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Nota: Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida por qualquer processo electrónico, mecânico ou fotográfico, incluindo, fotocópia, xerocópia ou gravação, sem autorização prévia da editora. Exceptua-se desta proibição a transcrição de curtas passagens para efeito de apresentação crítica ou debate dos textos desta obra, que porém não revistam carácter antológico ou similar. Os infractores incorrem em procedimento judicial. • Direitos desta obra reservados para todos os países por Livpsic Índice 1. Introdução..........................................................................................................................................7 2. Acção Local: enquadramento conceptual.............................................................................................9 2.1. O “nascimento” do social.............................................................................................................9 2.2. A emergência do local. A “morte” do social?...............................................................................11 2.3. A acção local no combate à pobreza e à exclusão social...............................................................16 2.3.1. A pobreza e a exclusão social..............................................................................................16 2.3.2. A acção local......................................................................................................................21 3. Metodologia......................................................................................................................................25 3.1. Enquadramento geral do estudo. ..............................................................................................25 3.2. A operacionalização da pesquisa.................................................................................................30 4. Caracterização dos Concelhos............................................................................................................33 4.1. Introdução.................................................................................................................................33 4.2. Concelho de Évora.....................................................................................................................39 4.3. Concelho de Mortágua..............................................................................................................44 4.4. Concelho de Albufeira...............................................................................................................49 4.5. Concelho de São Brás de Alportel..............................................................................................55 4.6. Concelho de Lisboa...................................................................................................................59 4.7. Concelho do Porto.....................................................................................................................64 4.8. Concelho de Fronteira...............................................................................................................68 4.9. O Concelho de Penamacor.........................................................................................................74 4.10. Concelho de Vila Nova de Famalicão.......................................................................................80 4.11. O Concelho de Terras de Bouro...............................................................................................85 4.12 Concelho de Campo Maior.......................................................................................................88 4.13. Concelho de Vinhais................................................................................................................93 4.14 Notas finais. . ...........................................................................................................................98 5. As Instituições Locais......................................................................................................................101 5.1. O lugar da acção local..............................................................................................................101 5.2. As questões do financiamento..................................................................................................109 5.3. As parcerias..............................................................................................................................119 5.4. Metodologias/estratégias de intervenção...................................................................................135 5.4.1. A acção assistencial..........................................................................................................135 5.4.2. O desenvolvimento comunitário......................................................................................139 5.5. A relação entre o local e o central.............................................................................................142 5.5.1. Aspectos gerais.................................................................................................................142 5.5.2. A relação entre planos nacionais e acção local...................................................................147 5.5.3. A retroacção do local sobre o central................................................................................151 5.5.4. Críticas do local ao central...............................................................................................154 5.5.5. Sugestões do local ao central............................................................................................159 5.6. A avaliação...............................................................................................................................161 Tiago Neves (Coordenador) 6. As Estruturas Centrais.....................................................................................................................177 6.1. O lugar da acção local..............................................................................................................177 6.2. A relação entre o local e o central.............................................................................................189 6.3. Os novos problemas sociais......................................................................................................198 6.4. Áreas prioritárias de intervenção e propostas de actuação.........................................................200 7. Considerações Finais e Recomendações...........................................................................................207 7.1. Considerações finais.................................................................................................................207 7.2. Recomendações.......................................................................................................................211 Referências bibliográficas.....................................................................................................................215 ANEXOS............................................................................................................................................219 6 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social 1. Introdução Em Dezembro de 2009 foi assinado um protocolo de cooperação entre o Instituto da Segurança Social, I.P., e a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCE-UP) tendo em vista a realização de um trabalho de investigação no âmbito da relação entre acção local e o combate à pobreza e exclusão social1. Este projecto foi conduzido pelo CIIE – Centro de Investigação e Intervenção Educativas, integrado na FPCE-UP. Este relatório final constitui-se como uma apresentação dos trabalhos desenvolvidos no quadro desse protocolo. Procurando compreender como é que os actores locais (autarquias, Redes Sociais, Instituições Particulares de Solidariedade Social, Organizações Não Governamentais, agências de desenvolvimento local, etc.) se organizam e actuam no âmbito do combate à pobreza e à exclusão social, esta investigação guiou-se por uma questão orientadora: «Como é que os actores locais fazem aquilo que fazem?». Após uma primeira abordagem conceptual à noção de acção local e aos conceitos de pobreza e de exclusão social, explicitam-se as opções metodológicas assumidas e os princípios organizadores do trabalho de terreno; assinale-se que estas matérias beneficiaram dos debates mantidos com a Comissão de Acompanhamento do projecto2. Seguidamente caracterizam-se os doze concelhos de Portugal continental que constituíram o campo empírico deste estudo. São focados aspectos socio-demográficos, as metodologias e estratégias de intervenção local privilegiadas, as parcerias e dinâmicas geradas localmente, as representações dos territórios, os problemas prioritários e os problemas emergentes no actual contexto de crise, e ainda as propostas de actuação no combate à pobreza e à exclusão social. Depois desta abordagem por concelho, o relatório centra-se nas instituições locais que foram entrevistadas no âmbito do estudo, enfatizando dimensões de análise tais como o lugar da acção local, 1 Esta pesquisa desenvolveu-se durante os primeiros nove meses de 2010, declarado Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social pela União Europeia. 2 Tal como previsto no protocolo de cooperação estabelecido entre o Instituto da Segurança Social, I.P., e a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, foi constituída uma Comissão de Acompanhamento do projecto Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social. Integraram a Comissão de Acompanhamento a Prof. Doutora Fernanda Rodrigues (na qualidade de Coordenadora do Plano Nacional de Acção para a Inclusão), a Dra. Alda Gonçalves (na qualidade de Técnica da Equipa de Coordenação do Plano Nacional de Acção para a Inclusão) e o Dr. Sérgio Aires (em representação do Fórum Não Governamental para a Inclusão Social – FNGIS). 7 Tiago Neves (Coordenador) as questões do financiamento, o estabelecimento e dinamização de parcerias, as metodologias e estratégias de intervenção, a relação entre o local e o central e a avaliação da acção local. A apresentação dos dados empíricos conclui-se com uma referência às estruturas de cúpula entrevistadas no âmbito do estudo, salientando-se aqui dimensões de análise tais como o lugar da acção local, a relação entre o local e o central, os novos problemas sociais e as áreas prioritárias de intervenção, bem como as propostas de actuação no campo do combate à pobreza e à exclusão social. Finalmente, após uma breve análise retrospectiva do estudo realizado, apresentam-se algumas sugestões e recomendações que se ancoram no trabalho empírico e na sua relação com o enquadramento teórico da pesquisa. 8 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social 2. Acção Local: enquadramento conceptual. 2.1. O “nascimento” do social. Em meados do século XIX emergiu na Europa a questão social (Rosanvallon, 1995: 7). Fernandes e Carvalho apontam para a sua importância ao descrevêla como «a cristalização discursiva de séries heterogéneas e dispersas de eventos que vão escrevendo a micro-história do social – normalmente eventos crísicos e problemáticos, cuja analítica deveria permitir ler profundas mutações nos regimes gerais que governam a vida social» (2000: 61). No caso concreto do século XIX, a questão social referia-se a uma situação na qual acelerados processos de industrialização e urbanização, associados ao estabelecimento de novas relações sociais de produção, haviam gerado a pauperização generalizada das classes trabalhadoras. A consciência desta pauperização3 e das condições de vida a ela associadas engendrou, por um lado, lutas políticas e sociais; por outro, a associação das classes laboriosas às classes perigosas (Chevalier, 1984). Como assinalou Castel, «Este foi um momento crucial, aquele em que pela primeira vez surgiu um divórcio entre uma ordem politico-jurídica fundada no reconhecimento dos direitos dos cidadãos e uma ordem económica que arrastava consigo miséria e desmoralização generalizadas» (2003: xx). De acordo com Castel, foi nesta clivagem entre o sistema político e a organização económica que a esfera do social encontrou condições para emergir como ponte de ligação entre o político e o económico (2003: xx). Num certo sentido, foi aqui que se assistiu ao nascimento do social4, que Donzelot (1994) crê indissociável da invenção da solidariedade5. Para Castel, «o “social” consiste em sistemas de regulações exteriores ao mercado que são aplicados para tentar suprir este fosso. A questão social torna-se assim, neste contexto, a questão do lugar a ser ocupado pelas franjas mais dessocializadas de trabalhadores da 3 No século XIX, a pauperização fazia-se sentir essencialmente na pobreza material, na fome e na sobre-população (Beck, 1997: 51). 4 Não será, portanto, mera coincidência o facto de os chamados “pais” da Sociologia – Marx, Durkheim e Weber – terem nascido no período compreendido entre 1818 e 1864. 5 No entanto, actividades e regulamentação de apoio social aos desfavorecidos existiam na Europa já muito antes desta data. Em Portugal, por exemplo, já em 1211 o rei se definia como «defensor pauperis» (Costa et al, 2008: 188). 9 Tiago Neves (Coordenador) sociedade industrial»6 (Castel, 2003: xx). Importa no entanto assinalar que, desde os primeiros tempos da colocação da questão social se configuram dois modos bem distintos de a tentar explicar e resolver. Por um lado, uma ideologia liberal que, atribuindo os males da sociedade a uma natureza humana imperfeita mas perfectível, designa o esforço individual e o laissez-faire do mercado como as soluções para o pauperismo; por outro lado, uma doutrina socialista que vê nos modos de organização social tanto a causa como a possível solução dos problemas sociais (Fernandes, 1991: 12; Capucha, 2005: 18). De qualquer modo, é inegável que a integração das referidas franjas mais marginais de trabalhadores constituiu o núcleo duro da resposta original à questão social e, durante várias décadas, constituiu igualmente o núcleo orientador das políticas sociais. Neste contexto, o principal problema a resolver era o da distribuição da riqueza, trazendo-se para o plano do debate e da acção as questões da justiça social, da legitimidade política e da desigualdade económica. Para além disso, procurou-se igualmente alargar os direitos políticos e civis, adicionando-lhes uma outra camada: os direitos sociais, respeitantes ao emprego, ao rendimento, à educação, à saúde e à habitação (Marshall, 1992). Estas preocupações tiveram como apogeu um tipo de formação social tipicamente designado de Estado-Providência, expressão de compromissos de base, de uma regulação tripartida entre o Estado-Nação, o capital e o trabalho (Santos, 1990: 194; Johnstone, 2003: 24). Os ingredientes ideais do Estado-Providência são definidos por Mishra como «o pleno emprego, um conjunto de serviços universais ou quase universais para satisfação das necessidades básicas e um empenho em manter um nível nacional mínimo de condições de vida» (1995: xi). É à sociedade típica de um Estado-Nação providencial que Jock Young se refere como sociedade inclusiva (Young, 1999). Esta sociedade inclusiva tem, entre outras, as seguintes características: a resolução do problema da cidadania pela sua extensão a grupos até então dela afastados (por exemplo, mulheres e negros); um Estado intervencionista, protector, orientado para a prossecução de uma justiça social enquadrada por ideais de progresso; uma ordem social absolutista, cujos valores são considerados indiscutíveis; um Estado assimilativo, que continuamente procura trazer aqueles que estão nas margens para o centro da sociedade (Young, 1999: 4-5). Saliente-se, como bem assinala Rosanvallon (1995), que a chave da força do Estado-Providência está na própria formação dos Estados-Nação, que 6 As traduções são da responsabilidade dos autores deste texto. 10 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social se assumem desde o início da sua constituição como Estados protectores7. Desde finais do século XIX até à década de 70 do século XX, com diferentes graus de sofisticação e eficácia, o problema da protecção social resolveu-se pela concessão de protecções fortes ao trabalho e aos trabalhadores. Os trabalhos transformam-se em empregos e a maioria da população acede à cidadania através do estatuto de trabalhador: este é o modo de operação da sociedade salarial (Castel, 2005: 32-35). 2.2. A emergência do local. A “morte” do social? Entre finais do século XIX e meados da década de 70 do século XX existem duas etapas fundamentais nas concepções acerca do papel do território no desenvolvimento (Klein, 2005). Assim, até ao início do século XX, e no quadro da construção da sociedade moderna, tem lugar um debate importante em que se confrontam duas perspectivas: uma que enfatiza o papel das instituições nacionais; outra que defende as estruturas e os valores de base comunitária. Trata-se aqui, no fundo, da clássica oposição entre sociedade (Gesellschaft) e comunidade (Gemeinschaft), na terminologia de Toennies. Como assinala Klein, este tipo de debate não se circunscreveu à esfera científica, tendo emergido igualmente no âmbito do planeamento e da intervenção socio-territorial. Por exemplo, as propostas defendidas por socialistas e anarquistas insistiam na importância da estruturação de comunidades territoriais onde o modo de vida e o trabalho surgissem de forma integrada (Klein, 2005: 27). Posteriormente, contudo, a partir dos anos 30 e em resultado da crise de sobreprodução, impõe-se como solução «a regulação fordista caracterizada pela aplicação dos métodos keynesianos e por estratégias económicas de escala nacional. O fordismo como modo de regulação representa o triunfo da globalidade nacional face à especificidade local» (Klein, 2005: 27). Isto significa, portanto, que o território nacional se configura como referência espacial nuclear em matéria de desenvolvimento. É em consequência deste facto que, entre as décadas de 1940 e 1970, os chamados 30 gloriosos anos do Estado-Providência, se vive nas sociedades ocidentais «um período de crescimento marcado pela modernização das estruturas sociais, pela implantação, em diferentes graus, do Estado-Providência e pela homogeneização económica à escala nacional. O Estado institui-se como o centro do governo. É também neste período que 7 O Estado-Providência apresenta em Portugal características históricas e políticas específicas cuja exploração ultrapassa o âmbito deste texto (cf., por exemplo, Santos, 1990; Mozzicafredo, 1992; Mozzicafredo, 1997; Silva, 2002). 11 Tiago Neves (Coordenador) emerge o conceito de desenvolvimento no qual assentam as principais teorias do desenvolvimento regional» (Klein, 2005: 28). O desenvolvimento apresenta-se em primeiro lugar como uma estratégia que visa reduzir as disparidades interregionais, promover uma maior equidade na repartição territorial da riqueza e, em síntese, assegurar uma certa homogeneidade entre os diferentes níveis territoriais que integram a sociedade nacional. Este conceito de desenvolvimento representa, portanto, o «triunfo da sociedade nacional sobre a especificidade local» (Klein, 2005: 28). É a partir da década de 70 que a estabilidade da sociedade inclusiva assente num Estado-Nação forte e protector se começa a esboroar. Entre os factores que mais contribuíram para tal fenómeno encontram-se a crise do petróleo de 1973, a transformação dos modos e relações de produção (de um regime fordista para um regime pós-fordista), o acentuar do processo de globalização, e ainda as mudanças culturais que se vinham operando desde os anos 60, designadamente no sentido de um crescimento do individualismo (Rosanvallon, 1995; Young, 1999). Neste contexto, a questão social metamorfoseia-se8 e, com ela, como se verá adiante, o lugar do local. O núcleo duro da nova questão social radica na degradação da condição e estatuto de assalariado – e, do mesmo passo, da sociedade salarial (Castel, 2003: 368). Com efeito, o trabalho, instrumento central de integração na sociedade inclusiva, passa por 3 processos que alteram o seu estatuto: uma desestabilização dos – até então – estáveis (isto é, de segmentos do operariado e de estratos inferiores das classes média); uma queda na precariedade de segmentos significativos da população (fruto do aumento do desemprego e do trabalho temporário); um défice de lugares ocupáveis (gerando massas de supranumerários eventualmente inempregáveis) (Castel, 2003: 387-389). Paugam propõe o conceito de desqualificação social para representar esta nova pobreza e sintetizar traços que unem os seus actores: os frágeis, gente que tem rendimentos baixos, irregulares ou incertos, e que beneficia de intervenções sociais pontuais fundamentalmente no domínio orçamental; os assistidos, que são objecto de apoios orçamentais regulares devido à sua deficiência física ou psicológica, ou por serem incapazes de proverem o sustento adequado dos filhos; os marginais, que, sem estatuto nem poder, raramente são captados pela rede assistencial regular. Diz Paugam: «Quando o emprego 8 Importa ter presente que a designada “nova” questão social consiste não numa novidade absoluta em termos da sua natureza e parâmetros, mas numa metamorfose da “velha” questão social tal como foi identificada em finais do século XIX (cf., por exemplo, Rosanvallon, 1995; Castel, 2003). 12 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social não desempenha mais o seu papel integrador relativamente a uma parcela, cada vez maior, da população, a aposta das políticas de luta contra a pobreza é sobretudo a de recriar o vínculo social e de mobilizar de novo, colectivamente, os indivíduos e as famílias concebendo, para compensar o aumento do desemprego e a “dessacralização” das grandes instituições – Igreja, partidos políticos, sindicatos, etc. – outros instrumentos de socialização fora da esfera das relações profissionais» (2003: 172). À perda do estatuto – e função – do trabalho como o grande integrador social soma-se a emergência do fenómeno da desafiliação. Castel entende a desafiliação como um «modo particular de dissociação do elo social» (2000: 520). Este processo de desafiliação opera-se não apenas na esfera do trabalho, mas também nas esferas da família e das relações sociais em termos gerais, traduzindo uma ausência de pertença a estruturas socialmente significativas. A nova questão social consiste, assim, na racionalização da presença destes actores desafiliados e socialmente desqualificados na sociedade pós-industrial, na sua volatilização através de políticas sociais de activação e inserção que elegem como problema central a exclusão social (Castel, 2003: xxii). Tais políticas tendem a relativizar um critério universalista de justiça, baseado na ideia de justiça igual para todos, e abrem espaço à existência de critérios locais, contextualmente distintos, produzidos e aplicados em diversos circuitos de distribuição e trocas sociais e económicas. O Estado perde, portanto, o papel de regulador único (Zaluar, 1997). Referiu-se anteriormente o nascimento do social na clivagem entre o sistema político e a organização económica do período da industrialização. A separação a que temos vindo a assistir nas últimas 3 ou 4 décadas, contudo, é a separação entre o social e o económico, duas dimensões que o EstadoProvidência procurava tornar coesas. Se da clivagem entre o político e o económico terá nascido o social, será possível – como sugere Baudrillard (1983) – que o social morra com o seu afastamento da economia9? Rose (1996) considera excessivo e enganador falar da morte do social. Considera também, no entanto, que é inegável que o social tal como o conhecíamos está a atravessar profundas mutações. Tais mutações têm diferentes origens: económicas (o questionamento da centralidade das economias nacionais no contexto da globalização e das inter-dependências entre outros níveis territoriais e diversas 9 Na linguagem peculiar de Baudrillard (1983) tal processo concretiza-se, por exemplo, nas reconfigurações das relações entre o Estado e a sociedade civil, na concretização do simulacro como modo de descrição das relações entre as massas (outrora referência basilar do social) e a vida social e económica. 13 Tiago Neves (Coordenador) esferas de actividade) e políticas (as críticas aos gastos excessivos e à ineficácia do Estado-Providência; a reconfiguração duma relação de obrigação entre o cidadão e a sociedade, mediada pelo Estado, numa relação de responsabilidade activa do cidadão por aqueles que, em diversas redes, lhe são mais próximos – por si mesmo, pela sua família, pela sua comunidade) (Rose, 1996: 330-331). Também na perspectiva de Hamzaoui se têm verificado factos que dão origem a uma transformação do social. Hamzaoui (2005) chama-lhe o processo de territorialização do social (que é acompanhado por uma globalização – e desterritorialização – da economia). Este processo tem consequências para a intervenção e as políticas sociais. Designadamente, enquanto no modelo de sociedade inclusiva as políticas sociais tinham uma natureza essencialmente redistributiva, solidária, universal e desterritorializada, actualmente elas tendem a basear-se nos princípios da gestão do risco e da responsabilidade individual. Actualmente, então, a intervenção social tende para a responsabilização, implicação e activação dos beneficiários, bem como para a localização das políticas e intervenções. Transformam-se, assim, as concepções de território e de intervenção territorial. Conforme assinala Klein, «As ciências do desenvolvimento redescobrem os lugares na medida em que é neles que se engendra a acção colectiva, (…) a adaptação das sociedades aos espaços supra-nacionais da globalização» (2005: 28). É neste quadro que as políticas públicas assumem crescentemente uma abordagem bottom-up em oposição à tradicional abordagem top-down (Ruivo, 2002a; Ferreira, 2008; Sposati, 2008). Esta transformação é recorrentemente referida como a passagem, ao nível local, de um modelo de governo para um modelo de governança (John, 2001; Geddes, 2005). De acordo com Geddes esta passagem tem-se consubstanciado, em termos internacionais, na ocorrência de 3 processos associados entre si: «a adopção generalizada da nova gestão pública [New Public Management] e de parcerias público-privadas; o envolvimento de associações locais, de grupos de interesse e de entidades privadas em parcerias de âmbito político; a introdução de novas formas de participação dos cidadãos» (2005: 361). Por sua vez, estes processos encontram-se associados a 3 tendências: o declínio do papel do sector público e o crescente papel dos sectores privado e/ou sem fins lucrativos e das comunidades aos níveis da prestação de serviços e da liderança local; uma reorientação, em termos dos objectivos das medidas políticas, da redistribuição para a promoção da competitividade, do crescimento económico e do empreendedorismo, áreas às quais agora se subordinam preocupações típicas das políticas sociais (por exemplo, a inclusão social, o emprego e a educação); e a implementação das parcerias como fóruns chave nos processos de tomada de decisões de governança 14 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social local (Geddes, 2005: 362-363). Sintetizemos, então, as principais diferenças entre governo e governança. De acordo com John, o termo governo refere-se «aos procedimentos formais e às instituições que as sociedades criaram para expressarem os seus interesses, resolverem conflitos e implementarem escolhas públicas. A ideia é que os sistemas políticos possuem regras de comportamento político e mecanismos que protegem os direitos das minorias e asseguram que o fornecimento de bens e serviços públicos, entre outros, reflecte as preferências dos cidadãos» (John, 2001: 6). Em termos locais, o governo traduz-se geralmente na eleição de representantes locais de partidos políticos nacionais, sendo que não só os políticos e administradores locais são sancionados pelo Estado central como o financiamento dos sistemas de governo local tem origem, em boa medida, nesse mesmo Estado central. Por sua vez, a governança consiste «num padrão flexível de processos públicos de tomada de decisão, assentes em redes flexíveis de indivíduos. Este conceito transmite a ideia de que as decisões públicas se baseiam menos em burocracias hierarquicamente organizadas do que em relações de longo prazo entre indivíduos-chave integrados num conjunto diversificado de organizações localizadas em diferentes níveis territoriais» (John, 2001: 9). O modelo de governança pressupõe uma reconfiguração das relações entre o Estado, o mercado e a sociedade civil no sentido do estabelecimento de redes e parcerias efectivadas por uma crescente participação dos actores da sociedade civil. Nas palavras de Guerra: «A nova problemática da governança emerge assim de uma dupla vontade: questionar a inépcia das políticas tradicionais e aproximar os mecanismos de gestão da rapidez e da flexibilidade exigível pelos processos de mudança» (2006: 16). O local revaloriza-se, portanto, enquanto espaço crucial na estruturação das relações sociais, deixando os territórios nacionais de ser a medida de escala dos processos de regulação10. A acção local emerge neste contexto como resposta possível não apenas a problemas sociais e económicos, mas também ao peso burocrático e administrativo dos serviços centrais do Estado; ela pode igualmente constituir uma forma de resistência à degradação das condições de usufruto de determinados direitos sociais e um vector da consciência social orientada para a mudança (Rodrigues e Stoer, 1994: 175-182). Klein acrescenta que a acção local constituirá fonte de desenvolvimento local quando 10 Deve ter-se em conta que a revalorização do local acontece numa diversidade de dimensões da vida social: se neste texto são abordadas essencialmente áreas típicas das políticas sociais, não devem ser esquecidos, por exemplo, os processos de desjudicialização e de revalorização da justiça comunitária (Fielding, 1995; Pavlich, 1996; Shapland, 2008) 15 Tiago Neves (Coordenador) gerar ou reforçar dinâmicas sistémicas locais (2005: 26). Do que acabou de ser referido se depreende que a acção local, para o ser verdadeiramente, exige uma participação da comunidade local. Como bem sintetiza Menezes, «A participação na tomada de decisão, o sentimento de controlo e autonomia, o exercício de liderança e influência são elementos centrais na intervenção para a mudança (…), que deve sempre valorizar a percepção que os membros de uma organização ou comunidade detêm sobre a necessidade de mudança, o seu envolvimento no processo de discutir os problemas, na exploração das possíveis causas e soluções, bem como das vantagens da sua participação num projecto (…)» (2007: 111). Os principais actores da acção local são grupos comunitários, movimentos sociais e associações locais, mas também empresas, Igrejas e instituições públicas. 2.3. A acção local no combate à pobreza e à exclusão social. 2.3.1. A pobreza e a exclusão social. Para que o local possa ser mobilizado no combate à pobreza e exclusão social afigura-se necessário clarificar estes dois últimos conceitos. Ambos são objecto de intenso debate, tanto no campo estritamente académico como no campo das políticas sociais. Para além disso, as fronteiras entre estes dois conceitos são frequentemente difusas, conduzindo à sua interpretação quer como conceitos alternativos, que como conceitos complementares (cf. Alcock, 2006; Byrne, 2005; Costa et al, 2008; Paugam, 1996; Spicker, 2007; Stoer, Rodrigues e Magalhães, 2003). A intenção deste texto é a de produzir uma breve apresentação de debates relevantes e actuais no campo da pobreza e da exclusão social, e não tanto a de defender uma perspectiva em detrimento de outras11. O objectivo último desta tarefa reside em estruturar um quadro analítico para a análise dos dados empíricos, designadamente das noções de pobreza e exclusão social dos actores entrevistados. Importa salientar que, por muito conflituais que possam ser os entendimentos da pobreza e da exclusão social, eles partilham no entanto algo 11 Também não constitui propósito deste texto a realização de uma resenha das políticas sociais de combate à pobreza e exclusão social em Portugal. Isso constituiria, em si mesmo, um outro trabalho de investigação (para este tema confronte-se, por exemplo, Santos, 1990; Almeida, 1992; Carreira, 1996; Rodrigues, 1999; Rodrigues et al, 1999; Hespanha, 2000; Rodrigues, 2003; Capucha, 2005; Bureau Internacional do Trabalho, 2008; Rodrigues, 2010). 16 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social em comum: a pobreza e a exclusão são vistas como um problema a tratar. A definição de conceitos como pobreza e exclusão social é produzida tanto a um nível abstracto como a um nível concreto, operacional. Aquilo que acontece no nível operacional não traduz necessariamente de modo simples e linear aquilo que ocorre no plano abstracto. Isto sucede devido a pelo menos duas ordens de razões: é difícil operacionalizar algumas das dimensões abstractas (por exemplo, o entendimento da pobreza como um problema moral envolve questões fundamentais acerca da organização social – cf. Spicker, 2007); as definições de pobreza e exclusão social são construídas simultaneamente nos planos académico e político, cada um dos quais com dinâmicas e agendas próprias (ainda que possam estar articuladas). Assim, muito embora a pobreza seja mais frequentemente associada à privação resultante da escassez de recursos, existem diversas formas de a definir (Costa et al, 2008: 26). Uma distinção importante a efectuar é entre a abordagem objectivista e a abordagem subjectivista da pobreza: enquanto a primeira prescreve definições, a segunda procura um consenso democrático (Costa et al, 2008: 49-50). No quadro da abordagem objectivista existe uma distinção crucial entre as definições absoluta e relativa da pobreza. A noção absoluta de pobreza, frequentemente associada ao trabalho desenvolvido por Rowntree na primeira metade do século XX, visa identificar os mínimos para a satisfação das necessidades humanas básicas e, nessa medida, baseia-se grandemente numa noção normativa de subsistência (Alcock, 2006: 64). Se à primeira vista tal noção normativa parece constituir um mínimo universal e constante, as diferenças culturais e os avanços da ciência conduzem a variações no tempo e no espaço. Assinale-se ainda que, mais recentemente, tem-se vindo a considerar que as referidas necessidades humanas básicas incluem mais do que as meras necessidades fisiológicas ou de subsistência. Com efeito, a Declaração de Copenhaga, produzida em 1995 no quadro da ONU, indica que a pobreza absoluta é «uma condição caracterizada pela privação severa das necessidades humanas básicas, incluindo alimentação, água potável, saneamento, saúde, alojamento, educação e informação. Ela depende não apenas do rendimento mas também do acesso a serviços» (ONU, 1995: 41)12. Em contraste com este conceito absoluto ou normativo de pobreza, Townsend elabora o conceito relativo de pobreza, afirmando que a pobreza só 12 Refira-se que, neste caso, parece estar a caracterizar-se a pobreza absoluta e não os indicadores do conceito absoluto de pobreza. A confusão entre conceito absoluto de pobreza e pobreza absoluta foi também identificada por Costa et al, 2008. 17 Tiago Neves (Coordenador) pode ser entendida em termos de uma privação relativa (Policy Press, 2010: 131). Para Townsend, o conceito absoluto de pobreza revela-se insatisfatório na medida em que não reconhece os papéis e obrigações sociais dos sujeitos, tornando invisível o facto de que tais papéis e obrigações assumem por vezes maior importância do que as necessidades físicas e materiais. Como referido acima, o conceito absoluto de pobreza, admitindo variações no tempo e no espaço, não é totalmente insensível a uma dimensão relativista. A diferença crucial na abordagem de Townsend é que ela defende que «o padrão para se definir as necessidades e aferir a medida em que estas são, ou não, satisfeitas é fornecido exclusivamente pelo contexto social» (Costa et al, 2008: 41). De acordo com Townsend, «Pode dizer-se que indivíduos, famílias e grupos da população se encontram em situação de pobreza quando não possuem recursos para obter os tipos de dieta, participar nas actividades e ter as condições de vida que são habituais, ou pelo menos amplamente encorajadas ou aprovadas, nas sociedades às quais pertencem» (Policy Press, 2010: 191). Esta abordagem de Townsend, mais sensível à dimensão cultural, exige a utilização de uma constelação de indicadores de privação, vários deles remetendo para uma dimensão de privação social13. A emergência desta componente de privação social da pobreza parece apontar, em certa medida, para a própria noção de exclusão social. A abordagem subjectivista da pobreza, por seu turno, procura definir a pobreza com base na opinião pública, ou seja, com base naquilo que num determinado espaço-tempo é entendido como pobreza por um conjunto de actores sociais (Costa et al, 2008: 49). Nessa medida, esta é uma abordagem radicalmente relativista que aceita como possível a co-existência de uma diversidade de definições de pobreza numa dada sociedade – tudo depende de quem são os agentes definidores. Obviamente, diferentes definições de pobreza legitimam e justificam diferentes concepções e medidas de política social. De algum modo transcendendo esta distinção entre a perspectiva objectivista e a subjectivista, Spicker assinala que a diferentes definições de pobreza se têm concentrado fundamentalmente em dez clusters de significado, organizados em três dimensões centrais (2007: 4-5)14: – necessidades materiais (incluem necessidades específicas, padrões de privação 13 O conceito relativo de pobreza elaborado por Townsend foi objecto de forte debate com, entre outros, David Piachaud e Amartya Sen. A análise destes debates transcende o âmbito deste texto. Assinalese ainda que uma das críticas a que o conceito relativo de pobreza de Townsend está sujeito é ao facto de abrir a porta à ideia de que a pobreza é uma noção meramente relativa. 14 Spicker refere ainda um décimo primeiro cluster de significado, que se refere à pobreza como conceito moral que compele à acção. 18 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social e padrões de vida baixos); – circunstâncias económicas (incluem a falta de recursos, a distância económica e a pobreza como classe económica); – relações sociais (incluem a pobreza como classe social, a dependência, a exclusão social e a carência de direitos). Como se constata, a exclusão social surge aqui como um dos elementos da pobreza. Este facto reforça a ideia acima expressa de que se verifica uma proximidade entre os conceitos de pobreza e exclusão social, proximidade essa que pode conduzir ao seu entendimento como conceitos alternativos ou complementares. Sem pretender resolver esta situação, nem eleger como nossa uma perspectiva em particular, pode no entanto dizer-se – ainda que à custa de alguma subtileza analítica – que enquanto as abordagens à pobreza tendem a concentrar-se na dimensão material (designadamente nas questões do rendimento), a exclusão social é, na sua essência, um fenómeno multidimensional (Byrne, 2005: 3). O carácter multidimensional da exclusão social diz respeito não apenas à diversidade das suas causas, mas também à pluralidade das suas consequências e implicações para a política social. Se nos finais dos anos 80 e início dos anos 90 se verificou uma certa tendência para a substituição do termo “pobreza” pela expressão “exclusão social” (cf. Clavel, 2004: 21), naquilo que se configurava como um modo particular de entender os conceitos como alternativos, actualmente parece optar-se por uma visão de complementaridade entre eles. Com efeito, a declaração pela União Europeia do ano de 2010 como Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social aponta claramente no sentido da sua complementaridade15. Esta complementaridade aponta necessariamente para diferenças entre os dois conceitos: enquanto que a noção de pobreza se centra essencialmente na escassez de recursos e no seu impacto sobre os cidadãos, a noção de exclusão social tende a integrar mais dimensões analíticas e a enfatizar as questões relacionais (Rodrigues et al, 1999). A exclusão é assim tanto material como social (simbólica, relativa à identidade). Assim, se a pobreza pode ser vista como uma condição mais objectiva, mais fácil de identificar por um observador externo recorrendo a critérios exterioristas, a exclusão exige uma referência mais clara à experiência que os sujeitos têm da sua própria condição, assim como uma maior ênfase sobre as trajectórias de vida, a agência dos sujeitos e as relações 15 Neste contexto não pode deixar de assinalar-se um certo ressurgimento da centralidade da noção de pobreza ao nível europeu. 19 Tiago Neves (Coordenador) sociais16. A pobreza parece também ser uma noção mais estática em comparação com a exclusão social, que apresenta um carácter mais dinâmico (Policy Press, 2010: 317). Se é permitida a utilização de uma metáfora, dir-se-ia que a pobreza pode ser representada numa foto, mas a exclusão social exige a utilização de filme. Assim sendo, o estudo da exclusão social requer uma abordagem sistémica que tome em consideração causas e consequências (reconhecendo que nem sempre será fácil distinguir umas das outras). Para além disso, e porque a noção de exclusão abrange um conjunto vasto de dimensões de vulnerabilidade (alojamento, saúde, participação política, rendimento, território, o corpo, idade, etnia, orientação sexual, etc.), pode falar-se de exclusão cultural, económica, política, entre outras (Alcock, 2006: 121129). Resumindo, a exclusão social diz respeito à acumulação e/ou intensificação de handicaps numa ou mais destas dimensões, conduzindo à dissolução do elo social e a um défice de cidadania e integração sociais. Como defende Bruto da Costa, «a pobreza representa uma forma de exclusão social, ou seja, não existe pobreza sem exclusão social. O contrário, porém, não é válido. Com efeito, existem formas de exclusão social que não implicam pobreza» (2008: 63). Relevante é também o facto de a exclusão social ser frequentemente vista como a outra face de um conceito unificador que integra também a inclusão social. Este par inclusão/exclusão pode ser perspectivado como uma problemática da equidade ou, num entendimento foucaultiano, como uma problemática do conhecimento (Stoer, Rodrigues e Magalhães, 2003: 155-157). Na perspectiva da problemática da equidade, a exclusão e a inclusão sociais são duas entidades distintas, sendo que quanto mais existe de uma, menos existe da outra. Aqui, tanto o Estado como os indivíduos são responsáveis pela mudança social, que se considera ser o resultado da acção racional dos actores sociais. A perspectiva foucaultiana é diferente na medida em que não concebe a inclusão e a exclusão isoladamente. Na verdade, aqui é a própria noção de inclusão que gera a exclusão: para alguns serem incluídos é necessário que outros sejam excluídos pelo sistema de racionalidade que produz a mudança social e as regras para a atribuição de identidades. Compreensivelmente, a problemática da equidade e a problemática do conhecimento envolvem diferentes abordagens no âmbito das políticas: enquanto a primeira enfatiza as políticas redistributivas, a segunda confere especial relevo às políticas culturais, da diferença e da identidade. De acordo com John Veit-Wilson, existe ainda uma outra consideração relevante acerca daquilo que têm sido os discursos acerca da exclusão social, designadamente a distinção entre uma versão forte e uma versão fraca desses discursos: «Na versão 16 Não pode ser negligenciada, contudo, a existência de uma abordagem culturalista ao estudo da pobreza. Recordem-se, por exemplo, os trabalhos de William Foote-Whyte, Richard Hoggart e Oscar Lewis. 20 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social “fraca” deste discurso, as soluções residem na alteração dos handicaps das pessoas excluídas e na promoção da sua integração na sociedade dominante. As formas mais “fortes” deste discurso enfatizam também o papel daqueles que excluem e, desse modo, orientam-se para soluções que reduzam os poderes da exclusão» (1988: 45). Esta distinção é particularmente importante do ponto de vista da política de combate à exclusão. Por exemplo, defensores da versão fraca deste discurso entendem que os excluídos necessitam de introduzir mudanças na forma como gerem as suas trajectórias de vida, adquirindo competências que lhes possibilitem uma integração mais satisfatória no mainstream social; alguns dos defensores deste discurso consideram que a cultura da pobreza é a fonte da exclusão (Byrne, 2009). Os defensores da versão forte da exclusão social, por seu turno, consideram que a participação é importante como forma de confrontação social e como instrumento para a transformação do próprio sistema social. Byrne, num entendimento especialmente crítico do discurso fraco sobre a exclusão social, afirma que nesse caso, embora se utilize o termo “participação”, aquilo que está de facto a ser proposto não é mais do que um processo de “incorporação” – i.e., uma anexação a processos de tomada de decisão que na realidade escapam aos sujeitos excluídos que supostamente deveriam deles participar no quadro de uma lógica democrática (2009: 166). 2.3.2. A acção local. Vivemos tempos em que as políticas sociais atravessam pressões e mudanças significativas, designadamente os processos acima mencionados de territorialização do social e das políticas sociais, que trazem a acção local para o centro da luta contra a pobreza e a exclusão social. De acordo com Fernando Ruivo, o local «deverá ser entendido como um nexo de estruturação das relações sociais, significando-se com isto que a actividade local se realiza perante processos sociais específicos ao nível local. Uma tal estruturação encontra-se, no entanto e por sua vez, ancorada em resultados previamente estabelecidos, já que, simultaneamente, esse mesmo nível local recebe e constrói elementos da escala social mais vasta em que se insere» (2000: 138). Nesta acepção o local comporta três dimensões fundamentais: – é um ambiente ecológico em permanente construção, fonte de relações sociais e acontecimentos específicos; – é uma posição em relação a uma ordem macro mais abrangente; – é uma identidade negociada, um processo de atribuição de sentido (Ruivo, 2000: 138-139). Seguindo na esteira de Ruivo, a acção local é entendida aqui como a performance 21 Tiago Neves (Coordenador) estratégica de um conjunto de actores sociais envolvidos em projectos e iniciativas de base local, sejam eles formais ou informais, desenvolvidos de forma isolada ou em rede (2002b: 14). As iniciativas locais podem igualmente ser vistas como a aplicação local das políticas públicas, independentemente de essa aplicação ser mais ou menos próxima do quadro fornecido pelo Estado central, e independentemente de os actores locais serem mais ou menos passivos. Sendo certo que existem várias estratégias para lidar com a pobreza e a exclusão e os problemas por elas colocados17, constata-se actualmente a existência de uma forte aposta na concentração de recursos em territórios e grupos-alvo, procurandose que estes escapem à pobreza e exclusão social não tanto através de estratégias de atenuação dos seus efeitos, mas essencialmente através da individualização, da responsabilização, da activação, da contratualização e da aplicação do princípio da subsidiariedade (Berthet, 2007: 43-51). A história da espacialização da luta contra a pobreza data já dos anos 60, pelo menos no Reino Unido e nos Estados Unidos (a noção de exclusão social só surgiu mais tarde, mas acabou por também ser integrada nesta abordagem territorial). Existem certamente diferenças significativas entre essas experiências iniciais e o estado actual da acção territorial contra a pobreza e a exclusão social, que entretanto se disseminou pela Europa: enquanto que as primeiras dependiam em grande medida do governo central, hoje em dia dependem cada vez mais do governo (e da governança) local e da participação (Alcock, 2006: 232-233). A noção de governança, como se viu acima, aliás, desempenha um papel de relevo nestas transformações. John, recorrendo à metodologia weberiana, identifica como características da governança enquanto tipo-ideal as seguintes (2001: 15-16): – a reforma das instituições (trata-se de um processo que envolve a multiplicação e a reestruturação das instituições no sentido da criação de novos níveis de governo e da adopção dos princípios e estratégias da Nova Gestão Pública18, que implicam um esbatimento das fronteiras entre o público e o privado); – o estabelecimento de novas redes (sejam elas horizontais ou transnacionais); – o desenvolvimento de novas medidas e iniciativas políticas (a aposta na inovação local e a revivificação das iniciativas do Estado central, que emerge agora também como um parceiro que define programas e respectivos alvos); – a produção de respostas aos dilemas da coordenação e da prestação de contas 17 Spicker organiza-as em alívio da pobreza, protecção social, intervenção estratégica, prevenção e respostas indirectas (2007: 135-138). Destas, o alívio da pobreza, a intervenção estratégia e a prevenção são aquelas que mais facilmente podem ser desenvolvidas no quadro da acção local. 18 New Public Management. 22 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social (relevando-se aqui a busca de novas formas de controlo e a importância crescente da liderança executiva). As parcerias entre os sectores público, privado, comunitário e do voluntariado desempenham portanto um papel crucial neste processo, podendo mesmo dizerse que constituem novas formas de governança social local (Geddes e Benington, 2001). Podem identificar-se várias formas através das quais as parcerias locais reforçam a capacidade da governança local na luta contra a pobreza e a exclusão social. Elas permitem, por exemplo, a produção de um conhecimento comum acerca da pobreza e da exclusão; promovem respostas holísticas e multidimensionais aos problemas sociais; promovem a inovação política; e utilizam recursos existentes e desenvolvem sinergias (Geddes, 2000: 790-793)19. Sem prejuízo destas potencialidades, existem também algumas dificuldades no combate à pobreza e exclusão social através da acção local. Alcock e Townsend, por exemplo, consideram que a identificação de grupos e territórios alvo (o targeting) se encontra frequentemente associada a uma visão patológica da pobreza e da exclusão, que faz radicar nos indivíduos a exclusiva responsabilidade pela sua situação20, negligenciando-se a análise dos fenómenos macro-estruturais (Alcock, 2006: 237; Policy Press, 2010: 133). Spicker, por sua vez, acrescenta que o targeting, associado às premissas da Nova Gestão Pública e à ênfase nos resultados da intervenção, pode acarretar efeitos perversos, designadamente pela opção por públicos que tenham maiores probabilidades de abandonar a condição de pobreza ou exclusão, remetendo os outros para as franjas mais marginais da própria margem (2007: 135). Uma análise atenta da acção local no combate à pobreza e à exclusão social exige que se tenha em consideração um conjunto de questões: como são definidas as fronteiras dos territórios e quais as implicações disso?; existe de facto uma homologia entre a pobreza dos territórios e a pobreza das pessoas ou essa ideia trata-se apenas de uma falácia ecológica?; como se comparam as condições e necessidades do mundo urbano com as do mundo rural?; como se lida com os pobres e os excluídos que habitam em zonas de densidade populacional reduzida e, logo, pouco susceptíveis de beneficiarem de acções assentes em parcerias de base local?; as parcerias estabelecidas são estratégicas e de longa-duração ou servem apenas um interesse instrumental das instituições parceiras, orientando-se exclusivamente para a satisfação dos requisitos dos programas de financiamento? (Alcock, 2006: 244-246). São claros, participados e democráticos os processos de tomada de decisão ou servem 19 Assinale-se que os processos de territorialização são actualmente aplicados a uma diversidade de esferas: o ensino superior, o sistema judicial, o ambiente, os transportes, etc. 20 Recorde-se o que foi dito acima acerca da versão “fraca” da exclusão social. 23 Tiago Neves (Coordenador) para satisfazer interesses parcelares mais ou menos ocultos? (John, 2001: 155). Um problema mais generalizado na acção local na luta contra a pobreza e a exclusão social refere-se à dificuldade de avaliação e determinação da qualidade e quantidade das mais-valias produzidas (Geddes, 2000). No que se refere à situação portuguesa em concreto há alguns elementos específicos que merecem referência. Desde logo, e de acordo com Fernando Ruivo, uma tradição de baixo peso do local na despesa pública, associada a uma característica falta de autonomia e de capacidade de tomada de decisão por parte das autoridades locais (2000: 61-63). Característico é também o facto de, entre nós, os acessos às autoridades centrais estruturarem-se essencialmente «de uma forma directa e personalizada», situação que de algum modo reflecte a «marca personalista21 que atravessa todo o sistema sócio-político português», incluindo o fenómeno do caciquismo (Ruivo, 2000: 67-68). O clientelismo local é inclusivamente apontado por autores estrangeiros como uma característica nacional (John, 2001: 79). Paralelamente, é inegável o peso do Estado central em Portugal. No que se refere ao tema aqui em apreço, Rodrigues e Stoer assinalaram já que a existência de parcerias locais no âmbito do combate à pobreza e exclusão social «depende fortemente do apoio estatal – situação esta que levanta dúvidas acerca da real autonomia e da identidade de “outros” interesses representados nas parcerias» (Rodrigues e Stoer, 2001: 143). Por fim, a acção local no combate à pobreza e exclusão social em Portugal enfrenta necessariamente uma dificuldade séria: a da própria dimensão do problema. Com efeito, de acordo com Bruto da Costa, entre 1995 e 2000, 46% das pessoas e 47% dos agregados familiares passaram pela situação de pobreza durante pelo menos um ano, sendo que mais de metade destes agregados familiares (54%) esteve na pobreza durante três ou mais anos (Costa et al, 2008: 185-186). Não fazendo referência directa às potencialidades da acção local, Bruto da Costa e os seus colaboradores não deixam de assinalar, perante este cenário, a indispensabilidade das políticas de redistribuição do rendimento. Mais do que isso, chegam mesmo a afirmar que «O problema reside, além do mais, na repartição primária do rendimento, da propriedade e do poder», facto que desloca o problema da pobreza do campo das políticas sociais para o campo da política económica (2008: 197). 21 Ruivo define o personalismo como o facto de «o processo de acção social e adesão política se encontrar mais propriamente dirigido a pessoas do que a instituições, programas de acção ou ideias políticas» (2000: 181). 24 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social 3. Metodologia 3.1. Enquadramento geral do estudo. A definição das grandes linhas orientadoras do estudo foi realizada em conjunto com a Comissão de Acompanhamento (vide Introdução). Desde logo, definiu-se que este seria um estudo de carácter descritivo e analítico, não avaliativo. Posteriormente procedeu-se à elaboração e discussão de diferentes cenários para a operacionalização da pesquisa, tendo-se optado pela abordagem que seguidamente se apresenta. Definiu-se como questão orientadora central a seguinte: «Como é que os actores (locais) fazem aquilo que fazem?». Isto implicava compreender como é que os actores locais (autarquias, Redes Sociais, Instituições Particulares de Solidariedade Social – IPSS – , Organizações Não Governamentais – ONG –, agências de desenvolvimento local, etc.), assim como algumas estruturas de cúpula (por exemplo, Rede Europeia Anti-Pobreza – REAPN –, Associação Nacional de Freguesias – ANAFRE –, Associação Nacional de Municípios Portugueses – ANMP –, Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade – CNIS –, etc.) se organizam e actuam no âmbito do combate à pobreza e à exclusão social. Definiu-se como unidade de análise o nível concelhio e o processo de amostragem como intencional, teórico (Glaser e Strauss, 1967). Nessa medida, reconheceu-se a necessidade de conhecer os estudos definidores do campo para constituição da amostra, elegendo-se como documento orientador a Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental, elaborada em 2005 pelo Instituto da Segurança Social. Considerando a natureza intencional e teórica da amostragem, assim como o tempo disponível para a realização do estudo, definiu-se que seriam analisados doze concelhos de Portugal continental. Os doze concelhos foram seleccionados com base num cruzamento das seis tipologias de exclusão22 identificadas na Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental com estudos relativos a quatro indicadores: o poder de compra per capita, a percentagem do poder de 22 Os seis tipos de exclusão, territorialmente organizados, são os seguintes: Tipo 1 – Territórios moderadamente inclusivos; Tipo 2 -Territórios de contrastes e base turística; Tipo 3 – Territórios ameaçadores e atractivos; Tipo 4 – Territórios envelhecidos e desertificados; Tipo 5 – Territórios industriais com forte desqualificação; Tipo 6 – Territórios envelhecidos e economicamente deprimidos. 25 Tiago Neves (Coordenador) compra e o dinamismo concelhios (INE, 2007), e ainda a qualidade de vida concelhia (Manso e Simões, 2007). Identificaram-se, para cada tipologia de exclusão social, os casos com os valores extremos (mais baixos e mais elevados) relativamente aos indicadores referidos. Posteriormente, o cruzamento desses casos extremos foi organizado por Unidades Territoriais para Fins Estatísticos de Nível II (NUTS II) com o intuito de salvaguardar, nos limites do possível, a representação equitativa das cinco NUTS de nível II de Portugal continental23. Este foi o princípio orientador geral que guiou a maior parte da constituição da amostra. As excepções a este princípio orientador geral foram a inclusão do concelho do Porto (de modo a assegurar a entrada na amostra da segunda maior cidade do País) e do concelho de Penamacor (de modo a reforçar a equidade na representação das cinco NUTS de nível II). A lista completa dos concelhos incluídos no estudo é a seguinte: Albufeira, Campo Maior, Évora, Fronteira, Lisboa, Mortágua, Penamacor, Porto, São Brás de Alportel, Terras de Bouro, Vila Nova de Famalicão e Vinhais. Em cada um destes concelhos procurou-se realizar uma breve caracterização de aspectos sociodemográficos, de metodologias e estratégias de intervenção local, de parcerias e dinâmicas, de problemas sociais e propostas de actuação no combate à pobreza e à exclusão social. Definiram-se como actores a entrevistar técnicos/as de intervenção, gestores/ as e políticos/as numa diversidade de instituições de nível local (por exemplo, IPSS, ONG, agências de desenvolvimento local, grupos comunitários, autarquias, etc.), bem como, a nível central, instituições e organizações mais directamente ligadas ao tema do combate à pobreza e exclusão social (por exemplo, União das Misericórdias Portuguesas, Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional, Instituto da Segurança Social, Associação Empresarial de Portugal, etc.)24. Optou-se pela entrevista semi-estruturada focalizada em quatro dimensões fundamentais: a governança (estratégias e metodologias; recursos e fontes de financiamento; definição de objectivos e organização do trabalho; processos de liderança; relação com o Estado central); a participação (participantes e modos de participação; estabelecimento de redes e parcerias); a avaliação (desenvolvimento e impacto); e o futuro da acção local na perspectiva dos actores locais. Tratou-se aqui de encontrar exemplos de boas práticas, mas essencialmente de descrever a 23 Essas NUTS são as seguintes: Norte, Centro, Lisboa, Alentejo e Algarve. 24 A lista completa das instituições que colaboraram no estudo encontra-se no anexo 5. 26 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social situação real no terreno (a inexistência de práticas, ou as práticas frágeis). O guião utilizado nas entrevistas encontra-se no Anexo 4. As páginas que se seguem dão conta da etapa final de constituição da amostra intencional e teórica deste estudo25. Apresenta-se aqui o cruzamento dos 6 tipos de exclusão social definidos pela Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental com os concelhos de Portugal continental com a maior quantidade de valores extremos (os mais elevados e os mais baixos) relativamente aos indicadores considerados, organizados por Unidades Territoriais para Fins Estatísticos de Nível II (NUTS II) e posteriormente desagregados em Unidades de Nível III (NUTS III). Tipo 1 Qualidade Vida Algarve Monchique Indicador per capita Poder de Compra - - - Alentejo Central Évora Norte – Entre Douro e Vouga S. João da Madeira + + Norte – Cávado Braga + Centro – Dão-Lafões Mortágua Dinamismo Relativo + + + + - - Total 4 - 3 - 3 - 3 - 3 Tipo 2 Algarve Loulé + + + + 4 Algarve Portimão + + + + 4 Algarve Albufeira + + + + 4 Algarve S. Brás de Alportel - - - - 4 Tipo 3 Lisboa – Grande Lisboa Lisboa + + + - 4 Lisboa – Grande Lisboa Oeiras + + + - 4 Lisboa – Península de Setúbal Barreiro - 4 Centro – Baixo Mondego Coimbra - 3 + + - 25 Encontra-se uma descrição detalhada das etapas iniciais de constituição da amostra nos Anexos 1, 2 e 3. 27 Tiago Neves (Coordenador) Tipo 4 Qualidade Vida Alentejo – Alto Alentejo Fronteira Algarve Alcoutim Centro – Beira Interior Norte Sabugal + Indicador per capita Poder de Compra + - + Dinamismo Relativo Total + 3 + 3 + 3 Tipo 5 Norte – Norte Ave Vila Nova de Famalicão Norte – Cávado Terras de Bouro + + - + - - 4 + 4 Tipo 6 Alentejo – Alto Alentejo Campo Maior Alentejo – Baixo Alentejo Castro Verde Norte – Douro Sernancelhe Norte – Douro Penedono Norte – Tâmega Resende Norte – Alto Trásos-Montes Vinhais + + - 3 + + - 3 - - 2 - - 2 - - 2 - - 2 Na procura de salvaguarda de alguma equidade na representação das regiões e da representação dos concelhos de Lisboa e Porto, chegou-se à seguinte selecção: Norte Vila Nova de Famalicão – Norte Ave – Tipo 5 – 3 índices positivos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra); 1 negativo (Dinamismo) Terras de Bouro – Norte Cávado – Tipo 5 – 3 índices negativos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra); 1 positivo (Dinamismo) Vinhais – Norte Alto Trás-os-Montes – Tipo 6 – 2 índices negativos (Qualidade de Vida; IpC) Porto* – Norte Grande Porto – Tipo 3 – 3 índices positivos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra); 1 negativo (Dinamismo) 28 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social * O Porto é incluído no estudo em substituição do Barreiro, primeira escolha com 4 índices negativos, para salvaguardar a inclusão das duas principais cidades do país. Centro Mortágua – Dão-Lafões – Tipo 1 – 3 índices negativos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra) Penamacor* – Beira Interior Sul – Tipo 4 – 2 índices negativos (Qualidade de vida; IpC) * Penamacor é incluído no estudo em substituição de Alcoutim, primeira escolha com 3 índices negativos, para salvaguardar uma relativa equidade na representação das regiões. Lisboa Lisboa – Grande Lisboa – Tipo 3 – 3 índices positivos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra) e 1 índice negativo (Dinamismo) Alentejo Campo Maior – Alto Alentejo – Tipo 6 – 2 índices positivos (Qualidade de Vida; IpC) e 1 índice negativo (Dinamismo) Évora – Alentejo Central – Tipo 1 – 2 índices positivos (IpC; % Poder de Compra) e 1 índice negativo (Dinamismo) Fronteira – Alto Alentejo – Tipo 4 – 3 índices positivos (Qualidade de Vida; IpC; Dinamismo) Algarve Albufeira – Tipo 2 – 4 índices positivos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra; Dinamismo) S. Brás de Alportel – Tipo 2 – 4 índices negativos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra; Dinamismo) Como referido acima, neste estudo de natureza qualitativa, o processo de amostragem foi intencional e teórico. Isto significa que se tratou de uma amostragem não probabilística. Como tal, não é possível conhecer a probabilidade que cada ins29 Tiago Neves (Coordenador) tituição de cada um dos doze concelhos tinha de entrar na amostra nem se pode, a partir do cálculo de probabilidades, precisar a representatividade da amostra. Uma amostragem intencional e teórica não visa, portanto, a constituição de uma amostra representativa. As potencialidades de uma amostragem intencional e teórica radicam antes na possibilidade de, com uma amostra geralmente bastante mais pequena, se conseguir produzir uma imagem das diversas configurações assumidas pelo objecto (neste caso, a acção local no combate à pobreza e à exclusão social). Com efeito, ao fazer assentar a escolha dos elementos da amostra em critérios pré-definidos como relevantes (neste caso, a sua base territorial, a natureza da sua personalidade jurídica e a natureza da sua intervenção territorial) e ao ter sensibilidade à monitorização dos dados recolhidos por relação a um referencial teórico (permitindo ajustes em tempo real na constituição da amostra em função da escassez ou suficiência de dados recolhidos sobre determinado aspecto), este tipo de amostragem permite a constituição de uma amostra diversa e significativa por relação aos objectivos e dimensões previstas no estudo. Para além disso, a constituição de uma amostra representativa não se revelou, para este tipo de estudo em concreto, nem exequível (o conhecimento prévio de todas as instituições passíveis de serem incluídas no estudo e o volume amostral a integrar seriam incomportáveis no horizonte temporal desta pesquisa), nem de facto adequada (pois existe uma certa dessintonia entre a realização de entrevistas semi-estruturadas e o tipo de dados habitualmente produzidos e analisados no quadro de amostragens representativas). 3.2. A operacionalização da pesquisa. As entrevistas semi-estruturadas constituíram a principal estratégia de recolha de dados. Realizou-se um total de 86 entrevistas (78 a instituições locais e 8 a instituições centrais). As entrevistas foram realizadas no quadro de alguns condicionalismos. Desde logo, o horizonte temporal disponível: estabelecido o protocolo entre o Instituto de Segurança Social e a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto em Dezembro de 2009, as duas colaboradoras da equipa de investigação foram posteriormente recrutadas. Até ao mês de Março (inclusive) procedeu-se à realização de leituras e ao trabalho conjunto com a Comissão de Acompanhamento visando a definição do plano de estudo. Durante este período iniciou-se também o trabalho preparatório das primeiras entrevistas realizadas: todas as entrevistas efectuadas foram objecto de uma preparação prévia, de profundidade variável em função da natureza e quantidade da informação disponível online sobre as instituições a en30 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social trevistar e os concelhos nos quais elas desenvolvem a sua actividade26. Este processo de preparação serviu igualmente para identificar e seleccionar as instituições a entrevistar em função de critérios pré-definidos tais como a sua base territorial, a natureza da sua personalidade jurídica e a natureza da sua intervenção territorial27. Praticamente todas as 86 entrevistas foram conduzidas num período de 4 meses, entre Abril e Julho. Isto significa que foram agendadas e realizadas mais de 5 entrevistas por semana. A concretização deste número de entrevistas pelos doze concelhos seleccionados (de Trás-os-Montes ao Algarve) só foi possível graças ao excelente acolhimento que as solicitações da equipa de investigação tiveram junto das instituições participantes28, muito particularmente atendendo ao facto de que os constrangimentos de tempo obrigaram frequentemente a equipa de investigação a determinar datas e horas para a realização de entrevistas devido à necessidade de concentrar as entrevistas de um dado concelho em poucos dias29. Estes condicionalismos de agenda fizeram com que, por vezes, não fosse fácil chegar aos/às entrevistados/as mais relevantes para o estudo. Não obstante, saliente-se a diversidade de actores entrevistados: um presidente de Câmara Municipal, vereadores/as, provedores/as, dirigentes, directores/as de instituições, directores/as técnicos/as e técnicos/as. Esta diversidade de actores entrevistados deve-se, em boa parte, à diversidade não apenas das instituições contactadas (natureza jurídica, âmbito de actuação, dimensão, organigrama, história) mas também dos concelhos analisados. As entrevistas realizadas tiveram uma duração média de duas horas (variando entre um mínimo de cinquenta minutos e um máximo de 3 horas e meia). Esta duração média das entrevistas coloca evidentemente limites à quantidade dos dados recolhidos. Para além disso, os limites da própria entrevista enquanto técnica de recolha de dados precisam de ser tidos em conta: qual o grau de articulação entre aquilo que é dito e a prática efectiva da instituição?; quais os efeitos daquela situação particular de entrevista sobre o que é dito e o que não é dito?; qual o impacto da relação entrevistador/a-entrevistado/a sobre os conteúdos da entrevista? Assinale-se que houve entrevistas conjuntas (realizadas com mais do que um/uma 26 Como referido anteriormente, no Anexo 5 encontra-se a listagem completa das 86 instituições entrevistadas. 27 A análise da Carta Social desempenhou um papel central neste processo. 