Lazer: concepções intrínsecas nos pacotes turísticos receptivo em Belém/PA
Maraísa Andrade de Castro1
Cleber Augusto Trindade Castro2
Resumo: O processo de transformação industrial marcou a conquista de um tempo de não trabalho maior, assim
deu-se vazão ao lazer enquanto direito social. Na atualidade, o turismo é bastante apreciado como possibilidade
de lazer, sob outra perspectiva, o lazer faz-se a essência da prática turística. É nessa tênue relação que se
problematizou de que forma o lazer estaria inserido em pacotes de viagem. Objetivou-se levantar tais relações, e
de maneira específica, identificar concepções de lazer intrínsecas, assim como caracterizar o lazer que estaria
inserido nos roteiros programados por agências de viagem. Trata-se de uma pesquisa documental, com base
teórica no enfoque histórico-crítico, de caráter explorativo/descritivo, que sob abordagem qualitativa, analisa
descritivos de passeios e pacotes turísticos, coletados em três agências localizadas em Belém-PA. No âmbito dos
interesses culturais do lazer e da segmentação turística, encontraram-se diversos cruzamentos complexos,
explanados de forma a equilibrar um direito social na visão do consumo.
Palavras-chave: Lazer. Turismo. Viagens.
Introdução
Para eleger abordar o lazer no âmbito do turismo, seja ele enquanto teoria ou prática, faz-se
necessário debater contradições e embasar-se de argumentações que consigam sustentar a
perspectiva de tecer uma análise sobre a apropriação de um direito social conquistado, por parte de
um fenômeno social que se desenvolve traçado por expectativas mercadológicas.
Em vista da escassez de estudos que tracem relações entre lazer e turismo sob a perspectiva do
primeiro, assim como uma abordagem mais analítica do lazer dentro dos pacotes turísticos; encontrouse como problemas: de que forma o lazer seria concebido em pacotes turísticos? E, que lazer(es)
pode(m) ser encontrado(s) em roteiros programados de viagem?
Objetivou-se, de forma geral, levantar relações entre as diversas possibilidades de lazer em
meio a alguns diferentes segmentos do turismo; considerando ambos como práticas sociais, sendo
concebidas a partir da ideia do trabalho e da divisão social do tempo. Enquanto objetivação específica,
busca-se identificar concepções de lazer intrínsecas em pacotes e passeios turísticos, assim como
caracterizar de que forma o lazer estaria inserido em roteiros programados por agências de viagens.
A pesquisa está pautada na análise documental proposta como método de pesquisa, em que os
pacotes em estudo são resumidamente descritos e analisadas simultaneamente em uma abordagem
qualitativa dos dados; encerrando-se na caracterização do(s) lazer(es) intrínseco(s), considerando-se os
interesses culturais do lazer. Há ressalvas com relação à linguagem turística, intencional, para incitar o
sujeito à criação de expectativas sobre a vivência de experiências ímpares.
1
Especialista em Lazer, Turismóloga, professora substituta do Polo Avançado de Vigia de Nazaré do Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia do Pará. E-mail: [email protected].
2
Mestrando em Geografia, Turismólogo, professor Campus Breves do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do
Pará. E-mail: [email protected].
1
1 Linha tênue entre o Lazer e o Turismo
Para delimitar o que se concebe enquanto lazer, partiremos historicamente do processo de
transformação dos meios de produção, marcado pela Revolução Industrial, ocorrida no século XVIII,
que alterou não somente a estrutura do que se tinha enquanto indústria e os modelos de fabricação,
mas as relações de trabalho e mesmo as sociais.
No início do processo de industrialização não havia respeito ao tempo de não trabalho; a
burguesia, em ascensão no sistema de castas, incumbia-se de manter a “ordem”, amparada pela Igreja,
em certos momentos da história, que assumia a responsabilidade de estabelecer o conformismo acerca
das diferenças sociais respaldando-se na máxima de que “o trabalho enobrece o homem”,
supervalorizando a atividade trabalhista, recriminando o ócio.
Em posterior período da história, após muitas revoltas, a burguesia, pressionada pela classe
operária, vê-se obrigada a ceder maior tempo liberado de trabalho aos subordinados, e são criadas as
primeiras regulamentações promulgadas em leis trabalhistas. Antes dessa época não há indícios de
divisão social do tempo, como se trabalho e vivência social fossem contínuos.
Todavia, cresce a preocupação, por parte das elites, do controle social sobre o tempo de não
trabalho das camadas populares em vista do aumento do mesmo; ações remetidas à política de “pão e
circo” da antiguidade são incentivadas e postas em prática, visando a desarticulação da população por
meio da distração e alienação em prol da manutenção da estrutura socioeconômica estabelecida.
A própria elite, nesse contexto, descobre formas de lucro por meio da comercialização de
espetáculos, conforme Melo e Alves Junior (2003). Assim, o tempo liberado do trabalho começa a ser
visto, além de necessário para restauração das forças de trabalho, como propício para o consumo de
bens materiais e imateriais, e passa a ser valorizado enquanto grande aliado do mercado.
Sobretudo, aquela mesma Revolução trouxe à sociedade uma nova forma de organização do
tempo, conforme Castelli (1990); a cronometragem passou a ser fundamental na vida cotidiana, e sua
relevância na modernidade é reconhecida como aspecto essencial para organização e planejamento
vital em todos os âmbitos da sociedade.
Faz-se interessante ressaltar, que o tempo livre, legalmente defendido, visto o lazer enquanto
direito social - previsto na Constituição Brasileira sob o Artigo 6º em que “são direitos sociais a
educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à
maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição” – o qual, por
vezes é marginalizado frente ao trabalho e às obrigações sociais, levando o sujeito a adaptar suas
atividades livres ao tempo que lhe resta e não dividir seu tempo livre entre as que elege para sua
satisfação.
Contudo, enfatiza-se que a conquista de um período maior de tempo não dedicado ao trabalho
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ao longo da história, não o coloca em contraponto à atividade trabalhista, mas proporciona aos
trabalhadores o direito à liberdade de reflexão e ação; trata-se da valorização psicossocial do lazer,
assim pode-se dizer que ambos interagem para o equilíbrio do sujeito, agem justificando-se
reciprocamente.
Entende-se o trabalho, independente de profissão, enquanto atividade necessária para o
provimento de recursos em prol da própria sustentação ou de outrem dependente. No caso de
estudantes, independente de faixa etária, Camargo (1989, p. 78) esclarece que “ora, com a escola
ocorre fenômeno idêntico ao do trabalho: a da incompatibilidade de ritmo entre a aspiração individual
e o modelo imposto de obrigação”; assim poderíamos considerar o tempo de estudo deles como
tempo necessário.
