UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
CARLA MARIA DE OLIVEIRA
OS INTRODUTORES DE PARÁFRASE
EM ENTREVISTAS DA MÍDIA IMPRESSA
NITERÓI/RJ
2011
CARLA MARIA DE OLIVEIRA
OS INTRODUTORES DE PARÁFRASE
EM ENTREVISTAS DA MÍDIA IMPRESSA
Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Letras da Universidade Federal
Fluminense, área de Estudos de Linguagem, como
requisito parcial para obtenção do grau de mestre em
Língua Portuguesa.
Orientadora: Profª Drª Vanda Maria Cardozo de Menezes.
NITERÓI/RJ
2011
Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central do Gragoatá
O48
Oliveira, Carla Maria de
Os introdutores de paráfrase em entrevistas da mídia impressa /
Carla Maria de Oliveira. – 2011.
154 f.
Orientador: Vanda Maria Cardozo de Menezes.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal Fluminense,
Instituto de Letras, 2011.
Bibliografia: f. 94-100.
1. Paráfrase. 2. Persuasão. 3. Veja [Revista]. 4. Isto é [Revista]. 5.
Caros Amigos [Revista]. I. Menezes, Vanda Maria Cardozo. II.
Universidade Federal Fluminense. Instituto de Letras. III. Título.
CDD 808
CARLA MARIA DE OLIVEIRA
OS INTRODUTORES DE PARÁFRASE
EM ENTREVISTAS DA MÍDIA IMPRESSA
Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Letras da Universidade Federal
Fluminense, área de Estudos de Linguagem, como
requisito parcial para obtenção do grau de mestre em
Língua Portuguesa.
Aprovada em:
BANCA EXAMINADORA
______________________________________________________________________
Profª Drª Vanda Maria Cardozo de Menezes - Universidade Federal Fluminense
(Orientadora)
______________________________________________________________________
Profª Drª Rosane Santos Mauro Monnerat - Universidade Federal Fluminense
______________________________________________________________________
Prof. Dr. Wedencley Alves Santana - Universidade Federal de Juiz de Fora
______________________________________________________________________
Profª Drª Patrícia Ferreira Neves Ribeiro - Universidade Federal Fluminense (Suplente)
______________________________________________________________________
Profª Drª Victória Wilson - Universidade do Estado do Rio de janeiro (Suplente)
“Ninguém ignora tudo, ninguém sabe
tudo. Por isso, aprendemos sempre ”.
Paulo Freire
AGRADECIMENTOS
- A Deus que me deu a oportunidade de chegar até aqui.
- À Professora Doutora Vanda Maria Cardoso de Menezes, pelo estímulo diante das
dificuldades, pela dedicação, entusiasmo, profissionalismo, competência, paciência com
que conduziu a orientação deste trabalho e pela amizade que começou desde o primeiro
encontro e que continuará para toda vida.
- Aos Professores Doutores: Wedencley Alves Santana, Rosane Santos Mauro Monnerat
e Patrícia Neves Ribeiro por gentilmente aceitarem fazer parte da banca.
- Ao professor Doutor Carlos Alexandre Gonçalves (UFRJ) pela contribuição e
incentivo para o ingresso no curso de mestrado.
- A todos os professores e colegas com quem estudei durante o período de mestrado, em
especial, à Marcela Maini por todo o apoio e ensinamento.
- À amiga Ana Machado, pela boa vontade em fazer o abstract desta dissertação e por
tudo em que me auxiliou.
- Aos funcionários da biblioteca e da secretaria da Pós Graduação em Letras da UFF,
pela atenção e disposição em ajudar.
- A Edson de Carvalho Guimarães pelo companheirismo e compreensão durante a
pesquisa.
- Aos meus pais, minhas irmãs, meus sobrinhos, pelo carinho e por terem sido os
motivadores de minhas conquistas.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.................................................................................................... 10
HIPÓTESES E OBJETIVOS............................................................................. 13
I. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS....................................................................... 15
1.1. Linguística Textual................................................................................. 15
1.1.1 Breve histórico................................................................................. 15
1.1.2 Textualidade e critérios ................................................................... 16
1.2. Referenciação e Paráfrase........................................................................ 18
1.2.1 Referência/referenciação e progressão referencial............................ 18
1.2.2 Sequenciação textual e progressão sequencial.................................. 23
1.2.3 Estudos da paráfrase.......................................................................... 24
1.2.3.1 Alguns conceitos de paráfrase........................................................ 25
1.2.3.2 Estratégias de reformulação textual- correção, repetição e
paráfrase..................................................................................................... 26
1.2.3.3 Paráfrase – tipologia. As expressões introdutoras. ....................... 28
1.3. Gêneros textuais...................................................................................... 37
1.3.1 Gêneros textuais: trajetória de estudos.............................................. 37
1.3.2 Contribuições de Bakhtin, Maingueneau e Marcuschi...................... 39
1.3.3 A entrevista........................................................................................ 43
1.3.4 A entrevista jornalística..................................................................... 44
1.4. Persuasão e Argumentação.................................................................... 49
1.4.1 Persuasão e argumentação: interrelacionamentos............................. 49
1.4.2 Modo de organização do discurso argumentativo............................. 54
II. CARACTERIZAÇÃO E TRATAMENTO DO CORPUS.......................... 56
2.1 Um pouco da história das três revistas.................................................. 56
2.2 A história das revistas semanais............................................................. 58
2.3 O jornalismo de revista e os diferenciais............................................... 59
III. ANÁLISE ...................................................................................................... 62
3.1 As escolhas das expressões introdutoras................................................ 62
3.2 Resumo da análise.................................................................................... 63
3.2.1 Ou seja............................................................................................... 63
3.2.2 Quer dizer......................................................................................... 70
3.2.3 Isto é.................................................................................................. 77
3.2.4 Em outras palavras........................................................................... 79
3.2.5 Em resumo......................................................................................... 81
3.2.6 Em síntese......................................................................................... 82
3.3 Análise dos gráficos................................................................................. 83
IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................... 91
V. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................... 94
ANEXOS..................................................................................................... .101
LISTA DE GRÁFICOS
GRÁFICO 1- Os introdutores nas entrevistas.................................................. 84
GRÁFICO 2- Os introdutores por entrevistados............................................. 85
GRÁFICO 3- A distribuição dos introdutores em fracos e fortes................... 86
GRÁFICO 4- Os introdutores e as paráfrases adjacentes e não adjacentes.. 87
GRÁFICO 5- Os introdutores e os aspectos operacionais das paráfrases...... 88
GRÁFICO 6- Os introdutores e o grau de equivalência da paráfrase............ 88
GRÁFICO 7- Os introdutores e os aspectos semânticos da paráfrase............ 89
GRÁFICO 8- Os introdutores por tema da entrevista..................................... 90
RESUMO
A presente dissertação faz um levantamento dos elementos introdutores de paráfrase em
entrevistas das revistas Veja, Isto é e Caros Amigos, com o objetivo de ampliar o estudo
da paráfrase, de mostrar a pertinência de essa estratégia discursiva ser analisada como
estratégia, com função de persuasão, podendo ainda apresentar outras funções,
derivadas ou complementares, que, dependendo do contexto, podem se manifestar de
modo mais ou menos explícito. As paráfrases recategorizam o objeto de discurso e
promovem progressão referencial ao construir um texto mais argumentativo ou
persuasivo. Esses dados serão vistos a partir de pressupostos teóricos da Línguística
Textual, com estudos sobre referenciação, paráfrase, gêneros textuais, em especial
gênero entrevista jornalística, seguidos de alguns estudos sobre persuasão e
argumentação.
Palavras-chave: Referenciação - Paráfrase - Persuasão.
ABSTRACT
This dissertation makes an inventory of the introducers of paraphrase in interviews of
the magazines Veja, Isto é and Caros Amigos with the aim of increase the study of
paraphrase and show the relevance of this discursive strategy be analized as a strategy
with function of persuasion, that may also have other functions, derivatives, or
complementary, that depending on the context, can be express more or less explicit.
The paraphrases re-categorize the object of discourse and it is promoter referential
progression to construct a more argumentative or persuasive text. These data will be
seen from theoretical principles of textual linguistics, with studies on referencing,
paraphrase, textual genre, in particular, journalistic interviews genre, followed by some
studies on persuasion and argumentation.
Keywords: Referencing - Paraphrase - Persuasion.
10
INTRODUÇÃO
Este trabalho propõe pesquisar o uso de expressões introdutoras de paráfrases que
podem ser observadas em certo tipo de entrevistas da imprensa. A partir da seleção do corpus,
será feita a identificação dos itens e posterior análise de sua funç ão referencial em contextos
do gênero textual entrevista jornalística impressa.
A abordagem teórica consistirá de pressupostos da Linguística Textual, com enfoque
nos conceitos de referenciação, paráfrase, gênero textual, progressão e sequenciação textual,
atividades formulativas e reformulativas, e de outras abordagens discursivas que se conciliam
na Linguística Textual (CASTILHO, 2009; BAKTHIN, 2003; CHARAUDEAU, 2007, 2008).
Esta pesquisa justifica-se por observar o uso de expressões introdutoras de paráfrases
no gênero entrevista, a partir de uma abordagem teórica que adota uma concepção
interacional (dialógica) da língua.
Dessa forma, com o trabalho, tem-se a pretensão de contribuir, de modo geral, para a
divulgação dos estudos na área da Linguística Te xtual e, de modo particular, para a
abordagem da referenciação, que inclui os processos de sequenciação e de reformulação por
paráfrase, bem como contribuir com os estudos mais recentes sobre gêneros textuais, ao
observar os introdutores de paráfrase em entrevistas jornalísticas, sob a ótica da persuasão.
Pretende-se também complementar a análise da referencialidade das paráfrases com
observações obtidas através de uma análise quantitativa (contagem/distribuição dos
introdutores de paráfrases), para verificar se determinado entrevistado, costuma ou prefere
usar um determinado introdutor e se determinado introdutor inicia paráfrases com grau maior
de argumentatividade, de persuasão.
Os processos de reformulação podem ser considerados uma forma de persuadir, de
convencer o leitor. São eles especificados por vários autores como estratégias de explicação e
de argumentação.
Koch e Elias (2009) consideram que em cada apresentação das expressões linguísticas
introdutoras de paráfrases: ou seja, quer dizer, isto é, em outras palavras, em resumo, em
síntese, o enunciado sofre alguma alteração semântico-discursiva, que pode consistir, muitas
vezes, em ajustamento, reformulação, desenvolvimento, síntese ou precisão maior do
conteúdo apresentado.
11
Foram escolhidas, para a constituição do corpus, entrevistas publicadas pelas revistas
Veja e Isto é, por serem grandes veículos semanais de informação, formadores de opinião,
além de entrevistas da revista mensal Caros Amigos.
Veja e Isto é apresentam um resumo das principais notícias da semana, em todas as
áreas, de forma organizada em seções e subseções, além de entrevistas. Praticam o jornalismo
interpretativo, que tenta tirar de cada fato sua ligação com os demais, procuram atingir o leitor
padrão, com um estilo de redação impessoal. Já Caros Amigos, por ser uma revista alternativa
mensal de informação, com reportagens, artigos e temas interessantes, tem uma linguagem
bem trabalhada, que sai do padrão das grandes empresas jornalísticas. Caros Amigos não tem
editorias de política, economia, cultura, cidades, esportes ou cotidiano, pauteiros, hierarquias
administrativas, conselho editorial, manual de redação, o que se tornou uma espécie de padrão
e convenção em termos de estrutura e cotidiano na imprensa em geral.
Quanto à orga nização, o presente trabalho apresenta, além da introdução, seguida das
hipóteses e objetivos levantados, três capítulos que compreendem respectivamente: os
pressupostos teóricos, a caracterização e o tratamento do corpus, a análise. Por último, são
apresentadas as considerações finais e as referências bibliográficas.
No primeiro capítulo, encontra-se a fundamentação teórica, baseada na Linguística
Textual, nos critérios de textualidade de: Beaugrande e Dressler (1997), Marcuschi (2008); na
referenciação, na progressão referencial, na sequenciação e na progressão textual de Koch
(2000), (2002), (2004), (2008), de Koch e Elias (2009), de Mondada e Dubois (2003), bem
como na abordagem da paráfrase, segundo Hilgert (1989), (1993), Garcia (2006), Castilho
(2009); nos gêneros textuais e na trajetória de estudos em Palma (2006), e nas contribuições
de: Bakhtin (2003), Maingueneau (2004) e Marcuschi (2008); em especial, será dado um
enfoque ao gênero entrevista jornalística, baseado em: Medina (1986), Gavazzi (1998),
Charaudeau (2007), Fávero (2000), Marcuschi (2008); além de serem abordados conceitos de
persuasão e argumentação de Citelli (2001), de Abreu (2005), de Charaudeau (2007), (2008).
A revisão dos fatores da textualidade propostos por Beaugrande e Dressler (1997) é
ponto de partida para o entendimento de que, no texto, encontram-se conjugados fatores
linguísticos, discursivos, pragmáticos e cognitivos. Dessa maneira, o estudo da estratégia
textual da paráfrase não pode deixar de levar em conta todos esses fatores, mesmo que, como
é o caso desta dissertação, mantenha o foco nos elementos introdutores, responsáveis mais
diretamente pela coesão.
12
Em seguida, passa-se ao estudo da referenciação, a partir da ideia de que a paráfrase
não é uma simples correção do que foi antes mencionado, no sentido tradicional de correção
como espécie de aposição para apenas “retificar” mantendo o sentido do enunciado anterior,
mas, em geral, ela é uma atividade de referenciação com recategorização, atuando, portanto,
na progressão referencial.
São retomados estudos já realizados sobre paráfrase, para que se possam reunir
subsídios para análise dos elementos introdutores de paráfrase do corpus constituído para esse
fim.
As entrevistas que constituem o corpus exemplificam o gênero textual entrevistas
jornalísticas. A noção de gênero textual ou discursivo, ao multiplicar e explicar a
multifuncionalidade dos fenômenos tradicionalmente estudados pela semântica e pela
estilística vem renovando os estudos propostos pela Linguística Textual e é, por isso, também
incluída dentre os pressupostos teóricos deste trabalho.
Em Citelli (2001) e Abreu (2005) foram vistos conceitos de Persuasão e argumentação
que são os estudos por último apresentados, com o objetivo de identificar nas paráfrases, em
que medida elas se justificam como atividades de referenciação. Além de estudar o modo de
organização do discurso argumentativo, segundo Charaudeau, que também contribuiu para o
entendimento dessas duas funções: persuadir e argumentar.
No segundo capítulo será exposta a caracterização e tratamento do corpus utilizados
na análise dos dados, bem como um pouco da história das revistas semanais, das revistas
analisadas, do jornalismo de revista e de seus diferenciais.
No terceiro capítulo, baseando-se em aspectos apresentados na fundamentação teórica
e na interpretação de dados quantitativos, levantados segundo classificações propostas por
Hilgert (1989; 1993), serão analisadas as ocorrências de expressões introdutoras de paráfrase,
em contextos de 13 entrevistas jornalísticas, apresentando-se as escolhas das expressões
introdutoras, o resumo da análise e a análise dos gráficos.
13
HIPÓTESES E OBJETIVOS
As seguintes hipóteses pautaram a pesquisa:
1. Muitas paráfrases podem ser relacionadas à construção de enunciados mais
persuasivo s, o que pode se dar de modo mais ou menos explícito.
2. A escolha dos elementos introdutores de paráfrases pode estar relacionada a
estratégias de persuasão e não a uma introdução neutra do enunciado.
3. A observação de diferentes introdutores de paráfrases pode ser importante para
a identificação dos vários tipos de paráfrase, com diferentes graus de
persuasão, de argumentação.
4. Alguns introdutores de paráfrases podem ter mais de uma função, a depender
do contexto.
5. As paráfrases podem recategorizar o (s) objeto(s) de discurso e promover
progressão referencial no sentido de construírem um texto mais argumentativo
ou persuasivo.
A partir das hipóteses elaboradas, foram traçados os principais objetivos:
1. Ampliar o estudo da paráfrase, considerando sua ocorrência bastante frequente
no gênero entrevista.
2. Fazer levantamento de itens e expressões lexicais que funcionam como
introdutores de paráfrases nas entrevistas do corpus analisado, para verificar o
papel do introdutor na construção da argumentatividade, no contexto da
paráfrase.
3. Estudar o gênero entrevista, analisando a paráfrase como uma das estratégias
de persuasão, utilizadas pelo entrevistado.
4. Observar se o entrevistado costuma ou prefere usar um determinado introdutor
considerando o estilo individual.
14
5. Mostrar que em muitos contextos não se pode garantir o grau de
argumentatividade na interpretação da paráfrase.
6. Contribuir significativamente com os estudos na área de Linguística Textual,
em especial, com o estudo das reformulações por paráfrases.
15
I. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Essa parte da dissertação destina-se à abordagem dos pressupostos teóricos do
trabalho, que serão apresentados nos seguintes subitens: Linguística Textual- breve histórico,
Textualidade e critérios; Referenciação e Paráfrase- Referência/referenciação e progressão
referencial, Sequenciação textual e progressão sequencial; Estudos da paráfrase- Alguns
conceitos sobre paráfrase, Estratégias de reformulação textual - a correção, a repetição e a
paráfrase, Paráfrase- tipologia. As expressões introdutoras; Gêneros textuais e trajetórias de
estudos, Contribuições de Bakhtin, Maingueneau e Marcuschi; A entrevista , A entrevista
jornalística; Persuasão e Argumentação: interrelacionamentos, Modo de organização do
discurso argumentativo.
1.1 Linguística Textual
1.1.1 Breve histórico
Fávero e Koch (1998) consideram que a Linguística Textual surgida na década 1960,
na Europa, constitui um novo ramo da Linguística, que passou a ter como objeto de
investigação não mais a palavra ou a frase, mas o texto, por ser uma unidade básica de
representação da linguagem. A partir dessa época, tal mudança começou a ser abordada por
vários autores como Hartung, Isenberg, Heidolph, Dressler, Van Dijk, entre outros.
É importante frisar que, devido à variedade de definições de texto na Linguística
Textual, as denominações dadas à disciplina pelos autores são bem diversificadas. Além de
análise transfrástica e gramática do texto, outras designações podem ser encontradas, tais
como, Teoria do Texto e Teoria da Estrutura do Texto.
A história da Linguística não teve um desenvolvimento homogêneo, mas três
momentos são fundamentais para fazerem uma distinção de ordem tipológica e não
cronológica, da passagem da teoria da frase à teoria do texto. O primeiro momento é
apresentado como a análise transfrástica, em que é feita uma análise das regularidades que
ultrapassam os limites dos enunciados; o segundo é caracterizado pela construção das
16
gramáticas textuais; o terceiro, pela construção das teorias do texto. Sobre a divisão desses
momentos, as autoras abaixo explicam que:
No primeiro momento, a pesquisa circunscreve-se, ainda, a enunciados ou
sequências de enunciados, partindo, pois, destes em direção ao texto,
definido por Isenberg (1970) como “sequência coerente de enunciados”. Seu
principal objetivo é o de estudar os tipos de relação entre os enunciados.
Entre essas relações, ocupam primeiro plano as relações referenciais, em
particular a correferência, que é considerada como um dos principais fatores
de coesão textual. [...] No segundo momento, a gramática textual surgiu com
a finalidade de refletir sobre fenômenos linguísticos inexplicáveis por meio
de uma gramática do enunciado. [...] No terceiro momento, adquire
particular importância o tratamento dos textos no seu contexto pragmático: o
âmbito da investigação se estende do texto ao contexto, entendida em geral,
como conjunto de condições – externas ao texto - da produção, da recepção e
da interpretação do texto. (FÁVERO e KOCH, 1998, p. 13-15)
Portanto, na primeira fase dos estudos sobre textos, há uma preocupação entre relações
de frases e períodos. Na segunda fase são elaboradas gramáticas textuais, o texto vai além de
uma sequência de enunciados, e a sua compreensão e a sua produção derivam de uma
competência específica do falante, que é a competência textual. Na terceira fase, o texto não é
considerado como uma estrutura acabada, mas está em processo de elaboração, como parte de
atividades mais abrangentes de comunicação.
1.1.2 Textualidade e critérios
Sobre os estudos do texto, Marcuschi (2008) considera que a textualidade, não é uma
característica proveniente de determinado artefato linguístico e sustenta três aspectos desta
posição:
Primeiro: um texto não é um artefato, um produto, mas é um evento (uma
espécie de acontecimento) e sua experiência depende de que alguém o
processe em algum contexto. É um fato discursivo e não um fato do sistema
da língua, o que acontece na atividade enunciativa e não como uma relação
de signos. Segundo: um texto não se define por propriedades imanentes
necessárias e suficientes, mas por situar-se num contexto sociointerativo e
por satisfazer um conjunto de condições que conduz cognitivamente à
produção de sentidos. Terceiro: a sequência de elementos linguísticos será
um texto na medida em que consiga oferecer acesso interpretativo a um
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indivíduo que tenha uma experiência sociocomunicativa relevante para a
compreensão. (MARCUSCHI, 2008, p. 89)
Segundo Beaugrande e Dressler (1997, p. 35-47) são sete os critérios de textualidade:
coerência,
intencionalidade,
aceitabilidade,
informatividade,
situacionalidade,
intertextualidade e coesão. Nesta pesquisa, será focalizado de modo especial, um desses
critérios, o da coesão, devido à necessidade de um “recorte” teórico-metodológico, pois na
construção dos textos, todos os fatores atuam em concomitância. Dessa forma, serão expostos,
brevemente os conceitos de cada critério de textualidade, conforme a seguir:
Para Beaugrande e Dressler (op. cit.) a coerência está relacionada ao modo como os
componentes do universo textual, ou seja, os conceitos e as relações subjacentes ao texto são
reciprocamente acessíveis e relevantes entre si, numa unidade veiculadora de sentidos. Na
verdade, a coerência é de modo especial, uma relação de sentido que se revela entre os
enunciados, de maneira mais abrangente e não localizada. As relações de sentido se
estabelecem na sequência de dois enunciados, um deles atuando como causa, o outro como
consequência ou um exp licado como função do outro.
Já a intencionalidade trabalha com a intenção do produtor do texto, com a pretensão
do autor, o que é muito importante ser levada em consideração. Baseando-se nesse critério,
normalmente um enunciado, um ato de fala, um texto são produzidos com uma finalidade que
deve ser apreendida pelo leitor. Por outro lado, a aceitabilidade tem a ver com a atitude do
receptor do texto e está relacionada com as pretensões do próprio autor, que indica ao leitor
escolhas estilísticas ou gramaticais que buscam determinados efeitos.
Outro critério de textualidade é a informatividade, é essencial considerar o que em um
texto deve se diferenciar entre o que ele quer transmitir e o que é possível retirar dele, e o que
não é pretendido. Ser capaz de sanar as dúvidas. Tem-se também a situacionalidade, que se
refere à relação do evento textual à situação (social, cultural) em que ele ocorre e se difere da
noção de contexto, que representa um dos aspectos centrais na construção da situacionalidade.
Deve-se considerar ainda, nos critérios de textualidade, a intertextualidade, em que há
relações entre um dado texto e outros textos relevantes e supõe a presença de um texto em
outro, por exemplo, por citação, por alusão, etc. Também é um fator importante para o
estabelecimento dos tipos e gêneros do discurso, na medida em que os relaciona e os
diferencia.
18
E por último, o critério de coesão. Na definição de Halliday e Hasan (1976 apud
KOCH, 2004, p. 16) “coesão textual é uma forma semântica que se refere às relações de
sentido existentes no interior do texto e que o definem como um texto”. Para esses autores, a
coesão ocorre quando a interpretação de algum elemento no discurso é dependente de outro,
um pressupõe o outro.
Alguns exemplos podem ser citados como principais mecanismos de coesão:
referência (pessoal, demonstrativa, comparativa); substituição (nominal, verbal e frasal);
elipse (nominal, verbal e frasal); conjunção (aditiva, adversativa, causal, temporal,
continuativa), coesão lexical (repetição, sinonímia, hiperonímia, uso de nomes genéricos,
colocação).
Para Marcuschi (2008) os setes critérios de textualidade não devem ser transformados
em regras na constituição do texto, com sendo adequados e eficientes, como princípios de boa
formação textual, como leis linguísticas, pois na ausência de um ou mais, não impedem que se
tenha um texto.
No próximo item será tratado o fator de coesão, no âmbito da questão da
referência/referenciação e da progressão referencial.
1.2. Referenciação e Paráfrase
1.2.1 Referência/ referenciação e progressão referencial
O termo “referência” tradicionalmente indica a relação entre uma expressão linguística
e algo que ela seleciona no mundo real. Nessa visão, a língua funciona como um sistema de
etiquetas prontas para serem coladas às coisas, em equivalência aos objetos do mundo real,
que seriam os referentes. No entanto, a noção de referência atualmente proposta pressupõe
que a considere como um processo realizado no discurso e que os referentes sejam tratados
como objetos-de-discurso, que são apresentados e construídos no interior do discurso, sendo
encenada por sujeitos sociais de maneira interativa, que contribuem para a produção de
sentido. A partir da nova visão começou-se a usar o termo referenciação.
Dessa maneira, a referência não é vista como uma mera representação dos referentes
no mundo, uma realidade construída somente pela forma como nomeamos o mundo, mas pela
19
forma como interagimos com ele sociocognitivamente. A referência é considerada o resultado
da operação realizada, quando para representar algo, é usado um termo ou é criada uma
situação discursiva com essa finalidade: as entidades são vistas como objetos-de-discurso e
não como objetos-do-mundo.
Mondada e Dubois (2003) passaram a utilizar o termo referenciação no lugar de
referência, com o objetivo de tratarem a referência como um processo realizado no discurso,
no momento em que o sujeito constrói discursivamente os referentes ou “objetos” a que faz
referência. Dessa forma, por pertencerem ao âmbito discursivo, as categorias e objetos do
discurso trazem a instabilidade devido às suas transformações, variações que acontecem no
discurso de maneira dinâmica, flexível.
O quadro teórico adotado nos processos de referenciação é de vertente sócio-cognitiva
e interativa e implica a noção de atividade discursiva, a partir das seguintes definições de
linguagem, língua e texto:
[...] a linguagem é uma atividade sócio interativa situada e não um
instrumento especular de representação da realidade, em que se prevê uma
relação estável entre palavras e coisas; a língua é vista como um sistema
comunicativo dinâmico, variável, uma atividade interativa em que o aspecto
formal se integra ao funcional, a noção de língua que não se esgota no
código, não é um simples sistema de transmissão de informação; o texto é
dimensionado como um sistema de construção sócio-cognitiva ou um lugar
de explicitação da experiência humana , um evento discursivo que envolve
ações linguísticas, cognitivas, sociais, e psicológicas, no qual o tópico
discursivo (aquilo sobre o qual estamos falando) não é um dado prévio, mas
uma construção interativamente negociada. (KOCH e MARCUSCHI, 1998,
p. 172-173)
Nos estudos semânticos-discursivos, duas tendências podem ser citadas quanto ao
tratamento e à concepção da referência: a perspectiva lógico-semântica e a perspectiva
sociocognitiva interacionista.
Na perspectiva lógico-semântica, a referência é apresentada como uma forma de
representação extensional (dêitica, apontadora) da realidade objetiva do mundo. Nessa
abordagem, o referente é tratado como uma entidade estável, um objeto do mundo
extralinguístico que tem representação no cotexto. Há uma concepção objetiva e realista da
linguagem, que é vista de maneira transparente.
20
Na perspectiva sociocognitiva interacio nista, a linguagem é tratada como uma
atividade interativa e sociocognitiva, em que a referência passa a ser considerada a base na
significação e o referente é denominado objeto de discurso, ambos pertencem ao campo
discursivo. Nessa concepção, a interação, a cultura, a experiência e os aspectos situacionais
colaboram na determinação da referência.
A referência é tida como uma entidade discursiva - a base da significação, que se apóia
em diferentes domínios, segundo Marcuschi (2000): o ideacional (informativo e de base
léxico-semântica), o discursivo (de base co(n)textual), o interacional (interpessoal, de base
interativa e cognitiva) e o situacional (de base pragmática).
A significação da referência não é dada como pronta, ao contrário, ela é passível de
sofrer mudanças. Dito de outra maneira, a significação não pode ser isolada, ela se desenvolve
na estrutura argumentativa do texto, permitindo a produção de sentido e a construção do
referente.
Nas operações de referenciação, os interlocutores elaboram objetos de discurso,
entidades que são idealizadas como expressões referenciais em relação com os objetos de
mundo e com sua apresentação cognitiva. A referenciação indica o processo de fazer
referência, sendo uma concepção, uma abordagem dinâmica da referênc ia, que não está
pronta, é construída no discurso.
Baseando-se em Koch (2008) parte-se do pressuposto de que a referenciação constitui
uma atividade discursiva, o que implica uma visão, não referencial, não objetivista da língua e
da linguagem, a língua não aponta diretamente a realidade, mas são os falantes que constroem
os referentes a partir de categorizações, posição já defendida por Mondada e Dubois, para
quem há uma instabilidade discursiva entre palavras e coisas.
As categorias e objetos de discurso pelos quais os sujeitos compreendem o mundo não
são preexistentes, nem dados, mas se elaboram no curso de suas atividades, transformando-se
a partir dos contextos. Para Mondada e Dubois (2003, p. 17) “Neste caso as categorias e os
objetos de discurso são marcados por uma instabilidade constitutiva observável através de
operações cognitivas ancoradas nas práticas, nas atividades verbais e não- verbais, nas
negociações dentro da interação.”
Portanto em uma concepção sociointerativa, a atividade referencial não implica uma
estabilidade a priori das entidades do mundo e da língua; porém se processa por meio da
construção de objetos de discurso, que não estão disponíveis com uma categoria pronta para
21
ser utilizada, mas a partir de categorizações sociais, cognitivas e contextuais. Em outras
palavras, a referenciação é construída de maneira colaborativa a partir das práticas sociais; os
objetos de discurso podem sofrer mudanças no contexto, na intersubjetividade, o que os faz
evoluir na progressão textual, quando são apresentados novos atributos e categorizações.
Dessa forma, as categorias e objetos de discurso não podem ser tratados como
elementos invariáveis, mas como fenômenos construídos no discurso; bem como o léxico, não
pode ser considerado como etiquetas disponíveis, para dar nome às coisas existentes no
mundo, mas as palavras adquirem sentido no discurso, em um processo de elaboração e
reelaboração.
Ao se trabalhar com referenciação, é importante tomar conhecimento de que os
sentidos não estão no texto e no leitor, mas são provenientes de um efeito de relações entre
eles, por meio de uma atividade inferencial e colaborativa. A inferência é uma atividade
cognitiva, uma leitura de implícitos.
O referente não nasce pronto, vai sendo construído, não é uma categoria pronta,
completa. O referente evolui no discurso, com uma instabilidade que é constitutiva da língua.
Dito de outro modo, os objetos do discurso estão em processo de mudança, quando são
introduzidos no texto, vão sendo modificados, ativados, desativados,
reativados,
transformados, recategorizados, a fim de construir ou reconstruir o sentido na progressão
textual.
A referenciação representa, assim, no texto, as diferentes formas de introdução de
novas entidades ou referentes. Quando esses referentes são retomados ou propiciam a
introdução de novos referentes, acontece a progressão referencial. Os estudos da referenciação
incluem o da progressão referencial, pois consideram a construção e reconstrução de objetos
de discurso. Portanto para (KOCH e ELIAS, 2009a), a atividade de escrita como de fala,
pressupõe em seu desenvolvimento que a referência seja feita constantemente, ou seja, que
haja referência a algo, alguém, fatos, eventos, sentimentos; mantenhamos em foco os
referentes introduzidos por meio de operação de retomada; desfocalizemos referentes
introduzidos e os deixemos em stand by, para que outros sejam introduzidos no discurso.
Na construção e progressão do texto, estão envolvidos os seguintes princípios de
referenciação: ativação é quando um referente que ainda não foi mencionado é introduzido no
fluxo discursivo; reativação é quando um referente já introduzido é ativado novamente por
meio de uma forma referencial passando a ficar em foco; deativação, outro referente é
22
introduzido, deslocando o referente que estava em foco anteriormente, mas que pode ser
reativado a qualquer momento.
Para Mondada e Dubois (2003) quando a introdução do objeto é feita por um no me
próprio, acontece apenas a nomeação do objeto. No entanto, caso seja feita por uma expressão
nominal, ocorre uma primeira categorização do objeto de discurso, o qual, a cada retomada,
pode ser mantido como tal ou, então recategorizado por outras expressões nominais.
Koch e Marcuschi (1998) estabelecem diferenças entre categorias como referir,
remeter e retomar. Apesar de às vezes serem tomadas como idênticas, trata-se de estabelecer
as distinções entre os três termos. “No entanto, a retomada implica remissão e referenciação; a
remissão implica referenciação e não necessariamente retomada; a referenciação não implica
remissão pontualizada nem retomada.” (ibid., p. 84).
Em suma, referir é uma atividade discursiva, realizável por meio da língua, em que os
referentes são tratados como objetos de discurso; há continuidade referencial com
correferenc iação, ocorre uma identidade do objeto de discurso e com cossignificação, em que
há identidade de sentidos. Já remeter é uma atividade que está associada à relação semântica,
cognitiva, pragmática no co(n)texto, mas não necessariamente constitui retomada,
correferenciação e cossignificação. A remissão pode trazer informações novas, gerando
recategorização ou ativação de novos referentes. Já retomar é uma atividade que subentende
continuidade referencial, pode gerar (re)categorização ou ativação de referentes novos, “numa
relação
de
identidade
(implicando
correferenciação
e
cossignificação,
operando
simultaneamente com a atividade de referir) ou de não identidade (implicando algum tipo de
associação, [...] como de sinonímia, paráfrase, hiperonímia, [...]”. (RONCARATI, 2010, p.
53-54)
Portanto, na correferenciação, há uma remissão com retomada do referente que foi
previamente introduzido, através, por exemplo, da repetição. Na cossignificação, ocorre uma
relação de identidade, tanto no que diz respeito ao léxico ou à semântica entre os elementos
linguísticos, constituída através de relações de anáforas e catáforas. Na recategorização
encontra-se estabelecida em tipo de remissão a um antecedente co(n)textual, podendo ser
representada por um item lexical, como um contexto que funciona em um espaço
informacional (cognitivo) para a inferenciação. Esse tipo de remissão pode ou não, abarcar
um tipo de retomada implícita parcial, total ou similar.
23
Neves da Silva (2007, p. 53) acrescenta um quarto elemento às categorias referir,
remeter e retomar: “aludir é uma atividade que requer um tipo de associação ou extensão
referencial, não apresenta antecedente cotextual, ativa um objeto de discurso com sentido
implícito”. Esse acréscimo, com a categoria apresentada por aludir pode contribuir para uma
melhor compreensão de um tipo especial de anáfora, denominada indireta ou associativa.
Como no seguinte exemplo : “O Japão cresceu muito nas últimas décadas. Eles trabalham
muito”. Nesse caso, indiretamente, o pronome “eles” faz alusão ao país “Japão” e por meio
dessa âncora constrói o objeto de discurso “os japoneses”.
São várias as estratégias de progressão referencial, porém, serão apenas citadas nesta
pesquisa, dentre elas: uso de expressões nominais definidas, uso de expressões nominais
indefinidas, uso de pronomes ou elipses (pronome nulo), anáforas.
Segundo Koch (2002) as expressões nominais ou referenciais podem se apresentar das
seguintes formas: determinante e nome; determinante, nome e modificadores; sendo os
determinantes, o artigo definido, demonstrativo e as elipses; os modificadores são
representados pelo adjetivo, sintagma preposicional e oração relativa.
Para a autora (ibid.) a função das expressões referenciais não é apenas referir. Devido
às suas inúmeras funções, colaboram para a construção do sentido, sinalizando pontos de
vista, direções argumentativas, indicando dificuldades de acesso ao referente, além de
recategorizar os objetos presentes na memória discursiva.
O próximo item tratará da questão da sequenciação textual, bem como os tipos
progressão sequencial, dentre esses, a reformulação por paráfrase e suas expressões
introdutoras. A adoção da expressão “progressão textual ou sequencial” indica que o foco
estará na coesão textual, isto é, na estruturação textua l, mas sem sair do âmbito da
referenciação. Os termos progressão referencial e sequenciação textual não se excluem,
complementam-se e conjugam-se na atividade de referenciação.
1.2.2 Sequenciação textual e progressão sequencial
A progressão textual ou sequencial pode ocorrer com ou sem elementos recorrentes,
em sequenciação frástica (sem procedimentos de recorrência escrita) e sequenciação
parafrástica (com procedimentos de recorrência).
24
Koch (2004) considera que, na sequenciação parafrástica, a progressão do texto se faz
por procedimentos de recorrência, tais como: recorrência de termos (reiteração de um mesmo
item lexical); recorrência de estruturas por paralelismo sintático (a progressão se faz
utilizando-se as mesmas estruturas sintáticas, preenchidas com itens lexicais diferentes);
recorrência de conteúdos semânticos por paráfrase (um mesmo conteúdo semântico
apresentado de formas estruturais diferentes).
Segundo a autora (ibid.) na sequenciação frástica, a progressão se faz por meio de
sucessivos encadeamentos, assinalados por uma série de marcas linguísticas através das quais
se estabelecem, entre os enunciados que compõem o texto, determinados tipos de relação.
Alguns procedimentos de manutenção temática, isto é, a continuidade de sentidos do texto é
garantida, em grande parte, pelo uso de termos pertencentes a um mesmo campo lexical
(contiguidade semântica).
Portanto, Koch e Elias (2009b) argumentam que a sequenciação pode realizar-se com
ou sem elementos recorrentes (reiteração de formas linguísticas). No primeiro caso,
manifestam-se, na progressão textual, tipos variados de recorrências, entre as quais foram
citadas anteriormente, podem ser destacadas: recorrência de termos, recorrência de
estruturas, recorrência de conteúdos semânticos: a paráfrase. Há ainda a sequenciação sem
recorrências com procedimentos de manutenção temática, progressão temática (modo como se
encadeiam tema (tópico) e rema (comentário)); encadeamento (a interligação dos enunciados
com ou sem elementos explícitos de ligação) e progressão com continuidade tópica, dos temas
desenvolvidos.
No próximo item, será feita uma abordagem mais detalhada sobre a recorrência de
conteúdos semânticos: a paráfrase, que é objeto de estudo deste trabalho.
1.2.3 Estudos da paráfrase
O estudo da paráfrase, neste trabalho, focaliza as expressões introdutoras, a partir da
hipótese de que essas formas linguísticas podem “mascarar” a função referencial, ao darem a
idéia de mera correção. Além disso, a observação dessas expressões introdutoras pode ser
importante para a identificação de vários tipos de paráfrase, do ponto de vista que a
recategorização da paráfrase efetua.
25
1.2.3.1 Alguns conceitos de paráfrase
A observação das paráfrases não é recente, data da retórica clássica, com os estudos
das atividades de reformulação de textos, usada em textos bíblicos. Ou como sinalizam
Beaugrande-Dressler (1997, p. 57-58), a paráfrase “é a recorrência do conteúdo com uma
mudança da expressão”.
O estudo da paráfrase em nossa pesquisa parte das considerações de Fuchs (1982,
p.49-50 apud CASTILHO, 2009), para quem “a paráfrase é a tentativa de transformar o
sentido idêntico em um sentido diferente. Para dizer novamente a mesma coisa, acaba dizendo
outra, em um processo contínuo de modificações negligenciáveis e imperceptíveis”.
Castilho (2009) faz esclarecimentos sobre o termo técnico paráfrase e apresenta pelo
menos dois sentidos para a palavra: o primeiro, no léxico, representa a definição semântica da
palavra no dicionário, e na sintaxe, quando dua s sentenças diferentes são comparadas com a
mesma interpretação semântica; o segundo está relacionado à constituição da própria
linguagem. Por meio da paráfrase, o falante escolhe um enfoque sobre a realidade no que diz
respeito à representação conceptual e o nível da verbalização. Portanto, o paradoxo da
paráfrase consiste em uma repetição de conteúdos, que pelo fato de serem repetidos, se
acrescentam semanticamente e desse modo, mudam.
O autor analisa que a Linguística Textual restaurou o antigo sentido aristotélico da
paráfrase, entendendo-a como a transformação progressiva do sentido idêntico no sentido
diferente. A paráfrase pode ser estudada ainda pelo ângulo conversacional, pelo mecanismo
de manutenção de turno e pelo ângulo textual.
Garcia (2006) assegura que a paráfrase não somente contribui para o aprimoramento
da língua, mas também permite uma reelaboração das frases, uma explicação. Muitos autores
consideram a paráfrase como uma explicação de um texto, de uma expressão ou de outra
palavra, como por exemplo, dos verbetes dos dicionários. Seu uso demonstra a compreensão
do texto original, que pode ser explicado de outra maneira, com outras palavras.
A paráfrase pode ser responsável por retomadas implícitas por meio de procedimentos
lexicais na referenciação, o que pode manter ou não a correferencialidade e a cossignificação,
recategorizando o objeto na memória discursiva.
26
Dentre as maneiras de abordar a paráfrase, uma delas é tratá- la relacionada à ideia de
reformulação textual. Vários autores defendem essa visão.
Para Fávero et al. (1998, p. 5), “a paráfrase é um enunciado que reformula um anterior
e com o qual mantém uma relação de ‘equivalência semântica’”. Esse conceito é defendido
por Hilgert (1993, p. 111), que conceitua a paráfrase como “um enunciado que reformula um
enunciado anterior, mantendo com este, uma relação de equivalência semântica. Em termos
mais simples, a paráfrase retoma, com outras palavras, o sentido de um enunciado anterior, o
que pode dar-se em menor ou em maior grau, com uma equivalência semântica forte ou fraca.
Há, portanto, um enunciado de origem (EO), que representa a matriz (M) e um enunciado
reformulador (ER), sendo considerado a paráfrase (P), que identificam as relações
parafrásticas. Pode ocorrer também a correção, em que o falante, por meio dessa, pode fazer
uma reformulação, o que pode anular, de maneira total ou parcial, a formulação anterior,
acontecendo um contraste semântico. Ainda pode haver a repetição, que segundo o autor
(ibid.) representa um grau máximo de equivalência semântica.
No próximo tópico, será feita uma breve abordagem sobre a interrelação entre os
conceitos de repetição, correção e paráfrase.
1.2.3.2 Estratégias de reformulação textual - correção, repetição e paráfrase
Dentre as estratégias de reformulação textual, podem ser citadas: a correção, a
repetição e a paráfrase, esta última, objeto de estudo da pesquisa em questão, será vista de
forma mais detalhada em outro tópico. Neste momento, será feita uma breve abordagem sobre
a correção e a repetição.
Portanto, todas essas estratégias se identificam por se constituírem de enunciado
reformulador e enunciado de origem. Já as reformulações por paráfrases e por correção,
apresentam diferenças em relação a seu enunciado de origem no que compete a relações
sintáticas e lexicais. No entanto, sobre a correção, Barros (1993, p. 135) considera que a
correção é um procedimento de reelaboração do discurso “que visa a consertar seus ‘erros’. O
‘erro’ deve ser entendido como uma escolha do falante – lexical, sintática, prosódica, de
organização textual ou conversacional – já posta no discurso e que, por razões diversas, ele e/
ou seu interlocutor consideram ‘inadequada’”. Dessa forma, há uma necessidade de os
interlocutores fazerem uma adequação no discurso, de acordo com as suas preferências.
27
Por sua vez, a repetição é um mecanismo de reformulação que se diferencia da
correção e da paráfrase, devido a diferenças sintático- lexicais em relação ao enunciado de
origem, pois na repetição, não ocorre variação na sintaxe e no léxico, entre o enunciado de
origem e o enunciado reformulador.
Hilgert (1989) expõe alguns critérios que diferenciam a paráfrase, a correção e a
repetição entre si. Tal distinção está relacionada à especificação da relação semântica entre o
enunciado reformulado e o enunciado formulador e nos tipos de marcadores utilizados para
sinalizar essa relação. No caso da paráfrase, essa não repete as palavras na mesma ordem
sintática, como ocorre nas repetições. Na correção, há uma relação de contraste semântico,
que pode anular total ou parcialmente a formulação anterior e não de equivalência entre o
enunciado de origem e enunciado reformulador. Já as repetições apresentam funções bem
características da atividade interacional e do texto conversaciona l, sendo considerada uma
repetição, quando há um grau máximo de equivalência semântica da paráfrase com o seu
enunciado de origem. O autor não inclui as quase repetições nas categorias das paráfrases,
pois as considera como repetições com acréscimo, supressões ou variação de termos
acessórios.
Sobre a correção, Hilgert (op. cit., p. 189) considera que podem existir dois tipos:
Na “infirmação”, o enunciado reformulador (a correção) simplesmente
substitui o enunciado de origem (o enunciado corrigido). Aquele enunciado
representa, portanto, uma anulação deste. “Na “retificação” “não há anulação
(da verdade) do corrigido”. Ocorre somente uma correção parcial. Neste
caso, em que pese à correção, a reformulação mantém um caráter
parafrástico, o que o leva a falar em “correções parafraseadas”.
O autor (ibid.) apresenta exemplos dos dois tipos:
Infirmação
EO L1- e não fiz outra: : outras especializações
dentro
MR outras especializações não... (anulação)
outra: : :
ER não segui outras carreiras que o curso de pedagogia daria possibilidade
(I 360, B 137, L: 1577-1580, HILGERT, 1989, p. 187)
28
Retificação
L1- Então eu tenho impressão de que quando o
menor... já estiver assim... pela
EO quarta série...
ER
terceira quarta série... ele já estará mais...
independente
(I 360, B 137, L: 1225-1228, HILGERT, 1989, p. 167)
Devido ao objetivo a que se propõe a dissertação, que é a análise das paráfrases, a
pesquisa não tem como foco o estudo de correção, o que poderá ser um ponto interessante a
ser analisado em outro trabalho.
1.2.3.3 Paráfrase - tipologia. As expressões introdutoras
Wenzel (apud CASTILHO, 2009, p. 76-77) identificou quatro tipos de pares de
paráfrases:
concretizadora/desconcretizadora;
expansiva/sintetizadora;
enfatizadora/
atenuadora; epilinguística. A matriz é representada por M, e a paráfrase por P.
