1 NONOBERTO NONEMORTO Comédia dramática de Luís Alberto de Abreu Escrita especialmente para o Grupo Andaime, da Unimep de Piracicaba, para a direção de Francisco Medeiros. 2 NONOBERTO NONEMORTO! PRÓLOGO – IL NONNO UMA INFORMAÇÃO ÚTIL: NONOBERTO É HOMEM DE ROMPANTES. AS IMAGENS PASSAM SEM CONTROLE E SE FIXAM EM SUA MENTE, GERANDO LEMBRANÇAS, RISO E EMOÇÃO TAMBÉM SEM CONTROLE. AS COISAS NELE NÃO TÊM PERMANÊNCIA. DO RISO ELE PODE IR ÀS LÁGRIMAS, À IRA, SEM TEMPO DE TRANSIÇÃO. É UM HOMEM DOMINADO PELAS IMAGENS. COM O PÚBLICO JÁ ACOMODADO, NONOBERTO ATRAVESSA, INDECISO, A PLATÉIA. PÁRA, PRESTA ATENÇÃO NUMA OU NOUTRA CONVERSA OU MOVIMENTAÇÃO DO PÚBLICO, SEM SE FIXAR EM NADA. NÃO FAZ QUESTÃO DE SER NOTADO. PARECE APENAS SER MAIS UM ESPECTADOR ESTRANHO, MEIO DESORIENTADO NO MEIO DE TANTA GENTE. SOBE A ESCADA QUE CONDUZ AO PALCO. NENHUM DE SEUS MOVIMENTOS É DECIDIDO, PARECE COMO SE ESTIVESSE NUM MUNDO IRREAL. OLHA PESSOAS COM INTERESSE PARA, NO MOMENTO SEGUINTE, ABANDONAR O OLHAR; FAZ MENÇÃO DE FALAR OU SE DIRIGIR A ALGUMA DELAS PARA DEPOIS MUDAR DE IDÉIA. QUANTO MAIS NONOBERTO NÃO PARECER ATOR OU PERSONAGEM E SIM UM MEMBRO DO PÚBLICO MEIO DESORIENTADO, QUE NÃO RECONHECE O LUGAR ONDE ESTÁ, MELHOR. TIRA UM BOLO DE PAPEL AMASSADO (DESSES PEQUENOS, DE RECADO) DO BOLSO DO PALETÓ E DURANTE LONGO TEMPO FICA, ESTÁTICO, OLHANDO-O SEM ENTENDER O QUE É AQUILO. A IDÉIA É QUE, PELA NÃO-AÇÃO, O PÚBLICO QUE O VIU SUBIR AO PALCO SE DESINTERESSE DELE. GUARDA OS PAPÉIS, FITA NOVAMENTE O PÚBLICO. LENTAMENTE ENTRA NOS BASTIDORES, MAS LOGO RETORNA COM SUA EXPRESSÃO VAZIA. COÇA A CABEÇA E OLHA A CADEIRA E A MESA SOBRE A QUAL ESTÃO UM GARRAFÃO DE VINHO E UM COPO. 3 PELA PRIMEIRA VEZ PARECE VER ALGO REAL. DIRIGE-SE DECIDIDO, EMBORA LENTAMENTE, PARA ELA. SENTA-SE, PEGA O GARRAFÃO, PASSA-O SOBRE O OMBRO E DESPEJA O VINHO NO COPO. DEPOSITA O GARRAFÃO SOBRE A MESA, TOMA DO VINHO, OLHA A PLATÉIA E FAZ UMA CARETA EM DIREÇÃO A ELA. FAZ UM GESTO DE DESCASO E TOMA NOVAMENTE DO VINHO FECHANDO OS OLHOS PARA SENTIR-LHE O SABOR. COM OS OLHOS FECHADOS MENEIA A CABEÇA COM VIGOR COMO SE TENTASSE AFASTAR UMA ALUCINAÇÃO. ABRE OS OLHOS. SUA ALUCINAÇÃO, O PÚBLICO, CONTINUA LÁ. NONOBERTO FAZ UMA EXPRESSÃO DE ENFADO. INQUERE O PÚBLICO COM UM GESTO DE CABEÇA. NONOBERTO Que querem, porca miséria? Que faz todo mundo aí, parado? Que coisa é este lugar? Uma igreja? Cadê os santos, o padre? (IRRITADO) Está bem! Vocês ficam aí e eu fico aqui. Vamos ver quem se cansa primeiro. (PAUSA EM QUE NONOBERTO ENCARA A PLATÉIA. ROMPE A IMOBILIDADE COM IRRITAÇÃO) Ma vá! Eu me canso primeiro porque não sou uma besta. Não vou ficar olhando para vocês que não existem! (ESFREGA O ROSTO, DÁ PEQUENAS PANCADAS NA CABEÇA) Esta porcaria parece radio velho! (IRRITA-SE E DÁ PANCADAS MAIS FORTES) Dái! Vamos, cabeça escorbútica! (DÁ MAIS ALGUMAS PANCADAS ATÉ QUE POR UM MOMENTO AS COISAS PARECEM CLAREAR EM SUA CABEÇA. ELE SORRI, MAS LOGO CAI NOVAMENTE EM CONFUSÃO MENTAL. OLHA PERDIDO, ALGO ENTRE PATÉTICO E CÔMICO.) Vocês estão aí, de verdade? Alguém me conhece? (CHOROSO) Se me conhece, diz, porque esta cabeça de estrume não lembra de nada! (IRRITANDO-SE GRADUALMENTE) Porca béstia, outro dia parei no meio da rua e não sei que rua. E não sei o que tava fazendo nem o que ia fazer. E não sei se estava indo ou se estava voltando! Não sabia nada! Nem pra que miséria de lugar eu ia, nem em que escrófula de lugar eu estava antes de ter saído e muito menos de onde vinha depois de ter ido! Se é que eu estava indo ou vindo de alguma bosta de lugar! (FAZ UM GESTO EM DIREÇÃO À PLATÉIA E FECHA OS OLHOS) Ma, vá! (ABRE OS OLHOS) Vocês continuam aí, eh? Está bem, fiquem. Uma hora vocês vão ter de ir embora. (SERVE-SE DO VINHO. 4 ENTRA NO PALCO UM HOMEM. NONOBERTO TENTA LEMBRAR-SE DELE.) Quem é? Eu te conheço? Você me conhece? Ma, fala alguma coisa, Dio Cristo! É conhecido? É estranho? É Antonio? Genaro? Beppe? Você é gente ou é coisa que esta porcaria de cabeça tá vendo ma não existe? (HOMEM SE APROXIMA.) HOMEM (AO PÚBLICO) Este é Nonoberto, um velho, filho de velhos imigrantes. NONOBERTO Eu sei quem eu sou! Quero saber quem são vocês, porca pipa! Vão entrando na minha casa... esta é minha casa, não? HOMEM Nasceu numa noite de julho de um ano não sabido do começo do século. Fazia um frio seco e o parto foi difícil. A velha parteira, a custo de muita oração e simpatia, recebeu do ventre da mãe uma criança inerte, arroxeando, sem sopro de respiração, nem movimento de vida. Nenhum som. A criança não estava viva... ainda; a criança não estava morta... ainda. E o tempo parou no mistério daquela indecisão e tudo tornou-se tensão, silêncio e espera: no quarto, na casa, na noite fora. (PAUSA. HOMEM OLHA PARA AS PRÓPRIAS MÃOS COMO SE ELE FOSSE A PARTEIRA E EM SUAS MÃOS ESTIVESSE A CRIANÇA. OLHA PARA O PÚBLICO, OLHA PARA NONOBERTO. O CLIMA É DE EXPECTATIVA) Então, foi aí que a viga mestra da casa rachou com estalo, estrondo de susto. O silêncio se quebrou e a vida saltou de dentro do menino pro mundo na forma de choro. E, aí, foi grito e riso. No quarto, na casa, na noite fora. NONOBERTO Cáspita, que minha vida agora é assim: gente que aparece não sei se onde, fala monte de coisa que não entendo e, como veio, vai. (PARA HOMEM) Ma, quem é você? Que quer? 5 HOMEM (COLOCA AS MÃOS SOBRE OS OMBROS DE NONOBERTO. ESTE, INCOMODADO, SACODE OS OMBROS, HOMEM AS TIRA) Nonoberto viveu muito, ouviu e guardou muitas histórias. NONOBERTO Guardei onde? Porque não lembro de nada. HOMEM As coisas, os fatos, o tempo, em sua memória, estão em pedaços. Mesmo assim ele tem muito mais coisas que nós. (NONOBERTO CONCORDA COM UM GESTO DE CABEÇA) Vale a pena dar-lhe atenção. NONOBERTO É isso mesmo! (HOMEM AFASTA-SE) Ei! Ma, aonde vai? Eu mereço atenção, porca béstia! (LEVANTA-SE E VAI NA DIREÇÃO DO HOMEM QUE SAI. SURGE A FIGURA DO PEREGRINO. É UMA FIGURA ATEMPORAL QUE TANTO PODE PERTENCER À IDADE MÉDIA COMO AO SÉCULO XX. TRAZ ÀS COSTAS UMA INFINIDADE DE COISAS. NONOBERTO PÁRA. PEREGRINO O CHAMA COM UM GESTO.) Quem é você? (ENTRAM ATORES E INICIAM O CANTO DO PEREGRINO. PEREGRINO SEMPRE CHAMANDO NONOBERTO COM GESTOS CRUZA A EXTENSÃO DO PALCO E SAI. CESSA O CANTO) CENA 1 – PARTIAMO! LANDO Lembra de nós, velho? (NONOBERTO MENEIA A CABEÇA EM NEGAÇÃO) Somos daquela história que seu pai lhe contou. NORETA Tirol, região entre Áustria e Itália, fim do século passado, lembra? Seu pai sempre contava esta história com saudade, quase alegria. 