Universidade Federal da Paraíba Centro de Tecnologia Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica Mestrado - Doutorado TRANSFERÊNCIA DE MASSA E CALOR NO COMPLEXO SOLO-VEGETAÇÃOATMOSFERA: SENSIBILIDADE DO MODELO À VARIABILIDADE ESPACIAL DA CONDUTIVIDADE TÉRMICA DO SOLO por Lovania Maria Werlang Tese apresentada à Universidade federal da Paraíba para obtenção do grau de Doutor João Pessoa – PB Setembro, 2006 LOVANIA MARIA WERLANG TRANSFERÊNCIA DE MASSA E CALOR NO COMPLEXO SOLO-VEGETAÇÃOATMOSFERA: SENSIBILIDADE DO MODELO À VARIABILIDADE ESPACIAL DA CONDUTIVIDADE TÉRMICA DO SOLO Tese apresentada ao graduação em como parte Programa de Pós- Engenharia dos obtenção do Título de Mecânica requisitos Doutor para em Engernharia Mecânica pela Universidade Federal da Paraíba. ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: TERMOFLUIDOS ORIENTADOR: PROF. DR. ALAIN MARIE BERNARD PASSERAT DE SILANS João Pessoa-PB 2006 TRANSFERÊNCIA DE MASSA E CALOR NO COMPLEXO SOLO-VEGETAÇÃOATMOSFERA: SENSIBILIDADE DO MODELO À VARIABILIDADE ESPACIAL DA CONDUTIVIDADE TÉRMICA DO SOLO Por Lovania Maria Werlang _________________________________________ Prof. Dr. Alain Marie Bernard Passerat de Silans - UFPB Orientador ________________________________________________ Prof. Dr. Marco Antonio Wanderley Cavalcanti - UFPB Examinador interno _______________________________________________ Prof. Dr. José Maurício Alves de Matos Gurgel - UFPB Examinador interno ______________________________________________ Dr. José Elias da Cunha Metri - UFCG Examinador externo _______________________________________________ Prof. Dr. Bernardo Barbosa da Silva - UFCG Examinador externo João Pessoa – Paraíba setembro, 2006 DEDICATÓRIA Dedico aos meus pais: minha doce mãe, Carmelina Secco Werlang e meu querido pai, Iribaldo Egidio Werlang que Deus os levou. AGRADECIMENTOS Ao orientador desta tese, professor e pesquisador Dr. Alain Marie Bernard Passerat de Silans, que soube transmitir de forma brilhante seus conhecimentos; Ao meu amigo Maurício Costa Goldfarb por toda colaboração no desenvolvimento de nossas teses; Ao professor Dr. Tarciso Cabral da Silva, em nome de todos que fazem, com excelência, o Laboratório de Recursos Hídricos e Engenharia Ambiental da Universidade Federal da Paraíba; Aos meus amigos Iluminata, Hamilcar, Carmem, Wamberto, Francisco, Hugo Alcantra, Taysa, André, Joana e demais amigos; Ao meu amigo Simão que sempre esteve presente para solucionar os problemas computacionais que tive. Olha que não foram poucos; Ao professor Dr. Marco Antônio Wanderley Cavalcanti, de quem sempre tive apoio financeiro para publicação de trabalhos, quando o mesmo estava à frente do Programa de PósGraduação em Engenharia Mecânica da Universidade Federal da Paraíba; Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq pela concessão da bolsa de estudos durante todo o curso de doutorado; Um agradecimento ao povo brasileiro que de uma forma ou de outra vem colaborando com meus estudos todos esses anos; Um agreadecimento muito especial aos meus familiares, minhas irmazinhas (Landa e Ade), ao meus irmãos (Fernando, Antonio, Maurício e Jorge) a minha dinda (Ana Maria Secco) ao meu eterno nenezinho (Ana Heta Zimmer), e aos meus docinhos (João Marcelo Werlang Leite e Maria Julia Werlang Leite). Água.... vida quero ser rio e correr livre penetrar as fendas da terra seca e dar vida. e..fazer brotar as sementes. quero ver o homem contente....correr e ... colher e...viver. quero ser gota a descer em meios aos campos, encharcar os jardins de encantos, ver florir cada botão e cada milímetro de mim fazer o verde cobrir o chão. e então... como rio, como chuva descansar nos braços do mar na certeza da missão cumprida, na certeza de que .. onde passei .. deixei encanto, deixei vida. (Edmar Moraes de Lima) RESUMO TRANSFERÊNCIA DE MASSA E CALOR NO COMPLEXO SOLO-VEGETAÇÃOATMOSFERA: SENSIBILIDADE DO MODELO À VARIABILIDADE ESPACIAL DA CONDUTIVIDADE TÉRMICA DO SOLO Desde a metade da década de 80 os modelos SVATs (Soil Vegetation Atmosphere Transfer sheme) foram desenvolvidos para, inicialmente, descrever as condições de fronteira inferior de modelos regionais de circulação atmosférica e posteriormente ser acoplados em modelos hidrológicos e modelos de produção de massa vegetal. O desenvolvimento desses modelos faz parte de estudos experimentais implantados em diversos biomas do mundo, onde os balanços de energia são medidos continuamente no conjunto solo, vegetação e na atmosfera. Na região semi-árida do Cariri paraibano foi instalado um experimento bastante complexo, com a finalidade de se investigar o comportamento deste bioma. Os resultados deste experimento mostram um comportamento bastante interessante do solo e da vegetação. Nesta tese são modelizadas as transferências de massa e calor no solo para a atmosfera, em condições de convecção livre, e determinado a partir de estudos experimentais os parâmetros físicos do solo que interferem diretamente nos processos de transferência e, por fim, é examinada a questão da variabilidade espacial desses parâmetros frente à representatividade do modelo desenvolvido numa escala sub-regional. Os resultados mostram que os altos gradientes de temperatura devido à baixa difusividade térmica freiam os fluxos de água dirigidos para cima (ou seja, a evaporação) e chegam mesmo a inverter-los durante o dia. Palavras-Chave: Modelos SVATs, Transferência de massa e calor, Condutividade térmica, Cariri, região semi-árida. i ABSTRACT HEAT AND MASS TRANSFERENCE IN THE SOIL-VEGETATION- ATMOSPHFERE CONTINUN: SENSITIVITY OF THE MODEL TO THE SPATIAL VARIABILITY OF THE SOIL THERMAL CONDUCTIVITY. Since the half of the decade of 80 the SVATs models (Soil Vegetation Atmosphere Transfer sheme) had been developed initially to describe the conditions of inferior border of regional models of atmospheric circulation and later to be connected in hidrológicos models and models of production of vegetal mass. The development of these models is part of diverse implanted experimental studies in biomas of the world, where the energy rockings are measured continuously in the alone set, vegetation and in the atmosphere. In the half-barren region of cariri paraibano a sufficiently complex experiment was installed, with the purpose of if investigating the behavior of this bioma. The results of this experiment show a sufficiently interesting behavior of the ground and the vegetation. This thesis is modelizadas the mass transferences and heat in the ground for the atmosphere, in conditions of free convection, is determined from experimental studies and in laboratory the physical parameters of the ground that intervene directly with the processes of transferences, and finally is examined the question of the space variability of these parameters front to the representation of the model developed in a subregional scale. The results show that the high gradients of temperature due to low thermal difusivit brake the directed water flows for top (that is the evaporation) and exactly arrive to invert them during the day. Key-words: SVATs models, Transference of mass and schemes, thermal conductivity ii LISTA DE FIGURAS Figura 2.1 – Representação simplificada do modelo da primeira geração...............................17 Figura 2.2 – Representação simplificada do modelo de segunda geração. ..............................18 Figura 2.3 – Representação simplificada do modelo de terceira geração proposto por Boullet/Mosaico. .......................................................................................................................20 Figura 2.4 – Representação simplificada do modelo de segunda geração proposto por Shuttleworth e Wallace (1985) para vegetação esparsas....................................................21 Figura 2.5 – Modelo em duas colunas apresentado por Boulet et al. (1998)...........................22 Figura 3.1 - Malha no limite inferior – fluxo nulo e temperatura constante.............................34 Figura 3.2 – Desenho esquemático do balaço de massa e calor...............................................37 Figura 3.3 – Malha no limite superior......................................................................................38 Figura 3.4 – Perfil inicial do potencial matricial......................................................................42 Figura 3.5 – Perfil inicial da temperatura.................................................................................42 Figura 3.6 – Malha do perfil do solo em volume finito em qualquer posição..........................44 Figura 3.7 - Representação da matriz coluna para as equações de transferência de massa e transferência de calor.................................................................................................................50 Figura 4.1 – Mapa do estado da Paraíba com localização do experimento..............................55 Figura 4.2 – Vista panorâmica da estação bioclimatológica do Experimento Cariri...............56 Figura 4.3 – Detalhamento dos equipamentos no interior do solo...........................................56 Figura 4.4 - Vista em foco dos equipamentos do Experimento Cariri...................................57 Figura 4.5 - Curva granulométrica do solo..............................................................................59 iii Figura 4.6 – Perfil da densidade global do solo estudado........................................................60 Figura 4 .7 – Curvas de retenção experimentais.......................................................................63 Figura 4.8 – Condutividade hidráulica à 5 cm de profundidade...............................................66 Figura 4.9 – Difusividade térmica do solo – Experimento Cariri.............................................68 Figura 4.10 – Coeficiente de difusão de água devido ao gradiente de temperatura DT...........69 Figura 4.11 - Coeficiente de difusão de água devido a um gradiente de umidade Dh.............69 Figura 4.12 – Coeficiente de capacidade hidráulica devido ao gradiente de umidade.............72 Figura 4.13–Coeficiente de capacidade hidráulica devido ao gradiente de temperatura..........72 Figura 4.14 – Coeficiente de capacidade hidráulica devido ao gradiente de umidade.............74 Figura 4.15 – Coeficiente de capacidade hidráulica devido ao gradiente de temperatura........74 Figura 4.16–Coeficiente de transporte de umidade devido ao gradiente de umidade .............75 Figura 4.17 – Coeficiente de transporte de umidade devido ao gradiente de temperatura......76 Figura 4.18 - Coeficiente de transporte de umidade devido ao gradiente de umidade.............77 Figura 4.19 - Coeficiente de transporte de umidade devido gradiente de temperatura............77 Figura 4.20 – Capacidade calorífica A2, em função da pressão matricial. ..............................79 Figura 4.21 – Capacidade calorífica A2, em função da temperatura.......................................79 Figura 4.22 - Capacidade calorífica em função do potencial matricial....................................80 Figura 4.23 - Capacidade calorífica em função da temperatura...............................................81 Figura 4.24 – Coeficiente de transporte de calor em função do potencial matricial................82 Figura 4.25 – Coeficiente de transporte de calor em função da temperatura...........................82 Figura 4.26 – Coeficiente de transporte de calor em função do potencial matricial................83 Figura 4.27 – Coeficiente de transporte de calor em função da temperatura...........................84 iv Figura 5.1 – Perfil inicial do potencial matricial......................................................................85 Figura 5.2 – Perfil inicial da temperatura.................................................................................86 Figura 5.3 – Temperatura 0,4 mm profundidade e experimental.............................................87 Figura 5.4 – Temperatura 2 cm profundidade e experimental.................................................87 Figura 5.5 – Temperatura 5 cm profundidade e experimental..................................................88 Figura 5.6 – Comparação entre os potenciais matriciais observados e simulados a 5 cm de profundidade..............................................................................................................................89 Figura 5.7 – Comparação entre os valores experimentais e simulados de teta a 5 cm ...........90 Figura 5.8 – Detalhamento da umidade volumétrica a 5 cm de profundidade.........................90 Figura 5.9 – Fluxo de calor sensível.........................................................................................91 Figura 5.10 – Fluxo de calor latente........................................................................................92 Figura 5.11 – Representação da aplicação do método do balanço hídrico com plano de fluxo nulo. (Fonte Silva, 2003)...........................................................................................................92 Figura 5.12 – Balanço de energia à superfície do solo.............................................................94 Figura 5.13 – Fluxos de massa para o dia 13............................................................................95 Figura 5.14 – Fluxos de massa para o dia 15............................................................................95 Figura 6.1 – Resultado experimental da difusividade térmica do solo na profundidade de 5 cm.............................................................................................................................................103 Figura 6.2 – Resultado dos ajustes da difusividade térmica .................................................109 v LISTA DE TABELAS Tabela 3.1 – Critério para decidir o tipo de convecção ...........................................................39 Tabela 4.1 – Valores das curvas características de umidade camada 1 e 2 ............................61 Tabela 4.2 – Ajustamento da curva de retenção ao modelo de Van Genuchten para a primeira camada.......................................................................................................................................62 Tabela 4.3 – Ajustamento da curva de retenção ao modelo de Van Genuchten para a segunda camada.......................................................................................................................................63 Tabela 4.4 – Condutividade hidráulica saturada para diferentes texturas de solos..................64 Tabela 4.5 – Resultados da condutividade hidráulica...............................................................66 Tabela 5.1 – Comparação dos valores simulados e experimentais da evaporação diária do solo.............................................................................................................................................93 Tabela 6.1 – Resultados dos modelos....................................................................................107 vi LISTA DE SIMBOLOS bT = Coeficiente de expansão (adimensional) * C = Capacidade calorífica (Jm-3K-1) Ch = Constante (6,8 K-1) cl = Calor especifico do liquido (4186 J/kg K) cs = Calor especifico do sólido (800 J/kgK) = Difusividade térmica (W/m2) CTA = Condutividade térmica aparente (W/m/K) cv = Calor específico do vapor (1386 J/kg K) DesatDT = Derivada da pressão de saturação com relação a temperatura Dh = Coeficiente de transferência devido ao gradiente do potencial matricial (m/s) DhDT = Derivada do potencial matricial com relação a temperatura DLT = Coeficiente de termomigração (m2/s/K) DmvDh = Derivada da massa específica de vapor com o potencial matricial DT = Coeficiente de transferência devido ao gradiente de temperatura (m2/s/K) DTS = Difusividade térmica do solo (W/m/K) DtetaDh = Equação de Muallen com parâmetros de Genuchten DtetaDT = Derivada da umidade com relação a temperatura Dv = Difusividade molecular do vapor (m2/s) Dva = Difusividade molecular do ar (m2/s) Dvh =Difusividade molecular do vapor devido ao gradiente do potencial matricial (kg/ m s) DvT = Difusividade molecular do vapor devido ao gradiente de temperatura (kg/m s K) esT = Pressão de vapor de saturação (função de T) Pa Evap = Evapotranspiração Fp = Fator de correção devido a pressão (1,02) g = Aceleração da gravidade (m/s²) G = Fluxo de calor (W/m2) h = Potencial matricial (Pa) vii hPocor = Potencial matricial corrigido hr = Umidade relativa (%) Hs = Fluxo de calor sensível (Wm-2) K = Condutividade hidráulica (m/s) Kcor = Parâmetro para correção da condutividade hidráulica devido a viscosidade L= Calor latente de vaporização (J/kg) LE = Fluxo calor latente (Wm-2) m,n, = Parâmetros da curva de van Genuchten mar = Massa específica do ar (kg/m³) ml = Massa específica do líquido (kg/m³) Mmv = Massa molar da água (g/mol) ms= Massa específica do sólido (kg/m³) mv = Massa de vapor (kg/mol) Pr = Número de Prandtl qm = Fluxo de massa (kg/m2/s) qV = Fluxo de vapor (kg/m2/s) R = Constante dos gases perfeitos ( J/K kmol) T = Temperatura (K) TL = Temperatura da superfície (K) Tr = Tortuosidade (adimensional) = Viscosidade (m2/s) W = Calor de molhamento (adimensional) S = Massa específica do sólido (Pa) l = Massa específica do líquido (Pa) v = Massa específica do vapor (Pa) s = Umidade de saturação do solo (cm³/cm³) l = Umidade do líquido (cm³/cm³) v = Umidade do vapor (cm³/cm³) viii r = Umidade residual do solo (cm³/cm³) = Umidade da equação de Genuchten (cm³/cm³) vols = Volume do sólido (0,494 m³/m³ valor experimental médio de 90 amostras * = Condutividade térmica aparente (W/m/K) = Condutividade térmica (W/m/K) VA1, VB1, VC1, VD1, VE1, VF1 ,VG1= (Parâmetros. da matriz de massa) VA2, VB2, VC2, VD2, VE2, VF2 , VG2 = (Parâmetros da matriz de calor) ix SUMÁRIO RESUMO.....................................................................................................................................i ABSTRACT................................................................................................................................ii LISTA DE FIGURAS...............................................................................................................iii LISTA DE TABELAS..............................................................................................................iv LISTA DE VARIAVEIS............................................................................................................v CAPÍTULO I....................................................................................................................... 14 1 – INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 14 CAPÍTULO II ..................................................................................................................... 17 2 - ESTADO DA ARTE ..................................................................................................... 17 CAPÍTULO III.................................................................................................................... 26 3 – MODELO FÍSICO – TRANSFERÊNCIA DE ÁGUA E CALOR NO SOLO E NA ATMOSFERA EM CONDIÇÕES DE CONVECÇÃO LIVRE. ....................................... 26 3.1 – Equacionamento do problema ................................................................................... 26 3.2 - Transferência de massa e de calor no solo ................................................................. 26 3.3 - Equação de conservação de massa ............................................................................. 27 3.4 – Primeira lei da termodinâmica .................................................................................. 28 3.5 - Equações de transporte ............................................................................................... 31 3.5.1 - Fluxo de água na fase líquida ................................................................................. 31 3.5.2 - Fluxo de água em fase vapor .................................................................................. 33 3.5.3 - Fluxo de calor no solo ............................................................................................ 35 3.6 - Sistema de equações .................................................................................................... 35 3.6.1 - Equações de transporte de umidade no solo ............................................................ 