1) A paráfrase concretizadora especifica o tópico conversacional que é apresentado de
modo vago na matriz.
M E mais uma vez tudo está sendo contaminado, a água, o campo e, claro, o povo.
Quer dizer, nós vamos ter câncer em alguns anos. (Caros Amigos, jornalista MarieMonique Robin, abril 2009, p. 38)
Nesse caso, o sintagma o povo foi substituído por um pronome pessoal específico, nós
produzindo um efeito de concretização.
2) A paráfrase desconcretizadora, desfocaliza o tópico da matriz, através de um
quantificador universal. Como no exemplo:
M A primeira vez que eu fui para o Ceará, na casa dos meus avós, vi que não tinha
nem água encanada, nem luz elétrica. P Quer dizer, para quem mora em São Paulo,
isso é um absurdo. (Caros Amigos, jogador Sócrates, número 159, junho 2010)
3) A paráfrase expansiva desenvolve a informação contida na matriz. Por exemplo:
29
M O governo tem mantido o gasto público e até ampliado, P ou seja, o Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC) não foi reduzido por conta da crise, e começou com
uma política habitacional ampla, onde pela primeira vez teremos 400 mil moradias
sendo construídas para atender as pessoas muito pobres. (Caros Amigos, economista
Márcio Pochmam, número 149, agosto 2009, p. 27)
4) A paráfrase sintetizadora tem o intuito de sintetizar, de encerrar um tópico.
Alguns marcadores são utilizados segundo o autor: em suma, para dizer em poucas palavras.
Você vai ao hospital e tem lá o especialista em dedo direito, em dedo esquerdo. M
Tem o advogado especialista em uma área, outro em outra área, P ou seja, a nossa
estrutura educacional é de especialistas. (Caros Amigos, economista Márcio
Pochmam, número 149, agosto 2009, p. 29).
5) A paráfrase enfatizadora utiliza recursos da ênfase, como a entonação, além dos
advérbios intensificadores, como excessivamente e sinônimos amplificadores. Como no
exemplo:
M Eu vi alguns projetos na Caixa Econômica Federal. É de arrepiar o cabelo. P
Quer dizer, São Paulo vai explodir de alguma forma... (Caros Amigos, arquiteta
Armínia Maricato, maio 2010, p. 16)
6) A paráfrase atenuadora utiliza dentre outros recursos, os advérbios delimitadores.
Por exemplo:
M Eu acho que muitos movimentos ficaram banguelas. P Quer dizer, sem capacidade
de transformação, de ofensividade . (Caros Amigos, arquiteta Armínia Maricato, maio
2010, p. 15)
7) A paráfrase epilinguística consiste em refletir e produzir textos sobre a língua,
podendo ser construída para explicitar o sentido de uma palavra, para justificar o uso de uma
palavra e/ou para produzir uma escala sinonímica. Por exemplo:
M Isso é uma coisa que eu gostaria de esclarecer porque ninguém no Brasil sabe o que
é couvert. A palavra francesa vem do italiano coperto, que quer dizer, literalmente,
“cobertura”. (Veja, empresário Rogério Fasano, 6/01/10)
30
Sobre o procedimento de recorrência de paráfrase no texto, Koch e Elias (2009b, p.
154-155) observa m:
Do mesmo modo que na recorrência de termos, a cada reapresentação do
conteúdo, ele sofre alguma alteração, que pode consistir, muitas vezes, em
ajustamento, reformulação, desenvolvimento, síntese ou precisão maior do
conteúdo que está sendo apresentado. Cada língua possui uma série de
expressões linguísticas introdutoras de paráfrases, tais como: isto é, ou seja,
quer dizer, ou melhor, em outras palavras, em síntese, em resumo.
Koch e Elias (op. cit., p. 144-145) identificam paráfrases anafóricas definicionais e
didáticas e as consideram como sendo funções das expressões nominais referenciais, sendo as
definicionais com função de elaborar definições, podendo ser acompanhadas de expressões
características como: um tipo de, uma espécie de, etc. “Neste tipo de anáfora, o definiendum
ou termo técnico a ser definido, ele é introduzido, inicia a oração. Já nas paráfrases anafóricas
didáticas, acontece o inverso, pois o definiens (definição) é que se apresenta na expressão
introdutora”. É importante assinalar que as autoras (ibid.) usam o termo paráfrases
anafóricas, chamando a atenção para a junção de duas estratégias de referenciação, difíceis de
serem identificadas separadamente em certos contextos: a anáfora e a paráfrase. Pois, nessas
duas estratégias pode haver retomada, remissão e recategorização. Abaixo, segue um exemplo
de cada tipo de paráfrase anafórica:
Na entrevista da revista Veja, cujo tema é “A importância de o Supremo Tribunal
Federal liberar as pesquisas com células troncos”, foi observado o seguinte exemplo de
paráfrase anafórica definicional, pois o termo técnico a ser definido - “diferenciação
celular”, é retomado por um nome, antecedido de determinante “o processo”, seguido de sua
especificação, sintaticamente representada por uma oração adjetiva.
A grande barreira para desenvolver tratamentos é que ainda não temos total
conhecimento sobre a diferenciação celular, ou seja, o processo pelo qual uma célula
tronco se transforma em outro tipo de célula. (Veja, pesquisadora Mayana Zatz,
Edição 2050, 5 de março de 2008)
Na revista Caros Amigos foi observado o seguinte exemplo de paráfrase anafórica
didática, cujo tema é “O mercado de trabalho e a desigualdade no Brasil”, em que o definiens
31
(definição) é que se apresenta na expressão introdutora, “Assembléia Geral das Nações
Unidas” e o definiendum ou o termo técnico a ser definido se apresenta posteriormente,
“ONU”.
“Com o encerramento da 2ª guerra, estabelece-se a Assembléia Geral das Nações
Unidas, ou seja, a ONU [...]”. (Caros Amigos, economista Márcio Pochmann, número
149, agosto 2009, p.27)
Hilgert (1993) partindo do princípio de que interlocutores em interação na fala
constroem um texto de maneira cooperativa, se dedica aos estudos dos procedimentos de
construção do texto falado, dentre os quais, é focalizado o parafraseamento, considerado
atividade linguística de reformulação. No processo de produção do diálogo, a intenção
comunicativa não é previamente planejada, o que faz com que o falante não tenha total noção
do que vai dizer, pois normalmente a sua fala, somente vai sendo definida na sequência da
formulação. Dessa maneira, há grande incidência de descontinuidades no curso da
formulação.
Portanto, para se construir um texto falado é necessário desenvolver o planejamento,
na medida em que acontece o processo de formulação. Segundo o autor (ibid.) para se
trabalhar com a análise de textos da língua falada, tem de ser avaliados problemas de
formulação, distribuídos em dois tipos: prospectivos e retrospectivos. No primeiro, o falante
toma conhecimento antes de formulá-la, por meio de hesitações, tais como uma pausa,
alongamento da vogal, repetição do segmento interrompido; no segundo, em que será
processada a paráfrase, o falante só a percebe quando já está formulado no texto.
Hilgert (op. cit., p. 111) conceitua a paráfrase como “um enunciado reformulador (ER)
que reformula um enunciado anterior (EO), mantendo com este uma relação de equivalência
semântica. Em termos mais simples, a paráfrase retoma, com outras palavras, o sentido de um
enunciado anterior”.
O processo de reformulação permite que o falante retome um segmento já formulado,
porém pode revelar uma descontinuidade, pois interrompe o fluxo de formulação que estava
em andamento. Para Hilgert (op. cit., p. 112) “a retomada também representa um problema de
formulação, pois além de o enunciador não encontrar uma alternativa de formulação imediata
e definitiva, a retomada não é gratuita, isto é alguma razão na interação comunicativa a
32
determinou”. Retomar um segmento formulado revela um problema retrospectivo, já que o
falante só percebe o problema e suas dimensões, quando ele está sendo elaborado.
Há outros marcadores de reformulação, porém, no presente trabalho, serão tratados
apenas alguns dos marcadores verbais de paráfrase, tais como: isto é, ou seja, quer dizer, em
outras palavras, em resumo, em síntese.
Segundo Hilgert (1989), há marcadores de reformulação verbais que constituem a
distinção entre relações semânticas de equivalência e de contraste. São marcadores
especializados de equivalência e de contraste. É o caso de quer dizer, em outras palavras, isto
é, para a paráfrase e de não para a correção. Há marcadores de reformulação fortes e fracos.
Em Hilgert (op. cit., p. 197), “são considerados fortes os marcadores verbais com
significação lexical explicitamente reformuladora, aqueles que, por força de sua significação
lexical específica, explicitam a natureza parafrástica do enunciado de que fazem parte”. São
fracos, os marcadores prosódicos (pausas, alongamentos vocálicos de sílabas finais do
enunciado de origem e hesitações na introdução do enunciado reformulador) em geral e os
verbais “não especializados”, isto é, cuja significação lexical não explicita uma determinada
atividade reformuladora. Portanto, será focalizada nesta dissertação, a paráfrase com
marcadores verbais com significação lexical explicitamente reformuladora, e com marcadores
“não especializados”, como explicados anteriormente. Os marcadores prosódicos, no entanto,
não puderam ser considerados dado o corpus desta pesquisa.
Segundo o autor (ibid.), quanto mais evidente for a equivalência ou o contraste
semântico, respectivamente nas relações de paráfrase e de correção, menos será necessário o
uso de marcadores fortes pelo enunciador, para explicitar a equivalência ou o contraste, sendo
maior a incidência de marcadores prosódicos e verbais lexicalmente não exclusivos. No
entanto, será mais necessário o uso de marcadores verbais fortes, quando a relação semântica
é fraca.
A paráfrase, como é conceituada por Hilgert (1993), é uma atividade de reformulação
com equivalência semântica, que se estabelece entre um enunciado de origem e um enunciado
reformulador, responsável por deslocar sentidos que estimulam a progressão do texto. A
noção de “equivalência semântica”, entretanto, já é flexibilizada desde seu primeiro trabalho,
em que Hilgert (1989, p. 320) admite que “há uma relação de equivalência semântica entre
matriz e paráfrase, há uma gradação que vai desde um grau mínimo, quase imperceptível a um
33
grau máximo de equivalência, quase repetição, traduzido na repetição denotativo referencial”.
Ou seja, a equivalência se estabelece com base em traços denotativos e referenciais.
As relações parafrásticas serão vistas, nesta dissertação, sob três ângulos, dentre outros
possíveis (cf. HILGERT, 1993), porém, os analisados contribuem para explicar as suas
funções na construção da progressão textual: o aspecto distribucional, o aspecto operacional e
a semântica destas relações.
Em relação ao aspecto distribucional, as paráfrases podem ser de dois tipos: adjacentes
e não adjacentes. As adjacentes seguem imediatamente a matriz, com uma função local na
construção do texto, resolvendo problemas interacionais, determinados pelo desdobramento
temático argumentativo do texto e pela busca de precisão vocabular dos enunciados; as não
adjacentes se manifestam mais à frente no segmento textual, ou seja, entre elas e a matriz,
inclui-se um segmento mais ou menos longo. Esse último tipo de paráfrase permite um nível
mais abrangente na conversação, na medida em que assegura unidade ao tratamento do tema,
com diferentes etapas de seu desenvolvimento e lhe atribui uma conclusão necessária,
apresentando-se, nesse caso, na forma de resumos. Portanto, a distinção entre esses dois tipos
de paráfrase é importante, por revelar diferentes níveis e correspondentes graus de
complexidade na orga nização do texto conversacional.
Hilgert (1993, p. 117-118) observa que podem ocorrer as seguintes possibilidades de
produção de paráfrase, que equivalem aos seus aspectos operacionais. “Nas autoparáfrases,
o falante parafraseia o seu próprio enunciado, e nas heteroparáfrases, um interlocutor
parafraseia o enunciado produzido pelo outro”.
Para Hilgert é necessário distinguir a produção em si da iniciativa da produção da
paráfrase. Ele, assim, subclassifica esses dois tipos de paráfrase quanto à iniciativa da
produção, que cabe aquele que desencadeia o ato de parafrasear. Tem-se: “a) uma paráfrase
autoiniciada, quando ela é desencadeada por quem a produz. b) uma paráfrase
heteroiniciada, quando ela é desencadeada por um interlocutor e produzida por outro”. (ibid.)
Do corpus selecionamos os exemplos abaixo: o primeiro, de autoparáfrase
autoniciada; o segundo, de autoparáfrase heteroiniciada.
a) Veja- Há dois anos, você criou o Wikia, um buscador para concorrer com o Google.
A empresa faliu. O Google é imbatível? (...) O mercado de buscas on line, do qual o
Google é líder, não possui aquilo que os economistas chamam de externalidade de
34
rede. Em outras palavras, eu posso passar a usar outro buscador sem me preocupar se
os meus amigos farão o mesmo. (Veja, Jimmy Wales, Edição 2143, 16 dez. 2009)
b) Isto é - Por que bebeu tanto líquido?
Chiquinho - Não sei. Não me lembro de beber. Me contaram depois. Por isso não me
sinto culpado. Mas com essa montanha de médicos que tenho (12 profissionais) nunca
poderia ter acontecido comigo o que aconteceu.
Istoé - O que quer dizer com isso? Chiquinho - Eu acho que os culpados foram eles
(médicos) - não sei quem - que me liberaram para voltar para casa logo após a
primeira cirurgia. Talvez eu devesse ter ficado mais tempo em recuperação no
hospital. Muita gente que faz a mesma cirurgia fica uma semana. Mas eu fiquei um dia
apenas. (Isto é, Chiquinho Scarpa, Edição 2072, 29 julho 09).
As ocorrências de autoparáfrases heteroiniciadas, como a do exemplo não foram
incluídas nos dados quantitativos, pois este trabalho tem foco nos introdutores de paráfrase
mais estabilizados e, portanto, nas paráfrases mais prototípicas que são as autoiniciadas. Essas
expressões do tipo “o que quer dizer?” devem, porém, ser objeto de estudo em outros
trabalhos, já que esse uso poderia caracterizar uma expressão desencadeadora de paráfrase,
configurando casos de autoparáfrase heteroiniciada.
Ao estabelecer relações entre os tipos e subtipos, Hilgert apresenta, por exemplo, a
heteroparáfrase autoiniciada, em que o locutor, L2, parafraseia o enunciado (M), de seu
interlocutor (L1) e o faz por sua própria iniciativa.
c) [...] Tem cara que não tem, eu tenho vários parceiros lá dentro que me falam:
“Dexter, queria eu ter a oportunidade que você teve, irmão, que eu também
abandonaria o crime”. [...] Ou seja, é um cara que tá condenado a morrer no crime. O
rap não vai ter como mudar a vida de todo mundo. (Caros Amigos, Dexter, n 162, set.
2010, p. 32)
Já na heteroparáfrase heteroiniciada, a iniciativa do parafraseamento parte do
interlocutor, que reformula seu próprio enunciado. Como não foi encontrada ocorrência desse
35
subtipo no corpus, segue, como exemplo, um segmento conversacional extraído de Hilgert
(1993, p. 119).
d) L1 ...(uma) de nove...e a outra de seis...
M / Doc. A senhora... procurou dar espaço de tempo entre um e Outro...
P / L2 aconteceram ou foram programados
Doc (isso)... faz favor
Além dos aspectos distribucionais e operacionais das paráfrases, é importante ressaltar
a semântica de suas relações. Pois na paráfrase, há uma equivalência semântica, na medida em
que retoma em maior ou menor grau, a dimensão significativa da matriz. Na relação
parafrástica, a matriz (M) é considerada o enunciado de origem e o enunciado reformulador, o
nome específico de paráfrase (P). Quando P é quase uma repetição de M, caracteriza uma
equivalência forte e quando a paráfrase retoma em menor grau, a dimensão significativa da
matriz, portanto, a base significativa comum é menor, configurando uma equivalência
semântica fraca, nesse caso, a equivalência só é perceptível devido ao conhecimento textual
comum aos interlocutores, portanto ocorre uma equivalência referencial e não textual,
explícita no texto.
Hilgert (1989) considera que quando ocorre um grau máximo e um grau mínimo de
equivalência semântica, focos de tensão perpassam a evolução do texto.
No caso de equivalência semântica mínima, a tensão emerge do conflito
entre a falta de equivalência e a “predicação de identidade”. O fato de o
enunciador constituir a relação parafrástica , apesar da ausência de elementos
semânticos que a respaldem, gera tensão textual. (...) No caso da
equivalência semântica máxima, a natureza da tensão gerada é outra. A
tensão surge do conflito entre a equivalência muito forte entre dois
enunciados e a necessidade imperiosa da progressão conversacional. (ibid.,
p. 348-349).
Mas de acordo com Fuchs (1982, p. 29-30 apud HILGERT, 1989, p. 349) “Tudo a que
possa recorrer no sentido linguístico para estabelecer uma identidade de sentido, funciona na
prática discursiva, como um desdobramento de sentido. Há sempre progressão discursiva,
argumentativa, jamais real repetição ou tautologia, ou simples decalque de sentido”.
36
Na paráfrase, os enunciados P (paráfrase) e M (matriz) possuem equivalência
semântica, com movimentos semânticos de passagem da matriz para a paráfrase. São esses
movimentos que possibilitam classificar a relação de equivalência, sendo importantes nas
formulações das paráfrases e nas suas funções.
Para Hilgert (1993), quando, na passagem da matriz para a paráfrase, há um
deslocamento de sentido do geral para o específico, verifica-se uma tendência de a paráfrase,
do ponto de vista sintático- lexical, ser mais expandida do que a matriz, em que acontece a
decomposição semântica. Quando, porém, nessa passage m, o deslocamento de sentido vai do
específico para o geral, nota-se uma condensação sintático- lexical da paráfrase, há uma
recomposição semântica. Portanto, no que se referem à textualização da semântica das
paráfrases, identificam-se respectivamente, paráfrases expansivas e redutoras. Além dos
movimentos semânticos citados, a paráfrase pode ser mantida com a mesma dimensão textual
da matriz, sendo um caso de paráfrase paralela. A paráfrase difere de sua matriz por variação
lexical, ocorrendo uma simetria sintática. Os movimentos semânticos abordados fazem parte
do aspecto formal da paráfrase, com suas propriedades lexicais e sintáticas.
Hilgert (op. cit, p. 124) apresenta uma definição mais detalhada desses conceitos:
1) A condensação parafrástica (paráfrase redutora) revela o movimento
semântico da matriz para a paráfrase, se formula numa unidade lexical e
sintaticamente mais simples, em sentido contrário ao da expansão, isto é a
condensação. Realiza funções de concluir, resumir e denominar. Estes dois
tipos de paráfrases são possíveis devido à abrangência semântica do
enunciado base ou matriz restrita (o enunciado parafrástico será mais
desenvolvido) ou ampla (o enunciado parafrástico será mais condensado); 2)
A expansão parafrástica (paráfrase expansiva) consiste no fato de o
parafraseamento se realizar por meio de enunciado, lexical e sintaticamente
mais complexo do que a matriz. Tem como função explicitar, explicar,
exemplificar, definir e especificar as informações da matriz; 3) Paralelismos
parafrásticos (paráfrases paralelas) são paráfrases que se reformulam na
mesma dimensão léxico-sintática de suas matrizes. Em outras palavras,
durante o parafraseamento, a dimensão estrutural da matriz é pouco alterada,
ocorrendo apenas uma substituição lexical ou variação ou até mesmo
continuar igual, com função de simplesmente variar e ratificar.
Cabe, porém, ressaltar que, as atividades de expansão e de condensação podem
combinar e se completar na composição do tópico.
37
Em resumo, a expansão parafrástica define uma denominação e explicita,
eventualmente exemplifica um resumo (um enunciado sintético), em sentido contrário, a
condensação parafrástica que denomina uma definição e resume uma explicitação.
Portanto, na paráfrase, compreendida como atividade de reformulação, são básicos: a
situação de comunicação e os sujeitos, ou o contexto mais amplo. De um modo mais
específico, no plano formal a paráfrase promove alterações (expansão de itens lexicais e
construções gramaticais, condensação ou uma repetição); no plano semântico (permanece ou
não uma equivalência, podendo deslocar sentidos) e, no plano funcional (abarca várias
funções que a paráfrase pode assumir).
Dessa forma, o parafraseamento, segundo Hilgert (1989) é uma atividade de
constituição textual a que o falante recorre para reformular etapas de sua própria formulação
textual e /ou de seu interlocutor, com o objetivo de promover a compreensão e a progressão
conversacionais. Na realização da atividade comunicativa, a intenção não é anterior à
formulação, é “construída” na e pela formulação, e o planejamento de uma atividade
comunicativa só se completa com a construção do enunciado construída. É a preocupação
simultânea com o “dizer” e com o “quer dizer” que vai deixar evidente no texto falado, uma
série de marcas responsáveis pela caracterização específica de sua formulação, a que recorre
para alcançar o seu objetivo comunicacional.
1.3 Gêneros Textuais
Neste trabalho serão utilizados como corpus, textos do gênero entrevista, o que
justifica uma abordagem sobre os gêneros do discurso ou gêneros textuais.
1.3.1 Gêneros textuais: trajetória de estudos
Nos séculos IV e V a.C., na Grécia, devido às atividades políticas, jurídicas da época,
houve a necessidade de fazer comunicações em público. É neste momento, que os gêneros
começam a ser desenvolvidos e ocorre a tentativa de caracterizá- los, explicá- los e normatizálos inicialmente em dois ramos de atividades socioculturais: na literatura e na oratória.
38
Iniciou-se com Platão, a observação sistemática dos gêneros. Porém o termo “gênero”
na tradição ocidental estava relacionado em especial, aos gêneros literários. Já no período
atual, o gênero se refere a uma categoria do discurso de qualquer tipo, tanto falado ou escrito.
O filósofo Platão em sua obra A República contribui com os estudos teóricos sobre os
gêneros literários, em que busca fundamentá- los e caracterizá- los, tendo como foco sua
representação. Para o filósofo, o poema era visto como uma narrativa de acontecimentos
presentes, passados ou futuros, podendo ser apresentado como mimese, narrativa pura ou
mista. Sobre este momento, Palma (2006, p. 4) observa que “o gênero imitativo ou mimético
engloba a tragédia e a comédia; o gênero narrativo puro do qual faz parte prioritariamente o
ditirambo e o gênero misto que se caracteriza pela epopéia, pela poesia”.
Na Antiguidade Clássica, associado à reflexão teórica de Platão surge Aristóteles, com
a obra Poética, porém apresenta a poesia como mimética ou representativa, em que a mimese
é considerada como a representação de acontecimentos reais ou fictícios. Em Palma (op. cit.,
p. 4) na visão de Aristóteles, são considerados na poesia, “o objeto imitado, ou seja, os seres
humanos em ação que são representados como superiores, iguais ou inferiores ao comum dos
mortais e o modo de imitar, que pode caracterizar-se pelo contar e pelo agir das personagens
por meio da fala”. A partir de então, se tem os gêneros literários: o dramático superior, como
a tragédia, em que são apresentados personagens superiores; e o que põe em cena personagens
inferiores, a comédia; a epopéia ou narrativo superior e a paródia ou narrativa inferior.
Em Marcuschi (2008), Aristóteles é também apresentado como responsável pelo
surgimento da Retórica, com obra em que considera três elementos como respons áveis na
composição do discurso: aquele que fala; aquilo sobre o que se fala e aquele de quem se fala.
Segundo o filósofo, há três tipos de ouvintes: o que atua como espectador voltado para o
presente; o que olha para o futuro e o que se comporta como um juiz e julga as coisas
passadas. A estes três tipos, podem ser associados gêneros do discurso retórico, tais como: o
discurso deliberativo, servia para aconselhar/desaconselhar direcio nado para o futuro; o
discurso judiciário com a função de acusar ou defender, voltado para o passado e o discurso
demonstrativo (epidítico) com o papel de elogiar, censurar, fixado no presente.
O autor considera que os estudos atuais abordam os gêneros na linguística geral, mas
nas perspectivas discursivas e cita algumas perspectivas teóricas, em curso internacionalmente
e seus representantes.
39
A perspectiva sócio-histórica e dialógica com Bakhtin; a comunicativa com
Steger, Gülich, Bergmamm, Berkenkotter; a sistêmico-funcional de análise
da relação de texto e contexto, com Halliday; a sociorretorica de caráter
etnográfico voltada para o ensino da segunda língua com Swales e Bathia; a
interacionista e sóciodiscursiva, de caráter psicolinguístico e atenção didática
voltada para língua materna, com Bronckart, Dolz, Schneuwl: com
vinculação psicológica (influências de Bakhtin e Vygotsky); da análise
crítica, Fairclough, Kress; a sociorretórica/sócio-histórica e cultural com
Miller, Bazerman, Freedman, escola americana influenciada por Bakhtin.
(MARCUSCHI, 2008, p. 152-153)
1.3.2 Contribuições de Bakhtin, Maingueneau e Marcuschi
Os estudos sobre o gênero têm como ponto de partida a obra Estética da criação
verbal de Bakhtin (2003), em que a linguagem não é considerada como um produto acabado,
porém como um diálogo que acompanha a trajetória do homem no seu contexto sóciohistórico. Dessa forma, a linguagem é compreendida como interação social, em que é
essencial o caráter dialógico que se estabelece entre o locutor e interlocutor, num processo
contínuo de interlocução, que se realiza principalmente por meio de enunciados orais e
escritos, em que cada enunciado vai estar de acordo com as condições e as finalidades da
comunicação. O autor faz a seguinte definição de gênero:
Os enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido
campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, mas, acima de tudo, por
sua construção composicional. Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estilo, a
construção composicional – estão indissoluve lmente ligados no todo do enunciado e são
igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação.
“Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da
língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, aos quais denominamos
gêneros do discurso”. (BAKHTIN, 2003, p. 261-262).
Os três elementos abordados por Bakhtin (op. cit.,) são responsáveis pela composição
dos gêneros: o conteúdo temático assinala o que foi falado no enunciado, sendo veiculado por
certa construção composicional que se materializa na língua de acordo com o estilo do
locutor; o estilo está relacionado a questões de seleção: recursos lexicais, fraseológicos e
gramaticais da língua, que contribuem para identificar a intenção do locutor; a construção
composicional é responsável pela composição de um gênero, indica o modo como conteúdo e
estilo estão organizados para dar forma ao texto.
40
No fundo, os estilos de linguagem ou funcionais não são outra coisa senão estilos de
gênero de determinadas esferas da atividade humana e da comunicação. Em cada campo
existem e são empregados gêneros que correspondem às condições específicas de dado
campo; é a esses gêneros que correspondem determinados estilos. Uma determinada função
(científica, técnica, publicística, oficial, cotidiana) e determinadas condições de comunicação
discursiva, específicas de cada campo, geram determinados gêneros, isto é, determinados
tipos de enunciados estilísticos, temáticos e composicionais relativamente estáveis. O estilo é
indissociável
de
determinadas
unidades
temáticas
e
de
determinadas
unidades
composicionais: “de determinados tipos de construção do conjunto, de tipos do seu
acabamento, de tipos da relação do falante com outros participantes da comunicação
discursiva- com os ouvintes, os leitores, os parceiros, o discurso do outro, etc.”. (BAKHTIN,
2003, p. 266).
Devido à existência de uma grande diversidade de gêneros do discurso, Bakhtin faz
uma diferenciação entre gêneros primários e secundários. Os gêneros primários surgem em
situações de comunicação que não são elaboradas (a carta pessoal, a réplica do diálogo); os
secundários fazem parte de uma situação de comunicação mais complexa (o romance, o
teatro, o discurso científico e ideológico) e, em sua formação, podem conter gêneros
primários.
No entanto, Maingueneau (2004, p. 61) trata de gênero do discurso através da
perspectiva de Análise do Discurso, de corrente francesa, e o considera determinante sobre a
interpretação dos enunciados. Portanto, sendo essa visão de acordo com a de Bakhtin.
Maingueneau entende por gênero do discurso “dispositivos de comunicação que só podem
aparecer quando certas condições sócio-históricas estão presentes”. Dentre a enorme profusão
de gêneros do discurso “há autores que não diferenciam “gênero” e “tipo de discurso”, mas a
tendência dominante é a de distingui- los, os gêneros do discurso pertencem a diversos tipos
de discurso associados a vastos setores de atividade social”. Para exemplificar, “as novelas”
são gêneros do discurso pertencentes ao tipo de discurso “televisivo”, que faz parte de um tipo
de discurso mais amplo, “o midiático”.
Maingueneau (op. cit., p.87) diz que “Todo discurso, por sua manifestação mesma,
pretende convencer instituindo a cena de enunciação que o legitima”. Essa persuasão se
materializa pelos tipos e gêneros do discurso.
No entanto, o que Bakhtin denominou como gêneros do discurso, Marcuschi (2002)
faz uso da expressão gêneros textuais. Segundo o autor, já se tornou trivial a abordagem dos
41
gêneros textuais como fenômenos históricos, atrelados à vida cultural e social e apresenta a
seguinte definição:
Fruto do trabalho coletivo, os gêneros textuais contribuem para ordenar e
estabilizar as atividades comunicativas do dia -a-dia. São entidades sóciodiscursivas e formas de ação social incontornáveis em qualquer situação
comunicativa. (...) Caracterizam-se como eventos textuais altamente
maleáveis, dinâmicos e plásticos. “Surgem emparelhados a necessidades e
atividades sócio-culturais, bem como na relação com inovações
tecnológicas, o que é facilmente perceptível ao se considerar a quantidade de
gêneros textuais hoje existentes em relação a sociedades anteriores à
comunicação escrita”. (ibid, p.19).
A intensidade do uso de novas tecnologias e sua influência nas atividades
comunicativas, desenvolvidas diariamente, possibilitou o surgimento de novos gêneros
textuais. Por exemplo, os suportes tecnológicos de comunicação, o rádio, a televisão, o jornal,
a revista e a internet, devido à sua influência nas atividades de comunicação que ajudam a
criar, contribuem para o surgimento de novas formas discursivas e abrigam editoriais,
notícias, reportagens ao vivo, entre outras.
Marcuschi (2002) segue uma noção de língua como atividade social, histórica e
cognitiva, privilegia a natureza interativa e não como uma mera representação da realidade,
em que as palavras são coladas às coisas existentes, como se fossem etiquetas, a língua não é
vista de maneira formal.
Parte-se do pressuposto de que é impossível haver comunicação verbal sem um gênero
e um texto e que a comunicação verbal só é possível por um gênero textual. Marcuschi (2002)
diferencia tipo textual de gênero textual.
Usamos a expressão tipo textual para designar uma espécie de construção
teórica definida pela natureza linguística de sua composição (aspectos
lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas). Em geral, os tipos
textuais abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como:
narração, argumentação, exposição, descrição, injunção. Usamos a
expressão gênero textual como uma noção propositalmente vaga para referir
os textos materializados que encontramos em nossa vida diária e que
apresentam características comunicativas definidas por conteúdos,
propriedades funcionais, estilo e composição características. (...). Alguns
exemplos seriam: editorial, horóscopo, receita médica, bula de remédio,
poema, piada, artigo científico, resumo de um artigo, prefácio de um livro,
outdoor, edital de concurso, conversação espontânea, bate papo por
42
computador, aulas virtuais, reportagem e entrevista jornalística. (ibid., p. 2223).
Marcuschi (2008) acrescenta às noções de tipos e gêneros textuais, a de domínio
discursivo. Essa, portanto, não diz respeito a um gênero em particular, mas dá origem a vários
gêneros, pelo fato de serem marcados institucionalmente. O domínio discursivo indica
instâncias discursivas, (por exemplo, discurso jornalístico, discurso jurídico) e constitui
práticas discursivas nas quais, se pode identificar um conjunto de gêneros textuais que podem
ser específicos, como rotinas comunicativas. Não se lida propriamente com textos e sim com
formações históricas e sociais que originam os discursos.
Um dos critérios a seguir são usados para dar nome aos gêneros, de acordo com
Marcuschi (op. cit., p. 164) “1- forma estrutural (gráfico, debate); 2- propósito comunicativo
(errata, endereço); 3- conteúdo (nota de compra, resumo de novela); 4- meio de transmissão
(telefonema); 5-papéis dos interlocutores (exame oral); 6- contexto situacional (conversação
espontânea, carta)”.
Segundo o linguista, há uma discussão recente, que é a de suporte dos gêneros. Por
exemplo: a embalagem não é um gênero, e sim um suporte de gênero. Muitos livros didáticos
consideram o jornal, o livro e a revista semanal, como portadores de gêneros. Considera-se
como suporte de um gênero, uma superfície física com formato específico e que serve para
mostrar o texto. O suporte pode ser classificado em dois tipos: convencional, com função de
portarem ou fixarem texto; incidental, que funcionam como suportes ocasionais ou eventuais.
Esse último, tem-se como exemplo, o corpo que serve para alunos inscreverem suas colas
para provas.
Há também a diferenciação de gêneros na comunicação tradicional impressa e falada,
representados por cartas impressas, memorandos, conferência, interação face a face; bem
como
gêneros
na
comunicação
digital
mediada
por
computador,
blogs,
e-mail,
videoconferência, chats.
Sobre a análise dos gêneros textuais na relação fala e escrita, Marcuschi (2008, p. 192)
faz um esclarecimento sobre as expressões “concepção oral” e “concepção escrita”: “Não se
trata de postular que o texto é concebido oralmente ou por escrito sob o ponto de vista
cognitivo, mas que a forma original de sua produção é escrita ou oral”. Portanto, a expressão
“concepção” sinaliza para a natureza do meio em que o texto foi originalmente divulgado,
exposto.
43
Marcuschi (op. cit.) faz, ainda, uma divisão dos gêneros textuais por domínios
discursivos e modalidades de uso da língua, em escrita e oralidade. Dentre os vários domínios
existentes, (religioso, jurídico, etc.), merece destaque o domínio jornalístico - do qual fazem
parte inúmeras modalidades escritas (editoriais, reportagens, entrevistas jornalísticas) e
modalidades de oralidade (reportagens ao vivo, entrevistas radiofônicas, televisivas e
jornalísticas). Segundo o linguista, o objeto de estudo deste trabalho, a entrevista jornalística
pertence às duas modalidades de uso: escrita e oralidade.
Dentre os diversos gêneros textuais existentes, será analisado no próximo tópico, o
gênero entrevista e logo após, em específico, a entrevista jornalística que faz parte do corpus
desse trabalho e, portanto torna-se necessária uma abordagem mais detalhada desse.
1.3.3 A entrevista
A comunicação é essencial à vida do homem, pois a todo o momento ele tem
necessidade de interagir com o mundo e com outras pessoas para expor seu ponto de vista,
dividir seus conhecimentos, suas necessidades, através da linguagem.
Garret (1981) estende o campo dessa prática, pois todas as pessoas nas situações
comunicativas acabam se envolvendo em uma entrevista. Por exemplo, entrevista de
emprego, em uma consulta. A entrevista é uma arte, uma técnica que, pela prática do dia a
dia, pode ser aperfeiçoada, é uma comunicação entre duas pessoas, entrevistado e
entrevistador. Porém este exercício somente não basta, pois é necessário conhecimento dessa
técnica e aliá-la ao estudo da prática.
“Há, portanto, aspectos objetivos e subjetivos que permeiam as situações nas
entrevistas. Por exemplo, um homem que perde o emprego é um fato objetivo, já a maneira
como ele vai lidar com essa situação é um fato subjetivo”. (ibid., p.15).
Portanto, as entrevistas consistem em interações verbais que acontecem entre
personagens, entrevistado (s) e entrevistador (es), com perguntas e respostas em determinado
período de tempo. Todavia, as entrevistas podem possuir peculiaridades, que têm como
objetivo a apuração dos fatos sob o ponto de vista do entrevistado, que se afastam dos textos,
dos diálo gos produzidos nas relações cotidianas.
44
1.3.4 A entrevista jornalística
Em se tratando de entrevista jornalística da mídia impressa, os interlocutores
(entrevistador e entrevistado) não têm como objetivo apenas trocar informações ou expressar
opiniões, porém colaboram na construção do texto, e procuram atuar um sobre o outro e sobre
o leitor. É importante primeiramente, o entrevistado tomar conhecimento sobre o objetivo da
entrevista, desse modo, ele sentirá mais seguro e a conversa fluirá de maneira mais rápida.
Medina (1986) classifica as entrevistas midiáticas em duas tendências: a de
espetacularização e a de compreensão (aprofundamento). A primeira tendência é subdividida
nos seguintes subgêneros: perfil do pitoresco em que são feitos retratos de figuras relevantes
do mundo das artes, político, econômico, científico e se ressalta a fofoca, etc.; perfil do
inusitado que busca retirar do entrevistado o que o caracterizaria; perfil da condenação que se
pauta ideologicamente pelo julgamento apriorístico. Segundo a autora é muito utilizado no
setor policial de jornalismo; perfil da ironia “intelectualizada” uma forma de condenação
através de contestação irônica de suas ideias.
Já na tendência de compreensão, encontram-se os seguintes subgêneros: entrevista
conceitual, em que há busca por informações, o repórter está interessado em conceitos,
entrevista especialistas; entrevista/enquete, em que se procura mais de uma fonte para
discorrer sobre o tema sugerido na pauta; entrevista investigativa, em que há investigação de
informações a que os jornalistas não têm acesso; entrevista de confrontação-polemização, em
que são debatidos temas polêmicos em mesa-redonda, seminário; perfil humanizado, que tem
por objetivo compreender conceitos, valores, comportamentos e histórico de vida do
entrevistado.
Medina (op. cit., p. 23) observa que antes de ser feita a entrevista, há o processo de
produção da informação jornalística, que não pode ser desconsiderado, a partir da pauta. O
processo de edição vai desde o surgimento da notícia, a elaboração da pauta, trabalho de
campo (reportagem), entrevista, até a redação e fechamento. São consideradas três variáveis
no processamento das informações: a primeira, a influência grupal relativa à ideologia que
coordena o veículo de comunicação; em seguida, a influência coletiva que diz respeito às
exigências do público, a quem se dirige o produto informativo; por último, a indústria cultural
contemporânea, que tem como alvo o consumidor, que não estabelece criticamente suas
exigências por um produto que corresponda à sua expectativa.
45
A autora (ibid.) identifica quatro etapas para a elaboração da entrevista jornalística. A
primeira está ligada à competência técnica, a começar pela pré-pauta, ideia-matriz do tema
desenvolvido na entrevista, que pode ser colocada de maneira esquemática oral ou por escrito.
O pauteiro desenvolve o assunto em seus antecedentes e ângulos exploráveis. A partir de
então, o entrevistador conduz a pauta e caso não tenha um conhecimento político, econômico,
cultural sobre os fatos, terá de se atualizar. O perfil da personalidade do entrevistador também
contribui para o desempenho técnico da entrevista. O repórter deve desenvolver a entrevista
com encadeamento entre as perguntas, interrupções, interferências, outras orientações no
discurso.
A segunda etapa corresponde à interação social, em que se valoriza o papel social do
entrevistador. É o momento de observação recíproca, em que o entrevistado também tem de
ser considerado. É uma oportunidade de o entrevistador preparar o ambiente de trabalho,
permitir que o entrevistado se sinta à vontade, de tentar reverter a visão que se tem do
jornalista, que é nomeado pelas pessoas como um invasor de privacidade.
A terceira etapa, segundo a autora, diz respeito às possibilidades de criação do
repórter, o momento em que ele tenta perceber no entrevistado, as suas expressões, que se
manifestam através de palavra, gesto. Essa atitude é importante para se chegar ao diálogo.
A última etapa consiste no desvendamento do real, os manuais de redação pregam a
objetividade, porém jornalistas e pesquisadores destacam que há contradições entre
objetividade e subjetividade na representação do real, com que o jornalista trabalha. No
processo de confirmação das informações, deve haver garantias técnicas de apuração possível
da verdade, havendo a conferência dos dados apurados junto a fontes especializadas.
Medina (1986) faz um questionamento interessante sobre o que está sendo abordado:
Mas quando o entrevistado se mascara de uma aparência objetiva e se presta
ao jogo de objetividade proposto pela própria pauta do repórter? Há quem o
aceite e se satisfaça com o espelho das aparências. No fundo, todos os
entrevistados ambicionam levar na conversa qualquer repórter. Se postam na
sua aparência já estereotipada (aquilo que esperam dele nas situações
públicas) e repórter, por sua vez, também cumpre com seu papel –
agressividade, agilidade no gatilho, encostar na parede o entrevistado, leis
que traz da redação e ai dele que não as execute (...) Ambos brincam de
entrevista e o resultado é vendido no mercado em espaços nobres, páginas
amarelas. Ou seja, vende-se o não-dito pelo dito. (MEDINA, 1986, p. 42)
46
Entrevistador e entrevistado entram no jogo da objetividade, que é o simulacro da
realidade, pois acabam não desvendando o real para seu público, que apenas tem acesso a uma
parte do que foi dito, devido à edição e às exigências feitas pela empresa jornalística. Toda a
subjetividade que permeia a entrevista: gestos, opiniões, representam os não-ditos, aos quais
muitas das vezes, os leitores não tomam conhecimento.
Fávero (2000, p.83) observa que “na escrita, há o planejamento e a produção, o que
possibilita quantas revisões e reescrituras forem necessárias, pois só apresenta o produto
final”. A entrevista, porém, constitui um tipo especial de texto falado, porque há o
planejamento por parte do entrevistador, o que também, em certos casos, pode acontecer da
parte do entrevistado, diminuindo, dessa forma, marcas da oralidade. Quando é feita a edição,
a entrevista pode manter-se oral, se for destinada a veículos como rádio, televisão ou passar
para a escrita, se for para jornais, revistas. Segundo a autora, as escritas perdem muito das
características da língua falada: sendo o texto reescrito, desaparecem repetições, correções,
paráfrases, hesitações e outras marcas do texto oral.
Charaudeau (2008) faz uma observação sobre a oposição entre língua falada e língua
escrita, pois as diferenciações estão relacionadas à situação de comunicação, em que é preciso
considerar: se os parceiros estão próximos ou afastados um do outro; se o canal de
transmissão é oral ou gráfico, as características sociais dos parceiros, como idade, sexo,
classe; se há ou não troca no diálogo.
Gavazzi (1998, p.19) ressalta que o entrevistador deve “manipular as perguntas,
tentando descobrir satisfatoriamente um tema, construindo uma espinha dorsal exploratória,
não permitindo, de modo geral, que o entrevistado realize grandes digressões”. Já ao
entrevistado caberá estruturar adequadamente sua resposta com clareza e relevância e oferecer
ao ouvinte um enunciado compreensível e organizado para que haja a comunicação, o que
para a autora significa realizar uma atividade de formulação. Portanto, para que o objetivo da
comunicação se realize, vários procedimentos devem ser usados, um deles é a recorrência por
paráfrase, tratada como sinônimo de recorrência.
Na entrevista, Gavazzi (op. cit.) classifica o fecho, que deve situar-se no final do
fragmento, como frástico e parafrástico. O frástico é caracterizado quando o conteúdo é
exposto sem reelaboração. No entanto, nos parafrásticos, o falante reformula o que já foi dito.
A própria categorização marca o começo de fecho. Segundo a autora, na entrevista, quando o
falante declara que não tem nada a dizer sobre o assunto, acontece o fecho explícito; quando
repete o que disse antes, ocorre o fecho reduplicativo; quando analisa o que expôs, há o fecho
47
analítico; por último, quando resume sua própria elocução, ocorre o fecho analíticoresumitivo.
Fávero (2000) classifica a entrevista, quanto à função e sua natureza. No que concerne
à função, os seguintes aspectos são observados: a introdução de tópico, quando normalmente
o entrevistador utiliza uma pergunta ao iniciar uma entrevista; a continuidade de tópico, em
que as perguntas e as respostas são usadas para dar sequência; o redirecionamento de tópico
pode ser redirecionado por uma pergunta, reintroduzindo o tópico original; a mudança de
tópico, em que é comum a ocorrência de uma pergunta.
Em relação à natureza das perguntas, são destacados por Fávero (op. cit.): pedido de
informação, com respostas que se limitam à informação pedida; pedido de confirmação, faz
com que o entrevistado sustente as informações dadas; pedido de esclarecimento, quando o
interlocutor não capta o enunciado e pede esclarecimento ou repetição total ou parcial sobre
seu conteúdo; pergunta retórica, quando o falante elabora a pergunta, mas já conhece a
resposta, usada para estabelecer contato.
Hilgert (1989, p. 56-57) considera que a atividade linguística falada, que ocorre face a
face, tem caráter dialógico, tais como monólogos espontâneos, como diálogos assimétricos e
simétricos. “Assimétricos, por certo tempo do diálogo ou em toda sua duração, em que um
dos interlocutores tem a oportunidade de começar o diálogo, fazer perguntas, definir,
interromper, conduzir e mudar o tema, é o que ocorre nas entrevistas em geral”. Há diálogos
de assimetria unilateral, em que somente um dos interlocutores pode interferir, como por
exemplo, nos interrogatórios; nos diálogos de assimetria bilateral, entrevistado e interlocutor
podem interferir. No entanto, nos diálogos simétricos, ambos os interlocutores podem
perguntar, tomar a palavra, como por exemplo, nas discussões.
Charaudeau (2007) observa que a entrevista jornalística possui as características de
qualquer entrevista.
Além disso, ela é especificada pelo contrato midiático: entrevistador e
entrevistado são ouvidos por um terceiro ausente, o ouvinte, num dispositivo
triangular. O primeiro tira sua legitimidade de um “Procurar fazer falar seu
convidado para revelar uma verdade oculta”, pelo fato de que seu papel
consiste em fazer surgir opiniões; o segundo de um “Tenho algo a dizer que
concerne ao bem comum”, pelo fato de que sua presença no rádio o consagra
nesse papel; o terceiro de um “Estou aqui para ouvir alguma coisa de
interesse geral que me seja dada como uma revelação, pelo fato de que ele
está ali para saber.” (CHARAUDEAU, 2007, p.214-215)
48
As características citadas são encontradas em diversas va riantes de entrevistas: a
entrevista política, de especialista, de testemunho, será feita uma abordagem a seguir, sobre
essas variantes.
Na entrevista política, o participante é um representante de um grupo ou de si mesmo
que participa da vida política e possui certo poder de decisão. Procura dizer não as coisas
como ele pensa, para evitar que as pessoas o interprete de forma divergente. O entrevistador
tenta tirar do entrevistado a maior quantidade de informações.
