Hugo Silveira Pereira * A acção social, desportiva e cultural da Fábrica do Carvalhinho requerendo à Câmara a transformação do barracão de madeira da fábrica em construção sólida(6), e a vincar posição no mercado, exibindo já um alto nível de qualidade na sua produção cerâmica. Fábrica Cerâmica do Carvalhinho(1) Fundação no Porto A Fábrica Cerâmica do Carvalhinho foi fundada em 13 de Novembro de 1841(2) na “misteriosa e fantasmática”(3) Quinta da Fraga (situada entre a Calçada da Corticeira e o Passeio das Fontaínhas) por Tomás Nunes da Cunha e António Monteiro Cantarino, tendo adoptado como firma Thomaz Nunes da Cunha & Cª. Instalou-se na Capela do Senhor do Carvalhinho (que deu o nome à empresa), enquanto o forno e as oficinas funcionavam em alguns barracões anexos à fábrica. Por esta altura, a sua produção era modesta, não deixando antever o sucesso que no futuro viria a obter. Em 1848, encontramos a fábrica associada ao depósito de louças da Rua da Esperança. Era liderada por Rocha Soares e empregava na altura “vinte operários e doze a dezasseis menores”(4). Em 1853, compra a Quinta do Carvalhinho(5), começando a expandir as suas instalações fabris, 1 MARTINS, 1984. 2 Arquivo Distrital do Porto Po 5, 7ªs., 21, 79v-80v (instrumento de sociedade entre Thomaz Nunes da Cunha e António Monteiro Cantarino), citado em LEÃO, 1999: 232. O padre Romero Vila aponta para o ano de 1840, contudo sem especificar a data exacta (VILA, 1980: 17). 3 SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 71. 4 SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 71. 5 LEÃO, 1999: 232. 12 | Em 1869, Tomás Nunes da Cunha torna-se único proprietário da empresa(7), passando a firma comercial a Thomaz Nunes da Cunha, se bem que continuasse a ser conhecida no mercado como Fábrica de Louça e Azulejo do Carvalhinho. Uma factura-recibo de 1870 além de comprovar aquela transformação jurídica, exibe também a variedade da produção do Carvalhinho: azulejos, telhas, figuras e pinhas para adorno de jardim, louça e vasos. Em 1878, um ano depois de ter solicitado a construção de um edifício de armazéns e habitação junto ao rio(8), Tomás Nunes da Cunha entrega a fábrica ao seu genro João Camilo Castro Júnior. É sob a sua liderança que o Carvalhinho participa, em 1882, na Exposição de Cerâmica da Sociedade de Instrução do Porto, obtendo diploma de mérito em faiança de 2ª classe e na secção de azulejos. Alguns anos depois, João Camilo Castro Júnior dá sociedade a António Neves Dias de Freitas, sendo a firma alterada para Castro Júnior e Dias de Freitas(9). O filho de António Neves Dias de Freitas, António Augusto, toma a direcção técnica da fábrica. 6 SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 71. 7 ADP Po 1º, 4ªs., 709, 46v-48 (escritura de dissolução de sociedade entre Thomaz Nunes da Cunha e António Monteiro Cantarino), citado em em LEÃO, 1999: 233. Romero Vila, Teresa Soeiro, Silvestre Lacerda e Joaquim Oliveira apontam para o ano de 1868, mas não especificam fontes (SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 71 e VILA, 1980: 17). 8 SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 71. 9 O que terá acontecido em 1891 ou 1894, segundo a opinião, respectivamente, de Romero Vila (VILA, 1980: 18 e VILA, 1987: 38) e Manuel Leão (LEÃO, 1999: 233), Teresa Soeiro, Silvestre Lacerda e Joaquim Oliveira (SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 72). Destes autores, apenas Manuel Leão sustenta com citação de fontes a sua pretensão (ADP, Po 2, 558, 29v-31v – escritura de sociedade comercial entre António Neves Dias de Freitas e João Camillo de Castro Júnior lavrada a 2 de Maio de 1894 – citado em LEÃO, 1999: 233). Em finais de 1899(10), aquela sociedade é dissolvida, assumindo António Nunes Dias de Freitas o seu activo e passivo. A. N. Dias de Freitas & Filhos é a nova firma. É com os Dias de Freitas que o Carvalhinho se torna um grande centro cerâmico. Os empresários ampliam as instalações da fábrica, munem-na de operários de competência especializada e notável qualidade e colocam à sua disposição tecnologia apurada; em consequência, a produção cresce em quantidade e qualidade: a fábrica “era vasta, bem montada, vendendo muito e sendo a primeira do Porto por fabricar azulejos para paredes” (11). É nestas condições que o Carvalhinho participa novamente em exposições cerâmicas onde vê reconhecido o seu mérito: em 1897, na Exposição Industrial Portuense, obtendo novas menções honrosas; e em 1901, na Exposição de Cerâmica do Palácio de Cristal, obtendo Diploma de Medalha de Ouro. No início do século XX, a empresa continuaria a beneficiar da introdução de melhoramentos na produção (a ampliação das instalações e a modernização da parte técnica são requeridos à Câmara em projecto apresentado em 1911(12)), atingindo um alto nível de produção artística e distinguindo-se na produção de “faiança de vidrado estanífero e faiança de vidrado plumbífero” (13). Estavam assim reunidas as condições para que o Carvalhinho se tornasse uma das maiores marcas cerâmicas de Portugal. No entanto, isso só viria a acontecer em Gaia, onde António Augusto Pinto Dias de Freitas se preparava para construir um grande complexo fabril que sucedesse à fábrica da Fraga. Em Gaia, a fábrica conheceria o sucesso mas também a morte e o esquecimento. Glória e Morte em Gaia “A Fábrica Cerâmica do Carvalhinho do Porto (…) tornou-se, no período