35 3.6.2 - Equação de transporte de calor ............................................................................... 36 3.6.3 – Apresentação do sistema de equação...................................................................... 37 3.7 – Condições de contorno e condições iniciais ............................................................... 38 3.7.1 - Contorno inferior.................................................................................................... 38 3.7.2 - Contorno superior .................................................................................................. 40 3.7.3 – Balanço de energia na atmosfera entre o solo e a vegetação ................................... 41 3.7.4 - Condições iniciais .................................................................................................. 45 3.8 - Solução numérica ........................................................................................................ 46 3.8.1 – Discretização através de volumes finitos ................................................................ 47 3.8.2 - Coeficiente de relaxação das variáveis T e h para equação de massa e de calor ....... 50 3.8.3 - Função temporal dos coeficientes ........................................................................... 50 3.8.4 - Apresentação das equações ma forma matricial ...................................................... 52 3.8.4.1 – Forma matricial............................................................................................... 53 3.9 - Algoritmo de Douglas ................................................................................................ 54 CAPÍTULO IV .................................................................................................................... 57 4 – ESTUDO EXPERIMENTAL – DETERMINAÇÃO DOS PARÂMETROS DE TRANSFERÊNCIA DE MASSA E CALOR NO SOLO ................................................... 57 4.1 – Localização do Experimento Cariri ........................................................................... 57 4.2 – Determinação das propriedades físicas do solo relevantes para o estudo ................ 60 4.2.1 – Granulometria e densidade global do solo .............................................................. 61 4.2.1.1 – Granulometria ................................................................................................. 61 4.2.1.2 – Densidade global (dg) ..................................................................................... 62 4.2.1.3 – Curva retenção do solo .................................................................................... 63 4.2.1.4 - Condutividade hidráulica ................................................................................. 66 4.2.1.5 - Difusividade térmica do solo ........................................................................... 70 4.2.1.6 – Coeficientes de difusão de água (difusão de massa) ........................................ 71 4.2.6 – Coeficientes de capacidade hidráulica .................................................................... 73 4.2.6.1 - Coeficiente de capacidade hidráulica associado ao gradiente de umidade e de temperatura ................................................................................................................... 73 4.2.6.2 – Coeficientes de transporte de umidade associado ao gradiente de umidade e de temperatura ................................................................................................................... 77 4.2.7 – Coeficientes de capacidade calorífica ..................................................................... 81 4.2.7.1 - Coeficiente de capacidade calorífica associado ao gradiente de umidade e de temperatura ................................................................................................................... 81 4.2.7.2 - Coeficiente de transporte de calor .................................................................... 84 CAPÍTULO V ..................................................................................................................... 88 5 – RESULTADOS DO MODELO .................................................................................... 88 5.1 – Valores de temperatura observados e simulados. ..................................................... 89 5.2 – Valores de umidade observados e simulados a 5 cm de profundidade. .................... 91 5.3 – Fluxo de calor sensível simulado. ............................................................................... 94 5.4 – Fluxo de calor latente de evaporação......................................................................... 94 5.5 – Balanço de energia ..................................................................................................... 96 5.6 – Fluxo de massa devido ao gradiente de potencial matricial e ao gradiente de temperatura ......................................................................................................................... 97 CAPÍTULO VI .................................................................................................................. 100 6 – CONTIBUIÇÃO À TÉCNICA DE AGREGAÇÃO: PAPEL DA DIFUSIVIDADE TERMICA DO SOLO ..................................................................................................... 100 6.1 - DETERMINAÇÃO EXPERIMENTAL DA DIFUSIVIDADE TÉRMICA ........... 101 6.2 - MODELOS DE CÁLCULO DA CONDUTIVIDADE TÉRMICA ......................... 106 6.2.1 - Modelo De Mc Cumber e Pielkes ........................................................................ 106 6.2.2 - Modelo de Johansen ............................................................................................. 107 6.2.3 - Modelo de de Vries .............................................................................................. 108 6.3 - Resultados da aplicação desses modelos................................................................... 109 6.3.1 - Ajuste do modelo de Mc Cumber e Pielkes .......................................................... 110 6.3.2 - Ajuste do modelo de Johansen ......................................................................... 110 6.3.3 – Ajuste do modelo de de Vries .............................................................................. 111 6.4 - ESTUDO DA VARIABILIDADE ESPACIAL DA CONDUTIVIDADE TÉRMICA ........................................................................................................................................... 112 6.4.1 - Determinação dos teores de matéria orgânica, densidade global, do quartzo e de outros minerais ................................................................................................................ 113 6.4.2 – Análise estatística das propriedades ..................................................................... 114 6.4.3 – Determinação da condutividade térmica............................................................... 115 6.4.4 – Sensibilidade do modelo SVATs à variabilidade espacial. ................................... 120 6.4.4.1 – Análise da sensibilidade da evaporação simulada pelo modelo. ..................... 121 6.4.4.2 – Análise da sensibilidade da temperatura máxima diária à superfície do solo ao valor da condutividade térmica. ................................................................................... 122 6.4.4.3 – Análise da sensibilidade dos fluxos de água devido aos gradientes de potencial matricial e de temperatura ........................................................................................... 124 CAPÍTULO VII ................................................................................................................ 125 7 - CONCLUSÕES............................................................................................................ 125 CAPÍTULO VIII ............................................................................................................... 129 8 - BIBLIOGRAFIA ......................................................................................................... 129 x CAPÍTULO I 1 – INTRODUÇÃO O semi-árido do Brasil e, mais especificamente a região chamada de Cariris nos Estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte (incluindo as micro-regiões denominadas Cariri, Seridó e Curimataú), onde os volumes precipitados anualmente são os menores do Brasil, é potencialmente sujeito à desertificação. As principais razões são as vulnerabilidades climáticas e edáficas dos ecossistemas da região, associadas a um ambiente sócio-econômico desfavorável. As precipitações são de origem convectivas, isto é, ocorrem devido a fluxos de calor verticais intensos oriundos da superfície do solo e, apresentam uma variabilidade espaçotemporal muito elevada. Elas são de curta duração e alta intensidade. O papel do solo e da vegetação nestes processos convectivos é, na região, ainda desconhecido, no entanto, a vegetação, adaptada às condições adversas do clima, defende-se, com mecanismos próprios, das altas temperaturas e, de longos períodos secos. A vegetação então, assim como o solo, apresenta um papel importante na repartição da energia solar em fluxo de calor sensível e fluxo de calor latente de evapotranspiração. Apresenta um papel importante, também, quanto à proteção do solo contra a erosão e na conservação da umidade. Neste ambiente, o entendimento dos processos que governam a troca de massa e calor entre o solo a vegetação e a atmosfera são de alta relevância para o aprimoramento e acuidade nos modelos de previsões meteorológicas. O Projeto Cariri busca modelizar os fluxos de massa e calor no complexo solovegetação-atmosfera, objetivando fornecer parâmetros que permitam melhorar os modelos hidro-climatológicos aplicados à região semi-árida do Brasil. É neste contexto que se desenvolveu essa pesquisa, para representar com mais realidade o balanço de massa e calor à superfície e os fluxos de calor latente e calor sensível, através de estudos experimentais e 14 modelagem matemática das transferências de massa e calor entre o solo, a vegetação e a atmosfera. Um estudo experimental foi conduzido entre 2001 e 2003, na bacia experimental da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em São João do Cariri. Medições na camada limite atmosférica, no dossel da vegetação e no solo foram feitas para orientar o desenvolvimento de um modelo SVATs (Soil Vegetation Atmosphere Transfer scheme) adequado à região. Silva (2003) analisou os resultados experimentais, principalmente no seu componente “atmosfera”. Os resultados apresentados mostraram a importância do solo e da vegetação nos processos de troca de calor e de vapor de água entre o solo e a atmosfera (Passerat de Silans e Silva, 2003). Passerat de Silans e Silva (2006), assim como Goldfarb (2006), mostraram que para a região semi-árida do Cariri, um modelo SVATs deveria seguir a concepção de modelo mosáico proposta por Boulet (1998). Neste caso, o modelo de transferência de massa e calor entre o solo e a atmosfera é composto de duas colunas, consideradas de forma simplificada como independentes: uma coluna representando as transferências diretamente do solo para a atmosfera e a outra representando as transferências do solo para a vegetação e desta para a atmosfera. Nesta tese dar-se-á continuidade aos trabalhos de Silva (2003) e de Goldfarb (2006), focalizando preferencialmente os aspectos relativos ao solo e modelizando as transferências de massa e calor do solo para a atmosfera, em condições de convecção livre (primeira coluna do modelo mosaico). São determinados a partir de estudos experimentais, e em laboratório, os parâmetros físicos do solo que interferem diretamente nos processos de transferências, e por fim é examinada a questão da variabilidade espacial da condutividade térmica frente à representatividade do modelo desenvolvido numa escala sub-regional. Não se pretende trabalhar com técnicas de agregação, mas contribuir para o desenvolvimento desta técnica. Conforme os resultados experimentais o papel termodinâmico do solo apresenta uma importância muito relevante na dinâmica da água no solo e no processo de evaporação. No entanto sabe-se que as propriedades físicas do solo podem apresentar grande variação espacial numa mesma unidade edáfica (Nielsen et al. 1973; Vauclin 1981; Vieira 1981; Teixeira Filho 2001; Lima & Passaret de Silans 1993). Então, procurar-se-á analisar a sensibilidade das respostas do modelo à variabilidade da difusividade térmica para assim contribuir com o melhoramento das técnicas de agregação. 15 Estrutura da tese A tese será composta por seis capítulos. O primeiro capítulo é composto desta introdução. No segundo denominado de “ESTADO DA ARTE” será apresentada a evolução ao longo do tempo da concepção dos modelos SVATs. Uma revisão de modelos e experimentos adaptados às regiões semi-áridas será descrita para situar o problema em foco, no contexto do desenvolvimento científico atual. No terceiro capítulo é apresentado o desenvolvimento do sistema de equações que descreve a transferência unidimensional de massa e calor no solo. O sistema de equações é composto por duas equações que tratam das transferências de massa e de calor, fortemente acopladas entre si. As condições de contorno na base da coluna são justificadas e as condições de contorno na parte superior são modelizadas pelas transferências de massa e calor entre o solo e a atmosfera. No solo, duas variáveis de estado são consideradas, o potencial matricial e a temperatura do solo. Optou-se pelo potencial matricial, em vez do teor volumétrico de umidade, para assegurar a continuidade da variável na vertical. Dada a impossibilidade de solução puramente analítica do sistema de equações que compõe o modelo SVAT, apresentase também neste capítulo o procedimento numérico utilizado para a solução. O quarto capítulo descreve o Experimento Cariri, mostra os estudos experimentais desenvolvidos para a obtenção dos parâmetros que compõem as equações de transferência no solo e apresenta as variações dos parâmetros os mais importantes com as variáveis de estado. O quinto capítulo compara os resultados do modelo numérico com os valores de diversas variáveis observadas experimentalmente ou deduzidas dos estudos experimentais. No sexto capítulo são apresentadas considerações sobre a variabilidade espacial do solo, e como considerar na determinação de parâmetros efetivos para os modelos de circulação atmosférica ou para os modelos hidrológicos. Um estudo específico da variabilidade espacial da condutividade térmica do solo é realizado, mostrando a sensibilidade do modelo a essa variabilidade. O sétimo capítulo constitui as principais conclusões do trabalho. 16 CAPÍTULO II 2 - ESTADO DA ARTE Os modelos regionais ou modelos de mesoescala, largamente aplicados em pesquisas de previsões climáticas, inclusive nos estudos das mudanças climáticas, utilizam os modelos SVATs (Soil Vegetation Atmosphere Transfer scheme) para descrever as condições de contorno inferiores. Desta forma, o aprimoramento dos modelos regionais está necessariamente vinculado ao aprimoramento dos modelos SVATs. Sellers et al. (1997), têm feito uma revisão cronológica dos modelos SVATs chegando a classifica-las em três gerações distintas, que procuram incorporar informações de interesse de cada época. A primeira geração, desenvolvida nas décadas de 60/70, considera que o solo e a vegetação são representados por uma superfície única. As transferências de massa e calor se processam em uma só camada, não se fazendo distinção entre o solo e a vegetação. Essa geração de modelos segue a metodologia de Penman-Monteith (1965) para o cálculo da evapotranspiração potencial - ETP. A Figura 2.1 apresenta um esquema representativo do modelo da primeira geração desenvolvido nas décadas de 60/70. LE Hs rav ra ras Figura 2.1 – Representação simplificada do modelo da primeira geração 17 Sendo, Hs calor sensível, LE calor latente, ra, rav e ras resistência aerodinâmica referente a vegetação e ao solo respectivamente. Os modelos de segunda geração, desenvolvidos na década de 80, baseiam-se no conceito de “big-leaf”, onde a vegetação é considerada uma grande folha e seus estômatos funcionam como fonte de vapor. Estes modelos são, no mínimo, de duas ou mais camadas. Separam o solo e a vegetação em duas camadas distintas. As transferências de massa e calor são originadas pelo solo e pela vegetação. Desse modo é possível representar o efeito da dinâmica da água no solo sobre os parâmetros que envolvem as transferências de vapor de água e calor. E a transferência de calor no solo é atualizada em função do balanço de energia e da evapotranspiração. Shuttleworth e Wallace (1985) desenvolveram um modelo a 4 camadas, baseado no conceito de Big-Leaf, para ser aplicado em vegetações esparsas, sugerindo a possibilidade de usa-lo em regiões semi-áridas. Na Figura 2.2 é apresentado um esquema simplificado de um modelo da segunda geração. O comportamento dos fluxos de calor sensível e de calor latente é dividido em duas camadas. Os fluxos ocorrem através de um conjunto de resistências associadas ao solo (ras), a vegetação (rav) e à camada limite acima do dossel (ra) resistência Hs LE rav rah raes(Rg,Ta,D,) ra (caule) ra (raízes)(i, Ti, f) Figura 2.2 – Representação simplificada do modelo de segunda geração 18 aerodinâmica, (Rg, Ta,D,) são parâmetros referente a resistência aerodinâmica da interface e (i, Ti, f ) são parâmetros referente a resistência aerodinâmica das raízes. Os modelos SVATs de segunda geração mais conhecidos e utilizados na parametrização das condições inferiores de modelos de circulação atmosférica são os modelos BATs (Dickinson et al., 1986), SIB (Sellers et al., 1986) e ISBA (Planton, 1989). São modelos já incorporados a modelos de circulação atmosférica de mesoescala e modelos hidrológicos distribuídos. A terceira geração concerne modelos desenvolvidos na década de 90. São estruturados da mesma forma que os modelos da segunda geração, mas considera a assimilação do gás carbônico nos processos de transferência. Neles, o papel da vegetação é incorporado aos algoritmos de representação da condutância estomatal (Jarvis e Davis 1998). A crescente emissão de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera tem causado sérios problemas, como o efeito estufa. Devido à quantidade com que é emitido, o CO2 é o gás que mais contribui para o aquecimento global (Sanquetta, 2002). O tempo de sua permanência na atmosfera é de 50 a 200 anos. Isto significa que as emissões de hoje têm efeitos de longa duração, podendo resultar em impactos no regime climático ao longo dos séculos. Diversas pesquisas (Sanquetta, 2002) apontam que, caso a concentração de CO2 continue crescendo, a temperatura média da terra vai aumentar (entre 1,4 e 5,8°C) até 2100 causando efeitos climáticos extremos (enchentes, tempestades, furacões e secas), alterações também na variabilidade de eventos hidrológicos (aumento do nível do mar, mudanças no regime das chuvas, avanço do mar sobre os rios, escassez de água potável) e colocando em risco a vida na terra. Todos os modelos das três gerações utilizados atualmente para prever a circulação atmosférica são baseados no conceito de “big leaf”. Vários experimentos de grande porte sob a égide do GEWEX (Global Energy and Water Cycle Experiment) têm contribuído no desenvolvimento dos modelos SVATs. Esses experimentos, conduzidos em diversas partes do planeta, são representativos de feições climáticas associadas a biomas bem diferenciados. Os experimentos HAPEX (Hydrological – Atmospheric Pilot Experiment) foram desenvolvidos na década de 90. Destes, três experimentos foram desenvolvidos em regiões áridas ou semiáridas. São os experimentos EFEDA 1 e 2 na região de clima mediterrâneo da Espanha (Bolle, 1993), o HAPEX – Sahel na região árida do Sahel na África do Oeste (André, 1997; Goutorbe 19 et al., 1997) e recentemente o experimento SALSA desenvolvido na bacia hidrográfica do Rio San Pedro entre o México e o Arizona (EUA) (Chebouni et al., 2000). Os três experimentos (Hveg.,HS) + (LEveg.,LES) Solo + veg. H(veg ) LE(veg) Co2 rav raes(Rg,Ta,D,) rb superfície ra (caule) ra (raízes)(r, Tr, f) Figura 2.3 – Representação simplificada do modelo de terceira geração proposto por Boullet et al. (1998) mostram que o conceito “big leaf” não se adequar às regiões semi-áridas, pois a vegetação é muito esparsa. O modelo proposto por Shuttleworth e Wallace (1985) para vegetação esparsa apresenta resultados satisfatórios para áreas cultivadas, mas em área de vegetação natural não apresenta bons resultados (Mulligan, 2004). Nesse modelo o conceito de “big leaf” é mantido, considerando a contribuição do solo diretamente para a atmosfera no dossel da vegetação. 