28 Contam-se pelos dedos de uma mão as instituições que, tendo sido por nós contactadas, não acederam à realização da entrevista. Aconteceu também, ainda mais raramente, não ter sido possível realizar uma entrevista por incompatibilidade de datas entre a equipa de investigação e a instituição. Agradecemos a todas as instituições que colaboraram na realização desta pesquisa. 29 Esta situação colocou-se com particular acuidade nos concelhos mais distantes da cidade do Porto, base da equipa de investigação. 31 Tiago Neves (Coordenador) entrevistado/a), nas quais a relação hierárquica entre os/as entrevistados/as pode ter criado limitações à recolha de dados. Por estes motivos reconhece-se que por vezes poderão ter escapado à equipa de investigação informações e dados densos. Nessa medida reconhece-se igualmente que teria sido útil complementar esta recolha de dados com outras estratégias, tais como a observação directa, a análise documental, o contacto com beneficiários/as. Infelizmente, devido à escassez de tempo não foi possível avançar com esta diversificação de estratégias de recolha de dados. Todas as entrevistas realizadas foram gravadas e posteriormente transcritas. Da maior parte das entrevistas foram realizadas notas de terreno. Este material escrito foi posteriormente submetido a análise de conteúdo com apoio do software NVivo 8. Para efeitos da análise foi também considerada a informação recolhida sobre cada uma das instituições no âmbito da preparação das entrevistas30. No âmbito da análise de conteúdo foram consideradas as seguintes dimensões centrais de análise entre as inicialmente incluídas no guião da entrevista: governação; participação; avaliação; passado presente e futuro da acção local; problemas emergentes na actual situação de crise; conceitos e representações do território. Os três capítulos que se seguem apresentam e discutem os dados empíricos recolhidos. Em primeiro lugar apresenta-se uma breve caracterização dos doze concelhos estudados em função de características socio-demográficos, das metodologias e estratégias de intervenção local privilegiadas, das parcerias e dinâmicas geradas localmente, das representações dos territórios, dos problemas prioritários e emergentes no actual contexto de crise, e ainda das propostas de actuação no combate à pobreza e à exclusão social. O capítulo seguinte é dedicado às instituições locais, enfatizando dimensões de análise tais como o lugar da acção local, as questões do financiamento, o estabelecimento e dinamização de parcerias, as metodologias e estratégias de intervenção, a relação entre o local e o central e a avaliação da acção local. Por fim, o último destes três capítulos aborda as estruturas centrais, salientando-se aqui dimensões de análise tais como o lugar da acção local, a relação entre o local e o central, os novos problemas sociais e as áreas prioritárias de intervenção e propostas de actuação. 30 Nos capítulos seguintes surgirão numerosos excertos das entrevistas realizadas. Esses excertos, embora por vezes tenham sido sujeitos a um trabalho de edição no sentido de adequar a linguagem oral à linguagem escrita, procuram sempre a máxima fidelidade ao discurso dos/das entrevistados/as. 32 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social 4. Caracterização dos Concelhos. 4.1. Introdução. O trabalho empírico que se apresenta neste capítulo, centrado na caracterização da acção local no combate à pobreza e exclusão social, foi desenvolvido a partir de entrevistas semi-estruturadas a representantes e técnicos/as de instituições locais, em doze concelhos de Portugal Continental, como assinalado anteriormente. A selecção das instituições a entrevistar teve como princípio orientador e objectivo central abarcar estruturas bastante diversificadas em termos de natureza jurídica, áreas de actuação e públicos-alvo privilegiados. Houve também a preocupação de incluir tanto entidades públicas quanto privadas e abranger estruturas de base comunitária. Para alcançar este objectivo foram conSultados diversos documentos. Entre eles destacam-se a Carta Social, elaborada pelo Instituto da Segurança Social, a listagem das IPSS registadas no Instituto da Segurança Social, os documentos produzidos no âmbito da Rede Social de cada concelho, o website das diversas Câmaras Municipais e outra documentação disponível online sobre os concelhos em análise. Os concelhos foram seleccionados, como já foi referido no capítulo da metodologia, tomando como referência a tipologia das situações de exclusão proposta pelo estudo Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental, publicado em 2005 pelo Instituto da Segurança Social, e em função da sua posição relativa nos estudos relativos à qualidade de vida concelhia (Manso e Simões, 2007), ao indicador per capita de poder de compra, à percentagem de poder de compra e ao dinamismo concelhio (INE, 2007). A tipologia das situações de exclusão social integra todos os concelhos de Portugal Continental em seis tipos de territórios. Estes foram definidos com base em: i) 25 indicadores seleccionados para a tipologia de inclusão/exclusão de modo a abarcar três grandes dimensões de análise: desafiliação, desqualificação social objectiva e privação económica; e ii) 15 indicadores para a tipologia que distingue os territórios urbanos e rurais atendendo a quatro dimensões: dimensão dos lugares/povoamento; dinâmica demográfica; actividades económicas; infra-estruturas e equipamentos (ISS, 2005: 36). Sem qualquer pretensão de exaustividade, apresenta-se uma caracterização 33 Tiago Neves (Coordenador) sumária de cada uma das tipologias que parece justificar-se para uma melhor compreensão das especificidades de cada um dos territórios que integram o presente estudo. Os Territórios moderadamente inclusivos (Tipo 1) compreendem 84 concelhos que, em termos geográficos, atravessam o território continental de Norte a Sul, abarcando sobretudo os municípios localizados na faixa litoral entre as áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa, mas também um número assinalável de concelhos do interior que correspondem às capitais de distrito ou a eixos com carácter urbano. Nestes territórios não surgem traços de exclusão sobre-representados em nenhuma das dimensões de análise consideradas (desafiliação, desqualificação social objectiva, privação económica). Nos indicadores relativos à escolaridade (taxa de analfabetismo, saída antecipada do sistema de ensino e abandono escolar) apresentam valores mais favoráveis quando comparados com a média nacional. Também em relação à integração no mercado de trabalho, os valores médios são positivos (menores níveis de desemprego e de desempregados de longa duração), o mesmo acontecendo para os indicadores referentes às condições de habitação, onde se verifica uma situação favorável no que respeita ao peso dos alojamentos sobrelotados. Aproveita-se desde já para referir que, relativamente a este tipo de território, os concelhos incluídos na pesquisa foram Évora e Mortágua. Estes concelhos foram seleccionados em função da posição relativa ocupada nos diferentes estudos considerados, respectivamente por um maior número de índices positivos (Évora) e negativos (Mortágua). Importa referir os valores máximo e mínimo correspondentes a cada um dos quatro estudos considerados para efeitos de selecção dos concelhos incluídos neste tipo 1 – territórios moderadamente inclusivos. Assim, no que se refere à qualidade de vida concelhia (Manso e Simões, 2007), o valor máximo é 168,579 e o mínimo 39,953. Para o indicador per capita de poder de compra, o valor máximo é 144,81 e o mínimo 50,95. A percentagem de poder de compra regista como valor máximo 1,739 e mínimo 0,030. Finalmente, no que se refere ao dinamismo concelhio o valor máximo é 2,693 e o mínimo -1,069 (INE, 2007). Os Territórios de contraste e base turística (tipo 2) abarcam a grande maioria dos concelhos da região do Algarve (12 dos 16 concelhos que compõem esta região) e Sines, que pertence à região do Alentejo. Entre outros aspectos, estes territórios caracterizam-se «pela presença de traços urbanos salientes, nomeadamente pelo seu forte dinamismo demográfico, pelo peso da população qualificada e por estarem bem equipados em termos de saneamento básico e 34 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social telecomunicações. Para esta situação muito tem concorrido o aumento das deslocações de turismo e veraneio e a emergência de novos espaços de consumo, de cultura e de lazer. Estes factores tendem, pois, a surgir como os principais responsáveis pela revitalização de algumas áreas rurais para actividades de turismo» (Instituto da Segurança Social, 2005: 63). Outro traço muito evidente deste tipo de territórios é o elevado peso de população estrangeira residente. Nos territórios de contraste e base turística, os concelhos incluídos no estudo foram Albufeira e S. Brás de Alportel. Estes concelhos foram seleccionados em função da sua posição relativa nos diferentes estudos considerados, respectivamente por um maior número de índices positivos (Albufeira) e negativos (S. Brás de Alportel). Neste tipo 2, os valores máximo e mínimo para a qualidade de vida concelhia (Manso e Simões, 2007) são respectivamente 181,048 e 94,578. Para o indicador per capita de poder de compra, o valor máximo é 141,55 e o mínimo 62,25. A percentagem de poder de compra regista como valor máximo 0,783 e mínimo 0,032. Finalmente, no que se refere ao dinamismo concelhio, o valor máximo é 10,700 e o mínimo 0,122 (INE, 2007). Os Territórios ameaçadores e atractivos (tipo 3) são compostos essencialmente por concelhos urbanos e suburbanos pertencentes às áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Dos 21 concelhos que integram este tipo, apenas 3 se localizam na região Centro (Coimbra, Aveiro e Entroncamento). Trata-se de territórios com forte dinamismo demográfico, grande concentração de população qualificada e um peso acentuado de estrangeiros face à população residente (superada apenas pelos territórios de contraste e base turística). Face à média nacional, estes territórios apresentam condições mais favoráveis no que respeita aos indicadores de rendimento (IRS per capita e percentagem de poder de compra) e relativamente aos níveis de escolarização. Simultaneamente, revelam algumas vulnerabilidades nomeadamente em termos das condições de habitação (o nível de sobrelotação dos alojamentos e, especialmente, a proliferação de bairros degradados nalguns destes territórios), do peso das famílias monoparentais e dos valores mais elevados para as taxas de criminalidade. Os concelhos incluídos neste tipo de territórios foram Lisboa e Porto. Para salvaguardar a inclusão do segundo maior centro urbano do país neste estudo não foram, neste caso concreto, respeitados de forma estrita os critérios de selecção definidos para a globalidade do estudo. Lisboa e Porto apresentam três índices positivos e um negativo. Neste tipo 3, os valores máximo e mínimo para a qualidade de vida con35 Tiago Neves (Coordenador) celhia (Manso e Simões, 2007) são respectivamente 205,073 e 105,391. Para o indicador per capita de poder de compra, o valor máximo é 235,74 e o mínimo 84,02. A percentagem de poder de compra regista como valor máximo 11,095 e mínimo 0,225. Finalmente, no que se refere ao dinamismo concelhio, o valor máximo é 0,557 e o mínimo -1,450 (INE, 2007). Os Territórios envelhecidos e desertificados (Tipo 4) abarcam sobretudo concelhos do interior de Portugal, localizados na região Centro e no Alto Alentejo. Em traços gerais, estes territórios correspondem a espaços rurais com fraco dinamismo económico, marcados pelo envelhecimento demográfico, pela concentração da população em pólos com menos de 5000 habitantes, pela relevância do trabalho agrícola e pelo peso diminuto da população qualificada (ISS, 2005). Os traços de exclusão mais vincados nestes territórios prendem-se essencialmente com o envelhecimento da população: o isolamento das pessoas idosas, a sua institucionalização, que de certa forma traduz a fragilidade dos laços familiares na resposta às necessidades deste grupo etário; o elevado peso dos pensionistas face à população empregada; a acentuada taxa de analfabetismo. Outro indicador que assume forte expressão nestes territórios é o que se reporta à população com deficiência (o mais elevado entre todos os tipos). Atendendo à dimensão dos rendimentos – ao valor do IRS per capita, à percentagem do poder de compra e ao valor médio das pensões – percebe-se que a situação destes concelhos é das mais preocupantes, revelando maiores susceptibilidades à ocorrência de situações de pobreza. Como refere o estudo que aqui se toma como referência: «As situações de exclusão estão aqui, essencialmente, associadas à pobreza e sobretudo aos pensionistas idosos e estes são territórios à beira da morte social» (Instituto da Segurança Social, 2005: 87). Os indicadores favoráveis associados aos territórios envelhecidos e desertificados dizem respeito aos baixos níveis de criminalidade, às condições de habitação e à prestação de serviços na área da acção social (Instituto da Segurança Social, 2005). Neste tipo de território, os concelhos incluídos no estudo foram Fronteira e Penamacor. Este último concelho foi incluído em substituição de Alcoutim para salvaguardar uma relativa equidade na representação das Regiões (NUT II). Penamacor apresenta dois índices negativos. Neste tipo 4, os valores máximo e mínimo para a qualidade de vida concelhia (Manso e Simões, 2007) são respectivamente 101,501 e 21,893. Para o indicador per capita de poder de compra, o valor máximo é 94,16 e o mínimo 49,19. A percentagem de poder de compra regista como valor máximo 0,075 e mínimo 0,016. Finalmente, no que se refere ao dinamismo concelhio, o 36 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social valor máximo é 0,308 e o mínimo -0,466 (INE, 2007). Os Territórios industriais com forte desqualificação (tipo 5) abarcam 36 concelhos situados no noroeste de Portugal, concentrando-se sobretudo no Vale do Ave, Tâmega e no Cávado. São caracterizados pelo dinamismo demográfico (importância relativa da população entre os 0 e os 14 anos e das famílias de grande dimensão), pela importância da indústria na dinâmica económica e pela concentração da maioria da população em aglomerados populacionais com menos de 5000 habitantes, que apresentam uma deficiente infraestruturação. O modelo de organização do trabalho predominante é o intensivo. A este modelo estão associadas baixas remunerações e uma certa sub-protecção no que se refere aos direitos sociais. Os indicadores de desqualificação social objectiva revelam a prevalência de baixos níveis de escolaridade e de qualificação entre a população jovem, que se traduzem em altas taxas de desemprego, em particular do desemprego de longa duração. Todos estes factores enfatizam a vulnerabilidade às situações de pobreza. Neste contexto, os mecanismos informais de entreajuda, a pluriactividade e, consequentemente, a diversidade de fontes de rendimento das famílias desempenham um papel crucial, evitando situações mais graves do ponto de vista social. Importa, também, salientar que os indicadores relativos à institucionalização de idosos apresentam os valores mais baixos do continente, e que é reduzido o número de crianças em amas e creches. Neste tipo de território, os concelhos incluídos no estudo foram Vila Nova de Famalicão e Terras de Bouro. Estes concelhos foram seleccionados em função da posição relativa nos diferentes estudos considerados, respectivamente por um maior número de índices positivos (Vila Nova de Famalicão) e negativos (Terras de Bouro). Neste tipo 5, os valores máximo e mínimo para a qualidade de vida concelhia (Manso e Simões, 2007) são respectivamente 104,365 e 13,690. Para o indicador per capita de poder de compra, o valor máximo é 96,71 e o mínimo 47,55. A percentagem de poder de compra regista como valor máximo 1,209 e mínimo 0,023. Finalmente, no que se refere ao dinamismo concelhio, o valor máximo é 0,283 e o mínimo -0,446 (INE, 2007). Os Territórios envelhecidos e economicamente deprimidos (tipo 6) distribuem-se pelo interior do país, concentrando-se sobretudo na região Norte e no Alentejo. Neste tipo encontramos concelhos com traços essencialmente rurais, marcados pelo envelhecimento demográfico, pela concentração da população em centros com menos de 5000 habitantes e pelo peso que a actividade agrícola ainda assume na estrutura de emprego. 37 Tiago Neves (Coordenador) São escassos os indicadores favoráveis à inclusão presentes nestes territórios: os poucos traços positivos dizem respeito à reduzida taxa de criminalidade e à fraca percentagem de população estrangeira. As condições desfavoráveis, que traduzem um maior risco de pobreza e exclusão social, são inúmeras e diversificadas. Merecem destaque os défices de integração familiar (idosos sós e famílias de avós com netos); as elevadas taxas de desemprego (que atingem o valor mais alto entre todos os tipos de exclusão), de analfabetismo e de abandono escolar precoce; os indicadores relativos à privação económica, nomeadamente o reduzido valor médio das pensões e a elevada percentagem de beneficiários de prestações sociais, são também os mais preocupantes ao nível do território continental. Estamos, portanto, perante territórios empobrecidos e desqualificados, com pouca vitalidade económica, social e demográfica, onde se acumulam factores potenciadores de situações de pobreza e exclusão social. Neste tipo de território, os concelhos incluídos no estudo foram Campo Maior e Vinhais. Estes concelhos foram seleccionados em função da sua posição relativa nos diferentes estudos considerados, respectivamente por um maior número de índices positivos (Campo Maior) e negativos (Vinhais). Neste tipo 6, os valores máximo e mínimo para a qualidade de vida concelhia (Manso e Simões, 2007) são respectivamente 99,738 e 5,321. Para o indicador per capita de poder de compra, o valor máximo é 96,20 e o mínimo 45,88. A percentagem de poder de compra regista como valor máximo 0,074 e mínimo 0,010. Finalmente, no que se refere ao dinamismo concelhio, o valor máximo é 2,448 e o mínimo -0,708 (INE, 2007). A análise da informação recolhida em cada um dos doze concelhos, que seguidamente se apresenta, está estruturada de forma a privilegiar uma caracterização sumária do modo como as diferentes instituições seleccionadas desenvolvem a sua intervenção. Dada a centralidade deste eixo analítico – “o como fazem?” – esta questão será aprofundada no capítulo relativo às questões da governação. Contudo, considera-se pertinente enfatizar desde já que, tendo por base o referencial teórico no âmbito da caracterização da intervenção social, para alcançar este objectivo foram definidas duas grandes categorias-tipo: i) a Acção Assistencial e ii) o Desenvolvimento Comunitário. A Acção Assistencial traduz uma ajuda directa (pecuniária, bens essenciais e/ou serviços) aos indivíduos em risco social. Referimo-nos ao reforço de práticas eminentemente tradicionais em Portugal mas que não contrariam práticas inovadoras por resposta aos novos riscos sociais (novas respostas sociais). Os problemas sociais apresentam novas (re)configurações em consequência do 38 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social fenómeno da globalização, entre outros, e as organizações vão de forma mais ou menos permeável desenvolvendo outras estratégias e respostas para estes problemas. Assim, não é contraditória a assumpção de uma perspectiva que entende a intervenção de forma mais tradicional com focos inovadores. O Desenvolvimento Comunitário revela a amplitude da cena da intervenção social, o que se por um lado dificulta a focalização das intervenções, por outro dá conta de práticas que tomam a(s) comunidade(s) como ponto de partida na, para e com a intervenção local. Realçam-se aqui estratégias participativas de envolvimento dos indivíduos nas quais é visível o objectivo das organizações na promoção de autonomia/empowerment. Importa salientar que dentro desta linha de intervenção não se exclui a valorização da dimensão individual (empowerment individual). Esta perspectiva pressupõe que as organizações, de forma consciente (processo de consciencialização), aceitem o risco, a criatividade e a inovação como condição para o desenvolvimento sustentável das suas comunidades. De realçar que, embora a análise desenvolvida esteja ancorada nestas duas grandes categorias-tipo de intervenção para aprofundar a compreensão dos dados empíricos, reconhece-se que os problemas sociais são caracterizados como multidimensionais. Não é possível, portanto, afirmar que as respostas sociais encontradas sejam puramente “acção assistencial” ou de “desenvolvimento comunitário”. A caracterização da acção local no combate à pobreza e exclusão social desenvolvida nos concelhos incluídos no estudo não ficaria completa se não fossem abordadas as parcerias e as dinâmicas geradas localmente; as representações que os/ as entrevistados/as fazem do seu próprio território; os problemas que identificam como prioritários e os que emergem no actual contexto de crise socioeconómica; bem como as propostas de combate à pobreza e à exclusão social que apresentam para o concelho. A análise realizada aos concelhos será apresentada respeitando a ordem numérica definida pelo estudo Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental, partindo dos territórios do tipo 1 para os de tipo 6, e caracterizando em primeiro lugar o concelho seleccionado a partir do maior número de indicadores positivos definidos pelos estudos que presidiram à sua selecção, acima referidos. 4.2. Concelho de Évora. O concelho de Évora localiza-se na região do Alentejo, na sub-região do Alentejo Central. Com uma área territorial de 1309 km2, de acordo com os dados do último recenseamento (2001) residiam no município 56.519 habitantes, 39 Tiago Neves (Coordenador) o que se traduzia numa densidade populacional de 43,2 hab./km2. O concelho é composto por 19 freguesias, das quais 7 são urbanas e 12 rurais. Bacelo, Horta das Figueiras, Malagueira, Sé e São Pedro, Santo Antão, São Mamede e Senhora da Saúde compõem o núcleo urbano do concelho onde, em 2001, residia 79,3% da população. As freguesias de Canaviais, Nossa Senhora da Boa Fé, Nossa Senhora da Graça do Divor, Nossa Senhora da Tourega, Nossa Senhora de Guadalupe, Nossa Senhora de Machede, São Bento do Mato, São Manços, São Miguel de Machede, São Sebastião da Giesteira, São Vicente do Pigeiro e Torre de Coelheiros compõem o núcleo rural. Em 2001, estas 12 freguesias eram habitadas por apenas 20,7% da população do concelho. Evidenciam-se assim assimetrias intra-concelhias que, de acordo com o Plano de Desenvolvimentos Estratégico de Évora (Universidade de Évora, 200931) se têm traduzido numa dinâmica de crescimento demográfico nas zonas urbanas do concelho (cidade e área envolvente) e num esvaziamento e envelhecimento progressivos das freguesias rurais. Estas assimetrias têm também expressão ao nível dos equipamentos colectivos, que parecem revelar-se suficientes na cidade e sua envolvente, mas mais deficitários nas zonas rurais do concelho. Não obstante estas assimetrias internas, Évora continua a surgir como o principal pólo urbano da região, desde logo pela sua dimensão32 e centralidade, mas também pelo dinamismo socioeconómico e cultural que apresenta. A sua vocação patrimonial, cultural, universitária e de prestação de serviços confere-lhe visibilidade a nível nacional e converte-a num território atractivo e com fortes potencialidades endógenas. De acordo com a tipologia das situações de exclusão proposta pelo estudo Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental (ISS, 2005) este concelho inscreve-se nos territórios moderadamente inclusivos (Tipo 1), que se caracterizam pela ausência de traços de exclusão acentuados. Quanto aos restantes indicadores considerados para a selecção dos territórios a incluir neste estudo, Évora apresenta valores positivos no que se refere ao índice de poder de compra per capita (118,94) e à percentagem do poder de compra (0,617) e surge classificada negativamente em relação ao dinamismo concelhio (-0,600). Évora corresponde, no entanto, ao concelho do tipo 1 com maior número de 31 Plano de Desenvolvimento Estratégico de Évora, Universidade de Évora, 2009 (URL:http:// www2.cm-evora.pt/planoestrategicodeevora/plano.html) 32 De acordo com as estimativas do INE para 2008, Évora surge como 2º concelho mais populoso de toda a região do Alentejo, ultrapassado apenas por Santarém; e ocupa o 3º lugar em termos de área geográfica, logo seguido pelos concelhos de Odemira e de Alcácer do Sal. (INE, 2009a). 40 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social indicadores positivos, por contraposição a Mortágua. Na selecção das instituições a entrevistar neste território contemplaram-se estruturas de natureza bastante diversificada com intervenção na área social. Foram entrevistadas seis instituições: a Rede Social, uma associação de desenvolvimento local, uma instituição não governamental de carácter humanitário, duas IPSS, uma das quais de natureza religiosa e a equipa coordenadora de um Contrato Local de Desenvolvimento Social. Esta diversidade de actores institucionais permitiu captar uma grande heterogeneidade em termos de estratégias e metodologias de actuação. Caracterizando de forma sucinta o modo como estas diferentes instituições actuam na área da pobreza e da exclusão social, encontram-se intervenções de pendor mais “de acção assistencial”, focadas essencialmente na resposta às necessidades mais prementes das populações e centradas em grupos-alvo específicos, considerados mais vulneráveis. Identificam-se igualmente intervenções mais direccionadas para o desenvolvimento comunitário33, accionando metodologias e estratégias de carácter muito diversificado que vão desde a aposta na qualificação e inserção profissional – investindo no balanço e desenvolvimento de competências – em acções de formação e no estabelecimento de parcerias estratégicas com as entidades empregadoras locais, passando por acções de dinamização do tecido associativo local ou pelo trabalho de projecto, planeado e desenvolvido em rede. Encontram-se ainda intervenções centradas na prestação de serviços, procurando aliar algumas valências de natureza mais “tradicional”, como o apoio domiciliário ou o serviço de atendimento social, com respostas de carácter mais inovador – Oficinas de Partilha de Conhecimentos, actividades lúdico-formativas (Yoga, Pilates, sessões de autoconhecimento, etc.), tele-assistência, etc. – algumas das quais de natureza mais especializada, como é o caso, por exemplo, de algumas respostas direccionadas para as crianças e jovens em situação de risco (a intervenção com crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual ou o serviço de acompanhamento de situações de violência doméstica com recurso à terapia de casal). A importância conferida ao trabalho em parceria e à articulação interinstitucional esteve sempre presente no discurso dos actores locais entrevistados, como se pode constatar nos três excertos que se seguem: «Temos muito o sentido da cooperação e da parceria. Não queremos estar sozinhos 33 Importa sublinhar que, nestas intervenções mais vocacionadas para o desenvolvimento comunitário, é por vezes possível identificar acções e iniciativas de natureza mais assistencial, ainda que não seja esta a vertente predominante. 41 Tiago Neves (Coordenador) nem isolados, queremos estar com os outros. E, em última análise, a nossa preocupação é contribuir para o desenvolvimento desta região». «Existe uma grande capacidade da nossa parte de uma articulação em rede. Nós não somos ricos e portanto temos que utilizar os recursos que outros têm para potenciarmos o que queremos fazer». «O nosso princípio é de participar e de construir juntos». Não obstante a relevância atribuída ao trabalho em rede, algumas entidades fazem notar a existência de défices nesta matéria a nível do concelho: «Este território é marcado por uma questão cultural em que as instituições são muito fechadas (…). Ainda estamos numa cultura muito do “Eu, faço eu, procuro eu, o projecto é meu” (…) há entidades que sempre comunicaram mas a informação não circula de forma clara e formal». De facto, o que se constata através do discurso dos actores locais é a ausência de um planeamento conjunto e integrado das intervenções. As instituições fazem alusão ora a «uma série de instituições com quem obrigatoriamente temos que trabalhar” (referindo-se à Segurança Social, Centro de Emprego, Centro de Saúde, etc.), ora a iniciativas e projectos pensados internamente e cuja execução exige, quer por imposição dos próprios programas de financiamento, quer por força dos recursos e das actividades pensadas, o estabelecimento de parcerias institucionais. A Rede Social não é olhada por estas entidades como um espaço eficaz de planeamento integrado e de concertação da intervenção, ainda que reconheçam alguns esforços empreendidos nesse sentido por esta estrutura. Actualmente, a Rede Social encontra-se em fase de revisão e actualização de dois instrumentos fundamentais de trabalho – o Diagnóstico Social e o Plano de Desenvolvimento Social – e nesse âmbito tem procurado mobilizar e apelar a uma maior participação das estruturas locais, reconhecendo que «(…) será de difícil implementação [uma intervenção integrada no concelho], mas achamos que é um desafio que vale a pena começar a trabalhar, se não for para ter na plenitude pelo menos para desbravar algum caminho...». O concelho de Évora é percepcionado pelos actores locais inquiridos como um território com um tecido empresarial reduzido e frágil e, consequentemente, com poucas oportunidades em termos de oferta de emprego. O papel das instituições do terceiro sector é duplamente valorizado: por um lado, pelos serviços de apoio que prestam à população; por outro, pelo número de postos de trabalho que geram num território onde a oferta laboral é cada vez mais escassa. Em relação aos principais problemas que afectam o concelho é apontado o aumento do desemprego, ainda que algumas instituições, mais do que o 42 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social desemprego, prefiram acentuar a falta de emprego existente a nível local: «À parte da área da construção, que estará mais a sofrer nessa área, não há grandes empresas a fechar, porque não as há. Aqui há é falta de empregos, falta de oportunidade para os mais novos». «Continua a haver é poucas iniciativas, poucas respostas em termos de emprego. Portanto, não é o suficiente». Na opinião dos/das entrevistados/as, a actual crise socioeconómica contribuiu para a emergência de “novos pobres”, que correspondem «àquelas pessoas que tinham emprego, uma vida estável e que por isso compraram uma casa e um carro, com um ou dois filhos, e que de um momento para o outro ou um deles ou os dois ficaram desempregados. E estão num nível de habilitações literárias até médio-alto». Algumas instituições fazem alusão à dificuldade que sentem em lidar com estas novas situações de pobreza e em encontrar soluções ajustadas ao seu perfil: «As Faculdades não nos ensinaram a lidar com estes pobres. Não nos explicaram como é que se aborda um colega que de um momento para o outro perdeu tudo, volta à estaca zero com uma série de encargos adicionais e não havendo resposta para ele…, que a gente não os vai pôr a fazer formação [nem] mandá-los ao Centro de Emprego onde os empregos oferecidos são quase sempre para indiferenciados. É uma frustração para toda a gente... Pô-los em refeitório social é algo que é constrangedor para eles. Pô-los no programa alimentar pode chegar ao ponto de ser conhecido na Segurança Social porque isto é um meio pequeno e a vergonha da exposição a este nível é algo que sabemos que existe... Este tem sido o nosso maior problema: tecnicamente lidar com estas novas situações também de pobreza...». Associados a estas novas situações de pobreza e ao actual contexto de crise são apontados outros problemas como a insuficiência de rendimentos dos agregados face aos encargos financeiros assumidos (sobretudo com a habitação), o consequente sobreendividamento e o aumento do número de famílias que recorre aos serviços de apoio social. A população idosa é encarada como um grupo particularmente vulnerável pela situação de isolamento em que muitas vezes se encontra e pela dificuldade de acesso aos serviços, que se acentua nas freguesias mais rurais do concelho. A população imigrante é também percepcionada como um grupo em situação de maior fragilidade social: «o difícil contexto económico em que vivemos acaba por se agravar mais para a população imigrante». Quanto a estratégias e propostas concretas a implementar no combate à pobreza e exclusão no concelho de Évora são apontadas algumas áreas priori43 Tiago Neves (Coordenador) tárias de actuação. Desde logo o emprego, onde se propõe a implementação de estratégias que permitam a captação de novos investimentos, uma maior aposta na formação para o empreendedorismo e a adopção de medidas que facilitem o acesso ao crédito por parte dos pequenos empreendedores. É referida a necessidade de promoção e dinamização do associativismo local, fomentando uma maior cooperação entre empresas e entidades/associações de âmbito comunitário com vista ao desenvolvimento de projectos conjuntos. A habitação social é também realçada como área estratégica de actuação, sobretudo para «estimular a fixação dos jovens, porque eles precisam de ter certas respostas públicas para se fixarem, seja a educação, a habitação, os postos de saúde». No domínio da oferta de serviços, as instituições entrevistadas enfatizam a necessidade de criar equipamentos e de reforçar as respostas sociais na área da deficiência e, em particular, na área da saúde mental, na qual consideram existir inúmeras lacunas quer ao nível do Sistema Nacional de Saúde, quer ao nível das respostas oferecidas pelas estruturas da sociedade civil. Propõem a criação de comunidades de inserção que acolham pessoas «sem suporte familiar e afectadas mentalmente», bem como a implementação de cuidados continuados na área da doença mental. Ao nível da população idosa consideram fundamental a criação de respostas alternativas à institucionalização em Lares, que passariam por uma maior aposta nos Centros de Convívio e em espaços integrados na comunidade onde se fomentasse o convívio intergeracional. 4.3. Concelho de Mortágua. O concelho de Mortágua, situado no distrito de Viseu, na sub-região DãoLafões e na Região Centro, ocupa uma área de 250,4 km2, e de acordo com o recenseamento de 2001 tinha 10379 habitantes e uma densidade populacional de 41,4 hab./km2. É composto por 10 freguesias: Almaça, Cercosa, Cortegaça, Espinho, Marmeleira, Mortágua, Pala, Sobral, Trezoi e Vale de Remígio. É um território extenso e diverso em termos de núcleos populacionais. Nas freguesias de Mortágua e Sobral está concentrada 50% da população residente no concelho (de acordo com os dados de 2001). A densidade populacional é mais elevada em Vale de Remígio (112,19 hab./km2) e em Mortágua (103,39 hab./km2), registando o valor mais baixo em Almaça (13,96 hab./km2). A floresta constitui o principal recurso natural do concelho, ocupando 84% da sua área. Neste concelho predominam os sectores de actividade tradicionais, caracterizados por uma mão-de-obra pouco qualificada e por uma fraca competitividade empresarial. A indústria transformadora (madeira, me44 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social talúrgica de base, alimentar) é a principal actividade empregadora. Este concelho é, segundo a Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental proposta pelo Instituto de Segurança Social (2005), um território moderadamente inclusivo (tipo 1). É, também, caracterizado por apresentar valores baixos no que se refere à qualidade de vida (66,703), ao indicador per capita de poder de compra (58,34) e à percentagem do poder de compra (0,056). Importa salientar que, embora as dimensões de análise consideradas na tipologia definida pelo Instituto da Segurança Social (desafiliação, desqualificação social objectiva, privação económica) sejam neste tipo de território as mais favoráveis (no sentido em que todos os indicadores explicativos são positivos), o concelho de Mortágua corresponde a um território onde a totalidade dos indicadores considerados para a selecção dos concelhos a integrar neste estudo apresenta valores negativos. Assim, é um concelho “menos” num tipo de território “mais”. Com o objectivo de abarcar a diversidade de instituições que desenvolvem intervenção social no concelho de Mortágua, para além das entrevistas com a Câmara Municipal e com a Rede Social foram realizadas entrevistas com duas associações de desenvolvimento local e três Instituições Particulares de Solidariedade Social (fundação de beneficência e cultura, associação de solidariedade social e instituição religiosa). Deste modo foi possível conhecer e caracterizar, ainda que sumariamente, o modo como estas diferentes instituições desenvolvem a sua intervenção, abrangendo áreas e públicos diversos (desenvolvimento local, infância, juventude, terceira idade, etc.); as parcerias e as dinâmicas geradas pela Rede Social; as representações que fazem do seu próprio território; os problemas que identificam como prioritários; os novos problemas que emergem no actual contexto de crise socioeconómica e ainda as propostas de intervenção. As duas grandes categorias-tipo que caracterizam a intervenção social estão presentes em Mortágua, não sendo possível afirmar que as respostas desenvolvidas pelas diferentes instituições inquiridas sejam puramente “de acção assistencial” ou de “desenvolvimento comunitário”. Contudo, parece-nos lícito afirmar que nas IPSS predomina a intervenção de carácter mais de acção assistencial, decorrente da prestação de serviços (valências tipificadas), e assente numa lógica imediatista de apoio e resposta a situações de emergência. Não obstante, é de salientar que esta intervenção é desenvolvida em parceria, verificando-se que neste concelho estão consolidadas dinâmicas inter-institucionais, ainda que muito centradas em relações interpessoais, e que o trabalho em rede é privilegiado. «A nossa metodologia foi sempre em parceria para a qualidade de vida do concelho; 45 Tiago Neves (Coordenador) uma parceria não rígida ou que está no documento, e no dia-a-dia isso acontece na resolução dos problemas (…) do cidadão e portanto esta é a nova forma de trabalhar». Esta aposta no trabalho em rede baseado no estabelecimento de parcerias é anterior à criação e implementação da Rede Social (2001 – projecto piloto). Na opinião dos/as entrevistados/as, é no âmbito do Rendimento Mínimo Garantido/Rendimento Social de Inserção que esta metodologia de intervenção se desenvolveu e foi potenciada. «Nós tínhamos antes da Rede [Social] um trabalho em parceria e a parceria não nos foi imposta, digamos assim, mas foi uma metodologia que nós aqui localmente usámos (…) considerámos que era a melhor forma de se trabalhar». «(…) o Rendimento Mínimo Garantido (RMG) impunha como trabalho que a Comissão Local de Acompanhamento… e portanto um trabalho em parceria. Havendo já um historial do trabalho em parceria tudo se tornou muito mais fácil». Importa assim enfatizar que, neste contexto, foi grande a receptividade por parte da autarquia e das instituições locais à implementação e desenvolvimento da Rede Social. «Nós trabalhamos muito em parceria e cooperação com instituições locais. A nossa Rede, apesar de ter estado adormecida, nunca deixou de estar a funcionar sempre dentro de este espírito. Nós privilegiamos parcerias e todos os projectos que o município considere que são importantes que sejam desenvolvidos pelas instituições de solidariedade social ou outras». O trabalho desenvolvido no âmbito da Rede Social é considerado relevante, nomeadamente no que se refere à elaboração do Diagnóstico Social e, consequentemente, à identificação das necessidades do concelho. A elaboração dos planos de acção é discutida e participada. Os depoimentos recolhidos indiciam uma disseminação da intervenção pelas diversas instituições locais, assumida em função das suas especificidades em termos de recursos e serviços prestados à comunidade. Atente-se nos dois excertos seguintes: «Tem havido alguns estudos locais, a Rede Social deu um bom contributo para isso, produziu bons trabalhos a nível local e da identificação de necessidades». «Cada um assume… Temos os eixos e agora vamos fazer em termos de plano de acção. Cada parceiro, dentro daqueles eixos, define para a concretização daqueles objectivos, porque há objectivos dentro dos eixos, quais são as acções e assume-as. Se não as concretiza, o que é raro, no CLAS, ao nível de execução daquela acção, justifica, no bom sentido da palavra, porque é que aquela acção ainda não foi 46 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social concretizada. Cada um assume». As representações dos/as entrevistados/as sobre o concelho corroboram a sua caracterização como um território moderadamente inclusivo, caracterizado por uma situação favorável do ponto de vista da dimensão da privação, nomeadamente no que diz respeito aos seguintes indicadores: beneficiários do Rendimento Mínimo Garantido, IRS per capita e rácio pensionistas por pessoa empregada. Veja-se os três excertos seguintes: «Deve haver poucos concelhos na região com tantos depósitos bancários como acontece aqui. As pessoas, muitas vezes, são demasiado poupadas, consomem pouco». «Mas as pessoas não vivem mal de um modo geral. Se há uma situação identificada trabalhamos todos para o mesmo fim, com associações locais, empresas, todos de mãos dadas conseguimos fazer isso». «(…) criámos um programa no ano passado que tem a ver com as famílias, prevendo que pudessem surgir problemas mais complicados. Criámos um programa chamado “SOS Município Solidário”, criámos um fundo de 100 mil euros inicial para acorrer a situações de crise: perda de emprego, dificuldades em assumir compromissos, etc., e até hoje o programa existe, tem o fundo, e ainda não foi preciso recorrer a ele. Nós não temos bolsas de pobreza com que seja preciso uma preocupação especial e mesmo em relação ao desemprego estamos com um índice muito baixo relativamente à região e ao país». A informação recolhida revela, ainda, o impacto que as mudanças registadas nas últimas décadas do século passado tiveram sobre o desenvolvimento deste território, particularmente as questões da urbanidade e dos recursos endógenos (floresta) e o modo como estes factores se repercutiram sobre a qualidade de vida da população, nomeadamente no que se refere ao conforto habitacional e ao nível de instrução da população mais jovem. Mais recentemente, a economia local tem vindo a ser dinamizada através da realização de obras por exemplo no parque escolar. «O facto de existirem muitas pessoas no mesmo espaço, realmente alguma urbanidade é importante para o espírito de iniciativa, para o entusiasmo, é importante e Mortágua tem essa questão. Depois é um concelho que foi um concelho mais pobre durante muito tempo, em termos agrícolas etc., mas também teve depois um boom com a parte da floresta e portanto, foi um concelho que a partir de determinada altura, nos anos talvez 80, começou a viver muito bem. (…) [uma das] As maiores poupanças dos concelhos nos bancos era em Mortágua, existia muito dinheiro no banco, do eucalipto. Muito dinheiro e isso permitiu… isso fez com que as pessoas pudessem pôr os filhos a estudar». 47 Tiago Neves (Coordenador) «(…) vejo a qualidade de vida que essas pessoas têm que há meia dúzia de anos era quase impossível e agora vêem-se as casas com aquecimento central. Eu diria que até se vive melhor aqui do que nas grandes cidades, não só a nível de ambiente, porque estão também próximas de Viseu e Coimbra». São, também, identificados alguns obstáculos ao desenvolvimento, nomeadamente ao nível dos valores e da ética de vida. Os/as entrevistados/as enfatizam a prevalência de valores e atitudes conservadoras e o modo como estas condicionam a capacidade de iniciativa dos indivíduos. Neste sentido, sugerem estratégias de intervenção para ultrapassar estas dificuldades. «Olho para o território e também percebo os problemas do território em que actuamos, estamos perante uma população ainda muito conservadora de qualquer maneira, estamos perante uma população que ainda tem muita dificuldade em ter capacidade de iniciativa. A iniciativa é algo que custa e portanto é por isso que achamos que também é muito importante o nosso trabalho de animação para facilitar esse processo». Constata-se um olhar crítico e reflexivo sobre algumas das características deste tipo de território, particularmente no que se refere à questão do emprego/desemprego. «Esta região tem problemas em termos de emprego. Pode até não ter problemas de desemprego muito significativo quando comparada com outras, mas tem problemas de emprego porque é um emprego desqualificado, precário, muito subemprego». Apesar de haver quem considere que, em Mortágua «ainda não tivemos grandes sobressaltos», o desemprego já é, contudo, referido como um dos efeitos da actual crise. Os/as entrevistados/as associam-no ao agravamento das desigualdades sociais e da exclusão social. Consideram que em Mortágua a capacidade de gerar emprego é reduzida e que este facto se repercute em outras esferas da vida social (capacidade económica, práticas culturais, etc.) e, deste modo, condiciona o próprio desenvolvimento local. Repercute-se, ainda, sobre a intervenção social, que assume um pendor mais de acção assistencial dada a necessidade de ajuda aos indivíduos em situação de risco social. «Sim, o desemprego. Porque fecharam fábricas, empresas. Isso primeiro traz o desemprego e depois a diminuição da capacidade económica das pessoas. E há pouca capacidade de gerar novos empregos. Há uma necessidade de maior apoio social para as pessoas. E isso tem implicação com tudo o resto, porque pode por exemplo haver uma maior oferta de bens culturais, mas depois as pessoas não têm possibilidades». 48 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social «Os mais pobres tornam-se mais pobres. Basicamente é isso. E esta questão da exclusão social está cada vez mais vincada». Surgem propostas de que a intervenção social não se confine ao território concelhio, considerando que deste modo se resolveriam mais facilmente alguns problemas ao nível da oferta de serviços (por exemplo na área da deficiência). «Há problemas que resolveríamos muito mais facilmente se houvesse essa exteriorização do território. Nós não podemos ter os serviços todos mas podemos ter de um lado e de outro e desde que tenhamos a capacidade de depois os utilizar… Mas isso é muito difícil. É um discurso que faço há muitos anos no seio das reuniões de municípios. Mas depois quando chega a hora...». Importa salientar o reconhecimento de um avanço significativo ao nível da acção local no combate à pobreza e exclusão social. Este processo é evidenciado quer ao nível da certificação das IPSS, quer do envolvimento activo de diferentes instituições, facto que contribuiu para a promoção de um trabalho em parceria. «Acho que o país deu um pulo imenso na área social, acho que houve um processo muito interessante de envolvimento activo das outras organizações com processos de acreditação e de reconhecimento cada vez mais exigentes com as IPSS, envolvendo a certificação de IPSS a diversos níveis. Acho que poderia ir mais longe se realmente a Rede Social estivesse vocacionada de outra forma: ter um corpo técnico próprio ali a trabalhar de manha à noite nisto, a coordenar». Finalmente, não pode deixar de se enfatizar o papel e a centralidade conferidos à Rede Social ao nível da acção local, tal como salientado no excerto anterior. Nesta perspectiva, os recursos humanos afectos à Rede Social constituem um factor condicionante da mudança que esta pode promover nos diferentes territórios. A constituição de uma equipa técnica própria da Rede Social constitui assim uma proposta estratégica para a melhoria do combate à pobreza e à exclusão social. 4.4. Concelho de Albufeira. O concelho de Albufeira, situado no distrito de Faro, na Região e subregião do Algarve, com 140,7 km2 de área, 31.543 habitantes (2001) e uma densidade populacional de 224,2 hab./km2, é composto por 5 freguesias: Albufeira, Ferreiras, Guia, Olhos de Água e Paderne. É um território diverso no que respeita à dimensão das freguesias e à sua densidade populacional. A freguesia com maior área é Paderne (55,64 km2) e a de menor área é Olhos de Água (15,69 km2) tendo como densidade populacional respectivamente 63,0 e 205,3 hab./km2. A freguesia com maior densidade populacional é Albufeira, 49 Tiago Neves (Coordenador) a sede do concelho, com 612,9 hab./km2, numa área de 26,49 km2. Estas diferenças enfatizam o contraste entre as freguesias do litoral, densamente povoadas e mais urbanas, e as freguesias no interior do concelho, de cariz mais rural e com povoamento disperso (Paderne). De referir que no Verão, em consequência do turismo nacional e estrangeiro, a população aumenta significativamente (10 vezes o número da população residente34). Este fenómeno traduz-se num processo de densificação urbana e num acentuar das questões decorrentes da sua sazonalidade. Actualmente, contudo, verifica-se uma maior actividade turística ao longo de todo o ano. O turismo constitui a principal actividade do concelho, tendo substituído a agricultura e a pesca. De facto, desde as últimas décadas do século passado registou-se uma concentração de empresas na área do turismo, do comércio, das actividades imobiliárias e da construção civil (83% do total das empresas sedeadas no concelho). Estes sectores englobam cerca de 72% do emprego do concelho (2001), facto que aponta para a importância das actividades terciárias no mesmo. Este concelho é, segundo a Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental proposta pelo Instituto de Segurança Social (2005), um território de contrastes e base turística (tipo 2). É, também, caracterizado por apresentar valores elevados no que se refere à qualidade de vida (181,048), ao indicador per capita de poder de compra (118,22), à percentagem do poder de compra (0,425) e ao dinamismo relativo dos concelhos (10,700). Assim, de acordo com os critérios definidos para a selecção dos concelhos a integrar neste estudo, Albufeira corresponde a um território onde a totalidade dos indicadores regista valores positivos. No sentido de abarcar a diversidade de instituições que desenvolvem intervenção na área do social, foram seleccionadas para o estudo organizações com uma intervenção bastante distinta em termos de áreas de actuação e de projectos em curso. Assim, para além das entrevistas com a Câmara Municipal e com a Rede Social, foram realizadas entrevistas com três associações (na área sociocultural e recreativa, na área da deficiência e na área do apoio social), uma fundação de solidariedade social e uma instituição de cariz religioso. Deste modo, foi possível conhecer e caracterizar, ainda que sumariamente, o modo como estas diferentes instituições desenvolvem a sua intervenção, abrangendo áreas e públicos diversos (centro de dia, apoio domiciliário, creche, centro 34 Diagnóstico Social do Concelho de Albufeira, Setembro de 2005. 50 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social de actividades de tempos livres, lar de infância e juventude, fórum socioocupacional; unidade de vida apoiada, atendimento/acompanhamento social, centro de férias e lazer; refeitório/cantina social, banco alimentar, etc.); as parcerias e as dinâmicas geradas pela Rede Social; os problemas que identificam como prioritários e os novos problemas que emergem no actual contexto de crise socioeconómica. As duas grandes categorias-tipo que caracterizam a intervenção social estão presentes em Albufeira, não sendo possível afirmar que as respostas desenvolvidas pelas diferentes instituições inquiridas sejam puramente de “acção assistencial” ou de “desenvolvimento comunitário”. Contudo, parece-nos lícito afirmar, uma vez mais, que nas IPSS predomina a intervenção de carácter mais de acção assistencial, decorrente da prestação de serviços (valências tipificadas), e assente numa lógica imediatista de apoio e resposta a situações de emergência. Tal facto não impede o desenvolvimento de intervenções em áreas menos habituais neste tipo de instituições (a toxicodependência, por exemplo) e o envolvimento em projectos caracterizados por focos de inovação (“trabalhar com o risco” – sem retirar os indivíduos do contexto social e físico) em estreita colaboração com outras entidades locais, regionais e transnacionais. Importa, também, referir que o movimento associativo é recente no concelho e ainda não abrange todos os grupos sociais (por exemplo, a juventude). Um outro obstáculo ao seu desenvolvimento e autonomia resulta da escassez de quadros técnicos e da distância entre estes e os dirigentes das mesmas, como está patente no depoimento que seguidamente se apresenta. «Eu lembro-me que há 20 anos, aqui no concelho, não havia associações (…). Muito recentemente é que se foram multiplicando as associações, culturais e sociais… Por exemplo, nós não temos neste momento associações de jovens (…). À medida que estas associações (…) vão tendo lugares para técnicos e vão criando ali um corpo técnico, e que esta ligação entre corpo técnico e as chefias, os responsáveis, for mais próxima (…) à medida que esta comunicação se enriquece, naturalmente a associação vai percebendo que mecanismos pode ter para se autonomizar e para se reforçar». Ainda que recente, a dinâmica associativa é visível em Albufeira. A título de exemplo salientam-se duas associações entrevistadas no âmbito deste estudo. Uma delas, na área sociocultural e recreativa, emergiu da vontade e do empenho de um grupo de cidadãos com baixo nível de capital cultural formal que, através do accionamento de estratégias diversas (realização de festas, subsídios de entidades públicas e privadas, quotizações) conseguiu angariar fundos para 51 Tiago Neves (Coordenador) construir uma sede própria, que gerem autonomamente, e que se constitui em centro de convívio. A outra, na área da deficiência, constitui um outro exemplo do modo como a sociedade civil se mobiliza no sentido de promover respostas em áreas em que a oferta é ainda deficitária. Neste caso particular, o movimento associativo é liderado por um dos pais de uma criança/jovem portadora de deficiência. A sua dedicação e empenho constituem um pilar fundamental para o desenvolvimento desta associação que se encontra vocacionada para e privilegia o trabalho em parceria. «Dá muito trabalho e muita dedicação e a parte fundamental (…) enquanto eu estiver como dirigente desta associação é… estar vocacionada para as parcerias. Portanto, o que eu pensei sempre foi que não havia lógica nenhuma (…) [em] estar preocupada com determinados, sei lá, valências que já haja no concelho (…). Portanto, havendo uma associação dedicada ao desporto, por que é que tem que estar preocupada com o desporto? [É melhor] tentar puxar essa associação (…) e dizermos: “Olhem, temos x utentes que precisam de praticar desporto, futebol, natação, atletismo…”. Qualquer coisa que seja necessário, nós estarmos junto de outra associação para essas parcerias que nos têm dado uma grande ajuda e um grande trabalho». Deste modo, esta associação desempenha um duplo papel no concelho: oferece uma resposta que, sem ser profissional, é de qualidade; fomenta o estabelecimento de parcerias efectivas entre associações locais, nomeadamente na área do desporto. Uma outra especificidade, que deve ser referida, é a preocupação explícita com as questões da sustentabilidade. Neste sentido a associação estabeleceu protocolos com diversas entidades públicas na área do emprego e da formação profissional, da educação e da saúde e candidatou-se a projectos de modo a beneficiar de fundos nacionais e europeus. «A outra coisa é a sustentabilidade. Vem também da parte do Instituto de Emprego e Formação Profissional que, com os estagiários, os estágios profissionais, com o programa POC, que é o programa ocupacional, que é o fundo de desemprego que dá essa oportunidade de termos aí essas pessoas com esse ordenado mínimo. E temos o Ministério da Educação, a Direcção Regional da Educação, que nos apoia também com uma professora destacada. Temos a Segurança Social, temos uma valência que é a intervenção precoce que é dos 0 aos 6 anos (…). Ela apoia uma assistente social, apoia uma terapeuta da fala – não a 100% mas a 50% – temos um fisioterapeuta, temos um terapeuta ocupacional. Temos a parceria com a Direcção Regional também com a intervenção precoce que nos dá (…) um psicólogo e educadoras de infância, também educadoras para apoiar essas crianças e famílias. A parte da saúde também nos apoia 52 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social no projecto da intervenção precoce, que nos paga um psicólogo e um fisioterapeuta – o psicólogo não é um na totalidade, é só aí 10% do psicólogo, enquanto que o fisioterapeuta já é a 50% que nos apoia. Depois temos os projectos do Governo, o QREN (…), temos o ESCOLHAS (…)». A Rede Social foi constituída em 2004 e dinamizada por um consultor externo. Nesse período, caracterizado pela realização de workshops e por uma participação activa dos diferentes parceiros não foi, contudo, gerada uma autonomia e uma dinâmica que garantissem a sua sustentabilidade. Assim, a Rede Social esteve inactiva durante cerca de dois anos e, actualmente, é uma empresa de prestação de serviços que está incumbida da sua reactivação. «O envolvimento das diferentes entidades conseguiu-se durante esse tempo em que se fez os workshops, em que o [consultor] esteve a dinamizar, sim, houve uma participação bastante activa, mas não se criou uma autonomia suficientemente grande, a engrenagem não ficou suficientemente oleada para que depois, utilizando estes termos habituais, a “máquina andasse por si”». Tal como noutros concelhos analisados, também em Albufeira surgem referências à escassez de recursos humanos disponíveis para o trabalho na Rede Social: «Mas ainda está no início do trabalho. No início… O problema é a dificuldade que temos às vezes em relação aos recursos humanos, o que nos leva a que tenhamos por vezes que optar pelas prestações de serviços». Entre os efeitos da actual crise são referidos o desemprego, que atinge a “classe média-alta” (por exemplo, nos dois últimos anos vários/as licenciados/ as solicitam apoio); a diminuição do nível de vida da população, particularmente da população mais idosa e em resultado de um aumento da “pobreza envergonhada”. Estes/as pobres envergonhados/as são pessoas que ficaram desempregadas e que por vergonha recusam ajuda, até porque – como esclarecem os/as entrevistados/as – o concelho é pequeno, tem poucas pessoas «cá da terra» e todas se conhecem. Neste contexto, assinala-se que a intervenção é desenvolvida com algum cuidado, privilegiando a aproximação através de grupos informais (por exemplo, pessoas-chave da comunidade ou das paróquias). É visível, também, um endividamento das famílias decorrente dos encargos com as prestações bancárias relativas à habitação. «O que se pode sentir é que aquelas pessoas tinham uma vida e agora baixou: acostumados a viver bem e não sei o quê e agora já não podem fazer aquela vida». A situação de exclusão em que vive a população idosa é enfatizada nas entrevistas realizadas. A negligência e os maus-tratos pela família são referidos 53 Tiago Neves (Coordenador) como problemáticas com expressividade no concelho. Nesta área as respostas sociais são, ainda, insuficientes. «Os idosos são uma população muito excluída tanto ao nível da família como em muitos serviços que existem aqui no nosso concelho. Nomeadamente respostas sociais para eles existem poucas». «Enquanto, por exemplo, existe já alguma legislação que apoia as vítimas de maus-tratos, as crianças em risco, para os velhos não há». O aumento da população estrangeira imigrante é assinalado como uma dupla ameaça na esfera económica. Afirma-se que, por um lado, ocupam postos de trabalho na área da restauração e hotelaria, aceitando trabalhar por salários muito baixos e, desta forma, retiram oportunidade aos/às portugueses/as. Por outro lado menciona-se que, na medida em que têm baixas qualificações, acabam por prestar serviços de menor qualidade, comprometendo o turismo local. Simultaneamente, constata-se um sentimento ambivalente dos/das nossos/as interlocutores/as a este propósito já que referem que os/as portugueses/ as, por terem a possibilidade de aceder a determinados apoios e subsídios, frequentemente recusam estes empregos. As propostas e estratégias para combater a pobreza e a exclusão social em Albufeira, referidas ao longo das entrevistas, centram-se no aumento dos apoios sociais ao nível da habitação, da educação (bolsas de estudo), da criação de equipamentos para a população sénior, bem como nas área da infância e do apoio à família – em particular creches mas também Jardins de Infância – e ainda na área da deficiência. Nesta última área, a grande preocupação centra-se no acompanhamento destas «pessoas excepcionais» e na sua integração no mercado de trabalho, no seu futuro. Assim, um dos projectos é fundar uma residência. «A deficiência é uma necessidade, acho que há uma grande lacuna não só em Albufeira como no país inteiro. Em termos de residências então... e mesmo de espaços de formação profissional (…).». «O que nos preocupa (...) é o futuro deles, com quem ficam, com quem vão estar e o que é que será deles. Há crianças e jovens que conseguem perfeitamente ser autónomos, só que tem que se ter muito cuidado com os abusos. (…) São crianças que têm capacidade para estar autónomos, mas perdem-se que é uma coisa… Vão para uma esquina, vão para outra, perdem-se que é um instante. Portanto, esses jovens, (…) têm de ter sempre alguém a vigiar». Pretende-se trabalhar mais a acção social na juventude «porque há um conjunto de jovens que estão em risco. Então estamos a tentar desenvolver, este ano, uma equipa para sinalizar, caracterizar esses casos, e depois preparar uma intervenção quer com 54 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social o jovem, do ponto de vista do psicólogo, quer com a família». Como já foi referido anteriormente, um outro objectivo é estimular o associativismo juvenil. Finalmente, importa referir a proposta de criar um «lar intermédio» para os indivíduos entre os 21 e os 65 anos que não sabem gerir o seu dinheiro e vivem sem qualquer retaguarda familiar. Este espaço seria constituído, essencialmente, por pequenos apartamentos de modo a fomentar a autonomia destes indivíduos. 4.5. Concelho de São Brás de Alportel. O concelho de São Brás de Alportel tem uma área geográfica de 150,05 km2, pertence ao distrito de Faro e localiza-se na região e sub-região do Algarve. À data dos últimos censos, em 2001, a população residente era de 10.032 pessoas e a densidade populacional do concelho era de 66,9 hab./km2. São Brás de Alportel possui apenas uma freguesia, que tem a mesma denominação. Tomando como referência a tipologia das situações de exclusão proposta pelo estudo Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental, publicado em 2005 pelo Instituto de Segurança Social, este concelho inscreve-se no tipo 2, que corresponde aos territórios de contrastes e base turística. Neste tipo encontramos a grande maioria dos concelhos da região do Algarve (12 dos 16 concelhos que compõem esta região), bem como Sines, que pertence à região do Alentejo. São Brás de Alportel é um concelho onde alguns traços que marcam este tipo 2 se encontram bem evidenciados. Desde logo, o forte dinamismo demográfico. Entre os censos de 1991 e 2001 a população aumentou 33%, valor muito superior ao registado para a região do Algarve (15,8%) e para o território continental (5,3%) (CLAS São Brás de Alportel, 200635). O Diagnóstico Social do Concelho, concluído em inícios de 2006, assinala esta evolução demográfica sublinhando a «expressão do crescimento populacional concelhio à escala nacional. De 1991 para 2001, São Brás de Alportel foi o 4º concelho do país com maior crescimento populacional e de 2001 até 2004 foi o 6º concelho com maior crescimento a nível nacional. Em média, neste último período, S. Brás acolheu cerca de 390 novos habitantes/ano e regista um crescimento de 3,9%/ano» (CLAS São Brás de Alportel, 2006: 12-13). O mesmo relatório aponta alguns dos factores que estão na base deste crescimento populacional: o aumento da oferta de alojamento, os preços mais competitivos da habitação face aos concelhos vizinhos, as qualidades paisagísticas e climatéricas, a melhoria das 35 http://www.cm-sbras.pt/NR/rdonlyres/E24B675E-75E0-4CE5-910F-F0CB16286C7B/0/diagnostico.pdf 55 Tiago Neves (Coordenador) acessibilidades que facilitam a ligação a centros urbanos importantes como Faro e Loulé (CLAS São Brás de Alportel, 2006: 14). Por outro lado, é reconhecido que este crescimento se faz essencialmente à custa de população de fora – quer de nacionalidade portuguesa, quer estrangeira – que se tem vindo a instalar no concelho. A propósito da presença da população estrangeira no concelho importa referir que, em 2001, esta representava cerca de 7,3% do total da população (sendo a média para a região do Algarve 6,5%). Dez anos antes este valor era de 1,1%, valor inferior à média da região (CLAS São Brás de Alportel, 2006: 68-69). Analisando os restantes indicadores considerados na selecção dos territórios a contemplar neste estudo, São Brás de Alportel, quando comparado com os restantes concelhos que integram os territórios de contrastes e base turística, é o município pior posicionado em termos do indicador de qualidade de vida (94,578) (Manso e Simões, 2007) e encontra-se igualmente entre os concelhos com menor índice de poder de compra per capita (80,73), menor percentagem de poder de compra (0,093) e menor dinamismo concelhio (0,506) (INE, 2007). Na selecção das instituições a entrevistar houve a preocupação de abarcar estruturas bastante diversificadas em termos de natureza jurídica, áreas de actuação e públicos-alvo privilegiados. Houve também um esforço em abranger tanto entidades publicas quanto privadas, e em abranger estruturas de base comunitária. Foram assim seleccionadas e entrevistadas sete entidades: a Câmara Municipal e a Rede Social, duas IPSS com historial e áreas de intervenção bastante distintas, uma associação de desenvolvimento local, uma associação religiosa e a Junta de Freguesia. Caracterizando de forma genérica a intervenção desenvolvida por estas instituições na área da pobreza e da exclusão social pode afirmar-se que, apesar da diversidade de estratégias e metodologias encontradas, é possível apontar algumas especificidades da acção local neste território. Há uma dinâmica de intervenção muito alicerçada nas parcerias, facilitada, segundo alguns/algumas dos/ das entrevistados/as, pela reduzida dimensão do território. Contudo, também se verifica que, frequentemente, estas parcerias extravasam o âmbito concelhio, alargando-se a cooperação interinstitucional a outras estruturas e municípios da região do Algarve. Existem algumas organizações “fortes”, com maior capacidade de iniciativa e de mobilização/captação de recursos, que assumem muitas vezes a liderança ou o papel de dinamizadoras nestes processos: «Nós pensamos que algumas dessas instituições têm mais poder, mais meios e mais força enquanto instituição. De certa forma, às vezes até nos queremos encostar um pouco a eles porque sentimos que ali vai haver resultado». 56 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Neste domínio, o papel da Rede Social é diversas vezes realçado, sendo esta estrutura entendida como um fórum importante de partilha de informação, de articulação da intervenção e de planificação conjunta de iniciativas. «Desde que a Rede Social foi constituída é que a acção social no concelho teve uma outra projecção. Até lá faziam-se intervenções pontuais». «Por isso é muito importante a Rede Social, porque nós partilhamos informações. (…) De certa forma, com essa parceria, as instituições ficaram menos individualistas». Há, contudo, alguma divergência de opiniões a este propósito entre as estruturas que integram o Núcleo Executivo do Conselho Local de Acção Social (CLAS) e as que não participam neste órgão, sendo a opinião das primeiras claramente mais favorável. «(…) na Rede Social só fazemos reuniões praticamente 3 ou 4 vezes por ano, já não me recordo bem, ou quando há situações que eles marquem, de casos pontuais. A Rede Social vai lá para votação, para parecer do que é melhor para o concelho». As questões da participação comunitária e do envolvimento das populações marcam também o discurso produzido pela maioria dos actores locais entrevistados. É notória a relevância que alguns dos/das interlocutores/as institucionais atribuem às questões da promoção da cidadania activa, da participação efectiva da população, da capacitação e do empowerment. Este é, sem dúvida, um concelho marcado por algumas práticas inovadoras e experimentais nesta matéria, onde se destaca desde logo a implementação do orçamento participativo ao nível da gestão do orçamento municipal, mas também outras iniciativas como a Rede de Voluntariado de São Brás de Alportel, ou algumas práticas concretas de envolvimento dos/das destinatários/as na planificação, dinamização e avaliação de actividades. Por outras palavras, estamos perante um território no qual as dinâmicas de participação quer interinstitucional, quer da própria população, parecem ter já alguma expressão e adquirem preponderância no discurso dos actores institucionais. Este é um concelho onde se encontram intervenções de cariz muito diverso: desde instituições cuja actuação se restringe à prestação de serviços protocolados com o Estado até estruturas que aliam uma actuação de carácter mais de acção assistencial a uma vertente de mobilização e animação comunitária, passando por entidades cujo foco prioritário se centra no desenvolvimento rural, local, comunitário, privilegiando metodologias participativas, estratégias de promoção da cidadania activa, de qualificação e capacitação das pessoas e das organizações. Esta diversidade de intervenções não será alheia à natureza das próprias organi57 Tiago Neves (Coordenador) zações seleccionadas neste concelho, também ela muito diversa, quer em termos de natureza jurídica, de dimensão e dos grupos-alvo em que focam a actuação, quer em termos dos próprios recursos materiais, técnicos, humanos e financeiros de que dispõem e que conseguem captar e mobilizar. São Brás de Alportel é percepcionado pelos/as entrevistados/as como um concelho em processo de transformação quer ao nível demográfico – através do aumento populacional registado nas duas últimas décadas, que segundo algumas opiniões «não se fez acompanhar de um crescimento da economia local», convertendo São Brás num concelho dormitório –, quer ao nível dos modos de vida: «Porque isto era um território marcadamente rural e hoje nós temos aqui uma sociedade urbana em construção, num concelho de características rurais». Contudo, a grande maioria dos/das entrevistados/as considera que este é um município com uma «boa qualidade de vida», onde os problemas da pobreza e da exclusão não adquirem proporções preocupantes, e onde os efeitos da actual crise socioeconómica não se têm feito sentir de forma acentuada. «São Brás tem uma qualidade de vida muito boa em relação aos outros concelhos, mesmo Loulé, Faro, Tavira, não se compara. Aqui não existe tanta intervenção como nos outros lados porque não existem casos tão graves como nos outros lados». «(...) nós vivemos num concelho em que há muita qualidade e todos os casos [de pobreza e exclusão social] que são tratados aqui, são solucionáveis.