áureo do seu desenvolvimento, no volume das suas peças e na grandeza da sua laboração e expansão fabril com a sua passagem da cidade Invicta para terras de Gaia, no ano de 1923, num respeitável e rico centro cerâmico de expressiva e perfeita obra barreira no País”(14). António Augusto Pinto Dias de Freitas, à medida que ia visitando outros complexos cerâmicos no estrangeiro, ia solidificando a ideia de construir uma fábrica de cerâmica moderna em Portugal(15). Esse desejo era motivado pelas carências evidenciadas pela fábrica da Fraga (falta de instalações suficientemente amplas e modernas para renovar a sua maquinaria e contratar pessoal especializado) e pelas exigências do mercado, que procurava cada vez mais os produtos Carvalhinho. Assim, Dias de Freitas procurou em Vila Nova de Gaia um terreno para edificar as novas instalações. Gaia era já uma localidade famosa pela cerâmica, com muitas fábricas e operários e artistas cerâmicos de qualidade; aí, na segunda metade de Oitocentos, o fabrico de azulejo de revestimento conhecera um grande impulso com a Fábrica Cerâmica das Devesas. Desta tradição cerâmica se aproveitaria o Carvalhinho que dela retiraria parte do seu sucesso – “a forte tradição que a cerâmica criou neste lado do Douro criou um ambiente favorável à continuação desta indústria”(16). A escolha recairia na Quinta do Arco do Prado, terreno adquirido à família do Conde das Devesas, à via-férrea, situado a algumas centenas de metros da Estação das Devesas, na Rua José Falcão, n.º1(17). Em finais de 1922 iniciava-se a construção do novo complexo fabril, segundo modelos de cerâmicas inglesas e alemãs. A nova empresa A. Pinto Dias de Freitas, Lda. dotaria a fábrica de Gaia das mais modernas instalações e tecnologia da época, deixando os artigos de cerâmica de decoração e de construção de ser produzidos segundo métodos tradicionais para passarem a ser fabricados com técnicas e maquinismos mais especializados e modernos, que resultavam numa obra mais perfeita e mais de acordo com a imaginação de uma “segunda geração de cerâmicos” (18) e também de muitos operários que, com o Carvalhinho, cruzaram o Douro. 10 ADP, Po 2, 587, 3v-4v, citado em LEÃO, 1999: 233. 11 VASCONCELOS, José de – Notas, citado em VILA, 1980: 18. 12 SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 72. 13 GIRÃO, Luís Ferreira – Estudo sobre a indústria cerâmica na 1ª Circunscrição dos Serviços Técnicos da Indústria. Lisboa: Imprensa Nacional, 1913, pp. 20-21, citado em MARTINS, 1984:456. 14 VILA, 1987: 37. 15 Cf. MARTINS, 1984: 458. 16 LEÃO, 1999: 237. 17 Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia , C/C.04.01/Pt.5. 18 LEÃO, 1999: 230. Dezembro de 2009 | 13 Primitivas instalações do Carvalhinho em Gaia (19) Este investimento redundaria, a partir de 1930, num aumento em quantidade e qualidade da produção: bengaleiros, floreiras e fruteiras a imitar os modelos antigos, louça sanitária, louça doméstica eram fabricados no Carvalhinho que optou por não apostar na especialização na produção de um determinado artigo – a sua maior originalidade e mérito assentou precisamente na “alta perfeição da arte decorativa, beleza dos motivos escolhidos, desenho correcto, colorido variado e harmonioso, sentido perfeito de composição” (20) , que tornavam os seus produtos distintos dos demais e, ainda hoje, procurados por antiquários, comercializados em leiloeiras e preservadas em colecções particulares. Prato (22) Garrafa (23) Gomil em faiança (21) Também na produção de azulejos decorativos o Carvalhinho atingia a excelência. Na fábrica de Gaia, a tradição na produção de mosaicos foi continuada e aperfeiçoada com novos padrões e motivos, atingindo uma fama nunca antes conhecida. Entre 1930 e 1960, foram adquiridas na fábrica vastas superfícies de azulejos Carvalhinho que cobriam pavimentos e pare- 19 AMVNG, L/E.04.01/Pt.36, Doc. 56 (adaptado). 20 MARTINS, 1984: 464. 21 Leiloeira S. Domingos. 22 Leiloeira S. Domingos. 23 Leiloeira S. Domingos. 14 | des de edifícios públicos e privados. Nesta área o Carvalhinho contou com artistas talentosos: Paulino Gonçalves pintou e espalhou painéis de azulejo em todo o Norte do país; Francisco Macedo pintou os painéis da Câmara de Espinho, do Colégio de Nossa Senhora da Bonança, da Igreja de Vilar do Paraíso e da capela de S. João Baptista de Vilar do Paraíso; Fernando Gonçalves destacou-se pelos painéis do escadório do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios em Lamego; outros nomes se destacaram nesta actividade azulejadora reservada aos homens – as mulheres dedicavam-se à pintura de louça decorativa, destacando-se aqui a obra de Adriana Correia ou Maria Natália Soares Leitão. Neste campo, a Fábrica do Carvalhinho também se notabilizou na produção de réplicas de azulejos seiscentistas e setecentistas, para o que dispunha de excelentes oficinas e exímios artistas, que percorriam o país, recolhendo os padrões desses azulejos em vários solares, palácios e conventos de Portugal. Painel do Santuário dos Remédios – Lamego (24) Deste modo, o Carvalhinho seguiu a senda deixada em aberto pela Fábrica Cerâmica das Devesas, fazendo de Vila Nova de Gaia o centro nacional de produção de azulejos e de louça decorativa. Contudo, enquanto a Fábrica das Devesas decaía sem poder administrativo após o abandono de Teixeira Lopes (Pai) da gerência, a Fábrica Cerâmica do Carvalhinho modernizava-se e tomava, sozinha, a “vanguarda das empresas nacionais” (25). Tornava-se um centro de imensa produção cerâmica e de manifestação artística e um perfeito laboratório industrial, cuja qualidade e renome se espalharam pelo país (aproveitou ao máximo a proximidade da via-férrea) e estrangeiro (exportações em crescendo para Inglaterra e EUA e presença em 24 Foto do autor. 25 GOMES, 1983: 49. exposições internacionais na Europa e América): ‘Carvalhinho’ torna-se uma marca no mundo dos artigos de cerâmica e, “apesar de sofrer influências de outras fábricas de Portugal e do estrangeiro, a fábrica conseguiu através do mérito dos seus artistas produzir um artigo específico” (26). No entanto, o volume do investimento realizado trouxe graves dificuldades financeiras à empresa, carecendo esta de um rápido reforço de tesouraria, que, contudo, muitos dos sócios não queriam promover, considerando que a firma tinha já absorvido muito do seu dinheiro. A solução passou em 1930 pela associação da Fábrica do Carvalhinho à Real Fábrica de Louça de Sacavém, empresa que gozava de um grande prestígio (“a mais importante do país no fabrico de faiança fina com processos semelhantes aos usados em Inglaterra, França e Alemanha” (27)) e que passou a dominar a unidade vilanovense – a sede do Carvalhinho (agora Fábrica Cerâmica do Carvalhinho S.A.R.L.) transferiu-se para Sacavém sob a direcção de Herbert Edward Over Gilbert, ficando António Augusto Pinto Dias de Freitas como sócio-gerente na unidade de Gaia – em 1953 ainda se mantinham os dois sóciosgerentes: Herbert Gilbert e António Augusto Pinto Dias de Freitas(28); um amigo pessoal dos Freitas, o Dr. Fiel Viterbo, desempenhava um importante papel de intermediário entre as duas empresas. Desta operação o Carvalhinho sairia altamente beneficiado. A cerâmica conheceria então a sua idade de ouro com renovação de instalações e modernização de processos, mantendo-se a qualidade dos seus produtos, a categoria dos seus artistas e a exportação de artigos cerâmicos – apenas um senão: os modelos não conheceram qualquer evolução, mantendo-se o uso de formas já conhecidas (pratos, cachepots, terrinas, vasos, bengaleiros, canecas, etc.). Em 1940 é comemorado o centenário da fábrica e, de facto, havia bons motivos para festejar: o Carvalhinho continuava a produzir e a vender (patenteando um “elevado grau de progresso industrial, artístico, económico e organizativo, fabril e técnico” (29)), empregava muitos empregados e ceramistas e mantinha elevado o seu padrão de qualidade – o investimento justifi26 MARTINS, 1984: 464. 27 LEPIERRE, Charles – Estudo Chimico e Techonologico sobre a Ceramica Portuguesa Moderna. Lisboa: Imprensa Nacional, 1899, p. 105 citado em MARTINS, 1984: 462. 28 AMVNG, L/E.04.02/Pt.73, Proc. 926/53. 29 VILA,1987: 38. Dezembro de 2009 | 15 cava-se e mantinha-se atractivo, de modo que, em 1948, procedeu-se à ampliação das instalações da fábrica, “de forma que melhor possa corresponder ao desenvolvimento atingido pela, sob vários pontos de vista, notável organização que o mesmo [edifício] acolhe” (30); e num aditamento à empreitada, apresentado à câmara em 1949, foi pedida e autorizada a construção de uma sala de exposição no interior das novas instalações, sinal do orgulho que os seus gerentes sentiam na sua obra. Em 1956, procedem-se a novos investimentos: a cobertura do pavilhão de fornos, em telha marselhesa e assente sobre estrutura de madeira é substituída por uma outra em fibrocimento assente sobre estrutura metálica. Era o início de um projecto de longo prazo que pretendia substituir as coberturas da totalidade das instalações (31), mas que tinha como finalidades imediatas dotar as instalações de uma cobertura incombustível e duradoura, eliminar a falta de segurança que se verificava na estrutura do pavilhão de fornos e melhorar a mobilidade dentro do mesmo pavilhão (já que também se eliminaram os pilares intermédios aí existentes). Ainda desse ano data a construção de um armazém (que se prolongou até 1959) destinado à arrecadação de vários materiais da sua indústria – o importante neste projecto, contudo, são os dois aditamentos para ampliação da área do armazém, sinal do reconhecimento da exiguidade da área inicialmente projectada e também do sucesso que o Carvalhinho então conhecia(32). Novas instalações (34) Armazém(35) Laboratório (36) Novas instalações(33) Oficina de escolha de azulejo (37) 30 AMVNG, L/E.04.02/Pt.73, Proc. 973/48. 31 Como consta de requerimento apresentado (AMVNG, L/E.04.02/ Pt.73, Proc. 594/56). 32 AMVNG, L/E.04.01/Pt.224, Arq. 2283/59. 33 AMVNG. 16 | 34 AMVNG. 35 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p. 36 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p. 37 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p. indispõe-se com ele e Sellers acabaria por sair em 1965. Neste ano, os dois irmãos Pinto de Freitas (António Almeida e Manuel Almeida) adquiriram à Fábrica de Sacavém a sua parte no capital da empresa(41) – em Abril o Carvalhinho volta para as mãos exclusivas dos Pinto de Freitas – e conseguem incluir a cerâmica na AFA (Acordo de Fabricantes de Azulejos), sendo que já pertencia à UCEL (União Cerâmica Exportadora, Lda.)