20 O modelo de Shuttleworth e Wallace é esquematizado na Figura 2.4. A transferência de água é representada na porção à direita da figura. A água é extraída do solo em diversas camadas através das raízes. Esta água é conduzida até as folhas pelo caule da vegetação, mas parte também da umidade do solo é perdida por evaporação direta do solo. Este fluxo é representado através de uma resistência aerodinâmica que considera um processo de extinção da turbulência. Através da resistência estomatal e de outra resistência aerodinâmica em série, o vapor de água é transpirado da folha para o ar dentro da copa. Depois o fluxo de vapor é LE(veg) H(veg) rav raes(Rg,Ta,D,) rb rb ra (caule) ras ra (raízes)(r, Tr, f) Figura 2.4 – Representação simplificada do modelo de segunda geração, proposto por Shuttleworth e Wallace (1985) para vegetação esparsas transferido para a camada limite atmosférica acima do dossel através da resistência aerodinâmica raV, a qual depende da turbulência e do grau de instabilidade da atmosfera O fluxo de calor sensível, representado na porção esquerda da figura, neste modelo, é transferido 21 da superfície do solo para o ar dentro da copa de vegetação e a seguir transferido para a camada limite atmosférica através da mesma resistência aerodinâmica r aV. Jacobs e Verhoef (1997), analisando dados do experimento HAPEX-Sahel, observaram que em 20% dos casos a transferência de calor sensível e vapor de água entre o solo e a vegetação ocorrem por convecção livre. Concluíram que essa transferência não pode ser representada por uma fórmula de atenuação da turbulência. Baseando-se num conceito introduzido por Massman (1992) sobre o papel do solo, desenvolveram uma teoria, utilizando o número de Sherwood para separar o fluxo evaporado partindo do solo e o fluxo transpirado pela vegetação. Essa teoria foi verificada sobre lisímetros instalados em área de savana, ora à sombra de arbustos, ora no solo exposto diretamente a radiação solar. Boulet et al. (1998), com os resultados do experimento SALSA, sugeriram que se trabalhasse para o desenvolvimento de modelos SVATs adaptados a regiões semi-áridas com modelos tipo “Mosaico” em vez de adaptar os modelos existentes para introduzir duas colunas, como proposto por Shuttleworth e Wallace (1985) e adotado por Jacobs e Verhoef (1997), entre outros. O modelo “Mosaico” composto por um modelo de colunas solo–camada limite atmosférica onde predomina solo desnudo ou coberto por gramíneas e outra coluna solo com vegetação “ilhas de vegetação”. A Figura 2.5 apresenta um esquema deste modelo em duas colunas, onde a (coluna a) representa a fração solo desnudo ou coberto por gramíneas e a (coluna b) solo com vegetação. Mulligan (2004) realizou uma revisão dos estudos sobre as regiões semi-áridas que receberam contribuição financeira da Comunidade Europa e destacou que, nessas regiões é indispensável separar as contribuições do solo e da vegetação, bem como os diferentes efeitos que podem ocorrer em períodos úmidos e períodos seco de longo estresse hídrico. Passerat de Silans et al. (2000) instalaram um experimento denominado Experimento Cariri na fazenda escola de São João do Cariri, no Estado da Paraíba para coletar informações micrometeorológicas na camada limite atmosférica, no dossel da vegetação e no solo para realizar localmente os balanços de radiação, de energia e de umidade. O objetivo de Passerat de Silans et al. (2000) foi desenvolver um modelo SVATs para futuramente, ser incorporado a modelos de circulação atmosférica de mesoescala aplicáveis na região. 22 (Hveg.,HS) + (LEveg.,LES) Solo + veg. H(veg) LE(veg) rav rs raes(Rg,Ta,D,) rb ra (caule) superfície ra (raízes)(r, Tr, f) Coluna (a) Coluna (b) Figura 2.5 – Modelo Mosaico (em duas colunas independentes) apresentado por Boulet et al. (1998), coluna (a) solo sem vegetação, coluna (b) solo com vegetação Silva (2003), analisando os dados coletados no Experimento Cariri, observou que a vegetação se comporta como uma cobertura para micro-clima local: abaixo do dossel funciona como auto-reguladora das perdas energéticas e, acima, atuando como tampão, impedindo o transporte de vapor de água para a atmosfera. Silva (2003) mostrou que entre solo e dossel da vegetação, o fluxo de calor sensível e o fluxo de vapor de água se processam por convecção livre. Os coeficientes de difusão que regem os processos de convecção livre (difusão molecular) são bem inferiores aos coeficientes de difusão turbulenta. Os valores dos fluxos são afetados pela diferença de temperatura entre o ar em contato com solo e o ar presente no 23 dossel. O autor já citado observou que a temperatura na superfície do solo é muito elevada durante o dia, devido ao baixo valor da difusividade térmica do solo, e que a temperatura do ar em torno das folhas é também muito elevada, devido ao mecanismo de controle da transpiração, próprio da vegetação das regiões semi-áridas. Em conseqüência disso a diferença de temperatura entre o ar em contato como o solo e o ar atmosférico presente no dossel é baixa, e os fluxo de calor sensível e de vapor de água também são baixos. Silva (2003) também mencionou que essa diferença durante o dia se apresenta ora positiva ora negativa indicando a presença de uma inversão térmica na altura do dossel. As medições efetuadas na camada limite atmosférica acima do dossel confirmam a freqüente existência dessa inversão. Assim, muitas vezes a atmosfera acima do dossel funciona como tampão para as transferências de calor e vapor de água. Os resultados apresentados por Silva (2003) sugerem que na região semi-árida coberta por vegetação de caatinga, um modelo representativo das transferências de calor e massa entre solo, vegetação e atmosfera (modelo SVATs), para ser incorporado em modelos circulação atmosfera de mesoescala, deve considerar separadamente os efeitos do solo e os efeitos da vegetação. Além disso, é indispensável que dentro do solo as transferências de calor e de água sejam modelizadas de forma acoplada. Mais especificamente nesta tese procura se desenvolver a parte do modelo que permita avaliar a contribuição do solo para os diversos componentes do balanço energético. É importante observar que o experimento e o modelo de transferências entre o solo e a atmosférica referem-se a um estudo local. No entanto, os modelos de circulação atmosfera utilizam para simular espacialmente todas as variáveis meteorológicas, uma discretização espacial sob a forma de um grid, tipicamente de 20km por 20km e até 80km por 80km. Os parâmetros do Modelo SVATs a serem implantados devem então ser capazes de representar a heterogeneidade existente em cada célula deste grid. Shuttleworth et al. (1997), assim como outros autores, sugeriram que se utilize uma técnica para definir os parâmetros médios do modelo conhecida como técnica de agregação. A técnica de agregação foi criada para determinar os parâmetros efetivos associados às transferências de momento e energia, entre a superfície do solo e atmosfera em escalas usadas, em modelos de circulação global. Essa agregação é feita através de associação teórica entre os parâmetros de escala da malha e os parâmetros da escala do patch. Shuttleworth et al. (1997) trabalhou com essa técnica em 24 MCGs (Modelos de Circulação Geral), considerando que os fluxos médios da área devem ser conservados, e, que o modelo usado para descrever as trocas de calor da superfície do solo para a atmosfera na escala da malha deve ter a mesma estrutura dos modelos usados para descrever essas trocas na escala de cada “patch” que compõe a malha do grid.. Lhomme et al. (1994) aplicaram essa técnica na região árida do Sahel. Consideraram que diversos parâmetros tais como o albedo, a emissividade e as resistências aerodinâmicas podiam ser estimadas como médias ponderadas pelas áreas dos diversos patches. Trabalho similar foi feito por Boulet (1998) no experimento SALSA. Passerat de Silans (1995), também no Sahel, mostrou que as condutâncias aerodinâmicas efetivas nos processos de transferência de massa e calor na escala de uma bacia hidrográfica, podiam ser deduzidas teoricamente da soma dos fluxos dos diversos “patches” admitindo-se a existência de uma função de ponderação que dependesse da umidade do solo. Vachaud et al. (2002) propuseram uma modelagem estocástica dinâmica para a avaliação de parâmetros efetivos do modelo ANSWER. A área considerada por estes autores era bem menor do que a área de uma grade de modelo de circulação atmosférica. Além do mais, a área era relativamente homogênea quanto à vegetação e ao solo. Estes autores estimaram então os efeitos da variabilidade espacial das propriedades hidrodinâmicas do solo e de fixação de certos elementos químicos sobre os parâmetros efetivos do modelo ANSWER. 25 CAPÍTULO III 3 – MODELO FÍSICO – TRANSFERÊNCIA DE ÁGUA E CALOR NO SOLO E NA ATMOSFERA EM CONDIÇÕES DE CONVECÇÃO LIVRE. 3.1 – Equacionamento do problema Neste trabalho é desenvolvido um sistema de equacionados equações que descreve a transferência unidimensional de umidade e calor no solo. Caracterizado como possível e determinado, o sistema é composto por duas equações (transporte de umidade e transporte de calor) e duas variáveis dependentes: o potencial matricial do solo (h) e a temperatura (T). Aqui o potencial matricial do solo foi utilizada para representar a umidade do solo, visto que o perfil de umidade está sujeito a descontinuidades nas diferentes camadas de solo consideradas. 3.2 - Transferência de massa e de calor no solo Admitindo o solo como um meio poroso contínuo, inerte, e considerando as fases líquidas e de vapor, as equações de transferência de massa e calor são obtidas da combinação das equações de conservação (conservação da massa e 1a lei da termodinâmica) com as equações de transporte dos constituintes: água sob a forma líquida e de vapor e calor. As equações utilizadas no desenvolvimento do sistema podem ser divididas em equações de conservação (conservação da massa e primeira lei da termodinâmica) e equações de transporte (equação de Darcy, equação de Fick e equação da condução de calor). A partir destas equações obtém-se o sistema de equações desejado. 26 3.3 - Equação de conservação de massa A equação de conservação da massa deriva-se de uma aplicação básica da formulação integral para um volume de controle, vastamente apresentada na literatura de mecânica dos fluidos, a exemplo de Fox (2001). O princípio da conservação da massa declara sua constância para um determinado sistema, o que garante a equação seguinte: vc dV SC Vd A 0 t (3.1) Onde, a primeira integral representa a taxa de variação da massa com o tempo no volume de controle; a segunda integral, o saldo do fluxo de massa através da superfície de controle; a massa específica. Aplicando o teorema da divergência (que transforma integral de superfície em integral de volume) na equação anterior, tem-se: dV vC V dV 0 t vc (3.2) onde dV refere-se à integral volumétrica, e é a simbologia representativa da divergência. Daí tem-se: 0 V dV m l dV l vC t vc (3.3) e 0 v dV vC V dV m v t vc (3.4) 27 o onde, m1 representa a massa que muda de fase por unidade de tempo. Nota-se que a segunda integral das equações 3.1 a 3.4 representa o fluxo de massa através da superfície de controle. Nesta, o termo i V (kg/m2/s) representa a densidade do fluxo de massa do constituinte. As equações 3.1 e 3.4 se escrevem respectivamente para a água líquida e para o vapor de água, sob a forma diferencial, isto é para cada volume elementar dV: 0 l l d ql ql t dz (3.5) 0 v v d qv qv t dz (3.6) onde, ql é a densidade de fluxo de água (Kg/m2/s) sob a forma líquida e qv e a densidade de fluxo de água sob a forma de vapor. O l e v representam o teor volumétrico da água sob forma líquida e vapor, respectivamente, l e v são as massas específicas de água e de vapor o o de água, já que q l e q v representam as variações de massa específica de massa de água e o o vapor por unidade de volume e por unidade de tempo devido a natureza de fase, já q l = - q v . 3.4 – Primeira lei da termodinâmica A primeira lei da termodinâmica é aqui aplicada conforme Passerat de Silans (1986). Neste caso, desprezando-se as variações de energia potencial e cinética no sistema, e considerando o equilíbrio termodinâmico, tem-se: Q dH dt sistema (3.7) 28 onde, H é a entalpia do sistema e Q é o calor fornecido ao sistema pelo meio externo. Considerando o fluxo de calor através da superfície de controle, o calor fornecido ao sistema pelo meio externo pode ser apresentado através da seguinte equação para transferência unidimensional: Q q Vd A sc Vc (q h )dV z (3.8) onde, qh é a densidade de fluxo de calor fornecido ao sistema. A taxa de variação da entalpia do sistema é escrita através da formulação integral para um volume de controle. dH dt sistema hdV h V . d A SC t VC (3.9) As equações 3.8 e 3.9 combinadas e escritas para um constituinte elementar (i), resultam na equação seguinte: VC ( i i h i )dV VC ( (h i q i )dV VC q h dV t z z (3.10) A equação 3.10 pode ser escrita na forma diferencial, ( i i h i ) (h i q i ) q h t z z (3.11) onde, 29 iihi iihi (T To ) sshs (T To ) llhl (T To ) vvh v (T To ) A ; os subscritos s, l e v, correspondem às fases sólida, líquida e de vapor, respectivamente; A representa a entalpia de mudança de fase, que supostamente é composta de dois termos aditivos – a entalpia associada ao calor latente do vapor da água livre à temperatura To, e a entalpia correspondente ao calor latente da água adsorvida, dada por: l1 A V V L 0 l Wd l (3.12) 0 onde, L0 é o calor latente de vaporização da água livre à temperatura T0 e W é a diferencial do calor de molhamento (ver Passerat de Silans, 1986). A equação seguinte é obtida através das duas equações anteriores. T i h ii (scss lcll vc vv ) (vcp (T T0 ) L0v ) v t t t v v (cp (T T0 ) L0 ) lcl (T T0 ) l l W l t t t (3.13) onde, o somatório (scss+lcll+vcvv) corresponde à capacidade calorífica do meio poroso, expressa através de C*. O calor latente de vaporização da água, a uma determinada temperatura T, se escreve através da seguinte equação: L Lo Cp (T To ) (3.14) O somatório do segundo termo do lado esquerdo da equação (3.11) pode ser reescrito da seguinte forma: (h i q i ) (Lq v c l (T T0 )q m z z z (3.15) 30 onde, qm é a densidade de fluxo de massa dado pelo somatório das densidades dos fluxos líquidos e de vapor q m ql q v . Inserindo as equações (3.13), (3.14) e (3.15 em (3.11) e considerando que o teor volumétrico de água sob a forma de vapor é bem menor que a soma dos teores líquidos e de vapor v , tem-se: C* v T T L v (L v l W) (q m Lq v ) c l q m t t t z z (3.16) onde, C* é a capacidade calorífica do meio poroso; L é o calor latente de vaporização da água, a uma determinada temperatura T; v é o teor volumétrico de água sob a forma de vapor, é o teor volumétrico de água; v e l são, respectivamente, as massas específicas da água sob a forma de vapor e líquida; W é a diferencial do calor de molhamento, h é a pressão matricial do solo e T a temperatura. 3.5 - Equações de transporte 3.5.1 - Fluxo de água na fase líquida O fluxo de água na fase líquida pode ser calculado através da equação de Darcy generalizada para o solo não saturado, escrevendo-a desta forma: ql H h K K 1 l z z (3.17) onde, H é a carga hidráulica (H = h-z) e K é a condutividade hidráulica do solo não saturado: K(,T). A condutividade hidráulica do solo não saturado depende da umidade do solo e da temperatura. Segundo o modelo de Miller e Miller (1956) de escoamento em meio poroso, a 31 dependência da condutividade hidráulica com a temperatura se dá através da viscosidade cinemática da água livre, : K K, T0 T0 T (3.18) onde, T0 é a temperatura de referência, (T0) e (T) são as viscosidades cinemáticas da água livre à temperatura de referência T0 e à temperatura T, respectivamente. O potencial matricial h, variam com a profundidade (cota z) porque tanto a umidade como a temperatura do solo varia com a profundidade. Assim a equação (3.17) se escreve como: ql T h K 1 D LT l z z (3.19) sendo, DLT (m2/s/k) é a difusão de água líquida associada a um gradiente de temperatura: D LT K, T h T (3.20) Considerando a água sob a forma capilar nos poros da matriz porosa, a equação de equilíbrio é dada pela equação de Laplace na qual é a tensão superficial: h 2 l g rm (3.21) em que, rm é o raio de curvatura médio do menisco na interface água capilar – ar e , a tensão superficial, que depende da temperatura: (T). Tem-se, então: 32 h 1 T T (3.22) Milly (1980) considera, assim como outros autores que o valor apresentado na equação (3.22) faz com que o valor de DLT seja bem inferior à realidade experimental. Este autor propõe então a seguinte equação empírica para a dependência do potencial matricial com a temperatura: h, T h, T0 exp( C h (T T0 )) (3.23) em que: h Ch h (, T0 ) T (3.24) com Ch = 6,8 10-3 K segundo Milly (1980). O valor de h T é positivo. Da equação (3.24) deduz-se que DLT, a difusão de água líquida associada ao gradiente de temperatura é positivo. O fluxo de água líquida no solo é então dado por dois componentes: o fluxo devido exclusivamente ao gradiente do potencial matricial, e o fluxo devido exclusivamente ao gradiente de temperatura. Durante o dia geralmente os gradientes de potencial matricial e de temperatura são de sentido contrário o que mostra que o fluxo devido ao gradiente de temperatura pode “baixar” o fluxo devido ao gradiente do potencial matricial. 3.5.2 - Fluxo de água em fase vapor 33 O transporte da fase vapor no meio poroso pode ser representado por uma equação de Fick: q V D V V z (3.25) em que, qv é a densidade do fluxo de vapor de água (kg/m2/s) e DV (m2/s) é o coeficiente de difusão do vapor de água no solo úmido. DV é função do coeficiente de difusão molecular do vapor de água no ar e da geometria dos poros na matriz porosa, V é a massa específica do vapor de água é função das variáveis de estado potencial matricial (h) e temperatura (T). Assim a equação de fluxo de água se escreve: V V h T V z h T z T h z (3.26) Desta forma a densidade do fluxo de vapor (equação 3.25) se escreve como: h T qV DVh DVT z z (3.27) onde, DVh (kg/m2/s) é o coeficiente de difusão isotermo do vapor e D VT (m/s) é o coeficiente de difusão do vapor sob o efeito de um gradiente de temperatura. O fluxo de água sob a forma de vapor é dado então por duas componentes. Conforme Passerat Silans (1986) as expressões para os coeficientes de difusão D Vh e DVT foram propostas por Philip e de Vries (1957), pioneiros na modelização física das transferências de massa e calor no solo. Cary e Taylor (1962, a e b) propuseram uma formulação mais geral baseada sobre na termodinâmica dos processos irreversíveis. Jury et al (1979) mostraram como as duas teorias se encontravam na hipótese de admitir o equilíbrio termodinâmico entre as diversas fases do meio poroso. Mais tarde, frente a diversos resultados experimentais obtidos, outras formulações também foram propostas. Passerat de Silans (1986) faz uma revisão dessas formulações, bem como um estudo da sensibilidade do fluxo de calor 34 sensível e da evaporação de um solo para essas diversas formulações. A determinação destes coeficientes, fortemente dependente do teor de umidade do solo e da temperatura, requer uma modelização muito refinada dos processos de transferência de calor. 3.5.3 - Fluxo de calor no solo A equação que representa o fluxo de calor no solo pode se escrever através da equação de condução de calor em um sólido. q h T z (3.28) em que é a condutividade térmica do meio poroso. De Vries (1953) elaborou um modelo bastante complexo para estimar a condutividade térmica, a qual varia em função da umidade e temperatura do solo. 3.6 - Sistema de equações O sistema que governa a transferência unidimensional de umidade e calor no solo é composto pelas equações de transporte de umidade e calor, ambas dependentes do potencial matricial (h) e da temperatura do solo (T). 