Universidade Camilo Castelo Branco Instituto de Engenharia Biomédica CIRO AUGUSTO FERNANDES DE OLIVEIRA PENIDO ESTUDO PRELIMINAR SOBRE A IDENTIFICAÇÃO E QUANTIFICAÇÃO DE COCAINA E SUBSTÂNCIAS UTILIZADAS EM SUA ADULTERAÇÃO POR MEIO DA ESPECTROSCOPIA RAMAN DISPERSIVA E CORRELAÇÃO COM A ESPECTROSCOPIA DE ABSORÇÃO NO INFRAVERMELHO (FT-IR). São José dos Campos, SP 2011 Ciro Augusto Fernandes de Oliveira Penido ESTUDO PRELIMINAR SOBRE A IDENTIFICAÇÃO E QUANTIFICAÇÃO DE COCAINA E SUBSTÂNCIAS UTILIZADAS EM SUA ADULTERAÇÃO POR MEIO DA ESPECTROSCOPIA RAMAN DISPERSIVA E CORRELAÇÃO COM A ESPECTROSCOPIA DE ABSORÇÃO NO INFRAVERMELHO (FT-IR) Orientador: Prof., Dr. Landulfo Silveira Junior Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Bioengenharia da Universidade Castelo Branco, como complementação dos créditos necessários para obtenção do titulo de Mestre em Bioengenharia. São José dos Campos, SP 2011 Dedico a meus familiares em especial a minha esposa Luciene Aparecida da Costa Penido, aos meus filhos Beatriz, Bárbara e João Augusto de Oliveira Costa Penido pelo carinho, compreensão e por terem superado juntos comigo os momentos de saudades. AGRADECIMENTOS A Deus, Misericórdia Divina, que sempre nos renova as oportunidades para a conquista de novos méritos. Agradeço a meu professor orientador, Prof.Dr.Landulfo Silveira Júnior, que pacientemente repassou seus conhecimentos e sabedoria, direcionando os caminhos a serem trilhados para que esse trabalho deixasse de ser um sonho e tornasse uma realidade. Aos Peritos Criminais do Departamento de Polícia Federal Dr. Talhavini e Dr.Musceneck. Aos colegas de sala de aula por termos vivido tão carinhosamente momentos agradáveis, de muito respeito e, ao final, só nos resta dizer obrigado. Em especial agradeço e dedico este meu trabalho aos meus pais Arísia Geralda Fernandes de Oliveira Penido e Mário Augusto de Oliveira Penido que muito me incentivaram e torceram para que eu chegasse ao final com esta vitória. E um obrigado muito especial a minha esposa Luciene Aparecida da Costa Penido que ficou o tempo todo a meu lado. A meus filhos Beatriz, Bárbara e João Augusto que estão com sete anos acompanharam toda esta minha trajetória. Foram sacrificados, perderam vários momentos de carinho para que eu pudesse chegar ao final, vencemos juntos. “A diferença entre o possível e o impossível está na vontade humana.” Louis Pasteur RESUMO O abuso da cocaína representa atualmente um dos grandes problemas mundiais de saúde pública. A utilização de análises toxicológicas para verificar a exposição à cocaína é de grande interesse social, pois possibilita que medidas de prevenção e controle sejam adotadas. Os métodos atualmente empregados na Toxicologia Forense visando a detecção e identificação de drogas ilícitas e seus adulterantes tais como a cocaína, anfetamina, ecstasy, ópio, barbitúricos, benzodiazepíncos, dentre outros, são destrutivos e não possibilitam reanálise das evidências. A aplicação da técnica de espectroscopia Raman Dispersiva possibilita análise sem destruição da amostra, com a minimização da contaminação do operador e do meio ambiente. A técnica permite realização de análises remotas utilizando cabos de fibras óticas mesmo através de embalagens (vidro ou plástico). Por meio da correlação com a espectroscopia de Absorção no Infravermelho (FT-IR), apresentou possibilidade de quantificação das amostras. A análise rápida fornecida pelo Raman Dispersivo permite laudo criminal preciso objetivando uma prestação de serviço de excelência tanto ao Inquérito Policial quanto a Ação Penal. O Raman Dispersivo pode ser utilizado como metodologia que complementa as análises toxicológicas nas Polícias Técnicas do país além de colaborar com o Sistema Judiciário em prol da sociedade. Palavras-chave: Identificação de cocaína, Espectroscopia Raman, Adulteração, Toxicologia forense. ABSTRACT The abuse of cocaine is currently a major public health problems worldwide. The use of toxicological tests to check the cocaine exposure is of great social concern, since it allows the control and prevention measures are adopted. The methods currently employed in forensic toxicology aiming at the detection and identification of illicit drugs and its adulterants such as cocaine, amphetamines, ecstasy, opium, barbiturates, benzodiazepíncos, among others, are destructive and do not allow re-examination of evidence. The application of dispersive Raman spectroscopy enables analysis without destroying the sample, minimizing the contamination of the operator and the environment. The technique allows remote execution of analysis using fiber optic cables through the same packaging (glass or plastic). Through correlation with the Infrared Absorption Spectroscopy (FT-IR) showed ability to quantify the samples. A quick analysis provided by Raman Dispersive allows precise aiming a criminal report to provide excellent service to both the police investigation and filed criminal charges. The Dispersive Raman can be used as a methodology that complements the toxicological analysis techniques in the country's police and cooperate with the Judiciary on behalf of society. Keywords: cocaine identification, dispersive Raman spectroscopy, adulteration, forensic toxicology LISTA DE FIGURAS Figura 1: Estrutura molecular da cocaína base livre (esquerda) e do cloridrato de cocaína (direita). .................................................................................................. 17 Figura 2: Estrutura química dos compostos resultantes da degradação da cocaína. ........... 18 Figura 3: Esquema de produção de pasta base. .................................................................. 19 Figura 4: Esquema de produção de cloridrato de cocaína. ................................................. 19 Figura 5: Esquema de produção de crack base. .................................................................. 20 Figura 6: Níveis de energia relacionados ao (a) espalhamento Stokes, (b) Rayleigh e (c) anti-Stokes. .................................................................................................... 23 Figura 7: Componentes básicos do espectrômetro Raman Dispersivo. .............................. 25 Figura 8: Diagrama de um Interferômetro de Michelson. .................................................. 27 Figura 9: Esquema para a obtenção do espectro de absorção por ATR. ............................ 28 Figura 10: Foto de um sistema Raman com câmera acoplada ao “Raman Probe” para filmagem da amostra. .......................................................................................... 29 Figura 11: Esquema do CG-FID utilizado para a identificação e dosagem da cocaína no teste quantitativo. ........................................................................................... 31 Figura 12: Diagrama esquemático do espectrômetro Raman dispersivo utilizado no experimento qualitativo. Potência do laser: 80 mW, comprimento de onda de excitação: 830 nm, resolução do espectrômetro: 10 cm-1............................... 36 Figura 13: Foto do sistema Raman Dispersivo acoplado ao “Raman probe” e microscópio Raman, que foi utilizado na coleta dos dados espectrais................ 37 Figura 14: Esquema representando as componentes principais PC1 e PC2 (b) a partir das variáveis originais x, y e z (a) e a visualização da rotação causada pela PCA (c). ............................................................................................................... 41 Figura 15: Espectros Raman de amostras de diferentes apresentações de cocaína: (A) cocaína base livre (PÓ1); (B) cloridrato de cocaína (PÓ2); (C) crack (CRK); (D) pasta branca (PBR1); (E) pasta amarela (PAM1). Espectrômetro configuração 1: comprimento de onda: 830 nm; potência: 80 mW; tempo de exposição: 10s; resolução: 10 cm-1. ....................................... 45 Figura 16: Espectros Raman de amostras de diferentes adulterantes: (A) lidocaína; (B) cafeína; (C) benzocaína. Espectrômetro configuração 1: comprimento de onda: 830 nm; potência: 80 mW; tempo de exposição: 10s; resolução: 10 cm-1. ................................................................................................................ 48 Figura 17: Espectros Raman de amostras de diferentes adulterantes: (A) talco; (B) amido de trigo; (C) sulfato de alumínio; (D) bicarbonato de sódio; (E) carbonato de sódio. Espectrômetro configuração 1: comprimento de onda: 830 nm; potência: 80 mW; tempo de exposição: 10 s; resolução: 10 cm-1. ........ 48 Figura 18: Espectros Raman de cocaína pó (A) comparado com espectros de crack de diferentes apreensões (B a E) com a sugestiva presença de metabólito ácido benzóico em 1639 cm-1 e adulterante ou contaminante em 1347 e 1478 cm-1. As diferenças nas intensidades entre os picos em 1605 e 1712 cm-1 sugerem formação de benzoilecgonina. ...................................................... 51 Figura 19: Espectros Raman de (A) ácido benzóico (B) benzoilecgonina (adaptado de [67, 68]) e (C) amostra de crack com sinais de degradação. * indica pico em 1639 cm-1. ...................................................................................................... 51 Figura 20: Espectros Raman de cocaína pó (A) comparado com espectros de cocaína base livre (pó) de diferentes apreensões (B a E) com a sugestiva presença de adulterante em 1639 cm-1. As diferenças nas intensidades entre os picos em 1605 e 1712 cm-1 sugerem formação de benzoilecgonina. ........................... 52 Figura 21: Espectros Raman de cocaína pó (A) comparado com espectros de cocaína base livre (pó) de diferentes apreensões (F a H) com a sugestiva presença de adulterante em 1069 cm-1 e contaminante/produto de degradação em 1639 cm-1. As diferenças nas intensidades entre os picos em 1605 e 1712 cm-1 sugerem formação de benzoilecgonina. ...................................................... 52 Figura 22: Espectro Raman de cocaína pó (A) comparado com espectros de pasta de cocaína de cor amarela de diferentes apreensões (B a E) com a sugestiva presença de adulterantes/contaminantes em 983 e 1069 cm-1. As diferenças nas intensidades entre os picos em 1605 e 1712 cm-1 sugerem formação de benzoilecgonina. .................................................................................................. 53 Figura 23: Espectro Raman de cocaína pó (A) comparado com espectros de pasta de cocaína de cor amarela de diferentes apreensões (F e G) com a sugestiva presença de adulterantes ou contaminantes em 1347 e 1478 cm-1. As diferenças nas intensidades entre os picos em 1605 e 1712 cm-1 sugerem formação de benzoilecgonina. ............................................................................. 54 Figura 24: Espectro Raman de cocaína pó (A) comparado com espectros de pasta de cocaína de cor branca de diferentes apreensões (B a E) com a sugestiva presença de adulterantes/produtos de degradação em 1069 e 1639 cm-1. As diferenças nas intensidades entre os picos em 1605 e 1712 cm-1 sugerem formação de benzoilecgonina. ............................................................................. 55 Figura 25: Espectros FT-IR de amostras de diferentes apresentações de cocaína: (A) cocaína base livre (PÓ1); (B) cloridrato de cocaína (PÓ2); (C) crack (CRK); (D) pasta branca (PBR1); (E) pasta amarela (PAM1). ........................... 56 Figura 26: Espectros FT-IR de amostras de diferentes adulterantes: (A) benzocaína; (B) cafeína; (C) lidocaína, com picos característicos em destaque. .................... 58 Figura 27: Espectros FT-IR de amostras de diferentes adulterantes: (A) carbonato de sódio; (B) bicarbonato de sódio; (C) sulfato de alumínio; (D) amido de trigo; (E) talco, com picos característicos em destaque. ..................................... 58 Figura 28: Espectros FT-IR de amostras de cocaína: (A) base livre; (B) crack com sugestivo de degradação (benzoilecgonina); (C) crack com sugestivo de degradação (benzoilecgonina); (D) cocaína pó com sugestivo de umidade; (E) pasta amarela com sugestivo de umidade; (F) pasta branca com sugestivo de umidade. ......................................................................................... 61 Figura 29: Espectros FT-IR da Figura 28 plotados na região de impressão digital (entre 700 e 1800 cm-1). ...................................................................................... 62 Figura 30: Comparativo entre espectros FT-IR de: (A) cocaína base livre em pó com sinais de degradação da Figura 29B; (B) benzoilecgonina e (C) ácido benzóico. ............................................................................................................. 63 Figura 31: Espectros Raman de adulterantes: (A) cafeína; (B) benzocaína; (C) lidocaína; (D) carbonato de sódio e (E) crack utilizados nas misturas binárias. Espectrômetro configuração 2: comprimento de onda: 830 nm; potência: 200 mW; tempo de exposição: 10s; resolução: 2 cm-1. ....................... 64 Figura 32: Espectros Raman das misturas binárias de (A) cocaína-cafeina; (B) cocaína-carbonato de sódio; (C) cocaína-benzocaína e (D) cocaínalidocaína em diferentes concentrações. ............................................................... 65 Figura 33: Plotagem dos espectros dos escores dos componentes principais 2 (ES2) das misturas utilizadas na quantificação. As marcações são indicativas dos picos principais da cocaína base livre, com posições conforme Tabela 1. ......... 66 Figura 34: Curva de calibração com as concentrações matemáticas (azul) e concentrações reais obtidas com o estudo utilizando o ES2, para cada uma das misturas binárias. Erro padrão, coeficiente de correlação r2 e equação da reta de calibração encontram-se em cada gráfico das misturas. ..................... 67 Figura 35: Espectros FT-IR de adulterantes: (A) cafeína; (B) benzocaína; (C) lidocaína; (D) carbonato de sódio e (E) crack, utilizados nas misturas binárias. ............................................................................................................... 68 Figura 36: Espectros FT-IR das misturas binárias de cocaína-cafeina; cocaínacarbonato de sódio; cocaína-benzocaína e cocaína-lidocaína em diferentes concentrações. ..................................................................................................... 69 Figura 37: Plotagem dos espectros do Componente Principal 2 de cada conjunto de dados com as misturas binárias. As marcações indicam a localização dos picos da cocaína base: (A) cafeina; (B) benzocaina; (C) lidocaina; (D) carbonato de sódio. As marcações são indicativas dos picos principais da cocaína base livre, com posições conforme Tabela 3. ........................................ 70 Figura 38: Curva de calibração com as concentrações matemáticas (azul) e concentrações reais obtidas com o estudo utilizando o ES2, para cada uma das misturas binárias. Erro padrão, coeficiente de correlação r2 e equação da reta de calibração encontram-se em cada gráfico das misturas. ..................... 71 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Principais picos Raman da cocaína nas diferentes apresentações e respectiva tentativa de atribuição das vibrações. .................................................................... 46 Tabela 2: Principais compostos utilizados na adulteração de cocaína e os respectivos picos Raman, com a tentativa de atribuição. ......................................................... 49 Tabela 3: Principais picos FT-IR da cocaína nas diferentes apresentações e respectivas atribuições das vibrações. ...................................................................................... 57 Tabela 4: Principais compostos utilizados na adulteração de cocaína e os respectivos picos FT-IR, com as tentativas de atribuição. ....................................................... 59 Tabela 5: Comparação dos resultados Raman e FT-IR na quantificação de cocaína nas misturas .................................................................................................................. 71 LISTA DE SIGLAS ATR Attenuated Total Reflectance CCD Charge-Coupled Device CCDC Cromatografia em camada delgada comparativa CG Cromatografia Gasosa. CG-FID Cromatografia Gasosa- Detector de Ionização de Chama. CG-MS Cromatografia Gasosa - Detector Espectrometria de Massa. FBI Federal Bureau of Investigation FT-IR Fourier Transform Infrared Spectroscopy HPLC High-performance liquid chromatography NIST American Institute of Standards and Technology PCA Principal Components Anaysis. PCR Principal Components Regression. SOFT Society of Forensic Toxicologists SERS Surface Enhanced Raman Spectroscopy SWGDRUG Scientific Working Group for the Analysis of Sizes Group UNODEC Escritório das Nações Unidas Contra Drogas e Crimes SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 17 1.1 A Cocaína ........................................................................................................................... 17 1.1.1 Considerações sobre a Cocaína ....................................................................................... 17 1.1.2 Adulterantes e Contaminantes Utilizados na Fabricação da Cocaína ............................. 19 1.1.3 Metodologias Empregadas para Avaliação de Drogas Ilícitas ........................................ 20 1.1.4 Importância da Técnica Raman na Toxicologia Forense ................................................ 21 1.2 Técnicas Raman, FT-IR e CG-FID .................................................................................... 22 1.2.1 Espectroscopia Raman ..................................................................................................... 22 1.2.2 Espectroscopia no Infravermelho .................................................................................... 26 1.2.3 Vantagens do Raman Comparado ao FT-IR.................................................................... 28 1.2.4 Vantagem do Raman Dispersivo em relação ao FT-Raman............................................ 29 1.2.5 Cromatografia Gasosa/Detector de Ionização de Chama (CG-FID) ............................... 30 2 OBJETIVOS ........................................................................................................................ 32 2.1 Objetivo Geral .................................................................................................................... 32 2.2 Objetivos Específicos ......................................................................................................... 32 3 MATERIAIS E MÉTODOS ............................................................................................... 33 3.1 Amostras para Avaliação Qualitativa ................................................................................. 33 3.2 Amostras de Misturas para Avaliação Quantitativa ........................................................... 34 3.3 Espectroscopia Raman........................................................................................................ 35 3.3.1 Espectrômetro Raman - Configuração 1 ......................................................................... 35 3.3.2 Espectrômetro Raman - Configuração 2 ......................................................................... 36 3.4 FT-IR .................................................................................................................................. 38 3.5 Cromatografia Gasosa ........................................................................................................ 39 3.5.1 Padrões Utilizados na CG ................................................................................................ 39 3.5.2 CG-FID ............................................................................................................................ 39 3.6 Análise Quantitativa da Cocaína em Diluições De Adulterantes ....................................... 40 3.6.1 Análise dos Componentes Principais - PCA (Principal Components Analysis) ............. 40 3.6.2 Regressão por Componentes Principais (PCR) ............................................................... 41 4 RESULTADOS .................................................................................................................... 44 4.1 Teor de Cocaína Analisado pelo CG-FID .......................................................................... 44 4.2 Análise Qualitativa das Amostras de Cocaína e Adulterantes ........................................... 44 4.2.1 Espectroscopia Raman ..................................................................................................... 44 4.2.2 Espectroscopia FT-IR ...................................................................................................... 55 4.3 ANÁLISE QUANTITATIVA DAS AMOSTRAS DE COCAÍNA E ADULTERANTES ................................................................................................................... 63 4.3.1 Espectroscopia Raman ..................................................................................................... 