(...) Não é por acaso que nós crescemos como crescemos, penso que São Brás de Alportel é das terras do país que mais cresceu. Portanto é porque existe essa qualidade». Questionados/as sobre os problemas sociais existentes no território, os/as entrevistados/as não deixam, contudo, de registar a emergência de novos casos de pobreza “escondida” e “envergonhada”, que se traduzem em situações de privação económica que começam a afectar pessoas da classe média atingidas pelo desemprego. Sublinham também o aumento dos pedidos de apoio social: «O número de famílias que pedem apoio tem vindo a aumentar, nomeadamente do banco de alimentos. Grande parte dessas famílias já existia, mas de forma escondida. Mas como houve aquele trabalho de aproximação dessas pessoas, hoje em dia elas assumem. Mas independentemente desses casos, há muitos outros novos. E o que é assustador é que os novos casos, na maioria das vezes prendem-se com pessoas da classe média. (…) Portanto, o que eu noto é que a pobreza, a necessidade, já não é tipicamente daquelas famílias que toda a gente conhece de cá de São Brás, de gerações e gerações, mas pessoas como eu, como nós, em que a vida, de um momento para o outro, deu uma grande volta». 58 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social «O desemprego é fácil de identificar pelos números, através da parceria informal que temos com o Centro de Emprego. E também vemos por outras coisas: o número de atendimentos da acção social, o número de pedidos de apoio a nível de apoio em géneros alimentícios (…). A nível do número de processos de Rendimento Social de Inserção, o aumento de pedidos para a habitação social, de rendas em atraso. Nota-se claramente por uma série de indicadores como a situação está mais complicada». Por fim, importa salientar as propostas e estratégias de combate à pobreza e exclusão social apontadas para o concelho de São Brás de Alportel. Ao nível da dinamização socioeconómica é sugerida a criação de medidas específicas de apoio às actividades económicas de pequena escala (unidades de transformação agro-alimentar, pequeno comércio, pequena restauração, a pesca artesanal) e uma maior articulação entre as políticas de emprego, as políticas económicas e as medidas sociais. Ao nível dos equipamentos sociais é realçada a necessidade de criar respostas na área da deficiência e medidas de apoio específicas para esta população e suas famílias. Foram ainda manifestadas preocupações com a integração das populações imigrantes e com a promoção da interculturalidade. Um outro aspecto focado aponta para a necessidade de reflectir e trabalhar de forma mais explícita as questões da promoção da cidadania e da participação no sentido de contrariar os «défices de cidadania» que marcam a nossa sociedade. 4.6. Concelho de Lisboa. Lisboa é a capital portuguesa, sede do distrito com o mesmo nome, e situase na Região de Lisboa, na sub-região da Grande Lisboa. Centro da principal área metropolitana do país, possui uma área geográfica de 84,6 km2 na qual, em 2001, residiam 564.657 habitantes, o que se traduzia numa densidade demográfica de 6.674,43 hab./km2. O concelho subdivide-se em 53 freguesias: Ajuda, Alcântara, Alto do Pina, Alvalade, Ameixoeira, Anjos, Beato, Benfica, Campo Grande, Campolide, Carnide, Castelo, Charneca, Coração de Jesus, Encarnação, Graça, Lapa, Lumiar, Mártires, Madalena, Marvila, Mercês, Nossa Senhora de Fátima, Pena, Penha de França, Prazeres, São Cristóvão e São Lourenço, São Domingos de Benfica, São Francisco Xavier, São João, São João de Brito, São João de Deus, São Jorge de Arroios, São José, São Mamede, São Miguel, São Nicolau, São Paulo, São Sebastião da Pedreira, São Vicente de Fora, Sé, Sacramento, Santa Catarina, Santa Engrácia, Santa Isabel, Santa Justa, Santa Maria de Belém, Santa Maria dos Olivais, Santiago, Santo Condestável, Santo Estêvão, Santos-o-Velho e Socorro. Segundo o estudo de Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Con59 Tiago Neves (Coordenador) tinental (ISS: 2005), o município de Lisboa enquadra-se nos territórios ameaçadores e atractivos (tipo 3), onde se encontram essencialmente concelhos urbanos e suburbanos das duas áreas metropolitanas do país (dos 21 concelhos que integram este tipo, 12 fazem parte da Área Metropolitana de Lisboa). Caracteriza-se também por ser, a nível nacional, o município com maior índice de poder de compra per capita (235,74), maior percentagem de poder de compra (11,095) e melhor índice de qualidade de vida (205,073)36. Apenas no que se refere ao dinamismo relativo dos concelhos Lisboa surge classificada negativamente (– 0,994). De acordo com os critérios definidos para a selecção dos concelhos a contemplar neste estudo, Lisboa corresponde a um território onde a maioria dos indicadores apresenta valores positivos. O nível de vida que os indicadores positivos acima referidos traduzem, tal como outros relativos à escolarização, à qualificação do emprego e aos rendimentos, acaba, contudo, por diluir algumas disparidades existentes dentro do próprio concelho, não retratando a situação de todos/as os/as que aí residem. O documento de Diagnóstico Social produzido em 2009 pela Rede Social alerta justamente para o facto de que “No quadro da coesão social há a referir factores de disparidade nos rendimentos auferidos pelos pensionistas, coexistindo ainda, na realidade social, bolsas de pobreza nas quais se inserem por exemplo, os trabalhadores com baixos salários, os idosos com baixos rendimentos (salientandose a população idosa do sexo feminino em situação de maior vulnerabilidade), os desempregados, a população sem-abrigo ou toxicodependente” (Rede Social de Lisboa, 2009: 36). Perante a vastidão de instituições com intervenção na área social presentes em Lisboa procurou-se, na selecção dos actores institucionais a entrevistar, abarcar entidades bastante diversificadas em termos dos públicos e áreas de intervenção, em termos dos territórios em que se situam e em que actuam (zona e/ou freguesia(s) da cidade), assim como em termos da sua natureza jurídica, historial e dimensão. Foram entrevistadas sete instituições: a Câmara Municipal e a Rede Social, uma Junta de Freguesia, uma organização não governamental de ajuda humanitária e cooperação para o desenvolvimento, uma fundação privada, uma IPSS e a equipa coordenadora de um Contrato Local de Desenvolvimento Social. Procurou-se assim conhecer e caracterizar, ainda que sumariamente, o 36 Em cada um destes três indicadores, para além de surgir em 1º lugar, o concelho de Lisboa apresenta valores que se destacam claramente face ao contexto nacional. A título de exemplo, refira-se que o poder de compra per capita ultrapassa o dobro da média nacional (INE: 2007) 60 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social modo como estas diferentes instituições desenvolvem a sua intervenção, as parcerias e as dinâmicas geradas localmente, os problemas identificados como prioritários e as propostas concretas de combate à pobreza e exclusão social apresentadas para o concelho. As estratégias e metodologias de intervenção identificadas são bastante variadas, abarcando desde metodologias participativas (workshops, fóruns de debate público, assembleias de jovens), a intervenções assentes no trabalho de projecto planeado a partir de diagnósticos e das necessidades identificadas localmente, passando pela implementação de respostas de proximidade (equipas de rua, gabinetes de atendimento descentralizado), a promoção do associativismo e da auto-organização das comunidades, a prestação de serviços (valências tipificadas), a animação sociocultural e o voluntariado. Apesar desta diversidade, nota-se uma prevalência das intervenções centradas no “desenvolvimento comunitário”, ainda que, nalguns casos, estas surjam aliadas à acção assistencial, não sendo contudo esta a vertente que predomina. Não obstante este vasto leque de estratégias e metodologias, e também de públicos e áreas de actuação (públicos que vão desde a infância e juventude à população sénior, imigrantes e minorias étnicas, sem-abrigo, pessoas com deficiência; e áreas de actuação que passam pela educação, saúde, emprego/ qualificação/formação, empreendedorismo e promoção da cidadania), existem alguns elementos comuns no discurso dos diferentes actores entrevistados: a recusa de uma intervenção de carácter assistencialista, entendida como fomentadora de situações de dependência, e uma tónica muito acentuada nas questões da promoção da autonomia individual, da co-responsabilização das pessoas na resolução dos seus problemas, da promoção de processos participativos e da capacitação individual e comunitária: «(…)a perspectiva que nos guia é a da negação do assistencialismo. A autonomização do indivíduo, (…) responsabilizando as pessoas, sempre que possível, pela resolução dos seus problemas, envolvendo-as na resolução desses problemas. (…) Eu falo daquilo que é o assistencialismo, do tornar as pessoas dependentes de algo para a satisfação das suas necessidades básicas. E não se pretende isso, pretende-se que as pessoas estejam envolvidas, as famílias, os próprios utentes, sejam responsabilizados pelo seu percurso, pela sua evolução também». «A [participação] é um pilar. (…) Todos os projectos, independentemente da população com que trabalham, têm isso bem presente». «Fez-se um trabalho de capacitação das pessoas… O que é engraçado nisto é que o nosso papel é um papel de facilitador, de retaguarda. Nós podemos, de alguma 61 Tiago Neves (Coordenador) maneira, induzir algumas reflexões que conduzam a um dado objectivo, mas quem faz o caminho são as pessoas». O trabalho em parceria foi outro aspecto enfatizado por todos/as os/as entrevistados/as e assumido como uma prática efectiva na intervenção que desenvolvem. Também a este nível é grande a diversidade de situações: são referidas parcerias formais/protocoladas e parcerias informais, parcerias “estratégicas”, parcerias “obrigatórias”, parcerias locais e parcerias de âmbito regional ou mesmo nacional, e são apontados parceiros “mais habituais” e parceiros “esporádicos e mais situacionais”. O papel da Rede Social enquanto fórum privilegiado de concertação da intervenção não assume grande relevância no discurso dos actores locais inquiridos, até porque as parcerias que estabelecem surgem à margem desta estrutura. Há quem considere que o papel da Rede: «Poderia ser importante. Porque ela não funciona. É uma imposição legal, há as reuniões do CLAS, são apresentados os projectos (…), avaliados para o parecer e aquelas coisas todas mas, depois disso, sinceramente não se sente que o facto de estar na Rede Social seja uma mais-valia, traga outra informação, outras práticas…». Também há quem destaque a mais-valia que os grupos de trabalho dinamizados no âmbito da Rede Social constituem: «O [nome da instituição] foi representante da equipa de rua na Rede Social de Lisboa, num grupo temático que havia das pessoas sem-abrigo. E então esteve durante um ano e meio a trabalhar neste grupo (…). Isso, pensando que não, para além do trabalho acrescido e que não estava programado, deu-nos uma maior abertura e também uma maior facilidade em chegar a determinados contactos que se calhar não teríamos de outra forma». Importa assinalar que a Rede Social de Lisboa é uma estrutura relativamente recente, formalmente constituída apenas em 2006, encontrando-se ainda em processo de elaboração de alguns instrumentos fundamentais de planeamento – o diagnóstico foi apresentado em 2009 e o Plano de Desenvolvimento Social está em fase de construção. Contudo, em termos de funcionamento, a Rede Social optou por privilegiar a elaboração de planos de acção, adoptando uma metodologia participativa assente em grupos de trabalho temáticos, estruturados em função das três áreas prioritárias definidas para o concelho: os sem-abrigo, o envelhecimento e as crianças. «Quando se seleccionou estas três áreas, o que se pretendia efectivamente com estes grupos de trabalho, além de desenvolver o plano de intervenção, sem sombra de 62 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social dúvida, era testar metodologias de trabalho em rede também simultaneamente». Encontrando-se ainda numa fase de consolidação de estratégias e metodologias de trabalho e de operacionalização dos planos de acção, a Rede Social de Lisboa assume como objectivos centrais a “concertação de políticas locais” e a “concertação de esforços” entre os diferentes actores com intervenção no território. Questionados os actores institucionais locais sobre problemas sociais que identificam como prioritários no concelho de Lisboa, o seu discurso centrase em determinados grupos cuja situação de vulnerabilidade se agravou face ao actual contexto de crise: os/as idosos/as com baixos rendimentos e sem qualquer suporte familiar; a população imigrante, em particular a que se encontra em situação irregular; os/as jovens com fracas habilitações escolares, cuja inserção laboral se torna particularmente difícil; a população residente em territórios mais “críticos”, designadamente em bairros sociais, que sofre de forma mais intensa o fenómeno do desemprego. As instituições focam o aumento do desemprego e as suas repercussões nas mais diversas áreas. Uma delas é a saúde mental, referindo-se um número crescente de situações de depressão em pessoas em idade activa que subitamente se vêem completamente desocupadas. Outra é a área do rendimento e, consequentemente, a da qualidade de vida dos agregados familiares, em particular das crianças, e cada vez mais se vão notando carências ao nível da própria alimentação: «Nós temos notado isto muito nas crianças, na alimentação que as crianças levam para a escola. (…). Tivemos que reforçar o pequeno-almoço, que nós chamamos o “reforço da manhã”, porque reparámos que o número de crianças que começou a ir para as actividades sem pequeno-almoço aumentou consideravelmente». «As professoras dizem muito que as crianças à segunda-feira têm mais fome do que nos outros dias». É mencionada a emergência de situações de carência extrema que levam a um maior recurso aos apoios e serviços prestados pelas instituições (destaca-se aqui a distribuição de alimentos). Por fim, um dos problemas mais evidenciados pelos actores locais entrevistados foi o aumento da população sem-abrigo. Quem trabalha directamente com esta população aponta a emergência de novos casos decorrentes de situações de desmembramento familiar em que o rendimento de uma só pessoa não é suficiente para garantir o acesso a uma habitação: «Há situações que se calhar não são assim tão recentes mas que, se calhar, neste momento, são mais regulares. Estamos a falar de divórcios em que o homem sai de casa, em que fica desempregado e que de um momento para o outro está a dormir 63 Tiago Neves (Coordenador) na rua. Isto é tipo uma bola de neve, tudo muito rápido». Quanto a propostas concretas e estratégias a implementar no combate à pobreza e exclusão no concelho de Lisboa, as instituições entrevistadas referem a necessidade de aproximar mais a acção social e a esfera empresarial, apelando «um bocadinho mais à responsabilidade social das empresas». No domínio dos equipamentos sociais apontam, na área da infância, para a necessidade de alargar a rede de creches do concelho e propõem a criação de serviços a preços acessíveis ao nível da intervenção psico-pedagógica para «trabalhar na estimulação precoce, nas questões da dislexia, das perturbações da linguagem e do desenvolvimento da primeira infância». A população idosa merece também destaque, em particular os/as idosos/as em situação de isolamento, realçando-se a necessidade de respostas adicionais na área dos cuidados continuados e dos lares residenciais. Ao nível da intervenção de proximidade, nomeadamente aquela que as equipas de rua realizam com grupos de risco, é sublinhada a importância de integrar nestes serviços testes de despistagem do VIH/Sida. A violência doméstica, a toxicodependência e a prostituição foram apontadas como áreas que carecem de maior investimento em termos de intervenção. Por fim, foi também sublinhada a necessidade de uma maior participação das estruturas locais com intervenção directa no terreno nos diversos fóruns de discussão, planeamento e definição das políticas sociais. 4.7. Concelho do Porto. O concelho do Porto é capital do distrito com o mesmo nome e situa-se na região Norte, na sub-região do Grande Porto. Possui uma área geográfica de 41,5 km2 e, em 2001, a população residente era de 263.131 pessoas, o que se traduzia numa densidade populacional de 6.337 hab./km2. O concelho é constituído por 15 freguesias: Aldoar, Bonfim, Campanhã, Cedofeita, Foz do Douro, Lordelo do Ouro, Massarelos, Miragaia, Nevogilde, Paranhos, Ramalde, Santo Ildefonso, São Nicolau, Sé e Vitória. Apesar de ser um território com uma reduzida área territorial – o mais pequeno do Grande Porto, ultrapassado apenas por Espinho – continua a apresentar uma densidade populacional muito significativa, sendo nesta dimensão o quarto concelho a nível nacional37. Os últimos dados estatísticos disponíveis (INE, 2009a) evidenciam uma tendência de decréscimo populacional ao longo dos últimos anos, sendo que em 2008 residiam no concelho 216.080 37 Ultrapassado apenas pelos concelhos da Amadora, Odivelas e Lisboa. 64 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social pessoas, o que representa uma perda de cerca de 47.000 pessoas desde o início da década. Contudo, em termos de dinamismo social, económico e cultural, o Porto continua a surgir como a 2ª principal cidade do país, funcionando como um pólo particularmente atractivo em termos de emprego, educação, saúde, cultura e acesso aos mais diversos serviços. De acordo com a tipologia das situações de exclusão proposta pelo estudo Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental (ISS, 2005) este concelho inscreve-se no tipo 3, que corresponde aos territórios ameaçadores e atractivos, onde encontramos essencialmente concelhos urbanos e suburbanos das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Caracteriza-se também por apresentar valores positivos ao nível da qualidade de vida (84,367), do poder de compra per capita (170,50) e da percentagem do poder de compra (3,562). Importa relembrar que, com vista a garantir a inclusão neste estudo das duas principais cidades do país, o Porto surge em substituição do concelho do Barreiro, inicialmente seleccionado por ser aquele que, dentro dos territórios ameaçadores e atractivos, registava valores negativos nos quatro indicadores considerados. Na selecção dos actores institucionais a entrevistar procurou-se abarcar estruturas bastante diversificadas, não só ao nível do tipo de intervenção desenvolvida e dos públicos privilegiados, mas também em termos da área territorial de actuação (zona e/ou freguesia(s) da cidade) e da sua natureza jurídica. Foram assim entrevistadas oito instituições onde, para além da Câmara Municipal e da Rede Social38, se inclui uma agência de desenvolvimento local, uma associação de moradores, uma Junta de Freguesia, duas IPSS, uma das quais de natureza religiosa, e a equipa coordenadora de um Contrato Local de Desenvolvimento Social. Desta forma foi possível conhecer e caracterizar, ainda que sumariamente, o modo como estas diferentes instituições desenvolvem a sua intervenção, as parcerias e as dinâmicas geradas localmente, os problemas que identificam como prioritários e as propostas concretas de combate à pobreza e exclusão social que apresentam para o concelho. Caracterizando de forma genérica a intervenção desenvolvida por estas instituições no domínio da pobreza e da exclusão social, importa desde logo enfatizar a diversidade de actuações e estratégias identificadas. Tomando como referência as duas grandes categorias-tipo definidas para caracterizar a intervenção social desenvolvida localmente, encontramos estruturas onde é claramente a vertente de “acção assistencial” que se destaca, traduzindo-se na 38 No quadro do núcleo executivo do CLAS. 65 Tiago Neves (Coordenador) prestação apoios e serviços a pessoas e famílias carenciadas (distribuição de vestuário, de bens alimentares, apoio médico, o empréstimo de materiais ortopédicos, apoios pecuniários para despesas com rendas, água, electricidade, etc.). E encontramos igualmente instituições cuja intervenção se centra no “desenvolvimento comunitário”, ainda que muitas vezes a vertente de “acção assistencial” esteja igualmente presente, não sendo, contudo, assumida como a vocação primeira destas organizações. No âmbito das acções de desenvolvimento comunitário encontramos intervenções de natureza muito heterogénea: umas focadas num trabalho de carácter mais individual e personalizado, apostando na qualificação escolar e profissional, e no desenvolvimento de competências pessoais e sociais dos sujeitos, com vista à sua capacitação e autonomização; outras procuram fomentar a mobilização comunitária e o desenvolvimento local recorrendo a estratégias de animação sociocultural e desportiva; outras ainda centram a sua actuação num «trabalho de projecto», negociado e co-construído com as instituições da comunidade e com as pessoas a quem se dirige, enfatizando estratégias de participação e de empowerment. Veja-se o excerto seguinte: «De facto há aqui uma zona da freguesia que tem problemas bastantes específicos e que é preciso encontrar respostas, que é a zona do […], que como sabem é um novo bairro. (…) O que tem de novo é a população que lá meteram, os processos de realojamento que foram efectuados, as questões que ali criaram, e portanto está ali de facto um território com alguma particularidade. É preciso alguém, de facto, numa lógica de trabalho de projecto, não numa lógica de trabalho institucional porque não valerá a pena e a diferença é que (…) numa lógica tradicional, nós o que ali meteríamos é uma creche, um jardim-de-infância, uma coisa para velhinhos, isto numa lógica tradicional. Isto seria um disparate no meu entender, primeiro porque o bairro não existe isolado do resto da comunidade, portanto não faz sentido continuarmos a isolar. De alguma maneira, numa lógica de guetização dos próprios territórios, foi isto que se fez durante muitos anos, é criar equipamento para os bairros (…). Portanto, não faz sentido também por esta razão, mas também não faz sentido porque creches, um jardim-de-infância, já existem nesta comunidade. O que nós vamos fazer, o que em princípio se pretende fazer, é criar uma lógica de trabalho de projecto: isto é, vamos tentar criar dinâmicas com as populações, portanto tentar que as populações identifiquem naturalmente as questões que são pertinentes para elas, a questão da lógica da vivência em vizinhança». As dinâmicas de parceria e de articulação interinstitucional ocorrem a dois 66 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social níveis: a um nível local mais restrito, que por vezes se limita ao território de intervenção das instituições, não indo muito além dos limites da freguesia – e falamos quase sempre de parcerias de carácter informal; a um nível supra-concelhio, com estruturas públicas de âmbito regional, mas também com entidades privadas e do terceiro sector sedeadas noutros pontos do país. Para as instituições entrevistadas, a Rede Social não parece assumir um papel relevante enquanto elemento dinamizador das parcerias locais uma vez que quase nunca surge mencionada. Convém referir que se trata de uma estrutura relativamente recente no concelho, criada apenas em 2006, e que se encontra ainda numa fase de elaboração de alguns dos instrumentos fundamentais, designadamente o Plano de Desenvolvimento Social e o Plano de Acção. Reconhece-se que, nesta fase: «O grau de participação das entidades [que integram o CLAS] e a sua proactividade não é (…) muito visível. Tal participação poderá ser estimulada a partir do momento da criação de grupos de trabalho». Contudo, admite-se igualmente que: «A constituição e dinamização da Rede Social é por si só uma forma de promover parcerias. Tal facto esteve marcadamente presente através da metodologia usada para a elaboração do Diagnóstico Social e na metodologia a aplicar na elaboração do Plano de Desenvolvimento Social». Entre os problemas sociais identificados pelos/as entrevistados/as destacamse as questões do aumento do desemprego e da precariedade laboral, as baixas qualificações da população (fenómeno presente mesmo nas camadas mais jovens), os problemas habitacionais – focados sobretudo por estruturas cuja actuação se centra em zonas com maior densidade de habitação social ou em territórios onde predominam as “ilhas” – e o isolamento e solidão das pessoas idosas. É referida igualmente a emergência de novos grupos sociais atingidos pelo fenómeno da pobreza na sequência do actual contexto de crise. Os/as entrevistados/as falam de uma “nova pobreza”, que é muitas vezes uma “pobreza envergonhada” e que cada vez mais afecta as famílias de classe média: «Nós sentimos que os pobres continuaram pobres e a classe média, que tinha a sua vida estabilizada, neste momento já não tem e neste momento está numa classe mais pobre. E verificamos isso todos os dias através das pessoas que se dirigem à [nome da instituição] na perspectiva de encontrarem uma solução para o seu problema, através do contacto diário que vamos tendo com as pessoas na rua ou de vizinhos que nos alertam. Porque esta nova pobreza são pessoas envergonhadas e não gostam muito de recorrer, e em grande parte são pessoas jovens». «Em termos de população que a [nome da instituição] apoia, é preciso neste mo67 Tiago Neves (Coordenador) mento distinguir bem o perfil das pessoas que nos procuram, isto porque se até 2009 falaríamos de pessoas com perfil mais ligado à pobreza tradicional, neste momento têm-nos aparecido situações muito, muito diferentes e maioritariamente ligadas à questão da nova pobreza e da pobreza envergonhada». Quanto a propostas concretas e estratégias a implementar no combate à pobreza e exclusão no concelho do Porto, as instituições entrevistadas enfatizam a necessidade de criar novos equipamentos e de reforçar as respostas sociais existentes, sobretudo na área da infância (creches) e da população sénior (lares residenciais e valências de apoio domiciliário que forneçam um conjunto mais vasto de serviços), considerando que nalgumas zonas da cidade a cobertura de equipamentos a este nível continua deficitária. A recuperação das habitações é também apontada como uma necessidade premente, sobretudo nas zonas mais envelhecidas do Porto. Neste domínio há quem proponha a reconversão de algumas “ilhas” e habitações devolutas em espaços culturais que permitam uma maior dinamização destas zonas. Outra lacuna que gostariam de superar diz respeito a infra-estruturas desportivas e de lazer que pudessem ser utilizadas e dinamizadas quer pelas diferentes colectividades locais, quer pela população em situação de maior vulnerabilidade social. Por fim, uma vez mais, as questões da participação e da cidadania plena e activa surgem como um domínio a priorizar no combate à pobreza e à exclusão social na medida em que, como enfatiza um dos interlocutores «garantir isto nalguma população, significa garantir o exercício dos direitos mais básicos». 4.8. Concelho de Fronteira O concelho de Fronteira pertence ao distrito de Portalegre e situa-se na região do Alentejo, na sub-região do Alto Alentejo. Com uma área geográfica de 245,2 km2, em 2001 tinha uma população de 3.732 habitantes e apresentava uma densidade populacional de 15,2 hab./km2. Este território subdivide-se em 3 freguesias: Fronteira, Cabeço de Vide e São Saturnino. Tomando como referência a tipologia das situações de exclusão proposta pelo estudo Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental (ISS, 2005), este concelho inscreve-se nos territórios envelhecidos e desertificados (Tipo 4). Estes territórios correspondem a concelhos rurais, situados maioritariamente no centro interior do país e no Alto Alentejo, cujo traço mais marcante é o envelhecimento demográfico. Olhando para os restantes indicadores considerados para a selecção dos municípios a contemplar neste estudo, Fronteira, quando comparada com os restantes territórios que integram o tipo 4, apresenta 68 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social índices positivos no que se refere à qualidade de vida (84,367), ao poder de compra per capita (74,81) e ao dinamismo concelhio (0,078). Surge, assim, como o concelho de tipo 4 com maior número de indicadores positivos. Alguns dos traços que marcam os territórios envelhecidos e desertificados encontram-se bem evidenciados neste concelho. Desde logo o envelhecimento demográfico. De acordo com os dados mais recentes do INE, publicados no Anuário Estatístico da Região do Alentejo de 2008, Fronteira continua a perder população e uma das razões que pode justificar esta redução são os movimentos migratórios para outras zonas do país, uma vez que o êxodo da população mais jovem continua a ser uma realidade. Do total da população residente, mais de ¼ (25,3%) inscreve-se na faixa etária dos 65 ou mais anos. O grupo etário dos 0 aos 14 anos representa apenas 12,4% do total da população (INE, 2009b). De acordo com a mesma fonte, em 2008 o índice de envelhecimento para o concelho de Fronteira era de 204,3, valor muito superior ao verificado para o território nacional (115,5) e na região do Alentejo (172,9), ainda que ligeiramente inferior ao registado para a sub-região do Alto Alentejo (208,4). Por outro lado, a par do fenómeno do envelhecimento, este é um concelho de características marcadamente rurais, com uma densidade populacional muito baixa, uma população pouco escolarizada e um fraco dinamismo económico. Ou seja, estamos perante um conjunto de indicadores que fazem deste um território com várias vulnerabilidades ao nível da pobreza e da exclusão social. Apesar de este não ser um concelho com um tecido institucional e associativo particularmente denso, na selecção dos actores locais a entrevistar procurouse abarcar estruturas diversificadas quer em termos de públicos e de áreas de actuação, quer em termos da própria zona territorial de actuação (freguesia), quer ainda ao nível da sua natureza jurídica. Foram entrevistadas seis instituições, onde se incluem, para além da Câmara Municipal e da Rede Social, duas IPSS de natureza idêntica mas com áreas territoriais de actuação distintas, uma agência de desenvolvimento local e um Agrupamento de Escolas. Procurando caracterizar, ainda que em traços gerais, a intervenção desenvolvida pelos actores locais entrevistados, podemos desde logo afirmar que em Fronteira coexistem as duas categorias-tipo que definimos para caracterizar a acção social local. Encontram-se intervenções de pendor claramente de “acção assistencial, assentes na prestação de apoios e serviços (valências tipificadas), que visam responder às necessidades mais imediatas da população. Encontramse também estratégias mais direccionadas para o “desenvolvimento comunitário”, que apostam na melhoria da qualificação das pessoas e na sua inserção 69 Tiago Neves (Coordenador) laboral; na implementação de serviços de proximidade, descentralizados (alguns itinerantes), com vista à capacitação das estruturas locais e da própria população; no apoio às empresas e na promoção do empreendedorismo; na dinamização de iniciativas de âmbito cultural e socio-recreativo visando uma maior aproximação e envolvimento da comunidade na vida local. Encontramse ainda situações nas quais a vertente de acção assistencial e a comunitária se misturam e coexistem lado a lado, sendo difícil destrinçar aquela que prevalece, havendo um investimento em ambos os domínios. Importa referir que um elemento comum ao discurso da generalidade das entidades entrevistadas diz respeito à dificuldade que têm sentido nos anos mais recentes em captar para o concelho financiamentos provenientes quer de programas nacionais, quer comunitários, designadamente no que diz respeito à área social. «E nós [nome da instituição] candidatámo-nos, a Câmara na altura candidatou-se também ao PROGRIDE, ao programa SER CRIANÇA, houve muitas tentativas de chegar a esses fundos, mas não [tivemos sucesso]». «Mas como eu disse há pouco apresentámos candidaturas agora neste último período que houve, não veio nenhuma aprovada porque não havia dinheiro». Se alguns/algumas entrevistados/as atribuem esta dificuldade em aceder a financiamentos externos a questões políticas («Às vezes dá-me ideia que o concelho ao lado que pertencia à cor [política] tinha mais garantias do que o outro que não»), outros associam-na à escassez de verbas dos programas que limita os montantes a distribuir («não veio nenhuma aprovada porque não havia dinheiro»), mas quase todos/as consideram que os concelhos do interior, com fraca densidade populacional, acabam por ser preteridos no momento da aprovação dos financiamentos. Por isso mesmo, nalguns domínios, têm optado pela apresentação de candidaturas conjuntas com outros concelhos vizinhos. «Candidatámos mas não chegou cá nada e fizemos um esforço conjunto em parceria com outro concelho – foi Avis – já por causa da dimensão, mas sabe que é difícil, não é, nós aqui temos muita dificuldade». O trabalho em rede não surge como uma prática consolidada no concelho. É, no entanto, uma dimensão bastante valorizada por algumas das entidades inquiridas, que vêem nas parcerias uma mais-valia para a concretização dos seus projectos na medida em que permitem mobilizar recursos inexistentes no território. Daí a aposta frequente em parcerias com estruturas localizadas fora do concelho. «[sobre o curso secundário profissional na área das energias renováveis que organizaram] Logo ao nível de oficinas e de materiais e equipamentos, nós teríamos muitas dificuldades e então como é que fizemos? Fizemos uma parceria com o 70 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Instituto Politécnico de Portalegre e conseguimos completar as lacunas que tínhamos aqui. Eles [os alunos] são transportados, têm lá a parte funcional toda, com acesso a todos os materiais e maquinarias que um curso destes implica – para nós comprar e montar oficinas não era nada fácil – e ainda têm também os próprios docentes da área a dar-lhes as aulas da parte tecnológica. Portanto aqui eles têm a parte científica, deslocam-se todas as semanas às quartas-feiras à tarde, quem os desloca é o município através dos transportes, e vão ao Instituto fazer a parte tecnológica. Claro que para nós é importante porque nos dá a segurança que nós não tínhamos, para eles é óptimo e abre perspectivas futuras porque o próprio Instituto Politécnico tem depois essa vertente a nível de ensino universitário». «Não há dúvida nenhuma que a principal estratégia que nós temos (…) são as parcerias. Não há qualquer dúvida que sem as parcerias é muito difícil conseguirse alguma coisa. E nós, com parcerias, quer dos municípios, quer de Juntas, quer de Santas Casas, quer com corporações de bombeiros, quer com empresas, temos um leque já que nos permite actuar em qualquer área sem grandes dificuldades». É possível encontrar, contudo, perspectivas divergentes sobre esta questão, havendo instituições que consideram que no concelho «estamos a trabalhar muito isoladamente», não havendo uma convergência ao nível das intervenções locais na área da pobreza e da exclusão. Em relação à Rede Social e ao papel que esta assume enquanto geradora de dinâmicas interinstitucionais, as posições são também distintas. Há estruturas que reconhecem a sua importância enquanto espaço privilegiado de encontro entre todas as entidades do concelho e de planificação e concertação da intervenção: «Acho que é aí que se identificam os principais problemas, e é aí também que se planificam as actividades que se deverão desenvolver e quais as entidades que deverão assumir esta ou aquela situação». Outras consideram que a Rede Social não tem conseguido cumprir esse papel, facto que reconhecem não ser da sua exclusiva responsabilidade, assumindo que em termos organizacionais algumas instituições funcionam muito isoladamente («parece que às vezes andamos um pouco de costas voltadas»), têm corpos directivos com pouca «capacidade e disponibilidade para estarem à frente de certas instituições» e lidam com uma enorme escassez de recursos humanos que leva a que sejam as sempre as mesmas pessoas a estar presentes nos vários fóruns locais e «as pessoas também se cansam, porque às vezes anda-se de reunião em reunião e às vezes as coisas não levam o caminho que se quer». Importa referir que a Rede Social de Fronteira foi constituída em Maio de 2004 e, após um período de estagnação, retomou o seu funcionamento em fi71 Tiago Neves (Coordenador) nal de 2009. Nesta fase de relançamento procuraram mobilizar-se os parceiros para a elaboração do Plano de Actividades de 2010. Apesar de reconhecerem que a adesão das instituições do CLAS foi muito positiva, admitem a existência de níveis de participação muito distintos. «Um dos nossos propósitos é mudar o paradigma da participação pelos constrangimentos que sentimos em várias coisas. Este paradigma da participação é muito importante para nós porque os nossos parceiros não entendem quando dizemos que não participam porque, para eles, eles participam: vêm às reuniões, estão presentes nos momentos de discussão, eles estão lá. Mas a questão tem a ver com os contributos. (…) Estar num fórum e assinar uma folha de presenças não é a mesma coisa que estar num fórum e opinar, dar sugestões... São coisas totalmente diferentes embora tenhamos os dois tipos de estruturas. O grande desafio é que tenhamos todos os nossos parceiros a participar da mesma maneira, desta maneira verdadeira». Para as entidades entrevistadas, a articulação interinstitucional e o trabalho em rede são dimensões fundamentais, mas que importa ainda consolidar a nível local. Outra dimensão que se procurou aferir junto dos actores locais refere-se às representações que têm sobre o território. A este nível, Fronteira é percepcionada como um concelho cada vez mais envelhecido e desertificado, incapaz de oferecer condições para a fixação da população. As oportunidades de trabalho são escassas, predominando o emprego sazonal, sobretudo nas actividades agrícolas. O tecido empresarial é muito débil, constituído essencialmente por microempresas onde «o patrão acaba por ser o trabalhador». A autarquia, a par das IPSS e da associação de desenvolvimento local (através sobretudo das empresas de inserção), assumem um papel fundamental enquanto entidades empregadoras no concelho. São mencionadas algumas potencialidades do território ao nível do património histórico e turístico (este último associado às Termas da Sulfúrea em Cabeço de Vide) mas que não têm sido adequadamente exploradas e geridas. Em relação aos principais problemas que afectam o concelho, as instituições destacam o fenómeno do desemprego, que tem vindo a aumentar com a actual crise socioeconómica e que tem conduzido a um aumento do êxodo populacional, já não apenas para os centros urbanos mas para fora do país. «O emprego tem sido o maior problema social, tem-se agravado com a crise social, com o encerramento e diminuição da capacidade produtiva de algumas pequenas empresas. O nosso tecido empresarial é muito débil (…) As [empresas] de maiores dimensões ou encerraram ou diminuíram a sua actividade produtiva, empregando menos pessoas. Com esta crise temos assistido a uma coisa, que não é só aqui, é a 72 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social saída de pessoas do concelho. Hoje não é só para as regiões urbanas, é para fora do país. O destino passa a ser África. Homens, jovens, na casa dos trinta/quarenta, deixam as famílias». Esta situação de fragilidade laboral agrava-se face às baixas qualificações da população e porque «há pessoas que só trabalharam no campo» e cuja reconversão profissional não é fácil. Se até agora têm conseguido garantir ocupação para algumas delas via programas do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), em particular através dos Contratos Emprego-Inserção e através das empresas de inserção existentes no concelho, há quem anteveja que quando estas alternativas – que consideram precárias e paliativas – estiverem esgotadas, surgirão situações de pobreza extrema: «um dia que terminem esses programas vai tudo ter ao RSI». A situação de vulnerabilidade da população idosa, pela condição de isolamento social e geográfico em que se encontra, foi também referenciada pelos actores locais entrevistados. Outro problema focado diz respeito à falta de alternativas escolares para os/as jovens que não pretendem enveredar pelo ensino secundário profissional (a única resposta a nível secundário existente no concelho), e que portanto têm de se deslocar para localidades que distam cerca de 50 km de Fronteira para prosseguir os estudos. Para além da distância a percorrer, os encargos financeiros que esta deslocação implica começam a mostrar-se incomportáveis para muitas famílias, deixando os/as jovens numa situação de desocupação e sem qualquer perspectiva de progressão escolar. Foram ainda identificados alguns problemas que não têm grande “expressão” no concelho e que estão mais “encobertos” mas ainda assim merecem atenção: a toxicodependência, o problema do alcoolismo e a violência doméstica. Por fim, importa salientar as propostas e estratégias de combate à pobreza e exclusão social apontadas para o concelho de Fronteira. Ao nível da dinamização socioeconómica do território, os actores locais sublinham a necessidade de atrair investimento para o concelho e potenciar os recursos endógenos, nomeadamente na área do termalismo, de forma a conseguir fixar a população. No domínio dos equipamentos é apontada a necessidade de criar novas respostas para a população sénior – unidades de cuidados continuados, lares equipados e preparados para acolher idosos/as com patologias específicas como Alzheimer ou Parkinson, um parque geriátrico «onde os utentes pudessem desenvolver uma pequena/grande actividade de manutenção», um serviço de pequenos arranjos/obras nas habitações – mas também a necessidade de alargar as respostas já existentes, como é o caso do apoio domiciliário e dos lares. Al73 Tiago Neves (Coordenador) gumas entidades sublinham a importância de investir mais na área da juventude e na promoção do contacto intergeracional. A vertente cultural é também salientada como uma área fundamental que necessita de maior dinamização. Algumas entidades referem a vontade de apostar mais num trabalho efectivo de parceria e simultaneamente fomentar a participação da própria população, nomeadamente através do voluntariado. 4.9. O Concelho de Penamacor. O concelho de Penamacor, situado no distrito de Castelo Branco, na sub-região da Beira Interior Sul e na Região Centro, com 555,5 km2 de área, 6.658 habitantes em 2001 e uma densidade populacional de 12 hab./km2, é composto por 12 freguesias: Águas, Aldeia do Bispo, Aldeia de João Pires, Aranhas, Bemposta, Benquerença, Pedrógão de São Pedro, Penamacor, Salvador e Vale da Senhora da Póvoa. É um território extenso e diverso em termos de núcleos populacionais. A freguesia com maior densidade populacional é Aldeia do Bispo, com 114,9 hab./km2 numa área de 6,5 km2. Penamacor, a sede do concelho, regista o maior número de habitantes (1735) mas a menor densidade populacional (4,6 hab./km2), visto que é a freguesia com maior área (373,3 km2). É aqui que se concentram os serviços e equipamentos mais significativos do concelho. Na área social os equipamentos existentes dirigem-se essencialmente para a população idosa e para as crianças e jovens. A actividade agrícola, apesar de ter vindo a perder importância no concelho (53,8 % da população em 1981 e apenas 17,2 % em 2001), conserva o carácter de subsistência e um traço cultural que enfatiza a ligação à terra e às práticas de cultivo tradicionais associadas ao auto-consumo (produtos hortícolas e criação de animais). É uma actividade predominantemente realizada pela população idosa, com baixas qualificações escolares e profissionais. O sector secundário é dominado pelas indústrias transformadoras (alimentar, metalúrgica, madeira e cortiça) de pequena dimensão. Entre 1991 e 2001 verificou-se um aumento de cerca de 5 % no número de empregos neste sector. O sector terciário tem registado uma evolução global positiva ao longo dos últimos anos, ocupando mais de metade da população activa do concelho. Este crescimento decorre essencialmente do aumento dos postos de trabalho na área da saúde, da acção social (destacando-se a Administração Pública e as IPSS), das actividades comerciais, da hotelaria e restauração. O concelho de Penamacor é, segundo a Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental proposta pelo Instituto de Segurança Social (2005) um território envelhecido e desertificado (tipo 4). É também caracterizado por apre74 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social sentar valores baixos no que se refere à qualidade de vida (21,893) e ao indicador per capita de poder de compra (51,79). Recorde-se que este concelho foi integrado no estudo em substituição do concelho de Alcoutim – primeira escolha para este tipo de território na medida em que apresentava 3 índices negativos – de modo a salvaguardar uma relativa equidade na representação das Regiões (NUT II). Penamacor regista valores elevados no que se refere ao número de idosos em famílias de uma só pessoa, à população portadora de deficiência, à taxa de analfabetismo e à relação entre pensionistas face à população empregada. Abarcar a diversidade de instituições que desenvolvem intervenção na área social em cada concelho constituiu, como tem vindo a ser referido, o princípio orientador da sua selecção. Assim, para além das entrevistas com a Câmara Municipal e com a Rede Social, foram realizadas entrevistas com quatro Instituições Particulares de Solidariedade Social (sendo que duas têm cariz religioso e uma é associação de solidariedade social e desenvolvimento local) e com uma associação para o desenvolvimento local. Deste modo, foi possível conhecer e caracterizar, ainda que sumariamente, o modo como estas diferentes instituições desenvolvem a sua intervenção, abrangendo áreas e públicos diversos (desenvolvimento rural, especialmente orientado para um público feminino; desenvolvimento de actividades de carácter cultural e recreativo; infância e juventude: centro de actividades de tempos livres, creche, lar e centro de acolhimento de crianças e jovens em risco; idosos: lar, Centro de Dia, serviço de apoio domiciliário; etc.); as parcerias e as dinâmicas geradas pela Rede Social; as representações que fazem do seu próprio território; os problemas que identificam como prioritários e os novos problemas que emergem no actual contexto de crise socioeconómica. As duas grandes categorias-tipo que caracterizam a intervenção social estão presentes em Penamacor, não sendo possível afirmar que as respostas desenvolvidas pelas diferentes instituições inquiridas sejam puramente de “acção assistencial” ou de “desenvolvimento comunitário”. Contudo, parece lícito afirmar, uma vez mais, que nas IPSS predomina a intervenção de acção assistencial, decorrente da prestação de serviços (valências tipificadas), e assente numa lógica imediatista de apoio e resposta a situações de emergência. Não obstante, são visíveis mudanças na concepção e no funcionamento de algumas valências. Constata-se, ainda, a introdução de iniciativas/serviços de carácter inovador, nomeadamente a prestação de apoio 24 horas/dia com a colocação de uma pessoa durante a noite para um apoio de urgência e a criação de um banco de empréstimo de equipamentos (camas articuladas, cadeiras de rodas, etc.). 75 Tiago Neves (Coordenador) Importa referir que neste território envelhecido e desertificado foi identificada uma associação de solidariedade social e de desenvolvimento local que emergiu da vontade e da mobilização da própria comunidade, constituída maioritariamente por pessoas idosas. O seu objectivo central é a construção de um lar de idosos na freguesia e foi com esse propósito que se constituíram como IPSS. Enquanto não concretizam todas as formalidades, requisitos e diligências necessárias para alcançar este objectivo vão desenvolvendo actividades de carácter cultural e recreativo: exposições de artesanato; intercâmbios culturais do grupo de cantares; o jornal preserva a memória da terra, informa, debate e esclarece temas muito diversos de interesse para a comunidade. Em suma, um exemplo de uma acção local no combate à pobreza e exclusão social que emerge da sociedade civil. De realçar que este lar virá suprir uma lacuna comum a este tipo de territórios e a outras regiões do país caracterizadas pela ruralidade, e que se prende com as condições de conforto habitacional. Na verdade, grande parte das habitações encontra-se degradada, sem infraestruturas básicas (rede de saneamento básico, água canalizada, electricidade ou quartos de banho), com problemas de isolamento e de aquecimento, especialmente sensíveis no Inverno. É nesta estação do ano, em que o isolamento da população e as situações de exclusão são mais gritantes, que a possibilidade de desfrutar de um espaço físico que lhes garanta algum bem-estar e segurança e promova o convívio revela quão imprescindíveis os mesmos são e o seu contributo para obstar à desertificação. «(…) e se nós desistirmos destas estruturas maior desertificação existe. Eu acho que vale a pena correr o risco de criar uma estrutura que não há, e passado algum tempo estar às moscas, do que desistir agora e pura e simplesmente não se fazer nada. É preferível fazer, ainda correndo o risco (…). É preferível fazer, porque atrás do apoio à velhice e à morte vem a vida, pode vir a vida, não é? Porque um lar aqui, porque o presidente (…) às vezes conversa com a gente e diz: “Isto um lar, cria vida aqui, porque são os filhos fora, que estão fora que até trazem os pais e depois começam eles a vir também, isto é uma dinâmica que se cria a partir da velhice” e portanto, aliás é o ciclo da natureza, morre-se para se viver». As representações dos/das entrevistados/as sobre o concelho corroboram a sua caracterização como um território envelhecido e desertificado. A agricultura tem vindo a ser abandonada pelas gerações mais jovens e não existem outras entidades empregadoras para além da autarquia, das IPSS, da escola e de algumas pequenas empresas (azeite, doces, construção civil). O baixo nível de instrução e as baixas qualificações não possibilitam outras saídas profissionais. Todos estes 76 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social factores se conjugam para o aumento dos movimentos migratórios. «Aqui o que têm é a agricultura, as pessoas estão a desinteressar-se e a desinvestirem dessa área, depois aqui em termos de entidades empregadoras, estamos nós [IPSS], a Câmara e a escola. Depois há ali algumas empresas na zona industrial de azeites, de doces, mas que também não são assim empresas de grande dimensão que empreguem muita gente e portanto as pessoas mais jovens, que já não se vão dedicar à agricultura, ficam aqui um bocadinho sem grandes alternativas de emprego. Não têm grandes saídas profissionais». «Depois também cada vez mais [a] mão-de-obra [é] menos especializada. Estamos a precisar de trabalhadores aqui e abrimos um concurso. Do concelho temos pouquíssimos candidatos, temos 2 ou 3, e os 2 ou 3 que temos são pessoas com baixa escolaridade ou com o 9º ano ou com um curso de nível 2 que lhes deu a equivalência ao 9º ano, não há mão-de-obra qualificada». O forte envelhecimento tornou premente a intervenção junto desta população que, em resultado da crescente emigração, foi perdendo a rede de apoio familiar. Embora com uma cobertura de 100% ao nível dos centros de dia, as maiores carências registam-se nos lares residenciais. Existe apenas um no concelho, com capacidade para 100 utentes, e com uma grande lista de espera. «(…) somos servidos com uma cobertura em 100% em centros de dia mas a verdade é que em termos de lares fixos, lares residenciais digamos assim, há um único lar no concelho que para além de albergar cerca de 100 idosos, tem uma lista de espera muito extensa e preocupa-nos de alguma forma a questão dos idosos porque na maior parte desses idosos os filhos não estão, não há, portanto, a tal rede familiar de suporte». Um outro factor relevante na caracterização do território por parte dos/das entrevistados/as prende-se com a representação dos mesmos face aos fenómenos da pobreza e da exclusão social. Na construção que fazem desta realidade, marcada pela centralidade das redes de vizinhança e da prevalência de alguns traços e valores característicos das comunidades rurais portuguesas, baseadas na vida comunitária, os fenómenos da pobreza e da exclusão social surgem como pouco expressivos no concelho de Penamacor: «Vejo uma ou outra família que, se calhar, poderá ter algumas dificuldades mas não é pobreza real. Não é falta de comida porque há sempre o campo, porque há a vizinha que dá. Não considero que haja pobreza real, mesmo as pequenas reformas, as pequenas reformas dos agricultores, das pessoas mais idosas… Eu vejo pela minha mãe, a minha mãe é uma pessoa que tem a reforma mínima, com este suplemento que agora lhe dá, dá-lhe perfeitamente para viver. Porquê? Porque lhe 77 Tiago Neves (Coordenador) dão muita coisa, ora dão isto… porque nestes meios pequenos isto é o suficiente, porque elas sempre souberam gerir o dinheiro, ao contrário de nós (risos) que já é mais complicado». «Eu arriscaria a dizer que o nosso problema é a exclusão social porque os idosos que residem no concelho, os filhos na maioria dos casos não estão cá, ou foram para o estrangeiro ou então procuraram outras cidades para ter melhor qualidade de vida, de maneira que estão excluídos socialmente. Vivem isolados! Vivem completamente isolados em algumas situações». O abandono escolar é referido como um problema entre a população jovem. Esta questão é analisada e sentida de modo crítico já que existe uma consciência clara de que as estratégias e medidas ao nível das políticas na área da educação para obstar a este fenómeno estão condicionadas por requisitos impostos pelo próprio Ministério da Educação. De facto, as escolas só podem oferecer cursos em áreas profissionalizantes (cursos EFA – Educação e Formação e Adultos – e cursos CEF – Educação e Formação de Jovens) se existir um número mínimo de alunos. Identifica-se assim uma dificuldade: há territórios onde as questões da formação e da qualificação da população se colocam com uma incidência particular mas que não são abrangidos pelas medidas criadas para este efeito porque o número de alunos é insuficiente. Deste modo agravam-se as desigualdades, potencia-se a exclusão e contribui-se de modo decisivo para a desertificação do interior do país. A Rede Social foi criada em 2005 com 14 parceiros. A escassez de instituições e de técnicos reforça o triplo papel da Câmara enquanto parceiro privilegiado, líder e dinamizador dos projectos. Evidencia, ainda, o modo como estes factores impõem limitações e condicionam o desenvolvimento e consolidação do trabalho em parceria. «(…) vamos bater ao eterno problema da sobreposição das entidades do concelho, em Concelhos Municipais da Educação, concelhos de defesa da floresta contra incêndios, portanto, protecção da floresta, em rendimento social de inserção…Ou seja, somos tão poucos e somos os mesmos em tudo. Portanto, eu posso dizer que pertenço a duas ou três comissões e que vão às reuniões as mesmas pessoas sempre, não quer dizer que isso tenha nada de negativo, mas as pessoas trabalham (…). Repare, eu tenho que ir ao rendimento mínimo, tenho que ir à educação, tenho que ir à saúde, se eu tiver cinco reuniões marcadas numa semana eu não trabalho, certo? E isso acontece às outras entidades, portanto… e as pessoas também cansam um pouco, são sempre as mesmas a aparecer, são sempre as mesmas a levar os projectos adiante». 78 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Os efeitos da actual crise são perspectivados em estreita relação com a concepção do território e com as questões de género. Concretamente, apesar de ser diminuta a oferta de emprego no concelho, os/as entrevistados/as consideram que este facto não se tem repercutido num aumento do número de desempregados/as. A explicação para este facto reside na exclusão da população feminina, maioritária no concelho, do mercado de trabalho. De facto, a mulher permanece confinada às tarefas domésticas e associada a uma agricultura de subsistência, não sendo, assim, contabilizada no que se refere ao volume de desempregados/as. «Nós até nem podemos dizer muito em Penamacor que as pessoas estejam a viver muito este problema do desemprego (…). Não há muitos desempregados porque também, como é que hei-de dizer, há muita população especialmente feminina que não trabalhava ou que nunca trabalhou, por isso não se pode dizer que esteja desempregada, não trabalhava, não é?». As propostas e estratégias para combater a pobreza e a exclusão social em Penamacor, referidas ao longo das entrevistas, centram-se na necessidade de oferecer cuidados de saúde especializados para idosos/as internados/as em lares (na sua maioria encaminhados por unidades de saúde) e na criação de uma escola de formação ou cursos de formação profissional no concelho para colmatar as baixas qualificações da generalidade da população, fomentar o empreendedorismo e aumentar os níveis de empregabilidade. Outra área referida é a habitação, particularmente a melhoria das habitações da população idosa, esclarecendo e apoiando esta no acesso aos programas promovidos pela autarquia. Pretende-se, também, a partir do trabalho que se desenvolve com mulheres, criar um grupo de voluntariado de proximidade: «(…) eu tenho o grupo das senhoras em que o objectivo principal é o voluntariado. Eu quero fazer com elas e projecto com elas já há bastante tempo e isso agora é uma questão de conseguirmos ter um programa que ajude também, que é o voluntariado de proximidade que não é mais do que (…) é o voluntariado em casa, é ir a casa das pessoas, ajudá-las…». Realizar um levantamento das barreiras arquitectónicas, especificamente em todos os Centros de Dia do concelho, no sentido de aplicar a lei específica da mobilidade, constitui um outro objectivo. Finalmente, de referir um investimento na divulgação das medidas e dos programas de apoio social de modo a tornar mais claros os procedimentos, se possível simplificando-os, atenuando aspectos mais burocráticos que acabam por constituir um obstáculo ao acesso aos mesmos pelas pessoas com menor grau de instrução. 79 Tiago Neves (Coordenador) 4.10. Concelho de Vila Nova de Famalicão O concelho de Vila Nova de Famalicão, situado no distrito de Braga, na sub-região do Ave e na Região Norte, com 201,76 km2 de área, 127.567 habitantes (em 2001) e uma densidade populacional de 632,27 hab./km2, é composto por 49 freguesias: Abade de Vermoim, Antas, Avidos, Bairro, Bente, Brufe, Cabeçudos, Calendário, Carreira, Castelões, Cavalões, Cruz, Delães, Esmeriz, Fradelos, Gavião, Gondifelos, Jesufrei, Joane, Lagoa, Landim, Lemenhe, Louro, Lousado, Mogege, Mouquim, Nine, Novais, Outiz, Pedome, Portela, Pousada de Saramagos, Requião, Riba de Ave, Ribeirão, Ruivães, Santa Eulália de Arnoso, Santa Maria de Arnoso, Santa Maria de Oliveira, São Cosme do Vale, São Martinho do Vale, São Mateus de Oliveira, São Miguel de Seide, São Paio de Seide, Sezures, Telhado, Vermoim, Vila Nova de Famalicão e Vilarinho das Cambas. A dimensão das freguesias e a sua densidade populacional são bastante díspares. A freguesia com maior área é Fradelos (16,8 km2) e a de menor área é Abade de Vermoim (0,93 km2). A freguesia com maior densidade populacional é Vila Nova de Famalicão, a sede do concelho, com 3680,91 hab./km2 num território com apenas 2,20 km2. A indústria têxtil está profundamente implementada neste território, sendo juntamente com a agricultura os principais sectores de actividade económica. Apesar de beneficiar de uma boa rede viária que não só cruza o concelho como o liga aos principais centros urbanos limítrofes (Porto, Braga, Guimarães, Póvoa de Varzim), a rede de transportes públicos que serve o concelho é deficitária. Este facto dificulta a mobilidade da população e o acesso desta à sede do concelho. Este concelho é, segundo a Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental apresentada pelo Instituto de Segurança Social em 2005, um território industrial com forte desqualificação (tipo 5). É, também, caracterizado por apresentar valores elevados no que se refere à qualidade de vida (94,611), ao indicador per capita de poder de compra (81,23) e à percentagem do poder de compra (1,028). No que se refere ao dinamismo relativo dos concelhos, Vila Nova de Famalicão é classificada de modo negativo (-0,446). Assim, de acordo com os critérios definidos para a selecção dos concelhos a integrar neste estudo, este concelho corresponde a um território onde a maioria dos indicadores regista valores positivos. Para cumprir o objectivo de abarcar a diversidade de instituições que desenvolvem intervenção na área social num concelho onde existem inúmeras estruturas nesta área, seleccionaram-se para o estudo organizações com uma intervenção bastante diversificada em termos de dimensões de actuação e de 80 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social projectos em curso. Assim, para além das entrevistas com a Câmara Municipal e com a Rede Social, foram realizadas entrevistas com três associações (Instituições Particulares de Solidariedade Social, sendo que uma delas está vocacionada para o desenvolvimento local e a outra é uma associação de moradores), uma fundação e uma agência de desenvolvimento regional. Ainda que sumariamente, foi possível conhecer e caracterizar o modo como estas diferentes instituições desenvolvem a sua intervenção, abrangendo áreas e públicos diversos (serviços de acompanhamento e atendimento local, serviço de apoio domiciliário, centro de dia, creche, pré-escolar, ATL, centro juvenil, centro de acolhimento temporário, centro de acolhimento de mulheres, gabinete de RSI, rede local de educação e formação, Centro Sócio-Educativo (CAO), entre outras valências); as parcerias e as dinâmicas geradas pela Rede Social; as representações que fazem do seu próprio território; os problemas que identificam como prioritários e os novos problemas que emergem no actual contexto de crise socioeconómica, juntamente com as propostas para o combate à pobreza e à exclusão. As duas grandes categorias-tipo que caracterizam a intervenção social estão presentes em Vila Nova de Famalicão, não sendo possível afirmar que as respostas desenvolvidas pelas diferentes instituições inquiridas sejam puramente de “acção assistencial” ou de “desenvolvimento comunitário”. Neste concelho encontramos instituições que accionam estas diferentes metodologias para desenvolver a sua intervenção. A título de exemplo podemos referir a conjugação de um trabalho de proximidade centrado em atendimentos personalizados, de pendor mais de acção assistencial, com uma intervenção centrada no desenvolvimento comunitário, privilegiando a vida comunitária. Importa, também, salientar que diversos entrevistados se referiram a este território como constituindo um «campo de experimentação de diversas metodologias inovadoras», entre as quais o «planeamento participativo», as «famílias de acolhimento temporário» e os «apartamentos de autonomização para jovens». É perceptível uma aposta no trabalho em rede baseado no estabelecimento de parcerias e na criação de comissões sociais inter-freguesias. Este processo foi liderado pela Câmara Municipal. Pretendia-se, «mais do que criar novas respostas, atingir a excelência». Neste sentido, a preocupação com as questões da qualidade e da certificação das instituições prestadoras de serviços constituiu um segundo objectivo. «A nossa preocupação era cobrir o concelho ao nível da Rede Social com o máximo de parcerias possível. Na altura eram cerca 120 parceiros num primeira fase. 81 Tiago Neves (Coordenador) Num curto espaço de tempo começámos a trabalhar em rede. Claro que não era fácil, e há que mudar algumas mentalidades, algum estilo de funcionamento, mas o que nos surpreendeu foi a abertura dos dirigentes, por exemplo, das IPSS, todos os agentes, digamos. Foi o sentar-se à mesa e começar a partilhar e depois, fruto disso, ver que podíamos dar um passo em frente. Hoje temos duzentos e tal parceiros das diferentes áreas, da saúde, da educação, da própria acção social. Essa foi a preocupação principal: pôr a Rede Social a funcionar». Importa salientar que a Rede Social foi criada em 1999 e constituiu um projecto-piloto apoiado e acompanhado por consultores externos. O objectivo principal era fomentar a solidariedade social e alcançar uma «cobertura completa do concelho» em termos de respostas sociais. Refere-se que não se pretendia ficar pelo «assistencialismo», mas antes desenvolver uma intervenção de proximidade. «A Rede Social não era para dar dinheiro, mas era para partilhar. Então nós adoptámos isso e foi um dos segredos. Esta partilha e abertura de toda a gente foi o segredo da proximidade». As representações do território recolhidas nas entrevistas enfatizam a dependência da indústria têxtil, a prevalência de mão-de-obra não qualificada e da agricultura a tempo parcial. Actualmente, o aumento do desemprego representa um risco social acrescido. No sentido de diminuir o seu impacto, verifica-se uma aposta na formação na área da agricultura, incentivando a população de modo a que «consigam rentabilizar aquilo que têm, os seus terrenos, como uma fonte de rendimento e de sustentabilidade». É também reconhecido que este é um concelho onde existe algum desequilíbrio em termos da distribuição territorial das instituições e, consequentemente, dos equipamentos e serviços prestados. Reconhece-se, contudo, que este problema não é tão acentuado actualmente como foi no passado. A informação recolhida reforça a existência de insuficiências ao nível das infra-estruturas no concelho. A autarquia espera concluir a rede de água e saneamento até 2013. Pretende, também, dar continuidade à realização de pequenas obras em infra-estruturas da comunidade, num trabalho em estreita articulação com as Juntas de Freguesia. Está também prevista a construção de infra-estruturas desportivas (piscinas e pavilhões) de modo a criar e diversificar a oferta para a população jovem e idosa. O envelhecimento da população é salientado na área da intervenção social. Neste domínio é referida a necessidade de desenvolver instrumentos e estruturas legais e institucionais no âmbito da defesa e da protecção dos idosos, 82 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social particularmente nos casos em que se encontram em situação de incapacidade física ou mental. A deficiência constitui uma outra área de intervenção que tem vindo a ser privilegiada. «(…) até na área da deficiência, em que estávamos mal, foram aprovados agora projectos e ficámos melhor um bocadinho». Da actual crise socioeconómica emerge uma “nova classe de pobres” que já não corresponde às habituais situações de pobreza geracional mas a “pessoas que tinham uma situação estabilizada e que depois apareceu uma situação de doença, divórcio ou morte de um dos membros do casal, o que acabou por desequilibrar a economia [familiar]. Também verificamos isso ao nível das crianças em risco, que eram candidatas ao acolhimento (...) e já não são aquelas crianças órfãs…”. O aumento do desemprego é também apontado como causa para o surgimento deste grupo de “novos pobres”, constituído por indivíduos pertencentes às classes médias e caracterizado por um elevado grau de endividamento, particularmente visível nas dificuldades de pagamento dos créditos à habitação. «Tínhamos alguma população de classe média e agora deixaram de ser classe média. Lembro-me de algumas problemáticas de dificuldades de pagamentos dos créditos de habitação». O desemprego afecta sobretudo pessoas provenientes do sector têxtil e com idades superiores a 45 anos. Para estes indivíduos, as oportunidades de reingresso no mercado de trabalho são muito limitadas ou mesmo nulas. A sua qualidade de vida diminuiu consideravelmente. Este facto tornou premente uma série de respostas de cariz mais imediatista e assistencial, centradas na distribuição de alimentos e roupas. «(…) a maior parte deles são já acima dos 45 anos e não terão oportunidade para entrar no mercado de trabalho, por muita formação que façam. Têm que se voltar para os recursos endógenos, para o que têm na terra». Os efeitos da crise são também visíveis ao nível da infância: “Lembro-me que por causa da crise começaram a reforçar os pequenos-almoços, porque muitas vezes a última refeição do dia tinha sido feita na escola”. As propostas e estratégias referidas no combate à pobreza e exclusão social no concelho abarcam, entre outros grupos e áreas, a terceira idade e a habitação, centrando-se quer na esfera económica, quer na cultural (património industrial). O reconhecimento quer das mudanças sociodemográficas (envelhecimento da população, aumento da esperança de vida, aumento do nível de dependência das pessoas idosas), quer das transformações ao nível da estrutura familiar (dimensão, papéis sociais, rede familiar) reforçou a necessidade de criar uma 83 Tiago Neves (Coordenador) rede de apoio para as pessoas idosas que passe pela protecção jurídica e por apoios institucionais. Os/as entrevistados/as referem que esta realidade social trouxe novos desafios às instituições prestadoras de serviços (IPSS, entre outras) que se prendem com a introdução de uma nova lógica de continuidade, diversidade e flexibilidade nas respostas sociais. Consideram que algumas destas instituições revelam impreparação nesta área e que esta dificuldade é agravada pela escassez de recursos humanos e financeiros. Neste sentido, defendem que se por um lado é imperioso o apoio na elaboração de projectos, por outro é importante que se alterem algumas das regras definidas ao nível central (designadamente pela Segurança Social) de modo a viabilizar novas respostas para os riscos sociais actuais. «Este senhor é do Centro de Dia ou das actividades ocupacionais? Não é de nenhum, é dos dois. É criar condições para que seja possível cruzar determinadas respostas e serviços. Cruzar respostas que são comparticipadas pela Segurança Social com outras que não são. Não é incumprimento mas sim distanciamento face a alguns princípios e critérios da legislação que às vezes são muito estanques e proíbem as organizações de evoluírem no sentido positivo». Na área da habitação as propostas vão no sentido da venda de habitações sociais a custos controlados e da construção de novas habitações de renda resolúvel. Constata-se, também, uma aposta na valorização dos recursos endógenos e na reconversão de espaços desactivados e degradados para novas actividades. Estes espaços são (re)utilizados quer para regenerar o tecido empresarial (incubação de empresas) quer para actividades culturais: «Neste momento temos um projecto, que é o Património Industrial, e que é tentar reconverter aquilo [espaços das antigas fábricas] para outras finalidades. Naturalmente que estas coisas não se fazem num ano, nem em dois, é necessário reconverter as pessoas, os espaços. (...) Estamos a tentar constituir aquilo numa vila do têxtil, ligada à cultura têxtil e do património, como já se fez nos Estados Unidos, nós não estamos aqui a inventar a pólvora». Em suma, através da promoção turística do território, da criação de roteiros de turismo, de desporto e de lazer pretende-se dinamizar a economia e, assim, diminuir o impacto da actual crise. 