3.6.1 - Equações de transporte de umidade no solo A equação de transferência de umidade no solo é obtida da combinação das equações de conservação e das equações de transporte, aqui representadas pelas equações 3.5, 3.6, 3.17, 3.20 e 3.27. Após algumas simplificações e considerando que a densidade de fluxo de água, q m 35 é a soma da densidade de fluxo da água líquida e da densidade de fluxo de vapor de água, temse: pv v pv h pv v pv T 1 1 pl h T pl h T t pl T h pl T h t (3.29) h T DT K Dh z z z onde, v e l representam, respectivamente, as massas específicas da água na forma líquida e de vapor; v é o teor volumétrico de água sob a forma de vapor e l o teor volumétrico de água líquida; K é a condutividade hidráulica do solo não saturado; h é a pressão matricial do solo e T a temperatura; Dh e DT são difusividades, expressas de acordo com as relações seguintes: Dh K 1 D vh pl (3.30) e D T D IT 1 D vT pl (3.31) onde, DVh é o coeficiente de difusão isotermo do vapor e DVT é o coeficiente de difusão do vapor sob o efeito de um gradiente de temperatura. 3.6.2 - Equação de transporte de calor A equação que descreve a transferência de calor no solo é obtida através da combinação das equações (3.16), (3.27) e (3.28), anteriormente apresentada. 36 p v h T pl W pvL C Lv v l W v L Lv h T h T t T h T h t T h T T LD vh LD vT Clq m z z z z z (3.32) onde, L é o calor latente de vaporização da água a uma determinada temperatura T; v é o teor volumétrico de água sob a forma de vapor; W é a diferencial do calor de molhamento; v e l são, respectivamente, as massas específicas da água sob a forma de vapor e líquida, h é a * pressão matricial do solo e T a temperatura; representa a condutividade térmica aparente do * solo ( = + LDvT), medida experimentalmente no solo. 3.6.3 – Apresentação do sistema de equação As equações podem ser agrupadas sob a forma de um sistema de equações diferenciais parciais, isomorfas, não lineares e fortemente acopladas, as quais se escrevem simbolicamente, observando que a identificação para representar a transferência de massa ou de calor esta no índice. Para massa considerar-se-á o índice (1) e calor o índice será (2), com segue: A1 h T h T B1 C1 D1 E1 t t z z z (3.33a) A2 h T h T B2 C2 D2 E2 t t z z z (3.33b) Este sistema deve ser resolvido conhecendo-se as condições iniciais, isto é os campos do potencial matricial (h) e de temperatura (T) em todo o domínio no instante inicial assim como as condições de fronteiras. À fronteira inferior pode se impor condições de primeira ordem, h(t) e T(t), ou de segunda ordem (fluxos conhecidos). Na fronteira superior, serão impostas condições de segunda ordem (fluxos conhecidos) as quais serão determinadas pela 37 modelização dos fluxos na camada atmosférica, usando dados experimentais obtidos no Experimento Cariri em São João do Cariri-PB descrito no site do projeto, www.lrh.ct.ufpb.br/cariri , bem como no próximo capítulo desta tese. 3.7 – Condições de contorno e condições iniciais 3.7.1 - Contorno inferior Para as condições de contorno inferior, deparou-se com algumas dificuldades, pelo fato do solo encontrado no Experimento Cariri, é relativamente raso. A profundidade inferior máxima do solo é comumente limitada por uma camada rochosa de origem magmática, em estados variáveis de intemperismo, porém, geralmente impermeável. No local de estudo, a profundidade máxima do solo é aproximadamente de 0,4m. Por este motivo, considerou-se que não existe fluxo de umidade na condição de contorno inferior (q m = 0). Passerat de Silans et al. (2000) têm mostrado a importância do comportamento térmico do solo nos processos físicos geradores dos fluxos de calor sensível e vapor de água e, que a temperatura a 15cm de profundidade é quase constante, o que mostra que a onda de temperatura na superfície penetra vagarosamente dentro do solo. Silva et al. (2002), analisando resultados experimentais da variação da temperatura com a profundidade na estação experimental de São João do Cariri, observaram uma grande redução na amplitude diária da temperatura com o aumento da profundidade do solo. Nos períodos estudados, enquanto na superfície do solo a amplitude máxima diária superava 20 oC, a 0,05m de profundidade, este valor não ultrapassou o valor de 5 oC e a 15cm de profundidade é sempre inferior a 0,3oC. O fato observado por Silva (2002), ocasionado pela baixa difusividade térmica do solo, associada às características impermeáveis das camadas inferiores, sugerem a possibilidade de simplificação na condição de contorno inferior: T constante, onde T é a temperatura estimada a partir de valores médios experimentais observados a 15cm de profundidade na estação bioclimatológica de São João do Cariri. 38 Baseado-se nas considerações acima aplica-se no limite inferior o método dos volumes finitos no sistema de equações, tanto para equação de transferência de massa como na equação de transferência de calor, só variando o índice como identificado anteriormente, como segue: A p e (h p h op ) B p (Tp Tpo ) z w q m tdz z (3.34) Sendo que, qm representa o saldo do fluxo de massa na superfície do volume elementar de integração e, qm,w, o fluxo de massa na fronteira w do volume de integração. Fazendo o lado direito da equação igual ao fluxo na fronteira, isto é: e w q m tdz q m, w T z (3.35) e agrupando as equações 3.24 e 3.25 tem-se: A (h p p h op ) Bp (Tp Tpo ) z qm, w t (3.36) O fluxo de massa através da fronteira do volume elementar w pode ser calculado pela seguinte equação: qm , w Cw h p 1 h op h w (1 )h ow zw Dw Tp 1 Tpo Tw (1 )Two Ew zw (3.37) Organizando os termos das equações 3.26 e 3.27 de maneira simbólica tem-se o termo da matriz no limite inferior: VA Cw t zw (3.38) 39 VB Dw t zw (3.39) VC Ap z Cw t zw (3.40) VD Bp z Dw t zw (3.41) VE 0 (3.42) VF 0 (3.43) C D VG Ap z (1 ) w t h op Bp z (1 ) w t Tpo zw zw C D (1 ) w t h ow (1 ) w t Two E ow t zw zw (3.44) 3.7.2 - Contorno superior A obtenção das condições de contorno superior, o fluxo de calor (G) e a evaporação (evap) necessário para a solução do modelo, se dá através do acoplamento das mesmas, por meio do sistema de equação de transferência de massa e calor no solo. A Figura 3.1 apresenta um esquema representativo do balanço de energia no solo e na interface com a atmosfera. Nesta figura Tlow é a temperatura medida acima do solo a nível do dossel, G fluxo de calor e Evap representam a evaporação. Estes parâmetros Evap e G são necessários para as condições de contorno superior. A evaporação é obtida através do balanço de energia envolvendo o calor latente (LE) e o calor latente de vaporização (L). 40 Convecção livre G Superfície do solo Evap. interface A1 h T h T B1 D1 E1 C1 t t z z t massa A2 h T h T B2 C2 D2 E2 t t z z t calor h 0 z T cons tan te Figura 3.1– Desenho esquemático do balaço de massa e calor 3.7.3 – Balanço de energia na atmosfera entre o solo e a vegetação A equação que descreve o balanço de energia é dada por: Rn LE Hs G (3.45) em que, Rn é o saldo de radiação (W.m-2) LE, o fluxo de calor latente (W.m-2), Hs é o fluxo de calor sensível do solo (W.m-2) e G o fluxo de calor no solo (W.m-2). Resolvendo a equação anterior para o calculo do calor latente (LE), desprezando a taxa de armazenamento de calor entre o solo e a vegetação, tem-se: LEs Rn Hs G (3.46) E por fim o fluxo de massa é dado pela quantidade evaporada por segundo e por m2, Evap. 41 Evap LE s L (3.47) sendo, L o calor latente de vaporização da água (2430000 J/Kg) e LE definido anteriormente. Silva et al. (2002), demonstraram que os processos de troca de calor e vapor de água entre a superfície do solo e o topo da vegetação, na Caatinga em São João do Cariri, ocorrem, prioritariamente, através dos processos de convecção livre, justificando a possibilidade de aplicação da metodologia de Jacobs e Verhoef (1997), que utiliza o critério proposto por Gates (1980) para avaliar o tipo de convecção. Diante disso cabe aqui descrever o balanço de energia fundamentada na metodologia usada por Jacob e Verhoef (1997), para regiões semi-áridas baseado no comportamento do n de Rayleigh (Ra) frente ao n de Reynolds (Re): Tabela 3.1 – Critério para decidir o tipo de convecção Tipo de Convecção N de Rayleigh (Ra) (1) Livre Ra > 16 Re2 (2) Forçada Ra < 0,1 Re2 (3) Mista 0,1 Re2 < Ra < 16 Re2 onde, Ra é o mesmo, definido por (Kreith e Bohn, 1986), que apresenta a seguinte equação: l3gb Pr Ra t 2 (3.48) sendo que, l é um parâmetro associado a rugosidade da superfície, denominado de comprimento horizontal característico da área entre os maiores obstáculos da superfície (Raupach, 1992). Para o caso do Experimento Cariri l é de 9m, encontrado por Silva (2003), g é a aceleração da gravidade, b é o coeficiente de expansão, para gás perfeito b l , onde T é T 42 a temperatura absoluta do ar, T é a diferença de temperatura entre a superfície do solo e o ar na altura da copa da vegetação, é a viscosidade cinemática do ar, Pr é o número de Prandtl, definido como Pr , (Pr = 0,71), é a difusividade térmica e Re é o n de Reynolds, definido por (Holmam, 1976) como: Re ( us 1) (3.49) onde, us é a velocidade do vento na superfície, medida a 0,5m acima da superfície do solo, l definido anteriormente e definido anteriormente. Considerando as condições descritas anteriormente como convecção livre, então a mudança de calor sensível e a evaporação no solo é dominada pelo mecanismo de troca por meio de convecção livre. Logo o número adimensional da transferência de calor pode ser expresso através do n de Nusselt, definido segundo Kreith e Bohn (1986), como sendo: Nu Hs l T (3.50) onde, é a difusividade térmica do ar em repouso ( =0,0257 W/m K). Para uma local com topografia plana no caso do número de Rayleigh, for Ra > 10 7, o n de Nusselt (Nu) pode ser definido pela relação (Jacobs, 1950): l Nu 0 ,14 Ra 3 (3.51) Agrupando as equações (3.50) e (3.51), tem-se o fluxo de calor sensível da superfície do solo, em que Hs, é: 43 1 ( 0 ,14 ) Hs Ra 3 T l (3.52) Resta, portanto, deduzir a equação para calcular o calor sensível independente do comprimento característico. Para isso faz-se a combinação das equações (3.48) e (3.52) como segue: l 1 1 0 ,14 g 3 b 3 Pr 3 T Hs 2 3 (3.53) donde, T é a diferença entre a temperatura da superfície e um ponto logo acima da superfície, que para o caso do Experimento Cariri foi definido como (Tlow), medido experimentalmente e decomposto em série de Fourier. Autores a exemplo de Kreith e Bohn (1986) observaram que durante uma situação que ocorre convecção livre, o transporte de calor sensível independe do comprimento característico horizontal, l, já que o número de Rayleigh é proporcional à potência cúbica de l: Ra l 3. Conforme Jacob & Verhoef (1997) o calor latente de evaporação do solo LEs pode também ser determinado pela da razão de Bowen, S: s Hs LEs (3.54) onde s é a razão de Bowen para o solo podendo ser calculada pela relação: T Ta s s es ea (3.55) onde é a constante psicrométrica; Ta e ea representam respectivamente a temperatura e a pressão de vapor no ar, na altura do dossel, enquanto T S e eS representam respectivamente a 44 temperatura e a pressão de vapor no ar imediatamente em contato com a superfície do solo. Essa última é obtida admitindo continuidade e equilíbrio termodinâmico entre o ar na matriz porosa do solo e o ar atmosférico à superfície do solo. Massman (1992) propus calcular a razão de Bowen pela expressão: s Cw s, E sendo, s, e (3.56) , razão de Bowen de equilíbrio do solo, é a constante psicrométrica e s a s declividade da curva de pressão de vapor de saturação frente a temperatura do solo, e Cw é o coeficiente da razão de Bowen usado por Massman (1992), obtida para a região semi-árida do Sahel por Jacobs e Verhoef (1997): Cw 27 ,6 Exp( 29 s ) (3.57) em que, s é a umidade volumétrica do solo na camada de solo de 0 a 5cm de profundidade em (m3. m-3). Combinando-se as equações 3.52 e 3.54 tem-se o valor do fluxo de massa à superfície do solo, onde coloca-se o sinal negativo porque os fluxos dentro do solo são considerados positivos quando dirigidos para baixo: l l l 0,14g 3 b 3 Pr 3 T Evap Ls 2 3 (3.58) 3.7.4 - Condições iniciais As condições iniciais foram obtidas a partir de dados experimentais, coletados no Experimento Cariri, no período de dez dias consecutivos de 12 a 21 de janeiro de 2002, logo após um período chuvoso, (precipitação de 112,5 mm). Com o auxílio do Excel traçaram-se 45 os perfis iniciais do potencial matricial (h) e de temperatura (T). As figuras a seguir apresentam esse perfis. 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,E+00 h (pa) -2,E+05 -4,E+05 -6,E+05 -8,E+05 y = -6,824E+06x4 + 1,945E+07x3 - 1,662E+07x2 + 5,777E+06x - 8,014E+05 -1,E+06 R2 = 9,992E-01 Z (m) Figura 3.2 – Perfil inicial do potencial matricial y = 15917x5 - 23425x4 + 12772x3 - 3122,1x2 + 306,04x + 295,74 R2 = 0,9612 307 T (ºK) 305 303 301 299 297 295 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 Z (m) Figura 3.3 – Perfil inicial da temperatura 3.8 - Solução numérica Aqui será apresentada a solução numérica para resolver um sistema de duas equações diferencias parciais fortemente não lineares e acopladas, ou seja, a solução de uma depende da solução da outra. 46 Há vários métodos de se obter soluções de sistema de equações diferenciais parciais. Dentro daqueles que mais são utilizados em física do solo, pode-se citar o método das diferenças finitas o método de volumes finitos e o método dos elementos finitos. Como afirma Maliska (1995), alguns levam vantagem dependendo da solução que se esperam para a solução de determinados problemas. Neste estudo, optou-se pelo método dos volumes finitos, que pode ser de duas maneiras distintas: integração da equação diferencial no espaço e no tempo sobre o volume elementar e através do balanço das propriedades no volume finito. 3.8.1 – Discretização através de volumes finitos A Figura 3.4 apresenta um esquema dos volumes finitos, onde estão representados os pontos em estudo por letras maiúsculas (W,P,E) e a fronteira do volume elementar por letra minúsculas (w, e). O eixo z é orientado positivamente para baixo no sentido do perfil do solo. Parte-se do sistema de equação (3.23a) e (3.23b), é reproduzido de novo aqui: A1 h T h T B1 C1 D1 E1 t t z z t A2 h T h T B2 C2 D2 E2 t t z z t 47 W zw (i -1) w Volume elementar de integracao integracao P z (i) e E ze (i +1) z + Figura 3.4 – Malha do perfil do solo onde, para a equação de massa os coeficientes A1 e B1 representam a capacidade hidráulica, C1 e D1 os coeficientes de transporte de umidade e E 1 representa o termo fonte da equação de massa. Para a equação de calor os coeficientes A2 e B2 representam a capacidade calorífica, C2 e D2 os coeficientes de transporte de calor e E2 o termo fonte da equação de calor. Em alguns momentos será apresentada somente a equação com índice (1) para não tornar-se repetitivo já que a solução é similar, mudando somente o índice. Integrando a integração da equação diferencial no espaço entre as fronteiras dos volumes finitos elementares e no tempo, tem-se: t t e t t e T h T h A t B t dzdt z C z D z E t w t w dzdt (3.59) Resolvendo a integral no tempo do lado esquerdo e após permutação, integrando no espaço do lado direito, tem-se, para a equação de massa e de calor: 48 A p h p h op B p T p T po h h T T z C C D D E E t e e z z z z e w e w (3.60) Substituindo em h h h P C Ce E z e ze (3.61) h h h w C Cw P z w zw (3.62) h h h P D De E z e ze (3.63) h h h w D Dw P z w zw (3.64) Agrupando-se as equações: Ap h p hop h h P De E ze Bp T p T po h h P z Ce E z e D hP hW w z w C hP hW w z w E E t e w (3.65) Reorganizando a mesma, obtém-se: 49 A o o p hP B pTP z A p hP A pTP z C h Cw hW Ce hP Cw hP e E t ze z w z w ze D T Dw TW DeTP Dw TP e E t ze z w z w ze (3.66) Ee E w t onde representa um coeficiente de relaxação e está associado a função temporal dos coeficientes A, B, C, D e E e o representa o coeficiente de relaxação das variáveis T e h respectivamente. A partir destes tem-se as funções temporais para as variáveis e coeficientes. 3.8.2 - Coeficiente de relaxação das variáveis T e h para equação de massa e de calor TE,P ,W TE ,P ,W ( 1 )TEo,P ,W (3.67) o h E , P ,W h E , P ,W ( 1 )h E , P ,W (3.68) 3.8.3 - Função temporal dos coeficientes A A ( 1 ) Ao (3. 69a) B B ( 1 )Bo (3.69b) C C ( 1 )C o (3.69c) D D ( 1 )Do (3.69d) 50 E E ( 1 )E o (3.69e) Escrevendo os parâmetros e inserindo as funções temporais na equação de transferência, tem-se: A 1 A0 h B 1 B0 T Z 1P P 1P 1P P 1P A 1 A0 h0 B 1 B0 T 0 Z 1P P 1P 1P P 1P C 1 C 0 0 1e 1P h 1 h0 C1e 1 C1P h 1 h0 E P E P ze ze C 1 C 0 C 1 C 0 1w 1w h 1 h0 1w 1w h 1 h0 P W P w zw zw D 1 D0 D 1 D0 1e 1e T 1 T 0 1e 1e T 1 T 0 E P E P ze ze D 1 D0 D 1 D0 1w 1w T 1 T 0 1w 1w T 1 T 0 P W P W zw zw E 1 E 0 E 1 E 0 t 1e 1w 1w 1e (3.70) Fazendo o = 0 tem-se o caso explícito sobre os coeficientes e, para beta = 1, a solução será implícita e no caso de beta (), estar entre estes dois valores a solução é semiimplícita para os coeficientes. É o caso também dos coeficientes de relaxação nas funções temporais das variáveis T e h. Organizando a equação acima e subistituindo-a tem-se a forma simbólica da mesma: VA( hw ) VB( Tw ) VC( hP ) VD( TP ) VE( he ) VF ( Te ) VG em que, VA C o w ( 1 )Cw t zw (3.71) (3.72) 51 VB D o w ( 1 )Dw t zw C D VC A P (1 )A oP z VD BP (1 )BoP z VE VF (3.73) C D e (1 )Coe Cw (1 )Cow t t ze ze e (1 )Doe D w (1 )Dow t t ze ze e (1 )Coe t ze e (1 )Doe t ze (3.74) (3.75) (3.76) (3.77) A matiz em estudo é do tipo tri-diagonal em blocos, e a solução serão através do algoritmo de Douglas apresentado por Passerat de Silans (1986). Usando as equações na forma simbólica e transformando-as na forma matricial para uma malha com z variando de 0 até 40 cm e i variando de 1 até S, tem-se: zw zw A ( 1 )A z C (1ze )C t C B ( 1 )B z D (1ze )D t D C ( 1 )C t D ( 1 )D t VG C o o w ( 1 )Cw t Dw ( 1 )Dw t o P P P o P e o e ze e o e e o e ze ( 1 )D t o w ( 1 )Cw t w o w (3.78) ze o e e ze 3.8.4 - Apresentação das equações ma forma matricial 52 3.8.4.1 – Forma matricial VG (i) VA h (i 1) VB T (i 1) VC h (i ) VD T (i ) VE h (i 1) VFT (i 1) i = 1 VG (1) VA (0)h(0) VB(0)T(0) VC(1)h(1) VD(1)T(1) VE (2)h(2) VF(2)T(2) i = 2 VG (2) VA (1)h(1) VB(1)T(1) VC(2)h(2) VD(2)T(2) VE (3)h(3) VF(3)T(3) i = 3 VG (3) VA (2)h(2) VB(2)T(2) VC(3)h(3) VD(3)T(3) VE (4)h(4) VF(4)T(4) : i=S VG (S) VA (S 1)h (S 1) VB(S 1)T(S 1) VC (S)h (S) VD (S)T(S) VE (S 1)h (S 1) VF(S 1)T(S 1) (3.79) Por fim a representação esquemática da matriz para as equação de transferência de massa e de calor. A matriz dupla tri-diagonal apresentada na Figura (3.5) é solucionada através do algoritmo de Douglas na forma utilizada por Passerat de Silans (1986). 0 0 VF1(i) VD1(i ) VB1(i) 0 VA1(i ) VA2(i ) VC2(i) 0 0 0 0 VG1(S ) h(s ) VE2(i) VC2(i) VG1(2 ) VG1(3 ) 0 0 h(2) h(3) 0 0 VE2(i) VG1(1 ) 0 VE1(i) VC1(i) h(1) VA2(i ) 0 x T(1 )T(2 ) T(3 ) T( S) = VG2(1 ) VG2(2 ) VG2(3 ) VG2(s ) Figura 3.5 - Representação da matriz coluna para as equações de transferência de massa e transferência de calor 53 3.9 - Algoritmo de Douglas O método TDMA, tradicionalmente utilizado para solucionar matrizes do tipo tridiagonal, não pode ser utilizado na solução da matriz apresentada na Figura 3.5 por se tratar, nesse caso, de uma matriz dupla tri-diagonal. Utilizou-se neste trabalho o método de Douglas, na forma apresentada por Passerat de Silans (1986), que segue rigorosamente o algoritmo seguinte: a) Determinação das condições de contorno inferior. h(S) e T(S) são admitidos fixos neste trabalho, de acordo com considerações observadas no capítulo três desta tese. b) Determinação dos parâmetros alfa1, alfa2, alfa3, alfa4, DMAU, beta1, beta2, beta3, beta4, VGG1, e, VGG2, para o primeiro ponto da malha (i = 0). alfa1(0) = VC1(0) (3.80a) alfa2(0) = VD1(0) (3.80b) alfa3(0) = VC2(0) (3.80c) alfa4(0) = VD2(0) (3.80d) DAMU(0) = alfa1(0)alfa4(0) - alfa2(0)alfa3(0) (3.80e) beta1(0) = (VE1(0)alfa4(0) - VE2(0)alfa2(0))/DAMU(0) (3.80f) beta2(0) = (VF1(0)alfa4(0)-VF2(0)alfa2(0))/DAMU(0) (3.80g) beta3(0) = (VE2(0)alfa4(0) - VE1(0)alfa2(0))/DAMU(0) (3.80h) 54 beta4(0) = (VF2(0)alfa4(0 ) - VF1(0)alfa2(0))/DAMU(0) (3.80i) VGG1(0) = (VG1(0)alfa4(0) - VG2(0)alfa2(0))/DAMU(0) (3.80j) VGG2(0) = (VG2(0)alfa1(0) - VG1(0)alfa3(0))/DAMU(0) (3.80k) c) Determinação dos parâmetros alfa1, alfa2, alfa3, alfa4, DMAU, beta1, beta2, beta3, beta4, VGG1, e, VGG2, para os demais pontos da malha. alfa1(i) = VC1(i) - VA1(i)beta1(i-1) - VB1(i)beta3(i-1) (3.81a) alfa2(i) = VD1(i) - VA1(i)beta2(i-1) - VB1(i-1)beta4(i-1) (3.81b) alfa3(i) = VC2(i) - VA2(i)beta1(i-1) - VB2(i)beta3(i-1) (3.81c) alfa4(i) = VD2(i) - VA2(i)beta2(i-1) - VB2(i)beta4(i-1) (3.81d) DAMU(i) = alfa1(i)alfa4(i) - alfa2(i)alfa3(i) (3.81e) beta1(i) = (VE1(i)alfa4(i) - VE2(i)alfa2(i))/DAMU(i) (3.81f) beta2(i) = (VF1(i)alfa4(i) - VF2(i)alfa2(i))/DAMU(i) (3.81g) beta3(i) = (VE2(i)alfa1(i) - VE1(i)alfa3(i))/DAMU(i) (3.81h) beta4(i) = (VF2(i)alfa1(i) - VF1(i)alfa3(i))/DAMU(i) (3.81i) 55 VGG1(i) = (alfa4(i)(VG1(i) - VA1(i)VGG1(i-1) - VB1(i)VGG2(i-1)) alfa2(i)(VG2(i) - VA2(i)VGG1(i-1) - VB2(i)VGG2(i-1)))/DAMU(i) (3.81j) VGG2(i) = (alfa1(i)(VG2(i) - VA2(i)VGG1(i-1) - VB2(i)VGG2(i-1))alfa3(i)(VG1(i) - VA1(i)VGG1(i-1) - VB1(i)VGG2(i-1)))/DAMU(i) (3.81k) d) Cálculo da pressão matricial (h) e a temperatura do solo (T) para todos os pontos da malha no tempo fixo determinado, através das equações seguintes: h(i) = VGG1(i) - beta1(i)h(i+1) - beta2(i)T(i+1) (3.82a) T(i) = VGG2(i) - beta3(i)h(i+1) - beta4(i)T(i+1) (3.82b) No caso das equações (3.82a) e (3.82b), o programa de Douglas calcula o potencial matricial h(i) e a temperatura T(i) de baixo (i = S) para cima da malha (i = 1), em um determinado tempo fixo, obviamente a partir dos valores de contorno inferior. 