64 4.3.2 Espectroscopia FT-IR ...................................................................................................... 67 5 DISCUSSÃO ........................................................................................................................ 72 5.1 Caracterização das Drogas e Identificação de Adulterantes/Contaminantes e Metabólitos ............................................................................................................................... 72 5.1.1 Espectroscopia Raman ..................................................................................................... 72 5.1.2 Espectroscopia FT-IR ...................................................................................................... 75 5.1.3 Comparação ente FT-IR e Raman na Identificação de Adulterantes e Metabólitos ....... 76 5.2 Análise Quantitativa de Misturas Binárias de Adulterantes em Cocaína ........................... 77 5.3 Vantagens da Técnica Raman Comparada à FT-IR ........................................................... 79 5.4 Considerações sobre a Cocaína e a Importância da Técnica de Espectroscopia Raman Na Toxicologia Forense............................................................................................................ 80 5.5 Trabalhos Futuros ........................................................................................................... ....81 6 CONCLUSÃO...................................................................................................................... 83 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 84 ANEXOS ................................................................................................................................. 90 17 1. INTRODUÇÃO 1.1. A Cocaína 1.1.1. Considerações sobre a Cocaína A cocaína (3-(benzoiloxi)-8-metil-8-azabiciclo [3.2.1] octano-2-acido carboxílico metil ester) é um estimulante do sistema nervoso central e obtido naturalmente das espécies nativas da América do Sul Erythroxylon Coca e Erythroxylon novogranatense, com estrutura molecular apresentada na Figura 1 (CARTER et al.,2000). Após sua extração das folhas de coca, esta se apresenta nas formas de pó, pasta ou pedra (crack), na forma livre ou básica, utilizada fumada, ou forma de sal, cloridrato de cocaína, forma de pó solúvel em água sendo utilizada injetável ou inalada. A prática injetável é um fator de risco para a transmissão do HIV. Usuários de drogas injetáveis têm optado por mudança de via, em que muitos antigos usuários de injetáveis vêm utilizando o crack por o considerarem mais seguro, já que por essa via não compartilham seringas e agulhas (CEBRID, 2009). + HCl Figura 1: Estrutura molecular da cocaína base livre (esquerda) e do cloridrato de cocaína (direita). Fonte: Carter et al. (2000). Em relação à degradação da cocaína, os principais produtos de degradação estão apresentados na Figura 2. A hidrólise ocorre espontânea (calor e umidade) ou enzimaticamente (OGA, 1996). Os principais produtos são o éster metilecgonina (EME) e a benzoilecgonina. O ácido benzóico também aparece como produto de degradação por hidrólise ou mesmo em função da exposição da mesma à luz (BARBALHO et al., 2003). 18 a) benzoilecgonina b) ester metilecgonina c) ácido benzóico Figura 2: Estrutura química dos compostos resultantes da degradação da cocaína. Existem inúmeras complicações orgânicas associadas ao uso agudo e crônico da cocaína. Casos agudos relatam casos de overdose, na qual a cocaína com maior grau de pureza é consumida por usuários sem o discernimento desta concentração. A vasoconstrição causada pela cocaína pode resultar em isquemia e precipitar arritmias (KATZUNG, 2003). A ação vasoconstrictora da cocaína fez com que um número significativo de pacientes com graves episódios de hipertensão aguda apresentasse infarto do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais. Existem leis federais internacionais rigorosas para o tráfico de crack devido aos danos que a forma básica causa em nossa sociedade (CARTER et al., 2000). No Brasil esta vigorando a Lei 11.343/2006 (Nova Lei dos Tóxicos) que tipifica os crimes como tráfico e produção de drogas (GOMES, 2006). A situação do tráfico de cocaína é demonstrada pelo relatório das Nações Unidas, UNODEC1 (2006) como: [...] De todas as apreensões mundiais, a maioria continua concentrada nas Américas (85%). A América do Sul, foco da produção da folha de coca é responsável por 51% de todas as apreensões no mundo, tendo a América do Norte como principal mercado mundial de cocaína, com 27% das apreensões. [...] No Brasil, o aumento no uso de cocaína, de 0,4% (prevalência anual) em 2001, para 0,7% em 2005. [...] Os países mais citados da rota da cocaína que sai da América do Sul para a Europa via África são: Brasil, Peru e Venezuela. Além disto, a cocaína, principalmente na forma de crack, encontra-se normalmente misturada a vários adulterantes e contaminantes prejudiciais à saúde, que são fumados (CEBRID, 2009). A discriminação de diversos tipos de drogas de abuso e a análise quantitativa destas drogas e seus adulterantes são de vital importância para a área policial (Segurança Pública) e forense, como um meio de verificar a veracidade da amostra. 1 Escritório das Nações Unidas Contra Drogas e Crimes (UNODEC) 19 1.1.2. Adulterantes e Contaminantes Utilizados na Fabricação da Cocaína A fabricação da cocaína utiliza Na2CO3, bem como HCl, H2SO4, acetona, éter, querosene, dentre outros. Os procedimentos descritos nos fluxogramas nas Figuras 3 a 5, são considerados como sendo os mais utilizados na produção de crack, pasta base e cloridrato de cocaína (MOORE e CASALE, 1994; MORELLO e MEYERS, 1995; DEPARTAMENTO DE POLÍCIA FEDERAL, 2002; VARGAS e TALHAVINI, 2000; ALMEIDA, 2003). O carbonato de sódio (barrilha), muito utilizado em tratamento de piscinas, tem a venda controlada pela Polícia Federal (Lista II da Portaria 1274, de 25 de agosto de 2003) (Anexo A). FOLHAS DE COCA • • • • QUEROSENE, GASOLINA ÁCIDO SULFÚRICO (ÁGUA DE BATERIA) CARBONATO DE SÓDIO OU AMONÍACO ÓXIDO DE CÁLCIO (CAL) OU AMONÍACO PASTA BASE DE COCAÍNA (pasta de coca) Figura 3: Esquema de produção de pasta base. COCAÍNA BASE • • • ÉTER ETÍLICO ACETONA ÁCIDO CLORÍDRICO CLORIDRATO DE COCAÍNA Figura 4: Esquema de produção de cloridrato de cocaína. 20 PASTA BASE DE COCAÍNA • • • ÁCIDO SULFÚRICO • ÁCIDO SULFÚRICO • CARBONATO DE SÓDIO OU AMONÍACO PERMANGANATO DE POTÁSSIO HIDRÓXIDO (AMONÍACO) DE AMÔNIO • • AQUECIMENTO RESFRIAMENTO COCAÍNA BASE “CRACK” • • • ÉTER ETÍLICO ACETONA ÁCIDO CLORÍDRICO CLORIDRATO DE COCAÍNA • • ÁGUA • • AQUECIMENTO CARBONATO DE SÓDIO OU AMONÍACO RESFRIAMENTO Figura 5: Esquema de produção de crack e cloridrato de cocaina. 1.1.3. Metodologias Empregadas para Avaliação de Drogas Ilícitas Dentre os métodos atualmente empregados na Toxicologia Forense visando a detecção e identificação de drogas ilícitas tais como a cocaína, anfetamina, ecstasy, ópio, barbitúricos, benzodiazepínicos, dentre outras, encontra-se principalmente a Cromatografia Gasosa acoplada a Detector de Ionização de Chama (CG-FID) (BUJÁN et al., 2001; SILVA et al., 2008; PIÑERO e CASALE, 2006), que é um método destrutivo e não possibilita re-análise das evidências. Assim sendo, o ideal é a possibilidade de preservação da amostra para futuras solicitações judiciais no caso de contraprovas. Técnicas que possibilitem a análise não destrutiva, e que necessitem de pequena quantidade de material para a correta avaliação de maneira rápida no local de ocorrência são de especial interesse. A análise não destrutiva tem sido realizada através do uso de técnicas de espectroscopia vibracional, principalmente a Espectroscopia de Absorção no Infravermelho e a Espectroscopia Raman. A Espectroscopia de Absorção no Infravermelho usa a região do infravermelho do espectro eletromagnético para irradiar uma amostra e coletar o espectro de absorção (MELO et al., 2008). A Espectroscopia Raman avalia o espalhamento inelástico das moléculas à excitação ultravioleta, visível ou infravermelha (BRANCO, 2005). 21 1.1.4. Importância da Técnica Raman na Toxicologia Forense A Espectroscopia Raman tem sido utilizada para análise quantitativa de drogas de abuso e seus adulterantes (ALI et al., 2008a; HODGES et al., 1989; DAY et al., 2004). A técnica Raman permite análise direta do material sem utilização de reagentes químicos, no caso solventes, e sem destruição da amostra. Como não é necessário o uso de reagentes ou gases, o método apresenta a vantagem de ser mais econômico quando comparado a Cromatografia Gasosa. A Espectroscopia Raman permite análise molecular em poucos segundos e sem contato direto com a amostra (CARTER et al., 2000; HODGES et al.,1989). Outra vantagem da Espectroscopia Raman é que as drogas podem ser identificadas até mesmo acondicionadas em recipientes de plástico de parede fina e dentro de garrafas de vidro (DAY et al., 2004; ELIASSON et al., 2008). Sua contribuição não se resume à área jurídica, como a avaliação de contra-provas, mas também na operacionalização da técnica, evitando-se a intoxicação do operador com substâncias voláteis tóxicas utilizadas em cromatografias, no caso solventes à base de hidrocarbonetos (xileno, hexano, clorofórmio), como também contaminação ambiental (BRANCO, 2005). Além disso, pequenas quantidades de amostras podem ser utilizadas e teoricamente um único cristal da droga pode revelar sua presença (DAY et al., 2004). Equipamento Portátil Raman permite o uso de fibra óptica para análises em áreas de difícil acesso (ALI et al., 2008b), viabilizando avaliação em tempo real no local de ocorrência. Desde a década de 1990, a Espectroscopia Raman vem sendo incorporada na área de pesquisas forenses (BRANCO, 2005). A Espectroscopia Raman oferece potencial para identificação de narcóticos ilegais em tempos da ordem de segundos, pela análise do espalhamento inelástico das vibrações moleculares. Tal metodologia tem sido usada não só para análise quantitativa de drogas de abuso como cocaína, barbitúricos, benzodiazepínicos, ecstasy, dentre outras (ALI et al., 2008a; ALI et al., 2008b; DAY et al., 2004; RYDER et al., 1999; BARANSKA e PRONIEWICZ, 2008; NOONAN et al., 2005) como também em misturas destas com adulterantes como: carbonato de sódio, talco, cafeína (BRANCO, 2005; ALI et al., 2008a; HODGES et al., 1989; DAY et al., 2004; ALI et al., 2008b; RYDER et al., 1999; BARANSKA e PRONIEWICZ, 2008; NOONAN et al., 2005), obtendo-se assim mapas espectrais de cada adulterante, permitindo determinação da homogeneidade de amostras (DAY et al., 2004; BARANSKA e PRONIEWICZ, 2008; NOONAN et al., 2005). Bandas Raman da cocaína e adulterantes têm sido relatadas na literatura (CARTER et al., 2000; TENG et al., 2008; PAVEL et al., 2002; HORIBA JOBIN YVON, 2011; NADINE, 22 2001). Em 2008, foi proposto um trabalho que demonstra um espectrômetro Raman portátil para ser empregado em aeroportos, navios, rodoviárias, na identificação de drogas ilícitas (HARGREAVES et al., 2008). Toda manipulação realizada na cocaína, desde seu plantio e refino até sua diluição (adulteração) para distribuição, deixa sua “marca” no produto final, seja na forma de impurezas, resíduos de solventes e presença de diluentes. Estas “marcas” deixadas na cocaína são, em princípio, características de cada rota de tráfico e local de consumo. Assim, a identificação rápida destes materiais pode ser utilizada nas investigações de rotas de entrada de cocaína e novos mercados consumidores (ALMEIDA et al., 2008). A importância de uma técnica não destrutiva como a técnica Raman na área forense verifica-se pela possibilidade de preservação da prova material do crime (NOONAN et al., 2005), identificação de drogas de abuso e dos adulterantes, dentre eles, o carbonato de sódio, utilizado tanto na diluição para aumentar o volume como também na fabricação da cocaína. Metodologias que utilizam Raman diferenciado como Raman Amplificado em Superfície (SERS) fornecem informação em situações específicas, detectando substâncias com limite mínimo de concentração na ordem de picogramas, demonstrando sua aplicabilidade em uma variedade de moléculas, tanto na área de farmacêutica quanto na área ambiental e biomédica (PINZARU et al., 2004). A utilização de radiação de excitação no infravermelho do sinal Raman (785 e 830 nm) e detetores do tipo CCD e espectrógrafos de imagem permitem tempo de coleta da ordem de 1 a 10 s na faixa espectral da região onde são encontradas bandas fundamentais específicas da amostra analisada (400 a 2000 cm-1) (ALI et al., 2008). A utilização da técnica SERS (Surface Enhanced Raman Spectroscopy Espectroscopia Raman Amplificada pela Superfície) permitiu obter espectros Raman específicos de amostra cocaína em torno de 1 µg depositada em gel de prata, utilizando separação prévia pelo tempo de retenção por HPLC (SAGMULLERA et al., 2003). 1.2. Técnicas Raman, FT-IR e CG-FID 1.2.1. Espectroscopia Raman O termo espectroscopia ótica pode ser atribuído a qualquer tipo de interação da radiação eletromagnética com a matéria. Duas teorias complementares descrevem a radiação eletromagnética: a corpuscular, sendo formada por pacotes de energia ou fótons e a ondulatória, cujo comprimento de onda inversamente proporcional à energia (ou frequência). 23 Dois mecanismos demonstram a interação da radiação com a matéria proporcionando transições a níveis vibracionais característicos: absorção e espalhamento. No caso do espalhamento são observados: espalhamento elástico ou Rayleigh (Figura 6b) no qual não ocorre transferência de energia e assim a radiação espalhada terá a mesma freqüência da radiação incidente e o espalhamento inelástico ou Raman, pelo qual uma quantidade menor de radiação espalhada (em torno de um fóton em 107) retorna a um estado vibracional diferente, ou seja, freqüência diferente da radiação incidente (SMITH e DENT, 2005). O espalhamento inelástico de luz pode resultar tanto em um fóton de menor energia, quanto em um fóton de maior energia. No primeiro caso, ocorre quando o fóton incidente encontra a molécula em um estado vibracional fundamental e é espalhado com energia menor que a do incidente. A molécula não retorna ao estado fundamental, depois de decair, esta fica no estado vibracional (1), com energia E1. Nesse caso, o fóton que é reemitido em uma direção qualquer, terá sua energia diminuída para Ef - E1. A molécula e sua vibração absorvem uma parte da energia do fóton. Esse é um tipo de espalhamento Raman chamado Stokes (Figura 6a). No segundo caso, tem-se um fóton espalhado com energia maior que a do incidente. A molécula pode já estar vibrando com energia E1, quando o fóton incide sobre ela, levando-a a uma energia bem mais alta EV´. Deste estado V´ a molécula decai, só que agora para o estado fundamental (0). No processo, um fóton de energia Ef + E1 é emitido. É o chamado espalhamento anti- Stokes (Figura 6c) (BRANCO, 2005; SALA, 2008). As freqüências vibracionais são, portanto, determinadas pelas diferenças entre as freqüências das radiações espalhadas e a da radiação incidente. a b c Figura 6: Níveis de energia relacionados ao (a) espalhamento Stokes, (b) Rayleigh e (c) anti-Stokes. 24 No espectro Raman, as linhas Stokes e anti-Stokes tem-se simetria em relação à linha Rayleigh, e comparado ao espalhamento Stokes, o espalhamento anti-Stokes será fraco, pois normalmente, em uma amostra a temperatura ambiente, o número de moléculas que estão no estado fundamental é muito maior que o de moléculas já excitadas termicamente. Portanto, o número de processos do tipo Stokes é maior que o número de processos anti-Stokes, devido à diminuição da população de estados vibracionais excitados (SMITH e DENT, 2005). Utiliza-se normalmente como radiação monocromática no ultravioleta, visível ou no infravermelho próximo para a excitação das amostras (SALA, 2008). Uma vez que, a energia das fontes de excitação é da ordem de 20000 cm-1 (~500 nm), a freqüência Raman espalhada será deslocada de 20000 cm-1 para valores situados no intervalo de 10 a 4000 cm-1. Em um espectro de espalhamento, a intensidade de uma determinada banda (IR) depende diretamente da intensidade do feixe incidente (I0), da quarta potência da frequência radiação espalhada (ν4), do número de centros espalhadores (N), da propriedade polarizabilidade, característica da espécie química durante a vibração (a), e de um fator relacionado ao arranjo óptico do instrumento de coleta (W): IR = I0.ν4.N.a.W (1) No espectro Raman, o dipolo a ser considerado é o induzido pela própria radiação eletromagnética incidente e, portanto, deve haver polarizabilidade da ligação durante a vibração. A polarizabilidade torna-se o ponto chave para o entendimento e aplicação da espectroscopia Raman (SALA, 2008). A polarização P induzida na molécula depende da polarizabilidade desta molécula α (que é a capacidade de separar cargas dentro de molécula com campo externo) e do campo elétrico da radiação eletromagnética incidente E, conforme equação: P=αE (2) Na espectroscopia Raman, tanto molécula diatômicas heteronucleares como moléculas diatômicas homonucleares apresentam atividade, pois em ambos os casos ocorrem variações na polarizabilidade durante a vibração. Por exemplo, a polarizabilidade da ligação dupla carbono-carbono varia durante a vibração molecular e, portanto seu espalhamento Raman é forte. Já na ligação dupla carbono-oxigênio, a variação da polarizabilidade não é tão intensa, pois esta ligação já possui um momento de dipolo permanente intenso. Os modos vibracionais 25 com estiramento simétricos são mais intensos no espectro Raman, enquanto que os assimétricos são mais intensos no espectro por absorção no infravermelho (SALA, 2008). A aplicação das propriedades de simetria e teoria de grupo permitiu que as atribuições de freqüências não fossem puramente empíricas, mas tivessem base matemática (SALA, 2008). Para a obtenção do espectro Raman, pode-se utilizar principalmente dois tipos de metodologia: a dispersiva e a Transformada de Fourier (FT-Raman). O Raman Dispersivo utiliza em seu sistema de coleta um espectrógrafo com grade de difração e um elemento sensor multicanal (câmera CCD - Charge-Coupled Device). As CCD são detectores de silício multicanais (imagem) que convertem fótons em sinais elétricos. Um espectro Raman dispersivo é obtido quando a luz monocromática do laser incide sobre a amostra que se deseja estudar, sendo então espalhada e coletada na fenda do espectrógrafo. Em seguida, a luz é dispersa por uma rede de difração dentro do espectrógrafo, em que o número de linhas/mm e a área iluminada definem a resolução que pode ser atingida pelo espectrógrafo, sendo a resolução definida como a capacidade de separar duas bandas próximas uma da outra (BRANCO, 2005). A luz é recolhida por um detector CCD, que converte a intensidade da luz em sinais elétricos os quais são interpretados pelo programa de controle na forma de um espectro Raman (Figura 7). Figura 7: Componentes básicos do espectrômetro Raman Dispersivo. Já o espectrômetro FT-Raman utiliza usualmente um laser de Nd-YAG com comprimento de onda de 1064 nm e um interferômetro, o qual registra um padrão de interferência ao ter-se a radiação proveniente da amostra refletida por um espelho fixo e por outro móvel. Assim, à medida que o espelho se movimenta, cria-se um padrão que é característico daquele comprimento de onda. Esta radiação se desloca para o interferômetro, em que é produzido um interferograma. Este interferograma deve ser transformado em um espectro, que relaciona as intensidades com as respectivas freqüências, por meio de um 26 tratamento matemático via Transformada de Fourier (SALA, 2008). A vantagem é que a fonte de radiação pode operar em comprimentos de onda na região do infravermelho, com potências maiores sem causar foto-decomposição das amostras e o comprimento de onda não é suficiente para provocar transições eletrônicas, o que poderia provocar fluorescência (BRANCO, 2005). A restrição é que, este comprimento de onda maior (frequência menor) fornece um espalhamento Raman de menor eficiência - devido à dependência de ν4 do espalhamento. 1.2.2. Espectroscopia no Infravermelho A técnica de Espectroscopia no Infravermelho baseia-se no fato de que as ligações químicas das substâncias possuem freqüências de vibração específicas, as quais correspondem a níveis de energia vibracional da molécula (MELO et al., 2008). A absorção no infravermelho ocorre quando a freqüência da radiação, multiplicada pela constante de Planck, tem o mesmo valor da diferença de energia entre os dois estados vibracionais: E = h.