Charaudeau (op. cit., p.215) explica que “o entrevistador, tenta fazer aparecer as
intenções ocultas deste, com um jogo de questionamento sutil alternado, com provocação, e
trazendo a luz as posições contraditórias do entrevistado. Esse gênero se baseia num ‘épreciso-dizer-a-qualquer-preço’”.
Na entrevista de especialista, o profissional, que normalmente não é conhecido pelo
público, é convidado a responder questões técnicas, esclarecer um problema, em uma
linguagem acessível à população. O entrevistador ocupa um papel de tradutor das
informações, para tornar as explicações mais simples. Nas palavras de Charaudeau (2007, p.
215) “O apresentador representa o papel de questionador ingênuo [...]. A entrevista de
expertise é um gênero que se resume a fornecer à opinião pública um conjunto de análises
objetivas, trazendo a prova de sua legitimidade pelo ‘saber’ e pelo ‘saber dizer’”.
Na entrevista testemunho, o entrevistado na maioria das vezes é anônimo, podendo ser
testemunha ou vítima, por ter sido observador de um acontecimento de interesse das mídias.
Charaudeau (2007, p.216) observa que “o entrevistador também faz o jogo da emoção pela
maneira de fazer perguntas ou de fazer comentários [...]. A entrevista de testemunho é um
gênero que se presume confirmar a existência de fatos e despertar a emoção, trazendo uma
prova de autenticidade pelo “visto-ouvido-declarado”.
O autor (ibid.), portanto, considera que a mídia trata o público não mais como cidadão,
mas como um espectador passivo de um mundo que lhe causa fascínio. Paralelamente, a
mídia permite cada vez mais criar a ilusão do factual, do real, da prova da realidade dos fatos,
pela investigação do privado, do íntimo, do testemunho, persuadindo-nos de que “isso
realmente aconteceu assim”. É o que pode ser chamado de verossímil, ou de “verdadeiro
verossímil”, o que faz com que se unam os dados da ficção com a ilusão do real, que dá um
suporte de realidade à ficção. “A responsabilidade das mídias reside nestas escolhas. Não
49
pode se conformar em sofrer os efeitos tirânicos da venda dos jornais, da pressão dos patrões
da imprensa ou da mediação quantitativa da audiência ”. (CHARAUDEAU, 2007, p. 273)
1.4 Persuasão e argumentação
Como um dos objetivos deste trabalho é verificar o caráter persuasivo, argumentativo
nas entrevistas jornalísticas, neste tópico serão tratados tais termos.
1.4.1 Persuasão e argumentação: interrelacionamentos
Primeiramente, torna-se necessário, conhecer um pouco sobre o surgimento da arte de
convencer, de persuadir e de argumentar. Sobre este momento, Abreu (2005) ressalta que a
retórica ou arte de convencer e persuadir surgiu em Atenas, na Grécia antiga, na época em que
os atenienses estavam vivendo a primeira experiência de democracia da História. Dessa
forma, era importante que as pessoas dominassem a arte de bem falar e argumentar nas
assembléias, e surgiram mestres para ensinar essa arte, os mais importantes foram Protágoras
e Górgias.
Diferentemente da filosofia da época que trabalhava com dicotomias como, por
exemplo, verdadeiro e falso, a retórica era voltada para o estudo dos pontos de vista ou
paradigmas que eram aplicados aos objetos de análise, se baseava no verossímil e não em
verdades absolutas.
Abreu (2005) observa que de acordo com o senso comum, argumentar é obrigar,
impor a alguém aceitar a nossa vontade e faz uma diferenciação entre argumentar, convencer
e persuadir. Argumentar é conseguir o que queremos, mas de modo cooperativo com o outro.
Argumentar é a arte de convencer e persuadir. Convencer é saber gerenciar informação, é
falar à razão do outro, demonstrando, provando. Etimologicamente, significa vencer junto
com o outro (com + vencer) e não contra o outro. Convencer é construir algo no campo das
ideias. Quando convencemos alguém, esse alguém passa a pensar como nós. Já persuadir é
saber gerenciar relação, é falar à emoção do outro. “Persuadir é construir no terreno das
emoções, é sensibilizar o outro para agir. Quando persuadimos alguém, esse alguém realiza
50
algo que desejamos que ele realize. Muitas vezes, conseguimos convencer as pessoas, mas
não conseguimos persuadi- las” (ibid., p. 9).
Portanto, por exemplo, pode-se convencer uma pessoa que está sempre desempregada
a elaborar vários currículos e distribuí- los nas empresas, porém, ela pode concordar e
continuar esperando por uma oportunidade em casa. No entanto, quando esta pessoa toma
atitude de agir, de realmente seguir tais conselhos, além de ela ter sido convencida, também
foi persuadida. Neste caso, também pode acontecer o contrário, esta pessoa pode estar
persuadida a procurar emprego, mas necessita de ser convencida e de um incentivo racional
próprio ou de outra pessoa para fazer o que realmente deseja.
Na verdade, quando se está tentando convencer alguém, se está utilizando as ideias,
gerenciando as informações que estão sendo empregadas. Já, quando se quer que alguém faça
o que queremos, se sai do campo das ideias para o das emoções, gerenciando a relação com o
outro.
Abreu (2005) defende algumas condições para que a argumentação seja desenvolvida:
deve-se se ter um problema, uma pergunta e uma tese que responda a questão levantada; usar
a linguagem apropriada ao auditório; estabelecer uma relação positiva com o auditório, com o
outro, saber ouvi- lo; argumentar de forma honesta, ser verdadeiro, ter ética, o que faz adquirir
credibilidade, pois se agir de forma contrária, a argumentação passa a ser considerada
manipulação.
Quando se quer convencer, persuadir é preciso conhecer o auditório, que pode ter uma
variável quantidade de pessoas, pode ser uma empresa, um país ou apenas uma pessoa.
Porém, é necessário saber que o repórter, no ato de uma entrevista, é o interlocutor. Já o
auditório pode ser considerado universal, quando se tem uma quantidade de pessoas sobre as
quais não tem um controle variável, pois podem ter diferentes classes sociais, nível de
instrução, profissões e idades; por exemplo, o público da televisão, do rádio. No entanto,
quando o auditório é particular, podem-se conhecer as variáveis, quando se trata de grupo de
operários em uma fábrica, em que o público é formado de homens, com a mesma profissão,
mesma classe social.
Abreu (2005) considera que, quando se tem uma tese, se deve primeiramente sugerir
algumas ideias, questionamentos, o que seria a adesão inicial, para depois de conhecida a
aprovação do público, dizer a tese principal. A adesão inicial e a tese principal seriam os
51
fundamentos das técnicas argumentativas que abrangem dois grupos relevantes: argumentos
quase lógicos e os argumentos que estão fundamentados na estrutura do real.
Os argumentos quase lógicos têm a ver com os expostos na adesão inicial, com o qual
o auditório concordou, é compatível ou incompatível com a tese principal. Os argumentos
fundamentados na estrutura do real estão relacionados a pontos de vista, opiniões e não a uma
visão objetiva dos argumentos. O autor cita como principais: argumento pragmático,
argumentação pelo exemplo e pela analogia. No argumento pragmático, são identificados dois
acontecimentos sucessivos que se ligam devido a uma causa; argumentação pelo exemplo, em
que se baseia nas ações de outras pessoas; pela analogia, em que se tem uma tese de adesão
inicial com a que tem relação com a tese principal.
Abreu (2005) considera duas definições mais importantes nas técnicas argumentativas,
pois permitem fixar pontos de vista. Uma delas é a definição expressiva, que não tem o
compromisso com a lógica, o que irá depender do ponto de vista, da interpretação de cada um,
por exemplo, ao definir a palavra educação. A outra definição é a etimológica, fundamentada
na origem das palavras.
Abreu (op. cit., p. 33) afirma que para argumentar, não é necessário impor nossa
vontade, provar que temos razão. “Argumentar é também saber persuadir, preocupar-se em
ver o outro por inteiro, ouvi- lo, entender suas necessidades, sensibilizar-se com seus sonhos e
emoções. Argumentar é motivar o outro a fazer o que queremos, mas deixando que ele faça
isso com autonomia”.
Sobre a persuasão, Citelli (2001, p. 5) ao iniciar seu livro cita um exemplo muito
pertinente acerca do jornalismo, que prega a neutralidade, a imparcialidade “[...] a revista
Newsweek tinha como slogan aquela que não persuade e divulgava através de materiais de
publicidade, que era uma revista que informava, porém não persuadia, a fim de passar uma
imagem de credibilidade junto aos leitores”.
Sobre este exemplo, o autor tece o seguinte comentário.
De certo modo, o ponto de vista do receptor é dirigido por um emissor que,
mais ou menos oculto, e falando quase impessoalmente, constrói sob a sutil
forma de negação, uma afirmação cujo propósito é o de persuadir alguém
acerca da verdade de outrem. Isso nos revela a existência de graus de
persuasão: alguns mais ou menos visíveis, outros mais ou menos
52
mascarados. (...) Generalizando um pouco a questão, é possível afirmar que
o elemento persuasivo está colado ao discurso como a pele ao corpo. É
muito difícil rastrearmos organizações discursivas que escapem à persuasão;
talvez a arte, algumas manifestações literárias, jogos verbais, um ou outro
texto marcado pelo elemento lúdico. (CITELLI, 2001, p. 5)
O autor para introduzir o tema persuasão, retoma a tradição clássica, seu espaço
cultural e linguístico e cita os gregos que tinham a preocupação com o domínio da expressão
verbal para expor publicamente suas ideias e utilizar as formas de argumentação, a fim de
mudar pontos de vista. Mas a intenção não era apenas falar, mas falar de maneira elegante e
convincente, sendo a retórica, a disciplina que estava empenhada em buscar tal harmonia
entre as regras e normas da boa argumentação.
Citelli (2001, p. 10) observa que a retórica é considerada por Aristóteles “como algo
de ciência, ou seja, é um corpus com determinado objeto e um método verificativo dos passos
seguidos para se produzir a persuasão. (...) Retórica é a faculdade de ver teoricamente o que
em cada caso pode ser capaz de gerar a persuasão”.
Porém, a retórica não é persuasão; dá as coordenadas para se chegar a ela; os discursos
institucionais são locais em que se dá persuasão; a retórica descobre os mecanismos para
persuadir e está acima dos compromissos persuasivos. Para existir persuasão é necessário que
haja a livre circulação de ideias.
Para Citelli (op. cit., p. 13-14), “persuadir é sinônimo de submeter, de levar as pessoas
à aceitação de uma ideia, e sim também, a consequência da organização do discurso que
institui como verdadeiro para o receptor e tem como pretensão provocar reações emocionais”.
As palavras estão neutras nos dicionários, porém quando passam a fazer parte de um
contexto, elas perdem essas características e passam a expressar valores e ideias, transitando,
e, de acordo com Citelli (op. cit., p. 29), passam a indicar “aquilo a que chamamos
propriamente de ideologias. Numa síntese: o signo forma a consciência que por seu turno se
expressa ideologicamente”.
Dentre os modos de organização do discurso, o autor apresenta: o discurso lúdico, que
compreende a produção artística, música, literatura; o discurso polêmico, que pode ser
encontrado em uma discussão entre amigos, uma defesa de tese, uma aula, um editorial
jornalístico; o discurso autoritário, um tipo de discurso exclusivista que não permite
mediações, através de um jogo parafrástico, ou seja, repete uma fala já conhecida pela
instituição, encontrável no diálogo da família; o pai que manda, sob a máscara do conselho;
53
no quartel, o grito que visa a preservar a ordem; no chamado publicitário, com o intuito de
racionalizar o consumo.
Portanto, para Citelli (2001), o texto autoritário, persuasivo, possui traços muito
peculiares: o uso do imperativo, o caráter parafrástico. O discurso persuasivo nos dita o que se
deseja temer, querer e não querer. Há necessidade de fazer uso do discurso persuasivo,
quando se tem o objetivo de convencer pessoas a quem pede o livre consentimento. O
discurso persuasivo não é algo negativo, somente passa a ser, quando torna-se o único
discurso possível, não havendo espaço para discursos abertos e criativos.
É importante ressaltar, a seguir, alguns pontos da obra de Charaudeau (2007), embora
não seja trabalhada diretamente com sua teoria. O autor considera que a neutralidade da mídia
é ilusória, embora digam que a mesma deva ser imparcial e analisa o discurso das mídias e o
seu caráter manipulador, que somente pode ser concluído através da vítima, pois o
manipulador não tem o interesse de expor sua finalidade na comunicação. “As mídias
manipulam tanto quanto manipulam a si mesmas. Para manipular é preciso um agente da
manipulação que tenha um projeto e uma tática, mas é preciso também de um manipulado”.
(ibid., p. 18).
Charaudeau (2008) diferencia e classifica alguns conceitos em relação ao ponto de
vista de produção do ato de linguagem, ele pode ser considerado uma expedição ou uma
aventura. Uma expedição seria o que diz respeito ao aspecto intencional do sujeito
comunicante em um projeto de comunicação e que para ser bem sucedido, fará o uso de
contratos e estratégias. A noção de contrato está relacionada aos indivíduos que fazem parte
de um mesmo grupo de práticas sociais, que tenham como objetivo chegar a um acordo sobre
suas representações de linguagem destas práticas. Já a noção de estratégia parte do princípio
de que “o sujeito comunicante organiza suas intenções de forma a produzir efeitos de
persuasão ou de sedução sobre o sujeito interpretante, para levá-lo a se identificar, de modo
consciente ou não, com o sujeito destinatário ideal construído pelo sujeito comunicante”
(ibid., p.56). No entanto, o ato de linguagem pode ser considerado uma aventura, quando está
inscrito na área do imprevisível. Por exemplo, o discurso político se caracteriza por um jogo
polêmico, que utiliza contratos e estratégias para convencer ou seduzir o outro.
No próximo tópico, serão expostas as características do modo de organização do
discurso argumentativo.
54
1.4.2 Modo de organização do discurso argumentativo
Tendo em vista o corpus desta pesquisa, caracterizado como do gênero textual
entrevista jornalística, será abordado aqui o modo de organização do discurso argumentativo,
pois é o modo predominante nesse tipo de texto, embora possam ocorrer outros modos.
Portanto, os gêneros textuais tanto podem coincidir com um modo de discurso, que podem
tornar-se dominantes, quanto podem abranger vários desses modos.
Charaudeau (2008, p. 203) elenca alguns esclarecimentos sobre argumentação, ao
dizer que “o sujeito que argumenta passa pela expressão de uma convicção e de uma
explicação que tenta transmitir ao interlocutor para persuadi- lo a modificar seu
comportamento”, o autor, em seguida, defende:
Para que haja argumentação é necessário que exista: uma proposta sobre o
mundo que provoque um questionamento , em alguém, quanto à sua
legitimidade (um questionamento quanto à legitimidade da proposta); um
sujeito que se engaje em relação a esse questionamento (convicção) e
desenvolva um raciocínio para tentar estabelecer uma verdade (quer seja
própria ou universal, quer se trate de uma simples aceitabilidade ou de uma
legitimidade) quanto a essa proposta; um outro sujeito que , relacionado com
a mesma proposta , questionamento e verdade, constitua-se no alvo da
argumentação. Trata-se da pessoa a que se dirige o sujeito que argumenta, na
esperança de conduzi-la a compartilhar da mesma verdade (persuasão),
sabendo que ela pode aceitar (ficar a favor) ou refutar (ficar contra) a
argumentação. (CHARAUDEAU, 2008, p. 205)
O modo de organização argumentativo é composto por três categorias: a proposta, a
proposição e a persuasão. A proposta representa uma ou mais asserções sobre o mundo, que
pode apresentar-se de maneira explícita no texto ou implícita, através de assuntos
relacionados ao que está sendo tratado. Por sua vez, a proposição é baseada no ponto de vista
do sujeito, no posicionamento do argumentador, que pode ser a favor ou contra a proposta. No
entanto, a persuasão apresenta as provas que sustentam a proposta.
Segundo o autor, a argumentação é a consequência textual de uma combinação entre
diferentes componentes que dependem de uma situação que tenha intenção persuasiva. Um
texto pode apresentar-se sob a forma dialógica (argumentação interlocutiva), escrita ou
oratória (argumentação monolocutiva). Já o modo de organização do discurso argumentativo
possibilita produzir argumentação sob essas diferentes formas. Há de se considerar, na
55
atividade argumentativa, uma dupla perspectiva: a demonstrativa, que determina a
organização da lógica argumentativa do discurso; e a persuasiva, em que o argumentador
utiliza de objetivos e estratégias para realizar o que pretende.
Em Charaudeau (2007), os parceiros encontram-se na situação de dever subscrever,
antes de qualquer intenção e estratégia particular, a um contrato de reconhecimento das
condições de realização da troca linguageira em que estão envolvidos: um contrato de
comunicação. Esse resulta das características da situação de troca, os dados externos, e das
características discursivas decorrentes, os dados internos (o espaço de locução, de relação, de
tematização). Os dados externos em que são nomeadas condições de identidade, finalidade,
propósito e de dispositivo. Devido à delimitação do próprio assunto da dissertação, será
abordada uma condição, que é a de finalidade. Nessa condição, todo ato de linguagem deve
ser organizado em prol de um objetivo. “Ela se define pela expectativa de sentido, em que se
baseia a troca, expectativa de sentido que deve permitir responder à pergunta: ‘Estamos aqui
para dizer o quê?’” (ibid., p. 69). A resposta a esta questão, numa problemática de influência,
se dá em termos de visadas cuja resposta é dada em termos de visadas e faz com que o outro
seja incorporado a sua própria intencionalidade. E para isto acontecer, quatro tipos de visadas
atuam no processo.
A prescritiva, consiste em “fazer fazer”, querer levar o outro a agir de
determinada maneira; a informativa, consiste em “fazer saber”, isto é,
querer transmitir um saber a quem se presume não possuí-lo; a iniciativa
que consiste em “fazer crer”, isto é, querer levar o outro a pensar que o que
está sendo dito é verdadeiro (ou possivelmente verdadeiro); a visada de
páthos, que consiste em “fazer sentir”, ou seja, provocar no outro um estado
emocional agradável ou desagradável. (CHARAUDEAU, 2007, p. 69)
Ribeiro (2003, p. 122) faz uma consideração no que diz respeito ao contrato midiático
abordado por Charaudeau, cujo objetivo é informar, persuadir e seduzir. “Tanto persuadir
como seduzir tem em comum o controle do outro. No entanto, na persuasão, esse controle
relaciona-se à razão e, na sedução, à emoção”. O princípio da persuasão procura fazer o outro
crer em algo, através do rigor lógico, para conseguir a adesão do interlocutor. Contudo, o
princípio da sedução, procura dar prazer ao outro, a fim de provocar alterações em seu
comportamento.
56
II. CARACTERIZAÇÃO E TRATAMENTO DO CORPUS
A fim de investigar os elementos introdutores de paráfrases em entrevistas, através da
abordagem teórica da referenciação, recategorização, reformulação textual, foi constituído um
corpus com textos publicados nas revistas Veja, Isto é e Caros Amigos, no período de 2007 a
2010 .
O corpus é composto por um total de 13 entrevistas das revistas, sendo 5 para Veja, 4
para Isto é e 4 para Caros Amigos. Seguem os títulos das entrevistas: A ansiedade pode ser
boa; É o nosso Nuremberg; "Camisinha é ruim e droga é bom"; A vaidade quase me matou; O
mercado do trabalho reproduz a desigualdade; “O Estado brasileiro continua matando muito”;
Não reclamem ao bispo; Em nome da justiça, Brasil deve rediscutir Itaipu; Podemos fazer
melhor; Não Pisem no Meu Calo; "A classe política rouba, rouba, e não acontece nada"; Os
venenos da Monsanto; FHC sobre THC.
São observados, nas entrevistas jornalísticas, os elementos que introduzem paráfrases,
tais como: ou seja, isto é, quer dizer, em resumo, em outras palavras, em síntese, com maior
predominância de algum desses termos em detrimento de outros.
Depois de identificados os elementos introdutores de paráfrases, no total de 38
ocorrências, parte-se para a análise, com os objetivos traçados para esta pesquisa, sendo que
foram analisados 19 introdutores.
O corpus selecionado é formado por entrevistas jornalísticas publicadas pela chamada
grande imprensa, trata-se das revistas Veja e Isto é, de periodicidade semanal, e da revista
Caros Amigos, periódico alternativo, de publicação mensal. As entrevistas selecionadas dizem
respeito, predominantemente, a diversos temas/editorias: política, economia, ciência, esporte,
religião, comportamento, com entrevistados de considerável representação nessas áreas.
Revistas como Veja e Isto é possuem uma entrevista por edição. Já Caros Amigos
possui de duas a três, sendo que em algumas das edições analisadas, somente consta uma
entrevista. Em geral, foram encontrados de uma a duas ocorrências de elementos introdutores
de paráfrases em cada entrevista. Em algumas entrevistas foram encontradas de cinco ou
mais.
Nesta parte, serão analisados um pouco da história das revistas, da história das revistas
semanais, do jornalismo de revista e os diferenciais.
57
2.1 Um pouco da história das três revistas
Veja, revista semanal de informação lançada pela Editora Abril em 11 de setembro de
1968, modelo inspirado na revista americana Time, tendo como diretor e editor da Abril, Vitor
Civita, diretor de publicações, Roberto Civita, e diretor de redação da revista, Mino Carta.
Desde o número 1 até o 351, de 28 de maio de 1975, a revista exibiu na capa, o título Veja e
leia, após esse período ficou somente o título Veja. Denominado internamente “Projeto
Falcão”, foi elaborada por Raymond Cohen, com 25 páginas de publicidade.
Veja está subdividida em editorias: Brasil, que faz a cobertura política; Internacional,
que trata de assuntos referentes à política mundial e assuntos internos de outros países;
Economia e Negócios; Artes e Espetáculos, que cobre televisão, literatura, teatro, exposições;
Geral, que trata da ciência e tecnologia; Educação, Saúde, Estilo, Moda, Comportamento, etc.
Há seções como Radar, com notas exclusivas; Veja Essa, onde são destacadas frases mais
marcantes e inusitadas da semana; Gente, com notas sociais; Cartas; outras seções de notas,
como Holofote e Contexto, e o Guia de serviços, além da seção de entrevista.
Isto é, revista de circulação nacional, editada em São Paulo a partir 1976, da editora
Três, sendo publicada inicialmente com periodicidade mensal em seus dez primeiros números,
em 1977, a revista passou a ter publicação semanal. Desde o seu lançamento apresentou-se
como uma revista de variedades, com editorias de política, economia, ciência,
comportamento, artes, esportes e outros assuntos. Sua primeira diretoria foi composta por
Mino Carta, Luís Carta, Cátia Alzugaray e Domindo Alzugaray, sendo chefiada por Mino
Carta, que já havia se destacado como fundador da revista Veja em 1974.
Desde sua origem, Isto é distinguiu-se por apresentar um amplo e prestigiado corpo de
colaboradores, contando sempre com personalidades da área acadêmica e jornalística, alguns
deles pode-se citar: Raimundo Faoro, Vilas Boas Correia, Millôr Fernandes, Luís Fernando
Veríssimo e Ferreira Gular. Desde seu lançamento, Isto é se dedicou à crítica política,
assumindo uma postura mais claramente antigovernista, sendo definida três editorias fixas:
política, cultura e economia, além das colaborações do cartunista Henfil, com crônicas
políticas bem humoradas. Em 1988, Isto é passou por um processo de fusão com a revista
Senhor e passou a se chamar Isto é Senhor. Em abril de 1992, foram feitas novas alterações na
revista que voltou a se denominar Isto é. Em 1993, passou por uma reformulação gráfica e
editorial.
58
Já Caros Amigos, revista alternativa, de publicação mensal da Editora Casa Amarela
em São Paulo, foi lançada em abril de 1997. Caros Amigos nasceu de uma conversa casual de
Sérgio de Souza com o jornalista José Carlos Marão, que também havia trabalhado em
Realidade, e com Roberto Freire. Eles queriam criar uma publicação que falasse sobre o
bairro da Vila Madalena, em São Paulo, onde está instalada a editora. O projeto da revista
cresceu e personagens como Alberto Dines, Francisco Vasconcelos passaram a participar das
discussões sobre a revista.
Caros Amigos, por ser uma revista alternativa mensal de informação, com reportagens,
artigos e temas interessantes, tem uma linguagem mais bem trabalhada e que sai do padrão
das grandes empresas jornalísticas. Caros Amigos não tem editorias de política, economia,
cultura, cidades, esportes ou cotidiano, pauteiros, hierarquias administrativas, conselho
editorial, manual de redação. Foge daquilo que se tornou uma espécie de padrão e convenção
em termos de estrutura e cotidiano de empresa de jornalismo. A revista não possui reunião e
divisão de pauta. As ideias e as matérias vão surgindo, os colaboradores escrevem, os artigos
são produzidos, a entrevista é feita e o diretor da revista, faz os títulos, acompanha a revisão,
sem que haja uma discussão mais profunda sobre rumos ou diretrizes para tal número.
2.2 A história das revistas semanais
O jornalismo de revistas no Brasil tem como marco o início de século XIX, período da
chegada da corte portuguesa, sendo do mesmo período, a produção de jornais diários. A
primeira revista nacional, As variedades ou Ensaios de Literatura, surgiu em 1812, na Bahia,
com o objetivo de publicar sobre a cultura e estudos científicos da época. Já o primeiro jornal
brasileiro, Correio Brasiliense foi publicado em 1808.
Em 1813, é publicada no Rio de Janeiro, a segunda revista, O Patriota, com o
propósito de publicar sobre autores e temas da terra, com o corpo editorial formado pela elite
intelectual da sociedade do período.
Porém em 1827, começa a haver a segmentação dos assuntos tratados por tema, e tem
como a primeira revista brasileira especializada, da área médica, O Propagador das Ciências
Médicas. No mesmo período surge Espelho Diamantino, voltada para o público feminino
brasileiro, com abordagem mais compreensível sobre política, moda, cultura. Baseado nos
59
modelos das revistas do continente europeu, as publicações voltavam-se para uma população
recém-alfabetizada.
No século XIX, com a modernização das técnicas de impressão, proliferam várias
publicações, dentre elas, a Revista da Semana, a primeira a utilizar fotos de maneira
sistemática.
Scalzo (2006, p.30) observa que em 1928, desponta no cenário nacional, um dos
maiores fenômenos editoriais brasileiros, a revista O Cruzeiro, criada pelo jornalista e
empresário Assis Chateaubriand, em que são trabalhadas as grandes reportagens, com
destaque ao fotojornalismo, fotos que buscam conciliar imagem e texto. Com o objetivo de
valorizar ainda mais o aspecto gráfico e fotográfico, surge em 1952, da Editora Bloch, a
revista ilustrada Manchete.
Em 1966, é publicada a revista Realidade, com valorização das grandes reportagens,
com enfoque no jornalismo investigativo, ficou conhecida como uma das mais prestigiadas
revistas brasileiras da história. De acordo com Scalzo (op. cit, p.31), “com o encerramento das
publicações de Realidade, a Editora Abril lançou Veja, a revista mais lida e mais vendida do
Brasil, sendo a quarta mais vendida do mundo, seguida das americanas Time, Newsweek e US
News & World Report”. Após essas, surgiram outras, como Visão, Exame, Senhor, Afinal,
Isto é , Época, Claudia e Quatro Rodas.
Dessa forma, nessa proliferação de revistas, umas desapareceram e outras novas
surgiram, com o objetivo de atender aos gostos ditados por seus públicos, em seus segmentos,
variedades, voltadas para a moda, cabelo, unhas, música, educação, etc.
2.3 O jornalismo de revista e os diferenciais
Scalzo (2006, p. 37-39) ressalta que a revista trata “o leitor em sua intimidade, pois
procura ouvi- lo através da carta dos leitores, telefonemas, e-mails, que fazem contato com a
redação e por pesquisa de opinião”. Dentre os diferenciais da revista, pode-se citar a
flexibilidade no uso, devido ao seu formato, é fácil de transportar, de folhear, de guardar,
como também o papel e a impressão que permitem uma maior qualidade de leitura.
Além de ser mais fácil de manusear, por ter uma melhor impressão, a revista tem uma
ótima apresentação visual, pois os textos dividem o espaço com as ilustrações; há uma melhor
60
qualidade das fotografias; os infográficos são bem elaborados para ajudar na compreensão do
leitor; com destaques estratégicos dos aspectos mais importantes para chamar a atenção do
leitor. A revista tem uma maior durabilidade física, devido ao papel utilizado e uma maior
durabilidade das reportagens, que são mais aprofundadas e não são tratadas como uma notícia
diária.
Já a capa da revista é a sua vitrine, e precisa ser bem elaborada, para convencer o leitor
a comprá- la, por isso é importante que tenha uma boa imagem e logotipo, bem como as
chamadas devem ser claras e diretas.
No rádio, na internet e na televisão, as notícias podem ser publicadas em tempo real,
no exato momento em que elas estão ocorrendo. Como o jornal é diário, por mais que tenha
mais de uma edição, não tem como acompanhar as notícias que ocorrem durante o dia ou em
determinado horário, dependendo do horário de fechamento de sua edição. Como são
publicadas notícias em grande quantidade, porém com texto e aprofundamento menores, o
jornal sente-se obrigado a fazer um jornalismo mais analítico, menos factual.
No entanto, a revista, geralmente semanal, quinzenal ou mensal tem um desafio
maior, pois não pode oferecer ao leitor somente um mero resumo dos acontecimentos que ele
já acompanhou durante a semana, o mês. Portanto, a revista tem de ter um diferencial, é
sempre necessário um aprofundamento do que foi publicado, com uma maior e nova
angulação em determinado assunto, que não foi explorado. É necessário buscar notícias
exclusivas, o que ainda não foi abordado.
Vilas Boas (2000, p. 14), considera que a linguagem de revista deve ser planejada.
Segundo esse cronista político, para escrever um texto, primeiramente as ideias devem ser
organizadas, por um mesmo assunto e sentido. “Então estabeleça, desde o início, uma
sequência de raciocínio por meio de “ganchos”. E por fim escolha o tom. Ou seja, a
linguage m mais apropriada para a matéria que vai escrever, é preciso conhecer a angulação,
pois o texto de uma revista não é neutro”.
Para Vilas Boas (op. cit.), há algumas peculiaridades da linguagem usada nas revistas
que as tornam diferentes dos jornais, pois os títulos são nominais (no jornalismo diário, há a
regra de sujeito verbo e predicado); há uma possibilidade de uso de coloquialismos, adjetivos,
de elementos da narrativa e da descrição; ênfase aos personagens e às falas, com usos de
travessões para apresentar o diálogo.
61
Dessa forma, o diferencial da revista é a reportagem, que como já foi citado deve ser
feita de maneira mais aprofundada, mais trabalhada, do que no jornalismo diário. Ao mesmo
tempo, uma das vantagens do jornalismo de revista, é a do repórter ter mais tempo para
elaborar a reportagem e fazer um trabalho de campo, conversar com pessoas, dando margem,
nesse caso, a apresentação do gênero entrevista, que demonstra uma interação com o
jornalista, retrata o cenário, o perfil do entrevistado; o que não seria possível em uma
conversa por telefone, e- mail.
Scalzo (2006) ressalta que o repórter deve ter a capacidade de interpretação; de apurar
os fatos corretamente; de ouvir todos os ângulos que envolvem uma questão, de mostrar
diversos pontos de vista e de ter compromisso com os princípios éticos.
Em contrapartida, o que muito significativamente diferencia o texto do jornal e de uma
revista especializada, é a de que o primeiro é direcionado a um público mais heterogêneo e o
segundo, a um público ma is segmentado, mais específico.
62
III- ANÁLISE
Este capítulo destina-se à análise dos introdutores de paráfrases no corpus selecionado.
3.1 As escolhas das expressões introdutoras
Apresenta-se aqui uma análise da função das expressões isto é, ou seja, quer dizer, em
outras palavras, em síntese e em resumo como introdutores das paráfrases que constituem o
corpus dessa dissertação, observando-se que algumas expressões são bem mais recorrentes
que outras o que será demonstrado na próxima subseção da análise, por meio de resultados
quantitativos.
Foram analisadas 38 expressões introdutoras de paráfrase, porém, selecionadas 19 na
análise.
A cada apresentação dos elementos mencionados, será verificado, segundo Koch e
Elias (2009b, p. 154-155) “se na recorrência dos termos, na reapresentação do conteúdo, na
alteração, acontece ajustamento, reformulação, desenvolvimento, síntese e/ou maior precisão
do conteúdo que está sendo apresentado”. Serão aplicadas também algumas das classificações
propostas por Hilgert (1989), (1993), analisando dentre outros aspectos, o caráter
distribucional, operacional e semântico da paráfrase.
A análise também deverá considerar as hipóteses levantadas para a pesquisa, ou seja,
será verificado se: muitas paráfrases podem ser relacionadas à construção de enunciados
persuasivos; a seleção dos elementos introdutores de paráfrases pode estar relacionado à
estratégia de persuasão; a observação de diferentes introdutores de paráfrases pode ser
importante para a identificação dos vários tipos de paráfrases; alguns introdutores de
paráfrases podem ter mais de uma função, a depender do contexto; as paráfrases
recategorizam o (s) objeto(s) de discurso e promovem progressão referencial no sentido de
construírem um texto mais argumentativo ou persuasivo.
Na apresentação da análise, constam trechos da entrevista, com o objetivo de
possibilitar o acesso aos contextos das paráfrases. As entrevistas completas das revistas Veja e
Isto é podem ser encontradas no ane xo dessa dissertação; já as de Caros Amigos, por se
63
tratarem de entrevistas muito extensas, somente serão expostas parcialmente, extraídos os
trechos onde se localizam os introdutores analisados.
Serão vistas no corpus, trechos das entrevistas jornalísticas classificados por Medina
(1986) como pertencentes à tendência de compreensão (aprofundamento) em que está incluída
a entrevista conceitual, em que há busca por informações, o repórter está interessado em
conceitos, entrevista especialistas; entrevista investigativa, em que há investigação de
informações a que os jornalistas não têm acesso.
Serão utilizadas algumas, dentre outras variáveis de entrevistas, segundo Charaudeau
(2007), a entrevista política, em que o participante é um representante de um grupo ou de si
mesmo que partic ipa da vida política e possui certo poder de decisão. Procura dizer não as
coisas como ele pensa; a entrevista de especialista, um especialista, que normalmente não é
conhecido pelo público, é convidado a responder questões técnicas, esclarecer um problema,
mas em uma linguagem acessível à população.
Hilgert (1989, p.56, p. 57) considera que as entrevistas em geral, são assimétricas,
sendo o caso das entrevistas analisadas, pois por certo tempo ou em toda sua duração, um dos
interlocutores tem a oportunidade de começar o diálogo, fazer perguntas, definir, interromper,
conduzir e mudar o tema, no caso analisado, o entrevistador, sendo também um tipo de
diálogo de assimetria unilateral, em que somente um dos interlocutores pode interferir.
3.2 Resumo da Análise
Para a análise dos introdutores das paráfrases foram utilizadas, particularmente, as
funções apontadas por Koch (2000), (2002), (2003), (2004), (2008), Koch e Elias (2009) bem
como as classificações de Hilgert (1989, 1993) e algumas observações de Charaudeau (2007,
2008) sobre o discurso argumentativo e persuasivo.
3.2.1 Ou seja
Koch (2000, p. 108) considera que ou seja visa “a esclarecer, retificar, desenvolver,
matizar uma enunciação anterior. Tem uma função geral de ajustamento, de precisão do
64
sentido”. Muitas vezes, faz um esclarecimento sobre o que foi dito antes e possibilita um
argumento mais forte no sentido de uma determinada conclusão. As funções elencadas por
Koch são muito próximas e podem ser concomitantes, podendo, em alguns casos indicar a
predominância de uma delas. Segundo Hilgert (1989), o introdutor é especializado em
equivalência.
No exemplo a seguir, sobre o tema “Influência dos pais no comportamento infantil”,
dando continuidade à pergunta anterior “Pais ansiosos terão filhos ansiosos?”, serão
observadas as funções do introdutor de variar, ratificar a matriz.
1) Veja- Qual a influência dos pais sobre o temperamento dos filhos?
No caso do temperamento que tem origem genética, os pais podem ajudar a mudar o
comportamento, ou seja, a forma como esse temperamento se manifesta. Eles podem
ajudar seu filho a reduzir ou silenciar a intensidade com que o temperamento aparece,
mas a vulnerabilidade estará sempre lá. Na minha pesquisa com bebês, há dois casos
muito evidentes. (A pesquisa começou em 1986, com 500 bebês, dos quais 20% se
revelaram inibidos e ansiosos, e são acompanhados até hoje por seguidores e Kagan.)
Uma das garotinhas pesquisadas, a quem chamamos de Mary, vem de uma família que
lhe dá muito apoio e incentivo. Hoje, aos 24 anos, Mary está na faculdade e vai muito
bem. Outra pesquisada, Baby 19, veio de uma família de pais divorciados e está tendo
muitos problemas. As duas, Mary e Baby 19, têm o mesmo temperamento, mas as
famílias fizeram a diferença. (Veja, psicólogo Jerome Kagan, Edição 2150, 3 de
fevereiro de 2010)
Do ponto de vista da argumentação, o entrevistado, com a paráfrase, se mostra,
alguém especializado no assunto, se posiciona mais profissionalmente e, com isso, terá sua
opinião mais respeitada, o que confirma a função geral apontada por Koch (op. cit.): a de
ajustamento. Segundo Hilgert (1989), esse tipo de paráfrase tem a função de ratificar a
matriz, ocorre apenas uma variação.
No discurso do entrevistado, a frase inicial “No caso do temperamento que tem origem
genética, os pais podem ajudar a mudar o comportamento”, representa, o enunciado de
origem, a matriz de “ou seja, a forma como esse temperamento se manifesta”, que é
considerada a paráfrase, o enunciado reformulador. Considerando-se esse contexto mais
amplo, que inclui o enunciado matriz, observa-se ainda, em relação ao exemplo examinado,
que a paráfrase reformula, complementa e enfatiza a ideia desenvolvida anteriormente: a de
que os pais podem contrib uir com os filhos, na medida em que identificam e percebam a
intensidade do temperamento.
65
Segundo a classificação de Hilgert (1989), o introdutor ou seja representa um
marcador verbal fraco, pois sua significação lexical específica não explicita uma determinada
atividade reformuladora, há portanto uma maior equivalência semântica com o enunciado de
origem, o que lhe confere o caráter parafrástico, não sendo, portanto, necessário que haja um
marcador forte para garantir essa relação, que é comum aos interlocutores.
Em relação ao aspecto semântico das relações parafrásticas, há uma equivalência
semântica forte, a paráfrase mantém uma grande identidade significativa com a matriz. Ocorre
uma paráfrase paralela com função de variar, ratificar a matriz. As paráfrases diferem-se de
suas matrizes por variações lexicais, mantendo com elas uma simetria sintática. Nesses casos,
é mais difícil perceber deslocamentos de sentidos.
Em relação ao aspecto distribucional, segundo Hilgert (1993), ou seja representa uma
paráfrase adjacente, pois esse marcador inicia a paráfrase que segue imediatamente a matriz.
No que concerne ao aspecto operacional, representa uma autoparáfrase autoiniciada, pois na
relação de diálogo, o locutor, o repórter e seu interlocutor, o entrevistado, esse, ao reformular,
parafraseou seu próprio enunciado, sendo ele mesmo quem desencadeou a paráfrase.
Observe mais um exemplo de paráfrase introduzida por ou seja, em que se destaca a
função reformuladora. O tema da entrevista é “Levar os terroristas de 11 de setembro ao
tribunal seria o julgamento do século”.
2) Veja- Julgamentos assim são uma aposta: podem servir como uma bela demonstração
de justiça ao mundo, mas também podem virar uma tribuna para proselitismo do
criminoso. Há risco de que isso aconteça?
No curso desse julgamento, Khalid Sheikh Mohammed e seus compatriotas mostrarão
o que são, ou seja, assassinos. Não estamos falando de homens de substância, nem de
grandes personalidades. São homens pequenos. Quem teme que o julgamento se
transforme em algo imprevisto precisa ter isso em mente. Nosso país já lidou com
gente desse tipo no passado e, seguramente, vai lidar no futuro. Mas são pessoas que
atuam à margem da história. (Veja, secretário de justiça americano Eric Holder, edição
2156, 17 de março de 2010)
O elemento introdutor bem como a paráfrase “ou seja assassinos” remete e
recategoriza a matriz “no curso desse julgamento, Khalid Sheikh Mohammed e seus
compatriotas mostrarão o que são”. Ou seja representa um marcador verbal forte, com
significação lexical explicitamente reformuladora, por força de sua significação lexical
específica, explicitam a natureza parafrástica do enunciado de que fazem parte.
66
No aspecto distribucional, representa uma paráfrase adjacente, pois segue
imediatamente a matriz. No aspecto operacional, é conceituada uma autoparáfrase
autoiniciada, pois o entrevistado ao reformular, parafraseou seu próprio enunciado, tendo sido
responsável por desencadear a paráfrase. No caráter semântico, possui uma equivalência
semântica fraca, pois os interlocutores precisam ter acesso ao conhecimento extratextual, do
julgamento dos supostos responsáveis pelo ataque terrorista às torres gêmeas, Khalid Sheikh
Mohammed e seus compatriotas, e por esse motivo, eles são chamados de assassinos. Há uma
equivalência referencial, não está explícito no cotexto. Há uma condensação, uma redução
parafrástica, com função de denominar, resumir, concluir, além de rotular os responsáveis
pelo ataque, como assassinos. O interlocutor, o entrevistado, persuade e faz crer que Khalid e
seus compatriotas são responsáveis pelo terrorismo e por isso são assassinos.
Segue mais um exemplo de ou seja reformulador com caráter esclarecedor e
persuasivo, em uma entrevista cujo tema é “a prevenção da AIDS acontecerá pelo diálogo em
família, pelo uso do preservativo e pela chegada da vacina”.
3) Istoé - Não existe medo?
O impulso é maior que o medo. Você pode ter desejo e se prevenir. Uma outra história
é quando um dos parceiros é soropositivo e o outro não. Interessa muito que essa
relação se perpetue. Porque se estabelece critério de confiança. Mas vira e mexe
aparece o parceiro ou a parceira contaminada, ou grávida. Ou seja, não fizeram a lição
de casa. Isso é frustrante. Continuo cada vez mais descrente. Dificilmente você muda
comportamento. (Isto é, médico David Uip, Edição 2091, 9 dez. 09)
A expressão ou seja recategoriza “o parceiro ou a parceira contaminada, ou grávida”,
completando o sentido com o elemento ou seja introdutor da paráfrase “não fizeram a lição de
casa”, tenta esclarecer, explicar, segundo Koch (op. cit.), que não se preveniram, não
utilizaram camisinha, por este motivo, aparece o parceiro ou a parceira contaminada, ou
grávida, também a fim de precisar melhor o que foi dito. “Ou seja, não fizeram a lição de
casa” remete à matriz “Mas vira e mexe aparece o parceiro ou a parceira contaminada ou
grávida”.
É um marcador verbal forte com objetivo de reformular. Ocorre uma paráfrase
adjacente que vem seguida à matriz. É uma autoparáfrase autoiniciada com equivalência
semântica fraca, “não fizeram a lição de casa”, não apresenta um caráter explicitamente
reformulador, pois é necessário a presença do marcador ou seja com significação lexical
reformuladora. Há uma expansão parafrástica, com função de definir, explicar, explicitar,
67
exemplificar a questão da prevenção da aids e da gravidez indesejada, o que seria “ a lição de
casa”.
Portanto, o entrevistado tenta persuadir, fazer crer o interlocutor, leitor e entrevistador,
sobre a importância do uso da camisinha, para evitar a contaminação pelo vírus da Aids e a
gravidez indesejada, ao usar a parafráse.
O exemplo a seguir, mostra o introdutor ou seja mais explicitamente persuasivo, com
caráter recategorizador, com função de concluir, resumir, em uma entrevista, cujo tema é “O
drama vivido por Chiquinho Scarpa em uma cirurgia de redução de estômago”.
4) Isto é - Qual era a sua chance de sobrevivência?
Um médico disse para minha família que ela deveria ter paciência e rezar. Ou seja,
zero! Por causa da infecção, eu apresentava sinais de falência no fígado, nos rins e no
pâncreas (e no pulmão). (Isto é, playboy Chiquinho Scarpa, Edição 2072, 29 julho 09)
A paráfrase “ou seja zero”, remete e recategoriza a matriz “Um médico disse para
minha família que ela deveria ter paciência e rezar”. A pergunta feita pelo entrevistador sobre
“sua chance de sobrevivência” e a resposta do entrevistado “de que deveria ter paciência e
rezar”, passada pelos médicos, que o fez pensar que a sua chance para sobreviver era nula.
Pois quando um médico, normalmente não dá uma resposta sobre o estado de saúde do
paciente, baseada na área da medicina e solicita à família ou ao paciente, apoio espiritual, é
porque a situação pode estar bem grave.
É uma marcador verbal forte, com paráfrase adjacente. Representa uma autoparáfrase
autoiniciada, pois o entrevistado ao reformular, parafraseou seu próprio enunciado, tendo sido
responsável por desencadear a paráfrase, sendo autoiniciada, foi desencadeada por quem
produziu a paráfrase, o entrevistado. Há equivalência semântica fraca, pois ocorre uma
equivalência implícita no cotexto, entre “ter paciência e rezar” e “zero” que seria sua chance
de sobrevivência. Há uma equivalência referencial, não está explícito no cotexto, pois o
interlocutor tem de associar que “ter paciência e rezar” e “zero”, a partir dessa relação, de que
a sua chance de sobrevivência não existe.
Ocorre uma condensação, uma redução
parafrástica, com função de de concluir, de resumir de que sua chance de sobrevivência seria
nula. O marcador ou seja persuade e faz crer ao interlocutor, repórter e leitor, que seu
problema de saúde era muito grave.
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No exemplo a seguir, cujo tema é “O mercado de trabalho e a desigualdade no Brasil”
constam-se reformuladores que fazem parte das paráfrases presentes como resposta à questão
levantada ao trecho “É, aqui os ricos vivem muito bem...” e em “E quem ou quais instituições
mundiais podem resolver os problemas da crise e seus reflexos?”, em que são vistas algumas
de suas funções.
