. As puérperas foram identificadas com a letra P seguida de um número indicando a ordem de realização da entrevista. A coleta dos dados foi realizada no período de julho a agosto de 2011, através de entrevistas semiestruturadas. Para realizar as entrevistas foi utilizado um roteiro divido em duas partes: a primeira parte fez a caracterização sócio-demográfica (raça/cor; idade e escolaridade) e gestacional (número de gestações e partos). A segunda parte foi composta por duas questões norteadoras, a saber: descreva para mim como foi para a senhora ter contato pele a pele com seu filho depois do seu parto. Como a senhora se sentiu ao realizar este contato? A fim de proceder à análise dos dados empíricos foi utilizada a Teoria Fundamentada nos Dados (TFD), a qual configura-se como uma técnica em que há uma combinação de abordagens que visa identificar, desenvolver e relacionar conceitos, gerando construtos teóricos relativos a um fenômeno(8). O quantitativo de sujeitos nesse tipo de análise não é pré-determinado, mas sim analisados de acordo com a saturação teórica, ou seja, os dados são coletados e analisados concomitantemente, possibilitando a emersão de possíveis grupos amostrais. Essa comparação constante permite a coleta de dados até o ponto em que nenhuma outra informação acrescenta ou modifica as já existentes, partindo então para a análise mais profunda e sistematizada dos dados que se executa em três etapas que se seguem sem o impedimento de voltar para as anteriores(9). Na primeira etapa, denominada codificação aberta, o pesquisador codifica as falas transcritas em todas as categorias possíveis, ou seja, todos os dados são aproveitados. Na etapa da codificação axial, ocorre a redução das categorias, pois o investigador realiza a integração das mesmas, elaborando conexões entre as categorias e subcategorias. Na codificação seletiva, após análise das categorias, é formulada a categoria central que servirá como referência para as demais categorias(10). 7 Após a coleta, codificação e análise dos dados, foi identificado o fenômeno central do estudo “BUSCANDO O CONTATO PELE A PELE E O ALEITAMENTO IMEDIATO PARA SENTIR-SE UMA VERDADEIRA MÃE”. Este artigo abordará a categoria “Vivenciando o contato pele a pele como um ato mecânico” e suas três subcategorias “Incentivando só o contato”; “O contato como um ato mecânico” e “Sendo obrigada a iniciar o aleitamento materno”. RESULTADOS A prática obstétrica atual tem potencializado o desempenho de um exercício profissional pautado em referenciais que priorizam o desenvolvimento de habilidades técnicas, em prol de uma atenção que envolva as demandas emocionais das mulheres em processo parturitivo. A organização desta prática tem proporcionado um contato breve entre a puérpera e seu filho após o parto, ainda na unidade de centro obstétric o, tendo em vista que os trabalhadores da saúde necessitam cumprir normas e rotinas institucionais. Nesta prática, “Incentivando só o contato” representa a primeira experiência de aproximação entre mãe e filho no pós-parto imediato, proporcionada pelos trabalhadores da saúde. Tal incentivo ocorre imediatamente após a saída da placenta e demais anexos fetais, não sendo considerado o seu consentimento para a realização deste cuidado e suas condições pós-parto. Colocaram ela de buço tão rápido que eu nem tive tempo de pensar no que estava acontecendo[...]. (P01) Após o parto colocaram ele em cima da minha barriga de papo pra cima e não me falaram nada. (P02) Colocaram ela em cima do meu peito [...] e deixou ela (o recém-nascido) em cima de mim.(P03) Na vivência deste contato inicial, as puérperas não experienciaram o verdadeiro contato pele a pele com o filho, pois os trabalhadores da saúde utilizaram cobertores neonatais como uma forma de proteger o recém-nascido da perda de calor ocasionada pela temperatura da sala de parto, “Incentivando só o contato”. Ainda, nesta aproximação inicial, o contato entre mãe e filho ocorre como uma forma da mulher perceber a presença da criança, o que ocasiona alguns sentimentos como o medo e a insegurança no desempenho da função materna. Colocaram normal mesmo. Colocaram aqui no meu peito [...]