4.11. O Concelho de Terras de Bouro. O concelho de Terras de Bouro, situado no distrito de Braga, na sub-região do Cávado e na Região Norte, com 276,17 km2 de área, 8350 habitantes em 2001 e uma densidade populacional média de 29,8 hab./km2, é composto por 17 fregue84 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social sias: Balança, Brufe, Campo do Gerês, Carvalheira, Chamoim, Chorense, Cibões, Covide, Gondoriz, Moimenta, Monte, Ribeira, Rio Caldo, Souto, Valdozende, Vilar e Vilar da Veiga. É um território extenso e diverso em termos de dinamismo dos núcleos populacionais (Moimenta, Rio Caldo e a Vila do Gerês, em Vilar da Veiga, são os mais dinamizados) e no que respeita à densidade populacional (Moimenta e Souto com valores muito superiores à média, respectivamente 258 e 141,7, e Campo de Gerês e Brufe com valores muito inferiores à média: 2,9 e 8,8 respectivamente). Este concelho é, segundo a Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental apresentada pelo Instituto da Segurança Social (2005), um território industrial com forte desqualificação (tipo 5). É, também, caracterizado por apresentar valores baixos no que se refere à qualidade de vida (18,334), ao indicador per capita de poder de compra (51,13) e à percentagem do poder de compra (0,036). No que se refere ao dinamismo relativo dos concelhos, Terras de Bouro é classificado de modo positivo (0,103). Assim, de acordo com os critérios definidos para a selecção dos concelhos a integrar neste estudo, este concelho corresponde a um território onde a maioria dos indicadores regista valores negativos. Abarcar a diversidade de instituições que desenvolvem intervenção social no concelho de Terras de Bouro foi aqui, tal como nos outros concelhos envolvidos neste estudo, o princípio orientador da sua selecção. Assim, para além das entrevistas com a Câmara Municipal e com a Rede Social, foram realizadas entrevistas com dois centros sociais (Instituições Particulares de Solidariedade Social), uma Junta de Freguesia e uma associação de desenvolvimento. Deste modo foi possível conhecer e caracterizar, ainda que sumariamente, o modo como estas diferentes instituições desenvolvem a sua intervenção, abrangendo áreas e públicos diversos (desenvolvimento rural, infância, terceira idade, entre outras); as parcerias e as dinâmicas geradas pela Rede Social; as representações que fazem do seu próprio território; os problemas e propostas de intervenção que identificam como prioritários, bem como os problemas que emergem no actual contexto de crise socioeconómica. As duas grandes categorias-tipo que caracterizam a intervenção social estão presentes em Terras de Bouro, não sendo possível afirmar que as respostas desenvolvidas pelas diferentes instituições inquiridas sejam puramente de “acção assistencial” ou de “desenvolvimento comunitário”. Não obstante, é possível identificar alguns factores condicionantes da intervenção, nomeadamente a escassez de recursos (humanos, financeiros, entre outros); o fraco nível de desenvolvimento socioeconómico do território; e o reduzido número e diversidade de instituições existentes na área da intervenção social. De considerar, ainda, que estes factores se conjugam com outras características do território tais como o envelhecimento da população, o aumento do 85 Tiago Neves (Coordenador) desemprego e o forte despovoamento (especialmente de população jovem), reforçando as situações de risco social presentes no mesmo. Neste contexto, o imediatismo e a urgência na resposta às necessidades e problemas constituem um traço visível e caracterizador da intervenção desenvolvida pela maioria das instituições entrevistadas. A informação recolhida permite distinguir dois eixos de intervenção. Um deles está centrado na prestação de serviços e valências tipificadas, especificamente na área da infância e da população idosa. O outro encontra-se centrado no território e nas questões do desenvolvimento rural, incrementado pela associação de desenvolvimento. Nesta última, a diversidade de áreas abrangidas quer no que se refere aos sectores de actividade (agricultura, turismo), quer aos domínios societais (económico, cultural), confere à intervenção uma maior amplitude. Foi possível constatar uma fraca articulação da intervenção entre as diversas instituições e um ainda incipiente grau de participação das instituições na Rede Social, cujo funcionamento é condicionado pela escassez de recursos humanos. «Ao nível dos recursos humanos qualificados residentes, Terras de Bouro tem poucos. Se calhar um número muito significativo dos quadros intermédios da Câmara Municipal são até de Terras de Bouro, mas não vivem cá. O que também acontece ao nível da autarquia, do Ministério da Educação, a nível da saúde e dos serviços públicos». O forte individualismo das entidades locais é apontado como o principal factor que se opõe à concretização de parcerias efectivas: «Todos querem prestar os mesmos serviços». «É difícil sentar à mesma mesa todas as instituições». As representações do território fornecidas pelos/as entrevistados/as reforçam as diversas fragilidades que caracterizam o concelho de Terras de Bouro: falta de emprego, despovoamento acentuado, situações de pobreza (“pobreza envergonhada”) e uma agricultura tradicional (minifúndio). «Há situações de pessoas provavelmente pobres, mas que é capaz de ser uma pobreza encoberta. Há pessoas com dificuldades, há bastantes alcoólicos. (…) São essas situações que nos preocupam mais. Porque há gente que também não trabalha, mas não é pelo facto de não ter trabalho, têm vergonha. (…) São situações em que às vezes a sociedade não as aceita bem, porque são pessoas que são capazes de ser um bocado alcoólicas e tal…». O fraco dinamismo das estruturas locais é um outro factor negativo mencionado como entrave ao desenvolvimento do concelho. São também mencionadas, no entanto, potencialidades do território, nomeadamente, no domínio da agricultura, as ervas aromáticas e as espécies autóctones. O seu desenvolvi86 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social mento pressupõe, contudo, que se acabe com a agricultura de minifúndio e se incremente a comercialização destes produtos. Um outro aspecto positivo salientado enfatiza as questões da qualidade de vida, entendida numa perspectiva de forte pendor ambientalista, que reforça o facto de Terras de Bouro se enquadrar no Parque Natural da Peneda-Gerês, e em clara oposição ao contexto urbano. Esta representação positiva do território no que se refere à qualidade de vida contrasta com a classificação obtida no ranking que serviu de base à selecção dos concelhos. Este facto realça o condicionalismo que os indicadores que presidem à classificação exercem sobre a posição relativa atribuída aos concelhos. «Eles têm de facto qualidade de vida mas não têm um nível de vida compatível com o rendimento das pessoas que trabalham nas zonas urbanas, principalmente do segundo e terceiro sector de actividades». Entre os problemas sociais identificados pelos/as diferentes entrevistados/as estão a pobreza (com ênfase na dimensão económica); o analfabetismo; a falta de indústrias e, consequentemente, de emprego; as más condições de habitabilidade; o alcoolismo e, em menor grau, a toxicodependência. No domínio da oferta de serviços, é salientada a inexistência de instituições que desenvolvam intervenção na área da deficiência. «O maior problema é o combate ao desemprego, o crescente desemprego que estamos a sentir. Nós tínhamos a nível local várias empresas de construção civil, por exemplo, e que, dada a crise, foram obrigadas a encerrar. E eram empresas familiares, o que gerou muito desemprego. E muitos foram obrigados a emigrar por causa disso». Na opinião dos/as entrevistados/as, a actual crise socioeconómica repercutiu-se, essencialmente, na taxa de desemprego e no aumento da emigração. O constante atraso no pagamento das mensalidades por parte dos utentes/ famílias (infância e terceira idade) é apontado como a face mais visível do agravamento das condições de vida da população residente. Finalmente, importa salientar as propostas e estratégias referidas no combate à pobreza e exclusão social no concelho de Terras de Bouro. No domínio económico considera-se central atrair investidores para o concelho, investir no sector termal e no turismo e incrementar a produção e comercialização agrícolas (ervas aromáticas e espécies autóctones). No domínio sociocultural é referida a necessidade de «mudar as mentalidades», que caracterizam como fechadas e individualistas, para criar novas dinâmicas e investir na recuperação do património cultural, designadamente através do turismo. 87 Tiago Neves (Coordenador) 4.12 Concelho de Campo Maior. O município de Campo Maior pertence ao distrito de Portalegre e localizase na região do Alentejo, na sub-região do Alto Alentejo. Situado na faixa raiana de Portugal, na fronteira com Espanha, possui uma área geográfica de 247,2 km2 onde, em 2001, residiam 8.387 habitantes, sendo a densidade populacional média de 33,9 hab./km2. O concelho é composto por três freguesias: Nossa Senhora da Graça dos Degolados, Nossa Senhora da Expectação e São João Baptista. De acordo com o estudo de Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental (ISS, 2005) o concelho de Campo Maior inscreve-se nos territórios envelhecidos e economicamente deprimidos (Tipo 6). Estes territórios correspondem essencialmente a zonas rurais, marcadas por um fraco dinamismo económico, social e demográfico, onde se evidencia um conjunto de factores potenciadores de situações de pobreza e exclusão social. Contudo, já em 2005, altura em que o estudo foi produzido, Campo Maior aparecia como um concelho onde alguns destes indicadores de risco surgiam mais atenuados: o nível de desemprego encontrava-se abaixo da média dos territórios de Tipo 6, o mesmo acontecendo em relação ao abandono escolar precoce e ao valor do IRS per capita, que era mais alto do que a média. Também o rácio de pensionistas face à população empregada era neste concelho menos adverso. De facto, Campo Maior apresenta algumas particularidades que o destacam face à sub-região do Alto Alentejo e até mesmo face a todo o território alentejano. Importa sublinhar que este é um município cuja dinâmica se encontra muito marcada pela importância que a actividade do Grupo Nabeiro/Delta Cafés assume na economia e no mercado de emprego local. O facto de estarmos perante um território com uma rede empresarial relativamente forte, onde a par da Delta Cafés existem outras empresas com importância local – Torrefacção Camelo, Hutchinson, Silveira Cafés, Torrefacção Cubano, Jovel, Pata Negra, Frutas Guadalupe39 – talvez ajude a compreender a sua maior capacidade de fixação de população e os índices menos desfavoráveis no que toca ao envelhecimento. De acordo com os dados apresentados no Anuário Estatístico da Região do Alentejo de 2008, Campo Maior surge como o único concelho do Alto Alentejo com uma taxa positiva de crescimento efectivo (0,05), sendo que 39 Cf. Diagnóstico Social de Campo Maior, 2004 88 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social a taxa média para a Região do Alentejo era de -0,51 (INE, 2009b)40. Segundo a mesma fonte, em 2008, este era também o concelho com menor índice de envelhecimento (144,1) e menor índice de dependência de idosos (41,6) em todo o Alto Alentejo, apresentando valores inferiores à média do Alentejo (172,9 e 36,1 respectivamente) ainda que bastante superiores à média nacional41. Analisando os indicadores considerados para a selecção dos territórios a abranger no presente estudo, quando comparado com os restantes concelhos que integram os territórios envelhecidos e economicamente deprimidos, Campo Maior é o município melhor posicionado em termos do indicador de qualidade de vida (99,738) (Manso e Simões, 2007) e do poder de compra per capita (96,2), ainda que seja o que apresenta menor dinamismo relativo (-0,708) (INE, 2007). Surge, assim, como o território de tipo 6 com maior número de índices positivos e com melhor cotação nesses indicadores. Na selecção dos actores locais a entrevistar procurou-se abarcar entidades diversificadas não só em termos das áreas de actuação e dos públicos que privilegiam, mas também dos projectos em curso, do seu historial e dimensão. Foram entrevistadas cinco instituições: uma associação de solidariedade social e quatro IPSS, sendo uma de cariz religioso e outra de base comunitária. Caracterizando de forma genérica a intervenção desenvolvida por estas instituições na área da pobreza e da exclusão social, constata-se a existência de uma grande variedade de estratégias e metodologias de actuação. A vertente da prestação de serviços está presente em todas estas organizações, concretizando-se quer por via dos acordos celebrados com o Estado, quer através de recursos e meios próprios, apoios de entidades parceiras e/ou donativos. Mas esta vertente surge quase sempre conjugada com outro tipo de intervenções: a dinamização de actividades abertas à comunidade desenvolvidas com a participação da população e de parcerias locais (“Dia da Família”, “Marchas Populares”,...); acções na área da formação e qualificação escolar e profissional (cursos EFA, Centro Novas Oportunidades, cursos de alfabetização); iniciativas assentes no voluntariado e na mobilização comunitária através de actividades culturais, desportivas, recreativas e de desenvolvimento pessoal (torneios intergeracionais de desportos tra40 Contemplando um período temporal mais lato, entre os censos de 2001 e os dados mais recentes de 2008 (INE: 2009b), o concelho de Campo Maior acompanha a tendência de decréscimo demográfico que afecta grande parte do território nacional e em particular o Alentejo, mas as perdas são pouco significativas, não chegando aos 100 habitantes. 41 Estes valores não retiram ao concelho de Campo Maior as suas características de território envelhecido, apenas evidenciam a sua posição mais favorável quando comparado com a região do Alentejo e em particular com a sub-região do Alto Alentejo. 89 Tiago Neves (Coordenador) dicionais, visitas culturais, Academia Sénior…); desenvolvimento de projectos com vista à promoção da autonomia e à capacitação da população e das próprias instituições (empreendedorismo para crianças, disseminação de metodologias inovadoras junto das escolas, ciclos de reflexão,...); implementação de respostas específicas e especializadas com vista a suprir lacunas a nível local (intervenção precoce, serviço de apoio ao desenvolvimento de crianças e jovens, “Oficina Móvel”,…); acções/iniciativas de apoio social de carácter assistencial (banco de roupas, banco alimentar, refeitório social, banco de ajudas técnicas…). Esta diversidade de acções e a combinação de diferentes metodologias de actuação permitem-nos afirmar que Campo Maior é um concelho onde as duas grandes categorias-tipo que caracterizam a intervenção social se encontram presentes. Não nos parece contudo possível classificar as respostas desenvolvidas pelas estruturas inquiridas como puramente de “acção assistencial” ou de “desenvolvimento comunitário”, uma vez que as duas vertentes se conjugam, nuns casos prevalecendo uma, noutros prevalecendo a outra. O trabalho em parceria surge como uma dimensão muito valorizada no discurso dos actores locais entrevistados, sendo assumido como uma prática efectiva na intervenção que desenvolvem: «Nós fomos sempre parceiros em todos os projectos em Campo Maior». «(…) a relação entre as pessoas, também as parcerias: acho que isso é o principal». «Isto é assim, nós começámos com uma filosofia muito própria de como se deve fazer um verdadeiro trabalho em rede, em parceria, e portanto para nós é impensável constituirmos um serviço que já exista. Nós não estamos aqui para concorrer com ninguém, nós estamos aqui para criar serviços inexistentes no concelho face às problemáticas que vão aparecendo». Com vista a reforçar a articulação interinstitucional e o trabalho em rede foi criado recentemente no concelho um projecto, de iniciativa camarária, designado “Campo Maior Solidário”, onde estão representadas todas as instituições locais, e que tem como objectivo fazer um levantamento exaustivo das situações de maior carência do concelho e definir uma intervenção articulada: «Neste momento estamos a criar este projecto [Campo Maior Solidário] para chegarmos a todas as famílias, a todas as casas, para fazermos um levantamento exaustivo de todos os casos de Campo Maior… Fazer um levantamento de diagnóstico para depois partirmos para a intervenção, ou seja, se o [nome da instituição] tem um banco de roupas fica responsável pela parte das roupas, se a [nome da instituição] tem um banco alimentar fica responsável pelo banco alimentar, portanto, para começarmos a triar para as instituições de referência os casos que 90 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social nos vão aparecendo. Cá está o trabalho em rede que é fundamental». Tomando como referência o leque de instituições entrevistadas evidenciamse algumas assimetrias no que toca à capacidade de mobilização de parcerias e, por via delas, de recursos. Algumas estruturas mais dotadas em termos financeiros, humanos e materiais, demonstram uma maior facilidade em estabelecer “parcerias estratégicas”, que envolvem contributos técnicos, humanos e logísticos muito significativos, e que não se limitam às instituições locais, mas que se estendem muitas vezes a instituições de concelhos distantes como Lisboa ou Coimbra e até a entidades estrangeiras. Simultaneamente, encontramos organizações cujo trabalho de parceria se confina à colaboração com entidades locais ou cujas parcerias surgem mais «por convite»: «se alguém sugere participar em alguma coisa nós vamos sempre participando». Outra dimensão que se procurou aferir junto dos actores locais refere-se às representações que estes têm sobre o território. A este nível, Campo Maior é percepcionado como um concelho atípico e «privilegiado» no contexto do Alentejo e em particular na região do Alto Alentejo, destacando-se pela dinâmica socioeconómica que a Delta Cafés lhe confere, e que se repercute em particular no emprego, mas também na capacidade de fixar a população no concelho, acabando por contrariar a tendência de desertificação e envelhecimento que se faz sentir de forma acentuada no Alentejo. «Campo Maior é um concelho que contraria um pouco os outros concelhos do Alentejo, tem uma população muito jovem, a taxa de natalidade é elevada». «Na minha opinião, Campo Maior é privilegiado porque 60% da população trabalha na empresa Delta Cafés, com vencimentos superiores aos da lei... (…). Aqui muito poucas pessoas estão a notar esse problema [da crise]. (…) Mas notase a crise. Não há muitos desempregados, não é esse o caso, mas todos os dias aparecem aqui pessoas novas, com problemas, sem dinheiro para comer...». «Temos uma empresa como a Delta Cafés que emprega imensa gente, investe em maquinaria mas também não despede ninguém e, de facto, nós podemo-nos considerar um concelho privilegiado em relação a outros concelhos. Agora temos a tal pobreza geracional que é muito complicado trabalharmos estas famílias e é isso que estamos a tentar». Como denotam estes excertos, a generalidade das instituições considera que os efeitos da actual crise não se têm feito sentir de forma acentuada no território, ainda que tenha aumentado o número de pessoas que recorrem aos serviços de apoio social por razões de carência económica. Fazem igualmente referência à existência de uma «pobreza geracional», que muitas vezes surge 91 Tiago Neves (Coordenador) associada a grupos específicos, muito particularmente à comunidade cigana, mas também à população toxicodependente. «[aumentaram os pedidos de RSI] mas também são pessoas, uma grande faixa são de etnia cigana, depois temos outro grupo com problemas de toxicodependência... e há outro grupo que é sistemático, que é aquele que se habitou a viver do RSI. Aparecem famílias novas mas não é em grande número, são pessoas que ficaram desempregadas... Outros indivíduos que vão viver sozinhos, mas é muito reduzido, mas mais é as famílias de etnia cigana, são os toxicodependentes e aqueles que já se mantêm há vários anos». De facto, quando questionados sobre os principais problemas que afectam o concelho, alguns actores locais referem o desemprego, mas sempre ressalvando que a situação em Campo Maior é menos preocupante do que a vivida a nível nacional: «é evidente que vai aparecendo mais desemprego, mais pessoas a precisar, sentimos... Mas não é ainda tão preocupante (…) não me parece que Campo Maior esteja a sofrer como estão outras terras no panorama nacional». Apesar disso, apontam o acréscimo do número de beneficiários/as do RSI e também o sobreendividamento das famílias que leva a que, por vezes, os/ as idosos/as se vejam obrigados/as repartir a sua escassa pensão com os/as filhos/as. Os actores institucionais identificam no concelho alguns grupos em situação de maior vulnerabilidade social. Destacam a população cigana, pela dificuldade de integração nos mais diversos contextos (laboral, escolar, comunitário…) e pela discriminação de que é alvo; os toxicodependentes, ainda que este seja um grupo considerado relativamente «oculto» e «disfarçado» no concelho; a população idosa, sobretudo a que se encontra mais debilitada em termos de saúde e que se vê institucionalizada em lares que não dispõem do apoio especializado que estes casos exigem; e surge também uma referência aos imigrantes provenientes do leste europeu que, apesar de integrados no mercado de trabalho local – especialmente no sector da agricultura e na construção civil – vivem em situação de grande isolamento social e nem sempre são bem vistos e acolhidos pela comunidade local: «Eu penso que as famílias dos países de leste são trabalhadoras, trabalham de segunda a sábado, mas depois no fim-de-semana bebem muito e por vezes causam alguns distúrbios». Os problemas do insucesso e do abandono escolar, sobretudo no ensino secundário, são também referenciados, assim como a dificuldade do sistema de ensino formal em lidar com as novas realidades sociais, em particular com a falta de envolvimento dos pais na vida e no percurso escolar das crianças. 92 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Quanto a propostas e medidas concretas a adoptar localmente no combate à pobreza e exclusão social, as instituições entrevistadas sublinham a necessidade de criar novas respostas e equipamentos na área da população sénior e da primeira infância. É feita referência aos Centros de Dia – à necessidade de criar mais respostas desta natureza e de requalificar algumas das que já existem, melhorando as suas condições, alargando a sua capacidade e diversificando as actividades; foi também apontada a necessidade de criar serviços de fisioterapia para os/as idosos/as e uma unidade de cuidados continuados para acolher os casos encaminhados pelos hospitais. Na área da infância foram sublinhadas as carências existentes ao nível de creche, que se evidenciam pela quantidade de crianças em lista de espera, impondo o alargamento urgente desta valência. A comunidade cigana foi também apontada como um grupo a priorizar, realçando a necessidade de desenvolver uma intervenção integrada que incida sobre as suas condições habitacionais, sobre a vertente escolar, formativa e profissional, mas que simultaneamente permita alterar a representação negativa que a população local tem deste grupo: «Primeiro trabalhá-los a eles para a integração e depois trabalhar a comunidade para os aceitar». Por fim, importa referir a proposta apresentada por uma instituição que sugere a criação de um serviço/gabinete que apoie as pequenas associações na elaboração de projectos e candidaturas, funcionando como uma medida de dinamização e, simultaneamente, de capacitação do tecido institucional local. 4.13. Concelho de Vinhais. O concelho de Vinhais, situado no distrito de Bragança, na sub-região do Alto Trás-os-Montes e na Região Norte, com 694,68 km2 de área, 10.646 habitantes (dados de 2001) e uma densidade populacional de 15,3 hab./km2, é composto por 35 freguesias: Agrochão, Alvaredos, Candedo, Celas, Curopos, Edral, Edrosa, Ervedosa, Fresulfe, Mofreita, Moimenta, Montouto, Nunes, Ousilhão, Paçó, Penhas Juntas, Pinheiro Novo, Quirás, Rebordelo, Santa Cruz, Santalha, São Jumil, Sobreiró de Baixo, Soeira, Travanca, Tuizelo, Vale das Fontes, Vale de Janeiro, Vila Boa, Vila Verde, Vilar de Lomba, Vilar de Ossos, Vilar de Peregrinos, Vilar Seco e Vinhais. É um território extenso e diverso em termos de núcleos populacionais. Vinhais, a sede de concelho, é a freguesia com maior densidade populacional, com 70,6 hab./km² numa área de 33,76 km2. É, também, a única freguesia com características semi-urbanas, com 2.382 habitantes (em 2001). As freguesias com menor densidade populacional são Mofreita e Pinheiro Novo com, respectivamente, 3,5 e 3,9 hab./ 93 Tiago Neves (Coordenador) km2 em áreas de 12,5 e 32,92 km2. Trata-se de um concelho caracterizado pelo envelhecimento e pelo decréscimo da população resultante quer da diminuição da taxa de natalidade, quer do êxodo rural. Na última década do século passado o sector terciário tornou-se dominante, ultrapassando o sector agrícola. Contudo, a actividade económica permanece frágil e limitada por constrangimentos ao nível da produtividade e das dinâmicas socioeconómicas que dificultam a fixação da população jovem. As acessibilidades intra e extra-concelhias constituem um factor de estrangulamento decorrente quer das características geográficas, quer do escasso investimento em infra-estruturas. Assim, para além da inexistência de transportes públicos em algumas zonas do concelho, noutras este serviço é assegurado apenas nos períodos lectivos pelos transportes escolares (ligação entre Passos, Moimenta, Ervedosa e Nuzedo de Baixo e Vinhais)42. Tal facto agrava a situação de isolamento e a exclusão social destas populações. Na área educativa, a dispersão geográfica e o reduzido número de crianças condicionam a oferta de serviços, particularmente ao nível dos jardins-deinfância. Para obstar a estes constrangimentos foi implementada no concelho, desde 1992, a Educação Pré-Escolar Itinerante. Assim, através de visitas domiciliárias (duas vezes por semana) é possível abranger um maior número de crianças entre os 3 e os 6 anos. Este concelho é, segundo a Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental proposta pelo Instituto de Segurança Social (2005), um território envelhecido e economicamente deprimido (tipo 6). Caracteriza-se por valores baixos no que se refere à qualidade de vida (5,321) e ao indicador per capita de poder de compra (45,88). Assim, de acordo com os critérios definidos para a selecção dos concelhos a integrar neste estudo, este concelho corresponde a um território onde os indicadores considerados registam valores negativos. Com o objectivo de abarcar a diversidade de instituições que desenvolvem intervenção social no concelho de Vinhais, para além das entrevistas com a Câmara Municipal e com a Rede Social, foram realizadas entrevistas com duas Instituições Particulares de Solidariedade Social, de cariz religioso, o Agrupamento Vertical de Escolas e o Centro de Saúde. Ainda que sumariamente, foi possível conhecer o modo como estas diferentes instituições desenvolvem a sua intervenção, abrangendo áreas e públicos diversos (na infância e juventude: o Jardim Infantil, a Creche, o Pré-escolar, o Centro de Actividades de 42 Fonte: Carta Educativa, Fevereiro 2010 94 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Tempos Livres, a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens; nos idosos: serviço de apoio domiciliário, Centro de Dia, lar de idosos, apoio domiciliário integrado, entre outros), as parcerias e as dinâmicas geradas pela Rede Social; as representações que fazem do seu próprio território; os problemas e propostas de intervenção que identificam como prioritários e os novos problemas que emergem no actual contexto de crise socioeconómica. As duas grandes categorias-tipo que caracterizam a intervenção social estão presentes em Vinhais, não sendo possível afirmar que as respostas desenvolvidas pelas diferentes instituições inquiridas sejam puramente de “acção assistencial” ou de “desenvolvimento comunitário”. Os dados recolhidos revelam que a intervenção é desenvolvida em parceria verificando-se que, neste concelho, estão consolidadas dinâmicas inter-institucionais, ainda que muito centradas em relações interpessoais. O Contrato Local de Desenvolvimento Social, desenvolvido no seio de uma IPSS, tem promovido o trabalho em parceria, privilegiando a etnografia local (a recuperação de tradições) e, deste modo, o fortalecimento dos laços entre gerações. Opta-se, também, por acções descentralizadas celebrando parcerias com as freguesias, levando os gabinetes e as iniciativas às aldeias de todo o concelho. Fomenta-se o empreendedorismo, o auto-emprego e o desenvolvimento local através da divulgação e apoio à apresentação de candidaturas a fundos nacionais e comunitários. «E tudo isto consegue-se fazer com as associações, consegue-se trabalhar em parceria, promover a auto-organização dos habitantes e promover a interacção entre os mais jovens e os mais velhos. No meu ponto de vista, funciona muito bem». No Centro de Saúde, o gabinete de serviço social presta informações e apoio aos utentes, desenvolve uma intervenção precoce com crianças com necessidades educativas especiais; com a equipa móvel fazem-se visitas domiciliárias e presta-se apoio em situações de emergência. Trabalham, ainda, a vertente da prevenção na área da saúde (consumos de álcool e tabaco) e especificamente da saúde escolar (palestras para pais e jovens sobre temas diversos como o bullying ou a violência no namoro); possuem também uma equipa de prevenção da violência doméstica. Finalmente, colaboram com as IPSS na área da formação dos/das funcionários/as De acordo com os discursos dos/das entrevistados/as, a actuação da Rede Social de Vinhais funde-se com a da Acção Social da Câmara Municipal. Realizar um levantamento da cobertura de equipamentos no concelho de modo a que a distribuição dos mesmos seja mais racional, isto é, não se concentre na sede do concelho, constituiu um dos seus objectivos centrais. A escassez de 95 Tiago Neves (Coordenador) recursos humanos, a falta de apoio financeiro e de acompanhamento técnico por parte da Segurança Social são apontados como factores condicionantes ao desenvolvimento e dinamismo da Rede Social. Outras dificuldades mencionadas prendem-se com a mobilização dos parceiros. O envolvimento da população e dos parceiros restringe-se às reuniões e plenários. Assim, os/as entrevistados/as consideram que actualmente o trabalho realizado no âmbito da Rede Social se restringe à emissão de pareceres. As representações dos/das entrevistados/as sobre o concelho corroboram a sua caracterização como um território envelhecido e economicamente deprimido. Os/ as entrevistados/as afirmam que o concelho de Vinhais é muito vasto e disperso em termos de área geográfica. É marcado pela ruralidade, pelo envelhecimento e pela emigração. Consideram que está mal servido em termos de vias de comunicação, de transportes públicos e de equipamentos sociais. Realçam os baixos níveis de escolaridade da população e consideram que estes impedem o seu acesso a determinadas respostas formativas e obrigam à criação e/ou candidatura a medidas específicas que permitam certificar pessoas com o 4º ano de escolaridade. Referem que o tecido empresarial é praticamente inexistente. «Empresas só há de construção civil (…) e poucas. Depois temos duas empresas de fumeiros e umas oficinas de carros. Por exemplo, às vezes dizem-nos que, para os lanches que fazemos, podíamos ir pedir aos supermercados. E poderíamos, se houvesse em Vinhais. Aqui é só comércio local e sabe Deus para sobreviverem». A taxa de desemprego no concelho é bastante elevada, 12,5% em 2001, e afecta sobretudo a população mais jovem, à procura do primeiro emprego. Verifica-se, também, uma maior incidência do desemprego feminino. Os/as entrevistados/as assinalam que os efeitos da actual crise não são particularmente visíveis até ao momento. Apesar de se registar uma diminuição do nível de vida da população, consideram que a agricultura de subsistência, os subsídios (Rendimento Social de Inserção e Complemento Solidário para Idosos) e as relações de vizinhança ajudam a superar as dificuldades. Embora se verifique um aumento do desemprego e, consequentemente, dos beneficiários do RSI, declaram que a pobreza que «existe nas cidades» não é visível em Vinhais. No mesmo sentido, afirmam que não existe exclusão social no concelho, dando como exemplo o facto de a comunidade cigana estar integrada. Os problemas mencionados centram-se na área da saúde – os cuidadores/as de doentes mentais (autismo, em particular) são cada vez mais idosos; o alcoolismo tem vindo a aumentar entre os alunos do 7º e 8º anos; existem alguns casos de violência doméstica e toxicodependência; e também na área da edu96 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social cação – a necessidade de criar uma unidade de ensino individualizado para os alunos autistas (já existe um projecto que prevê a integração na formação regular em função do estádio de desenvolvimento da disfunção); a impossibilidade de abrir os cursos CEF e EFA por falta de instalações (não foram colocados na escola os pavilhões necessários ao desenvolvimento das actividades). «Agora foi criado em Bragança um Núcleo de Apoio à Vítima e nós tentamos fazer o encaminhamento para lá. Mas houve muita relutância das pessoas em irem lá, porque são meios pequenos e depois tudo se sabe. E depois as pessoas também se acabam por conformar, acham que é normal, como uma senhora que mo disse». «Acho que, pela proximidade com a fronteira, estamos a começar a ter problemas relacionados com a toxicodependência. Não que as pessoas consumam, mas que façam circular». As propostas e estratégias para combater a pobreza e a exclusão social em Vinhais, referidas ao longo das entrevistas, centram-se essencialmente ans pessoas idosas. Pretende-se continuar a angariar fundos e financiamento para alargar a rede de equipamentos e apoio a esta população. Em particular, deseja-se criar uma Universidade Sénior. Existe já no concelho uma unidade móvel de saúde e está prestes a entrar em funcionamento uma unidade de cuidados continuados. Espera-se que seja aprovado o projecto para «carro piquete de apoio domiciliário – o carro bricolage». Uma outra aposta centra-se no «programa de conforto habitacional», cujo objectivo principal é «a manutenção do idoso no seu domicílio». Existe, também, uma preocupação com o encerramento das escolas no concelho. «Se se verificar realmente o encerramento dessa escola, o que nós iremos combater até ao último momento, mas se se verificar o encerramento, iremos fazer tudo para que os alunos sejam integrados na escola daqui de Vinhais, mas não vai ser fácil. É um caso de sucesso que se verifica, e que vem contrariar todas estas novas [ideias], o que se fala tanto da escola inclusiva, dos combates à exclusão, e tal… Aquela escola é curiosa porque durante o dia frequentam essa escola 10 miúdos que são ciganos, à noite frequentam o curso de alfabetização, na mesma sala, os pais. E é muito interessante o sucesso que se verificou ali». Referência final para uma parceria estabelecida com a Câmara de Oeiras no âmbito do programa ocupacional de Verão, que permite que 30 jovens de Vinhais possam conhecer o litoral e outros tantos o interior do país. 4.14 Notas finais. Os doze concelhos seleccionados para este estudo permitiram abarcar uma diversidade de contextos (sociais, económicos, políticos, demográficos, geo97 Tiago Neves (Coordenador) gráficos, etc.) e de problemáticas ao nível dos riscos sociais e das situações de pobreza e de exclusão social em Portugal Continental. Os resultados obtidos permitem afirmar a pertinência e a relevância dos estudos em que se baseou esta selecção. De facto, a análise realizada a partir dos diferentes tipos de territórios que compõem a tipologia das situações de exclusão elaborada pelo Instituto da Segurança Social, cruzada com a posição relativa ocupada pelos concelhos nos estudos relativos à qualidade de vida concelhia (Manso e Simões, 2007), ao indicador per capita de poder de compra, à percentagem de poder de compra e ao dinamismo concelhio (INE, 2007), põem em evidência não só as dicotomias litoral/interior, rural/urbano e Norte/Sul, como também um conjunto de variáveis condicionantes das dinâmicas sociais, económicas, culturais e demográficas que reforçam a ideia de que Portugal é um país caracterizado por uma modernidade inacabada (Machado e Costa, 1998). Na verdade, os défices de modernização prevalecentes na sociedade portuguesa afastam-na do padrão que caracteriza os países europeus de modernidade avançada, nomeadamente o nível de escolarização e de qualificação profissional dos portugueses e das portuguesas, e condicionam o nível de desenvolvimento da nossa sociedade. A informação recolhida permitiu caracterizar, ainda que de forma sucinta, o modo como as diferentes instituições desenvolvem a sua intervenção. Duas categorias-tipo, a acção assistencial e o desenvolvimento comunitário, afirmam-se como as metodologias privilegiadas no combate à pobreza e exclusão social, não sendo legítimo associá-las nem a instituições específicas (IPSS, ONG, autarquias ou outras), nem a áreas ou públicos específicos visados pela intervenção. A análise incidiu, ainda, sobre as parcerias e as dinâmicas geradas pela Rede Social. Neste domínio constata-se a existência de uma multiplicidade de factores que condicionam a sua implementação e sustentabilidade, entre os quais se destacam as questões culturais, as lideranças, os recursos disponíveis, as relações interpessoais entre representantes das entidades e a diversidade de instituições existentes no território. Procurou-se conhecer o modo como os/as entrevistados/as representam os seus territórios, os problemas que identificam no actual contexto de crise socioeconómica e as prioridades que estabelecem no combate à pobreza e exclusão social. Neste domínio, a prevalência de uma economia de subsistência, de relações de vizinhança e de um controlo social forte condicionam fortemente a percepção do risco e da realidade da pobreza e da exclusão social. Este é, talvez, um dos resultados mais inesperados deste estudo. Por um lado constata-se 98 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social a naturalização destes fenómenos em contextos rurais, por outro lado a sua exacerbação em contextos urbanos. Estas questões são complexas e impõem um repensar das políticas actuais, em particular das centradas na territorialização. Medidas de discriminação positiva dos territórios rurais – a diversos níveis (educação, saúde, infra-estruturas…) – afiguram-se como procedimento de travão à desertificação e ao agravamento das desigualdades. Finalmente, importa realçar o facto de se terem identificado encontrado dinâmicas associativas e intervenções inovadoras em territórios e públicos caracterizados pela escassez de recursos e de qualificações. 99 Tiago Neves (Coordenador) 100 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social 5. As Instituições Locais Após esta caracterização de algumas dimensões dos 12 concelhos estudados inicia-se agora uma apresentação e discussão transversal dos dados recolhidos, passando o texto a organizar-se em torno das categorias de análise que estiveram na base da elaboração da pesquisa e não tanto de divisões territoriais. Isto não significa, contudo, que as referências aos territórios desapareçam por completo do texto; elas surgirão sempre que tal se afigure necessário para uma maior explicitação ou aprofundamento da análise. Este capítulo começa por dar conta do lugar que, no discurso dos actores locais entrevistados, a acção local ocupa no combate à pobreza e exclusão social; isto implica conhecer as suas perspectivas acerca da natureza, características, potencialidades e limites dessa acção. Seguidamente aborda-se o tema do financiamento deste tipo de instituições e, imediatamente após, os modos como elas se posicionam perante as parcerias, que assumem um papel particularmente importante no paradigma da territorialização da intervenção e da constituição de novas formas de governança social local. O capítulo prossegue com a identificação e análise de tipos fundamentais de metodologias e estratégias de intervenção, passando posteriormente a lidar com a questão da relação entre o local e o central (aborda-se aqui, por exemplo, a relação entre planos nacionais e acção local, assim como as críticas e sugestões dos actores locais às instâncias centrais). O último tema abordado neste capítulo é a avaliação da acção local. 5.1. O lugar da acção local. Conhecer o lugar da acção local no combate à pobreza e exclusão social passa por conhecer as perspectivas dos actores locais43 entrevistados44 acerca da natureza, características, potencialidades e limites dessa acção. São essas perspectivas que simultaneamente traduzem as suas experiências de intervenção e 43 Neste capítulo serão tratadas exclusivamente as entrevistas realizadas com representantes das instituições locais. As entrevistas com representantes das instituições centrais ou de cúpula serão objecto de análise no Capítulo 6. 44 No sentido de promover a salvaguarda do anonimato das pessoas e instituições entrevistadas durante a realização deste estudo, optou-se por omitir os nomes das instituições e, regra geral, também a sua localização geográfica e natureza de actuação. Assinale-se ainda que, pontualmente, um mesmo excerto foi utilizado em duas situações diferentes no texto pelo facto de ilustrar adequadamente duas situações distintas. 101 Tiago Neves (Coordenador) configuram o campo do que é pensado (e até mesmo do que é pensável) nessa intervenção. Conhecer as dimensões da acção local no combate à pobreza e à exclusão social elencadas pelos actores locais entrevistados possibilita a compreensão da medida em que as suas perspectivas se aproximam ou distanciam das actuais tendências no sentido da territorialização da intervenção, do targeting e da promoção de parcerias, e nessa medida permite a identificação de áreas a trabalhar na relação entre os poderes central e local45. Essas dimensões serão apresentadas com recurso às próprias palavras dos/das entrevistados/as. Temos então que uma das dimensões fundamentais da acção local enunciadas pelos/as entrevistados/as é: •A mobilização e integração dos actores, das parcerias e das dinâmicas locais em processos de negociação efectiva. Esta dimensão, de carácter essencialmente político, aponta para a relevância da distinção, atrás referida, entre os processos de participação e incorporação (Byrne, 2009). Veja-se aqui: «(…) no fundo acção local só é acção local quando (…) de facto, (…) integra na sua dinâmica actores locais (…) institucionais e individuais (…). Quando resulta obviamente da definição – digamos da negociação – ou, melhor dito, de diagnósticos verdadeiramente negociados e partilhados e sobre os quais serão definidos objectivos também eles partilhados, para uma determinada localidade, para um determinado espaço, para um determinado bairro, seja ele o que for». Um/a outro/a entrevistado/a expressa a mesma ideia da seguinte forma: «Eu acho que a acção local é sobretudo a intervenção dos actores locais na sua própria realidade. O ideal é que eles passem por todo o processo, desde o planeamento até à intervenção. E serem os próprios os pensadores e depois os executantes. A acção local passa sobretudo por isso, em dar respostas às necessidades concretas da população. Não virem medidas centralizadas, iguais para todos. Medidas específicas e locais. E dar voz às pessoas, dar-lhes a oportunidade de participarem e de contribuírem para o seu próprio futuro e para o futuro da sua comunidade». Será neste quadro que podem emergir as parcerias como produtoras de 45 Tal como indicado no capítulo metodológico, diversos condicionalismos fazem com que este não seja um estudo baseado numa amostra representativa. Isso significa que os seus resultados não podem ser tomados como representativos. Os resultados obtidos possibilitam, contudo, um mapeamento significativo da diversidade de perspectivas que os actores da intervenção possuem acerca da acção local. Em jeito de metáfora, poderíamos dizer que o estudo é capaz de mostrar a paleta de cores com que a acção local é pintada, ainda que por vezes possa ter algumas dificuldades em saber quais as cores mais utilizadas, e por que pintores. 102 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social sinergias e mudança: «Eu penso que acção local (…) é o conjunto de intervenções com os parceiros, parceiros nas suas mais-valias, estamos a falar de várias e de naturezas jurídicas diferentes (…). Para mim, acção local (…) não é um mero somatório, é um conjunto das intervenções articuladas, e os recursos que as entidades dispõem para contribuir para a concretização de objectivos que acabam por ser comuns, que é melhorar o nível de vida da população obviamente tendo atenção a situações específicas de maior vulnerabilidade, a estas questões da pobreza e da exclusão social». Por fim, um/a outra/a entrevistado/a aponta para as vantagens de uma maior descentralização, enfatizando as questões da liberdade e da autonomia: «Entendo que acção local deveria ser o que não é. Deveria ser a possibilidade de os agentes locais decidirem e deliberarem, terem autonomia para decidir e deliberar os projectos que entendessem mais prementes. Isto porquê? Porque nós… a questão é esta: há uma verba nacional, nós candidatamo-nos a nível nacional, enquanto que deveria ser o contrário. Deveria ser, de acordo com as necessidades, atribuíam uma verba para cada área local, quando falo local, falo concelhia, e aí depois decidirem as iniciativas conjuntas». Esta dimensão da mobilização e integração dos actores e das dinâmicas locais em processos de negociação efectiva afigura-se de facto central no entendimento da acção local, pois de uma forma ou de outra é nela que radica um conjunto de outras dimensões cruciais e articuladas entre si: a produção de um diagnóstico local, uma intervenção de proximidade e personalizada, e a produção de respostas concretas para as necessidades específicas do local. Veja-se agora cada uma delas em maior detalhe. •A produção de um diagnóstico local. Esta dimensão, de carácter eminentemente operacional, é recorrentemente assinalada como imprescindível ao adequado desenvolvimento da intervenção local. O diagnóstico local surge como momento inicial sem o qual o processo de acção local fica comprometido: «[acção local] É o conhecimento da realidade com os principais actores das instituições e depois o estabelecer uma rede muito sólida entre todos e com as pessoas a participarem activamente não só no diagnóstico, como também na resolução dos problemas». No mesmo tom, um/a representante de outra instituição indica que: «Esta questão, que é a base da acção local, é o facto (…), de implicar um conhecimento específico de uma realidade. Porque eu posso intervir numa zona e não 103 Tiago Neves (Coordenador) a conhecer. Ela é local, ok, porque é no bairro X, é local mas não é acção, porque se eu não conheço os problemas específicos… Acho que implica um conhecimento muito particular das realidades, daquele contexto, como é que as pessoas vivem ali (…). E tudo isso afecta o tipo de intervenções». Um/a outro/a interlocutor/a vai mais longe e aponta para a articulação entre o poder local e o poder central naquilo que se refere à produção dos diagnósticos locais: «Eu acho que é bom que haja autonomia de poder de decisão no local porque só quem está dentro da realidade é que pode traçar os melhores caminhos para intervir... Todas as indicações que vêm de cima para baixo podem ter sido bem fundamentadas mas muitas das vezes, até porque o nosso pais é diferente, por isso é que é importante o papel do poder local e das IPSS, porque as IPSS desenvolvem também um papel que é do Estado e por isso é importante ouvir os técnicos que trabalham no terreno e haver feedback de baixo para cima». Esta perspectiva é partilhada por um/a representante de uma outra instituição: «Acima de tudo, para verificar e para perceber quais são os problemas da população, sem dúvida alguma, é necessária a acção local. Era importante é que possivelmente a acção central se centrasse nos relatórios desta mesma acção local. Por vezes não o fará. São estas instituições mais locais que se debatem diariamente com os problemas, que falam diariamente com os doentes, com os interessados… com os indivíduos». Assinale-se ainda que, apesar da importância que conferem ao diagnóstico local, na sua prática efectiva muitas instituições não o realizam de modo formal, contínuo, reflectido e planeado, nem com recurso a uma participação reflectida da população local. Fazem-no informalmente, através do contacto directo que têm com a população ou com os parceiros institucionais, ou recorrem aos diagnósticos produzidos no âmbito da Rede Social. •A intervenção de proximidade e personalizada. A acção local caracteriza-se por um modus operandi de grande proximidade com as pessoas e os territórios, que passa por uma gestão contínua das variações, imprevistos e episódios do quotidiano, tal como as palavras de um/a entrevistado/a rica e detalhadamente ilustram: «A acção local no dia-a-dia que nós temos com as pessoas individualmente ou então com os grupos, tanto é importante aquela pessoa que chega aqui e diz “Olhe, eu venho à procura do Centro de Dia”, ou de um apoio domiciliário (…), como é importante aquela que pessoa que vem aqui e diz: “Afinal o vosso apoio não dá porque não colmata as minhas dificuldades”. Eu ligo e digo assim: “Olhe, tem esta vaga neste lar, é comparticipado, não sei mas tem aqui um interesse…”. Tem 104 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social a ver com isto e tem a ver com aquela pessoa que chega aqui e diz: “Eu tenho fome”. Se se dá prato de sopa ou sandes para levar não fica inscrita mas naquele momento intervém-se… Ou com aquela criança que vem e vem só para ver as instalações, e se faz a recepção tão boa como sabendo que paga muito pouco, como o idoso que vem acompanhar o outro porque até dá jeito, come, e depois vai à vida dele. Se não ficarem tudo bem. Como se atende a pessoa que chega aí a chorar, também se atende, nós às vezes nem temos muito que fazer ou dar a não ser, olhe, dizer: “Temos só isso para dar”. A intervenção é assim (…). É uma intervenção no dia-a-dia». Trata-se, portanto, de uma intervenção “com rosto”, frequentemente de carácter imediatista e assistencial. Contudo, também há quem aponte para aspectos menos positivos, designadamente o alargamento da práticas de visitas domiciliárias, que ao constituírem-se como meio de controlo e averiguação das “reais necessidades” da população invadem a privacidade e reforçam desigualdades de direitos e de cidadania. • A produção de respostas concretas para as necessidades específicas do local. Esta característica da acção local possibilita, no entender dos/as entrevistados/as, uma utilização adequada dos recursos junto de quem mais necessita bem como uma capacidade de resposta a necessidades emergentes. Atente-se nas seguintes palavras: «Para mim (…) acção local é dar resposta às necessidades emergentes da nossa sociedade em concreto». «Eu entendo por acção local uma intervenção objectiva no local, para as populações do local que têm necessidades individuais e cujas necessidades individuais se reflectem nos seus padrões de vida individuais e sociais». Ainda no mesmo registo, um/a entrevistado/a argumenta que: «[a acção local] está próximo da realidade. Muito ciente do que existe e conhece realmente as situações mais específicas, sabendo quais são as famílias, quais são as pessoas. Há uma verdadeira percepção da realidade que depois nos ajuda muito em termos da actuação e de intervenção». Estes excertos reforçam a importância da proximidade ao nível da intervenção local. É ainda possível encontrar, no discurso dos/das entrevistados/as, três categoriassatélite que ajudam a mapear o seu entendimento da acção local. Uma delas é: • O voluntarismo dos técnicos e a importância do trabalho desenvolvido pela instituição. O relevo concedido ao trabalho da instituição encontra-se frequentemente 105 Tiago Neves (Coordenador) associado a um discurso emotivo sobre o papel dos técnicos de intervenção, a sua disponibilidade e voluntarismo: «Acção local para mim é o tratar das necessidades e estar sempre alerta a essas necessidades, permanentemente alerta porque isso é o que eu acho que é fundamental (…). É o que eu lhe dizia: é ser técnica 24 horas por dia. Há pessoas que dizem que é um exagero mas eu nunca deixo de ser técnica, eu sou permanentemente técnica: quando o deixar de ser eu não faço aqui nada… Escolho outra profissão qualquer… porque o trabalhar das 9h às 17h30 isso não faz de mim nenhuma técnica, primeiro não faz de mim uma boa técnica e enquanto eu andar no desenvolvimento local tenho que ser uma boa técnica». Por sua vez, um/a entrevistado/a afirma que: «Eu acho que [a acção local] importantíssima. Eu acho que se não fosse a acção local, em algumas circunstâncias estávamos ainda numa situação muito pior. Nós temos entidades que trabalham verdadeiramente os problemas das populações e muitas delas, desculpe-me a expressão, sem qualquer tipo de apoio, por carolice. Porque acham que têm essa responsabilidade». Nestes dois depoimentos são salientados o espírito de entrega e o carácter de missão frequentemente associados a este tipo de trabalho. O/a entrevistado/a do excerto seguinte afina pelo mesmo diapasão e revela o seu respeito e admiração pela dedicação ao trabalho dos/as técnicos/as, que faz da acção local o elemento central do combate à pobreza e exclusão social: «Eu às vezes brinco com as técnicas porque desde tirar os piolhos dos meninos, até coisas desse género elas fazem... Tenho uma admiração por esta gente! Elas no âmbito da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, é de noite, é de dia, é um SOS, lá vão elas! Tem sido um papel muito importante para que as coisas também não se agravem... Às vezes desfalecemos um bocado». Duas outras destas categorias-satélite que ajudam a mapear o entendimento da acção local referem-se, de um modo ou de outro, a questões propriamente territoriais, seja circunscrevendo-o, seja alargando-o. Temos, assim: •A circunscrição da acção local ao território local. Para um/a entrevistado/a: «Podíamos chamar talvez acção local ao conjunto de iniciativas ou de dinâmicas que num determinado contexto geográfico – digamos assim, porque eu não consigo dissociar a ideia de acção local de um contexto geográfico delimitado – potencia os recursos que ali existem». Ou, nas palavras de um/a outro/a: «Acção local dirá, na minha opinião, respeito a um intervenção realizada (…) 106 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social tendo por base o conhecimento concreto de realidades que estão consignadas a um espaço, a uma zona geográfica, a um espaço específico, fazendo uso dos recursos dessa comunidade, desse espaço, e tentando rentabilizar (…)». O papel desempenhado pelas parcerias locais é um elemento que por vezes também surge no discurso dos/as entrevistados/as em articulação com a delimitação territorial da acção local. Há, no entanto, quem prefira enfatizar: •A articulação entre o local e o global. Ela é bem visível excerto seguinte: «Nós estamos a tentar, e isto tem sido uma máxima nas reuniões de equipa, somos os mesmos para chegar a muito mais, temos de sensibilizar os técnicos da casa que temos que fazer mais e melhor para conseguir chegar mais longe. O trabalho só tende a aumentar, não a diminuir... Os desempregos e as mudanças estruturais do país fez com que nos viessem bater à porta pessoas que (…) tinham uma vida como qualquer um de nós técnicos, trabalho fixo. (…) Os números aqui (…) estão a aumentar, como em todo o país, mas penso que estamos a conseguir ir ao encontro daquilo que é a nossa missão e o nosso dever». Também o/a representante de uma outra instituição analisa a acção local num quadro mais alargado. No seu discurso é notória uma preocupação no sentido de encontrarem fontes de financiamento fora do país: «Dentro da disponibilidade, das competências e das obrigações que tenho, acho que [a acção local] tem um papel fundamental. Há um determinado tipo de competências, até porque foram transferidas do poder central para os municípios, e dentro dessas competências acho que a Câmara Municipal assumiu essas responsabilidades e procuramos combater a pobreza e criar melhores condições de vida para os [habitantes do município], e para isso servimo-nos quer dos apoios do poder central, quer dos fundos comunitários, e aí temos trabalhado muito, temos um gabinete de assuntos comunitários que trata de candidaturas, etc. não só para a Câmara mas também para instituições». Importa assinalar que da consciência da relação entre o local e o global pode emergir um discurso mais crítico acerca das possibilidades da acção local, como se constata no excerto que se segue: «É com um projecto local que eu posso resolver o desemprego? Claramente que não é. Nenhum problema é local nem é nacional, mas é global. Não se pode pedir o impossível para um trabalho local. É assim: “Resolvam os problemas!” [mas] vocês não têm o mínimo de possibilidades de o resolver. Que é isto que se anda a fazer também, é isto que se anda a pedir. É assim, projectos de luta contra a 107 Tiago Neves (Coordenador) pobreza, está bem, muito bem, e eu não estou a tecer nenhuma crítica corrosiva a este tipo de projectos. O que estou a dizer é que eles têm a sua função e têm lugar a que haja sobre eles algumas expectativas marcadas pela resolubilidade. Não podemos agora pensar que um projecto vai resolver questões que são naturalmente estruturais e nessa medida não são locais (…). Tem que ser num âmbito muito mais alargado. (…) Agora, esta lógica do local e quando nós carregamos muito no local, muitas das vezes é desresponsabilizar, digamos assim, um nível de poder que naturalmente fica mais liberto para outras coisas e provavelmente não as devidas, percebem?» Este tom crítico é no entanto claramente minoritário, pois nos depoimentos recolhidos a questão da transferência de poderes é muito desejada e apontada como uma das soluções para combater a pobreza e exclusão social. Com efeito, é muito mais frequente os/as entrevistados/as referirem que: •A acção local é importante e eficiente. A associação entre importância e eficiência, isto é, a capacidade de produzir resultados, radica essencialmente no conhecimento e na relação de proximidade desenvolvidas pelas instituições locais: «Quem está mais perto consegue conhecer melhor e tem condições para poder actuar adequadamente. E o estar mais perto é mesmo conhecer as pessoas, saber as suas condições, perceber o contexto. A proximidade é um factor muito importante na capacidade de actuação». A mesma ideia é apresentada de forma particularmente sucinta no excerto seguinte: «Na nossa [intervenção] existe muito mais proximidade, e essa proximidade é que dá a qualidade». Ou, num meio considerado desfavorecido – como a região na qual se insere a instituição do excerto seguinte – a importância e a eficiência da acção local tornam-se particularmente evidentes pelo contraste com a escassez de outro tipo de respostas: «É absolutamente essencial. Se não fosse este esforço conjunto quer do município, quer dos colegas, quer dos parceiros, as pessoas não tinham como. Aqui é absolutamente social, é absolutamente essencial porque, eu costumo dizer isto a brincar mas é verdade, eu fiquei quase sem Segurança Social aqui (…). É muito difícil lutar aqui, num meio desfavorecido como o nosso, num meio com uma população extremamente envelhecida contra estas situações, não é? Portanto, há que fazer o máximo de esforço possível para de facto ir de encontro às necessidades das pessoas o melhor possível». Mesmo que as instituições de acção central estejam fortemente presentes, 108 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social como na cidade a que se refere o excerto seguinte, assevera-se a importância e eficiência da acção local, radicada na proximidade: «A Segurança Social, que é exactamente o oposto da acção local, não consegue chegar junto das pessoas, não consegue dar vazão ao número assustador de famílias que recorrem aos serviços e muitas vezes nós sentimos que não percebe a realidade dos bairros sociais, das freguesias. (…). Esta freguesia é grande, tem xxx eleitores, mas eu conheço muita gente em quase todos os bairros. Se alguém me vier aqui fazer um pedido, eu tenho forma de saber se esse pedido é justo e verdadeiro. E essa triagem dos apoios que são dados não é tão possível de fazer na Segurança Social. (…) Eu lembro-me de ter entrado em algumas casas de bairros sociais que têm plasmas em todas as divisões e eu não tenho um plasma em casa. Portanto, são estes desequilíbrios e desigualdades que o Estado central não consegue detectar. E a [nome da instituição], por estar próxima, consegue chegar lá». Apesar da relevância que conferem à acção local em termos de eficiência e de capacidade de produzir resultados, os actores locais não deixam de reconhecer o papel complementar desta em relação à acção central, nomeadamente quando destacam a importância das parcerias que mantêm com as estruturas da administração pública central (IEFP, Segurança Social, Administrações. Regionais de Saúde, Direcções Regionais de Educação, etc.) e quando sublinham a necessidade de estabelecer uma maior articulação entre as medidas de nível central e as de nível local. 