ν, (3) Sendo ν = c/λ, em que E - energia entre dois níveis vibracionais, h - constante de Planck, ν - frequência da radiação, c - velocidade da luz, λ - comprimento de onda da luz. Ou seja, o processo envolve uma ressonância entre a diferença de níveis de energia da molécula e a radiação eletromagnética (SALA, 2008). Logo, para haver absorção da luz incidente, a vibração deve variar o momento de dipolo da molécula em que a frequência de vibração deste dipolo coincida com a frequência da luz incidente. A Espectroscopia no Infravermelho é um método físico para análises quantitativas de traços de elementos. Especificamente, para o caso da espectroscopia por refletância, é muito difundida na literatura, podendo ser utilizada em equipamentos que operam na região do infravermelho (KOULIS et al., 2001; WIELBO e TEBBETT; 1993). No final dos anos 1970 e início dos 1980 foi demonstrada a utilidade deste fenômeno quando acessórios de refletância difusa foram acoplados com espectrômetros interferométricos com transformada de Fourier (WIELBO e TEBBETT, 1993; GOH et al., 2008). Dentre os métodos de análise utilizando a Espectroscopia no Infravermelho, tem-se os espectrofotômetros que operam com a Transformada de Fourier (FT-IR), especialmente os que possuem acessórios para a 27 espectroscopia de Refletância Total Atenuada (ATR - Attenuated Total Reflectance). Existem trabalhos recentes sobre análise de cocaína com FT-IR utilizando ATR (KOULIS et al., 2001; GOH et al., 2008; MAHARAJ, 2009; PAVIA et al., 2009) e mesmo correlacionando FT-IR ATR com a Espectroscopia Raman (NG et al., 2009). O funcionamento do FT-IR baseia-se em um dispositivo ótico chamado Interferômetro de Michelson, formado por um divisor de feixe (espelho semitransparente), um espelho fixo e outro móvel (Figura 8). A radiação incidente no divisor (como exemplo uma fonte de luz infravermelha que emite na faixa de 800 a 2x105 nm ou 10x103 a 20 cm-1) é separada em dois feixes: 50% é transmitida para o espelho móvel e 50% é refletida no espelho fixo. Os dois raios são refletidos por esses espelhos, retornado ao divisor de feixe, em que eles se recombinam e sofrem interferência. O resultado desta interferência depende da diferença entre os caminhos ópticos percorridos por cada feixe, que é determinada pela distância dos espelhos móvel e fixo ao divisor de feixe: o espelho se movimenta e cria um padrão interferométrico que é característico daquele comprimento de onda (BRANCO, 2005). O movimento do espelho produz uma diferença de caminho ótico conhecido como retardo ótico (δ). Se os dois caminhos percorridos forem iguais ou diferirem por um número inteiro de comprimento de onda (λ), ocorre uma interferência construtiva e é registrado um sinal forte no detector. Se, no entanto, a diferença for um número inteiro e mais meio comprimento de onda, ocorre uma interferência destrutiva e é registrado um sinal muito fraco no detector. A distância percorrida pelo espelho caracteriza a resolução no FTIR. A radiação que atravessa o interferômetro é direcionada para a amostra e a luz refletida pelo material é focalizada sobre um detector, onde é convertida em um sinal digital. Posteriormente, utiliza-se a Transformada de Fourier, procedimento matemático que transforma os interferogramas (padrões temporais) em espectros (domínio da frequência). Figura 8: Diagrama de um Interferômetro de Michelson. 28 A Espectroscopia FT-IR por ATR utiliza o fenômeno da reflexão interna total. Um feixe de radiação atravessa um cristal que permite a reflexão interna total, dependendo do angulo de incidência (30°, 45° e 60°), e do cristal utilizado. Uma vantagem da técnica de ATR em relação a técnicas convencionais de transmitância e absorção, é que são obtidos espectros reprodutíveis em materiais sólidos. A amostra sólida é posicionada em cima de um cristal opticamente denso com alto índice de refração, entre 2,38 e 4.01, sendo que no caso de amostra sólida tem-se a necessidade de pressioná-la de tal modo a proporcionar um maior contato (Figura 9). A radiação IR é refletida devida ao alto índice de refração; entretanto, uma fração muito pequena desta radiação, chamada de onda evanescente, atinge a amostra em contato com o cristal e pode ou não ser absorvida por ela. A profundidade com que esta radiação penetra na amostra é da ordem de 0,5 a 5 µm (PERKINELMER, 2005). A radiação atenuada resultante é medida e registrada em função do comprimento de onda resultando nas características de absorção espectral da amostra. Figura 9: Esquema para a obtenção do espectro de absorção por ATR. 1.2.3. Vantagens do Raman Comparado ao FT-IR A Espectroscopia Raman, em comparação com o FT-IR, possui especificamente as vantagens: 1) Vibrações nucleares simétricas, como estiramento -C=C- e -S=S- são fracas e inativas no FT-IR, e fortes e ativas no Raman; 2) Pouca ou nenhuma necessidade de preparação da amostra e não necessidade de acessórios; 3) Não sofrem interferência de umidade: H2O absorve fortemente radiação no IV, mas é péssima espalhadora de luz; 29 4) Componentes ópticos no infravermelho não podem ser de vidros (este não é transparente no infravermelho). Componentes ópticos como o KBr, são transparentes acima de 350 cm-1. No Raman, espectros podem ser obtidos já a partir de 50 cm-1 - limite inferior dado pelos componentes ópticos para substâncias inorgânicas como óxidos; 5) Devido ao uso de radiação visível, a técnica Raman possui melhor resolução espacial ao microscópio (BRANCO, 2005); 6) Mesmo para o caso de refletância, certas amostras criminais não podem ser fragmentadas; 7) Combinada com o uso de fibras óticas de sílica, o Raman permite a monitoração em locais de difícil acesso. Tais fibras ópticas permitem, em alguns casos, obtenção de resultados de até 200 m e alguns equipamentos a câmera para filmagem acoplada ao CCD, como visto no modelo JASCO microscópio RMP-100 (Figura 10). 8) Perspectiva de se lançar mão de recursos especiais, como o efeito Raman ressonante e o efeito SERS (Surface Enhanced Raman Spectroscopy - Espectroscopia Raman Amplificada pela Superfície), que aumentam a sensibilidade (FARIA e SANTOS, 1996). Figura 10: Foto de um sistema Raman com câmera acoplada ao “Raman Probe” para filmagem da amostra. 1.2.4. Vantagem do Raman Dispersivo em relação ao FT-Raman O uso de Raman dispersivo, com λ ≤ 830 nm e câmera CCD, possui maior eficiência Raman se comparado ao FT-Raman (em 1064 nm), devido ao espalhamento depender de 1/λ4 (SALA, 2008; JICKELLS e NEGRUSZ, 2008; SMITH, 2004). Possui maior disponibilidade de lasers, melhor resolução para microscopia e rápida aquisição de dados, visto que todo o espectro é obtido em uma única leitura da câmera CCD. 30 1.2.5. Cromatografia Gasosa/Detector de Ionização de Chama (CG-FID) A utilização da Cromatografia Gasosa/Detector de Ionização de chama (CG-FID) para a dosagem de drogas ilícitas, como a cocaína tem sido relatada na literatura, em especial por sua precisão (BUJÁN et al.,2001; SILVA et al., 2008; PIÑERO e CASALE, 2006; BRANCO, 2005). A Society of Forensic Toxicologists (SOFT) recomenda que uma identificação inicial de droga deva ser confirmada por uma segunda técnica de diferente princípio químico/físico. Este segundo teste, se possível, deve ser mais específico e recomenda a Cromatografia Gasosa (FORENSIC TOXICOLOGY LABORATORY GUIDELINES, 2006). Esta técnica possibilita obter limites e detecção em torno de µg/mL (ou ppm) (CARDENAS et al., 1997). A Cromatografia Gasosa é definida como um método físico-químico de separação de substâncias orgânicas que são volatilizadas em condições operacionais (SPINELLI, 2004), na qual os componentes de uma amostra podem ser separados quando esta é injetada no interior de uma coluna, com forno a uma temperatura adequada, que entra em contato com duas fases, classificadas como fase móvel e fase estacionária. A fase móvel é constituída por um gás de alta pureza, e a fase estacionária formada por material sólido ou líquido, na qual ocorre a separação dos componentes da amostra, por meio dos processos de adsorção ou partição. A amostra em questão é dissolvida em solvente apropriado e injetada por uma seringa de vidro com agulha específica para o aparelho ou utiliza-se de um sistema automatizado de injeção. Como existe uma pressão exercida pelo gás (fase móvel) no interior da coluna, os componentes presentes na amostra que apresentarem menor força de atração pela fase estacionária passam a ser conduzidos com maior facilidade pelo gás, ocorrendo assim a separação dos componentes da amostra. Este tempo de retenção é padronizado para substâncias específicas. Estas passam por um sistema de detecção de sinais que é traduzido e registrado, sendo este registro chamado cromatograma. As limitações da sua aplicação estão em substâncias, em estado gasoso ou líquidos voláteis com estabilidade térmica (BRANCO, 2005). O detector FID tem como princípio de funcionamento a queima dos componentes da amostra, trazidos pelo gás de arraste, em uma chama estequiometricamente balanceada composta por hidrogênio, ar sintético e nitrogênio, localizada em um campo elétrico com corrente contínua. Durante a combustão dos componentes, há formação de radicais livres, que são ionizados pelo campo elétrico, aumentando a corrente presente entre os eletrodos, gerando um sinal que é amplificado e enviado para o sistema de aquisição de dados. A Figura 11 apresenta um esquema do CG (BRANCO, 2005). 31 1. Reservatório de Gás e Controle de Vazão/Pressão 1 6 2. Injetor (Vaporizador) de Amostra 2 3. Coluna Cromatográfica e Forno da Coluna 4. Detector 5. Eletrônica de Tratamento (Amplificação) de Sinal 4 6. Registro de Sinal (Computador). 5 3 Figura 11: Esquema do CG-FID utilizado para a identificação e dosagem da cocaína no teste quantitativo. 32 2. OBJETIVOS 2.1. Objetivo Geral Este trabalho objetiva a identificação da cocaína base e substâncias comumente utilizadas como adulterantes e contaminantes - carbonato de sódio, cafeína, benzocaína, lidocaína, talco, amido de trigo, sulfato de alumínio e bicarbonato de sódio - por meio da técnica de Espectroscopia Raman Dispersiva e FT-IR (ATR), bem como utilização da Regressão por Componentes Principais (PCR - Principal Components Regression) para realizar a quantificação de misturas em concentrações crescentes de cocaína (crack) com adulterantes selecionados e correlacionar as metodologias Raman com FT-IR. 2.2. Objetivos Específicos Analisar comparativamente os espectros Raman e FTIR de diferentes apresentações de cocaína apreendidas - pasta base, cocaína base, cloridrato de cocaína, crack - e de um conjunto de adulterantes comumente utilizados - benzocaína, cafeína, carbonato de sódio e lidocaína- buscando identificar as suas bandas características e a possível presença destes nas amostras apreendidas; Analisar quantitativamente os espectros Raman e FTIR de misturas de cocaína - na forma de crack - com os adulterantes, nas diluições de 0% 20%, 40%, 60%, 80% e 100%, empregando Regressão por Componentes Principais (PCR), visando a quantificação da cocaína na mistura; Correlacionar a técnica Raman com a Espectroscopia de Absorção no Infravermelho (FT-IR), visando verificar qual apresenta maior poder de avaliação qualitativa e quantitativa, destacando a importância da utilização das técnicas ópticas não destrutivas em perícias forenses toxicológicas. 33 3. MATERIAIS E MÉTODOS 3.1. Amostras para Avaliação Qualitativa Foram obtidas amostras de cocaína nas diferentes apresentações: crack, pasta de cocaína e cocaína pó, identificadas previamente no Laboratório da Polícia Técnica do Estado do Amapá, oriundas de contraprovas do arquivo de evidências do Laboratório de Toxicologia da Polícia Técnica do Estado do Amapá. Para análise prévia na Politec Amapá foram utilizadas sistemáticas e técnicas de separação e identificação de substâncias, recomendadas pela literatura especializada (MOFFAT et al.,2004). O material questionado foi submetido ao seguinte procedimento: − Teste de Scott Modificado: teste de cor baseado na reação com o tiocianato de cobalto em meio ácido e com adição de clorofórmio, resultando cor azul quando positivo; − Cromatografia em Camada Delgada Comparativa (CCDC): utilizando-se sílica gel como fase estacionária, fase móvel metanol/amônia (50:0,75 mL), vapor de iodo como revelador e padrão secundário de cocaína - obtida por recristalização partindo da cloridrato de cocaína (ALMEIDA, 2003). A pureza da cocaína foi avaliada com Cromatografia Gasosa acoplada a Espectrômetro de Massa (Agilent Technologies, modelo INERT MSD, série 5973/ 6890N CG) no Instituto Nacional de Criminalística do Departamento de Polícia Federal de Brasília, distribuído nas unidades de criminalística, não sendo identificada nenhuma substância além da própria cocaína. Esta técnica é conhecida por recristalização, obtida a partir de solventes e baseia-se na diferença de solubilidade que pode existir entre um composto cristalino e as impurezas presentes no produto da reação. Foram obtidas amostras de adulterantes utilizados para a verificação da suposta adulteração das amostras no teste qualitativo. Os adulterantes: carbonato de sódio P.A. (Reagen); cloridrato de lidocaína, cafeína e benzocaína em pó (Embrafarma e Gerbrás), amido de trigo, sulfato de alumínio e bicarbonato de sódio foram escolhidos pelo fato de que eventualmente acompanham material ilícito, quando da apreensão policial, principalmente o carbonato de sódio. As amostras de cocaína e adulterantes foram submetidas a uma identificação prévia em FT-IR ATR (Thermo Scientific, modelo Nicolet IS série 10) e posterior cruzamento no banco de dados espectral, visando confirmação da cocaína, com a identificação dos possíveis adulterantes presentes nas amostras e a confirmação dos adulterantes puros. Estas amostras 34 foram submetidas à Espectroscopia Raman Dispersiva utilizando o espectrômetro Raman na configuração 1 (vide Seção 3.3.1). Os espectros Raman e FT-IR foram plotados, buscando identificar as bandas Raman e de absorção mais importantes para a discriminação das diferentes apresentações de cocaína e identificar os eventuais adulterantes presentes nas amostras. 3.2. Amostras de Misturas para Avaliação Quantitativa Foi obtida uma amostra de cocaína-base (crack) de aproximadamente 1 g, com identificação prévia realizada pelo Laboratório de Toxicologia da Polícia Técnica do Estado do Amapá com o mesmo procedimento descrito no item 3.1. Para a avaliação quantitativa, esta amostra de crack foi submetida à dosagem do teor de cocaína pelo CG-FID. Posteriormente, foram realizadas misturadas binárias desta amostra de crack a quatro adulterantes, selecionados por serem usualmente utilizados em adulteração de cocaína, a saber: cafeína, lidocaína, benzocaína e carbonato de sódio. Foram obtidas 20 amostras com diferentes misturas - cinco diferentes concentrações para cada mistura de crack/adulterante, nas proporções de 20%, 40%, 60%, 80% e adulterante e crack puros. As amostras com as diluições foram acondicionadas em tubos eppendorffs e conduzidas pessoalmente por um Perito Criminal da Polícia Técnica do Amapá juntamente com documentação comprobatória de origem da amostra e finalidade de uso (FORENSIC TOXICOLOGY LABORATORY GUIDELINES, 2006) até o Laboratório de Espectroscopia Biomolecular da UNICASTELO e acondicionados, lacrados em local seco e escuro. As diluições de cocaína em adulterantes foram submetidas a uma identificação prévia em FT-IR e posteriormente à Espectroscopia Raman no espectrômetro Raman configuração 2 (vide Seção 3.3.2). No momento da análise Raman, uma porção da amostra foi colocada em um porta-amostras de alumínio (Anexo B, fotos A e B). Os espectros Raman e FT-IR foram plotados buscando identificar as bandas Raman e de absorção nas misturas, comparativamente à cocaína pura, e foi criada uma curva de calibração baseada no método Regressão por Componentes Principais (PCR - Principal Components Regression) para quantificação da cocaína na mistura, uma curva diferente para cada método óptico. 35 3.3. Espectroscopia Raman Para a coleta dos espectros Raman foram utilizados diferentes espectrômetros Raman Dispersivos, em virtude de que o primeiro equipamento ficou indisponível na seqüência do experimento. 3.3.1. Espectrômetro Raman - Configuração 1 O primeiro espectrômetro Raman, que foi utilizado no experimento qualitativo, é apresentado esquematicamente na Figura 12 (SILVEIRA et al., 2003). Este é composto por um laser de diodo AsGaAl (MicroLaser Systems, modelo L4830S) com potência de 80 mW e cumprimento de onda de 830 nm. O feixe laser foi primeiramente filtrado por um filtro holográfico passa-faixa (Kaiser Optical Systems, HLBF 830) e direcionado ao porta-amostras por meio de um prisma de quartzo, sendo focado na amostra por uma lente com f = 25 mm. As amostras de drogas e adulterantes foram colocadas em um suporte de alumínio. O sinal retro-espalhado foi coletado por um sistema de lentes acoplado à entrada do espectrógrafo (Chromex, modelo 250IS) para dispersão, o qual tem em sua entrada um filtro notch em 830 nm (Iridian Spectral Technologies, modelo PN - ZX 000080) para rejeitar o espalhamento Rayleigh da amostra. A fenda do espectrógrafo foi ajustada para 150 µm, fornecendo uma resolução espectral de aproximadamente 8 cm-1e grade de 600 linhas/mm. O sinal dispersado pelo espectrógrafo foi detectado por uma câmera CCD (charge coupled devices) “back thinned”, “deep-depleted” de 1024x256 pixels refrigerada por nitrogênio líquido conectada a um controlador (Princeton Instruments, modelo LN/CCD-1024-EHR1 e ST130, respectivamente), e microcomputador para aquisição e armazenamento dos espectros controlado pelo software Winview (Princeton Instruments). A câmera CCD refrigerada diminui a interferência da agitação térmica das moléculas do próprio sensor, reduzindo assim o ruído térmico. Desta forma, o sistema Raman está ajustado para operar em -95 °C. As amostras do experimento qualitativo foram processadas no mesmo dia e nas mesmas condições experimentais (temperatura, umidade e luz no laboratório). Os espectros foram coletados em um tempo de exposição de 10 s para cada amostra sendo obtida uma acumulação. Após cada coleta, o porta-amostras foi lavado com água destilada e em seguida seco. 36 Figura 12: Diagrama esquemático do espectrômetro Raman dispersivo utilizado no experimento qualitativo. Potência do laser: 80 mW, comprimento de onda de excitação: 830 nm, resolução do espectrômetro: 10 cm-1. Fonte: Silveira et al. (2003). Para a calibração em comprimento de onda foi utilizado o espectro do naftaleno (C10H8), que apresenta picos conhecidos na região entre 600 e 1800 cm-1 (SILVEIRA et al.,2003). Basicamente, as posições (em pixel) das bandas Raman mais importantes foram determinadas e correlacionadas com o deslocamento Raman (cm-1) conhecido destas bandas, por meio de um ajuste polinomial entre as posições e o deslocamento Raman de cada banda. O espectro do naftaleno foi medido desde o início do experimento. 3.3.2. Espectrômetro Raman - Configuração 2 O segundo espectrômetro Raman, que foi utilizado no experimento quantitativo, é apresentado na Figura 13 (Lambda Solutions, modelo Dimension P-1 micro-Raman). Este espectrômetro possui configuração semelhante ao apresentado na Figura 12, porém tecnologicamente mais avançado, versátil e compacto, pois utiliza refrigeração por Peltier (termoelétrico) e acoplamento via fibra óptica a um “Raman Probe”. Este equipamento possui também a possibilidade de operação como espectrômetro micro-Raman, por utilizar um adaptador para microscópio óptico. O equipamento utiliza um laser de diodo multimodo estabilizado, sintonizado em 830 nm (infravermelho próximo), obtendo-se na saída do sistema óptico uma potência ajustável entre 50 e 400 mW. Foi utilizada potência de 200 mW. O experimento foi realizado utilizando-se o sistema de fibras ópticas acoplado ao “Raman Probe” para a entrega da radiação de excitação à amostra e coleta do sinal emitido 37 pela amostra. A extremidade distal deste cabo foi colocada a uma distância de 10 mm da amostra sob análise no momento da coleta dos dados. Desta maneira, as alterações espectrais das amostras de cocaína e adulterantes podem ser acessadas via fibra óptica, com repetibilidade da geometria de excitação e coleta do sinal, e com isto estudar as diferenças espectrais relacionadas às alterações em sua constituição. Figura 13: Foto do sistema Raman Dispersivo acoplado ao “Raman probe” e microscópio Raman, que foi utilizado na coleta dos dados espectrais. O elemento dispersor de luz, integrado ao espectrômetro, possui resolução de aproximadamente 2 cm-1 e grade de 1.200 linhas/mm. A faixa espectral útil compreende de 200 a 1800 cm-1. A detecção do sinal luminoso espalhado pela amostra é efetuada por uma câmera CCD “back thinned”, “deep-depleted” de 1340X100 pixels refrigerada por Peltier (termoelétrico), com temperatura de trabalho de -75°C. O espectrômetro é controlado por um microcomputador PC utilizando o programa RamanSoft (Lambda Solutions, Inc., versão 1.7) que comanda, via conexão USB, parâmetros de aquisição de dados, como tempo de exposição do detetor e número de aquisições por amostra, e o armazenamento dos espectros. O tempo de exposição para a obtenção dos espectros foi de 1 s e 10 acumulações. O espectrômetro teve a calibração do deslocamento Raman, realizada pelo fornecedor, verificada no início da tomada de espectros, através da verificação das posições das bandas principais do naftaleno. A calibração da resposta espectral do equipamento foi também 38 realizada pelo fabricante e consistiu na coleta do espectro de uma lâmpada de filamento de tungstênio com espectro rastreado pelo American Institute of Standards and Technology (NIST) e comparação do espectro real com o espectro rastreado. A fluorescência de base foi retirada por meio de uma função polinomial de ordem 5, que foi ajustada no espectro na faixa entre 400 e 1800 cm-1 e subtraída deste. Estes procedimentos foram realizados utilizando uma rotina desenvolvida no software Matlab 4.2. Os raios cósmicos foram retirados manualmente utilizando o software Microsoft Excel. 