. (P10) Normal. Colocaram ele enrolado num paninho [...] Deitadinho de lado em cima de mim. (P11) Eles (alguém da equipe de enfermagem) enrolaram ela numa fraldinha e me deram ela do jeito que ela tava assim, sem roupa também na sala de parto, após o parto [...] daí eu fiquei com muito medo, pois eu não sabia por onde começar.(P07) Quando ele nasceu colocaram em cima de mim, de lado e toda enroladinha no pano, para sentir esse primeiro contato [...] fiquei com medo, é estranho neste primeiro momento. (P12) 8 Neste movimento, como consequência do processo “Incentivando só o contato” a puérpera se vê diante da situação de ter que realizar o seu contato pele a pele com o filho, sendo apoiada pelo seu acompanhante. Quem colocou ele no meu peito foi eu aqui na sala depois do parto. Ela (alguém da equipe de enfermagem) bota em cima pra ficar um pouquinho. Mas ela não mamou. (P09) Eu coloquei ele assim de lado, com ajuda da minha mãe. Só deixaram ela (o recém-nascido) do meu lado e pronto. Eu fui que tive que colocar ela para sentir o seu cheiro e vê se era minha mesmo. (P04) Por isso, a forma como é estimulada a interação inicial entre mãe e filho, faz com que a puérpera perceba a prática do incentivo do Quarto Passo da IHAC como “O contato como um ato mecânico”. “O contato como um ato mecânico” representa a interação inicial das puérperas com os trabalhadores da saúde envolvidos na atenção obstétrica, de forma impessoal, na qual a experiência do primeiro contato com o filho após o parto representa uma ação profissional automática e mecânica, apesar da IHAC propor com o seu quarto passo para o “sucesso da amamentação”, ajudar as mães a iniciar a amamentação na primeira meia hora após o parto(2). Para não delongar o tempo de permanência na sala de parto, nota-se que os profissionais preocupam-se em prestar os cuidados ao recém-nascido imediatamente após o parto e deixam para segundo plano o quarto passo da IHAC. Dessa forma, o contato é visto como algo mecânico e de forma rápida para não atrapalhar o papel dos trabalhadores que atuam na sala de parto. [...] aí ela ficou em cima de mim, mas não mamou. Ela já veio para mim quando me botaram na cadeira de rodas. Elas (as técnicas de enfermagem) deram os primeiros cuidados e depois colocaram do meu lado. (P03) Eles (alguém da equipe de enfermagem) enrolaram ela numa fraldinha e me deram ela do jeito que ela tava assim, sem roupa também na sala de parto, após o parto [...] parece que é uma coisa meio assim forçada para ela, pois é tudo rápido e não falam nada para a gente. (P07) Após o parto (depois da prestação dos cuidados imediatos ao recém-nascido) colocaram a criança em cima da gente [...] coloca em cima da gente entre o braço da gente, aí nos seios, aí eles ensina como pegar no seio para poder amamentar. (P08) Esta vivência ocorre também na assistência puerperal, pois a equipe de saúde, muitas vezes, não avalia as condições maternas que possam prejudicar a realização do contato inicial entre mãe e filho, tais como a sutura perineal, transformando esta vivência do “contato como um ato mecânico”. [...] quando colocaram ela (o recém-nascido) em cima de mim ainda tava (o profissional que acompanhou o parto) mexendo em mim fazendo a costura aqui em baixo (apontando para o local da episiotomia). (P01) Após o parto eu estavam muito esgotada e mesmo assim elas (as técnicas de enfermagem) colocaram o meu bebê em cima de mim [...]