(42). Oficina de Pintura (38) Logótipo do Carvalhinho (43) Secção de fornos (39) No virar da metade do século, as instalações do Carvalhinho eram únicas em Portugal, quer em grandeza, projecção industrial, mestria e modernidade da produção, quer em volume de vendas para Portugal e para o estrangeiro. Contudo, a segunda metade de Novecentos não foi tão aprazível para a Fábrica do Carvalhinho. A empresa debater-se-ia com conflitos internos após a morte do seu segundo fundador nos inícios de 1958 e não mais veria gestores da cepa de António Augusto Pinto Dias de Freitas, entrando em decadência a partir de meados da década de 60 e sofrendo uma morte lenta desde o 25 de Abril até ao final do século XX. Assim, o primeiro grande golpe sofrido pela Fábrica do Carvalhinho ocorreu na Epifania de 1958 com a morte de António Augusto Pinto Dias de Freitas. O lugar deixado em aberto foi ocupado por Frederick Warren Sellers (que já ocupava um cargo de gerência pelo menos desde 1953(40)) e António de Almeida Pinto de Freitas (filho de António Augusto Freitas). Sellers era um homem respeitado e considerado pelos trabalhadores (que o homenagearam em 1964 pelo seu 50º aniversário), mas António Almeida de Freitas 38 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p. 39 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p. 40 AMVNG, L/E.04.02/Pt.73, Proc. 926/53. Entretanto, os produtos da fábrica obtinham êxito na I Exposição de Materiais de Construção do Porto, realizada no Palácio de Cristal em 1966 (44) . Os dois irmãos tentaram dar novo impulso à fábrica através de uma política de investimentos (aquisição de equipamento fabril para suprimir mão-de-obra e reduzir os custos de fabrico) baseada na colaboração com firmas estrangeiras (45), apercebendo-se que a fábrica não conseguia acudir a todos os pedidos de material que lhe eram feitos e que era necessário enquadrá-la numa conjuntura internacional e não somente de mercado nacional (46). Em 1967 foi estabelecido um acordo com a firma Villeroy & Boch Mettlach – Sarre (a maior produtora mundial de produtos cerâmicos) para apoio técnico, melhoria da qualidade da produção, aquisição de novos equipamentos e expansão das exportações (47). No ano seguinte iniciou-se a ampliação do equipamento tecnológico da fábrica (48), sendo construído ainda um novo pavilhão e ampliada a zona de moldagem de forma a atender ao incremento da produção 41 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1965. 42 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1965. 43 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1965-1970. 44 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1966. 45 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1966. 46 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1969. 47 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1967. 48 Fornos contínuos, automatização da carga e descarga de produtos, prensas automáticas, máquinas de vidrar e máquinas de decorar por serigrafia para o fabrico de azulejos; para o fabrico de loiça sanitária vitrificada, novos edifícios para fabrico e armazenamento, construção de um forno contínuo e linha automatizada de vibração das peças. FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO,1969. Dezembro de 2009 | 17 (49) . Viviam-se tempos promissores (apesar de os lucros obtidos nestes anos se destinarem ainda à dívida contraída na década anterior), de que é prova a abertura em 29 de Julho de 1968 da filial do Carvalhinho em Lisboa (50) e inclusivamente a maior qualidade dos relatórios anuais da empresa (fotos e capa em papel fotográfico). O novo forno (53) Aspectos das novas instalações da fábrica (54) Aspecto da filial de Lisboa (51) A montagem dos novos equipamentos findava em finais de 1969 (o investimento total ascendia a 11 480 contos), sendo estes inaugurados no ano seguinte por autoridades do poder central e local. No entanto o investimento, “ao contrário do previsto e das garantias dadas pelos seus fornecedores estrangeiros” (52), trouxe grandes dificuldades técnicas e o aumento de produção previsto teve de ser adiado. Em consequência, foi necessário contrair um empréstimo junto da Caixa Geral de Depósitos para pôr em prática o plano de aumento da produção. 49 AMVNG, L/E.04.02/Pt.587, Proc. 1156/68. 50 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1968. 51 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1968-1969. 52 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1970. 18 | Apesar de os seus produtos continuarem a ser procurados em Portugal e no estrangeiro, a fábrica passa por dificuldades financeiras extremas. Para esta situação contribuíram também dois factores exógenos à administração da fábrica: por um lado, o Carvalhinho passava a ter de lidar com uma forte concorrência interna movida por novas empresas cerâmicas; por outro lado a década de 70 foi marcada pelo advento do plástico que determinou o desinteresse do mercado pela cerâmica funcional e artística. Não se pode também esquecer “o condicionalismo industrial que vigorava no Estado Novo, onde o lobby da Vista Alegre impedia a criação de novas fábricas de porcelana. Este material era pretendido pelas cerâmicas do Porto e Gaia para substituir a faiança, que era menos robusta e económica. Mas a oposição da fábrica de Ílhavo impediu a renovação técnica das empresas portuenses e condenou-as à decrepitude face à concorrência do pirex e plástico” (55). O Carvalhinho passou assim a ser cobiçado por investidores imobiliários que desejavam cons53 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1969-1970. 54 MARTINS, 1984. 