3.4. FT-IR As amostras de cocaína e adulterantes dos experimentos qualitativo e quantitativo foram submetidas à Espectroscopia FT-IR, no laboratório de Criminalística da Polícia Federal no Amapá utilizando um espectrômetro de refletância FT-IR ATR (Thermo Scientific, modelo Nicolet Is, número de série 10) com média de 16 varreduras, compreendendo a região entre 700 a 3.500 cm-1 com as seguintes especificações − Resolução espectral padrão de 4 cm-1; − Precisão de número de onda melhor 0,01 cm-1; − Linearidade ordinária < 0,1% da transmissão; − Relação sinal-ruído melhor que 35.000:1 (pico-a-pico); − Sistema óptico de alta resolução para a região infravermelho médio, com divisor de feixe em KBr (350 a 7400 cm-1); − Fonte EverGlo no médio infravermelho; Detector DLaTGS (deuterated triglycine sulfate): Padrão :catálogo Thermo IQLAADGAAGFAHDMAPC; − Interferômetro Michelson com espelhos planos e deslocamento linear a 30°; − Acessório ATR com cristal diamante (Thermo Scientific, modelo Smart ITR) com ângulo de incidência 45o. − Biblioteca espectral do laboratório forense do Departamento Canadense de Saúde e Bem Estar - Toronto e biblioteca espectral do laboratório forense do Estado da Geórgia - EUA. Os espectros FT-IR foram calibrados utilizando o software OMNIC, que realiza o controle operacional automático do espectrômetro. Foto do aparelho no Anexo C. 39 3.5. Cromatografia Gasosa 3.5.1. Padrões Utilizados na CG A fim de obter-se a calibração do cromatógrafo gasoso com relação à concentração de cocaína na amostra de crack da análise quantitativa, foram empregados os seguintes padrões cromatográficos: − Padrão primário: utilizado para caracterização de cocaína recristalizada com a finalidade de uso de referência em análises no âmbito das unidades de criminalística. Consistiu de um padrão certificado: 0,995 ± 0,002 mg/mL de cocaína em solução em acetonitrila com pureza cromatográfica de 99%. Este padrão foi adquirido junto à empresa Cerilliant Analytical Reference Standards. Referência de análise: C-008, Lote FC120204-01ª, CAS 50-36-2 (registro no banco de dados “Chemical Abstracts Service”); − Padrão secundário: Obtido por recristalização no Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal. Curva de calibração do cromatógrafo gasoso (Anexo D); − Padrão interno: dipentilftalato 0,4912 mg/mL (Dipentylphthalate 97%, Acros Organics Inc.), fornecido pela Agilent Technologies (Anexo E). 3.5.2. CG-FID A avaliação do teor da cocaína na amostra de crack foi determinada por meio da Cromatografia Gasosa acoplada a um Detector de Ionização de Chama seletivo (Agilent Technologies, modelo N série 6890). Utilizado injetor automático da solução (Agilent Technologies, modelo B série 7683). O equipamento foi disponibilizado pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal em Brasília, no qual a amostra foi incluída na rotina diária. Vale ressaltar que este laboratório é de referência nacional, com metodologias validadas e recomendadas pelas Nações Unidas e descritos por Clarke (CLARKE, 1986). A amostra foi diluída em solução de metanol com dipentilftalato 97% (padrão interno). O padrão interno é importante no processo analítico, visto que a mesma concentração deve fornecer sempre o mesmo resultado (SPINELLI, 2004). Para a dosagem do teor de cocaína, foi preparada uma solução como segue. Foi utilizada 11,2 mg de crack em 5 mL de metanol. Posteriormente, 0,5 mL desta solução foi acrescida com 0,5 mL da solução de concentração já conhecida do padrão interno de dipentilftalato. Para pesagem do crack, foi utilizada balança analítica (Mettler Toledo AE 40 240), aferida com certificado de calibração nº. 074512009 19/05/2009 de acordo com NBR 17025 emitido em 19/05/2009 do Laboratório de Metrologia - Furnas. A solução cocaína/metanol e padrão interno foi então submetida à CG-FID, Foi utilizada uma coluna DB-1, gás He (Anexo F). A leitura foi feita em triplicata utilizando o programa Enhanced Data Analysis (Agilent Technologies). O tempo de retenção para a cocaína foi de 6,151 min. 3.6. Análise Quantitativa da Cocaína em Diluições De Adulterantes A análise quantitativa da cocaína nas diluições de crack em adulterantes foi realizada utilizando-se o método de Regressão por Componentes Principais (PCR - Principal Components Regression), desenvolvida a partir dos espectros Raman e espectros FT-IR das substâncias puras e das diluições, conforme descritivo a seguir. 3.6.1. Análise dos Componentes Principais - PCA (Principal Components Analysis) A PCR utiliza como base a PCA, um método estatístico de análise multivariada, para correlacionar a concentração de determinado soluto em uma mistura com as alterações espectrais decorrentes da presença deste soluto. Após a extração destes componentes principais, é desenvolvida uma reta de regressão com as intensidades dos componentes principais que se correlacionam com a concentração da substância de interesse utilizando os dados espectrais ditos de calibração. Para avaliação de amostras futuras, denominada análise prospectiva, os novos espectros são confrontados com os parâmetros da PCA (os componentes principais) e a quantidade é então obtida avaliando-se a intensidade resultante deste confronto. A PCA é um procedimento matemático que transforma os dados espectrais em componentes ortogonais não correlacionados entre si, por meio da “rotação baseada na variância”. A Figura 14 representa esquematicamente como isto acontece. Como as variações mais significativas no conjunto de dados são as mudanças no espectro relacionadas às diferentes concentrações das amostras de calibração, é possível calcular um conjunto que represente as mudanças nas intensidades relacionadas com a concentração do analito em todo o espectro. Essas variações são os autovetores, também conhecidas como componentes principais ou fatores, ortogonais entre si, e as constantes utilizadas para multiplicar os espectros são conhecidas como escores (pesos), que são combinações lineares dos dados originais (THOMAS, 1994; SAVITZKY e GOLAY, 1964). 41 Figura 14: Esquema representando as componentes principais PC1 e PC2 (b) a partir das variáveis originais x, y e z (a) e a visualização da rotação causada pela PCA (c). O objetivo principal da PCA é representar o conjunto de dados em um novo espaço vetorial em que os novos eixos possuem a máxima variância, tendo como conseqüência principal a redução do número de variáveis que explicam os dados. Associadas a cada eixo de variância estão as intensidades de cada dado espectral. Com a PCA, a natureza multivariada dos dados pode ser visualizada em poucas dimensões, que são as de maior variância. A primeira componente principal (PC1) representa a máxima variância associada aos espectros, e cada componente sucessiva (PC2, PC3,..., PCn) representa a variância remanescente, não representada pelos PCs anteriores, e assim sucessivamente (MARTENS e NAES, 1996). Os escores representam as projeções dos dados nos novos eixos ortogonais dos componentes principais. Escores similares em cada eixo espectral representam amostras com características similares. Estes escores são então utilizados para criação dos experimentos quantitativos. 3.6.2. Regressão por Componentes Principais (PCR) O método PCR é denominado de calibração multivariada porque se baseia no método multivariado PCA. Neste caso, a reta de regressão não é feita com base nos valores da matriz de dados original, ou mesmo nos valores das intensidades dos eixos x, y ou z originais, mas tem como base os escores obtidos após a rotação de máxima variância da PCA. Após a decomposição da matriz de dados originais D, produz-se uma matriz de escores ES, que são as intensidades de cada dado D nos componentes principais PCs seguindo a ideia de máxima variância, que podem ser recompostos seguindo a expressão: 42 D = ES x PC (4) O escore ESi do componente de interesse PCi, por sua vez, é utilizado na determinação do coeficiente de regressão b a partir da matriz de calibração Y, que pode ser a própria matriz de dados D, porém idealmente se utiliza um conjunto de espectros de amostras replicadas, seguindo a equação: Y = bi x ESi + R (5) Em que R corresponde ao resíduo. Novas concentrações podem ser obtidas a partir da avaliação dos escores ESi de cada PCi nos novos espectros ND, utilizando a expressão: ESi = ND / PCi (6) Para aplicações nas mais diferentes áreas do conhecimento, tanto em avaliação qualitativa quanto quantitativa, o número de componentes principais utilizados no cálculo de concentrações tem sido aquele que acumula 70% ou mais de proporção da variância total (REGAZZI, 2000). Neste estudo verificou-se que, os dois primeiros componentes principais representaram mais de 98% das variações dos dados amostrais. Este trabalho utilizou o segundo componente principal (PC2 e ES2) para determinar quantitativamente o nível de adulteração das misturas baseado na PCR, visto que são misturas binárias e que, dois componentes principais são suficientes para demonstrar toda a variação espectral desta mistura. Para o desenvolvimento da curva de calibração visando a quantificação via PCR, foram utilizados os espectros do adulterante e da cocaína (crack) em 100%, sendo que as diluições intermediárias (20%, 40%, 60% e 80%) foram obtidas matematicamente, multiplicando-se cada espectro pelo peso correspondente na mistura, exemplo: mistura de 80% adulterante e 20% crack (0,8 X espectro do adulterante + 0,2 X espectro do crack). Como se trata de misturas de componentes que não reagem entre si, não se espera que ocorra mudança nos picos Raman das concentrações matemáticas e das concentrações das misturas reais. Estes espectros foram submetidos à PCA, e os dois primeiros autovetores (PC1 e PC2) foram plotados para definição de qual deles seria incluído na regressão. O segundo autovetor (PC2) foi empregado na PCR, visto que em todas as misturas o mesmo apresentou as características espectrais da cocaína. De posse dos escores, a reta de regressão foi determinada 43 e aplicada em um novo conjunto de dados de validação. Estes dados foram constituídos pelos espectros reais das diluições de 20 a 80%, juntamente com os espectros do adulterante e do crack sem diluição (0% e 100%). 44 4. RESULTADOS As técnicas de Espectroscopia Raman e FT-IR foram utilizadas a fim de avaliar qualitativa e quantitativamente amostras de cocaína com adulterantes. Para tal, amostras de cocaína (crack) e adulterantes foram avaliadas e os experimentos desenvolvidos são apresentados a seguir. 4.1. Teor de Cocaína Analisado pelo CG-FID A determinação do teor de cocaína na amostra de crack utilizada na avaliação quantitativa foi realizada pelo método CG-FID, em triplicata, obtendo-se um teor de 69,8 ± 0,5 % (Anexo G). 4.2. Análise Qualitativa das Amostras de Cocaína e Adulterantes 4.2.1. Espectroscopia Raman 4.2.1.1. Espectros Raman das Amostras de Cocaína Foram realizados espectros Raman de amostras de cocaína nas apresentações: crack, pasta de cocaína nas cores branca e amarela e cocaína pó no espectrômetro configuração 1. Para fins de identificação das bandas mais importantes e comparação das diferentes amostras, temos na Figura 15 os espectros característicos. Importante notar que na amostra pó, foram obtidos espectros de duas diferentes formas de cocaína: base livre e cloridrato. 45 1735 1712 1605 1453 1319 1279 1220 1165 1183 1117 1069 1004 1036 2.5 E 1639 2 D 1.5 1207 1462 1490 C 1 1026 Intensidade (un. arb.) 3 848 874 898 3.5 B 0.5 A 0 -0.5 800 1000 1200 1400 Deslocamento Raman (cm -1) 1600 1800 Figura 15: Espectros Raman de amostras de diferentes apresentações de cocaína: (A) cocaína base livre (PÓ1); (B) cloridrato de cocaína (PÓ2); (C) crack (CRK); (D) pasta branca (PBR1); (E) pasta amarela (PAM1). Espectrômetro configuração 1: comprimento de onda: 830 nm; potência: 80 mW; tempo de exposição: 10s; resolução: 10 cm-1, 1 acumulação. O espectro da cocaína base livre (Figura 15A) apresentou picos característicos deste alcaloide, com as atribuições para estes picos conforme Tabela 1. O espectro do cloridrato de cocaína (Figura 15B), apresentou picos em posições muito semelhantes aos da base livre, principalmente os picos em 874, 1004 e 1279 cm-1, e alguns picos com posições próximas, como o pico em 1605 cm-1 deslocado para menor e 1453 e 1712 cm-1 deslocado para maior (1453 cm-1 mudou para 1462 cm-1). Alguns picos apresentaram-se com menor intensidade, como os picos em 848 e 898 cm-1 enquanto que outros picos foram exclusivos do cloridrato, como os picos em 1026, 1207, e 1490 cm-1. Os picos em 1036, 1117, 1183 1319 e 1735 cm-1 são característicos da cocaína base livre e não estavam presentes no cloridrato de cocaína. Estas diferenças entre os dois espectros - picos deslocados e com intensidade diferentes podem ser atribuídas principalmente à presença do nitrogênio protonado do tropano que ocorre devido à existência de uma ligação coordenada do hidrogênio do HCl com o nitrogênio da cocaína hidroclorídrica, os quais altera a polarizabilidade e a energia de algumas ligações nos grupos funcionais do e próximos ao tropano. 46 Tabela 1: Principais picos Raman da cocaína nas diferentes apresentações e respectiva tentativa de atribuição das vibrações. Amostra Cocaína base livre e pasta de cocaína amarela Posição da banda (cm-1) 848, 874, 898 1004 Cloridrato de cocaína 1036 1165 1183 1279 1319 1453 1605 1712 1735 848, 898** 1026** 1207** Crack Pasta de cocaína branca 1462** 1490** 1596** 1639* 1719 1069* 1639* Tentativa de atribuição Estiramento C-C (tropano) Estiramento simétrico da respiração do anel aromático Estiramento assimétrico do anel aromático Estiramento C-N Estiramento C-N Estiramento C-N Twisting C-H Deformação assimétrica CH3 Estiramento C=C do anel aromático Estiramento simétrico C=O da carbonila Estiramento assimétrico C=O da carbonila Estiramento C-C (tropano), altera polarizabilidade pelo nitrogênio protonado Estiramento assimétrico do anel aromático Estiramento C-N deslocado pelo nitrogênio protonado (originalmente em 1183 cm-1) Deformação assimétrica CH3 Estiramento C=C do anel aromático Estiramento C=C do anel aromático Estiramento C=O do ácido benzóico Estiramento simétrico C=O da carbonila Estiramento assimétrico O-C-O do carbonato de sódio (contaminante ou adulterante) Estiramento C=O do ácido benzóico Fonte: SMITH, 2004; Recommended Methods for Testing Cocaine, 1986 HORIBA JOBIN YVON, 2011; NAKAMOTO, 1997; GAMOT et al., 1985. Nota: * indica picos de contaminantes, adulterantes ou produtos de degradação; ** indica picos da cocaína base com diferenças na intensidade e posição, causadas pelo ácido clorídrico na cocaína hidroclorídrica. O espectro do crack (Figura 15C) apresentou picos nas mesmas posições que o espectro da cocaína base livre, devido a semelhança química destes compostos. Neste espectro, foi observado um pico característico em 1639 cm-1, que é sugestivo de presença de subprodutos de degradação da cocaína, como o ácido benzóico, que apresenta dupla banda em torno de 1600-1640 cm-1 (vide Figura 19, seção 4.2.1.3) (RIO-DB, 2011; BRITTAIN, 2009). Nos espectros de pasta de cocaína (Figura 15D e 15E), foram observados picos nas mesmas posições que o espectro da cocaína base livre, mesmo porque tais compostos são quimicamente semelhantes. Foram verificados picos nos espectros das pastas brancas e amarelas nas posições de 1069 cm-1, sugestivo de carbonato de sódio, além do pico em 1639 cm-1 na pasta branca - sugestivo de ácido benzóico. 47 Os espectros das várias amostras de cocaína apresentaram diferenças nas intensidades dos picos em 1605 e 1712 cm-1. Estes picos são atribuídos ao estiramento C=C do anel aromático e estiramento simétrico C=O da carbonila (GAMOT et al., 1985; CARTER et al., 2000). A cocaína possui pico em 1712 cm-1 com maior intensidade (cerca de 20 a 30%) que o pico em 1605 cm-1. Uma diminuição do pico em 1712 cm-1 (carbonila) com relação ao pico em 1605 cm-1 indica a degradação, com a conversão em benzoilecgonina (SMITH, 2004; FARQUHARSON et al., 2011; KAWAI e JANNI, 2011). A diminuição do pico da carbonila pode ser atribuída à perda do grupo metil (CH3) da cocaína, sendo substituído por uma hidroxila, tornando esta região mais polar e consequentemente reduzindo a intensidade desta vibração. As amostras da Figura 14B a 14E, indicam a ocorrência desta degradação em diferentes graus. 4.2.1.2. Espectros Raman das Amostras de Adulterantes Com a finalidade de identificar os possíveis adulterantes nas amostras de cocaína nas diferentes apresentações, foram obtidos espectros dos adulterantes comumente encontrados em apreensões de cocaína, a saber: lidocaína, cafeína, benzocaína, carbonato de sódio, bicarbonato de sódio, sulfato de alumínio, amido de trigo e talco - silicato de magnésio hidratado-. Estes adulterantes e seus espectros são apresentados nas Figuras 16 e 17, utilizando, também, o espectrômetro na configuração 1. A Tabela 2 apresenta as principais vibrações Raman e respectivas atribuições às bandas destes adulterantes. 48 1052 Figura 16: Espectros Raman de amostras de diferentes adulterantes: (A) lidocaína; (B) cafeína; (C) benzocaína. Espectrômetro configuração 1: comprimento de onda: 830 nm, potência: 80 mW, tempo de exposição: 10s, resolução: 10 cm-1, 1 acumulação. 5.5 -0.5 800 1000 1462 1385 1343 1262 1130 1014 1127 1084 940 1268 D 1076 1069 1.5 0.5 B C 1046 2.5 1089 3.5 993 Intensidade (un. arb.) 4.5 864 A E 1200 1400 -1 1600 1800 Deslocamento Raman (cm ) Figura 17: Espectros Raman de amostras de diferentes adulterantes: (A) talco; (B) amido de trigo; (C) sulfato de alumínio; (D) bicarbonato de sódio; (E) carbonato de sódio. Espectrômetro configuração 1: comprimento de onda: 830 nm, potência: 80 mW, tempo de exposição: 10 s, resolução: 10 cm-1, 1 acumulação. 49 Tabela 2: Principais compostos utilizados na adulteração de cocaína e os respectivos picos Raman, com a tentativa de atribuição. Amostra Lidocaína Posição da banda (cm-1) 954 991 1044 1094 1275 Cafeína Benzocaína 1387 1448 1596 1073 1242 1287 1330 1363 1602 1658 1700 862 1173 1282 1605 Talco Carbonato de sódio Bicarbonato de sódio Sulfato de alumínio Amido 1683 1052 1069 1076 1046 1268 993 864 940 1127 1262 1343 1385 1462 Tentativa de atribuição Estiramento C-C Estiramento C-C Estiramento C-C do anel aromático e estiramento C-N Estiramento C-N Estiramento C-C e C-N e estiramento do anel aromático Estiramento C-N Estiramento C-N e inflexão N-H Estiramento e inflexão do anel aromático Estiramento C-C Inflexão H-C=N Estiramento C-N Estiramento C-N Estiramento C-N Estiramento C=C Estiramento C=O Estiramento C=O Estiramento C-O Inflexão H-C-H no plano Estiramento C-C, C-N e C-O e estiramento do anel aromático Estiramento e inflexão do anel aromático e tesoura do NH2 Estiramento C=O Estiramento Si-O-Si Estiramento C-O Estiramento C-O Estiramento C-O Estiramento simétrico O-C-O Estiramento do grupo SO4 Estiramento C-C (carboidratos) Estiramento C-C (carboidratos) Estiramento C-C (carboidratos/proteínas) Deformação =C-H no plano (carboidratos/ ácidos graxos insaturados) Inflexão CH2/CH3 (carboidratos) Inflexão CH3 (carboidratos) Inflexão CH2 (carboidratos/proteínas) Fonte: Carter et al. (2000); Teng et al. (2008); Pavel et al. (2002); Yvon (2011); Smith e Dent (2005); Nakamoto, (1997); Kloprogge e Frost (1999); Tavender et al. (1999); Stone et al. (2004); Mayo et al. (2003). Os adulterantes da Figura 16 possuem vários picos na região de interesse que podem ser identificados na cocaína. Estes adulterantes possuem um pico em comum com a cocaína, em torno de 1600 cm-1, característico do anel aromático ou do ácido benzóico. Os picos em 50 1275 cm-1 (lidocaína), 1330 cm-1 (cafeína) e 1282 cm-1 (benzocaína) são característicos destes compostos, não estando presentes com intensidade significativa no espectro da cocaína. O pico da vibração da respiração do anel aromático da cocaína (1004 cm-1) não é encontrado nesta posição nos espectros dos adulterantes, sendo característico da droga. Os compostos inorgânicos carbonato de sódio, bicarbonato de sódio e sulfato de alumínio possuem espectros com bandas características em 1076, 1069, 1046 e 993 cm-1, respectivamente, sendo que o pico principal do sulfato de alumínio é próximo do pico do anel em 1004 cm-1 da cocaína. Sulfatos vêm sendo utilizados com o objetivo de diluir a cocaína devido a maior facilidade de ser adquirido em grandes quantidades (DAY, 2004), substituindo o carbonato de sódio (barrilha), visto que este último tem sua venda controlada pela Polícia Federal. O espectro do talco apresenta baixa relação sinal-ruído devido a forte fluorescência do mesmo, com um pico característico em 1052 cm-1 atribuído ao estiramento Si-O-Si. 4.2.1.3. Identificação da Presença de Adulterantes nas Amostras Analisadas pela Espectroscopia Raman Os espectros Raman da cocaína base livre e crack de diferentes apreensões são apresentados na Figura 18. Os espectros de crack (Figuras 18B a 18E), apresentam semelhança com o espectro da cocaína pó base livre (Figura 18A), porém apresentam algumas bandas com posições diferentes, que podem ser atribuídas a adulterantes, contaminantes e produtos de degradação. Possuem também diferenças de intensidade nas bandas em 1605 e 1712 cm-1. Os espectros das Figuras 18B, 18C e 18D apresentam semelhança com o espectro A, porém com uma banda característica em 1639 cm-1, sugestivo de degradação (ácido benzóico). O espectro da Figura 18E apresenta diferença significativa com relação ao espectro A, com alteração nas intensidades das bandas do tropano (entre 800 e 1000 cm-1) e espectro de relação sinal-ruído bastante baixa e picos relativamente intensos em 1347 e 1478 cm-1 e outro pico em posição um pouco abaixo de 1639 cm-1, que nestas amostras podem ser atribuídos a subprodutos de degradação da cocaína, como o ácido benzóico (Figura 19A), que apresenta dupla banda em torno de 1600-1640 cm-1 (estiramento C=O) (BRITTAIN, 2009), ou outro produto de degradação ou mesmo adulterante/contaminante (1347 e 1478 cm-1). Os espectros de crack possuem as características espectrais de degradação por benzoilecgonina (Figura 19B), uma vez que os picos em 1605 e 1712 cm-1 possuem as diferenças espectrais características deste metabólito, que é aumento de intensidade do pico em 1605 cm-1 e diminuição de intensidade do pico em 1712 cm-1 (Figura 19 C). 