6 LANDO É, velho, recorda? Ele lembrava os montes nevados, o vale verde abaixo, as vinhas, os cantos dos pastores que ecoavam pelas montanhas, as festas. Não existia lugar como Romagnano. NORETA Ou Cortezanno. Na memória as lembranças são sempre felizes. Pra quem vive aqui, o Tirol é uma terra triste neste fim de século. LANDO Partiamo! Partiamo!, gritavam os emigrantes. NORETA Eu fico! Eu não vou! Perdi meu pai na febre de tifo, meu irmão pequeno morreu de fraqueza, a guerra ronda, a fome arreganha os dentes, rosna e morde como lobo o pouco que resta de nós, mas eu fico! LANDO Vamos, Noreta! NORETA Não vou! Tudo o que eu tenho está nesta terra. LANDO Não temos nada! E pra quem não tem nada qualquer terra é boa. NORETA A vida é um vale de lágrimas em qualquer parte do mundo. Melhor ficar, eu fico! LANDO Muita gente está indo. NORETA São loucos. LANDO Os que saem dizem que loucos são os que ficam. NORETA Então somos todos loucos! Gente pobre é sempre louca! Gente sensata faz negócios, veste roupas quentes no inverno, viaja pra lugar saudável quando vem a peste, come quando tem fome. Gente sensata pensa o que vai fazer no próximo ano e eu não sei o que vai ser da gente amanhã! 7 LANDO Então, vamos! NORETA Gente pobre é sempre louca: quando parte para o desconhecido e quando fica para a miséria que bem conhece. LANDO Vamos! NORETA Aqui tenho minha gente, minha mãe! Não! Não vou! (A NONOBERTO) Lembra esta história? NONOBERTO Lembro de nada! Meu pai me falava de um rapaz com a orelha cortada. NORETA (EMOCIONADA) Sim! Era Gino, meu filho! (ENTRA GINO COM UM PANO COBRINDO A ORELHA) GINO Eu estava na praça e apareceram aqueles homens gritando: Tirol para a Itália! Eu não quis gritar. LANDO Cortaram a orelha do menino e a raiva me subiu nos olhos. (RUFO DE TAMBOR. FORA GRITAM: TIROL PARA A ITÁLIA. CRESCE A REVOLTA DOS DOIS HOMENS.) Eu não sabia direito que coisa era a Itália. Tirol eu sei. Tirol é Tirol, minha terra. Não é pra Itália nem pra Áustria! Tirol para o Tirol. Chamei irmão, chamei outro filho, mostrei o sangue de Gino. Sangue chama sangue! (UMA VELHA VESTIDA DE PRETO ENTRA LENTAMENTE E PÁRA DO OUTRO LADO DO PALCO ONDE ESTÁ NONOBERTO. É A MAMMA. ELE NÃO PERCEBE SUA PRESENÇA) GINO Ninguém obriga um homem a falar o que não quer! LANDO Nem a calar quando quer gritar! Não vou! Fico aqui no Tirol! Tirol para o Tirol! NORETA Nós vamos, Lando! Partimos! 8 LANDO O que? Mas, Noreta... NORETA Partimos, eu disse! Tirol são meus filhos! Minha terra são meus filhos! E nem mais um pedaço dela vão tirar de mim! CENA 2 - LA MAMMA MAMMA (AO PÚBLICO) Eu sou la mamma, a mãe de Noreta. (SÓ AGORA NONOBERTO PERCEBE A MULHER. REAGE COM LEVE ESTRANHAMENTO) Sou viúva, meu marido morreu de tifo, mas isso minha filha já contou pra vocês. Outros filhos já tive, não tenho mais comigo. Alguns morreram, outros estão no mundo. Noreta já foi à igreja pedir a Virgem, já foi ao cemitério rezar pelo pai e agora vem se despedir de mim carregando pedras no coração. (NORETA CHEGA PERTO DA MÃE) NORETA Mamma, minha foto. (ENTREGA SUA FOTOGRAFIA À MAMMA) MAMMA Minha foto e a de seu pai. (ENTREGA A NORETA) NORETA Se eu morrer lá... MAMMA Vou mandar fazer uma lápide com sua foto. E quando você morrer velha, em outras terras, vou mandar enterrar no cemitério da colina. Junto da lápide de seu pai e da minha. NORETA Não vou morrer lá! Eu vou voltar, mamma! MAMMA (DURA) Não vai voltar, Noreta! É a última vez que te vejo. (NORETA DESABA EM CHORO. MAMMA A ESBOFETEIA COM RAIVA.) Não chora! (NORETA ENGOLE O CHORO) Nunca mais chore! Seu marido e seus filhos 9 precisam da tua força, do teu trabalho e não do teu choro! Agora eles são tua terra e em lugar estrangeiro só podem contar com você! Agora você é la mamma! NORETA Não vou chorar mais! (ABRAÇAM-SE. SOLTAM-SE) MAMMA E agora vai! (NORETA SAI.) E a velha mamma acompanhou a partida da filha sem gesto de despedida. E repetiu para si uma velha frase: minha terra são meu filhos. E olhou em volta e percebeu que tinha apenas uma velha irmã, um sobrinho, alguns parentes distantes. Minha terra está aos pedaços, pensou. E, então, depois de muitos anos, chorou. Um choro curto, desacostumado, que ninguém viu. CENA 3 – LA NONNA LUZ CAI LENTAMENTE SOBRE AS IMAGENS DA ALDEIA NORETA QUE DESAPARECEM. NONOBERTO Sim, lembro. Lembro tão bem que até vejo. Meu pai contava da varanda da velha casa de pedra, no pé da montanha. De lá, se via, lá embaixo, pequenina como brinquedo, a cidade, a igreja, as casas, as antenas de TV, os carros... (BATE NA CABEÇA) Ma que antena, que carro? Não tinha... Ma que cabeça! (SURGE UM HOMEM NO LUGAR ONDE O NONOBERTO DIRIGE O OLHAR. É UM HOMEM MORENO. NONOBERTO FIXA NELE O OLHAR E DEPOIS O INTERROGA, IRRITADO.) Ei! Quem é você? Um mouro? Um Mustafá? Ma que coisa faz um mouro da Sicília em Romagnano? HOMEM Que Romagnano, nonno? NONOBERTO É Cortezanno, então? Que faz, aí, no Tirol? Que faz? Você existe, mesmo? 10 HOMEM (RI) Que Tirol, nonno! Sou daqui mesmo, de Santanolímpia, nonno. Está viajando longe, de novo, nas idéias, hein? NONOBERTO (IRRITADO) Que “viajando”? Ma, some, laicon! HOMEM Não gosto que me chame de laicon. NONOBERTO (COMO CRIANÇA) Laicon, laicon, laicon, laicon! HOMEM (PACIENTE) Quer que lhe leve para casa? NONOBERTO Non precisa! Sei muito bem onde está minha casa! (PARA SI) Só não sei como chego até lá. HOMEM Addio. (NONOBERTO RESPONDE COM UM GESTO ENQUANTO SE DIRIGE À MESA. SERVE-SE DO VINHO) Assim era Nonoberto, um velho já beirando os noventa, cheio de vida mas quase vazio de cabeça, com muitas lembranças mas todas meio disparatadas pela falta de controle da razão. Um cérebro com teia de aranha, quase todo coberto pela poeira do tempo. (NONOBERTO ENVIA AO HOMEM UM OLHAR IRRITADO.) Um cômico sem intenção, um homem que perdia a consciência do mundo. E o vinho ajudava bastante. NONOBERTO Ma, some, laicon, some! (HOMEM SAI. NONOBERTO SENTA-SE, BEBE) A única consciência que Nonnoberto tinha era que ele existia. Só não sabia onde. O mundo, pra ele, era coisa que sempre mudava. Era quase somente as coisas que ele imaginava. Às vezes, ele não imaginava nada. E o mundo, as pessoas, tudo, deixava de existir. (NONOBERTO OLHA EM VOLTA ASSUSTANDO-SE) Que lugar é este? Estou morto! Outras vezes, (COMPÕE UM SORRISO E UMA EXPRESSÃO SACANA) imaginava coisas que é melhor que a gente não saiba! Às vezes, via seres esquisitos meio gente, meio animal, figuras estranhas, incoerentes, vindas sei lá de que mundo. (APONTA 11 PARA NONNA QUE ENTRA. É MUITO VELHA, CURVADA, E CARREGA UMA LAMPARINA ACESA) Ah, Dio mio! aquela, por exemplo. Parece uma coisa, uma figura saída de um pesadelo, uma alma condenada, um morador das profundezas do inferno de Dante! Vai embora! Volta pro inferno com os demônios e deixa minha alma! NONNA Fecha a boca, velho doido! Sou eu! NONOBERTO Nonna? É? E esta vela? Parece alma do outro mundo! NONNA A força acabou. E quem parece de outro mundo é você: o mundo do vinho, da grappa, da acquarole. Seu remédio! NONOBERTO Não quero! NONNA Mas vai tomar. NONOBERTO Você não pode me obrigar! (NONNA ENFIA O REMÉDIO NA BOCA DELE ENQUANTO ELE FALA) NONNA Agora toma a água. NONOBERTO Eu vou cuspir! NONNA Ma, cospe que eu quero ver! NONOBERTO (APÓS PEQUENA PAUSA) Está bem! Ma o próximo eu não tomo, está claro? NONNA Sim. (NONNA SENTA E TOMA O COPO DE VINHO) NONOBERTO Uma mulher não devia beber. NONNA Não. Não devia.