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NONOBERTO
NONEMORTO
Comédia dramática de Luís Alberto de Abreu
Escrita especialmente para o Grupo Andaime,
da Unimep de Piracicaba,
para a direção de Francisco Medeiros.
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NONOBERTO NONEMORTO!
PRÓLOGO – IL NONNO
UMA INFORMAÇÃO ÚTIL: NONOBERTO É HOMEM DE ROMPANTES. AS
IMAGENS PASSAM SEM CONTROLE E SE FIXAM EM SUA MENTE, GERANDO LEMBRANÇAS, RISO E EMOÇÃO TAMBÉM SEM CONTROLE. AS
COISAS NELE NÃO TÊM PERMANÊNCIA. DO RISO ELE PODE IR ÀS LÁGRIMAS, À IRA, SEM TEMPO DE TRANSIÇÃO. É UM HOMEM DOMINADO
PELAS IMAGENS.
COM O PÚBLICO JÁ ACOMODADO, NONOBERTO ATRAVESSA, INDECISO,
A PLATÉIA. PÁRA, PRESTA ATENÇÃO NUMA OU NOUTRA CONVERSA OU
MOVIMENTAÇÃO DO PÚBLICO, SEM SE FIXAR EM NADA. NÃO FAZ
QUESTÃO DE SER NOTADO. PARECE APENAS SER MAIS UM ESPECTADOR ESTRANHO, MEIO DESORIENTADO NO MEIO DE TANTA GENTE.
SOBE A ESCADA QUE CONDUZ AO PALCO. NENHUM DE SEUS MOVIMENTOS É DECIDIDO, PARECE COMO SE ESTIVESSE NUM MUNDO IRREAL. OLHA PESSOAS COM INTERESSE PARA, NO MOMENTO SEGUINTE, ABANDONAR O OLHAR; FAZ MENÇÃO DE FALAR OU SE DIRIGIR A
ALGUMA DELAS PARA DEPOIS MUDAR DE IDÉIA. QUANTO MAIS NONOBERTO NÃO PARECER ATOR OU PERSONAGEM E SIM UM MEMBRO DO
PÚBLICO MEIO DESORIENTADO, QUE NÃO RECONHECE O LUGAR ONDE
ESTÁ, MELHOR. TIRA UM BOLO DE PAPEL AMASSADO (DESSES PEQUENOS, DE RECADO) DO BOLSO DO PALETÓ E DURANTE LONGO
TEMPO FICA, ESTÁTICO, OLHANDO-O SEM ENTENDER O QUE É AQUILO.
A IDÉIA É QUE, PELA NÃO-AÇÃO, O PÚBLICO QUE O VIU SUBIR AO PALCO SE DESINTERESSE DELE. GUARDA OS PAPÉIS, FITA NOVAMENTE O
PÚBLICO. LENTAMENTE ENTRA NOS BASTIDORES, MAS LOGO RETORNA COM SUA EXPRESSÃO VAZIA. COÇA A CABEÇA E OLHA A CADEIRA E
A MESA SOBRE A QUAL ESTÃO UM GARRAFÃO DE VINHO E UM COPO.
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PELA PRIMEIRA VEZ PARECE VER ALGO REAL. DIRIGE-SE DECIDIDO,
EMBORA LENTAMENTE, PARA ELA. SENTA-SE, PEGA O GARRAFÃO,
PASSA-O SOBRE O OMBRO E DESPEJA O VINHO NO COPO. DEPOSITA O
GARRAFÃO SOBRE A MESA, TOMA DO VINHO, OLHA A PLATÉIA E FAZ
UMA CARETA EM DIREÇÃO A ELA. FAZ UM GESTO DE DESCASO E TOMA
NOVAMENTE DO VINHO FECHANDO OS OLHOS PARA SENTIR-LHE O
SABOR. COM OS OLHOS FECHADOS MENEIA A CABEÇA COM VIGOR
COMO SE TENTASSE AFASTAR UMA ALUCINAÇÃO. ABRE OS OLHOS.
SUA ALUCINAÇÃO, O PÚBLICO, CONTINUA LÁ. NONOBERTO FAZ UMA
EXPRESSÃO DE ENFADO. INQUERE O PÚBLICO COM UM GESTO DE CABEÇA.
NONOBERTO
Que querem, porca miséria? Que faz todo mundo aí, parado? Que coisa é este lugar? Uma igreja? Cadê os santos, o padre? (IRRITADO) Está bem! Vocês ficam aí e eu
fico aqui. Vamos ver quem se cansa primeiro. (PAUSA
EM QUE NONOBERTO ENCARA A PLATÉIA. ROMPE A
IMOBILIDADE COM IRRITAÇÃO) Ma vá! Eu me canso
primeiro porque não sou uma besta. Não vou ficar olhando para vocês que não existem! (ESFREGA O ROSTO,
DÁ PEQUENAS PANCADAS NA CABEÇA) Esta porcaria
parece radio velho! (IRRITA-SE E DÁ PANCADAS MAIS
FORTES) Dái! Vamos, cabeça escorbútica! (DÁ MAIS
ALGUMAS PANCADAS ATÉ QUE POR UM MOMENTO
AS COISAS PARECEM CLAREAR EM SUA CABEÇA.
ELE SORRI, MAS LOGO CAI NOVAMENTE EM CONFUSÃO MENTAL. OLHA PERDIDO, ALGO ENTRE PATÉTICO E CÔMICO.) Vocês estão aí, de verdade? Alguém me conhece? (CHOROSO) Se me conhece, diz,
porque esta cabeça de estrume não lembra de nada! (IRRITANDO-SE GRADUALMENTE) Porca béstia, outro dia
parei no meio da rua e não sei que rua. E não sei o que
tava fazendo nem o que ia fazer. E não sei se estava indo
ou se estava voltando! Não sabia nada! Nem pra que miséria de lugar eu ia, nem em que escrófula de lugar eu estava antes de ter saído e muito menos de onde vinha depois de ter ido! Se é que eu estava indo ou vindo de alguma bosta de lugar! (FAZ UM GESTO EM DIREÇÃO À
PLATÉIA E FECHA OS OLHOS) Ma, vá! (ABRE OS OLHOS) Vocês continuam aí, eh? Está bem, fiquem. Uma
hora vocês vão ter de ir embora. (SERVE-SE DO VINHO.
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ENTRA NO PALCO UM HOMEM. NONOBERTO TENTA
LEMBRAR-SE DELE.) Quem é? Eu te conheço? Você me
conhece? Ma, fala alguma coisa, Dio Cristo! É conhecido?
É estranho? É Antonio? Genaro? Beppe? Você é gente
ou é coisa que esta porcaria de cabeça tá vendo ma não
existe? (HOMEM SE APROXIMA.)
HOMEM
(AO PÚBLICO) Este é Nonoberto, um velho, filho de velhos imigrantes.
NONOBERTO
Eu sei quem eu sou! Quero saber quem são vocês, porca
pipa! Vão entrando na minha casa... esta é minha casa,
não?
HOMEM
Nasceu numa noite de julho de um ano não sabido do
começo do século. Fazia um frio seco e o parto foi difícil.
A velha parteira, a custo de muita oração e simpatia, recebeu do ventre da mãe uma criança inerte, arroxeando,
sem sopro de respiração, nem movimento de vida. Nenhum som. A criança não estava viva... ainda; a criança
não estava morta... ainda. E o tempo parou no mistério
daquela indecisão e tudo tornou-se tensão, silêncio e espera: no quarto, na casa, na noite fora. (PAUSA. HOMEM
OLHA PARA AS PRÓPRIAS MÃOS COMO SE ELE
FOSSE A PARTEIRA E EM SUAS MÃOS ESTIVESSE A
CRIANÇA. OLHA PARA O PÚBLICO, OLHA PARA NONOBERTO. O CLIMA É DE EXPECTATIVA) Então, foi aí
que a viga mestra da casa rachou com estalo, estrondo
de susto. O silêncio se quebrou e a vida saltou de dentro
do menino pro mundo na forma de choro. E, aí, foi grito e
riso. No quarto, na casa, na noite fora.
NONOBERTO
Cáspita, que minha vida agora é assim: gente que aparece não sei se onde, fala monte de coisa que não entendo
e, como veio, vai. (PARA HOMEM) Ma, quem é você?
Que quer?
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HOMEM
(COLOCA AS MÃOS SOBRE OS OMBROS DE NONOBERTO. ESTE, INCOMODADO, SACODE OS OMBROS,
HOMEM AS TIRA) Nonoberto viveu muito, ouviu e guardou muitas histórias.
NONOBERTO
Guardei onde? Porque não lembro de nada.
HOMEM
As coisas, os fatos, o tempo, em sua memória, estão em
pedaços. Mesmo assim ele tem muito mais coisas que
nós. (NONOBERTO CONCORDA COM UM GESTO DE
CABEÇA) Vale a pena dar-lhe atenção.
NONOBERTO
É isso mesmo! (HOMEM AFASTA-SE) Ei! Ma, aonde
vai? Eu mereço atenção, porca béstia! (LEVANTA-SE E
VAI NA DIREÇÃO DO HOMEM QUE SAI. SURGE A FIGURA DO PEREGRINO. É UMA FIGURA ATEMPORAL
QUE TANTO PODE PERTENCER À IDADE MÉDIA COMO AO SÉCULO XX. TRAZ ÀS COSTAS UMA INFINIDADE DE COISAS. NONOBERTO PÁRA. PEREGRINO
O CHAMA COM UM GESTO.) Quem é você? (ENTRAM
ATORES E INICIAM O CANTO DO PEREGRINO. PEREGRINO SEMPRE CHAMANDO NONOBERTO COM
GESTOS CRUZA A EXTENSÃO DO PALCO E SAI.
