Hugo Silveira Pereira *
A acção social, desportiva e cultural
da Fábrica do Carvalhinho
requerendo à Câmara a transformação do barracão de madeira da fábrica em construção
sólida(6), e a vincar posição no mercado, exibindo
já um alto nível de qualidade na sua produção
cerâmica.
Fábrica Cerâmica do Carvalhinho(1)
Fundação no Porto
A Fábrica Cerâmica do Carvalhinho foi fundada
em 13 de Novembro de 1841(2) na “misteriosa e
fantasmática”(3) Quinta da Fraga (situada entre a
Calçada da Corticeira e o Passeio das Fontaínhas)
por Tomás Nunes da Cunha e António Monteiro
Cantarino, tendo adoptado como firma Thomaz
Nunes da Cunha & Cª. Instalou-se na Capela
do Senhor do Carvalhinho (que deu o nome à
empresa), enquanto o forno e as oficinas funcionavam em alguns barracões anexos à fábrica.
Por esta altura, a sua produção era modesta,
não deixando antever o sucesso que no futuro
viria a obter.
Em 1848, encontramos a fábrica associada ao
depósito de louças da Rua da Esperança. Era liderada por Rocha Soares e empregava na altura
“vinte operários e doze a dezasseis menores”(4).
Em 1853, compra a Quinta do Carvalhinho(5),
começando a expandir as suas instalações fabris,
1 MARTINS, 1984.
2 Arquivo Distrital do Porto Po 5, 7ªs., 21, 79v-80v (instrumento de sociedade entre Thomaz Nunes da Cunha e António Monteiro Cantarino),
citado em LEÃO, 1999: 232. O padre Romero Vila aponta para o ano de
1840, contudo sem especificar a data exacta (VILA, 1980: 17).
3 SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 71.
4 SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 71.
5 LEÃO, 1999: 232.
12 |
Em 1869, Tomás Nunes da Cunha torna-se
único proprietário da empresa(7), passando a
firma comercial a Thomaz Nunes da Cunha,
se bem que continuasse a ser conhecida no
mercado como Fábrica de Louça e Azulejo do
Carvalhinho. Uma factura-recibo de 1870 além
de comprovar aquela transformação jurídica,
exibe também a variedade da produção do
Carvalhinho: azulejos, telhas, figuras e pinhas
para adorno de jardim, louça e vasos.
Em 1878, um ano depois de ter solicitado a
construção de um edifício de armazéns e habitação junto ao rio(8), Tomás Nunes da Cunha
entrega a fábrica ao seu genro João Camilo
Castro Júnior. É sob a sua liderança que o
Carvalhinho participa, em 1882, na Exposição de
Cerâmica da Sociedade de Instrução do Porto,
obtendo diploma de mérito em faiança de 2ª
classe e na secção de azulejos. Alguns anos
depois, João Camilo Castro Júnior dá sociedade
a António Neves Dias de Freitas, sendo a firma
alterada para Castro Júnior e Dias de Freitas(9). O
filho de António Neves Dias de Freitas, António
Augusto, toma a direcção técnica da fábrica.
6 SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 71.
7 ADP Po 1º, 4ªs., 709, 46v-48 (escritura de dissolução de sociedade entre
Thomaz Nunes da Cunha e António Monteiro Cantarino), citado em em
LEÃO, 1999: 233. Romero Vila, Teresa Soeiro, Silvestre Lacerda e Joaquim
Oliveira apontam para o ano de 1868, mas não especificam fontes
(SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 71 e VILA, 1980: 17).
8 SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 71.
9 O que terá acontecido em 1891 ou 1894, segundo a opinião, respectivamente, de Romero Vila (VILA, 1980: 18 e VILA, 1987: 38) e Manuel Leão
(LEÃO, 1999: 233), Teresa Soeiro, Silvestre Lacerda e Joaquim Oliveira
(SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 72). Destes autores, apenas Manuel
Leão sustenta com citação de fontes a sua pretensão (ADP, Po 2, 558,
29v-31v – escritura de sociedade comercial entre António Neves Dias de
Freitas e João Camillo de Castro Júnior lavrada a 2 de Maio de 1894 –
citado em LEÃO, 1999: 233).
Em finais de 1899(10), aquela sociedade é dissolvida, assumindo António Nunes Dias de Freitas o
seu activo e passivo. A. N. Dias de Freitas & Filhos
é a nova firma. É com os Dias de Freitas que o
Carvalhinho se torna um grande centro cerâmico. Os empresários ampliam as instalações da
fábrica, munem-na de operários de competência especializada e notável qualidade e colocam
à sua disposição tecnologia apurada; em consequência, a produção cresce em quantidade e
qualidade: a fábrica “era vasta, bem montada,
vendendo muito e sendo a primeira do Porto por
fabricar azulejos para paredes” (11). É nestas condições que o Carvalhinho participa novamente
em exposições cerâmicas onde vê reconhecido
o seu mérito: em 1897, na Exposição Industrial
Portuense, obtendo novas menções honrosas; e
em 1901, na Exposição de Cerâmica do Palácio de
Cristal, obtendo Diploma de Medalha de Ouro.
No início do século XX, a empresa continuaria
a beneficiar da introdução de melhoramentos
na produção (a ampliação das instalações e a
modernização da parte técnica são requeridos
à Câmara em projecto apresentado em 1911(12)),
atingindo um alto nível de produção artística
e distinguindo-se na produção de “faiança de
vidrado estanífero e faiança de vidrado plumbífero” (13). Estavam assim reunidas as condições para que o Carvalhinho se tornasse uma
das maiores marcas cerâmicas de Portugal.