5.2. As questões do financiamento. O tema do financiamento da acção local é abordado em três dimensões centrais. Em primeiro lugar apresentam-se as fontes de financiamento, distinguindo-se aqui as fontes externas da geração de receitas próprias. De seguida, e em estreita articulação com este primeiro ponto, trata-se da relação ou proporção entre o financiamento externo e as receitas próprias. Por fim, aborda-se um conjunto de percepções dos/as entrevistados/as acerca das possibilidades e limites da geração de receitas próprias. •As fontes externas de financiamento. A acção local no combate à pobreza e exclusão social é financiada por um leque alargado de dispositivos e procedimentos. O financiamento público ocupa um lugar fundamental, tanto pela diversidade de dispositivos e procedimentos que o efectivam como pela importância quantitativa das verbas disponibilizadas. O Orçamento de Estado constitui uma primeira e decisiva instância na atri109 Tiago Neves (Coordenador) buição de verbas, designadamente às autarquias locais. Um certo distanciamento entre a Administração Central e a administração local que dele depende pode acarretar, no entanto, algumas dificuldades: «Não é que o que esteja previsto em termos de Orçamento de Estado esteja completamente desajustado, mas há aqui coisas que têm que ser pensadas muito seriamente, e que na minha óptica não vão responder às necessidades locais. E a Câmara nunca poderá complementar, porque sem a decisão deles não tem verbas para fazer. Não temos verbas próprias, tudo vai depender do Orçamento de Estado». No patamar administrativo seguinte são as próprias autarquias locais que desempenham o papel de instituições de apoio: as Câmaras Municipais relativamente às Juntas de Freguesia e às instituições locais, e as Juntas de Freguesia em relação às instituições locais. Atente-se que este apoio, frequentemente realizado através de transferências financeiras, pode assumir outras formas como, por exemplo, a cedência de terrenos ou edifícios. A Segurança Social, por sua vez, constitui o principal dispositivo financiador de uma enorme parte das instituições cujo core-business é a intervenção directa no campo do combate à pobreza e exclusão social. Fá-lo através de uma diversidade de programas, protocolos específicos e acordos de cooperação que sustentam uma rede nacional de instituições de natureza, dimensão e âmbito de intervenção bastante distintos. Este facto é claramente reconhecido por múltiplos entrevistados. Dito isto, não deixam de ser apontados alguns problemas ao financiamento pela Segurança Social: «Como IPSS a nossa principal fonte de financiamento é a Segurança Social, sendo que nos acordos da Segurança Social está estipulado que financiem 80% do que está orçamentado. Mas na prática não é, porque são 80% daquilo que a Segurança Social entende que deve ser o financiamento e, portanto, a Segurança Social financia-nos em cerca de 60%». Na mesma linha, um/a outro/a entrevistado/a relaciona estas dificuldades com o actual quadro de crise: «É assim: cada vez mais a Segurança Social, com as dificuldades que tem, é óbvio que comparticipa de acordo com os utentes, mas cada vez mais os utentes necessitam de outras coisas. E os acordos são feitos para x utentes [e] às vezes para conseguir um trabalho mais individualizado, os acordos já não chegam». Esta diferença no cálculo do valor a comparticipar emerge como uma questão sensível e com implicações a diferentes níveis. Por um lado, ela implicitamente enfatiza o já mencionado carácter de missão – o desempenho 110 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social voluntarista, quando não mesmo voluntário – na prestação de serviços na área social. Nesta perspectiva, ela traduz uma redução do valor monetário do trabalho social e, nessa medida, reforça a precariedade laboral dos trabalhadores sociais. Por outro lado, não atende às desigualdades no valor das pensões que decorrem dos contextos (rural ou urbano, por exemplo) em que as instituições intervêm. A não resolução deste problema gera alguma dificuldade na gestão destas instituições: elas existem para ajudar e prestar serviços aos indivíduos mais carenciados, mas o valor das prestações pagas por estes é insuficiente para completar o financiamento protocolado e equilibrar a relação entre receitas e despesas. Os projectos nacionais e comunitários constituem outra fonte relevante de financiamento. Isto acontece tanto em zonas urbanas mais densamente povoadas como em áreas rurais, mais isoladas, como no caso aqui relatado: «Nós dominávamos muito bem toda a informação que dizia respeito aos fundos comunitários e tudo o que era a realidade da Comunidade Europeia e isso representou uma vantagem muito grande, de tal maneira que nós, em 1992, candidatámo-nos à iniciativa comunitária LEADER (…) porque também tínhamos percebido muito rapidamente que a nossa ligação ao exterior era fundamental. (…) Quando tivemos o contrato assinado com uma comparticipação de 650 mil contos, na altura a fundo perdido… é evidente que aí o olhar para a organização e o podermos trabalhar aqui no território e sermos nós aqui, localmente, serem os parceiros que estavam aqui a decidir que projectos é que iam ser financiados e como iam ser financiados, é evidente que isso (…) um salto enorme na organização (…). E realmente, a partir daí, (…) a iniciativa comunitária LEADER foi fundamental (…), a partir daí tivemos acesso a muitas outras coisas porque o LEADER dava-nos hipótese de termos um núcleo duro, estável, que permitia ir a outras iniciativas, a outros programas, trabalhar no território de uma forma consolidada (…). Nós trabalhamos há vinte anos, vamos na quarta geração do programa!». A localização numa grande cidade, paralelamente à capacidade técnica e negocial da instituição, pode eventualmente contribuir para a diversificação das fontes de financiamento em termos de projectos nacionais e comunitários: «As Actividades Extra-Curriculares vêm do Ministério da Educação, via autarquia, ou da Direcção-Regional de Educação via autarquia. Depois começámos a tentar localizar outras fontes de financiamento. Tivemos a EQUAL até Junho de 2009, mas aí já tínhamos outras fontes, porque entretanto a equipa já tinha crescido tanto. Em 2008 começámos com dois Contratos Locais de Desenvolvimento 111 Tiago Neves (Coordenador) Social (…) via Instituto da Segurança Social. Depois temos alguns financiamentos residuais que vêm por exemplo do Leonardo [da Vinci], que (…) faz parte daquele programa de formação ao longo da vida da União Europeia, da Comissão Europeia, programa comunitário, depois tem várias linhas: o Grundtvig e outras que não me lembro o nome. Candidatámo-nos a um Grundtvig e estamos a terminar um Leonardo. Também fizemos uma candidatura que foi aprovada à medida 6.1 do POPH (…)». Os/as utentes, por sua vez, contribuem através de quotas e mensalidades para o financiamento das instituições de cujos serviços beneficiam. Contudo, as instituições sentem frequentemente que as comparticipações dos/as utentes ficam aquém das necessidades, como anteriormente já foi referido. Veja-se aqui, num caso em que essa insuficiência é explicada pelo baixo valor das pensões dos/as utentes: «[dependemos em termos financeiros] Basicamente da mensalidade dos utentes e dos protocolos. E depois, isto aqui é uma zona em que a maior parte das pensões são pensões rurais, são baixas, e se formos para outras zonas diferentes de nós temos funcionários públicos com pensões mais seguras, mas nós aqui não. Temos valores muito baixos, juntamente com o protocolo, não nos dão assim um grande desafogo financeiro até para investir noutras áreas, ou ter mais equipamento, ou ter outras formas de minimizar esta morte social a que eles estão votados». E aqui, numa situação em que a dificuldade apontada é a ponderação entre os apoios da Segurança Social e o valor das mensalidades dos utentes: «Nós como [tipo de instituição] temos uma mensalidade abaixo do que é estipulado pela Segurança Social. Existem tabelas que podemos seguir mas, atendendo ao nível económico das famílias, temos que ter isso em conta, fixamos um valor mínimo [de] mensalidade e um valor máximo e muitas vezes, pronto, são valores irreais». Constituem também fontes externas de financiamento os donativos nas suas diferentes formas e origens. Estes donativos, que podem ser de carácter financeiro ou em espécie, têm generalizadamente a sua origem em particulares, em fundações, em empresas e em instituições religiosas. O valor absoluto dos donativos é extraordinariamente variável, assim como o seu impacto sobre a actividade desenvolvidas pelas instituições. Por vezes os donativos permitem, por si só, um alargamento da própria natureza da intervenção das instituições: «E lá está, tudo isso graças (…) a um casal aqui da [nome da localidade] que deixou todos os bens que tinham para ser criada essa Fundação. E eles tinham uma fortuna muito grande, imóveis, terrenos, mesmo muita coisa. Até tinham 112 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social casas e apartamentos para aqueles lados». •As estratégias de auto-financiamento. As actividades de natureza comercial desenvolvidas pelas instituições com o intuito de complementarem os resultados do financiamento externo com receitas próprias assumem formas muito distintas, das regulares às pontuais, das mais tradicionais – das vendas de objectos à exploração de serviços de restauração, passando pelo aluguer de espaços – às mais inovadoras. Atente-se num caso em que um entrevistado fala do bar da associação: «Exactamente. Não há mais forma nenhuma [de gerar receitas próprias]. Aqui há sorteios com presunto e cabazes... Mas quem vem cá paga o bar e para agarrarmos as pessoas damos uma recordação, quando é caso disso. Para a próxima já vem outra vez». E noutro, em que o entrevistado refere a produção de electricidade através de painéis fotovoltaicos: «Estamos a apetrechar a instituição com uns painéis fotovoltaicos e os painéis solares, os solares térmicos, por forma a que a instituição também aqui possa economizar os custos de funcionamento, possa reduzir os custos de funcionamento e isto é uma estratégia para o futuro, que o investimento que está feito será recuperado a curto prazo (…) os nossos painéis fotovoltaicos, temos dois equipamentos que estão a produzir 1000€ mensais, o que é muito bom!». Já quanto às actividades de natureza comercial de carácter pontual elas dizem frequentemente respeito a actividades culturais, formativas e a festividades. Por exemplo: «Temos algumas estratégias [de geração de receitas próprias]. Iniciativas pagas, a formação é paga. (…) Fazemos teatro, e vendemos teatro. Fazemos actividades culturais (…)». Ou aqui: «Fazemos todos os anos um convívio com os mais velhos, na Ceia de Natal, juntamos sempre à volta de 500 pessoas. E na brincadeira falei, vamos buscar 500€ a cada um. Mas alguns até vão dar mais (…)». Um outro modo de gerar receitas próprias é através do estabelecimento de parcerias, com instituições públicas ou privadas, orientadas para a prestação de serviços ou para sistemas de reciprocidade que, de modo mais directo ou mais indirecto, contribuem para financiar as instituições que desenvolvem acção local na luta contra a pobreza e a exclusão social. Uma das instituições refere a oferta de serviços como contrapartida pelo mecenato: «Em relação ao investimento temos que ter (…) mecenas, e aí tem a ver com a liga113 Tiago Neves (Coordenador) ção com o tecido empresarial. Hoje em dia há empresas que têm políticas internas de responsabilidade social e a questão é fazer casar um produto que nós oferecemos e até [dar] visibilidade à empresa. Ou então através de protocolo, por exemplo a [nome da empresa] tem aqui acesso facilitado para os seus trabalhadores. Por exemplo, o facto de a pessoa morar fora de [nome da localidade] não impede de ter as mesmas regalias do que se morasse cá. Portanto, oferecemos serviços às empresas com a contrapartida de mecenato». Noutros casos, como referido acima, trata-se do estabelecimento de parcerias com instituições privadas (e também públicas) que possibilitam o desenvolvimento de projectos que, através da prestação de serviços, contribuem para a sustentabilidade financeira da instituição: «Nós temos insistido sobretudo num eixo interessante que é prestar serviços de qualidade e diversidade às Câmaras Municipais. Hoje as Câmaras estão a investir muito nas questões do desenvolvimento económico e da educação. Estamos a fazer com algumas Câmaras propostas de empreendedorismo em algumas escolas, ligadas à saúde escolar, ligadas à reconversão urbana. Nós próprios também nos assumimos como parceiros. Aqui em [nome da localidade] vai haver um parque da cidade, e nós somos os parceiros com projectos ligados à Biologia. Vamos buscar uma pessoa à Universidade (…) e são eles que vão fazer as análises da água, do ambiente e coisas da educação ambiental». Os peditórios, de âmbito local, regional ou nacional continuam a ser um modo de financiar a acção local no combate à pobreza e exclusão. Ainda no que diz respeito às estratégias de auto-financiamento, é de assinalar o facto de muitas instituições afirmarem que não as desenvolvem, encontrando-se, portanto, numa situação de total dependência face aos apoios que recebem do exterior: «Nós receita própria não temos… [Temos] as mensalidades dos utentes mas isso não dá para... Temos o valor da Segurança Social dos utentes, temos o apoio da Câmara e das Juntas, não temos nada que faça dinheiro». A consciência de que tal facto constitui um obstáculo parece impelir algumas instituições a procurar uma transformação interna: «Nós neste momento estamos numa fase, podemos dizer até, de reorganização interna. Saber em que medida a instituição pode desenvolver projectos que possam gerar “riqueza” e que de alguma forma possam ser auto-sustentáveis. Mas neste momento são projectos, são ideias ainda muito embrionárias, e muito internas também da própria instituição porque as necessidades são cada vez mais». Associado à questão da geração de receitas próprias, o tema da sustentabili114 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social dade das instituições levanta no entanto algumas questões de fundo, designadamente em termos da relação entre o local e o global: «Essa [a questão do auto-financiamento] é também uma situação que também vamos tentar discutir a nível nacional, porque eu acho que a sustentabilidade das organizações e destas políticas a nível local têm que ser discutidas de uma forma séria, e discuti-las de uma forma séria não é dizer às organizações que de repente vão ter que começar a desenvolver serviços ou a vender bens que possam dar algum retorno à organização para sobreviver. Isso é desvirtuar completamente tudo. A sustentabilidade da organização é pela sua função, pela sua razão, pela necessidade de ela existir. Nós temos tanta razão de existir como tem uma IPSS ou como tem o Centro de Saúde. Se o Centro de Saúde e se nós chegamos à conclusão que nos territórios rurais é preciso desenvolver [de] uma forma organizada e sistematizada planos de desenvolvimento local (…) isso tem que ser pago, isso tem que ser pago por todos nós. Agora, é evidente: eu posso transformar este edifício num restaurante, tudo bem, deixo de fazer aquilo que devia fazer e passo a vender refeições. Portanto, quando eu começo a falar da questão da sustentabilidade fico logo com os cabelos em pé, porque realmente é exactamente a mesma coisa que um Centro de Saúde ou uma escola, tem que se olhar para estes processos». Este tema será retomado mais adiante. Para já, no entanto, considere-se •A proporção entre o financiamento externo e as receitas próprias. Relativamente à proporção entre financiamento externo e receitas próprias encontram-se fundamentalmente duas situações: uma de dependência muito forte – designadamente face à Administração Central e ao financiamento público, nos seus vários dispositivos – até uma situação de algum equilíbrio entre financiamento externo e receitas próprias. Isto significa que praticamente não foram encontrados casos em que as receitas próprias constituem a maior parte da fonte do financiamento. As excepções explicam-se principalmente pela posse de património em resultado de doações. O excerto que se segue dá conta de uma destas excepções: «Nós procuramos sempre viver da seguinte maneira: capitais próprios de receitas próprias, rendimentos próprios com os subsídios estatais – que não são subsídios de favor, digamos assim. Agora uma coisa é certa: apesar de sermos uma instituição que tem recursos que lhe permitem ter um plafond indispensável para poder avançar, eu quero dizer que a manutenção de uma instituição como a nossa, não sei as outras como é que será, cujas receitas próprias (…) são mais (…) do que as de subsídio (…) uma instituição como esta para funcionar com a qualidade [com] que ela está (…) nem sobrevive só com as receitas próprias, e ainda menos sobreviria só com aquilo que é dado pelo Estado». 115 Tiago Neves (Coordenador) Por uma diversidade de razões, sejam elas relativas ao enquadramento legal e regulamentar das instituições, ao âmbito das suas intervenções ou à escassez dos seus recursos, as situações de dependência muito forte face à Administração Central e ao financiamento público são, de forma muito clara, aquelas que são mais frequentemente referidas pelos actores entrevistados. Veja-se aqui, por exemplo, como essa situação é descrita de modo claro e sintético: «Se não fosse a Segurança Social, nós fechávamos as portas passado um mês. O que os utentes pagam não dá para pagar a água e a luz, como se diz». E aqui: «O que as instituições e as IPSS tentam é ser o menos dependentes [possível] do Estado mas sem ele não conseguíamos sobreviver». A dependência das IPSS face ao Estado constitui, portanto, um facto incontornável e limitativo da sua intervenção. Nem sempre os/as entrevistados/as possuem, contudo, um conhecimento quantitativo preciso do peso do financiamento público no orçamento das instituições nas quais trabalham. No entanto, tanto as impressões mais qualitativas como algumas indicações quantitativas apontam, como foi referido acima, para um peso significativo do financiamento público: «Da despesa anual (…) 70 a 75% são das subvenções do Estado, portanto dos acordos de comparticipação, o resto… Eu quando ponho aí os 75% coloco também, por exemplo, neste caso, as mensalidades pagas pelos pais. Eles pagam a mensalidade e depois recebem aquela parte do Estado». •As possibilidades e os limites da geração de receitas próprias. É importante assinalar que, por vezes, as tentativas de geração de receitas próprias colidem com quadros legais e regulamentares que criam obstáculos importantes, ou mesmo impedem, o seu desenvolvimento e, nessa medida, dificultam a inversão do quadro de dependência. Um desses casos é descrito por um/a entrevistado/a de uma IPSS: «Na altura tentou-se criar serviços. Na altura até se tentou pôr um “Pão Quente”. Tínhamos instalações e na altura tínhamos a hipótese de começar a fornecer pão quente e não para o mercado aberto, porque isso naturalmente nunca seria permitido. Mas depois veio a Comissão da Concorrência e tal e não era possível, não era possível [e] nós desistimos disso». E um outro pelo representante de uma outra IPSS: «Por acaso nós no ínício da construção destas instalações novas pensámos nisso [na geração de receitas próprias]. Nós aqui em baixo temos uma galeria enorme [e] a ideia do director era utilizar essa lavandaria para prestar serviços ao exterior 116 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social e ter alguns benefícios adicionais. Só que requer muita burocracia e acabámos por desistir. [os entraves burocráticos foram levantados] pela Segurança Social, penso eu. Isto tinha que obedecer a outros trâmites, outros regulamentos e não compensava. Também estamos numa localidade rural, as pessoas não são muito de utilizar esses serviços. Achámos que não valia aquele esforço porque as receitas não iriam ser tão significativas». Para além destes quadros legais e regulamentares, as características das instituições, do trabalho que desenvolvem e dos contextos de intervenção podem também contribuir para o não desenvolvimento de estratégias de geração de receitas próprias e para a sua conceptualização como pouco mais do que hipóteses um tanto ou quanto remotas. Veja-se aqui: «Já se pensou [em gerar receitas próprias] mas ainda não houve ninguém... Eu agora até estava a ver, mas como estou cá há pouco tempo ainda estou... E depois entretanto mudou a direcção administrativa, foi um período que não deu para grandes alterações e agora é que estamos a pensar em avançar nesse sentido. [Temos em mente] várias coisas mas não sei até que ponto é que… Porque também temos que ver que estamos numa freguesia muito pequena e depois se queremos envolver pessoas do concelho vamos ter que pensar em transportes... Várias coisas, e então temos que ir com calma, não sei muito bem ainda o que vamos fazer». Tal como aqui, numa situação em que a geração de receitas próprias é vista como um suplemento relativamente ao funcionamento regular e quotidiano da instituição, que por si consome todo o tempo disponível (atente-se também, uma vez mais, nas referências ao espírito de missão): «Temos algumas ideias imediatas agora para implementar, como fazer sessões temáticas ligando a educação ao lazer, os poetas e o fado, uma sessão de fados, mas tem que se ter sempre comes e bebes, porque se não as pessoas não vêm; comer e beber vem toda a gente, nós conseguimos alguns lucros assim. Estamos a pensar fazer umas noites gastronómicas, ou o dia das sopas, mas isto está muito no campo das hipóteses porque é assim: ideias nós temos muitas e até não há impossibilidade de as realizar, o problema é a disponibilidade porque, como sabe, não sei se sabe (…) o trabalho é cada vez mais, cada vez mais burocracia, eu saio daqui todos os dias às oito da noite. Tenho esta disponibilidade toda porque sou daqui, resido aqui, porque a minha filha também já é crescida e também já está fora, porque se não é complicado. E essas coisas são coisas que dão muito trabalho e requerem trabalho fora do trabalho». O enquadramento geral do tema da geração de receitas próprias por parte 117 Tiago Neves (Coordenador) das IPSS remete para uma reflexão profunda acerca da natureza da sua intervenção e da sua relação com o Estado central: «[A] Segurança Social financia-nos em cerca de 60%. Os outros 40% advêm ou do mecenato ou de outro tipo de apoios eventuais, da autarquia onde estamos sediados ou da Junta de Freguesia, mas são apoios que têm menor expressão. Na certeza porém que o próprio mecenato numa região onde o tecido empresarial é frágil e reduzido, nós não podemos pensar que as associações que fazem trabalho nesta área podem ter fontes de receitas fortes e muito menos que superem a necessidade de colaboração do Estado. Por outro lado, é nosso entendimento que estamos aqui a cumprir aquilo que é uma função do Estado, o que também é uma questão sensível, há várias leituras sobre isto. Mas a intervenção das associações nesta área em concreto, e de acordo com o que está definido na Constituição, compete em primeira-mão ao Estado e está previsto na própria Constituição que o Estado pode desenvolver a sua acção através das IPSS. E, portanto, esta parceria que é estabelecida entre o Estado e as associações é uma parceria que envolve a sociedade civil de uma forma muito forte, mas em que a sociedade civil é um prolongamento daquilo que são as funções primeiras do Estado. É importante que nós tenhamos isto presente, porque por vezes entende-se que a sociedade civil pode ter com o Estado uma relação mais ou menos parasita e que devia ser mais criativa e engenhosa na forma como se financia. Mas a questão é que surge precisamente de uma necessidade do Estado. E portanto, aí sim, temos que provavelmente rever esta forma de financiamento. No entanto, temos que ter a certeza que é uma resposta que, até que provem o contrário, é mais barata do que sendo desenvolvida pelo Estado. Veja-se que as Direcções são tendencialmente voluntárias – em muitas já são com pessoas muito qualificadas – já para não falar dos salários dos técnicos. Portanto, por todas as razões e mais algumas, sabemos que é um serviço que em princípio tem um custo menor do que se fosse desenvolvido pelo Estado e na certeza de que as IPSS que trabalham nesta área dos idosos, infância, juventude e deficiência estão a dar continuidade àquilo que são as funções do Estado. E bem, esta parceria é mais do que legítima e em boa hora o legislador a equacionou. Nós temos é que ter isto presente quando falamos em financiamentos». As IPSS – em conjunto com outras entidades locais que operam no campo do combate à pobreza é à exclusão social – aparecem assim como prolongamentos funcionais do Estado, facto a ter em consideração na análise do seu financiamento. Assinale-se, por fim, que algumas instituições demonstram interesse em, numa lógica empresarial, abranger públicos com rendimentos mais elevados 118 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social através de uma maior diferenciação dos serviços que prestam. 5.3. As parcerias. Conforme referido anteriormente, as parcerias assumem um papel particularmente importante no paradigma da territorialização da intervenção e da constituição de novas formas de governança social local. É inegável o impulso dado pelos poderes centrais – nacional e europeu – para o estabelecimento e dinamização de parcerias. Vejam-se, por exemplo, a criação das Redes Sociais e os requisitos dos programas de financiamento para se tornar claro o relevo que as parcerias actualmente assumem. Um primeiro elemento a salientar dos dados recolhidos acerca deste tema nas entrevistas realizadas é a enorme diversidade de instituições com as quais se estabelecem parcerias no âmbito da acção local no combate à pobreza e à exclusão social. Sem necessariamente esgotar o seu elenco podem listar-se algumas dessas instituições: Segurança Social, Instituto do Emprego e Formação Profissional e outros Institutos Públicos, Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, empresas multinacionais, PME’s, empresas municipais, associações empresariais, Universidades, Politécnicos, Direcções Regionais de Educação, Escolas (profissionais, secundárias, do ensino básico, jardins-de-infância), Centros Novas Oportunidades, bibliotecas, Fundações, instituições prestadoras de serviços médicos e de saúde, forças policiais, instituições religiosas ou ligadas à Igreja, grupos desportivos, grupos culturais e recreativos, e ainda instituições estrangeiras e organismos transnacionais. Este largo espectro de instituições é demonstrativo da forma como as responsabilidades pelo combate à pobreza e à exclusão social se encontram partilhadas e disseminadas pela sociedade portuguesa contemporânea. Estas parcerias têm-se multiplicado tanto no interior como no exterior de dispositivos que, pela sua própria natureza, são agregadores de instituições e promotores de sinergias, designadamente as Redes Sociais e os Contratos Locais de Desenvolvimento Social. Como sintetiza um/a dos/as entrevistados/as: «O sentimento é que se antes [a parceria] era a excepção, agora é a regra. Acho que cada vez mais se trabalha em complementaridade e em rede. Porque as pessoas também já perceberam (…), as instituições perceberam que sozinhas não conseguem, é impossível. Mantêm-se algumas excepções das “quintazinhas”, esta é a minha quintinha, esta é a minha, mas já são excepções». No quadro desta multiplicidade de instituições que partilham responsabilidades na intervenção, um segundo elemento que emerge dos dados é relativo ao modo da sua articulação, designadamente naquilo que se refere a eventuais 119 Tiago Neves (Coordenador) conflitos de interesse entre as instituições, ou à sobreposição das suas intervenções. Este elemento é sintetizado seguidamente: •Competição vs. cooperação. O tom positivo em que as parcerias tendem a ser descritas encontra-se frequentemente associado à ideia de que elas são de facto indispensáveis à boa condução do trabalho de intervenção. Atente-se nas palavras do/a representante de uma associação de desenvolvimento local: «Não há dúvida nenhuma que a principal estratégia que nós temos (…) são as parcerias. Não há qualquer dúvida que sem as parcerias é muito difícil conseguirse alguma coisa. E nós com parcerias quer dos municípios, quer de Juntas, quer de Santas Casas, quer com corporações de bombeiros, quer com empresas, temos um leque que já nos permite actuar em qualquer área sem grandes dificuldades. (…) Portanto julgo que é o principal caminho, e se calhar a grande motivação, quer nossa, quer das entidades, para se poder realizar alguma melhoria com as populações, portanto serão as parcerias, isso para mim sem dúvida nenhuma». Um/a representante de uma outra agência de desenvolvimento local afina pelo mesmo diapasão: «Cada vez mais, a trabalhar sozinhos não chegamos a lado nenhum. Se trabalharmos em rede, numa rede continuada, conseguimos um trabalho melhor e de melhor qualidade. As parcerias são mesmo isso: é conseguirmos juntar o que de melhor cada parceiro tem num só bolo!». O facto de as parcerias poderem nascer por imposição dos dispositivos de financiamento parece ser um aspecto secundário – ou eventualmente simplesmente um dado adquirido – pois, para além dos resultados, o próprio processo de trabalho em parceria pode gerar grande satisfação entre os parceiros, como assinala o representante de mais uma associação de desenvolvimento local: «Fazemos coisas mirabolantes, que é decidir orçamentos em conjunto. É como imaginar que vivemos numa casa comum e que temos que gerir o nosso orçamento. E temos conseguido gerir sempre; não é a maravilha do mundo, há dificuldades. A tomada de decisão é mais lenta, é preciso criar consensos, mas em termos de possibilidades é uma coisa fantástica». A existência de relações interpessoais entre os parceiros, por vezes estruturada em torno de uma vontade de transformar a realidade social, constitui não apenas factor de satisfação para os parceiros mas também de eficácia. Esta situação é particularmente evidente em territórios pequenos. Afirma o/a representante de uma Fundação: «Com os parceiros públicos acaba por haver muito informalismo (…) porque nós 120 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social conhecemos os técnicos aqui do concelho e nós costumamos dizer “somos sempre os mesmos que vamos a tudo”… Através da Rede Social e da CPCJ acabamos por conhecer os técnicos da Segurança Social, do Centro de Emprego, da área da saúde, da educação... (…). Com os privados, basta nós dizermos que temos uma festa e que precisamos de ajuda que dão-nos de tudo, basta pedirmos e ajudam-nos a todos os níveis. Por exemplo pastelarias, hipermercados (…) e depois há aqueles privados a nível nacional que fazem a responsabilidade social e depois vêm fazer intervenções nos nossos equipamentos». No mesmo sentido, o entrevistado em representação de uma autarquia local de uma outra zona pouco populosa e relativamente isolada diz que: «Uma coisa muito simpática que acontece a seguir é que, independentemente do berço da ideia, as entidades que rodeiam acarinham e estão ao lado com a mesma força e empenho como se fossem ideias delas. Eu acho que isso acontece praticamente em todos os casos, porque de facto as parcerias são parceiros, vestem mesmo a camisola. Em [nome da localidade] as parcerias são do início ao fim e lutam sempre. E são uníssonas naquilo que fazem, têm uma só voz e eu acho que isso é muito importante, faz muita diferença». Assim, nos contextos populacionais de reduzida dimensão, a natureza dos laços sociais característicos de uma solidariedade de cariz orgânico robustece as relações sociais e a entreajuda potenciada por fortes relações de vizinhança, promovendo-se deste modo o colectivo. Estas parcerias informais promovem também a circulação de técnicos e utentes pelas instituições e pelos territórios. Não surpreende, portanto, que o carácter informal das parcerias estabelecidas seja objecto de apreciações explícitas e positivas, como aqui, nas palavras do representante de uma associação de desenvolvimento local: «A maior parte das parcerias que temos são informais, não precisamos de assinar protocolo nenhum e elas são altamente funcionais, altamente funcionais». Existem também, contudo, perspectivas dissonantes destas: algumas acentuam o facto de muitas das parcerias serem excessivamente pessoalizadas e, consequentemente, demasiado dependentes das pessoas que num dado momento desempenham funções, ocupam cargos ou lideram processos; outras enfatizam a componente da competição entre instituições parceiras ou potencialmente parceiras. Como diz o representante de uma IPSS: «Acho que as instituições (…), em vez de se unirem e trabalharem um determinado problema (…) e fazer uma candidatura conjunta ao projecto (…). O que se tem assistido é que cada instituição faz uma candidatura para o projecto com o mesmo objectivo (…) a nível dos projectos [há] um pouco de individualismo, 121 Tiago Neves (Coordenador) não é? O que depois prejudica a comunidade, porque muitas vezes acabam por ser todos reprovados e quem se prejudica é a comunidade que se calhar está a precisar daquele recurso para colmatar algumas necessidades». O representante de uma agência de desenvolvimento local aponta de modo mais claro para dificuldades na conjugação de interesses e poderes locais: «As parcerias são difíceis porque dentro do concelho ainda há uma cultura de parceria difícil, pela sensação de concorrência, de que estamos a meter o pé nas competências de outros… Às vezes perdem-se oportunidades por não se conseguir trabalhar esta dimensão tão bem quanto seria desejável. Mas depois se avançamos sem envolver as pessoas corremos o risco… Às vezes tentamos e em algumas até se consegue, mas às vezes anda-se ali tanto tempo no cozinhado que quando é preciso que o prato apareça feito, já esturrou, já passou o prazo. Aquilo que surte melhor connosco é quando o projecto não depende de aprovações locais». As questões da competição e da cooperação são indesligáveis dos modos de participação dos parceiros, tema que constitui o item seguinte desta análise. •A participação. A participação nos processos de concepção, operacionalização e avaliação das parcerias promove o sentimento de controlo e autonomia e, nessa medida, constitui um elemento central da intervenção para a mudança. Não constitui surpresa, portanto, que seja também um elemento central do discurso dos entrevistados. Existem, contudo, diferentes modos de conceber, operacionalizar e avaliar a própria participação; esse é o tema das páginas seguintes. Com base nos dados recolhidos importa, em primeiro lugar, distinguir entre a participação de instituições e a participação dos cidadãos e comunidades. Se no primeiro caso a percepção generalizada é a de que inércia e activismo convivem lado a lado, existindo alguma participação nos processos de concepção, planeamento e avaliação das intervenções, no segundo é mais frequente que essa participação não ocorra ou se desenvolva de acordo com padrões particulares: o cidadão-relator, que essencialmente comunica necessidades, desejos e apreciações; o cidadão-voluntário, que apoia a realização de actividades específicas; cidadãoprodutor/consumidor, que usufrui dos produtos finais da intervenção, para os quais também contribuiu; o cidadão-responsabilizado, que deve procurar demonstrar ser merecedor das intervenções que lhe são dirigidas. Sem pretender produzir demasiadas interpretações neste momento, dir-se-ia que qualquer um destes padrões encontra-se associado a formas mais ou menos mitigadas de participação. O excerto que se segue ilustra a oscilação entre participação activa e inércia: 122 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social «Houve alguma partilha e depois a discussão do próprio plano [de acção] com todas as instituições daqui da freguesia. E posteriormente, quando já estávamos a desenvolver as acções, foi feita uma reunião com todas as instituições, em que se fez o ponto da situação. A partir de Agosto entrámos na crise do vazio…». Este excerto aponta também para o carácter relativamente débil da participação das instituições nas parcerias: «Assim, geralmente, para cada reunião nós temos uma agenda mais ou menos pensada, mas é sempre no objectivo de os auscultar [aos parceiros] e, sobretudo, tentamos sempre dividir as responsabilidades, ou seja, que sejam os outros parceiros a assumir algumas responsabilidades e temos conseguido, algumas actividades, algumas iniciativas, temos conseguido que eles assumam. (…) Conseguimos grandes mudanças e as pessoas confiam, delegam, e acham que nós fazemos um bom trabalho e também não há muito acesso, (…) há determinados meios em que não há muita sensibilidade para a participação, mas um ou outro parceiro vai aderindo e vai às vezes assumindo responsabilidades (…)». Já naquilo que se refere à participação de cidadãos e grupos informais, a sua participação pode consistir, de acordo com os entrevistados, no preenchimento de inquéritos ou na resposta a outras formas de auscultação que procuram conhecer as suas necessidades e/ou desejos. Num ensaio de tipologia, dir-se-ia que estamos perante o cidadão-relator. Veja-se este exemplo: «Aqui [a população idosa] entra quase desde o início do processo. No âmbito do Plano [nome do plano], primeiro enquanto população inquirida, no sentido em que houve um diagnóstico e que foi chamada à participação, na análise, no debate e na reflexão sobre os temas postos à discussão ou eventualmente os projectos nos quais participaram (…). E depois nos projectos e nas actividades de que usufruem como participantes». Neste contexto assumem especial relevo os orçamentos participativos implementados pelas autarquias: «(…) enquanto existir uma política de cima para baixo, que é o que existe, não vamos muito longe. Ou se encontram a meio, ou os de lá de cima vêm ouvir o que se quer aqui, para depois se poder tomar as decisões em consonância. E isso foi feito em [nome da localidade], o orçamento participativo é exemplo disso mesmo. A Câmara tem um orçamento. Desse bolo de 100%, cerca de 60% é para despesas e os restantes 40% são para aplicar naquilo que depois nós vemos acontecer, para investimento no concelho. Com esses 40%, na altura de decidir onde fazer o quê, a Câmara abriu as portas, veio cá para fora, reuniu com a população…Isto é um passo gigantesco». 123 Tiago Neves (Coordenador) O voluntariado, concretizado essencialmente no apoio à realização de actividades, é indicado por alguns/algumas dos/as entrevistados/as como um modo relevante de participação. O próprio voluntariado, contudo, depende em boa medida do estímulo das instituições, como se vê aqui: «O voluntariado é já um instrumento que nós criámos para envolver… Porque também começamos a perceber… existe já alguma camada da população, alguns grupos populacionais que já têm uma disponibilidade para participar em iniciativas locais e que o fazem. E podíamos nós também estimular já não na resolução do problema, mas na ajuda, na participação social. Um bocado reforçar as redes locais de solidariedade (…)». E também aqui: «É o voluntariado, por um lado, e por outro lado a acção vocacionada para através de nós ser criada uma associação de mulheres. Estamos em crer que o voluntariado será aqui um veículo até inclusive de sustentabilidade para integrar soluções de combate ao isolamento e à vulnerabilidade da substancial população idosa que temos (…)». O contributo para as actividades e serviços disponibilizados é indicado como uma outra forma de participação dos cidadãos e dos grupos comunitários: «É [uma iniciativa anual organizada pela] Câmara Municipal com o rancho de [nome da localidade]. Nós participamos em três dias: sexta, sábado e domingo. É na praia, junto ao molhe, e tem várias barraquinhas de instituições tipo clube de futebol e associações daqui (…). E nós temos a barraquinha do Centro de Dia, conseguimos, e uma do banco alimentar. Na nossa do Centro de Dia fazemos, vendemos licores, bolos feitos aqui pelas nossas funcionárias, compotas feitas aqui também, é tudo feito aqui – só os licores é que não são. Cestas que são feitas pelas nossas idosas. Fazemos queijo de figos, também é típico, e depois pomos nas cestas com umas florzinhas e vendemos também. Depois angariamos dinheiro e esse dinheiro é para as actividades do Centro e para os nossos passeios. Essa parte é só café, bolinhos, compotas. Na parte do banco alimentar é comida e bebida. É uma forma de angariar, durante 3 dias». Uma derradeira categoria neste ensaio de tipologia de cidadãos-participantes é a do cidadão-responsabilizado: «Nós não deixamos de apoiar, apoiamos mas as instituições e as pessoas têm que dar um retorno para toda a gente. Por exemplo, um grupo de teatro quer um apoio financeiro para uma determinada iniciativa que pretendem fazer. Nós damos esse apoio financeiro, mas eles têm que dar uma contrapartida. Eventualmente um, dois ou três espectáculos gratuitos no nosso auditório para toda a po124 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social pulação, fazer um teatro de rua, etc. Nós tínhamos, por exemplo, uma instituição de solidariedade social em que as pessoas iam buscar os alimentos que vinham do Banco Alimentar e as pessoas da instituição é que tinham que ter o trabalho de ir buscar, carregar a carrinha, levar para a instituição, descarregar, arrumar tudo direitinho… E as pessoas iam só lá buscar. Quando havia mais dificuldade e não havia pessoal, eles deixavam as coisas mais a monte e no fim do dia era lixo por todo lado e eram as pessoas da associação que tinham que ir limpar. A sugestão da Junta foi fazer uma escala das pessoas que recebe para irem ajudar a buscar as coisas ao Banco Alimentar, ajudar a organizar a distribuição e uma equipa para a limpeza. Portanto, obrigar as pessoas a entenderem que não lhes pode ser tudo dado, elas também têm que dar alguma coisa. Eu acho que o Estado devia obrigar todas as pessoas que recebem aqueles complementos solidários a dar horas de trabalho comunitário». O excerto acima apresenta a tese de que o apoio social deve ser disponibilizado como contrapartida por um determinado tipo de comportamento. Tratar-se-á portanto, nesta perspectiva, de um direito condicional. Esta tese surge recorrentemente acompanhada da ideia de combate à chamada subsídio-dependência. Para concluir a análise da participação nas parcerias é necessário referir que um leque alargado de instituições apontou explicitamente para a existência de dificuldades nos processos de participação. Essas dificuldades assumem várias formas, sendo que a mentalidade individualista e competitiva é uma delas: «A maior dificuldade que tivemos foi sentar os parceiros todos à mesma mesa, porque cada um tem sempre a noção da sua casinha, entre aspas, eu diria que é quase uma mentalidade de minifúndio». Uma ideia similar parece ser expressa aqui, de modo mais desenvolvido: «À população é sempre mais difícil chegar. Eu acho que, de uma maneira geral, isso é um grande problema da sociedade portuguesa. As pessoas estão cada vez mais alheias aos processos de desenvolvimento e tudo mais. É muito complicado mobilizar as pessoas, a não ser que surjam às vezes situações que saem fora dos assuntos normais, algo que preocupe muito as pessoas, ou relativamente aos filhos. Aí já é mais fácil. Agora, chamar as pessoas para participarem na vida da sua comunidade, para pensarem a intervenção que se deve fazer…é muito complicado. Nós continuamos sempre a tentar, através de acções de sensibilização e informação que vamos fazendo. Mas é difícil, porque as pessoas estão muito centradas no individualismo e pouco preocupadas com o colectivo». Esta situação traduz-se também na articulação inter-institucional: «Continuamos a envolver as pessoas mas temos uma iniciativa própria. Envol125 Tiago Neves (Coordenador) vemo-las na concepção e na dinamização, mas não depende delas directamente a decisão de avançar. Notamos que se a questão operacional estiver centrada em nós é melhor, o que é uma pena, porque conseguiríamos trabalhar bem com outra lógica. Há coisas que podemos tentar passar e partilhar, mas as instituições têm elas próprias que criar alguma cultura de parceria para poder entrar na lógica». Noutras situações será a própria urgência das intervenções que impede uma participação mais sólida e aprofundada: «(…) por vezes seria desejável [a participação] no sentido de que tudo seja partilhado, discutido com eles, que muitas vezes não é assim por iminência da rapidez com que é necessário as coisas serem feitas, e muitas vezes não permite que haja tanto essa auscultação da opinião de todos e que sejam negociadas como deveriam. Noutros aspectos procura-se auscultar a opinião deles naqueles aspectos mais práticos (…)». Por vezes a dificuldade reside precisamente em conseguir a participação daqueles que mais dela beneficiariam: «Palestras já temos feito, temos dificuldades, quer dizer… Mas há um grosso de pessoas que vem, percebe, quando eu lhe digo que tenho dificuldade em trazer os pais à escola são os que mais precisam de vir. (…) São as tais famílias que precisavam de mais apoio e de ter um contacto mais íntimo connosco (…) e que pura e simplesmente viram costas, ora o problema é esse». Reforça-se também a ideia de que a existência de uma Rede Social não é garantia de parcerias dinâmicas: «De modo conhecido e formal, apenas a Rede Social se assume como fórum de participação local onde estão representadas cerca de [número de] entidades de diversas proveniências. O grau de participação das entidades e a sua proactividade não é, no entanto, muito visível. Tal participação poderá ser estimulada a partir do momento da criação de grupos de trabalho». Antes de dedicar uma atenção particular ao tema das Redes Sociais, dispositivo que se pretende central na geração e desenvolvimento de parcerias participadas, uma brevíssima nota sobre um outro elemento relevante na caracterização das parcerias, que é o seu: •Âmbito territorial. Sendo certo que, quase por definição, a maioria das parcerias desenvolvidas no âmbito da acção local no combate à pobreza e à exclusão social é de âmbito local, é possível encontrar um leque relativamente amplo de parcerias de âmbito supra-concelhio, por vezes mesmo transnacionais. Assinale-se que, nos concelhos menos populosos e mais isolados, a concretização de parcerias 126 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social supra-concelhias afigura-se particularmente importante para encontrar recursos que possam dar resposta às necessidades locais. •O papel das Redes Sociais. As Redes Sociais, em implementação desde há cerca de uma década no território nacional46, configuram-se geneticamente como instituições de e para parceiros. Visando a consciencialização colectiva, a congregação de esforços e a optimização dos recursos e das intervenções, pretendem ser dispositivos centrais no processo de combate à pobreza e à exclusão social. Numa das entrevistas, este papel das Redes Sociais é sintetizado da seguinte forma: «A constituição e dinamização da Rede Social é por si só uma forma de promover parcerias. Tal facto esteve marcadamente presente através da metodologia usada para a elaboração do Diagnóstico Social e na metodologia a aplicar na elaboração do Plano de Desenvolvimento Social». Em virtude do papel que lhes é atribuído, e também porque essa importância é explorada nos discursos dos entrevistados, as Redes Sociais merecem destaque nesta análise das parcerias. Considerem-se, em primeiro lugar, as suas potencialidades. Desde logo, as Redes Sociais podem contribuir para as instituições adoptarem uma atitude mais cooperativa e menos individualista: «De certa forma, com essa parceria [a Rede Social] as instituições ficaram menos individualistas. Ou seja, coisas que somente elas faziam, passaram a não fazer. E o nosso cliente também perguntou porque é que antes fazíamos e agora não fazemos. E eu expliquei que agora estamos numa Rede e há coisas que nós fazemos e há outras coisas que temos que indicar para outras instituições fazerem». As Redes Sociais podem, do mesmo modo, possibilitar uma organização mais eficiente das intervenções. Na opinião de alguns/algumas dos/as entrevistados/as, elas facilitam o cruzamento de dados e o controlo dos beneficiários, obstando desse modo à duplicação das ajudas: «(…) é muito importante a Rede Social porque nós partilhamos informações. Através dessa Rede (…) usamos as informações e vemos que às vezes uma mesma família vai aos bombeiros, vai à Junta, vem ao [nome da instituição], vai à Misericórdia. Às vezes eram um excesso para algumas pessoas. E então foi muito útil esta parceria». A pertinência das Redes Sociais chega mesmo a apresentar-se como uma 46 As Redes Sociais foram criadas na sequência da Resolução do Conselho de Ministros n.º 197/97 de 18 de Novembro, constituindo o Decreto-Lei n.º 115/2006 de 14 de Junho o instrumento legislativo que, alguns anos após o início do período experimental das Redes Sociais, procurou introduzir uma harmonização tanto dos modelos de funcionamento como dos processos de planeamento. 127 Tiago Neves (Coordenador) evidência, tais as suas potencialidades: «A Rede de [nome da localidade] é importantíssima: desde a primeira hora que nós somos parceiros da Rede Social e é importantíssimo (…) porque no fundo a Rede Social (…) é tentar trazer as associações a explicarem os problemas que têm e tentar resolver os problemas que há e (…) os projectos que são precisos no concelho, discuti-los e ver quem tem capacidade para o desenvolver. (…) Só diz mal da Rede Social quem não percebe o projecto da Rede Social. É a convicção que eu tenho e que analiso porque desde que tenhamos uma Segurança Social numa Rede Social, desde que tenhamos Instituto de Emprego numa Rede Social, aonde estejam todas as associações, Juntas de Freguesia e Câmara Municipal, pá… Por amor de Deus, quer dizer… É uma coisa fundamental porque quando se está a discutir um projecto (…). Espera aí: este projecto já há nesta freguesia, porque é que vai ser feito ali? Vamos ver o que é que é preciso para se fazer na [outra localidade]». Na mesma linha, um dos entrevistados aponta para transformações de base que podem ser trazidas pela Rede Social: «(…) a Rede Social, que neste momento é também uma parceria, (…) implica naturalmente aqui uma revisão e uma alteração do posicionamento da acção conjunta». A concretização das potencialidades das Redes Sociais surge associada, no discurso dos/as entrevistados/as, a factores como a autonomia das instituições e dependência da Rede Social face à autarquia, assim como à participação dos parceiros. Naquilo que se refere à autonomia das instituições e dependência da Rede Social face à Câmara Municipal, reconhece-se frequentemente que as instituições, ao integrarem a Rede Social, podem perder alguma da sua autonomia em favor de uma concertação das intervenções: «Sim, nós, em [nome da localidade], está concertado que nenhuma instituição pode ter iniciativa ou projectos de forma isolada. Ou seja, há os vários grupos, no âmbito da Rede Social, em que as iniciativas, algumas são sugeridas pela autarquia, outras nós propomos que seria importante ter uma iniciativa e depois vemos dentro do concelho. (…) É uma questão de vermos em conjunto se é oportuna, ou não, essa iniciativa». Mais recorrentemente, e muitas vezes de modo enfático, é assinalada a dependência da Rede Social – e dos parceiros – em relação à autarquia: «Apesar de [nome da localidade] inclusive ter a Rede Social, há vários parceiros que fazem parte da Rede Social e a verdade é que… não digo que não haja uma ou outra situação em que os parceiros possam resolver, mas a maior parte das vezes, se calhar 90 128 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social ou 95% das vezes, ou mais, as situações vêm parar à Autarquia. (…) É precisamente isso que acontece: são mais os parceiros que vêm à Câmara Municipal pedir para lhes ajudar a resolver os problemas, começando por parceiros da Rede Social como Juntas de Freguesia, como outras instituições… No fundo é a escola, até o próprio Centro de Saúde, quando existe alguma coisa são elas que vêm ter com a Câmara Municipal para resolver». Em concelhos pequenos esta situação sente-se de modo particularmente intenso: «Eu digo-lhe sinceramente, eu não separo uma coisa da outra. Para mim, isto é o trabalho da Câmara e é o trabalho da Rede. Porque de facto o que é a Rede em si? Se não fosse a Câmara, a Rede não existia. No fundo, o trabalho da Câmara é o trabalho da Rede. Acho que eles fundem-se um no outro porque (…) não podemos dissociar». Esta fusão traduz-se num acréscimo do poder das autarquias, que passam a dirigir um órgão coordenador da intervenção social que facilita a legitimação de decisões: «Tínhamos um projecto de combate ao insucesso escolar. Penso que é um flagelo, uma chaga autêntica nesta terra, foi sempre (…). Tínhamos um projecto (…) e os outros parceiros lá da [nome da instituição] iam liderar, numa (…) daquelas escolas primárias desactivadas que a Câmara anterior nos tinha cedido para esse projecto. A Câmara actual retirou-nos essa escola, para dar a uma outra organização, por questões políticas, sem pés nem cabeça.». A politização das Redes Sociais, acompanhada de uma forte dependência dos parceiros relativamente à autarquia, facilitada por uma organização piramidal da representação dos parceiros, corresponde a um ponto crítico no funcionamento da Rede Social. Esta questão é objecto de uma reflexão pormenorizada por parte de um dos entrevistados: «Se não houver autonomia as parceiras são uma subjugação, não são parcerias nenhumas. Se é preciso um donativo da Câmara para fazer não sei o quê, então que autonomia tem a instituição para afirmar o seu papel? (…) Só entendia que houvesse uma parceria quando cada um tivesse um papel. Qual é o papel da Câmara Municipal? São 3 coisas: financiadores da actividade, são (…) parceiros, e também promotores de serviços. O que acontece depois é que quando a Câmara actua mal aqui como prestadora de serviços, e como ela também é financiadora, as instituições estão incapacitadas de dizer que ela está a fazer algo de mal. Porque algumas têm receio de criticar de forma construtiva, porque depois são mal interpretadas. Esta situação é complexa. Quando chegou a Rede Social (…) o que é que aconteceu? Politizou-se. Se uma pessoa não tiver capacidade de se auto-determinar, quer seja pelo trabalho que 129 Tiago Neves (Coordenador) faz, quer seja pela forma de se auto-financiar, fica sempre dependente. Depois ainda há a “capturação” política, porque depois quem manda não são as instituições, é o Conselho Executivo (…). Não há um trabalho de parceria, o que existem são projectos de parceria. Não há aqui neste concelho nem noutro, ainda não chegámos lá. Porque enquanto não houver uma independência e autonomia das instituições não podemos falar nisso. (…) O que é o trabalho de parceria por representatividade? É zero, vale zero. Eu tenho 200 instituições parceiras, aqui na nossa zona temos umas 10 ou 15, e nomeamos uma pessoa que vai à reunião de CLAS. O CLAS já tem para aí 50, e já é uma representação de uma representação. Depois o Concelho Executivo é uma representação de uma representação que é o CLAS, que depois no dia-a-dia estão juntos e são aqueles 5 ou 6. [A] representatividade afasta toda a gente da Rede. Há uma parceria mas é suposta. Uma parceria entre 200 pessoas, isso não faz sentido, é uma parceria mas é entre 3 ou 4. Estamos a criar uma Rede mas não é em pirâmide. Faz sentido um país pobre como o nosso ter infantários vazios, e depois temos uma Rede Social com CLAS e não sei o quê? Isto não faz sentido nenhum!». Contraste-se o discurso acima com aquilo que é referido pelo representante da autarquia em causa: «Eu acho que é uma vantagem os outros parceiros perceberem que nós somos tão importantes como eles porque cada um dá aquilo que pode e aquilo que tem. Acho que isso foi um segredo desde a primeira hora. (…) Lembro-me de que quando surgiu a Rede Social alguns municípios chegaram a acusar que a Rede Social estava municipalizada, porque habitualmente era o Presidente da Câmara que era o Presidente do Conselho Local de Acção Social. Nós tivemos sempre o cuidado de não municipalizar a Rede Social. Esta partilha e abertura de toda a gente foi o segredo da proximidade». Perspectivas muito divergentes sobre o mesmo assunto emergem noutros momentos da análise dos dados e apontam para o carácter fortemente disputado daquilo que constitui a realidade do combate à pobreza e à exclusão. Incontestado é, contudo, o relevo que os entrevistados conferem ao tema da participação dos parceiros nas Redes Sociais. A qualidade e a quantidade da participação nas Redes Sociais mostra-se muito variável. Há casos em que ela é intensa e muito satisfatória: «Os parceiros são, eu acho que são participativos. O núcleo executivo reúne uma vez por mês. Pode reunir extraordinariamente se assim se justificar. O CLAS reúne 4 vezes por ano. Suponho, tenho que ver o regulamento. Tem meses certos para reunir. (…) Temos os eixos [de intervenção] e agora vamos fazer em termos 130 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social de plano de acção. Cada parceiro, dentro daqueles eixos, define para a concretização daqueles objectivos (…) quais são as acções e assume-as. Se não as concretiza, o que é raro, no CLAS, ao nível de execução daquela acção, justifica, no bom sentido da palavra, por que é que aquela acção ainda não foi concretizada. Cada um assume». A partilha de responsabilidades e a divisão de tarefas são elementos valorizados na participação: «No âmbito da Rede, de forma a que todos saibam os projectos que se está a pensar para que não haja [sobreposições]. No caso da formação, as entidades formadoras do concelho reúnem-se e as candidaturas que fazem a título individual são concertadas antes. Ou seja, [faz-se com] que cada entidade se especialize ou se especifique em formações que vão de encontro ao levantamento que existe do concelho, para cada área fazer formação específica e também de acordo com o cariz da instituição». Há casos em que a participação constitui em si mesma uma transformação: «Por exemplo, acho que o ponto que surgiu do trabalho da Rede (…) foi o envolvimento das juntas de freguesia (…) e das associações. Porque de facto hoje eles são nossos parceiros, e hoje trabalhamos em conjunto e auscultamo-los, ouvimo-los, eles dão a opinião deles e anteriormente isso não existia. É verdade. Não existia». Noutros casos, porém, a participação é reduzida na quantidade: «É assim: há uns que participam mas não é significativo face ao número de parceiros que temos. Nós temos parceiros que participam activamente, [especialmente] aqueles que estão nos grupos de trabalho. Na generalidade, não. Há muito poucas propostas». Noutros casos ainda, a participação parece ser reduzida essencialmente na sua qualidade, limitada a reuniões nas quais são sempre as mesmas pessoas que estão presentes. Esta situação é especialmente notória nos territórios mais pequenos e com menos recursos, designadamente recursos técnicos. «Pois, é muito difícil (…) isso que referiu: a mobilização. Por exemplo, na Rede Social, as pessoas que lá estão são as mesmas que estão no Conselho [Local de Acção Social] ou numa Junta de Freguesia ou numa Câmara, são quase as mesmas pessoas, (…) as pessoas são sempre as mesmas, são aquelas… (…). E às vezes estarmos a mobilizar para esta ou para aquela situação, as pessoas também se cansam, porque às vezes anda-se de reunião em reunião e às vezes as coisas não levam o caminho que se quer. Às vezes também há algumas que são mais chatas, há outras também que não… Pronto, é difícil a mobilização das pessoas (…) e nestes meios locais que haja pessoas com capacidade e disponibilidade para estarem à frente de certas 131 Tiago Neves (Coordenador) instituições. São sempre os mesmos». Assim, outro ponto crítico focado pelos/as entrevistados/as é a sobreposição de órgãos e estruturas ao nível da acção local (Rede Social, CLAS, etc.). Este facto, que se repercute na multiplicação de reuniões e num aumento das tarefas administrativas, constitui uma sobrecarga para as instituições e para os/ as técnicos/as (muito frequentemente existe apenas um/uma por instituição), conduzindo a uma diminuição da participação e a um descrédito na eficácia destes órgãos. Acresce ainda o facto de as parcerias serem actualmente um requisito da generalidade dos programas de financiamento. Daí resulta haver mais parcerias do que disponibilidade cultural para as acolher: «Hoje em dia muitas das candidaturas são majoradas pelas parcerias e isso (…), como critério de avaliação, automaticamente promove as parcerias. (…) As parcerias efectuam-se e o que está assinado depois na prática é feito, a colaboração faz-se, o que eu digo é que o âmbito de procura de parceria... é obrigatório para valorizarmos um projecto. (…). Mesmo que não haja parceria é pedida às vezes a colaboração da Câmara na cedência de umas pessoas, de um palco, na divulgação de eventos. (…) A Rede é criada por decreto e as associações se quiserem participam... mas em termos de estrutura e como as associações se posicionam tem muito a ver (…) com a questão cultural da dinâmica das parcerias em Portugal (…). Muitas instituições estão muito fechadas sobre si próprias e sobre o seu plano de actividades...». Assinale-se que a participação nas Redes Sociais apresenta variações significativas ao longo do tempo, com consequências ao nível das dinâmicas geradas, que variam também ao longo de um espectro alargado. Veja-se aqui: «Durante os dois primeiros anos, logo que terminou a fase financiada, penso que a dinâmica da Rede acabou por diminuir um pouco, o que é inevitável em qualquer projecto destes. Já não se sente aquela obrigatoriedade de se ter que apresentar os documentos de quando estamos a ser financiados e o controlo é muito maior. E da parte dos parceiros também se nota que ao longo dos anos: a participação e a motivação vão decrescendo». Por vezes, a actividade das Redes Sociais reduz-se com o passar do tempo, passando a centrar-se essencialmente na produção de pareceres, tornando-se eventualmente necessário recorrer a apoios exteriores para tentar vencer as dificuldades: «Entrevistado – Neste momento temos uma empresa uma prestação de serviços (…) que vai tentar redinamizar a Rede Social. Mas ainda está no início do trabalho. No início… Entrevistadora – Portanto vocês contratualizaram (…) com essa empresa (…). 132 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Entrevistado – É uma prestação de serviços. (…) A Câmara não assumiu esta tarefa sozinha. Não é a única, temos outros casos no país». As Redes Sociais são igualmente objecto de um conjunto de críticas que se procura aqui organizar nas suas principais categorias. Algumas das críticas centram-se no défice de recursos disponíveis, designadamente recursos humanos tecnicamente capazes de sustentar as exigências conceptuais, analíticas e de planeamento das Redes Sociais. Este problema é particularmente agudo nos concelhos pequenos, rurais e pouco populosos: «Uma carência que existe nos Conselhos Locais de Acção Social, nas Redes e nos grupos executivos é a de produzir competências na área do planeamento social. Se nós formos ver a qualidade dos instrumentos de planeamento autárquico, planeamento social das Redes (…) eles são muito fracos (…). Isso revela ausências de competências, inclusive fragilidades conceptuais, fragilidades do ponto de vista do domínio daquilo que são as dimensões-chave e dos respectivos indicadores, variáveis, etc.». A adesão ao princípio da realidade regulamentar em detrimento da realidade empírica, frequentemente como reacção adaptativa a imposições legais, é um outro eixo das críticas: «Depois a Rede social existe mas não tem... Aliás, há muitas situações dessas. Por exemplo, há uma comissão das florestas, que tem competências, mas depois não tem meios, não está assegurada juridicamente, não existe. A Rede é assim. Estão lá previstas competências da Rede e do Conselho Local e disto e daquilo, mas os recursos estão sempre dependentes da Administração Central ou [do] Presidente da Câmara». Estas descoincidências entre aquilo que as Redes Sociais definem e aquilo que elas são encontram-se também na eventual desadequação dos regulamentos escritos e dos programas a implementar à situação concreta, devendo salientar-se que as diferenças entre o mundo rural e o mundo urbano podem potenciar essa desadequação: «[Uma] das coisas que eu critiquei na altura: pediram a [uma cidade no interior Centro] (…) os estatutos e toda a orgânica da Rede Social que já lá estava implantada para, baseados na de [cidade do interior Centro] fazerem a de [nome da localidade]. Não pode dar, é impossível. Que é que tem [a cidade no interior Centro] a ver com [nome da localidade]? Literalmente nada. Uma é uma cidade de interior, a outra é uma cidade marítima. Aliás, o estilo de vida de [nome da localidade] é completamente outro, não tem nada a ver uma coisa com outra. As realidades familiares, sociais, são outras. São outras, só para quem não quer 133 Tiago Neves (Coordenador) ver». De uma forma breve, as Redes Sociais são criticadas por mudar mais no papel do que na prática: «[A Rede Social] Poderia ser importante. Porque ela não funciona. É uma imposição legal, há as reuniões do CLAS, são apresentados os projectos (…) e aquelas coisas todas, mas, depois disso, sinceramente não se sente que o facto de estar na Rede Social traga, seja uma mais-valia, traga outra informação, outras práticas… Poderia ser importante…». A já referida dependência excessiva das Redes Sociais relativamente às Câmaras Municipais é inegavelmente uma das críticas relevantes que surgem no discurso dos/as entrevistados/as. Esclareça-se, contudo, que este não é um problema apenas para as instituições locais: há Câmaras Municipais que também o sentem: «As principais dificuldades passam (…) pela falta de entidades, pela colagem um pouco da ideia de que a Câmara deve ser a entidade promotora, de que a Câmara é que tem o dinheiro, a Câmara é que tem os técnicos, a Câmara é que tem o know-how, portanto, à partida a Câmara é que deve conduzir estes processos». Por fim, para além de a participação dos parceiros institucionais constituir um objecto de crítica, o facto de as populações e comunidades ficarem generalizadamente à margem da participação nas Redes Sociais também merece saliência: «Eu falo na participação da população: é sempre uma participação como destinatários finais. A população não é auscultada, não há fóruns de debate, não há essa promoção dessa [participação]». Para além das propostas que de algum modo estão implícitas ou subsumidas nas críticas, alguns entrevistados apresentam propostas concretas no sentido de melhorar o funcionamento das Redes Sociais. Há quem indique a necessidade de reforço das equipas técnicas: «Eu acho que a Rede Social é demasiado teórica. (…) No fundo, aquilo que a Rede nos exige é uma série de documentos teóricos, que é óbvio que são essenciais, e o planear – de facto nós fazemos esse planeamento. Mas acho que o que vem da parte da Rede Social são demasiados instrumentos de trabalho e demasiados documentos, que acabam por tirar tempo à acção. E se calhar os grandes concelhos até têm tempo para esse tipo de planeamento e recursos que lho permitam. Agora, os pequenos concelhos têm as pessoas aqui todos os dias com os seus problemas, aos quais têm que dar resposta, e não têm recursos humanos, nem esses recursos têm tempo para se dedicarem tanto a esse planeamento e à teoria que a Rede exige quando têm uma prática e uma acção que exige actuação naquele momento. (…) Eu acho que a Rede Social deveria dar, para querer tanto documento, deveria dar recursos huma134 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social nos. Não: deu no início e agora cada um que se desenrasque. Porque nem todos os municípios têm condições para suportar um técnico a tempo inteiro na Rede Social quando têm imensas necessidades. E com a crise que estamos a atravessar hoje em dia, mais complicado se torna». E há quem sugira a diversificação das fontes de financiamento: «A Rede Social (…) no processo de implementação devia ganhar uma energia e uma dinâmica para os diferentes parceiros assumirem os encargos com a Rede Social. Não só a Câmara. Os diferentes parceiros. E, nesse sentido, não seria necessário apoio financeiro exterior. (…) A outra parte que eu referi é a ausência de programas, de apoios, de financiamentos a iniciativas locais, municipais, autárquicas ou não, de apoio social. Portanto, são as duas situações… Não sei se me fiz entender…». A diversidade de perspectivas sobre os princípios, objectivos e funcionalidade da Rede Social recolhida ao longo do trabalho empírico, não pondo em causa a importância desta entidade para gerar dinâmicas e sinergias ao nível da acção local parece, contudo, merecer uma atenção particular no sentido rever alguns pontos críticos ilustrados nos depoimentos recolhidos. 5.4. Metodologias/estratégias de intervenção A análise das entrevistas realizadas a diferentes instituições permite identificar uma diversidade de intervenções de acção local no combate à pobreza e à exclusão social. Como salientado no Capítulo 4, tendo por base o referencial teórico no âmbito da caracterização da intervenção social, foram definidas duas grandes categorias agregadoras de tais intervenções: a acção assistencial e o desenvolvimento comunitário. Foi também assinalado nesse momento que, embora estas duas grandes categorias de intervenção constituam um recurso para aprofundar a compreensão dos dados empíricos, reconhece-se que os/as entrevistados/as caracterizam as situações sociais sobre as quais intervêm como multidimensionais e multiproblemáticas. Nessa medida, não é fácil encontrar nos seus discursos modelos puros, sejam eles do tipo assistencial ou de desenvolvimento comunitário. 5.4.1. A acção assistencial A acção assistencial traduz uma ajuda directa, seja ela pecuniária ou em termos de bens ou serviços essenciais, a indivíduos em risco social. Tratandose aqui essencialmente do reforço de práticas eminentemente tradicionais em Portugal, deve-se contudo realçar que elas não significam necessariamente a 135 Tiago Neves (Coordenador) rejeição de práticas inovadoras em resposta aos novos riscos sociais; é possível, portanto, uma abordagem de acção assistencial incorporar elementos de novas respostas sociais. As novas configurações dos problemas sociais conduzem as instituições a organizar estratégias e respostas diversas. Não é contraditória, portanto, a assumpção de uma perspectiva que entende a intervenção de forma mais tradicional com a integração de focos inovadores. Entre as práticas que evidenciam aquilo que se enquadra na categoria acção assistencial salienta-se, desde logo, a ajuda prestada por instituições diversas – associações, instituições religiosas, fundações, etc. – a indivíduos em risco social. Trata-se aqui, fundamentalmente, de intervenções que assentam numa lógica imediatista de apoio e resposta a situações de emergência e/ou de resolução de carências em termos das necessidades básicas: «Nós estamos atentos às necessidades. Também nos procuram, e cada vez mais, porque temos uma população envelhecida. E depois temos os casos urgentes. Dificilmente negamos apoio a quem está a necessitar». No mesmo registo, uma outra instituição refere o seguinte: «Quer dizer, estamos abertos a todas as pessoas que necessitem do nosso auxílio. Seja quem for. Aparecem aí pessoas do nada, que necessitam de alimento.Nós correspondemos a tudo o que nos pedirem». Neste contexto, o apoio ao nível alimentar assume especial relevo. Veja-se, por exemplo, aqui: «O Banco Alimentar contra a Fome e o Programa de Apoio a Carenciados (…) são duas formas de prestar apoio às populações mais necessitadas». E aqui: «[apoiamos] Os alunos mais carenciados, que para além do almoço e dos livros, passaram também a ter direito ao pequeno-almoço e lanche na escola». Para além do apoio ao nível da alimentação, é frequentemente referida a cedência de instalações para que as pessoas possam fazer a sua higiene pessoal (balneários, lavandaria, etc.), o apoio ao nível do vestuário, de medicamentos, e também contributos pecuniários para que as famílias consigam garantir o pagamento das contas da água, luz e renda de casa. «Tentamos sempre fazer este acompanhamento o mais próximo possível e tentamos sempre, dentro dos recursos da própria instituição, dar resposta às necessidades concretas da família. Isto é, temos os apoios mais regulares e depois, tendo em conta até os problemas que a família nos vai colocando, vai colocando aos técnicos no nosso atendimento social, tentamos saber junto da direcção em que medida é que a instituição pode apoiar. E estamos a falar também de novos tipos de neces136 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social sidade, falamos da renda, da água, da luz, do gás, de alguma prótese necessária, já tivemos apoio em óculos, medicação mais específica». Constata-se o privilégio concedido a uma intervenção de proximidade que visa conhecer e caracterizar a situação real da pessoa e/ou do agregado familiar. Esta intervenção é feita através dos gabinetes de atendimento social, das visitas domiciliárias, da articulação inter-institucional para troca de informação e elaboração de relatórios/processos sobre a situação socioeconómica das famílias (a composição do agregado, a situação profissional das pessoas do agregado, o seu rendimento, as suas condições de habitação, etc.): «Nós normalmente tentamos primeiro ver qual é o tipo de agregado familiar, perceber qual é a problemática da família, tudo. Porque quando um agregado familiar vem até nós, muitos deles vêm, pronto: este é o último recurso. Ao nível da alimentação porque a alimentação é um bem.... E depois há outro tipo de utentes que vêm porque sabem que daqui podem conseguir algo e há os mesmo necessitados. Nós temos que tentar perceber quem são as famílias que necessitam mesmo. Portanto, existem as visitas domiciliárias, existe o atendimento e acompanhamento dessas famílias. Numa primeira fase é feito o atendimento, é pedida toda a documentação do agregado familiar e [tenta-se] perceber porque é que vêm pedir ajuda à instituição. Depois, se a instituição não puder dar resposta… Porque quando a pessoa vem pedir a alimentação, depois há outros problemas: alcoolismo, toxicodependência, n problemas. Depois precisamos de todas as declarações de como o agregado está a dizer a verdade porque nós deparamo-nos no dia-a-dia com bastantes mentiras». Como se constata, o trabalho de proximidade e de articulação inter-institucional que as organizações enfatizam funciona também como um mecanismo de controlo social, permitindo detectar se os indivíduos em situação de risco estão a usufruir, em simultâneo, da ajuda de diferentes instituições e, portanto, detectar eventuais fraudes cometidas pelos beneficiários (e potenciais beneficiários) dos apoios: «(…) há um programa informático ligado à Segurança Social em que cada instituição tem de saber, dentro dos processos familiares que têm, os números de identificação da Segurança Social. Introduzindo no programa, este dá-nos logo um alerta que a pessoa está inserida numa outra instituição. Isto em termos de cruzamento de dados, de sabermos em que medida as pessoas só estão a ser apoiadas por uma instituição, é óptimo. Porque nós temos também que distinguir as pessoas sérias das menos sérias». Actualmente, as ajudas pecuniárias e/ou em bens acima referidas estão, também, disponíveis em “lojas sociais”. O facto de serem locais frequentados quer por quem oferece os bens quer pelos beneficiários desta ajuda é referido como elemento protector da privacidade. Um outro elemento mencionado é a sua localização discreta. 