5) Caros Amigos- É, aqui os ricos vivem muito bem...
Os ricos vivem aqui muito melhor que a classe média e os ricos nos Estados Unidos e
na Europa porque aqui, os ricos não pagam impostos. E lá não existe como aqui essa
massa de serviçais. É manicure, empregados domésticos, cortador de grama, faxineira,
ou seja, um exército de prestadores de serviço. No Brasil, as famílias de classe média
e ricas têm, em média, 13 serviçais à sua disposição para prestar serviços. São 13, no
mínimo, ou seja, são mais de 20 milhões de pessoas que constituem esse exército com
remuneração extremamente baixa. Por que é possível ir para uma pizzaria,
churrascaria no Brasil e comer de forma extravagante pagando preços módicos?
Porque aqueles que lá trabalham, o pizzaiolo, o churrasqueiro têm remunerações
extremamente baixas. O que chama atenção é que viabilizar e internalizar esse padrão
de consumo é somente possível com uma brutal concentração de renda, com um
sistema tributário que concentra renda, que tira dos pobres e dá para os ricos e com um
Estado que se organizou para atender fundamentalmente os ricos, o andar de cima da
sociedade, como dizia Milton Santos. Esse andar de cima tem tudo. Tem banco
público, tem sistema de tecnologia, tem compras públicas, ou seja, montou-se uma
estrutura para sustentar os de cima. Isso não é uma experiência exclusivamente
brasileira, mas talvez chegamos a maior sofisticação. (Caros Amigos, economista
Márcio Pochmann, número 149, agosto 2009, p. 27)
O primeiro termo ou seja introduz a paráfrase “um exército de prestadores de serviço”,
remete, recategoriza a matriz. “É manicure, empregados domésticos, cortador de grama,
faxineira”, recategoriza o objeto de discurso que são os trabalhadores, “manicure, empregados
domésticos, cortador de grama, faxineira” que são conceituados, rotulados por um nome com
função de hiperônimo: um exército, por ser um grande número de pessoas, uma multidão.
É um marcador verbal forte com significação lexical explicitamente reformuladora,
por força de sua significação lexical específica, explicitam a natureza parafrástica do
enunciado de que fazem parte. É uma paráfrase adjacente que vem em seguida da matriz e
representa autoparáfrase autoiniciada, pois o entrevistado ao reformular, parafraseou seu
próprio enunciado, tendo sido responsável por desencadear a paráfrase. Há uma equivalência
semântica fraca. É conceituada como paráfrase redutora, condensadora, pois tem a função de
resumir, sintetizar, denominar, como foi dito através do hiperônimo “exército". De certa
69
forma, o entrevistado “fazer crer”, leva o interlocutor a pensar que o que está sendo dito é
verdadeiro (ou possivelmente verdadeiro), de que esse exército de trabalhadores, faxineira,
empregados domésticos, possuem remunerações baixas.
O terceiro termo ou seja, que é também um operador argumentativo, recategoriza os
objetos do discurso, banco público, sistema de tecnologia, compras públicas. Ao utilizar
argumentos e a matriz “Esse andar de cima tem tudo. Tem banco público, tem sistema de
tecnologia, tem compras públicas” e a paráfrase “ou seja, montou-se uma estrutura para
sustentar os de cima” o entrevistado tenta persuadir, fazer crer o interlocutor, conseguir a sua
adesão e/ou concordância, em relação à concentração de renda, os pobres com remuneração
baixa, sustentando os ricos, que cada vez mais concentram renda e bens. O entrevistado
também persuade, ao utilizar argumentos como “Esse andar de cima tem tudo” e a matriz
“Tem banco público, tem sistema de tecnologia, faz o interlocutor crer que o que está sendo
dito é verdadeiro ou possivelmente verdadeiro.
O marcador verbal é forte, com paráfrase adjacente, autoparáfrase autoiniciada,
equivalência semântica fraca, pois os interlocutores precisam ter acesso ao conhecimento
extratextual, de que o andar de cima que tem tudo é representado pelos ricos. É conceituada
como paráfrase redutora com função de resumir, concluir.
Em outro trecho da mesma entrevista, cujo tema é “O mercado de trabalho e a
desigualdade no Brasil” consta mais um exemplo do reformulador ou seja, de caráter
persuasivo.
6) Caros Amigos - E quem ou quais instituições mundiais podem resolver os problemas
da crise e seus reflexos?
Este é um aspecto grave. Estamos vivendo a plena desgovernança no mundo. Nós
vivemos um quadro de profunda anarquia do ponto de vista público porque as
instituições que foram constituídas para fazer a governança pública do mundo estão
completamente esgotadas para viver a nova realidade. Com o encerramento da 2ª
guerra, estabelece-se a Assembléia Geral das Nações Unidas, ou seja, a ONU, que
tinha o objetivo de estabelecer um padrão de convivência, de regulamento mínimo
entre países. Veja, a ONU somente conseguiu fazer uma conferência sobre a crise só
agora no mês de junho, quer dizer, quase um ano depois da crise ter se manifestado. A
ONU não consegue reunir os países para estabelecer convergências. O Banco Mundial
e o Fundo Monetário Internacional (FMI) que estavam presentes nas crises anteriores,
dizendo façam isso e aquilo, simplesmente desapareceram. Mal e porcamente
conseguem projetar se a economia vai ou não crescer, ou seja, não têm o que dizer.
Esse padrão de regulação pública está falido. (Caros Amigos, economista, Márcio
Pochmann, número 149, agosto 2009, p. 27)
70
O segundo termo ou seja na paráfrase “ou seja não tem o que dizer” iniciada por ou
seja recategoriza, ao mesmo tempo que remete à matriz, a predicação anterior “Mal e
porcamente conseguem projetar se a economia vai ou não crescer”.
Ou seja representa um marcador forte, com caráter reformulador, classificada como
uma paráfrase adjacente, é uma autoparáfrase autoiniciada, com equivalência semântica fraca.
No nível semântico, é considerada uma paráfrase redutora, com função de resumir,
denominar, concluir. O interlocutor, o entrevistado, ao considerar que o Banco Mundial e o
FMI “não têm o que dizer”, argumenta de maneira contrária as instituições, além da
reformulação, que é garantida através do marcador verbal forte, utiliza, argumentos que têm
objetivo fazer o interlocutor crer naquilo que está sendo dito, seja verdadeiro. Busca reforçar
um aspecto negativo e que faz isso por meio de uma expressão mais popular, acerca dessas
instituições, persuadir o leitor, de que o Banco Mundial e o FMI desapareceram diante dos
problemas da crise e nada fazem, além de não terem o que dizer.
3.2.2 Quer dizer
Segundo Hilgert (1989), há marcadores de reformulação verbais que constituem a
distinção entre relações semânticas de equivalência e de contraste. São marcadores
especializados de equivalência e de contraste. É o caso de quer dizer, para a paráfrase e de
não para a correção. O introdutor quer dizer, no corpus analisado, apresenta-se como um
introdutor de paráfrase, com função de explicação, resumo, conclusão, com caráter
reformulador e persuasivo.
No exemplo, a seguir, será analisado o reformulador quer dizer com função de
explicação e com caráter persuasivo na entrevista, que tem como tema “uma menina de 9 anos
estuprada pelo padrasto que engravidou de gêmeos e fez um aborto legal, além de apresentar a
posição contrária da igreja católica sobre a questão”.
7) Veja- O que a Igreja e o senhor pessoalmente ofereceram à menina, em matéria de
apoio material e espiritual, caso não fizesse o aborto?
Agradeço muito essa pergunta. Essa criança residia na diocese de Pesqueira, na
cidade de Alagoinha, no interior de Pernambuco. Quando aconteceu isso, o bispo de
Pesqueira me informou que a menina seria trazida para o Recife. Ele e eu queríamos
71
fazer o que fosse possível para salvar a vida dela e a dos filhos que ela concebera. Nós
tivemos várias reuniões com nossos advogados para saber o que poderíamos fazer para
impedir o aborto. Pedimos audiência ao desembargador, e ele ligou para várias varas
da infância e da juventude para tentar fazer algo. O pai da menina esteve também
nesse encontro e declarou ser contra o aborto. Ele é analfabeto, mas repetiu desde o
começo que não estava de acordo. Fez até uma procuração para o nosso advogado e
assinou. Quer dizer, assinou não, pôs o dedão lá. Então, nós fizemos tudo o que foi
possível. (Veja, bispo Dom José Cardoso Sobrinho, Edição 2104, 18 de março de
2009, p.2)
O uso do introdutor quer dizer na “aparente” correção, sendo considerada uma
paráfrase, “Quer dizer, assinou não, pôs o dedão lá” remete ao que foi dito anteriormente no
enunciado de origem, a matriz, “Fez até uma procuração para o nosso advogado e assinou” e
ao termo “analfabeto” que tinha sido mencionado em trechos anteriores da entrevista, ao
mesmo tempo há recategorização desse termo. Tendo visto que o entrevistado cometera um
“equívoco”, pois quem é analfabeto não assina, mas colhe as impressões digitais, utilizou
então o termo quer dizer. Para Koch (2000), esse operador argumentativo possui a função de
retificar, alterar, reformular o que foi dito anteriormente. Hilgert (1989, 1993), considera que
o marcador quer dizer pode ter a função de realizar uma correção, mas, no exemplo
focalizado, deve ser considerada uma reformulação, na medida em que a expressão “pôs o
dedão lá” argumenta muito mais que “colhe as impressões digitais”. Trata-se, pois, apenas de
uma “aparente” correção.
Ao mesmo tempo em que o entrevistado percebe que ele cometeu um “erro”, ele tenta
corrigir, o que não ocorre e diz que o pai da menina, que sofreu aborto, sendo analfabeto, não
assinou, mas “pôs o dedão lá”, pois, é uma forma de assinar um documento, houve assinatura.
O entrevistado preferiu utilizar a expressão citada, em vez de “colheu às impressões digitais”,
construindo o sentido de uma posição crítica e negativa em relação ao analfabetismo. Com
essa posição adotada, entende-se que o entrevistado queria dizer que o analfabeto é mais
facilmente manipulado e o governo sabe disso! Desta forma, tenta, com mais um argumento,
mostrar para leitor e para o entrevistador sua posição contrária em relação ao aborto, e os faz
crer nisso, com caráter persuasivo.
É um marcador verbal forte, com caráter reformulador, sendo a paráfrase classificada
como adjacente, é também uma autoparáfrase autoiniciada, com equivalência semântica fraca.
72
No nível semântico, é considerada uma paráfrase expansiva, com função de explicar,
exemplificar a matriz.
No exemplo, a seguir, será analisado o reformulador quer dizer com função expansiva,
de explicitação, na entrevista que tem como tema “O drama vivido por Chiquinho Scarpa em
uma cirurgia de redução de estômago”.
8) Istoé - Tornou-se uma pessoa diferente depois disso?
Chiquinho - Para a infelicidade de todos, não! Fiquei com raiva por ter perdido esse
tempo na minha vida. Mas, por sorte, ganhei muito dinheiro em um negócio enquanto
estava em coma (ele não revela qual, nem o valor). Acordei e era só felicidade. (Nesse
momento sua mulher interrompe e diz: Quer dizer, a vida não tem tanta importância.
O que importa é o maldito dinheiro e a vaidade. Legal, né?') Essa é minha mulher!
Mas deixa eu contar a minha saída do hospital porque foi bárbara. (Isto é, Chiquinho
Scarpa, Edição 2072, 29 julho -09, p. 5)
A paráfrase “Quer dizer, a vida não tem tanta importância”, é um marcador verbal
forte, pode exemplificar uma paráfrase não adjacente, pois entre o enunciado “Para a
infelicidade de todos, não!” e a paráfrase se insere um segmento mais ou menos longo. É
difícil, porém, delimitar o enunciado matriz nesse contexto. Quanto ao seu aspecto
operacional, trata-se de uma heteroparáfrase autoiniciada, pois um outro interlocutor, a esposa
do entrevistado, interrompe a entrevista e parafraseia o enunciado produzido pelo entrevistado
e remete à matriz, sendo autoiniciada, por sua própria iniciativa, parafraseia o enunciado
produzido pelo entrevistado. No âmbito semântico, possui uma equivalência semântica fraca,
com paráfrase expansiva e interpretativa do discurso de outro, cuja função é de explicitar,
exemplificar. A heteroparáfrase, neste exemplo, remete a toda a resposta de Chiquinho Scarpa
e, ainda, à pergunta do entrevistador: Istoé – “Tornou-se uma pessoa diferente depois disso?”
No exemplo, a seguir, será analisado o reformulador quer dizer com função redutora,
na entrevista, que tem como título “O técnico da seleção brasileira e seus planos para vencer a
copa do mundo e superar a qualidade de inexperiente”.
9) Isto é - Antes de o sr. assumir, a Seleção vivia uma Globodependência, uma vez que a
emissora carioca tinha acesso ao time a qualquer hora?
Dunga - Acho que não. Sabe quando tu tens um sapato velho e, mesmo que ele te
machuque, tu entortas o pé, mas ficas nele? Só que aí chega um cara e muda tudo.
73
Quer dizer, não mudei nada. Fiz as coisas voltarem a ser como deveriam ser. Eu
respeito qualquer profissional. Claro, tenho simpatia por um e por outro, mas não sou
um cara de sair jantando com os caras (jornalistas). Posso até fazer, mas jamais por
interesse. Só que muitos acham que treinador da Seleção tem de atender todo mundo,
ser sempre simpático. Não sou agente de turismo! (Isto é, ténico da seleção brasileira
Dunga, Edição 2087, 13 de novembro de 2009, p. 3)
O uso do introdutor quer dizer introduz, como no exemplo (7), uma aparente correção
na paráfrase, “Quer dizer, não mudei nada. Fiz as coisas voltarem a ser como deveriam ser”,
recategoriza e ao mesmo tempo remete ao que foi dito anteriormente, no enunciado de
origem, na matriz, “Só que aí chega um cara e muda tudo”. Esse enunciado matriz constrói
sentido mais generalizado, por se tratar de um exemplo dado, mas parece ser considerado
muito categórico pelo próprio enunciador entrevistado, que se corrige e se protege ao
construir a paráfrase. Ao mesmo tempo em que disse que não promoveu mudanças, acaba
confirmando, na paráfrase, “que fez as coisas voltarem a ser como deveriam ser”, e, com essa
estratégia, tenta persuadir o interlocutor, entrevistador e leitores, de que não é um técnico que
vai fazer modificações. Acaba, portanto, dizendo que promoveu mudanças, na continuidade
do texto. Esse é um caso em que só se valendo do contexto se pode perceber que não é uma
mera correção, pois não anula e nem corrige simplesmente o que foi dito. Trata-se, pois, de
uma paráfrase.
Quer dizer se caracteriza como marcador verbal forte e introduz uma paráfrase
adjacente, que é também uma autoparáfrase autoiniciada, com equivalência semântica fraca.
No nível semântico, é considerada uma paráfrase redutora.
No exemplo, a seguir, será analisado mais um reformulador quer dizer com função
redutora, na entrevista que tem como tema “A luta do povo nas ruas para cobrar dos governos,
políticos, um novo comportamento, diferente da crise moral que acontece com a política”.
10) Isto é - E como o país pode sair dessa crise ética?
Pedro Simon - Não tem que se fazer nenhuma nova lei, não é necessário mudar nada.
A única coisa que precisa é acabar com a impunidade. Botar quem comete essas
bandalheiras na cadeia. Como aconteceu na Itália na Operação Mãos Limpas.
Investigação que prendeu ex-primeiros- ministros, mais de 100 parlamentares,
empresários. Quer dizer: fizeram para valer. Aqui no Brasil não se vê qualquer chance
de se fazer isso. (Isto é, senador Pedro Simon, Edição 1963, 13 de junho de 2007)
74
O introdutor quer dizer faz parte de paráfrase “Quer dizer: fizeram para valer” que
remete e recategoriza a matriz “Investigação que prendeu ex-primeiros- ministros, mais de 100
parlamentares, empresários”.
É um marcador verbal forte, com paráfrase adjacente, autoparáfrase autoiniciada, com
equivalência semântica fraca, com função de paráfrase redutora, a fim de resumir, concluir a
matriz. O interlocutor procura persuadir, fazer crer que na operação mãos limpas, “fizeram
pra valer”. A escolha dessa expressão pré- fabricada na paráfrase é importante estratégia de
referenciação, pois funciona em bloco e tem sentido coletivamente estabilizado (MENEZES,
2008). Na medida em que a expressão quer dizer se torna mais fixa, passa a ser equivalente a
ou seja. Por exemplo: em “ele quer dizer que não vai mais se casar”, a expressão verbal pode
ser substituída por outra: quer confessar; quer comunicar... quando quer dizer se estabiliza
como introdutor de paráfrase, embora possa ainda ser considerado marcador forte, se
considerado em relação com expressão verbal, começa a haver um desbotamento semântico.
No exemplo a seguir, cujo tema é, “O mercado de trabalho e a desigualdade no Brasil”
será analisado mais um reformulador quer dizer e sua função expansiva e caráter persuasivo.
11) Caros Amigos- E quem ou quais instituições mundiais podem resolver os problemas da
crise e seus reflexos?
Este é um aspecto grave. Estamos vivendo a plena desgovernança no mundo. Nós
vivemos um quadro de profunda anarquia do ponto de vista público porque as
instituições que foram constituídas para fazer a governança pública do mundo estão
completamente esgotadas para viver a nova realidade. Com o encerramento da 2ª
guerra, estabelece-se a Assembléia Geral das Nações Unidas, ou seja, a ONU, que
tinha o objetivo de estabelecer um padrão de convivência, de regulamento mínimo
entre países. Veja, a ONU somente conseguiu fazer uma conferência sobre a crise só
agora no mês de junho, quer dizer, quase um ano depois da crise ter se manifestado. A
ONU não consegue reunir os países para estabelecer convergências. O Banco Mundial
e o Fundo Monetário Internacional (FMI) que estavam presentes nas crises anteriores,
dizendo façam isso e aquilo, simplesmente desapareceram. Mal e porcamente
conseguem projetar se a economia vai ou não crescer, ou seja, não têm o que dizer.
Esse padrão de regulação pública está falido. (Caros Amigos, economista, Márcio
Pochmann, número 149, agosto 2009, p. 27)
O termo quer dizer na paráfrase, “quer dizer, quase um ano depois da crise ter se
manifestado” remete à matriz “Veja, a ONU somente conseguiu fazer uma conferência sobre
a crise só agora no mês de junho” e a recategoriza,
75
Quer dizer é um marcador verbal forte e introduz, nesse exemplo, uma paráfrase
adjacente sob o ponto de vista distribucional, com aspecto operacional de autoparáfrase
autoiniciada e com equivalência semântica fraca, pois seu sentido não está bem explícito no
cotexto, os interlocutores precisam ter acesso ao conhecimento extratextual sobre o período
em que a crise foi desencadeada, para compreender que a conferência ocorreu um ano após a
crise. Há uma expansão parafrástica, com função de explicar e explicitar a matriz que é
reformulada para dar uma explicação, sobre a demora em se fazer uma conferência e a
argumentação que desenvolve uma ideia negativa a respeito da ONU, para convencer o leitor
de que a instituição deixa a desejar. O termo quer dizer remete a “somente conseguiu fazer
uma conferência sobre a crise só agora no mês de junho” e é expressão introdutora de
paráfrase em “quase um ano depois de a crise ter se manifestado”.
O entrevistado persuade o interlocutor, o faz crer que é verdadeira, a “visão negativa
sobre a ONU” (objeto de discurso construído), que a organização demorou a ter iniciativa
diante da crise.
No exemplo a seguir, cujo tema é “O livro denúncia da jornalista francesa MarieMonique Robin conta os escândalos da poderosa multinacional, a maior produtora de
transgênicos do mundo”, ocorre uma paráfrase redutora, de caráter persuasivo.
12) Caros Amigos- Você sofreu alguma ameaça ou pressão da empresa, da mesma maneira
que aconteceu com muitos cientistas e jornalistas, como você descreveu no livro?
Para ser franca, no começo eu tive bastante medo. Eu decidi com a ARTE não revelar
exatamente o que eu estava fazendo. Eu os contatei em Saint Louis, Missouri, tentei
contatá- los na subsidiária francesa, localizada em Lyon, para marcar uma reunião em
Paris. O assessor de imprensa me disse “tudo bem, eu me hospedo sempre em um
hotel atrás do Senado”. Quer dizer puro lobby!(...) (Caros Amigos, jornalista francesa
Marie-Monique, número 145, abril de 2009, p. 37)
O introdutor quer dizer na paráfrase “Quer dizer puro lobby!” remete e recategoriza a
matriz “tudo bem, eu me hospedo sempre em um hotel atrás do Senado”.
Um marcador verbal forte com caráter reformulador. No aspecto distribucional trata-se
de uma paráfrase adjacente que vem logo após a matriz. No caráter operacional, representa
uma heteroparáfrase autoiniciada, pois o entrevistado parafraseia o enunciado produzido por
outro, por sua própria iniciativa, parafraseia o enunciado produzido pelo assessor de imprensa.
No âmbito semântico, possui uma equivalência semântica fraca, pois é preciso compartilhar
76
dos mesmos conhecimentos sobre o significado da palavra lobby, para associá- la a “hospedar
sempre em um hotel atrás do senado”, representa uma paráfrase redutora, cuja função é de
resumir, concluir, denominar.
A paráfrase consiste em fazer o interlocutor crer, em persuadi- lo de que, se ele morar
bem próximo ao Senado, terá mais oportunidade de influenciar o executivo ou o judiciário na
defesa dos seus interesses, da empresa ou instituição que representa.
No próximo exemplo, que tem como tema “O ex-presidente FHC diz que decidiu
defender a descriminalização da maconha por acreditar que a política de combate às drogas
fracassou nos países do continente americano” tem-se mais exemplo do interlocutor” quer
dizer com função expansiva.
13) Veja- Muitas mães pensam da seguinte maneira: "Meu filho adolescente não fumou
maconha até hoje, entre outros motivos, porque ele sabe que, no mínimo, pode ir parar
na delegacia por causa disso. No entanto, se fumar maconha deixar de ser crime, meu
filho poderá perder esse receio e ficar mais perto das drogas". O que o senhor diria a
essas mães?
FHC- Eu diria o seguinte: o fato de o fruto ser proibido é que dá mais vontade no seu
filho de experimentá-lo. E diria que elas têm de tomar cuidado e estar o tempo todo
dizendo a ele que aquilo pode fazer mal. Mas não adianta falar que não dá prazer. Se
elas dizem isso, o filho pode responder: "Ah, mas o meu amigo fumou e não é nada
disso". A imagem mais apropriada a ser usada para fazer um alerta é a da sereia. Se
você ceder ao seu beijo, meu filho, ela vai levá-lo para o fundo do mar. Quer dizer,
embora você possa ter um prazer momentâneo, isso vai ter um preço. (Veja, Fernando
Henrique Cardoso, Edição 2131, 23 de setembro de 2009, p. 2)
O introdutor quer dizer é um marcador verbal forte, com paráfrase adjacente,
autoparáfrase autoiniciada, com equivalência semântica fraca. Trata-se de um paráfrase
expansiva com função de exemplificar, explicitar o argumento defendido.
O introdutor na paráfrase “Quer dizer, embora você possa ter um prazer momentâneo,
isso vai ter um preço.” Retoma, recategoriza, reformula, sintetiza a matriz, “A imagem mais
apropriada a ser usada para fazer um alerta é a da sereia. Se você ceder ao seu beijo, meu
filho, ela vai levá-lo para o fundo do mar.”, ao mesmo tempo em que a remete. O entrevistado
usa a metáfora do “beijo da sereia” para fazer com que seu interlocutor entenda “mais
concretamente” que a maconha permite que o usuário tenha uma sensação de alívio, podendo
tornar-se um dependente e depois não conseguir mais abandonar o vício, persuade seu
interlocutor e o faz crer no que defende.
77
3.2.3 Isto é
Segundo Hilgert (1989), há marcadores especializados de equivalência, é o caso deste
introdutor. O introdutor isto é, no corpus analisado, representou um introdutor de paráfrase,
com função predominante de explicação.
No exemplo, a seguir, será analisado o reformulador isto é e suas funções na entrevista
que tem como tema, “a menina de 9 anos estuprada pelo padrasto que engravidou de gêmeos e
fez um aborto legal e a posição contrária da igreja católica sobre a questão”, com função
expansiva.
14) Veja- Por que estupradores não são também automaticamente excomungados?
Dom José - A nossa santa Igreja condena todos os pecados graves. O estupro é um
pecado gravíssimo para a Igreja, assim como o homicídio. Agora, a Igreja diz que o
aborto, isto é, o ato de tirar a vida de um inocente indefeso, é muito mais grave que o
estupro, que o homicídio de um adulto. Qualquer pessoa inteligente é capaz de
compreender isso. Eu não estou dizendo que o estupro e a pedofilia são coisas boas.
Mas o aborto é muito mais grave e, por isso, a Igreja estipulou essa penalidade
automática de excomunhão. (Veja, bispo Dom José Cardoso Sobrinho, Edição 2104,
18 de março de 2009, p. 2)
A expressão isto é, introdutora da paráfrase “o ato de tirar a vida de um inocente
indefeso”, remete a mais especificamente um termo da matriz, ao mesmo em que o
recategoriza, “aborto” em “Agora a Igreja diz que o aborto”. O introdutor isto é, é um
marcador verbal forte, com paráfrase adjacente, autoparáfrase autoiniciada, com equivalência
semântica fraca e paráfrase expansiva, com função de explicar e aparentement e definir com
neutralidade a palavra aborto. No entanto, “tenta” persuadir, fazer crer que realmente o
significado da palavra aborto, ou seja “tirar a vida de um inocente indefeso”. Esse é um
exemplo típico de recategorização por paráfrase.
O entrevistado, com a construção da paráfrase, procura convencer seu interlocutor, de
que o aborto é um ato ilícito. No dicionário, a definição de aborto é “expulsar o feto em
desenvolvimento antes do parto”. Dessa forma, a paráfrase não está no texto somente como
uma mera explicação, mas como estratégia argumentativa, pois direciona o leitor a se
submeter à aceitação de uma ideia, não de modo a ser enganado, e sim a reagir
emocionalmente, concordando com a ideia defendida pelo entrevistado, contrária ao aborto.
78
O ato de persuadir segundo Citteli (2001, p. 67) pode ser “apenas a representação do
desejo de se prescrever a adoção de alguns comportamentos, cujos resultados finais
apresentam saldo socialmente positivos”. O autor dá exemplo da campanha de vacinação em
que é feita propaganda institucional com preocupação persuasiva, para convencer de que é
importante a vacinação e formar atitude que poderá melhorar a saúde das crianças.
No exemplo, a seguir, será analisado o reformulador isto é e suas funções na entrevista
que tem como tema, “A rediscussão do Brasil sobre o Tratado de Itaipu, assinado em 1973
entre as ditaduras paraguaia e brasileira”, com função redutora.
(15) Caros Amigos- O sr. defende uma perspectiva que se aproxima da relação proposta
por Paulo Freire entre intelectuais, movimentos sociais e populares e a produção do
conhecimento.
Defendo uma pedagogia problematizadora e crítico-participativa, contrária à
meramente transmissora, definida por Freire como “educação bancária”. Na opção
libertadora, o conhecimento é construído pela pessoa e não recebido como um pacote.
O conhecimento é construído a partir do contato ativo e transformador com a realidade
do mundo e da vida. A construção passa pela “conscientização”, mediante a qual a
pessoa percebe a sua realidade como um problema que pode ser resolvido ou
melhorado. Ao participar da transformação da realidade, a pessoa se transforma, isto é,
se educa. A educação problematizadora, ao mesmo tempo em que forma o
profissional, forma o cidadão. Essa pedagogia pode transformar a atual cultura
paraguaia autoritária e de baixa autoestima numa cultura da dignidade, da
solidariedade e da inovação. (Caros Amigos, escritor Juan Diaz Bordenave, número
137, agosto de 2008, p. 16)
O elemento introdutor isto é da paráfrase “isto é se educa” remete à matriz “Ao
participar da transformação da realidade, a pessoa se transforma”, ao mesmo tempo em que
a recategoriza. Isto é é um marcador verbal forte, com uma paráfrase adjacente, é uma
autoparáfrase autoiniciada, com equivalência semântica fraca, pois é devido ao
conhecimento extratextual, é que se pode relacionar educação com transformação. É uma
paráfrase redutora, com a função, de resumir e concluir.
O entrevistado também persuade seu interlocutor, pois na medida em que apresenta a
educação com esse poder transformador, a pedagogia problematizadora e críticoparticipativa, a qual defende, deve ser adotada para formar o profissional e também o
cidadão.
79
No próximo tópico serão vistos, exemplos do introdutor de paráfrase, em outras
palavras.
3.2.4 Em outras palavras
Segundo Hilgert (1989), o marcador em outras palavras, também é especializado em
equivalência. Segundo Koch (2000) visa a esclarecer, retificar. O introdutor, no corpus
analisado, representou um introdutor de paráfrase, com função de explicação.
No exemplo a seguir, cujo tema é, “O mercado de trabalho e a desigualdade no Brasil”
será analisado mais um reformulador em outras palavras e suas funções.
16) Caros Amigos - O senhor diz que essa crise é de produção e consumo. Explique o que
é a crise de consumo?
O que deu sustentabilidade de longo prazo ao capitalismo no século 20 foi a produção
de bens de consumo duráveis, como por exemplo, a casa própria e o automóvel. Não
são apenas eles, mas a casa e o automóvel simbolizam o consumo no capitalismo do
século 20. A produção desses bens se difundiu pelo mundo, no entanto, apenas um
quarto da população mundial tem acesso a esse padrão de consumo. Apenas um
quarto. É o que praticamente temos no Brasil. Para que esse padrão de consumo
tivesse padrões mundiais, especialmente no mundo onde a renda per capita é muito
baixa, foi necessário o aprofundamento do subdesenvolvimento, que é o que se
pressupõe no Brasil. Em outras palavras: para que aqui no Brasil pudesse se instalar a
indústria automobilística e a produção nacional comparável a dos países ricos foi
necessário concentrar profundamente a renda, para poder viabilizar o padrão de
consumo dos mais ricos. Se a gente for a qualquer cidade brasileira a gente vê
segmentos sociais que participam de alto padrão de consumo. Há bairros de qualquer
cidade brasileira onde há casas com garagem com quatro, cinco carros, cada membro
da família tem um automóvel. Há casas compatíveis com padrão hollywoodiano de
habitação. (Caros Amigos, economista Márcio Pochmann, número 149, agosto 2009,
p. 26)
O introdutor Em outras palavras na paráfrase “Em outras palavras: para que aqui no
Brasil pudesse se instalar a indústria automobilística e a produção nacional comparável a dos
países ricos foi necessário concentrar profundamente a renda, para poder viabilizar o padrão
de consumo dos mais ricos” remete à matriz, ao mesmo tempo em que a recategoriza, “Para
que esse padrão consumo tivesse padrões mundiais, especialmente onde a renda per capita é
80
muito baixa, foi necessário o aprofundamento do subdesenvolvimento, que é o que se
pressupõe no Brasil”.
O introdutor em outras palavras é um marcador forte, com paráfrase adjacente, é uma
autoparáfrase autoiniciada, com equivalência semântica fraca, há uma expansão parafrástica,
com função de explicar, definir, pois para que esse padrão de consumo tivesse padrões
mundiais teve de se aprofundar o subdesenvolvimento e a paráfrase desenvolve como seria
alcançado esse padrão “concentrar para viabilizar o padrão de consumo dos mais ricos”.
De certa forma, o entrevistado pretende a seu interlocutor fazer crer, persuadir de que
com a concentração de renda é que se pode viabilizar o padrão de consumo, porém dos mais
ricos. Houve uma reformulação parafrástica com desenvolvimento da paráfrase pela
introdução do elemento enunciador, em outras palavras, com argumentos para obter a adesão
do interlocutor sobre a necessidade da concentração da renda para viabilizar o consumo dos
mais ricos.
No exemplo a seguir, cujo tema é, “O principal representante dos céticos diz que o
combate ao aquecimento global tem de se basear em tecnologia, e não em mudanças no
consumo”, terá como material de análise, o reformulador em outras palavras, com função de
resumir.
17) Veja- Por que o senhor é cético em relação às previsões sobre o aquecimento global?
Discordo da forma como as discussões sobre esse tema são colocadas. Existe a
tendência de considerar sempre o pior cenário – o que aconteceria nos próximos 100
anos se o nível dos mares se elevar e ninguém fizer nada. Isso é irreal, porque é óbvio
que as pessoas vão mudar, vão construir defesas contra a elevação dos mares. No
entanto, isso é só uma parte do que tenho dito. Sou cético em relação a algumas
previsões, sim. Mas sou cético principalmente em relação às políticas de combate ao
aquecimento global. O problema principal não é a ciência. Precisamos dos cientistas.
A questão é que tipo de política seguir. E isso é um aspecto econômico, porque
implica uma decisão de gastar bilhões de dólares de fundos sociais. Em outras
palavras, não sou um cético da ciência do clima, mas um cético da política do clima.
Basicamente, digo que não estamos adotando as melhores políticas porque não
estamos pensando onde gastar o dinheiro para produzir os maiores benefícios. (Veja,
cientista político Bjorn Lomborg, Edição 2144, 23 de dezembro de 2009, p. 1)
O introdutor Em outras palavras da paráfrase “Em outras palavras, não sou um cético
da ciência do clima, mas um cético da política do clima” que remete à matriz e a recategoriza,
81
“Sou cético em relação a algumas previsões, sim. Mas sou cético principalmente em relação
às políticas de combate ao aquecimento global”.
O reformulador em outras palavras é um marcador verbal forte, com paráfrase não
adjacente, pois a paráfrase não segue imediatamente à matriz, há orações intercaladas entre a
matriz e a paráfrase. No aspecto distribucional, representa uma autoparáfrase autoiniciada,
com equivalência semântica fraca e a paráfrase é classificada como redutora, com função de
resumir, concluir.
O entrevistado persuade seu interlocutor, em que acredita na ciência do clima e não
acredita na política do dinheiro que é gasto e investido com o clima. “E isso é um aspecto
econômico, porque implica uma decisão de gastar bilhões de dólares de fundos sociais”,
combatendo o aquecimento global e não pensando em gastar o dinheiro para produzir
benefícios para o clima.
No próximo tópico será visto, exemplo do introdutor de paráfrase, em resumo, com
função redutora.
3.2.5 Em resumo
Nos exemplos analisados, foi verificado somente um introdutor de paráfrase, com
função redutora, de resumir, de concluir.
No trecho da entrevista a seguir, sobre o tema “O principal representante dos céticos
diz que o combate ao aquecimento global tem de se basear em tecnologia, e não em mudanças
no consumo”, é analisado o reformulador em resumo, com as respectivas classificações de
paráfrase.
18) Veja - O nível educacional e a classe social dos pais têm muita influência sobre o
futuro dos filhos?
Tem mais influência do que a genética. O melhor indicador de doença mental, de
qualquer doença mental, é a classe social, e não os genes. Por hipótese, suponhamos
que há um grupo de 1 000 bebês lá fora. Você e eu vamos pesquisá- los para
determinar quais bebês poderão estar sofrendo de depressão aos 30 anos de idade.
Você só pode examinar os genes dos bebês. Eu só posso examinar a educação e o
nível de renda dos pais dos bebês. Meu resultado será mais exato do que o seu. Os que
ocupam o topo da pirâmide social, em termos de educação, trabalho e renda, têm
menos doença mental, vivem sete anos a mais e seus filhos são mais saudáveis. Em
82
resumo, são pessoas mais felizes. (Veja, psicólogo Jerome Kagan, Edição 2150, 3 de
fevereiro de 2010, p. 3)
O elemento introdutor em resumo na paráfrase “Em resumo, são pessoas mais felizes”
retoma e recategoriza a matriz “Os que ocupam o topo da pirâmide social, em termos de
educação, trabalho e renda, têm menos doença mental, vivem sete anos a mais e seus filhos
são mais saudáveis”.
O introdutor em resumo é um marcador forte, com paráfrase adjacente, é uma
autoparáfrase autoiniciada, com equivalência semântica fraca e classificada como paráfrase
redutora, com função de resumir, de concluir a matriz.
O entrevistado, ao utilizar o marcador em resumo, além de resumir, persuade e faz
crer, reiterando a ideia que defende que é a de que o nível educacional e a classe social dos
pais têm mais influência do que a genética, pois as crianças que estão no topo da pirâmide
social, possuem uma classe social mais favorecida são mais saudáveis, são mais favorecidas
também na educação, no trabalho e por esse motivo, são pessoas mais felizes.
Koch (2000, p.104) considera que estes operadores argumentativos – isto é, ou seja,
em resumo, em outras palavras - têm por objetivo conseguir a adesão ou a concordância do
interlocutor, vencendo-lhe a resistência. É o que acontece no caso em questão, pois o
entrevistado procura conseguir a adesão de seu interlocutor, o entrevistador e do leitor, no
sentido de concordar com a ideia de que a educação, trabalho e renda refletem e representam
o diferencial no comportamento dos filhos, no caso em questão, de que “Os que ocupam o
topo da pirâmide social, em termos de educação, trabalho e renda, têm menos doença mental,
vivem sete anos a mais e seus filhos são mais saudáveis.”. O elemento em resumo, não é
somente resumitivo, apesar do significado da palavra, pois usa este termo, para concluir seus
argumentos, como também para persuadir o leitor a aderir às suas ideias, de que as pessoas
que têm melhores condições de educação, trabalho e renda são mais felizes.
No próximo item será visto um exemplo, com o introdutor de paráfrase em síntese,
com função redutora.
3.2.6 Em síntese
Nos exemplos analisados, foi verificado somente um introdutor de paráfrase, com
função predominante redutora, de resumir, de concluir.
83
No trecho da entrevista a seguir, sobre o tema, “a pena é maior que o crime de tortura
por omissão”, em que é analisado o reformulador em síntese, com função de concluir.
19) Caros Amigos- Você estava falando sobre os poucos casos de tortura da pesquisa que
você fez. Eu queria que você comentasse um pouco sobre a tradição patrimonalista do
Brasil. Uma pena de furto é maior que uma pena de tortura.
Eu não me conformo com isso. Eu não sou a favor de penas altas, longe de mim achar
que penas altas resolvem algum problema de qualquer natureza. Como eu já disse,
acho que ninguém tem a noção do que significa um dia de prisão. O que eu acho que
existe é uma completa inversão de valores, e o exemplo mais claro para mim é esse da
tortura e do furto. Então eu sempre dou um exemplo assim: “Se eu Tatiana resolvemos
subtrair a bolsa ou livro que está ali e fomos embora, a pena é maior que o crime de
tortura por omissão”. É uma coisa maluca isso. Então um furto qualificado tem um
peso maior que a dignidade humana. A tortura, em síntese, um crime de tortura viola a
dignidade humana. (Caros Amigos, juíza Kenarik Boujikian, número 152, novembro
de 2009, p. 15)
O marcador em síntese na paráfrase “A tortura, em síntese, um crime de tortura viola a
dignidade humana” remete à matriz, ao mesmo tempo em que a recategoriza “Então um furto
qualificado tem um peso maior que o crime de tortura por omissão”.
O reformulador em síntese é um marcador verbal forte, com paráfrase não adjacente,
pois não se apresenta imediatamente à matriz, representa uma autoparáfrase autoiniciada,
possui equivalência semântica fraca, com paráfrase redutora com função de concluir os
argumentos defendidos, resumir as informações contidas na matriz.
Há uma tentativa de persuadir, ao usar a expressão em síntese para introduzir uma
paráfrase com a função de resumir, pois ao defender que um crime de tortura é muito pior,
pois viola a dignidade humana, faz o leitor crer nisso.
3.3 Análise dos gráficos
Com base na observação quantitativa das ocorrências de introdutores de paráfrases
encontrados nas 13 entrevistas dos três veículos escolhidos para análise (5 para a Veja, 4 para
a Isto é e 4 para a Caros Amigos, com um total de 38 introdutores, propõe-se, nesta parte,
alcançar os seguintes objetivo s: a) comprovar a
frequê ncia dos introdutores no gênero
entrevista; e b) fazer levantamento de itens e expressões lexicais que funcionam como
introdutores de paráfrases no corpus analisado.
84
O gráfico 1 mostra o grau de ocorrência de cada um dos introdutores nas revistas.
Gráfico 1- Os introdutores nas revistas
Ao se fazer uma análise quantitativa dos introdutores de paráfrases, tem-se: Caros
Amigos com 26 introdutores, Veja com 8 e Isto é com 4, em um total de 38 introdutores
analisados. Observando-se esse total de ocorrências das três revistas, constata-se que os
introdutores que possuem maior frequencia são: ou seja e quer dizer, com respectivamente 20
e 11 ocorrências; seguidos de isto é, com 3 e em outras palavras, com 2 e por último, em
resumo e em síntese, com uma ocorrência cada.
O número de ocorrências de cada introdutor por revista pode ser fator relevante para
análise, se combinado com outros fatores como “estilo do entrevistado”. Chamam a atenção
as semelhanças e diferenças: em Veja foram encontrados 3 ou seja , 2 quer dizer, 1 isto é, 1
em outras palavras, 1 em resumo; em Isto é, 2 ou seja, 2 quer dizer; em Caros Amigos, 15 ou
seja, 7 quer dizer, 2 isto é, 1 em outras palavras, 1 em síntese.
O gráfico 2 mostra o uso de introdutores por entrevistados.
85
Gráfico 2- Os introdutores por entrevistados
Ao analisar os introdutores de paráfrases por entrevistados, percebe-se uma maior
frequência no discurso do economista Márcio Pochmann, com 17 ocorrências, sendo 14 ou
seja, 1 quer dizer, 1 isto é, 1 em outras palavras. Esse uso tão recorrente de ou seja pelo
entrevistado confirma a hipótese de que a escolha dos introdutores está relacionada a
estratégias de persuasão adotadas no discurso de cada um dos entrevistados. Já no texto de
abertura da entrevista com o economista, encontram-se afirmativas que indicam, pelo uso dos
adjetivos “categórico” e “enfático”, a intenção persuasiva do entrevistado, tais como:
“Pochmann é categórico quando fala em educação” e “É enfático ao tratar de república e
democracia no Brasil”.
Em outra entrevista analisada, com a jornalista francesa Marie Monique Robin,
também se observa uma significativa intenção persuasiva, com 7 ocorrências de paráfrases,
sendo 6 com o introdutor quer dizer e 1 ocorrência de ou seja.
A preferência por determinado introdutor, Pochmann por ou seja e Marie Monique por
quer dizer, pode ser justificada com base no que Bakhtin (2003) considera sobre a
composição dos gêneros: o conteúdo temático, a construção composicional e o estilo (cf. item
1.3.2, p. 39, desta dissertação).
Em outras três entrevistas analisadas, percebe-se um total de duas de ocorrências em
cada. No discurso do psicólogo Jerome Kagan, foram encontrados um introdutor ou seja e um
em resumo. Na entrevista do bispo Dom José Cardoso Sobrinho, um introdutor quer dizer e
um isto é. Esse número baixo de ocorrências de paráfrases com introdutores pode ser
86
interpretado como indicador de construção discursiva mais direta e menos reformuladora, o
que não quer dizer que não seja argumentativa ou persuasiva, já que a paráfrase é apenas uma
dentre as várias estratégias de argumentação e de reformulação.
Em seguida tem-se a entrevista do cientista político Bjorn Lomborg, com uma
ocorrência de ou seja e com uma de em outras palavras.
Nas demais entrevistas foi registrado um menor número de ocorrências, todas com
uma ocorrência apenas, mas com introdutores diferentes, predominando ou seja e quer dizer.
Esse dado estatístico não deve ser tomado para invalidar observações de ordem qualitativa, já
que seria necessário ainda considerar muitos outros fatores, tais como diferenças de
tratamento das entrevistas pelas revistas, maior extensão das entrevistas na Caros Amigos, etc.
O gráfico 3 mostra a classificação dos introdutores em fracos e fortes.
Gráfico 3- A distribuição dos introdutores em fracos e fortes
Foi observada em nossa pesquisa uma maior frequência de marcadores verbais fortes
(cf. HILGERT, 1989) com significação lexical explicitamente reformuladora, no total de 30
ocorrências, e menor frequência de marcador verbal fraco, com 8 ocorrências. A partir desse
resultado, foi identificada uma escala decrescente, em número de ocorrências, de marcadores
fortes e fracos: ou seja, com 12 fortes e 6 fracos; quer dizer com 10 fortes e 2 fracos; isto é,
com 3 marcadores fortes; em outras palavras, com 2 marcadores fortes; em resumo e síntese,
com um marcador forte cada.
87
O gráfico 4 mostra a distribuição dos introdutores em paráfrases adjacentes e não
adjacentes.
Gráfico 4- Os introdutores e as paráfrases adjacentes e não adjacentes
Foram localizadas 33 paráfrases adjacentes, que vem logo em seguida à sua matriz, e 5
paráfrases não adjacentes, em que, entre ela e a matriz, se insere um segmento textual.
Portanto, os introdutores colocados em ordem decrescente de ocorrências, apresentam-se
respectivamente: ou seja, com 18 paráfrases adjacentes e uma paráfrase não adjacente; quer
dizer com 11 adjacentes e um caso de paráfrase não adjacente; isto é, com dois casos de
paráfrases adjacentes e um não adjacente; em outras palavras, com uma ocorrência de cada;
em resumo, com uma ocorrência de paráfrase adjacente; e em síntese, com um caso de
paráfrase não adjacente.
O gráfico 5 apresenta a frequência dos introdutores em paráfrases classificadas quanto
ao aspecto operacional: em autoparáfrase autoiniciada, autoparáfrase heteroiniciada,
heteroparáfrase autoiniciada e heteroparáfrase heteroiniciada.
88
Gráfico 5- Os introdutores e os aspectos operacionais das paráfrases
Já no que compete ao aspecto operacional, foram registradas 36 autoparáfrases
autoiniciadas e 2 casos de heteroparáfrase autoiniciada. Dentre o total de autoparáfrases
autoiniciadas, tem-se: ou seja com 19; quer dizer com 10; isto é com 3, em outras palavras
com duas, em resumo com uma e em síntese com uma. Os dois casos de heteroparáfrase
autoiniciada foram com o introdutor quer dizer.