Independente de duração, de cronometragem, o tempo é fator determinante para prática do
lazer; e a ausência de disposição dele, em decorrência do trabalho, provavelmente seja o maior motivo
de queixa por parte dos sujeitos que, em geral, sentem os malefícios de uma vida conflituosa com
escassas oportunidades de lazer.
Dentro da bibliografia clássica sobre lazer, encontra-se a seguinte definição:
[...] um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre
vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda,
para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social
voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das
obrigações profissionais e sociais. (DUMAZEDIER apud GOMES, 2004, p. 121).
É creditado ao autor francês Joffre Dumazedier, conforme Gomes (2004, p. 120), a proposição
de “um sistema de caracteres específicos e constituintes do lazer”, sendo eles: caráter liberatório;
caráter desinteressado; caráter hedonístico e caráter pessoal.
Alega-se ao mesmo autor a formulação dos aspectos do lazer, conhecidos como 3 D’s, sendo
eles: descanso, divertimento e desenvolvimento. Assim como a divisão base do lazer em 5 interesses:
físicos, artísticos, manuais, intelectuais e sociais; que são classificados, conforme Melo (2004), por
seus “conteúdos culturais”, em que o teor central da atividade designa a qual interesse a mesma
pertencente.
Referindo-se aos caracteres, incidir ao lazer um caráter liberatório, remete à liberdade de escolha
e de planejamento sobre o que se vai ou não fazer; também pode ser relacionado à atitude liberada de
obrigações rotineiras. Há autores que contestam a existência de um tempo realmente livre de coações
em que se possa exercer a livre expressão de pensamento e sentimento, visto que se vive em uma
sociedade ditada por regras morais e comportamentais. Ainda assim, acredita-se que mesmo dentro de
padrões estabelecidos ou de opções restritas, exista determinada liberdade de eleição e ação.
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Com relação ao caráter desinteressado, traz a idealização de que a disposição para o lazer
deveria ocorrer sem um interesse fundamental, seria uma entrega voluntária, independente, devendo
justificar-se em si mesmo. Há contestação a respeito de atividade(s) livre(s) de qualquer interesse,
ainda que não aparente, direto ou indireto, momentâneo ou futuro.
Camargo (1989, p. 11), exprime que “toda ação obedece a algum interesse, claro ou
disfarçado”, entretanto considera que ainda assim, no âmbito do lazer, pode-se exercitar o “fazer-porfazer”, sem que haja algum ganho financeiro ou seja descaracterizada a ação.
Relacionando-se ao caráter hedonístico, remete-se a ideia de “busca pelo prazer”, que pode ser
proporcionado pela contemplação ou ação em si, o que dá ao sujeito a sensação de felicidade,
consequentemente, de saciedade. Considera-se que esse caráter, conforme Camargo (1989), permite
ao sujeito até demandar esforço inicial em prol de algo tido como bem maior; a atitude para o lazer
não deveria visar, a princípio, como fim único o prazer, essa sensação, poderia ser experimentada ou
não pela vivência, sem necessariamente a descaracterização de uma dada satisfação.
No que diz respeito ao caráter pessoal, nesse aspecto, desencadeia-se os 3 D’s, em que
descanso, divertimento e desenvolvimento de personalidade seriam as 3 funções possibilitadas pelo
lazer frente às obrigações primárias da sociedade. Essas funções também poderiam ser transmitidas ao
turismo, sem nenhuma perda de sentido.
Embora destaque-se a escolha pessoal como característica, Camargo (1989), expõe que dada a
vivência em sociedade, todo nosso cotidiano seja marcado por influências culturais, sociais, políticas e
econômicas, nem sempre identificadas diretamente; todavia, não se exime do lazer a ideia própria de
eleição dentro de opções variáveis.
A classificação de interesses culturais do lazer visa expor a diversidade de manifestações que
podem ser abrangidas pelo universo do lazer, contudo, considera-se que podem existir, conforme Melo
e Alves Junior (2003), cruzamentos complexos entre diferentes interesses inseridos um mesmo
contexto.
Os interesses físicos do lazer abrangem atividades esportivas, de aventura, que movimentam o
corpo, como: exercícios, ginástica e dança. Alerta-se para as práticas ocasionalmente incentivadas pelo
“modismo”, e para comercialização de produtos e serviços interligados às atividades, que seguem a
lógica de mercado; assim como a esportivização do tempo de lazer, que seria a redução do lazer às
atividades físicas. Dentro desse campo de interesse, podem ser enfrentados problemas pela prática
irregular ou insegura de atividades.
Já os interesses artísticos, estariam ligados à apreciação das artes, através de suas diversas
formas de expressão, dentre elas: cinema, teatro, música, museus e exposições em geral, às
manifestações culturais, sejam elas eruditas ou populares. Reconhece-se o possível despertar de
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interesse do apreciador para própria produção artística, o que se enquadraria em outro interesse.
A respeito aos interesses manuais, são relacionados às manipulações em geral, desde que
realizadas como hobby, alguns exemplos estão ligados às atividades de: bordado, culinária, escultura,
decoração e jardinagem. Nesse interesse, nota-se maior probabilidade do lazer tornar-se trabalho,
quando sujeito passa utilizá-lo como meio de aquisição de renda extra, desconfigurando-o.
Em relação aos interesses intelectuais, são alegadas a estes a busca por formação e informação
não motivadas profissional ou educacionalmente, algumas das atividades atribuídas são: palestras e
cursos. Enquadrados nesses também se destacam os jogos de estratégia, popularmente conhecidos
como jogos intelectuais, entre eles: dama e xadrez.
Enfim, os interesses sociais, nos quais se enquadram atividades em geral que estimulem o
desenvolvimento da sociabilidade, sejam reuniões informais ou encontros em bares, clubes,
restaurantes e até mesmo em residências, passeios ou festas. Nesse âmbito, Melo e Alves Junior
(2003), acrescentam as atividades turísticas, e ainda que não desenvolvam uma discussão acerca do
turismo, reconhecem-no enquanto progressivo setor econômico.
Contudo, Camargo (1989) sugestiona um sexto campo de interesse aos já existentes, designado
como interesses turísticos, em que se reconhece a complexidade do turismo em si; não apenas como
setor economicamente próspero, mas também enquanto prática ou fenômeno social. Todavia, quando
se trata do lazer com central interesse turístico, há evidente embate com relação a marcante presença
de um mercado que não oferta ou possibilita oportunidade de acesso a todos.
Em outro momento, Melo (2004, p. 54), reconhece que independente de aceitação dos
interesses turísticos como um sexto conteúdo cultural, ou de enquadramento da atividade turística
dentro dos interesses sociais do lazer, esse meio de intervenção ou possibilidade dentro do campo do
lazer faz-se merecedor de atenção:
Não somente na perspectiva de conhecimento de outras localidades, como mesmo
de reconhecimento do próprio espaço onde vive o indivíduo, já que um dos grandes
problemas identificados na contemporaneidade é o esvaziamento dos espaços
públicos como locus de vivência social e o desconhecimento das potencialidades
locais [...].
A diversidade de possibilidades no âmbito do lazer permite uma simplificada classificação das
atividades em: passivas e ativas; em que as passivas estariam relacionadas a apreciação contemplativa,
e as ativas à própria ação. Acredita-se que independente do tipo de lazer preferido pelo sujeito, o que
se releva é a atitude do mesmo frente ao que está sendo vivenciado.
Portanto, podemos conceber o lazer enquanto uma construção sociocultural a partir da junção
entre: tempo, atitude e espaço, em prol do descanso, divertimento e desenvolvimento pessoal e social
humano; vivenciado em tempo desatrelado das obrigações cotidianas, visando a satisfação em si.
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Nesse caso, o tempo demarca disponibilidade do mesmo, a atitude, a motivação do sujeito, e o espaço,
o ambiente em que a ação se desenvolve.
As necessidades e desejos humanos motivam a realização de esforços que objetivem satisfazêlos, isso quando levado à atividade produtiva como meio gerador, conforme Bacal (2003), desencadeia
a imposição do trabalho sobre o Homem, como condicionador vital. O tempo despendido a esse pode
ser variável, obedecendo a critérios históricos e socioeconômicos, embora existam leis que
regulamentem o tempo de trabalho.
Nesse ponto encontra-se uma relação contraditória, considerando-se que o tempo para prática
do lazer é um tempo livre das obrigações cotidianas e ocorre fora do tempo de esfera do trabalho, mas
para “maior” usufruto do lazer na perspectiva de consumo é necessário obtenção de mais recursos,
entretanto, para tanto é necessário mais tempo de dedicação ao trabalho, logo, nota-se que para
possibilidade de vivência “maior” do lazer é necessário mais trabalho.
A modernização dos meios de produção industrial, assim como a inserção da tecnologia em
prestadores de serviço, proporcionaram ao trabalhador a diminuição do esforço físico exigido pelo
trabalho, todavia, trouxeram à tona complicações psíquicas, seja pela monotonia e repetição de
movimentos ou pelo excesso de concentração e atenção exigida para agilidade do fluxo de
informações.
Quando elevamos o consumo do lazer ao universo das viagens, encontramos a necessidade da
disposição de tempo e recurso; para tanto, os períodos mais propícios para viagem: fins de semana
prolongados, folga estendida e férias - direitos ou concessões adquiridas pelo cumprimento do
trabalho, que é o meio gerador de renda - são classificados pela visão funcionalista como “válvulas de
escape”.
Krippendorf (2001, p. 16), considera essa relação como “ciclo de reconstituição do ser humano
na sociedade industrial: viajamos para recarregar as baterias, para reconstituir as forças físicas e
mentais”. Assim, as viagens em geral, enquanto opção de lazer e bem de consumo, são tratadas como
possibilidade de libertação das obrigações e compromissos cotidianos.
Apesar de inúmeras críticas ao consumismo, ação de consumo desenfreado, dentro do lazer
visto como tempo social; a relação entre lazer e consumo pode ser tecida de forma equilibrada sob a
seguinte perspectiva:
Desejo apenas acentuar o princípio explícito: o ato de consumo deveria ser um ato
humano concreto, do qual participassem nossos sentidos, nossas necessidades
orgânicas, nosso gosto estético, isto é, em que nós participássemos como seres
humanos concretos, sensíveis, sentimentais e inteligentes; o ato do consumo deveria
ser uma experiência significativa, humana e produtiva [...] (FROMM apud BACAL,
2003, p. 92).
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Percebe-se que a problemática não está no ato de consumo em si ou no que é consumido, mas
na forma que o sujeito processa essa ação. Direciona-se crítica ao consumo alienado do lazer, a busca
pelo incessante prazer proporcionado pela aquisição de objetos e serviços que marquem os momentos
vivenciados, e ao exagero de recursos financeiros desprendidos para se obter coisas ou um “luxo”
supérfluo, apenas com intuito de adquirir status.
Sobretudo, a essência do lazer, independente do consumo, encontra-se na vivência de
atividades ou na predisposição a elas, em experiências que, de fato, ajudem a proporcionar ao sujeito
qualidade de vida e o coloquem em equilíbrio físico, psíquico e emocional; vivências efetivamente
satisfatórias que contribuam em seu processo de construção e realização enquanto ser social.
Dentro desse universo, a interseção entre lazer e turismo, ambos vistos enquanto práticas
sociais, entretanto a primeira como atividade de direito social de um tempo historicamente
conquistado, e o segundo como fenômeno social, que envolve relações humanas, deslocamento
espacial e setor econômico, ainda aborda discussões repletas de preconceitos e contradições
intrínsecas.
Sobretudo, objetiva-se traçar uma ligação plausível entre ambos, de modo a abordá-los
enquanto complementares; em uma relação de subordinação recíproca. Considerando-se a relevância
tanto do lazer quanto do turismo, não apenas em uma lógica de mercado, mas para manutenção das
relações sociais humanas e para desenvolvimento pessoal dos indivíduos.
Em vista da existência de inúmeros segmentos no turismo e dos cinco interesses do lazer, já
expostos, independente do lazer com interesses turísticos, é possível assimilar que dentro do universo
de possibilidades do turismo encontrem-se vários conteúdos do lazer; assim, os interesses do lazer
podem ser contemplados nas mais diversas formas de turismo.
Todavia, a aceitação de um lazer com interesses turísticos não necessariamente concebe o
turismo de lazer enquanto segmento mercadológico; ainda que se considere que haja turismo
contendo o lazer como motivação principal, não há referência ao lazer enquanto segmento turístico
nas produções acadêmicas consultadas, embora na própria academia o termo turismo de lazer seja de
fácil entendimento.
Então, seria possível conceber o lazer como essência do turismo, assim como o turismo
enquanto possibilidade de vivência extensa do lazer; subentendendo-se a disponibilidade de tempo
conquistado ou planejado para tal. Bacal (2003, p. 98) quando trata do lazer, expõe o que seria o lazer
turístico como:
[...] atividade que tem como suporte de sua definição a existência de um tempo livre
contínuo – legalmente estabelecido – preenchido por atividades que dão satisfação
íntima de acordo com o sistema referencial de valores e a estrutura econômica de
cada contexto.
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A autora também considera, pautando-se em Dumazedier, que o turismo, assim como o lazer,
também abarque os 3 D’s.
“A compreensão do turismo pressupõe, contudo, o conhecimento do lazer já que aquele é uma
manifestação desse” Castelli (1990, p. 23). Quando tratamos do turismo dentro do universo do lazer,
faz-se necessário frisar a necessidade da viagem e determinada permanência fora do local habitual de
moradia, sem essas características poderíamos considerar um lazer que recebe o adjetivo de turístico e
não a prática do próprio turismo.
Contudo, pode-se conceber um lazer com interesses turísticos, sem que necessariamente
abarque-se alguma viagem, podendo ser ele, a construção do conhecimento sobre o potencial turístico
local, que permite um olhar diferenciado do sujeito junto ao seu local de moradia; assim como o
usufruto de toda infraestrutura turística enquanto espaço de vivência do lazer, que pode vir a
estabelecer relações entre autóctones e turistas.
Nesse entremeio, em constante evolução tecnológica, nos encontramos na atualidade; a
profissionalização e otimização do tempo nas viagens e o planejamento estrutural de lugares, fazem do
turismo uma atividade complexa, repleta de singularidades e contradições, a ponto de os estudos
voltarem-se para formas sustentáveis de desenvolvimento desse fenômeno social, buscando conter o
avanço desordenado.
Conceituar ou definir turismo é uma forma de sistematizar uma prática social complexa, uma
atividade multifacetada repleta de aspectos positivos, mas que se desenvolvida desordenadamente
pode vir a causar perdas culturais irreparáveis, danos ao meio ambiente, além de redução do mesmo à
lógica de mercado, sob o aspecto da exploração de bens materiais e imateriais para mero e
irresponsável consumo.
Bacal (2003, p. 112), concebe:
Turismo é o conjunto de atividades e relações existentes nos deslocamentos
temporais voluntários, realizados pelo afastamento da morada permanente – por
diferentes motivos – com intenção de retorno, e a utilização total ou parcial dos bens
e serviços orientados para a satisfação dos viajantes.
Considera-se essa definição abrangente, pois agrega a multiplicidade de relações e ações
que envolvem a atividade turística; o caráter voluntário da eleição pelo ser turista; a viagem; a
possibilidade de variadas motivações; e a presença de um mercado que trabalha em prol da realização
satisfatória das expectativas do sujeito que viaja.
Bacal (2003), também considera o turismo, sob o ponto de vista social, como oportuno
para experiências diferentes e estabelecimento de relações espontâneas, assim como, mais que o ato
físico do deslocamento, proporciona a possibilidade de apreciação, conhecimento e exercício do
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respeito para com outras culturas e indivíduos, vivências psicologicamente enriquecedoras.
Em um âmbito diverso aos expostos, Boyer (apud Figueiredo e Ruschmann, 2004, p. 176),
coloca:
O turismo é um tipo de consumo diferente dos outros, pois se realiza em outro local
e não visa à satisfação de uma necessidade fundamental do homem: ele não é um
dado da Natureza ou do Patrimônio Histórico, pois nenhum lugar é ‘turístico em si’,
nenhum sítio ‘merece ser visitado’, como diz a literatura turística; o turismo é um
produto da evolução sociocultural e pode ser definido assim: Turismo = conjunto dos
fenômenos resultantes da viagem e da estadia temporária de pessoas fora de seu
domicílio, na medida em que este deslocamento satisfaz, no lazer, uma necessidade
cultural da civilização industrial.
A respeito dos fornecedores de serviços turísticos, Ansarah (2004, p.12), destaca como principal
função “proporcionar a satisfação dos desejos e necessidades dos turistas, obtendo lucro através da
prestação de serviços, como qualquer atividade econômica”. Vale considerar, nesse caso, que a oferta
do produto turístico perpassa pelo âmbito da subjetividade em que cada sujeito sente ou aprecia de
forma individualizada.
Quando se investe em uma viagem turística, paga-se pelo conforto, seja no transporte, na
hospedagem, alimentação entre outros, em verdade, investe-se nele; os empresários, por sua vez,
entram em concorrência de mercado para organizar os produtos e serviços aos quais se procura; por
conseguinte, recebem os lucros, de direito, dessa prestação, assim se forma a relação do turismo com o
mercado.
Todavia, quando se dispõe de recurso financeiro, extra aos necessários para satisfação das
necessidades básicas de sobrevivência, defende-se o livre arbítrio sobre a utilização do mesmo.
Entende-se que os sujeitos que utilizam o turismo enquanto opção de uso do lazer, visto como direito
social, esperam usufruir da comodidade que a rede de fornecedores e intermediários oferecem, sendo
assim, investem financeiramente para que seu lazer possa ser vivenciado sem maiores preocupações.
2 Análise documental do produto turístico
A Lei 11.771, promulgada em 17 de setembro de 2008, nomeada como Lei Nacional do
Turismo, tornou obrigatório o cadastramento das agências de viagem, assim como de demais
prestadores de serviços turísticos, junto ao Ministério do Turismo. O banco de dados formado pelos
cadastros está disponível no sistema intitulado CADASTUR.
No dia 20/10/2009, em acesso ao CADASTUR, mapeou-se a existência de 107 agências de
viagem na cidade de Belém, em tempo, observa-se que o sistema utiliza o termo agência de turismo.
Inicialmente, consultamos o cadastro de todas, como no sistema não há nenhum tipo de classificação,
nem ao menos por porte, optou-se por fazer uso do número de colaboradores declarados como caráter
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de exclusão, assim, do universo, foram selecionadas as 5 agências que apresentaram maior número.
Dessas, ao serem consultadas por telefone, apenas 4 declararam a ação enquanto agência
mista, e somente 3 disponibilizaram pacotes ou passeios turísticos impressos em visita pessoal para
coleta de documentos. Como estamos tratando de um mercado restrito, não haveria razão para
considerar agências somente vendedoras, visto que os roteiros apresentados seriam repetidos.