55 Cerâmica do Douro: do Passado Molda-se um Novo Futuro, 1996. truir nos estratégicos locais das empresas. Num último recurso foram colocadas à venda partes da propriedade da Quinta do Arco do Prado onde se tinha instalada a fábrica em 1923, mas a operação foi interrompida e resultou em nada. Os capítulos finais do Carvalhinho, enquanto fábrica cerâmica, escrevem-se em Maio de 74 – a fábrica, já numa fase de decadência irreversível, é adquirida em hasta pública por Serafim de Andrade. A nova gerência tentou o impossível: fazer ressurgir o Carvalhinho, mas as intransponíveis condições do mercado interno – que os novos proprietários provavelmente desconheciam – impediram qualquer tipo de ressurreição da fábrica. Três anos volvidos, em 1977(56), a Fábrica Cerâmica do Carvalhinho encerrava as suas portas, 137 anos após a sua abertura. As suas instalações mantinham-se de pé, mas desprovidas do seu funcionalismo industrial. Durante alguns anos, na propriedade do Carvalhinho funcionou um pequeno mercado de víveres e calçado, que satisfazia o consumo local dos moradores de Coimbrões. Esse seria o último uso que seria dado ao Carvalhinho. Quando lá se deixou de realizar o mercado, o abandono foi então completo. Ao antigo complexo fabril, pouco mais restava fazer do que... envelhecer, virtualmente abandonado à sua sorte desde o encerramento da fábrica. Nos 25 anos seguintes, o edifício do Carvalhinho foi decaindo aos poucos, chegando ao final do século XX num estado lamentável. A degradação da Fábrica do Carvalhinho (57) Na viragem do século, os terrenos da Quinta do Arco do Prado foram incluídos num projecto de urbanização da área(58) e de ligação rodoviária entre a Ponte da Arrábida e a auto-estrada para Espinho. Em consequência, as instalações do Carvalhinho foram totalmente arrasadas, à excepção da sua chaminé, que será a breve trecho definitivamente absorvida por um grande complexo urbano e não mais continuará a dominar a paisagem de Vila Nova de Gaia pela sua altura e imponência. As palavras de Romero Vila, infelizmente, vão deixar de reflectir a realidade: “A arrojada chaminé que coroa o lugar do forno distingue-se, ainda hoje, das demais que existem no denso aglomerado industrial, armazéns, estabelecimentos industriais e fábricas congéneres de Coimbrões, gigantescamente alta. Parece enorme figura de atleta que vai ficando na cauda da corrida que inicialmente foi fulgurante, isolado e exangue, sem conseguir reaver forças que despertem as fortes e antigas na capacidade da laboração, impressionando apenas pela sua descomunal estatura.” (59) Acção social, desportiva e cultural No seio da Fábrica do Carvalhinho, desenvolveuse uma vasta acção social, desportiva e cultural dirigida aos seus trabalhadores, baseada quer na criação de condições materiais de trabalho, quer na promoção de actividades de desporto e lazer entre os seus funcionários, à luz do corporativismo do regime e da política de ocupação dos tempos livres do operariado protagonizada pela FNAT (Fundação Nacional para a Alegria no 56 Cerâmica do Douro: do Passado Molda-se um Novo Futuro, 1996. 57 VILA, 1980: 19. 58 Projecto “Gaia Nova”, apresentado pela Câmara Municipal e pela construtora e promotora do empreendimento como “a nova centralidade de Gaia” e o futuro “novo centro empresarial do concelho”. MARQUES, 2004. 59 VILA, 1987: 38. Dezembro de 2009 | 19 Trabalho). Assim, nos investimentos realizados nas infra-estruturas da fábrica foi dada muita atenção à boa iluminação, ao aquecimento geral, ao uso de máscaras para purificação do ar nos locais mais sujeitos à silicose e à qualidade das condições de trabalho em geral (por exemplo, o pessoal dos fornos passaria a contar desde 1940 com chuveiros e lavatórios para seu bem-estar e higiene). Além disso o Carvalhinho concedia uma semana de descanso paga a todo o pessoal e fornecia os fatos de trabalho. Tinha também um plano de assistência médica promovida pela Casa do Pessoal (fundada em Janeiro de 1940) e liderada pelo Dr. Roland Van Zeller, que, num posto médico situado nos terrenos da fábrica, concedia consultas bissemanais, serviços diários de enfermagem e injecções e medicamentos (grátis segundo as edições do Carvalhinho, pagas, segundo Guilhermina Pinho) para os operários e prestava assistência às mães, que tinham direito a 20 dias de férias pagos. Aspecto do refeitório (61) Aspecto do refeitório (62) O posto médico do Carvalhinho (60) A Casa do Pessoal procedia também à distribuição de sopas ao pessoal desde Março de 1941, serviço que evoluiu mais tarde (Junho de 1946) para o fornecimento de uma refeição diária a preço económico na cozinha e refeitório construídos (e ampliados em 1945). A cantina era uma casa separada da fábrica, mas segundo Guilhermina Pinho a sopa era descontado no ordenado. Contudo, não se conseguiu apurar se o preço da refeição vinha efectivamente descontado ou se o que Guilhermina Pinho realmente quis dizer era que o salário era tão baixo que parecia que o preço da sopa era lá descontado. 