(BEBE) NONOBERTO Bom, pelo menos você concorda. 12 NONNA Eu sempre concordo com tudo. NONOBERTO Ma não cumpre. NONNA Não. E assim vamos vivendo em harmonia. NONOBERTO Faz tempo que não vejo meu amigo Genaro. NONNA É claro, faz tempo que ele morreu. Quinze anos. NONOBERTO O Genaro? É verdade? E o Luigi? NONNA Morreu dez anos antes do Genaro morrer. NONOBERTO Estamos velhos! NONNA Um pouco. NONOBERTO Lembra quando esse bairro era só mato? NONNA Lembro. NONOBERTO Então, me conta porque eu não lembro. Como era mesmo aquela história do banco? NONNA Éramos pobres de não ter nem gato pra puxar pelo rabo. (NONNA LEVANTA-SE E SAI SEM QUE NONOBERTO PERCEBA) NONOBERTO E nos roubaram! Bem, mas se rouba é de pobre mesmo. Vai roubar rico pra ver a confusão que dá. (VIRA-SE E NÃO VÊ A NONNA) Nonna! Onde está? A nonna estava aqui tenho toda certeza! (PAUSA) Ao menos parte de toda certeza! (GRITA) Nonna, você estava aqui? NONNA (OFF) Não! (NONOBERTO TEM UMA EXPRESSÃO PERPLEXA. OLHA O COPO E O ENCHE DE VINHO 13 NOVAMENTE. UM CASAL DE JOVENS IRROMPE NO PALCO AO FUNDO. BEIJAM-SE) CENA 4 – PASSADO RAPAZ Acredite, eu te amo! MOÇA Não, você mente. RAPAZ Vamos, bella! Deixa eu pegar suas mãos. (SÓ AGORA NONOBERTO PERCEBE A PRESENÇA DOS DOIS. LEVANTA-SE E CURIOSO SE APROXIMA.) MOÇA Melhor não. RAPAZ Melhor, sim. MOÇA Está bem, mas só as mãos está claro? Nem pulso, nem braço. (RAPAZ PEGA AS MÃOS DA MOÇA. NONOBERTO CHEGA BEM JUNTO DELES E OBSERVA DETIDAMENTE SEUS ROSTOS. SUBITAMENTE ELE SE ILUMINA. VEM RÁPIDO EM DIREÇÃO AO PÚBLICO, FELIZ.) NONOBERTO (ORGULHOSO) Ma... sou eu! Eu a nonna quando era moça! Como se chamava a nonna? Giovanna, si, Giovanna! Era uma bela moça, brava como gata do mato, ma bela! Mas, eu também, hein? Eu era jovem, belo e potente! Mas que saudade! RAPAZ Vamos? MOÇA Já? Pra onde? Quem você pensa que eu sou? Uma mundana? RAPAZ Não! Quero só um beijo. Vamos até ali. 14 MOÇA Sim! Um beijo ali, outro lá, dois passos aqui, dois passos lá e a tarantella está feita! NONOBERTO Naquele tempo tinha respeito! (À MOÇA) Mas não precisa tanto, eh, Giovanna! Um beijo só, não custa, não tira pedaço! MOÇA Não! (RAPAZ E NONOBERTO PERGUNTAM AO MESMO TEMPO) RAPAZ/NONOBERTO Mas, por que? MOÇA Porque você não me ama. RAPAZ É claro que amo. MOÇA Você ama todas moças de Santanolímopia! NONOBERTO É que tenho um grande coração! MOÇA Muito grande pro meu gosto! Você quer um beijo? Então vai conversar com meu pai... NONOBERTO Pra que? Pra casar? Por um beijo? É muito pouco! Não aceita! MOÇA E rompe seu compromisso com Giovanna! (NONOBERTO REAGE SURPRESO) Então? Que me diz? (ENTRA GIOVANNA JOVEM) GIOVANNA Então? Que me diz, Berto? NONOBERTO Fedeu! RAPAZ Giovanna! Eu não fiz nada! MOÇA Como, não? 15 NONOBERTO (RI) É verdade, eu lembro! Pobre Berto! RAPAZ (PARA NONOBERTO) Me ajudem quem puder na terra e todos os santos no céu! NONOBERTO Calma, Giovanna, foi só um mal entendido. GIOVANNA Quieto! Eu sinto que devo rachar a cara de alguém... a sua, a sua, ou, então, a sua! NONOBERTO A minha, não! MOÇA Que decide, Berto? GIOVANNA Eu decido! Você, fora antes que eu te racho! E você, vem comigo , Berto, e me arranje uma boa explicação ou eu te arranjo coisa pior! NONOBERTO Madonna mia, que isso não quero ver... nem lembrar. (O PEREGRINO SEGUIDO POR NORETA, LANDO E ALGUNS OUTROS IMIGRANTES ENTRAM COBRINDO A CENA DE GIOVANNA, RAPAZ E MOÇA. É COMO SE FOSSE UMA FUSÃO DE IMAGENS. SIMULTANEAMENTE APARECE A MAMMA DE NORETA NO TIROL. NONOBERTO SENTE-SE CONFUSO.) NORETA A viagem... NONOBERTO Sim, a viagem... CENA 5 – A TEMPESTADE LANDO Tirol é montanha. É a solidez da pedra, a imobilidade da pedra, plantada na terra enquanto o mundo durar. Um tirolês é parte dessa pedra, tem sob os pés a imobilidade das velhas montanhas. (DESESPERANDO-SE) No entan- 16 to, aqui, sobre o mar, o vento começa a soprar forte e, debaixo dos pés, o líquido se move, salta e se enrola como serpente enlouquecida. Pela primeira vez na vida não tenho solidez da pedra, a firmeza da pedra sob os pés. Tenho medo. NORETA A tempestade. O mundo vira às avessas, o estômago vem à cabeça, e eu sou uma folha, meus filhos são uma folha, o navio é uma folha no turbilhão de vento, raio e chuva. Da miséria na terra à morte no mar. Se Deus é justo ele há de nos levar a porto seguro! MAMMA (MUITO LENTAMENTE FAZ DOIS ACENOS DE ADEUS E DEPOIS BAIXA O BRAÇO. A NARRATIVA DEVE DURAR O TEMPO DESSE MOVIMENTO.) Vou morrer dentro de cinco meses. Vou abrir os olhos durante o sono por um momento, surpresa, desprevenida e fechá-los novamente já sem consciência. Meu corpo vai ficar na cama até perto do meio dia quando será descoberto pela dona Bertina. Que raiva! O grito da escrófula vai fazer eco pela montanha como de uma louca descabelada: (GRITA ARREMEDANDO) Aiiii! La mamma morreu! Podia ser outra, eu não gosto dessa mulher! Vou ser enterrada sem muito drama. Minha hora tinha chegado. Vou morrer dentro de cinco meses, mas podem me considerar morta a partir de agora. LANDO Deus! Bendito Deus! NORETA Que Deus perdoe minha blasfêmia. Foi o medo, o desamparo de uma mulher que tem de amparar filhos e marido. (LANDO CANTA JUNTO COM OUTROS UMA CANÇÃO TIROLESA. LOGO A CANÇÃO PERDE SEU ANDAMENTO TORNANDO MAIS E MAIS RÁPIDA, DESCONTROLADA. OU MAIS LENTA. O IMPORTANTE É QUE A MÚSICA DENOTE O MEDO DA TEMPESTADE.) LANDO A tempestade se foi. 17 CENA 6 – AS TRÊS GRAÇAS ENTRAM TRÊS VELHAS ORIUNDI, AURÉLIA, IRMA E LUCIA. AURÉLIA É MAIS SISTEMÁTICA, IRMA É MAIS JOVEM E QUIETA E LÚCIA FALA PELOS COTOVELOS, RESPONDE AS PRÓPRIAS PERGUNTAS E TALVEZ ESTEJA COMEÇANDO A CADUCAR. LÚCIA Bom dia, Como vai, Nonoberto? Posso entrar? Já to entrando, já to dentro. O senhor vai bem, vai bem, eu to vendo que vai bem, eu vou bem obrigado E a saúde, vai bem? Vai, sim, to percebendo que tá rosado, bonito, Só a cabeça que continua falhando, não é? A nonna está? Não, não está. Que pena. Tem café? AURÉLIA (PARA LÚCIA) Ma cala a boca! Breca essa carroça um momento! IRMA A gente veio da reza e vai ficar um pouco aqui, Nono. LÚCIA (AS TRÊS SENTAM-SE A MESA) Quer ficar com a gente? Não, o senhor não quer, tem outra coisa pra fazer, Sabe onde ta a Nona, não, não sabe, né? Lembra, não lembra? AURÉLIA (INCONFORMADA) Ma, é próprio uma carroça carregada sem freio na ladeira! Só pára no tranco! (EMPURRA LÚCIA) Pára de gastar a cabeça do velho que ele já tem pouca. IRMA Ah, não fala assim, coitado! NONOBERTO (PARA O PÚBLICO) Não sei quem são e acho que é melhor nem saber. Não lembrar, às vezes, é uma benção! IRMA A gente pode esperar a nona sentada aqui, né? 18 NONOBERTO Si. AURÉLIA A gente pode beber um pouco de vinho, né? NONOBERTO Nó! (VAI A MESA, PEGA O GARRAFÃO E O COPO E SAI.) AURÉLIA (A NONO QUE SAI) A gula é pecado mortal. Você vai pro inferno. LUCIA Não roga praga! AURÉLIA Não é praga, é a lei de Deus. IRMA Gula é pecado venial, vai pro purgatório. AURÉLIA Mortal! IRMA Venial! AURÉLIA Vai pro inferno porque também foi avarento. Dois veniais dá um mortal. Avareza com gula vai pro inferno direto sem nem olhar o purgatório! LUCIA Quem ensinou isso? AURÉLIA Zia Maria! IRMA Zia Maria nunca disse isso! AURÉLIA Como não disse? IRMA Não disse! AURÉLIA Se não disse, devia ter dito, pronto! Ele vai pro inferno. IRMA Ma você injua, né! 19 LÚCIA Nem parece da mesma família. IRMA Nós não somos da mesma família. LÚCIA Mas temos o mesmo sobrenome. AURÉLIA Mas não somos da mesma família. Já expliquei porquê. LÚCIA Explica de novo, porque eu já esqueci. Ou então não entendi. AURÉLIA Não posso. Já não me lembro a explicação que te dei. O que sei é que não somos parentes. IRMA Essa salada de parentaiada injua, né? (PAUSA) LÚCIA/AURÉLIA Injua. (PAUSA POR FALTA DE ASSUNTO) LÚCIA Não quero mais macarrão. (AS DUAS OUTRAS SE OLHAM SEM ENTENDER.) AURÉLIA Mas onde é que tem macarrão aqui, Lúcia? LÚCIA Aqui, não. Na Itália, Aurélia. Lá é macarrão de cedo e de tarde, de cedo e de tarde, de cedo e de tarde, todo dia. Injua, né? IRMA/AURÉLIA É. IRMA (SEM ENTENDER) Mas você nasceu aqui. LÚCIA Nasci. AURÉLIA E então? LÚCIA Então, o quê? 20 IRMA Como é que você injua do macarrão que as pessoas comem, de cedo e de tarde, de cedo e de tarde, lá na Itália. LÚCIA Só de imaginar se eu tivesse lá. Aqui eu até gosto. (AURÉLIA E IRMA SE ENTREOLHAM) Meu neto tá falando em ir pra cidade. Se ele for eu também vou. IRMA Fazer o que lá? LÚCIA Mudar de vida. IRMA Nessa idade? AURÉLIA Você nunca saiu daqui, não acostuma. LÚCIA Acostumo. Lá tem prédio de vidro, tem um dilúvio de loja. IRMA Lá você vai ter de tomar leite de saquinho. LÚCIA É, mas lá tem prédio de vidro. IRMA Mas não é a mesma coisa. LÚCIA O que não é a mesma coisa? Leite de saquinho e prédio de vidro? É claro que não! Você parece caduca! (AURÉLIA E IRMA SE ENTREOLHAM) Se meu neto for, eu vou. AURÉLIA Antigamente dava pra plantar cana, café, cereais. Era todo mundo aqui na comunidade. Lembra que nossos pais diziam? Lá nos começos, plantaram o primeiro arrozal. Deu arroz que parecia a cucanha de tanto e tão graúdo. O segundo arrozal perdeu tudo. IRMA É, não veio chuva. Prejuízo feio, quase perdem a terra. LÚCIA Então porque num planta bicho da seda? AURÉLIA Mas não planta, cria, é bicho! 21 LÚCIA É claro que é bicho, você não conhece? Meu outro neto tá criando. IRMA É? Óia, que eu não sabia. LÚCIA Dá muito trabalho. Ele levava lá pra Campinas, na fábrica de tecido. Depois começou a pestiá e acabou tudo. IRMA Quem fazia isso era nossos pais, Lúcia, não é seu neto. AURÉLIA Tá caducando? (LÚCIA CAI EM SI. FICA MEIO IRRITADA) LÚCIA Caducando, não. Confundi. AURÉLIA (GRITA PARA FORA) Nono, vem conversar um pouco com a Lúcia que vocês vão se dar muito bem! (IRMA CAI NA GARGALHADA E LÚCIA CUTUCA AURÉLIA.) LÚCIA Besta! IRMA (TENTANDO CONTER O RISO COM A MÃO) Isso é pecado! LÚCIA Você injua, né? “Vó de li!” AURÉLIA Pra cidade com seu neto? LÚCIA Não, pra casa. Não me lembro mais o que queria falar com a nonna. (AS DUAS OUTRAS SE OLHAM) IRMA Nem nós. (LEVANTAM-SE AS TRÊS) LÚCIA A cidade tem muita luz, como no céu. AURÉLIA Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer! Melhor ficar na terra, melhor ficar aqui. Cidade injua. 22 IRMA Vamos cantar Mazzolin de fiori? (COMEÇA A CANTAR E PARAM. UMA OLHA PRA OUTRA.) LÚCIA Todo dia, toda hora...Injua, né? CENA 7 – OS VELHOS TEMPOS NONO ENTRA EM CENA CARREGANDO O GARRAFÃO E O COPO. SÚBITO, ELE PÁRA E CHORA, DE SOLUÇAR. NONOBERTO A pior coisa de viver muito como eu é que os amigos todos se vão. Você vive, vive, vive e, de repente, olha em volta e cadê os amigos? Cadê as casas deles? As coisas deles? As conversas? As histórias? Não tem mais! Tudo vai acabando e só fica a gente. (PAUSA, SOLUÇA) Desculpe, mas é que hoje me lembrei do Albano... (CHORO SE MISTURA COM A FALA FORMANDO UMA MASSA SONORA ININTELIGÍVEL, DRAMÁTICA E AO MESMO TEMPO CÔMICA) Morreu de repente, estourou aquele veião do coração e, pof! E lá se foi pro beleléu, moço ainda, não tinha nem oitenta. A gente era unha e carne, bunda e calça. Um homem que lutou toda vida, leal. Tinha força de cavalo e trabalhou como um! Tudo o que se vê de importante nessa comunidade tem a mão dele, mas quem se lembra? (CHORA. ENTRA A NONNA ASSUSTADA COM A GRITARIA DE BERTO) NONNA Mas que acontece, Berto? NONOBERTO Mas, me deixa! NONNA Está bem. (VOLTA-SE PARA SAIR) NONOBERTO Mas, onde vai? Não vê que eu sofro? 23 NONNA Mas, o que aconteceu, criatura? NONOBERTO Nada, pode deixar! (NONNA IRRITADA VIRA-SE PARA SAIR) Estou com saudade, estou triste. (NONNA ABRAÇA BERTO) NONNA Está triste com o quê, caro? NONOBERTO Com a morte do Albano. (NONNA NUM REPELÃO SE SOLTA DE NONOBERTO E O ENCARA PERPLEXA.) NONNA Que morte? Albano está vivo? NONOBERTO Como vivo? Agora, aqui, na comunidade as pessoas deram para ressuscitar? NONNA Está vivo e com melhor saúde e melhor cabeça que você! NONOBERTO Eu tenho certeza que ele está morto, eu vi! NONNA Que você viu eu não duvido, mas Albano está vivo! (NONNA CAI EM RISO) De hoje em diante você está proibido de ter certeza, está bem? NONOBERTO (IRRITADO) Ma, vá! Eu sofrendo, chorando de saudade, e aquele velho andando, vivo, por aí! Desgraçado! Capaz até que esteja falando mal de mim como ele gostava de fazer! Devia ter morrido mesmo, aí a gente ficava livre logo! (NONNA SE SENTA E SERVE UM COPO DE VINHO AO NONOBERTO.) NONNA Vai, bebe, que o vinho melhora suas idéias. (NONOBERTO SENTA-SE E BEBE MEIO COPO. A OUTRA METADE É BEBIDA PELA NONNA.) NONOBERTO Você tem certeza mesmo que o Albano está vivo? (NONNA ASSENTE COM UM GESTO DE CABEÇA) Vou confiar na sua cabeça, mas só por esta vez, eh? 24 NONNA Vi o neto da Ana na rua. Continua carregando aquela mesma cara de tonto dele. Está morando na cidade, bem de vida, quem diria! NONOBERTO Hoje qualquer um fica rico. No nosso tempo num era essa facilidade! NONNA Não era. Era tudo na enxada, foice, burro. Não tinha essas coisas de água encanada... quanta água já busquei no bigolo! Lembra? NONOBERTO (IRRITADO) Vagabundaiada! NONNA Quem? NONOBERTO Esses rapazinhos sem o que fazer! Sabem usar um arado? Sabem foiçar? Machadear árvore? Vagabundaiada! NONNA São outros tempos! Nosso tempo num era essa facilidade. Lembra o custo que foi botar a mata abaixo, destocar, amanhar essa terra? NONOBERTO Eu não lembro, velha, eu vejo. NONNA Vê o quê? NONOBERTO Vejo o seu pai, o velho Guidone, brigando com o burro da carroça dele. (NONNA DESATA A RIR) NONNA Como xingava o burro! Xingava em dialeto! Brigava com o burro como se o animal fosse gente. NONOBERTO (VENDO) Desceu da carroça com uma vara na mão, está conversando com o burro. (À GUIDONE COMO SE O VISSE DE FATO) Eh, Guidone, o burro é brasileiro, não entende dialeto. Como? (NONOBERTO DESATA A RIR, DEPOIS DE BREVE PAUSA, COMO SE TIVESSE OUVIDO ALGO ENGRAÇADO DE GUIDONE.) Seu pai disse 25 que o burro vai ter de aprender dialeto porque ele não vai aprender o português pra falar com o burro! NONNA Está vendo, Berto? NONOBERTO Ali, ó! Está gritando pra seu irmão vir ajudar desempacar o animal. (NONNA ASSUSTADA FAZ O SINAL DA CRUZ) NONNA Você está vendo a alma dele? NONOBERTO Que alma! Se estou vendo a alma do velho Guidone, estou também vendo a alma do burro dele! Animal não tem alma, então não é alma! NONNA Mas meu pai está morto! NONOBERTO E o burro dele também! Mas estão ali, vivos, porca miséria, eu estou vendo! Óia, lá! Seu irmão está chegando com a cara de tonho dele! NONNA (UM POUCO ALARMADA) Tem de falar isso pro médico da próxima vez, Berto. (PEREGRINO ENTRA NO PALCO E DESVIA A ATENÇÃO DE NONOBERTO. APÓS ELE ENTRA NORETA, LANDO E PASSAGEIROS DO NAVIO. NONA ENXUGA UMA LÁGRIMA. PEREGRINO SAI.) Tenho saudade do meu pai. Tenho saudade daquele tempo, quando a vida era dura, mas todos estavam vivos. (NONOBERTO TENTA SE LEVANTAR PARA IR EM DIREÇÃO À CENA DO NAVIO QUE SE FORMA MAS NONNA O RETÉM) Onde vai? NONOBERTO Lembra da família da Noreta e do Lando? NONNA Sim, meu avô falava deles. NONOBERTO Estão vindo de navio. 26 NONNA Como estão vindo? Chegaram faz mais de cem anos! NONOBERTO Mas estão ali! Eu sei lá como, Dio Cristo! NONNA Vou chamar o médico. NONOBERTO Fica comigo. NONNA Vou buscar um remédio. NONOBERTO Ma, fica! NONNA Então vou rezar o terço, tenho de fazer alguma coisa, porca miséria! To arrepiada igual como eu fico quando vejo cachorro parado, olhando e latindo pra coisa que a gente não vê. NONOBERTO Eu prometo que não vou latir! NORETA (MOSTRA OS RETRATOS DOS PAIS) A gente sai da terra pra voltar, pensa sempre em morrer no lugar que nasceu. Quando eu morrer quero as fotos da mamma e do papa na minha lápide. Não vou voltar, eu sei, mas, aqui dentro, (BATE LEVEMENTE NO PEITO) sempre vou mentir que vou voltar para o Tirol. LANDO Trouxemos nossas ferramentas, bicho da seda, mudas de uva. Às vezes passamos sede para que as pequenas vinhas tivessem o que beber. Nosso trabalho e nosso sonho são mais importantes do que nós. NORETA A vida vai ser dura, mas não vai ser triste. E o trabalho não vai dar tempo de ter saudade LANDO Não fica triste, Noreta, a gente se acostuma com a nova terra. 27 NORETA A gente não se acostuma, Lando. A gente faz a terra. Como faz filhos. NONNA Que é que está vendo, Berto? (CENA DO NAVIO COMEÇA A DESAPARECER. NONOBERTO OLHA NONNA COMO SE A VISSE PELA PRIMEIRA VEZ. PERPLEXO DIRIGE-SE À CADEIRA) Está bem, velho? (NONOBERTO A ENCARA SEM RECONHECER.) Não está me reconhecendo? Sou eu, Giovanna. (NONOBERTO TIRA O OLHAR DELA E SERVE-SE DE VINHO) Vou buscar seu remédio, caro. (SAI. NONOBERTO BEBE O VINHO.) CENA 8 – O ASSALTO DAS IMAGENS AO FUNDO NO ESCURO, AS VOZES DE UMA FAMÍLIA QUE REZA VAI AUMENTANDO GRADATIVAMENTE. NONOBERTO SE VOLTA NA DIREÇÃO DO SOM E AOS POUCOS VAI SE ILUMINANDO UMA FAMÍLIA AJOELHADA A REZAR. O PAI, QUE PUXA AS ORAÇÕES COM O TERÇO NA MÃO, ENCARA NONOBERTO E FAZ UM GESTO DE CABEÇA. PAI Vamos rezar também! NONOBERTO Eu? Não. PAI E por que, não? Se não quer rezar por que veio? NONOBERTO Eu não vim. Estou aqui há não sei quantos anos! É minha casa. Pelo menos penso que é! MÃE É um herético! A gente devia falar pra Zia Maria! (CONTINUAM A REZAR. O PAI E A MÃE À FRENTE, OS FILHOS ATRÁS. NONOBERTO, MEIO INCOMODADO, DE VÊZ EM QUANDO, DÁ OLHADELAS NA DIREÇÃO DELES. 28 PAI Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, não começa Bruno que te racho, assim na terra como no céu. (TODOS RESPONDEM A ORAÇÃO JUNTAMENTE COM BRUNO. BRUNO É UM ADOLESCENTE CAPETA QUE PROVOCA OS IRMÃOS ) BRUNO Não estou fazendo nada, papá!, nos daí hoje, perdoai nossas dividas... PAI É bom mesmo! BRUNO É sempre eu! como perdoamos nossos devedores e não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal, amém! PAI Ave, Maria, cheia de graça, o senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito o fruto de vosso ventre Jesus... (UMA DAS IRMÃS COCHILA, AJOELHADA. BRUNO INTRODUZ UM TALINHO DE PALHA EM SEU OUVIDO PROVOCANDO-LHE CÓCEGAS. A MENINA DESPERTA DO COCHILO ASSUSTADA. BRUNO ASSUME POSTURA COMPENETRADA DE QUEM REZA.) IRMÃ Ai! MÃE Mas que foi? (DÁ-LHE UM CASCUDO) IRMÃ Foi o Bruno. BRUNO Que foi que ele fez? IRMÃ Não sei, mas foi ele! (MÃE AMEAÇA BRUNO À DISTÂNCIA, ESTE PROTESTA INOCÊNCIA FAZENDO EXPRESSÕES DE INJUSTIÇADO. OS DIÁLOGOS SÃO DITOS SEM QUE O FLUXO DA ORAÇÃO SE INTERROMPA. POR ALGUNS INSTANTES A ORAÇÃO CONTINUA SEM PROBLEMAS. BRUNO COMEÇA ORA A COCHICHAR COM UM, ORA A FAZER CÓCEGAS EM OUTRO. 29 LENTAMENTE O PAI VAI DESAFIVELANDO O CINTO E SEMPRE REZANDO LEVANTA-SE E VAI SE APROXIMANDO DO MENINO QUE NADA PERCEBE. SÚBITO, DESCARREGA UMAS CINTADAS NO GAROTO. O GAROTO GEME, A MÃE E OS OUTROS FILHOS AUMENTAM O VOLUME DA ORAÇÃO.) PAI Cala-te! Sem choro! (MENINO ENGOLE O CHORO. PEGA O MENINO PELA ORELHA E O LEVA ATÉ A FRENTE. DÁ-LHE O TERÇO) Toma! Agora você puxa o terço! Segundo mistério doloroso. (O GAROTO SOLUÇANDO PROSSEGUE O TERÇO.) BRUNO No segundo mistério doloroso contemplamos a flagelação, a dor da flagelação, as chicotadas que Jesus levou por ordem de Pôncio Pilatos. (BRUNO AO FALAR O NOME DE PÔNCIO PILATOS FAZ EXPRESSA REFERÊNCIA A SURRA QUE SEU PAI LHE DEU. NONOBERTO IRROMPE EM GARGALHADA. A FAMÍLIA SUSTA A REZA E OLHA PARA NONOBERTO COM AR DE CENSURA. ENCARA COM O MESMO AR O PÚBLICO. QUANDO SE RESTABELECE O SILÊNCIO A FAMÍLIA RETOMA A REZA.) MÃE Gente herética! (PEREGRINO SURGE E FAZ UM GESTO DE CHAMAMENTO A NONOBERTO, ENTRAM OUTROS PERSONAGENS. NONOBERTO OLHA A TODOS, PERPLEXO. FAZ UM GESTO PARA AFASTÁ-LOS. OS PERSONAGENS LENTAMENTE DESAPARECEM.} CENA 8 – LA CUCAGNA UM SANFONEIRO ENTRA EM CENA, SENTA-SE A UM BANQUINHO E TOCA. A IMAGEM É DE “AMMARCORD”, DE FELLINI. NONO AINDA PERPLEXO APENAS ESCUTA. EMOCIONA-SE COM A MÚSICA, MAS 30 NADA DE LÁGRIMAS OU ALGO MUITO EXPLÍCITO. OUTRAS PESSOAS ENTRAM NO PALCO E LOGO ESTÁ FORMADO O CLIMA DE FESTA COM COMIDA E CANTO. TALVEZ A REPRESENTAÇÃO DE ELEMENTOS DA FESTA DA CUCAGNA. NONOBERTO ATRAÍDO PELA FESTA E PELA ALEGRIA LEVANTA-SE DE SUA CADEIRA E APROXIMA-SE DA FESTA. CARREGA SEU COPO VAZIO. ALBANO, CARREGANDO UM GARRAFÃO DE VINHO DO QUAL NÃO SE SEPARA, ABRE OS BRAÇOS E VAI ENCONTRO DE NONOBERTO.) ALBANO Nonoberto! (NONOBERTO PÁRA INDECISO. NÃO SABE SE É APENAS UMA IMAGEM DE ALUCINAÇÃO) Não me reconhece? Sou eu, Albano! (NONOBERTO ABRAÇA-O) NONOBERTO É você, mesmo! Está vivo! ALBANO Mais ou menos. Velho nunca está completamente vivo inteiro! (RI) NONOBERTO Por que a festa? ALBANO Porque não se pode ficar muito tempo sem festa! Mulher fica nos nervos e homem amargura! NONOBERTO Essa gente nova mal conheço. ALBANO Nossa comunidade cresceu. Não é mais aquela de antes. Mas, vamos pra festa. Onde está seu copo? NONOBERTO Será que o remédio que eu tomo não vai fazer mal pra bebida? ALBANO Prova! (SERVE. NONO PROVA O VINHO E O APROVA SATISFEITO) NONOBERTO Não, o remédio não estragou o gosto. 31 ALBANO Ótimo! É o melhor vinho que fiz nos últimos anos! Espera, você pode beber, não? NONOBERTO Nunca sei se posso, mas não devo ou se devo, mas não posso! Vinho é água da vida e nunca matou ninguém. (ALBANO ENCHE O COPO DE NONOBERTO.) ALBANO É verdade. O que mata muito é o fígado! Vamos. (OS DOIS ENTRAM NA FESTA. NONOBERTO É RECEBIDO COM MUITA EFUSÃO. AS PESSOAS CANTAM E DANÇAM. NONO ALEGRE SE EMBRIAGA, MAS ISSO NÃO ALTERA MUITO SEU COMPORTAMENTO OU VOZ. ELE APENAS TORNA-SE MAIS ALEGRE E FALANTE.) O nono vai contar a cucagna! (AS PESSOAS SE JUNTAM AO REDOR DO NONO. ENTRA A NONA.) NONNA Berto! Você não devia beber! NONOBERTO Não devia, mas podia! NONNA Nenhum dos dois! ALBANO Deixa, Giovanna. Ele está bem. NONOBERTO A cabeça está boa e o vinho está bom. NONNA Madonna mia! Acabamos de vir do médico. Não falo mais nada porque não sei se o problema é a cabeça dele ou o vinho. A cabeça eu não posso tirar e o vinho eu não consigo! NONOBERTO Então, escuta! NONNA Lavo minhas mãos. NONOBERTO Meu pai falava que cucagna é um lugar. Lá tem tudo de bom e de graça. O vinho, queijo, peixe, pão, tudo dá em árvore e as árvores nascem do chão sem precisar plantar. 32 Lá tudo é fartura, alegria e festa. Quaresma lá dura três dias e o carnaval dura o resto do ano. MULHER Coisa herética! Lá não se reza? NONOBERTO Sim. Só que lá não se reza pra pedir, só pra agradecer. ALBANO E lá se morre, Berto? NONOBERTO É claro. E todos os que morrem vão pra Deus. Menos um. Chamava-se Giglio. (ENTRA GIGLIO PARA A REPRESENTAÇÃO DA HISTÓRIA CONTADA POR NONOBERTO. OBVIAMENTE NENHUM PERSONAGEM O VÊ. ELE E OS OUTROS NARRAM DIRETAMENTE PARA O PÚBLICO) GIGLIO É verdade, eu sou Giglio. E é, também, verdade que estou morto. No entanto, eu ando, aqui, entre os vivos. FRANCESCA É verdade, eu sou testemunha, eu vi! Eu via a Marina, alegre, andando pelas ruas, conversando com o coitado do Giglio que, morto, a seguia. Eu falava com as pessoas “Não está certo! É pecado contra Deus!.” Todo mundo do lugar sabia que aquilo não era certo. Um dia fui falar com ela. (ENTRA MARINA) É pecado, Marina! Deixa que ele se vá. Ele está morto! MARINA Eu sei. (PARA O PÚBLICO) Eu soube naquela noite de verão quando o vento quente me trouxe, junto com o cheiro de terra e de flores, a certeza que Giglio estava morto. Corri, corri, corri pelos caminhos e, antes de qualquer um, vi o corpo dele deitado atravessando a estrada. E vi que o cavalo que o havia derrubado pastava ao lado da pedra assassina onde ele bateu a cabeça. Não vi uma gota de sangue e prendi no coração todos os gritos do mundo. Minha paixão pediu que Giglio se levantasse. 33 GIGLIO Eu ouvi o pedido da paixão dela que era também a minha paixão. E não pude recusar. Ergui-me, morto, e, morto, permaneço junto daquela que amo. FRANCESCA Ma, não pode Marina. É contra a natureza, é contra Deus! MARINA Como a paixão que Deus me deu pode ser contra Deus? FRANCESCA Você sabe. Deixa que Giglio vá. MARINA Eu sabia. O coração gritou e se cortou mil vezes antes que eu perguntasse: “Giglio, você quer ir pra Deus?” GIGLIO (SOFRENDO DE PAIXÃO) Eu lhe peço, Marina, ”não me pergunte” porque tenho medo de responder que quero ir. E se Deus me perguntar se eu quero ir para ele, eu direi: “Eu lhe peço, Deus, não me pergunte, porque tenho medo de responder que quero ficar!” (MARINA CHORANDO ABRAÇA-SE A GIGLIO E ABRAÇADA À ELE FAZ A ORAÇÃO DA ENTREGA. UMA ORAÇÃO DOLORIDA E ENTRECORTADA.) MARINA Eu, Marina, entrego à Deus neste momento o meu Giglio, pois sei que ele não me pertence mais. E peço, Deus, que dê à minha vida um sentido tão grande quanto grande foi esse amor por mim sentido. (SEPARA-SE DE GIGLIO E AFASTA-SE LENTAMENTE.) FRANCESCA Mas Deus não lhe deu nada tão intenso como aquela paixão. Só lhe deu força para que ela própria buscasse. (LUZ CAI SOBRE OS PERSONAGENS NA NARRATIVA. SOBE NA FESTA.) ALBANO E como a história acabou? NONOBERTO Acabou assim. Ninguém sabe o que ela fez da vida. Só se sabe que ela viveu muito e viveu feliz. Assim é o amor em Cucagna. 34 MULHER E a Cucagna fica no Tirol, Nono? HOMEM Fica em Romagnano, Cortezanno, onde? (AS PESSOAS DISCUTEM A LOCALIZAÇÃO DA CUCAGNA ENQUANTO NONO É ATRAÍDO E APONTA PARA ALGO QUE NÃO VEMOS.) ALBANO Que foi, Berto? NONOBERTO Lá! Aquela casa de pedra que meu pai falava... ALBANO É a igreja de Santanolímpia. NONOBERTO Não, do lado. ALBANO Não tem nada...