No entanto, isso só viria a acontecer em Gaia,
onde António Augusto Pinto Dias de Freitas se
preparava para construir um grande complexo
fabril que sucedesse à fábrica da Fraga. Em Gaia,
a fábrica conheceria o sucesso mas também a
morte e o esquecimento.
Glória e Morte em Gaia
“A Fábrica Cerâmica do Carvalhinho do Porto (…)
tornou-se, no período áureo do seu desenvolvimento, no volume das suas peças e na grandeza
da sua laboração e expansão fabril com a sua
passagem da cidade Invicta para terras de Gaia,
no ano de 1923, num respeitável e rico centro
cerâmico de expressiva e perfeita obra barreira
no País”(14).
António Augusto Pinto Dias de Freitas, à medida
que ia visitando outros complexos cerâmicos no estrangeiro, ia solidificando a ideia de
construir uma fábrica de cerâmica moderna
em Portugal(15). Esse desejo era motivado pelas
carências evidenciadas pela fábrica da Fraga
(falta de instalações suficientemente amplas
e modernas para renovar a sua maquinaria e
contratar pessoal especializado) e pelas exigências do mercado, que procurava cada vez mais
os produtos Carvalhinho. Assim, Dias de Freitas
procurou em Vila Nova de Gaia um terreno para
edificar as novas instalações. Gaia era já uma
localidade famosa pela cerâmica, com muitas
fábricas e operários e artistas cerâmicos de qualidade; aí, na segunda metade de Oitocentos, o
fabrico de azulejo de revestimento conhecera
um grande impulso com a Fábrica Cerâmica das
Devesas. Desta tradição cerâmica se aproveitaria o Carvalhinho que dela retiraria parte do seu
sucesso – “a forte tradição que a cerâmica criou
neste lado do Douro criou um ambiente favorável à continuação desta indústria”(16).
A escolha recairia na Quinta do Arco do Prado,
terreno adquirido à família do Conde das
Devesas, à via-férrea, situado a algumas centenas de metros da Estação das Devesas, na Rua
José Falcão, n.º1(17). Em finais de 1922 iniciava-se
a construção do novo complexo fabril, segundo
modelos de cerâmicas inglesas e alemãs. A nova
empresa A. Pinto Dias de Freitas, Lda. dotaria
a fábrica de Gaia das mais modernas instalações e tecnologia da época, deixando os artigos
de cerâmica de decoração e de construção de
ser produzidos segundo métodos tradicionais
para passarem a ser fabricados com técnicas e
maquinismos mais especializados e modernos,
que resultavam numa obra mais perfeita e mais
de acordo com a imaginação de uma “segunda
geração de cerâmicos” (18) e também de muitos
operários que, com o Carvalhinho, cruzaram o
Douro.
10 ADP, Po 2, 587, 3v-4v, citado em LEÃO, 1999: 233.
11 VASCONCELOS, José de – Notas, citado em VILA, 1980: 18.
12 SOEIRO, LACERDA, OLIVEIRA, 2001: 72.
13 GIRÃO, Luís Ferreira – Estudo sobre a indústria cerâmica na 1ª
Circunscrição dos Serviços Técnicos da Indústria. Lisboa: Imprensa
Nacional, 1913, pp. 20-21, citado em MARTINS, 1984:456.
14 VILA, 1987: 37.
15 Cf. MARTINS, 1984: 458.
16 LEÃO, 1999: 237.
17 Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia , C/C.04.01/Pt.5.
18 LEÃO, 1999: 230.
Dezembro de 2009 | 13
Primitivas instalações do Carvalhinho em Gaia (19)
Este investimento redundaria, a partir de 1930,
num aumento em quantidade e qualidade da
produção: bengaleiros, floreiras e fruteiras a imitar os modelos antigos, louça sanitária, louça
doméstica eram fabricados no Carvalhinho que
optou por não apostar na especialização na produção de um determinado artigo – a sua maior
originalidade e mérito assentou precisamente na
“alta perfeição da arte decorativa, beleza dos motivos escolhidos, desenho correcto, colorido variado
e harmonioso, sentido perfeito de composição”
(20)
, que tornavam os seus produtos distintos dos
demais e, ainda hoje, procurados por antiquários,
comercializados em leiloeiras e preservadas em
colecções particulares.
Prato (22)
Garrafa (23)
Gomil em faiança (21)
Também na produção de azulejos decorativos
o Carvalhinho atingia a excelência. Na fábrica
de Gaia, a tradição na produção de mosaicos foi
continuada e aperfeiçoada com novos padrões
e motivos, atingindo uma fama nunca antes
conhecida. Entre 1930 e 1960, foram adquiridas na fábrica vastas superfícies de azulejos
Carvalhinho que cobriam pavimentos e pare-
19 AMVNG, L/E.04.01/Pt.36, Doc. 56 (adaptado).
20 MARTINS, 1984: 464.
21 Leiloeira S. Domingos.
22 Leiloeira S. Domingos.
23 Leiloeira S. Domingos.
14 |
des de edifícios públicos e privados. Nesta
área o Carvalhinho contou com artistas talentosos: Paulino Gonçalves pintou e espalhou
painéis de azulejo em todo o Norte do país;
Francisco Macedo pintou os painéis da Câmara
de Espinho, do Colégio de Nossa Senhora da
Bonança, da Igreja de Vilar do Paraíso e da
capela de S. João Baptista de Vilar do Paraíso;
Fernando Gonçalves destacou-se pelos painéis
do escadório do Santuário de Nossa Senhora dos
Remédios em Lamego; outros nomes se destacaram nesta actividade azulejadora reservada
aos homens – as mulheres dedicavam-se à pintura de louça decorativa, destacando-se aqui a
obra de Adriana Correia ou Maria Natália Soares
Leitão. Neste campo, a Fábrica do Carvalhinho
também se notabilizou na produção de réplicas
de azulejos seiscentistas e setecentistas, para o
que dispunha de excelentes oficinas e exímios
artistas, que percorriam o país, recolhendo os
padrões desses azulejos em vários solares, palácios e conventos de Portugal.
