IDENTIFICAÇÃO DE OPORTUNIDADES Fernando Antônio Ribeiro Serra Objetivos do capítulo Apresentar o conceito de empreendedorismo a partir da oportunidade Caracterizar a oportunidade Apresentar a relação entre a ideia e a oportunidade Mostrar possíveis fontes de identificação de oportunidades Introdução A partir da publicação do artigo de Shane e Venkataraman1 em 2000, houve uma grande mudança no meio acadêmico na compreensão do que caracteriza o empreendedorismo como uma área de conhecimento. O empreendedorismo passa a ser concebido como um processo e não como um evento ou um perfil de pessoa. Dentre as mudanças, uma fundamental é a do empreendedorismo como a descoberta e exploração de oportunidades. A existência de um novo empreendimento com a finalidade de atender uma oportunidade não satisfeita adequadamente para um determinado contexto, a partir do desenvolvimento e oferta de um produto ou serviço para satisfaze-la. A identificação das oportunidades, a sua avaliação e exploração, bem como conhecer os indivíduos que executam este processo, passam a ser os aspectos fundamentais do empreendedorismo. Em conjunto com formas de identificação de oportunidades, o empreendedor precisa aliar uma ideia (e um conceito) de negócio. A partir de agora neste capítulo exploraremos o conceito de oportunidade e da sua relação com as ideias de negócios. Empreendedorismo e oportunidade O empreendedorismo tem sido tratado na perspectiva de características do empreendedor, SHANE, S.; VENKATARAMAN, S. The promise of entrepreneurship as a field of research. Academy of Management Review, v. 25, n. 1, p. 217-226, 2000. 1 de pequenas ou nova empresas, e no desempenho destas empresas num determinado contexto. No entanto, todos estes aspectos são de alguma maneira abordados por outras áreas do conhecimento, como liderança e competências dos gestores, ou nos estudos de estratégia. Para expandir o campo do empreendedorismo, é importante definir o campo de estudo além de “quem é o empreendedor” e “do que ele faz”. Mas se existe algo que caracteriza o empreendedorismo é o fato da atividade empreendedora estar ligada à descoberta e exploração de oportunidades lucrativas. De certa forma, podemos dizer que o empreendedorismo como disciplina é o estudo de fontes de oportunidades. O processo e a relação com os empreendedores, ligados à descoberta, avaliação e exploração destas oportunidades. Na maior parte dos países existe uma grande atividade empreendedora. Assim, considerarmos que somente poucas pessoas especiais são capazes de empreender não parece muito correto. A abordagem de oportunidade empreendedora, considera que existe a tendência de pessoas a responder aos contextos externos, identificando oportunidades. E, o fato de identificar e explorar estas oportunidades não implica necessariamente na criação de novas empresas, além de poder acontecer dentro de empresas estabelecidas. A oportunidade empreendedora é “um conjunto de ideias, crenças e ações que possibilitam a criação de produtos e serviços futuros, na ausência de mercados existentes para eles” 2. São “situações nas quais novos produtos, serviços, matérias-primas e métodos organizacionais podem ser introduzidos e vendidos acima do custo da produção”3. A diferença das oportunidades empreendedoras das oportunidades em geral, é o fato de existir uma descoberta de novas formas e relações, no lugar da simples melhoria. Assim, estas oportunidades empreendedoras existem porque pessoas distintas possuem percepções distintas sobre seu valor e como aproveita-la. Ou seja, as oportunidades são identificadas porque as pessoas possuem ou compreendem informações de formas distintas. Vale lembrar e destacar que o reconhecimento de uma oportunidade não caracteriza a ação. Tampouco, que a habilidade de reconhecer a oportunidade não é igual entre as pessoas, pois cada um tem acesso a informações diferentes e com contextos e VENKATARAMAN, S. The Distinctive Domain of Entrepreneurship Research: An Editor’s Perspective. In Advances in Entrepreneurship, Firm Emergence and Growth: Volume 3, ed.J.A. Katz and R. Brockhaus, p. 119–38. Greenwich: JAI Press, 1997. 3 CASSON, M. The entrepreneur. Totowa: Barnes & Noble Books, 1982. 2 experiências distintas. A ideia e a oportunidade A identificação e aproveitamento da oportunidade vai depender do conhecimento prévio dos empreendedores, de suas redes de relacionamento e de suas experiências. Considerando o conhecimento prévio e experiência, a oportunidade pode nascer do foco em uma ideia. A oportunidade também pode nascer da ação, a ideia vai se formando com a adaptação. A oportunidade pode aparecer de lacunas existentes, quaisquer que sejam as fontes de oportunidades. Independentemente do conhecimento e experiência, o acesso a documentos, leitura de revistas e jornais, participação em eventos, conversas no relacionamento, avaliação de tendências podem ser, dentre diversas outras, fontes para ideias para explorar oportunidades. Os acessos a estas fontes ajudam a reduzir a