(SURPRESO) Que coisa! Giuseppe, que coisa é aquela do lado da Igreja? NONOBERTO E a montanha lá no fundo! GIUSEPPE Ma, que cazzo está fazendo uma casa de pedra ali? (AS PESSOAS FIRMAM A VISTA E VÊEM ALGO SEM ENTENDER MUITO O QUE VÊEM.) NONOBERTO Aquele! Aquele é Giglio, o morto, junto com Marina. GIUSEPPE Onde? NONOBERTO Está passando em frente do portão da sua casa. GIUSEPPE Ma, que coisa está acontecendo? O mundo está virando do avesso? É um milagre? NONNA Ma, que milagre! É o vinho! Ou é a cabeça de vocês. ALBANO Estamos todos bêbados ou loucos. Ma, isso é muito estranho. E belo! 35 NONNA (INCOMODADA) Vamos, Berto. (SEGURA BERTO PELO BRAÇO E O CONDUZ PARA SUA CADEIRA. AS PESSOAS AINDA FICAM UM MOMENTO ESTUPEFATAS, MAS AOS POUCOS VOLTAM À FESTA COMO SE A IMAGEM QUE VIRAM SE DESVANECESSE. NA PASSAGEM DE BERTO E NONNA ELES CRUZAM COM O PEREGRINO QUE SORRI PARA NONOBERTO. A FESTA TERMINA COM O SANFONEIRO SOZINHO TOCANDO.) CENA 9 – LAICON NONNA CONDUZINDO NONOBERTO CHEGA ONDE SE ENCONTRA A MESA. NESSA CONDUÇÃO OPEROU-SE UMA PASSAGEM DE TEMPO. NONNA Abre! (NONOBERTO ABRE A BOCA COM UMA INTERJEIÇÃO DE MÁ VONTADE.) Não me faz má-criação que te enfio um rícino goela abaixo! (NONNA PÕE UM COMPRIMIDO EM SUA LÍNGUA.) É o remédio que está melhorando sua cabeça. Já está até reconhecendo que eu sou sua mulher. NONOBERTO (RESMUNGA) Grande vantagem! NONNA Que disse? NONOBERTO Nada! NONNA Continua vendo coisas? (SURGE ZIA MARIA E FIXA NONOBERTO COM SEVERIDADE.) NONOBERTO Não. NONNA É bom, porque está todo mundo comentando aquela festa! Tem gente jurando que também viu as coisas que você 36 disse ter visto. Tenho de sair, volto logo. Você fica bem? E pára de ver coisas, está certo, caro? (NONOBERTO ASSENTE. NONNA SAI. NONO RI E DIZ A ZIA MARIA.) NONOBERTO Ela pensa que posso fechar a cabeça como fecho os olhos! (ZIA MARIA NÃO ESBOÇA REAÇÃO. O LAICON QUE PASSA CARREGANDO UMA MALA CHAMA A ATENÇÃO DE NONOBERTO. ZIA MARIA PERMANECERÁ CALADA E PARADA ATÉ O MOMENTO DE SUA INTERVENÇÃO.) NONOBERTO Ei, Laicon! LAICON Nono, eu já falei que não gosto... NONOBERTO (COMO CRIANÇA) Laicon! Laicon! Laicon! Laicon! (LAICON DEPÕE AS MALAS.) Onde vai? LAICON Estou indo embora desse lugar, mas antes vou dizer... NONOBERTO Vai dizer nada! E vai embora pra onde? LAICON Prá qualquer lugar. Aqui não fico mais! Me chamam de Laicon. Vê se isso é mão de vagabundo, mão calejada de roça, de lidar com boi. NONOBERTO Nunca lidei com boi. Gostava mais da terra. Vai ter uma festa, não sei qual... Você vai? LAICON Estou indo embora, Nono! Vocês falam de mim, mas nunca vi gente pra gostar de festa igual vocês. É festa da polenta, festa de Nossa Senhora não sei das quantas, festa do milho, festa do nono, festa da chuva, festa da seca, festa da festa! E eu é que sou Laicon? NONOBERTO É, você é Laicon. 37 LAICON Cantam, dançam, enchem a cara de vinho, brigam, riem e depois vão todos pra igreja rezar. Pra que tanta reza? NONOBERTO Não sei. Acho que é pra agradecer o vinho, o riso. Acho que a gente agradece até as brigas que são a animação da festa. De onde você é? LAICON Lá do sertão. NONOBERTO Não fica perto do Tirol, não? (LAICON RI) Meu pai falou que quando a gente morre a alma fica andando, muito tempo, lá no campo estrelado do céu procurando o caminho do paraíso. (PAUSA) Porca miséria! Meu pai andou do sertão do Tirol pra cá, andou durante toda vida aqui em Santanolímpia e é capaz de estar andando, até hoje, lá no meio das estrelas. Porca miséria, que deve estar com os pés que não agüenta! LAICON (RI) Porque o senhor está me dizendo isso, Nono? NONOBERTO E eu sei? Do que é que a gente tava falando? LAICON (RI) Eu estava falando que estou voltando prá minha terra. NONOBERTO Ma, dái, que além de Laicon você é uma grande besta! LAICON O senhor me respeite! NONOBERTO Lugar bom é a terra que a gente vive ou a terra que a gente vai viver. Não aquela que a gente volta! A gente anda é pra frente, pra frente, pra frente! (SURGE O PEREGRINO QUE SORRI AO NONO. ESTE SE IRRITA.) E se junta com aquele ali que também deve ser um laicon. Só fica andando pra lá e pra cá, com um sorriso idiota na cara, e até hoje não vi pegar uma enxada! LAICON (RI) Quem, Nono? 38 NONOBERTO (SE AFASTANDO) Laicon! Laicon! Laicon! Laicon! (LAICON IRRITADO PEGA DE NOVO A MALA.) LAICON Tchau, Nono. (NONO NÃO RESPONDE. LAICON DÁ ALGUNS PASSOS NA DIREÇÃO QUE IA E PARA. PENSA UM INSTANTE E RETORNA E SAI. RESOLVEU FICAR.) CENA 10 – ZIA MARIA ZIA MARIA Lembra de mim? NONOBERTO Como, não? Pessoas como a senhora, Zia Maria, a gente pode gostar ou não gostar, mas respeita. E não esquece. Zia Maria, a nossa catequista... A senhora está morta, não? ZIA MARIA Estou, Berto. NONOBERTO Graças a Deus! (SE RETRATA) Não, graças a Deus, não, o que quero dizer é que... Eu me lembro que a senhora morreu... a gente sentiu, chorou muito... e se a senhora me aparece e diz que ta viva eu não ia entender mais nada! A senhora me entende, não? (ZIA MARIA SORRI EM ASSENTIMENTO) Ainda bem, minha cabeça ainda está nos eixos! Pelo menos um pouco. (NONOBERTO PROCURA ALGO PELO PALCO.) ZIA MARIA Aonde vai? NONOBERTO Preciso de um copo de vinho. ZIA MARIA Eu não aprovo. NONOBERTO Eu também não, principalmente o doce. Mas o seco...(ZIA MARIA SORRI ABRANDANDO A SISUDEZ. NONO EN- 39 CONTRA NO CHÃO, O GARRAFÃO JUNTO A UM COPO. SERVE-SE.) ZIA MARIA Você continua o mesmo. Olho prá você e ainda vejo aquele menino. Você daria um bom padre, mas não quis cumprir a promessa que sua mãe fez à Virgem. NONOBERTO Eu quis, até ia para o seminário, mas me apareceu a Giovana, Giovanina, nova, bela, com aqueles olhos claros dela e a vocação, (SOPRA) “fffff”, ventou! E eu não descumpri, troquei! ZIA MARIA E que troca você fez? NONOBERTO Disse à Virgem que se ela me liberasse da promessa que minha mãe fez de me mandar para o seminário eu prometia que meu filho seria padre. ZIA MARIA E ele foi? NONOBERTO Não, mas agora o problema de desfazer a promessa é dele. Acho que ele também trocou! (ZIA MARIA RI, MAS SUBITAMENTE SE EMOCIONA) ZIA MARIA Tenho medo, Berto. NONOBERTO Medo de que? Nunca imaginei que Zia Maria tivesse medo. ZIA MARIA Todos temos medo, Berto. Nossos pais tinham medo de deixar o Tirol, do mar, da terra estranha, da língua estranha, das leis e dos costumes estranhos que os faziam trabalhar até a última gota de suor e cansaço. Tinham medo da espoliação, do dia de amanhã vazio de pão e repleto de incertezas. NONOBERTO Eram pobres. E, como dizia meu pai, pobres são todos iguais perante a lei. 40 ZIA MARIA Quando eu ainda vivia tinha medo da seca que ameaçava os grãos, os frutos, da chuva continuada que apodrecia as raízes, dos raios, das febres. Mas nossa comunidade era forte, unida, como uma pequena aldeia do Tirol. E agora... NONOBERTO E agora? ZIA MARIA E agora os tempos são outros. Uma outra moral, outros costumes, o mundo está entrando em nossa comunidade! NONOBERTO Mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer. ZIA MARIA Hoje, nem o dialeto se fala mais. A comunidade está acabando, Berto. NONOBERTO (BEBE) Talvez as coisas sejam assim mesmo, Zia. Meus filhos não ensinaram o dialeto a meus netos e o começo de tudo, Romagnano e Cortezanno, vai ficando cada vez mais distante. ZIA MARIA Às vezes, à noite, quando percorro essas nossas ruas tão conhecidas, eu, invisível como o vento, sem substância como o ar, choro sem voz, mas dói. Dói pela saudade do tempo que vivi e pelo medo do que vai ser. Um dia as velhas histórias vão acabar e Santanolímpia não vai ser nem lembrança. NONOBERTO (TENSO) Não fala assim! ZIA MARIA Mas é assim, Berto. NONOBERTO Por que veio? Por que veio me atormentar? ZIA MARIA Não vim atormentar, o tormento é meu, Berto. Vim buscar resposta. 