Tendo-se as agências como empreendimentos que trabalham para satisfazer as expectativas
objetivas e subjetivas dos que viajam ou desejam viajar; para tanto, a promoção dos serviços ofertados
são feitos por meio de pacotes turísticos, basicamente roteiros ou rotas com destino(s) e atividades
programadas, apresentado através de papéis impressos contendo descrições, folders, vídeos e/ou
imagens, de modo a despertar o interesse do sujeito para determinada vivência e conhecimento do
destino sugerido ou desejado por ele. Consultaram-se os sites das agências alvo, para comparar os
documentos coletados com as informações amplamente divulgadas na rede, assim como
complementá-los.
Primeiramente, analisaremos os pacotes ofertados pela empresa: Valeverde Agência de
Viagens e Turismo Ltda; depois os da: Lusotur Viagens e Turismo Ltda; por fim, os produtos da Mururé
Viagens e Turismo Ltda. As empresas referenciadas possuem credibilidade de atuação no mercado local
e, em certos momentos, intermediam os serviços uma da outra.
A Valeverde Turismo é uma agência mista, com ampla oferta de produtos regionais, nacionais,
internacionais. Em visita a uma de sua sedes, loja localizada na Estação das Docas, no dia 26/10/2009,
foram coletados documentos com descritivos de passeios fluviais e de city-tours.
Empeçaremos nossa análise pelos passeios fluviais, operacionalizados na orla da cidade de
Belém; no total são 9 rotas disponíveis, sendo 6 produtos da operadora Valeverde: Luau Valeverde,
Orla matinal, Orla ao entardecer, Luzes da cidade, Encanto das águas, Ilhas e trilhas; e 3 de outro
fornecedor, são eles: Ilha dos Papagaios, Furos e igarapés e Furos e igarapés com almoço e voadeira.
Os passeios possuem uma frequência de operação, com exceção do Luau Valeverde, que se
trata de uma espécie de “festa” temática, com duração de 3 horas a bordo, e ocorre nos sábados de lua
cheia ou na decorrência de alguma data comemorativa especial, o que fica a critério dos planejadores
do produto.
De acordo com essas características, nota-se presente os interesses sociais do lazer; a festa em
ambientes pequenos favorece a sociabilização. A descrição do passeio faz alusão a um festejo “com
muita animação”, nesse ponto, é ressalta-se o aspecto do divertimento que compõe os 3 D’s.
De maneira geral, a rota dos passeios: Orla matinal, Orla ao entardecer e Luzes da cidade é a
mesma, assim como a programação interna, basicamente: encenação de danças folclóricas,
apresentação ao vivo de diversos ritmos musicais típicos da região, acompanhamento de guia de
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turismo e oferta de bebidas alcoólicas e não alcoólicas, assim como alguns pratos da culinária local;
todos com tempo de duração de 1 hora e meia.
Os passeios diferem-se pelo horário de operacionalização, o que naturalmente modifica a
proposta dos mesmos. O Orla matinal ocorre somente aos domingos pela manhã, o que remete à
sensação daquele típico programa familiar de final de semana; sobretudo, coloca seus participantes em
contato, raramente impossível, com o sol. A descrição do mesmo faz referência a “visão panorâmica
das dezenas de ilhas que circundam Belém”, o que certamente contrasta com a paisagem da orla da
cidade tomada por construções portuárias, indústrias e palafitas.
Com relação aos outros, o Orla ao entardecer é favorecido pelo encantamento natural do ser
humano pelo pôr-do-sol, um passeio cuja descrição enfatiza a apreciação de um “pôr-do-sol
deslumbrante”; possibilitando a contemplação da natureza através da observação mais atenta de um
fenômeno diário, o crepúsculo.
Enquanto o Luzes da cidade, mescla a ideia das luzes que iluminam a cidade à sombria
escuridão da baia provocada pela noite; a descrição expressa a apreciação de “vários prédios do nosso
patrimônio histórico” localizados na orla. Ambos possuem saída de terça a domingo.
Diferente da primeira proposta, a do Luau, que remete ao que estaria enquadrado como lazer
com interesse social, a das 3 opções acima citadas, estariam voltadas a essência do que seria o lazer
com interesse turístico; por meio da apreciação panorâmica de pontos reverenciados turisticamente,
usufruto de infraestrutura turística e utilização da prestação de serviços profissionais.
Considera-se para essa classificação, em conjunto: a contemplação da natureza; o olhar
diferenciado sobre a paisagem; o contato com manifestações artísticas, como: a dança e a música, e com
aspectos da cultura local: gastronomia, folclore e crenças populares; além de abastecer-se de
informações históricas e geográficas básicas transmitidas pelo guia e da ideia relaxante do passeio em si.
O passeio Encanto das águas, com saída aos domingos e tempo de 3 horas e meia de duração,
além de abarcar em conjunto os itens acima citados, aprecia a alimentação, com parada exclusiva para
almoço “em agradável restaurante à beira-rio.”
Historicamente, o ato de alimentar-se passou de mera necessidade humana à possibilidade de
socialização à mesa; a culinária, além de forte atrativo turístico, pode servir enquanto atributo ao lazer,
como uma possibilidade de integração entre os sujeitos em meio aos diversos interesses; opção que vai
além da saciedade de uma necessidade fisiológica.
A proposta que pauta a rota do Ilhas e trilhas, estende-se ainda mais, pois com saída aos
sábados e feriados e 6 horas de duração, além de maior tempo de navegação, e consequentemente, de
música ao vivo e danças, o ponto principal do passeio é a visita à praia de Sirituba, na Ilha de Carnapijó,
que reúne: caminhada ecológica, almoço caseiro na praia e tempo para atividade livre.
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Nesse caso, a caminhada é condicional para a chegada ao restaurante praiano em que o
almoço é servido; descontado o tempo de navegação, caminhada e almoço, o tempo médio sem
atividade programada é de 2 horas, estando o participante livre para aproveitar a praia, contemplar a
natureza e/ou socializar-se nos bares.
Faz-se relevante destacar nesse ponto, que mesmo tratando-se de um produto com período
relativamente curto de duração, há preocupação com a liberação de tempo, ainda que cronometrado,
o que proporciona ao sujeito a possibilidade de construção de seu lazer, de sua própria experiência em
local supostamente distinto aos de rotina. Nesse momento pode-se fazer alusão aos caracteres
constituintes do lazer, visto que a livre construção do lazer contempla enfaticamente o caráter pessoal.
A Lusotur Turismo é uma agência mista, assim como a apresentada anteriormente, também
com ampla oferta de produtos regionais, nacionais, internacionais. Em visita à sua sede, localizada na
Av. Brás de Aguiar, 471, no dia 30/10/2009, foi coletado documento com descritivo de seus passeios
(city-tours). Vide anexo 2.
Nessa parte faremos análise dos produtos terrestres apresentados pela Lusotur,
simultaneamente aos apresentados pela Valeverde, visto a semelhança entre ambos. Vale
complementar que os passeios a seguir não possuem frequências de saída garantida, apesar de
indicações com relação aos dias possíveis, são operacionalizados mediante agendamento do cliente,
oferecem opção de acompanhamento de guia bilíngue mediante pagamento extra. Não ofertam
nenhum tipo de alimentação inclusa.
A Lusotur oferece o City tour tradicional, enquanto a Valeverde, o City tour Belém que
possuem a mesma proposta: visita aos principais pontos turísticos de Belém; basicamente, descritos na
rota estão: Complexo Feliz Lusitânia, local da fundação de Belém; Complexo do Ver-o-Peso, conhecida
como a maior feira aberta da América Latina; Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, santa
padroeira da capital paraense, e Cidade Velha, bairro que abriga o centro histórico da cidade.
A Lusotur ainda faz menção ao Museu Paraense Emílio Goeldi, como sendo a “1ª instituição
dedicada à ciência na Amazônia e que é, ainda hoje, referência no Brasil e no mundo devido o acervo
que possui”. As saídas acontecem de terça a domingo, em dois horários, pela manhã e à tarde, com 3
horas de duração cada.
A Valeverde faz referência adquirir-se conhecimento sobre a história e curiosidades da capital
paraense; cita no roteiro também o Polo Joalheiro (ex-presídio São José Liberto) e ao Parque da
Residência, “antiga casa dos governadores do estado do Pará”. Nota-se na descrição dessa agência
termos como: “feira mística” ao mencionar o Ver-o-Peso e “linda cidade morena”, Cidade morena é um
apelido popular dado à Belém, assim como Cidade das mangueiras. Oferece saída às terças, quintas,
sábados e domingos, com 3 horas de duração.
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Nota-se que os principais pontos turísticos da cidade citados, são locais que possuem
relevância histórica, cultural e religiosa para população; deixando evidente a “apropriação” do mercado
do turismo sobre o patrimônio, o que pode colaborar para o processo de preservação desses lugares
como forma de incentivo e manutenção da demanda turística e, por conseguinte, desenvolver
economicamente o mercado local.
O turismo cultural é bastante difundido dentro da atividade turística, visto que nesse
segmento, são exaltados os aspectos culturais que constituem ou marcam historicamente o destino de
visita. O sujeito colabora para com a preservação do patrimônio quando passa a reconhecer a
relevância sociocultural do mesmo; com relação ao sujeito autóctone, quando consegue identificar-se
com o patrimônio, em uma relação de pertencimento.
Apesar de escassa literatura que expresse características sobre os interesses turísticos do lazer,
pode-se compor que, independente do âmbito defendido, se do turismo ou do próprio lazer, o tipo de
atividade em questão pode servir como meio sensibilizador do respeito e/ou reconhecimento sobre a
cultura de outrem ou de sua própria.
A Lusotur oferece o City tour ecológico, enquanto a Valeverde, Parques ecológicos, citam:
Mangal das Garças, Museu Paraense Emílio Goeldi e Jardim Botânico Bosque Rodrigues Alves; que são
os principais parques zoobotânicos da cidade. A Lusotur não faz descrição acerca dos locais a serem
visitados e apresenta saídas de terça a domingo em dois horários, pela manhã e à tarde, com 3 horas
de duração.
Todavia, a Valeverde, classifica o passeio como “imperdível!!!” e descreve: “todos os encantos
da fauna amazônica pertinho de você. Venha se maravilhar com um dos mais importantes
ecossistemas do nosso planeta.” Oferecendo saída às terças, quintas, sábados e domingos, com 3 horas
de duração. Nota-se em ambos a tendência da prática do ecoturismo, de forma sucinta, segmento do
turismo ligado à apreciação, sob diversas formas, da natureza.
Quando se trata de turismo em Belém, os dois principais segmentos destacados são: eventos e
negócios. Todavia, os pontos destacados nos passeios acima servem de referência para expressar, que
mesmo restrito à metrópole, há possibilidade de o sujeito entrar em contato direto com a dita
natureza, vastamente discutida e exaltada quando se fala da região amazônica.
A Lusotur oferece o City tour cultural, enquanto a Valeverde, o Belém cultural, como passeio
“pelos principais pontos culturais da cidade”, como cita a primeira agência, ou como dita a segunda,
pelos “principais patrimônios histórico-culturais”. Ambas possuem na rota: Teatro da Paz, primeiro
teatro construído na Amazônia, oriundo historicamente do período áureo da borracha, e o Museu de
Artes Sacras, pertencente à Igreja de Santo Alexandre, que possui rico e considerável acervo.
A Lusotur faz menção ainda ao Polo Joalheiro, fazendo referência ao seu acervo formado por
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“expressiva mostra de riquezas naturais e culturais do Pará, transformadas em joias, adornos,
artesanato e tantos outros produtos”. E ao Palacete Bolonha, como “obra em estilo eclético, a
construção tem elementos de art nouveau, neoclássicos, góticos e barrocos”. Possui saídas de terça a
domingo em dois horários, pela manhã e à tarde, com 3 horas de duração.
Já a Valeverde menciona o Forte do Presépio, antigo Forte do Castelo, marco de entorno da
fundação da cidade; o Museu do Encontro, com acervo formado por peças de cerâmica indígena e o
Museu de Arte de Belém, que possui diversas obras ligadas a história da cidade e onde ainda funciona
parte da administração da prefeitura da mesma. Apresenta saída as quartas e sextas com 3 horas de
duração.
Vale como observação para os passeios acima, a mesma feita ao primeiro passeio terrestre de
cada agência, com relação ao turismo cultural e a preservação patrimonial. Ademais, nessas descrições
nota-se a tendência aos interesses artísticos do lazer, e porque não dizer, um despertar para o lazer
com interesses intelectuais, caso incite-se a curiosidade do sujeito ao ponto de fazê-lo buscar
informações literárias sobre a formação histórica e cultural da cidade, assim como a do povo que a
habita.
A Lusotur oferece o Vila de Icoaraci, enquanto a Valeverde, Icoaraci, trata-se de um distrito
pertencente a capital, conhecido como Vila Sorriso. Ambas agências destacam em suas descrições, a
localidade como polo produtor de cerâmica, são inúmeras olarias em que se permite apreciar a
confecção e decoração de peças, e lojinhas que vendem diversos artefatos produzidos a partir da argila.
A Lusotur faz a colocação de que caso haja disponibilidade de tempo, há possibilidade de um
passeio pela orla de Icoaraci, onde se encontra um polo gastronômico com diversos restaurantes,
lanchonetes, sorveterias e “barraquinhas” de comidas típicas, além de uma feira de artesanato;
ademais cita “no passeio, para se refrescar do calor, a pedida é uma saborosa água de coco e
presenciar um belo pôr do sol”. Oferece saídas diariamente em dois horários, pela manhã e à tarde,
com 3 horas de duração; apresenta possibilidade desse passeio via fluvial, com apenas uma saída
diária, tendo 7 horas de duração.
A Valeverde faz menção à Icoaraci como sendo “o mais importante centro artesanal de Belém”;
ainda cita acerca dos artesanatos “é uma variedade interminável de estilos e cores. São reproduções de
peças marajoaras e tapajônicas, e peças estilizadas com revestimento em manganês”. Apresenta saída
as quartas e sextas com 3 horas de duração.
No caso dos passeios acima, o lazer com interesse turístico fica mais bem expresso, todavia,
pode-se deixar em aberto um possível gancho aos interesses manuais do lazer, já que há forte apelo à
apreciação da confecção, realizada manualmente, de peças de cerâmica, e da decoração (desenho) e
pintura das mesmas, o que pode incentivar o sujeito a investir em um novo hobby.
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Por tratar-se de uma localidade relativamente distante do centro da cidade, e dada à amplitude
de possibilidades de ação dentro do campo do lazer, considera-se o tempo de duração do passeio ao
distrito, inadequado, portanto, ineficiente a proposta de lazer intrínseca no roteiro descrito.
A Lusotur oferece o Ilha do Mosqueiro, enquanto a Valeverde, Ilha de Mosqueiro, apresentada
como bucólica ilha, pertencente à administração de Belém, distante 80 quilômetros aproximadamente.
Ambas agências fazem menção aos chalés antigos, cuja arquitetura faz-se merecedora de destaque. A
Lusotur faz uma descrição breve com destaque para as “belas praias de água doce com a peculiaridade
de ter ondas”. Saída diária com 7 horas de duração.
A Valeverde descreve mais detalhadamente o passeio, situando geograficamente a ilha e
fazendo citação do nome das principais praias. A agência deixa tempo livre para banho de mar e sol em
alguma das praias. Saída diária com 7 horas de duração. Nesse caso, destaca-se a possibilidade de
construção livre do lazer, ainda que em localidade determinada e tempo cronometrado.
No âmbito do turismo, o termo tempo livre é usado para demarcar períodos livres de
programação; seriam espaços de tempo vagos dentro de um roteiro, nos quais o sujeito pode fazer o
que desejar. Novamente nos deparamos com a liberdade de construção do lazer em que a motivação
individual, pautando-se nos caracteres do lazer, visa consciente ou inconscientemente os 3 aspectos do
lazer, não considerando esses enquanto fim do mesmo, mas como propulsores de qualidade de vida,
da sensação de bem estar a ser experimentada pela vivência, independente do interesse cultural da
ação eleita.
Além dos passeios já expostos, a Lusotur apresenta exclusivamente o City tour completo, uma
mescla dos passeios oferecidos que são operacionalizados em Belém; com saída de terça a domingo e 9
horas de duração. E o Bioparque Amazônia (terrestre), ida ao Parque Ecológico Crocodilo Safari Zoo,
destacado como: “a síntese de todos os ecossistemas encontrados na região, como a rica e exuberante
fauna e flora Amazônica.” Saída diária com 4 horas de duração.
Para o caso acima, volta-se a fazer alusão aos interesses turísticos e artísticos; esse último, por
meio da apreciação das artes que compõem os acervos de museus e igrejas, das exposições diversas,
permanentes e temporárias, presentes em determinados pontos turísticos. E também se referencia o
incentivo ao ecoturismo, no qual os interesses turísticos e físicos do lazer podem ser experimentados.
No caso de todos os passeios acima apresentados, pode-se remeter ao turismo ou a ideia do
lazer com interesses turísticos como promotor de desenvolvimento social e pessoal, quando se trata de
colocar o sujeito em contato com seu ambiente de moradia, contudo, guiado por uma perspectiva
diferente, com olhar turístico. Passeios turísticos proporcionam encontros e (re)descobertas sobre
lugares nem sempre valorizados.
O lazer com interesses turísticos pode proporcionar ao sujeito o reconhecimento de si mesmo
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em relação ao seu entorno de moradia: conhecer fatos históricos e características geográficas; o
patrimônio natural, arquitetônico e cultural; as manifestações folclóricas e crenças; o contato com usos
e costumes tradicionais, são alguns aspectos que podem ser apreciados pela atividade turística e
também no âmbito dessa modalidade de lazer.
A Mururé Turismo é uma agência representante, mais precisamente, da Pousada dos Guarás,
apresentando como produtos diversos roteiros relativos à mesma, inclusive oferece a possibilidade
somente de agendamento da hospedagem; sendo assim, possui foco regional e específico, com ampla
oferta para o mercado externo. Em visita à sua sede, localizada na Travessa Rui Barbosa, galeria 09, no
dia 30/10/2009, coletou-se documentos com descritivos de roteiros envolvendo hospedagem na
Pousada. Vide anexo 3.
O pacote Excursão à Ilha do Marajó apresenta-se em duas versões, sendo uma de 2 dias e 1
noite e a outra de 3 dias e 2 noites. No primeiro caso, a programação inicia-se pelo traslado hotéis /
porto, o embarque é feito em barco de transporte regular; leva-se, em média, 3 horas para percurso de
cada trecho. No roteiro consta descrição de aspectos da UH - Unidade habitacional, que é em estilo
cabana, e das instalações da Pousada.
No descritivo, há recomendação para almoço na própria Pousada. Para tarde, o roteiro indica
saída para a cidade de Soure, para visita ao Curtume (centro de artesanato de couro de búfalo), à uma
fazenda de criação de búfalos e à uma praia localizada nas proximidades da mesma. À noite, há
indicação de apreciação de danças folclóricas, típicas à região, no restaurante do hotel.