incerteza, assim como pela participação em diversas comunidades de relacionamento. É importante definirmos o que é ideia na nossa concepção. “Uma ideia é uma representação mental de algo concreto ou abstrato, um conceito ou invenção”4. As fontes de ideias podem ser diversas. Podem vir das experiências pessoais (caso da Iron Box, academia do Rio de Janeiro, pela ligação de um empreendedor com a cultura física e da experiência profissional do outro), das experiências profissionais (como no restaurante Lasai do Rio de Janeiro a partir da experiência do seu empreendedor e chef), de histórias de outros e de outras experiências que ficamos sabendo (o desenvolvimento subsequente da Cacau Show, num modelo parecido com o da Kopenhagen para um novo público), de viagens que fazemos, de tendências e cenários que passamos a ter acesso (por exemplo, os serviços para idosos), de conversas com pessoas (o CoachAnywhere para executivos em crescimento a partir da conversa entre dois amigos), de hobbies (por exemplo, a Tropical Brasil, fabricante de pranchas de Santa Catarina), etc. Todas estas ideias apresentadas no parágrafo anterior, e que viraram negócios, se ligaram a oportunidades que foram identificadas pelos empreendedores. A Iron Box, uma academia mais intimista, junto à praia e se integrando com ela, trazendo novidades, mas com proximidade junto aos clientes. A academia numa lacuna das grandes redes de academias e integrando com a natureza próxima, preocupando-se com o cliente estar 4 Ferreira, Santos e Serra (2008, p. 680). presente e não contando com a ausência. No Lasai, ao trazer todo o conhecimento adquirido como chef num dos melhores restaurantes do mundo, no país basco, para uma nova forma de comida requintada com cardápio a partir de alimentos frescos e variando diariamente. Ligando uma alimentação saudável com status e requinte. Na Cacau Show, de um negócio esporádico para ganhar um dinheiro na Páscoa, ao explorar a nova classe média emergente a partir do conceito da Kopenhagen para um público de maior poder aquisitivo. O CoachAnywhere, ao entender que os executivos têm pouco tempo e que as empresas cada vez mais se preocupam com o resultado a partir das competências pessoais. O serviço é executado pela Internet ou pelo telefone, com efetividade e com custo inferior ao serviço usual. Ou na Tropical Brasil ao compreender o surfista no mar e sua relação com a prancha, e entender o crescimento das atividades ao ar livre nos esportes aquáticos com prancha, como surf e stand-up paddle. Como podemos observar pelos exemplos, “uma oportunidade é um conjunto de circunstâncias favoráveis que cria a necessidade de um novo produto ou serviço”5. Uma ideia nem sempre está alinhada à oportunidade, para avaliar a relação entre a ideia e a oportunidade, o empreendedor poderia responder a alguns questionamentos antes de se lançar no negócio: O que pode estar criando a oportunidade? Estas condições que estão criando as oportunidades são temporárias ou de longo prazo? Que tipo de necessidade meu produto poderia atender com esta oportunidade identificada? Quais poderiam ser os clientes interessados? Consigo ter acesso a eles e como? Quanto estariam dispostos a pagar pelo meu produto? Existem concorrentes? Por que outros que poderiam estar atendendo a estas necessidades não se dedicam a ela? Todas estas questões são fundamentais para o desenvolvimento do plano de negócios do empreendimento, por exemplo. No entanto, não as respondes, é uma loteria, e não a sorte empreendedora de se conseguir algo por conta do que se persegue. A identificação de oportunidades Para que um novo negócio atende à uma necessidade existente ou latente de mercado, o empreendedor precisará identificar esta necessidade não satisfeita para que o produto (bem e serviço) possa se ajustar a ela. Os estudos de empreendedorismo apontam para duas fontes de oportunidades, as oportunidades Schumpeterianas e as oportunidades 5 Ferreira, Santos e Serra (2008, p. 71) Kirzterianas. As oportunidades Schupeterianas acontecem pelas mudanças abruptas na tecnologia, na sociedade, na demografia e na política e governo, que alteram o valor dos ativos. Já as Kirzterianas, aparecem por erros e falhas cometidos pelas organizações que estavam no mercado. Drucker as divide de forma mais detalhada em três categorias: (1) a criação de nova informação a partir de novas tecnologias e invenções – um exemplo seria a invenção do PC ou Iphone pela Apple; (2) a exploração de ineficiências do mercado, pelo acesso à informação e geografia – um possível exemplo neste caso seria a Amazon ou o modelo de negócios da Riachuelo em função do “custo Brasil; (3) a reação a mudanças em custos ou uso de recursos, por mudanças políticas, regulatórias ou demográficas – um exemplo pode ser o pioneirismo em cosméticos e produtos para a pele sustentáveis da Body Shop. Existem dois modos de descoberta de oportunidades: pesquisa deliberada e reconhecimento. Na pesquisa deliberada, os empreendedores possuem habilidades, usam técnicas e prospectam informações. Desta forma estariam mais aptos a descobrir oportunidades. O plano de negócios pode ser uma destas formas deliberadas de identificação. Outra forma, defendida por muitos como única, pois a oportunidade é desconhecida até ser descoberta, é a de reconhecimento. Assim, o reconhecimento acontece numa surpresa, por exemplo por acaso ao ter acesso a determinados problemas de um cliente. Pensando assim também se pode colocar que oportunidades podem ser descobertas ou criadas, de certa forma. Mas como disse o cientista Louis Pasteur: “a sorte favorece às mentes preparadas”. O conhecimento prévio do empreendedor, suas experiências e do conhecimento que o indivíduo adiciona ao longo do caminho, são fundamentais para o reconhecimento e aproveitamento da oportunidade. A informação que ele tem acesso é o input que resulta no conhecimento, ou seja, a informação que foi subjetivamente percebida e processada pelo empreendedor. Uma forma usual e importante de se ter acesso a oportunidades ou avalia-las é a verificação de tendências ambientais. Em geral, estas tendências, que podem ser globais ou regionais, envolvem aspectos sociais políticos, econômicos tecnológicos e demográficos. As tendências, e assim, as oportunidades, mudam com o tempo e com o contexto. Sendo por isto necessário que os empreendedores e, mesmo negócios tradicionais, de tempos em tempos estejam avaliando como modificam as tendências para avaliar a continuidade de seus negócios. Por exemplo, as tendências tecnológicas têm desafiado negócios existentes. Os bancos, por exemplo, estão buscando se tornarem negócios digitais, contando com cada vez menos tempo da classe média e o acesso à Internet e dispositivos móveis. No futuro, estes clientes não precisarão mais das agências na forma que atuamos hoje. Outro exemplo mais específico, se o Brasil conseguir se desenvolver e melhorar significativamente o poder aquisitivos de seus habitantes, o modelo de consultoras da Natura, pelo perfil delas, pode estar ameaçado. Na tabela a seguir, retirada do livro Ser Empreendedor (Ferreira, Santos e Serra, 2008, p. 78), apresentamos algumas destas tendências no contexto atual. Comentários finais A ideia é um bom ponto de partido para um negócio. Mas como tentamos expor neste breve texto, empreendedorismo está ligado diretamente à identificação e aproveitamento das oportunidades. Ou seja, da capacidade do empreendedor de ter consciência da sua importância e buscar identifica-las. Também ser capaz de ligar a sua ideia de produto, neste caso bem e/ou serviço, às possíveis oportunidades e questioná-la, não acreditando somente na intuição. Tabela 1. Tendências ambientais Econômicas Demográficas Socioculturais PIB e tendência de Crescimento evolução Mudanças no estilo Mais pressão legal e populacional países Político-legais nos de vida regulatória menos desenvolvidos Elevadas despesas Redução dos governos população países da Alteração do Atenção ao bem- nos conceito de família estar mais desenvolvidos Aumento da taxa Mudanças de juros características população Aumento da taxa Aumento de desemprego, imigração mas com diferenças certas regiões geográficas em nas Preocupação com a Questões da saúde de e moradia aposentadoria da Preocupações com Atenção a questões para o meio-ambiente ligadas à agricultura função do grau de instrução Níveis de Redução e controle Crescimento rendimento das taxas de individualismo do Questões ligadas à educação natalidade Nível de Aumento da taxa de Mais mulheres no Maior endividamento crescente envelhecimento nos mercado das países, sobretudo os trabalho famílias desenvolvidos foco na de proteção e preservação ambiental Mulheres no Maior expectativa Aumento do valor Maior abertura aos mercado de de vida em geral da educação trabalho e aumento formação do profissional rendimento e mercados internacionais familiar Maior concentração riqueza Maior diversidade Maiores de ética e de gênero no preocupações ambiente de sociais trabalho Mais empresas estrangeiras nos países em desenvolvimento Fonte: Adaptado de Ferreira, Santos e Serra (2008, p. 78). Bibliografia CASSON, M. The entrepreneur. Totowa: Barnes & Noble Books, 1982. FERREIRA, M.; SANTOS, J.; SERRA, F. Ser Empreendedor: pensar, criar e moldar a nova empresa. São Paulo: Editora Saraiva, 2009. FERREIRA, M.; REIS, N.; SERRA, F. Marketing para empreendedores e pequenas empresas. São Paulo: Editora Atlas, 2010. FERREIRA, M.; SANTOS, J.; SERRA, F. Ser Empreendedor. Lisboa: Editora Sílabo, 2008. SHANE, S.; VENKATARAMAN, S. The promise of entrepreneurship as a field of research. Academy of Management Review, v. 25, n. 1, p. 217-226, 2000. SHANE, S. A General Theory of Entrepreneurship: The Individual–Opportunity Nexus. Cheltenham: Edward Elgar, 2003. VENKATARAMAN, S. The Distinctive Domain of Entrepreneurship Research: An Editor’s Perspective. In Advances in Entrepreneurship, Firm Emergence and Growth: Volume 3, ed. J.A. Katz and R. Brockhaus, p. 119–38. Greenwich: JAI Press, 1997.