Painel do Santuário dos Remédios – Lamego (24)
Deste modo, o Carvalhinho seguiu a senda
deixada em aberto pela Fábrica Cerâmica das
Devesas, fazendo de Vila Nova de Gaia o centro nacional de produção de azulejos e de louça
decorativa. Contudo, enquanto a Fábrica das
Devesas decaía sem poder administrativo após
o abandono de Teixeira Lopes (Pai) da gerência, a Fábrica Cerâmica do Carvalhinho modernizava-se e tomava, sozinha, a “vanguarda das
empresas nacionais” (25). Tornava-se um centro
de imensa produção cerâmica e de manifestação artística e um perfeito laboratório industrial, cuja qualidade e renome se espalharam
pelo país (aproveitou ao máximo a proximidade
da via-férrea) e estrangeiro (exportações em
crescendo para Inglaterra e EUA e presença em
24 Foto do autor.
25 GOMES, 1983: 49.
exposições internacionais na Europa e América):
‘Carvalhinho’ torna-se uma marca no mundo
dos artigos de cerâmica e, “apesar de sofrer influências de outras fábricas de Portugal e do estrangeiro, a fábrica conseguiu através do mérito dos
seus artistas produzir um artigo específico” (26).
No entanto, o volume do investimento realizado trouxe graves dificuldades financeiras à
empresa, carecendo esta de um rápido reforço
de tesouraria, que, contudo, muitos dos sócios
não queriam promover, considerando que a
firma tinha já absorvido muito do seu dinheiro.
A solução passou em 1930 pela associação da
Fábrica do Carvalhinho à Real Fábrica de Louça
de Sacavém, empresa que gozava de um grande
prestígio (“a mais importante do país no fabrico
de faiança fina com processos semelhantes aos
usados em Inglaterra, França e Alemanha” (27)) e
que passou a dominar a unidade vilanovense –
a sede do Carvalhinho (agora Fábrica Cerâmica
do Carvalhinho S.A.R.L.) transferiu-se para
Sacavém sob a direcção de Herbert Edward Over
Gilbert, ficando António Augusto Pinto Dias de
Freitas como sócio-gerente na unidade de Gaia
– em 1953 ainda se mantinham os dois sóciosgerentes: Herbert Gilbert e António Augusto
Pinto Dias de Freitas(28); um amigo pessoal dos
Freitas, o Dr. Fiel Viterbo, desempenhava um
importante papel de intermediário entre as
duas empresas.
Desta operação o Carvalhinho sairia altamente beneficiado. A cerâmica conheceria
então a sua idade de ouro com renovação de
instalações e modernização de processos, mantendo-se a qualidade dos seus produtos, a categoria dos seus artistas e a exportação de artigos
cerâmicos – apenas um senão: os modelos não
conheceram qualquer evolução, mantendo-se o
uso de formas já conhecidas (pratos, cachepots,
terrinas, vasos, bengaleiros, canecas, etc.).
Em 1940 é comemorado o centenário da fábrica
e, de facto, havia bons motivos para festejar: o
Carvalhinho continuava a produzir e a vender
(patenteando um “elevado grau de progresso
industrial, artístico, económico e organizativo,
fabril e técnico” (29)), empregava muitos empregados e ceramistas e mantinha elevado o seu
padrão de qualidade – o investimento justifi26 MARTINS, 1984: 464.
27 LEPIERRE, Charles – Estudo Chimico e Techonologico sobre a
Ceramica Portuguesa Moderna. Lisboa: Imprensa Nacional, 1899, p. 105
citado em MARTINS, 1984: 462.
28 AMVNG, L/E.04.02/Pt.73, Proc. 926/53.
29 VILA,1987: 38.
Dezembro de 2009 | 15
cava-se e mantinha-se atractivo, de modo que,
em 1948, procedeu-se à ampliação das instalações da fábrica, “de forma que melhor possa
corresponder ao desenvolvimento atingido pela,
sob vários pontos de vista, notável organização
que o mesmo [edifício] acolhe” (30); e num aditamento à empreitada, apresentado à câmara
em 1949, foi pedida e autorizada a construção
de uma sala de exposição no interior das novas
instalações, sinal do orgulho que os seus gerentes sentiam na sua obra. Em 1956, procedem-se
a novos investimentos: a cobertura do pavilhão
de fornos, em telha marselhesa e assente sobre
estrutura de madeira é substituída por uma
outra em fibrocimento assente sobre estrutura
metálica. Era o início de um projecto de longo
prazo que pretendia substituir as coberturas
da totalidade das instalações (31), mas que tinha
como finalidades imediatas dotar as instalações
de uma cobertura incombustível e duradoura,
eliminar a falta de segurança que se verificava
na estrutura do pavilhão de fornos e melhorar
a mobilidade dentro do mesmo pavilhão (já que
também se eliminaram os pilares intermédios
aí existentes). Ainda desse ano data a construção de um armazém (que se prolongou até 1959)
destinado à arrecadação de vários materiais da
sua indústria – o importante neste projecto, contudo, são os dois aditamentos para ampliação
da área do armazém, sinal do reconhecimento
da exiguidade da área inicialmente projectada
e também do sucesso que o Carvalhinho então
conhecia(32).
Novas instalações (34)
Armazém(35)
Laboratório (36)
Novas instalações(33)
Oficina de escolha de azulejo (37)
30 AMVNG, L/E.04.02/Pt.73, Proc. 973/48.
31 Como consta de requerimento apresentado (AMVNG, L/E.04.02/
Pt.73, Proc. 594/56).
32 AMVNG, L/E.04.01/Pt.224, Arq. 2283/59.
33 AMVNG.
16 |
34 AMVNG.
35 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p.
36 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p.
37 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p.
indispõe-se com ele e Sellers acabaria por sair
em 1965.
Neste ano, os dois irmãos Pinto de Freitas
(António Almeida e Manuel Almeida) adquiriram à Fábrica de Sacavém a sua parte no capital da empresa(41) – em Abril o Carvalhinho volta
para as mãos exclusivas dos Pinto de Freitas – e
conseguem incluir a cerâmica na AFA (Acordo de
Fabricantes de Azulejos), sendo que já pertencia
à UCEL (União Cerâmica Exportadora, Lda.)(42).
Oficina de Pintura (38)
Logótipo do Carvalhinho (43)
Secção de fornos (39)
No virar da metade do século, as instalações
do Carvalhinho eram únicas em Portugal, quer
em grandeza, projecção industrial, mestria e
modernidade da produção, quer em volume
de vendas para Portugal e para o estrangeiro.
Contudo, a segunda metade de Novecentos não
foi tão aprazível para a Fábrica do Carvalhinho.
A empresa debater-se-ia com conflitos internos após a morte do seu segundo fundador
nos inícios de 1958 e não mais veria gestores da
cepa de António Augusto Pinto Dias de Freitas,
entrando em decadência a partir de meados da
década de 60 e sofrendo uma morte lenta desde
o 25 de Abril até ao final do século XX. Assim, o
primeiro grande golpe sofrido pela Fábrica do
Carvalhinho ocorreu na Epifania de 1958 com a
morte de António Augusto Pinto Dias de Freitas.
O lugar deixado em aberto foi ocupado por
Frederick Warren Sellers (que já ocupava um
cargo de gerência pelo menos desde 1953(40)) e
António de Almeida Pinto de Freitas (filho de
António Augusto Freitas). Sellers era um homem
respeitado e considerado pelos trabalhadores
(que o homenagearam em 1964 pelo seu 50º
aniversário), mas António Almeida de Freitas
38 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p.
39 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p.
40 AMVNG, L/E.04.02/Pt.73, Proc. 926/53.
Entretanto, os produtos da fábrica obtinham
êxito na I Exposição de Materiais de Construção
do Porto, realizada no Palácio de Cristal em 1966
(44)
. Os dois irmãos tentaram dar novo impulso
à fábrica através de uma política de investimentos (aquisição de equipamento fabril para
suprimir mão-de-obra e reduzir os custos de
fabrico) baseada na colaboração com firmas
estrangeiras (45), apercebendo-se que a fábrica
não conseguia acudir a todos os pedidos de
material que lhe eram feitos e que era necessário enquadrá-la numa conjuntura internacional e não somente de mercado nacional (46). Em
1967 foi estabelecido um acordo com a firma
Villeroy & Boch Mettlach – Sarre (a maior produtora mundial de produtos cerâmicos) para
apoio técnico, melhoria da qualidade da produção, aquisição de novos equipamentos e
expansão das exportações (47). No ano seguinte
iniciou-se a ampliação do equipamento tecnológico da fábrica (48), sendo construído ainda um
novo pavilhão e ampliada a zona de moldagem
de forma a atender ao incremento da produção
41 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1965.
42 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1965.
43 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1965-1970.
44 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1966.
45 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1966.
46 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1969.
47 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1967.
48 Fornos contínuos, automatização da carga e descarga de produtos,
prensas automáticas, máquinas de vidrar e máquinas de decorar por
serigrafia para o fabrico de azulejos; para o fabrico de loiça sanitária
vitrificada, novos edifícios para fabrico e armazenamento, construção
de um forno contínuo e linha automatizada de vibração das peças.
FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO,1969.
Dezembro de 2009 | 17
(49)
. Viviam-se tempos promissores (apesar de os
lucros obtidos nestes anos se destinarem ainda
à dívida contraída na década anterior), de que
é prova a abertura em 29 de Julho de 1968 da
filial do Carvalhinho em Lisboa (50) e inclusivamente a maior qualidade dos relatórios anuais
da empresa (fotos e capa em papel fotográfico).
O novo forno (53)
Aspectos das novas instalações da fábrica (54)
Aspecto da filial de Lisboa (51)
A montagem dos novos equipamentos findava
em finais de 1969 (o investimento total ascendia a 11 480 contos), sendo estes inaugurados no
ano seguinte por autoridades do poder central
e local. No entanto o investimento, “ao contrário do previsto e das garantias dadas pelos seus
fornecedores estrangeiros” (52), trouxe grandes
dificuldades técnicas e o aumento de produção
previsto teve de ser adiado. Em consequência,
foi necessário contrair um empréstimo junto da
Caixa Geral de Depósitos para pôr em prática o
plano de aumento da produção.
49 AMVNG, L/E.04.02/Pt.587, Proc. 1156/68.
50 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1968.
51 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1968-1969.
52 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1970.
18 |
Apesar de os seus produtos continuarem a
ser procurados em Portugal e no estrangeiro,
a fábrica passa por dificuldades financeiras
extremas. Para esta situação contribuíram
também dois factores exógenos à administração da fábrica: por um lado, o Carvalhinho passava a ter de lidar com uma forte concorrência
interna movida por novas empresas cerâmicas;
por outro lado a década de 70 foi marcada pelo
advento do plástico que determinou o desinteresse do mercado pela cerâmica funcional e
artística. Não se pode também esquecer “o condicionalismo industrial que vigorava no Estado
Novo, onde o lobby da Vista Alegre impedia a criação de novas fábricas de porcelana. Este material
era pretendido pelas cerâmicas do Porto e Gaia
para substituir a faiança, que era menos robusta
e económica. Mas a oposição da fábrica de Ílhavo
impediu a renovação técnica das empresas portuenses e condenou-as à decrepitude face à concorrência do pirex e plástico” (55).
O Carvalhinho passou assim a ser cobiçado por
investidores imobiliários que desejavam cons53 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1969-1970.
54 MARTINS, 1984.
55 Cerâmica do Douro: do Passado Molda-se um Novo Futuro, 1996.
truir nos estratégicos locais das empresas. Num
último recurso foram colocadas à venda partes da propriedade da Quinta do Arco do Prado
onde se tinha instalada a fábrica em 1923, mas a
operação foi interrompida e resultou em nada.
Os capítulos finais do Carvalhinho, enquanto
fábrica cerâmica, escrevem-se em Maio de 74 –
a fábrica, já numa fase de decadência irreversível, é adquirida em hasta pública por Serafim de
Andrade. A nova gerência tentou o impossível:
fazer ressurgir o Carvalhinho, mas as intransponíveis condições do mercado interno – que
os novos proprietários provavelmente desconheciam – impediram qualquer tipo de ressurreição da fábrica. Três anos volvidos, em 1977(56),
a Fábrica Cerâmica do Carvalhinho encerrava as
suas portas, 137 anos após a sua abertura. As suas
instalações mantinham-se de pé, mas desprovidas do seu funcionalismo industrial. Durante
alguns anos, na propriedade do Carvalhinho
funcionou um pequeno mercado de víveres
e calçado, que satisfazia o consumo local dos
moradores de Coimbrões. Esse seria o último
uso que seria dado ao Carvalhinho. Quando lá
se deixou de realizar o mercado, o abandono
foi então completo. Ao antigo complexo fabril,
pouco mais restava fazer do que... envelhecer,
virtualmente abandonado à sua sorte desde o
encerramento da fábrica. Nos 25 anos seguintes,
o edifício do Carvalhinho foi decaindo aos poucos, chegando ao final do século XX num estado
lamentável.
A degradação da Fábrica do Carvalhinho (57)
Na viragem do século, os terrenos da Quinta
do Arco do Prado foram incluídos num projecto
de urbanização da área(58) e de ligação rodoviária entre a Ponte da Arrábida e a auto-estrada
para Espinho. Em consequência, as instalações
do Carvalhinho foram totalmente arrasadas, à
excepção da sua chaminé, que será a breve trecho definitivamente absorvida por um grande
complexo urbano e não mais continuará a
dominar a paisagem de Vila Nova de Gaia pela
sua altura e imponência. As palavras de Romero
Vila, infelizmente, vão deixar de reflectir a realidade: “A arrojada chaminé que coroa o lugar do
forno distingue-se, ainda hoje, das demais que
existem no denso aglomerado industrial, armazéns, estabelecimentos industriais e fábricas congéneres de Coimbrões, gigantescamente alta.
Parece enorme figura de atleta que vai ficando na
cauda da corrida que inicialmente foi fulgurante,
isolado e exangue, sem conseguir reaver forças
que despertem as fortes e antigas na capacidade
da laboração, impressionando apenas pela sua
descomunal estatura.” (59)
Acção social,
desportiva e cultural
No seio da Fábrica do Carvalhinho, desenvolveuse uma vasta acção social, desportiva e cultural
dirigida aos seus trabalhadores, baseada quer
na criação de condições materiais de trabalho,
quer na promoção de actividades de desporto e
lazer entre os seus funcionários, à luz do corporativismo do regime e da política de ocupação
dos tempos livres do operariado protagonizada
pela FNAT (Fundação Nacional para a Alegria no
56 Cerâmica do Douro: do Passado Molda-se um Novo Futuro, 1996.
57 VILA, 1980: 19.
58 Projecto “Gaia Nova”, apresentado pela Câmara Municipal e pela
construtora e promotora do empreendimento como “a nova centralidade de Gaia” e o futuro “novo centro empresarial do concelho”.
MARQUES, 2004.
59 VILA, 1987: 38.
Dezembro de 2009 | 19
Trabalho). Assim, nos investimentos realizados
nas infra-estruturas da fábrica foi dada muita
atenção à boa iluminação, ao aquecimento geral,
ao uso de máscaras para purificação do ar nos
locais mais sujeitos à silicose e à qualidade das
condições de trabalho em geral (por exemplo, o
pessoal dos fornos passaria a contar desde 1940
com chuveiros e lavatórios para seu bem-estar
e higiene). Além disso o Carvalhinho concedia
uma semana de descanso paga a todo o pessoal
e fornecia os fatos de trabalho. Tinha também
um plano de assistência médica promovida pela
Casa do Pessoal (fundada em Janeiro de 1940)
e liderada pelo Dr. Roland Van Zeller, que, num
posto médico situado nos terrenos da fábrica,
concedia consultas bissemanais, serviços diários de enfermagem e injecções e medicamentos (grátis segundo as edições do Carvalhinho,
pagas, segundo Guilhermina Pinho) para os
operários e prestava assistência às mães, que
tinham direito a 20 dias de férias pagos.
