Uma Obra de Carlos José Soares A Ceia dos Absurdos Revisão Literária de Nonata Soares Casé Ano 2013 A Ceia dos Absurdos A EMPREGADA SERVE O CAFÉ DA MANHÃ COM MUITA TRANQUILIDADE. SEMPRE EM SILÊNCIO. ANDRÉ JÁ ESTÁ NA MESA, QUANDO CARLOS CHEGA... Carlos: - Eu dormi o sono dos anjos. André: - Bom dia! Você anda puro demais, meu caro! Carlos: - Nem tanto... Ando com alguns pensamentos ruins. André: - É mesmo? Quais, por exemplo? 1 A Ceia dos Absurdos Carlos: - Ah! Eu não sei... Contudo, eu espero sinceramente que todos os nossos sonhos se realizem no ano que vai nascer. A EMPREGADA ENTRA E SAI TRAZENDO E RETIRANDO COISAS... André: - Eu também. Apesar de achar que os meus sonhos são muito mais simples que os seus. Carlos: - Acha? Não tenho certeza disso. Eu acho você tão ambicioso... Não consigo enxergar você de forma pura... Inocente. (risos) André: - Mas eu não sou puro ou inocente... Eu sou apenas um homem com capacidade de alcançar os meus objetivos. 2 A Ceia dos Absurdos Carlos: - E ir muito, além disso, eu creio! André: - Creio que essa noite será fascinante. A EMPREGADA DEIXA TUDO ARRUMADO. SEMPRE EM SILÊNCIO, MAS SEMPRE COM UM AR MISTERIOSO... Carlos: - Você é um excelente advogado. Deveria defender os interesses do Fábio. André: - Eu prefiro falar sobre o seu casamento. Qual foi mesmo a razão da sua separação? Carlos: - O que você tem a ver com isso? 3 A Ceia dos Absurdos André: - Nada! Carlos: - Engraçado. Eu pensei que você tivesse esquecido a Patrícia! André: - Mas, eu esqueci... Tudo foi apenas um momento... Uma ilusão. Carlos: - As ilusões por vezes são tão marcantes, que formam uma nova história. André: - E agora? O que você pretende fazer? Carlos: - Fazer com o quê? 4 A Ceia dos Absurdos André: - Eu nunca quis me intrometer muito na sua vida... Apesar do direito que tenho disso. Carlos: - Por que se acha com esse direito? André: - Bom! Isso não precisa ser citado. Há um trauma em tudo... Em toda essa situação. Carlos: - As suas acusações podem ser fundamentais, para que eu desista de ser seu amigo. André: - Jamais faria isso! Carlos: - Por que não? André: 5 A Ceia dos Absurdos - Nós temos uma história. Eu acho que você precisa ser homem o bastante para assumir os seus sentimentos. Carlos: - Você a pouco estava falando de Patrícia. A EMPREGADA ENTRA TIRANDO O PÓ DE TODOS OS MÓVEIS... CIRCULA TODO O AMBIENTE. André: - Verdade. Mas eu me preocupo muito com isso. Eu não creio que você a tenha esquecido. Carlos: - Então, o assunto é sério. Você quer mesmo me aborrecer. André: - Eu pensei muito antes de tomar uma atitude em relação a você. 6 A Ceia dos Absurdos Carlos: - Quer que eu compre um par de alianças? André: - Não precisa chegar a tanto. Carlos: - Então você não está rompendo comigo? André: - Jamais. Ao contrário, eu gostaria de oficializar a nossa relação. Carlos: - Você sabe tanto que isso é impossível. E depois, existe o Fernando... Ele te beijou, lembra? André: - Eu nunca fui amante do Fernando. Carlos: - E nem eu da Patrícia. 7 A Ceia dos Absurdos André: - Patrícia é uma mulher inteligente. E depois, ela é ainda a principal acionista da Empresa. Carlos: - Ah! Meu Deus! Você é muito mesquinho... André: - Não! Eu não sou... E você sabe disso. Carlos: - Você entrou na minha vida... Eu praticamente me vi diante da situação, sem ter muito que fazer... Não sei se você lembra. André: - Eu não me sinto à vontade com tudo isso. Carlos: - E porque não? André: 8 A Ceia dos Absurdos - Você não tem ideia da importância... Bom, eu prefiro conversar com você depois. Hoje é um dia de festa. Eu não creio que seja a data ideal para isso. A EMPREGADA ENTRA, ARRUMA ALGUMA COISA DESNECESSARIAMENTE E VOLTA A SAIR. Carlos: - Eu acho que prefiro procurar um Padre. André: - Eu sempre tive muito orgulho de você. Carlos: - Verdade? André: - Eu me sinto fraco diante de você. Carlos: 9 A Ceia dos Absurdos - Fraco? Como assim? André: - Diante dos meus dramas pessoais... Diante das minhas aflições, angústias... Eu gostaria de ter uma novidade por dia para lhe contar. Carlos: - Fico feliz em saber disso. André: - Eu não consigo entender o porquê de me sentir tão preso. Carlos: - Eu gostaria de entender você. Você fala coisas estranhas. O que é o amor para você? André: - Uma melancolia. Certamente, uma melancolia... Carlos: 10 A Ceia dos Absurdos - Não. O amor não é uma melancolia. André: - Se precisamos nos ocultar o tempo todo... Se o verdadeiro amor precisa ser escondido, mentido, articulado... Isso é triste! Carlos: - Na verdade, eu não creio que tenhamos qualquer opção. Temos que aceitar as coisas como elas são... André: - Aonde você vai? Carlos: - Eu não sei. Eu preciso sair um pouco. Eu preciso pensar ao vento. Quero escarrar meus pensamentos e vomitar as minhas intenções. André: 11 A Ceia dos Absurdos - Mas, não está ventando. E depois temos que preparar tudo para receber os nossos amigos... Carlos: - Não se preocupe. Eu já volto. TUDO ESCURO. A LUZ RETORNA. EM CENA ANDRÉ FUMA UM CHARUTO E AGUARDA O RETORNO DE CARLOS. CARLOS ENTRA. MAS, ANDRÉ OBSERVA QUE CARLOS ESTÁ AGITADO DEMAIS: André: - Eu pensei que não fosse voltar. Carlos: - Mas, eu voltei! Sei lá se infelizmente! André: - Como assim? Carlos: 12 A Ceia dos Absurdos - Não fique fazendo perguntas. Eu tive um compromisso. Apenas me atrasei. André: - Você disse que precisava andar. Apenas isso. Carlos (nervoso): - Você não fique lembrando detalhes; Não se prenda a detalhes. Aliás, eu acho que por toda a vida esse foi seu maior erro... Ficar se prendendo a detalhes. André: - Eu não estou entendendo nada. Carlos: - Nem precisa. Eu preciso beber alguma coisa. André: - Eu preparo para você um uísque... Carlos: 13 A Ceia dos Absurdos -... Sem gelo. André: - Certo. ANDRÉ PREPARA O DRINQUE. ENTREGA O COPO A CARLOS E INDAGA: - Eu não acredito que não tenha acontecido nada. O que houve? Carlos: - Não houve nada. Depois de amanhã eu vou viajar. Vou passar um tempo fora. Preciso ficar em uma praia. Em um hotel. André: - Por que viajar? Para quê? Carlos: - Está na cara que eu estou cansado. Exausto. 14