No segundo dia, a manhã é liberada para livre programação; a agência sugere banho de praia
ou na piscina da hospedaria, e apresenta opções de passeios opcionais (adicionais), que podem ser
adquiridos e realizados nesse período, como: “caminhada ecológica, arvorismo e montaria, entre
outros”. Após o almoço, organiza-se a saída da Pousada para o trajeto de retorno.
Assim como o primeiro roteiro, o segundo inicia-se pelo traslado, os ambientes da Pousada
também são descritos. Entretanto, após almoço, a programação prevê passeio à histórica Vila da
Joanes, conhecida pelas ruínas Jesuítas datadas do período do descobrimento do Brasil, no retorno há
um breve reconhecimento do centro da cidade de Salvaterra, cidade que abriga a hospedaria.
No segundo dia, há saída pela manhã para passeio fluvial pelo rio que divide Salvaterra e Soure;
após o almoço, há prevista visita à Soure, com a mesma programação do roteiro anterior. No terceiro
dia a descrição é a mesma do segundo dia do outro roteiro. Em ambos descritivos há um campo de
observações acerca de condições gerais da operacionalização dos mesmos, assim como dos direitos aos
quais se reserva a prestadora dos serviços.
Com relação aos roteiros acima se destaca, mais uma vez, que o lazer com interesses turísticos
também pode acontecer no momento da prática turística, novamente ambos traçam relações em
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tênue linha. Faz-se interessante ressaltar que a estrutura da Pousada, composta por quadra de vôlei e
piscina, assim como a proximidade com a praia deixam espaço para prática dos interesses físicos, em
segundo plano, enquanto mais uma possibilidade de interesse do lazer.
No caso em questão, pode-se estabelecer tanto cruzamento entre os lazeres para com o
turismo, quanto entre diferentes interesses do próprio lazer. A disponibilidade de varanda com
armadores de rede, enfatiza o aspecto do descanso, integrante dos 3 D’s, mas, principalmente, incita o
ócio, seja ele visto como “nada a fazer”, um relaxamento despreocupado, ou como na antiguidade,
enquanto um momento de introspecção ao qual necessita o ser.
Notou-se a ausência de informações relevantes nos roteiros apresentados, como: o embarque
em barco de linha comercial; o tipo de transporte do Porto Camará até a cidade de Salvaterra,
conhecida como Princesinha do Marajó, o qual é realizado em van ou ônibus; o transporte para
deslocamento entre as cidades de Salvaterra e Soure, conhecida como Capital (informal) do Marajó, e o
utilizado entre Salvaterra e a Vila de Joanes, esse segundo, normalmente feito em van; e também com
relação a frequência de saída.
Na coleta de dados, foi entregue um roteiro indicado como Promoção Fim de Semana no
Marajó, em que se apresenta como incluso: passagem de barco ida e volta; traslado
Camará/Pousada/Camará; uma diária em apartamento duplo; uma refeição por pessoa e o show de
danças folclóricas. Com relação a esse produto, pode-se destacar que a agência tira os passeios e
mantém apenas o transporte para Ilha, a acomodação e a programação interna da Pousada,
acrescentando uma refeição. Duração de 2 dias e 1 noite.
Por fim, o último roteiro, Lua de Mel com slogan “só poderia ser feito em um lugar muito
especial.” Basicamente, trata-se de duas diárias na Pousada, incluso café da manhã servido no
apartamento, o qual, a agência cita “preparado para ocasião com direito a champanhe, frutas e
massagem corporal em nosso spa”. O pacote não inclui: traslados, transporte, passagens de barco,
passeios e alimentos ou bebidas.
A proposta que circunda o pacote promocional, é a de diminuir os custos de uma viagem curta
de final de semana; pela ausência de programação, o tempo de hospedagem fica inteiramente livre
para construção do lazer, para o livre arbítrio sobre que atividade ou não fazer dentro de opções como:
usufruto da estrutura da Pousada, passeio adicional pago à parte, ou mesmo, passeio desacompanhado
de profissional pelos arredores.
A liberação total de programação previamente agendada pode causar a sensação no sujeito de
aventura ou incentivá-lo ainda mais ao ócio. Voltando-se para o quarto roteiro apresentado acima, o
público-alvo já é definido no título do mesmo, mas nada impede que sirva a casais não recém-casados.
Independente da motivação da viagem, o importante é a entrega do sujeito ao momento de
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lazer, ao lúdico, a contemplação e apreciação; ainda que haja horários a serem cumpridos em meio a
programação, é relevante frisar, que ainda no campo do lazer, quando tratamos de entretenimento,
encontra-se certa obrigação com horários, exemplo disso são as sessões de espetáculos de qualquer
gênero artístico.
Conclusões
Analisando a relação entre lazer e turismo descobre-se a interseção entre ambos, visando livrar
o turismo da visão carregada de preconceitos com relação ao seu planejamento e desenvolvimento
enquanto mera atividade de mercado, abre-se o pensamento ao universo de possibilidades de uma
atividade através da outra.
Pensar o lazer apenas pelo aspecto social, no âmbito de políticas públicas, reduz as opções de
vivências que podem ser experimentadas; ao mesmo tempo em que tratar o turismo sem a essência
que abarca o lazer, é descaracterizar o que se almeja abranger na prática, pois independente da
motivação de viagem, não se pode descartar os 3 D’s.
Acredita-se que dentro da prática do turismo haja possibilidade de vivência prolongada do
lazer, independente da forma de manifestação desse, além da experimentação de experiências não
cotidianas. Conceber o lazer através dos pacotes e passeios turísticos, sistematizados dentro de um
tempo previamente organizado, mesmo que não completamente, ainda é alvo de críticas por parte dos
que defendem a não formatação desse tempo.
Acredita-se que a relevância dessa pesquisa esteja guardada para o ambiente acadêmico,
possibilitando aos estudantes de turismo uma melhor compreensão acerca do universo do lazer; assim
como aos estudiosos de diversas áreas, interessados pela temática, uma abordagem de lazer diferente
das convencionais.
Sobretudo, defende-se o sexto interesse do lazer proposto, enquanto oportunidade de acesso e
promoção da estrutura pública da qual se utiliza e/ou apropria o turismo enquanto possibilidade de
expansão das próprias experiências de lazer. Assim como um meio de interação entre comunidade
autóctone e turista, nesse ponto, as relações humanas e câmbio de informações podem representar
desenvolvimento para ambos.
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