CESSA O CANTO)
CENA 1 – PARTIAMO!
LANDO
Lembra de nós, velho? (NONOBERTO MENEIA A CABEÇA EM NEGAÇÃO) Somos daquela história que seu
pai lhe contou.
NORETA
Tirol, região entre Áustria e Itália, fim do século passado,
lembra? Seu pai sempre contava esta história com saudade, quase alegria.
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LANDO
É, velho, recorda? Ele lembrava os montes nevados, o vale verde abaixo, as vinhas, os cantos dos pastores que
ecoavam pelas montanhas, as festas. Não existia lugar
como Romagnano.
NORETA
Ou Cortezanno. Na memória as lembranças são sempre
felizes. Pra quem vive aqui, o Tirol é uma terra triste neste
fim de século.
LANDO
Partiamo! Partiamo!, gritavam os emigrantes.
NORETA
Eu fico! Eu não vou! Perdi meu pai na febre de tifo, meu
irmão pequeno morreu de fraqueza, a guerra ronda, a fome arreganha os dentes, rosna e morde como lobo o
pouco que resta de nós, mas eu fico!
LANDO
Vamos, Noreta!
NORETA
Não vou! Tudo o que eu tenho está nesta terra.
LANDO
Não temos nada! E pra quem não tem nada qualquer terra
é boa.
NORETA
A vida é um vale de lágrimas em qualquer parte do mundo. Melhor ficar, eu fico!
LANDO
Muita gente está indo.
NORETA
São loucos.
LANDO
Os que saem dizem que loucos são os que ficam.
NORETA
Então somos todos loucos! Gente pobre é sempre louca!
Gente sensata faz negócios, veste roupas quentes no inverno, viaja pra lugar saudável quando vem a peste, come
quando tem fome. Gente sensata pensa o que vai fazer
no próximo ano e eu não sei o que vai ser da gente amanhã!
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LANDO
Então, vamos!
NORETA
Gente pobre é sempre louca: quando parte para o desconhecido e quando fica para a miséria que bem conhece.
LANDO
Vamos!
NORETA
Aqui tenho minha gente, minha mãe! Não! Não vou! (A
NONOBERTO) Lembra esta história?
NONOBERTO
Lembro de nada! Meu pai me falava de um rapaz com a
orelha cortada.
NORETA
(EMOCIONADA) Sim! Era Gino, meu filho! (ENTRA GINO
COM UM PANO COBRINDO A ORELHA)
GINO
Eu estava na praça e apareceram aqueles homens gritando: Tirol para a Itália! Eu não quis gritar.
LANDO
Cortaram a orelha do menino e a raiva me subiu nos olhos. (RUFO DE TAMBOR. FORA GRITAM: TIROL PARA
A ITÁLIA. CRESCE A REVOLTA DOS DOIS HOMENS.)
Eu não sabia direito que coisa era a Itália. Tirol eu sei. Tirol é Tirol, minha terra. Não é pra Itália nem pra Áustria!
Tirol para o Tirol. Chamei irmão, chamei outro filho, mostrei o sangue de Gino. Sangue chama sangue! (UMA VELHA VESTIDA DE PRETO ENTRA LENTAMENTE E PÁRA DO OUTRO LADO DO PALCO ONDE ESTÁ NONOBERTO. É A MAMMA. ELE NÃO PERCEBE SUA PRESENÇA)
GINO
Ninguém obriga um homem a falar o que não quer!
LANDO
Nem a calar quando quer gritar! Não vou! Fico aqui no Tirol! Tirol para o Tirol!
NORETA
Nós vamos, Lando! Partimos!
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LANDO
O que? Mas, Noreta...
NORETA
Partimos, eu disse! Tirol são meus filhos! Minha terra são
meus filhos! E nem mais um pedaço dela vão tirar de
mim!
CENA 2 - LA MAMMA
MAMMA
(AO PÚBLICO) Eu sou la mamma, a mãe de Noreta. (SÓ
AGORA NONOBERTO PERCEBE A MULHER. REAGE
COM LEVE ESTRANHAMENTO) Sou viúva, meu marido
morreu de tifo, mas isso minha filha já contou pra vocês.
Outros filhos já tive, não tenho mais comigo. Alguns morreram, outros estão no mundo. Noreta já foi à igreja pedir
a Virgem, já foi ao cemitério rezar pelo pai e agora vem se
despedir de mim carregando pedras no coração. (NORETA CHEGA PERTO DA MÃE)
NORETA
Mamma, minha foto. (ENTREGA SUA FOTOGRAFIA À
MAMMA)
MAMMA
Minha foto e a de seu pai. (ENTREGA A NORETA)
NORETA
Se eu morrer lá...
MAMMA
Vou mandar fazer uma lápide com sua foto. E quando você morrer velha, em outras terras, vou mandar enterrar no
cemitério da colina. Junto da lápide de seu pai e da minha.
NORETA
Não vou morrer lá! Eu vou voltar, mamma!
MAMMA
(DURA) Não vai voltar, Noreta! É a última vez que te vejo.
(NORETA DESABA EM CHORO. MAMMA A ESBOFETEIA COM RAIVA.) Não chora! (NORETA ENGOLE O
CHORO) Nunca mais chore! Seu marido e seus filhos
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precisam da tua força, do teu trabalho e não do teu choro!
Agora eles são tua terra e em lugar estrangeiro só podem
contar com você! Agora você é la mamma!
NORETA
Não vou chorar mais! (ABRAÇAM-SE. SOLTAM-SE)
MAMMA
E agora vai! (NORETA SAI.) E a velha mamma acompanhou a partida da filha sem gesto de despedida. E repetiu
para si uma velha frase: minha terra são meu filhos. E olhou em volta e percebeu que tinha apenas uma velha irmã, um sobrinho, alguns parentes distantes. Minha terra
está aos pedaços, pensou. E, então, depois de muitos
anos, chorou. Um choro curto, desacostumado, que ninguém viu.
CENA 3 – LA NONNA
LUZ CAI LENTAMENTE SOBRE AS IMAGENS DA ALDEIA NORETA QUE DESAPARECEM.
NONOBERTO
Sim, lembro. Lembro tão bem que até vejo. Meu pai contava da varanda da velha casa de pedra, no pé da montanha. De lá, se via, lá embaixo, pequenina como brinquedo, a cidade, a igreja, as casas, as antenas de TV, os carros... (BATE NA CABEÇA) Ma que antena, que carro?
Não tinha... Ma que cabeça! (SURGE UM HOMEM NO
LUGAR ONDE O NONOBERTO DIRIGE O OLHAR. É UM
HOMEM MORENO. NONOBERTO FIXA NELE O OLHAR
E DEPOIS O INTERROGA, IRRITADO.) Ei! Quem é você? Um mouro? Um Mustafá? Ma que coisa faz um mouro
da Sicília em Romagnano?
HOMEM
Que Romagnano, nonno?
NONOBERTO
É Cortezanno, então?
Que faz, aí, no Tirol?
Que faz? Você existe, mesmo?
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HOMEM
(RI) Que Tirol, nonno! Sou daqui mesmo, de Santanolímpia, nonno. Está viajando longe, de novo, nas idéias, hein?
NONOBERTO
(IRRITADO) Que “viajando”? Ma, some, laicon!
HOMEM
Não gosto que me chame de laicon.
NONOBERTO
(COMO CRIANÇA) Laicon, laicon, laicon, laicon!
HOMEM
(PACIENTE) Quer que lhe leve para casa?
NONOBERTO
Non precisa! Sei muito bem onde está minha casa! (PARA SI) Só não sei como chego até lá.
HOMEM
Addio. (NONOBERTO RESPONDE COM UM GESTO
ENQUANTO SE DIRIGE À MESA. SERVE-SE DO VINHO) Assim era Nonoberto, um velho já beirando os noventa, cheio de vida mas quase vazio de cabeça, com
muitas lembranças mas todas meio disparatadas pela falta de controle da razão. Um cérebro com teia de aranha,
quase todo coberto pela poeira do tempo. (NONOBERTO
ENVIA AO HOMEM UM OLHAR IRRITADO.) Um cômico
sem intenção, um homem que perdia a consciência do
mundo. E o vinho ajudava bastante.
NONOBERTO
Ma, some, laicon, some! (HOMEM SAI. NONOBERTO
SENTA-SE, BEBE) A única consciência que Nonnoberto
tinha era que ele existia. Só não sabia onde. O mundo,
pra ele, era coisa que sempre mudava. Era quase somente as coisas que ele imaginava. Às vezes, ele não imaginava nada. E o mundo, as pessoas, tudo, deixava de existir. (NONOBERTO OLHA EM VOLTA ASSUSTANDO-SE)
Que lugar é este? Estou morto! Outras vezes, (COMPÕE
UM SORRISO E UMA EXPRESSÃO SACANA) imaginava
coisas que é melhor que a gente não saiba! Às vezes, via
seres esquisitos meio gente, meio animal, figuras estranhas, incoerentes, vindas sei lá de que mundo. (APONTA
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PARA NONNA QUE ENTRA. É MUITO VELHA, CURVADA, E CARREGA UMA LAMPARINA ACESA) Ah, Dio mio! aquela, por exemplo. Parece uma coisa, uma figura saída de um pesadelo, uma alma condenada, um morador
das profundezas do inferno de Dante! Vai embora! Volta
pro inferno com os demônios e deixa minha alma!
NONNA
Fecha a boca, velho doido! Sou eu!
NONOBERTO
Nonna? É? E esta vela? Parece alma do outro mundo!
NONNA
A força acabou. E quem parece de outro mundo é você: o
mundo do vinho, da grappa, da acquarole. Seu remédio!
NONOBERTO
Não quero!
NONNA
Mas vai tomar.
NONOBERTO
Você não pode me obrigar! (NONNA ENFIA O REMÉDIO
NA BOCA DELE ENQUANTO ELE FALA)
NONNA
Agora toma a água.
NONOBERTO
Eu vou cuspir!
NONNA
Ma, cospe que eu quero ver!
NONOBERTO
(APÓS PEQUENA PAUSA) Está bem! Ma o próximo eu
não tomo, está claro?
NONNA
Sim. (NONNA SENTA E TOMA O COPO DE VINHO)
NONOBERTO
Uma mulher não devia beber.
NONNA
Não. Não devia.(BEBE)
NONOBERTO
Bom, pelo menos você concorda.
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NONNA
Eu sempre concordo com tudo.
NONOBERTO
Ma não cumpre.
NONNA
Não. E assim vamos vivendo em harmonia.
NONOBERTO
Faz tempo que não vejo meu amigo Genaro.
NONNA
É claro, faz tempo que ele morreu. Quinze anos.
NONOBERTO
O Genaro? É verdade? E o Luigi?
NONNA
Morreu dez anos antes do Genaro morrer.
NONOBERTO
Estamos velhos!
NONNA
Um pouco.
NONOBERTO
Lembra quando esse bairro era só mato?
NONNA
Lembro.
NONOBERTO
Então, me conta porque eu não lembro. Como era mesmo
aquela história do banco?
NONNA
Éramos pobres de não ter nem gato pra puxar pelo rabo.
(NONNA LEVANTA-SE E SAI SEM QUE NONOBERTO
PERCEBA)
NONOBERTO
E nos roubaram! Bem, mas se rouba é de pobre mesmo.
Vai roubar rico pra ver a confusão que dá. (VIRA-SE E
NÃO VÊ A NONNA) Nonna! Onde está? A nonna estava
aqui tenho toda certeza! (PAUSA) Ao menos parte de toda certeza! (GRITA) Nonna, você estava aqui?
NONNA
(OFF) Não! (NONOBERTO TEM UMA EXPRESSÃO
PERPLEXA. OLHA O COPO E O ENCHE DE VINHO
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NOVAMENTE. UM CASAL DE JOVENS IRROMPE NO
PALCO AO FUNDO. BEIJAM-SE)
CENA 4 – PASSADO
RAPAZ
Acredite, eu te amo!
MOÇA
Não, você mente.
RAPAZ
Vamos, bella! Deixa eu pegar suas mãos. (SÓ AGORA
NONOBERTO PERCEBE A PRESENÇA DOS DOIS. LEVANTA-SE E CURIOSO SE APROXIMA.)
MOÇA
Melhor não.
RAPAZ
Melhor, sim.
MOÇA
Está bem, mas só as mãos está claro? Nem pulso, nem
braço. (RAPAZ PEGA AS MÃOS DA MOÇA. NONOBERTO CHEGA BEM JUNTO DELES E OBSERVA DETIDAMENTE SEUS ROSTOS. SUBITAMENTE ELE SE ILUMINA. VEM RÁPIDO EM DIREÇÃO AO PÚBLICO, FELIZ.)
NONOBERTO
(ORGULHOSO) Ma... sou eu! Eu a nonna quando era
moça! Como se chamava a nonna? Giovanna, si, Giovanna! Era uma bela moça, brava como gata do mato, ma bela! Mas, eu também, hein? Eu era jovem, belo e potente!
Mas que saudade!
RAPAZ
Vamos?
MOÇA
Já? Pra onde? Quem você pensa que eu sou? Uma mundana?
RAPAZ
Não! Quero só um beijo. Vamos até ali.
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MOÇA
Sim! Um beijo ali, outro lá, dois passos aqui, dois passos
lá e a tarantella está feita!
NONOBERTO
Naquele tempo tinha respeito! (À MOÇA) Mas não precisa
tanto, eh, Giovanna! Um beijo só, não custa, não tira pedaço!
MOÇA
Não! (RAPAZ E NONOBERTO PERGUNTAM AO MESMO TEMPO)
RAPAZ/NONOBERTO
Mas, por que?
MOÇA
Porque você não me ama.
RAPAZ
É claro que amo.
MOÇA
Você ama todas moças de Santanolímopia!
NONOBERTO
É que tenho um grande coração!
MOÇA
Muito grande pro meu gosto! Você quer um beijo? Então
vai conversar com meu pai...
NONOBERTO
Pra que? Pra casar? Por um beijo? É muito pouco! Não
aceita!
MOÇA
E rompe seu compromisso com Giovanna! (NONOBERTO
REAGE SURPRESO) Então? Que me diz? (ENTRA GIOVANNA JOVEM)
GIOVANNA
Então? Que me diz, Berto?
NONOBERTO
Fedeu!
RAPAZ
Giovanna! Eu não fiz nada!
MOÇA
Como, não?
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NONOBERTO
(RI) É verdade, eu lembro! Pobre Berto!
RAPAZ
(PARA NONOBERTO) Me ajudem quem puder na terra e
todos os santos no céu!
NONOBERTO
Calma, Giovanna, foi só um mal entendido.
GIOVANNA
Quieto! Eu sinto que devo rachar a cara de alguém... a
sua, a sua, ou, então, a sua!
NONOBERTO
A minha, não!
MOÇA
Que decide, Berto?
GIOVANNA
Eu decido! Você, fora antes que eu te racho! E você, vem
comigo , Berto, e me arranje uma boa explicação ou eu te
arranjo coisa pior!
NONOBERTO
Madonna mia, que isso não quero ver... nem lembrar. (O
PEREGRINO SEGUIDO POR NORETA, LANDO E ALGUNS OUTROS IMIGRANTES ENTRAM COBRINDO A
CENA DE GIOVANNA, RAPAZ E MOÇA. É COMO SE
FOSSE UMA FUSÃO DE IMAGENS. SIMULTANEAMENTE APARECE A MAMMA DE NORETA NO TIROL. NONOBERTO SENTE-SE CONFUSO.)
NORETA
A viagem...
NONOBERTO
Sim, a viagem...
CENA 5 – A TEMPESTADE
LANDO
Tirol é montanha. É a solidez da pedra, a imobilidade da
pedra, plantada na terra enquanto o mundo durar. Um tirolês é parte dessa pedra, tem sob os pés a imobilidade
das velhas montanhas. (DESESPERANDO-SE) No entan-
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to, aqui, sobre o mar, o vento começa a soprar forte e,
debaixo dos pés, o líquido se move, salta e se enrola como serpente enlouquecida. Pela primeira vez na vida não
tenho solidez da pedra, a firmeza da pedra sob os pés.
Tenho medo.
NORETA
A tempestade. O mundo vira às avessas, o estômago vem
à cabeça, e eu sou uma folha, meus filhos são uma folha,
o navio é uma folha no turbilhão de vento, raio e chuva.
Da miséria na terra à morte no mar. Se Deus é justo ele
há de nos levar a porto seguro!
MAMMA
(MUITO LENTAMENTE FAZ DOIS ACENOS DE ADEUS
E DEPOIS BAIXA O BRAÇO. A NARRATIVA DEVE DURAR O TEMPO DESSE MOVIMENTO.) Vou morrer dentro de cinco meses. Vou abrir os olhos durante o sono por
um momento, surpresa, desprevenida e fechá-los novamente já sem consciência. Meu corpo vai ficar na cama
até perto do meio dia quando será descoberto pela dona
Bertina. Que raiva! O grito da escrófula vai fazer eco pela
montanha como de uma louca descabelada: (GRITA ARREMEDANDO) Aiiii! La mamma morreu! Podia ser outra,
eu não gosto dessa mulher! Vou ser enterrada sem muito
drama. Minha hora tinha chegado. Vou morrer dentro de
cinco meses, mas podem me considerar morta a partir de
agora.
LANDO
Deus! Bendito Deus!
NORETA
Que Deus perdoe minha blasfêmia. Foi o medo, o desamparo de uma mulher que tem de amparar filhos e marido.
(LANDO CANTA JUNTO COM OUTROS UMA CANÇÃO
TIROLESA. LOGO A CANÇÃO PERDE SEU ANDAMENTO TORNANDO MAIS E MAIS RÁPIDA, DESCONTROLADA. OU MAIS LENTA. O IMPORTANTE É QUE A MÚSICA DENOTE O MEDO DA TEMPESTADE.)
LANDO
A tempestade se foi.
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CENA 6 – AS TRÊS GRAÇAS
ENTRAM TRÊS VELHAS ORIUNDI, AURÉLIA, IRMA E
LUCIA. AURÉLIA É MAIS SISTEMÁTICA, IRMA É MAIS
JOVEM E QUIETA E LÚCIA FALA PELOS COTOVELOS,
RESPONDE AS PRÓPRIAS PERGUNTAS E TALVEZ
ESTEJA COMEÇANDO A CADUCAR.
LÚCIA
Bom dia, Como vai, Nonoberto? Posso entrar? Já to entrando, já to dentro. O senhor vai bem, vai bem, eu to
vendo que vai bem, eu vou bem obrigado E a saúde, vai
bem? Vai, sim, to percebendo que tá rosado, bonito, Só a
cabeça que continua falhando, não é? A nonna está?
Não, não está. Que pena. Tem café?
AURÉLIA
(PARA LÚCIA) Ma cala a boca! Breca essa carroça um
momento!
IRMA
A gente veio da reza e vai ficar um pouco aqui, Nono.
LÚCIA
(AS TRÊS SENTAM-SE A MESA) Quer ficar com a gente? Não, o senhor não quer, tem outra coisa pra fazer,
Sabe onde ta a Nona, não, não sabe, né? Lembra, não
lembra?
AURÉLIA
(INCONFORMADA) Ma, é próprio uma carroça carregada
sem freio na ladeira! Só pára no tranco! (EMPURRA LÚCIA) Pára de gastar a cabeça do velho que ele já tem
pouca.
IRMA
Ah, não fala assim, coitado!
NONOBERTO
(PARA O PÚBLICO) Não sei quem são e acho que é melhor nem saber. Não lembrar, às vezes, é uma benção!
IRMA
A gente pode esperar a nona sentada aqui, né?
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NONOBERTO
Si.
AURÉLIA
A gente pode beber um pouco de vinho, né?
NONOBERTO
Nó! (VAI A MESA, PEGA O GARRAFÃO E O COPO E
SAI.)
AURÉLIA
(A NONO QUE SAI) A gula é pecado mortal. Você vai pro
inferno.
LUCIA
Não roga praga!
AURÉLIA
Não é praga, é a lei de Deus.
IRMA
Gula é pecado venial, vai pro purgatório.
AURÉLIA
Mortal!
IRMA
Venial!
AURÉLIA
Vai pro inferno porque também foi avarento. Dois veniais
dá um mortal. Avareza com gula vai pro inferno direto sem
nem olhar o purgatório!
LUCIA
Quem ensinou isso?
AURÉLIA
Zia Maria!
IRMA
Zia Maria nunca disse isso!
AURÉLIA
Como não disse?
IRMA
Não disse!
AURÉLIA
Se não disse, devia ter dito, pronto! Ele vai pro inferno.
IRMA
Ma você injua, né!
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LÚCIA
Nem parece da mesma família.
IRMA
Nós não somos da mesma família.
LÚCIA
Mas temos o mesmo sobrenome.
AURÉLIA
Mas não somos da mesma família. Já expliquei porquê.
LÚCIA
Explica de novo, porque eu já esqueci. Ou então não entendi.
AURÉLIA
Não posso. Já não me lembro a explicação que te dei. O
que sei é que não somos parentes.
IRMA
Essa salada de parentaiada injua, né? (PAUSA)
LÚCIA/AURÉLIA
Injua. (PAUSA POR FALTA DE ASSUNTO)
LÚCIA
Não quero mais macarrão. (AS DUAS OUTRAS SE OLHAM SEM ENTENDER.)
AURÉLIA
Mas onde é que tem macarrão aqui, Lúcia?
LÚCIA
Aqui, não. Na Itália, Aurélia. Lá é macarrão de cedo e de
tarde, de cedo e de tarde, de cedo e de tarde, todo dia. Injua, né?
IRMA/AURÉLIA
É.
IRMA
(SEM ENTENDER) Mas você nasceu aqui.
LÚCIA
Nasci.
AURÉLIA
E então?
LÚCIA
Então, o quê?
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IRMA
Como é que você injua do macarrão que as pessoas comem, de cedo e de tarde, de cedo e de tarde, lá na Itália.
LÚCIA
Só de imaginar se eu tivesse lá. Aqui eu até gosto. (AURÉLIA E IRMA SE ENTREOLHAM) Meu neto tá falando
em ir pra cidade. Se ele for eu também vou.
IRMA
Fazer o que lá?
LÚCIA
Mudar de vida.
IRMA
Nessa idade?
AURÉLIA
Você nunca saiu daqui, não acostuma.
LÚCIA
Acostumo. Lá tem prédio de vidro, tem um dilúvio de loja.
IRMA
Lá você vai ter de tomar leite de saquinho.
LÚCIA
É, mas lá tem prédio de vidro.
IRMA
Mas não é a mesma coisa.
LÚCIA
O que não é a mesma coisa? Leite de saquinho e prédio
de vidro? É claro que não! Você parece caduca! (AURÉLIA E IRMA SE ENTREOLHAM) Se meu neto for, eu vou.
AURÉLIA
Antigamente dava pra plantar cana, café, cereais. Era todo mundo aqui na comunidade. Lembra que nossos pais
diziam? Lá nos começos, plantaram o primeiro arrozal.
Deu arroz que parecia a cucanha de tanto e tão graúdo.
O segundo arrozal perdeu tudo.
IRMA
É, não veio chuva. Prejuízo feio, quase perdem a terra.
LÚCIA
Então porque num planta bicho da seda?
AURÉLIA
Mas não planta, cria, é bicho!
21
LÚCIA
É claro que é bicho, você não conhece? Meu outro neto tá
criando.
IRMA
É? Óia, que eu não sabia.
LÚCIA
Dá muito trabalho. Ele levava lá pra Campinas, na fábrica
de tecido. Depois começou a pestiá e acabou tudo.
IRMA
Quem fazia isso era nossos pais, Lúcia, não é seu neto.
AURÉLIA
Tá caducando? (LÚCIA CAI EM SI. FICA MEIO IRRITADA)
LÚCIA
Caducando, não. Confundi.
AURÉLIA
(GRITA PARA FORA) Nono, vem conversar um pouco
com a Lúcia que vocês vão se dar muito bem! (IRMA CAI
NA GARGALHADA E LÚCIA CUTUCA AURÉLIA.)
LÚCIA
Besta!
IRMA
(TENTANDO CONTER O RISO COM A MÃO) Isso é pecado!
LÚCIA
Você injua, né? “Vó de li!”
AURÉLIA
Pra cidade com seu neto?
LÚCIA
Não, pra casa. Não me lembro mais o que queria falar
com a nonna. (AS DUAS OUTRAS SE OLHAM)
IRMA
Nem nós. (LEVANTAM-SE AS TRÊS)
LÚCIA
A cidade tem muita luz, como no céu.
AURÉLIA
Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer!
Melhor ficar na terra, melhor ficar aqui. Cidade injua.
22
IRMA
Vamos cantar Mazzolin de fiori? (COMEÇA A CANTAR E
PARAM. UMA OLHA PRA OUTRA.)
LÚCIA
Todo dia, toda hora...Injua, né?
CENA 7 – OS VELHOS TEMPOS
NONO ENTRA EM CENA CARREGANDO O GARRAFÃO
E O COPO. SÚBITO, ELE PÁRA E CHORA, DE SOLUÇAR.
NONOBERTO
A pior coisa de viver muito como eu é que os amigos todos se vão. Você vive, vive, vive e, de repente, olha em
volta e cadê os amigos? Cadê as casas deles? As coisas
deles? As conversas? As histórias? Não tem mais! Tudo
vai acabando e só fica a gente. (PAUSA, SOLUÇA) Desculpe, mas é que hoje me lembrei do Albano... (CHORO
SE MISTURA COM A FALA FORMANDO UMA MASSA
SONORA ININTELIGÍVEL, DRAMÁTICA E AO MESMO
TEMPO CÔMICA) Morreu de repente, estourou aquele
veião do coração e, pof! E lá se foi pro beleléu, moço ainda, não tinha nem oitenta. A gente era unha e carne, bunda e calça. Um homem que lutou toda vida, leal. Tinha
força de cavalo e trabalhou como um! Tudo o que se vê
de importante nessa comunidade tem a mão dele, mas
quem se lembra? (CHORA. ENTRA A NONNA ASSUSTADA COM A GRITARIA DE BERTO)
NONNA
Mas que acontece, Berto?
NONOBERTO
Mas, me deixa!
NONNA
Está bem. (VOLTA-SE PARA SAIR)
NONOBERTO
Mas, onde vai? Não vê que eu sofro?
23
NONNA
Mas, o que aconteceu, criatura?
NONOBERTO
Nada, pode deixar! (NONNA IRRITADA VIRA-SE PARA
SAIR) Estou com saudade, estou triste. (NONNA ABRAÇA BERTO)
NONNA
Está triste com o quê, caro?
NONOBERTO
Com a morte do Albano. (NONNA NUM REPELÃO SE
SOLTA DE NONOBERTO E O ENCARA PERPLEXA.)
NONNA
Que morte? Albano está vivo?
NONOBERTO
Como vivo? Agora, aqui, na comunidade as pessoas deram para ressuscitar?
NONNA
Está vivo e com melhor saúde e melhor cabeça que você!
NONOBERTO
Eu tenho certeza que ele está morto, eu vi!
NONNA
Que você viu eu não duvido, mas Albano está vivo!
(NONNA CAI EM RISO) De hoje em diante você está proibido de ter certeza, está bem?
NONOBERTO
(IRRITADO) Ma, vá! Eu sofrendo, chorando de saudade,
e aquele velho andando, vivo, por aí! Desgraçado! Capaz
até que esteja falando mal de mim como ele gostava de
fazer! Devia ter morrido mesmo, aí a gente ficava livre logo! (NONNA SE SENTA E SERVE UM COPO DE VINHO
AO NONOBERTO.)
NONNA
Vai, bebe, que o vinho melhora suas idéias. (NONOBERTO SENTA-SE E BEBE MEIO COPO. A OUTRA METADE É BEBIDA PELA NONNA.)
NONOBERTO
Você tem certeza mesmo que o Albano está vivo? (NONNA ASSENTE COM UM GESTO DE CABEÇA) Vou confiar na sua cabeça, mas só por esta vez, eh?
24
NONNA
Vi o neto da Ana na rua. Continua carregando aquela
mesma cara de tonto dele. Está morando na cidade, bem
de vida, quem diria!
NONOBERTO
Hoje qualquer um fica rico. No nosso tempo num era essa
facilidade!
NONNA
Não era. Era tudo na enxada, foice, burro. Não tinha essas coisas de água encanada... quanta água já busquei
no bigolo! Lembra?
NONOBERTO
(IRRITADO) Vagabundaiada!
NONNA
Quem?
NONOBERTO
Esses rapazinhos sem o que fazer! Sabem usar um arado? Sabem foiçar? Machadear árvore? Vagabundaiada!
NONNA
São outros tempos! Nosso tempo num era essa facilidade.
Lembra o custo que foi botar a mata abaixo, destocar,
amanhar essa terra?
NONOBERTO
Eu não lembro, velha, eu vejo.
NONNA
Vê o quê?
NONOBERTO
Vejo o seu pai, o velho Guidone, brigando com o burro da
carroça dele. (NONNA DESATA A RIR)
NONNA
Como xingava o burro! Xingava em dialeto! Brigava com o
burro como se o animal fosse gente.
NONOBERTO
(VENDO) Desceu da carroça com uma vara na mão, está
conversando com o burro. (À GUIDONE COMO SE O
VISSE DE FATO) Eh, Guidone, o burro é brasileiro, não
entende dialeto. Como? (NONOBERTO DESATA A RIR,
DEPOIS DE BREVE PAUSA, COMO SE TIVESSE OUVIDO ALGO ENGRAÇADO DE GUIDONE.) Seu pai disse
25
que o burro vai ter de aprender dialeto porque ele não vai
aprender o português pra falar com o burro!
NONNA
Está vendo, Berto?
NONOBERTO
Ali, ó! Está gritando pra seu irmão vir ajudar desempacar
o animal. (NONNA ASSUSTADA FAZ O SINAL DA
CRUZ)
NONNA
Você está vendo a alma dele?
NONOBERTO
Que alma! Se estou vendo a alma do velho Guidone, estou também vendo a alma do burro dele! Animal não tem
alma, então não é alma!
NONNA
Mas meu pai está morto!
NONOBERTO
E o burro dele também! Mas estão ali, vivos, porca miséria, eu estou vendo! Óia, lá! Seu irmão está chegando
com a cara de tonho dele!
NONNA
(UM POUCO ALARMADA) Tem de falar isso pro médico
da próxima vez, Berto. (PEREGRINO ENTRA NO PALCO
E DESVIA A ATENÇÃO DE NONOBERTO. APÓS ELE
ENTRA NORETA, LANDO E PASSAGEIROS DO NAVIO.
NONA ENXUGA UMA LÁGRIMA. PEREGRINO SAI.) Tenho saudade do meu pai. Tenho saudade daquele tempo,
quando a vida era dura, mas todos estavam vivos. (NONOBERTO TENTA SE LEVANTAR PARA IR EM DIREÇÃO À CENA DO NAVIO QUE SE FORMA MAS NONNA
O RETÉM) Onde vai?
NONOBERTO
Lembra da família da Noreta e do Lando?
NONNA
Sim, meu avô falava deles.
NONOBERTO
Estão vindo de navio.
26
NONNA
Como estão vindo? Chegaram faz mais de cem anos!
NONOBERTO
Mas estão ali! Eu sei lá como, Dio Cristo!
NONNA
Vou chamar o médico.
NONOBERTO
Fica comigo.
NONNA
Vou buscar um remédio.
NONOBERTO
Ma, fica!
NONNA
Então vou rezar o terço, tenho de fazer alguma coisa,
porca miséria! To arrepiada igual como eu fico quando vejo cachorro parado, olhando e latindo pra coisa que a gente não vê.
NONOBERTO
Eu prometo que não vou latir!
NORETA
(MOSTRA OS RETRATOS DOS PAIS) A gente sai da terra pra voltar, pensa sempre em morrer no lugar que nasceu. Quando eu morrer quero as fotos da mamma e do
papa na minha lápide. Não vou voltar, eu sei, mas, aqui
dentro, (BATE LEVEMENTE NO PEITO) sempre vou
mentir que vou voltar para o Tirol.
LANDO
Trouxemos nossas ferramentas, bicho da seda, mudas de
uva. Às vezes passamos sede para que as pequenas vinhas tivessem o que beber. Nosso trabalho e nosso sonho são mais importantes do que nós.
NORETA
A vida vai ser dura, mas não vai ser triste. E o trabalho
não vai dar tempo de ter saudade
LANDO
Não fica triste, Noreta, a gente se acostuma com a nova
terra.
27
NORETA
A gente não se acostuma, Lando. A gente faz a terra.
Como faz filhos.
NONNA
Que é que está vendo, Berto? (CENA DO NAVIO COMEÇA A DESAPARECER. NONOBERTO OLHA NONNA
COMO SE A VISSE PELA PRIMEIRA VEZ. PERPLEXO
DIRIGE-SE À CADEIRA) Está bem, velho? (NONOBERTO A ENCARA SEM RECONHECER.) Não está me reconhecendo? Sou eu, Giovanna. (NONOBERTO TIRA O
OLHAR DELA E SERVE-SE DE VINHO) Vou buscar seu
remédio, caro. (SAI. NONOBERTO BEBE O VINHO.)
CENA 8 – O ASSALTO DAS IMAGENS
AO FUNDO NO ESCURO, AS VOZES DE UMA FAMÍLIA
QUE REZA VAI AUMENTANDO GRADATIVAMENTE.
NONOBERTO SE VOLTA NA DIREÇÃO DO SOM E AOS
POUCOS VAI SE ILUMINANDO UMA FAMÍLIA AJOELHADA A REZAR. O PAI, QUE PUXA AS ORAÇÕES
COM O TERÇO NA MÃO, ENCARA NONOBERTO E FAZ
UM GESTO DE CABEÇA.
PAI
Vamos rezar também!
NONOBERTO
Eu? Não.
PAI
E por que, não? Se não quer rezar por que veio?
NONOBERTO
Eu não vim. Estou aqui há não sei quantos anos! É minha
casa. Pelo menos penso que é!
MÃE
É um herético! A gente devia falar pra Zia Maria! (CONTINUAM A REZAR. O PAI E A MÃE À FRENTE, OS FILHOS ATRÁS. NONOBERTO, MEIO INCOMODADO, DE
VÊZ EM QUANDO, DÁ OLHADELAS NA DIREÇÃO DELES.
28
PAI
Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, não começa Bruno que te
racho, assim na terra como no céu. (TODOS RESPONDEM A ORAÇÃO JUNTAMENTE COM BRUNO. BRUNO
É UM ADOLESCENTE CAPETA QUE PROVOCA OS
IRMÃOS )
BRUNO
Não estou fazendo nada, papá!, nos daí hoje, perdoai
nossas dividas...
PAI
É bom mesmo!
BRUNO
É sempre eu! como perdoamos nossos devedores e não
nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal, amém!
PAI
Ave, Maria, cheia de graça, o senhor é convosco, bendita
sois vós entre as mulheres e bendito o fruto de vosso ventre Jesus... (UMA DAS IRMÃS COCHILA, AJOELHADA.
BRUNO INTRODUZ UM TALINHO DE PALHA EM SEU
OUVIDO PROVOCANDO-LHE CÓCEGAS. A MENINA
DESPERTA DO COCHILO ASSUSTADA. BRUNO ASSUME POSTURA COMPENETRADA DE QUEM REZA.)
IRMÃ
Ai!
MÃE
Mas que foi? (DÁ-LHE UM CASCUDO)
IRMÃ
Foi o Bruno.
BRUNO
Que foi que ele fez?
IRMÃ
Não sei, mas foi ele! (MÃE AMEAÇA BRUNO À DISTÂNCIA, ESTE PROTESTA INOCÊNCIA FAZENDO EXPRESSÕES DE INJUSTIÇADO. OS DIÁLOGOS SÃO DITOS SEM QUE O FLUXO DA ORAÇÃO SE INTERROMPA. POR ALGUNS INSTANTES A ORAÇÃO CONTINUA
SEM PROBLEMAS. BRUNO COMEÇA ORA A COCHICHAR COM UM, ORA A FAZER CÓCEGAS EM OUTRO.
29
LENTAMENTE O PAI VAI DESAFIVELANDO O CINTO E
SEMPRE REZANDO LEVANTA-SE E VAI SE APROXIMANDO DO MENINO QUE NADA PERCEBE. SÚBITO,
DESCARREGA UMAS CINTADAS NO GAROTO. O GAROTO GEME, A MÃE E OS OUTROS FILHOS AUMENTAM O VOLUME DA ORAÇÃO.)
PAI
Cala-te! Sem choro! (MENINO ENGOLE O CHORO. PEGA O MENINO PELA ORELHA E O LEVA ATÉ A FRENTE. DÁ-LHE O TERÇO) Toma! Agora você puxa o terço!
Segundo mistério doloroso. (O GAROTO SOLUÇANDO
PROSSEGUE O TERÇO.)
BRUNO
No segundo mistério doloroso contemplamos a flagelação, a dor da flagelação, as chicotadas que Jesus levou
por ordem de Pôncio Pilatos. (BRUNO AO FALAR O NOME DE PÔNCIO PILATOS FAZ EXPRESSA REFERÊNCIA A SURRA QUE SEU PAI LHE DEU. NONOBERTO
IRROMPE EM GARGALHADA. A FAMÍLIA SUSTA A REZA E OLHA PARA NONOBERTO COM AR DE CENSURA. ENCARA COM O MESMO AR O PÚBLICO. QUANDO SE RESTABELECE O SILÊNCIO A FAMÍLIA RETOMA A REZA.)
MÃE
Gente herética! (PEREGRINO SURGE E FAZ UM GESTO DE CHAMAMENTO A NONOBERTO, ENTRAM OUTROS PERSONAGENS. NONOBERTO OLHA A TODOS,
PERPLEXO. FAZ UM GESTO PARA AFASTÁ-LOS. OS
PERSONAGENS LENTAMENTE DESAPARECEM.}
CENA 8 – LA CUCAGNA
UM SANFONEIRO ENTRA EM CENA, SENTA-SE A UM
BANQUINHO E TOCA. A IMAGEM É DE “AMMARCORD”, DE FELLINI. NONO AINDA PERPLEXO APENAS ESCUTA. EMOCIONA-SE COM A MÚSICA, MAS
30
NADA DE LÁGRIMAS OU ALGO MUITO EXPLÍCITO.
OUTRAS PESSOAS ENTRAM NO PALCO E LOGO ESTÁ FORMADO O CLIMA DE FESTA COM COMIDA E
CANTO. TALVEZ A REPRESENTAÇÃO DE ELEMENTOS DA FESTA DA CUCAGNA. NONOBERTO ATRAÍDO
PELA FESTA E PELA ALEGRIA LEVANTA-SE DE SUA
CADEIRA E APROXIMA-SE DA FESTA. CARREGA SEU
COPO VAZIO. ALBANO, CARREGANDO UM GARRAFÃO DE VINHO DO QUAL NÃO SE SEPARA, ABRE OS
BRAÇOS E VAI ENCONTRO DE NONOBERTO.)
ALBANO
Nonoberto! (NONOBERTO PÁRA INDECISO. NÃO SABE
SE É APENAS UMA IMAGEM DE ALUCINAÇÃO) Não
me reconhece? Sou eu, Albano! (NONOBERTO ABRAÇA-O)
NONOBERTO
É você, mesmo! Está vivo!
ALBANO
Mais ou menos. Velho nunca está completamente vivo inteiro! (RI)
NONOBERTO
Por que a festa?
ALBANO
Porque não se pode ficar muito tempo sem festa! Mulher
fica nos nervos e homem amargura!
NONOBERTO
Essa gente nova mal conheço.
ALBANO
Nossa comunidade cresceu. Não é mais aquela de antes.
Mas, vamos pra festa. Onde está seu copo?
NONOBERTO
Será que o remédio que eu tomo não vai fazer mal pra
bebida?
ALBANO
Prova! (SERVE. NONO PROVA O VINHO E O APROVA
SATISFEITO)
NONOBERTO
Não, o remédio não estragou o gosto.
31
ALBANO
Ótimo! É o melhor vinho que fiz nos últimos anos! Espera, você pode beber, não?
NONOBERTO
Nunca sei se posso, mas não devo ou se devo, mas não
posso! Vinho é água da vida e nunca matou ninguém.
(ALBANO ENCHE O COPO DE NONOBERTO.)
ALBANO
É verdade. O que mata muito é o fígado! Vamos. (OS
DOIS ENTRAM NA FESTA. NONOBERTO É RECEBIDO
COM MUITA EFUSÃO. AS PESSOAS CANTAM E DANÇAM. NONO ALEGRE SE EMBRIAGA, MAS ISSO NÃO
ALTERA MUITO SEU COMPORTAMENTO OU VOZ. ELE
APENAS TORNA-SE MAIS ALEGRE E FALANTE.) O nono vai contar a cucagna! (AS PESSOAS SE JUNTAM AO
REDOR DO NONO. ENTRA A NONA.)
NONNA
Berto! Você não devia beber!
NONOBERTO
Não devia, mas podia!
NONNA
Nenhum dos dois!
ALBANO
Deixa, Giovanna. Ele está bem.
NONOBERTO
A cabeça está boa e o vinho está bom.
NONNA
Madonna mia! Acabamos de vir do médico. Não falo mais
nada porque não sei se o problema é a cabeça dele ou o
vinho. A cabeça eu não posso tirar e o vinho eu não consigo!
NONOBERTO
Então, escuta!
NONNA
Lavo minhas mãos.
NONOBERTO
Meu pai falava que cucagna é um lugar. Lá tem tudo de
bom e de graça. O vinho, queijo, peixe, pão, tudo dá em
árvore e as árvores nascem do chão sem precisar plantar.
32
Lá tudo é fartura, alegria e festa. Quaresma lá dura três
dias e o carnaval dura o resto do ano.
MULHER
Coisa herética! Lá não se reza?
NONOBERTO
Sim. Só que lá não se reza pra pedir, só pra agradecer.
ALBANO
E lá se morre, Berto?
NONOBERTO
É claro. E todos os que morrem vão pra Deus. Menos um.
Chamava-se Giglio. (ENTRA GIGLIO PARA A REPRESENTAÇÃO DA HISTÓRIA CONTADA POR NONOBERTO. OBVIAMENTE NENHUM PERSONAGEM O VÊ. ELE
E OS OUTROS NARRAM DIRETAMENTE PARA O PÚBLICO)
GIGLIO
É verdade, eu sou Giglio. E é, também, verdade que estou morto. No entanto, eu ando, aqui, entre os vivos.
FRANCESCA
É verdade, eu sou testemunha, eu vi! Eu via a Marina, alegre, andando pelas ruas, conversando com o coitado do
Giglio que, morto, a seguia. Eu falava com as pessoas
“Não está certo! É pecado contra Deus!.” Todo mundo do
lugar sabia que aquilo não era certo. Um dia fui falar com
ela. (ENTRA MARINA) É pecado, Marina! Deixa que ele
se vá. Ele está morto!
MARINA
Eu sei. (PARA O PÚBLICO) Eu soube naquela noite de
verão quando o vento quente me trouxe, junto com o cheiro de terra e de flores, a certeza que Giglio estava morto.
Corri, corri, corri pelos caminhos e, antes de qualquer um,
vi o corpo dele deitado atravessando a estrada. E vi que o
cavalo que o havia derrubado pastava ao lado da pedra
assassina onde ele bateu a cabeça. Não vi uma gota de
sangue e prendi no coração todos os gritos do mundo.
Minha paixão pediu que Giglio se levantasse.
33
GIGLIO
Eu ouvi o pedido da paixão dela que era também a minha
paixão. E não pude recusar. Ergui-me, morto, e, morto,
permaneço junto daquela que amo.
FRANCESCA
Ma, não pode Marina. É contra a natureza, é contra Deus!
MARINA
Como a paixão que Deus me deu pode ser contra Deus?
FRANCESCA
Você sabe. Deixa que Giglio vá.
MARINA
Eu sabia. O coração gritou e se cortou mil vezes antes
que eu perguntasse: “Giglio, você quer ir pra Deus?”
GIGLIO
(SOFRENDO DE PAIXÃO) Eu lhe peço, Marina, ”não me
pergunte” porque tenho medo de responder que quero ir.
E se Deus me perguntar se eu quero ir para ele, eu direi:
“Eu lhe peço, Deus, não me pergunte, porque tenho medo
de responder que quero ficar!” (MARINA CHORANDO
ABRAÇA-SE A GIGLIO E ABRAÇADA À ELE FAZ A ORAÇÃO DA ENTREGA. UMA ORAÇÃO DOLORIDA E
ENTRECORTADA.)
MARINA
Eu, Marina, entrego à Deus neste momento o meu Giglio,
pois sei que ele não me pertence mais. E peço, Deus, que
dê à minha vida um sentido tão grande quanto grande foi
esse amor por mim sentido. (SEPARA-SE DE GIGLIO E
AFASTA-SE LENTAMENTE.)
FRANCESCA
Mas Deus não lhe deu nada tão intenso como aquela paixão. Só lhe deu força para que ela própria buscasse. (LUZ
CAI SOBRE OS PERSONAGENS NA NARRATIVA. SOBE NA FESTA.)
ALBANO
E como a história acabou?
NONOBERTO
Acabou assim. Ninguém sabe o que ela fez da vida. Só se
sabe que ela viveu muito e viveu feliz. Assim é o amor em
Cucagna.
34
MULHER
E a Cucagna fica no Tirol, Nono?
HOMEM
Fica em Romagnano, Cortezanno, onde? (AS PESSOAS
DISCUTEM A LOCALIZAÇÃO DA CUCAGNA ENQUANTO NONO É ATRAÍDO E APONTA PARA ALGO QUE
NÃO VEMOS.)
ALBANO
Que foi, Berto?
NONOBERTO
Lá! Aquela casa de pedra que meu pai falava...
ALBANO
É a igreja de Santanolímpia.
NONOBERTO
Não, do lado.
ALBANO
Não tem nada...(SURPRESO) Que coisa! Giuseppe, que
coisa é aquela do lado da Igreja?
NONOBERTO
E a montanha lá no fundo!
GIUSEPPE
Ma, que cazzo está fazendo uma casa de pedra ali? (AS
PESSOAS FIRMAM A VISTA E VÊEM ALGO SEM ENTENDER MUITO O QUE VÊEM.)
NONOBERTO
Aquele! Aquele é Giglio, o morto, junto com Marina.
GIUSEPPE
Onde?
NONOBERTO
Está passando em frente do portão da sua casa.
GIUSEPPE
Ma, que coisa está acontecendo? O mundo está virando
do avesso? É um milagre?
NONNA
Ma, que milagre! É o vinho! Ou é a cabeça de vocês.
ALBANO
Estamos todos bêbados ou loucos. Ma, isso é muito estranho. E belo!
35
NONNA
(INCOMODADA) Vamos, Berto. (SEGURA BERTO PELO
BRAÇO E O CONDUZ PARA SUA CADEIRA. AS PESSOAS AINDA FICAM UM MOMENTO ESTUPEFATAS,
MAS AOS POUCOS VOLTAM À FESTA COMO SE A
IMAGEM QUE VIRAM SE DESVANECESSE. NA PASSAGEM DE BERTO E NONNA ELES CRUZAM COM O
PEREGRINO QUE SORRI PARA NONOBERTO. A FESTA TERMINA COM O SANFONEIRO SOZINHO TOCANDO.)
CENA 9 – LAICON
NONNA CONDUZINDO NONOBERTO CHEGA ONDE
SE ENCONTRA A MESA. NESSA CONDUÇÃO OPEROU-SE UMA PASSAGEM DE TEMPO.
NONNA
Abre! (NONOBERTO ABRE A BOCA COM UMA INTERJEIÇÃO DE MÁ VONTADE.) Não me faz má-criação que
te enfio um rícino goela abaixo! (NONNA PÕE UM COMPRIMIDO EM SUA LÍNGUA.) É o remédio que está melhorando sua cabeça. Já está até reconhecendo que eu
sou sua mulher.
NONOBERTO
(RESMUNGA) Grande vantagem!
NONNA
Que disse?
NONOBERTO
Nada!
NONNA
Continua vendo coisas? (SURGE ZIA MARIA E FIXA
NONOBERTO COM SEVERIDADE.)
NONOBERTO
Não.
NONNA
É bom, porque está todo mundo comentando aquela festa! Tem gente jurando que também viu as coisas que você
36
disse ter visto. Tenho de sair, volto logo. Você fica bem?
E pára de ver coisas, está certo, caro? (NONOBERTO
ASSENTE. NONNA SAI. NONO RI E DIZ A ZIA MARIA.)
NONOBERTO
Ela pensa que posso fechar a cabeça como fecho os olhos! (ZIA MARIA NÃO ESBOÇA REAÇÃO. O LAICON
QUE PASSA CARREGANDO UMA MALA CHAMA A ATENÇÃO DE NONOBERTO. ZIA MARIA PERMANECERÁ CALADA E PARADA ATÉ O MOMENTO DE SUA INTERVENÇÃO.)
NONOBERTO
Ei, Laicon!
LAICON
Nono, eu já falei que não gosto...
NONOBERTO
(COMO CRIANÇA) Laicon! Laicon! Laicon! Laicon! (LAICON DEPÕE AS MALAS.) Onde vai?
LAICON
Estou indo embora desse lugar, mas antes vou dizer...
NONOBERTO
Vai dizer nada! E vai embora pra onde?
LAICON
Prá qualquer lugar. Aqui não fico mais! Me chamam de
Laicon. Vê se isso é mão de vagabundo, mão calejada de
roça, de lidar com boi.
NONOBERTO
Nunca lidei com boi. Gostava mais da terra. Vai ter uma
festa, não sei qual... Você vai?
LAICON
Estou indo embora, Nono! Vocês falam de mim, mas nunca vi gente pra gostar de festa igual vocês. É festa da polenta, festa de Nossa Senhora não sei das quantas, festa
do milho, festa do nono, festa da chuva, festa da seca,
festa da festa! E eu é que sou Laicon?
NONOBERTO
É, você é Laicon.
37
LAICON
Cantam, dançam, enchem a cara de vinho, brigam, riem e
depois vão todos pra igreja rezar. Pra que tanta reza?
NONOBERTO
Não sei. Acho que é pra agradecer o vinho, o riso. Acho
que a gente agradece até as brigas que são a animação
da festa. De onde você é?
LAICON
Lá do sertão.
NONOBERTO
Não fica perto do Tirol, não? (LAICON RI) Meu pai falou
que quando a gente morre a alma fica andando, muito
tempo, lá no campo estrelado do céu procurando o caminho do paraíso. (PAUSA) Porca miséria! Meu pai andou
do sertão do Tirol pra cá, andou durante toda vida aqui
em Santanolímpia e é capaz de estar andando, até hoje,
lá no meio das estrelas. Porca miséria, que deve estar
com os pés que não agüenta!
LAICON
(RI) Porque o senhor está me dizendo isso, Nono?
NONOBERTO
E eu sei? Do que é que a gente tava falando?
LAICON
(RI) Eu estava falando que estou voltando prá minha terra.
NONOBERTO
Ma, dái, que além de Laicon você é uma grande besta!
LAICON
O senhor me respeite!
NONOBERTO
Lugar bom é a terra que a gente vive ou a terra que a
gente vai viver. Não aquela que a gente volta! A gente
anda é pra frente, pra frente, pra frente! (SURGE O PEREGRINO QUE SORRI AO NONO. ESTE SE IRRITA.) E
se junta com aquele ali que também deve ser um laicon.
Só fica andando pra lá e pra cá, com um sorriso idiota na
cara, e até hoje não vi pegar uma enxada!
LAICON
(RI) Quem, Nono?
38
NONOBERTO
(SE AFASTANDO) Laicon! Laicon! Laicon! Laicon! (LAICON IRRITADO PEGA DE NOVO A MALA.)
LAICON
Tchau, Nono. (NONO NÃO RESPONDE. LAICON DÁ
ALGUNS PASSOS NA DIREÇÃO QUE IA E PARA. PENSA UM INSTANTE E RETORNA E SAI. RESOLVEU FICAR.)
CENA 10 – ZIA MARIA
ZIA MARIA
Lembra de mim?
NONOBERTO
Como, não? Pessoas como a senhora, Zia Maria, a gente
pode gostar ou não gostar, mas respeita. E não esquece.
Zia Maria, a nossa catequista... A senhora está morta,
não?
ZIA MARIA
Estou, Berto.
NONOBERTO
Graças a Deus! (SE RETRATA) Não, graças a Deus, não,
o que quero dizer é que... Eu me lembro que a senhora
morreu... a gente sentiu, chorou muito... e se a senhora
me aparece e diz que ta viva eu não ia entender mais nada! A senhora me entende, não? (ZIA MARIA SORRI EM
ASSENTIMENTO) Ainda bem, minha cabeça ainda está
nos eixos! Pelo menos um pouco. (NONOBERTO PROCURA ALGO PELO PALCO.)
ZIA MARIA
Aonde vai?
NONOBERTO
Preciso de um copo de vinho.
ZIA MARIA
Eu não aprovo.
NONOBERTO
Eu também não, principalmente o doce. Mas o seco...(ZIA
MARIA SORRI ABRANDANDO A SISUDEZ. NONO EN-
39
CONTRA NO CHÃO, O GARRAFÃO JUNTO A UM COPO. SERVE-SE.)
ZIA MARIA
Você continua o mesmo. Olho prá você e ainda vejo aquele menino. Você daria um bom padre, mas não quis
cumprir a promessa que sua mãe fez à Virgem.
NONOBERTO
Eu quis, até ia para o seminário, mas me apareceu a Giovana, Giovanina, nova, bela, com aqueles olhos claros dela e a vocação, (SOPRA) “fffff”, ventou! E eu não descumpri, troquei!
ZIA MARIA
E que troca você fez?
NONOBERTO
Disse à Virgem que se ela me liberasse da promessa que
minha mãe fez de me mandar para o seminário eu prometia que meu filho seria padre.
ZIA MARIA
E ele foi?
NONOBERTO
Não, mas agora o problema de desfazer a promessa é dele. Acho que ele também trocou! (ZIA MARIA RI, MAS
SUBITAMENTE SE EMOCIONA)
ZIA MARIA
Tenho medo, Berto.
NONOBERTO
Medo de que? Nunca imaginei que Zia Maria tivesse medo.
ZIA MARIA
Todos temos medo, Berto. Nossos pais tinham medo de
deixar o Tirol, do mar, da terra estranha, da língua estranha, das leis e dos costumes estranhos que os faziam
trabalhar até a última gota de suor e cansaço. Tinham
medo da espoliação, do dia de amanhã vazio de pão e
repleto de incertezas.
NONOBERTO
Eram pobres. E, como dizia meu pai, pobres são todos iguais perante a lei.
40
ZIA MARIA
Quando eu ainda vivia tinha medo da seca que ameaçava
os grãos, os frutos, da chuva continuada que apodrecia as
raízes, dos raios, das febres. Mas nossa comunidade era
forte, unida, como uma pequena aldeia do Tirol. E agora...
NONOBERTO
E agora?
ZIA MARIA
E agora os tempos são outros. Uma outra moral, outros
costumes, o mundo está entrando em nossa comunidade!
NONOBERTO
Mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer.
ZIA MARIA
Hoje, nem o dialeto se fala mais. A comunidade está acabando, Berto.
NONOBERTO
(BEBE) Talvez as coisas sejam assim mesmo, Zia. Meus
filhos não ensinaram o dialeto a meus netos e o começo
de tudo, Romagnano e Cortezanno, vai ficando cada vez
mais distante.