56 CAPÍTULO IV 4 – ESTUDO EXPERIMENTAL – DETERMINAÇÃO DOS PARÂMETROS DE TRANSFERÊNCIA DE MASSA E CALOR NO SOLO O objetivo deste capítulo é o de apresentar e discutir os valores dos parâmetros das equações de transferência de massa e calor no solo. Estes parâmetros são obtidos a partir de equações teóricas ou semi-empíricas que dependem essencialmente de algumas propriedades físicas do solo, quais sejam: a granulometria, a condutividade hidráulica do solo, a curva de retenção do solo, a capacidade térmica do solo e a difusividade térmica do solo. Essas propriedades foram determinadas in situ ou em laboratório conforme o caso. 4.1 – Localização do Experimento Cariri O experimento foi instalado na bacia escola da Universidade Federal da Paraíba na Cidade de São João do Cariri - Paraíba, geograficamente situada na região dos Cariris Velhos (ver Figura 4.1). Os solos são predominantemente Luvissolos e a vegetação do tipo caatinga é predominantemente composta por: pastagem (capim mimoso); plantas arbóreas (Marmeleiro, Mucunfo, Pinhão Branco); plantas lenheiras (Angico, Catingueira) e cactáceas (Facheiro, Palmatória, Palma Doce e Cardeiro). Trata-se de uma região classificada como semi-árida (índice de aridez de 0,21 segundo Souza, 1999) com chuvas pouco abundantes e concentradas nos meses de fevereiro a abril. O solo tem aparência pedregosa e a vegetação é esparsa, alternando-se ora com superfície desnudada, ora com solo coberto por vegetação. O experimento foi projetado para realizar medições num período de 20 minutos, o balanço radiativo, o balanço de energia e o balanço hídrico. Os dados são coletados em um sistema de aquisição de dados CR23X da Campbell Scientific Inc., o qual é alimentado em contínuo por uma bateria de 12 volts e 55 Ah acoplada a um painel solar com potência de 20 w. O dataloger é também programado para controlar todo o experimento. Uma torre (ver Figura 4.2 e 57 4.3) com 8 metros de altura foi erguida no meio da vegetação para coletar informações acima da vegetação, dentro da camada limite. É medida acima da vegetação, a radiação solar global (RG), na faixa de radiação visível e próximo infravermelho; o saldo de radiação (Rn) através de um radiômetro líquido medindo as radiações com comprimento de onda variando entre 0,4 m e 60 m; a chuva; a velocidade e a direção do vento assim como os gradientes de temperatura e pressão de vapor (razão de Bowen). Na copa da vegetação um termohigrômetro registra a temperatura e a umidade do ar. Medições de temperatura e de fluxo de calor são efetuados no solo. O sensor de temperatura utilizado de marca Campbell Scientific, Inc. modelo 108, é composto de um transmissor, operando numa faixa de –3 a 90 ºC, com precisão de 0.1ºC, sendo instalado um à superfície e os outros às profundidades 2 cm, 5 cm e 15 cm, enquanto que o fluxo de calor no solo é medido através de dois fluxômetros localizados 5 cm abaixo da superfície do solo. Uma bateria de sensores foi aterrada debaixo de uma superfície coberta por vegetação e a outra debaixo de uma superfície desnudada. Figura 4.1 – Mapa do Estado da Paraíba com localização do experimento 58 Figura 4.2 – Vista panorâmica da estação bioclimatológica do Experimento Cariri Figura 4.3 – Detalhamento dos equipamentos dentro do solo 59 Figura 4.4 - Vista em foco dos equipamentos do Experimento Cariri 4.2 – Determinação das propriedades físicas do solo relevantes para o estudo A determinação das propriedades físicas do solo é de fundamental importância para a análise dos resultados experimentais. Neste estudo, determinou-se a granulometria, a condutividade hidráulica do solo, a curva de retenção do solo, a capacidade térmica do solo e a difusividade térmica do solo. Devido à complexidade do estudo, diversos métodos foram utilizados, analisados e comparados para se chegar ao resultado final aqui apresentado. O solo próximo à torre de medição foi saturado artificialmente para em seguida acompanhar o seu processo de secagem e calibrar a sonda TDR localizada horizontalmente à profundidade de 5cm. Para a realização de coletas no campo escolheu-se uma área de aproximadamente 5m2 próxima da torre num solo sem vegetação. O plano de amostragem consistiu em três repetições nas seguintes profundidades: 2,5; 5; 10; 20; 30 e 40 cm para cada dia de coletas (6 dias) perfazendo um total de 90 amostras. Vinte e quatro horas após ter saturado o solo, acompanhou-se o seu processo de secagem durante 6 dias. As amostras foram levadas ao 60 Laboratório de solos do Centro de Tecnologia da Universidade Federal da Paraíba em João Pessoa para determinação das seguintes propriedades: Granulometria, densidade global, densidade das partículas, curva de retenção da água do solo e umidade volumétrica. 4.2.1 – Granulometria e densidade global do solo 4.2.1.1 – Granulometria A determinação do tamanho dos agregados foi feita através do método de peneiramento total, parcial e sedimentação. O peneiramento é uma técnica muita conhecida, em que o solo é colocado num conjunto de peneiras de diferentes diâmetros posicionadas no sentido vertical, onde são agitadas mecanicamente ou manualmente por um período de tempo pré-determinado (usou-se, neste caso um tempo de 2 minutos). A sedimentação foi determinada pelo Método do Hidrômetro segundo recomendação de Bouyoucos (1951), utilizando como dispersante o hidróxido de sódio 1N. Para cada uma das 90 amostras utilizadas no estudo, foi realizada uma análise granulométrica completa, isto é peneiramento e sedimentação. Os resultados revelaram um solo do tipo franco-arenoso para todas as profundidades exploradas. Um percentual um pouco maior de argila foi encontrado na camada de solo com maior densidade aparente seca, dg (em média 11,4% na camada superior e um percentual de 5% na camada inferior). Na Figura 4.5 está representado o comportamento da granulometria total do solo realizada tanto por peneiramento como por sedimentação. 61 100 PERCENTAGEM QUE PASSA (%) 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0,001 0,010 0,100 1,000 10,000 0 100,000 DIÂMETRO em mm (ESC. Log.) Figura 4.5 - Curva granulométrica do solo. 4.2.1.2 – Densidade global (dg) A densidade global é uma propriedade física do solo de grande importância para a verificação da condição estrutural, compactação e manejo do solo (Cirino, 1993). Este parâmetro não é constante, varia com a textura e estrutura do solo. Quanto maior a porosidade do solo menor a densidade global. A densidade aumenta com a profundidade devido ao maior adensamento das camadas do solo, à diminuição da matéria orgânica nas camadas inferiores, à menor agregação e penetração das raízes (Prevedello, 1996). A densidade global foi determinada pelo Método do cilindro de acordo com o Manual de Métodos de Análise de Solo da EMBRAPA (1979). O solo Luvissolo da região apresenta pedras de diversos tamanhos. A densidade global foi determinada com as pedras, e em seguida retirada as pedras, pesando-as e determinado o seu volume, o que permitiu determinar também a densidade global do solo sem pedras. O solo encontrado na área é pedregoso. Em cada amostra, isso é 15 amostras para cada uma das profundidades exploradas (2,5 cm; 5 cm; 10 cm; 20 cm; 30 cm e 40 cm) a densidade global, dg foi medida pelo método do cilindro. A Figura 4.6 apresenta o comportamento da 62 densidade do solo estudado. Observa-se a existência de duas camadas distintas, uma de 0 a 17,5 cm e outra 17,5 a 40 cm. 17,5 cm Dg (g/cm³) 2,00 1,50 1,00 0 10 20 30 40 50 z (cm) Figura 4.6 – Perfil da densidade global do solo estudado 4.2.1.3 – Curva retenção do solo A curva de retenção da água do solo foi determinada através do Método do Extrator de Umidade de Reichardt utilizando três amostras indeformadas para cada profundidade que foi analisada em laboratório usando tensões de 0,1; 0,33; 1; 5; 15 atm segundo o Manual de Métodos de Análise de Solo da EMBRAPA (1979). A variabilidade na curva de h() observada nas diversas profundidades não foi maior que a variabilidade observada nas três amostras consideradas em cada profundidade. As medições efetuadas a 15 atm foram descartadas por apresentarem resultados muito variáveis e incoerentes. Assim considerou-se a existência de apenas uma curva de retenção para cada camada de solo, diferenciando-se na realidade apenas pelo valor da densidade aparente seca utilizada para converter a umidade específica em umidade volumétrica. Os resultados obtidos são apresentados na Tabela 4.1. 63 Tabela 4.1 – Valores das curvas características de umidade ( camada 1 e 2 ) tensão (Bars.) camada 1 camada 2 0,001 41,49 48,98 0,1 38,49 32,57 0,33 20,68 17,50 0,5 17,37 14,7 1 15,12 12,79 5 11,40 9,65 10 10,78 9,12 A umidade volumétrica à saturação natural s, foi estimada como 0,9 x PT, onde PT é a porosidade. A porosidade é calculada pela seguinte equação: PT 1 dg dp (4.1) sendo, dg a densidade global e dp densidade da partícula. A densidade da partícula foi determinada pelo método do picnometro, o qual se encontrou um valor médio de 2,65. Assim obteve-se para primeira camada uma umidade volumétrica a saturação natural s = 0,415 e para a segunda camada s = 0,490. As curvas de retenção foram ajustadas ao modelo de Van Genuchten: s r r m 1 h n (4.2) em que, é o conteúdo de água volumétrico (cm³/cm³), s o conteúdo de água no solo em condições de saturação (cm³/cm³), r é o conteúdo de água no solo em condições residual (cm³/cm³), h é o potencial matricial (mca) e m, n e são parâmetros que dependem do solo. 64 A umidade volumétrica residual (r) foi estimada em cada caso pelo método de Jong van Lier e Dourado Neto (1993). Um programa baseado sobre o algoritmo de NewtonRaphson efetua o ajuste dos parâmetros m e n. Mualem (1976) estabeleceu uma relação entre estes dois últimos parâmetros: m 1 1 n (4.3) Para a primeira camada, obtiveram-se os resultados que constam da Tabela 4.1, com um coeficiente de ajuste de 0,994. Para a segunda camada (Tabela 4.2), o coeficiente de ajuste foi de 0,999. A Figura 4.7 mostra a curva de retenção de umidade com relação ao potencial matricial para as duas camadas. Tabela 4.2 - Ajustamento da curva de retenção ao modelo de Van Genuchten para a primeira camada: = 0,0063; m = 0,5041; n = 2,0167; r = 0,083 Potencial Matricial (KPa) Umidade volumétrica (cm3/cm3) Observada Calculada 0 0,415 0,415 10 0,385 0,364 33 0,207 0,225 50 0,174 0,182 100 0,151 0,133 500 0,114 0,093 1000 0,108 0,088 65 Tabela 4.3 – Ajustamento da curva de retenção ao modelo de Van Genuchten para a segunda camada: = 0,1411; m = 0,4872; n = 1,9502; r = 0,079 Potencial Matricial (Kpa) Umidade volumétrica (cm3/cm3) Observada Calculada 0 0,490 0,490 10 0,326 0,321 33 0,175 0,172 50 0,147 0,143 100 0,128 0,112 500 0,097 0,086 1000 0,091 0,083 50 40 (%) 1º camada 30 2º camada 20 10 0 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Tensões (atm) (0-17,5 cm) (17,5-40 cm) Figura 4.7 – Curvas de retenção experimentais 4.2.1.4 - Condutividade hidráulica A condutividade hidráulica, conforme descrito por Carvallo Guerra (2000), é a propriedade do solo que descreve sua capacidade em transmitir água, sendo afetada por vários 66 fatores como a textura do solo, porosidade e distribuição do tamanho dos poros, viscosidade da água, grau de saturação e sais dissolvidos na água. De acordo com o U.S. Bureau of Plant Industry and Agricultural Engineering a condutividade hidráulica em meio saturado Ksat, varia com a textura do solo, conforme a Tabela 4.4 (Carvallo Guerra, 2000). Tabela 4.4 – Condutividade hidráulica saturada para diferentes texturas de solos Classificação textural do solo Condutividade Hidráulica Saturada (cm/h) Areia > 0,2 Silte 0,1 – 0,2 Franco 0,05 - 0,1 Argiloso 0,01 – 0,05 Argila < 0,01 Em solos saturados arenosos de estrutura estável, a condutividade hidráulica é geralmente constante sendo mais ou menos da ordem de 10 -2 a 10-3 cm/seg. Em solos argilosos saturados varia entre 10-4 a 10-7 cm/seg. Embora se assuma que a condutividade hidráulica de solos saturados seja constante, em muitos solos devido aos diferentes fenômenos biológicos e físico-químicos que ocorrem, a condutividade hidráulica pode mudar a medida que a água flui no solo (Carvallo Guerra, 2000). Considerando o solo como um sistema poroso descontínuo, Mualem (1976) determinou uma equação para cálculo da condutividade hidráulica de solos não saturados a partir da equação da curva de retenção. A equação de Mualem, conforme apresentada por Carvallo Guerra (2000), é da forma seguinte: d 1 o h K r( ) S 2 d h o (4.4) 67 onde, Kr() é a condutividade relativa do solo não saturado, S é a umidade adimensional: S r , a umidade volumétrica do solo e h é o potencial matricial da água no solo. S r Objetivando facilitar a utilização da equação de Mualem, diversos procedimentos numéricos foram propostos. Uma solução numérica da equação de Mualem é apresentada por Metri (1999), qual seja: 1 h 2n K () fK sat 1 m 1 h n n 1 h 2 2 Em que, KSat é a condutividade hidráulica do solo saturado, (4.5) m, n e já definidos anteriormente. A condutividade hidráulica do solo saturado foi determinada através do método do permeâmetro de carga variável conforme equação descrita por Carvallo Guerra (2000): a.L.60 hi KSat .Ln A.T h f (4.6) sendo, a, a área da coluna de vidro que fornece a carga variável de água; (1,1921 cm2); L o comprimento do corpo de prova, em cm (5 cm); A é a área do corpo de prova, em cm2 (20,417 cm2 ); T é o int er valo de t empo em min (5 min no caso dest e exper iment o) ; hi é a altura da água na coluna de vidro no tempo T 1, em cm e hf é a altura da água na coluna de vidro no tempo T2, em cm. O estudo de condutividade hidráulica do solo saturado foi realizado no Laboratório de Salinidade da Universidade Federal de Campina Grande. Utilizaram-se três pontos de amostragem, com sete profundidades diferentes. Para cada profundidade e em cada ponto de amostragem foram feitas três repetições, tendo no final um total de 63 amostras previamente saturadas. 68 A Tabela 4.5 apresenta os valores de condutividade hidráulica do solo sob condições de saturação. Esses valores correspondem à média de três repetições para cada uma das profundidades. Tabela 4.5 – Resultados da condutividade hidráulica. Profundidade Condutividade Hidráulica ( cm/h) Ponto 1 Ponto 2 Ponto 3 2,5 1,74 3,18 2,36 5 2,55 5,77 3,99 10 5,69 7,17 3,68 20 11,23 8,21 7,58 30 25,58 12,45 9,73 40 29,02 18,23 11,32 Os valores de KSat diferem bastante com a profundidade. Na Figura 4.8 está representada a curva K() para a profundidade de 5 cm e para dois valores de temperatura. -350 -300 -250 -200 -150 -100 -50 0 1,E-03 1,E-04 1,E-05 1,E-06 1,E-07 1,E-08 1,E-09 1,E-10 1,E-11 1,E-12 1,E-13 K (T 301ºk) K (T 323ºk) Figura 4.8 – Condutividade hidráulica a 5cm de profundidade 69 Observa-se que as curvas têm o mesmo comportamento, portanto, quase não há variação da condutividade hidráulica com relação à temperatura. 4.2.1.5 - Difusividade térmica do solo A difusividade térmica do solo reflete a capacidade em transferir calor da superfície para o interior do solo. Logo uma baixa difusividade térmica pode se associar a uma alta temperatura na superfície do solo e uma pequena profundidade de penetração do calor. Por isso valores muito baixos de difusividade constituem um condicionante importante do clima local. A difusividade térmica do solo varia com o tempo e no espaço. A mesma depende entre outras coisas, da constituição do solo. Estudos já realizados por Passerat de Silans et al. (2006a) no Experimento Cariri mostraram que há gradientes verticais de temperatura muito fortes à superfície e uma pequena penetração da onda de temperatura. A defasagem entre as ondas de temperatura observadas à superfície e a 5 cm de profundidade é muito grande, o que caracteriza um solo como baixa difusividade térmica. Este resultado é de fundamental importância para a compreensão do clima na região. A Figura 4.6 apresenta o resultado do estudo da difusividade térmica do solo do Experimento Cariri realizado por Passerat de Silans et al. (2006b). O estudo foi conduzido, através de três métodos para a camada de 0 a 5cm, método CLTM (Passerat de Silans, 1988), método Harmônico (de Vries, 1963) e método NHS (Nasser et al., 1989). Os três métodos apresentaram baixa difusividade térmica, sendo que o método harmônico apresentou valores um pouco superiores, frente aos outros dois métodos. A análise destes métodos por esse autores mostrou que o método CLTM é mais confiável para determinação da difusividade técnica na camada superficial do solo (0-5cm). 70 Difusividade Térmica m²/s 7,00E-08 6,00E-08 5,00E-08 4,00E-08 3,00E-08 2,00E-08 1,00E-08 0,00E+00 5,000 10,000 15,000 20,000 25,000 Umidade Volumétrica (%) CLT M Harmônico NHS Figura 4.9 – Difusividade térmica do solo – Projeto Cariri 4.2.1.6 – Coeficientes de difusão de água (difusão de massa) Com os valores dos parâmetros obtidos experimentalmente e apresentados acima, foram estimados o coeficiente de difusão de água devido a um gradiente de temperatura DT (m2/s/K), e o coeficiente de difusão devido a um gradiente de umidade Dh (m/s) com relação ao . Os resultados são apresentados nas Figuras 4.10 e 4.11. Observa-se que, quando o solo está úmido o coeficiente de difusão é pequeno, está próximo da curva que representa a fração líquida (DLT) para o caso do coeficiente de difusão devido ao gradiente de temperatura e (K) para o coeficiente devido ao gradiente de umidade, ou seja, a fração líquida é dominante. A medida que seca, a fração de vapor se torna dominante nos dois casos (DvT e Dvh). Observam-se, também nas duas figuras os pontos característicos correspondentes à capacidade de campo (Cc) e ao ponto de murcha (Pm). Na Figura 4.10, observa-se que, próximo à saturação, o coeficiente de difusão cresce enquanto a umidade volumétrica diminui. Isto se deve ao valor h a partir da umidade volumétrica de 11%, portanto ligeiramente abaixo do ponto de murcha (11,6%), a transferência de água em fase vapor passa a dominar e o 71 coeficiente de difusão volta a crescer enquanto a umidade volumétrica diminui até o teor residual. Figura 4.10 – Coeficiente de difusão de água devido ao gradiente de temperatura DT Figura 4.11 - Coeficiente de difusão de água devido a um gradiente de umidade Dh 72 Na Figura 4.11 o comportamento é bastante similar. O termo devido à fase vapor passa a ser dominante já relativamente próximo ao ponto correspondendo ao teor volumétrico residual (r). 4.2.6 – Coeficientes de capacidade hidráulica 4.2.6.1 - Coeficiente de capacidade hidráulica associado ao gradiente de umidade e de temperatura O coeficiente de capacidade hidráulica associado ao gradiente de umidade A1 (m-1), é obtido pela seguinte equação: v v v A1 1 l h T l h T (4.7) sendo, v e l já definido anteriormente, v é o teor volumétrico de água sob a forma de vapor, é obtido a partir da derivação da equação da curva de retenção de umidade do solo, como h segue: s r m n nh n 1 m 1 h 1 h n (4.8) em que, é o teor de umidade volumétrica do solo, s e r é a umidade volumétrica de saturação e residual respectivamente, h já foi definido anteriormente; m, n e são parâmetros de ajuste da equação de van Genuchten. O segundo termo da equação 4.7 é obtido pela relação de Kelvin. Essa relação admite que o vapor de água existente no solo tem um comportamento termodinâmico semelhante ao gás perfeito. A equação que descreve esse parâmetro é: 73 2 v M ghr esT h RT (4.9) sendo, M a massa molar da água, R é a constante dos gases perfeito, T já definido anteriormente, g é a aceleração da gravidade e esT é a pressão de vapor de saturação obtida a temperatura T, dada pela relação empírica a seguir e hr é a umidade relativa. 27405,5 97,5T 0,146T 2 0,000126T 3 0,000000048T 4 esT 22106exp 4,34903T 0,0039381T 2 (4.10) Por fim, o cálculo da umidade relativa (hr) é dada por: Mgh hr exp RT (4.11) Todos os parâmetros desta equação já foram definidos anteriormente. A Figura 4.12 apresenta o comportamento deste coeficiente para quatro valores diferentes da temperatura, onde pode se observar que quanto mais úmido se encontra o solo maior a sua capacidade hidráulica. Observa-se ainda um aumento da capacidade hidráulica com relação do potencial matricial em módulo, associado ao acréscimo da umidade do solo até atingir um valor próximo à saturação do solo, e um decréscimo a partir de então. 74 h (mca) -1,E+04 -1,E+04 -8,E+03 -6,E+03 -4,E+03 -2,E+03 0,E+00 1,E-03 T( 303,15) T(323,15) 1,E-05 A1(1/m) 1,E-04 T(313,15) T(333,15) 1,E-06 1,E-07 Figura 4.12 – Coeficiente de capacidade hidráulica devido ao gradiente de umidade Com relação à variação de temperatura o coeficiente mostrou-se independente da variação da temperatura, as curvas seguem um comportamento horizontal. 1,E-02 A1 (1/m) 1,E-03 1,E-04 1,E-05 1,E-06 1,E-07 300 305 310 315 320 325 330 335 T (K) h=-0,1 mca h=-1 mca h=-10 mca h=-1000 mca h=-10000 mca h=-100 mca Figura 4.13 – Coeficiente de capacidade hidráulica devido ao gradiente de temperatura O segundo termo do lado esquerdo da equação de transferência de massa (equação 3.24), B1, dado em K-1, é interpretado como sendo uma capacidade hidráulica associada ao gradiente de temperatura. A equação que representa este termo é: 75 v B1 1 l T h v v l T h (4.12) onde, v e l são, as massas específicas da água sob a forma de vapor e líquida; v é o teor volumétrico de água sob a forma de vapor; finalmente, a variação da umidade com a temperatura, representada pela derivada /T é obtida através da relação da equação 4.13 e, a variação da massa especifica com relação a temperatura obtida pela relação da equação 4.14. ch h T h h (4.13) est hr hrest M v M T Mgh g chh 2 T RT RT RT (4.14) onde, MV é a massa molar da água; g é a aceleração da gravidade; R é a constante dos gases perfeitos; T a temperatura; est(T) é pressão de vapor de saturação calculado na temperatura T calculado pela equação 4.10; hr é a umidade relativa, calculada através da equação (4.11); e h é a pressão matricial do solo. Este coeficiente B1, igualmente ao anterior foi calculado para quatro valores de temperatura e seis valores de potencial matricial cujos resultados serão apresentados na Figura 4.14 e 4.15 respectivamente. Observa-se o comportamento das curvas que há certa independência deste coeficiente com relação à variação de temperatura. Para o potencial matricial próximo da saturação há uma queda brusca, mostrando a falta de capacidade de armazenamento quando o solo está saturado. 76 T (303,15) T (313,15) T (323,15) T (333,15) -12000 -10000 -8000 -6000 -4000 -2000 B1 (1/k) 8,E-04 7,E-04 6,E-04 5,E-04 4,E-04 3,E-04 2,E-04 1,E-04 0,E+00 0 -1,E-04 h (mca) Figura 4.14 – Coeficiente de capacidade hidráulica devido ao gradiente de umidade 1,E+00 B1 (1/K) 1,E-02 1,E-04 1,E-06 1,E-08 1,E-10 300 305 310 315 320 325 330 335 T (K) h (-0,1 mca) h(-1 mca) h(-10 mca) h(-100 mca) h(-1000 mca) h(-10000 mca) Figura 4.15 – Coeficiente de capacidade hidráulica devido ao gradiente de temperatura 4.2.6.2 – Coeficientes de transporte de umidade associado ao gradiente de umidade e de temperatura Este coeficiente C1 (m/s) é obtido pelo primeiro termo do lado direito da equação associada ao gradiente de potencial matricial, dado pela equação: 77 C1 K 1 Dvh l (4.15) sendo, K a condutividade hidráulica, l a massa específica da água sob a forma líquida, Dvh um coeficiente de difusão de vapor associado ao gradiente de potencial matricial. A Figura 4.16 apresenta os cálculos do coeficiente para quatro valores fixos de temperatura do solo. O comportamento das curvas sobre postas mostra certa independência deste coeficiente com relação a variação da temperatura do solo. h (mca) -1,E+04 -8,E+03 T(303,15) T(313,15) T(323,15) -6,E+03 -4,E+03 -2,E+03 0,E+00 1,E-05 1,E-07 1,E-09 C1 (m/s) -1,E+04 T(333,15) 1,E-11 1,E-13 Figura 4.16 – Coeficiente de transporte de umidade devido ao gradiente de umidade A Figura 4.17 apresenta os resultados deste mesmo coeficiente para seis valores de potencial matricial. A sobreposição e a horizontalidade das retas de mostra uma independência deste coeficiente com relação a variação da temperatura. Esse comportamento pode ser compreendido devido este coeficiente ser fortemente dependente da condutividade hidráulica do solo e, a medida que o solo seca, o coeficiente de difusão de vapor torna-se mais importante. 78 300 305 310 315 320 325 330 335 C1 (m/s) 1,E-05 1,E-07 1,E-09 1,E-11 1,E-13 T (K) h(-0,1 mca) h(-1 mca) h(-10 mca) h(-100 mca) h(-1000 mca) h(-10000 mca) Figura 4.17 – Coeficiente de transporte de umidade devido ao gradiente de temperatura O coeficiente D1 (m² s-1K-1) obtido pelo segundo termo do lado direito da equação, interpretado como coeficiente de transporte de umidade associado ao gradiente de temperatura é obtido pela equação: D1 DLT 1 DvT l (4.16) onde, DLT é a difusividade líquida associada ao gradiente de temperatura l a massa específica da água sob a forma líquida, DvT um coeficiente de difusão de vapor associado ao gradiente de temperatura. A Figura 4.18 apresenta os resultados deste coeficiente para quatro valores fixos de temperatura e a Figura 4.19 o resultado do coeficiente para seis valores de potencial matricial fixos. 79 T(313,15) T(323,15) T(333,15) -12000 -10000 -8000 -6000 -4000 -2000 D1 (m²/sk) 7,E-06 6,E-06 5,E-06 4,E-06 3,E-06 2,E-06 1,E-06 0,E+00 -1,E-06 T(303,15) 0 h (mca) Figura 4.18 - Coeficiente de transporte de umidade devido ao gradiente de umidade D1 (m2/s.K) 1,E-05 1,E-07 1,E-09 1,E-11 300 310 320 330 340 T (K) h(-0,1 mca) h(-1 mca) h(-10 mca) h(-100 mca) h(-1000 mca) h(-10000 mca) Figura 4.19 - Coeficiente de transporte de umidade devido ao gradiente de temperatura Assim como no coeficiente C1 observa-se certa independência deste coeficiente D1 coeficiente com relação a variação da temperatura do solo. Quando o solo se reumidifica há uma mudança de comportamento deste coeficiente com relação ao potencial matricial passando a ter uma forte dependência da difusividade líquida. 80 4.2.7 – Coeficientes de capacidade calorífica 4.2.7.1 - Coeficiente de capacidade calorífica associado ao gradiente de umidade e de temperatura O coeficiente de capacidade calorífica associado ao gradiente de umidade, A2 (m-1), é obtido pela seguinte equação: A2 LV V h T ( lW V L) h T (4.17) onde, L é o calor latente de vaporização da água a uma determinada temperatura T; v é o teor volumétrico de água sob a forma de vapor; W é a diferencial do calor de molhamento; v e l são, respectivamente, as massas específicas da água sob a forma de vapor e líquida, h é a pressão matricial do solo e T a temperatura. Na Figura. 4.20 observa-se a falta de sensibilidade deste coeficiente com relação à temperatura, assim como uma redução deste coeficiente quando a umidade do solo se aproxima da umidade de saturação. A Figura 4.21 apresenta este mesmo coeficiente para seis valores fixos de potencial matricial. 81 h (mca) -11900 -9900 -7900 -5900 -3900 -1900 100 1,0E+03 T (303,15) -1,0E+03 T (313,15) -2,0E+03 A2 (J/m4) 0,0E+00 T (323,15) -3,0E+03 T (333,15) -4,0E+03 Figura 4.20 – Capacidade calorífica A2, em função da pressão matricial 0,E+00 A2 (J/m4 ) -1,E+03 -2,E+03 -3,E+03 -4,E+03 300 305 310 315 320 325 330 335 T (K) h(-0,1 mca) h(-1 mca) h(-10 mca) h(-100 mca) h(-1000 mca) h(-10000 mca) Figura 4.21 – Capacidade calorífica A2, em função da temperatura Observa-se na Figura 4.21 que os resultados não são sensíveis a variação de temperatura para esse valores de potencial matricial. O segundo termo do lado esquerdo da equação de transferência de calor, B 2, dado em Jm-3K-1, é a capacidade calorífica aparente associada ao gradiente de temperatura. A equação abaixo apresenta este termo: 82 B2 C * LV V T h lW V L T (4.18) h onde, C* é a capacidade calorífica do meio poroso, expressa pelo seguinte somatório: C* = scss+lcll+vcvv; L é o calor latente de vaporização da água a uma determinada temperatura T; v é o teor volumétrico de água sob a forma de vapor; W é a diferencial do calor de molhamento. A capacidade calorífica B2 é ainda calculada para quatro valores fixos de temperatura do solo: 303,15, 313,15, 323,15 e 333,15 K conforme Figura 4.22 e para seis valores fixos de potencial matricial apresentado na Figura 4.23. Observa-se que nas Figuras 4.22 e 4.23, uma sobreposição da curvas, este coeficiente não apresenta sensibilidade com a variação da temperatura. Apresentando sensibilidade somente com a variação do potencial matricial do solo, aumentando bruscamente quando o solo se encontra próximo da saturação. h(mca) -12000 -10000 -8000 -6000 -4000 -2000 0 T(303,15) T(313,15) T(323,15) T(333,15) 3,E+06 2,E+06 B2 (J/m³k) 3,E+06 2,E+06 1,E+06 Figura 4.22 - Capacidade calorífica em função do potencial matricial 83 B2 (J/m3.K) 3,E+06 3,E+06 2,E+06 2,E+06 1,E+06 300 305 310 315 320 T (K) 325 330 335 h(-0,1 mca) h(-1 mca) h(-10 mca) h(-100 mca) h(-1000 mca) h(-10000 mca) Figura 4.23 - Capacidade calorífica em função da temperatura 4.2.7.2 - Coeficiente de transporte de calor O primeiro termo do lado direito da equação de transporte de calor C2 (Jm ²s) está associado ao gradiente de potencial matricial do solo dado pela equação: C2 LDvT (4.19) onde, L é o calor latente de vaporização (L=2430000) e Dvh é a difusividade de vapor associado ao gradiente de umidade. A Figura 4.24 apresenta este coeficiente para quatro valores fixo de temperatura já Figura 4.25 apresenta esse mesmo coeficiente para seis valores fixos de potencial matricial. 84 h (mca) -10000 -8000 -6000 -4000 -2000 0 1,E-03 1,E-04 T(303,15) C2 (J/m²s) -12000 1,E-05 T(313,15) T(323,15) 1,E-06 T(333,15) Figura 4.24 – Coeficiente de transporte de calor em função do potencial matricial C2 (J/m2.s) 2,E-04 2,E-04 1,E-04 5,E-05 0,E+00 300 305 310 315 320 325 330 335 T (K) h(-0,1 mca) h(-1 mca) h(-10 mca) h(-100 mca) h(-1000 mca) h(-10000 mca) Figura 4.25 – Coeficiente de transporte de calor em função da temperatura Analisando os resultados das Figuras acima, conclui-se que o coeficiente de transporte de calor tem seu valor reduzido à medida que o solo se umidifica. Observa-se também o aumento deste coeficiente quando ocorre um aumento da temperatura do solo, visto que ocorre maior difusão de vapor à medida que a temperatura sobe para um determinado valor fixo de umidade do solo. 85 E finalmente o segundo termo da equação do lado direito da equação de transferência de calor representado por D2 (W/mk) é interpretado como sendo um coeficiente de transporte de calor associado ao gradiente de temperatura. Este coeficiente é obtido pela equação: D2 LDvT (4.20) sendo que, representa a difusividade térmica, L é o calor latente de vaporização DvT é a difusividade de vapor associado ao gradiente de temperatura. As Figuras 4.26 e 4.27 representam esse coeficiente associado ao gradiente de potencial matricial e ao gradiente de temperatura. 2,E-01 (T = 303,15 K) 2,E-01 (T = 323,15 K) (T = 333,15 K) 1,E-01 D2(w/mk) (T = 313,15 K) 6,E-02 1,E-02 -12000 -10000 -8000 -6000 -4000 -2000 0 h (mca) Figura 4.26 – Coeficiente de transporte de calor em função do potencial matricial Na Figura 4.26 observa-se uma aumento do coeficiente a medida que ocorre queda do potencial matricial do solo em módulo, diminuindo com a umidade do solo, principalmente quando este se próxima da saturação. A Figura 4.27 representa este coeficiente associado a variação da temperatura. 86 3,E-01 D2 (W/m.K) 2,E-01 2,E-01 1,E-01 5,E-02 0,E+00 300 305 310 315 320 T (K) 325 330 335 h(-0,1 mca) h(-1 mca) h(-10 mca) h(-100 mca) h(-1000 mca) h(-10000 mca) Figura 4.27 – Coeficiente de transporte de calor em função da temperatura Assim com na Figura 4.26 verifica-se também que há um aumento do coeficiente à medida que ocorre queda do potencial matricial do solo. 87 CAPÍTULO V 5 – RESULTADOS DO MODELO O modelo simulou a secagem do solo, na sua porção não coberta pela vegetação, no período de 12 a 19 de janeiro de 2002. Nos dias 10 e 11, daquele mês, choveu 14,8mm, num solo já úmido, pois na primeira semana de janeiro havia sido registrado 112mm de precipitação. Posteriormente a esse dia, não ocorreram chuvas com exceção do dia 17, quando caiu 2mm em torno do meio dia. Os perfis iniciais de umidade e de temperatura inicial, obtidos a partir dos valores experimentais da estação climatológica de São João do Cariri, são representados nas Figuras 5.1 e 5.2. Essas curvas, assim como suas equações polinomiais de ajustes, também apresentadas nas Figuras 5.1 e 5.2 foram obtidas com auxílio do programa Excel. 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,E+00 h (pa) -2,E+05 -4,E+05 -6,E+05 -8,E+05 h = -6,824E+06x4 + 1,945E+07x3 - 1,662E+07x2 + 5,777E+06x - 8,014E+05 -1,E+06 R2 = 9,992E-01 Z (m) Figura 5.1 – Perfil inicial do potencial matricial 88 T (ºK) 307 T = 15917x5 - 23425x4 + 12772x3 - 3122,1x2 + 306,04x + 295,74 305 R2 = 0,9612 303 301 299 297 295 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 Z (m) Figura 5.2 – Perfil inicial da temperatura Os dados de entrada do modelo são, além dos na atmosfera, a temperatura do ar e a pressão de vapor do ar medida acima do solo desnudo à altura da copa da vegetação e na superfície do solo, o fluxo de calor corrigido (Passerat de Silans et al. 2006). Na profundidade de 40 cm no solo, a temperatura foi considerada constante e igual a 303,9 K. Uma malha vertical regular foi utilizada nesta simulação, com um z = 0,2cm e um t = 1 s. 5.1 – Valores de temperatura observados e simulados. Nas Figuras 5.3 a 5.5 são comparados os valores observados de temperatura com os valores simulados pelo modelo. Em todas as profundidades, isto é à superfície, a 2cm e a 5cm os valores observados foram razoavelmente bem representados pelo modelo. As defasagens entre máximo e mínimo das ondas de temperatura são bem representadas. À profundidade de 5 cm, a amplitude da onda de temperatura simulada é maior do que a amplitude da onda observada. Isto pode ser devido à condição de contorno inferior. A temperatura a 40cm foi considerada constante e igual à temperatura média no período a 15cm. No estudo experimental, observou-se que, devido à baixa difusividade térmica, a onda de temperatura a 15cm já era quase horizontal. 89 Siml. 0 mm Exp 0 mm 330 (T ºK) 320 310 300 290 280 12 14 13 12 12 12 16 15 12 17 12 18 12 hora 20 19 dia (hora-dia) Figura 5.3 – Temperatura a 0mm de profundidade Siml. 2 cm Exp 2 cm 330 (T ºK) 320 310 300 290 280 12 13 12 12 14 15 12 12 16 17 12 12 18 19 hora 20 dia (hora-dia) Figura 5.4 – Temperatura 2cm de profundidade 90 Siml. 5 cm Exp 5 cm 330 (T ºK) 320 310 300 290 280 12 13 12 14 12 12 15 16 17 12 hora 12 12 18 19 20 dia (hora-dia) Figura 5.5 – Temperatura 5cm de profundidade 5.2 – Valores de umidade observados e simulados a 5 cm de profundidade. A sonda TDR fornece o valor do período dos pulsos transmitidos através do meio poroso, o qual depende, entre outros fatores que não variam, da umidade volumétrica do solo. Apesar de o construtor ter fornecido uma equação de calibração para a sonda, um estudo experimental foi realizado para calibrar a sonda e transformar o período medido em milissegundos em umidade volumétrica relativa, em cm3/cm3. A curva de calibração assim como os procedimentos para obtê-la é descritos em Silva (2003). O modelo simula para cada profundidade da malha os valores do potencial matricial. Na Figura 5.6 são comparados os potenciais matriciais simulados a 5cm, com os potenciais matriciais obtidos das observações experimentais da umidade aplicando-se a curva de retenção determinada em laboratório e apresentada no capítulo 4. A comparação não é boa. Se de um lado, o modelo simula aparentemente um processo de secagem, mesmo lento, considerando que o solo é descoberto e que a simulação foi realizada no mês de janeiro, mês de alta radiação 91 solar, do outro lado, não representa as observações experimentais, as quais indicam que o solo praticamente não perde sua umidade e apresenta uma dinâmica de reumidificação durante o dia. Vale salientar que este fato, curioso, foi também observado, quando foram feitas determinações de umidade para a calibração da sonda a partir de levantamentos gravimétricos de amostras do solo (Passerat de Silans et al. 2001). 100 h (Simul. 5 cm) - h (mca) h (exp. 5 cm) 10 1 0 12 24 36 48 60 72 84 96 T empo (h) Figura 5.6 – Comparação entre os potenciais matriciais observados e simulados a 5cm de profundidade Na Figura 5.7, são comparados os valores de umidade observados com a sonda TDR e deduzidos dos valores simulados da potencial matricial por meio da curva de retenção. Os resultados apresentados confirmam o que foi dito logo antes. Nesta figura, observa-se que o primeiro valor simulado indica um solo muito úmido, enquanto o valor experimental indica um solo com umidade abaixo da capacidade de campo. Observando através do debugger o acontecido, percebe-se que devido ao perfil inicial indicar uma umidade próxima à saturação abaixo dos 20cm de profundidade, há uma rápida ascensão capilar da umidade, o que parece normal. Nas profundidades de 20, 30 e 40cm, a umidade não foi medida, mas sim, o potencial matricial através de resistores em cápsulas porosas. A resposta deste aparelho é bastante sensível à temperatura, e foi corrigida em conseqüência, mas também não funciona para potenciais matriciais superiores a 2 bars em valor absoluto. Na Figura 5.8 está representado 92 este resultado de uma forma mais detalhada onde pode-se observar a reumidificação do solo durante o dia em horários em que a temperatura está mais elevada. 0,30 teta (Simul. 5 cm) 0,25 teta (exp. 5 cm) mca 0,20 0,15 0,10 0,05 0,00 12 13 14 15 16 17 18 19 Tempo (dia) Figura 5.7 – Comparação entre os valores experimentais e simulados da umidade volumétrica () a 5cm Figura 5.8 – Detalhamento da umidade volumétrica a 5cm de profundidade 93 5.3 – Fluxo de calor sensível simulado. O valor do fluxo de calor sensível foi calculado utilizando no modelo as equações de convecção livre. Os valores simulados estão representados na Figura 5.9 que apresentam valores baixos do calor sensível. Isto já foi observado por Silva (2003) em diversos outros períodos do experimento. Vale salientar que o calor sensível simulado neste estudo corresponde apenas à fração do solo sem vegetação. São responsáveis por estes baixos valores quando comparados a outros estudos, o processo de convecção livre e os altos valores de temperatura observados no ar à altura da copa da vegetação. 50 40 Hs (w/m²) 30 20 10 0 -10 -20 -30 horas 12 12 24 12 13 24 12 24 14 12 15 24 12 16 24 12 17 24 12 18 Dias Figura 5.9 – Fluxo de calor sensível 5.4 – Fluxo de calor latente de evaporação. O fluxo de calor latente de evaporação foi calculado no modelo utilizando a razão de Bowen. A pressão de vapor do ar em contato com o solo foi calculada considerando continuidade na interface solo – atmosfera. Os resultados apontam para valores baixos da energia necessária à evaporação. Na Tabela 5.1 são comparados os valores de evaporação diária calculados pelo modelo com os valores experimentais. Os valores experimentais foram 94 obtidos da aplicação do método do balanço hídrico no solo com plano de fluxo nulo proposto por Vachaud et al. (1978). A Figura 5.11 representa a aplicação do método do balanço hídrico. Com exceção do primeiro dia simulado, os valores simulados da evaporação diária são da mesma ordem de grandeza do que os valores experimentais. 3,E+02 LEs (w/m²) 2,E+02 2,E+02 1,E+02 1,E+02 5,E+01 -3,E-05 12 12 24 12 24 12 13 14 24 12 15 24 24 12 16 12 17 24 12 18 24 horas Dias Figura 5.10 – Fluxo de calor latente Figura 5.11 – Representação da aplicação do método do balanço hídrico com plano de fluxo nulo. (Fonte Silva, 2003) 95 Tabela 5.1 – Comparação dos valores simulados e experimentais da evaporação diária do solo. Dia ET simulada (mm/dia) ET experimental (mm/dia) 13 – 14 -0,24 1,73 14 – 15 0,29 1,36 15 – 16 1,90 1,24 16 – 17 1,23 1,42 17 – 18 0,27 1,43 18 – 19 0,70 1,48 Total 4,15 8,66 5.5 – Balanço de energia Na Figura 5.12 são representados os diversos componentes do balanço energético na superfície do solo: Hs, o calor sensível na porção de solo sem vegetação, LEs, o calor latente de evaporação do solo, G o fluxo de calor no solo, Rns, a componente da radiação líquida devida à porção de solo sem vegetação e Rn a radiação líquida total medida experimentalmente. Conforme se observa na Figura 5.12 os valores do fluxo de calor latente (LEs) são bem maiores que os fluxo de calor sensível (Hs), sendo este último relativamente pequeno quando comparado com as demais componentes do balanço de energia. Isso pode ser observado também com as componentes de radiação líquido Rn e Rns, onde a componente da radiação líquida devida ao solo, Rns, é bastante inferior à radiação líquida a partir do segundo dia. 96 350 LEs 300 Hs G 250 Rn 200 Rns 150 (W/m²) 100 50 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 -50 -100 (Dia_h) Figura 5.12 – Balanço de energia à superfície do solo 5.6 – Fluxo de massa devido ao gradiente de potencial matricial e ao gradiente de temperatura Foram calculados com o modelo os fluxos de massa expressos em m/s devidos ao gradiente de potencial matricial e ao gradiente de temperatura. Nas Figuras 5.13 e 5.14, esses dois componentes do fluxo são comparados nos dias 13 e 15 de janeiro. O fluxo de massa é dirigido para baixo quando ele é positivo, isto é no sentido de z crescente. 97 2,E-07 Fluxos (m/s) 1,E-07 0,E+00 -1,E-07 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 -2,E-07 -3,E-07 -4,E-07 -5,E-07 Tempo (h) Fluxo h Fluxo T Fluxo (h+T) Figura 5.13 – fluxos de massa para o dia 13 de janeiro 2,E-05 Fluxos (m/s) 1,E-05 0,E+00 -1,E-05 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 -2,E-05 -3,E-05 Tempo (h) Fluxo h Fluxo T Fluxo (h+T) Figura 5.14 – fluxos de massa para o dia 15 de janeiro Observa-se, pois um resultado muito interessante. Em ambos os casos o gradiente de temperatura é capaz de frear bastante e às vezes inverter o fluxo de massa (água sob a forma líquida e sob a forma de vapor), de forma que estes fluxos a 5cm seja dirigido para baixo mesmo quando o solo é mais seco acima da profundidade de 5cm. Essa inversão, a qual 98 corresponde a uma reumidificação local, ocorre durante o dia, o que é muito notável. No dia 13, tal fato ocorreu entre 10 h e 13 h. No dia 15 de janeiro este fato também ocorreu, porém num período bem mais curto, de 11 h e a 13 h. É importante notar que este fato ocorre quando o solo à superfície é pouco mais seco do que a 5 cm, de maneira que o gradiente de potencial matricial não seja grande demais. Isto permite emitir uma hipótese, não comprovada neste trabalho para a reumidificação do solo observada a 5cm de profundidade durante o experimento. Agan et al. (2006) têm sugerido que em regiões áridas possam ocorrer fluxos de vapor de água da atmosfera para o solo. Este fluxo, pequeno, conjugado então com os fortes gradientes de temperatura durante o dia, poderia permitir a reumidificação a 5cm de profundidade através dos gradientes superficiais de temperatura, como explicado acima. 99 CAPÍTULO VI 6 – CONTIBUIÇÃO À TÉCNICA DE AGREGAÇÃO: PAPEL DA DIFUSIVIDADE TERMICA DO SOLO A repartição dos fluxos de energia à superfície da terra, tem recebido muita atenção por parte dos meteorologistas para os modelos de previsão do tempo: os modelos de circulação global e os modelos de mesoescala. Muito mais recentemente, este assunto tem recebido grande atenção dos hidrólogos e dos ecologistas, que procuram prever os efeitos sobre os recursos hídricos e sobre o meio ambiente das mudanças climáticas (Rambal, et al. 2000). Os diversos experimentos citados no capítulo 2 deste documento têm contribuído sobremaneira para melhorar os conhecimentos sobre a repartição destes fluxos. Modelos SVATs, resultantes desses experimentos foram incorporados a modelos de circulação global e a modelos de mesoescala. Recentemente o projeto PILPS (Project for Itercomparison of Land Surface Parameterization Schemes) (Sellers et al., 1997) tem contribuído para uma avaliação comparativa dos diversos modelos SVATs incorporados nos modelos de circulação atmosférica. Resultou deste projeto, entre outros, esforços para melhorar os resultados dos modelos de circulação, baseando-se sobre um melhor conhecimento da condutividade hidráulica do solo e de sua variabilidade espacial e temporal, já que, comprovadamente, este parâmetro dos modelos SVATs é de grande sensibilidade sobre a repartição da energia entre calor sensível e calor latente (Chen et al., 1996; Cuenca et al., 1996). Paralelamente a isto, questionou-se como considerar a heterogeneidade do solo e de sua cobertura vegetal sobre os parâmetros dos modelos SVATs, já que os modelos atmosféricos que os usam, apresentam malhas formadas por grades horizontais reticuladas de várias dezenas de km de lado. Shuttleworth e Wallace (1997) propuseram uma técnica dita de agregação para determinar os parâmetros efetivos dos modelos SVATS, baseando-se nos 100 princípios da conservação dos fluxos e na conservação da identidade dos modelos de transferência de massa e calor em cada sub-grid (Patches) da malha. Conseqüentemente, a acuidade espacial dos resultados dos modelos de circulação atmosférica tem sido sensivelmente melhorada. No entanto, trata-se de uma questão ainda em aberto. De fato, dentre um sub-grid (patch no jargão dos meteorologistas), existe uma variabilidade espacial significativa das propriedades do solo, entre elas, a condutividade hidráulica e as propriedades termodinâmicas (Piters-Lidard et al., 1997). Na literatura, um esforço considerável tem sido dado à variabilidade espacial das propriedades hidrodinâmicas (Nielsen (1973); Vieira (1981); Vauclin (1981); Lima e Passerat de Silans( 1993)), mas muito pouco foi feito relativamente às propriedades termodinâmicas Peters-Lidard et al., Collins e Avissar (1994). Peters-Lidard et al. (1997) fizeram uma avaliação interessante a cerca do modo como a condutividade térmica é modelizda nos modelos SVATs. Segundo estes autores, a maioria dos modelos SVATs utilizam uma formulação empírica da condutividade térmica devida a Mc Cumber e Pielke (1981). Esta formulação propõe uma relação entre a condutividade térmica e o logaritmo a base 10 do potencial matricial. Segundo esses autores, os valores de condutividade térmica calculados por este modelo são, às vezes, uma ordem de grandeza superior aos valores experimentais quando o solo está úmido. Esses autores comparam os efeitos sobre os diversos fluxos de energia e sobre a temperatura da superfície, do uso dessa formulação empírica e de outros modelos com melhor embasamento teórico tais como o modelo de Johansen (1975) ou o modelo de Vries (1963), nos modelos SVATS dos modelos de circulação atmosférica. Utilizando dados do experimento FIFE, eles concluem que o resultado do fluxo de calor no solo, G, e o fluxo de calor sensível, são muito afetados pelo modelo. 6.1 - Determinação experimental da difusividade térmica Para a determinação experimental da difusividade térmica do solo utilizaram-se três métodos (Harmônico - HM; Transformada de Laplace Corrigida - CLTM; Nassar e Horton – NHS). A seguir será descrito cada um destes métodos. 101 a) Método Harmônico (HM) Trata-se de um método bastante utilizado, devido à facilidade de programação computacional, e se adapta muito bem às regiões temperadas. A temperatura medida à superfície, geralmente pode ser descrita através de uma decomposição em série de Fourier como mostra a equação a seguir. N T0, t T Aisenit i (6.1) i 1 Onde, T representa a temperatura média no período P (aqui P = 24 horas) e Ai e i representam respectivamente a amplitude e a fase da harmônica i. O termo representa a freqüência fundamental. A solução analítica da equação de condução de calor: C T T t z z (6.2) considerado-se e C constantes é dada por: N Tz, t T Ai exp( i 1 onde, exp( z z ) sen it i di di (6.3) z z ) e representam respectivamente o amortecimento e a defasagem para cada di di harmônica. Nesta equação d i 2 i representa segundo Van Wijk (1963) a profundidade à qual a onda de calor penetra durante o período P/i. A difusividade térmica, , é identificada a cada dia através de uma técnica de ajuste procurando minimizar uma função critério. A função critério escolhida geralmente corresponde ao erro quadrático médio entre os valores observados à determinada profundidade z e o valor calculado pela equação (6.3). b) O Método da Transformada de Laplace Corrigida (CLTM) 102 Considerando a linearidade da equação (6.2), Passerat de Silans (1988) propõe uma solução analítica desta equação pela superposição da solução analítica de dois problemas: 1 – com uma condição nula para o limite superior do domínio e um perfil inicial de temperatura, em função de z: T(0,t) = 0 T(z,0) = F(z) 2 – com uma temperatura à superfície função do tempo t, condição no limite superior do domínio e um perfil inicial de temperatura nulo: T(0,t) = (t) T(z,0) = 0 A primeira solução é obtida por Carslaw e Jaeger (1959) através da utilização da teoria das imagens: T1z, t z z'2 z z'2 Fz'exp 4t exp 4t dz' t 0 1 (6.4) Enquanto o segundo problema é resolvido analiticamente utilizando a transformada de Laplace como segue (Passerat de Silans, 1988): T2 z, t z z 2 exp t 4t d 2 0 t 3 2 (6.5) A partir de certa profundidade z0, a qual depende da difusividade térmica, a temperatura Tz0 praticamente não varia no tempo, na escala de um experimento como o Projeto Cariri em São João do Cariri. É razoável admitir que a temperatura a partir desta profundidade esteja próxima da temperatura média da superfície. Assim, o conjunto dos dois 103 problemas se aplica à difusão do calor no solo, se na equação (6.4) substituir-se F(z) por f(z) = F(z) - Tz0 e na equação 6.5, admitindo que T(0, t ) Tz 0 . Com estas considerações, T(z,t) no solo será dado pela expressão: Tz, t Tz 0 T1 z, t T2 z, t (6.6) Logo se utiliza a mesma técnica para se determinar a difusividade térmica apresentada para o método harmônico. c) O método de Nassar e Horton (NHS) Os dois métodos apresentados anteriormente consideram o solo homogêneo quanto às suas propriedades térmicas. Entretanto, fortes gradientes de umidade existem durante o dia na zona não saturada do solo, principalmente na proximidade de sua superfície. Estratificações verticais da densidade global, dg são freqüentemente encontradas em solos pouco profundos das regiões semi-áridas, e, por tanto não são solos homogêneos. Nassar e Horton (!989), aplicando a teoria de Lettau (1954), mostraram que a difusividade térmica, , podia ser calculada considerando os perfis verticais das amplitudes A(z) e B(z) e das fases (z) e (z). Segundo esses autores, o ajuste destes parâmetros calculados nas diversas profundidades onde a temperatura T(z,t) é medida, por uma decomposição em série de Fourier a uma harmônica, deve ser feito por uma função spline cúbica para se ter maior precisão sobre os resultados, já que a expressão da difusividade térmica envolve as derivadas destes parâmetros em relação à profundidade z: (z) sen z sen z z z z z (6.7) sendo que, (z) é dado pela expressão: 104 z z z (6.8) 2 (6.9) e, z z z A dedução dessas equações, assim como maiores detalhes sobre o método encontramse em Passerat de Silans et al. (1996). A Figura 6.1 apresenta o resultado do estudo da difusividade térmica do solo do Projeto Cariri realizado por Passerat de Silans et al. (2006). Os três métodos apresentaram baixa difusividade térmica, sendo que o método harmônico apresentou valores um pouco superiores frente aos outros dois métodos. O método harmônico baseia-se sobre a hipótese de periodicidade estacionária para cada harmônica, e no solo estudado, forneceu respostas satisfatórias em apenas alguns períodos para a profundidade de 5 cm. O método CLTM mostrou-se eficiente para essa profundidade mas inadequado nas demais profundidades, devido ao baixo valor de difusividade térmica. Já o método de Nassar e Horton, desenvolvido considerando possibilidade de variações verticais da difusividade térmica do solo, mostrou ser o mais adequado em todas as camadas, apresentando resultados similares ao método CLTM para a profundidade de 5 cm. Uma equação traduzindo a dependência entre a difusividade térmica (m²/s) e a umidade volumétrica, (em porcentagem) foi estabelecida para a camada 0 – 5 cm, considerando os valores determinados pelo método CLTM: 1,19 10133 2,66 10112 2,27 109 1,36 108 (6.10) 105 Figura 6.1 – Resultado experimental da difusividade térmica do solo na profundidade de 5 cm 6.2 - Modelos de cálculo da condutividade térmica 6.2.1 - Modelo De Mc Cumber e Pielkes Mc Cumber et al. (1981) ajustaram uma relação logarítmica com os dados experimentais de Al Nakshabandi et al. (1965) e observaram que a relação entre a difusividade térmica e o teor de umidade do solo não depende do tipo de solo, mas sim da sua relação com a curva de retenção de água do solo. Esta relação é dada pela equação a seguir: exp pF 2,7 pF 5,1 4,187 * 0,00041 pF 5,1 (6.10) sendo, a difusividade térmica e pF dado por: 106 pF log10 h() (6.11) 6.2.2 - Modelo de Johansen O modelo de Johansen determina a condutividade térmica do solo em função do seu valor para o solo seco e o solo saturado, levando em consideração a composição mineral, a densidade global, a densidade das partículas e o número de Kersten (1949). Este método consiste em 3 etapas: i) Determinação do número de Kersten; ii) Determinação da condutividade térmica do solo seco; iii) Determinação da condutividade térmica do solo saturado. O número de Kersten (ke) é dado pela equação: ke sec sat sec (6.12) onde, condutividade térmica aparente, sec condutividade térmica do solo seco, sat condutividade térmica do solo saturado. Johansen desenvolveu uma equação semi-empírica para o cálculo da condutividade térmica do solo seco: sec 0,135d 64,7 2700 0,947 d (6.13) sendo, d a densidade global do solo em (kg/m3 ) e 2700 a densidade da partículas (kg/m3) considerada pelo autor. Johansen mostrou que as variações da microestrutura do solo têm pouca influência na condutividade térmica do solo saturado. Este autor, então, propôs calcular a condutividade 107 térmica do solo saturado por meio da média geométrica das condutividades térmicas dos constituintes minerais, qual seja: sat s (1 PT) ag PT onde, s é a condutividade térmica dos minerais, dada pela relação (6.14) s qq mm sendo que q, m a fração volumétrica do quartzo e dos minerais respectivamente, e PT é a porosidade. Johansen estabeleceu também uma relação entre o número de Kersten e a umidade volumétrica relativa do solo para solos com textura grosseira e com textura fina: ke 0,7 log 10 S r 1 para os solos a textura grosseira quando Sr 0,05 (6.15) ke log 10 S r 1 para os solos a textura fina quando Sr 0,1 (6.16) 6.2.3 - Modelo de de Vries De Vries (1963) desenvolveu um modelo semi-empírico para determinar a condutividade térmica aparente. Considerou o meio poroso como sendo um meio contínuo (água + ar) nos quais as partículas (quartzo, substancias minerais, matérias orgânicas) são dispersas no fluido (água ou ar dependendo do caso). O modelo distingue a fase fisicamente contínua do meio poroso, água ou ar. A condutividade térmica é da pela equação seguinte: k k i i i i (6.17) i 108 em que, é a condutividade térmica aparente, i a condutividade térmica dos constituintes, i o teor de umidade volumétrica dos constituintes, k i um fator de multiplicação para cada constituintes. Os coeficientes ki são calculados supondo que as partículas têm uma forma elipsoidal e sem interação térmica entre elas. Desta forma o cálculo de ki é feito como segue: ki 1 1 3 u a ,b, c 1 ( i 1) g o (6.18) u onde, a,b,c representam os eixos do elipsóide, e ga, gb, gc são fatores de forma que de Vries ajustou empiricamente aos solos estudados sendo que ( ga gb gc) 1 . Para uma condição onde o solo se encontra bastante úmido, ou seja, (w < < s) o cálculo do fator de forma se dá pela equação seguinte: 0,333 0,035 ga gb 0,333 s w s (6.19) Já para uma condição em que o solo se encontra com umidade entre (r < < w) os fatores de forma se calculam por: r ga gb 0,013 w r g aw 0,013 (6.20) sendo, w o teor volumétrico no ponto de murcha. 6.3 - Resultados da aplicação desses modelos Os modelos tais como apresentados acima foram aplicados para o solo onde a difusividade térmica foi medida experimentalmente. Os resultados são apresentados na Tabela 6.1. 109 Tabela 6.1 – Resultados dos Modelos e resultado experimental (condutividade térmica) Mc Cumber & Pielkes Johansen de Vreis mca (W/m/K) (W/m/K) (W/m/K) (W/m/K) 0,089 0,324 0,06 0,5796 0,0612 0,09 0,346 0,06 0,5853 0,0616 0,092 0,385 0,06 0,5966 0,0625 0,095 0,435 0,06 0,6128 0,0638 0,098 0,479 0,06 0,6285 0,0651 0,114 0,648 0,06 0,7031 0,0721 0,116 0,664 0,06 0,7115 0,0729 0,12 0,696 0,12 0,7330 0,0746 0,15 0,882 0,47 0,8536 0,0873 0,18 1,017 0,69 0,9289 0,0995 0,2 1,091 0,80 0,9648 0,1073 0,22 1,158 0,89 0,9936 0,1147 0,25 1,247 1,01 1,0284 0,1251 0,26 1,275 1,04 1,0385 0,1282 0,3 1,380 1,16 1,0755 0,1396 0,35 1,504 1,28 1,1214 0,1498 0,4 1,631 1,38 1,1764 0,1547 0,415 1,671 1,41 1,1962 0,1550 Experimental 6.3.1 - Ajuste do modelo de Mc Cumber e Pielkes O modelo Mc Cumber e Pielkes não pode ser ajustado porque tem relação direta com a curva de retenção. 6.3.2 - Ajuste do modelo de Johansen 110 Para o ajuste do modelo de Johansen foi feito uma correção da umidade relativa já que o residual determinado experimentalmente é relativamente alto (r = 0,083). Usou-se então a expressão da umidade relativa usualmente utilizada nos modelos para caracterização da curva de retenção e da condutividade hidráulica: S r . O valor de sec foi calculado a partir s r da equação 6.13 na qual o valor do coeficiente empírico 64,7 foi ajustado para que o valor de sec corresponde ao valor experimental. Para estimar o valor de sat usou-se a mesma formulação proposta por Johansen, porém considerando também a condutividade térmica do ar: (1s ) s (PTs ) ag ar sat s (6.21) 6.3.3 – Ajuste do modelo de de Vries Considerando que ga, gb e gc são parâmetros de forma que são obtidos para uma partícula elipsoidal procurou-se ajustar esse fatores de forma ao solo estudado. Para isso determinou-se por meio de processos de otimização os melhores valores dos coeficientes empíricos das equações 6.19 e 6.20. Os resultados são apresentados na figura 6.2 juntamente com os resultados do modelo de Johansen ajustado. O modelo de Johansen se ajustou razoavelmente bem para os valores de umidade volumétrica abaixo de 0,13 e forneceu valores muito superiores aos valores experimentais quando o solo esta mais úmido. Já o modelo de de Vries se ajustou corretamente aos valores experimentais, no entanto os parâmetros de forma apresentam um significado físico duvidoso por serem negativos. 111 Figura 6.2 – Resultado dos ajustes da condutividade térmica Neste estudo, os valores experimentais da condutividade térmica foram deduzidos da curva da difusividade térmica de Passerat de Silans et al. (2006) apresentada na Figura 6.1. Essa curva corresponde a um ajustamento a valores experimentais. Durante o estudo, o valor máximo do teor de umidade observado foi de 0,23, ou seja, para valores acima deste teor de umidade, os valores experimentais apresentados na Figura 6.2 correspondem a valores extrapolados. 6.4 - Estudo da variabilidade espacial da condutividade térmica A complexa interação entre as propriedades do solo requer um estudo detalhado dessas propriedades, entre elas à condutividade térmica do solo. Essa propriedade varia com o tempo e no espaço, por isso há necessidade de estudar a sua variabilidade espacial. Com este propósito estudaram-se as propriedades do solo que interferem na variação da condutividade térmica, quais sejam: o teor de matéria orgânica, o teor de quartzo, o teor de outros minerais e a densidade global em diversos pontos numa subárea de um hectare, localizada na sub-bacia dois da bacia escola do açude Namorado, em São João do Cariri. Em cada ponto da amostra a condutividade térmica foi calculada pelo modelo de Johansen. Optou-se por esse modelo pelo 112 fato do modelo de deVries ajustado não ter mais representatividade física devido aos valores negativos dos parâmetros de forma. 6.4.1 - Determinação dos teores de matéria orgânica, densidade global, do quartzo e de outros minerais Para o estudo da composição mineral do solo foram coletadas 20 amostras na profundidade de 5 cm, sendo que as amostras 1 a 8 coletaram-se num transect centralizado na torre e as amostra 9 a 20 foram coletadas de forma aleatória na área de um hectare em torno da torre. A figura a seguir apresenta a localização da torre na sub-bacia 2. 100m P13 P12 P20 P19 P13 P12 P8 P11 P10 P14 P9 P1 P15 P20 P17 P16 P19 P18 P11 P10 P14 P9 P1 P15 P17 P16 P18 100m P8 CONVENÇÕES Rede de Drenagem Limite da Sub-Bacia 2 Ponto de Amostragem Estação Metereológica Escoamento Superficial Figura 6.3 – Mapa da sub-bacia 2 da bacia escola de São João do Cariri (Alcântara, 2004) modificado por, Silva Junior e Werlang (2006). Determinou-se a porcentagem de matéria orgânica (MO), a densidade global (dg) e minerais existentes no solo. Para a matéria orgânica usou-se o teste da mufla a 500ºC durante um período de 3 horas conforme metodologia da EMBRAPA (1997); no caso da densidade 113 global, foi determinada também pela metodologia da EMBRAPA (op.citado). Para a determinação dos minerais utilizou-se a metodologia do Laboratório de Solidificação Rápida na UFPB, em que o teor de minerais é obtido através de um espectrômetro por Dispersão de Comprimento de Onda WS-XRF. Nesse caso, a amostra é triturada e submetida a uma prensa de 9 toneladas. Após esse processo coloca-se a amostra no espectrômetro durante um período de 15 min obtendo assim a porcentagem de minerais existente em cada amostra. Os resultados dessas análises estão apresentados na Tabela 6.2. As porcentagens de cada amostra são feitas em relação ao volume de sólidos da amostras total utilizada. Tabela 6.2 – Resultados do estudo da densidade global (dg), matéria orgânica (MO), quartzo (q) e demais minerais (m) do solo. Aleatória Transect Amostra 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 dg MO (%) q (%) m (%) 1,53 1,23 1,48 1,40 1,22 1,31 1,22 1,26 1,52 1,27 1,30 1,39 1,28 1,12 1,30 1,15 1,06 1,54 1,32 1,40 2,413 2,995 2,476 3,308 3,467 4,398 3,357 3,467 1,688 3,055 4,125 4,605 2,743 4,938 2,259 2,968 3,521 3,595 2,222 2,827 53,737 50,165 51,423 52,423 52,595 52,919 53,196 53,352 53,445 54,147 54,166 54,327 54,340 54,559 54,690 54,904 55,000 55,065 55,633 56,686 43,849 46,840 46,136 44,268 43,937 42,682 43,446 43,181 44,867 42,797 41,708 41,067 42,917 40,502 43,051 42,092 41,478 41,339 42,145 40,487 6.4.2 – Análise estatística das propriedades Para análise estatística dessas propriedades aplicou-se o teste “U” de Wilcoxon, Mann e Whitney. Esse teste examina se duas amostras pertencem a mesma população com relação a 114 tendência central, que compreende a hipótese nula (Ho) a ser testada (Costa Neto, 1977). O teste “U” apresentou a hipótese (Ho) não rejeitada para o nível de 5%, isto quer dizer que todas as amostras provêm da mesma população. Para verificar a distribuição, aplicou-se o teste de Komolgorov-Smirnov (KS) a 5 %. O teste apresentou um ajuste log-normal. Os resultados dessas análises estão apresentados na Tabela 6.3. Tabela 6.3 – Resultado do teste KS, média e desvio padrão das propriedades do solo Propriedades Média Desvio Padrão Teste KS com nível de significância de 5 % dg 1,32 0,135 Log-normal M.O 4,195 1,039 Log-normal q 54,0 2,00 Log-normal 43,085 1,688 Log-normal m 6.4.3 – Determinação da condutividade térmica O fluxo de calor é relacionado à compactação do solo, uma vez que a condutividade térmica de um meio poroso depende da distribuição e da condutividade das fases sólidas líquida e gasosa (Camargo e Alleoni 2006). A umidade de solo tem mais importância do que sua densidade na condutividade térmica. Sabe-se que a água é um condutor térmico melhor do que o ar. Assim, a condutividade térmica do solo aumenta com o teor de umidade. Isso é particularmente verdadeiro quando a variação de umidade está associada à variação no grau de saturação do solo (Fredlund e Rahardjo, 1993). Shaw e Baver (1939) desenvolveram um equipamento que consiste em um sensor de temperatura e calor instalado diretamente no solo para a medição da condutividade térmica. Eles notaram que a presença de sais na água não afetava significativamente a condutividade térmica do solo. Para ilustração deste estudo, a condutividade térmica foi determinada para vários valores padrões da umidade volumétrica, quais sejam: condutividade térmica para o residual ( (r)); do ponto de murcha ( (w)); na capacidade de campo ( (Cc)), entre a 115 capacidade de campo e o ponto de murcha ( (Cr = 0,16)) e de saturação ( (sat)). Para este cálculo, utilizou-se o modelo de Johansen modificado (ver parágrafo 6.3.2). Os resultados da condutividade térmica com relação aos valores padrões da umidade volumétrica são apresentados na Tabela 6.4. Tabela 6.4 – Valores padrões de umidade volumétrica ajustados pelo modelo de Johansen (r) (w) (Cr) (Cc) (sat) amostras 1 0,093 0,082 0,482 0,771 1,730 2 0,049 0,049 0,339 0,628 1,289 3 0,084 0,055 0,455 0,744 1,645 4 0,048 0,048 0,337 0,626 1,278 5 0,070 0,070 0,417 0,706 1,532 6 0,059 0,059 0,373 0,662 1,398 7 0,048 0,048 0,339 0,627 1,284 8 0,053 0,053 0,355 0,643 1,334 9 0,092 0,078 0,478 0,766 1,712 10 0,054 0,054 0,358 0,648 1,349 11 0,058 0,058 0,371 0,660 1,391 12 0,070 0,070 0,409 0,698 1,507 13 0,055 0,055 0,361 0,650 1,356 14 0,037 0,037 0,300 0,589 1,159 15 0,057 0,057 0,369 0,657 1,383 16 0,040 0,040 0,309 0,598 1,193 17 0,031 0,031 0,279 0,568 1,118 18 0,094 0,083 0,483 0,772 1,746 19 0,060 0,060 0,319 0,666 1,411 20 0,074 0,074 0,416 0,705 1,528 116 A Tabela 6.5 apresenta os resultados do estudo de analise estatística da condutividade térmica: média, desvio padrão, coeficiente de variação e os resultados do ajuste do teste KS. Da análise da Tabela 6.5, percebe-se que os valores calculados de condutividade térmica seguem sempre uma distribuição Log-normal para o nível de significância de 5%. A variabilidade espacial é significativa. No entanto o coeficiente de variação é maior quando o solo é mais seco, indicando maior variabilidade espacial para o solo seco do que para o solo na capacidade de campo. Identificou-se a amostra de número 19 como amostra representativa dos valores médios da condutividade térmica. Tabela 6.5 – Resultado da análise estatística da condutividade térmica do solo Propriedades Média Desvio Coeficiente de Teste KS com nível de Padrão variação (%) significância 5% (r) 0,061 0,01838 30,13 Log-normal (w) 0,058 0,01448 24,96 Log-normal (Cr) 0,377 0,06149 16,31 Log-normal (Cc) 0,669 0,05993 8,94 Log-normal (sat) 1,417 0,18576 13,10 Log-normal Para visualizar como os valores da condutividade térmica calculada são distribuídos espacialmente, traçaram-se os mapas de contorno (isolinhas) com o auxílio do Software Surfer para todos os valores padrões de umidade volumétrica, os quais são apresentados nas figuras a seguir. 117 9183600 r 9183590 0.095 0.09 0.085 9183580 0.08 0.075 0.07 Torre 9183570 0.065 0.06 0.055 9183560 0.05 0.045 0.04 9183550 0.035 P19 0.03 9183540 772260 772270 772280 772290 772300 772310 772320 Figura 6.4 – Isolinhas da condutividade térmica em função da umidade volumétrica residual 9183600 w 9183590 0.08 0.04 0 -0.04 9183580 -0.08 -0.12 -0.16 -0.2 Torre 9183570 -0.24 -0.28 -0.32 -0.36 9183560 -0.4 -0.44 -0.48 -0.52 9183550 -0.56 P19 -0.6 9183540 772260 772270 772280 772290 772300 772310 772320 Figura 6.5 – Isolinhas da condutividade térmica em função da umidade volumétrica do ponto de murcha 118 9183600 Cr 9183590 0.49 0.48 0.47 0.46 0.45 0.44 0.43 0.42 0.41 0.4 0.39 0.38 0.37 0.36 0.35 0.34 0.33 0.32 0.31 0.3 0.29 0.28 9183580 9183570 Torre 9183560 9183550 P19 9183540 772260 772270 772280 772290 772300 772310 772320 Figura 6.6 – Isolinhas da condutividade térmica em função da umidade volumétrica crítica 9183600 Cc 0.77 0.76 0.75 0.74 0.73 0.72 0.71 0.7 0.69 0.68 0.67 0.66 0.65 0.64 0.63 0.62 0.61 0.6 0.59 0.58 0.57 0.56 9183590 9183580 9183570 Torre 9183560 9183550 P19 9183540 772260 772270 772280 772290 772300 772310 772320 Figura 6.7 – Isolinhas da condutividade térmica em função da umidade volumétrica na capacidade de campo 119 9183600 sat 9183590 1.73 1.7 1.67 1.64 1.61 1.58 1.55 1.52 1.49 1.46 1.43 1.4 1.37 1.34 1.31 1.28 1.25 1.22 1.19 1.16 1.13 1.1 9183580 Torre 9183570 9183560 9183550 P19 9183540 772260 772270 772280 772290 772300 772310 772320 Figura 6.8 – Isolinhas da condutividade térmica em função da umidade volumétrica de saturação Nestas figuras foram identificados os pontos representativos da condutividade térmica (ponto 19) e a posição da torre da estação climatológica do Projeto Cariri. 6.4.4 – Sensibilidade do modelo SVATs à variabilidade espacial. As simulações foram efetuadas com o modelo de Johansen modificado para analisar a sensibilidade do modelo à condutividade térmica. Ao todo foram vinte simulações com os dados das vinte amostras levantadas em campo. Estas simulações foram feitas com um perfil constante, ou seja, como o potencial matricial constante. Os resultados do modelo a serem analisados foram a evaporação diária, a temperatura máxima diária e o período durante o qual o fluxo de água devido ao gradiente de temperatura é grande o suficiente para conduzir a água para baixo, mesmo no período diurno. Para esta análise escolheu-se dois dias, 13 e 15 de janeiro respectivamente. 120 6.4.4.1 – Análise da sensibilidade da evaporação simulada pelo modelo. A variação da evaporação no espaço físico devido a variação da condutividade térmica foi avaliada pela seguinte formula: E Evap i Evap Evap (6.22) onde, Evap(i ) é a evaporação de um dia (13 ou 15) para a amostra i, e Evap é a média das evaporação das 20 amostras no dia 13 ou no dia 15. Os resultados obtidos estão apresentados na Tabela 6.6. No dia 13 o desvio padrão dos valores de E é de 23 % e no dia 15 é de 17 %, que mostra a sensibilidade da evaporação calculada pelo modelo à condutividade térmica. Os maiores valores em relação à media chegam em algumas amostras a 40 %. A amostra que apresenta o menor desvio em relação a média é a amostra de número 19. Ou seja, a média espacial da evaporação foi obtida no ponto onde se tem a média espacial da condutividade térmica, o que é notável tendo em vista a forte não linearidade dos processos envolvidos. 121 Tabela 6.6 – Resultados da evaporação para dia 13 e dia 15 Amostras E (%) dia 13 E (%) dia 15 1 2,097 4,076 2 20,273 14,945 3 -26,132 -17,302 4 -14,438 -9,976 5 20,273 14,945 6 2,097 4,076 7 20,398 15,821 8 11,553 9,372 9 -31,874 -22,978 10 8,318 4,521 11 3,470 3,693 12 -12,306 -6,542 13 7,900 8,206 14 43,923 29,230 15 2,900 1,652 16 35,419 21,588 17 -42,170 -33,103 18 -35,822 -30,481 19 -1,105 -1,133 20 -14,775 -10,611 6.4.4.2 – Análise da sensibilidade da temperatura máxima diária à superfície do solo ao valor da condutividade térmica. Nos dias 13 e 15 foram observados os resultados das simulações relativas às 20 amostras, dos valores das temperaturas máximas diária à superfície do solo. Os valores constam na Tabela 6.7 e revelam uma pequeníssima variabilidade espacial. 122 Tabela 6.7 – Resultados de temperatura máxima para dia 13 e dia 15. Temperatura máxima diária (K) Amostras Dia 13 Dia 15 1 313,45 314,68 2 313,95 315,04 3 313,60 314,82 4 313,63 314,77 5 313,90 315,03 6 313,68 314,79 7 313,92 315,04 8 313,86 314,95 9 313,60 314,82 10 313,84 314,92 11 313,89 315,02 12 313,54 314,68 13 313,87 315,04 14 313,90 315,02 15 313,87 315,01 16 314,02 315,14 17 313,32 314,56 18 313,37 314,51 19 313,83 314,99 20 313,66 314,81 Média 313,73 314,88 Desvio Padrão 0,204309 0,176683 123 6.4.4.3 – Análise da sensibilidade dos fluxos de água devido aos gradientes de potencial matricial e de temperatura Para ilustrar a importância desta análise os fluxos de água devido aos gradientes de potencial matricial e de temperatura foram representados para o dia 13. Observa-se os resultados do modelo para uma amostra qualquer, na Figura 6.9. Dia 13 1,E-07 8,E-08 Fluxo (m/s) 6,E-08 4,E-08 2,E-08 0,E+00 -2,E-08 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 -4,E-08 -6,E-08 Tempo (h) Fluxoh FluxoT Figura 6.9 - Resultado da simulação dos fluxos para o dia 13 de janeiro Ao mesmo tempo para cada amostras observa-se o período no qual, durante o dia o fluxo devido ao gradiente de temperatura é capaz de conduzir a água para baixo, ou seja, de reumidificar o solo. No caso do dia 13, para todas as amostras este período ocorre entre 10:40 ou 11 h até 18 ou 18:20 h. No dia 15 ele ocorre entre 10:40 e 18 ou 18:20 h, mostrando não haver variabilidade deste período espacialmente. 124 CAPÍTULO VII 7 - CONCLUSÕES O desenvolvimento de modelos SVATs (Soil Vegetation Atmosphere Transfer scheme) como parte integrante dos modelos de circulação atmosférica, ou para estudos de desertificação, ou mesmo para incorporar modelos hidrológicos capazes de considerar por exemplo os efeitos das mudanças climáticas, tem a sua necessidade amplamente reconhecida na comunidade científica. Apesar de terem sido realizados vários experimentos de grande porte em regiões semi-áridas, nunca a região da Caatinga tinha sido estudada com estes objetivos. O experimento Cariri vem suprir esta deficiência. Silva (2003) tem mostrado a importância do papel conjunto do solo e da vegetação nos processos sempre convectivos de transferência de massa e de calor entre o solo, a vegetação e a atmosfera nesta região. Goldfarb (2006) classificou a vegetação do Cariri em função dos seus mecanismos de defesa contra a aridez e propôs uma modelização das transferências entre o solo, a vegetação e a atmosfera. Neste trabalho, completam-se os estudos destes autores, dando ênfase específica às transferências de massa e calor dentro do solo, e analisando o papel termodinâmico do solo sobre a repartição da energia entre fluxo de calor sensível e fluxo de evaporação. As equações de transferência de calor e massa no solo foram detalhadas baseando-se nos trabalhos de Milly (1982) e Passerat de Silans (1986, 1989). As transferências de calor e massa entre o solo e a atmosfera foram modelizadas considerando um processo de convecção livre entre a superfície do solo e o ar na altura do dossel. Essa modelização se apoiou sobre os números de Nusselt e de Rayleigh para descrever o fluxo de calor sensível como descrito em Jacob e Verhoef (1997). Para o fluxo de massa, utilizou-se a razão de Bowen. Um modelo numérico baseado sobre a técnica dos volumes finitos foi desenvolvido para resolver 125 simultaneamente o conjunto das equações do solo e da camada atmosférica entre o dossel e o solo. Os resultados do modelo mostraram uma boa aderência entre os valores de temperatura no solo, simulados e observados experimentalmente. Já para o potencial matricial e a umidade do solo a 5cm de profundidade, os resultados foram apenas razoáveis. De fato, nesta profundidade, o modelo mostra que o solo seca mais rapidamente do que foi observado experimentalmente. Mesmo assim, a evaporação simulada pelo modelo é baixa, como também é baixa a evaporação medida experimentalmente. Observam-se tanto nos resultados do modelo, como experimentalmente, uma reumidificação do solo durante o dia, ou seja, durante o período onde as temperaturas são as mais altas. Este fato notório encontrou explicações a partir dos estudos experimentais feitos para a determinação dos parâmetros de transferência de massa no solo. Traçaram-se os valores dos coeficientes de difusão de massa em função dos gradientes de potencial matricial e em função dos gradientes de temperatura. Estes últimos são, de dia, elevados devido à baixa difusividade térmica do solo. Durante a simulação efetuada com o modelo, calcularam-se a partir destes coeficientes os fluxos de massa (água sob forma líquida e vapor) devidos respectivamente aos gradientes de potencial matricial e aos gradientes de temperatura. Os resultados mostram que os altos gradientes de temperatura devido à baixa difusividade térmica freiam os fluxos de água dirigidos para cima (ou seja, a evaporação) e chegam mesmo a invertêr-los durante o dia. Este aspecto é menos acentuado nos resultados do modelo do que nas observações feitas experimentalmente. Para que essa inversão seja mais forte e mais duradoura, haveria necessidade da camada de solo acima dos 5 cm ser mais úmida do que aquela simulado pelo modelo. Agan e Berliner (2006) têm sugerido que em região semi-árida ocorre reumidificação da camada superficial do solo, ou pelo orvalho, ou por absorção do vapor de água do ar. No experimento Cariri, essa possibilidade não foi examinada experimentalmente, e o modelo não considera o que ocorre na atmosfera nas primeiras dezenas de centímetros acima do solo, logo, esta hipótese não pôde ser verificada. No entanto, o aspecto da curva de umidade experimental sugere que isto ocorre. A penetração da umidade mais profundamente no solo ocorreria então devido aos gradientes de temperatura. O papel termodinâmico do solo sobre a dinâmica da água no solo do Cariri encontra-se, então esclarecido. 126 O fluxo de calor sensível simulado pelo modelo é baixo. Isto se deve ao processo de convecção livre no ar entre a superfície do solo e o dossel e a alta temperatura observada no ar à altura do dossel. O mesmo ocorre com a temperatura no ar no meio da vegetação (Goldfarb, 2006). A hipótese de base do experimento Cariri, segunda a qual as precipitações poderiam ter a sua origem devido aos altos fluxos de calor sensível, como em outras regiões semi-áridas, não encontra respaldo no Cariri. Devido a sua importância demonstrada sobre os processos de evaporação e reumidificação do solo, a condutividade térmica foi examinada mais detalhadamente. Os valores calculados a partir da determinação experimental da difusividade térmica foram ajustados a três modelos empíricos ou semi-empíricos: o modelo de McCumber e Pielkes (1981), largamente utilizado nos modelos SVATs, o modelo de Johansen (1975) e o modelo de de Vries (1963). Nenhum desses modelos, sem calibração, foi capaz de reproduzir corretamente os valores experimentais. Para os dois últimos, ajustes têm sido propostos neste trabalho. No caso do modelo de Johansen, os valores ajustados aderem corretamente aos valores experimentais quando a umidade volumétrica é inferior a 0,23. Para umidades superiores, valores ajustados e experimentais divergem. Mas é bom observar que a curva experimental proposta por Passerat de Silans et al. (2006) foi extrapolada para valores da umidade relativa acima de 0,26. No caso do modelo de de Vries, ajustaram-se os parâmetros de forma através de um processo de otimização e a curva obtida obviamente adere muito bem aos valores experimentais. No entanto, dois dos coeficientes de forma foram ajustados com valores negativos, o que não tem significado físico. Estes resultados mostram que há necessidade de se investigar melhor as propriedades térmicas do solo e sua relação com as propriedades químicas e físicas do mesmo. Um estudo da sensibilidade à condutividade térmica das três variáveis mais importantes do processo físico, quais sejam: evaporação, temperatura à superfície do solo e os fluxos de água devido ao gradiente do potencial matricial e ao gradiente de temperatura foi efetuado considerando a variabilidade espacial natural deste parâmetro numa área de um hectare ao redor da torre climatológica. Foram determinadas experimentalmente as propriedades físicas e químicas com maior significância nos valores da condutividade térmica para as 20 amostras coletadas na área investigada. Observou-se então uma variabilidade espacial da condutividade térmica 127 significativa. Esta variabilidade espacial conduziu a uma significativa variabilidade espacial da evaporação diária calculada pelo modelo, mas a uma desprezível variabilidade tanto da temperatura máxima diária a superfície do solo devido ao gradiente de temperatura. Neste estudo a análise da sensibilidade constatou apenas a variabilidade da condutividade térmica ao qual foi calculada pelo modelo de Johansen modificado neste trabalho, considerando entre outras a variação da densidade global. No entanto a variação da densidade global tem efeito sobre a curva de retenção e da condutividade hidráulica. Diante da importância dos resultados sugere-se que um estudo mais completo da sensibilidade do modelo seja feito considerando também a variabilidade da curva de retenção e da condutividade hidráulica. 128 CAPÍTULO VIII 8 - BIBLIOGRAFIA Afyuni, M. M.; Cassel, D. K. & Robarge, W. P. 1993. Effect of landscape position on soil water and corn silage yield. Soil Sci. Soc. Am. J., 57:1573-1580. Agan, N. Berliner, P.R. 2006. Dew formation and water vapor adsorpation in semi-arid environments – A review. Journal of Arid Environments, v. 65, p. 572-590. Al Nakshabandi, G., Kohnke, H. 1965. 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