137 Tiago Neves (Coordenador) Contudo, parece não existir consenso relativamente às “lojas sociais”. Estas são consideradas como estigmatizantes por algumas instituições. «Há quem faça esse apoio através de lojas sociais mas isso não é uma resposta porque as pessoas estão psicologicamente derrotadas, ou porque está desempregada, ou porque teve um problema na vida não se vai expor numa loja dessas para ir buscar bens alimentares porque tem a sua auto-estima (…)». As visitas domiciliárias constituem uma prática frequente e são generalizadamente consideradas relevantes para a concretização de um trabalho de proximidade que permite conhecer a realidade e a dimensão dos problemas. São consideradas centrais para desenvolver um trabalho de prevenção, evitando situações extremas como, por exemplo, os internamentos em lares. «E às vezes também temos que ir visitar as casas para ver as condições, porque só falar às vezes não chega». Os gabinetes sociais onde é realizado o atendimento desempenham um papel importante na divulgação de informação relativa aos direitos e deveres ao apoiarem as pessoas em risco social, agilizando o encaminhamento para outras instituições, ao ajudarem no preenchimento dos formulários para obtenção de apoios sociais (Rendimento Social de Inserção, Complemento Solidário para Idosos, entre outros) e ao aceitarem reclamações relativamente aos processos em curso. Importa salientar que a localização destes gabinetes em espaços físicos segregados (bairros) pode ser vista como cumprindo uma dupla função: maior proximidade no atendimento; menor estigmatização desses locais ao obrigar à sua frequência pelos interessados: «Um factor também muito importante (…) é que estes gabinetes, em vez de estarem concentrados no centro, estão concentrados aqui neste edifício da comunidade. O que é que acontece? As pessoas de fora também têm de entrar no edifício, e isso ajuda a que as pessoas se envolvam neste bairro social, percam o preconceito e existe assim uma ligação deste bairro com a comunidade e as zonas envolventes». Por fim, deve referir-se que, face ao actual contexto de crise, muitas instituições reconhecem que o apoio de âmbito mais assistencial se impôs como uma necessidade, inclusivamente como uma vertente que precisa de ser reforçada: «Nós tínhamos um programa que era [de] medidas de apoio integradas de combate à pobreza, que fomos tendo ao longo de quase todos os planos de acção (…). E nesta época de crise foi sempre surgindo essa necessidade de apoiar. E passa por vários projectos, desde a atribuição de habitação social, de géneros alimentícios, da redução das tarifas do consumo de água por parte da Câmara, da criação de 138 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social uma loja social. Fomos sempre reformulando essa medida, porque infelizmente de ano para ano as coisas foram piorando com a crise». 5.4.2. O desenvolvimento comunitário. O desenvolvimento comunitário abarca uma larga amplitude de registos no campo da intervenção social. Se por um lado este facto dificulta a identificação precisa do foco das intervenções desenvolvidas, por outro dá conta de práticas que sentem a(s) comunidade(s) como ponto de partida na, para e com a intervenção local. Realçam-se aqui estratégias participativas de envolvimento dos indivíduos, tornando-se claro o objectivo das organizações na promoção da autonomia e do empowerment. Importa salientar que desta linha de intervenção não está excluída a valorização da dimensão individual (empowerment individual). Esta perspectiva pressupõe que as organizações, num processo de crescente consciencialização, aceitam o risco, a criatividade e a inovação como condição para o desenvolvimento sustentável das suas comunidades. No âmbito do desenvolvimento comunitário encontra-se um leque muito diversificado de intervenções, estratégias e metodologias. Há as que privilegiam a promoção da responsabilidade individual numa perspectiva de promoção da autonomia dos sujeitos, investindo num trabalho de desenvolvimento de competências pessoais e sociais através de metodologias de educação não formal, de acções de formação, educação, informação e/ou sensibilização e no apoio à construção de projectos de vida. Há também aquelas que partem da elaboração de diagnósticos, que assentam no trabalho em parcerias/redes/plataformas de interacção, que procuram mobilizar recursos endógenos, mas também, muitas vezes, recursos externos ao território, conjugando esforços e envolvendo as próprias comunidades na definição da intervenção: «(…) a intervenção parte sempre de um diagnóstico feito no território, de um grupo concreto com quem podemos estar a trabalhar, de uma instituição, e depois o desenho da intervenção, em função das necessidades diagnosticadas, dos instrumentos financeiros que existem de apoio a essas intervenções, e o trabalho é feito normalmente em parceria com outras entidades de forma a reforçar a intervenção e a conjugar esforços». A questão da participação, já abordada num ponto anterior, assume aqui um lugar de destaque: «Isto remete para questões que têm que ver com a participação, que têm que ver com o empowerment, que têm que ver com o trabalho em parceria, que têm que ver com a valorização dos recursos locais, digamos assim, e com a animação para o desen139 Tiago Neves (Coordenador) volvimento local, e que têm que ver com… Enfim, tem que ver com isto tudo. Tem que ver com a sustentabilidade, também, não é?! E aceitando que as dinâmicas que visam promover as mudanças comunitária e a mudança social, mais difícil, assente em processos participativos, porventura demora mais tempo (…) os benefícios são evidentes a longo prazo». As metodologias de participação e empowerment concretizam-se em iniciativas, acções e projectos de carácter muito diverso: desde o apoio ao associativismo à promoção do empreendedorismo – desenvolvido com públicos adultos mas também com crianças e jovens, ao fomento da participação das populações na comunidade local (por exemplo, os orçamentos participativos, que também já foram referidos anteriormente), à aposta na formação e qualificação de adultos/as e também na capacitação das próprias instituições do terceiro sector. Entre as práticas que evidenciam aquilo que se enquadra na categoria desenvolvimento comunitário salientam-se intervenções nas áreas da animação comunitária, do desenvolvimento rural e do desenvolvimento local, que adoptam estratégias de animação territorial com vista a fomentar o empreendedorismo, a inovação e a participação das populações na comunidade local. «(…) é uma estratégia assente na animação territorial, porque achamos que num território marcado por estas características é essencial criarmos um clima favorável ao empreendedorismo e à inovação. E a animação é uma ajuda nesse sentido». Conforme referido acima, o trabalho é desenvolvido em parceria, em rede e através de plataformas de interacção, procurando conjugar as potencialidades do território e mobilizá-las em prol do desenvolvimento. A articulação interinstitucional promove a divisão de tarefas e competências entre as várias instituições parceiras. É salientada a importância de alguns programas comunitários. O excerto que se segue aborda o programa LEADER, que é visto como tendo reforçado o desenvolvimento, perspectivado como integral, plural, centrado na autonomia, na iniciativa, na inovação e nas parcerias (nacionais e transnacionais): «Começou de uma forma experimental como iniciativa comunitária, a iniciativa comunitária LEADER, que defende uma forma de fazer desenvolvimento local e que tem por base um conjunto de especificidades e essas especificidades levam-nos a olhar para o desenvolvimento de uma forma integrada, de uma forma plural, em parceria, com uma autonomia muito grande. Nós reivindicamos para os nossos processos uma grande autonomia face à Administração Central». O fortalecimento da sociedade civil, da cidadania e da coesão social é considerado uma área fundamental já que permite reflectir sobre a forma de fazer e pensar o desenvolvimento comunitário. 140 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social «Dentro do programa de desenvolvimento comunitário urbano e do programa de educação e desenvolvimento de infância, encontrar pontes para estimular a intergeracionalidade e para trabalhar com pessoas, com seniores. Mas digamos que não há assim um plano de acção ou um objectivo muito específico. Há pequenos ensaios, projectos-piloto. (…) Mas é claramente uma área em que nos parece que faz sentido intervir (…) através do estabelecimento de dinâmicas inter-geracionais». O investimento no trabalho individual, personalizado, com vista à capacitação e autonomização das pessoas, é relatado como um trabalho que é desenvolvido numa lógica integrada no âmbito de intervenções comunitárias. Neste âmbito salientamse as referências aos Centros Novas Oportunidades: «A formação é um dos aspectos mais importantes que nós temos [e] coaduna-se também com as empresas de inserção, ou seja, nós tentamos que as pessoas melhorem as suas qualificações quer através de formação, quer através dos Centros Novas Oportunidades, para depois também se lhes poderem abrir portas de trabalho». Os gabinetes de apoio local são também citados como exemplos de respostas de proximidade no âmbito do desenvolvimento local. Estes desempenham um papel importante na elaboração de candidaturas aos diferentes programas nas áreas do social, do turismo e da agricultura. Veja-se aqui: «Nós temos esses gabinetes de apoio local, realizam candidaturas a todos os programas do QREN, desde a área social até, sei lá, agricultura, portanto abrangendo todas as áreas». E aqui: «Temos um projecto que é chamado o Eco-museu, Eco-aldeia, que tem várias vertentes e uma delas seria a criação de uma empresa de exploração de agricultura biológica em que as pessoas trabalhariam e depois abririam o escoamento de produtos. Da nossa parte, e acima de tudo, criar um espaço habitacional para aquelas pessoas que neste momento, temporariamente, vão ficar sem habitação porque não conseguem pagar os empréstimos aos bancos. No fundo seria criar um espaço habitacional temporário para essas famílias. (…) Isto é um conceito americano, comunitário, de vida comunitária, em que as pessoas usufruem das casas mas iriam trabalhar nas iniciativas que haveria. Ou teriam que ter formação, ou trabalhar nos nossos espaços de agricultura biológica, na manutenção da aldeia (…)». Para concluir esta secção sobre as estratégias e metodologias de intervenção, é de salientar que as práticas de voluntariado surgem incorporadas em 141 Tiago Neves (Coordenador) ambas as categorias – a acção assistencial e o desenvolvimento comunitário. O contributo voluntário pode assumir diferentes formas, desde a oferta de bens (alimentos, vestuário, móveis, dinheiro, etc.) ao trabalho gratuito desempenhando diferentes funções (direcção, gestão, execução) nas mais diversas instituições. Encontram-se, também, exemplos de associações que emergiram de práticas de voluntariado e que desempenham um papel relevante no âmbito do desenvolvimento comunitário: «Cada um deu um donativo para fundar a associação. Cada um deu o que pôde, era preciso dinheiro para fundar a associação. (…) Aqui é tudo pelo amor à camisola… Temos ginástica aí para as senhoras, tivemos escola, agora estamos à espera, que isto abriu este ano, para ter uma professora para dar aulas com os analfabetos. Temos excursões a correr o país». Os dados analisados corroboram, ainda, a ideia segundo a qual a prestação de serviços constitui uma forma de intervenção que pode ser privilegiada quer no âmbito da acção assistencial, quer do desenvolvimento comunitário. Os gabinetes sociais e de apoio, acima mencionados, constituem exemplos ilustrativos dessa dupla vertente. 5.5. A relação entre o local e o central. A análise da relação entre o local e o central afigura-se particularmente importante num momento em que se colocam de modo intenso as questões da territorialização da intervenção e da emergência de novas formas de governação social local. A relação entre o local e o central será aqui analisada em cinco dimensões distintas: aspectos gerais, incluindo a comparação entre resultados da acção central e da acção local; a relação entre planos nacionais – designadamente o PNAI – e a acção local; as repercussões ou retroacção do local sobre o central; as críticas efectuadas pelos actores locais às estruturas centrais, suas políticas e práticas; por fim, as sugestões efectuadas pelos actores locais às estruturas centrais, suas políticas e práticas. 5.5.1. Aspectos gerais. Abordam-se nesta dimensão três itens distintos identificados no discurso dos/as entrevistados/as: em primeiro lugar, os modos como o poder e as estruturas centrais regulam a acção local; depois, a dependência das instituições locais face ao poder central; por fim, aborda-se a comparação entre os resultados da acção central e da acção local no combate à pobreza e à exclusão social. A relação entre o local e o central é recorrentemente descrita como uma 142 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social relação de regulação do primeiro pelo segundo. Essa regulação é entendida de dois modos: ou de um modo relativamente rígido e determinista, surgindo o poder e as estruturas centrais como configuradoras das formas e possibilidades da acção local, ou de um modo mais flexível, no qual se reconhece ao local uma razoável capacidade de adaptação às directrizes centrais. O entendimento mais rígido e determinista pode encontrar-se, por exemplo, aqui, nas palavras do/ da representante de um Contrato Local de Desenvolvimento Social: «Entrevistadora: Tinham liberdade para acrescentar mais eixos [no programa de intervenção] (…)? CLDS: Não. Dentro dos outros eixos é que é possível de se elencar um sem-número de actividades. Nós entendemos por bem elencar esta». A adequação aos planos centrais é essencial para aceder aos financiamentos disponíveis: «Entrevistadora: E também considera que esta adequação é, não sei se percebi bem as suas palavras, mas acaba por ser imperiosa porque se não, não acedem… Entrevistado: Sim, exactamente. Se não, não acedemos aos financiamentos. Exactamente». Pode dar-se o caso de que a necessidade de adequação a um plano central seja sentida de modo negativo: «Entrevistadora: No âmbito do plano DOM47, foram vocês que se candidataram (…)? Entrevistado: Não, não, não. (…) a Segurança Social chegou aqui ao pé de nós e disse: “Têm 2 alternativas: ou aceitam ou aceitam”. E nós escolhemos as duas alternativas. (…) [o plano DOM] é, é totalmente [impositivo]! Se bem que lhe diga uma coisa, o Conselho de Administração desta instituição aceitou muito mal o ter que ir para o plano DOM». Contudo, a imposição de planos e directrizes pode ser também perspectivada de modo mais positivo e construtivo: «Eu acho que tem aspectos positivos [o facto de os CLDS serem definidos pela Administração Central]. Limita um bocadinho os devaneios que a instituição possa ter para fazer outras coisas. Por outro lado, o facto de ser focado, orientado e determinado por um tipo de problemas que são identificados normalmente no diagnóstico social do concelho, justifica (…) à partida [a intervenção]». O outro registo, de entendimento mais flexível da regulação da acção 47 O Plano DOM – Desafios, Oportunidades e Mudanças, criado pelo Despacho n.º 8393/2007, de 10 de Maio, tem como objectivo principal a implementação de medidas de qualificação da rede de Lares de Infância e Juventude, procurando reforçar a promoção de direitos e protecção das crianças e jovens acolhidas, no sentido da sua educação para a cidadania e desinstitucionalização, em tempo útil. 143 Tiago Neves (Coordenador) local pela Administração Central, é bem sintetizado na seguinte afirmação: «Claro que em algumas coisas nós temos de seguir a orientação, mas noutras não é assim tão limitado. Não deixamos de obedecer àquilo que são as regras, daquilo que é estabelecido, mas adaptamos à nossa realidade». O/a representante de uma Rede Social diz mesmo que é concedida grande liberdade à acção local: «Nunca sentimos imposição nenhuma, tanto que seguimos uma metodologia diferente e não houve qualquer tipo de constrangimento». O excerto seguinte ilustra a forma como a relação da acção local com os planos e as directrizes centrais se estrutura em torno de duas questões fundamentais: as opções técnicas (ou tecnico-políticas) da intervenção e o financiamento. Será essencialmente nesse quadro que se joga e define a relação entre o local e o central: «Claro que [a regulação central] cria algumas circunstâncias que podem ser condicionantes (…). Em alguns casos até (…) impondo algumas regras de funcionamento que às vezes contrariam (…) a lógica do próprio funcionamento da instituição. Evidentemente que nós temos consciência disso e naturalmente que podemos fazer – e fazêmo-lo com certeza – adaptações no sentido em que esses embates tenham o menor impacto possível. Mas é evidente que mesmo assim não se pode falar em dependência. Isto é, evidentemente que nós vivemos de financiamentos públicos e obviamente que esses financiamentos têm as suas regras, mas também lhe devo dizer que já não é a primeira vez que não nos candidatamos a alguns financiamentos (…) porque conhecemos logo à partida quais são as regras. E nesse caso concreto condicionariam claramente, e inverteriam até, uma lógica ou um paradigma de funcionamento institucional e (então) a decisão foi em não ir por aí». Muito embora alguns actores locais reconheçam possibilidades de adaptação das acções que desenvolvem aos planos e directrizes centrais, a dependência das instituições locais face ao poder central é um elemento referido recorrentemente. Pode mesmo dizer-se que o eixo que mais intensamente caracteriza a relação entre as instituições e dispositivos locais e o poder central é a dependência. Esta dependência faz-se sentir de modo particularmente agudo nas questões financeiras, e repercute-se na contratação de pessoal e na prestação de serviços aos utentes: «Entrevistada: Antigamente, chegávamos a Março/Abril e tínhamos sempre um grupo de pessoas pagas pelo Centro de Emprego, que vinham cá dar uma ajuda e que nos permitiam dar as férias do pessoal com alguma facilidade. Actualmente 144 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social isso é muito difícil, é muito difícil conseguir esses apoios financiados pelo Estado. Não digo que fosse a solução, mas para nós foi um benefício grande. E muitas dessas pessoas ficaram cá a trabalhar, porque desse pessoal que nós temos, mais de 50 é para o apoio domiciliário, porque é a grande actividade. Mas actualmente está cada vez mais difícil, não só porque as pessoas fogem destes tipos de trabalhos como também porque há menos apoios estatais. Portanto, o cerco é muito maior a nível de dificuldades. Não me refiro à boa vontade, o Centro Regional [da Segurança Social] sempre foi impecável connosco, temos tido uma relação muito boa. Sempre nos têm facilitado e apoiado em tudo aquilo que está ao alcance deles, mas nem tudo está. Nos últimos anos sente-se maior dificuldade em conseguir apoios. Entrevistadora: Por parte das estruturas centrais? Entrevistada: Sim, muito mais dificuldade. Entrevistadora: Essa dificuldade ter repercussões na vossa intervenção? Entrevistada: Sim. Por exemplo, pela primeira vez nós se calhar vamos ter que recusar a admissão de utentes por causa disto». Em concelhos pequenos, isolados e pouco populosos, dado o reduzido poder de atracção do território e a escassez de fontes alternativas de financiamento, as dificuldades fazem-se sentir de um modo distinto dos grandes centros urbanos: «É assim, eu penso que ao nível local (…) as coisas podem efectivamente funcionar muito bem, se eu tiver meios. Eu acho que é importante isso: se houver meios para se trabalhar eu penso que nada melhor do que a acção social ser desenvolvida pelos municípios, pela Segurança Social local, porque como disse é quem conhece as pessoas, é quem conhece os problemas e os vive de perto, é quem ouve de facto de viva voz quais são os problemas. Eu acho que devia efectivamente haver a nível central uma preocupação para dotar os municípios, dotar os concelhos – e falo também na questão da Segurança Social – de equipas (…). Eu penso que muitas vezes o problema é que falamos apenas de um assistente social mas há necessidade de assistentes sociais, há necessidade de psicólogos e há necessidade de um conjunto de outros quadros técnicos que são necessários para resolver estes problemas e que não temos. Portanto, quando falamos de concelhos pequenos como o [nome do concelho] (…) não tem um psicólogo no concelho. Se houver uma situação de uma criança que necessite de ter acompanhamento psicológico nós temos que enviar para o hospital ou para outro lado qualquer, porque não há. O problema é quando não temos meios técnicos e andamos a tentar resolver com os que temos, infelizmente muitas vezes não são os suficientes ou os adequados». Em síntese: «Uma coisa é certa: as nossas medidas têm que ter sempre como base as do Estado 145 Tiago Neves (Coordenador) Central; ou seja, nós dependemos do Estado Central e tudo parte daí». Quanto à comparação entre os resultados da acção central e os da acção local, antes de mais deve assinalar-se que, apesar de este ser um item específico do guião das entrevistas, a enorme maioria dos/as entrevistados/as não se pronunciou acerca dele de modo claro e directo. Há quem reconheça explicitamente dispor de poucos dados que permitam dar uma resposta informada a essa questão: «É assim, não tenho presentes esses dados. No essencial, em termos de medidas, acho que são interessantes o Rendimento Social de Inserção, programas de apoio ao emprego e programas de apoio à pobreza e exclusão social. Eu acho que as medidas são lançadas, mas as condições para a sua efectividade de implementação e resultados não estão tomadas. O Rendimento Social de Inserção é uma medida em si interessante, mas na prática como é que se fiscaliza, como é que se controla, como é que se avalia? Acho que ainda não há os mecanismos necessários para fazer esse registo». No excerto seguinte encontra-se o mesmo desconhecimento de dados que permitam responder adequadamente: «É [apenas] uma enorme impressão. Em muitos aspectos deveria haver um estudo por município (…). Porque não sei realmente se o município está a fazer alguma coisa… Porque há uns dias veio aqui o Presidente da Junta (…) para nós fazermos uma análise de facto, eu não digo à pobreza, mas à necessidade que certos sectores tinham naquela terra, havia muita gente idosa e não sei o que mais. (…) Porque é necessário fazer um levantamento para nós analisarmos com os respectivos critérios para darmos resposta às populações necessitadas». Os/as entrevistado/as que dão uma resposta concreta à pergunta acima referida tendem a ver os resultados da acção local e da acção central como complementares. Pode constatar-se, no entanto, que não são apresentados dados concretos de suporte às respostas fornecidas: «É uma pergunta difícil. Eu diria que se complementam. O poder central deve deliberar e tomar medidas, arranjar apoios e projectos que sejam capazes de ser executados a nível local. E que sejam eficazes porque as coisas não se fazem, nem se resolvem por decreto, mas naturalmente tem de haver regras». Veja-se também aqui, excerto no qual, do mesmo modo, se encontra uma evasão à pergunta feita e a condução da resposta para dimensões mais generalistas: «Eu penso que pode haver também uma visão para algumas áreas ou para alguns sectores que tem de ser uma visão de complementaridade. Em que não faz sentido, se calhar, uma intervenção local, sem que haja também uma medida ou uma intervenção mais centralizada, que uma seja concertada com a outra. Para 146 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social algumas outras áreas, alguns outros territórios e até para alguns outros problemas sociais, a intervenção e a mudança social e comunitária não se pode fazer sem que haja intervenção directa naquele território. Acho que tem que haver complementaridade e alguma partilha dos resultados, da forma como se faz, para que possa haver efeitos e para que as medidas possam ser eficazes. Acho que não pode ser muito linear a resposta». Em síntese, pode dizer-se que não foi possível obter, a partir dos discursos dos/as entrevistados/as, elementos concretos relativamente à comparação dos resultados da acção local com os resultados da acção central no combate à pobreza e à exclusão social. Em termos mais gerais, os depoimentos recolhidos revelam que, se por um lado se manifesta o desejo da existência directrizes centrais que orientem a intervenção, por outro afirma-se que essas directrizes podem ser condicionantes da acção desenvolvida pelas instituições locais. Assim, a dicotomia entre regulação e autonomia na intervenção permanece uma questão por resolver. 5.5.2. A relação entre planos nacionais e acção local O discurso dos/as entrevistados/as aponta para duas dimensões de aferição da relação entre os planos nacionais – com especial ênfase no PNAI, dado o enquadramento do estudo – e a acção local: em primeiro lugar, o conhecimento que os actores possuem desses planos; em segundo lugar, a articulação existente entre os planos nacionais e a acção efectivamente desenvolvida a nível local. Naquilo que se refere ao conhecimento dos planos, constata-se a existência de níveis diferenciados de conhecimento e familiaridade com os planos nacionais por parte das instituições que desenvolvem acção local, assim como fontes muito díspares de conhecimento acerca desses planos. Algumas instituições e dispositivos salientam a importância da actividade de organismos de âmbito nacional – a Segurança Social, a REAPN, a CNIS – para o conhecimento que possuem dos planos nacionais: «Entrevistadora: Têm conhecimento do PNAI através da informação…? Entrevistado: Normal... Pela Segurança Social». Tal como aqui: «[o conhecimento do PNAI] Chegou através da REAPN (…) que geralmente nos manda uns mails interessantes…» Há também quem saliente a importância das Redes Sociais para a disseminação dos planos nacionais: «Entrevistadora: Estávamos a falar do Plano Nacional para a Inclusão, o PNAI. 147 Tiago Neves (Coordenador) Como é que vos chegou o conhecimento do PNAI? Vocês têm conhecimento das prioridades e das medidas do PNAI? Como é que isso vos chegou? Entrevistado: Chegou-nos através, digamos… O documento foi distribuído a todos, mas nós fundamentalmente através da Rede Social (…) foram traçadas as linhas gerais do PNAI e em termos concelhios foram definidas uma série de acções». A participação em seminários informativos conduzidos pelas entidades que os promovem é uma outra forma de tomar conhecimento dos planos nacionais: «Entrevistadora: Como é que vos chega, por exemplo, o Plano Nacional de Acção para a Inclusão? Entrevistado: Geralmente é feita a divulgação a nível nacional e nós somos convidados. Se pudermos ir, participamos e tomamos conhecimento». Por fim, há quem tome conhecimento dos planos nacionais através de pesquisas na Internet: «Entrevistadora: Como é que vos chegam ao conhecimento esses planos, nomeadamente o Plano Nacional de Acção para a Inclusão, o PNAI. Como é que tiveram conhecimento dele? Entrevistado: O conhecimento da maioria dos programas vem do conhecimento através via internet, e investigação através da internet que é o único meio ainda (…)» Deve ainda salientar-se o facto de haver um conjunto significativo de instituições e dispositivos – incluindo Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, Redes Sociais, IPSS – que referem não ter conhecimento do PNAI: «Entrevistadora: Concretamente, o PNAI (…) como é que ele chega ao local? Têm conhecimento dos eixos prioritários, das metas? Entrevistado: Não, por acaso não tenho, por acaso é uma coisa que sinceramente não tenho». Por sua vez, a articulação existente entre os planos nacionais e a acção efectivamente desenvolvida a nível local pode ser descrita em torno de dois eixos: o do apoio ao enquadramento da acção local e o da pouca ou nenhuma relação entre planos nacionais e acção local. Assinale-se que foi encontrado um conjunto relevante de instituições e dispositivos – incluindo Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, Redes Sociais, IPSS – que afirmam haver pouca ou nenhuma relação entre planos nacionais e acção local. Na perspectiva de que os planos nacionais oferecem apoio ao enquadramento da acção local, eles são entendidos como servindo para orientar as iniciativas locais, fornecendo quadros de actuação que são posteriormente adap148 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social tados às realidades locais: «São linhas gerais, que são linhas políticas no fundo. Para nós ajudam-nos no enquadramento da estratégia. Uma agenda que temos no [localidade] é a da empregabilidade, e nós temos como referência a Agenda Nacional do Emprego. E depois temos que ajustar localmente essas prioridades. E para isso esses documentos servem, mas depois têm de acontecer mais coisas. Também não sei se a nível central os documentos devem ir muito mais para além do que isso. No fundo é indicar caminhos, e depois têm que dar condições para que a gente concretize essas prioridades, que é esse o papel do Governo, com programas operacionais, com apoios». Na mesma linha, um/a outro/a entrevistado/a afirma que: «Os planos e os diagnósticos... Vai-se caminhando para uma posição mais micro... (…) os planos nacionais gerem. O que é… Depois… Criam ou não condições para surgir financiamentos. A intervenção nesta altura está muito ligada aos planos que vão surgindo e que são ao nível nacional, maioritariamente, e são fundamentais para criar condições para que nos territórios surjam investimentos». Seja então por necessidades de financiamento, seja por enquadramento num desígnio de âmbito nacional, os planos nacionais surgem como algo a seguir: «Acho que sim, acho que nós temos que estar sempre em sintonia com essas linhas centrais até porque todos os financiamentos que vêm têm também como base esses planos, portanto… Mesmo que nós queiramos realizar outra situação que não esteja prevista no plano nacional, nós não conseguimos financiamento para ela. Mas quanto a mim acho que está correcto, acho que sim. Acho que tem que haver sempre um plano por onde se deva seguir. Acho que sim». Frise-se que seguir os planos nacionais e procurar implementá-los localmente comporta um trabalho de adaptação e crítica, revelador de margens de liberdade na actuação dos actores locais: «Claro que é assim: naturalmente que a instituição reconhece todos esses planos a vários níveis, desde o PNAI ao PNE ao Plano Nacional de Saúde e tudo isso. E naturalmente o Plano Nacional para a Igualdade e aquelas coisas…Naturalmente que nós não temos outra escolha a não ser adequar, mesmo que não quiséssemos, porque os próprios financiadores obrigam-nos a isso, e também as fiscalizações periódicas que temos nos obrigam a isso. E naturalmente que, numa lógica de adaptação à realidade que temos, sempre numa lógica de adaptação de aplicação tal e qual dessas directrizes, ou desses planos, naturalmente que nós seguimos e respeitamos aquilo que são as orientações em cada momento, digamos, 149 Tiago Neves (Coordenador) para as políticas sociais, naturalmente numa lógica de sempre de as aplicar num terreno, num contexto que é este. E também de alguma maneira sempre de uma forma bastante crítica…». Os discursos que assinalam a existência de pouca ou nenhuma relação entre planos nacionais e acção local apresentam configurações distintas, assim como justificações diversas para tal distanciamento entre os planos nacionais e as práticas locais das instituições: «Para ser sincero: eu conheço algumas das premissas, mas não é uma prioridade, não é uma coisa que esteja presente». Num registo similar, um/a outro/a entrevistado/a refere que: «[Seguimos os planos nacionais apenas] Naquilo que nos interessa. Não temos demasiada preocupação na nossa orientação fundamental segundo os programas do Governo. Nós procuramos dar respostas e fazer o melhor possível nas respostas que temos implementado. Depois vai surgindo conforme se vai proporcionando. Não temos uma preocupação fundamental de ir ao encontro desses programas». Existem actores que consideram mesmo que a sua actividade é totalmente autónoma relativamente aos planos nacionais: «Esses planos nacionais condicionam as estruturas nacionais, a Segurança Social, o Instituto de Emprego... A nós não nos condicionam, nós temos total autonomia, à excepção da financeira. Em termos de políticas somos autónomos, pelo que se eles definirem uma determinada orientação e nós entendermos que não deve ser aplicada em [nome da localidade] aqui pela Junta, nós fazemos outra coisa. Temos liberdade para isso, de sermos nós a aplicar as nossas políticas. Assim como a Câmara Municipal, porque eles também são eleitos directamente. Agora se for um decreto-lei é que temos que cumprir». Noutros casos, a falta de relação entre planos nacionais e acção local devese à escassez de ajustamento entre planos nacionais e realidades locais: «Não estão ajustados porque é assim: ainda recentemente criou-se o PARES para dar apoio à infância para os centros urbanos, apenas para os centros urbanos e discriminou-se mais uma vez o meio rural, de maneira que isto não está completamente ajustado». Noutros casos ainda, a acção local desenvolve-se desligada dos planos nacionais devido a falhas na transposição dos planos nacionais para um nível mais operacional: «As pessoas comunicam mas depois não passa do papel». Por fim, note-se que podem existir casos em que, apesar de existir uma relação entre os planos nacionais e a acção local, ela surgiu por coincidência 150 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social mais do que por intenção ou planeamento: «O PNAI, o seu princípio básico vai bater sempre à questão da exclusão social e manter, promover a coesão social. Mas dizia-lhe se há enquadramento específico, ou que há essa preocupação em ir buscar: não! Talvez se faça isso de uma forma mais leve, nunca como objectivo central. Aliás, quando nós tivemos agora o feedback à Segurança Social relativamente às nossas acções, procuravam sempre perguntar na base de dados a que temos acesso se havia enquadramento (…) na parte das acções, mas não foi um enquadramento propositado, está a entender? Foi um enquadramento que calhou assim enquadrado, não foi pensado: “Olha, vamos por este caminho porque devemos atingir aquela meta porque o PNAI assim o diz”. Não foi». Conclui-se, assim, que ainda há muito a fazer no domínio da articulação entre os Planos Nacionais e a acção desenvolvida pelas instituições locais. 5.5.3. A retroacção do local sobre o central. Neste ponto abordam-se as repercussões que, no ponto de vista dos/das representantes das instituições locais, a acção local tem sobre as estruturas, políticas e planos nacionais. Estas repercussões são agregadas em três categorias que emergiram do discurso dos entrevistados: nenhuma retroacção; pouca retroacção; retroacção relevante. Deve assinalar-se que a categoria nenhuma retroacção é, de longe, a mais representada. A ausência de retroacção, isto é, a ausência de efeitos da acção local sobre as estruturas, políticas e planos nacionais não parece, no essencial, resultar de uma pura e simples ausência de comunicação entre os dois níveis. Veja-se, por exemplo, aqui: «A nossa direcção até tem uma relação bastante boa com a Direcção Regional e o Director fala diariamente, ou quase, com a equipa que nos orienta, que está connosco (…) e tem muito à-vontade para expor estas situações. Eles conhecem perfeitamente o que nós achamos das coisas, sabem o que nós gostaríamos de fazer, mas não passa de vontade. Depois no terreno é complicadíssimo». Tal como aqui: «Podemos manifestar a opinião profissional e/ou pessoal nas reuniões com o Centro Distrital da Segurança Social, Centro de Emprego, autarquia, ou até com o Governo Civil... mas não sinto que isso tenha qualquer repercussão. Se calhar ainda não encontrámos o meio ou o instrumento correcto para o fazer...». Mais do que a inexistência de comunicação, o que se salienta é, no fundo, 151 Tiago Neves (Coordenador) a não-inscrição48 daquilo que é comunicado. Os actores locais procuram encontrar razões para essa não-inscrição. Uma das razões apontadas é a falta de intervenção e comunicação política visível por parte dos actores locais: «Bom, exactamente, agora como é que nós fazemos para chegar lá, não é tanto uma intervenção técnica, é mais uma intervenção política que tem que existir. Se ela existe não faço ideia, não sei». Outra razão encontra-se nos canais de comunicação entre os poderes local e central, que obstaculizam a inscrição em tempo útil – isto é, de modo a ter efeitos – daquilo que é comunicado: «Entrevistadora: Mas acha que a Junta consegue fazer chegar lá acima [poder central], a quem toma as decisões políticas? Entrevistado: Podem chegar mas quando chegarem lá as pessoas já estão no cemitério aqui ao lado. Mas é verdade: não é o primeiro caso que acontece assim. Iam resolver o problema de uma senhora a sua casa e a senhora já estava noutra casa...». Como se constata no excerto abaixo, também não é claro que dispositivos agregadores de instituições locais consigam retroagir sobre o poder central: «Entrevistadora: Acha que a acção local tem poder para influenciar, tem alguma repercussão a nível das definições das políticas centrais? Entrevistado: Não. Mesmo a Associação Nacional de Freguesias e a Associação Nacional de Municípios, o peso que têm nas decisões do Estado é muito reduzido». Por fim, há quem aponte claramente para o processo de não-inscrição para explicar a falta de retroacção do local sobre o central: «O sistema está montado de tal maneira que toda gente se vai acomodando. As partes intermédias que têm intervenção: “Não façamos ondas, não andemos aqui com coisas, vamos andando, vamos fazendo, vamos não sei quê…”. Aí a coisa está muito mal». A retroacção que, para alguns/mas entrevistados/as, existe entre o poder local e o poder central é possibilitada pelos mecanismos previstos na lei e por algumas medidas políticas, mas esbarra no contexto cultural nacional. Significa isto que há pouca retroacção: «Uma coisa é ter capacidade, outra coisa é a forma como essa capacidade é ou não desenvolvida. Nós temos, a meu ver, legislação bastante boa em geral na área social e portanto temos mecanismos, desde as CPCJ às Comissões de Freguesia, aos Conselhos Locais de Acção Social e várias plataformas que estão pensadas precisamente na lógica do nível local propor e fazer sugestões de medidas políticas a nível nacional. Agora, isto do ponto de vista legislativo e do ponto de vista das medidas que existem… Do ponto 48 Retoma-se aqui a terminologia de José Gil em Portugal, Hoje: o medo de existir. 152 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social de vista prático, nós não temos uma cultura que possibilite isso, porque culturalmente não temos essa perspectiva. E portanto a influência do local sobre as medidas a nível nacional, da minha prática de intervenção directa e do contacto que tenho com outras organizações, ainda é frágil e é importante trabalhar mais nessas sedes. Porque os mecanismos de facto existem, mas não os utilizamos com a potencialidade que eles têm». O local pequeno e isolado tem dificuldade em fazer-se ouvir; projectos e iniciativas de escala mais ampla conseguem, por vezes, obter algum sucesso neste aspecto: «Um ou outro projecto, uma ou outra iniciativa têm impacto. Por exemplo, agora com a questão da implementação dos sistemas de gestão da qualidade nas IPSS, (…) conseguimos que o Instituto da Segurança Social fizesse uma revisão aos manuais que eles lançaram. Há uma ou outra, mas têm que ser projectos já de grande dimensão». Das três instituições que referem existir uma retroacção relevante do local sobre o central, duas delas são Câmaras Municipais. Este facto reforça a ideia, já expressa nos pontos anteriores, de que a dimensão importa nas relações com o poder central (assim como encontrar a estratégia de relacionamento mais eficaz): «Não mandamos cartas e ficamos sem respostas, isso não. Não. Mais, por exemplo, o Senhor Presidente da Câmara, mas também acompanhado por mim às vezes, pelos técnicos, e não só na área da acção social, em todas, sempre que possível, sempre, sempre que possível e com insistência, em que são feitos pedidos, somos recebidos pelo Governos, e temos ido muitas vezes, muitas vezes, quase todas as semanas, ou pelo menos todos os meses mais que uma vez, às reuniões com o poder central, com os representantes de cada área, e isso tem sido com muita insistência porque é mesmo assim. Tem que se pedir para se conseguir. E tem que se ir procurar para conseguir trazer alguma coisa. São feitas periodicamente, através de pedidos de audiência que o Senhor Presidente da Câmara faz ao Governo e tem havido um feedback muito positivo porque realmente tem-se conseguido chegar lá». O facto de a cor política da autarquia ser diferente da do Governo não conduz necessariamente a problemas de reconhecimento da acção local desenvolvida: «Sinceramente eu acho que é boa [a repercussão do local sobre o central]. E concretamente a nível social. Não sou eu que o digo, está na imprensa, Ministro e Secretários de Estado têm elogiado as políticas da Câmara de [nome da localidade]. Estamos à vontade porque a cor política é diferente, portanto é porque reconhecem a competência e seriedade e uma boa gestão do nosso Presidente de Câmara. É sinal que estamos no bom caminho. Mesmo figuras importantes da cultura têm vindo cá (…). Para nós é óptimo, mas aumenta também a nossa responsabilidade». Será talvez pertinente questionar o facto de a retroacção considerada como relevante se verificar entre as Câmaras Municipais e Estado central. O papel que este 153 Tiago Neves (Coordenador) último confere às Câmaras Municipais enquanto instituições mediadoras de nível meso entre o local e o central pode justificar um acesso mais facilitado e, consequentemente, uma retroacção mais significativa. 5.5.4. Críticas do local ao central. É possível encontrar, no discurso dos actores das instituições locais, um conjunto de críticas às estruturas, políticas e planos nacionais na sua relação com o local. A enorme maioria dessas críticas radica, embora exprimindo-se de modos distintos, numa percepção de afastamento e separação entre o local e o central. Esta secção do texto dedica-se à apresentação dessas e doutras críticas. Em primeiro lugar aborda-se a questão da centralização do planeamento e da acção, do distanciamento da realidade local. A centralização das decisões – por vezes até ao nível supra-nacional – cria obstáculos importantes a uma gestão do local assente nas suas especificidades: «Acho que cada vez mais as decisões são ditadas de cima. E tão de cima que já vêm da Europa para o nosso país. Cada vez se torna mais difícil sermos nós aqui, pequeninos, a Câmara a decidir o que é, o que serão as prioridades duma intervenção. E de facto há alguma fragilidade, mas eu acho que é ao nível do nosso país. Em termos de diagnóstico e não sabermos defender aquele que é o interesse da nossa população em particular. E isso também se sente ao nível da Câmara, numa escala um bocadinho mais pequenina, mas eu acho que se sente. (…) É de facto uma grande dificuldade. (…) Quando nós atendemos às solicitações dos nossos técnicos em termos de projectos também temos de ter em conta aquilo que são as prioridades que nos são definidas. Porque por vezes há projectos que são de facto muito interessantes, mas pelo simples facto de não se enquadrarem nas nossas prioridades, e pela falta de recursos, não conseguimos desenvolver alguns dos projectos que acho que teriam muito interesse». Há, portanto, um distanciamento entre os poderes centrais e locais, uma irredutibilidade entre as medidas e intervenções locais, assentes na proximidade e mais abertas à casuística, e as políticas nacionais – cegas e universalistas, um pouco como a Justiça: «Digamos que o Estado tem uma política cega e nós não, porque eles orientam numa certa direcção onde poderá haver fuga. E aqui não existe fuga, todos os casos referenciados são tratados. Agora, enquanto existir uma política de cima para baixo – que é o que existe – não vamos muito longe. Ou se encontram a meio, ou os de lá de cima vêm ouvir o que se quer aqui, para depois se poder tomar as decisões em consonância». 154 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Um/a outro/a entrevistado/a diz algo similar: «Existe ainda um desconhecimento grande da Administração Central relativamente ao que se está a passar localmente. Mas ainda não sei que estratégias podem usar para combater esta distância. (…) E a resposta da Administração Central só poderá ser adequada se tiver este feedback e proximidade aos governantes locais. Porque, caso contrário, todas as medidas que eles possam sugerir ou implementar estão um bocadinho afastadas da realidade. Não é que o que esteja previsto em termos de Orçamento de Estado esteja completamente desajustado, mas há aqui coisas que têm que ser pensadas muito seriamente, e que na minha óptica não vão responder às necessidades locais». Resumindo: «Eu acho que a intervenção, quando é nacional, é sempre mais desenquadrada relativamente às necessidades das pessoas e dos territórios porque muitas vezes há uma visão de gabinete, sem ter em conta as realidades locais. E, por isso, muitas vezes quando surgem, os programas a nível nacional são um bocado desenquadrados. Acho que devia ser feito ao contrário. Nota-se isso: muitas vezes há um desconhecimento da realidade local por parte das pessoas que estão a elaborar ou produzir esses programas». E exemplificando a ideia transmitida pelo excerto acima: «Eu acho que as políticas actuais, quando são criadas, são criadas a pensar no global do país. E eu acho que o legislador tem que olhar para as especificidades. E de facto nós aqui temos especificidades que a maior parte das políticas que nós temos não se aplicam. Vocês não imaginam o dinheiro que um idoso gasta para ir ao médico aqui em [nome da localidade]. Porque tem que vir de táxi da sua casa, a viagem, se calhar ida e volta, fica-lhe em 40€, 45€». Por vezes a impressão de distanciamento é acompanhada de um sentimento de menosprezo: «E depois ainda há aquela mentalidade de que quem está na cidade e na Administração Central é que sabe e que manda. Às vezes eu ligo para Lisboa, por exemplo, tenho um determinado regulamento na minha mão, e eles dizem-me que ele ainda não saiu. Ou pensam que as pessoas por serem de [nome da localidade] não percebem». A centralização do planeamento e da acção, associadas ao distanciamento relativamente às realidades locais, conduzem a injustiças territoriais. Tratando-se ou não um cliché, como refere o/a entrevistado/a no excerto seguinte, os dados recolhidos apontam para a continuada relevância das assimetrias regionais no nosso país: «Infelizmente o interior continua esquecido, isto já é quase um cliché, mas é 155 Tiago Neves (Coordenador) um cliché que se vai manter toda a vida se não se mudarem as políticas. Porque mudam-se os Governos, mudam-se as pessoas que estão à frente dos Governos, mudam-se os partidos, [e] o que é certo é que continua a verificar-se um bocado de esquecimento apesar de, por exemplo, estas medidas que falámos dos Contratos Locais de Desenvolvimento Social, do conforto habitacional e destes projectos que nós (…) desenvolvemos terem sido implementados e criados por este governo que está agora (…). É só vermos a distribuição das fatias dos fundos comunitários. A percentagem que é para Porto, Lisboa e cidades do Litoral e a percentagem que é para o interior, é só vermos a construção de estradas, as acessibilidades, continua a haver acessibilidades deficientes para o interior. Porquê? Porque possivelmente não estando no terreno não se sente na pele como nós sentimos todos os dias, a andar aqui na estrada, irmos às aldeias visitar os amigos e familiares e as pessoas que estão a precisar de nós». Constata-se que estas injustiças territoriais são várias vezes expressas num tom mais inflamado: «Isto são questões sociais graves: há fundos comunitários, por exemplo por causa do impacto da globalização, que é Lisboa que está a gerir. Porque é que não havemos de estar nós a gerir esses dinheiros? O impacto é aqui, não é em Lisboa! E metade desses fundos são para a gestão de funcionários e essas coisas. Nós não vimos nem um centavo, nem as empresas. As coisas podiam ser muito bem rentabilizadas, até há oportunidades, e simplesmente a culpa também é nossa por não estarmos organizados, não temos líderes fortes». Por vezes não é o plano nem a política em si que é vista como geradora de injustiças, mas antes a apropriação que dela é feita pela Administração Central: «Nós procuramos colaborar com o Governo, mas também reivindicar aquilo a que temos direito. Posso dar um exemplo: o PIDAC foi uma vergonha este ano. A nível de Norte em relação ao Sul, nós temos perdido muito. Uma coisa que me escandalizou e, parece que foi remendada mais ou menos, foi retirarem dinheiros de fundos comunitários do interior e aqui do Norte para darem a Lisboa. Desculpem, mas é falta de seriedade. Mas onde é que está a preocupação com as pessoas? Nós aqui não o fazemos, não o admitimos. Não desviamos dinheiro para determinadas coisas em detrimento das pessoas. O contrário se for necessário faz-se». Num registo diferente, um/a dos/as entrevistados/as aponta para injustiças que, tendo repercussão territorial, não remetem para a questão das assimetrias regionais mas antes para os novos modos de gestão da política e intervenção social e para um determinado tipo de solicitações ao local: «Só para terminar esta questão, que me parece importante, é que nós de há uns 156 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social anos esta parte, sobretudo a partir dos anos 90 (…) parece que libertámos o Estado, a Administração Central para (…) gerir os negócios e atirámos para o local a gestão da pobreza. E isto, desde logo, é injusto do ponto de vista dos recursos existentes, das próprias lógicas que podem estar na origem desses problemas. (…) Não me podem pedir agora para resolver o problema do bairro [nome do bairro] ou da pobreza que possa existir ali e não sei quantos… Quer dizer, se o problema for arranjar emprego para toda a gente eu não tenho hipótese nenhuma porque o local não cria emprego, não pode criar. Nem é o local que define, por exemplo, as políticas de habitação. Nem é o local que define, por exemplo, as políticas da educação. É que a nós pedem, ao local pede-se lhe para funcionar bem, para resolver problemas mas com instrumentos que estão criados a nível central». Um outro tipo de críticas refere-se às novas exigências burocráticas, informáticas e de certificação de qualidade. A crescente importância dos meios informáticos e da Internet no plano da candidatura a projectos e da monitorização do seu desenvolvimento, constituindo parte integrante dos sistemas de qualidade que actualmente se procura implementar, pode contudo resultar em limitações operacionais e numa certa inversão das prioridades: retira-se tempo ao trabalho com os utentes para dar tempo ao trabalho de vigilância e monitorização das actividades desenvolvidas: «Em todos os serviços que trabalhamos há muita burocracia e nestas instituições já começa a haver também muita burocracia porque é-nos exigido pelos manuais da qualidade49. Porque, se calhar, em vez de passar 15 ou 20 minutos com um utente a conversar, se calhar tenho de estar agarrada aos papéis e ao processo do utente e não estou com ele. Não sei se está a perceber (…). Por um lado concordo, mas por outro lado não concordo». A mesma ideia é reforçada no excerto seguinte: «Agora a visitação [dos técnicos da Segurança Social] é mínima, uma vez por ano, duas no máximo. Têm o protocolo e mensalmente as listas vão para lá, mas é mais na Internet que se trabalha». A burocracia é não só considerada excessiva como também desadequada tanto em termos das funções que cumpre como dos destinatários: «Há muita burocracia. Vou dar um exemplo (…) ao nível do apoio domiciliário: [temos que dizer] cada utente quantas vezes teve aquele serviço por semana, como é que foi, como é que não foi… Quer dizer, no processo nós temos que colocar as ocorrências e como é que as coisas funcionam (…). Todos os meses mandar umas 49 Trata-se aqui de uma referência aos Manuais de Gestão da Qualidade das Respostas Sociais elaborados pelo Instituto da Segurança Social. 157 Tiago Neves (Coordenador) folhinhas, nuns softwares que depois não funcionam, depois afinal fizeram uma formação para os técnicos da secretaria que fazem este lançamento e que enviam, e em vez de lá porem alguém da Segurança Social para explicar os conceitos, e o porquê, puseram lá um informático a explicar como é que funciona uma folha Excel (…). Há coisas que não fazem muito sentido. Isto faz-me lembrar um bocadinho estas leis da ASAE que implicam que as pessoas… Fazem as leis para os grandes restaurantes, e depois aqueles pequeninos fecham porque não têm capacidade de segurar a clientela fazendo aquele investimento todo». Este argumento de que as exigências são excessivas para a realidade de muitas das instituições locais encontra-se também no excerto seguinte, que similarmente dá conta da repercussão dessas exigências sobre o trabalho com os utentes: «(…) muitas vezes a Segurança Social aspira ao mais do que bom. E eu penso que quando tivermos o razoável já não estamos muito mal, porque o país é pobre, temos que ter a noção da nossa dimensão, pôr os pezinhos na terra, a cabeça no sítio, e fazer o que se pode com o que temos. Não podemos aspirar a fazer mais do que podemos. E poderia fazer-se muito mais coisas, e de maneira muito melhor até, se de facto não fossem as exigências burocráticas e técnicas da Segurança Social. Penso que estão excessivas, e neste momento como nunca. Por exemplo, se eu lhe disser, não minto minha senhora, que na casa [nome da instituição] eu já tive 100 crianças, 100. Neste momento são 20…». Não é seguro que os objectivos declarados de maior transparência e justiça através do recurso a novos procedimentos de gestão da intervenção local sejam efectivamente alcançados, como refere o/a representante de uma entidade gestora de programas comunitários: «(…) com esta coisa, a ilusão da transparência e da justiça (…) são falsas questões para já porque não introduzem mais transparência nem justiça ao sistema, então justiça é que não introduzem mesmo nenhuma. O que acontece é que agora temos um processo de candidatura determinado pelo Ministério, não somos nós, porque antigamente éramos nós que fazíamos tudo, o modelo de formulário, o processo de decisão, tudo, tudo, tudo. Agora não, o Ministério achou que sabe mais do que nós e eu estou a falar de nós, são cinquenta e três organizações a nível nacional, sabe mais do que nós e portanto impõe-nos um conjunto de processos e metodologias que são altamente burocratas. Isto faz com que nós recebamos uma candidatura e não possamos mexer nela; só a podemos analisar, ela não pode crescer, não pode evoluir. É o que entrou, para o mal e para o bem, portanto ou aprovamos ou chumbamos, não temos hipótese e temos que fundamentar bem o que fazemos. (…) os promotores, alguns desistem quando começam a olhar para 158 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social o formulário de candidatura e para o guião de apoio em que são definidos todos os documentos anexos que têm que ser apresentados, desistem porque realmente é um peso enorme. É um peso enorme sobretudo para aqueles que são sistematicamente os mais excluídos nestes processos». A maioria das críticas pode ser organizada nas três dimensões acima indicadas: a centralização do planeamento e da acção, o distanciamento da realidade local; as injustiças territoriais; as novas exigências burocráticas, informáticas e de certificação de qualidade. Existem ainda, contudo, outras críticas de surgimento mais esporádico, designadamente à falta de apoios do Estado à acção local (expressa não apenas num défice quantitativo, mas também nos atrasos na chegada dos financiamentos), à falta de sustentabilidade das políticas e projectos definidos centralmente (por exemplo, a falta de adequação dos prazos previstos para a concretização dos projectos e respectiva avaliação), à desarticulação entre as medidas centrais e ainda ao facto de o Estado não se comportar como um parceiro nos projectos de acção local. Algumas destas críticas articulam-se com as queixas relativas ao facto de diversos programas – por exemplo, o POPH – terem prazos para candidatura a projectos financiados muito imprevisíveis e em larga medida desconhecidos com antecedência. 5.5.5. Sugestões do local ao central. Sendo certo que as críticas apresentadas no ponto anterior contêm já, mais ou menos implicitamente, sugestões de mudança, é possível identificar, nos discursos dos/das entrevistados/as, sugestões explícitas à Administração Central. A mais saliente de todas as sugestões é a transferência de competências. A ideia central é aqui a de que: «(…) haja uma proximidade maior, uma descentralização dos apoios de tal maneira que possam ser mais eficazes e possam ser melhor geridos, e muitas vezes não são». De modo mais explícito e desenvolvido: «Para mim falha a centralização destas coisas. Nós, com metade do dinheiro, tínhamos feito aí coisas… Facilmente pegava numa fábrica têxtil que foi à falência e conseguia incubar empresas lá dentro, para nós era a coisa mais simples do mundo. No fundo é preciso arranjar espaços para regenerar este tecido industrial (…). Eu não era adepto da regionalização naquela altura, mas eu hoje tenho consciência absoluta que tem de haver uma repartição da riqueza do país; se não vamos ter regiões pobres e ricas, não há volta a dar (…)». A ideia central é, portanto, a descentralização: «A intervenção central deve ser assumir essencialmente o papel de “delegador” 159 Tiago Neves (Coordenador) de competências, de descentralização, de promoção da descentralização de competências, de verbas, de recursos, para as entidades locais poderem colocá-los em acção». No quadro da descentralização e transferência de competências, algumas instituições de zonas rurais mais isoladas aproximam-se da sugestão de adopção de medidas de discriminação positiva dos seus territórios, que no seu entender têm, durante muito tempo, sido negativamente discriminados. Ainda neste quadro encontra-se, como seria previsível, a solicitação à Administração Central de maiores apoios – financeiros e técnicos – para as instituições e dispositivos locais. Assegurar a sustentabilidade das intervenções é uma preocupação das instituições locais e constitui igualmente uma das sugestões à Administração Central: «O projecto de combate à pobreza e exclusão social devia ser pensado a 20 anos ou coisa parecida, até porque depois, não estamos a falar disso, mas cria outro problema para além do problema das famílias que estavam a ser apoiadas por aquele projecto ficarem sem apoio quando o projecto acaba; há também o desemprego dos técnicos que estão lá a trabalhar». As sugestões neste âmbito, não especificando o modo concreto da sua operacionalização, são no entanto congruentes com a lógica de transferência de competências acima descrita. Uma outra sugestão apresentada pelas instituições e dispositivos locais é a promoção de uma melhor comunicação entre os níveis central e local. O excerto seguinte concretiza esta ideia de necessidade de maior e melhor comunicação. Como se constata, os processos de transferências de competências são novamente trazidos para o centro da questão. «Eu acho que devíamos falar mais um com o outro. Às vezes andamos um bocadinho às escondidas entre o nacional e o local. Não é a desfavor das directivas nacionais até porque acho que as grandes medidas devem ser de programas nacionais, mas depois elas têm que passar competências e recursos para o nível local porque quem está no terreno tem outra possibilidade de intervir. Se nos fosse administrado um fundo para combater a pobreza, nós (Câmaras, Juntas de Freguesia) saberíamos muito bem para onde direccionar esse dinheiro. Às vezes criam-se medidas mas as medidas não são bem vistas aos olhos daquilo que as pessoas realmente precisam. Eu acho que ganhávamos mais se articulássemos melhor, quer nesta área, quer noutras. As autarquias são quem está mais no terreno. É muito importante e nesta área é vital». Salienta-se assim, na análise desta relação entre o central e o local, a importância conferida pelos/as entrevistados/as às questões relativas à transferência 160 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social de competências. De quando em vez este tema surge associado de modo explícito às questões da descentralização e/ou da regionalização. 