ZIA MARIA
Às vezes, à noite, quando percorro essas nossas ruas tão
conhecidas, eu, invisível como o vento, sem substância
como o ar, choro sem voz, mas dói. Dói pela saudade do
tempo que vivi e pelo medo do que vai ser. Um dia as velhas histórias vão acabar e Santanolímpia não vai ser nem
lembrança.
NONOBERTO
(TENSO) Não fala assim!
ZIA MARIA
Mas é assim, Berto.
NONOBERTO
Por que veio? Por que veio me atormentar?
ZIA MARIA
Não vim atormentar, o tormento é meu, Berto. Vim buscar
resposta.
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NONOBERTO
Que resposta quer de mim? Sou só um velho já sem muita cabeça e com um tempo cada vez menor. O que pulsa
aqui dentro, eu sinto, é só um pequeno sopro, já sem força... (ZIA MARIA SOLTA UM SUSPIRO E VOLTA-SE
PARA SAIR. NONOBERTO SE AGITA, TENSO.) Zia! (ZIA
MARIA SE VOLTA. NONOBERTO DIZ, FORTE.) Eu não
sei, Zia! Não sei essas respostas! O que sei é o que meu
pai me ensinou: beber vinho e viver. O vinho bom é o próximo, o dia melhor é o seguinte! Porque sabemos fazer o
vinho e sabemos fazer o dia seguinte! Porque migrante é
isso, gente que sabe fazer coisas. Nossos pais saíram do
Tirol e construíram Santanolímpia. Se Santanolímpia acabar, se a gente quiser, fazemos outra.
ZIA MARIA
Tem certeza, Berto?
NONOBERTO
Acho que tenho. Acho que nossa comunidade não é essa
terra, nem o dialeto, nem mesmo o Tirol. É coisa que não
sei o que é mas que está riscado lá dentro e vai aonde a
gente for.
ZIA MARIA
Tem certeza?
NONOBERTO
Tenho, Zia. Há muitos anos você está morta, mas a comunidade ainda sopra viva em seu espírito. (ZIA SE AFASTA.) Descansa em paz, Zia Maria.
ZIA MARIA
(SORRI) Descansa em paz, Berto.
NONOBERTO
Estou mesmo precisado. (ZIA MARIA SAI. AO FUNDO
FORMA-SE UMA PROCISSÃO RELIGIOSA. NONOBERTO BEBE E SEU OLHAR AOS POUCOS TORNA-SE
AUSENTE. NONNA RETORNA.)
NONNA
(DESESPERADA) Vinho! Você achou o vinho!
NONOBERTO
Foi Zia Maria que me deu!
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NONNA
Desde a festa que o médico proibiu! Não sei mais onde
esconder, não consigo mais cuidar de você, Berto! Estou
velha, cansada! Isto não é vida! (NONOBERTO OLHA A
NONA COM UMA EXPRESSÃO AUSENTE.) Berto? Não
está me reconhecendo? Está bem? É claro que está, se
está com vinho está bem. (SENTA-SE CANSADA)
NONOBERTO
Você... eu não sei quem você é.
NONNA
(SENTIDA) É claro! É bom depois de todos esses anos
ouvir isso!
NONOBERTO
Posso pegar sua mão?
NONNA
Pega, ela tá aqui sem fazer nada mesmo! (DÁ-LHE A
MÃO)
NONOBERTO
A cabeça está vazia de qualquer coisa, mas uma coisa eu
sei, eu sinto que tenho um grande sentimento por você.
Vê! (TRAZ A MÃO DELA ATÉ O PEITO DELE) Meu coração pulsa, pulsa, pulsa, pulsa... e vai continuar pulsando.
NONNA
Meu caro. Eu sou Giovanna, Berto.
NONOBERTO
Giovanna? (AUSENTE, MAS SEM TIRAR A MÃO DA
NONNA DE SEU PEITO) Uma bela palavra. (FORA A
PROCISSÃO SE TRANSFORMA EM FESTA. NONOBERTO SE AGITA) Que barulho...
NONNA
É a festa! (NONOBERTO TENTA LEVANTAR-SE) Não!
Nessa você não vai! A minha grande rival sempre foi a
uva, fermentada e envelhecida, chamada vinho! (A FESTA ESPALHA-SE PELO PALCO E VEDA DO PÚBLICO A
VISÃO DA NONNA E DE NONOBERTO. CANTA-SE,
DANÇA-SE, BEBE-SE. UM RAPAZ COM O COPO NA
MÃO CAI DE COSTAS DURO E BÊBADO. NONOBERTO
E NONNA DESAPARECERAM DE CENA. DUAS MULHERES DANÇAM E CANTAM, MEIO BÊBADAS.)
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ALBANO
(SEGURA O BRAÇO DE GIUSEPPE E FIXA UM PONTO
COM O OLHAR) Giuseppe! Não vou dizer o que é. Só
quero saber se você está vendo o mesmo que eu? (GIUSEPPE FIRMA A VISTA E ARREGALA OS OLHOS)
GIUSEPPE
Marco, venha cá! (UM RAPAZ APROXIMA-SE)
MARCO
Que é? (GIUSEPPE APONTA COM A CABEÇA. O RAPAZ ARREGALA OS OLHOS.)
GIUSEPPE
Não mente! O que está vendo lá no fundo?
MARCO
Bebi demais! (AS PESSOAS DA FESTA OLHAM NA
MESMA DIREÇÃO E ARREGALAM OS OLHOS. A LUZ
CAI E SOBRE O PÚBLICO NO TETO DA PLATÉIA, AOS
POUCOS, ACENDEM-SE MIRÍADES DE PEQUENAS
LUZES COMO UM CÉU ESTRELADO. OS ATORES,
DISPERSOS ENTRE O PÚBLICO NARRAM A CUCANHA.)
Aqui é cucanha, entre a montanha e o vale, entre o rio
limpo e a cidade em paz.
Aqui ouvem-se apenas os ecos dos risos, os gritos são de
alegria e os gemidos são aqueles que os apaixonados
não conseguem conter.
Os corpos aqui andam nus e se abraçam em prazeres
fundos e risos inocentes
Aqui se escolhe o que sonhar à noite e que sonho viver
no dia seguinte.
As uvas vertem vinho, as crianças têm os olhos secos de
lágrimas, as mães nunca perdem seus filhos, amantes
não se separam.
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O trabalho aqui é arte e prazer. Há cinqüenta anos, todos
os dias, um homem pinta o mesmo e mais belo quadro já
visto no mundo. E não sabe quando vai terminar.
Aqui se anda muito e não se chega nunca a lugar algum.
Porque é bom andar na cucanha, vagabundear, encontrar
os amigos, conversar por cima dos muros e tomar vinho
sem pressa.
Aqui, agora, coberto pelo céu de luzes é a cucanha; um
lugar que existe entre o coração e a alma; um lugar que
descobrimos, mergulhamos e levamos aonde formos.
Aqui não é o céu, é a terra. É um lugar que Deus inspira,
o homem faz e Deus, vendo tal criação, a abençoa uma
única vez. E para sempre.
(VOLTAM A LUZES. MARCO LEMBRA-SE E EXCLAMA.)
Nonoberto! Ah, meu Deus! A nonna me mandou trazer
um recado, faz três horas! Vim correndo, mas no meio da
festa comecei beber e esqueci!
GIUSEPPE
Esqueceu o que? Fala!
MARCO
Faz três horas. Nonoberto como sempre não falava coisa
com coisa, mas ria e se divertia muito. Como sempre a
nonna resmungava com Nonoberto e Nonoberto tomava
vinho, Então, ele disse: Giovanna é uma bela palavra, a
nonna xingou e ele não disse mais nada. (CHORA) Debruçou sobre a mesa, sem força, como quem morre. Nonoberto é morto! (AS PESSOAS FICAM PARADAS E
REINA O MAIS ABSOLUTO SILÊNCIO. MARCO COMPLETA COM CONVICÇÃO.) Nonemorto!
(ATORES COMEÇAM A CANTAR “Mazzolin di Fiori”,
MAS NUM ANDAMENTO MUITO LENTO QUASE COMO
SE FOSSE UM CANTO GREGORIANO. NONOBERTO
RECEBE A LANTERNA DO PEREGRINO E SE PÕE EM
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MOVIMENTO. SIMULTANEAMENTE A ISSO LANDO E
NORETTA CHEGAM AO PORTO.)
NORETTA
Mil oitocentos e oitenta e um. Chegamos ao porto de Santos. Não há aqui nenhuma pessoa que eu conheça, nenhuma paisagem que eu já tenha andado, nada que seja
meu.
LANDO
O mar ficou para trás, Tirol ficou pra trás e não sei o que
tenho a frente.
NORETTA
(POR UM TEMPO RESPIRA PROFUNDAMENTE E COM
DIFICULDADE COMO SE FOSSE ENTRAR EM CRISE
NERVOSA. SEGURA A EMOÇÃO.) Endurece, coração, e
diz para meus olhos secarem, porque eu não vou verter
nem uma lágrima! (AOS POUCOS SE ACALMA ENQUANTO FALA AO CORAÇÃO) Devagar, meu coração,
devagar... devagar... (OLHA PARA LANDO E DIZ FIRME)
Vamos, Lando!
LANDO
(FIRME) Vamos!
NORETTA
Filhos, vigas, paredes, caminhos. Eu crio o mundo e você
constrói nele, Lando!
FIM
Ribeirão Pires, 14 de abril de 2.000
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Luis Alberto de Abreu
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NONOBERTO NONEMORTO - Encontros de Dramaturgia