60 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p. 20 | Além disto, a Fábrica do Carvalhinho possuía uma pequena casa da eira onde eram arrecadados os produtos agrícolas cultivados numa parcela da sua propriedade e que se destinavam ao consumo na cantina do pessoal da fábrica – e era um projecto de sucesso: em 1945, os responsáveis da fábrica viram-se obrigados a elevar o muro da fábrica de 0,8 metros para 2 metros de forma a impedir as investidas dos amigos do alheio à casa da eira63; em 1953, a casa da eira foi mesmo ampliada dada a deficiência de espaço do edifício coevo. Além da ampliação, o responsável da obra Reinaldo Pereira da Silva foi também incumbido de erguer uma dependência para abrigo do carro de bois64 e de voltar a elevar a vedação não só por causa dos assaltos, “mas também pelos danos causados por pessoas que, mesmo sem ser para furtar, abusivamente, a qualquer hora do dia e da noite, transpõem o muro para, algumas vezes, até à vista do próprio pessoal da Fábrica, com completa ausência de decoro, ali satisfazerem as suas necessidades”65. A estas preocupações foi aliada uma importante actividade lúdica iniciada em 1936 (com a criação da Secção Desportiva do Carvalhinho 61 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p. 62 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p. 63 AMVNG, L/E.04.02/Pt.73, Proc. 518/45. 64 AMVNG, L/E.04.02/Pt.73, Proc. 926/53. 65 AMVNG, L/E.04.02/Pt.73, Proc. 46/53. por um dos directores da fábrica, Manuel Pinto de Freitas), de acordo com a regulamentação da FNAT, com a qual pactuou desde o início66 e incentivada a partir da Casa do Pessoal. Emblema (69) Manuel Pinto Freitas, fundador da Secção Desportiva (67) A FNAT era um órgão do Estado Novo que visava controlar os tempos livres dos trabalhadores, preenchendo-os com actividades “sadias” que assegurassem o desenvolvimento físico e moral dos trabalhadores e que se adequassem à ideologia do regime, que repudiava os lazeres tradicionais, o desporto profissional e os bailes como irradiadores de devassidão. Quanto à Secção Desportiva, “iniciámos esta secção, correspondente a uma modalidade importante das obras sociais, no intuito de contribuir para o robustecimento físico dos nossos operários e para amenizar as distracções nas suas horas de ócio. Assim foi construído um campo de jogos, e fomenta-se a prática de desportos vários: gimnástica (sic), natação, atletismo, jôgo (sic) do pau, basket-ball, volley-ball, foot-ball, hand-ball, etc.” (68). O campo de jogos começou a ser construído em 4 de Fevereiro de 1939, depois de lançada a primeira pedra em 28 de Outubro de 1938, estando completo em 4 de Maio de 1939. Na altura da inauguração (2 de Julho de 1939), dispunha de um campo de jogos de basket-ball(70) e voleibol, relvado para ginástica, pista de cinza para corridas, caixa de saltos, círculo para lançamentos, trapézio e argolas. Inauguração do campo de jogos( 71) Inauguração do campo de jogos (72) 66 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p. 67 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p. 68 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p. 69 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: capa. 70 AMVNG, L/E.04.01/Pt.44, Doc. 15. 71 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p. 72 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: capa. Dezembro de 2009 | 21 A Direcção na inauguração do campo de jogos (73) Alguns anos depois o pessoal da fábrica contaria com uma piscina e uma casa-club (onde ficariam instalados a Casa do Pessoal, os vestiários, balneários, secretaria, sala de reuniões e arrecadação) e a partir de 1968 com um novo pavilhão desportivo(74) Planta topográfica da Quinta do Arco do Prado com indicação do campo de jogos (75) ou de intercâmbios desportivos com diversas empresas e entidades (Fábrica de Louça de Sacavém, Empresa de Cimentos de Leiria, Polícia de Gaia Polícia de Segurança Pública do Porto, Engenheiros Reunidos, Armazéns Ferreirinha, Fábrica Portuguesa de Balanças, Fábrica da Vista Alegre, Empresa Electro-Cerâmica do Candal, Feminino A. C., etc.), obtendo alguns resultados prestigiantes: segundo lugar no campeonato do Porto de 1938 em basquete feminino, primeiro lugar no campeonato concelhio de Vila Nova de Gaia e no campeonato distrital do Porto e segundo lugar no campeonato nacional, os três de 1946). Às modalidades referidas anteriormente, juntar-se-iam ainda em 1939 a ginástica feminina (algumas das praticantes chegaram a usufruir de um estágio de 15 dias à beira-mar na colónia de férias da FNAT em S. Martinho do Porto(77)) e em 1941 o pingue-pongue (cujas equipas participavam periodicamente nos campeonatos da FNAT e organizavam concursos com outros rivais). A Secção Desportiva regia-se por princípios rigorosos concordantes com a orientação da FNAT: “observância escrupulosa das leis da ordem, do respeito e da disciplina convicta do que vale o desporto como força social que deve ser; ensinar a fazer sport por sport, de bom humor, sem paixões exageradas, sem ressentimentos e a encarar as competições como estímulo para aperfeiçoamento e nunca como pleitos para criar inimizades e malquerenças; fazer com que correntes de ar sadio, boa alegria e saúde atravessassem as camadas operárias da Fábrica; contribuir para a perfeição física e moral dos seus agrupados sendo ao mesmo tempo pelo exemplo e pela propaganda a precursora de uma vasta organização de carácter corporativo de largos reflexos na vida dos trabalhadores portugueses; e fomentar entre o pessoal o gosto pelas práticas sadias da vida ao ar livre, tendo em conta que a classe operária tem andado tão arredada dos caminhos da força e da saúde”.(78) A Casa do Pessoal (76) Nos anos seguintes as diversas equipas realizavam partidas mais ou menos frequentes no âmbito de torneios corporativos da FNAT 73 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: capa. 74 AMVNG, L/E.04.02/Pt.5, Proc. 1156/68. 75 AMVNG, L/E.04.02/Pt.5, Proc. 1156/68. 77 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p. 76 MARTINS, 1984. 78 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p. 22 | Dirigente da FNAT premeia desportista do Carvalhinho - Artur Anselmo (FNATPorto) (79) Equipa de ginástica na colónia de férias - Colonia (AccaoDesportiva) (80) No entanto, nem sempre estes princípios eram respeitados, tal como indicia a experiência de Guilhermina Pinho. De facto a sua ligação ao Carvalhinho começou pelo basquetebol feminino, ainda antes de se tornar operária na fábrica. Foi convidada pelo filho do empregado mais antigo do Carvalhinho a jogar basquetebol (na altura teria cerca de 20 anos de idade, sendo além de robusta – uma “maria-rapaz” nas suas palavras e portanto uma mais-valia para a equipa – uma jovem bonita), mas como perdia dinheiro com a deslocação até à fábrica, pediu um lugar na empresa a um dos directores da fábrica, tendo sido admitida como roleira de estamparia. Guilhermina Pinho refere ainda o episódio do exame clínico exigido aos membros da Secção Desportiva. Lembra-se de dizer ao Dr. Van Zeller que a sua mãe batia nos filhos por jogarem à bola e agora ele ia pôr a filha a jogar, ao que Van Zeller terá retorquido: “Se quer trabalhar... Se não quiser trabalhar não joga à bola”. Estes relatos pessoais, que indicam que na Secção Desportiva se via o desporto como mais do que um simples meio de distracção dos trabalhadores, parecem ser corroborados, involuntariamente, pelas próprias publicações do Carvalhinho. De facto, nestas é visível que o plantel das várias modalidades era quase sempre composto pelas mesmas pessoas (pelo menos ao nível das modalidades masculinas), provavelmente os melhores atletas; e se isto seria compreensível ao nível do basquete masculino, cujo número de aficionados era tal que permitia realizar torneios internos (81), já não o é tanto para as restantes modalidades. As próprias edições comemorativas do centenário da fábrica e dos dez anos da Secção Desportiva não se coíbem inclusivamente de referir que um dos treinadores da equipa de futebol fora o atleta olímpico Carlos Alves (de referir que a Selecção Nacional de futebol participou, por convite, nos Jogos Olímpicos de 1928, realizados em Amesterdão) e de publicitar orgulhosamente os troféus conquistados ao longo dos anos. Voltando ao testemunho de Guilhermina Pinho, ela refere também situações em que o desportivismo e a prática do “sport pelo sport” eram inexistentes. Além disso, segundo a sua memória, a sua carreira laboral na fábrica terminou no momento em que deixou de praticar basquete, por imposição do seu marido. A equipa feminina de basquete (à direita Guilhermina Pinho) BasqueteFeminino (82) 79 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p. 81 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p. 80 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p. 82 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p. Dezembro de 2009 | 23 Troféus do Carvalhinho (86) Basquete masculino (83) Por outro lado, contudo, o facto de a Secção Desportiva aparentemente não contar com apoios por parte da gerência (a nossa entrevistada não se recorda de a gerência apoiar as equipas, nem tão-somente de financiar a mera deslocação dos desportistas) parece indicar que a fuga aos princípios ideológicos gizados na FNAT partia da própria Secção Desportiva e não da direcção. No entanto, aquela ausência de apoios é desmentida nas publicações da fábrica, se bem que outra coisa não seria de esperar. Segundo estas, a gerência da fábrica também contribuía para as suas despesas e recompensava no Natal o bom comportamento, assiduidade e disciplina dos praticantes com oferta de cabazes natalícios e com uma cerimónia na qual a Gerência “aconselhava os praticantes a honrarem a camisola e a corresponderem às atenções dos seus superiores” (87). Actuação da equipa de ginástica (84) Elvira Freitas, esposa do director, distribuindo brinquedos no Natal (88) Equipa de pingue-pongue (85) 83 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p. 86 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p. 84 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p. 87 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p. 85 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p. 88 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p. 24 | Passeio ao Douro (91) Festa de Natal - FestaNatal (89) A acção da Secção Desportiva enriqueceu-se com a Casa do Pessoal, “cabeça orientadora de todas as nossas actividades” (90) criada para complementar os projectos desportivos com outros de índole cultural e recreativa e contribuir para a formação física, cultural e moral dos que serviam a fábrica. Os seus principais colaboradores eram José Gaspar Miranda Júnior, Augusto Beirão, Luís Filipe e Roland Van Zeller. Pactuando com a Delegação do Porto da FNAT, transformouse oficialmente num dos Centros de Alegria no Trabalho. Em 1945 a FNAT escolheu a Fábrica do Carvalhinho para realizar o seu I Serão Cultural e Recreativo para Trabalhadores, que se realizou a 11 de Junho de 1945 e a que assistiram as autoridades do concelho de Gaia e do Porto, alguns convidados e todo o pessoal e famílias (participaram na festa a Orquestra Popular da FNAT do Porto e alguns artistas da rádio, sendo o espectáculo radiodifundido pela Emissora Nacional). No seio da Casa do Pessoal foram depois formados um grupo coral (Secção Cultural) e um grupo recreativo (Secção Recreativa). O primeiro, dirigido por Raul Casimiro chegou a ser composto por 80 membros de ambos os sexos, que tanto faziam exibições de urdidura clássica como de popular. O segundo, a cargo de Augusto Beirão e Luís Filipe, dedicava-se à arte do teatro. Os seus membros faziam os seus próprios adereços e eram responsáveis pela encenação das peças, que todos os Natais subiam ao palco para entreter pessoal da fábrica e seus familiares. Finalmente, a acção da Casa de Pessoal completava-se com o patrocínio de excursões. O corpo coral (92) O palco da fábrica (93) Espectáculo de variedades (94) 91 Foto cedida por Guilhermina Pinho. 92 Foto cedida por Guilhermina Pinho. 89 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p. 93 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p. 90 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p. 94 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p. Dezembro de 2009 | 25 Conclusão FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b – Primeiro Centenário 1840- 1940. Porto: Tipografia Costa Carregal Este trabalho além de pretender evocar um importante complexo fabril do Norte do País remetido ao esquecimento e lançar novas hipóteses de investigação sobre a acção da FNAT e do (in)cumprimento do seu plano ideológico ao nível do desporto, pretendia também alertar para a situação em que se encontra actualmente o parque industrial cerâmico de Vila Nova de Gaia, que apesar de ser um dos traços identificadores da cidade está praticamente ao abandono. FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946 – X Aniversário da Secção desportiva da Fábrica de Carvalhinho: 1936-1946. Da Fábrica Cerâmica do Carvalhinho apenas existe a sua chaminé, tendo as suas demais instalações sido demolidas há alguns anos atrás para dar lugar à construção de dois prédios de habitação. Mais antigas, as cerâmicas das Devesas e sua área envolvente (bairros operários e outros edifícios da época e do mesmo estilo) estão a ir pelo mesmo caminho, igualmente abandonadas ao envelhecimento. Entretanto, o aguardado museu da cerâmica tarda em aparecer e a ser instalado, por exemplo, num desses mesmos edifícios, ficando assim a cidade privada de um espaço que evoque a sua história e a sua identidade recente. Nas palavras de Costa Gomes: “Pois apesar de termos sido o expoente máximo do mundo da cerâmica (…), ainda não possuímos um museu de cerâmica, o que é muito grave, pois denota um total desprezo por todo um passado cheio de glória (...). Desde as fábricas do Cavaco e Vale da Piedade, Afurada e Senhor de Além, Fervença e Agueiro, Devesas e Valente, Carvalhinho e Soares dos Reis até às do Candal e Valadares, quantas peças dignas de figurarem nesse futuro museu! Algumas não só de são possuidoras de raro valor etnográfico, como também são de uma graça ingénua (...) A louça artística, tão bela na suavidade do seu colorido e na elegância dos seus desenhos, da qual teremos de destacar aqueles pratos de parede com figuras de meninos nus, a lembrarem Rubens, foram quase todos para aos Estados Unidos” (95). Fontes e bibliografia FONTES Depoimento de Guilhermina Pinho [falecida em 2007]. FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a – A Fábrica do Carvalhinho: acção desportiva. Porto: Tipografia Costa Carregal 95 GOMES, 1983: 46-49. 26 | FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1965-1970 – Relatório e Contas. Vila Nova de Gaia Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia – C/C.04.01/Pt.5. Idem – L/E.04.01/Pt.36. Idem – L/E.04.01/Pt.44. Idem – L/E.04.01/Pt.224. Idem – L/E.04.02/Pt.5. Idem – L/E.04.02/Pt.73. Idem – L/E.04.02/Pt.587. BIBLIOGRAFIA Cerâmica do Douro: do Passado Molda-se um Novo Futuro. “Jornal de Notícias”. (25 de Outubro de 1996). GOMES, J. Costa, 1983 – Azulejaria Gaiense – sua expansão e existência. “Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia”, Vila Nova de Gaia: Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. II, n.º 15 (Novembro), pp. 45-50. KUIN, Simon, 1999-2000 – Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho in Dicionário de História de Portugal, coord. Joel Serrão, António Barreto, Maria Filomena Mónica, vol. 7 (suplemento). Porto: Figueirinhas. LEÃO, Manuel, 1999 – A cerâmica em Vila Nova de Gaia. Vila Nova de Gaia: Fundação Manuel Leão. MARQUES, Ana Trocado, 2004 – Nova centralidade de Gaia estará pronta dentro de sete a 10 anos. “O Comércio do Porto”. (8 de Setembro de 2004). MARTINS, Fausto Sanches, 1984 – Subsídios para a história da Fábrica de Cerâmica do Carvalhinho. “Revista Gaya”. 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VILA, Romero, 1986 – Vila Nova de Gaia – centro de azulejaria. “Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia”, Vila Nova de Gaia: Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. III, n.º 21 (Outubro), pp. 21-24 VILA, Romero, 1987 – O Fabrico do Azulejo em Fábricas de Gaia. “Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia”, Vila Nova de Gaia: Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. III, n.º 22 (Maio), pp. 35-39. *Investigador do Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória da Faculdade de Letras da Universidade do Porto