5.6. A avaliação A avaliação constitui, conforme mencionado anteriormente, um outro eixo analítico privilegiado neste estudo focalizado na acção local no combate à pobreza e exclusão social. De facto, são inquestionáveis a sua importância e centralidade nos processos de intervenção social. Como referem Barbero e Cortès: «La evaluación es una forma de observación y análisis del funcionamiento de uma acción, de su diseño y de sus resultados com vistas a enjuiciar su capacidad para conseguir los objectivos y proponer las redefiniciones o ajustes que convengan para el futuro» (2005: 183). Nesta perspectiva, a avaliação está presente em todas fases do processo de intervenção social, constituindo uma parte integrante do mesmo. A sua realização repercute-se quer na eficácia, quer na eficiência com que são alcançados os objectivos definidos. Mais ainda, o seu contributo é, também, fundamental para a eventual (re)definição e reajuste das estratégias, acções e respectivo planeamento. Em alguns dos depoimentos recolhidos está patente de modo explícito que a avaliação constitui uma etapa do trabalho de projecto, a par do diagnóstico, do planeamento e da execução da intervenção: «A avaliação é geralmente vista, quando é possível, na maior parte das... como fazendo parte da própria metodologia do projecto. E portanto nem faz sentido fazer projectos sem que haja essa retroacção». É também salientado o contributo da avaliação para a reformulação do diagnóstico e da própria intervenção, na medida em que permite aferir aspectos positivos e aspectos a melhorar, permitindo igualmente reflectir sobre as estratégias adoptadas e sobre eventuais reajustes que se justifiquem: «Conseguimos diagnosticar sempre o que é necessário fazer no próximo ano, o que nos leva a novas soluções ou a ver [o] que é necessário fazer mais vezes. [A avaliação] É um aspecto muito importante para traçar um novo rumo, porque às vezes pode-se estar a incidir num grupo e não ser esse grupo o prioritário, e também dá visibilidade àquilo que os parceiros fazem. Ao estarem a avaliar, também estão a ver aquilo que fizeram e as mais-valias que daí resultaram». A mesma ideia da avaliação como instrumento importante de planeamento está patente nos dois excertos que se seguem: «Permite-nos mais ou menos ir identificando sempre quais é que são os pontos 161 Tiago Neves (Coordenador) fortes, os pontos fracos, onde é que actuámos melhor, onde é que actuámos pior, porque é que actuámos pior, estratégias para desenvolver, para melhorar. (…) Temos tido sempre algum cuidado nesse âmbito». «[A avaliação é importante] para justificar aquilo que fazemos: como temos que dar sempre a justificação, as coisas têm que ser muito ponderadas. Ou seja, a avaliação faz parte dessa nossa organização e ajuda-nos a planear depois o futuro». O impacto da intervenção desenvolvida é uma dimensão da avaliação enfatizada por um número significativo de entrevistados/as. Com efeito, como referem Barbero e Cortès: «Lo que pretende la evaluación es, por un lado, conocer los resultados y, por outro, ponerlos en relación explicativa con el desarrollo efectivo del proyecto (proceso de intervención efectivamente desarrollado), con el contexto social de las problemáticas que tratamos (y de la própria acción) y con nuestras intenciones (que por lo que respecta a la intervención se encuentran explicitadas en el proyecto)» (2005: 183). Neste sentido, salienta-se a importância de aferir a pertinência da acção local, da sua continuidade ou não, bem como de proceder a reformulações. Como aspecto favorável à concretização deste objectivo é realçado o aumento da duração dos projectos, que promoveu e tornou possível a realização da avaliação. «(...) as instituições [locais] fazem o máximo que podem, esta é a minha avaliação. Realmente traçam os seus objectivos, tentam concretizar, muitas delas com muitos esforços, aí cada vez mais isso é o discurso presente. (...) Que é o facto das instituições terem projectos plurianuais, isto dá uma margem de manobra completamente diferente, mesmo a nível da avaliação de impacto das nossas intervenções. Antes tínhamos projectos anuais. Os coordenadores de projecto não tinham tempo de avaliar os projectos, só tinham tempo de fazer relatórios, implementar o projecto, fazer o relatório semestral, avaliar o projecto, fazer o relatório final e acabar o projecto. E nova candidatura com outro…». O impacto da intervenção é perspectivado, também, em termos das dinâmicas que emergem de grupos sociais que, por força de algumas das suas características (como a idade avançada e um baixo nível de instrução) são geralmente representados como menos activos ou pró-activos. Neste caso em particular, de uma intervenção produzida a partir de um grupo de base comunitária com as características anteriormente referidas, a avaliação traduz o reconhecimento público da utilidade da intervenção no combate à pobreza e exclusão social e constitui um motivo de orgulho para a Direcção e para os membros da associação. Deste modo colocam-se em causa alguns estereótipos sociais e questiona-se a tendência para promover situações de ageism ao nível 162 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social da intervenção social: «Entrevistadora: 12 anos… que balanço é que vocês fazem das vossas actividades? (…) há uma coisa que é visível, que é terem mudado de instalações (…). Entrevistado: Um espaço que no concelho se calhar não há, ao nosso nível não há! E com (…) gente maior [que] ainda não têm uma sede própria! Nós, a nossa glória toda é esta, é uma glória que a gente, analfabetos e sem o curso escolar, conseguimos uma coisa que muitos não conseguem. E o que é que dá? É a carolice, é a vontade, é o gosto das pessoas nisto tudo». A mudança ao nível dos comportamentos é, do mesmo modo, mencionada como impacto da intervenção. Concretamente, na área da deficiência, ela traduz uma libertação face aos constrangimentos sociais e, consequentemente, uma maior participação na vida pública quer dos indivíduos portadores de deficiência, quer das suas famílias. «Já não é vergonha andar com um deficiente. Dantes (...) quando se ouvia falar de um deficiente, estava em casa; portanto, estava escondido. Era vergonhoso andar com um deficiente e hoje a [nome da associação] tem desenvolvido este projecto no concelho e arredores (…), as pessoas parece que não se envergonham de apresentar uma pessoa com deficiência; portanto, isso nota-se plenamente nos eventos, nos teatros que fazemos, nas festas de Natal». A avaliação do impacto da intervenção desenvolvida pelas instituições locais ao nível do emprego constitui uma questão central em muitas das entrevistas realizadas. Neste domínio é enfatizado o papel desempenhado por estas instituições ao nível da empregabilidade e, consequentemente, da actividade económica local. Importa uma vez mais salientar que as IPSS, juntamente com as autarquias, são entidades que empregam uma parte significativa da população de muitos dos concelhos do país. É referido, também, o seu contributo para a criação de emprego (através das empresas de inserção, por exemplo). Ainda na área económica, a aposta nos produtos autóctones e na sua comercialização em feiras e em outros eventos constituem situações que, simultaneamente, promovem o turismo regional. Podem assim gerar-se dinâmicas significativas no combate à pobreza e exclusão social. Atente-se nos quatro excertos que se seguem: «É um impacto muito significativo de diversas formas, tanto no campo (…) da resposta possível aos utentes que necessitam dos nossos serviços, como depois em termos de enquadramento e de empregabilidade que a instituição tem e do reflexo que isto depois demonstra em termos de actividade económica, por assim dizer. (…) E estamos a aumentar, não é?! Agora com esta nova unidade [de cuidados continuados] vamos empregar mais 17 funcionários. Se não existissem estas insti163 Tiago Neves (Coordenador) tuições, quer dizer, não sei… isto era muito difícil». «Para ser sincero, por um lado as pessoas que empregamos diariamente é de grande responsabilidade para a instituição, e é um factor de promoção da comunidade local porque geramos emprego. Outro aspecto importante é de facto respondermos a um universo grande de pessoas que usufruem dos nossos serviços». «Eu acho que o principal impacto que a associação está a ter perante as populações é o emprego que esta visa criar. Quer através de acções de formação, quer através das empresas de inserção, quer através do apoio às pessoas que queiram criar a sua própria empresa, quer através de empresas que se queiram remodelar e/ou qualificar». «Em termos da actividade económica, do emprego, temos apoiado empresas, seja a constituírem-se, seja a desenvolverem a sua actividade através de instrumentos como o PRODER, o LEADER e outros. No fundo ajudámos, o nosso papel aí foi importante na medida em que ajudámos a trazer para um território recursos que estavam disponíveis e que à partida poderiam não ser mobilizados para o território se ninguém o fizesse. E ao mobilizar para o território, mobilizámos para que outros possam investir: empresas, associações, Câmaras. A própria Câmara beneficiou ao longo destes anos de financiamento trazido por nós para [nome da localidade]: projectos da autarquia, unidade móvel de saúde, recuperação de alguns equipamentos aí no interior, equipamento para a população, etc.» A dimensão do reconhecimento social, da utilidade e da abertura de novos equipamentos e alargamento de algumas valências fruto das necessidades sentidas localmente são outros aspectos salientados naquilo que se refere à avaliação das repercussões das intervenções locais. Estes factores favorecem uma maior aposta na candidatura a projectos por parte das mais diversas instituições. Consequentemente, promovem parcerias locais, regionais, nacionais e transnacionais, e fomentam o trabalho em rede. «Nós criámos sempre uma grande dinâmica, estou-me a lembrar de 1992, quando fizemos aquele projecto com a etnia cigana que foi dos primeiros grandes projectos de intervenção e na altura é que arrastávamos também o município e tudo isso... Acho que foi sempre um elo de desenvolvimento para até outras instituições que foram criadas posteriormente. A acção local e a sua dinâmica a partir da [nome da instituição]». «Há uma percepção de prestígio e uma confiança, algum sentimento de confiança por parte das pessoas. As pessoas percepcionam a instituição, pela sua história, como bastante estável. Aquilo que se organiza por cá, seja na educação seja no apoio domiciliário, é uma coisa para ficar, para continuar, para evoluir, para 164 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social crescer». «Se uma acção é avaliada e se conclui pela importância da sua continuidade há um parceiro que assume a sua continuidade». A associação da avaliação a determinadas metodologias de intervenção, constituindo um instrumento específico e integrante das mesmas, a introdução de metodologias inovadoras e a sua disseminação (metodologias empreendedoras, as oficinas/clubes de experimentação, entre outras), e uma maior abertura à comunidade são outros impactos da intervenção mencionados nas entrevistas realizadas. «E eu penso que temos evoluído bem nas metodologias que temos adoptado, porque eu acho que nós somos pioneiros em muitas áreas [como] esta do empreendedorismo para crianças e temos uma metodologia de trabalho aqui no centro educativo que é uma referência, apesar de nós termos estado muito fechados estes três primeiros anos, porque achámos que também era muito importante constituirmos uma equipa de trabalho que se enquadrasse com esta filosofia de estar e, agora sim, começamos a abrir para o exterior, mas começamos… Já começam as pessoas a vir-nos pedir ajuda e a querer vir beber um pouco esta metodologia de trabalho, portanto eu acho que temos vindo a crescer (…)». Ainda neste âmbito foi referido que estão a ser pensadas novas propostas que se constituem em iniciativas na área da avaliação propriamente dita. Concretamente, pretende-se promover «uma sistematização da prática com fundamento numa leitura empírica de resultados e de eficácia e eficiência. E essa sistematização da prática é em torno da animação comunitária, de estratégias de fortalecimento da sociedade civil». Nesta perspectiva, a avaliação está intimamente associada à produção de conhecimento, facto que é também defendido por Barbero e Cortès: «Además de encontrar razones sobre lo sucedido, es una reflexión abierta a nuevas hipótesis sobre cómo mejorar de nuevo la intervención o cómo corregir los resultados insatisfactorios (es una reflexión que también está abierta a teorias alternativas de comprensión de los fenómenos tratados)» (2005: 183). O excerto que seguidamente se transcreve constitui um exemplo significativo da ideia apresentada. «Conhecimento esse que se constrói a partir da sistematização da prática. Portanto, é uma sistematização reflectida que pode ter uma ou outra iniciativa um bocadinho qualitativa, quantitativa, mas mais focada no aspecto A, B ou C, mas que se reconduz à sistematização do conhecimento para depois poder ser partilhado. (…) que não há ninguém melhor posicionado para discutir, melhorar e reflectir do que os praticantes. Os praticantes são as pessoas da nossa equipa, são pessoas das organizações… A minha ideia é constituir uma comunidade de prá165 Tiago Neves (Coordenador) ticas, digamos que o conceito de Étienne Wenger, uma comunidade de práticas voltada para esta questão: capacitação, sociedade civil, fortalecimento, práticas, metodologias, convicções… Não é propriamente avaliação mas implica um exercício de reflexão crítica (…)». A análise dos depoimentos recolhidos permitiu constatar que, para alguns dos/as entrevistados/as, a avaliação reduz-se a uma operação que se realiza no final do processo de intervenção. Esta perspectiva surge com alguma frequência, confirmando-se aquilo que argumentam Barbero e Cortès: «A menudo, la evaluación se considera una operación que se desarrolla al finalizar la intervención» (2005: 183). Neste caso, os objectivos que presidem à realização da avaliação são muito diversos. Os dados revelam uma preocupação em conhecer a opinião dos utentes sobre os serviços prestados pela instituição. Esta preocupação pode encontrar satisfação nos comentários e elogios dirigidos quase quotidianamente, ou adquirir um carácter mais formal e intencional através da realização de inquéritos por questionário fornecidos aos utentes e seus familiares. No mesmo sentido, a imagem da instituição no território, o reconhecimento público e institucional, a existência de uma “lista de espera” – a face visível da procura – são referidos como indicadores de qualidade. Veja-se o conjunto de excertos que se segue: «Sim, fizemos os inquéritos e questionários aos familiares dos utentes, utentes e funcionários e obtivemos o grau de satisfação». «[a avaliação é realizada] Basicamente através de conversas informais com as pessoas. Nós temos alguns instrumentos que aplicamos. Mas as pessoas não são muito dadas a instrumentos formais, por muito que eu tente. Eu vou tentando transcrever tudo e ser o mais fiel [possível] às ideias. É sempre um balanço feito com quem fazemos. Vamos ponderando as acções, o que correu bem, o que não correu tão bem, o que devemos melhorar, aquilo que não é para repetir, aquilo que se pode potenciar». «Nós fazemos um bom trabalho e isso chega-nos pelas pessoas... E acho que isso é fundamental: damos ou tentamos dar a resposta quando é necessária. Se nos continuam a procurar e a pedir ajuda, e sempre que a solicitamos também a recebemos, acho que só por aí isso é um bom indicador que estamos a fazer um bom trabalho no concelho...». «Nós temos em curso um sistema de avaliação, mas neste momento são as próprias famílias que estão satisfeitas e que nos dizem: “Há uma evolução. Ele nunca fez isto e está a fazer isto. Já anda, já está a falar melhor, está a ultrapassar este problema psicológico que tem»”. Portanto, é por aí que nós vimos que estamos a dar 166 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social um bom exemplo no nosso trabalho». Deve assinalar-se que, quando este tema era abordado nas entrevistas, a Rede Social local era focada com alguma frequência e, em jeito de avaliação, eram identificados os seus pontos fortes e fracos. Entre os aspectos positivos eram referidos a elaboração dos diagnósticos sociais e o contributo dos grupos temáticos para alcançar este objectivo; a fluência da comunicação entre os parceiros e o trabalho e o empenho das Comissões Sociais Inter-Freguesias – CSIF. Os pontos negativos centravam-se nas dificuldades em concretizar as metodologias participativas. Os/as entrevistados/as enfatizaram o papel dos líderes, que por vezes influi sobre o carácter representativo destas estruturas. A informação/comunicação foi apontada como um outro ponto-chave ao nível do funcionamento da Rede Social. «E acho que isso [a comunicação] também é importante para as pessoas, para terem o feedback do que está ser feito e para as motivarem para continuarem a participar. E para nós também é muito importante, para vermos se correu bem ou menos bem e para melhorarmos o nosso trabalho». Quanto aos Contratos Locais de Desenvolvimento Social, ainda que a informação recolhida neste domínio tenha sido reduzida, encontraram-se algumas referências ao impacto destes na comunidade local. O excerto que se segue reporta-se aos impactos do de um CLDS num território do interior e marcadamente rural: «O que para mim isto tem de melhor é a quebra de isolamento social e geográfico, a promoção do contacto entre diversas gerações, é o passar de tradições, é a interacção, o reforço de laços sociais. Porque é para todos, é para o benefício da comunidade. Mas se é palpável…: não é». Em contextos mais urbanos, o enfoque vai muito para a questão das parcerias interinstitucionais criadas, mas também para o impacto concreto dos CLDS em franjas específicas da população (beneficiários/as do RSI, comunidade cigana, etc.): «Em relação às parcerias, eu acho que conseguimos introduzir nesta comunidade alguns espaços de maior encontro entre as instituições, bem como a entrada de outras novas (…) instituições de [nome da freguesia] que estavam muito à margem das parcerias. Eu acho que o Contrato acabou por trazer novos parceiros para a comunidade. Relativamente às questões de acompanhamento das famílias, [a freguesia] tinha processos de RSI que nem sequer tinham planos de inserção. A nível da Segurança Social, [nome da freguesia] era uma freguesia que estava muito ao abandono porque só tinha um técnico e o acompanhamento estava muito 167 Tiago Neves (Coordenador) distanciado das pessoas. E criava até injustiças: uns tinham o plano de inserção e conseguiam apoios complementares e outros não tinham. (…). E neste momento era suposto termos 30 famílias em plano e já estamos com 40, que passaram a ter outro acompanhamento. E não há dúvida que estas famílias começaram a ser vistas como um todo, num acompanhamento mais global. (…) Surge aqui uma resposta a esse nível, mais integrada. Considero isto uma mais-valia. (…) E esta questão de nós estarmos a investir bastante relativamente à qualificação das pessoas, isso é fundamental. Assim como algumas crianças e mulheres passaram a ter autonomia, que foi fruto deste trabalho de proximidade. E mesmo em relação às questões da etnia cigana, também acho que as pessoas passaram a estar aqui melhor». O/a coordenador/a de outro CLDS sublinha novamente a dinâmica interinstitucional que este programa permitiu gerar localmente e remete para o trabalho de capacitação que procuram fazer junto das populações em situação de maior vulnerabilidade: «Eu acho que uma das coisas interessantes neste tipo de contratos é primeiro fixar o objectivo e depois estas (…) instituições e entidades envolvidas terem de facto de trabalhar em conjunto. Dos técnicos da Segurança Social temos tido toda a cooperação e o reconhecimento da necessidade daquilo que estamos a fazer… Como é que vai ser o futuro? Seria um êxito se nós conseguíssemos que a população que é o nosso alvo reproduzisse a filosofia que nós lhe estamos a tentar passar. Estas pessoas são pobres, não têm necessidade de ser pobres. Alguém disse um dia que a pobreza é um atentado aos direitos humanos... têm de ter pelo menos aquilo a que têm direito enquanto pessoas... temos que os fazer promover... têm que perceber isto e tomar o destino nas suas mãos, o que é um bocadinho difícil de se ensinar mas enfim... e se essas pessoas conseguissem passar estas mensagem aos outros porque nós não conseguimos chegar a todos...isso faria a diferença». A alusão à emergência de novos problemas foi referida como um outro resultado do processo de avaliação do trabalho desenvolvido pelas instituições locais. Na actual situação de crise socioeconómica, as questões mais salientadas foram um aumento das famílias carenciadas e da dependência destas face aos serviços prestados pelas instituições: «Cada vez está a haver um aumento de famílias dependentes destes serviços, e se calhar os problemas não têm diminuído porque o número de famílias vai aumentando cada vez mais». Importa, também, referir que por vezes os/as entrevistados/as não dissociavam a avaliação da intervenção do conceito de avaliação do desempenho: 168 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social «[A avaliação faz-se] no dia-a-dia, no saber-fazer, no saber-estar e eu vou estando presente e vou corrigindo alguns comportamentos. É uma avaliação diária! Não tenho um modelo de avaliação pensado neste momento para ter resultados mais objectivos, se bem que estamos também a preparar a avaliação desempenho dos funcionários (…)». «Fazemos avaliação de competências dos colaboradores e fazemos avaliação semestral e anual de cada valência». Ainda que a importância da avaliação nos processos de intervenção social não seja posta em causa ou questionada pelos/as nossos/as interlocutores/as, foi relevante o número de instituições em que este procedimento é inexistente enquanto prática sistemática com instrumentos próprios. «Nós não temos ainda implementado esse sistema de avaliação com objectivos (…) e questionários de satisfação, não aderimos ainda ao sistema de gestão da qualidade». «Nós não avaliamos pelo menos na forma ideal de avaliação, que é exactamente um dos requisitos do processo de governação». «Não está ainda implementado ao nível da Rede Social um sistema de avaliação/ monitorização da actividade». Os dados recolhidos permitiram constatar que a realização da avaliação pode resultar de uma imposição, nomeadamente da certificação de qualidade ou do cumprimento de requisitos impostos pelos programas/candidaturas e por instituições estatais (por exemplo, o Ministério da Educação e a Segurança Social). Em relação às questões da certificação da qualidade, as instituições têm cada vez mais a noção de que, para obter essa certificação, a avaliação é um requisito incontornável: «Existem de facto as parcerias, formais e informais, e nós temos como objectivo também obter o certificado de qualidade (…). Para essa parte tenho pensado fazer uma gestão das parcerias visto que é preciso avaliar essas parcerias e gerarmos documentos escritos onde estão os nossos parceiros, que tipo de parcerias se fazem, que área, que sector, e documentos avaliativos das parcerias para os nossos parceiros preencherem em relação a nós». São várias as organizações que fazem referência aos procedimentos de monitorização e avaliação como algo imposto por entidades externas, nomeadamente por aquelas que comparticipam os serviços e valências sociais (por norma a Segurança Social), bem pelos programas nacionais e comunitários que financiam os projectos locais. Atente-se nos vários excertos que se seguem: «A avaliação é feita por todas as equipas, todos os projectos têm que fazer avalia169 Tiago Neves (Coordenador) ção. Não é possível não fazer, aliás é uma imposição dos programas. E achamos bem que assim seja. Portanto, todas as equipas têm que fazer avaliação». «Nem que não quiséssemos, tínhamos de o fazer para Segurança Social: temos de avaliar, temos x utentes, x famílias, x acções, x acordos assinados. O relatório vai mais resumido, mas na acção social o relatório vai detalhado». «[a avaliação] É cada vez mais uma prática. (…) A nível da formação ela existe sempre, nos projectos também é sempre considerada. (…) depois porque começamos a ver efectivamente benefícios da avaliação nas várias fases do processo. Muitas vezes é difícil conciliá-la e às vezes é preciso arranjar estratégias muito diferentes para fazer a avaliação. (…) Para além de ser obrigatório, era uma prática que nos trazia informação importante para planear as actividades e ver o que é que funcionava melhor». «Nas avaliações nós temos uma coisa que é obrigatória por lei, que são os relatórios de actividades que temos que entregar na Segurança Social, que é uma sistematização do que fazemos». «Nós somos por contrato obrigados a fazer um certo número de relatórios, quantitativos e qualitativos, e há um relatório final e ninguém sabe qual o futuro disto, se continua ou não, em que se deverão fazer recomendações do tipo [qual é a] área de intervenção prioritária por exemplo». «É-nos exigido a demonstração de folhas de presença, fotografias, depoimentos escritos. O feedback é obrigatório». O que alguns destes excertos também ilustram é uma certa confusão – relativamente frequente no discurso dos actores locais – entre procedimentos de avaliação e controlo administrativo exercido pelas entidades financiadoras. Os/as entrevistados/as reconhecem a importância deste procedimento embora por vezes critiquem o seu formalismo excessivo e a burocracia que lhe está associada. Consideram que estes factores por vezes desvirtuam o próprio processo de avaliação, privilegiando aspectos de pendor mais economicista e fiscalizador (presenças dos formandos, preenchimento dos formulários, etc.) e descurando aspectos mais qualitativos (tais como a avaliação das mudanças ao nível das trajectórias dos indivíduos ou das taxas de empregabilidade). «Nós temos auditorias, as auditorias querem lá saber dos resultados dos nossos projectos, não querem saber nada. Querem saber é se os papéis estão bem, se a senhora assinou devidamente a folha de meios… Nós isso temos tudo certinho porque já sabemos que não vale a pena ter problemas por isto (...) mas a preocupação dos auditores, a auditoria é sempre técnica, é sempre financeira. Estes senhores fizeram formação de cozinheiros, como é que eles estão, o que é que lhes 170 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social está a acontecer, quantos deles estavam desempregados e quantos deles passaram a ter emprego? Não interessa, ninguém quer saber. Portanto vivemos numa economia muito preocupada com o dinheiro mas que desperdiça imenso dinheiro. É esquizofrénico». É perceptível no discurso de algumas entidades entrevistadas que a avaliação nem sempre é uma etapa devidamente planeada e que a sua concretização se apresenta muitas vezes dificultada pela falta de recursos humanos (ou pela falta de disponibilidade dos recursos humanos existentes): «Temos necessidade de pegar na formação que fizemos nos últimos cinco anos e avaliar. Eu preciso de saber, eu e os parceiros precisamos de saber: aqueles formandos que tiveram connosco um curso de longa duração a fazer jardinagem aonde é que estão agora? O que é que lhes aconteceu? Mas ninguém nos paga para isso. Eu para isso preciso de ter pessoas financiadas de alguma forma para estar a fazer esse tipo de trabalho. É evidente que vamos tentar fazer intercalando projectos, porque depois a equipa tem que estar a executar, a desenvolver outras iniciativas, não é?». As lacunas em termos de conhecimentos técnicos, conceptuais e metodológicos são um constrangimento adicional ao desenho e implementação de sistemas de avaliação mais eficazes e operacionais. Isso mesmo ilustra o excerto que se segue: «Fazemos a avaliação com muita dificuldade porque não nos concederam um avaliador externo. Até porque eles já estão mais habituados, já têm uma série de metodologias que lhes permitem verificar os resultados. Neste momento, o que fazemos em termos de avaliação são os constrangimentos que tivemos no final de cada actividade e depois fazemos um bocado a taxa de execução, o que tínhamos previsto e o que conseguimos atingir. Nos workshops ou actividades em auditórios passamos um questionário no final a cada participante, a perguntar a opinião deles, pontos fortes, fracos, sugestões». A mesma necessidade de um “apoio externo” por falta de conhecimentos técnicos, conceptuais e metodológicos para desenhar um processo de avaliação e construir indicadores e instrumentos adequados encontra-se patente nas palavras da responsável técnica de uma outra instituição: «(…) relatórios mensais, milhares de fotografias, de tudo... Mas também começouse a fazer os registos há uns anos para cá... Depois também as dificuldades económicas que passamos impedem-nos de ter pessoas da área para nos ajudarem um bocadinho». Assim, e apesar de reconhecerem a mais-valia que a componente da avaliação externa constituiria, a maioria das instituições entrevistadas, geralmente 171 Tiago Neves (Coordenador) por limitações de carácter financeiro, recorre apenas às modalidades da autoavaliação – realizada pela própria equipa que executa a intervenção – e da avaliação interna – realizada dentro da própria organização, mas por pessoas não directamente envolvidas na intervenção: «Ainda hoje estivemos a discutir a grelha de avaliação que estamos a usar... porque nos interessa de facto saber se correspondemos ou não às solicitações». «Há uma avaliação mais operacional que é feita pelas equipas de projecto e há uma avaliação mais estratégica que é feita pelas equipas com a direcção. Quando é definir estratégias, quando é para definir problemas um bocadinho mais, sejam institucionais, de parceria, problemas que existem na gestão normal, essas aí envolvem normalmente mais a direcção. Mas sempre com os técnicos». «São feitas as actividades, depois é escrito um relatório e são avaliados pontos fortes e pontos fracos, oportunidades…». «Mensalmente, todas as técnicas responsáveis pelas valências têm indicadores que têm que preencher e de me entregar e depois a avaliação é feita comigo [directora técnica] e com a presidente, e são ajustadas algumas medidas». «Temos os nossos instrumentos de gestão, que nos permitem fazer a nossa avaliação de como estamos a desenvolver determinado tipo de actividade, da forma como ela está a funcionar, e quais são as necessidades e os constrangimentos e as soluções necessárias… (...) São instrumentos operacionalizados. São as reuniões de trabalho, as nossas análises, as nossas reflexões. Depois há toda a quantidade de instrumentos fornecidos em termos centrais, tendo em conta que a nossa actividade depende, e é marcada essencialmente, pelos acordos de cooperação, pelos contratos com os Ministérios da Educação e da Segurança Social, e há instrumentos de avaliação específicos para as actividades». Encontram-se, contudo, instituições que solicitam a colaboração de empresas e/ou do meio académico para apoio na construção do plano de avaliação, dos respectivos indicadores e instrumentos de registo e avaliação. Esta procura de apoio e consultoria externas tem implícita o reconhecimento da importância da avaliação nas suas múltiplas funções – medição de resultados, instrumento de apoio à tomada de decisão, processo formativo e de aprendizagem, momento de reflexão e participação dos diferentes parceiros (Guerra, 2000: 186-187). «[por imposição formal desde 2002, por parte do Ministério da Educação] fazemos um grande esforço neste âmbito, e não sabíamos trabalhar bem os dados e então apostámos na contratualização de uma empresa. Nós neste momento temos a Anotherstep connosco e a Universidade Católica, que nos está a ajudar a pôr em prática esta avaliação. Para chegarmos de facto a consensos e podermos saber 172 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social quais são os nossos pontos fortes e os nossos pontos fracos, os nossos constrangimentos de maneira a poder elaborar planos de melhoria». «Nós definimos os indicadores de avaliação e inclusive temos tentado procurar parceiros nas Universidades que nos ajudem a fazer uma investigação nessa área. Neste momento estamos a trabalhar com a Escola Superior de Saúde Pública de Lisboa e estamos a tentar avançar com eles para a avaliação da intervenção. Já tentámos uma experiência também com a Universidade de Évora, mas as Universidades ainda não estão suficientemente oleadas para esta investigação. Pelo menos mais para Sul é necessário fazer-se um trabalho de mais ligação das Universidades aos territórios e nesta área sente-se muito esta necessidade». A avaliação externa é uma modalidade valorizada pelas instituições, mas reconhecem que a sua concretização exige uma disponibilidade financeira que raramente têm e que os programas de financiamento nem sempre contemplam como rubrica elegível, como é ilustrado pelas palavras do/a coordenador/a de um CLDS: «Porque eu até pedi para nos fazerem a avaliação [externa] do projecto, mas disseram-me que não era elegível. Portanto fizemos nós, mas se viesse alguém de fora era mais fácil». O recurso à avaliação externa é justificado pelos/as entrevistados/as como um mecanismo que confere maior legitimidade e credibilidade à intervenção que desenvolvem e ao próprio processo de avaliação: «Mas a dúvida que temos no final é se estamos a fazer uma avaliação em causa própria. Nós procuramos ter apoios exteriores (…). Temos agora uma avaliação externa do [nome da empresa imperceptível], como temos o centro de qualidade, temos aquele patamar de excelência. Temos pessoas externas que fazem esse papel». «Nós, ao nível da avaliação dos projectos, porque entendemos que é necessário fazer uma avaliação externa que seja objectiva, porque nós – costumo dizer – nós sabemos que somos bons, mas temos que ter evidências, e essas evidências vêm de quem tem as competências. Para nós é fundamental envolver, mesmo nos projectos do Equalidade envolvemos a Universidade do Minho, na questão do desenvolvimento do projecto, acabamos por sempre por procurar… Projectos que tivemos no âmbito do Ser Criança, projectos ao nível da infância, e envolvemos sempre… Nesse caso envolvemos o Instituto de Apoio à Criança da Universidade do Minho (…). Costumo dizer que somos bons, [mas] os outros também têm que dizer, alguém externo tem que dizer que somos bons». Esta secção do estudo termina com a questão da participação dos públicos no processo de avaliação. Este constitui, a diversos níveis, um dos pontos crí173 Tiago Neves (Coordenador) ticos da avaliação. Muitos dos excertos anteriormente apresentados ilustram de modo significativo a centralidade dos dirigentes e técnicos na realização da avaliação da intervenção desenvolvida pelas instituições locais. Já no que se refere à participação dos públicos, a informação recolhida aponta para uma participação inexistente ou muito limitada a algumas etapas do processo de intervenção – designadamente às actividades propriamente ditas e à sua avaliação. A baixa participação é, por vezes, justificada pelos actores institucionais pela incapacidade ou falta de competências do próprio público para participar: «Vão-se tendo conversas informais. Não se pode fazer inquéritos exaustivos porque as pessoas não têm à-vontade para isso...». «Isso é complicado, ainda não chegámos tão longe. Eu sei que isso é o ideal em termos de qualidade. Temos começado a aplicar os questionários do grau de satisfação das pessoas, etc., mas participação efectiva não. Porque, sejamos realistas, a maior parte das pessoas, coitaditas, não sabem falar. O que é que elas vão dizer? Com todo o respeito. Mas as pessoas têm maioritariamente escolaridade baixa, não têm opinião formada sobre determinadas coisas, não têm sequer capacidade crítica de avaliar e de dar grandes contributos. Vão dando as suas sugestões, que nós tentamos ter em conta». Não obstante, são várias as instituições que valorizam esta participação e que procuram fomentá-la quer por via de estratégias mais informais, quer por via de instrumentos mais estruturados e formais: «Entrevistadora – Gostava de lhe perguntar, ainda a propósito desta questão do envolvimento e da participação, se vocês têm previstos mecanismos de envolvimento da comunidade no processo de avaliação. E de que forma? Se me podia dar exemplos de como pretendem envolver a comunidade... Entrevistado: Por exemplo em manifestações informais, ora mesmo em sede de instrumentos mais rígidos, por exemplo indicadores de satisfação e reacção com as actividades. Por exemplo, nas acções de formação, até por preceito, os dossiers tecnico-pedagógicos têm prevista uma bateria de instrumentos… Não são muitos… Um, dois, mas com uma grelha de indicadores que nos permite perceber se as pessoas de facto gostaram ou não, que impacto é que sentiram, que tipo de situações gostavam de ver melhoradas. Depois há uma questão de observação dos técnicos, que permite aferir o depois em função do antes. Portanto, sim, temos previsto esse tipo de auscultação de uma forma, às vezes, umas mais directas do que outras, mas sim». «Os meus grupos são obrigados a participar. Olhe, como vê está aqui já, eles têm no final a auto-avaliação do projecto. Eles estão obrigados a entregar-me isto até 174 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social dia 20. Não queriam mas são obrigados». Apesar da baixa participação dos públicos em geral, parece no entanto estar a assistir-se a uma tendência de aumento dessa participação. Com efeito, encontram-se referências diversas a aumento expressivo do nível de participação da população nas iniciativas promovidas pelas diferentes instituições. Desta feita, a capacitação das pessoas é apontada como uma causa para a mudança de comportamentos. «Eu acho que é mesmo a participação da população. Acho que é um bom indicativo. Se participam nas actividades, se participam nas reuniões e nas iniciativas convocadas por nós…». «As pessoas sabem o que é que se faz desde o início, como é que as coisas se fazem, que recursos são necessários. Ou seja, nós estamos a trabalhar desde o início na capacitação das pessoas e o factor empowerment está lá, obviamente. E o resultado disso mesmo é as pessoas, sozinhas, juntarem-se, organizarem-se e virem-nos propor coisas quando antes tínhamos que ser nós a ir chamá-las». «As pessoas têm uma consciência mais crítica em relação a qualquer ideia. Estão mais informadas. Os discursos vão-se alterando aos poucos. Eu noto que as pessoas fundamentam mais aquilo que dizem e dão exemplos, isto porque participam. Como estão presentes, acabam por estar mais confortáveis na altura de partilhar ideias, de discutir opiniões, de fazer balanços. As pessoas começam a habituar-se a ter voz activa nas coisas. E isso nota-se tanto nas actividades mais lúdicas como nas intervenções mais políticas, em assembleias ou em reuniões que se têm. A postura das pessoas alterou um bocadinho». Por fim, saliente-se o facto de a participação das entidades parceiras no processo de avaliação ser um tema pouco presente e pouco valorizado nos discursos dos actores entrevistados. Em suma, estas são as dimensões mais relevantes na análise dos processos de avaliação da acção local no combate à pobreza e exclusão social identificadas a partir do material recolhido. 175 Tiago Neves (Coordenador) 176 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social 6. As Estruturas Centrais Depois de analisado o discurso dos actores locais entrevistados em cada um dos concelhos seleccionados, esta secção será dedicada à apresentação dos dados recolhidos junto de estruturas de nível mais central, na sua maioria representativas de organizações do terceiro sector, mas também de organismos da administração pública local, do sector empresarial e dos sindicatos. Procurou-se abarcar um conjunto diversificado de actores institucionais que de alguma forma estão ligados ao tema do combate à pobreza e à exclusão social, mas que têm representação a nível nacional, configurando-se na sua maioria como organizações de cúpula. Atendendo à frequência com que o Instituto de Segurança Social surge visado quer no discurso dos actores locais, quer no das instituições de nível mais central, entendeu-se ser pertinente entrevistar este organismo estatal e dar conta das suas posições neste capítulo. Nas entrevistas realizadas junto dos actores de nível mais central procurouse aprofundar algumas dimensões da acção local no combate à pobreza e exclusão social, mas também perceber como neste domínio se relacionam e articulam os níveis local e central. São essencialmente quatro as temáticas focadas: i) o lugar da acção local, as suas potencialidades e limitações no domínio da intervenção social; ii) a relação entre o nível local e o nível central no combate à pobreza e à exclusão social, e a forma como estes dois níveis de intervenção se articulam e influenciam; iii) os novos problemas sociais identificados; e iv) as áreas de intervenção prioritárias no combate à pobreza e exclusão social e as propostas concretas de actuação 6.1. O lugar da acção local. Procurou-se aferir junto destas instituições qual o lugar da acção local no combate à pobreza e à exclusão social, que importância assume o local neste domínio, que potencialidades e limitações apresenta. De forma sintética, apresentam-se algumas das principais dimensões salientadas pelas instituições de nível central, que em grande parte coincidem com as destacadas pelas entidades locais (cf. Capítulo 5) •A actuação articulada, integrada e desenvolvida em parceria. A acção local é encarada como intervenção alicerçada no trabalho de par177 Tiago Neves (Coordenador) ceria, na articulação interinstitucional, onde se procura efectivar uma convergência entre os actores locais das mais diversas áreas. Esta articulação é olhada quer numa óptica de rentabilização e potenciação de recursos, quer como garante de uma maior sustentabilidade das intervenções através do envolvimento activo dos diferentes agentes locais: «Agir local significa agir de uma forma articulada, integrada, e o mais próximo possível das pessoas que estão em situação de carência e de sofrimento em primeira instância. E depois tentar resolver a situação de uma forma mais duradoura, tendo sempre consciência que há sempre estas limitações estruturais. E em parceria o mais integrada possível e as instituições assumirem um papel cada vez mais activo nestas respostas». Contudo, e apesar de enfatizarem esta dimensão, os actores institucionais reconhecem que a intervenção integrada assente na articulação interinstitucional e em parcerias efectivas surge ainda como uma prática a consolidar: «Eu acho que acção local é a interligação entre vários parceiros num determinado local, ou de habitação ou freguesia. E acho que tem de se caminhar para aí. As nossas potencialidades deviam ser todas articuladas. Quer dizer, eu acho que há muitas entidades a trabalhar uma para cada lado, há montes de pessoas a trabalhar para a cultura, há montes de pessoas a trabalhar para idosos, há montes de pessoas a trabalhar para jovens e não há uma conjugação de esforços e até financeiros». •A intervenção de proximidade mais adequada às especificidades do local. A acção local é perspectivada como uma intervenção de proximidade, sendo que esta proximidade comporta um conjunto de mais-valias: um maior e melhor conhecimento da realidade e das vivências concretas das pessoas e das comunidades, dos problemas e necessidades que as afectam e, consequentemente, uma maior capacidade de elaborar diagnósticos locais e definir intervenções mais ajustadas às especificidades dos territórios: «É no local que se revelam os problemas e a acção local é a que está mais próxima das pessoas, dos problemas e das dificuldades. Portanto, tem que ser na acção local que se têm de retratar os problemas». «Nas zonas mais recônditas de Trás-os-Montes, naquele distrito de Castelo Branco, muitíssimo desertificado. E aí é mesmo a nível local. (…) [as instituições] conhecem gerações de famílias. Viram chegar as pessoas, nascer, foram baptizados todos naquela igreja, casaram-se e morreram todos ali. É difícil ter um conhecimento mais profundo das comunidades». 178 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Para algumas instituições entrevistadas, esta proximidade fez e continua a fazer do local um espaço por excelência para a emergência de respostas concretas para os problemas das populações: «Foram as IPSS que resolveram o problema dos idosos e da falta de resposta que as famílias tinham para o isolamento. Acontece o mesmo para as crianças e na deficiência também não havia nada até os pais se juntarem para criar as CERCI e as APPACDM». Enfatiza-se aqui o papel pioneiro da sociedade civil e, em particular, do terceiro sector na implementação e desenvolvimento de respostas para indivíduos em situação de risco social. •A mobilização da comunidade e dos actores institucionais locais. Os actores institucionais atribuem ao local uma maior capacidade de mobilização das pessoas e das instituições, e nesse sentido é-lhe reconhecido um papel fundamental enquanto espaço privilegiado de promoção de novas dinâmicas de participação: «Como há bocado referi, o poder local tem aqui uma importância muito grande, para já para chamar estes protagonistas todos, mais do que ninguém, uma Câmara Municipal ou um autarca prestigiado para chamar as pessoas todas e vê-se aí nalgumas autarquias as potencialidades que alguns autarcas têm em chamar todo o mundo e avançar com projectos, com ideias. O país precisa desta descentralidade, precisa de pôr as pessoas a mexer no local, mesmo em termos participativos, as pessoas aprendem a participar é no local». E, com frequência, como ilustra o excerto acabado de citar, as autarquias – sejam as freguesias, sejam os municípios – são encaradas como agentes centrais neste processo de mobilização institucional e comunitária: «A capacidade realizadora [das freguesias] é que é muita, somos muito criativos porque administramos recursos limitadíssimos, e temos que ser muito criativos e temos muita capacidade mobilizadora dada a proximidade e a empatia local (…). Por exemplo, nós não temos competência na habitação social (…). Por que é que nós devíamos ter competências na habitação? E na resolução dos problemas da habitação social? Pela tal capacidade mobilizadora local. Isto é, nós temos uma capacidade de gerar sinergias que nenhum outro organismo tem, (…) muito menos o Estado». «Eu acho que a eficácia de muitas acções passa exactamente por esta abordagem territorial aos problemas. Sem dúvida, sem dúvida que sim. Até porque é muito mais fácil mobilizar os interesses das instituições. O autarca é eleito, tem responsabilidades e quer mostrar. As organizações, porque respondem a problemas 179 Tiago Neves (Coordenador) concretos das necessidades das populações que residem naquele território…». Ao realçarem estas dimensões, os actores instituições acentuam sobretudo as potencialidades da acção local no combate à pobreza e à exclusão. Porém, nos seus discursos, a par destas virtualidades vão sendo referidas fragilidades, limitações e constrangimentos sentidos localmente nesta área de actuação. Passamos agora a enunciar as principais potencialidades que estas organizações atribuem à acção local e os factores que condicionam e limitam a sua eficácia. •Potencialidades do local. A principal mais-valia da acção de nível local e que os actores apontam quase sempre por contraposição à actuação do Estado central prende-se com a já focada proximidade aos problemas e necessidades sentidos pelas populações, que permite a elaboração de diagnósticos locais e a definição de intervenções mais ajustadas às especificidades e às reais necessidades de um determinado território ou comunidade. Neste sentido, algumas das estruturas de cúpula entrevistadas realçam o facto de a acção local conseguir chegar a territórios e actuar junto de segmentos da população que, por motivos e constrangimentos vários, escapam à actuação do Estado: «Nós frequentemente colmatamos as ineficiências do Estado central e as suas obrigações (…). O cidadão, hoje obviamente mais esclarecido que há uns anos atrás, logo, mais exigente, não quer saber quem é que é tem a competência de resolverlhe o problema, quer é o problema resolvido». O que este excerto ilustra é que a proximidade aos cidadãos também impõe uma outra pressão às estruturas locais, que as entidades da Administração Central não sentem de forma tão directa e imediata. Quando se referem à importância da acção local na área da intervenção social, estas instituições de nível central, quase invariavelmente, destacam a importância que as Redes Sociais vieram conferir ao local no combate à pobreza e à exclusão social. Desde logo, pela transferência para estas estruturas de uma série de responsabilidades e dimensões de decisão: «Depois há um diploma que importa, que é a Rede Social, que cria uma estrutura integrada de intervenção, de diagnóstico. E este é um instrumento importante ao nível local no combate à pobreza e à exclusão social, e neste momento é através da Rede Social que a maior parte das intervenções se vão desenhando, desde os planos de desenvolvimento social, etc.». «[A Rede Social foi] a primeira forma estruturada de organizar os recursos e as expectativas e as intervenções de carácter local em volta dum fórum, ou duma instância que congrega todas as entidades que têm relevância desse ponto de vista. 180 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Portanto, a Rede Social veio de facto introduzir aqui alterações muito significativas na medida em que transportou para o terreno local uma dimensão que tradicionalmente era uma dimensão da Administração Central e que é a que tem a ver com as tarefas do planeamento, do diagnóstico, do planeamento e da avaliação das intervenções». «(…) a Rede Social nasce exactamente procurando o quê? Que localmente se encontrassem as estratégias, a par das políticas de âmbito nacional, mas que localmente se encontrassem as estratégias capazes de levar por diante um combate sério à pobreza e à exclusão social. Na perspectiva da avaliação das oportunidades de emprego, na perspectiva do diagnóstico das fragilidades de qualificação das pessoas, do próprio diagnóstico das qualificações económicas dos territórios e do seu potencial, e a Rede nasce um pouco em volta disto, para combater a pobreza e a exclusão social. Dirse-á: tem sido eficaz desse ponto de vista? Eu diria que tem, embora pudesse ir mais longe». De facto, as organizações entrevistadas consideram que a eficácia da acção local impõe uma visão estratégica dos territórios e a necessidade de pensar a intervenção de forma articulada e concertada, e nesse sentido as Redes Sociais cumprem um papel primordial. Apesar da relevância que conferem a este dispositivo, os/as entrevistados/as não deixam de lhe apontar algumas fragilidades: o facto de por vezes funcionar como estrutura demasiado formal e burocratizada; de poder ser entendida como um órgão meramente formal de validação de opções muitas vezes não reflectidas ou definidas em parceria; de ser uma estrutura cujo funcionamento e dinâmica depende muito da vontade, empenho e investimento dos municípios e respectivos autarcas e, associado a isto, surge o risco de as Redes Sociais se tornarem estruturas demasiado politizadas tanto mais que, como assumem os/as nossos/as interlocutores/as, possuem uma «estrutura muito piramidal» onde são evidentes as assimetrias de poder e de representatividade entre as várias instituições que nelas participam. «[As Redes Sociais] são plataformas que se pretendem de coordenação dos actores e de regulação das situações e de diagnóstico e de implementação das acções. Mas a gente também sabe que nas Redes Sociais as coisas não têm sido fáceis (…). Nós acreditamos muito neste programa – no Programa Nacional da Redes Sociais – o problema é que ele, muitas vezes, acaba por ser muito partidarizado politicamente. Depende muito da figura política e depois, como falávamos também anteriormente, como há essa cultura de dependência do sector não-governamental ao sector público, nem sempre há um sector não-governamental forte, capaz de assumir posições e de confrontar o sector público. Depois as Redes tornam-se frágeis, 181 Tiago Neves (Coordenador) tornam-se Redes um bocadinho fantasmas porque… há situações, posso dizê-lo porque não vou nomear, mas por exemplo no desenho dos diagnósticos dos agentes sociais, em que as autarquias se opuseram ao aparecimento de determinado tipo de problemáticas no seu território porque não queriam que aquilo fosse visível… Isto é antidemocrático e demonstra a fragilidade… (…). Depois há interesses particulares. O problema é quando esses interesses particulares se sobrepõem em relação àquilo que são as prioridades do território. A conciliação desses interesses é a grande dificuldade. A manutenção de uma Rede Social forte, activa, dinâmica, em que todos querem contribuir, em que todos desejam contribuir para o seu sucesso, isso é o maior desafio. Porque o problema é que são plataformas alargadas, muito politizadas como eu já disse há um bocado, não estão todos ao mesmo nível, que é outro problema. Os parceiros não estão todos ao mesmo nível, há nível 1, nível 2 e nível 3, têm diferentes patamares, não são redes horizontais e isso é uma dificuldade. E depois há relações de dependência». Por outro lado, também se reconhece que o programa das Redes Sociais foi pensado e desenhado para uma realidade territorial (os concelhos) marcada por uma enorme heterogeneidade e, no caso dos municípios mais pequenos, menos populosos e com um tecido institucional mais frágil, esta plataforma pode não conseguir cumprir os seus objectivos pela incapacidade de gerar uma dinâmica interinstitucional local com a consistência necessária para um trabalho de planeamento e intervenção de âmbito mais estrutural e estratégico: «A Rede veio obrigar a que todas as entidades alterassem um bocadinho o seu âmbito de reflexão... dum posicionamento essencialmente centrado na intervenção para um posicionamento que tem, para além da intervenção, dimensões, como dizia há pouco, do diagnóstico e planeamento e da avaliação. Portanto, isso foi de facto um salto em frente muito grande. É verdade que um salto não se faz sem dores porque inevitavelmente um processo deste tipo tem desde logo dois problemas principais: um é o risco da pulverização, ou seja, nós temos uma realidade territorial administrativa que é uma realidade de grande heterogeneidade e portanto temos unidades territoriais que não têm sequer escala para intervenções que exijam um fôlego maior. (…) Este é um problema que tem que ver com a excessiva pulverização e que teria que se resolver, atendendo a que nós não temos regiões, no sentido mais amplo da expressão, teria que se resolver por uma outra via e encontrámos aqui uma solução alternativa que foi estruturas supra-concelhias que de alguma maneira fazem esta leitura mais alargada das realidades territoriais». Para além das redes supra-concelhias, cuja importância se reforça no caso dos concelhos de menor dimensão, também as Comissões Sociais de Freguesia 182 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social mereceram destaque no discurso de algumas das instituições entrevistadas, considerando que se tratam de instâncias mais próximas dos problemas, a quem deveria ser dado maior protagonismo na identificação de necessidades e na definição de respostas. Naturalmente que estas Comissões Sociais de Freguesia ganham significado sobretudo em concelhos de maior dimensão, nos quais órgãos como os Conselhos Locais de Acção Social são compostos, por vezes, por mais de uma centena de entidades parceiras. «Esta estruturação [da Rede Social] que actualmente existe, naturalmente que consideramos que é muito importante que se faça um diagnóstico social o mais participado possível, um Plano de Desenvolvimento Social participado e que seja orientador da intervenção, mas tudo isto deve ser feito sem excessiva funcionalização. Porque aquilo que as nossas instituições nos têm feito chegar é que a representação das organizações da sociedade civil é desigual, por exemplo ao nível do CLAS e das Comissões Executivas, porque obrigatoriamente estão todos os organismos desconcentrados da Administração Central. Nós não achamos que isso não seja importante, porque se essa participação for facilitadora do funcionamento em parceria e da resposta dessas instituições, muito bem, não pode é ser burocratizadora. Essa estrutura é muito importante, mas também tem que se ver o que é que pode ser recuperado ao nível das Comissões Sociais de Freguesia porque essas ainda estão mais próximas dos problemas. E só depois deviam passar para o nível concelhio todos aqueles problemas que não possam ser resolvidos ao nível da freguesia. Nós temos consciência de que os problemas são cada vez mais complexos mas, se for possível, quanto mais próxima estiver a resposta, melhor. E também não desperdiçar muitas respostas mais informalizadas, porque às vezes o vizinho até poderá cuidar da pessoa. Se há outras instituições que estão a responder bem a determinado problema, dever-se-ão integrar. São estas respostas que se podem perder numa excessiva formalização e numa estrutura muito piramidal. E essa não era a intenção na altura da criação da Rede». É visível uma preocupação com a preservação das relações sociais informais, relações de vizinhança, que prevalecem nos territórios de cariz mais rural e que desempenham um papel muito importante na área da pobreza e exclusão social. Assim, é de enfatizar a consciência de que a Rede Social deve estar atenta a esta questão e evitar a excessiva formalização das respostas sociais. Não estando isenta de críticas, o facto é que a Rede Social é reconhecida pelas estruturas entrevistadas como um dispositivo que veio conferir à acção local novas e acrescidas competências e responsabilidades no domínio do combate à pobreza e à exclusão social. 183 Tiago Neves (Coordenador) Outro aspecto muito enfatizado pelas estruturas de cúpula refere-se ao papel da acção local enquanto importante motor de desenvolvimento do país. Na óptica de alguns/algumas dos/as nossos/as entrevistados/as, são os agentes locais – entre os quais as autarquias merecem destaque, mas também as organizações do terceiro sector – os grandes promotores de desenvolvimento, em particular nas zonas mais interiores e desertificadas do país que, no discurso destes actores institucionais surgem muitas vezes como territórios esquecidos pelo poder central e pouco considerados quando se trata da definição de medidas políticas de âmbito nacional. São principalmente dois os aspectos salientados pelas instituições: por um lado, o papel das estruturas locais na criação de infra-estruturas e respostas sociais, sobretudo em zonas mais deprimidas e isoladas do país; por outro lado, a relevância que assumem enquanto entidades geradoras de emprego. «As grandes questões que a [nome da instituição] tem apontado, a questão do desenvolvimento e isso tudo passa muito pelas questões locais. A [nome da instituição] tem isso escrito, agora fez um documento sobre o combate à crise e disse que muito do relançamento de várias áreas no sentido de criação de emprego tem que se virar mais para a questão da descentralização. Nós, como sabe, somos a favor da regionalização e como somos a favor da regionalização, somos favoráveis embora tenhamos críticas em relação ao poder local. (…). Por exemplo, o problema das infra-estruturas, o problema dos idosos… Se a gente fôr ver o problema dos idosos, quem é que construiu as infra-estruturas dos idosos por este país fora? Os Centros de Dia, mesmo os lares das pessoas que estão dependentes (…). Mas, por exemplo, os Centros de Dia nós consideramos fundamentais para pessoas que vivem isoladas, os idosos terem alimentação feita a preços módicos no sentido das suas reformas, as pessoas poderem comer comida quente sem gastar o dinheiro, não terem dinheiro para pagar, estarem distraídos, terem programas culturais, conviverem uns com os outro, isso foi tudo as autarquias. Então se a gente fôr a determinadas regiões, se não fossem as autarquias ainda estávamos num atraso brutal». «São [as IPSS] em muitos locais do nosso país os maiores empregadores, são das poucas empresas que continuam a criar postos de trabalho, fruto de investimentos que fizeram com a utilização de fundos, como o PARES, estão a criar Lares, Creches, equipamentos para a deficiência. Portanto, todos estes equipamentos estão a criar postos de trabalho». Por outro lado, também há quem considere que a relação custo/benefício da intervenção desenvolvida ao nível local é muito mais favorável quando comparada com a intervenção mais centralizada. Neste sentido, é recorrente 184 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social no discurso destes actores o apelo a uma maior descentralização, seja ela feita por via da regionalização ou qualquer outro modelo que permita uma maior transferência de poder de decisão, competências e recursos para o nível local. Como nos diz o representante de uma destas instituições: «Nós conseguiríamos resolver aquele problema com muito menos custo financeiro do que qualquer outra entidade da administração pública». •Fragilidades da acção local. Apesar da relevância que estes actores institucionais conferem à acção local no combate à pobreza e à exclusão social, não deixam de referir algumas limitações e constrangimentos com que o local se confronta neste domínio. Desde logo a escassez de recursos, que surge quase de forma transversal no discurso das entidades entrevistadas, ainda que nem sempre com os mesmos contornos. As estruturas representativas das organizações do terceiro sector reconhecem que a principal fonte de financiamento das suas associadas são sem dúvida os acordos de cooperação que mantêm com a Segurança Social, mas apontam a fraca comparticipação do Estado, muito abaixo do custo real das respostas fornecidas: «Nas respostas tipificadas, e não são todas, no Centro de Dia já vai perceber que não é assim, nas respostas tipificadas ronda os 60%, mas no caso de Centro de Dia o Estado comparticipa 39%, por exemplo». No caso das instituições localizadas nas zonas mais deprimidas do país, onde o rendimento das famílias é bastante reduzido, esta situação agrava-se na medida em que a comparticipação dos/das utentes acaba necessariamente por ser mais reduzida, não permitindo cobrir o custo real do serviço prestado. Ou seja, surgem aqui duas questões associadas: por um lado, a fraca comparticipação do Estado a estas respostas sociais e, por outro, o facto de esta comparticipação ser indiferenciada, ou seja, igual para todas as instituições independentemente do contexto sociogeográfico em que se encontram implantadas: «(…) a actual forma de pagamento por parte do Estado dos serviços prestados é injusta. Porque ela é feita de uma forma uniformizada por todo o país e as realidades são muito diferentes e as origens dos utentes também. Portanto, há que rever esta situação. (…) tem que haver aqui uma diferenciação positiva e esta forma de financiamento tem que ser revista e muito mais ajustada à realidade de cada uma das instituições». Estreitamente associada a esta questão surge uma outra, que as instituições consideram configurar também uma das principais fragilidades da acção local: a excessiva dependência financeira das estruturas locais face ao Estado central, que acaba por limitar a própria capacidade negocial e reivindicativa daquelas em relação a este. 185 Tiago Neves (Coordenador) «Em Portugal, por comparação a outros países, nós temos de facto uma sociedade civil muito fraca. Mais frágil, muito dependente do governo, do Estado, do financiamento, o que compromete essa capacidade de negociação». Também as estruturas representativas das autarquias vêem na falta de recursos financeiros um obstáculo à sua actuação na área social e a este juntam um outro constrangimento, que se prende com a ausência de competências formais e com a falta de um enquadramento legal que regulamente a sua actuação na área do combate à pobreza e à exclusão social: «(…) ao nível das competências das autarquias locais existe um artigo específico para as atribuições na área da acção social, o artigo 23, onde se referem os domínios do combate à pobreza e à exclusão social. Este artigo é uma área que não está regulamentada pelos municípios. Podemos dizer, de uma forma generalizada, que no fundo os municípios não têm competências nesta área. Têm as atribuições, mas depois não têm as competências para as exercer. Não existe um enquadramento universal para todos, o que faz com que os municípios tenham intervenções muito diversificadas. (…) era importante que houvesse um enquadramento mais uniforme para todos [os municípios]. Há depois a parte da Acção Social Escolar que está regulamentada, mas é um campo muito específico». «(…) no orçamento de Estado por exemplo de 2010, as freguesias não chegam a pesar 0,14%: é 0,138%. Como vê isto não tem significado. (…) Também na área social, embora não tenhamos competência formal directa nessa área». Apesar de nem sempre as atribuições das autarquias no domínio da acção social estarem devidamente clarificadas e regulamentadas, no discurso dos representantes destes órgãos da administração local é perceptível a importância que conferem a esta área de actuação e a intervenção que, não obstante, têm vindo a desenvolver, nomeadamente no apoio às camadas mais desfavorecidas da população. Contudo, a questão da transferência de competências continua a ser central para estas estruturas: «Naturalmente que, na inexistência de enquadramento, o que a associação tem tentado é que haja um conjunto de áreas relativamente às quais se faça uma transferência de competências para os municípios para que eles possam exercer com o devido enquadramento, sem prejuízo da regulamentação do artigo 23, determinadas áreas que nós achamos que são fundamentais, tendo em conta que os municípios são as estruturas de poder mais próximas das populações. E é importante que essa proximidade se aproveite». Algumas instituições entrevistadas consideram que existe também, ao nível da acção local, alguns défices em termos de planeamento da intervenção e da 186 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social gestão dos recursos disponíveis que nem sempre é a mais eficaz. Referindo-se ao terceiro sector, em particular às IPSS e às respostas sociais que disponibilizam, uma das organizações entrevistadas reconhece a existência de alguma falta de planeamento ao nível da distribuição dos equipamentos: «É perceber se há respostas na zona e ver se a outra pode ser dispensável. Porque em determinadas zonas pode haver espaços subutilizados e noutras haver carência deles. E se calhar este sector ainda é vítima de uma falta de planeamento». Estas lacunas ao nível do planeamento e da gestão dos recursos disponíveis surgem frequentemente associadas, no discurso dos actores institucionais, a algumas “imperfeições” que ainda persistem localmente no que respeita a um efectivo trabalho de parceria e ao planeamento conjunto das intervenções na área social: «A eficácia [da acção local enfrenta] dois obstáculos. Um é o que tem que ver com os recursos, obviamente, até porque tudo isto está muito dependente dos recursos disponíveis. Não estamos a falar dos recursos, das transferências da Administração Central; estamos aqui a falar da forma, inclusive de como se gerem os recursos locais. O segundo obstáculo é o que tem que ver, na minha opinião, com a imperfeição do modo como localmente as entidades se sentem a trabalhar em conjunto, com tudo o que isto significa. Desde logo ao nível do diagnóstico, de leituras cruzadas e daí a importância que desde o início da Rede Social temos vindo a salientar muito, dos diagnósticos muito participados, porque só olhares diferentes é que permitem que a gente tenha um quadro mais completo da realidade. Desde logo ao nível do diagnóstico e depois ao nível das próprias opções de intervenção, porque a gente sabe que localmente não tem que haver consenso absoluto sobre os melhores caminhos, o melhor aproveitamento dos recursos disponíveis e portanto isso é gerador de algumas paragens, às vezes de alguns conflitos que se traduzem em ineficácia ou podem traduzir-se em ineficácia nas intervenções». Reconhecem, contudo, que estas fragilidades em termos de cooperação e articulação interinstitucional não são exclusivas da acção local, verificando-se a outros níveis de actuação, inclusivamente ao nível das próprias estruturas de cúpula que representam as instituições locais: «O que eu acho, é que ainda ao nível local, mas não só ao nível local, ainda há uma grande descoordenação das acções e isso é um obstáculo tremendo. Há colisões e há atropelos e há descoordenação total e isso traduz-se numa enorme ineficácia na solução para os problemas». Esta falta de coordenação traduz-se numa sociedade civil fragmentada, pouco organizada, mais frágil em termos da sua capacidade negocial e reivindicativa: «Não existe um Terceiro Sector coeso, forte, com um plano estratégico, com po187 Tiago Neves (Coordenador) der negocial forte face ao Estado. Portanto, nós temos as Misericórdias, temos as Mutualidades, temos a CNIS, temos a Rede [Europeia Anti-Pobreza], temos as grandes organizações de cúpula, mas que têm estado numa… Cada uma ocupa um território, tem o seu espaço… Não sinto que exista colisões a esse nível, mas também não existe cooperação. E eu penso que essa é uma enorme fragilidade do sector. (...) Sendo organizações de natureza representativa, tendo todas elas poder negocial com o Estado e sendo representativas do sector não governamental, poderiam organizar-se como há exemplos de outros modelos a nível europeu, por exemplo em Espanha. Existe uma plataforma do Terceiro Sector em Espanha que é muito forte» Uma outra fragilidade apontada à acção local no combate à pobreza e à exclusão social diz respeito à falta de informação e de formação de alguns dos actores locais sobre estas temáticas. Reconhece-se a existência de défices em termos de conhecimentos técnicos e científicos sobre as questões da pobreza e da exclusão social – que conduzem à persistência de estereótipos sobre estes fenómenos e sobre as pessoas que eles atingem – mas também ao nível das próprias metodologias e instrumentos de intervenção nestes domínios. «(…) há falta de conhecimento, também, no que diz respeito às questões da pobreza e da exclusão social, e há muitos estereótipos e há muitas representações sociais que são um obstáculo verdadeiro à luta contra a pobreza e esse também era um objectivo do Ano Europeu [de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social], tentar desconstruir esses estereótipos e sensibilizar o máximo de actores para o problema, o fenómeno da pobreza e o papel que cada um de nós tem na luta contra esse problema. Porque, depois, no que diz respeito – e esse é o meu quadro de referência – no que diz respeito à pobreza e à exclusão social, também, ainda aqui, se sente, apesar de tudo, para além dos estereótipos que são um obstáculo, falta de conhecimentos específicos, falta de instrumentos de trabalho, falta de metodologias… É preciso fazer reciclagem no sector público e no sector privado. É preciso inovar, é preciso injectar esta energia, é preciso trocar experiências e isso nem sempre acontece». Esta é, contudo, uma área onde as organizações de cúpula têm procurado intervir, apostando na formação quer dos/as técnicos/as, quer dos/das gestores/as das instituições suas associadas. Finalmente, outra das limitações apontadas à acção local por algumas destas organizações de cúpula refere-se à sua falta de capacidade efectiva para intervir ao nível dos factores estruturais que estão na base dos fenómenos da pobreza e exclusão social, acabando por assumir um papel mais remediativo, 188 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social mais «pós problema», como referia um dos nossos interlocutores: «A acção local obviamente que tem um papel muito importante no combate à pobreza e à exclusão social. A questão, julgo eu, que poderá ser colocada é se o tipo de intervenção que tem capacidade para ter é uma intervenção pós-problema ou ante-problema. Pós-problema, é obvio que tem que ter essa intervenção e é essencial que ela exista sob pena de nada existir de apoio ao combate à pobreza e à exclusão social. Agora, como contribuir para que isso não aconteça, antes, é que é o problema. Eu aí, como disse há bocadinho, acredito mais, francamente, que são factores de desenvolvimento económico e de crescimento da economia que podem ser os melhores elementos para o combate à pobreza e à exclusão social». Este tipo de discurso parece de certo modo contrariar a posição doutras instituições, que ainda há pouco foram citadas, que atribuem aos agentes locais um papel fundamental no desenvolvimento do país. Neste caso, a responsabilização quer pelos problemas estruturais gerados, quer pela sua resolução, parece situar-se a um nível mais macro, que ultrapassa muito o local: «O que eu acho é que a macro estrutura cria os problemas. É esta desigualdade brutal da distribuição dos rendimentos e este funcionamento tão atroz e selvagem da economia que criaram esta crise. Foi a ganância que criou esta crise, não existe ética nos negócios. (…) E é este sistema que cria as situações de pobreza e de exclusão. E depois ao nível local vai-se tentar fazer o que se pode, que é no fundo estar aqui a lutar contra a corrente. Estamos todos de acordo que a intervenção local deve ser integrada, articulada e fazermos todos o máximo possível para ir minorando as situações de sofrimento das pessoas, mas realmente temos muito pouca capacidade de ter uma intervenção mais alargada». Não obstante as fragilidades que lhe são reconhecidas, a acção local é encarada pela maioria das estruturas de cúpula entrevistadas como fundamental, complementar à acção do Estado central e nalguns casos mais eficaz do que esta. 6.2. A relação entre o local e o central. Estas organizações de cúpula assumem um papel fundamental de mediação entre as estruturas locais que representam e o Estado central. Neste sentido, importa conhecer a forma como desempenham esse papel de mediação, que estratégias e mecanismos adoptam, como percepcionam a sua capacidade negocial e o seu poder de influência ao nível da definição de medidas políticas determinadas centralmente. A generalidade das instituições entrevistadas define a sua actuação a dois níveis: um nível mais direccionado para a prestação de apoio e de serviços às suas associa189 Tiago Neves (Coordenador) das (disponibilizando informação, acções de formação, aconselhamento técnico, jurídico, divulgando iniciativas, linhas de financiamento, etc.) e um outro nível mais orientado para a representação institucional dos interesses das suas associadas junto de diversos organismos, muito particularmente do Estado central. É sobretudo esta segunda vertente que é aqui explorada. De facto, as estruturas centrais consideram desempenhar um papel significativo enquanto mediadoras entre o poder central (Estado) e o local. Na opinião dos/das entrevistados/as, o poder de que dispõem enquanto representantes de um conjunto alargado de organizações constitui um elemento decisivo e justificador da possibilidade de desenvolverem um diálogo mais paritário com outras estruturas na área do social e com o próprio Estado central. Havendo assimetrias de poder nestes processos negociais, tais assimetrias têm vindo contudo a esbater-se. É fazendo uso desse poder que procuram negociar financiamentos e participar na definição dos objectivos, das áreas, da legislação, das medidas políticas e dos programas de acção determinados centralmente, apresentando pareceres que configuram propostas concretas a diferentes níveis, nomeadamente ao nível das competências, dos requisitos e das condições para a prestação de serviços, dos regulamentos, dos programas e dos financiamentos. Para alcançar estes objectivos é necessário conhecer toda a informação relevante, trabalhá-la no sentido de a tornar mais acessível e difundi-la por todos os associados. «E dado o poder que advém da tal condição de representar o conjunto das [instituições associadas] consegue falar não digo de igual para igual mas não há um desnível tão grande. Uma coisa é o interlocutor [nome da estrutura de cúpula] para o governo e para as instituições, das empresas para as instituições que prestam serviços públicos, enquanto instituição que fala com eles de igual para igual e outra coisa é uma [associada] isolada falar com uma instituição dessas. Frequentemente perde. E essa é a nossa função, como disse, de regulador do equilíbrio e de uma certa dignidade das partes que procuram obter determinados objectivos». «O fundo de financiamento das freguesias, se não for a intervenção da [nome da associação] seria bem menor, apesar de ser ínfimo. Nós estamos num patamar de indigência! Eu digo isto muito frequentemente e está provado pelos números que lhe citei. Mas apesar de tudo tem havido algum progresso. A lei das finanças locais precisa de acertos, nós contribuímos para a sua feitura, precisa de correcções. Estamos a trabalhar…». «Porque os dados demonstram que a comparticipação do Estado é cerca de 43% do custo real das respostas sociais. (…) O ano passado a [nome da estrutura de cúpula] tomou a iniciativa, portanto não ficou à espera que lhe fosse enviada uma proposta de protocolo. Fez o contrário, elaborou uma proposta de protocolo e apresentou-a. 190 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Mas são sempre processos morosos, onde tem que haver sempre um ponto de encontro intermédio. (…) E a negociação dos contratos colectivos é a mesma coisa. Esta é uma função muito importante da [nome da estrutura de cúpula], que é a representação de mediador». «Nessa altura a preocupação da [nome da instituição] era dotar-se do máximo de informação possível e tornar essa informação acessível às instituições, às organizações sociais, nossas associadas e não só. (…) há aqui que trabalhar a informação que chega, tornar a informação acessível, descodificar a informação sempre que possível. Ao dar-lhes informação, estamos a criar ferramentas e instrumentos e estamos a tornar as instituições mais fortes para poderem fazer um trabalho mais consistente, mais informado, mais coerente». As estruturas de cúpula entrevistadas têm natureza, objectivos e âmbitos de actuação diferenciados. Assim, algumas delas são particularmente activas na promoção de parcerias e no reforço de sinergias com o objectivo de diminuir os efeitos do desemprego e, assim, obstar às dificuldades sentidas pelas famílias atingidas por este fenómeno. «As nossas uniões, no terreno, nos distritos, reúnem com os autarcas, reúnem com as Câmaras Municipais. As nossas reuniões são muito activas nesse campo, reunir com as autarquias... Uma fábrica está para fechar ou anuncia salários em atraso, no nosso terreno… logo na região é fazer (…) pôr todos os actores daquela região em movimento». A questão da negociação salarial e das condições de trabalho corresponde a um outro ponto fulcral nesta relação entre o Estado e as estruturas centrais. Se é verdade, como já foi salientado em pontos anteriores, que muitas das associações representadas por estas estruturas correspondem aos maiores empregadores em muitas das localidades do país, importa também assinalar que existe a percepção de que direitos e garantias ao nível do trabalho social se encontram comprometidas em prol da necessidade de assegurar uma prestação de serviços fundada nos valores da solidariedade e do voluntariado, compensando assim as baixas comparticipações protocoladas com o Estado central e a Segurança Social. Este é o argumento apresentado para a manutenção das diferenças salariais e da precariedade laboral, uma característica prevalecente nas instituições do terceiro sector. Contudo, o Estado não é questionado na sua função de garante dos direitos de cidadania. É como se a responsabilidade pelas condições de trabalho e as desigualdades salariais prevalecentes nestas instituições constituíssem um domínio à parte, fora da alçada do Estado. Assim, estas estruturas vocacionadas para a luta contra a pobreza e a exclusão social são, simultaneamente, agentes 191 Tiago Neves (Coordenador) do processo de reprodução das desigualdades sociais. «São baixíssimos [os salários], mas mesmo assim é um sector com baixa produtividade em termos globais porque a repercussão dos custos com os salários no produto final, na prestação de serviços, é muito pesada. Porque são respostas muito consumidoras de mão-de-obra». «(…) porque há a percepção de que os salários são muito baixos. Em termos de estratégias futuras, pensamos que há muitas melhorias que podem ainda ser feitas em termos da gestão e da organização. E acho que por aí haverá ainda muitos ganhos. Porque muitas vezes é a Directora Técnica, com formação na área social, que tem que gerir a contabilidade». A acção desenvolvida por outras estruturas centra-se no desenvolvimento económico, considerado factor condicionante das situações de pobreza e exclusão social. Neste sentido, privilegia-se a divulgação e o fomento de linhas de apoio financeiro às empresas. «(...) o que está por trás da situação de grande contexto de pobreza e de exclusão social é um contexto de desenvolvimento económico. E por isso, enquanto não tivermos a capacidade, enquanto país, de incrementarmos o nosso desenvolvimento económico e o nosso modelo de crescimento da economia, não vamos conseguir responder eficazmente ao problema do combate da pobreza e da exclusão social». «(…) papel activo na organização de algumas dessas linhas, eu estou-me a recordar de linhas de apoio às empresas, linhas PME, nós tivemos um papel muito activo na concretização dessas linhas». Pouco auscultadas nas questões sociais, o poder que as estruturas acima mencionadas têm de influenciar as políticas nesta área é muito reduzido ou mesmo inexistente: «Factores como (…) como regionalizações e coisas desse género, de que nós, é público, somos adeptos de que deveria existir um processo, pelo menos muito mais activo de descentralização, de responsabilidades e de actividades e que em última instância pode terminar numa efectiva regionalização. (…) pedem as nossas opiniões e nós emitimo-las, naturalmente. Mas nessa matéria mais social, de actividade social, somos ouvidos esporadicamente. Em termos empresariais, participamos em fóruns onde temos assento nesses mesmos fóruns e somos chamados a intervir; em termos sociais o nosso peso é mais pontual». Outras estruturas de cúpula, contudo, são frequentemente solicitadas pelo Estado para a produção de pareceres (ainda que por vezes tais solicitações sejam efectuadas num contexto que dificulta a produção de pareceres fundamentados em tempo útil): 192 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social «Foram-nos agora pedidos contributos para o Plano Nacional de Saúde e vamos enviá-los. Foi-nos também pedido para o Plano Nacional de Igualdade mas foi tão em cima da hora que foi totalmente impossível. Foi em Julho, foi agora e, portanto, não foi possível nas datas que nos deram. Imagine, mandaram-nos hoje para segunda-feira! E assim é impossível, com estes timings a gente analisar documentos e mandar contributos. Esse tenho pena, falhou, tenho pena… Lembreime do da igualdade, do da saúde e do PNAI». Não obstante, foram vários os exemplos de contributos dados pelas estruturas centrais aos mais diversos níveis: modelos de comparticipação e financiamento; na área da educação; da pobreza infantil e do envelhecimento activo. «Em 2008, o modelo de comparticipação e financiamento dos lares de idosos no país inteiro foi alterado por nossa iniciativa. A ideia foi nossa, foi protocolada e está em vigor até hoje». «A nossa sugestão de elaboração de uma Carta Social, de um instrumento de planeamento ao nível de equipamentos e serviços, já teve inclusivamente da parte do Governo lugar a uma proposta de diploma». «Duas áreas de trabalho de aprofundamento na área da pobreza infantil e na área do envelhecimento activo. Duas áreas que nós seleccionámos com o objectivo de aprofundar, de retratar, de fazer um ponto de situação, no fundo, o overview nacional de cada um destes temas e depois avançar com um conjunto de propostas e recomendações políticas, que é sempre o nosso objectivo, a nossa ambição máxima. Nesse sentido fizemos um convite a várias entidades não governamentais, mas também a alguns institutos e pessoas com responsabilidades ao nível da execução de políticas públicas e fizemos variadíssimas reuniões ao longo de cerca de um ano e alguns meses para discutir e retratar este problema, donde resulta um documento que faz o estado da arte e depois apresenta as conclusões. (…) Uma das nossas propostas é a criação de um observatório nacional para a pobreza infantil em Portugal. Foi bem acolhido pela Secretária de Estado, mostrou-se muito interessada e comprometida. Portanto, isto tem um impacto e um resultado muito concreto no trabalho que a gente faz e que o faz em parceria porque neste trabalho estão envolvidas pessoas como o presidente da Comissão Nacional de Protecção de Jovens em Risco (…), também uma perita nacional neste tema (…) o coordenador voluntário, completamente voluntário, da Universidade do Minho. Para além destas pessoas que estou a citar estavam também organizações que no terreno trabalham com as crianças em situação de desfavorecimento social». Importa, contudo, ressalvar que quando questionamos os/as nossos/as interlocutores/as sobre a receptividade do governo e do Instituto da Segurança 193 Tiago Neves (Coordenador) Social às suas propostas, os depoimentos são divergentes. Uns corroboram a influência das estruturas de cúpula sobre as decisões e as políticas governamentais; outros, pelo contrário, demonstram o seu descontentamento, afirmando que os estudos realizados e as sugestões que decorrem dos mesmos parecem não ter qualquer repercussão. «Eu acredito que sim, assim haja engenho e arte para o fazer! Para se experimentar, para se inovar, sim. Sim, eu acho que do lado do [poder] central, pelo menos connosco – é essa a experiência que eu tenho – estão sempre receptivos a receber propostas, recomendações. Acho que há abertura nesse aspecto, há uma boa governação. Estão disponíveis, estão receptivos, portanto se o local tiver capacidade para desenvolver projectos dessa natureza e com alguma inovação que eles podem vir a ser transferíveis para outros territórios, adaptados, e pode haver abertura a nível central para isso. Agora, normalmente, essas pequenas experiências resultam de projectos de financiamentos». «Esse é um ponto sobre o qual nós estamos um pouco desagradados. Porque fizemos estudos, por exemplo para a determinação dos custos reais de algumas respostas sociais, e não sabemos o que é feito desses estudos e se esses valores vão ser tomados como referência». Considerando que estas estruturas centrais desempenham um papel relevante enquanto mediadoras entre o poder central e o local, importa incluir nesta análise alguns elementos que permitam clarificar a relação entre elas e as suas associadas. Ainda que de modo muito sucinto, aborda-se seguidamente como é que estas estruturas de cúpula estabelecem a sua relação com as organizações de nível local; como conhecem os seus problemas, aspirações e necessidades; como percepcionam e enfatizam a heterogeneidade socioeconómica e geográfica em que os/as seus/suas associados/as intervêm e como representam a diversidade de organizações que integram o sector, nomeadamente a existência de uniões ou núcleos de nível distrital onde se estabelece uma relação mais próxima dos problemas vividos nos diferentes territórios. «(…) fomos identificando que havia zonas do país em que era difícil as instituições sobreviverem com alguma dignidade, conseguimos introduzir uma cláusula que fala, precisamente, nessas instituições que têm dificuldades. É um protocolo de cooperação de 2009 que tem uma cláusula em que a tal Comissão de Avaliação e Acompanhamento dos Protocolos e Acordos de Cooperação analisará essas questões ao nível local, das instituições que estão em dificuldade e porquê. Porque os utentes não têm, porque são zonas com muitos desempregados, porque são zonas onde as reformas são baixas». 