O gráfico 6 mostra a distribuição dos introdutores segundo os graus de equivalência
fracos e fortes da paráfrase.
89
Gráfico 6- Os introdutores e o grau de equivalência da paráfrase
Quanto ao grau de equivalência semântica entre a paráfrase e a matriz, adota-se como
classificação os parâmetros fraco e forte. Foram encontradas 30 ocorrências de introdutores
em paráfrases com equivalência semântica fraca e 8 ocorrências em paráfrases com
equivalência semântica forte. Por introdutores, tem-se: ou seja em 13 paráfrases com
equivalência semântica fraca e em 6 fortes; quer dizer em 10 fracas e duas fortes; isto é em 3
fracas; em outras palavras com 2 fracas, em resumo em uma fraca; e em síntese em uma
ocorrência de equivalência fraca.
O gráfico 7 mostra a frequência dos introdutores segundo os aspectos semânticos das
paráfrases, compreendidas como expansiva, redutora ou paralela.
Gráfico 7- Os introdutores e os aspectos semânticos das paráfrases.
Quanto ao aspecto semântico da paráfrase, foram encontrados: 22 casos de paráfrases
redutoras, 11 de paráfrases expansivas e 5 de paráfrases paralelas. Visto por introdutores,
apresentam-se: com ou seja, 10 paráfrases redutoras, 5 expansivas, 4 paralelas; com quer
dizer, 7 paráfrases redutoras, 4 expansivas e uma paralela; com isto é, duas redutoras e uma
expansiva; com a expressão introdutora em outras palavras, uma paráfrase redutora e uma
expansiva; com em resumo, uma paráfrase redutora; e com em síntese, uma redutora.
O gráfico 8 apresenta o uso de introdutores segundo a distribuição das entrevistas por
tema predominante.
90
Gráfico 8- Os introdutores por tema da entrevista
Em ordem decrescente de ocorrências, foi encontrado um total de 17 introdutores de
paráfrase com o tema economia: 14 ou seja, 1 quer dizer, 1 isto é, 1 em outras palavras. Na
editoria de ciências, foram localizados 8 introdutores: 6 quer dizer, 1 ou seja, 1 em outras
palavras. O tema comportamento totalizou 6 introdutores: 2 ou seja, 2 quer dizer, 1 isto é, 1
em resumo.
Nas editorias de política, religião e direito foram encontradas duas ocorrências em
cada: política, com 1 quer dizer e com 1 isto é; religião, também com1 quer dizer e com 1 isto
é; e direito, com 1 ou seja e 1 em síntese. Com menor ocorrência, encontra-se o tema esporte,
com 1 quer dizer.
As ocorrências mais frequentes de ou seja em economia e de quer dizer em ciência
podem ser justificadas por especificidades das editorias e pela função referencial de cada um
dos introdutores. O introdutores ou seja e quer dizer apresentam, proporcionalmente, dentre
os demais introdutores, altos índices de marcadores fortes (v. gráfico 3), e por isso, também se
apresentam muito frequentes em paráfrases com equivalência semântica fraca (v. gráfico 6), o
que pode ser característico dos textos de economia e ciência, que apresentam paráfrases com
contextos de maior grau de recategorização de sentidos e, portanto, também de persuasão.
91
IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No estudo sobre o parafraseamento, a que se propôs esta pesquisa, pode-se constatar,
considerando as entrevistas jornalísticas que compõem o corpus, que a paráfrase é uma
estratégia de construção textual, do ponto de vista da coesão e da coerência, e, também da
intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, informatividade e intertextualidade. Neste
trabalho, foram focalizados, em especial, os fatores de coesão e intencionalidade, observandose que as paráfrases se estabelecem entre as atividades de reformulação, através das quais
novos enunciados remetem a enunciados anteriores, com mudanças que podem ser observadas
em diferentes graus (parciais > totais). As paráfrases implicam, portanto, algum deslocamento
de sentido, o que converge para a progressão referencial. Nas entrevistas, foi observado que as
paráfrases recategorizam o objeto de discurso e que, no caso do gênero textual focalizado, e
constroem um texto mais argumentativo e persuasivo.
A partir da seleção das expressões introdutoras de paráfrases, identificou-se, na
análise, que esses introdutores podem ter mais de uma função, o que dependerá do contexto.
Baseando-se nas classificações de Hilgert (1989, 1993), que considera tanto os introdutores
quanto as paráfrases em seu aspecto distribucional, operacional e semântico, verificou-se que
o uso dos variados introdutores deve ser considerado para identificar diferentes tipos de
paráfrases, mas a análise mostra também que qualquer tipologia adotada deve ser tomada
mais como uma orientação, e não como uma tipologia suficiente para abranger o fenômeno
parafrástico. A classificação, por exemplo, em graus de equivalências (fortes e fracos)
permitiu considerá- los como dependentes do contexto das paráfrases que introduzem, sendo
que dificilmente as paráfrases são neutras, podendo estar relacionadas à recategorização do
enunciado, que pode se dar de forma mais ou menos explícita.
Portanto, ao se fazer o levantamento dos introdutores de paráfrase, observou-se a
frequência de sua ocorrência no gênero entrevista, além de ter sido possível comprovar sua
funcionalidade na composição das paráfrases como estratégias de persuasão, de argumentação
e de referenciação utilizadas pelo entrevistado. Ainda foi possível conferir que a paráfrase
pode ser vista como uma atividade reformuladora, com potencial de recategorização, remissão
e retomada do objeto de discurso, que vai sendo construído ao longo da trama discursiva.
A abordagem sobre os gêneros textuais permitiu o reconhecimento dos elementos
responsáveis pela construção dos gêneros, a construção composicional, o conteúdo temático e
o estilo, que contribuem para identificar a intenção do locutor. A partir de tais elementos que
92
compõem os gêneros, foi possível constatar que a preferência do entrevistado por determinado
introdutor está relacionada também a esses fatores, como ao estilo do entrevistado.
A partir dos estudos sobre as entrevistas jornalísticas foi possível identificar no corpus
os seguintes indicadores para uma tipologia mais ampla desse gênero, entrevista conceitual e
entrevista investigativa, baseando-se em Medina (1986), entrevista política e de especialista,
com base em Charaudeau (2007), diálogos assimétricos nas entrevistas em geral, apontados
por Hilgert (1989).
No último estágio do caminho percorrido na elaboração e apresentação dos
pressupostos teóricos, foi possível constatar que, em Abreu (2005), argumentar é o ato de
convencer, pelo campo da razão, das idéias, e persuadir, pelo campo das emoções. Em Citelli
(2001), persuadir é levar as pessoas a aceitarem uma idéia. Em Charaudeau (2007) a condição
de finalidade que deve ser organizada em prol de um objetivo, que são as visadas, dentre elas,
“fazer crer”, na tentativa de levar o outro a pensar, que o que está sendo dito é verdadeiro (ou
possivelmente verdadeiro).
A partir da análise quantitativa, foi possível constatar, que há no corpus da pesquisa,
um grande número de marcadores verbais fortes, com característica explicitamente
reformuladora, porém que iniciam uma quantidade maior de paráfrases com equivalência
semântica fraca. Constata-se que se torna necessária a presença do marcador verbal forte,
quando o caráter de equivalência semântica for fraco, para garantir que haja a reformulação
por paráfrase.
Há também no corpus, um grande número de paráfrases adjacentes, que se
caracterizam como paráfrases prototípicas, aquelas que apresentam seus elementos
introdutores logo após a matriz.
No aspecto operacional, foi encontrado um maior número de autoparáfrases
autoiniciadas, pois é o próprio entrevistado que se propõe a parafrasear seu enunciado, sendo,
assim, desencadeada por quem a produziu; no caso das entrevistas estudadas, desencadeada
pelo entrevistado, o principal manipulador do enunciado. Foi observada uma quantidade
reduzida de heteroparáfrases autoiniciadas, neste caso, um interlocutor parafraseia o
enunciado produzido por outro, sendo a iniciativa de parafrasear, do próprio interlocutor, o
que pode ou não dar força à argumentação iniciada pelo entrevistado, caracterizando maior ou
menor cooperação do entrevistador na construção do texto argumentativo e persuasivo.
Foi constatada uma maior quantidade de paráfrases redutoras, as quais consistem em
conferir uma denominação adequada mais abrangente a uma formulação complexa da matriz,
com função de resumir, de denominar, de concluir, o conjunto de informações que a matriz
93
contém. Esse aspecto confirma o caráter recategorizador das paráfrases. Há casos, também, de
paráfrases expansivas, com função de dar explicações definidoras de matrizes constituídas por
noções abstratas, explicitar, precisando ou especificando informações contidas nas matrizes.
Esses casos também promovem recategorização.
As explicações ocorrem, também por
exemplificação. Em quantidade bem menor, há caso de paráfrase paralela, em que ocorre uma
ratificação, uma variação, com grau muito baixo ou “quase nulo” de recategorização.
Foi encontrado um maior número de introdutores de paráfrase no tema ou editoria de
economia e ciências, o que está relacionado ao conteúdo temático, um dos elementos
responsáveis pela composição dos gêneros, segundo Backtin, pois o conteúdo temático
assinala o que foi falado no enunciado, sendo veiculado por certa construção composicional
que se materializa na língua de acordo com o estilo do locutor.
Em geral, as paráfrases identificadas no corpus estão relacionadas a estratégias de
persuasão, contrariando, portanto, a concepção “redutora” de paráfrase, como a de um
enunciado que serviria a uma mera correção, substituição ou reajuste de termos para explicar
“melhor”, considerando uma abordagem meramente superficial da coesão e unilateral da
coerência. A revisão dos fatores de textualidade, na abordagem da referenciação, porém,
aponta a intersubjetividade na construção da referência. A paráfrase, assim, é vista como uma
importante estratégia de progressão referencial e de recategorização do enunciado, o que
mostra a relevância e a contribuição de seu estudo, nas áreas de referenciação, de
argumentação, de persuasão nas entrevistas jornalísticas. Ela não é o que, tradicionalmente,
“parecia” ser, como foi comprovado, na análise do corpus. A hipótese, de que muitas
paráfrases podem ser relacionadas à construção de enunciados mais persuasivos é mantida no
trabalho.
O desenvolvimento do tema da dissertação é importante, pois é baseado na concepção
atual de referenciação, a partir da revisão de estudos sobre paráfrase. A pesquisa contribui nas
áreas de leitura e produção textual, desde o nível de ensino básico da Língua Portuguesa ao
nível superior, em diferentes áreas do conhecimento; além de colaborar com o estudo do
gênero entrevista jornalística, em particular, com o estudo da manifestação do modo de dizer
argumentativo.
94
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101
ANEXOS
VEJA - Edição 2150- 3 de fevereiro de 2010
Entrevista: Jerome Kagan
A ansiedade pode ser boa
O
psicólogo
que
passou
meio
século
desenvolvimento
infantil
diz
que
a
mãe
não
é
do que o pai e alerta para o erro de tentar suprimir a ansiedade
estudando
o
mais
influente
André Petry, de Boston
Jerome Kagan, um dos grandes psicólogos do século XX, está de volta à moda. Em cinquenta
anos de pesquisas sobre o desenvolvimento infantil, Kagan dedicou-se ao estudo da
ansiedade, e, quanto mais a doença aparece na sociedade moderna, mais atenção seu trabalho
ganha. Aos 80 anos (parecem 65), ele joga tênis três vezes por semana e, mesmo aposentado
desde 2000, segue batendo ponto no seu escritório na Universidade Harvard e mantém a
língua afiada de sempre. Nesta entrevista a VEJA, durante a qual psicanaliticamente fumou
cachimbo, ele critica pediatras e obstetras, diz que Freud disseminou o equívoco de que a
ansiedade é ruim e - para alívio das mães e festa das feministas - afirma que a mãe não é mais
influente do que o pai na criação dos filhos.
VEJA - Estamos vivendo a "era da ansiedade"?
Jerome Kagan - A incidência hoje não é maior do que era ontem. No século XVI, a
ansiedade vinha do risco de morrer antes dos 35 anos de doença infecciosa, ser assaltado na
beira da estrada entre uma cidade e outra, ofender Deus e ir para o purgatório. Hoje, estamos
ansiosos em relação a coisas diferentes, como status social, sucesso profissional, relação com
amigos e cônjuges. O que determina a frequência e a intensidade da ansiedade são os genes, e
os genes não mudaram do século XVI para cá. Mas o que determina o alvo da ansiedade é a
cultura, e isso mudou.
VEJA - A ansiedade é ruim?
Jerome Kagan - Desde que Freud disse que todas as neuroses vêm da ansiedade, passamos a
ter um entendimento cultural de que a ansiedade é uma coisa tóxica. Não é. Todos nós somos
ansiosos. Faz parte da condição humana, como ficar cansado, errar, sentir-se culpado,
frustrado ou envergonhado. Não existe civilização em que ninguém fica ansioso. A ansiedade
tem vantagens. As pessoas ansiosas são muito responsáveis e conscientes. Quando eu
selecionava meus ajudantes de pesquisa, sempre que possível optava por jovens ansiosos,
tímidos e introvertidos, porque eles trabalham com afinco e erram menos. Há pessoas ansiosas
simplesmente brilhantes.
VEJA - Albert Einstein era ansioso?
Jerome Kagan - Pela biografia dele, eu diria que não, mas T.S. Eliot era seguramente ansioso
e ganhou o Nobel de Literatura em 1948. O matemático Paul Dirac era extremamente ansioso
102
e também ganhou o Nobel de Física em 1933. Uma pessoa pode ser intensamente ansiosa,
mas, se ela consegue trabalhar, relacionar-se no casamento, cumprir seu papel de pai ou mãe,
não há problema. A ansiedade será um problema se atingir um estágio clínico, no qual vira
doença, a superansiedade. Do contrário, só será problema para quem acha que é um problema.
Conheço indivíduos altamente ansiosos que não interpretam sua cond ição como problema.
Entendem que a vida é assim mesmo e estão satisfeitos.
VEJA - De onde vem a superansiedade?
Jerome Kagan - Há dois argumentos. Os biólogos evolucionários dizem que a existência de
hipervigilantes entre membros de nossa espécie foi decisiva na luta contra os predadores. Sob
esse ponto de vista, portanto, a ansiedade foi uma vantagem adaptativa. O argumento
contrário deriva da tese de Stephen Jay Gould (paleontólogo americano, 1941-2002) segundo
a qual nem todas as mutações são úteis e positivas. Algumas são simplesmente subprodutos
da evolução. O queixo é um exemplo. Ele não traz em si nenhuma vantagem adaptativa. O
queixo existe como consequência arquitetônica do desenho da boca, esta sim uma solução
evolutiva útil. A natureza simplesmente não saberia como construir uma boca como a nossa
sem criar como subproduto o queixo. A tese de Gould pode ser aplicada à superansiedade. Ela
seria um subproduto, uma sobra de algum outro arranjo genético positivo. Não sei qual dos
dois argumentos é o mais correto, mas ambos fazem sentido.
VEJA - Em meio século de estudos, o que lhe parece mais decisivo no desenvolvimento
infantil?
Jerome Kagan - Duas coisas. Uma é que, nos primeiros dezoito ou vinte anos, vivemos
verdadeiros estágios de maturação. Os dois primeiros anos são um estágio. De 2 a 5, outro
estágio. De 5 a 7, outro. E, quando passamos de um estágio ao outro, parte do que ocorreu
antes desaparece sem deixar vestígios. Não carregamos toda a bagagem conosco. As
experiências da primeira infância simplesmente somem, são transformadas ou eliminadas.
Antes, pensava-se que não perdíamos nada, que tudo ficava registrado. Não é verdade. A
outra coisa é que a natureza humana é como uma cebola. Trocamos as camadas externas com
facilidade. São as crenças, o comportamento. As camadas internas, mais próximas do centro,
são difíceis de mudar. São os sentimentos, a ansiedade, a raiva, o orgulho. Carl Jung
(psiquiatra suíço, 1875-1961) entendeu isso com seu conceito de "persona" e "anima".
"Persona" é a camada externa, é o que nós vemos um no outro. "Anima" é o que está dentro
da cebola, e nós não vemos.
VEJA - A biologia é destino?
Jerome Kagan - Depende. Há doenças, pouquíssimas doenças, que quase certamente vão se
desenvolver em quem tiver determinados genes. É o caso de Huntington (doença
degenerativa do sistema nervoso central). Felizmente, menos de 1% da população tem os
genes de Huntington. No outro extremo, há doenças, muitas doenças, que só se
desenvolverão, mesmo em quem tiver os genes errados, caso numerosos fatores externos se
combinem para deflagrar a moléstia. São muitas as pessoas com esses genes, mas é provável
que nunca tenham as doenças. Portanto, a resposta é não: biologia não é destino.
VEJA - Pais ansiosos terão filhos ansiosos?
Jerome Kagan - Se a ansiedade dos pais decorre de uma característica de sua natureza, a
probabilidade de que seus filhos sejam ansiosos é um pouco mais alta. Isso porque estamos
103
falando de hereditariedade. Mas, se a ansiedade dos pais tiver origem no ambiente, no meio
em que vivem, a possibilidade de passar a ansiedade para os filhos será menor.
VEJA - Qual a influência dos pais sobre o temperamento dos filhos?
Jerome Kagan - No caso do temperamento que tem origem genética, os pais podem ajudar a
mudar o comportamento, ou seja, a forma como esse temperamento se manifesta. Eles podem
ajudar seu filho a reduzir ou silenciar a intensidade com que o temperamento aparece, mas a
vulnerabilidade estará sempre lá. Na minha pesquisa com bebês, há dois casos muito
evidentes. (A pesquisa começou em 1986, com 500 bebês, dos quais 20% se revelaram
inibidos e ansiosos, e são acompanhados até hoje por seguidores e Kagan.) Uma das
garotinhas pesquisadas, a quem chamamos de Mary, vem de uma família que lhe dá muito
apoio e incentivo. Hoje, aos 24 anos, Mary está na faculdade e vai muito bem. Outra
pesquisada, Baby 19, veio de uma família de pais divorciados e está tendo muitos problemas.
As duas, Mary e Baby 19, têm o mesmo temperamento, mas as famílias fizeram a diferença.
VEJA - O nível educacional e a classe social dos pais têm muita influência sobre o futuro
dos filhos?
Jerome Kagan - Tem mais influência do que a genética. O melhor indicador de doença
mental, de qualquer doença mental, é a classe social, e não os genes. Por hipótese,
suponhamos que há um grupo de 1 000 bebês lá fora. Você e eu vamos pesquisá- los para
determinar quais bebês poderão estar sofrendo de depressão aos 30 anos de idade. Você só
pode examinar os genes dos bebês. Eu só posso examinar a educação e o nível de renda dos
pais dos bebês. Meu resultado será mais exato do que o seu. Os que ocupam o topo da
pirâmide social, em termos de educação, trabalho e renda, têm menos doença mental, vivem
sete anos a mais e seus filhos são mais saudáveis. Em resumo, são pessoas mais felizes.
VEJA - O amor da mãe é condição necessária para a saúde mental da criança no
futuro?
Jerome Kagan - É conversa fiada. As crianças tomam consciência de si mesmas por volta
dos 2 anos de idade. Quando isso acontece, a criança, para crescer mentalmente saudável,
precisa acreditar que pelo menos um dos pais a valoriza. Pode ser a mãe ou o pai, não
necessariamente a mãe. Observe: eu usei o verbo valorizar, não o verbo amar. A criança
precisa se sentir valorizada. Na cultura escandinava, os pais não beijam nem abraçam os
filhos, nem dizem "eu te amo". Mas estão sempre reforçando nos filhos a ideia de que eles são
valorizados.
VEJA - Beijar e abraçar o filho não faz diferença?
Jerome Kagan - Depende da interpretação e do contexto cultural da criança. Uma criança
que cresce no Brasil talvez não acredite no amor de seus pais caso eles não a abracem e
beijem. Mas não é a mesma coisa na Escandinávia. Há anos, tive um aluno, filho de
mexicanos, criado na Califórnia. Não conhecia a Nova Inglaterra até se matricular em
Harvard. Quando completou seu primeiro ano aqui, perguntei o que lhe havia chamado mais
atenção. Ele riu e disse: "É estranho que os pais dos meus colegas venham visitá- los e não
deem um abraço nem um beijo nos filhos". É cultural. Ele, filho de mexicanos, de origem
latina, não entendia a indiferença física. As famílias da Nova Inglaterra não beijam nem
abraçam seus filhos, mas os filhos sabem que os pais os valorizam.
VEJA - O pediatra Berry Brazelton diz que a presença e o amor dos pais são
fundamentais para criar crianças saudáveis e seguras. Ele está errado?
Jerome Kagan - Brazelton não está errado, mas os pediatras exageram o papel da afeição no
primeiro ano de vida. Claro que os pais têm importância. Agora, é preciso entender que a
104
criança que tem laços com seus pais está mais inclinada a fazer o que os pais querem que ela
faça do que a criança que não tem os mesmos laços. É um contrato. A criança recebe carinho
e afeição e, em troca, dá o que lhe pedem. Mas suponhamos que um pai carinho so e amoroso
queira que sua filha, em pleno século XXI, cresça como uma menina do século XIX, sem
pensamentos de natureza sexual, calada e conformada. Isso será bom para a filha quando tiver
20 anos? Não. Portanto, se os pais usam os laços afetivos a serviço de bons valores, ótimo
para a criança e seu futuro. No caso de valores inadequados, seria preferível que os laços não
existissem. É disso que Brazelton não fala.
VEJA - Não seria porque partimos do princípio de que os pais fazem o melhor para seus
filhos?
Jerome Kagan - Mas essa é uma premissa errada. Os pais às vezes promovem valores
errados. Em O Caçador de Pipas, Baba, o pai, amava seu filho Amir, mas queria que fosse
um bravo, um valente, e não um escritor. O resultado foi que, com todo o amor, Baba criou
um filho ansioso e que se sentia rejeitado pelo pai. Então, o amor funciona quando os pais
promovem valores que servem para a criança no futuro.
VEJA - No início da vida da criança, o pai e a mãe são igualmente significativos?
Jerome Kagan - Se a cultura disser que são, então eles serão. Mas a nossa cultura não diz
isso. Ela nos diz que a mãe tem de amar seu filho. Nas últimas linhas de Narciso e
Goldmundo, de Hermann Hesse, Goldmundo está morrendo nos braços de Narciso e então
diz: "Mas como poderás morrer, Narciso, se não tens mãe? Sem mãe, não se pode amar. Sem
mãe, não se pode morrer". Essa é a visão ocidental. É, de novo, uma questão cultural. Na
Europa renascentista, o pai era considerado mais vital do que a mãe. Michel de Montaigne
(escritor e ensaísta francês do século XVI) escreveu que o pai era a força mais relevante, pois
a mãe era exageradamente emocional. O ideal, dizia Montaigne, era afastar logo a criança da
mãe "e usar uma cabra para amamentá-la".
VEJA - Todo casal hoje valoriza e registra em vídeo o momento em que o obstetra
entrega o bebê nos braços da mãe assim que nasce...
Jerome Kagan - Bobagem. Isso parece bruxaria.
VEJA - Mas a mãe amamentar o filho pele com pele também é dispensável?
Jerome Kagan - Isso não. Além de a amame ntação ser recomendável, o contato do bebê com
a pele da mãe traz benefícios para a saúde de ambos. Falamos da pele da mãe apenas porque o
pai não amamenta. Se amamentasse, podia ser a pele do pai.
Veja Edição 2156 - 17 de março de 2010
Eric Holder
É o nosso Nuremberg
O
secretário
de
Justiça
americano
diz
do
11
de
Setembro
ao
tribunal
será
e garante que a prisão de Guantánamo será fechada
que
levar
os
terroristas
o
"julgamento
do
século"
105
André Petry, de Washington
Na porta de madeira do gabinete do secretário Eric Holder, há cinco pequenas marcas de tiro.
Foram feitas com arma de chumbinho pelos filhos de Bob Kennedy, secretário de Justiça
americano de 1961 a 1964. Holder, o primeiro negro a ocupar esse cargo, é um admirador de
Bob Kennedy e sabe o que são tiros na porta. Há quatro meses, ele anunciou que Khalid
Sheikh Mohammed, o gerente operacional dos atentados de 11 de setembro que foi submetido
183 vezes à simulação de afogamento ao ser interrogado pela CIA, seria julgado num tribunal
civil em Manhattan, perto de onde ficavam as torres gêmeas. Desde então, Holder está sob
justificado e intenso tiroteio da oposição, que defende julgamento militar em Guantánamo.
Holder desistiu de Manhattan. Ele é da copa e cozinha do presidente Barack Obama. Foi
aliado de primeira hora, fez parte da campanha, e sua mulher, a obstetra Sharon Malone, é
amiga da primeira-dama. Mesmo assim, Holder irritou a Casa Branca com a decisão sobre
onde julgar Mohammed. Nesta entrevista, ele admite que pode até desistir de levá- lo à Justiça
civil, mas diz que os EUA estão prontos para fazer o seu "julgamento de Nuremberg".
VEJA - Quando estava previsto que Khalid Sheikh Mohammed se sentaria no banco dos
réus num tribunal civil no coração de Manhattan, o senhor disse que esse seria o
"julgamento do século". Ainda será?
Eric Holder - Creio que sim. Em 11 de setembro de 2001, sofremos o pior ataque terrorista
da nossa história, com todas aquelas mortes. Diante disso, e examinando-se as acusações
contra o réu, o julgamento certamente vai atrair a atenção mundial, e merece atraí- la.
VEJA - Julgamentos assim são uma aposta: podem servir como uma bela demonstração
de justiça ao mundo, mas também podem virar uma tribuna para proselitismo do
criminoso. Há risco de que isso aconteça?
Eric Holder - No curso desse julgamento, Khalid Sheikh Mohammed e seus compatriotas
mostrarão o que são, ou seja, assassinos. Não estamos falando de homens de substância, nem
de grandes personalidades. São homens pequenos. Quem teme que o julgamento se
transforme em algo imprevisto precisa ter isso em mente. Nosso país já lidou com gente desse
tipo no passado e, seguramente, vai lidar no futuro. Mas são pessoas que atuam à margem da
história.
VEJA - O senhor estudou com Telford Taylor, promotor americano em Nuremberg,
onde os nazistas foram julgados depois da II Guerra. Nuremberg serviu de inspiração
para definir os moldes do julgamento de Mohammed?
Eric Holder - Os julgamentos de Nuremberg foram vistos desde o começo como um
procedimento justo, e são considerados assim até hoje. Daqui a cinquenta anos, quando
olharmos para o que estamos fazendo hoje, espero que possamos dizer o mesmo. Espero que a
leitura seja de que agimos com justiça, de acordo com o que há de melhor no sistema jurídico
americano e com os nossos valores. Não é fácil fazê-lo. Nuremberg aconteceu depois do fim
da II Guerra. Nós estamos no meio de uma guerra contra o terrorismo. Mas acredito que é no
calor da batalha que mostramos se realmente somos fiéis aos nossos valores.
106
VEJA - O senhor desistiu de fazer o julgamento dos terroristas em Manhattan. Há
possibilidade de que também desista de fazê -lo em um tribunal civil, como o pressiona a
oposição?
Eric Holder - Examinamos os casos à luz da realidade, que é dinâmica. Mas, pelo menos até
agora, o caso de Khalid Sheikh Mohammed segue encaminhado para julgamento civil. é
óbvio, porém, que as condições podem mudar. Temos nossos parâmetros, nossa pedra de
toque, e consideramos o respeito à lei uma questão essencial e inegociável. Agora, dentro
dessa moldura básica, somos flexíveis. Além disso, há uma proposta no Congresso para
bloquear o financiamento para um julgamento civil.
VEJA - Fora uma determinação do Congresso, o que pode acontecer a ponto de mudar
sua decisão?
Eric Holder - Há uma gama de questões, mas realmente não posso discuti- las publicamente.
Há suspeitos que hoje são réus mas amanhã deixam de ser, porque resolvem cooperar com as
investigações, para citar um exemplo. São coisas que podem mudar nosso entendimento sobre
o que é mais apropriado.
VEJA - Um julgamento militar não seria visto como um fracasso do presidente Obama
em se distanciar das práticas do governo anterior, que incluíram prisão sem acusação
formal e tortura durante os interrogatórios?
Eric Holder - O sistema das comissões militares não é o mesmo de antes. Fizemos uma
reformulação completa. Hoje, eu me sentiria à vontade para remeter um réu a uma comissão
militar. Antes, tínhamos deficiências em relação à forma como os advogados de defesa eram
escolhidos, ao uso de informações sem provas materiais, às técnicas usadas para extrair
informação dos interrogados. Tudo isso mudou no governo do presidente Obama. As
comissões militares, agora, estão em harmonia com o que há de melhor no sistema jurídico
americano. Sei que é fácil, hoje, olhar para trás e criticar o que foi feito no governo anterior.
Tenho consciência de que eles tiveram de lidar com muitas coisas ao mesmo tempo depois do
11 de Setembro. Merecem o benefício da dúvida. Mas não sou tão caridoso com o ex-vicepresidente e sua crença persistente de que as tais técnicas heterodoxas de interrogatório
funcionam e estão em harmonia com o que este país é. Isso é inteiramente condenável.
VEJA - A opinião pública americana apoia o julgamento dos terroristas em tribunais
militares...
Eric Holder - Não estou seguro de que a opinião pública seja realmente contra o julgamento
na Justiça civil. Quando se pergunta se os suspeitos de terrorismo devem ser julgados em
cortes civis, as pessoas respondem que não. Quando são informadas de que as cortes civis têm
um extraordinário histórico de sucesso no julgamento de terroristas, com uma taxa de
condenação de 100% e com os réus fornecendo informações de inteligência, as pessoas
mudam de opinião. Então, atribuo parte da oposição captada pelas pesquisas ao
desconhecimento do desempenho das cortes civis.
VEJA - Em que é errada a visão de que os terroristas são combatentes estrangeiros em
guerra contra os EUA e, por isso, não faz sentido julgá-los como criminosos comuns com
as garantias da Cons tituição americana?
107
Eric Holder - Não existe essa dicotomia. Podemos tratar esses casos como atos criminosos
que violam nosso código penal, mas também podemos tratá-los como atos de guerra. Porque
são as duas coisas. Não vejo por que teríamos de escolher qual é a descrição mais adequada,
se, de fato, ambas o são.
VEJA - O presidente Obama prometeu fechar a prisão na Baía de Guantánamo, em
Cuba, em um ano. O prazo acabou, a prisão continua lá e já há quem diga que não fecha
mais.
Eric Holder - Não cumprimos o prazo, mas a prisão de Guantánamo será fechada.
Guantánamo não nos ajudou na guerra contra a Al Qaeda. Primeiro, porque virou um símbolo
que ajuda no recrutamento do terror. Assim como os excessos cometidos na prisão de Abu
Ghraib, em Bagdá, ajudaram os terroristas a recrutar jovens impressionáveis para suas fileiras,
Guantánamo serviu ao mesmo propósito. Hoje, não é mais o que foi nos seus dias iniciais,
mas a imagem permanece, e isso favorece o trabalho de recrutamento dos terroristas. O
segundo problema é que a existência de Guantámano complicou a relação dos EUA com os
aliados tradicionais. Já revisamos os 240 casos de presos em Guantánamo, determinamos o
que deve ser feito com cada um e, agora, estamos trabalhando com o Congresso para fechar as
instalações e arranjar um lugar para abrigar os que seguirão presos. Há a possibilidade de
comprarmos uma prisão em Thompson, no Illinois.
VEJA - O senhor já esteve em Guantánamo?
Eric Holder - Estive uma vez, logo depois de tomar posse.
VEJA - O senhor viu Khalid Mohammed?
Eric Holder - Só pela televisão.
VEJA - Há suspeitas de que o governo americano, apesar do discurso pela legalidade e
direitos humanos, continua mandando presos a países que torturam.
Eric Holder - Não, não fazemos isso. Não devolvemos um preso nem ao seu próprio país
quando há risco de que seja torturado. Nesse caso, temos de achar um país alternativo. Por
isso às vezes é tão difícil encontrar um lugar. O Departamento de Estado tem feito buscas no
mundo inteiro, literalmente no mundo inteiro, tentando encontrar lugares adequados.
VEJA - O cargo de secretário de Justiça é especialmente espinhoso porque equivale ao
de ministro da Justiça e, ao mesmo tempo, ao de procurador-geral. Até onde vai o poder
político da Casa Branca e onde começa seu zelo jurídico?
Eric Holder - Esse é o desafio de todo secretário de Justiça. Faço parte da equipe ministerial
do presidente Obama, mas, ainda assim, não posso ser político como outros membros do
ministério. Como sou o responsável pelo cumprimento das leis neste país, preciso manter
minha independência. O desafio é encontrar o equilíbrio certo entre ser independente e ser
parte do governo.
VEJA - Os críticos dizem que o senhor está menos independente e mais pró -governo, e
que os treze meses no cargo o deixaram mais sensível aos argumentos políticos.
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Eric Holder - Cabe aos outros avaliar se estou encontrando o equilíbrio correto entre ser
ministro e ser independente, mas acho que tenho hoje o mesmo nível de sensibilidade política
de antes. Tenho posições claras, sigo acreditando fortemente no nosso sistema jurídico, e não
mudei em nada. Isso é o que me guia na hora do conflito com os outros. Temos tido batalhas,
mas são batalhas de ideais, sobre o rumo que os EUA devem tomar, sobre nossa ordem
jurídica. Fundamentalmente, creio que sou o mesmo de treze meses atrás.
VEJA - O trabalho é mais difícil do que o senhor imaginava?
Eric Holder - Ser o secretário de Justiça nunca foi fácil, mas talvez agora seja um pouco mais
difícil porque há desafios simultâneos. Estamos envolvidos em esforços de guerra em dois
países e lidando com uma economia em recuperação depois da maior crise desde os anos 30.
A crise teve um enorme impacto no sistema de financiamento imobiliário, com fraudes em
hipotecas, o que cai na área do Departamento de Justiça. A crise também chegou aos governos
estaduais, que estão com os cofres menos cheios, e isso afeta as demandas das polícias locais.
Por fim, as crises econômicas tendem a elevar a taxa de criminalidade, o que repercute
igualmente no Departamento de Justiça.
VEJA - Existe algum segredo para combater com eficiência a corrupção de políticos e
funcionários públicos?
Eric Holder - Na minha carreira no Departamento de Justiça, trabalhei doze anos na
Integridade Pública. (Ele se refere à unidade criada em 1976 para investigar a corrupção de
ocupantes de cargo público, eleitos ou nomeados, nas três esferas de governo. Em 2008, a
unidade acusou 949 agentes públicos, dos quais 827 foram condenados). A unidade provouse muito efetiva e hoje está presente em várias subsedes do Departamento de Justiça pelo país.
As equipes da Integridade Pública sabem como investigar um caso de corrupção oficial,
sabem o que e como procurar para fazer uma investigação capaz de resultar num processo
judicial competente. Os crimes na esfera pública são diferentes dos crimes comuns. São mais
difíceis de detectar, de investigar e de julgar. Por isso, uma unidade especializada, com equipe
própria, consegue um combate mais efetivo contraa corrupção oficial.
VEJA - É mais difícil pegar políticos corruptos do que terroristas?
Eric Holder - Como?
VEJA - É mais difícil pegar políticos corruptos do que terroristas?
Eric Holder - Como assim?
VEJA - No Brasil, talvez seja mais fácil pegar terroristas do que políticos corruptos.
Eric Holder - O quê?
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Isto é - Edição: 2091 - 09.Dez -09
David Uip
"Camisinha é ruim e droga é bom"
Para o médico, é preciso dizer a verdade antes de se reforçar que o preservativo salva vidas e
que a dependência química mata. Pode ser um caminho para melhorar a prevenção da Aids
Gisele Vitória
Assim como tantos pais, o infectologista David Uip enfrentou dificuldades para conversar
com os filhos sobre sexo, drogas e Aids. Com toda a experiência que acumulou em 34 anos de
medicina, ficou roxo quando seu filho, aos 7 anos, achou uma camisinha e lhe pediu para
mostrar como usava. Ciente das travas históricas entre pais e filhos nessas conversas
delicadas, ele acredita no poder da família, da cumplicidade e da verdade para mudar
comportamentos. Aos 57 anos, ex-diretor do Incor, Uip é um dos maiores nomes da medicina
no Brasil e comanda um dos centros de referência de tratamento de Aids no País.
O Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, é modelo para a Organização
Mundial da Saúde e realiza mensalmente 2,7 mil atendimentos de pronto-socorro, 6 mil de
ambulatório e 500 internações. Mesmo que os mais recentes números da Aids no mundo
mostrem uma redução de 17% nos casos de novos contágios da doença, o médico não vê com
otimismo o trabalho de prevenção. Para ele, o coquetel mudou a história da Aids, mas a
doença tem sido banalizada. E só a chegada da vacina, que ainda vai demorar, será capaz de
mudar este cenário. Quando observa o aumento de casos entre meninas de 13 a 19 anos, ele
permanece fiel à crença de que só o diálogo verdadeiro com a família e com a escola fará as
gerações futuras mudarem o olhar para a importância do uso do preservativo como forma de
evitar mais mortes pela doença.
ISTO É- O recente relatório da Unaids expõe um panorama mundial mais otimista
sobre a redução do número de novos casos de Aids. Mas a prevenção se mantém
ineficaz. Como explica isso?
David Uip - É uma notícia boa, mas precisa ser bem entendida.O que na verdade melhorou
foi o acesso aos medicamentos. Não a prevenção. As pessoas tomam remédios, diminuem a
quantidade de vírus no sangue e nas secreções, e contaminam menos. Isso fica claro na
prevenção da transmissão materno-fetal. No Brasil, uma mulher grávida soropositivo que não
toma o coquetel ant i-Aids tem 25% de chance, em média, de passar o vírus para o filho. Com
o tratamento, o risco cai para 2%. Em um trabalho que realizo em Angola mantivemos o parto
normal e o aleitamento (duas situações de risco para a transmissão do HIV) e, mesmo assim, o
índice de contágio de mãe para filho é menor do que 3%.
ISTOÉ - Os anos se passaram e a prevenção continua sendo o grande problema da
disseminação da Aids.
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David Uip - O mundo não achou ainda uma saída. O uso de drogas injetáveis, ilícitas,
diminuiu. Mas cresceu o de outras drogas que fazem com que o indivíduo aumente a
liberalidade e se contamine por sexo. Você estabiliza uma coisa, mas desestabiliza outra
Conversando com as pessoas você nota que a doença tem sido banalizada. Ah, tem remédio,
não vou morrer mais. Há pessoas que buscam o risco.
ISTOÉ - Por que fazem isso?
David Uip - O que determina o comportamento é o impulso. O indivíduo para o carro,
contrata uma pessoa e, sem nenhum cuidado, se relaciona. Não há aqui nenhum preconceito
quanto às preferências sexuais, mas eu me refiro à proteção da pessoa e do próximo com
quem ela vai se relacionar. Estou muito preocupado.
ISTOÉ - Não existe medo?
David Uip- O impulso é maior que o medo. Você pode ter desejo e se prevenir. Uma outra
história é quando um dos parceiros é soropositivo e o outro não. Interessa muito que essa
relação se perpetue. Porque se estabelece critério de confiança. Mas vira e mexe aparece o
parceiro ou a parceira contaminada, ou grávida. Ou seja, não fizeram a lição de casa. Isso é
frustrante. Continuo cada vez mais descrente. Dificilmente você muda comportamento.
ISTOÉ - As campanhas de prevenção não são mais tão enfáticas?
David Uip - Quando se fala de Aids hoje? Próximo a 1º de dezembro, Dia Mundial de
Combate à Aids, e no Carnaval. Imaginar que as pessoas não estejam informadas é
complicado. As pessoas sabem como se transmite e como se previne. O que explica a
exposição? Comportamento você não muda com campanha, com informação. Você tem uma
chance com a educação continuada, desde a fase pré-adolescente.
ISTOÉ - O sr. vê diferenças de comportamento nos adolescentes hoje?
David Uip - Eles não usam preservativo. Aumentou o número de meninas com Aids. É uma
coisa que está clara. Aos 13 anos, questiono se esta menina está pronta para ter uma vida
sexual ativa. Como ela vai negociar prevenção? Na outra ponta, aos 19 anos, a jovem muitas
vezes se relaciona com um cara bonito, legal e ela confia. Só que não está estampado naquele
rapaz que ele tem a doença. Aí vem a gravidez indesejada, doenças sexualmente
transmissíveis. Se isso acontece é porque a pessoa não está usando camisinha.
ISTOÉ - A velha situação de que a camisinha atrapalha o sexo ainda é frequente?
David Uip - Entendo que isso é da minha geração, gente com mais de 50 anos. Não fomos
treinados a usar preservativo. É um desafio, porque na cabeça do homem de meia- idade pode
significar que ele vai falhar. Para colocar a camisinha, tem que haver ereção. Isso pode
comprometer o momento.
ISTOÉ - Como mudar os rumos da proteção contra a Aids?
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David Uip - Acredito que a prevenção virá na hora em que tivermos vacina. O que não quer
dizer que devemos desistir do preservativo. Porque a vacina vai demorar. Muito. A prevenção
virá com a educação. Família e escola. Isso é um trabalho a quatro mãos.
ISTOÉ - Com a chegada da vacina algum dia, acabaria então o fantasma da camisinha
que atrapalha o sexo?
David Uip - A Adriane Galisteu, que começou uma campanha beneficente, A Cara da Vida,
para ajudar pacientes com Aids, fala uma coisa com a qual concordo plenamente. Temos que
começar a falar a verdade. Camisinha é ruim. Droga é bom. Não adianta negar. Adriane diz
publicamente que seu irmão morreu vítima da Aids e se contaminou com uso de drogas
injetáveis. (Dias antes de morrer, o irmão da apresentadora pediu a ela que nunca
experimentasse drogas, porque poderia gostar). Quando ela me contou desse pedido, inseri no
contexto do que eu penso. Não venha dizer que camisinha é bom porque não é. E não adianta
você dizer para um usuário de drogas que droga não é bom. É bom, mas mata, tenho que
avisar. Sou visceralmente contra o uso de qualquer droga ilícita. Mas a conversa com a
Adriane me fez refletir muito. Porque é verdadeira.Vou dizer para o usuário que não é legal
ter barato? Ele vai dizer que eu digo isso porque nunca usei. Então temos que falar a verdade.
Droga é bom? É, mas vai te matar. Camisinha é bom? Não, mas, se você não usar, pode
morrer. Essa é a história. Não adianta advogar prazer, fetiche numa coisa que não tem. São
situações desconfortáve is, mas necessárias.
ISTOÉ - É importante os pais dizerem aos filhos que camisinha é ruim?
David Uip - Eu diria: é ruim, mas tem que usar. Filho, droga pode ser bom, mas vai te matar.
Talvez os filhos criem mais confiança nos pais. É um discurso mais autêntico. Outra coisa que
acho importante dizer aos filhos: acredite no que estou dizendo, no ensinamento. Se você for
experimentar de tudo na sua vida, vai parar aonde?
ISTOÉ - O sr. sustenta a opinião de que é mais difícil o homem se contaminar do que a
mulher?
David Uip - Eu e a estatística. Quando falei publicamente sobre isso, em 1991, as pessoas me
desaconselharam a manter a posição. E eu mantive. Não mudei uma palavra. Naquela época, a
proporção de casos de Aids era mais ou menos de 40 homens para uma mulher. Se a taxa de
aumento de homens fosse paralela à de mulheres, hoje teríamos muito mais homens
infectados do que mulheres. Como é que agora essa proporção está mais ou menos de um para
um ou duas mulheres para um homem? Porque a possibilidade de o homem se infectar com a
mulher é muito menor do que a da mulher com o homem. É óbvio. Essa história, que me
trouxe enormes problemas, hoje é confirmada. Aquilo que foi visto como preconceito,
homofobia, na verdade era um alerta. Eu estava falando para as mulheres: previnam-se. Não
achem que pelo fato de serem casadas vocês não possam pegar Aids
ISTOÉ - Como os pais podem ajudar os filhos a se prevenir?
David Uip - Esse é outro desafio. As famílias esperam que a informação venha da escola.
Percebo uma enorme dificuldade na abordagem dos assuntos sexo e drogas, mas me coloco
numa posição muito confortável porque as minhas dificuldades não foram menores.
112
ISTOÉ - Que histórias tem para contar sobre isso?
David Uip - Quando a minha filha de 29 anos tinha 15, fiz um ciclo de palestras na escola
dela. Ao falar para a classe dela, o tempo inteiro ela ficou conversando com uma amiga.
Fiquei irritado. Acabou a palestra e eu fui metralhado de perguntas pela amiga dela, com
quem ela conversava antes. No fim, perguntei para minha filha: que tanto você conversava?
Ela me respondeu que tinha coisas para me perguntar, mas pediu à amiga para fazer isso.
Baixei a bola e percebi que estava falando um monte de coisas, mas que havia um problema
na minha própria casa. Outra história: meu filho, que tem 18 anos, aos sete descobriu uma
camisinha. E me perguntou: pai, o que é isso? Respondi desconfortável. Para que serve?
Tentei explicar. E o meu filho insistiu. Mostra como usa? Aí eu fui na cozinha e peguei uma
banana. E ele disse: eu não quero ver com banana. Fiquei roxo. Foi uma dificuldade que não
pensei que tivesse.
ISTOÉ - E como se pode iniciar o assunto de uma maneira menos desconfortável e
impositiva?
David Uip - A família precisa conversar. Mas trabalhamos muito, temos pouco tempo, o que
cria distanciamento. Entendo que é difícil estabelecer uma forma de abordagem. Isso vai
muito da maturidade do pai e da mãe, do convívio, da cumplicidade. Essa é a palavra-chave.
Primeiro tem que aprender a conversar com o filho. E, antes, tem que aprender a ouvir. O
grande truque é saber ouvir o que não está falado. Isso requer um treinamento. Humildade.