51 3.5 1347 2.5 1639 1478 Intensidade (un. arb.) 3 E 2 D 1.5 C 1 B 0.5 A 0 -0.5 800 1000 1200 1400 -1 1600 1800 Deslocamento Raman (cm ) Figura 18: Espectros Raman de cocaína pó (A) comparado com espectros de crack de diferentes apreensões (B a E) com a sugestiva presença de metabólito ácido benzóico em 1639 cm-1 e adulterante ou contaminante em 1347 e 1478 cm-1. As diferenças nas intensidades entre os picos em 1605 e 1712 cm-1 sugerem formação de benzoilecgonina (1 acumulação) Figura 19: Espectros Raman de (A) ácido benzóico (B) benzoilecgonina e (C) amostra de crack com sinais de degradação. * indica pico em 1639 cm-1. Fonte: Adaptado de Moffat et al. (2004); Brittain (2009); NIST (2011); Sobrido et al. (2009); Deltanu (2011). Os espectros Raman da cocaína base livre e cocaína pó de diferentes apreensões são apresentados nas Figuras 20 e 21. Nos espectros das Figuras 20B a 20E observou-se semelhança nos espectros comparativamente à cocaína base livre, com a presença de um pico em 1639 cm-1, sugestivo da presença de ácido benzóico (degradação). Os espectros das Figuras 21F e 21G apresentam pico em 1069 cm-1, sugestivo de adulteração por carbonato de 52 sódio e pico em 1639 cm-1, sugestivo de degradação (ácido benzóico). O espectro da Figura 21H possui picos com relação sinal-ruído muito baixa, e sua aparência sugere degradação da cocaína (ácido benzóico). Os espectros de cocaína pó também possuem as características de degradação por benzoilecgonina, uma vez que os picos em 1605 e 1712 cm-1 possuem as diferenças espectrais características deste metabólito, com os picos aumentados em 1605 cm-1 e diminuídos em 1712 cm-1. 3.5 1639 Intensidade(un. arb.) 3 2.5 E 2 D 1.5 C 1 B 0.5 A 0 -0.5 800 1000 1200 1400 Deslocamento Raman (cm -1 1600 1800 ) Figura 20: Espectros Raman de cocaína pó (A) comparado com espectros de cocaína base livre pó de diferentes apreensões (B a E) com a sugestiva presença de adulterante em 1639 cm-1. As diferenças nas intensidades entre os picos em 1605 e 1712 cm-1 sugerem formação de benzoilecgonina (1 acumulação). 2 1639 1069 2.5 Intensidade (un. arb.) H 1.5 G 1 F 0.5 A 0 -0.5 800 1000 1200 1400 -1 1600 1800 Deslocamento Raman (cm ) Figura 21: Espectros Raman de cocaína pó (A) comparado com espectros de cocaína base livre pó de diferentes apreensões (F a H) com a sugestiva presença de adulterante em 1069 cm-1 e contaminante/produto de degradação em 1639 cm-1. As diferenças nas intensidades entre os picos em 1605 e 1712 cm-1 sugerem formação de benzoilecgonina (1 acumulação). 53 Os espectros Raman da cocaína base livre e pasta de cocaína amarela de diferentes apreensões são apresentados nas Figuras 22 e 23. Nos espectros B a E da Figura 22, observouse semelhança nos espectros comparativamente à cocaína base livre, com a presença de um pico em 1069 cm-1, sugestivo de adulteração por carbonato de sódio. O espectro D da Figura 22 possuiu um pico em 983 cm-1, sugestivo de adulteração por sulfato de alumínio. Na figura 23 o espectro A, de cocaína pó é comparado aos espectros B e C de pasta amarela. Evidenciase degradação acentuada da amostra B de pasta amarelada com alteração das bandas do tropano. Estes espectros também possuem as características de degradação por benzoilecgonina, com os picos aumentado em 1605 cm-1 e diminuído em 1712 cm-1. 3.5 1069 2.5 E 2 983 Intensidade (un. arb.) 3 D 1.5 C 1 B 0.5 A 0 -0.5 800 1000 1200 1400 -1 1600 1800 Deslocamento Raman (cm ) Figura 22: Espectro Raman de cocaína pó (A) comparado com espectros de pasta de cocaína de cor amarela de diferentes apreensões (B a E) com a sugestiva presença de adulterantes/contaminantes em 983 e 1069 cm-1. As diferenças nas intensidades entre os picos em 1605 e 1712 cm-1 sugerem benzoilecgonina (1 acumulação). 54 Intensidade (un. arb.) 1,5 1712 1605 2 C 1 B 0,5 A 0 -0,5 800 1000 1200 1400 Deslocamento Raman (cm-1) 1600 1800 Figura 23: Espectro Raman de cocaína pó (A) comparado com espectros de pasta de cocaína de cor amarela de diferentes apreensões (B e C). Nota-se degradação acentuada na amostra B.As diferenças nas intensidades entre os picos em 1605 e 1712 cm-1 sugerem formação de benzoilecgonina (1 acumulação). Os espectros Raman da cocaína base livre e pasta de cocaína branca de diferentes apreensões são apresentados na Figura 24. Nos espectros B a E da Figura 24 observou-se semelhança nos espectros comparativamente à cocaína base livre, com a presença de um pico em 1069 cm-1, sugestivo de adulteração por carbonato de sódio e de um pico em 1639 cm-1, sugestivo de subproduto degradação (ácido benzóico). Estes espectros também possuem as características de degradação por benzoilecgonina, com picos aumentado em 1605 cm-1 e diminuído em 1712 cm-1. 55 3.5 1069 2.5 1639 Intensidade (un. arb.) 3 E 2 D 1.5 C 1 B 0.5 A 0 -0.5 800 1000 1200 1400 Deslocamento Raman (cm-1) 1600 1800 Figura 24: Espectro Raman de cocaína pó (A) comparado com espectros de pasta de cocaína de cor branca (B a E) com a sugestiva presença de adulterantes/produtos de degradação em 1069 e 1639 cm-1. As diferenças nas intensidades entre os picos em 1605 e 1712 cm-1 sugerem benzoilecgonina (1 acumulação). 4.2.2. Espectroscopia FT-IR 4.2.2.1. Espectros FT-IR das amostras de cocaína Foram realizados espectros FT-IR nas mesmas amostras de cocaína e apresentações: crack, cocaína pó e pasta de cocaína nas cores branca e amarela. Para fins de identificação das bandas mais importantes e comparação das diferentes apresentações, a Figura 25 apresenta espectros FT-IR, característicos destas apresentações. A Tabela 3 apresenta as principais vibrações FT-IR, que diferenciam a cocaína base e a cocaína hidroclorídrica e respectivas atribuições. 56 1270 1280 2800-3030 1453 1110 1030 1040 2300-2900 2.5 E 2 D 1.5 C 1 1489 Intensidade (un. arb.) 3 726 736 1710 1740 3.5 B 0.5 A 0 700 900 1100 1300 1500 1700 -1 Número de Onda (cm ) 2200 2600 3000 -1 3400 Número de Onda (cm ) Figura 25: Espectros FT-IR de amostras de diferentes apresentações de cocaína (16 scans): (A) cocaína base livre; (B) cloridrato de cocaína; (C) crack; (D) pasta branca; (E) pasta amarela. Os espectros da cocaína base livre e das apresentações crack e pasta amarela e branca (Figura 25 espectros A, C, D e E, respectivamente) apresentaram semelhança espectral e picos característicos conforme Tabela 3, com diferença importante apenas no espectro do cloridrato de cocaína (Figura 25B). Não foram observadas diferenças significativas da forma base para o crack, o pó e as pastas, a não ser para os teores de umidade, representados pelas bandas de OH (vide seção 4.2.2.3). O cloridrato, por sua vez, apresentou picos em posições próximas aos da base livre, porém com diferenças na posição das bandas em 726 cm-1, que aumentou para 736 cm-1 e as bandas em 1040 e 1280 cm-1 diminuíram para 1030 e 1270 cm-1, respectivamente. Houve o surgimento de picos em algumas regiões, como os picos em 1431 e 1489 cm-1 e a diminuição da intensidade em outras, entre 700 e 900 cm-1, 1100 e 1300 cm-1 e 1500 e 1700 cm-1. Uma diferença importante é a absorbância de 2300-2900 cm-1 na forma clorídrica, atribuída ao estiramento +N-H decorrente da ligação covalente coordenada da cocaína com o HCl (SMITH,2004; BARBOSA, 2007). Ocorre, também, uma diminuição na diferença da frequência dos picos 1710-1740 cm-1. 57 Tabela 3: Principais picos FT-IR da cocaína nas diferentes apresentações e respectivas atribuições das vibrações. Amostra Cocaína base livre Cloridrato de cocaína Posição da banda (cm-1) 726 1040 1110 1280 1453 1710** 1740** 2800-3030** 736 1030 1110 1270 1453 1489 1710** 1740** 2300-2900** Tentativa de atribuição Deformação C-H fora do plano Estiramento C-O e C-N Estiramento C-O e C-N Estiramento C-O e C-N Estiramento C=C do anel aromático Estiramento C=O Estiramento C=O Vibrações sp3 e sp2 C-H Deformação C-H fora do plano Estiramento C-O e C-N Estiramento C-O e C-N Estiramento C-O e C-N Estiramento C=C do anel aromático Estiramento C=C do anel aromático Estiramento carbonila Estiramento carbonila Estiramento +N-H Fonte: Smith (2004); Moffat et al. (2004); Recommended Methods for Testing Cocaine (1986); Mayo et al. (2003); Barbosa (2007). Nota: ** indica picos da cocaína base com diferenças na intensidade e posição causadas pelo ácido clorídrico na cocaína hidroclorídrica. 4.2.2.2. Espectros FT-IR das Amostras de Adulterantes Foram obtidos espectros FT-IR dos adulterantes cafeína, benzocaína, lidocaína, carbonato de sódio, bicarbonato de sódio, sulfato de alumínio, talco e amido. Estes adulterantes e seus espectros são apresentados nas Figuras 26 e 27. A Tabela 4 apresenta as principais vibrações FT-IR e respectivas atribuições das bandas destes adulterantes. 58 3387 1443 1480 1548 788 2.5 3347 3428 3226 1635 1285 1683 0.5 1312 B 1 3116 2957 745 1242 2 1696 1551 1658 C 773 Intensidade (un. arb.) 3 1.5 1657 3.5 A 0 700 900 1100 1300 1500 1700 Número de Onda (cm-1) 2200 2600 3000 Número de Onda (cm-1) 3400 Figura 26: Espectros FT-IR de amostras de diferentes adulterantes (16 scans): (A) benzocaína; (B) cafeína; (C) lidocaína, com picos característicos em destaque. 1017 6 E 1000 1670 C 1619 1390 1300 1000 D B 1437 1 850 2 834 3 1105 1076 1659 4 700 Intensidade (un. arb.) 5 A 0 700 900 1100 1300 1500 1700 Número de Onda (cm-1) 2200 2600 3000 Número de Onda (cm-1) 3400 Figura 27: Espectros FT-IR de amostras de diferentes adulterantes (16 scans): (A) carbonato de sódio; (B) bicarbonato de sódio; (C) sulfato de alumínio; (D) amido de trigo; (E) talco, com picos característicos. 59 Tabela 4: Principais compostos utilizados na adulteração de cocaína e os respectivos picos FT-IR, com as tentativas de atribuição. Amostra Lidocaína Cafeína Benzocaína Talco Carbonato de sódio Bicarbonato de sódio Sulfato de alumínio Amido Posição da banda (cm-1) 788 1443 1480 1548 1657 3390 745 1242 1551 1658 1696 2957 3116 775 1170 1290 1320 1600 1640 1683 3226 3347 3428 1020 3680 850 1437 700 834 1000 1300-1400 1619 1076 1105 1670 1010 1660 2940 3300 Tentativa de atribuição Inflexão C-H fora do plano - anel aromático Estiramento C-N Estiramento C-N Estiramento C=C - anel aromático Estiramento C=O - amida I Estiramento NH2 Inflexão C-H fora do plano - anel aromático Estiramento C-N Estiramento C=N Estiramento C=N Estiramento C=O Estiramento C-H Estiramento =C-H Inflexão C-H fora do plano - anel aromático Inflexão C-H Estiramento C-O Estiramento C-N Estiramento C-C - anel aromático Inflexão N-H Estiramento C=O Estiramento O-H Estiramento N-H Estiramento N-H Estiramento Si-O-Si Estiramento O-H Deformação angular CO3 fora do plano Estiramento assimétrico C=O Deformação angular CO2 Inflexão CO3 fora do plano Estiramento C-OH Estiramento simétrico CO2 Estiramento assimétrico CO2 Estiramento SO4 Estiramento SO4 Estiramento O-H Inflexão C-H Estiramento C-OH Estiramento C-H Estiramento C-OH Fonte: Moffat et al. (2004); Rio-DB (2011); Mayo et al. (2003); Nist (2011); Barbosa (2007); Coates (2000). Assim como no caso dos espectros Raman, os espectros FT-IR dos adulterantes da Figura 26 possuem vários picos na região de 1650-1690 cm-1, que podem ser usados para identificar adulteração na cocaína. Os picos em 1657 cm-1 (lidocaína), 1696 cm-1 (cafeína) e 60 1683 cm-1 (benzocaína) são característicos destes compostos, não estando presentes com intensidade significativa no espectro da cocaína. Os picos de vibração do anel aromático da cocaína - 726 cm-1 para base livre e 736 cm-1 para cloridrato -, são encontrados em posições diferentes para a lidocaína, cafeína e benzocaína: 788, 745 e 775 cm-1, respectivamente, sendo bem característicos para sua identificação em uma adulteração. Nos espectros dos compostos inorgânicos talco e amido de trigo (Figura 27) verificaram-se a existência de bandas largas, nas posições de 1000, 1017 e 1659 cm-1, respectivamente. O sulfato de alumínio possui bandas em 1076, 1105 e 1670 cm-1. Já o espectro de bicarbonato de sódio possui bandas relativamente largas, com picos em 834, 1000, 1619 e ombro de 1300 a 1390 cm-1 e o carbonato de sódio possui picos característicos em 850 e 1437 cm-1. 4.2.2.3. Identificação da Presença de Adulterantes nas Amostras de Cocaína Analisadas pelo FT-IR Na avaliação dos espectros Raman das amostras de cocaína apreendidas, foram possíveis observar picos em posições diferentes das encontradas na cocaína base livre, sendo verificado certo padrão de contaminação e de adulteração das amostras. Foram encontrados picos sugestivos de metabólitos da degradação da cocaína, como ácido benzóico, bem como indícios de adulteração por carbonato de sódio e sulfato de alumínio. Os espectros representativos destas alterações foram selecionados para avaliação destes adulterantes/contaminantes por meio da técnica FT-IR. A Figura 28 mostra os espectros FT-IR da cocaína base livre (espectro A) e de cinco amostras de cocaína, crack e pasta (espectros B a F). A Figura 29 repete estes mesmos espectros evidenciando apenas a faixa de número de onda da região de impressão digital entre 700 e 1800 cm-1. Verificou-se que o espectro B possuiu características espectrais diferentes, com bandas em 1353, 1403, 1597 e 1720 cm-1, - estiramento simétrico do grupo carboxila, com bandas em 1353 e 1403 cm-1, estiramento assimétrico do grupo carboxílico em 1597 cm-1 e estiramento do grupo carbonila em 1720 cm-1, respectivamente - (BARBOSA, 2007) que podem ser atribuídas à benzoilecgonina (SIGMA-ALDRICH, 2011), indicativo de degradação da cocaína base livre. O espectro C também sugere a degradação em benzoilecgonina (pico em 1595 cm-1). Os espectros D e E apareceram com bandas largas em torno de 1650 e 3300 cm-1, atribuídos à água (umidade das amostras). A banda em torno de 1391 cm-1 pode ser 61 atribuída a algum produto de degradação. Não foram verificados indícios de adulteração ou de contaminação pelos adulterantes selecionados no estudo. 4.5 4 1650 1391 F 3 1650 1391 2.5 E D 1595 2 C 1597 1 1720 1.5 1353 1403 Intensidade (un. arb.) 3.5 B A 0.5 0 700 900 1100 1300 1500 1700 -1 Número de Onda (cm ) 2200 2600 3000 -1 3400 Número de Onda (cm ) Figura 28: Espectros FT-IR de amostras de cocaína (16 scans): (A) base livre; (B) crack com sugestivo de degradação (benzoilecgonina); (C) crack com sugestivo de degradação (benzoilecgonina); (D) cocaína pó com sugestivo de umidade; (E) pasta amarela com sugestivo de umidade; (F) pasta branca com sugestivo de umidade. 62 4.5 4 F 1650 1391 2.5 1650 1391 3 E D C 1720 1353 1.5 1597 1595 2 1403 Intensidade (un. arb.) 3.5 1 B A 0.5 0 700 900 1100 1300 -1 1500 1700 Número de Onda (cm ) Figura 29: Espectros FT-IR da Figura 28 plotados na região de impressão digital (entre 700 e 1800 cm-1). A Figura 30 apresenta os espectros FT-IR da amostra de cocaína pó, com indicação de adulteração por degradação (benzoilecgonina) e os espectros FT-IR de benzoilecgonina (adaptado de SIGMA -ALDRICH, 2011) e ácido benzóico (adaptado de NIST, 2011). Também não foram observados picos característicos do ácido benzóico (Figura 30), que possui os picos mais intensos na região de 935, 1296 e 1689 cm-1 (MOFFAT et al., 2004; BRITTAIN, 2009; NIST, 2011). 63 Figura 30: Comparativo entre espectros FT-IR de: (A) cocaína base livre em pó com sinais de degradação da Figura 29B; (B) benzoilecgonina e (C) ácido benzóico. Fonte: Adaptado de Sigma-Aldrich (2011) e Nist, 2011. 4.3. Análise Quantitativa das Amostras de Cocaína e Adulterantes Em função da característica do espalhamento em moléculas irradiadas por uma onda eletromagnética, a intensidade do espalhamento Raman é proporcional ao número de moléculas sendo irradiadas (Equações 1 e 2) (JICKELLS e NEGRUSZ, 2008). A fim de avaliar os teores de determinados adulterantes em amostras de cocaína, amostras de quatro adulterantes - carbonato de sódio; cloridrato de lidocaína; cafeína e benzocaína - foram misturadas a uma nova amostra de crack, dosada previamente por CG-FID, em concentrações pré-determinadas: 20%, 40%, 60% e 80% de crack (cocaína) diluídos em adulterantes, crack sem mistura (100%) e adulterante sem mistura (0% de crack). Estas misturas foram submetidas à Espectroscopia Raman utilizando-se espectrômetro na configuração 2 e ao espectrômetro FT-IR, e uma curva de calibração foi elaborada utilizando espectros matemáticos destas misturas, a partir dos espectros 0% e 100%, por meio do emprego da técnica Principal Components Regression (PCR), no qual os espectros matemáticos das diluições (tendo como base das diluições matemáticas os espectros puros) são usados para 64 desenvolver uma reta de regressão para cada mistura binária, e os espectros das diluições reais são empregados em cálculo das concentrações de adulterantes em novas amostras. 4.3.1. Espectroscopia Raman 4.3.1.1. Espectros Raman das Amostras de Cocaína e Adulterantes A Figura 31 apresenta os espectros Raman dos quatro adulterantes (A a D) e do crack (E) e utilizados na mistura. Observou-se que os picos dos adulterantes encontram-se em posições específicas do espectro, sem sobreposição importante dos picos mais intensos que caracterizam o material a ser misturado. Intensidade (un. arb.) 45000 35000 E D 25000 C 15000 B 5000 A -5000 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 -1 Deslocamento Raman (cm ) Figura 31: Espectros Raman de adulterantes: (A) cafeína; (B) benzocaína; (C) lidocaína; (D) carbonato de sódio e (E) crack utilizados nas misturas binárias. Espectrômetro configuração 2: comprimento de onda: 830 nm, potência: 200 mW, tempo de exposição: 1 s, resolução: 2 cm-1, 10 acumulações. A Figura 32 representa os Espectros Raman das misturas binárias: cocaína-cafeina, cocaína-carbonato de sódio, cocaína-benzocaína e cocaína-lidocaína em diferentes concentrações. Observou-se que os picos do adulterante aumentando proporcionalmente à medida que a concentração do mesmo aumenta na mistura. Intensidade (un. arb.) 65 carbonato 100% carbonato 80% carbonato 60% carbonato 40% carbonato 20% crack 100% A 18000 13000 8000 3000 -2000 400 600 Intensidade (un. arb.) 32000 27000 800 1000 1200 1400 1600 1800 Deslocamento Raman (cm-1) cafeína 100% cafeína 80% cafeína 60% cafeína 40% cafeína 20% crack 100% B 22000 17000 12000 7000 2000 -3000 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 Intensidade (un. arb.) -1 47000 42000 37000 Deslocamento Raman (cm ) benzocaína 100% benzocaína 80% benzocaína 60% benzocaína 40% benzocaína 20% crack 100% C 32000 27000 22000 17000 12000 7000 2000 -3000 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 Intensidade (un. arb.) Deslocamento Raman (cm-1) 18000 lidocaína 100% lidocaína 80% lidocaína 60% lidocaína 40% lidocaína 20% crack 100% D 13000 8000 3000 -2000 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 -1 Deslocamento Raman (cm ) Figura 32: Espectros Raman das misturas binárias de (A) cocaína-carbonato de sódio; (B) cocaína-cafeína; (C) cocaína-benzocaína e (D) cocaína-lidocaína em diferentes concentrações (10 acumulações). 