Aspecto do refeitório (61)
Aspecto do refeitório (62)
O posto médico do Carvalhinho (60)
A Casa do Pessoal procedia também à distribuição de sopas ao pessoal desde Março de 1941,
serviço que evoluiu mais tarde (Junho de 1946)
para o fornecimento de uma refeição diária a
preço económico na cozinha e refeitório construídos (e ampliados em 1945). A cantina era
uma casa separada da fábrica, mas segundo
Guilhermina Pinho a sopa era descontado no
ordenado. Contudo, não se conseguiu apurar se
o preço da refeição vinha efectivamente descontado ou se o que Guilhermina Pinho realmente
quis dizer era que o salário era tão baixo que
parecia que o preço da sopa era lá descontado.
60 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p.
20 |
Além disto, a Fábrica do Carvalhinho possuía
uma pequena casa da eira onde eram arrecadados os produtos agrícolas cultivados numa
parcela da sua propriedade e que se destinavam
ao consumo na cantina do pessoal da fábrica – e
era um projecto de sucesso: em 1945, os responsáveis da fábrica viram-se obrigados a elevar o
muro da fábrica de 0,8 metros para 2 metros
de forma a impedir as investidas dos amigos do
alheio à casa da eira63; em 1953, a casa da eira foi
mesmo ampliada dada a deficiência de espaço
do edifício coevo. Além da ampliação, o responsável da obra Reinaldo Pereira da Silva foi também incumbido de erguer uma dependência
para abrigo do carro de bois64 e de voltar a elevar
a vedação não só por causa dos assaltos, “mas
também pelos danos causados por pessoas que,
mesmo sem ser para furtar, abusivamente, a
qualquer hora do dia e da noite, transpõem o
muro para, algumas vezes, até à vista do próprio
pessoal da Fábrica, com completa ausência de
decoro, ali satisfazerem as suas necessidades”65.
A estas preocupações foi aliada uma importante actividade lúdica iniciada em 1936 (com
a criação da Secção Desportiva do Carvalhinho
61 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p.
62 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p.
63 AMVNG, L/E.04.02/Pt.73, Proc. 518/45.
64 AMVNG, L/E.04.02/Pt.73, Proc. 926/53.
65 AMVNG, L/E.04.02/Pt.73, Proc. 46/53.
por um dos directores da fábrica, Manuel Pinto
de Freitas), de acordo com a regulamentação
da FNAT, com a qual pactuou desde o início66 e
incentivada a partir da Casa do Pessoal.
Emblema (69)
Manuel Pinto Freitas, fundador da Secção Desportiva (67)
A FNAT era um órgão do Estado Novo que visava
controlar os tempos livres dos trabalhadores,
preenchendo-os com actividades “sadias” que
assegurassem o desenvolvimento físico e moral
dos trabalhadores e que se adequassem à ideologia do regime, que repudiava os lazeres tradicionais, o desporto profissional e os bailes como
irradiadores de devassidão. Quanto à Secção
Desportiva, “iniciámos esta secção, correspondente a uma modalidade importante das obras
sociais, no intuito de contribuir para o robustecimento físico dos nossos operários e para amenizar as distracções nas suas horas de ócio. Assim
foi construído um campo de jogos, e fomenta-se
a prática de desportos vários: gimnástica (sic),
natação, atletismo, jôgo (sic) do pau, basket-ball,
volley-ball, foot-ball, hand-ball, etc.” (68).
O campo de jogos começou a ser construído em
4 de Fevereiro de 1939, depois de lançada a primeira pedra em 28 de Outubro de 1938, estando
completo em 4 de Maio de 1939. Na altura da
inauguração (2 de Julho de 1939), dispunha de
um campo de jogos de basket-ball(70) e voleibol,
relvado para ginástica, pista de cinza para corridas, caixa de saltos, círculo para lançamentos,
trapézio e argolas.
Inauguração do campo de jogos( 71)
Inauguração do campo de jogos (72)
66 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p.
67 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p.
68 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p.
69 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: capa.
70 AMVNG, L/E.04.01/Pt.44, Doc. 15.
71 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p.
72 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: capa.
Dezembro de 2009 | 21
A Direcção na inauguração do campo de jogos (73)
Alguns anos depois o pessoal da fábrica contaria com uma piscina e uma casa-club (onde ficariam instalados a Casa do Pessoal, os vestiários,
balneários, secretaria, sala de reuniões e arrecadação) e a partir de 1968 com um novo pavilhão
desportivo(74)
Planta topográfica da Quinta do Arco do Prado com indicação do
campo de jogos (75)
ou de intercâmbios desportivos com diversas empresas e entidades (Fábrica de Louça de
Sacavém, Empresa de Cimentos de Leiria, Polícia
de Gaia Polícia de Segurança Pública do Porto,
Engenheiros Reunidos, Armazéns Ferreirinha,
Fábrica Portuguesa de Balanças, Fábrica da Vista
Alegre, Empresa Electro-Cerâmica do Candal,
Feminino A. C., etc.), obtendo alguns resultados
prestigiantes: segundo lugar no campeonato do
Porto de 1938 em basquete feminino, primeiro
lugar no campeonato concelhio de Vila Nova
de Gaia e no campeonato distrital do Porto e
segundo lugar no campeonato nacional, os três
de 1946). Às modalidades referidas anteriormente, juntar-se-iam ainda em 1939 a ginástica
feminina (algumas das praticantes chegaram
a usufruir de um estágio de 15 dias à beira-mar
na colónia de férias da FNAT em S. Martinho do
Porto(77)) e em 1941 o pingue-pongue (cujas equipas participavam periodicamente nos campeonatos da FNAT e organizavam concursos com
outros rivais). A Secção Desportiva regia-se por
princípios rigorosos concordantes com a orientação da FNAT: “observância escrupulosa das
leis da ordem, do respeito e da disciplina convicta do que vale o desporto como força social
que deve ser; ensinar a fazer sport por sport, de
bom humor, sem paixões exageradas, sem ressentimentos e a encarar as competições como
estímulo para aperfeiçoamento e nunca como
pleitos para criar inimizades e malquerenças;
fazer com que correntes de ar sadio, boa alegria
e saúde atravessassem as camadas operárias da
Fábrica; contribuir para a perfeição física e moral
dos seus agrupados sendo ao mesmo tempo pelo
exemplo e pela propaganda a precursora de uma
vasta organização de carácter corporativo de largos reflexos na vida dos trabalhadores portugueses; e fomentar entre o pessoal o gosto pelas práticas sadias da vida ao ar livre, tendo em conta
que a classe operária tem andado tão arredada
dos caminhos da força e da saúde”.(78)
A Casa do Pessoal (76)
Nos anos seguintes as diversas equipas realizavam partidas mais ou menos frequentes
no âmbito de torneios corporativos da FNAT
73 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: capa.
74 AMVNG, L/E.04.02/Pt.5, Proc. 1156/68.
75 AMVNG, L/E.04.02/Pt.5, Proc. 1156/68.
77 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p.
76 MARTINS, 1984.
78 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p.
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Dirigente da FNAT premeia desportista do Carvalhinho - Artur Anselmo
(FNATPorto) (79)
Equipa de ginástica na colónia de férias - Colonia (AccaoDesportiva) (80)
No entanto, nem sempre estes princípios
eram respeitados, tal como indicia a experiência de Guilhermina Pinho. De facto a sua ligação ao Carvalhinho começou pelo basquetebol
feminino, ainda antes de se tornar operária na
fábrica. Foi convidada pelo filho do empregado
mais antigo do Carvalhinho a jogar basquetebol (na altura teria cerca de 20 anos de idade,
sendo além de robusta – uma “maria-rapaz”
nas suas palavras e portanto uma mais-valia
para a equipa – uma jovem bonita), mas como
perdia dinheiro com a deslocação até à fábrica,
pediu um lugar na empresa a um dos directores da fábrica, tendo sido admitida como roleira
de estamparia. Guilhermina Pinho refere ainda
o episódio do exame clínico exigido aos membros da Secção Desportiva. Lembra-se de dizer
ao Dr. Van Zeller que a sua mãe batia nos filhos
por jogarem à bola e agora ele ia pôr a filha a
jogar, ao que Van Zeller terá retorquido: “Se
quer trabalhar... Se não quiser trabalhar não joga
à bola”. Estes relatos pessoais, que indicam que
na Secção Desportiva se via o desporto como
mais do que um simples meio de distracção
dos trabalhadores, parecem ser corroborados, involuntariamente, pelas próprias publicações do Carvalhinho. De facto, nestas é
visível que o plantel das várias modalidades
era quase sempre composto pelas mesmas
pessoas (pelo menos ao nível das modalidades masculinas), provavelmente os melhores atletas; e se isto seria compreensível ao
nível do basquete masculino, cujo número
de aficionados era tal que permitia realizar
torneios internos (81), já não o é tanto para as
restantes modalidades. As próprias edições
comemorativas do centenário da fábrica e
dos dez anos da Secção Desportiva não se
coíbem inclusivamente de referir que um
dos treinadores da equipa de futebol fora o
atleta olímpico Carlos Alves (de referir que
a Selecção Nacional de futebol participou,
por convite, nos Jogos Olímpicos de 1928,
realizados em Amesterdão) e de publicitar
orgulhosamente os troféus conquistados ao
longo dos anos. Voltando ao testemunho de
Guilhermina Pinho, ela refere também situações em que o desportivismo e a prática do
“sport pelo sport” eram inexistentes. Além
disso, segundo a sua memória, a sua carreira
laboral na fábrica terminou no momento em
que deixou de praticar basquete, por imposição do seu marido.
A equipa feminina de basquete (à direita Guilhermina Pinho) BasqueteFeminino (82)
79 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p.
81 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p.
80 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p.
82 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p.
Dezembro de 2009 | 23
Troféus do Carvalhinho (86)
Basquete masculino (83)
Por outro lado, contudo, o facto de a Secção
Desportiva aparentemente não contar com
apoios por parte da gerência (a nossa entrevistada não se recorda de a gerência apoiar as
equipas, nem tão-somente de financiar a mera
deslocação dos desportistas) parece indicar
que a fuga aos princípios ideológicos gizados
na FNAT partia da própria Secção Desportiva e
não da direcção. No entanto, aquela ausência de
apoios é desmentida nas publicações da fábrica,
se bem que outra coisa não seria de esperar.
Segundo estas, a gerência da fábrica também
contribuía para as suas despesas e recompensava no Natal o bom comportamento, assiduidade e disciplina dos praticantes com oferta de
cabazes natalícios e com uma cerimónia na qual
a Gerência “aconselhava os praticantes a honrarem a camisola e a corresponderem às atenções
dos seus superiores” (87).
Actuação da equipa de ginástica (84)
Elvira Freitas, esposa do director, distribuindo brinquedos no Natal (88)
Equipa de pingue-pongue (85)
83 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p.
86 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p.
84 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p.
87 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b: s/p.
85 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p.
88 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p.