41 NONOBERTO Que resposta quer de mim? Sou só um velho já sem muita cabeça e com um tempo cada vez menor. O que pulsa aqui dentro, eu sinto, é só um pequeno sopro, já sem força... (ZIA MARIA SOLTA UM SUSPIRO E VOLTA-SE PARA SAIR. NONOBERTO SE AGITA, TENSO.) Zia! (ZIA MARIA SE VOLTA. NONOBERTO DIZ, FORTE.) Eu não sei, Zia! Não sei essas respostas! O que sei é o que meu pai me ensinou: beber vinho e viver. O vinho bom é o próximo, o dia melhor é o seguinte! Porque sabemos fazer o vinho e sabemos fazer o dia seguinte! Porque migrante é isso, gente que sabe fazer coisas. Nossos pais saíram do Tirol e construíram Santanolímpia. Se Santanolímpia acabar, se a gente quiser, fazemos outra. ZIA MARIA Tem certeza, Berto? NONOBERTO Acho que tenho. Acho que nossa comunidade não é essa terra, nem o dialeto, nem mesmo o Tirol. É coisa que não sei o que é mas que está riscado lá dentro e vai aonde a gente for. ZIA MARIA Tem certeza? NONOBERTO Tenho, Zia. Há muitos anos você está morta, mas a comunidade ainda sopra viva em seu espírito. (ZIA SE AFASTA.) Descansa em paz, Zia Maria. ZIA MARIA (SORRI) Descansa em paz, Berto. NONOBERTO Estou mesmo precisado. (ZIA MARIA SAI. AO FUNDO FORMA-SE UMA PROCISSÃO RELIGIOSA. NONOBERTO BEBE E SEU OLHAR AOS POUCOS TORNA-SE AUSENTE. NONNA RETORNA.) NONNA (DESESPERADA) Vinho! Você achou o vinho! NONOBERTO Foi Zia Maria que me deu! 42 NONNA Desde a festa que o médico proibiu! Não sei mais onde esconder, não consigo mais cuidar de você, Berto! Estou velha, cansada! Isto não é vida! (NONOBERTO OLHA A NONA COM UMA EXPRESSÃO AUSENTE.) Berto? Não está me reconhecendo? Está bem? É claro que está, se está com vinho está bem. (SENTA-SE CANSADA) NONOBERTO Você... eu não sei quem você é. NONNA (SENTIDA) É claro! É bom depois de todos esses anos ouvir isso! NONOBERTO Posso pegar sua mão? NONNA Pega, ela tá aqui sem fazer nada mesmo! (DÁ-LHE A MÃO) NONOBERTO A cabeça está vazia de qualquer coisa, mas uma coisa eu sei, eu sinto que tenho um grande sentimento por você. Vê! (TRAZ A MÃO DELA ATÉ O PEITO DELE) Meu coração pulsa, pulsa, pulsa, pulsa... e vai continuar pulsando. NONNA Meu caro. Eu sou Giovanna, Berto. NONOBERTO Giovanna? (AUSENTE, MAS SEM TIRAR A MÃO DA NONNA DE SEU PEITO) Uma bela palavra. (FORA A PROCISSÃO SE TRANSFORMA EM FESTA. NONOBERTO SE AGITA) Que barulho... NONNA É a festa! (NONOBERTO TENTA LEVANTAR-SE) Não! Nessa você não vai! A minha grande rival sempre foi a uva, fermentada e envelhecida, chamada vinho! (A FESTA ESPALHA-SE PELO PALCO E VEDA DO PÚBLICO A VISÃO DA NONNA E DE NONOBERTO. CANTA-SE, DANÇA-SE, BEBE-SE. UM RAPAZ COM O COPO NA MÃO CAI DE COSTAS DURO E BÊBADO. NONOBERTO E NONNA DESAPARECERAM DE CENA. DUAS MULHERES DANÇAM E CANTAM, MEIO BÊBADAS.) 43 ALBANO (SEGURA O BRAÇO DE GIUSEPPE E FIXA UM PONTO COM O OLHAR) Giuseppe! Não vou dizer o que é. Só quero saber se você está vendo o mesmo que eu? (GIUSEPPE FIRMA A VISTA E ARREGALA OS OLHOS) GIUSEPPE Marco, venha cá! (UM RAPAZ APROXIMA-SE) MARCO Que é? (GIUSEPPE APONTA COM A CABEÇA. O RAPAZ ARREGALA OS OLHOS.) GIUSEPPE Não mente! O que está vendo lá no fundo? MARCO Bebi demais! (AS PESSOAS DA FESTA OLHAM NA MESMA DIREÇÃO E ARREGALAM OS OLHOS. A LUZ CAI E SOBRE O PÚBLICO NO TETO DA PLATÉIA, AOS POUCOS, ACENDEM-SE MIRÍADES DE PEQUENAS LUZES COMO UM CÉU ESTRELADO. OS ATORES, DISPERSOS ENTRE O PÚBLICO NARRAM A CUCANHA.) Aqui é cucanha, entre a montanha e o vale, entre o rio limpo e a cidade em paz. Aqui ouvem-se apenas os ecos dos risos, os gritos são de alegria e os gemidos são aqueles que os apaixonados não conseguem conter. Os corpos aqui andam nus e se abraçam em prazeres fundos e risos inocentes Aqui se escolhe o que sonhar à noite e que sonho viver no dia seguinte. As uvas vertem vinho, as crianças têm os olhos secos de lágrimas, as mães nunca perdem seus filhos, amantes não se separam. 44 O trabalho aqui é arte e prazer. Há cinqüenta anos, todos os dias, um homem pinta o mesmo e mais belo quadro já visto no mundo. E não sabe quando vai terminar. Aqui se anda muito e não se chega nunca a lugar algum. Porque é bom andar na cucanha, vagabundear, encontrar os amigos, conversar por cima dos muros e tomar vinho sem pressa. Aqui, agora, coberto pelo céu de luzes é a cucanha; um lugar que existe entre o coração e a alma; um lugar que descobrimos, mergulhamos e levamos aonde formos. Aqui não é o céu, é a terra. É um lugar que Deus inspira, o homem faz e Deus, vendo tal criação, a abençoa uma única vez. E para sempre. (VOLTAM A LUZES. MARCO LEMBRA-SE E EXCLAMA.) Nonoberto! Ah, meu Deus! A nonna me mandou trazer um recado, faz três horas! Vim correndo, mas no meio da festa comecei beber e esqueci! GIUSEPPE Esqueceu o que? Fala! MARCO Faz três horas. Nonoberto como sempre não falava coisa com coisa, mas ria e se divertia muito. Como sempre a nonna resmungava com Nonoberto e Nonoberto tomava vinho, Então, ele disse: Giovanna é uma bela palavra, a nonna xingou e ele não disse mais nada. (CHORA) Debruçou sobre a mesa, sem força, como quem morre. Nonoberto é morto! (AS PESSOAS FICAM PARADAS E REINA O MAIS ABSOLUTO SILÊNCIO. MARCO COMPLETA COM CONVICÇÃO.) Nonemorto! (ATORES COMEÇAM A CANTAR “Mazzolin di Fiori”, MAS NUM ANDAMENTO MUITO LENTO QUASE COMO SE FOSSE UM CANTO GREGORIANO. NONOBERTO RECEBE A LANTERNA DO PEREGRINO E SE PÕE EM 45 MOVIMENTO. SIMULTANEAMENTE A ISSO LANDO E NORETTA CHEGAM AO PORTO.) NORETTA Mil oitocentos e oitenta e um. Chegamos ao porto de Santos. Não há aqui nenhuma pessoa que eu conheça, nenhuma paisagem que eu já tenha andado, nada que seja meu. LANDO O mar ficou para trás, Tirol ficou pra trás e não sei o que tenho a frente. NORETTA (POR UM TEMPO RESPIRA PROFUNDAMENTE E COM DIFICULDADE COMO SE FOSSE ENTRAR EM CRISE NERVOSA. SEGURA A EMOÇÃO.) Endurece, coração, e diz para meus olhos secarem, porque eu não vou verter nem uma lágrima! (AOS POUCOS SE ACALMA ENQUANTO FALA AO CORAÇÃO) Devagar, meu coração, devagar... devagar... (OLHA PARA LANDO E DIZ FIRME) Vamos, Lando! LANDO (FIRME) Vamos! NORETTA Filhos, vigas, paredes, caminhos. Eu crio o mundo e você constrói nele, Lando! FIM Ribeirão Pires, 14 de abril de 2.000 Qualquer utilização deste texto, parcial ou total, deve ter a autorização do autor: Luis Alberto de Abreu Rua Rui Barbosa, 33 09400-000 – Ribeirão Pires – SP Telefone: (0xx11) 4828-7230 e-mail: [email protected]