4.3.1.2. Quantificação Utilizando PCR A partir dos espectros Raman do crack sem mistura (100%) e dos adulterantes sem mistura (0% de crack), foram construídas curvas de calibração utilizando espectros matemáticos das diluições binárias (crack-adulterante) em 20%, 40%, 60% e 80%. Estas curvas foram então utilizadas para construir as curvas de calibração para quantificação dos teores de adulterantes 66 diluídos na droga, utilizando a PCR. Importante observar que o teor de crack, avaliado pelo CG-FID, é de 69,8%, sendo a indicação de porcentagem apenas referencial à quantidade de crack na mistura. A aplicação da PCA nos espectros simulados, mostrou que o escore do componente principal 2 (ES2) possui os elementos espectrais característicos da cocaína base livre, capaz de quantificar a porcentagem de crack misturada às amostras (Figura 33). Portanto, o ES2 foi utilizado no PCR. Intensidade (un. arb.) 30000 Escore 2 Carbonato de sódio Escore 2 Benzocaína 25000 Escore 2 Cafeína Escore 2 Lidocaína 20000 15000 10000 5000 0 -5000 -10000 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 Deslocamento Raman (cm-1) Figura 33: Plotagem dos espectros dos escores dos componentes principais 2 (ES2) das misturas utilizadas na quantificação. As marcações são indicativas dos picos principais da cocaína base livre, com posições conforme Tabela 1. Em função da quantificação realizada por meio do PCR, a Figura 34 apresenta as curvas de calibração com as concentrações matemáticas e as concentrações calculadas a partir dos espectros reais das diluições. Foi observado que a curva de concentrações teóricas obedece a uma reta com coeficiente angular 1 (45º), e as concentrações das misturas reais distribuíram-se ao longo desta reta, com pequeno erro conforme demonstrado no gráfico da Figura 34. Como os espectros foram obtidos em triplicata, cada concentração real possui três valores no estudo de previsão. 67 120% 120% Crack/Carbonato de sódio 100% 80% Prevista Prevista 80% 60% 40% 20% -20% 0% 20% 40% 60% 80% Concentração real 100% 60% 40% 20% y = -1.1929x + 0.6217 erro = 14% r 2 = 0,85 0% y = -1.0259x + 0.7224 erro = 7.0% r 2 = 0,96 0% -20% 120% 120% 0% 20% 40% 60% 80% Concentração real 100% 120% 120% Crack/Benzocaína 100% Crack/Lidocaína 100% 80% 80% Prevista Prevista Crack/Cafeína 100% 60% 40% 20% y = -1.0167x + 0.723 erro = 11% r 2 = 0,90 0% -20% 0% 20% 40% 60% 80% Concentração real 100% 120% 60% 40% 20% y = -1.1873x + 0.5468 erro = 12% r 2 = 0,89 0% -20% 0% 20% 40% 60% 80% Concentração real 100% 120% Figura 34: Curva de calibração com as concentrações matemáticas (azul) e concentrações reais obtidas com o estudo utilizando o ES2, para cada uma das misturas binárias. Erro padrão, coeficiente de correlação r2 e equação da reta de calibração encontram-se em cada gráfico das misturas. Observou-se que, o menor erro e a maior correlação foram obtidos na mistura com cafeína, sendo que, o maior erro e a menor correlação foi obtido com a mistura de carbonato de sódio. Estes dados estão consistentes com a facilidade de mistura da cafeína, um pó bastante fino, e a dificuldade da mistura do carbonato de sódio, com cristais de granulometria alta, de difícil manipulação. 4.3.2. Espectroscopia FT-IR 4.3.2.1. Espectros FT-IR das Amostras de Cocaína e Adulterantes A Figura 35 apresenta os espectros FT-IR do crack e dos quatro adulterantes utilizados na mistura. Observou-se que os picos dos adulterantes encontram-se em posições específicas do espectro, sem sobreposição importante dos picos mais intensos que caracterizam o material a ser misturado. 68 300 Intensidade(un.arb) 250 E 200 D 150 C 100 B 50 A 0 700 900 1100 1300 1500 1700 Numero de onda (cm-1) 2200 2600 3000 3400 Numero de onda (cm-1) Figura 35: Espectros FT-IR de adulterantes (16 scans): (A) cafeína; (B) benzocaína; (C) lidocaína; (D) carbonato de sódio e (E) crack, utilizados nas misturas binárias. A Figura 36 apresenta os espectros FT-IR das misturas binárias: cocaína-carbonato de sódio, cocaína-cafeína, cocaína-benzocaína e cocaína-lidocaína, nas diferentes concentrações. Observou-se as bandas do adulterante aumentando proporcionalmente à medida que, a concentração deste aumenta na mistura. 69 350 crack 100% carbonato de sódio 20% carbonato de sódio 40% carbonato de sódio 60% carbonato de sódio 80% carbonato de sódio 100% Intensidade (um.arb) 300 A 250 200 150 100 50 0 700 900 1100 1300 1500 1700 Número de Onda (cm-1) 2200 2600 3000 Número de Onda (cm-1) 3400 350 crack 100% cafeina 20% cafeina 40% cafeina 60% cafeina 80% cafeina 100% Intensidade (un.arb) 300 B 250 200 150 100 50 0 700 350 900 1100 1300 1500 1700 -1 2200 3000 3400 crack 100% benzocaina 20% benzocaina 40% benzocaina 60% benzocaina 80% benzocaina 100% 300 Intensidade (un.arb) 2600 Número de Onda (cm-1) Número de Onda (cm ) C 250 200 150 100 50 0 700 350 900 1100 1300 1500 1700 -1 2200 Número de Onda (cm ) 3000 -1 crack 100% lidocaina 20% lidocaina 40% lidocaina 60% lidocaina 80% lidocaina 100% 300 Intensidade (un.arb) 2600 3400 Número de Onda (cm ) D 250 200 150 100 50 0 700 900 1100 1300 1500 1700 Numero de Onda (cm-1) 2200 2600 3000 -1 3400 Numero de Onda (cm ) Figura 36: Espectros FT-IR das misturas binárias de cocaína-carbonato de sódio; cocaína-cafeina; cocaínabenzocaína e cocaína-lidocaína em diferentes concentrações (16 varreduras). 70 4.3.2.2. Quantificação Utilizando PCR A partir dos espectros FT-IR do crack sem mistura (100%) e dos adulterantes sem mistura (0% de crack), foram construídas curvas de calibração utilizando-se espectros matemáticos das diluições binárias (crack-adulterante) em 20%, 40%, 60% e 80%. Assim como no caso dos espectros Raman, estas curvas, foram então, utilizadas para construir as curvas de calibração para quantificação dos teores de adulterantes diluídos na droga, utilizando-se o PCR. O teor de crack na amostra utilizada como solvente foi de 69,8%, sendo a indicação de porcentagem apenas referencial à quantidade de crack na mistura. A aplicação da PCA nos espectros simulados mostrou que o escore do componente principal 2 (ES2) possui os elementos espectrais característicos da cocaína base livre, capaz de quantificar a porcentagem de crack misturada às amostras (Figura 37), como ocorreu com os dados do espectro Raman. Portanto, o ES2 de todas as misturas binárias foi utilizado no PCR. Figura 37: Plotagem dos espectros do Componente Principal 2 de cada conjunto de dados com as misturas binárias. As marcações indicam a localização dos picos da cocaína base: (A) cafeina; (B) benzocaina; (C) lidocaina; (D) carbonato de sódio. As marcações são indicativas dos picos principais da cocaína base livre, com posições conforme Tabela 3. Em função da quantificação realizada através da PCR, a Figura 38 apresenta as curvas de calibração com as concentrações matemáticas e as concentrações calculadas a partir dos espectros reais das diluições. As concentrações das misturas reais distribuíram-se ao longo da reta de coeficiente angular 1, sendo que, algumas misturas binárias tiveram grande erro, como a mistura crack/carbonato de sódio e crack/lidocaína, conforme demonstrado no gráfico da Figura 38. 71 160% 120% Crack/Carbonato de sódio 140% Prevista y = 1.162x - 0.485 erro = 19% r 2 = 0,78 40% 20% 0% 80% 60% 40% y = -1.189x + 0.556 erro = 11% r 2 = 0,93 20% 0% 0% 20% 40% 60% 80% Concentração real 100% 120% 120% 0% 20% 40% 60% 80% Concentração real 100% 120% 120% Crack/Benzocaína 100% Crack/Lidocaína 100% 80% Prevista 80% Prevista Crack/Cafeína 100% Prevista 120% 100% 80% 60% 60% 40% y = -1.186x + 0.644 erro = 12% r 2 = 0,92 20% 0% 60% 40% y = -1.124x + 0.424 erro = 16% r 2 = 0,84 20% 0% -20% -20% 0% 20% 40% 60% 80% Concentração real 100% 120% 0% 20% 40% 60% 80% Concentração real 100% 120% Figura 38: Curva de calibração com as concentrações matemáticas (azul) e concentrações reais obtidas com o estudo utilizando o ES2, para cada uma das misturas binárias. Erro padrão, coeficiente de correlação r2 e equação da reta de calibração encontram-se em cada gráfico das misturas. A Tabela 5 apresenta a correlação e erro por Raman e FT-IR das amostras. Observouse que o menor erro e a maior correlação foram obtidos na mistura com cafeína, sendo que o maior erro e menor correlação foi obtido com a mistura com carbonato de sódio. Observou-se também que o FT-IR possuiu maiores erros de previsão nas concentrações das misturas, quando comparado ao Raman. Tabela 5: Comparação dos resultados Raman e FT-IR na quantificação de cocaína nas misturas. Item r2 r de Pearson Erro (%) Raman FT-IR Raman FT-IR Raman FT-IR Carbonato de sódio 0.85 0.78 0.922 0.883 14% 19% Cafeína 0.96 0.93 0.980 0.950 7,0% 11% Benzocaína 0.90 0.92 0.949 0.959 11% 12% Lidocaína 0.89 0.84 0.943 0.916 12% 16% 72 5. DISCUSSÃO Nesta pesquisa pretendeu-se identificar as diferenças espectrais da cocaína base livre e clorídrica nas suas diferentes apresentações (pó, crack, pasta), bem como, das substâncias comumente utilizadas como adulterantes: carbonato de sódio, cafeína, benzocaína, lidocaína, talco, amido de trigo, sulfato de alumínio e bicarbonato de sódio, por meio das técnicas de Espectroscopia Raman dispersiva, propondo identificar possíveis adulterantes e contaminantes. Quatro dos adulterantes mais encontrados foram utilizados em um experimento quantitativo de avaliação do teor de adulteração ou pureza da droga. A técnica FT-IR foi também utilizada visando comparar as duas formas de espectroscopia vibracional. 5.1. Caracterização das Drogas e Identificação de Adulterantes/Contaminantes e Metabólitos 5.1.1. Espectroscopia Raman Os espectros Raman da cocaína apresentam picos característicos deste alcalóide, com bandas em posições características das vibrações da estrutura do tropano, estruturas do ácido benzóico e dos grupos éster e metil. As formas de apresentação crack, pó e pasta possuem espectros Raman com picos nas mesmas posições da cocaína. Das amostras de diferentes apresentações de cocaína pesquisadas (pó, crack e pasta), uma delas foi identificada com estrutura de cloridrato de cocaína (solúvel em água), e nas restantes foram identificadas estrutura de sal básico (insolúvel na água). Este fato pode ser explicado pela tendência atual de menor utilização da forma de administração por injeção endovenosa, devido a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, ao risco de overdose, assim como o preço superior do cloridrato de cocaína em relação à forma básica, em especial o crack (OGA, 1996), que é fumado em cachimbos. A comodidade e a eficácia da via levam ao uso freqüente e continuado, gozando o crack atualmente de grande popularidade (SILVA, 2006). A menor oferta da forma cloridrato de cocaína também está associada ao maior controle, pela Polícia Federal, da comercialização de ácido clorídrico utilizado na sua produção (Anexo A). A forma de apresentação cloridrato possui vários picos nas mesmas posições da apresentação base livre, com diferenças observadas nos picos em 1036, 1165, 1183 1319 e 73 1735 cm-1, presentes na base livre e ausentes na hidroclorídrica. Esta última apresentou picos em 1026, 1207 e 1490 cm-1. Notaram-se-se diferenças na intensidade nos picos do anel tropânico para a forma clorídrica, com menor intensidade em 848 e 898 cm-1. Os picos em 1605 e 1712 cm-1 tiveram deslocamento nas suas posições (o primeiro deslocou-se para menor e o segundo para maior número de onda) (CARTER et al., 2000; RYDER et al., 1999; RYDER et al., 2000). As diferenças entre os dois espectros (picos deslocados e com intensidades diferentes) são devido, principalmente à presença do nitrogênio protonado no tropano, que altera a polaridade e consequentemente a polarizabilidade e a energia de algumas ligações químicas próximos ao tropano. Portanto, a espectroscopia Raman indicou especificidade em relação ao tipo de apresentação da cocaína (básica ou hidroclorídrica). As mesmas diferenças espectrais aqui reportadas foram apresentadas por Smith (2004), corroborando com a avaliação Raman aqui descrita. Os espectros Raman das diferentes apresentações da cocaína base, revelaram bandas sugestivas da presença de adulterantes/contaminantes. Os adulterantes e contaminantes possuem picos em posições características e bem específicas, que permitem a sua identificação nas amostras de cocaína. Algumas amostras na apresentação crack apresentaram picos em 983 cm-1, sugestivo de adulteração por sulfato de alumínio, e 1068 cm-1, sugestivo de adulteração por carbonato de sódio. Diversos trabalhos indicaram a possibilidade de identificar adulterantes e contaminantes em cocaína (CARTER et al., 2000; RYDER et al., 1999; NOONAN et al., 2005; RYDER et al., 2000). O trabalho de Carter et al. (2000) demonstrou a possibilidade de medição, via SERS, da cocaína base livre e hidroclorídrica, e que as diferenças espectrais da cocaína com relação aos adulterantes e contaminantes típicos, como a benzocaína e a lidocaína, são facilmente identificáveis. Os autores verificaram a presença de um pico em 1625 cm-1 atribuído a possível adulterante nas amostras de crack (CARTER et al., 2000). Ryder et al. (1999) apresentaram a identificação de várias drogas ilícitas, entre elas, a cocaína, e diversos adulterantes como a cafeína, talco, glicose, leite em pó, bicarbonato de sódio, dentre outros, diluídos nestas por meio da técnica Raman. Os autores verificaram a possibilidade de identificar picos Raman das drogas em misturas, mesmo abaixo de 10% em peso, por meio análise de quantitativa multivariada da cocaína diluída em glicose em pó em várias concentrações. Em outro trabalho, Ryder et al. (2000) avaliaram misturas sólidas de cocaína com cafeína e glicose, a fim de avaliar quantitativamente baseado em métodos quimiométricos de determinação dos teores de cocaína nestas misturas, com erro de quantificação da cocaína na mistura em torno de 4,1%. O trabalho de Noonan et al. (2005) 74 avaliou a possibilidade de medição de misturas de cocaína, benzocaína e lidocaína presentes em cédulas de moeda corrente (dólar americano), demonstrando a eficácia da Espectroscopia Raman na identificação, mesmo em um local desfavorável (presença de fluorescência devido a tinta do papel moeda) bem como a vantagem de ser um método não destrutivo de análises quando comparado à CG/MS. As amostras de cocaína apresentaram indicativos de presença de produto de degradação, sendo os principais o ácido benzóico e a benzoilecgonina (OGA, 2006; BARBALHO et al., 2003). No processo de degradação por hidrólise, tem-se a formação da benzoilecgonina; nesta, a cocaína perde um grupo metil (CH3), entrando a hidroxila (O-H). Isto provoca uma alteração nas intensidades relativas das bandas Raman em 1605 e 1712 cm1 , sendo que o restante do espectro permanece praticamente inalterado ou com alterações sutis (picos em 1718, 1599 e 1003 cm-1 foram relatados na literatura) (SMITH, 2004). Pode-se considerar a mudança de simetria da molécula como possível explicação para a variação espectral observada, o que leva a uma alteração da polarizabilidade da molécula. Alguns modos vibracionais são muito sensíveis aos substituintes, enquanto outros são relativamente consistentes nos seus números de onda originais (JICKELLS e NEGRUSZ, 2008). Já na degradação da cocaína ou benzoilecgonina para o ácido benzóico, ocorre nova hidrólise, com a liberação do ácido benzóico. Em termos de espectro Raman, os picos mais intensos que resultam estão em 1003 e 1604 cm-1 (atribuídos ao anel aromático) e pico em 1639 cm-1 (atribuído ao estiramento C=O) (BRITTAIN, 2009). As alterações espectrais sugestivas de processos de degradação, principalmente o surgimento do pico em 1639 cm-1 e a diminuição de intensidade do pico em 1712 cm-1, foram encontradas em praticamente todas as amostras - muitas delas com as duas alterações - com exceção apenas de uma amostra utilizada (denominada PÓ1). Estas alterações são passíveis de serem detectadas pela Espectroscopia Raman e indicam que as amostras estão possivelmente em processo de degradação, e são bastante significativas e de fundamental interesse em Toxicologia Forense. Os produtos de degradação da cocaína vem sendo avaliados pela SERS (SOBRIDO et al., 2009; DELTANU, 2011; SHENDE et al., 2005). O trabalho de Sobrido et al. (2009) aponta para detecção de biometabólitos de cocaína como a benzoilecgonina, utilizando uma biointerface específica depositada em nanotubos de carbono recobertos por prata (superfície ativa para o SERS), que pode vir a ser utilizado em detecção de benzoilecgonina em baixíssimas concentrações em urina, saliva, suor, etc. Shende et al. (2005) utilizou metodologia SERS para avaliar benzoilecgonina e cocaína em saliva, com espectros da ordem 75 de seis ordens de grandeza mais intensos. A dosagem de 1fg de benzoilecgonina pôde ser detectada pela técnica SERS em material de divulgação da técnica distribuído pela internet (DELTANU, 2011). Em suma, a técnica Raman aplicada aos metabólitos da cocaína mostrou os picos que são úteis para diferenciar estes da cocaína base, e a possibilidade detecção de traços dos metabólitos e da própria droga. A presença de umidade nas amostras não é fator determinante na obtenção de espectros Raman de cocaína e seus produtos de degradação, devido à sua alta polaridade e conseqüente fraca interação Raman com o laser de excitação. Portanto, os espectros podem ser obtidos mesmo em amostras úmidas ou diluídas em água. 5.1.2. Espectroscopia FT-IR Foram obtidos espectros FT-IR das mesmas amostras de cocaína nas várias apresentações. Em relação à cocaína, a diferença importante da forma clorídrica comparativamente à forma base livre, é a absorbância na faixa 2300-2900 cm-1, atribuída ao estiramento +N-H decorrente da ligação covalente coordenada da cocaína com o HCl, e alguns picos com intensidade menor em determinadas faixas de número de onda e pico com intensidade maior, no caso 1489 cm-1. Ocorreu também uma diminuição na diferença das frequências dos picos 1710 e 1740 cm-1, aproximando-os. As apresentações base livre: pó, crack e pasta não apresentaram diferenças importantes entre nos espectros FT-IR, a não ser pelo teor de umidade para as amostras de pasta branca e amarela (bandas em 1650 cm-1 da deformação angular de O-H-O e em torno de 3300 cm-1 referente à vibração de estiramento OH). Estas diferenças pequenas tornam mais difícil a discriminação da apresentação sem uso de técnicas de avaliação discriminante mais elaboradas. Estas diferenças espectrais entre cocaína base e hidroclorídrica foram também demonstradas em outros trabalhos utilizando FT-IR (SMITH, 2004; RECOMMENDED METHODS FOR TESTING COCAINE, 1986). Os adulterantes/contaminantes selecionados para o estudo apresentaram espectros FTIR com bandas características que, apesar de serem bem largas, poderiam ser utilizadas para a sua identificação. A análise comparativa dos espectros FT-IR das amostras de cocaína e dos adulterantes não indicou a presença destes adulterantes/contaminantes, que pode ser devido à baixa concentração, bandas largas de alguns compostos inorgânicos ou mesmo polarizabilidade dos compostos. Vários trabalhos descreveram a utilização de FT-IR na identificação de adulterantes e contaminantes em amostras de cocaína. López-Artíguez et al. (1995) demonstraram a aplicabilidade da espectroscopia no infravermelho para misturas 76 binárias de cocaína e adulterantes, contendo no mínimo 95% de cloridrato de cocaína, em que as intensidades relativas das bandas na faixa de 500 a 1800 cm-1 permitiram identificar presença dos adulterantes e contaminantes. O trabalho de Ng et al. (2009) sobre FT-IR no modo ATR para detectar a presença de cocaína e adulterantes em impressões digitais de drogas em lâmina de silício, utilizando diferentes algoritmos de busca de espectros. Maharaj (2009) comparou as técnicas FT-IR no modo ATR e CG-FID na quantificação de cocaína em amostras apreendidas, demonstrando que não há diferença significativa entre as duas técnicas, e que FT-IR ATR possui vantagens de não complicação na preparação de amostras quando comparadas ao CG, tornando vantajoso seu uso na rotina forense. Goh et al. (2008) descreveram trabalho de identificação e quantificação de substancias ilícitas por meio de FTIR ATR utilizando análise multivariada e PCR. Algumas amostras de cocaína apresentaram evidências de picos relacionados a produtos de degradação da cocaína, como a benzoilecgonina, que possui picos característicos em 1350, 1400 e 1599 cm-1, e diferentemente da cocaína base ou clorídrica, um pico único em 1721 cm-1 (MOFFAT et al, 2004; SIGMA-ALDRICH, 2011). Estes picos, característicos e específicos da benzoilecgonina, foram observados na amostra da Figura 28B (neste caso, em 1353, 1403, 1597 e 1720 cm-1). Em relação ao espectro da Figura 28C, o pico em 1595 cm-1 é também sugestivo de presença de benzoilecgonina. Não foram observados picos característicos do ácido benzóico (Figura 30), que possui os picos mais intensos na região de 935, 1296 e 1689 cm-1 (MOFFAT et al., 2004; BRITTAIN, 2009; NIST, 2011). Portanto, a FT-IR revelou a possibilidade de identificar a degradação da cocaína em benzoilecgonina de maneira bastante específica. Os espectros FT-IR evidenciam a umidade presente principalmente nas amostras de pasta de cocaína, por meio de bandas de vibração de estiramento de OH na região de 3300 a 3700 cm-1, além da banda em 1640 cm-1, devido a deformação angular do H-O-H. Isto permite medir a umidade nas amostras, o que pode se tornar importante para avaliar a degradação da cocaína por hidrólise. 