24 |
Passeio ao Douro (91)
Festa de Natal - FestaNatal (89)
A acção da Secção Desportiva enriqueceu-se
com a Casa do Pessoal, “cabeça orientadora de
todas as nossas actividades” (90) criada para complementar os projectos desportivos com outros
de índole cultural e recreativa e contribuir para a
formação física, cultural e moral dos que serviam
a fábrica. Os seus principais colaboradores eram
José Gaspar Miranda Júnior, Augusto Beirão,
Luís Filipe e Roland Van Zeller. Pactuando com
a Delegação do Porto da FNAT, transformouse oficialmente num dos Centros de Alegria no
Trabalho. Em 1945 a FNAT escolheu a Fábrica do
Carvalhinho para realizar o seu I Serão Cultural
e Recreativo para Trabalhadores, que se realizou
a 11 de Junho de 1945 e a que assistiram as autoridades do concelho de Gaia e do Porto, alguns
convidados e todo o pessoal e famílias (participaram na festa a Orquestra Popular da FNAT do
Porto e alguns artistas da rádio, sendo o espectáculo radiodifundido pela Emissora Nacional).
No seio da Casa do Pessoal foram depois formados um grupo coral (Secção Cultural) e um
grupo recreativo (Secção Recreativa). O primeiro, dirigido por Raul Casimiro chegou a ser
composto por 80 membros de ambos os sexos,
que tanto faziam exibições de urdidura clássica
como de popular. O segundo, a cargo de Augusto
Beirão e Luís Filipe, dedicava-se à arte do teatro.
Os seus membros faziam os seus próprios adereços e eram responsáveis pela encenação das
peças, que todos os Natais subiam ao palco para
entreter pessoal da fábrica e seus familiares.
Finalmente, a acção da Casa de Pessoal completava-se com o patrocínio de excursões.
O corpo coral (92)
O palco da fábrica (93)
Espectáculo de variedades (94)
91 Foto cedida por Guilhermina Pinho.
92 Foto cedida por Guilhermina Pinho.
89 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p.
93 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p.
90 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a: s/p.
94 FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946: s/p.
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Conclusão
FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940b – Primeiro
Centenário 1840- 1940. Porto: Tipografia Costa Carregal
Este trabalho além de pretender evocar um
importante complexo fabril do Norte do País
remetido ao esquecimento e lançar novas hipóteses de investigação sobre a acção da FNAT e
do (in)cumprimento do seu plano ideológico
ao nível do desporto, pretendia também alertar para a situação em que se encontra actualmente o parque industrial cerâmico de Vila
Nova de Gaia, que apesar de ser um dos traços
identificadores da cidade está praticamente ao
abandono.
FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1946 – X Aniversário
da Secção desportiva da Fábrica de Carvalhinho: 1936-1946.
Da Fábrica Cerâmica do Carvalhinho apenas
existe a sua chaminé, tendo as suas demais instalações sido demolidas há alguns anos atrás
para dar lugar à construção de dois prédios
de habitação. Mais antigas, as cerâmicas das
Devesas e sua área envolvente (bairros operários e outros edifícios da época e do mesmo
estilo) estão a ir pelo mesmo caminho, igualmente abandonadas ao envelhecimento.
Entretanto, o aguardado museu da cerâmica
tarda em aparecer e a ser instalado, por exemplo, num desses mesmos edifícios, ficando assim
a cidade privada de um espaço que evoque a sua
história e a sua identidade recente. Nas palavras
de Costa Gomes: “Pois apesar de termos sido o
expoente máximo do mundo da cerâmica (…),
ainda não possuímos um museu de cerâmica, o
que é muito grave, pois denota um total desprezo
por todo um passado cheio de glória (...). Desde
as fábricas do Cavaco e Vale da Piedade, Afurada
e Senhor de Além, Fervença e Agueiro, Devesas e
Valente, Carvalhinho e Soares dos Reis até às do
Candal e Valadares, quantas peças dignas de figurarem nesse futuro museu! Algumas não só de
são possuidoras de raro valor etnográfico, como
também são de uma graça ingénua (...) A louça
artística, tão bela na suavidade do seu colorido e
na elegância dos seus desenhos, da qual teremos
de destacar aqueles pratos de parede com figuras de meninos nus, a lembrarem Rubens, foram
quase todos para aos Estados Unidos” (95).
Fontes e bibliografia
FONTES
Depoimento de Guilhermina Pinho [falecida em 2007].
FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1940a – A Fábrica
do Carvalhinho: acção desportiva. Porto: Tipografia Costa
Carregal
95 GOMES, 1983: 46-49.
26 |
FÁBRICA CERÂMICA DO CARVALHINHO, 1965-1970 –
Relatório e Contas. Vila Nova de Gaia
Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia
– C/C.04.01/Pt.5.
Idem – L/E.04.01/Pt.36.
Idem – L/E.04.01/Pt.44.
Idem – L/E.04.01/Pt.224.
Idem – L/E.04.02/Pt.5.
Idem – L/E.04.02/Pt.73.
Idem – L/E.04.02/Pt.587.
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SOEIRO, Teresa, LACERDA, Silvestre, OLIVEIRA, Joaquim
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VALENTE, José Carlos, 1996 – Fundação Nacional para a
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VILA, Romero, 1980 – A Fábrica Cerâmica do Carvalhinho
(Sua história e seu fabrico). “Boletim da Associação Cultural
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VILA, Romero, 1986 – Vila Nova de Gaia – centro de azulejaria. “Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia”, Vila
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VILA, Romero, 1987 – O Fabrico do Azulejo em Fábricas de
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Nova de Gaia: Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. III, n.º
22 (Maio), pp. 35-39.
*Investigador do Centro de Investigação
Transdisciplinar Cultura, Espaço e
Memória da Faculdade de Letras da
Universidade do Porto
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[Cerâmica] do Carvalhinho - Câmara Municipal de Gaia