. (P08) Dessa forma, a puérpera se sentiu como se estivesse “Sendo obrigada a iniciar o aleitamento materno” de forma brusca e repentina, o que contribuiu para 9 que ela deixasse de lado a emoção da descoberta de um ser que foi esperado por tanto tempo. [...] aí ela esfomeada agarrou o peito com força [...] aí pronto, aí começou a mamar [...] Ela conseguiu mamar na sala de parto mesmo. (P01) [...] ele também já saiu morrendo de fome mamando no dedo [...] Depois eu levantei aí sentei aí dei o peito a ele. Mamou! Na mesma hora que eu botei ele agarrou. (P06) Quem colocou ele no meu peito foi eu aqui na sala depois do parto. Ela (alguém da equipe de enfermagem) bota em cima pra ficar um pouquinho. Mas ela não mamou. (P09) “Sendo obrigada a iniciar o aleitamento materno” representa também, um movimento materno decorrente da solicitação profissional, mediante condições de trabalho e complexidade da dinâmica da unidade de centro obstétrico. [...] pediram para eu amamentar ele [...] Eu coloquei, mas ele não quis mamar. (P10) Colocaram ele com a cabeça entre os dois seios, colocaram em pezinho em cima de mim, aí eu deitei ele e fui tentar dar o peito a ele [...] no início ele não queria, ele tava rejeitando, mas depois quando ele pegou a prática, pronto, mamou. (P14) Assim, após a prestação dos cuidados iniciais ao recém-nascido, os trabalhadores da saúde devolvem o neonato para a puérpera, que ainda sem estrutura e condições físicas para realizar o processo de amamentação, se vê diante da possibilidade de experimentar o primeiro contato com o filho, mesmo que este seja realizado em cadeiras de roda. [...] aí ela ficou em cima de mim, mas não mamou. Ela já veio quando me botaram na cadeira de rodas foi que ela veio mamando. (P03) [...] Sentei na cadeira de rodas e ela ficou amamentando lá mesmo até vim pra o quarto. (P07) A promoção do contato pele a pele entre mãe e filho deve ser estimulada desde os primeiros trinta minutos de vida assim como preconiza o quarto passo da IHAC. Para que esse processo ocorra de forma eficaz, é necessário levar em consideração a individualidade na qual se encontram os atores, mãe e filho, nesse momento único(5). As puérperas não foram questionadas quanto à pretensão e disposição física e emocional de iniciar o contato e a amamentação imediatamente na sala de parto. Porém, o contato é realizado mesmo diante de circunstâncias que não proporcionem conforto adequado para a mãe e o filho. Dessa forma, é evidente a atuação dos profissionais de saúde de forma firme e incisiva frente às puérperas para que as mesmas iniciem a amamentar o seu filho ainda na sala de parto. DISCUSSÃO Este estudo revelou-nos algumas fragilidades dos trabalhadores de saúde ao exercerem sua função na sala de parto, enquanto incentivadores do primeiro contato entre mãe e filho após o parto. De acordo com as falas das puérperas, os membros da equipe de enfermagem expõem os recém-nascidos sob o tórax ou abdômen materno sem se preocupar com medidas mínimas que possam ajudar nesse primeiro contato como 10 ambiente tranqüilo, posicionamento da mãe e tempo livre para o primeiro contato e não solicitam o seu consentimento para realização deste cuidado. Um breve contato é oportunizado, deixando as puérperas com suas dúvidas e anseios, pois não tiveram tempo suficiente para o reconhecimento pessoal do seu filho através do tato e do seu cheiro, características mínimas que são valorizadas por elas, nesse curto espaço de tempo. Além disso, observa-se que não é considerado o tempo de permanência de contato entre a pele materna e a do recém-nascido, conforme preconizado pelo quarto passo da IHAC, já que os recém-nascidos são colocados em contato com as mães imediatamente após o parto como parte de uma norma institucional, não dando tempo suficiente para a puérpera tocar e sentir o seu filho. A realidade observada nos revela que após o parto, os trabalhadores da saúde desempenham suas intervenções fundamentadas pelo modelo biológico do cuidado, desvalorizando os fatores emocionais que contribuem para o adequado contato pele a pele. Neste sentido, o cuidado integral e individualizado da mulher e do recém-nascido ocupa o segundo plano, ocasionando a perda do verdadeiro valor simbólico do momento do parto, tornando-o ato mecânico(11-12). Alguns motivos fundamentam a configuração da assistência como automática, destacando-se a precisão em prestar o cuidado de forma rápida e a rotina do centro obstétrico, permitindo que a mulher veja o seu filho apenas por alguns