Isto é - Edição: 2072 - 29.Jul 09
Chiquinho Scarpa
A vaidade quase me matou
O playboy fala do drama que viveu após quase dois meses em coma depois de uma cirurgia de
redução de estômago
Rodrigo Cardoso
Os cabelos estão grisalhos. A pele do rosto já não é lisa como antes. Seu caminhar é lento e a
barriga, protuberante. Mas, aos 57 anos e 92 quilos, Francisco Scarpa Filho continua sendo o
conde Chiquinho Scarpa, uma espécie de alter ego do playboy paulistano. Na conversa com
ISTOÉ, exibia o brasão da família na roupa que vestia. Mas por pouco, muito pouco,
Chiquinho não estaria ali para contar a história. Em abril, pesando 118 quilos, submeteu-se a
uma cirurgia de redução do estômago no hospital Sírio-Libanês. De volta para casa - o órgão
teve a capacidade reduzida de 1,5 litro para 500 mililitros -, Chiquinho ingeriu líquidos em
quantidade acima da recomendada. O intestino não suportou e houve um rompimento abaixo
dos pontos. Em uma nova internação, três dias depois, foi diagnosticado que o líquido
abdominal havia se espalhado e provocado uma infecção que paralisou o funcionamento do
fígado, pulmão, pâncreas e rins. Pior: um fungo raro, encontrado em sucos de caixa,
contribuiu para a contaminação. Sucederam-se, então, mais cinco cirurgias para a limpeza do
local, dois meses em coma induzido na UTI, a visita de dois padres que lhe deram a unção dos
enfermos até a retomada da consciência e a alta hospitalar. Em casa, Chiquinho faz
fisioterapia para fortalecer os músculos durante a semana. E segue uma dieta para atingir seu
objetivo (80 quilos) e saciar a vaidade que quase o matou.
113
ISTOÉ - Faz três meses que o sr. convive com as complicações de uma cirurgia de
redução do estômago. Foram quase dois meses de coma induzido. Pensou na
possibilidade de morrer?
Chiquinho Scarpa - Não. Tive, depois de retornar do coma, uma agitação violenta dentro de
mim. Era uma espécie de síndrome do pânico que sur giu porque eu raciocinava, mas não
conseguia mexer nenhum membro e não falava. Chamaram um psiquiatra que percebeu os
meus olhos amedrontados, a agitação. Eu achava que não iria voltar a andar.
ISTOÉ - Esse medo era maior que o da morte?
Chiquinho - Sim. Além de não andar, não voltar a falar. Quando acordei do coma, não me
lembrava onde estava e só conseguia mexer os olhos. Colocava colírio no olho porque
queimava muito. E só falava quando a fonoaudióloga colocava uma válvula no pescoço, mas
me cansava tanto que passava o dia pensando quais seriam as dez palavras que iria falar. Até
que, para me comunicar, pedi uma planilha com o abecedário.
ISTOÉ - Arrepende -se da cirurgia de redução de estômago?
Chiquinho - Até agora não. Faz um mês que estou bem, não enjoei, não sinto dor. Não me
arrependo desde que, daqui a dois, três meses, eu tenha alcançado o meu o objetivo: 80 quilos.
Estou com 92. Bebi muita água depois que retornei para casa após a operação. Aí, a alça
intestinal estourou e, da gordura que existia no meu intestino, surgiu uma infecção. Retornei
para o hospital, onde passei por lavagens no estômago e tomei antibióticos fortes. Ganhei
barriga por causa da infecção, de soro e de remédios que incham.
ISTOÉ - Qual era a sua chance de sobrevivência?
Chiquinho - Um médico disse para minha família que ela deveria ter paciência e rezar. Ou
seja, zero! Por causa da infecção, eu apresentava sinais de falência no fígado, nos rins e no
pâncreas (e no pulmão).
ISTOÉ - Acredita em milagre? Fez algum tipo de promessa?
Chiquinho - Não. Mas olha a promessa que minha mãe, com 83 anos, fez em meu nome: se
sobrevivesse, nunca mais falaria um palavrão na vida! Na frente dos meus pais, não falo mais.
ISTOÉ - Teve responsabilidade para que chegasse à beira da morte?
Chiquinho - Beber líquido além do estipulado (o correto seria o equivalente a uma xícara de
café a cada meia hora), em casa, após a cirurgia. Bebia água, suco de pêssego em caixinha
sem parar. Aí, me sentia estufado e induzia o vômito. A operação não suportou essa pressão.
ISTOÉ - Por que bebeu tanto líquido?
Chiquinho - Não sei. Não me lembro de beber. Me contaram depois. Por isso não me sinto
culpado. Mas com essa montanha de médicos que tenho (12 profissionais) nunca poderia ter
acontecido comigo o que aconteceu.
114
ISTOÉ - O que quer dizer com isso?
Chiquinho - Eu acho que os culpados foram eles (médicos) - não sei quem - que me
liberaram para voltar para casa logo após a primeira cirurgia. Talvez eu devesse ter ficado
mais tempo em recuperação no hospital. Muita gente que faz a mesma cirurgia fica uma
semana. Mas eu fiquei um dia apenas.
ISTOÉ - Um de seus médicos disse que seu corpo sofria de desidratação por conta de um
remédio para acne. Por tomá-lo além do tempo de tratamento sua pele e os seus tecidos
ressecaram. Por isso, a vontade de se hidratar. O que tem a dizer?
Chiquinho - Existe um remédio chamado Roacutan (cujo princípio ativo é um ácido) que
livra o rosto de espinhas, você fica bárbaro. Tomava três vezes por semana há dois ou três
anos. Esse remédio foi desmanchando os tecidos do meu corpo. Se uma mulher estiver se
tratando com ele, não deve engravidar porque o bebê pode nascer com deformidades físicas. É
por causa desse remédio que eu sentia sede.
ISTOÉ - Esse remédio é vendido sob prescrição médica, mas o sr. o tomava mesmo fora
de tratamento. Como?
Chiquinho - Ah, eu conseguia os atestados com uns médicos por aí. Agora, eu não tomo mais
Roacutan. Mas minha pele está péssima.
ISTOÉ - A vaidade quase o matou?
Chiquinho - Foi a vaidade, quase me matou, sou vaidoso. E sou instrutor de aikidô. Como
poderia dizer para um cara treinar, se estou gordo? Como exemplo, eu era uma catástrofe.
Tinha de fazer a cirurgia porque não conseguiria emagrecer 40 quilos. Se tivesse dado certo,
estaria fazendo aikidô.
ISTOÉ - Sente que envelheceu mais do que o normal durante a recuperação?
Chiquinho - Não. Fui para a operação com 118 quilos. Mas me incomodo com a barriga.
Dizem que a cicatriz não some. (Ele mostra a cicatriz, que vai do peito até abaixo do umbigo).
ISTOÉ - Sente que envelheceu mais do que o normal durante a recuperação?
Chiquinho - Não. Fui para a operação com 118 quilos. Mas me incomodo com a barriga.
Dizem que a cicatriz não some. (Ele mostra a cicatriz, que vai do peito até abaixo do umbigo).
ISTOÉ - Como chegou aos 118 quilos?
Chiquinho - Foi desleixo. Já havia acontecido antes, mas recuperei a forma, eram apenas 20
quilos. Dessa vez, como fazia muito exercício, comia bastante. Em um ano, ganhei 40 quilos.
Minha cintura saltou de 73 cm para 110 cm. Não havia roupas que entrassem em mim. Mas
não aumentei a numeração. Preferi não sair de casa. Quando meu sobrinho Andrey morreu
(no ano passado, em acidente de trânsito, aos 24 anos), tive de alugar um terno.
115
ISTOÉ - Parava na frente do espelho?
Chiquinho - Era um horror me olhar no espelho. Evitava fazer isso. Mas a pior coisa é urinar
e não ver o pipi.
ISTOÉ - Como mantém a vaidade?
Chiquinho - Uso cremes e a manicure voltou a vir em casa toda semana para cortar meu
cabelo, fazer o pé e a mão, tirar pêlo da orelha e do nariz. Também depilo o peito porque no
aikidô a pessoa é pega por essa região.
ISTOÉ - Fisicamente falando, o que ainda não está em ordem?
Chiquinho - As pernas. Meus músculos ficaram atrofiados de tanto que fiquei deitado. Em
casa, fiquei de cadeira de rodas por 20 dias. Cai duas vezes dela, agora estou andando melhor.
Outro dia, coloquei um sapato e subi a escada pela primeira vez. Mas sinto falta do meu livre
trânsito. Preciso de ajuda para deitar na cama. Faço fisioterapia por uma hora e meia de
segunda a sexta. Mas, por ordens médicas, os exercícios não podem mexer na barriga. E isso
está me incomodando.
ISTOÉ - Qual foi a recomendação para a prática de sexo?
Chiquinho - Não falei disso com os médicos. Tudo que pergunto eles dizem: "Só daqui a seis
meses." Estou de saco cheio de perguntar as coisas. Mas não pratico sexo desde então. Estou
de quarentena. Até porque não tenho muita sensibilidade (no pênis), por exemplo, quando
urino. Às vezes urino nas calças. As pontas dos dedos também estão adormecidas. Na sextafeira (dia 17), saí pela primeira vez, após um mês de recuperação em casa. Fui ao aniversário
da minha irmã em um restaurante!
ISTOÉ - Seguiu a orientação médica?
Chiquinho - Comi carneiro sem azeite e sem gordura nenhuma, cuscuz marroquino e tomei
champanhe.
ISTOÉ - E podia?
Chiquinho - Estou autorizado a ingerir 500 miligramas a cada hora e meia. É uma
barbaridade, dá para comer uma feijoada! Eu sei o meu limite.
ISTOÉ - Quantas taças de champanhe o sr. tomou?
Chiquinho - A médica liberou duas taças, mas tomei umas dez.
ISTOÉ - É verdade que dois padres o visitaram na UTI para lhe dar a unção dos
enfermos?
Chiquinho - Sim. Minha irmã pediu para que eles fossem lá. Talvez eu tivesse muito pecado.
O primeiro eu não me lembro, estava em coma. O segundo, eu estava meio grogue (sua
116
esposa, Rosimari Bosenbecker, conta que o marido chorava copiosamente). Achavam que eu
fosse morrer.
ISTOÉ - Tornou-se uma pessoa diferente depois disso?
Chiquinho - Para a infelicidade de todos, não! Fiquei com raiva por ter perdido esse tempo
na minha vida. Mas, por sorte, ganhei muito dinheiro em um negócio enquanto estava em
coma (ele não revela qual, nem o valor). Acordei e era só felicidade. (Nesse momento sua
mulher interrompe e diz: 'Quer dizer, a vida não tem tanta importância. O que importa é o
maldito dinheiro e a vaidade. Legal, né?') Essa é minha mulher! Mas deixa eu contar a minha
saída do hospital porque foi bárbara.
ISTOÉ - Conte.
Chiquinho - Eu dei alta para mim! O Raul Cutait (cirurgião gastroenterologista), que é o
chefe dos médicos, me disse: "Pode ser que dê alta para você hoje, como pode ser amanhã ou
depois de amanhã." Nunca vi um médico falar isso! Ok. Aí, veio o Sami Arap (urologista). Eu
disse: "Sami, assina minha alta, porque o Cutait já assinou". Com o David Uip
(infectologista), fiz o mesmo. Quando o Cutait retornou para me ver, a alta estava assinada
pelo David e o Sami. Aí, eu falei: "Raul, só falta você me dar alta". Conclusão, o Raul me
levou da UTI até o carro, disse tchau e falou que passaria na minha casa para me ver. E aqui
estou eu.
Caros Amigos, economista Márcio Pochmam, número 149, agosto 2009
O mercado do trabalho reproduz a desigualdade
José Cristian Góes
O economista da Unicamp, Márcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (IPEA), esteve em Aracaju (SE) para uma palestra e conversou com a Caros
Amigos. Ele defende a completa refundação do Estado brasileiro. O professor analisa a crise
internacional e revela números surpreendentes das desigualdades no Brasil. Pochmann é
categórico quando fala em educação: “Ela não transforma. Ela conforma para o trabalho”. Ele
garante que a atual crise econômica possibilita entrarmos em um novo padrão civilizatório em
que os parâmetros de produção e consumo vão mudar. Chama a atenção para o meio ambiente
e considera que o mundo vive um período de desgovernança pública. É enfático ao tratar de
República e democracia no Brasil: “Na nossa democracia sobram partidos e faltam ideias”;
“dizemos que temos República no Brasil, mas não temos. República significa igualdade de
oportunidades”.
Pochmann é um dos maiores pesquisadores do País sobre o mundo do trabalho. É especialista
em emprego e salários e autor de 27 livros sobre inclusão social, desenvolvimento econômico
e políticas de emprego. Entre os livros de sua autoria do economista estão O Desafio da
Inclusão Social no Brasil e Relações de Trabalho e Padrões de Organização Sindical no
Brasil. Na Unicamp, é professor do Instituto de Economia e atua no Centro de Estudos
Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit).
117
CAROS AMIGOS- Como o senhor avalia a crise financeira mundial?
Márcio Pochmann- Essa crise é uma crise do modo de produção capitalista, uma crise
estrutural, sistêmica, uma crise que não é exclusivamente financeira, embora tenha sido nessa
esfera que ela se originou. Essa crise impôs perdas expressivas aos ricos, impôs a queda da
taxa de lucro das empresas, especialmente de alguns setores industriais. A crise impactou a
área social. Estamos convivendo com maior desemprego, com aumento das desigualdades.
Essa crise está contaminando o mundo da política. Cinco países tiveram alternância de poder
em função, inclusive, do agravamento da crise. Não tivemos crises anteriores com problemas
ambientais. Os impactos ambientais são extremamente degradantes. Temos uma crise inédita
nesse sentido. Vale dizer que é uma crise que encontra o mundo, os países, em quase sua
totalidade submetida à lógica mercantil. Nunca tivemos uma crise anterior com uma
profundidade como esta. E não tem saída a curto e médio prazo porque a crise afetou as
estruturas do padrão capitalista de produção e consumo. Não há como garantir a
sustentabilidade da acumulação de capital.
CAROS AMIGOS- O senhor diz que essa crise é de produção e consumo. Explique o
que é a crise de consumo?
Márcio Pochmann- O que deu sustentabilidade de longo prazo ao capitalismo no século 20
foi a produção de bens de consumo duráveis, como por exemplo, a casa própria e o
automóvel. Não são apenas eles, mas a casa e o automóvel simbolizam o consumo no
capitalismo do século 20. A produção desses bens se difundiu pelo mundo, no entanto, apenas
um quarto da população mundial tem acesso a esse padrão de consumo. Apenas um quarto. É
o que praticamente temos no Brasil. Para que esse padrão de consumo tivesse padrões
mundiais, especialmente no mundo onde a renda percapita é muito baixa, foi necessário o
aprofundamento do subdesenvolvimento, que é o que se pressupõe no Brasil. Em outras
palavras: para que aqui no Brasil pudesse se instalar a indústria automobilística e a produção
nacional comparável ao os países ricos foi necessário concentrar profundamente a renda, para
poder viabilizar o padrão de consumo dos mais ricos. Se a gente for a qualquer cidade
brasileira a gente vê segmentos sociais que participam de alto padrão de consumo. Há bairros
de qualquer cidade brasileira onde há casas com garagem com quatro, cinco carros, cada
membro da família tem um automóvel. Há casas compatíveis com padrão hollywoodiano de
habitação.
CAROS AMIGOS- É, aqui os ricos vivem muito bem...
Márcio Pochmann- Os ricos vivem aqui muito melhor que a classe média e os ricos nos
Estados Unidos e na Europa porque aqui os ricos não pagam impostos. E lá não existe como
aqui essa massa de serviçais. É manicure, empregados domésticos, cortador de grama,
faxineira, ou seja, um exército de prestadores de serviço. No Brasil, as famílias de classe
média e ricas têm, em média, 13 serviçais à sua disposição para prestar serviços. São 13, no
mínimo, ou seja, são mais de 20 milhões de pessoas que constituem esse exército com
remuneração extremamente baixa. Por que é possível ir para uma pizzaria, churrascaria no
Brasil e comer de forma extravagante pagando preços módicos? Porque aqueles que lá
trabalham, o pizzaiolo, o churrasqueiro têm remunerações extremamente baixas. O que chama
atenção é que viabilizar e internalizar esse padrão de consumo é somente possível com uma
brutal concentração de renda, com um sistema tributário que concentra renda, que tira dos
pobres e dá para os ricos e com um Estado que se organizou para atender fundamentalmente
118
os ricos, o andar de cima da sociedade, como dizia Milton Santos. Esse andar de cima tem
tudo. Tem banco público, tem sistema de tecnologia, tem compras públicas, ou seja, montouse uma estrutura para sustentar os de cima. Isso não é uma experiência exclusivamente
brasileira, mas talvez chegamos a maior sofisticação.
CAROS AMIGOS- E esse padrão de consumo tem forte impacto ambiental, não é?
Márcio Pochmann- Claro. O mundo com 6,5 bilhões de habitantes e que apenas um quarto
participa do padrão de consumo, mantido esse padrão de consumo, daqui a três décadas a
temperatura da terra será três a quatro graus superior ao que é hoje. Três ou quatro graus
podem não ser muito para nós individualmente, mas a elevação da temperatura nesse patamar
significa aqui no Brasil problemas muito sérios. Por exemplo, a produção de café, que hoje é
feita em várias regiões no País, só poderá ser possível no Rio Grande do Sul. Nós teremos
problemas gravíssimos de seca em algumas áreas e enchentes em outras. Estaremos falando
não mais em Floresta Amazônica, mas na grande savana amazônica. Não estou pregando o
caos, não. O que estou chamando atenção é que levado adiante esse modelo de produção e
consumo, nós precisaríamos de três planetas para conformar a difusão desse padrão de
consumo para mais pessoas.
CAROS AMIGOS- E quem ou quais instituições mundiais podem resolver os problemas
da crise e seus reflexos?
Márcio Pochmann- Este é um aspecto grave. Estamos vivendo a plena desgovernança no
mundo. Nós vivemos uma quadro de profunda anarquia do ponto de vista público porque as
instituições que foram constituídas para fazer a governança pública do mundo estão
completamente esgotadas para viver a nova realidade. Com o encerramento da 2ª guerra,
estabelece-se a Assembléia Geral das Nações Unidas, ou seja, a ONU, que tinha o objetivo de
estabelecer um padrão de convivência, de regulamento mínimo entre países. Veja, a ONU
somente conseguiu fazer uma conferência sobre a crise só agora no mês de junho, quer dizer,
quase um ano depois da crise ter se manifestado. A ONU não consegue reunir os países para
estabelecer convergências. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) que
estavam presentes nas crises anteriores, dizendo façam isso e aquilo, simplesmente
desapareceram. Mal e porcamente conseguem projetar se a economia vai ou não crescer, ou
seja, não têm o que dizer. Esse padrão de regulação pública está falido.
[...]
Caros Amigos, juíza Kenarik Boujikian, número 152, novembro de 2009
“O Estado brasileiro continua matando muito”
Hamilton Octavio de Souza, Júlio Delmanto, Lúcia Rodrigues, Otávio Nagoya, Tatiana
Merlinto
119
A juíza Kenarik BoujiKian Felipe conta, nesta entrevista exclusiva para Caros Amigos o que
acontece nas entranhas do judiciário criminal e do sistema carcerário, onde a discriminação
contra os pobres, contra os negros e contra as mulheres, expressa a constante violação de
direitos consagrados n atua lidade.
Para ela, todos os métodos de tortura utilizados no período da Ditadura Militar continuam a
existir hoje, dentro e fora das delegacias e das prisões: “Essa é uma questão relevante para a
construção do Estado democrático de direito que ainda não está construído no Brasil.
Enquanto nós não resolvermos essa questão do período da repressão, nós não vamos
conseguir caminhar para outra situação de dignidade de todas as pessoas”.
Fundadora e ex-presidente da Associação dos Juízes para a Democracia (AJD), militante de
ONG que atua com mulheres encarceradas, Knarik tem sido importante referência na luta
pelos direitos humanos no Brasil. Casada, mãe de três filhos – Marcelo, Mariana e Isabel – ela
denuncia aqui os entulhos autoritários que ainda estão sendo mantidos pelo atual regime,
inclusive pelo Judiciário. Vale a pena ler.
Confira trechos da entrevista.
Hamilton Octavio de Souza - Fale um pouco da sua vida, onde você nasceu, estudou,
morou, sobre sua família, seus pais, até você se tornar juíza.
Kenarik Boujikian - Eu não nasci no Brasil, vim para o Brasil com 3 anos. Nasci em uma
aldeia de armênios que fi ca na Síria. Então, meu documento de naturalidade é da Síria. Eu
vim para o Brasil com 3 anos, morei aqui em São Paulo até uns 10 anos, e fui morar no
interior em razão do trabalho do meu pai, que era comerciante em São José do Rio Preto.
Depois nós voltamos para São Paulo e só saí no tempo em que eu entrei na magistratura,
quando obrigatoriamente começa a carreira em outras cidades. Fui para Piracicaba, morei
pouco tempo lá, mas a minha vida é basicamente em São Paulo.
Tatiana Merlino - Por que seus pais vieram para o Brasil?
Kenarik Boujikian - Bom, tem duas versões. Uma é a questão que se fala muito, que é a
questão do sonho da América, a possibilidade de dar outro tipo de vida para os filhos. A outra,
é que supostamente meu pai fazia parte de algum movimento de independência. Ao contrário
da minha família, que plantava, ele trabalhava com construção, ele e meu avô. Achavam que
ele eventualmente sabia onde poderia ter armas guardadas na igreja, porque ele trabalhava
com construção.
Hamilton Octavio de Souza – Havia uma perseguição forte aos armênios.
Kenarik Boujikian - Sim, e eu acho que talvez também a minha história com os movimentos
de direitos humanos deve ter algum link aí com a questão dos genocídios dos armênios, o
primeiro genocídio do século.
Tatiana Merlino – Seu pai nunca confirmou qual era a versão verdadeira?
Kenarik Boujikian - Meu pai morreu muito cedo, ele tinha 49 anos (quando morreu), eu
tinha 15, 16 anos na época, então, ele nunca falou. Eles falavam mais da versão da América.
Ele nunca me confirmou efetivamente sobre isso, quem falou sobre isso foi minha mãe. Eu
estudei, aqui em São Paulo, um tempo na escola Armênia, logo que eu vim para o Brasil.
Depois, quando eu fui para o interior, fui estudar em um colégio estadual, em São José do Rio
Preto. Depois voltei, circulei por algumas escolas e acabei me formando em magistério no
colégio Santa Inês, que é um colégio salesiano, no Bom Retiro, bairro onde eu morei quando
cheguei ao Brasil e onde minha mãe mora até hoje. Depois eu fui fazer faculdade de Direito.
120
Eu tinha dúvidas do que queria fazer. Queria fazer Jornalismo e Direito, antes tinha uma outra
opção que passava pela cabeça, que eram Ciências Sociais.
Tatiana Merlino - Você tem algum professor que tenha te inspirado, alguém que atuasse
na área de direitos humanos?
Kenarik Boujikian - Nesse aspecto é o professor (José Gaspar Gonzaga) Francesquini, que
acho que até hoje dá aula lá na PUC-SP. Ele dava aula de Direito Civil, era uma pessoa
extremamente sensível e fui trabalhar com questão carcerária graças a ele. Ele, na época, era
juiz da Vara de Execuções Criminais, e perguntou se os alunos não queriam ser voluntários
para realizar um trabalho, pois havia um caos absoluto na questão da assistência judiciária dos
presídios. Acho que só eu aceitei e fui ser voluntária. Um pouco do que me inspirou foi a
postura dele, uma grande pessoa, uma grande figura humana, um grande juiz da Vara
Execuções Criminais, um dos mais conhecidos e respeitados Para mim, a ligação com o
professor Francesquini vem muito da oportunidade que ele me deu de conhecer essa outra
realidade do sistema carcerário. Isso pra mim foi um ganho gigantesco na minha vida.
Hamilton Octavio de Souza - Como foi essa experiência?
Kenarik Boujikian - Primeiro é conhecer que existe esse mundo, porque na faculdade de
direito você não consegue imaginar nada do que acontece, o que significa aquilo em termos
práticos, de processo. E aí pôr o pé dentro do sistema é um choque em um primeiro momento.
É algo inesperado, o cheiro é inesperado, tudo é diferente. As pessoas não sabem o que
significa passar um dia dentro de uma prisão. E pra mim foi importante conhecer também a
falta de estrutura do sistema de justiça em relação a esses que são os mais vulneráveis na
minha concepção. Então, esse tipo de trabalho, de você pelo menos ouvir a pessoa e ir atrás
para ver se pode fazer alguma coisa, para mim foi uma lição de vida, e, em termos técnicos,
evidentemente também. Meu trabalho era voluntária na área de Direito.
Lúcia Rodrigues - Você chegou a advogar profissionalmente?
Kenarik Boujikian - Sim, advoguei. Antes de ser juíza, fui procuradora do Estado, trabalhei
na assistência judiciária, em 88. Em 87, eu fui advogada da FUNAP, onde eu fiz o estágio de
direito nas penitenciárias.
Tatiana Merlino - Você tem uma militância na área de Direitos Humanos, faz parte de
uma ONG de questão carcerária de mulheres, pode falar sobre isso?
Kenarik Boujikian - Você está se referindo ao Grupo de Estudo e Trabalho - Mulheres
Encarceradas. Eu faço parte desse grupo que é uma rede, e trabalho na rede em razão de
pertencer à Associação Juízes para a Democracia. Agora eu tenho uma militância, mas a
militânc ia não me tira uma atuação de Direitos Humanos como juíza, não me tira das relações
da vida. Você pode ter a militância, mas a questão dos Direitos Humanos é uma coisa global,
não é só de uma atividade ou uma coisa direcionada.
Otávio Nagoya - Você acha que o Estado trata diferente os direitos do homem e da
mulher presa?
Kenarik Boujikian - Trata completamente diferente. Um exemplo bem gritante, claro e
incontestável é a questão da visita íntima. Os homens tinham há décadas aqui, em São Paulo,
e as mulheres não tinham o direito de receber os seus companheiros, amigos. Esse grupo
surgiu em uma conversa após uma palestra na OAB para discutir sistema carcerário, e no final
eu falei que o Estado tratava diferente as presas dos presos. E aí um grupo de pessoas que eu
já conhecia começou a conversar mais sobre isso. Foi quando surgiu o grupo. A gente
começou a trabalhar com esse tema, o encarceramento feminino no Brasil, que assim como
121
nos demais países tem um índice pequeno de participação em termos de população carcerária.
A taxa de mulheres presas no Brasil é de mais ou menos 6%. Por outro lado, a gente vê que
está acontecendo um fenômeno mundial de aumento do número de mulheres presas em razão,
basicamente, de envolvimento com tráfico de entorpecentes. No Brasil nós temos um
problema de dados. Hoje, o Ministério da Justiça faz um recorte de gênero, mas há uns cinco
anos atrás não tinha. Não tem como ter políticas públicas se não se conhece nem qual é o seu
mundo de trabalho, qual o percentual.... Eu acho que a mulher é sempre penalizada, seja
presa, seja companheira de um preso, porque, se é ela que vai visitar, passa pela revista
vexatória. Em dia de visita elas estão lá, não abandonam os companheiros. Mas vai em uma
fila de um dia de visita em uma penitenciária feminina, não tem muito homem, são poucos.
Tem mais
a irmã, a mãe que leva os filhos... Na penitenciária masculina tem uma fila gigantesca de
mulheres. Elas são muito abandonadas pelos homens. Nós tivemos aqui várias campanhas,
inclusive estaduais, para mulheres, teve o mutirão ginecológico, e as mulheres presas nem
entraram na história. É um plano para todas as mulheres do Estado, e as presas não entraram,
é como se elas não existissem.
Hamilton Octavio de Souza - Elas são 6% do total da população do total de presos. É
isso? E em números absolutos, quanto representam?
Kenarik Boujikian - Hoje nós temos uma população aproximada de 450 mil presos. Acho
que dá mais ou menos 25 mil se não me engano, alguma coisa assim, 30 mil.
Hamilton Octavio de Souza - Qual é o perfil dessa mulher?
Kenarik Boujikian - Jovem. A maioria tem filhos, assume a chefia de família... Todas
praticamente são pobres. O percentual de mulheres negras presas é um pouco maior do que as
negras fora muro. Muitas trabalham, e quando trabalham dentro do sistema, esse é um dado
de uma pesquisa que eu acho muito curioso, ela pode fazer o que quiser com o seu dinheiro.
Mas eu perguntei: “o que vocês fazem com o dinheiro?”. A maioria das mulheres respondeu:
“A gente reverte para a família”. E o que os homens fazem? “Ah,eu gasto comigo”.
Hamilton Octavio de Souza - No processo judicial, há discriminação? Existe algum
momento em que a justiça trata de forma desigual a mulher e o homem?
Kenarik Boujikian - Eu não conheço nenhum trabalho que tenha dito efetivamente isso, mas
todo mundo que é da área de Direito fala que as mulheres são tratadas com um rigor maior.
Existem algumas consequências práticas da falta dessas políticas públicas. Por exemplo, quem
está em cadeia pública, provavelmente não va i ter uma defensoria pública quando fizer seus
pedidos. Se o maior número de mulheres do Estado estão em uma cadeia pública,
evidentemente ela vai ter menos estrutura para cuidar dos seus direitos.
Júlio Delmanto - Mas no caso da visita das mulheres, da revista, a forma como é feita
não é ilegal na verdade? Tem aquele procedimento do banquinho.
Kenarik Boujikian - Eu acho, eu acho que sim. É, existem outros procedimentos, esse do
banquinho... Tem lugares que são terríveis. Por exemplo, uma juíza me falou que ela baixou
uma portaria não permitindo mais revista vexatória, por conta do caso de uma mulher que era
muito obesa e disse: “eu quero visitar meu marido, mas eu não consigo mais passar por essa
situação toda vez que eu vou visitá- lo”. Ela relatou para a juíza como que era a revista e disse:
“nenhum homem tinha me tocado, só o meu marido, e chegando lá eu tenho que passar por
essa situação...”. A juíza constatou que eles usavam luva de pedreiro pra fazer a revista. Não
se pode considerar isso uma coisa normal, rotineira. É ilegal, é desumano, fere todas as
convenções, fere a nossa Constituição.
122
Hamilton Octavio de Souza - A quem compete fiscalizar ou alterar esse tipo de situação?
Kenarik Boujikian - Bem, primeiro a obrigação é do Executivo, e ele não implementou de
forma correta. É de responsabilidade dos governos estaduais, mas se não for respeitado é o
Judiciário que tem que garantir. Por exemplo, aquela juíza, naquele caso concreto da revista
vexatória, baixou uma portaria para a secretaria.
Lúcia Rodrigues - Em relação a essas violações que acontecem cotidianamente dentro
dos presídios, das cadeias públicas, tem outra questão também que é a tortura. Como é
que você vê esses casos? São recorrentes? Como é que chega essa questão para você?
Kenarik Boujikian - Quem trata da execução do processo aqui em São Paulo é um outro
juiz, que é o juiz da Vara de Execução. Agora, nós sabemos que a tortura ocorre no país não
só dentro do sistema prisional como fora. E é impressionante. Teve um processo de tortura faz
alguns anos, e na época, por uma questão de estudo, só por isso, eu quis fazer um
levantamento lá no Fórum para saber dos processos de tortura. Eu fiquei chocada com os
números. A gente sabe que o número é pequeno, que não se pune, que não se apura, todo
mundo sabe, mas na hora que você vê os números, eu falei: “Mas não é possível, nós estamos
aqui em São Paulo”. A lei de tortura já tinha cinco anos (a lei é de 1997) de existência, mas
não havia nem cinquenta processos. Isso é nada, eu recebo muito mais processos por mês do
que esses cinquenta. Não há registro dos casos, não há apuração
dos casos, não há estrutura para as pessoas que fazem esse tipo de denúncia. A questão da
tortura é uma questão mal resolvida.
Lúcia Rodrigues - A não punição dos torturadores da ditadura militar implica na
perpetuação da tortura hoje.
Kenarik Boujikian - Todos os métodos utilizados no período da repressão são exatamente os
mesmos métodos utilizados hoje, e essa é uma questão relevante para a construção do Estado
democrático de Direito que ainda não está construído no Brasil. Enquanto nós não
resolvermos essa questão do período da repressão, nós não vamos conseguir caminhar para
outra situação de dignidade de todas as pessoas. Tem uma pesquisa que eu acho muito
interessante, que foi feita em vários países por uma pesquisadora americana. Ela fez um
levantamento em vários países que passaram por períodos autoritários. Nos países em que os
crimes praticados durante esse período autoritário foram apurados, os crimes de violação aos
direitos humanos diminuíram. Então eu acho que essa pesquisa diz, com todas as letras, não
só para o passado, mas como para o presente e para o futuro, que isso tem que ser resolvido.
Lúcia Rodrigues - Por isso a importância da ADPF, que está quere ndo fazer uma leitura
sobre a Lei de Anistia, que não tem crime conexo entre torturador e preso político, não
dá para ter essa conexão de crimes. Essa conexão é uma interpretação errônea, não é?
Kenarik Boujikian - Sim. A ADPF foi proposta pela OAB.
Hamilton Octavio de Souza - O que é ADPF?
Kenarik Boujikian - Ação declaratória de preceito fundamental. Significa que alguém quer
que o Supremo faça uma leitura de algum preceito constitucional à luz da Constituição.
Hamilton Octavio de Souza – Uma interpre tação?
Kenarik Boujikian - É. É um instituto relativamente novo, nós não temos um número grande
deste tipo de ação no Supremo Tribunal Federal. A ordem entrou com essa ação e a AJD
entrou com um pedido de amicus curia, é um instituto que permite que o ingresso no processo
para ajudar a corte fornecendo elementos. Agora, a opção da AJD pelo ingresso não é um
123
método de trabalho, nós não temos essa política, essa é uma ação excepcionalíssima. A gente
só ingressou pelo que representa a ação em termos de democracia para o país. Será um marco,
em termos do Estado, admitir através de um de seus poderes, que é o poder Judiciário, que
aqueles indivíduos que praticaram atos inumanos no período de repressão não são
beneficiados pela Lei de Anistia. É um marco para a democracia. O processo teve início em
2008, está na Procuradoria Geral da República desde fevereiro
deste ano e existe expectativa que, agora em outubro, o procurador dê, enfim, o seu parecer e
devolva o processo para o Supremo Tribunal Federal, para que ele possa decidir.
Lúcia Rodrigues - Eu queria que você explicasse o que é o crime conexo. Por que não é
considerado um crime conexo quem tortura e quem participou da resistência à Ditadura
militar?
Kenarik Boujikian - Quando da lei da anistia, o artigo 1º fala em crimes políticos e conexos.
E eu não sei por qual motivo, exatamente. Eu não consigo detectar, isso ficou adormecido e
parado, sem muitas ações na época para se questionar isso. Recentemente, o STF deu uma
decisão que eu considero muito importante, que é do caso da extradição do Manoel Cordeiro.
A extradição foi pedida pela Argentina e pelo Uruguai. Ele era um torturador da chefia da
operação Condor. Nesse caso específico, o tribunal declarou que os atos praticados por esse
indivíduo, no âmbito da operação Condor, não poderiam ser caracterizados como crime
político. Então nós já temos um passo significativo e toda jurisprudência do Supremo. Aí resta
a questão do crime conexo, e esse é o objetivo da ADPF, que pede que o STF diga que esses
crimes praticados pelos torturadores, assassinos, não são conexos com os crimes políticos.
Não existe nenhuma relação de espécie nenhuma, de motivação entre a tortura e os atos e
crimes que foram praticados com determinada motivação.
Hamilton Octavio de Souza - Qual é a situação do Brasil em relação aos outros países da
América Latina?
Kenarik Boujikian - É importante dizer que existe uma expectativa desse caso não só em
relação aos brasileiros, ao povo brasileiro, mas existe na ordem regional, na América Latina,
todos os outros países estão tomando suas ações para não deixar impune o que aconteceu nas
ditaduras. Em todos os países isso está sendo enfrentado pelo poder Judiciário, muitas vezes,
por outros poderes, o Legislativo, o Executivo. No Brasil eu não vejo o Le gislativo tendo uma
atuação nesse aspecto, não vejo o Executivo fazendo alguma
coisa de mais concreto em relação a isso.
Lúcia Rodrigues - Por que o governo Lula não faz nada de mais concreto, se é um
governo teoricamente de esquerda? E tem um ministro dos Direitos Humanos que foi
torturado, inclusive.
Kenarik Boujikian - Eu não sei se o governo Lula é um governo de esquerda. Eu não
concordo quando se diz que é um governo de esquerda, e nem sei se até é teoricamente. Ele
foi eleito por uma base grande de esquerda, isso sim, mas ele não é um governo exatamente
de esquerda. Tanto que, em termos de Executivo, o que é que foi feito em relação a essa
matéria? Ele tem que assumir, ele é o presidente, foi ele quem recebeu milhões de votos.
Como é que ele não assume uma coisa dessas? Deixa cada ministério falar o que acham sobre
esse tema. Então, nesse processo nós temos essa tensão dentro do governo. E tensão eu acho
que pode existir, mas tem que ter alguém que diga se é A ou B. Alguém tem que dizer isso.
Quem seria? Só pode ser o presidente.
[...]
124
Júlio Delamanto- Mas se a polícia brasileira, hoje, continua torturando, o Brasil já não é
um refúgio de torturadores?
Kenarik Boujikian - É. Não deixa de ser uma cãs de torturadores. Eu acho que você está
certo. Mas é uma questão completamente diferente a tortura que é interna, que é aplicada e
que a gente tem de tomar também as medidas e assumir, porque isso não é assumido. Essa
tortura nas delegacias não é uma coisa assumida. O Estado não assumiu par si enfrentamento
dessa situação. Ele tem uma dívida muito grande e não vai conseguir passar também se não
resolver os fatos que aconteceram, não tem como, não dá para fazer essa passagem. Então,
quando eu falei hoje que ogenocídio dos armênios me tocou de algum modo, devo ter tido
alguma influência. O primeiro genocídio do século não foi resolvido. E o Hitler falava assim:
“Bom, quem se lembra dos armênios?”. E hoje é a mesma. Eu não estou deixando de
reconhecer que nós somos um grande país de tortura, eu não estou dizendo que não. Mas acho
diferente quando você assume com todas as letras que isso é a mesma coisa, isso tem o
mesmo significado, então vocês podem vir para o Brasil. Por isso que eu tenho esperança
nessa ação, porque o Supremo, no caso dessa extradição, já disse e extraditou o indiv´duo.
Houve muitas pressões, os organismos internacionais, regionais, da Am´rica Latina, não se
conformavam que poderia ter essa possibilidade do Brasil assumir essa posição.
Júlio Delamanto- Você estava falando sobre os poucos casos de tortura da pesquisa que
você fez. Eu queria que você comentasse um pouco sobre a tradição patrimonalista do
Brasil. Uma pena de furto é maior que uma pena de tortura.
Kenarik Boujikian - Eu não me conformo com isso. Eu não sou a favor de penas altas, longe
de mim, achar que penas altas resolvem algum problema de qualquer natureza. Como eu já
disse, acho que ninguém tem a noção do que significa um dia de prisão. O que eu acho que
existe é uma completa inversão de valores, e o exemplo mais claro para mim é esse da tortura
e do furto. Então eu sempre dou um exemplo assim: “Se eu Tatiana resolvemos subtrair a
bolsa ou livro que está ali e fomos embora, a pena é maior que o crime de tortura por
omissão”. É uma coisa maluca isso. Então um furto qualificado tem um peso maior que a
dignidade humana. A tortura, em síntese, um crime de tortura viola a dignidade humana.
[...]
VEJA - Edição 2104 - 18 de março de 2009
Dom José Cardoso Sobrinho
Não reclamem ao bispo
As
excomunhões
são
punições
quem
quer
que
pratique
aborto,
no caso da menina engravidada pelo padrasto
automáticas,
diz
o
previstas
para
arcebispo
criticado
Juliana Linhares
Ao longo de 2 000 anos de história, duas forças, ora conflitantes, ora complementares,
moldaram a Igreja Católica: a doutrina do amor e o amor pela doutrina. Dom José Cardoso
Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, é sem dúvida um homem da segunda força. Aos 75
anos, pequenino e orgulhosamente teimoso, ele reitera ponto por ponto as declarações que o
125
transformaram na figura mais criticada no caso da menina de 9 anos estuprada pelo padrasto
que engravidou de gêmeos e fez um aborto legal. A excomunhão dos adultos envolvidos é
exigida pelas leis da Igreja, diz dom José, que considera ter cumprido o seu dever. "Estou
tranquilíssimo", repete nesta entrevista, concedida na casa da arquidiocese na presença de
outras cinco pessoas – um advogado, uma psicóloga, um médico e sua mulher, e um vigário.
"Eles estão me dando apoio", explicou.
VEJA - Por que o senhor acha que tantas pessoas, católicas em sua maioria, ficaram
revoltadas com a sua posição no caso da excomunhão dos adultos envolvidos no aborto
da menina violentada?
Dom José - Em primeiro lugar, nós temos de colocar essa questão no âmbito religioso.
Acreditamos em Deus? É sim ou é não. E eu suponho que a grande maioria das pessoas
acredita. E acreditar em Deus significa aceitar que Deus é a origem de tudo e é também o
nosso fim. Essa é uma verdade fundamental. É premissa importantíssima para dizer que a lei
de Deus está acima de qualque r lei humana. E a lei de Deus não permite o aborto. Então, se
uma lei humana está contradizendo uma lei de Deus, no caso, a que permitiu a operação, essa
lei não tem nenhum valor. Quanto ao que você afirma, sobre as pessoas estarem revoltadas,
tenho de dizer que também houve um clamor grande, eu diria enorme, de autoridades de
Roma a meu favor. Tenho sido insultado, claro, mas hoje mesmo recebi uma carta de
Giovanni Battista Re, prefeito da Congregação para os Bispos em Roma, em que me elogia.
VEJA - O que o senhor diria aos católicos que condenaram sua atitude?
Dom José - Antes de tudo, quero deixar bem claro que não fui eu que excomunguei os
médicos que praticaram o aborto e a mãe da menina. Isso é falso. Eu não posso excomungar
ninguém. Eu simplesmente mencionei o que está escrito na lei da Igreja, o cânone 1 398, do
Código de Direito Canônico, que está aí nas livrarias para qualquer um ler. Por essa lei,
qualquer pessoa que comete aborto está excomungada, por uma penalidade que se chama
latae sententiae, um termo técnico que significa automática. Então, não foi dom José Cardoso
Sobrinho quem os excomungou. Eu simplesmente disse a todos: "Tomem consciência disto".
Qualquer pessoa no mundo inteiro que pratique o aborto está incorrendo nessa penalidade –
mesmo que ninguém fale nada. Quem é católico sabe que na primeira carta de São Paulo a
Timóteo, no capítulo II, está escrito: Deus quer que todos sejam salvos.
VEJA - Por que estupradores não são também automaticamente excomungados?
Dom José - A nossa santa Igreja condena todos os pecados graves. O estupro é um pecado
gravíssimo para a Igreja, assim como o homicídio. Agora, a Igreja diz que o aborto, isto é, o
ato de tirar a vida de um inocente indefeso, é muito mais grave que o estupro, que o homicídio
de um adulto. Qualquer pessoa inteligente é capaz de compreender isso. Eu não estou dizendo
que o estupro e a pedofilia são coisas boas. Mas o aborto é muito mais grave e, por isso, a
Igreja estipulou essa penalidade automática de excomunhão.
VEJA - Em que out ros casos se aplica a excomunhão automática?
Dom José - No Código de Direito Canônico anterior, promulgado por Bento XV, havia cerca
de quarenta motivos para a excomunhão automática. Em 1983, sob a autoridade de João Paulo
II, foi publicado um novo Código. O atual os reduziu a apenas nove. São eles: o aborto; a
apostasia, que é quando a pessoa abandona a religião; a heresia, que acontece quando uma
pessoa nega um dogma da Igreja; a violência física contra a pessoa do papa; a consagração de
126
um bispo sem a licença do papa; o cisma; a absolvição por um sacerdote do cúmplice de um
pecado da carne; a violação direta do segredo da confissão; e a profanação das hóstias
consagradas.
VEJA - O que a Igreja e o senhor pessoalmente ofereceram à menina, em matéria de
apoio material e espiritual, caso não fizesse o aborto?
Dom José - Agradeço muito essa pergunta. Essa criança residia na diocese de Pesqueira, na
cidade de Alagoinha, no interior de Pernambuco. Quando aconteceu isso, o bispo de
Pesqueira me informou que a menina seria trazida para o Recife. Ele e eu queríamos fazer o
que fosse possível para salvar a vida dela e a dos filhos que ela concebera. Nós tivemos várias
reuniões com nossos advogados para saber o que poderíamos fazer para impedir o aborto.
Pedimos audiência ao desembargador, e ele ligou para várias varas da infância e da juventude
para tentar fazer algo. O pai da menina esteve também nesse encontro e declarou ser contra o
aborto. Ele é analfabeto, mas repetiu desde o começo que não estava de acordo. Fez até uma
procuração para o nosso advogado e assinou. Quer dizer, assinou não, pôs o dedão lá. Então,
nós fizemos tudo o que foi possível.
VEJA - Foram oferecidos abrigo, sustento material, uma eventual família adotiva?
Dom José - Repito mais uma vez: essa menina é residente em outra cidade, portanto, em
outra diocese. O bispo de Pesqueira foi quem acompanhou tudo de perto. O padre de lá deu
toda a assistência possível. A menina não tinha nenhum problema de necessidade material
nem passava fome. E, se acontecesse o parto, a cidade de Alagoinha iria ajudar. A menina não
ficaria abandonada. A nossa santa Igreja iria ajudar. Nós temos aí abrigos para os pobres. Mas
eu queria voltar a insistir no fato de que estamos sempre tentando cumprir a lei de Deus. E o
quinto mandamento diz: não matar. Então, não é lícito, para salvar uma vida, eliminar a vida
de dois inocentes. O fim não justifica os meios. Eu posso ter uma finalidade ótima, salvar a
vida daquela menina grávida. O meio para chegar lá pode ser usar todos os recursos da
medicina. Mas nunca, jamais, eliminar a vida de um inocente para salvar a vida de outro. O
aborto é um crime nefando.
VEJA - O senhor esteve com ela alguma vez?
Dom José - Não consegui. Quando eu soube do caso, passei o dia todo, das 7 da manhã às 10
da noite, trabalhando na tentativa de evitar a operação. Mais tarde, eu estava me dirigindo ao
primeiro hospital onde a menina foi internada, no interior do estado, para tentar convencer a
família a desistir do aborto, e eis que tive uma surpresa. Um médico amigo me telefonou para
dizer que um grupo de mulheres chamadas feministas tinha convencido a mãe a assinar um
documento em que assumia a responsabilidade pela filha e autorizava a sua alta. Ela então
seguiu para outro hospital, no Recife, onde o aborto foi feito já no dia seguinte. Eu fiquei
muito angustiado.
VEJA - O senhor sabe como era a vida da menina dentro da casa onde ocorriam os
estupros?
Dom José - Com licença, esses detalhes eu não sei. Se alguém tiver interesse, o caminho mais
curto é ligar para o padre da cidade de Alagoinha e perguntar.
VEJA - Qual é o nome dela?
127
Dom José - A menina... Como se chama? (A pergunta é dirigida às cinco pessoas que
acompanharam a entrevista a pedido do arcebispo; ninguém sabe responder.)
VEJA - Como o senhor se sente em face das críticas e dos ataques que vem recebendo?
Dom José - Eu quero dizer que estou com a minha consciência tranquila. Cumpri o meu
dever. Não podia prever essa reação em nível nacional e internacional, mas remorso eu
sentiria se tivesse ficado em silêncio. Humanamente falando, é muito mais cômodo cruzar os
braços e fechar os olhos. Eu estou tranquilíssimo. Espero que os fiéis católicos se
conscientizem da gravidade de um aborto. Nós sabemos que no mundo inteiro acontecem 50
milhões de abortos por ano. No Brasil, há 1 milhão a cada ano. Quero lembrar o que
aconteceu na II Guerra Mundial. Hitler, aquele ditador, queria eliminar o povo judaico e
dizem que ele chegou a matar 6 milhões de judeus. Não podemos esquecer esse delito. Agora,
eu pergunto: por que vamos ficar em silêncio quando estão acontecendo 50 milhões de
abortos no mundo? Eu chamo isso de o holocausto silencioso. E nós, cristãos, não podemos
ficar quietos.
VEJA - Do ponto de vista da doutrina da Igreja, qual é a situação da menina?
Dom José - Ela não foi excomungada, porque essa sentença só se aplica a maiores de idade.
Essa menina vai ser recebida na paróquia dela para ter instrução religiosa. Eu não sei se fez a
primeira comunhão. Se ela tiver consciência de algum pecado, vai se confessar e receber o
perdão. Não existe pecado sem perdão para aqueles que se arrependem, inclusive para os que
incorrem na excomunhão. A Igreja só aplica essa penalidade para levar a pessoa à conversão
ou, se era católica antes, à nova conversão. Se a pessoa se converte, a Igreja tem poderes para
absolvê- la.
VEJA - Se o senhor ficasse frente a frente com a menina, o que diria a ela?
Dom José - Eu diria: o que aconteceu já passou. Daqui para a frente, procure praticar a
religião com os meninos da sua idade, ir para a igreja e aprender o catecismo. Seria tão bom
se as criancinhas fossem como antigamente, quando nem tinham uso da razão mas já sabiam
rezar o Pai-Nosso e a Ave-Maria.
VEJA - Se encontrasse o padrasto que a violentou, o que diria a ele?
Dom José - Eu iria procurar convertê- lo. Iria perguntar se reconhece que errou e se está
arrependido. Eu não sei onde ele está, se está preso, sei lá. Mas, se tivesse a oportunidade de
visitá-lo, diria a ele que pedisse perdão a Deus. Iria ajudá- lo a fazer uma oração pedindo
perdão.
VEJA - O senhor acredita que uma educação religiosa poderia ter evitado o estupro?
Dom José - Certamente. E o aborto também. Soube esses dias de um caso parecido, mas que
teve um desenrolar muito diferente. É uma menina de 12 anos, do Rio Grande do Sul, que
também engravidou assim. A diferença é que o médico dela me ligou dizendo que não vai
fazer o aborto. Esse é um exemplo edificante que, infelizmente, não encontra muita difusão na
imprensa. Outro exemplo: dia desses, uma mulher da mesma diocese dessa menina
(pernambucana), que tinha um filho de 1 ano e meio, engravidou de novo. Ela não queria ter
esse segundo filho. Então, foi procurar um médico querendo abortar e levou o menino mais
velho junto, para dizer que não tinha cond ições. Mas o médico era católico e disse à mulher
que, já que ela não podia ter dois filhos, ele ia matar o primeiro e ela ficava com o segundo, o
que estava na barriga. A mulher, na hora, despertou e não aceitou mais o aborto.
VEJA - O senhor já fez sermões contra a pedofilia, contra o estupro?
Dom José - Nós temos na arquidiocese uma rádio católica. Eu tenho um programa diário e
128
estou explicando ao povo o catecismo da Igreja. Leio um parágrafo e faço um comentário.
Estou cumprindo o meu dever. E falo sobre todos os pecados. Ninguém pode dizer que dom
José não condena a pedofilia e que dom José não condena o estupro. Mas não posso falar
diariamente sobre a pedofilia. Vão dizer que estou louco. Eu não omito nenhum tema da lei de
Deus.
VEJA - Os adversários da Igreja são rápidos em reavivar os erros do passado, como a
Inquisição e as perseguições religiosas, e projetá-los no presente. A Igreja raramente
rebate. Isso significa que ela se desacostumou do embate de ideias?
Dom José - Não. O que acontece é que a doutrina teológica diz que qualquer problema
teológico, na história da Igreja, tem de ser escutado para ver quais são as opiniões. A
diversidade de opiniões é permitida na Igreja. Agora, quando se trata de dogmas, a Igreja não
pode admitir que se discorde. Quem não aceita esses dogmas está fora. E não adianta um
católico dizer que, porque uma lei brasileira permite tal coisa, ele pode fazer essa coisa, como
é o caso do divórcio, e ficar tranquilo. Fica não.
VEJA
O
senhor
tem
mais
algo
a
dizer
sobre
o
caso?
Dom José - Sim, eu lamento não poder ter feito o batizado desses dois bebês. Eu estava
planejando uma festa para esse dia, mas não aconteceu.
Caros Amigos, escritor Juan Diaz Bordenave, número 137, agosto de 2008
Em nome da justiça, Brasil deve rediscutir Itaipu
José Arbex Júnior
O Tratado de Itaipu, assinado em 1973 entre as ditaduras paraguaia e brasileira, reflete
históric vocação expansionista do Brasil e é hoje uma pedra no sapato da relção entre os dois
países : sem sua reformulação, a fim de reparar grave injustiça cometida contar o Paraguai,
não fará sentido discurso algum sobre uma América do Sul mais Just, solidária e soberana,
afirma Juan Dias Bordenave, um dois principais intelectuais paraguaios e ex- membro da
Comissão da Verdade Justiça, encarregada de apurar crimes cometidos pela ditadura Alfred
Stroessner (veja o sítio HTTP://www.verdadyjusticia.gov.py/). Adepto da Teologia da
Libertação, amigo de Fernando Lugo, o bispo eleito presidente do Paraguai, Juan Díaz é
formado em jornalismo rural pela Universidade de Wisconsin e doutor em comunicação pela
Universidade de Michigan. As editoras Brasiliense e Vozes lançaram ao menos dez de seus
livros, que dialogaram com a concepção de Paulo Freire. Trabalhou anos no Brasil, fala e
escreve em português; a mulher Maria Cândida é de Ribeirão Preto-SP.
[...]
CAROS AMIGOS - O sr, propõe que o governo Lugo assuma uma polític culturl que
contemple os direitos, a dignidade e a herança das tradições dos povos originários.
Juan Diaz – Necessitamos uma cultura mais do ser do que ter, mais de cooperar que do
competir, e que junte o pensar com o sentir. (O equatoriano Patrício Guerrero cunhou a
palavra corazonar, juntando corazón com razonar). Em países que, como o Paraguai, falam a
língua de nossos ancestrais, a política cultural não pode deixar de promover o bilingüismo, já
que a língua é parte central da identidade cultural.
129
CAROS AMIGOS - O sr. defende uma perspectiva que se aproxima da relação proposta
por Paulo Freire entre intelectuais, movimentos sociais e populares e a produção do
conhecimento.
Juan Diaz - Defendo uma pedagogia problematizadora e crítico-participativa, contrária à
meramente transmissora, definida por Freire como “educação bancária”. Na opção
libertadora, o conhecimento é construído pela pessoa e não recebido como um pacote. O
conhecimento é construído a partir do contato ativo e transformador com a realidade do
mundo e da vida. A construção passa pela “conscientização”, mediante a qual a pessoa
percebe a sua realidade como um problema que pode ser resolvido ou melhorado. Ao
participar da transformação da realidade, a pessoa se transforma, isto é, se educa. A educação
problematizadora, ao mesmo tempo em que forma o profissional, forma o cidadão. Essa
pedagogia pode transformar a atual cultura paraguaia autoritária e de baixa autoestima numa
cultura da dignidade, da solidariedade e da inovação. (Caros Amigos, escritor Juan Diaz
Bordenave, número 137, agosto de 2008).
[...]
Veja – Edição 2144 – 23 de dezembro de 2009
Entrevista: Bjorn Lomborg
Podemos fazer melhor
O principal representante dos céticos diz que o combate ao aquecimento global tem de se
basear em tecnologia, e não em mudanças no consumo
Ronaldo França, de Copenhague
O cientista político dinamarquês Bjorn Lomborg, de 44 anos, não tem carro. Usa bicicleta ou
metrô para se deslocar em Copenhague. Lomborg é um dos mais respeitados entre os
pesquisadores céticos em relação aos efeitos catastróficos do aquecimento global. Seus livros
e artigos provocam a ira de ambientalistas, mas seus argumentos afiados também são ouvidos
com atenção pelos cientistas. Sua descrença se dá em torno da histeria criada acerca do
assunto e do que se pretende fazer para solucionar o problema da elevação da temperatura.
"Não sou um crítico da ciência que prova o aquecimento. Sou um crítico da política de
combate ao aquecimento." Ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA na sede da COP15, em
Copenhague.
VEJA -Qual foi o estrago do "climagate", o escândalo do vazamento de e-mails em que
cientistas confessam a manipulação de dados para reforçar a tese do aquecimento
global?
Bjorn - O que está claro é que havia uma inclinação evidente para não compartilhar dados
com pesquisadores cujos trabalhos não reforçaria m a teoria do aquecimento global.
Possivelmente, os dados foram mascarados, o que não significa exatamente uma falsificação.
VEJA - Sim, mas mascarar dados não é suficiente para invalidar toda a pesquisa?
Bjorn - Não. É um erro achar que esse escândalo invalida todo o trabalho que os cientistas do
clima produziram nas duas últimas décadas. O aquecimento global está aí. É um desafio.
130
VEJA - Então, o senhor aconselha a esquecer o episódio e continuar levando seus
autores
a
sério?
Bjorn - Não é isso. O escândalo não pode ser considerado apenas uma tempestade em copo
d’água. O que eles fizeram é muito sério e perturbador. Tem implicações muito maiores.
Esses cientistas formam uma máfia que se apossou da questão do clima. Tive muitos
problemas com essa máfia do clima. Quando estava escrevendo meu livro, tentei me
corresponder com alguns daqueles pesquisadores que detinham dados pelos quais eu tinha
interesse. Recebi de volta algumas mensagens em cujo campo de destinatário eu fui incluído
por engano. Foram mensagens reveladoras. Elas diziam: "Esse homem é perigoso. Não
forneçam nenhum dado a ele. Devemos ter cuidado em não deixar que nossas informações
apareçam em pesquisas públicas".
VEJA - Por que o senhor é cético em relação às previsões sobre o aquecimento global?
Bjorn - Discordo da forma como as discussões sobre esse tema são colocadas. Existe a
tendência de considerar sempre o pior cenário – o que aconteceria nos próximos 100 anos se o
nível dos mares se elevar e ninguém fizer nada. Isso é irreal, porque é óbvio que as pessoas
vão mudar, vão construir defesas contra a elevação dos mares. No entanto, isso é só uma parte
do que tenho dito. Sou cético em relação a algumas previsões, sim. Mas sou cético
principalmente em relação às políticas de combate ao aquecimento global. O problema
principal não é a ciência. Precisamos dos cientistas. A questão é que tipo de política seguir. E
isso é um aspecto econômico, porque implica uma decisão de gastar bilhões de dólares de
fundos sociais. Em outras palavras, não sou um cético da ciência do clima, mas um cético da
política do clima. Basicamente, digo que não estamos adotando as melhores políticas porque
não estamos pensando onde gastar o dinheiro para produzir os maiores benefícios.
VEJA - O relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da
ONU) diz que a humanidade é "provavelmente" responsável pelo aquecimento. O que
significa
esse
"provavelmente"?
Bjorn - Os cientistas estão dizendo que têm 90% de certeza. Que há fortes evidências de que
somos responsáveis em pelo menos 50% pela elevação da temperatura. É a partir daí que
temos de elaborar as políticas. Se a maior parte dos cientistas diz que algo provavelmente vai
acontecer, temos de agir de acordo com essa informação. O que não significa que não se deva
garantir financiamento às pessoas que trabalham para descobrir erros nessa proposição.
Deveríamos gastar dinheiro com as pesquisas dos céticos justamente para aperfeiçoar a
informação que tem dominado os debates.
VEJA - Com que cenários é razoável trabalhar quando se fala da elevação do nível dos
oceanos?
Bjorn - Quando perguntamos aos cientistas do IPCC qual seria o resultado mais provável do
aquecimento sobre o mar, eles disseram que o nível das águas subiria entre 18 e 59
centímetros. Esse é o parâmetro mais aceitável. Não faz sentido trabalhar com cenários de até
6 metros, como quer o Al Gore, ex-vice-presidente americano. Porque é tão improvável que
isso aconteça quanto que não haja elevação alguma. As pessoas que fazem projeções
catastróficas acreditam que fazer mais alarde estimula a população a agir. Mas vale lembrar:
análises e argumentos baseados no pior dos piores cenários induzem ao pânico, e o pânico não
é a melhor forma de fazer um bom julgamento. Esse foi o mesmo argumento que George W.
Bush usou quando invadiu o Iraque. Ele disse que estava absolutamente certo sobre a
localização das armas de destruição em massa, e o resultado foi o que se viu. Por isso prefiro
trabalhar com os impactos mais prováveis.
VEJA
Quais
são
esses
impactos?
Bjorn - Costumamos esquecer que a maioria dos lugares ricos no mundo conseguirá lidar
com o aquecimento global. Sabemos disso porque é o que os holandeses vêm fazendo desde o
131
século XVII. A Holanda tem 60% de sua população vivendo abaixo do nível do mar. O
principal aeroporto de Amsterdã fica 3 metros e meio abaixo do nível do mar. É simplesmente
uma questão de tecnologia. Ninguém que vai à Holanda fica pensando: "Ai, meu Deus, estou
abaixo do nível do mar". Não que isso não seja problemático ou custoso. Mas é um custo que
chega a 0,5% ou no máximo 1% do PIB. Então, é bom enfatizar, o Rio de Janeiro nunca vai
submergir, tampouco Nova York. Nos últimos 150 anos, o nível do mar subiu 30 centímetros.
Pergunte a uma pessoa muito idosa quais as coisas mais importantes que aconteceram no
século XX. Ela vai mencionar as guerras mundiais, ou talvez a revolução tecnológica. Sua
resposta não vai ser que o nível do mar subiu.
VEJA - Fala-se muito do impacto causado pela forma como as pessoas desperdiçam
produtos
e
energia.
Como
o
senhor
faz
no
seu
dia
a
dia?
Bjorn - Há muita confusão em torno desse debate sobre consumo ético, como se a questão
toda se resumisse ao que a pessoa faz. É uma visão torta porque, no fim das contas, o que nós
fazemos está profundamente regulado pela forma como a sociedade funciona. Posso pegar um
ônibus em vez de um carro na Dinamarca (eu nunca tive carro). Mas não poderia fazer isso
nos Estados Unidos. Por isso, acho que reduzir tudo à ideia de que você deve fazer algo sobre
seu consumo não é o melhor caminho. Para dar uma noção de proporção, se todos no mundo
ocidental trocassem suas lâmpadas atuais por um modelo mais econômico, ao final de um ano
as emissões se reduziriam apenas o equivalente à quantidade de CO2 que a China joga na
atmosfera em um dia. Acho inútil adotar o argumento de que não se deve agir desta ou
daquela maneira porque é imoral. Resumindo: organizações verdes querem mudar a natureza
humana, dizendo que não se deve querer ter ou gastar mais. É muito difícil mudar a natureza
humana. Prefiro mudar a tecnologia. Assim, poderemos fazer o que quisermos, mesmo
emitindo CO2.
VEJA
As
empresas
estão
fazendo
sua
parte?
Bjorn - A maioria das coisas que se veem por aí é marketing. É o chamado banho verde.
Estão fazendo economia de energia como sempre fizeram, desde o início do século XIX, de
quando datam as estatísticas. Todas as empresas, em todos os lugares, inclusive nos Estados
Unidos e na Europa, vêm reduzindo o desperdício de energia. Ou usando cada vez menos
energia para cada dólar que produzem. O que é uma das maneiras de manter a liderança no
mundo dos negócios. Cada vez que conseguem essa redução, anunciam que estão
economizando CO2. Mas é óbvio que o que estão economizando são dólares. Não há nada de
errado nisso. Só não devemos achar que elas estão salvando o planeta.
VEJA - Por que o crescimento populacional não é levado em consideração nas
discussões
sobre
clima?
Bjorn - Se fosse possível limitar substancialmente o crescimento da população mundial,
provavelmente as emissões não aumentariam tanto. Mas você só consegue alterar essa
variável dramaticamente num regime autoritário como o da China, onde o governo determina
que os casais só podem ter um filho. Não acho que se vá reduzir a taxa de natalidade com
informação. As pesquisas mostram que as pessoas agem de forma muito racional sobre o
número de filhos que têm. Para os pobres, crianças são fonte de renda. Para os ricos,
representam despesa. Então você pode interferir no tamanho da prole tornando as pessoas
mais ricas. Independentemente disso, é preciso lembrar que a principal razão para os
nascimentos até 2050 não é que muitas pessoas têm muitos filhos, mas porque há muitos
jovens que ainda não têm filhos e querem ter. Até lá teremos provavelmente mais 2,5 bilhões
de pessoas. Há muito pouco que se possa fazer sobre isso.
VEJA - Se o senhor tivesse filhos, estaria preocupado com o futuro?
Bjorn - Tenho primos que têm filhos, e alguns dos meus melhores amigos também têm. Claro
que desejo que eles tenham uma vida boa. E eles terão. Vão ficar bem, serão ricos. Porque
132
todos os filhos geneticamente gerados que conheço são brancos. Não é com eles que temos de
ficar mais preocupados. É com os outros três quartos das pessoas deste planeta, a quem não
sou intimamente ligado, que não são brancas, são pobres e vivem hoje uma situação difícil. O
paradoxo é que a ONU espera que todos enriqueçam. Os filhos dos meus primos estarão entre
quatro e oito vezes mais ricos no fim do século. As pessoas nos países em desenvolvimento
estarão 35 ve zes mais ricas. A média das pessoas em Bangladesh não será pobre em 2100,
mas classe média alta. Ou seja, estamos pensando em ajudar pessoas que serão ricas daqui a
100 anos, mas deixando de ajudar as pessoas pobres que estão aqui agora, hoje. Esse é, para
mim, o grande dilema ético: nós nos importarmos tanto com os ricos do futuro e tão pouco
com os pobres do presente.
VEJA
O
senhor
pode
dar
um
exemplo?
Bjorn - O caso dos países insulares é claro. Se você olhar para Tuvalu, que tem 12 000
habitantes e pode desaparecer, verá que as pessoas de lá não vão sumir. Elas terão de se
mudar, o que será triste. Mas é curioso lembrar que a cada sete horas e meia um número
equivalente de pessoas morre no mundo em decorrência de doenças infecciosas facilmente
curáveis. São cerca de 15 milhões de pessoas que morrem desta maneira todo ano no mundo.
As pessoas de Tuvalu terão apenas de se mudar. Para mim, é muito curioso que estejamos
gastando tanto dinheiro para ajudar as pessoas de Tuvalu e fazendo tão pouco pelas 12 000
que morreram nas últimas sete horas e meia. Fala-se muito em aquecimento global. Mas as
pessoas de verdade têm problemas mais urgentes. A maioria das pessoas nos países em
desenvolvimento, ou três quartos da população mundial, quer saber como vão sobreviver até a
semana que vem.
VEJA - O que se pode esperar das decisões tomadas na conferência?
Bjorn - Quando 120 líderes se reúnem, eles não podem não fazer um acordo, em torno de números que
soam agradáveis. O problema é que não conseguiremos cumpri-lo. Faremos um lindo documento, todos
vão brindar com champanhe, depois vão para casa, e nada vai acontecer. Vem sendo assim nos últimos
dezoito anos. Não cumprimos o que foi acertado no Rio de Janeiro em 1992. Em Kioto, houve um
compromisso legalmente assumido, no qual se prometeu cortar ainda mais, e ainda nada foi feito. Acreditar
que Copenhague será diferente me parece uma fantasia política.
Isto é - Edição: 2087 - 13-Nov -09
Não Pisem no Meu Calo
Dunga
O técnico da Seleção conta como domou as estrelas do time, superou o estigma de
inexperiente e o que fará para vencer a Copa
Rodrigo Cardoso
Patriota, Carlos Caetano Bledorn Verri, o “Dunga”, 46 anos, perde a estribeira quando falam
mal do seu país. Nascido em Ijuí (RS), casado com Vanda e pai de três filhos, ele não foge à
133
luta e nem de pergunta nenhuma. No assunto futebol, tem autoridade. Estreou como técnico
aos 43, já no comando da Seleção Brasileira. Participou de três copas e foi campeão do
mundo como jogador, tendo levantado a taça nos Estados Unidos, em 1994.
Como treinador, coleciona os títulos da Copa América, em 2007, e da Copa das
Confederações, neste ano, além de conquistar a primeira colocação nas eliminatórias sulamericanas para a Copa de 2010, na África do Sul. Mantém perfil de liderança que o fez ser
capitão quando atleta no comando do time nacional e em todas as esferas de sua vida. Até no
condomínio onde mora, em Porto Alegre. “Já me procuraram para resolver problemas de
segurança, de matrícula de criança em escola e outras reivindicações”, conta. “Tento ser
conciliador.
Não adianta fazer gritaria, tem de conversar.” Foi com muito papo que ele driblou várias
pressões nesses três anos no cargo. E mostrou aos jogadores que, apesar da fama de bravo,
trabalhar com ele não assusta.
ISTOÉ - O sr. tem sono tranquilo antes dos jogos?
Dunga - Antes das partidas, durmo tranquilamente. Não durmo depois, por conta da
adrenalina. Fico deitado na cama, com a tevê ligada até 3h, 4h, mas é o filme do jogo que fica
passando na minha cabeça.
ISTOÉ - Por que o sr. se irrita tanto nas entrevistas?
Dunga
Não
tem
como
me
controlar.
Saio de um jogo, de uma guerra, sabendo da expectativa de 180 milhões de pessoas. Já vi
muito cara falar que eu tenho de sorrir. Claro, dentro de casa, tomando vinho sentado, eu
também pensaria a mesma coisa! Me cobro, às vezes, para deixar para lá e não responder a
certas perguntas. Mas aí eu não iria ser feliz.
ISTOÉ - De um a dez, qual a chance do Brasil na Copa da África do Sul em 2010?
Dunga - O Brasil sempre será um dos favoritos. Para termos sucesso, nosso trabalho será dar
privacidade para a Seleção treinar. O treino é a hora de fazer ajustes, de arriscar, de o jogador
colocar em prática sua criatividade. Se tiver três mil pessoas gr itando em volta (como ocorreu
em Weggis, cidade suíça onde o Brasil fez a preparação para a Copa de 2006), a equipe acaba
perdendo
a
concentração.
Na Copa das Confederações (vencida pelo Brasil neste ano, na África do Sul), a gente liberou
um treino. Aí, falaram: “Weggis voltou.” Trancamos o treino seguinte e chiaram. Qualquer
decisão que você toma na Seleção será contestada em 50%.
ISTOÉ - O ex jogador e atual comentarista Falcão, que já dirigiu a Seleção Brasileira,
fez críticas ao seu trabalho. O que o sr. pensa sobre isso?
Dunga - Não tenho nenhuma mágoa do Falcão. O professor (Paulo) Paixão (preparador físico
da
Seleção)
diz:
“Quando te dão a chave da casa, tu és quem entras e sabes o que tens de arrumar.” Cada um
teve
a
sua
oportunidade
na
vida
e
tem
de
saber
aproveitá-la. O que não posso é, quando sair daqui, ficar criticando os outros que estão
entrando se, quando eu estive aqui, eu não fiz! Digo para os jogadores aproveitarem os 5, 10,
134
40 minutos que jogarem, porque depois que passar a chance, não adianta falarem que eram
melhores que fulano.
ISTOÉ - Como montou a Seleção do Dunga e não a da Globo, do Kaká, do Lula ou do
Ricardo Teixeira?
Dunga
Eu
montei
a
Seleção
Brasileira.
Busquei jogadores competitivos e com qualidade técnica. Montamos uma base, com
jogadores com experiência, e, aos poucos, com a espinha dorsal pronta, fomos dando
oportunidade para todos jogarem.
ISTOÉ - O sr. e o Jorginho, seu auxiliar, têm uma empatia grande. Temos uma Seleção
com dois técnicos?
Dunga - Não. É um técnico só. É uma comissão técnica formada por uma cabeça, que sou eu,
com membros que me orientam.
ISTOÉ - O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, reclamou de jogadores que bebiam e
estavam fora do peso em 2006. Há regalias, hoje, na Seleção?
Dunga - Comigo as coisas são bem mais simples. A Seleção é mais importante do que todos.
Se alguém quer alguma vantagem, respeito, ascensão sobre o grupo, tem de conquistar dentro
do campo. Não dou nada a ninguém, não é treinador que dá vantagem ou reconhecimento ao
jogador.
Aqui é regra básica: todo mundo se apresenta no mesmo dia, dorme e acorda no mesmo
horário.Não existe o famoso jeitinho, o levar vantagem em tudo. Um jogador já me falou:
“Bom, se vai ser igual para todo mundo, que bom.”
ISTOÉ - Antes de o sr. assumir, a Seleção vivia uma Globodependência, uma vez que a
emissora carioca tinha acesso ao time a qualquer hora?
Dunga - Acho que não. Sabe quando tu tens um sapato velho e, mesmo que ele te machuque,
tu entortas o pé, mas ficas nele? Só que aí chega um cara e muda tudo. Quer dizer, não mudei
nada. Fiz as coisas voltarem a ser como deveriam ser. Eu respeito qualquer profissional.
Claro, tenho simpatia por um e por outro, mas não sou um cara de sair jantando com os caras
(jornalistas).
Posso até fazer, mas jamais por interesse. Só que muitos acham que treinador da Seleção tem
de atender todo mundo, ser sempre simpático. Não sou agente de turismo!
ISTOÉ - Como funciona hoje?
Dunga - Entrevista de jogador é antes do treino. Treinador fala na coletiva. E acabou! Aí
dizem que não deixo a turma trabalhar. Eu deixo, mas agora tem
seu horário. Alguns caras perderam privilégios ou quiseram me testar, já que eu era novo lá. E
venderam a imagem de que eu era um cara chato, mal- humorado.
Aí veio a história da minha roupa, do meu jeito de falar... Só que é o seguinte: eu gosto de
ordem!
135
ISTOÉ - O sr. se veste bem?
Dunga - Me visto normal. Só vesti uma camisa mais extravagante. Ficaram em cima desse
episódio e minha filha (estilista, que comprava as roupas para o pai) virou teimosa, isso,
aquilo. Não gosto de usar gravata em jogo, porque fico muito agitado. Prefiro calça e camisa
confortáveis, que não atrapalhem a movimentação. Não gosto de agasalho. Se ele não for feito
na medida, fica grandão, e me sinto dentro de um saco de batata.
ISTOÉ - Importa para o sr. o que o jogador faz fora do campo?
Dunga - Dentro da Seleção, se o cara cometer um erro, tem de me falar, não quero saber por
terceiros. Agora, não tenho como ficar controlando na casa, no clube dele. Falo com os atletas
por telefone, eles me ligam até para assuntos pessoais. Felizmente, não tivemos problema com
nenhum. Mas no Brasil queremos que o jogador seja exemplo para tudo: tem de ser
inteligente,
o
melhor
na
escola,
falar
português
corretamente.
Só que nós viemos de uma classe menos favorecida e não tivemos tempo de estudar. Não
estou
dizendo
que
esteja
certo
o
jogador
que
faz
besteiras.
Mas
eu
me
pergunto:
e
os
outros?
Temos de desmistificar algumas coisas, como o fato de um jogador comprar um carro quando
ganha
algum
dinheiro.
Fazer isso é uma ascensão social, como é para o médico e o arquiteto.
ISTOÉ - O Kaká foi enquadrado pelo sr. quanto ao lugar dele na Seleção. Acredita que,
hoje, ele pediria dispensa de um torneio, como fez na Copa América, em 2007?
Dunga - Tu vês algum jogador pedir dispensa agora? Eu esperava contar com o Kaká naquela
que foi a primeira competição oficial nossa, mas tudo é questão de as pessoas irem te
conhecendo.
Nós fomos conversando com o Kaká e explicamos que não é apenas uma questão técnica, de
ele jogar ou deixar de jogar. É a imagem dele, o quanto ele é importante para os jogadores
menos
experientes.
Ele
é
uma
pessoa
inteligente
e
foi
tranquilo.
Com conversa todo mundo começa, não digo a pensar da mesma forma, mas a ter o mesmo
objetivo.
ISTOÉ - O Ronaldinho Gaúcho foi convocado para a Olimpíada em rede nacional pelo
Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Presidente
pode convocar jogador?
Dunga - O presidente já tinha falado com a gente antes. Tínhamos nos reunido e traçado a
preparação da Seleção olímpica. O presidente me perguntou se ainda pensava no Ronaldinho
na Seleção principal. E eu falei que sim. Ninguém tirou o chapéu de ninguém.
ISTOÉ - Pensa ainda no Ronaldinho?
Dunga
Lógico,
ele
é
um
jogador
diferenciado.
Depende dele. Quero contar com os melhores. Mas nossa Seleção deixou de ser apenas uma
questão exclusivamente técnica. É uma questão de competitividade e comprometimento.
136
ISTOÉ - O presidente Lula presenteou o presidente dos EUA, Barack Oba ma, com a
camisa do Brasil. Na mesma época, porém, ele elogiou a seleção da Argentina. Como se
sentiu?
Dunga - Cada um tem a liberdade de torcer para o time que quiser. Lógico, pensávamos que o
presidente iria nos apoiar no momento em que não estávamos tão bem. Mas eu não posso
querer que o presidente pense como o Dunga. Uma minoria tem espaço para falar na mídia,
mas, com certeza, há quatro vezes mais pessoas que torcem por nós e não têm espaço para
falar. Falo para o time: “Não adianta ficar chorando, pedindo ajuda. Temos que resolver
nossos problemas, jogar para quem gosta da gente, para os nossos familiares.” Eu sou bicho
do mato. Quando sou ferido, vou para o mato lamber minha ferida para voltar para a guerra de
novo. O meu mato é minha casa, são os meus amigos.
ISTOÉ - O sr. consegue reproduzir o momento em que foi procurado para ser técnico da
Seleção?
Dunga - Eu estava com a minha família em um restaurante japonês. O presidente Ricardo
Teixeira me ligou e convidou para conversarmos sobre futebol. Brinquei com meus filhos:
“Ó, vou ser treinador da Seleção Brasileira.” Mas na hora pensei que seria chamado para
algum outro cargo.
ISTOÉ - Como se define como pai (ele tem três filhos, Gabriela, 23 anos, Bruno, 21 e
Mateus, 2)?
Dunga - Sou ciumento, possessivo, cabeça dura. Acho que é a parte alemã, italiana. Tenho
um monte de defeitos. E não aceito “não” como resposta. Se alguém me falar que não dá para
fazer tal coisa, ah, eu me mato, fico sem comer, sem dormir, até conseguir. Eu sou boa gente,
mas não pisem no meu calo.
ISTOÉ - Ao final da Copa, o sr. seguirá no cargo?
Dunga - Ser técnico da Seleção é muito legal, estou muito feliz. Me enche de orgulho e
satisfação saber das nossas conquistas. Se você tivesse me perguntado lá no início se
aconteceria tudo isso, eu diria: “Menos, menos.” Surpresa não é a palavra, porque tudo só
acontece em decorrência do trabalho. E o nosso trabalho é bom. Mas pretendo sair (da
Seleção) e dar oportunidade para outra pessoa.
Isto é - Edição: 1963 - 13.Junho.07
Pedro Simon
"A classe política rouba, rouba, e não acontece nada"
O senador gaúcho diz que a solução para a crise moral não virá da classe política e defende
que as pessoas ocupem as ruas
Por Rudolfo Lago
Aos 77 anos, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) está desencantado com a política. Ele
afirma que todo o comando do País, Congresso, Executivo e Judiciário, está de mãos atadas
137
por conta da corrupção. Do alto de seu desencanto, Simon diz não encontrar mais ninguém
que possa servir de exemplo às pessoas. Ele percebe que as atitudes da maior parte dos
parlamentares não se parecem com as suas e teme que esses comportamentos comecem já a
contaminar os valores do Brasil como um todo. Por isso, esse gaúcho de Caxias do Sul,
casado e pai de quatro filhos, avalia que já não se deve esperar uma solução para essa crise
moral que saia do Parlamento brasileiro ou de qualquer outro setor da elite política nacional.
Pedro Simon prega que somente a sociedade, de forma organizada, pode cobrar a saída que
faça o País retomar o caminho da ética e da moralidade. Ele quer as pessoas nas ruas,
cobrando de políticos, do governo e do Judiciário um novo comportamento.
ISTOÉ - Há cerca de 15 anos, o sr. propôs a CPI das Empreiteiras. Por que essas
investigações nunca aconteceram?
Pedro Simon - Existem vários interesses em jogo. Nas últimas eleições - nas duas em que o
Lula ganhou e nas duas em que a vitória foi do Fernando Henrique -, as empreiteiras estavam
no primeiro lugar na lista dos doadores de campanha. Quando nós pedimos a CPI das
Empreiteiras pela primeira vez no governo Fernando Henrique, o PT não chegou a ser contra,
mas também não fez muita força. Na segunda vez, o PT foi contra, e o PSDB também. Agora,
estava quase certo que poderia sair a CPI da Navalha. Porque envolvia uma empreiteira
pequena. O dono dessa empreiteira era subgerente de uma outra grande empreiteira da Bahia.
Era quase certo que sairia essa CPI. Mas aí disseram: "Então, vamos fazer de todas as
empreiteiras." Agora, não vai nenhuma. Como vai atingir todas as empreiteiras, vai atingir
quase todo mundo. Aí, infelizmente, morreu. Retiraram as assinaturas e não se consegue
repor.
ISTOÉ - Então temos um Congresso comprometido?
Pedro Simon - Nós temos é o comando do País de mãos atadas. Congresso, Executivo,
Judiciário. Me honra dizer que, ao longo da história, o Rio Grande do Sul tinha fama de ter
um grande Judiciário. Agora, não sei mais. O Judiciário também está atingido.
ISTOÉ - E como o País pode sair dessa crise ética?
Pedro Simon - Não tem que se fazer nenhuma nova lei, não é necessário mudar nada. A única
coisa que precisa é acabar com a impunidade. Botar quem comete essas bandalheiras na
cadeia. Como aconteceu na Itália na Operação Mãos Limpas. Investigação que prendeu exprimeiros- ministros, mais de 100 parlamentares, empresários. Quer dizer: fizeram para valer.
Aqui no Brasil não se vê qualquer chance de se fazer isso.
ISTOÉ - Por quê?
Pedro Simon - Aqui, inventaram primeiro o tal foro privilegiado para os parlamentares. Para
serem processados, os deputados tinham que ter licença da Câmara ou do Senado. Aí, o
procurador denunciava, o Supremo pedia licença e o Congresso nada fazia. Engavetava. Teve
parlamentar que ficou aqui 20 anos com homicídio nas costas. Quando eu cheguei aqui pela
primeira vez, o primeiro projeto que apresentei terminava com isso. Por milagre, conseguimos
138
aprovar isso há alguns anos. Não precisa mais da licença do Congresso. Foi uma festa: agora,
começou a moralizar.
Aí, passou a ficar na gaveta do procurador-geral da República. Ele não denunciava, não fazia
nada. No governo Lula, os procuradores começaram a tomar providências. Os processos
começaram a ir para o Supremo. Nunca me passou pela cabeça que, então, os processos iam
ficar na gaveta do Supremo. O Supremo e nós todos temos que ter responsabilidade para
encontrar uma saída para isso.
ISTOÉ - A situação hoje é pior do que há 25 anos, quando o sr. chegou ao Congresso?
Pedro Simon - É pior. O país foi se corrompendo, infelizmente. Virá ao Senado daqui a
alguns dias o escritor de telenovelas Sílvio de Abreu. Ele diz que a tevê faz pesquisas e
conclui a novela de acordo com a expectativa da opinião pública. Na última novela dele,
fizeram uma pesquisa e disseram que a mocinha devia ficar com o malandro. "O marido é um
chato". Havia outro que cometeu irregularidades e acharam que ele não devia ir para a
cadeia."Nesse país, ninguém vai para a cadeia". Há dez anos, isso não acontecia nas novelas.
A mocinha acabava com o mocinho, e o ladrão ia para a cadeia.
ISTOÉ - O que provocou isso?
Pedro Simon - A falta de bons exemplos da elite política. A classe política rouba, rouba, e
não acontece nada. Se você vir o que aconteceu no caso de Fernando Collor, alguém disse
que, perto do que acontece hoje, ele deveria ser levado para um tribunal de peque nas causas.
Agora não: no governo Fernando Henrique e Lula, é macrocorrupção. Perdeu-se a seriedade.
Envolve enriquecimento do presidente, da família. Um dia, alguém vai esclarecer a venda da
Vale do Rio Doce. Venderam a Vale por R$ 3 bilhões. No Sul, nós vendemos 40% de uma
termoelétrica por R$ 3,5 bilhões. E a segunda mineradora do mundo é vendida por R$ 3
bilhões. E, de repente, hoje ela está valendo R$ 90 bilhões.
Nem que transformasse o minério em ouro, dava para aumentar o capital dessa maneira. A
emenda da reeleição foi um escândalo. E Lula? Eu achei que quando o Lula assumisse eu
poderia dormir em paz. Aí, ganha a eleição e dá nisso que está aí?
ISTOÉ - O que o incomoda mais na atitude do presidente Lula?
Pedro Simon - Essa coisa de, a cada denúncia, dizer que o ministro ou auxiliar é inocente até
prova em contrário. Ninguém ainda explicou para ele a diferença da regra jurídica que
considera inocente até a condenação definitiva à regra do Direito Penal. O presidente do
Banco Central, por exemplo, está sendo processado no Supremo. Não se pode dizer que é
criminoso. Mas não se pode dizer que é inocente, porque ele está sendo processado. Ele dirige
uma instituição delicada, que precisa ser preservada. Ele está sendo denunciado pelo
procurador- geral da República. Contra autoridades, não podem recair suspeitas.
ISTOÉ - A constatação dessa piora não desencanta o sr.?
Pedro Simon - Eu sou um cara que tem seus princípios. Eu não conseguiria renunciar e ir
para casa. Mas, na última eleição, eu vinha ganhando e houve um momento em que comecei a
cair nas pesquisas. Confesso que não fiquei chateado com a perspectiva de vir a perder. Sem
dúvida, está ficando difícil.
139
ISTOÉ - O sr. acredita que suas posições políticas ficam na contramão da maioria de
seus pares?
Pedro Simon - Não sei. Mas veja agora: eu não falei mal do senador Sibá Machado. Eu só
acho que ele não poderia ser presidente do Conselho de Ética num momento em que vai se
julgar o presidente do Senado, Renan Calheiros, que é também um dos maiores aliados do
governo. Não é que ele não tenha qualidades. Tem todas, menos uma: ele é suplente. Está
sujeito amanhã a cair fora. Aí, nós temos o corregedor, Romeu Tuma, dizendo que quer
absolver, não quer condenar. Eu nunca vi isso na minha vida.
ISTOÉ - Então, o sr. acha que o julgamento do senador Renan Calheiros será uma mera
encenação?
Pedro Simon - Eu acho que sim. Acho que está se levando para isso. Quando Siba devolveu
o processo para a Mesa, eu protestei. Achei que ele devia, ao menos, ter ouvido o conselho.
Aí, o Tuma dá um parecer que a gente já sabe o que dirá. Ele não deu chance de a gente
acreditar que fará um trabalho isento. Nisso tudo, eu só gostei da atitude do Renan, de
rapidamente devolver o caso para o conselho. Eu não acho que ninguém tenha que punir o
Renan só porque ele teve um caso fora do casamento. Mas o envolvimento com uma
empreiteira é preciso apurar com isenção e responsabilidade. E eu não sei se isso vai
acontecer.
ISTOÉ - O sr. acha que o Renan deveria se afastar da presidência do Senado?
Pedro Simon - Se ele devolveu para o conselho, se não está mais na Mesa, que ele preside,
acho que ele, então, em tese, não tem como interferir. Ele tomou uma atitude politicamente
muito competente. Agora, eu, no lugar dele, me licenciaria.
ISTOÉ - O PMDB aparece em todos os escândalos recentes do País - Operação Navalha,
Sanguessugas e no Mensalão. Como o sr. se sente estando nesse partido?
Pedro Simon - No começo, eu me sentia arrasado. Mas não é só o PMDB. É o poder, o
encanto do poder. Agora, é verdade que, do Sarney para cá, nossa história não é tão bonita.
Parece que enterraram uma caveira de burro na sede do nosso partido.
ISTOÉ - Uma reforma política seria a solução para os problemas da corrupção?
Pedro Simon - Eu não digo que reforma política seja a solução dos problemas. Mas eu digo
que a solução dos problemas passa pela reforma política. É preciso mudar o sistema político
brasileiro. Agora, se a elite não tem vontade, não há legislação no mundo que resolva. Aqui, o
ministro se envolve numa denúncia de corrupção, é obrigado a renunciar e ajuda a escolher o
sucessor dele. No Japão, iam iniciar o inquérito para apurar, e o ministro se matou. Se isso
tudo o que aparece no Brasil botasse gente na cadeia, não precisava mudar nada.
ISTOÉ - E hoje, quem há?
Pedro Simon - Não tem ninguém. O que eu defendo é que está na hora de a sociedade fazer
um movimento. As pessoas deveriam vir a Brasília de verde-e-amarelo, ou de roupa branca,
140
cercar o Congresso, cercar o Palácio do Planalto, cercar o Supremo, botar a faca no nosso
peito, e exigir uma mudança. A sociedade tem que reagir. Nós entramos num lamaçal, numa
areia movediça, de onde ninguém consegue sair.
ISTOÉ - O sr. disse que os valores éticos da sociedade estão comprometidos. O
Congresso não é o espelho dessa sociedade?
Pedro Simon - Já há uma contaminação. Os valores do povo ainda não são esses. Ao
contrário, eu acho que o povo brasileiro é um grande povo, correto, responsável. Por isso,
precisa reagir.
Caros Amigos, jornalista francesa Marie-Monique, número 145, abril de 2009
Os venenos da Monsanto
Guilherme Saldanha
Resultado de quatro anos de pesquisa, “O mundo segundo a Monsanto”, livro da jornalista
francesa Marie-Monique Robin, traduzido agora para o português pela Editora Radical Livros,
passa a limpo a história da empresa norte-americana, revelando seu envolvimento em diversos
escândalos ocorridos no último século.
Lançada inicialmente como um documento produzido e transmitido pelo canal de TV francoalemão ARTE, a versão impressa de “O mundo segundo a Monsanto” já foi traduzida para
doze línguas, tornando-se best-seller em diversos países.
Além de investigar a atuação criminosa da companhia de Saint Louis, EUA, em seu país de
origem, Robin revela também os detalhes pouco conhecidos da “transgenização’ dos campos
de soja nos países do Mercosul e faz um alerta: “Em poucos anos nós viveremos uma
epidemia de câncer causada pelo uso abusivo de agrotóxicos”.
Confira trechos da entrevista.
CAROS AMIGOS- Como a Monsanto começou a desenvolver os transgênicos?
Marie-Monique – Eles estão trabalhando nos transgênicos com o objetivo de aumentar as
vendas de herbicidas, isso é muito claro. Porque eles já eram líderes na comercialização de
herbicidas por trinta anos, mas estavam perdendo o monopólio. Portanto, o objetivo deles era
arrumar uma maneira de preservar o seu mercado. E conseguiram porque hoje 70% dos
campos de soja são semeados com as sementes modificadas resistentes ao Roundup (herbicida
produzido pela Monsanto). Quer dizer, a Monsanto ainda é uma empresa do setor químico.
Claro que eles vendem sementes, mas não sementes resistentes ao Roundup, isso que importa,
sementes para serem pulverizadas com seu herbicida. Um outro benefício advindo da
produção dessas sementes, são as patentes, pois a partir delas a Monsanto pode proibir os
fazendeiros de replantarem as sementes resultantes da primeira semeadura e assim podem
tomar conta do mercado de sementes, que é o primeiro elo na produção de alimentos.
[...]
141
Como você se interessou pela investigação da Monsanto?