194 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Uma outra dimensão interessante centra-se na sua actuação e procura-se perceber se esta surge mais centrada (ou exclusivamente centrada) na representação dos interesses das suas associadas ou se assume também a defesa dos direitos, das aspirações e das necessidades das populações abrangidas pela intervenção desenvolvida por estas: «Portanto, a [nome da instituição], parece-me, no contexto nacional, como uma organização que defende os interesses de pessoas em situação de pobreza e exclusão social e que tem, como objectivo de trabalho, como missão no fundo, influenciar as políticas públicas de forma a torná-las mais adequadas e mais eficazes na luta contra a pobreza». «O livro tem… metade do livro são nove questões (…) e pedem-se respostas muito concretas e pede-se uma opinião sobre aquelas questões que ali estão. O técnico seguramente passará o livro, se calhar, mais a quadros técnicos com quem se relaciona e com os parceiros sociais com quem nós nos relacionamos e depois a pessoa em situação de pobreza se calhar terá mais facilidade para passar junto do grupo de amigos, de familiares, no bairro, nas relações de proximidade que cada um deles tem. (…) O livro foi para a rua em Maio, até ao final deste mês, até à próxima semana, aquilo que nós pedimos aos colegas dos núcleos distritais foi que nos enviassem para cá um relatório das principais conclusões dos livros. Que fizessem uma categorização e apresentassem o relatório, e depois nós vamos tratar durante o mês de Agosto do resultado desses relatórios que nos vão chegar dos distritos e vamos compilar isso num documento que é um documento que vai enformar a tal declaração política sobre uma possível estratégia nacional». Ao longo das entrevistas com estas estruturas de cúpula abordou-se também o tema da sua participação ao nível do Plano Nacional de Acção para a Inclusão (PNAI). As respostas referem a existência de conversas com o Governo, a emissão de pareceres institucionais e a participação em reuniões com coordenação do PNAI. Os depoimentos enfatizam aspectos diversos, ora salientando uma estruturação frágil resultante de uma integração pouco consistente dos contributos e acções dos diferentes Ministérios, ora enfatizando o seu carácter inovador mas uma concretização inconsequente que comprometeu o empenho dos parceiros durante os primeiros anos. «Se calhar porque estes planos resultam muitas vezes do somatório das acções dos seus intervenientes ou dos diferentes Ministérios. E se eles resultam desse somatório chegam ao local de uma forma espartilhada. A ideia que eu tenho é que não chegam de uma forma estruturada e consciencializada». «Nunca houve uma análise dialéctica de tudo. Não há um levantamento nacional, não há um mapa nacional das necessidades sociais, por exemplo. [Os Planos Nacio195 Tiago Neves (Coordenador) nais não estão articulados] Não estão. Não há um mapa! Nós estivemos a fazer um documento aqui há muito pouco tempo que diz isso: não há um mapa nacional das necessidades sociais. Isto porque não há articulação entre os resultados, entre os parceiros e os projectos». «Considerei que era a primeira vez que no país havia um plano de interligação de políticas que atravessava as políticas todas como nunca tinha havido em Portugal. Multidisciplinar. E considerámos que era algo inovador e aí aplaudimos. Mas depois esse PNAI avançou… depois nunca se soube da concretização do PNAI… mudou o governo… foi para a Europa o Durão Barroso. Aí foi um PNAI vergonhoso! No tempo do Bagão Félix, o PNAI, desculpe lá, foi mesmo uma palhaçada (…). Toda a gente se recusou a dar parecer e bem! Patrões e sindicatos. (...) Esse PNAI era uma desgraça...». É visível um grande empenhamento das estruturas centrais na divulgação do PNAI: «Como parceiros que somos, e como principais interessados que somos em tornar esses documentos públicos, acessíveis e transparentes, inclusive e sobretudo também às próprias pessoas afectadas pela situação de pobreza, é nossa obrigação fazê-lo». Ao longo destas entrevistas surgiram algumas críticas e foram apontados diferentes constrangimentos da acção central no combate à pobreza e exclusão social. O elemento mais frequentemente referido é o desconhecimento que o poder central (o Estado, a Segurança Social) tem das realidades locais. Este desconhecimento reforça e agrava as desigualdades sociais e territoriais, evidenciando a prevalência de um centralismo excessivo na área social. «(…) para perceber localmente as dificuldades, porque o país tem muitas assimetrias socio-geográficas e os problemas do litoral não são seguramente os do interior Norte. Portanto essas presenças nas reuniões distritais são fundamentais para nós e ajudam-nos a adequar algumas estratégias em termos nacionais. Ou seja, temos dificuldade e isso é uma batalha que temos tido com o Governo naquela universalização… Eu não posso concordar com a universalização do acordo … é tudo muito complicado, não é? Então quando se fala em comparticipar utentes! Se formos ali para o interior do Alentejo, onde a média das reformas é claramente um terço do que é no distrito de Aveiro, a gente vê logo qual é a dificuldade». «Isso infelizmente é um processo que ainda não conseguimos inverter, que é um centralismo muito forte. É evidente que todos ajudamos a isso, é bom termos a noção disso. A culpa não nasce solteira, como se costuma dizer! Todos ajudamos a isso porque em determinados momentos se calhar não temos a capacidade para exigir aquilo que 196 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social seria natural exigir mas, de facto, ainda estamos num processo de centralismo muito grande. (…) Um dos grandes dramas do nosso país é exactamente a menor capacidade que vamos tendo de articular políticas. (...) E também neste caso dos Planos [Nacionais], muitas vezes isto acontece, os planos per si até são planos conceptualmente lógicos. O problema é que isto é sempre um puzzle e é importante que sejam agregadas essas peças sob pena de não terem capacidade de viverem autonomamente». «O Estado quis centralizar tudo no Instituto da Segurança Social e isso para a acção social local foi muito prejudicial. Até aqui os Centros Distritais (…) conheciam a população e decidiam, gerindo o seu orçamento, sobre a comunidade local. Agora não, o Centro Distrital tem que pedir ao ISS se há subsídio ou não para a carrinha. E eu pergunto: são os senhores aqui de Lisboa que conhecem [nome da instituição] e sabem se precisa da carrinha ou não? Esta centralização do ISS vai prejudicar a acção social local. (…) Prejudicou imenso, está tudo muito mais moroso. É muito mais difícil, respostas imediatas de emergência». São, também, mencionados alguns entraves à inovação na área social decorrentes do formalismo excessivo, da burocratização e de uma certa rigidez ao nível da legislação: «E depois há outro problema aqui, o Estado, a tutela, neste caso a Segurança Social, põe enormes entraves à inovação. (…) Porque a sociedade civil age e o Estado reage… Existe uma nomenclatura e uma tipificação de respostas mas se nós analisarmos o passado – e é por isso que a história é também uma ciência social e é uma ciência, é porque a história já provou isto no passado. (…) Se nós virmos a história: as casaabrigo, os centros de apoio à vida surgiram assim! A sociedade civil identificou uma necessidade da comunidade, fez a resposta e, depois, o Estado legislou porque considerou que era interessante». «Temos esta realidade, que é a loucura também tecnicista de leis que (...) são efectivamente leis escandinavas para uma realidade portuguesa. (…) tinha um armazém de fruta para distribuir pelos pobres e a ASAE considerou que a fruta estava ligeiramente tocada e tinha que ir para o lixo. (...) Eu acho que efectivamente é importante a legislação, é importante as novas regras, é importante a segurança, mas tem que haver, acima de tudo, algum bom senso. Aquilo que deveria ser uma relação de cooperação entre o Estado que tutela e fiscaliza e o terceiro sector – é isso que está na Constituição da República – está transformado numa relação de muito pouca cooperação». Os condicionalismos impostos pelo Estado são mencionados como obstáculos à possibilidade das instituições do terceiro sector desenvolverem actividades que lhes permitam gerar receitas próprias: «O Estado acha que nós não temos legitimidade para actuar fora das respostas 197 Tiago Neves (Coordenador) sociais». Se a burocracia e a rigidez são críticas frequentes, deve contudo assinalar-se que, para estruturas de cúpula com outra natureza e âmbito de actuação, é possível articular uma certa rigidez das medidas e políticas centrais com flexibilidade ao nível da sua implementação no local: «Tem que haver rigidez [ao nível das medidas, políticas centrais], é a rigidez que resulta da lei e das condições para o exercício desses direitos. Tudo o resto, não há rigidez. Dou-lhe um exemplo concreto que são os Contratos Locais de Desenvolvimento Social. É uma medida de âmbito nacional que o Governo lançou, que tem um formato, mas é um formato que depois é adaptado e decidido ao nível local. Ou seja, há duas ou três áreas de intervenção obrigatória, que das duas uma: ou já existem no local, não é preciso voltar a fazer ou não existem e têm que ser desenvolvidas. Agora, a forma como são desenvolvidas, o formato que assumem, as metodologias que usam, são todos da responsabilidade local. (…) Admito que isso possa ser de facto um bocadinho mais complicado quando nós estamos a falar de financiamento comunitário, onde há regras a cumprir, ou quando há um conjunto de preceitos que a gente tem que prosseguir, mas aí não há volta a dar. Agora as opções, as metodologias e as intervenções são decididas localmente na maior parte das circunstâncias É assim: elas [as políticas sociais] estão centralizadas, apesar de tudo até acho que há uma grande centralização, mas depois a sua aplicação passa muito pelo nível local». A informação recolhida ao longo das entrevistas permitiu, ainda, identificar um conjunto de novos problemas. 6.3. Os novos problemas sociais. Outra dimensão aferida junto das organizações de cúpula refere-se aos novos problemas sociais que identificam, que reconhecem como mais prementes e sobre os quais urge actuar. Um dos problemas mais enfatizados – e que atravessa o discurso de todas as entidades entrevistadas – é sem dúvida o desemprego que, de acordo com algumas, se configura hoje como um problema estrutural da sociedade portuguesa. O agravamento dos níveis de desemprego veio dar origem a uma “nova pobreza” que afecta «pessoal que era de classe média ou média-baixa e que a família inteira ficou desempregada, ou basta ficar um, já não dá para pagar as prestações todas». Esta “nova pobreza” que, de acordo com alguns dos entrevistados, é vivida de forma “envergonhada”, reflecte-se num aumento da procura de determinadas respostas sociais, num 198 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social acréscimo de pedidos de isenção de pagamento das prestações mensais das creches e de outros equipamentos, na alimentação das crianças, etc. De facto, o desemprego, a precariedade laboral e a pobreza são fenómenos que surgem muito associados no discurso produzido por estes actores institucionais. Enfatizam a questão da pobreza laboral: «o facto é que quase 12% dos trabalhadores, apesar de trabalharem e de se esfalfarem, não conseguem atingir o nível limiar da pobreza e ainda assim continuam a ser beneficiários do RSI e ter ajudas complementares, apesar de trabalharem». Realçam igualmente a existência de um segmento populacional em situação de “inempregabilidade”, ou seja, pessoas que acumulam uma série de handicaps (baixas qualificações, idade avançada, experiência profissional em actividades rotineiras, etc.) que dificultam o seu reingresso no mercado de trabalho, situação que se agrava quando a estes handicaps se associam condicionalismos de natureza socio-geográfica: «Eu sinceramente não sei o que é que se vai fazer a muita desta gente que perdeu o emprego e que nunca mais vai conseguir outro e vão ficar toda a vida a beneficiar de RSI. Sobretudo em determinados distritos – lá voltando ao território – sobretudo mais no interior e mais isolados, onde não há oferta de emprego e depois estas pessoas não têm poupanças, não têm património, muitas vezes não têm uma viatura e não há transporte que lhes permita deslocar para irem arranjar emprego noutra cidade… Eu conheço situações em que as pessoas até tiveram uma oferta de emprego mas depois não têm transportes compatíveis que lhes permitam aceitar aquele emprego…». As sociedades contemporâneas têm vindo a produzir crescentemente factores dificultadores da empregabilidade de franjas cada vez maiores da população. As causas do desemprego não são atribuíveis apenas aos indivíduos uma vez que, ao nível estrutural, decorrem do modelo de desenvolvimento socio-económico em vigor, de transformações na esfera da produção e dos fenómenos de globalização das economias e das sociedades. Esta perspectiva é defendida por quem se opõe à estigmatização dos beneficiários do RSI e à sua rotulagem como subsídio-dependentes: «O que é socialmente reprovável é que alguém que no máximo recebe 189€ não o possa fazer estando por exemplo a ter outras fontes de rendimento ou estando a recusar uma oferta de emprego. E depois estas pessoas têm que ir fazer tudo, têm que ir varrer as ruas…Têm que ir varrer as ruas se forem varredores. Se não forem varredores, não têm nada que ir varrer as ruas». Referem também o empobrecimento da população jovem decorrente das crescentes dificuldades de inserção no mercado de trabalho (que afectam mesmo quem possui formação superior), da precariedade laboral e dos baixos salários praticados. Consideram que, pela primeira vez, «estas gerações mais novas vão viver pior que os 199 Tiago Neves (Coordenador) pais. (…) Enquanto a mim me pagaram mais que ao meu pai, hoje vê-se filhos com mais formação que os pais e os pais ganham o dobro ou o triplo do que eles; quer dizer, está qualquer coisa errada». Este empobrecimento das camadas mais jovens repercute-se no próprio nível de vida dos progenitores que se vêem, como referia um/a dos/as nossos/as entrevistados/as, «completamente ensanduichados» entre o suporte financeiro que têm de continuar a dar aos/às filhos/as e o apoio que têm de prestar aos pais e mães idosos/as, cada vez mais dependentes, e muitas vezes incapazes de subsistir com recurso unicamente às suas baixas reformas. O sobreendividamento das famílias foi outro problema enfatizado e apontado como responsável pelo progressivo empobrecimento e fragilidade social de muitos agregados. Refira-se que as entidades entrevistadas consideram que o aumento das situações de pobreza é uma realidade que tenderá a agravar-se com os cortes anunciados nas prestações sociais e com o aumento dos níveis de desemprego. Estas organizações enunciam ainda um conjunto de problemas que afecta as instituições locais que representam, especialmente as que compõem o terceiro sector. Um dos problemas que tem vindo a preocupar estas estruturas, sobretudo no contexto de crise que actualmente vivemos, diz respeito à sustentabilidade das instituições de solidariedade, nomeadamente as que se localizam em regiões mais desfavorecidas, onde que a comparticipação dos/das utentes é mínima. No discurso que produzem, os/as entrevistados/as identificam um círculo vicioso que compromete não só a subsistência destas instituições, mas também a prestação de serviços às populações e o seu bem-estar: «Quanto mais a crise social aumenta, mais as solicitações às [instituições] aumentam e menos o Estado tem para dar e menos a comunidade tem para dar. Isso torna a gestão da coisa difícil. Há [instituições] muito preocupadas, principalmente nas zonas das fábricas». Finalmente, apontam ainda algumas áreas de actuação que continuam deficitárias em termos de equipamentos e respostas sociais: os cuidados continuados e, de forma muito acentuada, a área da deficiência profunda. 6.4. Áreas prioritárias de intervenção e propostas de actuação. Na perspectiva destas organizações de cúpula, o combate à pobreza e à exclusão exige uma atenção muito particular a áreas fundamentais da nossa sociedade. O sistema de Segurança Social é uma delas, receando-se o seu retraimento em momentos de crise como o que actualmente vivemos, conduzindo a uma contracção dos direitos sociais dos cidadãos e das cidadãs. Neste sentido, algumas consideram que 200 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social deve ser equacionado um modelo alternativo de financiamento, mais justo e solidário, «que não recaia individualmente sobre as pessoas (…). Ou seja, os trabalhadores contribuíram para o sistema mas tem que haver outras fontes alternativas, alternativas não, tem que haver outras fontes a sustentar o sistema». A educação é considerada um domínio central no combate às desigualdades, à pobreza e à exclusão social, tal como a saúde, que surge também enfatizada no discurso destes actores institucionais, nalguns casos com uma referência muito particular à área da saúde mental, que consideram continuar a apresentar lacunas graves. O fortalecimento do tecido empresarial é entendido como um eixo fundamental para o desenvolvimento económico do país e, consequentemente, para a redução dos fenómenos da pobreza e da exclusão social. Neste âmbito específico, os/as entrevistados/as sublinham a necessidade de apostar cada vez mais na qualificação dos recursos humanos (desde a base até ao topo da hierarquia organizacional), de investir na «promoção de factores de ajustamento organizacional» – sobretudo junto das pequenas e médias empresas – e de continuar o processo de simplificação administrativa para constituição de novas empresas. Contudo, a par desta simplificação dos procedimentos burocrático-administrativos, considerase fundamental uma maior atenção à forma como os novos projectos empresariais nascem, garantindo que têm: «(…) uma adequada estrutura de capitais para que estejam menos sujeitos a flutuações do género das que aconteceram agora e que depois têm efeitos brutais em matéria das empresas, porque este sobreendividamento, obviamente, tem consequências quer ao nível do país, quer ao nível da micro-empresa propriamente dita». Especificamente em relação à organização e actuação do terceiro sector, as entidades entrevistadas apontam também um conjunto de propostas e medidas concretas a adoptar e/ou consolidar. Defendem uma maior qualificação deste sector em termos de modelos de gestão organizacional, de formação e qualificação dos recursos humanos (técnicos/as e gestores/as), de políticas de qualidade que não se limitem à certificação, mas que passem pela «implementação de um plano estratégico nas organizações», bem como pela efectiva incorporação de alguns princípios fundamentais – entre os quais a «questão da participação» –, criando «estruturas mais democráticas e mais participativas no seio das organizações, com a participação dos próprios destinatários das medidas e valências». De acordo com os depoimentos das estruturas entrevistadas, esta qualificação das instituições do sector solidário passa também por «um maior investimento e uma maior disponibilidade das instituições no trabalho de desenvolvimento local. No fundo, abrirem-se mais à comunidade em que 201 Tiago Neves (Coordenador) estão inseridas e assumirem-se cada vez mais como agentes do desenvolvimento local». Isto implica uma maior ligação à comunidade, um reforço do trabalho em parceria e uma aposta crescente em novas áreas de intervenção ou em áreas que já são trabalhadas mas onde ainda escasseiam respostas (são referidas a toxicodependência, a prostituição, a população seropositiva, as mulheres vítimas de violência, a deficiência). Trata-se de actuar numa lógica de mercado, tentando perceber onde é que há procura, tal como sublinha uma das nossas interlocutoras quando afirma que: «Nós costumamos dizer que o mercado destas instituições não se reduz, alarga-se. Pode acontecer, e acontece, que haja alguma concorrência em respostas tradicionais, mas há todo um conjunto muito vasto de problemas para os quais têm que surgir respostas». O fortalecimento do terceiro sector passa ainda, de acordo com as estruturas que o representam, por uma maior sustentabilidade financeira das organizações sociais e, neste sentido, apontam como estratégia a adoptar a exploração de formas alternativas e inovadoras que permitam gerar receita própria. Por exemplo, o aproveitamento de património próprio, agrícola e/ou imobiliário, para a implementação de serviços ou actividades que permitam obter receitas que posteriormente possam ser canalizadas para as respostas e apoios sociais desenvolvidos. Não deixam, no entanto, de sublinhar que a concretização deste tipo de iniciativas enfrenta inúmeros constrangimentos devido à falta de legislação para o terceiro sector. Outra estratégia defendida passa por uma cooperação mais estreita com o sector empresarial, procurando potenciar a vertente da responsabilidade social. Ainda em relação à questão do financiamento do sector solidário, as organizações entrevistadas defendem a introdução de um sistema de diferenciação positiva ao nível das comparticipações do Estado, que se traduza num apoio mais substancial às instituições de solidariedade que enfrentam maiores dificuldades por se localizarem em zonas deprimidas, nas quais as comparticipação dos/das utentes são muito reduzidas. Para além das áreas a privilegiar no combate à pobreza e exclusão social, estas organizações identificam também alguns grupos específicos que, por se encontrarem em situação de maior vulnerabilidade social, devem constituir uma prioridade em termos de intervenção: as crianças, segmento fortemente afectado pelo fenómeno da pobreza; a população idosa; as minorias étnicas, em particular a comunidade cigana50; os trabalhadores e as trabalhadoras em situação de pobreza; 50 Considerada «um grupo étnico muito excluído, muito marginalizado», que não tem sido objecto de «intervenções estruturadas e continuadas (…). O que existe é muito pontual, é muito episódico, são projectos que têm uma determinada duração e depois acabando as coisa ficam mais ou menos na mesma». 202 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social as pessoas excluídas do mercado de trabalho e com escassas possibilidades de nele reingressarem pela tal acumulação de handicaps já anteriormente referidos (idade, baixas qualificações, isolamento socio-geográfico, etc.). Em termos de propostas e medidas de acção concretas, estas instituições de cúpula deixam algumas sugestões – umas já em curso e que necessitam ser reforçadas e/ou reformuladas, outras ainda por implementar. Designadamente, defendem a continuidade e o reforço das medidas de promoção e apoio ao empreendedorismo, mas sugerem que esta componente passe a estar integrada e a ser trabalhada no próprio sistema formal de ensino desde os níveis mais básicos até ao ensino superior, assim como na própria formação profissional. Sublinham igualmente a importância do micro-crédito e a necessidade de continuar a garantir este tipo de apoio aos pequenos empreendedores, prestando sempre o devido acompanhamento. A par do fomento do empreendedorismo, que passa também por potenciar as competências e os saberes das pessoas, algumas entidades entrevistadas sugerem outras medidas orientadas em particular para a população desempregada com maiores dificuldades de reinserção laboral. Defendem que as organizações do sector social passem a assumir um papel mais activo de intermediação entre a pessoa desempregada e o mercado: «Nós estamos inclusivamente a pensar ao nível deste projecto ‘Participar’, que as instituições se assumam como instituições de retaguarda e interface entre estas pessoas e o mercado. Porque há alguns que têm um conjunto de competências para fazerem uma série de coisas, mas não sabem chegar aos clientes e os clientes, não os conhecendo, poderiam não confiar neles à partida, pelo que teriam que ficar as instituições na retaguarda a garantir e a credibilizar esta interface». Em relação à população idosa é proposta a criação de uma Comissão Nacional de Protecção dos Idosos, com vista a garantir os direitos da população sénior e assegurar uma maior protecção face a actos de negligência e de violência que cada vez mais têm vindo a ser denunciados. Sublinha-se também a necessidade de haver um maior empenho por parte do poder político e das entidades públicas e privadas na adopção e implementação de medidas e instrumentos concretos de promoção da igualdade de género nas várias esferas da vida social. Um outro aspecto a ressaltar do discurso de algumas destas organizações de cúpula é que, não se assumindo defensoras das lógicas de intervenção assistencial, consideram que este tipo de resposta tem de continuar a existir, sobretudo quando se fala de situações de pobreza severa nas quais a etapa da reinserção não é uma possi203 Tiago Neves (Coordenador) bilidade imediata por limitações várias que se prendem com as condições objectivas de vida das pessoas: «Nós não defendemos o assistencialismo puro e duro, mas quando falamos de pobreza severa estamos a falar de famílias que já estão dependentes dos apoios há décadas. Geração após geração já nasceu com apoios. Ou fazemos este desmame primeiro ou nalgum ponto temos que actuar ali ao nível do assistencialismo. (…) Com os novos fenómenos, como é o caso deste desemprego crescente, ainda hoje à hora do almoço estava a dar uma reportagem sobre a Delphi na Guarda que fechou, em que a maior percentagem de trabalhadores tem a quarta classe e a única coisa que sabe fazer é encaixar uma peça na outra, nem sabe fazer o produto final. São décadas a fazer isto e eu pergunto: o que é que vamos fazer a estas pessoas quando elas tiverem fome? Ai, não podemos dar-lhe a comida porque isso… Oiça, há 510 anos que é assim. Ainda não havia Estado já nós fazíamos isto. O que nós estamos a fazer nos refeitórios sociais é, logo que é possível, trabalharmos o processo social e trabalharmos para a reinserção e para reintegração, logo que é possível. Agora, se estamos a falar de pobreza severa, é difícil…». A promoção de uma cidadania mais activa e participativa, em que os cidadãos e as cidadãs adoptem uma postura «mais reivindicativa» e «menos conformista», é também encarada como uma vertente fundamental no combate à pobreza e à exclusão, e neste sentido apela-se à própria participação das pessoas em situação de pobreza no debate e definição de medidas de combate a este fenómeno: «Nós entendemos que, no campo da luta contra a pobreza e exclusão social, a sua erradicação tem e deve passar pela implicação, pelo envolvimento e pela participação dos próprios, das pessoas em situação de pobreza e não admitimos muito que o desenho, a implementação, a execução e a própria avaliação das políticas seja feita sem um envolvimento das próprias pessoas afectadas pelas políticas e, portanto, os públicos-alvo deviam ter uma voz mais activa no desenho e na implementação dessas políticas. (…) Isto implica uma postura mais proactiva da parte das organizações». Outra medida defendida, considerada essencial no domínio das políticas de combate à pobreza e que em si mesma traduz o reconhecimento do carácter multidimensional deste fenómeno, passa pela introdução em Portugal do sistema de poverty proofing, já implementado em alguns países como, por exemplo, a Irlanda. Este sistema consiste na obrigatoriedade de avaliar todos os programas e medidas políticas propostos em qualquer área governamental (saúde, educação, finanças, economia, habitação, justiça…) no sentido de analisar o seu real impacto nas questões da pobreza, garantindo que contribuem para a sua redução ou, quando muito, que não contribuirão para o seu agravamento. 204 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Com esta medida caminha-se para uma maior responsabilização e implicação de todos os agentes e sectores políticos e públicos na questão da erradicação da pobreza e da exclusão social e, simultaneamente, caminha-se para uma maior consciencialização de que estas são questões multidimensionais, com causas multifactoriais, que exigem programas e medidas políticas efectivamente concertadas e integradas. «No nosso país, há uns anos atrás, hoje já nem tanto, ainda continua a existir, mas a expressão já não é tão significativa, quando se reunia a comissão interministerial de acompanhamento do PNAI, em que estão representados os diferentes sectores, era razoável chegarem lá determinados sectores que achavam que aquilo não era com eles: “Nós não temos nada, nós não temos inputs para dar, essa não é a nossa área de trabalho”. Enquanto houver esta postura… (…). Se a gente começar a descer as escadinhas na hierarquia, também existe cá em baixo e até existe ao nível das organizações e isso é importante também dizê-lo». Por fim, um tema recorrente e que atravessa o discurso de praticamente todas as organizações de cúpula entrevistadas é a questão da descentralização e a necessidade de uma maior transferência de competências, recursos e poder de decisão para o nível local, em particular para as autarquias. Apesar de se reconhecer que este processo de descentralização deve ser bem ponderado para evitar que essa transferência se traduza num agravamento das desigualdades entre regiões/territórios, também se assume que o combate à pobreza e à exclusão exige um reforço da acção local e das estruturas que a protagonizam, que estão mais próximas das populações, dos seus problemas e necessidades e que melhor conhecem as especificidades do território e de quem o vive. Certamente não se esgotam aqui todas as questões que ilustram o papel mediador destas estruturas de cúpula, nem as relações de poder que estas desenvolvem na articulação entre o Estado central e as instituições locais no combate à pobreza e exclusão social. Acredita-se, contudo, ter identificado dimensões centrais que serão retomadas no capítulo final deste trabalho. 205 Tiago Neves (Coordenador) 206 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social 7. Considerações Finais e Recomendações. 7.1. Considerações finais. É irónico – e triste – que, num estudo desenvolvido no Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social, as constatações mais vincadas sejam a da emergência de uma “nova” pobreza, que afecta pessoas que há pouco tempo tinham padrões de vida típicos da classe média, e a da radicalização da pobreza “antiga”. Em resultado destas duas constatações mantém-se e, em boa verdade, até se reforça a necessidade de medidas e práticas de acção assistencial, centrada na ajuda e na distribuição de bens considerados de primeira necessidade (alimentos e roupas). Com efeito, afigura-se imprescindível, neste momento, a manutenção de respostas assistenciais para casos de pobreza severa, onde as possibilidades de reinserção social não são imediatas por limitações diversas relacionadas com as condições objectivas de vida das pessoas e com as condições existentes no país e no contexto internacional (nomeadamente ao nível do mercado de trabalho). Para além disso, surgem necessidades de resposta assistencial imediata para os “novos pobres”, pessoas cuja nova condição se estabelece de modo relativamente rápido, deixando-as em situações de grande vulnerabilidade e com necessidades urgentes. Na mesma linha, o recentíssimo estudo À Tona de Água: necessidades em Portugal. Tradição e tendências emergentes identifica a pobreza, a privação e a precariedade como «marcas incontornáveis em Portugal». Assinala igualmente que em 2007 – no pré-crise, portanto… – a pobreza ameaçava já 40% dos habitantes de Portugal, afectando directamente cerca de metade desse número (Pinto et al, 2010: 141). Neste quadro não surpreende, portanto, a necessidade de intervenções urgentes e eficazes no sentido de suprir necessidades básicas. Para além disso, e não obstante a valorização que se conceda ao local, importará não remeter para este nível a resolução de problemas que, por serem de carácter macroestrutural, estão fora do seu alcance: por exemplo, as questões do desemprego, da pobreza laboral e da desigualdade. Uma outra constatação central deste estudo é a da prevalência, nos discursos dos/as entrevistados/as, dos temas da regulação central e da transferência de competências. As referências a este tema estruturam-se num continuum 207 Tiago Neves (Coordenador) entre a centralização e a descentralização51. Este continuum contém em si, contudo, um certo paradoxo: com efeito, a solicitação de transferência de competências para o nível local é frequentemente acompanhada de críticas à escassez e ineficácia da regulação por parte do Estado central, reconhecendo simultaneamente as instituições locais uma posição de grande dependência face ao Estado. Dito de outra forma, esta forte dependência das instituições locais relativamente ao Estado central parece reforçar-se, mais do que esbaterse, neste quadro em que a autonomia é requerida mais do que conquistada, em que as competências são objecto de solicitação de transferência mais do que objecto transformador da actual situação de dependência. Este continuum entre a centralização e a descentralização remete igualmente para a questão das fortíssimas clivagens entre os territórios rurais e os urbanos, entre o litoral e o interior. Com efeito, as zonas mais interiores e desertificadas do país surgem frequentemente no discurso dos actores entrevistados como territórios esquecidos pelo poder central e escassamente tidos em conta quando se trata da definição de medidas políticas de âmbito nacional. As autarquias surgem como actores centrais para o processo de descentralização e transferência de competências, recursos e poder de decisão para o nível local. Reconhece-se, contudo, que este processo de descentralização, eventualmente acompanhado de medidas de discriminação positiva de determinadas regiões, deve ser bem ponderado para evitar que essa transferência se traduza num agravamento das desigualdades entre territórios. Entre o desconhecimento do local, produtor de regulações generalistas que não atendem às particularidades, e o seu conhecimento próximo e detalhado, gerador de intervenções mais adaptáveis e específicas por parte das instituições locais encontra-se um outro continuum que atravessa os discursos dos/ as entrevistados/as. As vantagens do conhecimento minucioso das realidades locais são, com efeito, repetidamente invocadas como argumento para a transferência de competências atrás enunciada. Neste sentido, é objecto de crítica aquilo que é entendido como um crescente centralismo do Estado na gestão dos programas de financiamento europeus, diminuindo deste modo a possibilidade de introduzir ajustamentos que atendam às especificidades do local. Deve assinalar-se, contudo, que a proximidade ao local, em conjunto com o conhecimento pormenorizado de pessoas e situações que dela resulta, se por um lado permite uma melhor adequação das intervenções, por outro pode 51 Acompanhada de uma ou outra referência explícita à regionalização. 208 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social engendrar efeitos perversos. Em primeiro lugar, existe continuamente o risco de se materializar em estratégias de controlo social dos pobres e dos excluídos. Em segundo lugar, e esta foi uma constatação relativamente surpreendente do estudo, encontram-se representações dos territórios e das pessoas que os habitam que afirmam a inexistência de pobreza e exclusão em contextos nos quais ela parece, de acordo com outros critérios – até com os critérios oficiais –, existir. Seguramente há lugar a diferentes representações do que é pobreza e a exclusão social (vide capítulo 2). O dado surpreendente – na perspectiva da equipa de investigação, é certo – radica no facto de actores da intervenção social local assumirem por vezes um entendimento de pobreza como equiparável, quase em exclusivo, a situações de fome – e daí afirmarem que não há, ou não há muita, pobreza. Importa assinalar que este tipo de entendimento da pobreza, quando surge, é em territórios eminentemente rurais, nos quais família e vizinhança constituem redes mais densas do que nos contextos urbanos e onde a agricultura para auto-consumo continua a ser uma prática corrente. Podemos talvez perguntar se, tal como muita da nova pobreza, as representações de alguns actores e técnicos locais acerca da pobreza e da exclusão social não serão também elas envergonhadas52. Um terceiro eixo fulcral que se extrai dos dados empíricos é a tensão entre o investimento na formação e na qualificação e o reconhecimento da inempregabilidade de franjas da população. Esta tensão afigura-se simultaneamente central e de difícil resolução no actual quadro socioeconómico, exigindo mais do que alterações centradas exclusivamente no mercado laboral. Com efeito, o trabalho tem vindo a perder mais a função do que o estatuto de grande integrador social. Significa isto que, se o trabalho continua a ser visto como o principal integrador social, por outro lado reconhece-se a inexistência de empregos para todos/as (ainda que mais qualificados/as). Mais do que avançar na geração e implementação de outros, igualmente legítimos, dispositivos de integração – projecto e processo que, de qualquer modo, teria sempre de se constituir como desígnio da sociedade no seu conjunto – as instituições de acção local no combate à pobreza e à exclusão social têm centrado os seus esforços essencialmente no combate à estigmatização daqueles/as que não estão integrados/as pelo trabalho e na tentativa de os/as vir a integrar pelo trabalho. Significa isto que se trata de um esforço que, pelo menos em parte, parece condenado à frustração na medida em 52 A resposta a esta questão exigiria um estudo que envolvesse outras estratégias de recolha de dados, designadamente estratégias que possibilitassem o desenvolvimento de outros tipos de relação entre equipa de investigação e entrevistados. Uma dimensão potencialmente relevante de tal estudo seria a da identificação das qualificações dos/as técnicos/as de intervenção social e do impacto das suas formações universitárias e outras. 209 Tiago Neves (Coordenador) que nas sociedades contemporâneas não parecem existir, de facto, empregos disponíveis para todas as pessoas. Conforme assinalado anteriormente, esta é uma situação de carácter macroestrutural, não resolúvel apenas através dos esforços dos actores locais. Assim, importa provavelmente discutir, e eventualmente redefinir, neste momento histórico, o significado, as potencialidades e as limitações do trabalho orientado para o empowerment e para a participação cívica de indivíduos e comunidades. Importará, designadamente, clarificar e avaliar os seus efeitos generativos de mudança. Importará reconhecer que esta situação deve também ser ponderada no âmbito da relação entre escola e mercado de trabalho. Um quarto eixo de análise aponta para a tensão entre o trabalho social como conjunto de profissões e o trabalho social como missão. Verifica-se, de facto, uma frequente – e, em nosso entender, viciosa – assimilação do trabalho social às missões voluntárias, filantrópicas e caritativas. Daqui resulta não só uma desqualificação do trabalho social enquanto conjunto de profissões, como também uma desqualificação do conhecimento que informa esse trabalho enquanto ciência. Esse facto tem como repercussões, entre outras, as baixas remunerações e a crescente precariedade laboral da generalidade dos/das trabalhadores/as que desenvolvem a sua actividade no campo da intervenção social. Acrescem ainda as exigências de tempo e disponibilidade emocional solicitadas sem contrapartidas, designadamente financeiras ou outras para além da satisfação cívica e pessoal de ajudar o próximo. Mudanças na gestão das organizações de intervenção social, designadamente na esfera dos recursos humanos, são um elemento contemplado neste eixo. A relação entre os planos nacionais e as instituições locais emergiu dos dados como um outro eixo relevante para a análise da acção local. Salienta-se, desde logo, o desconhecimento que diversas instituições locais têm acerca de planos nacionais como o Plano Nacional de Acção para a Inclusão ou o Plano Nacional de Emprego. Para além disso, o estatuto dos planos nacionais gera uma diversidade de modos de apropriação por parte das instituições locais: é possível tomálos como quadros orientadores da acção local mas também é possível ignorá-los; é possível desenvolver-se com eles uma relação instrumental, orientada para a captação de financiamentos, mas também é possível procurar financiamentos e desenvolver actividades à margem das linhas instituídas nos planos nacionais. A desarticulação entre os planos nacionais, designadamente nos timings da sua divulgação e execução, constituirá eventualmente um factor adicional para esta disparidade de relacionamentos entre instituições locais e planos nacionais. Por fim, um último eixo que atravessa os dados empíricos: este eixo estende-se 210 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social do excesso de fiscalização dos projectos e das actividades de intervenção social ao défice da sua avaliação. As tarefas associadas à fiscalização administrativa e à monitorização do trabalho realizado pelas instituições e pelos/as técnicos/as, em conjunto com a fiscalização administrativa dos/das beneficiários/as, configuram-se frequentemente como tarefas mais exigentes do ponto de vista do tempo dispendido e mais relevantes do ponto de vista dos resultados obtidos do que a avaliação propriamente dita das intervenções sociais. O Estado é visto mais como polícia do que como parceiro nas intervenções. Por sua vez, a avaliação reduz-se, em muitos casos, à aplicação de inquéritos de satisfação e à resposta a requisitos, normalmente de natureza apenas quantitativa, impostos pelas entidades financiadoras. A avaliação longitudinal de acompanhamento e monitorização dos projectos e processos de intervenção é, quase sempre, apenas uma miragem. Uma certa precedência da fiscalização sobre a avaliação aponta para a possibilidade de haver igualmente uma precedência da fiscalização sobre a inserção e o acompanhamento dos/as beneficiários/as. Sintetizados os eixos centrais que emergiram da pesquisa desenvolvida, conclui-se este texto com a apresentação de algumas recomendações. Estas recomendações radicam nos discursos dos/as entrevistados/as. É necessário tornar absolutamente claro, contudo, que as recomendações que seguidamente se apresentam decorrem também de um processo de interpretação desses discursos por parte da equipa de investigação. Isso significa que houve lugar a um trabalho hermenêutico num determinado enquadramento teórico, a uma categorização das reivindicações dos/das entrevistados, a uma organização das suas prioridades, a uma sublimação dos sentidos comunicados. 7.2. Recomendações. – Rever planos, programas e medidas de política social, promovendo a incorporação, nesses planos, programas e medidas, de elementos sensíveis às diferenças territoriais no sentido de produzir uma discriminação positiva dos territórios (e respectivos habitantes) mais pobres e isolados. – Rever modelos e fórmulas de comparticipação das respostas sociais por parte das entidades centrais (designadamente o Instituto da Segurança Social). Esta revisão deverá promover a incorporação, nesses modelos e fórmulas, de elementos sensíveis às diferenças territoriais no sentido de produzir uma discriminação positiva de territórios (e respectivos habitantes) mais pobres e isolados, nos quais as comparticipações dos/as utentes e beneficários/as são mais reduzidas. 211 Tiago Neves (Coordenador) – Rever a fixação de critérios quantitativos mínimos (número de participantes, por exemplo) para a implementação de determinadas medidas. Esses critérios devem ser flexibilizados e ponderados em função dos contextos e territórios para prevenir a reprodução das desigualdades. – Clarificar e reforçar o estatuto dos planos nacionais, designadamente naquilo que se refere à sua articulação com o trabalho desenvolvido pelas instituições locais. A clarificação e o reforço do estatuto dos planos nacionais envolvem pelo menos três dimensões: intensificar os processos de auscultação das entidades locais no momento da sua elaboração, garantindo um maior ajustamento das medidas definidas à heterogeneidade socioeconómica, cultural e geográfica do território nacional; disseminar os planos nacionais de modo mais extenso e intenso para aumentar o grau de conhecimento que os actores da intervenção local possuem acerca deles; operacionalizar a accountability das instituições locais por referência aos planos nacionais e respectivos eixos. – Melhorar a articulação entre políticas e medidas sectoriais, eliminando o desperdício de recursos e aumentando os níveis de eficácia e eficiência. Sugerese, desde logo e na medida do possível, uma uniformização dos timings de elaboração, entrada em vigor e vigência dos diferentes planos nacionais. – Implementar o sistema de “poverty proofing” ou “fairness test”, que é o processo através do qual os departamentos governamentais, as autoridades locais e as agências estatais avaliam políticas e programas relativamente ao impacto que se espera terem, ou já tiveram, sobre a pobreza, a exclusão e as desigualdades. Esta avaliação realiza-se tanto na fase de concepção como na fase de revisão das políticas e dos programas e visa a redução da pobreza, da exclusão e das desigualdades. – Transferir competências, recursos e poderes de decisão para entidades de nível local, designadamente para as autarquias, que se configuram como entidades privilegiadas de mediação entre o Estado e as instituições locais, salvaguardando a necessária independência e diversidade politico-partidária dos diferentes actores locais. – Desenvolver, actualizando, regulamentação para a actuação das autarquias locais na área da acção social, pois actualmente só algumas vertentes específicas – como é o caso da acção social escolar – possuem essa regulamentação. – Rever o modelo de representação implementado nas Redes Sociais, no sentido de diminuir a sua dependência face às Câmaras Municipais, flexibilizando a constituição dos seus órgãos directivos e prevenindo a reprodução de relações de poder que decorrem da centralização dos processos de tomada de decisão. 212 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social – Atribuir equipas técnicas próprias às Redes Sociais, designadamente recursos humanos tecnicamente capazes de sustentar as suas exigências conceptuais, analíticas, de planeamento, execução e avaliação. – Reforçar a avaliação das intervenções locais, fazendo da avaliação um procedimento sistemático capaz de gerar resultados comparáveis e assegurar análises longitudinais. Alguns dos recursos actualmente direccionados para actividades de fiscalização podem, com benefício a médio prazo, ser deslocados para actividades de avaliação. – Criar uma plataforma unificada do Terceiro Sector, que se constitua como parceiro negocial relevante na elaboração de políticas sociais e como voz activa na formação da opinião pública, designadamente contribuindo para a desconstrução de estereótipos sobre as pessoas pobres e excluídas. – Incentivar a abertura das instituições da área da intervenção social à comunidade, designadamente às interfaces com empresas. – Modernizar modelos de gestão das instituições do Terceiro Sector, promovendo a sustentabilidade das suas intervenções, a geração de parcerias e a produção de novas respostas aos problemas sociais. – Rever regulamentações e normativos vigentes no sentido de reduzir os entraves à geração de receitas próprias que se colocam a instituições do área da intervenção social com natureza e estatuto jurídico diverso. – Reforçar a implementação de sistemas de qualidade e respectiva certificação no campo das respostas sociais, acompanhando-a da implementação de planos estratégicos nas organizações. – Dignificar o estatuto profissional e a carreira do/da trabalhador/a social, designadamente naquilo que se refere à sua remuneração e qualificações. Esta recomendação abrange não apenas os técnicos superiores mas também os quadros intermédios e o pessoal auxiliar. – Conceber e implementar medidas que permitam dar resposta ao círculo vicioso instalado em situações de crise e que se traduz da seguinte forma: aumento da crise – agravamento das carências sociais – aumento das solicitações de apoio às instituições locais – diminuição da dotação financeira para as políticas sociais – agravamento das carências sociais, etc. – Criar uma Comissão Nacional de Protecção dos Idosos com vista a garantir os direitos da população sénior e assegurar um aumento da sua protecção face a actos de negligência e de violência. Esta Comissão poderia ter funções mais alargadas, designadamente no âmbito da concepção de um modelo de rede de apoio local para as pessoas idosas. 213 Tiago Neves (Coordenador) – Colmatar lacunas ao nível das respostas para a deficiência, particularmente para a deficiência profunda. Atender ao facto de que estas lacunas se fazem sentir de forma especialmente aguda nos territórios mais pobres e isolados. – Colmatar lacunas ao nível das respostas para a saúde mental. Atender ao facto de que estas lacunas se fazem sentir de forma especialmente aguda nos territórios mais pobres e isolados. – Definir, como corolário – entre outros – dos 3 pontos anteriores, um quadro de referência de mínimos sociais cuja implementação garanta um patamar de bem-estar social simultaneamente generalizado e específico. – Promover a participação dos cidadãos e cidadãs, designadamente dos/das pobres e excluídos/as no desenho, na implementação e na avaliação de políticas e medidas de combate à pobreza, à exclusão e às desigualdades. – Potenciar o associativismo de base comunitária. – Reforçar o apoio ao micro-crédito e ao empreendedorismo, não perdendo de vista o facto de que a solução dos problemas colectivos não assenta no mero somatório de casos individuais de sucesso. É com a expectativa de que estas páginas tenham contribuído para um conhecimento mais detalhado daquilo que presentemente acontece no campo da acção local contra a pobreza e a exclusão social em Portugal continental, assim como para a identificação de importantes desafios actuais e respectivas possibilidades de resposta, que este estudo chega ao seu termo. 214 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Referências bibliográficas – Alcock, Pete (2006). Understanding Poverty. New York: Palgrave. – Almeida, João Ferreira de et al (1992). A Exclusão Social: factores e tipos de pobreza em Portugal. Oeiras: Celta Editora. – Barbero, Josep e Cortès, Ferran (2005). Trabajo Comunitario, Organización y Desarollo Social. Madrid: Alianza Editorial. – Baudrillard, Jean (1983). In the Shadow of the Silent Majorities. Cambridge, Massachusetts: The MIT Press. – Beck, Ulrich (1997). Risk Society: Towards a new modernity. 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Lisboa: INE (*); – Manso, José R. Pires, e Simões, Nuno M. (2007). Relatório sobre Qualidade de Vida nos Municípios Portugueses. Covilhã: Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social (**); Para cada um dos indicadores considerados apresentam-se, por tipologia, os concelhos com os valores extremos: os mais elevados e os mais baixos. 221 Alcochete 144,81 Montijo 137,64 São João da Madeira 131,69 Évora 118,94 Beja 110,80 mais Ponte da Barca 50,95 Penacova 51,84 Monchique 53,39 Mortágua 58,34 Monção 60,89 menos Tipologia 1 Faro 141,55 Sines 127,61 Albufeira 118,22 Portimão 117,39 Loulé 110,13 Lagos 103,42 mais mais Lisboa 235,74 Oeiras 172,95 Porto 170,50 Cascais 155,74 Coimbra 139,13 Vila do Bispo 62,25 Aljezur 64,15 Silves 80,73 São Brás de Alportel 80,73 Olhão 87,15 mais Grândola 94,16 Ponte de Sôr 82,91 Golegã 77,69 Bombarral 75,86 Fronteira 74,81 Moita 84,02 Seixal 96,11 Sintra 98,21 Odivelas 98,70 Vila Nova de Gaia 100,40 Barreiro 107,46 Espinho 110,53 Meda 49,19 Sabugal 51,47 Oleiros 51,58 Penamacor 51,79 Alcoutim 52,82 Portel 54,32 menos Tipologia 4 menos Tipologia 3 menos Tipologia 2 Vila do Conde 96,71 Póvoa de Varzim 87,78 Ovar 85,03 Valongo 83,08 Vila Nova de Famalicão 81,23 mais Celorico de Basto 47,55 Mondim de Basto 49,26 Cinfães 49,30 Baião 50,45 Terras de Bouro 51,13 Vieira do Minho 51,63 menos Tipologia 5 Indicador per capita do poder de compra (*) Campo Maior 96,20 Elvas 87,46 Castro Verde 82,56 Alcácer do Sal 80,96 Salvaterra de Magos 79,90 Castro Marim 78,05 mais Vinhais 45,88 Sernancelhe 46,95 Penalva do castelo 47,58 Carrazeda de Ansiães 7,64 Penedono 47,71 Tabuaço 47,75 Resende 47,95 menos Tipologia 6 Tiago Neves (Coordenador) 222 menos Constância 0,030 Monchique 0,031 Borba 0,046 Vila Nova da Barquinha 0,050 Mortágua 0,056 Ponte da Barca 0,063 Vila Nova de Cerveira 0,064 mais Braga 1,739 Gondomar 1,365 Leiria 1,203 Viseu 0,853 Viana do Castelo 0,760 Mafra 0,711 Torres Vedras 0,681 Évora 0,617 Tipologia 1 Faro 0,783 Loulé 0,672 Portimão 0,545 Albufeira 0,425 mais Aljezur 0,032 Vila do Bispo 0,032 São Brás de Alportel 0,093 Sines 0,164 menos Tipologia 2 Lisboa 11,095 Sintra 4,046 Porto 3,562 Vila Nova de Gaia 2,932 Oeiras 2,793 Cascais 2,742 mais Aveiro 0,926 Barreiro 0,792 Moita 0,565 Espinho 0,313 Entroncamento 0,225 menos Tipologia 3 menos Alvito 0.016 Alcoutim 0,016 Vila de rei 0,018 Arronches 0,018 Manteigas 0,020 Marvão 0,020 Monforte 0,020 Vila Velha de Ródão 0,021 mais Miranda do Corvo 0,075 Sabugal 0,066 Idanha-a-Nova 0,058 Alpiarça 0,057 Trancoso 0,056 Pinhel 0,055 Ferreira do Zêzere 0,050 Almeida 0,050 Nisa 0,047 Proença-aNova 0,047 Tipologia 4 Guimarães 1,209 Santa Maria da Feira 1,094 Vila Nova de Famalicão 1,028 Barcelos 0,789 Valongo 0,749 Vila do Conde 0,702 Mesão Frio 0,023 Terras de Bouro 0,036 Mondim de basto 0,039 Murtosa 0,059 Vieira do Minho 0,069 menos Tipologia 5 mais Indicador da percentagem de poder de compra (*) Vila Pouca de Aguiar 0,074 Arganil 0,073 Aljustrel 0,069 Tábua 0,069 Sátão 0,067 Alijó 0,066 mais Barrancos 0,010 Penedono 0,015 Mourão 0,017 Freixo de espada à Cinta 0,020 Sardoal 0,024 Fornos de Algodres 0,026 Sernancelhe 0.027 Boticas 0,027 menos Tipologia 6 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social 223 menos S. João da Madeira -1,069 Beja -0,771 Braga -0,727 Vila Viçosa -0,653 Alcochete -0,635 Portalegre -0,693 Vendas Novas -0,623 Évora -0,600 Guarda -0,543 Santarém -0,539 Marinha Grande -0,522 mais Vila Real de Santo António 2,693 Óbidos 2,527 Nazaré 0,747 Monchique 0,685 Caminha 0,504 Valença 0,454 Sesimbra 0,176 Mira 0,131 Monção 0,115 Vagos 0,099 Tipologia 1 menos Olhão 0,122 S. Brás de Alportel 0,506 Faro 0,564 Sines 0,651 mais Albufeira 10,700 Loulé 5,715 Vila do Bispo 5,639 Lagos 5,073 Lagoa 4,722 Portimão 3,316 Silves 1,332 Tipologia 2 Indicador de dinamismo (*) Moita 0,557 Odivelas 0,554 Loures 0,542 Setúbal 0,528 Espinho 0,474 Seixal 0,456 Maia 0,401 Almada 0,398 Vila Nova de Gaia 0,232 Cascais 0,178 mais Oeiras -1,450 Lisboa – 0,994 Coimbra – 0,891 Barreiro – 0,878 Amadora -0,791 menos Tipologia 3 menos Ponte de Sôr -0,466 Alpiarça -0,362 Mora -0,305 Monforte -0,273 Golegã -0,245 Seia -0,232 Sertã -0,211 Ansião -0,203 mais Grândola 0,308 Almeida 0,239 Arraiolos 0,146 Marvão 0,145 Sabugal 0,132 Pedrógão Grande 0,124 Alcoutim 0,114 Miranda do Douro 0,079 Fronteira 0,078 Tipologia 4 Murtosa 0,283 Terras de Bouro 0,103 Póvoa do Lanhoso 0,042 Esposende 0,011 Celorico de Basto 0,035 mais Vila Nova de Famalicão -0,446 Santo Tirso -0,425 Oliveira de Azeméis -0,419 Santa Maria da Feira -0,375 Guimarães -0,346 Ovar -0,319 Trofa -0,309 Barcelos -0,240 Vizela -0,220 Felgueiras – 0,218 Vila do Conde -0,208 menos Tipologia 5 menos Campo Maior -0,708 Castro Verde -0,604 Mangualde -0,464 Moura -0,354 Peso da Régua -0,346 Mirandela -0,339 Lamego -0,319 Aljustrel -0,299 Serpa -0,271 Cuba -0,248 Vouzela -0,246 mais Castro Marim 2,448 Odemira 0,305 Melgaço 0,241 Mourão 0,131 Montalegre 0,158 Moimenta da Beira 0,111 Valpaços 0,109 Arcos de Valdevez 0,091 Tipologia 6 Tiago Neves (Coordenador) 224 mais Albufeira 181,048 Lagos 158,514 Lagoa 143,955 Loulé 140,433 Portimão 140,041 Faro 134,132 menos Monção 39,953 Penacova 65,102 Monchique 65,445 Sever do Vouga 65,895 Mortágua 66,703 Chaves 68,043 Tondela 70,176 Vila Nova da Barquinha 70,477 S. João da Madeira 168,5796 Marinha Grande 131,5684 Vila Real de Sto António 130,8615 Palmela 128,7734 Braga 122,8976 S. Brás de Alportel 94,578 Silves 99,211 Aljezur 104,698 menos Tipologia 2 mais Tipologia 1 menos Odivelas 105,3919 Seixal 110,6395 Barreiro 111,0126 Entroncamento 122,4234 Espinho 124,4166 Setúbal 124,592 Matosinhos 125,9509 Almada 126,1598 Lisboa 205,073 Porto 161,0555 Sintra 158,7346 Cascais 148,5752 Vila Franca de Xira 142,8276 Aveiro 142,8107 Oeiras 135,7879 Coimbra 133,4567 Tipologia 3 mais Indicador de qualidade de vida (**) Alpiarça 101,501 Golegã 96,828 Vila de Rei 89,483 Castelo de Vide 87,465 Vila Nova de Poiares 85,729 Fronteira 84,367 Bombarral 83,899 mais Penamacor 21,893 Vila Nova de Foz Côa 25,093 Idanha-aNova 30,161 Oleiros 33,467 Trancoso 35,094 Alandroal 36,355 Portel 36,555 Alfandega da Fé 38,410 menos Tipologia 4 Valongo 104,365 Sta Maria da Feira 100,164 Guimarães 99,664 Ovar 99,602 Vila do Conde 98,619 Póvoa de Varzim 94,864 Vila Nova de Famalicão 94,611 mais Pampilhosa da Serra 13,690 Terras de Bouro 18,334 Cinfães 28,426 Mondim de Basto 28,976 Figueira de Castelo Rodrigo 31,711 Celorico de Basto 41,086 Mesão Frio 43,739 menos Tipologia 5 Campo Maior 99,73878 Elvas 92,90151 Castro Marim 90,34926 Castro Verde 89,70278 Mangualde 88,68749 Salvaterra de Magos 88,66128 Nelas 85,06578 mais Vinhais 5,321525 Resende 12,72868 Penalva do Castelo 14,43534 Aguiar da Beira 14,97017 Boticas 19,3421 Vila Nova de Foz Côa 25,09312 Valpaços 26,56119 menos Tipologia 6 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social 225 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Anexo 2: Processo de selecção dos concelhos a incluir no estudo – fase 2 Apresenta-se aqui o cruzamento, por tipo de exclusão social (de acordo com a Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental), entre os concelhos de Portugal continental e os indicadores relativos ao poder de compra per capita, à percentagem do poder de compra, ao dinamismo e à qualidade de vida. Para cada um dos tipos de exclusão considerados apresentam-se os concelhos com a maior quantidade de valores extremos: os mais elevados e os mais baixos. 227 Monchique Mortágua Algarve Centro – Dão Lafões Braga Norte – Cavado 228 Vila do Bispo Faro Loulé Portimão Albufeira São Brás de Alportel Sines Aljezur Lagos Algarve Algarve Algarve Algarve Algarve Algarve Alentejo Litoral Algarve Algarve Tipo 2 Monção Norte – Minho –Lima + + Maior + + + + + Maior - - Menor - - - Menor Qualidade Vida Qualidade Vida Norte– Entre Douro e Vouga S. João da Madeira Évora Alentejo Central Tipo 1 - - - Menor + + + + + + Maior - - - Menor Indicador per capita + + Maior Indicador per capita - - Menor + + + + Maior - - - - Menor Poder de Compra + + Maior Poder de Compra - - - Menor + + + + + Maior - - - Menor Dinamismo Relativo + + Maior Dinamismo Relativo 3 3 3 4 4 4 4 4 3 Total 3 3 3 3 4 3 Total Tiago Neves (Coordenador) Lisboa Oeiras Moita Barreiro Espinho Sintra Porto Cascais Coimbra Seixal Odivelas Lisboa – Grande Lisboa Lisboa – Grande Lisboa Lisboa – Península de Setúbal Lisboa – Península de Setúbal Norte – Grande Porto Lisboa – Grande Lisboa Norte – Grande Porto Lisboa – Grande Lisboa Centro – Baixo Mondego Lisboa – Península de Setúbal Lisboa – Grande Lisboa Tipo 3 229 + + + + + + Maior - - - Menor Qualidade Vida + + + + + Maior - - - - - - Menor Indicador per capita + + + + + Maior - - - Menor Poder de Compra + + + + Maior - - - - Menor Dinamismo Relativo 3 3 3 3 3 3 3 4 3 4 4 Total Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Sabugal Alcoutim Grândola Ponte de Sôr Alpiarça Marvão Fronteira Monforte Almeida Penamacor Idanha-a-Nova Oleiros Trancoso Golegã Vila de Rei Centro – Beira Interior Norte Algarve Alentejo – Alentejo Litoral Alentejo – Alto Alentejo Alentejo – Lezíria do Tejo Alentejo – Alto Alentejo Alentejo – Alto Alentejo Alentejo – Alto Alentejo Centro – Beira Interior Norte Centro – Beira Interior Sul Centro – