D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 3. EIXOS DE SUSTENTAÇÃO CONCEPTUAL DO DIAGNÓSTICO SOCIAL DE ARCOS DE VALDEVEZ Fotografia 3.1.: Paço de Giela D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 35 3.1. Linhas de definição da problemática da exclusão social e da pobreza O fenómeno da exclusão social agrega um vasto conjunto de opiniões e a exaustividade que se faz sentir prende-se, muito provavelmente, com a difícil delimitação da sua definição. Se considerarmos a tradição da análise social francófona, podemos adiantar que a exclusão social é representada como uma espécie de negação e/ou de privação dos direitos sociais na medida em que a “sociedade é vista como constituída por direitos e obrigações mútuos e onde a exclusão social é o processo de separação desta ordem moral” 1 .Os pobres são quase sempre abordados como objectos e não como sujeitos e também António Teixeira Fernandes considera que a sociedade tende a ter medo, distanciando-se e vendo-os como outros, ao mesmo tempo que finge interessar-se por eles 2 . E para além destes excluídos pela sociedade, existem ainda os que se autoexcluem, sentindo-se fora da comunidade na qual estão inseridos. Martine Xiberras adianta mesmo que os excluídos não são rejeitados apenas fisicamente (como é o caso do racismo), geograficamente (de que são consequência os guetos) ou materialmente (como é o caso da pobreza). A exclusão passa também pelas riquezas espirituais, dado que os que são considerados excluídos não têm valores reconhecidos na sociedade e estão ausentes de todo o universo simbólico de representações 3 . A estigmação dos 1 Centeno, Luís e Outros, Percursos Profissionais de Exclusão Social, Lisboa, Observatório do Emprego e Formação Profissional, 2000, p. 50. 2Fernandes, A. Teixeira, “O pobre em luta pela cidadania”, in Pobreza, Exclusão: Horizontes de Intervenção, Coimbra, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1998, p. 45. 3Xiberras, Martine, As Teorias da Exclusão – Para uma construção do imaginário do desvio, Lisboa, Instituto Piaget, 199, p. 19. D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 36 excluídos abrange, então, diversos níveis de negatividade, dificultando a clareza da exclusão social. Os excluídos são, desta forma, estigmatizados. Além disso, podem também ser considerados excluídos aqueles que, fruto de uma agudização constante das desigualdades, não têm recursos suficientes para aquilo que deveria ser uma plena participação social, ou seja, a exclusão pode ser considerada como resultado da desarticulação entre as diferentes partes da sociedade e os indivíduos 4 , gerando nos excluídos um sentimento de inutilidade. Acrescente-se a isto a transversalidade que a exclusão social comporta. Não devemos esquecer que todas as classes sociais podem, a qualquer momento, estar sujeitas a ser afectadas por este fenómeno sociológico. João Ferreira de Almeida lembra-nos, a este propósito, os casos da nova pobreza e os casos de mobilidade social descendente 5 , ou pobreza envergonhada, para usar o conceito de António Teixeira Fernandes 6 , não apenas das classes médias mas também dos sectores empresariais mais fragilizados. O emergir da solidão, do isolamento, da perda do laço social e da desqualificação social (portanto, da exclusão social) são indicadores claros de exclusão. A diminuição da densidade moral da sociedade não se fica por aqui. A integração social é também quebrada por via do individualismo, já que aquilo que se ganha em liberdade individual perde-se na relação com os outros, de onde brote o calculismo e a indiferença. Luís Capucha afirma que o que realmente acontece é a existência de duas faces opostas duma realidade contraditória com três dimensões: a material – que diz respeito à distribuição de recursos de vária ordem –, a social – 4 Rodrigues, Eduardo Vítor e Outros, “A pobreza e a exclusão social: teorias, conceitos e políticas sociais em Portugal”, in Sociologia – Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, n.º 9, 1999, p. 64. 5 Almeida, João Ferreira de, “Integração social e exclusão social”, in Análise Social, vol. XXVIII, n.º 123/124, 1993, p. 834. 6 Fernandes, António Teixeira, “Formas e mecanismos de exclusão social”, in Sociologia – Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, n.º 1, 1991, p. 46. D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 37 respeitante à reconstrução de identidades e sociabilidades – e a simbólica – que se refere à capacidade diferencial de impor significações. De acordo com esta perspectiva, o excluído é aquele que, num problema de assimetria de poderes, não tem acesso aos direitos de cidadania, aumentando o leque de esferas onde a exploração e a exclusão se processa e se reproduz no espaço e no tempo 7 . Toda esta complexidade em torno do fenómeno exclusão social, leva-nos ainda a falar em exclusões sociais, assumindo claramente a pluralidade e complexidade do fenómeno em análise. Com efeito, Bruto da Costa considera cinco tipos de exclusão social: económico, social, cultural, patológico e de comportamentos auto-destrutivos. A exclusão social de tipo económico, prende-se, fundamentalmente, com a privação e falta de recursos, originando más condições de vida, baixos níveis de instrução e qualificação profissional e emprego precário. A exclusão de tipo social caracteriza-se pelo isolamento, pela falta de auto-suficiência e pela falta de autonomia pessoal, donde se realça a situação dos idosos que vivem na solidão. Relativamente à exclusão de tipo cultural, ela tem a ver com fenómenos como o racismo, a xenofobia ou a difícil integração de ex-reclusos. No que respeita ao tipo patológico, a exclusão social tem a ver, muitas vezes, com as rupturas familiares, que por sua vez são o resultado de problemas psicológicos ou mentais. Por último, a exclusão por comportamentos autodestrutivos relaciona-se com a toxicodependência, com o alcoolismo, com a prostituição, e fenómenos afins, os quais também têm muitas vezes por detrás problemas de pobreza 8 . É inserida nesta multidimensionalidade do fenómeno da exclusão social, enquanto conjunto de factores interligados que contribuem para a produção do excluído, que podemos considerar a pobreza. Todavia, a pobreza não é 7 Capucha, Luís, “Nós e eles cá dentro: sobre o mito de um Robinson Crusoe ao contrário”, in Pobreza, Exclusão: Horizontes de Intervenção, Coimbra, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1998, pp. 17-21. 8 Costa, A. Bruto da, Exclusões Sociais, Cadernos Democráticos, n.º 2, Lisboa, Gradiva, 2001, pp. 21-26. 38 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez apenas um dos vários efeitos da exclusão; ela pode também causar desemprego, marginalidade, discriminação, etc., fenómenos que são simultaneamente um resultado da exclusão, originando uma relação de mútua cumplicidade. Para João Ferreira de Almeida, a pobreza é mesmo vista como a dimensão mais importante da exclusão social, tendo em conta, além de outros factores, os efeitos negativos de contágio que pode acarretar sobre os recursos económicos e não só 9 . Assim, o conceito de pobreza abarca uma vasta série de comentários analíticos que lhe podem ser feitos. Trata-se de uma polissemia e imprecisão de contornos que nos permitem desenvolver diversas abordagens no sentido de esclarecer aquilo que se entende por pobreza. Quando se fala em pobreza é preciso não esquecer que estamos a abordar um conceito deveras subjectivo, tendo em conta os diferentes pontos de vista dos também diferentes actores sociais. Neste âmbito, para que uma situação de pobreza seja resolvida, será necessário não só combater a privação, mas também a falta de recursos, fazendo do pobre uma pessoa auto-suficiente no que respeita aos recursos, uma pessoa capaz de levar uma vida condigna através de uma forma considerada corrente na sociedade em que está inserida. A questão da suficiência conduz-nos à problemática da cidadania, e então poderemos dizer que a pobreza pode ser definida em função dos direitos que as pessoas têm para que possam levar uma vida condigna, em congruência com aquilo que deve ser o exercício da cidadania 10 . Com efeito, são considerados pobres todos aqueles que se vêem privados da riqueza, da estima social e de poder. Almeida, João Ferreira de, “Integração social e exclusão social”, in Análise Social, vol. XXVIII, n.º 123/124, 1993, p. 832. 10 Cfr. também Costa, A. Bruto da Costa, “Depoimento”, in Pobreza, Exclusão: Horizontes de Intervenção, Coimbra, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1998, p. 40. 9 39 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez Nesta linha de pensamento, e tendo em conta todas as considerações acerca do desemprego, podemos afirmar que este constitui uma das principais dimensões da análise que pode ser feita relativamente à pobreza enquanto fenómeno social. A crise do trabalho da sociedade actual faz-nos pensar que dificilmente poderemos manter a identidade pelo trabalho como factor de referência principal. O desemprego 11 , na linha de pensamento de Serge Paugam, provoca uma crise de estatuto e consequente humilhação, fruto de uma identificação da honra e da dignidade com o trabalho, sendo o sonho destas pessoas um emprego assalariado permanente, isto é, um emprego menos precário, já que este é visto como uma segurança, não só ao nível material e financeiro, como também ao nível das relações sociais. No fundo, ter um emprego definitivo é poder ter mais facilmente acesso a uma vida familiar e social bem sucedida e à satisfação das necessidades materiais. O desemprego é, portanto, para este autor, uma das evoluções estruturais que levam à desqualificação social. Em certos casos, pode mesmo levar desafastamento da vida social, juntamente com uma crise identitária, problemas de saúde e rupturas familiares. Paralelamente, verifica-se uma aderência aos serviços de acção social, como consequência da perda de dignidade e da desclassificação profissional 12 . Para comprovar a representação que se tem face ao (des)emprego, Serge Paugam colocou no se estudo a seguinte questão: “o que significa para si a expressão «ser bem sucedido na vida»?”. As pessoas entrevistadas, por sinal com baixos níveis culturais e com uma participação incerta na vida económica e social, responderam de forma categórica: “ter um trabalho correcto”, “um trabalho bem pago”, “um bom O desemprego deve ser entendido “como ausência de emprego ou de trabalho regulado por uma relação contratual que institucionaliza o trabalho em emprego”, dado que por vezes as acções que combatem o desemprego atingem indevidamente sujeitos que não se encontram verdadeiramente desempregados exercendo um trabalho não regulado em termos institucionais, cfr Rodrigues, E. Vítor e outros, “A Pobreza e a Exclusão Social: Teorias, Conceitos e Políticas Sociais em Portugal”, in Sociologia – Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, n.º 9, 1999, p 76. 12 Paugam, Serge, “A desqualificação social”, in Da não-intergração – Tentativas definição teórica de um problema social contemporâneo, Coimbra, Quarteto Editora, 2000, pp. 109-110. 11 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez trabalho”, “um trabalho definitivo”... 13 , 40 o que demonstra bem a importância que estas pessoas atribuem ao trabalho enquanto expressão do eu na sociedade. Mas se o desemprego é uma das causas mais visíveis da pobreza e exclusão social, o emprego precário não lhe fica atrás, completando o quadro analítico desta questão, visto que este tipo de emprego encerra, a par do desemprego, os riscos da exclusão 14 . Em Portugal a precariedade do emprego resulta, em grande parte, do facto das pessoas atingidas pelo desemprego serem pouco qualificadas ou com qualificações obsoletas, fazendo com que o acesso ao mercado de trabalho precário, com empregos mal remunerados, também eles favoráveis à pobreza e à exclusão, se torne uma realidade, quando os laços e as referências associados ao trabalho não são totalmente perdidos 15 . O desemprego e a precariedade de emprego despoletam, então, processos e mecanismos inerentes à exclusão social, sendo este último factor de instabilidade social, quer no que respeita ao enfraquecimento de relações contratuais, quer no que se relaciona com o acesso e fruição de um emprego. Quanto ao desemprego, esse provoca uma implementação gradual dos efeitos do stress psicológico, originando rupturas com as relações sociais, com a auto-estima dos indivíduos e com a sua integração na comunidade 16 . Idem, p. 54. Idem, pp. 57-58. 15 Capucha, Luís, “Pobreza, exclusão social e marginalidades”, in José Manuel Leite Viegas e António Firmino da Costa (orgs.), Portugal, que Modernidade?, Oeiras, Celta Editora, 1998, pp. 218-219. 16Rodrigues, E. Vítor e Outros, “A Pobreza e a Exclusão Social: Teorias, Conceitos e Políticas Sociais em Portugal”, in Sociologia – Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, n.º 9, 1999, pp. 73-78. 13 14 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 41 3.2. As diferentes pobrezas e exclusões sociais Estas considerações em torno da definição de pobreza e da exclusão, que nortearam o presente Diagnóstico Social, não deixaram de ter em linha de conta a desmultiplicação de todas as dimensões inerentes ao conceito de pobreza e de exclusão social. Começando por definir pobreza absoluta, podemos adiantar que tem a ver com a noção de necessidades básicas, onde são avaliadas várias dimensões respeitantes à noção de recursos, tais como “rendimentos, bens de capital” ou “benefícios em espécie associados ao trabalho”, entre outros; a pobreza relativa tem inerente os padrões sociais em geral, sendo analisada com base numa relação de complementaridade e não de antagonismo”, sendo esta também a opinião partilhada por Alfredo Bruto da Costa 17 . Para além disso, a pobreza relativa implica “uma integração insatisfatória ou mesmo a exclusão dos pobres” 18 . A pobreza absoluta, e ainda de acordo com o mesmo autor, respeita à não satisfação das necessidades fisiológicas de alimentação, de abrigo e de vestuário, conduzindo a que, em última análise, uma pessoa fique doente ou morra em consequência da subnutrição ou falta de abrigo ou vestuário. Quem também faz alusão aos conceitos de pobreza relativa e pobreza absoluta é Luís Capucha. Do seu ponto de vista, ambos são delineados pela cultura da pobreza, enquanto maneira “de ser, fazer e sentir das pessoas, famílias ou grupos sociais” 19 . A pobreza relativa tem a ver com a escassez de Costa, Alfredo Bruto da, “Conceito de Pobreza”, in Estudos de Economia, vol. IV, n.º 3, 1984, p. 280. 18 Idem, p. 282. 19 Capucha, Luís, Op. Cit., p. 211. 17 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 42 recursos de determinadas pessoas, os quais não lhes permitem viver em função dos padrões tidos como normais numa dada sociedade. A operacionalização deste conceito relaciona-se com o limiar mínimo de pobreza, o qual é calculado em função do rendimento médio de um país, onde as pessoas que estão abaixo desse nível são consideradas pobres. A pobreza absoluta verifica-se quando esses mesmos recursos não permitem a essas pessoas a sua própria subsistência e eficiência física. O indicador deste conceito está ligado ao rendimento que é necessário um dado país pôr forma a garantir a eficácia física 20 . Relativamente à pobreza tradicional, ela “está associada a uma situação crítica”, com predominância no mundo rural, já que aí é enquadrado um estatuto inferior e desvalorizado”; a nova pobreza, por seu lado, tem a ver com “as reestruturações económicas e tecnológicas e com os seus efeitos no sistema produtivo”, com reflexos particulares ao nível do desemprego estrutural e da precariedade do emprego 21 , para além da instabilidade e dependência geradas. Quanto à pobreza rural, a “escassez básica de recursos, proveniente da baixa produtividade agrícola e pela falta de actividades económicas alternativas”, e uma população tendencialmente idosa com forte dependência relativa às prestações da segurança social, contribuem para a sua existência assim como, os baixos níveis de rendimentos associados a essas prestações pecuniárias; a pobreza urbana tem já a ver com formas extremas de exclusão que afectam diversos grupos sociais: são problemas de baixos rendimentos e de desemprego, de precariedade de emprego, de falta de qualificações, de doença, de toxicodependência, de alcoolismo, de deficiência e de “pressões subjacentes a processos de urbanização, estando estas associadas a Idem, pp. 211-212. Tal como refere Luís Centeno e Outros, “a questão da existência de uma nova pobreza começa por ser levantada por cientistas sociais franceses, tendo vindo a ser adoptada no discurso da União Europeia a partir da última década e progressivamente entrou para os discursos políticos nacionais como uma nova ameaça para a coesão social”, Centeno, Luís e Outros, Op. Cit, p. 49. 20 21 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 43 mecanismos de descrição e de segregação espacial”; a pobreza suburbana está relacionada com a proximidade e dependência do espaço suburbano ao espaço urbano, o que, juntamente com a pressão demográfica e a consequente procura de habitação, “apresenta contornos semelhantes às problemáticas” urbanas, como por exemplo “o consumo e tráfico de droga, a prostituição, a delinquência” e o “desordenamento territorial”. Assim, neste tipo de pobreza patenteia-se, no momento presente o que é referido por Marília Andrade: “Os processos de exclusão e de desafiliação avançam mais depressa que a invenção das soluções. É preciso que saibamos inverter as tendências. A dessincronia entre o reconhecimento e o exercício do direito à habitação e à cidade é apenas uma das pontas” 22 . No concernente à pobreza temporária, estão inerentes fluxos temporários, delimitados no tempo, de saída e de entrada na pobreza, isto é, diz respeito àqueles que já foram pobres e agora não são, àqueles que nunca foram pobres e agora são e àqueles que alternam estas situações; a pobreza duradoura “remete para a reprodução social e para o processo cíclico da reprodução da pobreza”, ou seja, tem a ver com aquelas pessoas que nunca deixaram de ser pobres durante a sua existência. Importa referir que, nestes dois casos, o mercado de trabalho pode ter uma elevada influência, na medida em que, por um lado, os actuais contratos a prazo podem proporcionar situações de pobreza temporária e, por outro lado, a precariedade do emprego e o desemprego estrutural potenciam a pobreza duradoura. A estas dicotomias parece-nos pertinente, ainda, adicionar outros tipos de pobreza, definidos por outros autores. Assim, António Teixeira Fernandes fala em pobreza envergonhada, a qual diz respeito àquelas pessoas que, mantendo laços sociais privilegiados, vivem com carências económicas sem, no entanto, manterem relações com as classes mais desfavorecidas. Chegam inclusivamente a contribuir para obras de beneficência, com o intuito de 22Andrade, Marília, “O Estado, a sociedade e a questão da habitação em Portugal - 1974-1976”, in Intervenção Social - Serviço social e sociedade, nºs 11/12, 1995, p. 246. D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 44 demonstrarem e tornarem aparente a sua situação anterior de classe, visto que se encontram numa situação de mobilidade social descendente 23 . Outros estudos também têm vindo a demonstrar a importância deste tipo de pobreza 24 . Este tipo de pobreza coloca várias adversidades na intervenção por duas razões: por um lado, depara-se com a relutância dos pobres em aceitar qualquer ajuda; por outro lado, trata-se de um fenómeno que, por estar em crescimento e por ser recente, vive de contornos ainda mal definidos 25 . A pobreza envergonhada afecta, principalmente, a população jovem e adulta, para a que se verifica uma escassez de recursos e meios de intervenção, tendencialmente com incidência nas zonas periféricas da cidade. Estes pobres caem, pode dizer-se, numa situação de pura arrogância, manifestando um orgulho que os eleva acima da sua condição social actual. Por oposição, a pobreza assumida encontra-se mais no centro da cidade e afecta mais a população envelhecida, para além de ter inerente a si uma concentração de recursos e meios de intervenção, já que este pobres aceitam as ajudas que lhes são prestadas, sem qualquer tipo de vergonha ou problema 26 . Fernandes, A. Teixeira, “Formas e mecanismos de exclusão social”, in Sociologia – Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, n.º 1, 1991, p. 46. 24 Dentre os quais salientamos o estudo feito na cidade do Porto por Isabel Baptista e Outros, A Pobreza no Porto: Representações Sociais e Práticas Institucionais, Cadernos REAPN, Rede Europeia Anti-Pobreza / Portugal, Porto, 1995. 25 Idem, p. 94. 26 Idem, p. 98. 23 45 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 3.3. Categorias sociais e contextos de vulnerabilidade à pobreza e à exclusão Do mesmo modo que falamos em tipos de pobreza, parece-nos importante abordar, agora, as perspectivas analíticas que têm em linha de conta as categorias sociais mais vulneráveis à pobreza (“categorias sociais e não grupos, já que, geralmente, não existem entre os indivíduos que as constituem nem identidades colectivas nem sentimentos de pertença a uma comunidade” 27 ). Para João Ferreira de Almeida, existem sete conjuntos principais de pessoas vulneráveis à pobreza (embora o autor reconheça as limitações de tal identificação, provocadas por lacunas e desactualização da informação estatística disponível 28 ), a saber, idosos pensionistas, agricultores de baixos rendimentos, assalariados de baixo nível de remuneração, trabalhadores precários e da economia informal, minorias étnicas, desempregados e jovens de baixas qualificações à procura de primeiro emprego. Os idosos pensionistas caracterizam-se pelos baixos montantes dos subsídios que recebem, os quais podem resultar ou num prolongamento de uma situação de pobreza, visto que muitos sempre tiveram baixos salários, ou numa efectivação da pobreza, já que alguns idosos vivem no limiar da pobreza (consequência das suas baixas remunerações) e atravessam, com a reforma, uma fase de deslizamento inevitável para situações duradouras. Juntamente com estes factores estão as necessidades em matéria de assistência médica e Almeida, João Ferreira de e Outros, Exclusão Social – Factores e Tipos de Pobreza em Portugal, Oeiras, Celta Editora, 1992, p. 67. 28 Idem, p. 102. 27 46 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez medicamentosa de que as pessoas idosas são alvo, fruto, muitas vezes, da própria idade 29 . No que respeita aos agricultores de baixos rendimentos, trata-se de pessoas que por viverem em regime de auto-subsistência, através de explorações agrícolas de pequena dimensão e economicamente inviáveis, estão sujeitas à pobreza. A dificuldade que muitas vezes encerram para desdobrar as fontes de rendimento, fazem desta categoria social a “mais marcada pela reprodução continuada de situações tradicionais de pobreza” 30 . Atendendo, agora, aos assalariados de baixo nível de remuneração, designadamente à vulnerabilidade a situações de pobreza que os caracteriza, ela deve-se, fundamentalmente, aos ínfimos salários que recebem. Paralelamente, as baixas qualificações escolares e profissionais que prolongam o baixo nível de remunerações auferidas proporcionam, também, o caminho para a pobreza 31 . Os trabalhadores precários e da economia informal são afectados pela vulnerabilidade à pobreza de diferentes formas, na medida em que uns mantêm um vínculo com a sua actividade profissional, associado a fracas qualificações e a baixos salários (que os afastam do mercado oficial de trabalho), e outros não. Estas duas situações implicam, concomitantemente, perspectivas de agravamento ou evolução no que concerne à permanente exposição ao desemprego, resultante da não renovação dos contratos e de uma situação profissional altamente instável 32 . No que respeita às minorias étnicas, o grau de incidência da vulnerabilidade à pobreza é alto, atingindo, sobretudo, os sectores assalariados desqualificados, o que no caso dos homens se traduz na construção civil e obras públicas e no Idem, pp. 68-69. Idem, p. 70. 31 Idem, pp. 71-72. 32 Idem, pp. 73-75. 29 30 47 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez caso das mulheres nos serviços domésticos. Muitas vezes o que acontece é que são pessoas clandestinas no que respeita à sua situação de imigrantes, o que, por sua vez, fomenta a entrada no mercado de trabalho clandestino. Acresce o facto de, a par doutras categorias, a escolaridade, bem como as qualificações profissionais, assumirem um perfil baixo. Há igualmente que considerar que estamos perante uma estrutura etária jovem, com alto índice de desemprego. As minorias étnicas contam também com o difícil acesso à habitação 33 . A pobreza assume contornos ainda mais visíveis quando atinge os desempregados, em concordância com aquilo que já tivemos oportunidade de mencionar, até porque para além deles próprios, ela pode invadir igualmente as respectivas famílias. A precariedade desta categoria social relaciona-se com o baixo montante do subsídio de desemprego e com o facto deste apenas ser atribuído a uma minoria dos desempregados e por um período limitado de tempo. Relativamente às situações mais críticas – desempregados de longa duração e idosos –, os primeiros acabam por perder o direito ao subsídio de desemprego e os segundos vêem o regresso ao mercado de trabalho dificultado precisamente pela sua idade. Em qualquer uma das situações, o desemprego atinge maioritariamente as mulheres. Além disso, os desempregados encontram-se, sobretudo, nos centros urbanos e em todo o seu conjunto existe uma grande parte à qual se pode aplicar o conceito de nova pobreza. Alguns fluxos no sentido dos contratos a prazo, as minorias étnicas e os trabalhadores precários e da economia informal, engrossam ainda mais esta categoria social, uma vez que para eles o desemprego está constantemente no seu horizonte 34 . Por último, João Ferreira de Almeida faz alusão aos jovens de baixas qualificações à procura de primeiro emprego, começando, porém, por afirmar que esta categoria social poderia ser considerada como um conjunto mais geral dos desempregados. Não obstante, o facto de uma elevada 33 34 Idem, pp. 75-77. Idem, pp. 78-79. 48 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez percentagem destes jovens (quase 50%) constituírem uma fatia dos desempregados, aliado à situação em que a baixa escolaridade e os fracos índices de qualificações profissionais coincidem com uma situação familiar modesta, leva o autor a especificar esta categoria social. Os seus níveis de escolarização e qualificação profissional agudizam as próprias situações e emagrecem a sua competitividade no mercado de trabalho 35 . As categorias apresentadas referem-se, segundo o autor, aos casos de pobreza e vulnerabilidade à pobreza de maior dimensão e durabilidade. Todavia, essas situações não se esgotam nesta enumeração e a prova disso está precisamente na diversidade de categorias propostas por outros autores, ainda que muitas delas vão ao encontro da análise efectuada por João Ferreira de Almeida. Com efeito, outra abordagem considera que são três as tradicionais categorias sociais com difícil acesso à plena cidadania e à integração no mercado de trabalho: idosos (marcados pelas baixas pensões, pela solidão e desintegração familiar), camponeses pobres e assalariados de baixas qualificações e remunerações. Paralelamente, e ainda no mesmo âmbito, emergem as novas categorias sociais desfavorecidas, entre as quais estão os desempregados de longa duração, caracterizados por qualificações baixas ou mesmos obsoletas, os grupos etários culturais minoritários com condições precárias de vida, as famílias monoparentais, as pessoas com deficiência, caracterizadas pela dependência sócio-familiar, junto da baixa capacidade para obter emprego, os jovens em risco, cuja exclusão é manifestada, desde logo, pelas principais instituições sociais (família, escola, trabalho), os sem abrigo e os trabalhadores da economia informal e com emprego precário. Convém ainda acrescentar as mulheres, os jovens à procura de primeiro emprego, particularmente aqueles que não possuem nem formação nem qualificação profissional, e os beneficiários do Rendimento Mínimo Garantido, como categorias sociais vulneráveis à pobreza. 35 Idem, pp. 79-80. D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 49 Para corroborar a panóplia destas categorias sociais que estão vulneráveis à pobreza, António Teixeira Fernandes fala em pessoas idosas beneficiárias, em agricultores pequenos proprietários e rendeiros, em operários com frágeis ligações ao mercado de trabalho, em trabalhadores da economia informal ou com emprego precário, em minoras étnicas, em desempregados e em jovens pouco qualificados à procura de emprego. 3.4. A exclusão e a pobreza em contextos de ruralidade Podemos definir o espaço rural como caracterizado por pequenos núcleos de população, relativamente escassa que se conhecem mutuamente; pautado pela dispersão relativa de povoamentos e consequentemente, relativa escassez de serviços colectivos e importância das actividades agropecuérias em termos de população ocupada e de produção relativa. Obviamente que o meio rural não é uniforme, mas podemos referir-nos ao espaço rural como um local com determinadas carências em termos de certos serviços (luz, saneamento, ...), com alguma degradação física dos pavimentos e das construções habitacionais, com escasso comércio, com baixos níveis de serviços, tais como, a educação, o lazer, a cultura, estruturas de apoio à população infantil e idosa, com escassas alternativas ao sector agrário e o desaparecimento das actividades tradicionais 36 . Situando-nos no caso concreto do concelho de Arcos de Valdevez, podemos referir que as principais espacializações dos processos sociais podem traduzirse fundamentalmente em duas tendências. A primeira, traduz-se na vivência num meio particularmente pautado pela ruralidade, decorrendo daí, uma escassez básica de recursos, proveniente da 36 Cfr. http://cederul.unizar.es 50 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez baixa produtividade agrícola e pela falta de actividades económicas alternativas, agravada por uma alta dependência face às prestações da segurança social por parte de uma população maioritariamente idosa e relativamente feminilizada. Encontra-se ainda mais ou menos difusa e relacionada com uma cultura tradicional assente em valores de solidariedade e inter-ajuda 37 ainda presentes no quadro de grande parte das freguesias. A realidade da pobreza tende a manifestar-se de forma difusa no meio físico, arrastando consigo a degradação de um parque habitacional envelhecido e sem perspectivas de requalificação, a inexistência de princípios estruturados de economia doméstica, assim como, a visualização de uma certa adaptação ao meio por parte das expressões territoriais e sociais da pobreza e da exclusão social. A segunda, de perfil mais urbano, implica que a pobreza se revista de formas mais visíveis e extremas de exclusão. A pobreza urbana afecta diversos grupos sociais, reflectindo problemas associados aos baixos rendimentos e desemprego, à falta de qualificações (e à incapacidade de as desenvolver – por exemplo, formação profissional), à precariedade de emprego, às situações de doença ou de problemas sociais (toxicodependência, alcoolismo, deficiência, etc.), às pressões subjacentes aos processos de urbanização, estando estas associadas a mecanismos de discriminação e segregação espacial. Estas situações agravam a dificuldade de acesso a bens de consumo, serviços e equipamentos indispensáveis a uma vida condigna. Esta situação está de certa forma patente na sede do concelho. Aliás, e para fugir a processos similares a decorrer em outros centros históricos do país, importaria criar uma lógica de centralidade cultural, cívica, lúdica que estivesse sujeita à própria Existem ainda algumas aldeias onde se praticam as chamadas vezeiras, isto é, as pessoas organizam-se comunitariamente, levam o gado para a pastagem dentro do quadro comunitário das redes de solidariedade aldeãs. Acontece ainda em certas aldeias do Lindoso, Soajo, Germil e Ermida. 37 51 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez lógica de habitar dos residentes nesse mesmo meio histórico. Evidentemente que importa requalificar urbana e socialmente esses centros, mas ter-se-á de seguir de perto a reconstrução das habitações em parceria com os proprietários ou então proporcionar às pessoas propostas de realojamento muito direccionadas para os seus valores, motivações e interesses pessoais. Situando a nossa análise no âmbito da desintegração social, podemos aquilatar que as situações que conduzem aos processos de exclusão social se encontram tanto em meio rural como em meio urbano. No entanto, no mundo rural, este processo assume algumas características específicas, nomeadamente no que diz respeito à importância do sector primário e ao isolamento geográfico que tem implicações fortes nos processos de exclusão social. Os fenómenos de pobreza no meio rural não são recentes e resultam de factores de ordem económica, sociais, culturais e geográficos. A nível nacional, a incidência da pobreza é mais elevada em meio rural, em termos relativos, e com uma maior expressão nas localidades de dimensão inferior a 2000 habitantes. É também mais elevada nas famílias com único indivíduo (35,5% destas famílias) e nas famílias com cinco (34,6% destas famílias) ou mais indivíduos (48% destas famílias). As famílias monoparentais cujo chefe de família é mulher encontram situações extremas, sendo também mais grave a insuficiência média de rendimentos, conduzindo a uma severidade relativa do subgrupo da população que é de 176% da severidade média registada no conjunto da população pobre. Os escalões etários mais atingidos são os dos mais idosos, com uma extrema intensidade nos escalão de idades superior a 74 anos, com cerca de metade dos agregados atingidos. Os baixos níveis de escolaridade são também indicadores de vulnerabilidade à pobreza, com cerca de 46,8% das famílias cujo representante apresenta um nível de escolaridade inferior à instrução básica. D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 52 As características das explorações e os modos de funcionamento dos agricultores são elementos a considerar numa trajectória de empobrecimento. Estarão a priori mais expostos os pequenos agricultores, possuindo fracos capitais escolares e reticentes à introdução de inovações em matéria de produção. Ao invés, estarão à partida mais protegidos aqueles com maiores níveis de formação, desenvolvendo métodos de produção mais "racionais" e compatíveis com as exigências do mercado. Outros factores podem reforçar a vulnerabilidade das populações rurais, tais como as distâncias e a insuficiente oferta de transportes, as dificuldades de acesso a informação, a ausência de equipamentos ou serviços básicos (telefone, electricidade, água), problemas de saúde, dependência do álcool, toxicodependência, escassez dos equipamentos sociais, etc.. Para os mais jovens, o abandono escolar precoce, por razões diferentes segundo os contextos locais, mas ligadas a um mercado de emprego pouco exigente , tenderão a acentuar as rotas de vulnerabilidade e exclusão. De um modo geral, pode-se dizer que este fenómeno tem tendência a ser cumulativo: se à perda de emprego, se associa um problema de saúde, o divórcio, dificuldades na habitação, fracos níveis de formação e educação, então os riscos serão maiores de se entrar num processo de exclusão, e mais difícil será o processo de integração. A actual imagem das aldeias é de envelhecimento e velhice, de camponeses cada vez em menor número e de antigos assalariados rurais que aumentam o volume dos pensionistas de regimes não contributivos. A pobreza, que é de continuidade de um passado recente, é uma situação comum e os espaços rurais tornam-se, no seu conjunto, excluídos dos processos de modernização. Trata-se aliás de uma pobreza de "continuidade" ou seja, que não contrasta drasticamente com o meio que a envolve, globalmente fragilizado. De facto, assiste-se a uma combinação conjunta de elementos de ordem geográfica, demográfica, económica e cultural que tornam os espaços rurais mais 53 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez vulneráveis e com maiores dificuldades de se revitalizarem. Nesta problemática, as actividades económicas, designadamente as agrícolas, assumem um papel crucial para a compreensão das mutações do mundo rural. Nas últimas décadas, as actividades agrícolas tem vindo a sofrer importantes alterações, registando-se um decréscimo do número de explorações e do número de trabalhadores rurais e da diminuição das muito pequenas explorações. Tais mutações, que dão lugar a uma modernização da agricultura e a uma consecutiva maior rentabilidade, levam igualmente a uma forte diminuição do emprego agrícola, criando graves problemas sociais. 54 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 3.5. Desafios em torno das estratégias de combate à pobreza e à exclusão Cidadania vs. Assistencialismo Em contraposição às medidas adoptadas por muitas instituições de apoio social no sentido duma mera assistência às pessoas mais necessitadas, surgem autores que erguem a sua voz para chamar a atenção de que o procedimento a ter deve ser precisamente o oposto. Quando os indivíduos são classificados de assistidos, a política social reforça a identidade negativa dos seus beneficiários, desencorajando os seus esforços e remetendo-os para uma carreira de assistidos, ao mesmo tempo que se arriscam a ser postos à margem do mercado de trabalho 38 . Assim surge a questão da cidadania e falar nela é falar no acesso aos padrões de vida tidos por aceitáveis numa dada sociedade. Os fenómenos da pobreza e exclusão social são muitas vezes provocados pela inacessibilidade dos mais desfavorecidos a “direitos e deveres sociais e culturais ao trabalho e ao rendimento autónomo, à educação e à cultura, à habitação, ao acesso a cuidados de saúde, à posse de uma identidade positiva, à protecção social e cívica, à participação social e à pertença a grupos” 39 , ou seja, são originados pela incapacidade do pleno exercício da cidadania. Pelo contrário, a esfera da inactividade e assistência é resultado de um processo, por etapas, de desqualificação social. A perda progressiva de dignidade, antecipada por uma desclassificação, pode conduzir à Paugam, Serge, La Disqualification Sociale – Essai sur la nouvelle pauvreté, Paris, PUF, 1991. Capucha, Luís, “Pobreza, exclusão social e marginalidades”, in José Manuel Leie Viegas e António Firmino da Costa, Portugal, que Modernidade?”, Oeiras, Celta Editora, 1998, p. 211. 38 39 55 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez dependência ou à assistência das pessoas mais desfavorecidas, dando-se mesmo transformações de personalidade nos casos de nova pobreza. Muitas vezes o que acontece é que as posições adoptadas pelas instituições responsáveis vão de encontro ao facto de os pobres serem quase sempre abordados como objectos e não como verdadeiros sujeitos. Para que se possa chegar ao contrário de dependência – autonomia – não bastam acções concentradas na concessão de recursos. Antes, é preciso que a vontade de autonomia dê aos pobres o direito a serem Homens e a serem considerados como tal, o que está, mais uma vez, relacionado com as questões da cidadania. Com autonomia, os pobres podem conduzir a sua própria vida, transformando-se nos próprios actores da sua existência, na medida em que o poder ou capital social que detêm é mobilizado em proveito próprio, em vez do puro objecto de análise e de assistência. Da mesma forma, aquilo que serve como auto-estima dos trabalhadores é a sensação de poderem assumir a responsabilidade sobre si próprios, sobre as suas famílias e sobre o seu futuro. Dessa forma, os pobres sentem-se dentro da sociedade e, ao exercerem a cidadania, podem manifestar-se em diferentes modalidades de participação. Quando a cidadania é posta em causa, os próprios indivíduos levam a cabo acções que lhes permitem colmatar essa lacuna, segundo Fernando Ruivo. Nesse sentido, o autor contrapõe, a propósito, o conceito de cidadania real ao de cidadania relacional. Quando a incidência da exclusão recai acentuadamente sobre as populações, a esfera global da cidadania real, formal e oficial entra numa situação de défice. Nestes casos, os próprios grupos sociais exercem práticas relacionais de cidadania no interior desses mesmos grupos, compensando, assim, o agravamento da cidadania real. Simultaneamente, a cidadania relacional poderá corrigir algumas incapacidades dos sistemas sociais, mormente dos projectos de intervenção social 40 . 40 Ruivo, Fernando, Poder Local e Exclusão Social, Coimbra, Quarteto Editora, 2000, pp. 45-46. 56 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez A cidadania deve ser, na óptica de Alfredo Bruto da Costa, garantida pelas próprias instituições. Os projectos de luta contra a pobreza devem incentivar a participação dos pobres nos mesmos, devolvendo-lhes o poder que perderam e proporcionando-lhes as condições necessárias ao pleno exercício da cidadania 41 . Este poder manifesta-se em diversas formas, tais como no poder político, no poder económico, no poder social, no poder cultural, no poder de influência e no poder de pressão social. O pobre é, por isso, alguém destituído de poder 42 . A participação (s)urge, então, como um instrumento fulcral no combate à pobreza, visto que dessa forma se podem criar lugares institucionais apropriados à mobilização das capacidades interventivas dos próprios pobres, que assim assumem o seu papel enquanto cidadãos com autonomia e se fazem ouvir. A participação engloba um conjunto de energias indispensáveis para que haja desenvolvimento neste domínio e da sua boa ou má utilização depende o sucesso dos projectos de luta contra a pobreza. Aqueles que tentam alcançar os seus objectivos através do seu envolvimento nas acções institucionais, põem de parte a procura da dependência assistencial, bem como o desinteresse ou a incomunicação, ao mesmo tempo que assumem uma postura de responsabilização respeitante aos projectos e às suas próprias condições de vida. Políticas conjugadas no sentido da escolarização, da formação profissional, do emprego e da habitação podem também servir de apoio à acção que os pobres devem desencadear, com o intuito de erradicar a pobreza. Para tornar o pobre num agente da sua própria promoção, apenas um acompanhamento oposto ao assistencialismo pode promover uma acção transformadora das situações existentes. Costa, Alfredo Bruto da, Exclusões Sociais, Cadernos Democráticos, n.º 2, Lisboa, Gradiva, 2001, p. 53. 42 Idem, p. 30. 41 57 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez O assistencialismo pode, inclusive, transformar-se numa “experiência humilhante, sobretudo, para os “novos pobres” e equivale a aceitar ser catalogado como “pobre”, o que implica assumir um estatuto socialmente desvalorizado, ser confrontado com o seu próprio insucesso e ter de dar provas das suas condições de existência vendo, assim, a sua vida privada transformada em objecto de análise pública. Falamos de dependência acrescida face aos serviços de acção social, da perda progressiva de motivação face ao emprego, da elaboração de uma negociação do estatuto de assistido (auto-justificação e racionalização) e aprendizagem de estratégias de relação com os técnicos de serviço social, a fim de obter uma boa satisfação das suas necessidades. Por conseguinte, impõe-se a lógica de integração à lógica, muitas vezes preconizada, de assistencialismo puro, que reforça a consciência da desqualificação social dos pobres, uma vez que estando integradas as pessoas deixam de ter necessidade de apoio directo. Na mesma linha de pensamento, David Schmidtz 43 escreve que as instituições só podem ajudar os cidadãos a levar uma vida produtiva e sem sobressaltos se os obrigar a responsabilizarem-se pelo seu próprio bem-estar. O mesmo autor é também de opinião que nem as obras de caridade, nem os programas assistenciais, constituem curas milagrosas para a pobreza, alertando que, ao longo do tempo, algumas organizações tiveram resultados úteis mas muitas outras não. A importância das parcerias no combate à pobreza Analisando a problemática das práticas institucionais à luz das políticas locais, Fernando Ruivo considera que é extremamente importante a existência de redes “para a conformação e operacionalidade dos conteúdos, formas, objectivos e eficácia das variadas políticas locais contra a exclusão social” 44 . Já há uma década Serge Paugam afirmava que o modo de intervenção social que se procurava accionar no terreno não deveria ser baseado de 43 Schmidtz, David; Robert E. Goodin, El Bienestar Social y la Reponsabilidad Individual, Madrid, Cambridge, University Press, 2000,., p. 41. 44 Ruivo, Fernando, Poder Local e Exclusão Social, Coimbra, Quarteto Editora, 2000, p. 31. D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 58 forma exclusiva no “trabalho social personalizado”; antes, deve procurar-se completar a acção individual por via de uma acção global, assente na negociação entre diferentes parceiros de forma a resolver situações complexas 45 . O sucesso das acções de luta contra a pobreza pode depender do grau de mobilidade que existe entre os diversos parceiros, onde, para além da sociedade em geral, se englobam parceiros locais como organismos estatais, técnicos e decisores com responsabilidade directa nas acções levadas a cabo no terreno. Paralelamente, a multidimensionalidade das causas que estão na base da situação de privação requer, igualmente, uma intervenção multidimensional, capaz de combater todas as vertentes originárias da pobreza, sob pena de qualquer acção levada a cabo se tornar ineficaz. Neste âmbito, uma equipa interdisciplinar capaz de combater todas as frentes relacionadas com a pobreza, formada previamente pela identificação dos domínios científicos necessários à intervenção, torna-se indispensável. Tudo isto resultará numa acção interventiva concentrada e subordinada a objectivos comuns, a qual passará pela parceria entre as diversas instituições responsáveis no combate à pobreza. Desta forma, transpõe-se para a prática um trabalho em rede capaz de erradicar as situações de carência e privação, eliminando, certamente, o assistencialismo que atrás referimos. E isto é tanto mais importante se considerarmos que a diversidade de problemas e situações relacionados com a pobreza e exclusão não permitem que se intervenha num só sentido. As redes, enquanto forma e conjunto de medidas inter-institucionais para combater a pobreza, tendem a ter uma operacionalidade menor, ou até inexistente, nas cidades de grande dimensão, onde existem vários problemas 45 Paugam, Serge, La Disqualification Sociale – Essai sur la nouvelle pauvreté, Paris, PUF, 1991. 59 D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez relacionados com a pobreza. Assim, a diversidade de grupos e problemas que podem existir num determinado território levam à redução das práticas institucionais de combate à pobreza. A variedade de situações existentes dá origem a programas específicos destinados a grupos alvo que, tal como o nome indica, dirigem-se apenas a alguns grupos sociais e não à generalidade de casos. Ora, como nem todas as instituições se dedicam apenas a grupos alvo e como as que se dedicam não têm necessariamente que o fazer em relação aos mesmos grupos das outras instituições, surge a tal dificuldade em realizar parcerias, ao mesmo tempo que arrebente um sentimento de impotência em termos de intervenção global face à extensão da exclusão social. Esta dificuldade prossegue com a divisão de competências e responsabilidades que é gerada nos vários parceiros, para a qual contribuem factores como a cultura interior e fechada de cada instituição e o centralismo da administração. Por outro lado, se considerarmos que um dos parceiros pode ser a sociedade em geral, a situação emaranha-se ainda mais. Um outro factor que condiciona a intervenção social ao nível da luta contra a pobreza tem a ver com a identidade dos próprios interventores. Quando existe um ‘espírito de bairrismo’ no sentido da identificação relativa ao local de intervenção por parte dos interventores, há uma maior motivação em verificar o melhoramento do bem-estar da população e da estrutura social local. Pelo contrário, quando esse sentimento não existe, torna-se muito mais difícil a realização de qualquer tipo de iniciativa para combater a pobreza. É assim que pensa Bruto da Costa 46 , ao afirmar que o sentimento de causa comum num projecto de luta contra a pobreza ajuda a trabalhar de uma forma interligada, dado que os problemas são sentidos de forma diferente. 46 Costa, A. Bruto da, “Depoimento”, in Pobreza, Exclusão: Horizontes de Intervenção, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1998, p. 41. D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 60 3.6. Integração e inserção social O conceito de exclusão social está associado, por oposição, ao conceito de integração social. A integração pressupõe a participação e a partilha, entre outros, dos mecanismos de poder. Assim, os excluídos ou grupos empobrecidos devem ter necessariamente uma participação activa no funcionamento de grupos sociais organizados. Esta é uma condição básica para se operar a integração. Desta forma, a integração remete para um conjunto de situações estáveis e consolidadas ao nível das relações de trabalho, familiares e sociais. A sua possibilidade passa pela interacção entre quatro sistemas - o sistema políticojurídico, que deve operar a integração cívica e política; o sistema económico e territorial, que pressupõe a integração sócio-económica num dado espaço; o sistema de protecção social, que proporciona a integração social e o sistema familiar, comunitário e simbólico, que deve realizar a integração familiar e na comunidade mais abrangente. As políticas de combate à pobreza e exclusão assentam na noção de integração social, que é utilizada para designar o processo que caracteriza a passagem das pessoas, famílias ou grupos das situações de exclusão para as de participação social e cidadania. A eventual falência do modelo centralizador de Estado, tão defendida pelas perspectivas neo-liberais, a par do crescimento de algumas áreas do sector público e da diminuição do controle estatal sobre a economia, que implicou uma revisão do papel da sociedade civil na definição e exercício do poder político (local), é hoje objecto de redefinição. O papel do Estado e das políticas sociais de intervenção estatal (intervenção exclusivista ou partilhada com o “terceiro sector”) parece ser cada vez mais D i a g n ó s t i c o S o c i a l do Concelho de Arcos de Valdevez 61 importante na regulação das disfuncionalidades estruturais do modelo de desenvolvimento assente numa lógica de mercado. Partindo do pressuposto de que a população não é homogénea, nem nas necessidades, nem nas aspirações, então para intervir em prol da sua inclusão torna-se fundamental respeitar e atender às suas peculiaridades, sendo preciso estabelecer critérios para comparar grupos populacionais entre si e em relação a padrões de qualidade e permitir o estabelecimento de objectivas e metas que promovam a qualidade de vida, através do acesso a bens materiais e imateriais disponíveis na sociedade contemporânea. Um critério é o geográfico que se refere ao espaço onde vive determinado grupo. Outro critério é o de identificar, nesses grupos populacionais, conjuntos sensíveis a determinadas acções e serviços peculiares, tais como: segmentos por faixa etária - como crianças e adolescentes, por forma de agregação social - como famílias -, e por ocupação - como trabalhadores dos sectores formal e informal. Esses conjuntos que não são mutuamente excludentes, permitem que a acção social se organize de maneira horizontal em forma matricial, ou seja, é através dessa estrutura organizacional que se pode concretizar a intersetorialidade 47 . Assim, esta parece a via da integração e da inserção social, sendo este o ponto de vista que adoptamos no quadro da elaboração deste documento. 47 Kliksberg, Bernardo, “Falácias e mitos do desenvolvimento social”, in http://www.sinprors.org.br/extra/mar02/artigos.asp.