Eu trabalho como jornalista há 25 anos, para a televisão e escrevendo livros. Como filha de
fazendeiros eu já dirigi outros filmes sobre agricultura no mundo e devo dizer que até seis
anos atrás eu pouco sabia sobre organismos geneticamente modificados (OGMs). Eu era mais
uma vítima da desinformação em relação a essa questão, eu achava que essa era uma questão
simples, um gene a mais, um gene a menos... Mas eu estava muito preocupada com o tema da
biodiversidade. Eu já tinha feito três filmes para o canal franco-alemão ARTE sobre
biodiversidade e sobre a extinção de plantas e animais. Trabalhando nesses documentários e
viajando para várias partes do mundo, incluindo o Brasil, eu ouvia falar da Monsanto, porque,
claro, ela é hoje a maior emp resa de sementes do mundo e também a primeira produtora de
OGMs e eu me lembro, como explico no livro, quando estava filmando na Índia, de conversar
com agricultores ligados à Via Campesina quando um deles me disse: “Você deveria
investigar a Monsanto. Nós queremos saber por que ela vem comprando todas as empresas
que vendem semente na Índia, queremos saber qual é seu objetivo”. Então, por acaso, eu
comecei a simplesmente procurar por links sobre a empresa no Google e acabei topando com
muitas informações: suicídios na Índia, intoxicação por substâncias cancerígenas, agente
laranja, manipulação de resultados científicos, muita coisa! Eu me lembro de passar dias e
noites na tela do computador, está tudo lá, documentos confidenciais, documentos internos,
estudos, etc. Tudo pela ação dos chamados whistleblowers, pessoas de dentro das empresas
que fazem “vazar” esses documentos anonimamente, pessoas da FDA (agência norteamericana para os medicamentos e alimentos), ou da EPA (agencia norte-americana de
proteção ambiental), que tentam alertar o público- e acabei acumulando dois gigabytes de
dado sobre a empresa! Muita coisa! E o que eu tentei mostrar no meu livro e no filme é que
toda essa informação está disponível. Nós não podemos dizer que nós não sabemos...
Qual é a história da Monsanto?
A Monsanto começa como uma empresa de químicos, na verdade como uma líder nesse
campo. No começo do século XX, eles costumavam fabricar vários produtos tóxicos como os
PCBs, usados em vários aparelhos, como transformadores elétricos. Um dos grandes clientes
da Monsanto nos EUA era a General Electric. Quando eu comecei a investigação eu não sabia
o que eram PCBs e acabei descobrindo que hoje em dia é proibida a produção desses
componentes na França e apesar disso ainda existem muitos aparelhos que o utilizavam
esperando para serem destruídos. E é preciso cuidado para destruí- los por que eles liberam
dioxina, uma substância tóxica que contamina o ar, a água. Hoje em dia, todas as pessoas
possuem PCBs na corrente sangüínea graças aos produtos da Monsanto. Eu recebi no mês
passado um estudo de Washington, um estudo feito com 300 recém nascidos, e todos eles
tinham alta percentagem de PCBs, dioxina, pesticidas, ou metais pesados no corpo. Quer
dizer, todos já estavam contaminados. Os PCBs são um bom exemplo de como a Monsanto se
comportou e se comporta no mundo. Quer dizer, eles sabiam que os PCBs eram altamente
tóxicos, arquivos confidenciais, provam isso. Eles sabiam pelo menos desde 1937 dos efeitos
cancerígenos, dos efeitos maléficos sobre o sistema reprodutor. É, realmente, um veneno. Eles
sabiam e esconderam os dados, não contaram a ninguém, nem aos funcionários que
trabalhavam dentro das fábricas, nem ao governo. Na verdade é pior do que isso. Para você ter
uma idéia, o Congresso norte-americano admite a existência de duas categorias de crimes de
colarinho branco. Uma categoria para empresas que sabem que seus produtos são tóxicos e
não dizem nada para os consumidores. Outra categoria para empresas que, sabendo da
toxicidade de seus produtos fazem campanhas dizendo que esses produtos não representam
perigo algum. E isso é um outro nível de irresponsabilidade. É o caso da Monsanto, porque
eles simplesmente mentiram.
142
Além dos PCBs, a Monsanto também esteve envolvida na produção de agente laranja,
não é isso?
Sim. O agente laranja foi produzido pela Monsanto e por outras sete empresas. Durante anos
foi utilizado na agricultura e como arma na guerra contra o Vietnã. Hoje é proibido, depois de
três décadas sendo despejado em fazendas. Nesse caso, a Monsanto produziu um falso estudo
provando que não havia relação entre a exposição à dioxina (subproduto do agente laranja) e o
desenvolvimento do câncer. Ao contrário da Dow Chemicals, que quando soube que soldados
americanos seriam expostos ao agente laranja disseram “espera um pouco”, a Monsanto foi
em frente. É outro nível de irresponsabilidade.
E como, desse passado ligado à indústria química, a Monsanto começou a desenvolver os
transgênicos?
No documentário eu apresento uma filmagem extraída da TV americana bastante
esclarecedora sobre como se deu essa transição. Nela você vê Bush pai, então vice-presidente
dos EUA, visitando um dos laboratórios da empresa em Saint Louis e é uma cena realmente
incrível. Se passa em 1987 e a Monsanto está começando a pesquisar OGMs – as primeiras
sementes geneticamente modificadas seriam comercializadas somente sete anos depois.
Em 1993, não é?
Sim, 1993, 1994. E desde o começo eles estão trabalhando em um OGM resistente aos
herbicidas. Eles estão trabalhando nos transgênicos com o objetivo de aumentar as vendas de
herbicidas, isso é muito claro. Porque eles já eram líderes na comercialização de herbicidas
por trinta anos, mas estavam perdendo o monopólio. Portanto, o objetivo deles era arrumar
uma maneira de preservar o seu mercado. E conseguiram porque hoje 70% dos campos de
soja são semeados com as sementes modificadas resistentes ao Roundup (herbicida produzido
pela Monsanto). Quer dizer, a Monsanto ainda é uma empresa do setor químico. Claro que
eles vendem sementes, mas são sementes resistentes ao Roundup, isso que importa. Sementes
para serem pulverizadas com seu herbicida. Um outro benefício advindo da produção dessas
sementes são as patentes, pois a partir delas a Monsanto pode proibir os fazendeiros de
replantarem as sementes resultantes da primeira semeadura e assim podem tomar conta do
mercado de sementes, que é o primeiro elo na produção de alimentos.
E como a Monsanto controla o uso dessas sementes?
Uma das coisas foi a criação da “polícia dos genes”. Nos Estados Unidos eles criaram um
número gratuito para o qual os fazendeiros poderiam ligar e denunciar seus vizinhos por uso
irregular ou clandestino das sementes. A partir dessas denúncias, agentes contratados pela
Monsanto extraíam amostras dessas plantações “suspeitas”, às vezes de maneira ilegal, e a
partir delas processavam esses agricultores. Em alguns casos, os fazendeiros tinham suas
plantações contaminadas pela soja transgênica de seus vizinhos, porque, claro, a Monsanto
não conseguiu desenvolver uma maneira de parar a polinização.
[...]
CAROS AMIGOS - Você sofreu alguma ameaça ou pressão da empresa, da mesma maneira
que aconteceu com muitos cientistas e jornalistas, como você descreveu no livro?
Marie-Monique - Para ser franca, no começo eu tive bastante medo. Eu decidi com a ARTE
não revelar exatamente o que eu estava fazendo. Eu os contatei em Saint Louis, Missouri,
tentei contatá- los na subsidiária francesa, localizada em Lyon, par marcar uma reunião em
Paris. O assessor de imprensa me disse “tudo bem, eu me hospedo sempre em um hotel atrás
do Senado”. Quer dizer puro lobby! Em todo caso, eu me encontrei com ele e nós ficamos
duas horas conversando. Mas eu não consegui passar do nível das relações públicas e falar
143
com alguém lá dentro. Eu tentei uma entrevista com Stephen Padgette que é o vice-presidente
e que foi líder da equipe que desenvolveu a soja transgênica. Eu tentei falar com o doutor
Fuchs que foi quem inventou o “princípio da substância equivalente”, que é o ponto mais
importante da minha investigação. Mas eles ficam com medo, pensam: “Oh meu Deus,
questões genéricas sobre transgênicos!”. Em todo caso, naquele momento era apenas um
documentário par a ARTE, que é um ótimo canal de televisão, mas atinge poucas pessoas.
[...]
Veja - Edição 2131/ 23 de setembro de 2009
Entrevista Fernando Henrique Cardoso
FHC sobre THC
O
ex-presidente
diz
que
decidiu
defender
da
maconha
por
acreditar
que
a
política
de
fracassou nos países do continente americano
a
descriminalização
combate
às
drogas
Thaís Oyama
Fernando Henrique Cardoso é dono de uma biografia extraordinária. Sociólogo brilhante,
como político teve papel relevante na redemocratização do país, criou o Plano Real, foi o
primeiro presidente da República reeleito da história do Brasil e hoje é presidente de honra do
PSDB. Agora, aos 78 anos, decidiu jogar o peso de sua imagem em favor de uma causa
polêmica, a descriminalização da maconha, tema do documentário Rompendo o Silêncio, que
aceitou estrelar e que será dirigido pelo jovem Fernando Grostein Andrade (diretor de
Coração Vagabundo, sobre Caetano Veloso). O documentário só será lançado depois das
eleições presidenciais. FHC afirma que nunca fumou cigarros comuns, tampouco os de THC,
tetra- hidrocanabinol, a substância psicoativa da maconha.
VEJA- O senhor sempre foi favorável à descriminalização da maconha, mas nunca
havia defendido a ideia abertamente. Por que decidiu fazer isso agora?
FHC De fato, é uma preocupação antiga. A Secretaria Nacional Antidrogas, criada quando fui
presidente da República, já formulava a ideia de que não adianta só reprimir. Essa iniciativa
minha, portanto, não é algo inteiramente novo e deriva de uma única preocupação: a forma
como vem sendo conduzido o combate às drogas nos países americanos. As coisas vão mal
nessa área.
VEJA-O que o levou a essa constatação?
FHC- Em março, em Viena, houve uma avaliação dos esforços feitos nos últimos dez anos.
Nesse período, prevaleceu a posição americana de que era necessário empreender uma guerra
total de repressão às drogas. Só que esse projeto envolveu muito dinheiro e apresentou pouco
resultado. A violência aumentou e não houve a diminuição nem da produção nem do
144
consumo. A Colômbia, por exemplo, fez esforços extraordinários e conseguiu um grande
avanço sobre os guerrilheiros, desorganizou muita coisa dos cartéis, mas, mesmo assim,
chegou a uma situação paradoxal: teve um aumento na produtividade do plantio da droga. Isso
porque, enquanto ela diminuiu a área cultivável, os contrabandistas compensaram a perda
aumentando a produtividade por meio do uso de técnicas mais modernas de plantio. Além
disso, houve uma transferência dos cartéis colombianos para o México e lá a coisa ficou
muito séria, porque o país não estava institucionalmente preparado, como a Colômbia, para
fazer frente ao desafio.
VEJA- Qual foi a falha fundamental da política americana de combate às drogas?
FHC- Primeiro, não se pode dar uma receita única para todos os países. Eles têm
especificidades: um é produtor, outro é só consumidor, um é mais liberal do que outro. Não
adianta prescrever uma saída única para todos. Depois, não se pensou na redução do consumo,
mas apenas em frear a produção. É preciso mudar o paradigma: além de pensar numa política
de redução do consumo, deve haver também uma política de diminuição do dano. O usuário
precisa ter assistência médica. Nos Estados Unidos, agora é que começa a haver uma pequena
mudança. Nessa reunião em Viena, os americanos concordaram que seria possível oferecer
seringas aos drogados como forma de diminuir a disseminação de doenças contagiosas. Até
então, nem isso era aceito. O usuário era visto como alguém a ser punido.
VEJAOs
modelos
europeus
seriam
mais
eficientes?
FHC- A Europa tem experiências variadas, mas segue mais em outra direção: o usuário é
visto como um problema médico e o traficante como bandido. Essa matéria é muito delicada,
e é preciso deixar claro que eu não estou dizendo que a droga não faz mal. As drogas causam
danos, todas elas. Há estudos que mostram que a Cannabis pode levar à esquizofrenia. Então,
não é "liberou geral", tem de haver um controle. Mas acho que, no caso dos usuários, é
possível dizer que o melhor é descriminalizar.
VEJA- Muitas mães pensam da seguinte maneira: "Meu filho adolescente não fumou
maconha até hoje, entre outros motivos, porque ele sabe que, no mínimo, pode ir parar
na delegacia por causa disso. No entanto, se fumar maconha deixar de ser crime, meu
filho poderá perder esse receio e ficar mais perto das drogas". O que o senhor diria a
essas
mães?
FHC- Eu diria o seguinte: o fato de o fruto ser proibido é que dá mais vontade no seu filho de
experimentá- lo. E diria que elas têm de tomar cuidado e estar o tempo todo dizendo a ele que
aquilo pode fazer mal. Mas não adianta falar que não dá prazer. Se elas dizem isso, o filho
pode responder: "Ah, mas o meu amigo fumou e não é nada disso". A imagem mais
apropriada a ser usada para fazer um alerta é a da sereia. Se você ceder ao seu beijo, meu
filho, ela vai levá-lo para o fundo do mar. Quer dizer, embora você possa ter um prazer
momentâneo, isso vai ter um preço.
VEJA- Mas se, como o senhor diz, a proibição funciona como um atrativo, por que há
indícios de que o consumo da maconha aumentou no Brasil depois da lei que, em 2006,
substituiu
a
prisão
de
usuários
por
punições
alternativas?
FHC- Eu não tenho esse dado. Há muita ideologia nessa discussão e a gente tem de ir com
cuidado. Essa mudança é muito recente e não há nem tempo para esse tipo de avaliação.
Agora, ninguém está aqui para dizer que a droga deve ser incentivada. Estamos aqui para falar
o seguinte: os mecanismos que vêm sendo usados para combater as drogas estão surtindo
resultados frustrantes. Vamos buscar outros mecanismos para reduzir o consumo. O dado de
Portugal é ilustrativo: o país não descriminalizou a maconha, liberou. E o consumo diminuiu.
VEJA- Liberar significa não só descriminalizar como permitir o acesso legal à droga. O
senhor considera que esse pode ser um modelo para o Brasil?
145
FHC- Eu não considero, não. Preciso examinar melhor isso. Por enquanto, só estou tomando
conhecimento: Portugal fez isso e o resultado foi esse. Alguma coisa tem de ser feita e não dá
para ficar preso à ideia de que se resolve o problema na base do prende, mata, esfola. Por
outro lado, é preciso estar sempre insistindo: bandido é bandido e tem de ser posto na cadeia,
não se pode confundir as coisas.
VEJA- Descriminalizar o uso não significa, então, descriminalizar o comércio. Ou seja,
para que o usuário tenha acesso à droga, terá de entrar em contato com criminosos.
Como
se
resolveria
essa
questão?
FHC- Essa questão ainda está para ser discutida. A sociedade tem de, pouco a pouco, tomar
consciência sobre o que fazer. Não existe receita, não estou dando uma receita. Estou dizendo
que acho que é necessário mudar o paradigma: em vez de concentrar todos os esforços na
repressão, você poupa os recursos existentes para as campanhas educacionais e para a busca
da redução do consumo.
VEJA- E por que não fazer as duas coisas concomitantemente, como no modelo sueco,
que
investe
fortemente
na
prevenção
e
na
repressão
dura?
FHC- A repressão tem de ser dura mesmo. Mas não adianta ser dura com o consumidor. Se
você o colocar na cadeia, ele vai continuar fumando, só pagará um preço mais alto por isso.
VEJA- Mas, no Brasil, desde 2006, ninguém vai mais para a cadeia por fumar maconha.
FHC- O problema do Brasil é outro: é a dubiedade da legislação. Ela não faz a distinção clara
entre o usuário e o traficante, e isso dá margem à extorsão por parte da polícia. Aqui, o
problema não é a ideologia repressora, é a malandragem que essa zona cinzenta permite. Mas
um deputado, que é inclusive do PT, já está preparando uma lei para resolver isso.
VEJA- Como o senhor lidou com o assunto na adolescência de seus filhos?
FHC- A adolescência deles foi bem diferente da minha. Na minha, não havia essas questões.
Eu não fumei nem cigarro e só vim a tomar álcool depois de casado. Meu pai era militar,
puritano, eu não tive experiência pessoal com isso...
VEJA- Mas o senhor já declarou que fumou maconha uma vez em Nova York e não
gostou.
FHC- Eu não fumei uma vez, eu senti o cheiro do cigarro uma vez em Nova York...
VEJA- Não tragou.
FHC- Eu não sei tragar nem cigarro! Mas depois de falar isso quase me liquidaram, dizendo
que eu era maconheiro. Eu sou muito sóbrio com essas coisas, não fumo cigarro, nunca vi
cocaína na minha vida.
VEJAVoltando
à
experiência
com
seus
filhos.
FHC- Sim, eles não gostam muito que eu fale sobre isso. Mas vamos lá: em 1971, eu era
professor em Stanford e eles estavam no colégio. Guerra do Vietnã, ecos da Califórnia, aquela
coisa liberal e tal. Nós recebíamos em casa um boletim em que a escola dava a proporção de
crianças que tinham experimentado cada droga: 10%, 15%, uma coisa assustadora. Eu e a
Ruth conversávamos com eles sobre o assunto. E, que eu saiba, eles nunca tiveram nenhum
problema com isso. A verdade é a seguinte: as estatísticas mostram que a quantidade de
pessoas que, numa determinada fase da vida, provaram maconha, e até cocaína, é muito
grande. E a quantidade de pessoas que persistiram no uso não é.
VEJA- Mas estudos indicam que a maconha, se não é necessariamente uma porta de
entrada para outras drogas, é ao menos um fator de risco para isso.
FHC- Eu diria que pode ser. E que as pessoas têm de ter cuidado com isso. Mas o álcool e o
146
cigarro também podem ser fatores de risco. Você tem de ter cuidado sempre. Eu não tenho
base científica para dizer se isso é verdade ou não. Eu quero reiterar que não sou um
especialista no assunto. Entrei nessa história por razões políticas e democráticas, movido pela
percepção de que as coisas vão mal.
VEJA- Em 1994, quando era candidato à Presidência da República, o senhor se recusou
a falar sobre a descriminalização da maconha, sob o argumento de que sua opinião
poderia ser explorada politicamente. Não teme que isso ocorra agora, às vésperas das
eleições presidenciais de 2010?
FHC- Mas eu não estou nessa eleição. Não sou candidato e não estou opinando como líder
político. Estou falando como intelectual.
VEJA- Mesmo assim, o senhor não receia que o ônus dessa posição possa recair sobre
seu
partido?
FHC- Acho que nós temos de evitar essa armadilha. Quando eu era presidente, não criei uma
secretaria para trabalhar pela prevenção? Eu não estou dizendo: "Fume maconha". Estou
dizendo: "Fumar maconha faz mal e nós temos de tratar quem fuma".
VEJA- Mas, para grande parte da população, o usuário de maconha é o "maconheiro",
palavra
que
está
associada
a
marginais
e
drogados
em
geral.
FHC-Veja bem, eu fui vítima disso e fui presidente da República duas vezes. O Obama disse
que fumou maconha – teve a coragem de dizer, com tranquilidade – e está lá, presidente da
República. Então, temos de acabar com esse atraso. Estou aqui tratando de ver qual é a melhor
maneira de reduzir os danos que a droga causa. Politicame nte, é isso.
VEJA- O que as pessoas mais próximas do senhor no PSDB pensam sobre o assunto?
FHC- Eu nunca conversei com ninguém do PSDB sobre isso e quase posso assegurar que a
maioria do PSDB pensa como o homem comum – e o homem comum tem horror de pensar
nesse assunto. Mas, como se trata de um drama social, ou se toma consciência de que temos
de fazer algo diferente do que temos feito, sem covardia e sem leniência, ou seremos
irresponsáveis. Alguém tem de ter coragem de dizer essas coisas. Agora, certamente, o
pessoal pode ficar chateado. Mas eu não sou candidato, sou só presidente de honra do partido.
VEJA Edição 2050- 5 de março de 2008
Entrevista: Mayana Zatz
É preciso salvar vidas
A
pesquisadora
explica
por
que
é
libere as pesquisas com células-tronco embrionárias
urgente
que
o
STF
Vanessa Vieira
A bióloga Mayana Zatz é uma das maiores especialistas em células-tronco do país, com quase
300 trabalhos científicos publicados. Nascida em Israel, mora no Brasil desde os 7 anos.
147
Atualmente, ela é pró-reitora de pesquisa e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma
Humano da Universidade de São Paulo. Mayana estuda há mais de trinta anos terapias para
doenças neuromusculares, razão pela qual se tornou uma das maiores defensoras, no país, das
pesquisas com células-tronco embrionárias, as únicas capazes de se converter em qualquer um
dos 216 tipos de célula do corpo humano. Desde 2005, quando o Congresso aprovou a lei
brasileira de biossegurança – que autoriza o uso em pesquisas de embriões congelados há
mais de três anos –, Mayana luta para que a lei entre em vigor. Isso porque, naquele mesmo
ano, a Procuradoria-Geral da República entrou com uma ação de inconstitucionalidade contra
a lei. Desde então, os estudos com células-tronco embrionárias estão parados no Brasil. Na
semana que vem, o Supremo Tribunal Federal dará sua palavra final sobre o uso dos
embriões. Nesta entrevista a VEJA, Mayana defende que o Brasil precisa se juntar quanto
antes aos países que pesquisam células-tronco embrionárias.
VEJA – As pesquisas com células-tronco embrionárias encontram-se proibidas no Brasil
sob o argumento de que vão contra dois princípios constitucionais: o de que a vida é
inviolável e o que garante a dignidade da pessoa. Como a senhora avalia essa proibição?
Mayana – Essa proibição é absurda. Inviolável é a vida de inúmeros pacientes que morrem
prematuramente ou estão confinados a uma cadeira de rodas e poderiam se beneficiar dessas
pesquisas. É preciso entender que os cientistas brasileiros só querem fazer pesquisa com os
embriões congelados que permanecem nas clínicas de fertilização, e sempre com o
consentimento do casal que os gerou. Se o casal, por algum motivo religioso ou ético, for
contra doar seus embriões, não precisará fazê- lo. Deve-se lembrar que o destino dos embriões
que não forem utilizados para pesquisa é ficar congelados até ser descartados. Estamos
falando de embriões que nunca estiveram num útero, nem nunca estarão. Não existe nenhuma
possibilidade de vida para eles.
VEJA – Afinal, quando começa a vida? Do ponto de vista da ciência, o embrião é um ser
humano?
Mayana – Não existe um consenso sobre quando começa a vida. Cada pessoa, cada religião
tem um entendimento diferente. Mas existe, sim, um consenso de que a vida termina quando
cessa a atividade do sistema nervoso. Quando o cérebro pára, a pessoa é declarada morta. Pelo
mesmo raciocínio, se não existe vida sem um cérebro funcionando, um embrião de até catorze
dias, sem nenhum indício de células nervosas, não pode ser considerado um ser vivo. Pelo
menos não da forma que entendemos a vida. Por isso, todos os países que permitem pesquisas
com embriões determinam que eles devem ter no máximo catorze dias de desenvolvimento.
Os embriões congelados que se quer usar no Brasil têm ainda menos tempo, entre três e cinco
dias.
VEJA – Quais são os principais oponentes da pesquisa com células-tronco embrionárias
no
Brasil?
Mayana – A oposição vem basicamente da Igreja Católica. Entre as igrejas evangélicas existe
uma divisão, mas muitas são a favor. É fundamental que as pessoas entendam que não existe
uma briga dos cientistas com a Igreja Católica. A decisão que o Supremo Tribunal Federal vai
tomar na semana que vem, liberando ou não as pesquisas com células-tronco embrionárias,
diz respeito a toda a sociedade. Por isso, é preciso que não haja desinformação. Há gente
confundindo pesquisa com células-tronco embrionárias com aborto.
VEJA
Como
se
manifesta
essa
confusão?
Mayana – Recebo e- mails surpreendentes de pessoas que perguntam: "Como a senhora tem
coragem de interromper uma vida?". Respondo: "Você sabe que esses embriões nunca foram
148
implantados num útero? Você sabe que eles são resultantes de fertilização in vitro?". O
remetente, a seguir, pergunta: "Doutora, mas o que é fertilização in vitro?". Já tive vários
exemplos desse tipo de desinformação. Recentemente, um padre me mandou um e- mail
observando que a grande maioria dos religiosos não teve a oportunidade de aprender ciências
e biologia da mesma forma que a população em geral. Quando se aprovou a Lei de
Biossegurança, em 2005, permitindo a pesquisa com células-tronco embrionárias, demos
aulas para os senadores e deputados. Muitos deles, que primeiramente haviam votado contra
as pesquisas, porque não entendiam do assunto, votaram depois a favor. Aí se vê a diferença
que faz a informação. É bom lembrar que a Lei de Biossegurança foi aprovada com ampla
maioria, depois de uma grande discussão no Congresso. Não foi na calada da noite. Ela
obteve o aval de 96% dos senadores e 85% dos deputados.
VEJA – Neste ano, a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica tem como tema a
defesa da vida e critica o uso de embriões em pesquisas. Num país com tantos católicos,
que
impacto
essa
campanha
pode
ter?
Mayana – O lema da campanha da Igreja é: "Escolhe, pois, a vida". Achei fantástico, porque
essa também é a escolha dos cientistas. Estamos preocupados com os pacientes que morrem
por causa de doenças neurodegenerativas ou que estão imobilizados por causa de acidentes.
Por isso é preciso que se entenda a diferença entre aborto e pesquisa com células-tronco
embrionárias. No aborto, há uma vida dentro do útero de uma mulher. Se não houver
intervenção humana, essa vida continuará. Já na reprodução assistida, é exatamente o
contrário: não houve fertilização natural. Quem procura as clínicas de fertilização são os
casais que não conseguem procriar pelo método convencional. Só há junção do
espermatozóide com o óvulo por intervenção humana. E, novamente, não haverá vida se não
houver uma intervenção humana para colocar o embrião no útero.
VEJA – Qual é a contribuição brasileira às pesquisas com células-tronco embrionárias?
Mayana – Muito pequena. Temos uma contribuição significativa em clonagem reprodutiva
animal e na pesquisa de terapias com células-tronco adultas na área cardíaca. Com células
embrionárias, quase não temos resultados. Acho que nem sequer temos estudos publicados.
As células-tronco adultas só formam alguns tecidos, como músculo, osso, gordura e
cartilagem. Com elas, não se consegue formar células nervosas, fundamentais para tratar
doenças neuromusculares, para regenerar a medula de alguém que ficou paraplégico ou
tetraplégico ou para tratar um parente que tem Parkinson. Se não tivermos células-tronco
embrionárias para formar neurônios, todas essas pesquisas ficarão prejud icadas.
VEJA - Em que países as pesquisas com células-tronco embrionárias estão mais
avançadas?
Mayana – Inglaterra, Austrália e Israel, onde a lei permite esse tipo de pesquisa há muito
tempo. Nos países de Primeiro Mundo, em geral, onde há uma grande preocupação com a
saúde da população, esse tipo de pesquisa é permitido. O ambiente mais favorável nesses
países depende de uma série de fatores. Um deles é a boa formação dos legisladores. A
alocação de recursos e a presença de cientistas de ponta também são fundamentais. No Brasil,
temos alguns centros de excelência, há cientistas que dominam a técnica e são capazes de
fazer o que se faz no Primeiro Mundo, mas não em número suficiente. Outra dificuldade que
enfrentamos é a demora para viabilizar as pesquisas, em qualquer campo. No Brasil, por causa
de entraves burocráticos, levamos até seis meses para importar materiais de pesquisa,
enquanto no exterior o tempo é de 24 a 48 horas. Lá fora, entre ter uma idéia e executá- la
perde-se um dia. Aqui, passam-se meses. Mas novas medidas prometem tornar as importações
mais ágeis.
149
VEJA – Quais podem ser as conseqüências do atraso brasileiro nas pesquisas com
células-tronco
embrionárias?
Mayana – Teremos de pagar royalties gigantescos para importar uma tecnologia que
poderíamos estar produzindo aqui. Em segundo lugar, se amanhã houver no exterior
tratamentos com células-tronco embrionárias não disponíveis no Brasil, as pessoas com boa
situação financeira irão para fora se tratar. O que os pobres vão fazer? O SUS vai cobrir os
custos de um tratamento no exterior? Eu atendo pacientes com doen-ças muito graves.
Quando comunico aos pais de uma criança que o filho deles tem uma doença para a qual não
existe cura, eles sempre me perguntam, angustiados, se em algum lugar do mundo existe
possibilidade de tratamento. Se o casal tem dinheiro, eu até o incentivo a ir ao exterior, para
que tenha a certeza de que tentou tudo. Se os pais não têm recursos, digo que todos os
tratamentos disponíveis lá fora podem ser feitos aqui. Mas, se amanhã houver no exterior
tratamentos com células-tronco embrionárias que não estão disponíveis aqui, os casais mais
pobres vão entrar em desespero.
VEJA – O presidente George W. Bush é um dos mais ferrenhos opositores às pesquisas
com células-tronco embrionárias. Que impacto tem essa posição do governo americano
no
cenário
científico
internacional?
Mayana – Certamente a postura do presidente Bush tem um peso negativo. Nos Estados
Unidos, os projetos nessa área não podem receber dinheiro público. Em compensação, as
pesquisas científicas contam com enormes investimentos da iniciativa privada. Muitos
trabalhos com células-tronco embrionárias saíram de lá. Só na Califórnia, em 2005,
investiram-se 3 bilhões de dólares em pesquisas com células-tronco.
VEJA – Como a senhora responde aos críticos que dizem que as pesquisas com célulastronco,
mesmo
as
adultas,
vão
na
contramão
da
natureza?
Mayana – Quando você faz uma cesariana, e não um parto, está indo contra a natureza.
Quando vacina seus filhos, está aumentando a imunidade deles e indo contra a natureza.
Quando alguém tem uma pneumonia e você dá um antibiótico, está indo contra a natureza. É
porque temos ido tão freqüentemente contra a natureza que a expectativa de vida tem subido
tanto no mundo. Vejo em grande parte as células-tronco como uma possibilidade de regenerar
órgãos, como um substituto para os transplantes. Hoje, a sociedade aprova quando um
indivíduo está doente e recebe um transplante de coração. Mas não é fácil fazer um
transplante. Há filas para receber um órgão, há o desafio de achar um doador compatível. No
futuro, se conseguirmos regenerar o coração, ou outros órgãos, com células-tronco, não
haverá razão para não fazê-lo.
VEJA – Os estudos sobre as células-tronco adultas evoluem rapidamente, mas suas
aplicações práticas ainda são muito restritas. Falta muito para que a medicina se
beneficie
amplamente
desses
estudos?
Mayana – Hoje, as células-tronco adultas são usadas no tratamento de doenças do sangue,
como leucemias, anemias e talassemia. Nas outras áreas, tudo o que há são tentativas
terapêuticas. A grande barreira para desenvolver tratamentos é que ainda não temos total
conhecimento sobre a diferenciação celular, ou seja, o processo pelo qual uma célula-tronco
se transforma em outro tipo de célula. Já sabemos que temos uma multiplicidade de célulastronco com diferentes potenciais. Mas não temos ainda como controlar essas células. Um
exemplo: eu injeto células-tronco para regenerar o músculo de alguém, mas essas células
resolvem que vão virar osso. Se isso acontecer, não tenho mais como controlar o processo.
150
VEJA – Quais serão, no futuro, os principais benefícios dos tratamentos com célulastronco?
Mayana – A terapia com células-tronco pode ser considerada como o futuro da medicina
regenerativa. Entre as áreas mais promissoras, está o tratamento para diabetes, doenças
neuromusculares, como as distrofias musculares progressivas e a doença de Parkinson. Com
as células-tronco, também se poderá promover a regeneração de tecidos lesionados por causas
não hereditárias, como acidentes, ou pelo câncer. O tratamento do diabetes é muito promissor
porque depende da regeneração específica de células que produzem insulina, o que é mais
fácil do que regenerar por completo um órgão complexo. As células-tronco vão permitir que
as pessoas vivam muito mais e de forma saudável. Uma pessoa que precise de um transplante
de coração ou de fígado, se tiver a possibilidade de fazer uma terapia com células-tronco em
vez de esperar anos numa fila por um órgão novo, terá uma qua lidade de vida muito melhor.
VEJA – Alguns dermatologistas já anunciam tratamentos estéticos com células-tronco.
Eles
funcionam?
Mayana – Como ainda não temos controle total sobre a diferenciação celular, não faz sentido
injetar células-tronco para melhorar a pele. Ainda não estamos prontos para isso. Daqui a
alguns anos, pode ser. O conselho que dou aos potenciais clientes desses tratamentos é:
investigue quem é o médico que os está oferecendo. Pesquise na internet, procure levantar o
currículo dele, o que ele publicou sobre esse assunto, a que entidade está ligado.
VEJA – Cientistas dizem que, dentro de alguns anos, será possível manipular o DNA dos
embriões de forma a interferir nas características dos bebês. Estamos caminhando nesse
sentido?
Mayana – Atualmente, só o que podemos descobrir é se um embrião tem uma mutação que
determina uma doença específica. Se uma família sabe que tem uma doença genética
qualquer, pode optar por fazer fertilização in vitro para selecionar um embrião livre do gene
que predispõe o portador àquela doença. Nesse caso, acho válido. Evita-se que a criança nasça
com uma doença genética grave. Também já é possível selecionar o sexo do futuro bebê,
embora isso seja considerado antiético na maioria dos países. Mas existe uma perspectiva de
que, nos próximos dez anos, seja possível seqüenciar o genoma de uma pessoa por 1? 000
dólares. Ela pode descobrir que tem uma montanha de mutações. A questão ética é o que se
vai fazer com essas informações. Talvez sejam usadas para rejeitar um candidato a emprego
ou influir no custo do plano de saúde. Há inúmeras mutações que carregamos e nunca vão se
manifestar.
VEJA – No futuro será possível também selecionar embriões para gerar crianças mais
inteligentes
ou
com
determinadas
características
físicas?
Mayana – No caso de algumas características, sim, mas acho um absurdo manipular um
embrião para que a criança nasça com olhos azuis, por exemplo. Sou totalmente contra. Até
porque os padrões de beleza são variáveis. Hoje uma pessoa considerada bonita é de um jeito,
mas daqui a vinte anos o padrão será outro. Seria muito difícil controlar todos os fatores
genéticos que interagem na inteligência. O ambiente tem um papel muito importante.
Lembro-me daquela experiência nos Estados Unidos em que mulheres fo ram fertilizadas com
espermatozóides de ganhadores do Prêmio Nobel. Anos depois, não havia nenhum gênio entre
os descendentes dessas mulheres. Ou seja, os resultados são totalmente imprevisíveis. As
células-tronco servem para curar e salvar, não para fazer experiências exóticas.
151
Veja- Edição 2143 / 16 de dezembro de 2009
Entrevista: Jimmy Wales
O rival da Britannica
O fundador da Wikipédia diz que o objetivo da maior
mundo é tornar-se uma fonte de informações de qualidade na internet
enciclopédia
do
Thomaz Favaro
A Wikipédia funciona como um livro aberto, de acesso gratuito e escrito pelos próprios
leitores. Qualquer pessoa pode alterar, adicionar ou apagar o conteúdo disponível no site. O
crescimento da enciclopédia reflete o poder da criação coletiva na internet. A edição em
inglês já contém quase 3,1 milhões de verbetes. Há versões em mais de 260 línguas, o que a
torna um dos cinco sites mais visitados da rede. O grosso do trabalho é feito pelos
wikipedistas, como são conhecidos os colaboradores voluntários da enciclopédia. O
americano Jimmy Wales, 43 anos, foi quem a criou, em 2001. Wales diz que o principal
objetivo da Wikipédia é superar a rival Encyclopaedia Britannica, publicada desde o século
XVIII e a mais conceituada obra do gênero. "Em algumas áreas do conhecimento, nós já
conseguimos essa façanha", afirma. Wales falou a VEJA do escritório da Wikimedia
Foundation, entidade sem fins lucrativos que mantém a enciclopédia no ar, em São Francisco.
VEJA- Você recomendaria a Wikipédia como uma obra de referência a estudantes do
mundo
todo?
Wales- Sim, desde que sejam tomadas algumas precauções. Primeiro, a Wikipédia é um
excelente ponto de partida. É uma enciclopédia abrangente, escrita numa linguagem simples e
de fácil acesso. Mas a Wikipédia não é o melhor ponto final para uma pesquisa. É preciso
aprofundar a investigação procurando outras fontes de informação. O leitor pode encontrá- las
no rodapé dos verbetes, no qual há boas referências sobre o tema, como livros, jornais,
revistas e outros sites na internet.
VEJA- Quais medidas já foram adotadas para melhorar a qualidade dos artigos e
impedir
a
ação
de
vândalos?
Wales- Muitas ferramentas já foram desenvolvidas com esse objetivo. Qualquer mudança
feita nos artigos é arquivada, o que permite aos editores reverter rapidamente uma alteração
maldosa ou incorreta. Colaboradores podem se encarregar de artigos com os quais têm mais
familiaridade e receber notificações imediatas quando seu conteúdo é alterado. Esse trabalho
também é realizado em grupo, por meio dos wikiprojetos. São voluntários que se reúnem para
verificar se todos os artigos de determinado assunto estão escritos corretamente e trazem
informações verdadeiras. Em geral, são pessoas que se interessam pelo tema e têm
conhecimento de causa. Há grupos sobre pássaros, pontes, aviões, sobre praticamente
qualquer assunto que você imaginar. Nosso objetivo é criar uma enciclopédia de alta
qualidade, igual à Encyclopaedia Britannica ou melhor que ela. É um processo em
andamento, e posso dizer que, em algumas áreas, essa meta já foi alcançada.
Tradicionalmente, somos fortes em tecnologia, ciências exatas e cultura popular, sobretudo a
cultura nerd, como as séries Guerra nas Estrelas e Jornada nas Estrelas. Estamos tentando
atrair mais autores que escrevam sobre temas pouco explorados na Wikipédia, como as
152
ciências humanas em geral. Poesia, por exemplo, é um de nossos pontos fracos.
VEJA- Antes de criar a Wikipédia, você havia lançado a Nupedia, uma enciclopédia
escrita unicamente por especialistas, como a Britannica. Por que o projeto não deu
certo?
Wales- A Nupedia era construída de cima para baixo. Para participar, o voluntário precisava
mostrar suas credenciais e provar que era apto a discorrer sobre o tema. Cada artigo criado
passava por um processo de verificação com sete etapas. Além de ser uma grande barreira à
participação, o processo não era tão divertido. Na Wikipédia, a motivação encontra um
parceiro ideal - a diversão. Temos um objetivo humanitário, que é a criação de uma
enciclopédia gratuita para todos os habitantes do planeta em sua própria língua. É uma meta
grandiosa, que anima muita gente. O colaborador sabe que seu trabalho vai beneficiar pessoas
no mundo todo. É fácil participar, mesmo que em pequenas doses. Se alguém domina um
tema em particular, pode contribuir com informações ou corrigir pequenos erros. Uma vez
iniciado o processo, as pessoas acabam conhecendo outros editores, gente que está interessada
nos mesmos assuntos. Os wikipedistas discutem sobre o que deve ou não entrar em
determinado verbete. Há interação social por trás de cada artigo da Wikipédia.
VEJA- Segundo um estudo da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, o tempo
médio para a correção de um erro na Wikipédia é de doze horas. Como tornar o
processo
mais
ágil?
Wales- Já está mais rápido. Criamos um software que funciona como um "filtro de ofensas".
É uma ferramenta que permite a identificação automática de edições problemáticas. Isso
diminuiu bastante o tempo de resposta no conserto de páginas vandalizadas. O fato de termos
colaboradores que praticamente adotam os artigos de seu interesse também ajuda no controle
de qualidade.
VEJA- O que mais pode ser feito para melhorar a Wikipédia?
Wales- O passo mais importante que demos nos últimos anos foi o sistema de revisões
assinaladas. A ideia é garantir que o público está lendo um verbete que já foi revisto por um
membro de confiança da comunidade. Esse sistema foi testado como um projeto piloto na
versão alemã da Wikipédia e o resultado foi bastante bom. Estamos próximos de conseguir
um acordo com os voluntários da versão da Wikipédia em inglês para implementar um projeto
parecido. É o tipo de coisa que estamos sempre fazendo para melhorar o con-teúdo da
enciclopédia.
VEJA- O artigo sobre Jesus Cristo inclui interpretações feitas por cristãos, judeus,
muçulmanos, budistas e ateus. É possível conseguir uma visão correta de um tema com
base
em
visões
tão
díspares?
Wales- As pessoas podem não concordar sobre tudo, mas ainda assim encontrar formas de
contribuir para uma polêmica de maneira que todos saiam satisfeitos com o resultado. A
guerra no Iraque é um exemplo. O artigo na Wikipédia não vai dizer se a guerra é uma boa ou
má ideia, mas pode deixar claro que é um tema controverso e listar os argumentos tanto de
seus críticos quanto de seus partidários. É uma política que chamamos de ponto de vista
neutro. Procuramos dar informações para que as pessoas possam formular opiniões por sua
própria conta. A maioria dos voluntários entende isso e toma cuidado para não escrever
verbetes tendenciosos. Se um tema é tão polêmico que é frequentemente editado, depois de
cada alteração a página fica bloqueada temporariamente para que editores mais graduados na
comunidade possam chancelar as mudanças. Até agora, essa política de neutralidade ve m
funcionando muito bem.
153
VEJA- A versão em língua inglesa da Wikipédia tem verbetes sobre todos os
personagens do desenho animado Pokémon, mas não sobre todos os presidentes da
Argentina. Esse tipo de omissão não afeta a credibilidade da enciclopédia?
Wales- Essas críticas são válidas, mas não em todos os casos. Numa enciclopédia impressa,
com um número limitado de volumes, um verbete extenso sobre um assunto está roubando
espaço de outro. Nesse caso, é preciso selecionar bem os temas a ser abordados. Como não é
feita de papel, a Wikipédia tem espaço para tudo. As pessoas podem escrever quanto
quiserem sobre Pokémon sem que isso impeça que outros escrevam sobre os presidentes da
Argentina. Uma vez recebi a reclamação de que o artigo sobre um personagem de cinema era
mais extenso que o verbete sobre a China. Acontece que o artigo sobre a China é uma peça
central com vários artigos coadjuvantes. No total, é óbvio que a quantidade de informações
sobre o país é muito maior.
VEJA- Há alguns anos, você afirmou que a Wikipédia deveria ter artigos sobre todos os
episódios
dos
Simpsons.
Depois
mudou
de
ideia.
Por
quê?
Wales- Porque descobrimos que o modo wiki de produzir informação em conjunto tem seus
limites. É complicado escrever um bom artigo sem consultar fontes con- fiáveis, como livros,
revistas e jornais. Seria o caso, por exemplo, dos episódios do seriado. Como nosso objetivo é
fazer uma enciclopédia de qualidade, é melhor não ter esses verbetes de nível duvidoso.
VEJA- É sabido que diversos políticos americanos já editaram a própria biografia na
Wikipédia. Qual é o impacto da enciclopédia na política em geral?
Wales- Certamente há um impacto, embora seja difícil mensurá-lo. Acredito que a maioria
das pessoas faz suas escolhas políticas com base em informações escassas e duvidosas, como
as propagandas mais apelativas à emoção do eleitor. Em geral, espero que a enciclopédia
ajude as pessoas a tomar decisões a partir de informações concretas, e não a partir da melhor
piada no debate na televisão. Isso é importante em todas as esferas de governo, não só nas
eleições presidenciais. Esse é o sonho, pelo menos.
VEJA- Muitas iniciativas na internet adotam o princípio da Wikipédia de construção
colaborativa.
Há
limites
para
o
modelo
wiki?
Wales- A capacidade de estimular a criação coletiva é uma das características mais
fascinantes da internet. Em vez de apenas inserirem informações aleatórias, as comunidades
estão se unindo para construir em conjunto algo de melhor qualidade. Estamos só no começo
desse processo. No futuro, muitas inovações vão surgir dessa forma. Os vídeos de hoje se
parecem com os textos da década passada. Se você entrar no YouTube, verá que os vídeos
são, na maioria, produções modestas, feitas por uma única pessoa. Há poucos projetos em
larga escala. Cur iosamente, a literatura de ficção é um campo da cultura no qual a construção
colaborativa ainda é muito tímida. Ao que parece, esse é um processo criativo individual, e
não colaborativo.
VEJA- Há dois anos, você criou o Wikia, um buscador para concorrer com o Google. A
empresa
faliu.
O
Google
é
imbatível?
Wales- Eu não temo o Google. Na verdade, sou um admirador do trabalho deles. O mercado
de buscas on- line, do qual o Google é líder, não possui aquilo que os economistas chamam de
externalidades de rede. Em outras palavras, eu posso passar a usar outro buscador sem me
preocupar se os meus amigos farão o mesmo. É diferente da maneira como a Microsoft
conseguiu o domínio do mercado. Por muitos anos, o fato de todos os meus colegas estarem
usando o Microsoft Windows tornava difícil a migração para softwares de outras empresas
por causa da falta de compatibilidade dos sistemas. As redes sociais, como o Facebook, são
outro exemplo. Não há sentido em mudar para outro site se nenhum dos meus amigos vai
154
estar lá. No caso do Google, isso não acontece. Há muito espaço para pesquisas e inovações
no desenvolvimento de buscadores que podem minar a liderança da empresa. Obviamente, o
Google faz um ótimo trabalho e, por isso, não é fácil desafiá- lo.
VEJA- Você é um ávido leitor da escritora russo-americana Ayn Rand, uma ferrenha
defensora da liberdade econômica. O que torna sua obra tão atual em tempos de crise?
Wales- A maior lição a ser aprendida com Rand é que devemos pensar mais. É preciso ser
cauteloso para não estabelecer políticas baseadas apenas em emoções de curto prazo.
Devemos refletir sobre o tipo de sociedade que queremos e pensar muito sobre a maneira
como pretendemos resolver nossos problemas.
VEJAPor
que
não
há
anúncios
nas
páginas
da
Wikipédia?
Wales- Pusemos esse assunto em pauta na comunidade de voluntários que faz a enciclopédia,
e eles decidiram que não queriam publicidade no site. Sempre procurei respeitar essas
decisões. Em segundo lugar, acredito que as pessoas mudariam sua visão da Wikipédia caso
colocássemos anúncios. Elas gostam do fato de sermos uma instituição sem fins lucrativos.
Nosso objetivo não é conseguir o máximo de lucro com a enciclopédia, mas torná-la o mais
precisa possível. Pelo menos por enquanto não temos planos de mudar o modelo de negócios
da Wikipédia, que ainda é baseado em doações e algumas parcerias com empresas privadas.
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Carla Oliveira-capa - Biblioteca Digital de Teses e Dissertações