segundos após o parto, ocorrendo somente o incentivo do contato, pois é priorizada a realização dos cuidados ao recém-nato (11-12). Entretanto, sabe-se que na assistência ao recém-nascido normal, que constitui a maioria das situações, nada mais deve ser feito além de enxugar, aquecer, avaliar e entregar à mãe para um contato íntimo e precoce, já que após o nascimento, o recém-nascido passa por uma fase denominada inatividade alerta, com duração média de quarenta minutos, na qual se preconiza a redução de procedimentos de rotina(7-13). Nesta fase, o contato mãe-filho deve ser promovido e estimulado, por tratarse de um período de alerta que serve para o reconhecimento entre mãe e filho, ocorrendo a exploração do corpo da mãe pelo recém-nascido(5). Mesmo que após o parto ocorra a primeira separação entre mãe e filho, não acontece a suspensão da relação que foi instituída antes e durante o período gestacional, já que posteriormente ao nascimento, é identificado um momento em que acontece a interação com o recém-nascido e a sua mãe, na qual a puérpera torna realidade sua imaginação em relação ao bebê e a sua conduta enquanto mãe(14). Faz-se válido ressaltar que é no primeiro contato pele a pele que a mãe concretiza, não por relatos dos profissionais e sim por sua própria percepção, o delineamento físico do seu filho que foi imaginado ao longo da gestação. Logo, a efetivação deste contato transmite tranquilidade e segurança, pois neste momento ela pode sentir, ver e segurar o seu bebê, e toda ansiedade e curiosidade podem ser resolvidas(5). Se por um lado, na prática do estímulo ao quarto passo da IHAC, pode-se observar o despreparo de algumas mulheres para realizar o primeiro contato com o filho, visto que ela poderá encontra-se cansada após a energia liberada no processo do trabalho de parto e no próprio parto. Por outro, nota-se que o estado físico e emocional em que a mulher se encontra após o parto nem sempre é analisado pelos trabalhadores da saúde como critério para o estímulo do contato pele a pele, visto 11 que a puérpera não é interrogada quanto a sua disponibilidade para iniciar este processo imediatamente após o nascimento (15). Certamente, a decisão final sobre a realização de determinadas práticas é exclusiva do obstetra presente ou responsável pela condução do parto, o qual possui qualificação adequada para avaliar a necessidade de intervenção e evitar complicações no parto. Porém, é necessário destacar que a rotinização de determinados procedimentos, sem o consentimento das mulheres e sem uma informação adequada a estas, representa a desconsideração da parturiente como sujeito desse processo(16). Por isso, desconsiderar o consentimento da puérpera neste momento pode representar uma violação do direito de exercício seguro da maternidade, no que se refere á emissão de opinião sobre os eventos relacionados ao parto e direcionados ao seu corpo físico, evidenciando-se o descumprimento dos princípios éticos de nãomaleficiência e autonomia. Portanto, durante o processo conturbado do parto, o exercício do quarto passo da IHAC pode vir acompanhado de dúvidas e incertezas em relação à capacidade da puérpera em amamentar o seu filho e exercer a maternagem (14). Como consequência desta prática as puérperas buscam por conta própria o início da amamentação de seu filho, mesmo que seja e condições adversas tais como a situação física decorrente da atenção obstétrica medicalizada. Este movimento da puérpera pode ser decorrente da pressão social que lhe é imposta pelos trabalhadores da saúde, da própria família e da sociedade. Dessa maneira, a lactante é imposta a fazer a opção pela alimentação do filho, sendo obrigada a exercer a prática do aleitamento materno em prol de vantagens para a criança, pondo em segundo plano as circunstâncias que poderão dificultar este processo(17). Mesmo assim, é primordial que as puérperas sejam empoderadas a amamentar ainda na sala de parto, respeitando suas particularidades e diversidades socioculturais, sendo elas consideradas como sujeitos