5.1.3. Comparação ente FT-IR e Raman na Identificação de Adulterantes e Metabólitos Os espectros Raman das diferentes apresentações da cocaína base revelaram bandas sugestivas da presença de adulterantes/contaminantes e produtos de degradação, principalmente benzoilecgonina e ácido benzóico, e os espectros FT-IR revelaram bandas de 77 produtos de degradação, principalmente benzoilecgonina. Não fora evidenciado pico sugestivos específicos de adulterante/contaminante pelo FT-IR. No caso específico do metabólito benzoilecgonina, foi observado maior número de bandas características do mesmo nos espectros FT-IR em relação aos espectros Raman. 5.2. Análise Quantitativa de Misturas Binárias de Adulterantes em Cocaína A avaliação das misturas binárias de cocaína e adulterantes objetivou verificar a possibilidade de avaliação quantitativa do teor de cocaína em amostras de possíveis apreensões feitas pela Polícia. Importante na análise espectral é a homogeinidade das amostras. A análise quantitativa da cocaína nas diluições de crack em contaminantes foi realizada utilizando-se o método de Regressão por Componentes Principais (PCR - Principal Componentes Regression), desenvolvido a partir dos espectros Raman e FT-IR das substâncias puras e de misturas (diluições) binárias de crack e dos quatro adulterantes: carbonato de sódio; cloridrato de lidocaína; cafeína e benzocaína, nas concentrações 0%, 20%, 40%, 60%, 80% e 100% (em massa de crack e adulterante). O método PCR foi aplicado nos espectros simulados, a fim de determinar a curva de calibração nas concentrações selecionadas, e utilizado nos espectros das misturas binárias. A aplicação da PCA nos espectros simulados mostrou que o escore do componente principal 2 (ES2) possui os elementos espectrais característicos da cocaína base livre, capaz de quantificar a porcentagem de crack misturada às amostras, enquanto que, o ES1 revelou as bandas do adulterante. Foram plotadas curvas de calibração com as concentrações obtidas com os espectros matemáticas e as concentrações previstas a partir dos espectros das diluições. No caso da Espectroscopia Raman, a aplicação do experimento do PCR nas amostras binárias revelou que, o menor erro e a maior correlação foram obtidos na mistura com cafeína (erro = 7,0%, r de Pearson = 0.975), sendo que, o maior erro e menor correlação foram obtidos com a mistura com carbonato de sódio (erro = 14%, r de Pearson = 0.922). Estes dados refletem a variação nas propriedades dos adulterantes em relação à granulometria e quantidade utilizada. No estudo pode ser observado nos espectros FT-IR que o menor erro e a maior correlação foram obtidos na mistura com cafeína (erro = 11%, r de Pearson = 0.964), sendo que o maior erro e menor correlação foram obtidos com a mistura com carbonato de sódio (erro = 19%, r de Pearson = 0.883). Estes dados de menor e maior erro do FT-IR corroboram 78 com os resultados do Raman, embora o uso dos espectros Raman tenha resultado em menores valores de erro que o FT-IR (Tabela 5). Todas as amostras foram submetidas previamente ao almofariz manual. Alguns fatores interferiram nas misturas de pós. O ideal é misturar pós com propriedades semelhantes. Entre os fatores que interferem na obtenção de uma mistura homogênea estão a tenuidade dos componentes e as proporções. A tenuidade é o fator mais importante para a obtenção de um pó homogêneo. Para que uma mistura seja homogênea o ideal é que tivessem a mesma granulometria. É necessário moer convenientemente as matérias primas até tamizá-las antes de realizar as misturas. A tamização consiste em um sistema de peneiras sobrepostas com aberturas nominal de malhas variadas, que permitem a passagem de partículas de acordo com sua dimensão, possibilitando obtenção de pós finíssimos, finos, semi- fino, moderadamente grossos e grossos. Em relação às proporções a homogeneidade total de uma mistura de pós é mais difícil de obter, se um dos componentes está em menor proporção em relação a outros (LE HIR, 1997). Na área farmacêutica, a mistura de pós pode ser realizada de diferentes formas, por exemplo, por diluição geométrica com gral e almofariz (PRISTA et al., 1990), em saco plástico (FERREIRA, 2000) e em misturadores mecânicos (LE HIR, 1997). Segundo Lê Hir (1997) uma mistura absolutamente homogênea não existe. Para a mistura das amostras foi utilizado o almofariz. Pela quantidade utilizada fica inviável a utilização de tamizes para se obter uma mistura homogênea. É provável que tal erro diminuísse em caso de misturadores eletrônicos e posterior tamização. No caso específico da lidocaína, a mistura apresentou-se pastosa após a manipulação com o crack. A lidocaína é considerada uma substancia que, quando misturada a alguma outra substancia pode formar mistura eutética (MARCATTO et al., 2010). Mistura eutética é definida como aquela que resulta da mistura de componentes sólidos, cuja proporção, lhe confira o ponto de fusão inferior ao de qualquer dos componentes isolados, ou seja, trata-se da mistura de sólidos que se liquefaz ou se torna pastosa em temperatura ambiente (LE HIR, 1997; PRISMA et al., 1990). Em caso de perícia criminal de campo, especificamente laboratórios clandestinos, a detecção por Raman portátil, as amostras não estarão submetidas a uma homogeneização padronizada, sugerindo-se então análise espectral em diversos pontos das amostras para ter-se uma concentração da droga mais precisa (média). A quantificação da amostra é de extrema importância para tipificar o crime segundo a Lei nº. 11.343, de 23 de agosto de 2006 (Lei de Tóxicos). No artigo 28 da referida Lei, o simples possuidor de drogas, para consumo pessoal, está livre de reclusão, sendo submetido, 79 tão somente, à advertência sobre os efeitos das drogas, à prestação de serviços à comunidade e a medidas educativas de comparecimento a programas especiais de recuperação. Já o traficante está sujeito a penas que podem chegar a 30 anos de reclusão (Artigo 33). Uma quantificação rápida e precisa poderia avaliar o teor e consequentemente a quantidade real da droga. 5.3. Vantagens da Técnica Raman Comparada à FT-IR Uma das principais vantagens da Espectroscopia Raman é que, além da identificação das várias formas e compostos de cocaína, contaminantes - resíduos de fabricação-, adulterantes (adicionados para aumentar o rendimento), e mesmo substâncias resultantes da degradação pela exposição à umidade, a quantificação pode ser realizada em tempo real, ou seja, até no local do crime, como por exemplo, em uma apreensão ou mesmo evitando detenções injustas e ilegais, corroborando para uma maior rapidez na condução dos trabalhos da Polícia e Justiça. Esta operação em campo é dificultada nos equipamentos FT-IR, pois necessitam do controle da umidade do ambiente onde se encontram (desumidificador), bem como conhecimento do teor de umidade presente em cada amostra para evitar saturação, ou desidratação da amostra. A escolha da técnica Raman se justifica devido a rapidez na obtenção de resultados, sua especificidade em distinguir os diferentes tipos de drogas e seus compostos de degradação, contaminantes e adulterantes, ausência de preparação das amostras e mesmo sequer utilização de qualquer reagente químico ou gás, evitando assim, riscos de contaminação química não só do operador como também, do meio ambiente, pois não gera resíduo. No trabalho desenvolvido verificou-se que a técnica Raman obteve melhor resultado em termos de identificação de picos de possíveis adulterantes/contaminantes, bem como, menores erros de quantificação da cocaína nas quatro diferentes misturas binárias utilizadas. Outra vantagem da técnica Raman é sensíveis às bandas das vibrações homo-nucleares simétricas, como estiramento -C=C- e -S=S, que são fracas e inativas no FT-IR. A técnica Raman é bastante sensível às vibrações do anel aromático. O vidro ou quartzo podem ser utilizados como recipientes para acondicionamento do material a ser investigado. As bandas vibracionais podem ser medidas a partir de 50 cm-1 para alguns equipamentos comerciais, a partir de 200 cm-1 para o equipamento 2 utilizado neste estudo. Os equipamentos microRaman podem ter resolução espacial de alguns poucos micrômetros devido ao comprimento de onda utilizado (785 ou 830 nm - infravermelho próximo) (BRANCO, 2005). Os 80 comprimentos de onda no infravermelho próximo minimizam a fluorescência das amostras, evitando saturação nos sistemas de detecção baseados em CCD. A possibilidade de não preparar amostras é de extrema importância na área forense, visto que a cena de crime deve ser preservada, com as medições sendo efetuadas no próprio local e as amostras sendo avaliadas sem serem fragmentadas. A obtenção de espectros com a possibilidade de identificação exata do ponto em que foram efetuadas as medidas, é outra vantagem, pela utilização de equipamentos com câmera para filmagem acoplada ao Raman probe (Figura 10). A técnica Raman pode lançar mão do efeito SERS (SALA, 2008; FARQUHARSON et al., 2011), com a utilização de superfícies nanoestruturadas ou soluções coloidais de ouro ou prata, visando aumentar a eficiência do sinal Raman e melhorar a relação sinal-ruído na detecção de traços de drogas ou metabólitos. 5.4. Considerações sobre a Cocaína e a Importância da Técnica de Espectroscopia Raman Na Toxicologia Forense A importância do emprego de técnicas ópticas na identificação de produtos de apreensão policial, principalmente de drogas de abuso e materiais empregados na sua fabricação ou adulteração, no caso da cocaína, reside no fato de que é possível realizar a identificação imediata da droga, bem como a sua provável pureza ou produtos de degradação quando exposta à umidade (hidrólise) e mesmo incidência de luz ou alta temperatura. Os arquivos de evidência criminal, em que são acondicionados amostras para contra provas por solicitações judiciais, devem estar adaptados com dispositivos para controle de temperatura, umidade e iluminação. As amostras de cocaína, com o passar do tempo, sofrem hidrólise contínua, e apresentaria no caso do espectro Raman, espectro com picos da droga somado ao dos produtos de degradação (benzoilecgonina e ácido benzóico), bem como indícios dos contaminantes e mesmo adulterantes inorgânicos. No caso do espectro Raman, os metabólitos oriundos da degradação, principalmente a benzoilecgonina, podem ser identificados, indicando a perda de materialidade da prova do crime. Em caso de grandes quantidades de drogas, que estão sob proteção da Polícia, são armazenadas em delegacia ou mesmo na esfera de proteção judicial ( Fórum) aguardando julgamento, podem até mesmo ter quantidade e teor da droga reduzidos, ocasionando transtornos para os responsáveis pela guarda do material. Não existem no Brasil quaisquer tipos de leis ou portarias regulamentando tais procedimentos de conservação em ambientes adequados que, de modo geral são meramente depósitos. 81 A utilização de um equipamento Raman portátil com cabo “Raman probe” para medidas em locais de difícil acesso traz benefícios, tais como a possibilidade de medidas em campo (barcos, depósitos e laboratórios clandestinos em selva expostos a umidade), e mesmo monitoração em rodoviárias, correios, postos de fronteira e aeroportos para verificação de containeres suspeitos (HARGREAVES, et al., 2008) de maneira não destrutiva, tem por objetivo preservar a evidência em casos criminais, mantendo assim, a cadeia de custódia. Evita-se também o desvio de quantidades significativas de materiais desviados de locais de apreensão até chegar aos Institutos de Criminalística, pois o teor da droga seria detectado em tempo real, no local e depois no laboratório (exemplo: 10 kilos de cocaína a 80% de pureza no local da apreensão devem ser os mesmos que chega ao Laboratório criminal, sem adulteração no teor). Este procedimento seria de grande serventia no combate ao narcotráfico. Deve ser levada em consideração a relação custo benefício. O preço de um equipamento de CGMS é bem mais caro que um de espectroscopia Raman, dependendo da sua configuração. Os equipamentos de cromatografia como HPLC, CGFID, CGMS possuem manutenção cara, necessitando de manutenção especializada constante além de custos no consumo de gases, padrões, reagentes. No Brasil poucos Institutos e Criminalística, localizados em grandes centros possuem capacidade para operar tais equipamentos. Estados como Minas Gerais com centenas de municípios e mesmo as regiões fronteiriças do Brasil fica complicada a distribuição destes equipamentos nas Polícias Técnicas. A espectroscopia Raman não necessita de reagentes, gases e manutenção especializada constante. As Polícias Técnicas do país podem se beneficiar da metodologia rápida, específica, sensível e de custo reduzido. Ressalta-se a possibilidade de avaliação de metabólitos em fluidos complexos como urina e mesmo saliva de usuários e traficantes por meio da técnica Raman (FARQUHARSON et al., 2011; SOBRIDO, et al., 2009; CELA et al., 2010; SHENDE et al., 2005). Importante na preservação do meio ambiente evitando exposição a tóxicos no caso do operador (Perito Criminal Laboratorista), como solventes à base de hidrocarbonetos que são empregados nas técnicas cromatográficas. O abuso da cocaína representa atualmente um dos grandes problemas mundiais de segurança e saúde pública. Análises toxicológicas para verificar a exposição à cocaína é de grande interesse social, pois possibilita que medidas de prevenção e controle sejam adotadas. Este estudo ressalta a importância da espectroscopia vibracional, particularmente a Raman. As polícias técnicas do país necessitam de uma metodologia rápida para identificação de droga, e 82 a técnica pode tornar-se poderoso instrumento no combate ao tráfico de drogas no Brasil, particularmente nas regiões fronteiriças. A importância ainda se destaca na área de Química Forense, com rapidez na obtenção do vestígio, possibilitando uma análise rápida, evitando-se injustiça em caso de inocentes, constatação rápida em caso de crimes e pesquisa de explosivos, pigmentos, tintas (grafotécnico) e mesmo hidrocarbonetos, em perícias de local de incêndio. A 4ª edição do SWGDRUG em 2008 apontou a Espectroscopia Vibracional Raman na mesma categoria junto a Espectrometria de Massa em relação a quantificação e especificidade.. Tal metodologia vem sendo utilizada pelo FBI, o que pode ser verificado no site desta instituição. 5.5. Trabalhos Futuros Para realização de trabalhos futuros, devem ser consideradas as seguintes possibilidades: − Estudos para elaboração de um modelo de quantificação com cocaína pó, devido maior possibilidade de mistura homogênea e consequentemente menor erro e estudo de validação cruzada, etc.; − Utilização de SERS na quantificação de metabólitos na urina, saliva; − Estudo da degradação da cocaína em arquivos de evidencias (tempo, temperatura de acondicionamento, exposição à luz, umidade), sendo importante quesito em laudos forenses por solicitação policial. 83 6. CONCLUSÃO O presente estudo demonstrou ser possível a identificação de cocaína nas formas clorídrica e base livre por Espectroscopia Raman dispersiva utilizando “Raman probe” e FT-IR, pela diferença nas posições e intensidades dos picos mais importantes. Foi verificado que as diferentes apresentações de cocaína base livre (pó, pasta e crack) possuem a quase totalidade dos picos nas mesmas posições, sendo que, algumas amostras apresentaram picos em posições e intensidades diferentes, sugestivo de adulterantes e produtos de degradação, principalmente o espectro Raman para adulterante e produtos de degradação, principalmente benzoilecgonina e ácido benzóico, e o FT-IR para produtos de degradação, principalmente benzoilecgonina. Os espectros dos adulterantes/contaminantes carbonato de sódio, cafeína, benzocaína, lidocaína, talco, amido de trigo, sulfato de alumínio e bicarbonato de sódio, possuem bandas características e específicas, que podem ser usadas para identificar sua presença nas amostras. Apenas a técnica Raman possibilitou verificar a presença de picos em posições relacionadas com alguns adulterantes - carbonato de sódio e sulfato de alumínio. A avaliação quantitativa de misturas binárias de cocaína (com teor de pureza determinado por CG-FID) diluída com adulterantes (lidocaína, cafeína, benzocaína e carbonato de sódio, em concentrações de 0%, 20%, 40%, 60%, 80% e 100% de massa de crack em adulterante), em um estudo de Regressão por Componentes Principais (PCR) por meio de espectros Raman e FT-IR, demonstrou que os picos Raman são proporcionais às misturas utilizadas. Menores erros de previsão quantitativa foram obtidos com a técnica Raman, e as misturas de cocaína/cafeína apresentaram os menores erros, sugestivamente devido a facilidade de homogeneização (almofariz), enquanto que a mistura de cocaína/carbonato de sódio apresentou os maiores erros, sugestivamente pela maior dificuldade de homogeneização. A Espectroscopia Raman dispersiva utilizando “Raman probe” apresentou maior poder de avaliação, tanto qualitativa, quanto quantitativa em relação ao FT-IR, destacando a importância da aplicação das técnicas ópticas em Perícias Forenses Toxicológicas. 84 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AIST:RIO-DB. Spectral database for Organic Compounds SDBS. National Institute of Advanced Industrial Science and Technology (AIST). Disponível em: http://riodb01.ibase.aist.go.jp/sdbs/cgi-bin/direct. Acesso em 10 jun. 2011. ALMEIDA, F.L.A. Análise Comparativa de Amostras de Cocaína Apreendidas em Diferentes Estados Brasileiros. 2003. 109p. Dissertação (Mestrado) - Universidade de Brasília, Instituto de Química, Brasília. ALMEIDA, F.L.A.; SANTOS M.M.; TALHAVINI, M.;TALHAVINI, I.C.M. Determinação de Rotas de Tráfico de Cocaína. In: 26 REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE QUÍMICA (SBQ), 2003, Brasília, DF. Anais... Brasília, DF, 2003. 1: 126-129. BARANSKA, M.; PRONIEWICZ, L.M. Raman mapping of caffeine alkaloid. Vibr.Spectr. 48(1): 153-157, 2008. BARBALHO, D.S.; SANTOS, M.M.; COURA, F.M. Fotodegradação da Cocaína. Institutode Química. In: 26 REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE QUÍMICA (SBQ), 2003, Brasília, DF. Anais... Brasília, DF, 2003. 5: 145-154. BARBOSA, L.C.A. Espectroscopia no infravermelho na caracterização de compostos orgânicos. Viçosa: UFV, 2007. BRANCO, R.O. Quimica Forense sob Olhares Eletrônicos. Campinas, SP: Millennium Editora, 2005. BRITTAIN, H.G. Vibrational Spectroscopic Studies of Cocrystals and Salts. The BenzamideBenzoic Acid System. Crystal Growth & Design. 9(5): 2492-2499, 2009. BUJÁN, L.; FERNÁNDEZ, P; LAFUENTE, N.; ALDONZA, M.; BERMEJO, A.M. Comparison of Two Chromatographic Methods for the Determination of Cocaine and its Metabolites in Blood and Urine. Anal. Lett. 34 (13): 2263 - 2275, 2001. CARDENAS, S.; GALLEGO, M.; VALCARCEL, M. An automated preparation device for the determination of drugs in biological fluids coupled on-line to a gas chromatograph mass spectrometer. Rapid Comm. Mass Spectrom.11(9): 973-980, 1997. CARTER, J.C.; BREWER W.E; ANGEL.S.M. Raman Spectroscopy for the In Situ identification of cocaine and selected adulterants. Appl. Spectrosc. 54:1876-1881, 2000. CELA, S.A.; POTEL, P.A.; MATEO, C.M.; LORENZO, L.R.; PUEBLA, R.A.A.; MARZAN, L.M.L. Surface-enhanced Raman scattering biomedical applications of plasmonic colloidal particles. J.R. Soc. Interface. 7(4): 5435-5440, 2010. 85 CEBRID - Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas. Drogas Psicotrópicas. 2009. Disponível em: http://200.144.91.102/cebridweb/default.aspx. Acesso em 10 abr. 2009. CLARKE, E.G.C. Clarke´s Isolation and Identification of Drugs. 2nd ed. London: The Pharmaceutical Press, 1986. COATES, J.P. Interpretation of Infrared Spectra, A Practical Approach. Encyclopedia of Analytical Chemistry. Chichester: JohnWiley & Sons Ltd., 2000. DAY, J.S.; EDWARDS, H.G.M.; DOBROWSKI, S.A.; VOICE, A.M. The detection of drugs of abuse in fingerprints using Raman spectroscopy I: latent fingerprints. Spectrochim. Acta. 60 (3): 563-568, 2004. DELTANU. Nanoscale Photonics Gives Nanolevel Detection. Application Note: 011. Disponível em: http://spectroscopy-bfioptilas. se/objects/6_9_527259537/DeltaNunano_detection_011_1.pdf. Acesso em 12 jun. 2011. DEPARTAMENTO DE POLÍCIA FEDERAL (Brasil). Sistema Nacional de Dados Estatísticos de Repressão a Entorpecentes. Brasilia: Divisão de Repressão a Entorpecentes, out. 2002. ELIASSON, C.; MACLEOD, N.A.; MATOUSEK, P. Non-invasive detection of cocaine dissolved in beverages using displaced Raman spectroscopy. Anal. Chim. Acta: 607 (1): 5053, 2008. ESAM, M.A.A.; HOWELL, G.M.E.; MICHAEL, D. H.; IAN J. S. In-situ detection of drugsof-abuse on clothing using confocal Raman microscopy. Anal. Chim. Acta 615(1): 63-72, 2008. ESAM, M.A.A.; HOWELL, G.M.E.; MICHAEL, D. H.; IAN J. S. Raman spectroscopic investigation of cocaine hydrochlorideon human nail in a forensic context. Anal. Bioanal. Chem. 390:1159-1166, 2008. FARIA, D.L.A.; SANTOS, L.G.C. Uma Demonstração sobre o Espalhamento Inelástico de Luz: Repetindo o Experimento de Raman. São Paulo: Instituto de Química da Universidade de São Paulo, 1996. FARQUHARSON, S.; SHENDE, C.; SENGUPTA, A., HUANG, H.;INSCORE, F. Rapid Detection and Identification of Overdose Drugs in Saliva by Surface-Enhanced Raman Scattering Using Fused Gold Colloids. Pharmaceutics. 3(3):425-439, 2011. FERREIRA, A. O. Guia Prático da Farmácia Magistral. Juiz de Fora: Pharmabooks, 2002. SOCIETY OF FORENSIC TOXICOLOGISTS/AMERICAN ACADEMY OF FORENSIC SCIENCES. Forensic Toxicology Laboratory Guidelines. 2006. Disponível em: Erro! A referência de hiperlink não é válida. em 03 jan. 2010. GAMOT, P.; VERGOTEN, G.; FLEURY, G. Etude par spectroscopie raman du chlorhydrate de cocaine. Talanta. 32: 363,1985. 86 GOH, C.Y.; BRONSWIJK, W V.; PRIDDIS C. Rapid Nondestructive On-Site Screening of Methylamphetamine Seizures by Attenuated Total Reflection Fourier Transform Infrared Spectroscopy. Appl. Spectrosc. 62, 640-648: 2008. GOMES, L. F. Nova lei de tóxicos não prevê prisão para usuário. Jus Navegandi, Teresina, ano 10, n. 1141, 16 ago 2006. HARGREAVES, M.D., PAGE, K.; MUNSHI, T.; TOMSETT, R.; LYNCH, G.; EDWARDS, H.G.M. Analysis of seized drugs using portable Raman spectroscopy in an airport environment - a proof of principle study. J. Raman Spectrosc.3 9 (7): 873-880, 2008. HODGES, C.M.; HENDRA, P.J.; WILLIS H.A.; FARLEY, T. Fourier transform Raman spectroscopy of illicit drugs. J. Raman Spectrosc. 20(11): 745-749, 1989. HORIBA JOBIN YVON. Raman Data And Analysis. Raman Spectroscopy for Analysis and Monitoring. Disponível em: http:// www.horiba.com/fileadmin/uploads/Scientific/.../Raman/bands.pdf. Acesso em 10 jun.2011. HORIBA JOBIN YVON. Raman Application Note. Forensic1. The Non-destructive and insitu identification of controlled drugs and narcotics. Disponível em: http:// www.jobinyvon.com/... /Raman/applications/Forensics01.pdf . Acesso em 09 jun.2011. JICKELLS, S; NEGRUSZ, A. Clarcke’s Analitycal Forensic Toxicology. Pharmaceutical Press: London, 2008. KATZUNG, B.G. Farmacologia Básica e Clínica. Rio de Janeiro, RJ.Guanabara Koogan, p. 387, 2003. KAWAI, T.; JANNI, J.A. Chemical Identification with a Portable Raman. Analyzer and Forensic Spectral Database. InPhotonics; Application Note 15. Disponível em: http://www.inphotonics.com. Acesso em 09 jun. 2011. KLOPROGGE, J.T.; FROST, R.L. Raman microscopy study of basic aluminum sulfate. J. Mater. Sci. 34(17):4199-4202, 1999. KOULIS, C.V.; REFFNER, J.A.; BIBBY, A.M. Comparison of transmission and internal reflectance infrared spectra of cocaine. J Forensic Sci.; 46(4):822, 2001. LE HIR, A. Noções de Farmácia Galênica. 6. ed. São Paulo: Organização Andrei Editora Ltda., 1997. LÓPEZ-ARTÍGUEZ, M.; CAMEÁN, A.; REPETTO, M. Unequivocal identification of several common adulterants and diluents in street samples of cocaine by infrared spectroscopy. J. Forensic Sci. 40: 602-610, 1995. MAHARAJ, R. Quantitative Analysis Of Cocaine Using Fourier Transform Infra Red Spectroscopy-Attenuated Total Reflectance: A Preliminary Investigation. The Internet J. Third World Med. 7(2), 2009. 87 MARCATTO, J.O.; TAVARES, E. C.; SILVA, Y. P. Anestesia tópica em recém nascidos prematuros: uma reflexão acerca da subutilização deste recurso na prática clínica. Revista Brasileira de Terapia Intensiva. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid. Acesso 01 maio 2011. MARTENS, H.; NAES, T. Multivariate Calibration. Chichester: Jhon Wiley & Sons Ltd., 1996. MAYO D.W.; MILLAR F.A.; HANNAH R.W. Course Notes on the Interpretation of Infrared and Raman Spectra. New Jersey: John Wiley & Sons, 2003. MELO, G.; SANTOS, T.C.; CAMPOS, R.M. Agentes estabilizadores e degradação de polipropileno. In: XII ENCONTRO LATINO AMERICANO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA.VIII Encontro Latino Americano de Pós-Graduação, São José dos Campos-SP 2008. Anais. Universidade do Vale do Paraíba. São José dos Campos-SP, 2008. MOFFAT, A.C; OSSELTON M.D.; WIDDOP B. Clarke's Analysis of Drugs and Poisons. Pharmaceutical Press, 2004. MOORE, J.M.; CASALE, J.F. In-depth chromatographic analyses of illicit cocaine and its precursor, coca leaves. J.Chromatogr. 674: 165-205, 1994. MORELLO, D.R.; MEYERS, R.P. Qualitative and Quantitative Determination of Residual Solvents in Illicit Cocaine HCl and Heroin HCl. J. Forensic Sci., 40: 957-963, 1995. NADINE, W.S.K. Analysis of Drug Samples Using Raman Microspectroscopy. J. Young Investigators, 5(1), 2001. NAKAMOTO, K. Infrared and Raman Spectra of Inorganic and Coordination Compounds. Part A. 5th ed. New York: John Wiley & Sons, 1997. NG, P.H.R., WALKER, S.; TAHTOUH, M .; REEDY, B. Detection of illicit substances in fingerprints by infrared spectral imaging. Anal Bioanal Chem. 394(8): 2039-2048, 2009. NIST. Base de dados de Referência padrão do NIST número 69. Disponível em: http://webbook.nist.gov/chemistry/. Acesso em 12 jun. 2011. NOONAN, K.Y.; BESHIRE, M.; DARNELL, J.; FREDERICK, K. Qualitative and Quantitative Analysis of Illicit Drug Mixtures on Paper Currency Using Raman Microspectroscopy. Appl. Spectrosc. 59 (12): 288-308/1427-1561, 2005. OGA, S. Fundamentos de Toxicologia. São Paulo: Atheneu, 1996. PAVEL, I.; SZEGHALMI, A.; MOIGNO, D.; CINTA, S.; KIEFER, W. Theoretical and pH dependent surface enhanced Raman spectroscopy study on caffeine. Biopolymers. 72(1): 2537, 2002. PAVIA,D.L; LAMPAMAN,G.M.; KRIZ,G.S., ENGEL,R.G. Introduction to Spectroscopy. 4th ed., Brooks/Cole: Belmont, 2009. 88 PERKINELMER. FT-IR Spectroscopy -Attenuated- Total Refflectance (ATR). 2005. Disponível em: http://las.perkinelmer.com/Content/TechnicalInfo/TCH_FTIRATR.pdf. Acesso em 10 dez. 2009. PIÑERO, E.L.; CASALE, J.F. Quantitation of cocaine by gas chromatography flame ionization detection utilizing isopropylcocaine as a structurally related internal standard. Microgram J. 4(1-4):47-53,2006. PINZARU, S.C.; PAVEL, I.; LEOPOLD, N.; KIEFER, W. Identification and characterization of pharmaceuticals using Raman and surface-enhanced Raman scattering. J. Raman Spectrosc. 35: 338-346, 2004. PRISTA, L.N.; ALVES, A.C.; MORGADO, R.M.R. Tecnologia Farmacêutica e Farmácia Galênica. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1990. RECOMMENDED METHODS FOR TESTING COCAINE. Methods For Testing Cocaine. United Nations, 1986, ST /NAR / 7, pp. 29-30. REGAZZI, A.J. Análise multivariada, notas de aula INF 766. Viçosa: Departamento de Informática da Universidade Federal de Viçosa, 2000. RYDER, A.G.; O'CONNOR, G.M.; GLYNN, T.J. Identifications and quantitative measurements of narcotics in solid mixtures using near-IR Raman spectroscopy and multivariate analysis. J. Forensic Sci. 44(5): 1013-1019, 1999. RYDER, A.G.; O'CONNOR, G.M.; GLYNN, T.J. Quantitative analysis of cocaine in solid mixtures using Raman spectroscopy and chemometric methods. J. Raman Spectrosc, 31(3): 221-227, 2000. SAGMULLER, B.; SCHWARZE, B.; BREHM, G.; TRACHTA , G.; SCHNEIDER, S. Identification of illicit drugs by a combination of liquid chromatography and surfaceenhanced Raman scattering spectroscopy. J. Mol. Struct. 662: 279-290, 2003. SALA, O. Fundamentos da Espectroscopia Raman e no Infravermelho. 2.ed. São Paulo: Editora UNESP, 2008. SAVITZKY, A.; GOLAY, M. Smothing and Differenciation of Data by Simplified Least Square Procedures. Anal. Chem. 36 (8): 1627-1639, 1964. SHENDE, C.; INSCORE, F.; MAKSYMIUK, P.; FARQUHARSON, S. Ten-minute analysis of drugs and metabolites in saliva by surface-enhanced Raman spectroscopy. Proc. SPIE, The International Society for Optical Engineering, 2005. SIGMA-ALDRICH. Prodact Information. Benzoilecgonine. Catalog Number B3277. Disponível em: http://www.sigmaaldrich.com/etc/.../Sigma/.../7/b3277.../b327761k88051dat.pdf. Acesso em 12 jun. 2011. 89 SILVA, M.J., DOS ANJOS, E.V.; HONORATO, R.S.; PIMENTEL, M.F.; PAIM, A.P. Spectrophotometric cocaine determination in a biphasic medium employing flow-batch sequential injection analysis. Anal. Chimi. Acta. 629, (1-2), 98-103, 2008. SILVA, P. Farmacologia. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. SILVEIRA, L.; SATHAIAH, S.; ZÂNGARO, R.A.; PACHECO, M.T.; CHAVANTES, M.C.; PASQUALUCCI, C.A. Near infrared Raman spectroscopy of human coronary arteries: histopathological classification based on Mahalanobis distance. J. Clin. Laser Med. Surg. 21(4):203-8, 2003. SMITH, F. P. Handbook of Forensic Drug Analysis. Elsevier, Academic, 2004. SMITH, E.; DENT, G. Modern Raman Spectroscopy - a Practical Approach. Chichester: John Wiley & Sons Ltd, 2005. SOBRIDO, M.S., LORENZO, L. R.; ABALDE, S.L.; FERNANDEZ, A.G.; DUARTE, M.A.C.; PUEBLA, R.A.A.; MARZAN, L.M.L. Label-free SERS detection of relevant bioanalytes on silver-coated carbon nanotubes: The case of cocaine, Nanoscale, 1(1): 153158, 2009. SPINELLI, E. Vigilância Toxicológica:comprovação do uso de álcool e drogas através de testes toxicológicos. Rio de Janeiro: Interciência, 2004. STONE, N., KENDALL, C.; SMITH, J.; CROW, P.; BARR, H. Raman spectroscopy for identification of epithelial cancers. Faraday Discuss. 126(1):141-57, 2004. TAVENDER, S.M., JOHNSON, S.A.; BALSOM, D.; PARKER, A.W.; BISBY, R.H. The Carbonate, Co3−, in Solution Studied by Resonance Raman Spectroscopy. Laser Chemistry. 19(1-4): 311-316, 1999. TENG, D.; MA, J.; HUANG, Y.; ZHANG, X.; ZHENG, R. Investigate seawater and seawater anions' aqueous mixed solution by laser Raman spectroscopy. Proc. SPIE, The International Society for Optical Engineering, 2008. THOMAS, E.V. A primer on multivariate calibration. Anal. Chem. 66:795A-803A, 1994. VARGAS, R.M.; TALHAVINI, M. Cocaína. Relatório de atividades do projeto FAPDF no 193.000.360/99. Brasília: Fundação de Apoio a Pesquisa do Distrito Federal, 2000. WIELBO, D.; TEBBETT, I.R. The use of micro-Fourier transform infrared spectroscopy for the rapid identification of street drugs: Determination of interference by common diluents. J. Forensic Sci. Soc. 33:25,1993. 90 ANEXOS 91 ANEXOS ANEXO A - PORTARIA 1274 E SEU ANEXO I LISTA II ANEXO B - RAMAN PROBE E PORTA -AMOSTRAS DE ALUMÍNIO ANEXO C - APARELHO NICOLET FT-IR ANEXO D - CURVA DE CALIBRAÇÃO DO CG ANEXO E - PADRÃO INTERNO - DIPENTILFTALATO ANEXO F - CG-FID - FOTO E CONFIGURAÇÃO ANEXO G - RESULTADOS DE AMOSTRAS EM TRIPLICATA CG-FID 92 ANEXO A - PORTARIA 1274 E SEU ANEXO I LISTA II PORTARIA 1.274, DE 25 DE AGOSTO DE 2003 O MINISTRO DE ESTADO DA JUSTIÇA, no uso das atribuições que lhe confere o art. 2o da Lei no 10.357, de 27 de dezembro de 2001, tendo em vista o disposto no Decreto no 4.262, de 10 de junho de 2002, e Considerando que certas substâncias e produtos químicos têm sido desviados de suas legítimas aplicações para serem usados ilicitamente, como precursores, solventes, reagentes diversos e adulterantes ou diluentes, na produção, fabricação e preparação de entorpecentes e substâncias psicotrópicas; Considerando a existência de um grande número de insumos químicos que em função de suas propriedades possuem alto potencial de emprego como substituto dos precursores e produtos químicos essenciais mais freqüentemente utilizados no processamento ilícito de drogas; Considerando que, à medida que se amplia a fiscalização internacional sobre os principais precursores e produtos químicos essenciais empregados no processamento ilícito de drogas, dada a dificuldade em obtê-los, surgem novos métodos alternativos de síntese e de produção envolvendo a utilização de insumos químicos não controlados ou que podem ser facilmente preparados em laboratórios a partir de matéria-prima também não controlada; Considerando a freqüência com que certos produtos químicos vêm sendo encontrados em laboratórios clandestinos de fabricação ilícita de drogas ou identificados nas amostras de entorpecentes e substâncias psicotrópicas apreendidas; Considerando a tendência mundial de crescimento da produção, distribuição e consumo de drogas sintéticas ilícitas, como forma de burlar o controle internacional exercido sobre as substâncias entorpecentes e psicotrópicas de uso terapêutico permitido e as proscritas; Considerando que a Convenção das Nações Unidas Contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas − Convenção de Viena, de 1988, promulgada pelo Decreto no 154, de 16 de junho de 1991, estabelece em seu art. 12 que as partes adotarão as medidas que 93 julgarem adequadas para evitar o desvio de substâncias utilizadas na fabricação ilícita de entorpecentes e substâncias psicotrópicas; Considerando as recomendações da Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas da Organização dos Estados Americanos − CICAD/OEA, no sentido de que os governos dos países membros adotem o controle dos precursores e produtos químicos essenciais que constam do regulamento modelo proposto; Considerando, os compromissos assumidos no âmbito dos acordos de cooperação mútua, celebrados com os países da Região Andina e do Cone Sul, por meio dos quais o Governo brasileiro se compromete a exercer o controle e a fiscalização de precursores e outros produtos químicos essenciais empregados na fabricação clandestina de drogas, como estratégia fundamental para prevenir e reprimir o tráfico ilícito e o uso indevido de entorpecentes e substâncias psicotrópicas, Considerando, finalmente, a necessidade de se adequar os limites dos produtos químicos controlados, listados no Anexo à Portaria no 169, de 21 de fevereiro de 2003, às necessidades e peculiaridades do mercado, resolve: Art. 1o Submeter a controle e fiscalização, nos termos desta Portaria, os produtos químicos relacionados nas Listas I, II, III, IV e nos seus respectivos Adendos, constantes do Anexo I. LISTA II 1. ACETONA 2. ÁCIDO CLORÍDRICO 3. ÁCIDO CLORÍDRICO (estado gasoso) 4. ÁCIDO CLOROSSULFÔNICO 5. ÁCIDO HIPOFOSFOROSO 6. ÁCIDO IODÍDRICO 7. ÁCIDO SULFÚRICO 8. ÁCIDO SULFÚRICO FUMEGANTE 9. AMINOPIRINA (1) 10. ANIDRIDO ACÉTICO 11. BENZOCAÍNA (1) 12. BICARBONATO DE POTÁSSIO 13. BUTILAMINA (1) 14. CAFEÍNA (1) 15. CARBONATO DE POTÁSSIO 94 16. CARBONATO DE SÓDIO 17. CIANETO DE BENZILA 18. CIANETO DE BROMOBENZILA 19. CLORETO DE ACETILA 20. CLORETO DE BENZILA 21. CLORETO DE METILENO 22. CLORETO DE TIONILA 23. CLOROFÓRMIO 24. DIACETATO DE ETILIDENO 25. DIETILAMINA (1) 26. 2,5-DIMETOXIFENETILAMINA (1) 27. DIPIRONA 28. ÉTER ETÍLICO 29. ETILAMINA (1) 30. FENACETINA 31. FENILETANOLAMINA (1) 32. FÓSFORO VERMELHO 33. FORMAMIDA 34. FORMIATO DE AMÔNIO 35. HIDRÓXIDO DE POTÁSSIO 36. HIDRÓXIDO DE SÓDIO 37. IODO (sublimado) 38. LIDOCAÍNA (1) 39. MAGNÉSIO (metálico) 40. MANITOL 41. METILAMINA (1) 42. METILETILCETONA 43. N-METILFORMAMIDA 44. NITROETANO 45. PENTACLORETO DE FÓSFORO 46. PERMANGANATO DE POTÁSSIO 47. PROCAÍNA (1) 48. TOLUENO 95 ADENDO I - Estão sujeitos a controle e fiscalização os produtos químicos acima relacionados, quando puros ou considerados quimicamente puros ou, ainda, com grau técnico de pureza, a partir das seguintes quantidades: a) Acima de um quilograma ou um litro por mês, quando se tratar de produto sólido ou líquido, respectivamente, no caso do permanganato de potássio, anidrido acético, cloreto de acetila, diacetato de etilideno, metilamina, etilamina e butilamina; b) Acima de dois quilogramas ou dois litros por mês, quando se tratar de produto sólido ou líquido, respectivamente, quanto aos demais produtos químicos relacionados na lista, exceto hidróxido de sódio; c) Acima de trezentos quilogramas por mês, para pessoa jurídica, e cinco quilogramas por mês, para pessoa física, no caso de hidróxido de sódio e carbonato de sódio sólidos; d) Os sais dos produtos químicos da lista sobrescritos com o número (1), nas mesmas quantidades prescritas nas alíneas anteriores; II - Também estão sujeitas a controle e fiscalização, exceto quando se tratar de produtos que se enquadram no art. 20 desta Portaria as soluções específicas e misturas dos produtos químicos acima relacionados, associados ou não a outros produtos químicos controlados, nos seguintes casos: 1) Para quantidades acima de cinco quilogramas ou cinco litros por mês, quando se tratar de produto sólido ou líquido respectivamente: - Ácidos orgânicos e inorgânicos com concentração individual superior a dez por cento; - Hidróxidos, bicarbonatos e carbonatos com concentração individual superior a dez por cento; - Solventes orgânicos com concentração individual superior a sessenta por cento; - Demais substâncias com concentração superior a vinte por cento; 2) Para quantidades acima de um quilograma ou de um litro por mês: - Permanganato de potássio com qualquer concentração; III - Com relação aos produtos comerciais a que se refere o art. 20 desta Portaria deverão ser atendidas as seguintes exigências específicas: a) No caso das soluções à base de solventes orgânicos, fabricadas para uso como removedor de esmalte de unhas, o teor total de substâncias químicas controladas não deverá ultrapassar a sessenta por cento, conterão corantes e somente poderão ser comercializadas no varejo em embalagens de até quinhentos mililitros; 96 b) Quanto às soluções de éter etílico, fabricadas para uso médico-hospitalar, o teor total de substâncias químicas controladas não deverá ultrapassar a sessenta por cento e somente poderá ser comercializada no varejo em embalagens de até quinhentos mililitros; c) Qualquer que seja a categoria do produto, a isenção de controle não se aplica ao permanganato de potássio, suas soluções e misturas com outras substâncias químicas; IV - No caso da soda cáustica (hidróxido de sódio) em escamas, comercializada em supermercados e em outras lojas do ramo, e da soda barrilha (carbonato de sódio), aplicar-seá o disposto na alínea c do inciso I deste Adendo, quanto aos limites de isenção de controle para pessoas jurídicas e pessoas físicas; V - Com relação às soluções eletrolíticas de bateria, formuladas à base de ácido sulfúrico, o limite de isenção para pessoa jurídica é de duzentos litros por mês e para pessoa física é de cinco litros por mês; e VI - A norma estabelecida no art. 19 desta Portaria aplica-se aos produtos químicos relacionados nos itens 1, 21, 23, 28, 42 e 48 da Lista II. 97 ANEXO B - RAMAN PROBE E PORTA-AMOSTRAS DE ALUMÍNIO Foto A Foto B 98 ANEXO C - APARELHO NICOLET IS 10 FT-IR ATR 99 ANEXO D - CURVA DE CALIBRAÇÃO DO CG 100 ANEXO E - PADRÃO INTERNO - DIPENTILFTALATO 101 ANEXO F - CG-FID - FOTO E CONFIGURAÇÃO Configuração Cromatógrafo Gasoso - FID - Agilent Technologies 6890N C:\MSDCHEM\2\METHODS\QUANTCOCA FID ONU.M FORNO Temp. inicial: 150 'C Tempo inicial: 2.00 min Rampa: Final temp. 1- 40 ºC/mim Tempo final. 315 Tempo de corrida: 9.99 min COLUNA DB1- (metilpolisiloxano) Máxima temperatura: 340 'C Medida: 25.0 m Diâmetro: 0.20 mm Filme- 0.33 µm DETETOR (FID) Temperatura: 250 'C 3.87 102 Fluxo: ar: 450.0 mL/min; hidrogenio : 40.0 mL/min Makeup Gas : Nitrogenio INJETOR Temp.: 280 'C Volume de injeção: 0.20 microlitros Modo: Split Split ratio: 10:1 Pressão no injetor: 27.76 psi Gás arraste: Helio 103 ANEXO G - RESULTADOS DE AMOSTRAS EM TRIPLICATA CG-FID 1-Quantitation Report Data Path : C:\msdchem\2\DATA\ Data File : CIRO_AMOSTRA1.D Signal(s) : FID1B.CH Acq On : 02 Mar 2010 11:55 ALS Vial : 22 Sample Multiplier: 1 Integration File: autoint1.e Quant Time: Mar 02 12:07:01 2010 Quant Method : C:\msdchem\2\METHODS\QUANTCOCA FID ONU.M Quant Title : QUANT COCA FID QLast Update : Fri Feb 26 10:02:35 2010 Response via : Initial Calibration Integrator: ChemStation 6890 Scale Mode: Large solvent peaks clipped Compound R.T. Response Conc Units --------------------------------------------------------------------------Internal Standards 1) I DIPENTILFTALATO 5.898 43225814 0.491 mg/mL Target Compounds 2) COCAINA 6.151 51939445 0.782 mg/mL --------------------------------------------------------------------------(f)=RT Delta > 1/2 Window (m)=manual int. 2- Quantitation Report Data Path : C:\msdchem\2\DATA\ Data File : CIRO_AMOSTRA2.D Signal(s) : FID1B.CH Acq On : 02 Mar 2010 12:11 ALS Vial : 22 Sample Multiplier: 1 Integration File: autoint1.e Quant Time: Mar 02 16:16:18 2010 Quant Method : C:\msdchem\2\METHODS\QUANTCOCA FID ONU.M Quant Title : QUANT COCA FID 104 QLast Update : Fri Feb 26 10:02:35 2010 Response via : Initial Calibration Integrator: ChemStation 6890 Scale Mode: Large solvent peaks clipped Compound R.T. Response Conc Units --------------------------------------------------------------------------Internal Standards 1) I DIPENTILFTALATO 5.898 42844191 0.491 mg/mL Target Compounds 2) COCAINA 6.151 52031678 0.790 mg/mL --------------------------------------------------------------------------(f)=RT Delta > 1/2 Window (m)=manual int. 3- Quantitation Report Data Path : C:\msdchem\2\DATA\ Data File : CIRO_AMOSTRA3.D Signal(s) : FID1B.CH Acq On : 02 Mar 2010 12:27 ALS Vial : 22 Sample Multiplier: 1 Integration File: autoint1.e Quant Time: Mar 02 16:16:55 2010 Quant Method : C:\msdchem\2\METHODS\QUANTCOCA FID ONU.M Quant Title : QUANT COCA FID QLast Update : Fri Feb 26 10:02:35 2010 Response via : Initial Calibration Integrator: ChemStation 6890 Scale Mode: Large solvent peaks clipped Compound R.T. Response Conc Units --------------------------------------------------------------------------Internal Standards 1) I DIPENTILFTALATO 5.898 40815677 0.491 mg/mL Target Compounds 2) COCAINA 6.151 49833825 0.794 mg/mL --------------------------------------------------------------------------(f)=RT Delta > 1/2 Window (m)=manual int. QUANTCOCA FID ONU.M Tue Mar 02 16:16:55 2010 CHEMSTATION