durante o ato de amamentar na primeira hora de vida e este não deve ser considerado como mais um procedimento ao qual a mulher seja submetida em prol de um ideário de humanização(18). Por isso, nota-se que os princípios da medicalização da assistência à parturiente e ao nascimento fundamentam o processo de trabalho neste estabelecimento de saúde, no qual a invasões na fisiologia do processo de parto e nascimento, alterando o curso natural destes processos, expõe as mulheres e seus filhos às conseqüências de uma atenção impessoal e que não valoriza o aspecto individual e as demandas pessoais. Cabe aos trabalhadores da saúde apoiar o contato precoce, proporcionando tempo e ambiente tranqüilo, conforto físico e emocional, ajudando a mãe a posicionar-se confortavelmente; observar o estado de alerta e procura do bebê, enfatizando os comportamentos positivos; beneficiar a confiança materna e evitar técnicas que apressem o bebê na amamentação (4-5). Assim, é fundamental a atuação humanizada dos trabalhadores da saúde, pois estes podem promover e estimular este cuidado quando posterga os cuidados imediatos ou dificultar esse processo ao desrespeitar a fisiologia do recém-nascido e não levar em consideração as condições maternas após o processo parturitivo (5). CONCLUSÕES 12 Foi observada no fenômeno “Vivenciando o contato pele a pele como um ato mecânico” que o contato entre mãe e filho é realizado de forma mecânica, transformando o quarto passo da IHAC num breve contato entre mãe e filho, no qual a mulher não possui autonomia suficiente para exercer o papel de agente do processo e conduzir esse momento único. Os dados empíricos demonstraram que mãe e filho são separados bruscamente no pós-parto imediato em prol da realização de cuidados rotineiros com o recém-nascido, não sendo considerado este momento como um espaço necessário e de intimidade entre a mulher e o recém-nascido. É realizado um contato rápido, o que leva as puérperas a iniciar, sem apoio, o aleitamento materno de forma brusca e repentina não sendo respeitada sua vontade em executar ou não essa prática. Considera-se que na promoção do contato pele a pele e do aleitamento na primeira meia hora de vida, deve-se valorizar a opinião das mulheres envolvidas nesta prática, pois estas são co-responsáveis pelo sucesso das condutas preconizadas para a humanização da atenção obstétrica. Por isso, é necessário o debate constante com os trabalhadores da saúde sobre suas crenças e valores que possam interferir na prática do incentivo do quarto passo da IHCA, bem como emponderar as mulheres desde a atenção pré-natal para que elas possam exercer a maternagem com segurança e consciência. Assim, a realização desse estudo foi relevante, pois os resultados empíricos poderão contribuir com a reflexão dos profissionais responsáveis pelo incentivo e cuidado à puérpera quanto à forma como prestam o cuidado à mulher no pós-parto, para que assim possam traçar estratégias que possibilitem o estímulo ao início da amamentação na sala de parto. Além disso, o presente estudo poderá contribuir com o saber e o fazer da enfermagem obstétrica, estimulando a realização de novas investigações empíricas decorrentes de lacunas do mesmo, tendo em vista a incipiente publicação do conhecimento relacionado ao objeto estudado. REFERÊNCIAS 1. Issler, H. O aleitamento materno no contexto atual: políticas, prática e bases científicas . São Paulo: Sarvier, 2008. 2. Rego, J. D. Aleitamento Materno. São Paulo: Atheneu, 2001. 3. Santos, V. L. F.; Soler, Z. A. S. G.; Azoubel, R. Alimentação de crianças no primeiro semestre de vida: enfoque no aleitamento materno exclusivo. Rev. Bras. Saúde Matern. Infant, Recife, PE, v. 5, n. 3, p. 283-291, jul./set. 2005. 4. Monteiro, J.C.S.; Gomes, F.A.; Nakano, A.M.S. Percepção das mulheres acerca do contato precoce e da amamentação em sala de parto. Acta Paul Enferm. São Paulo. 2006; 19 (4): 427-32. 5. Matos TA, Souza MS, Santos EKA, Velho MB, Seibert ERC, Martins NM. 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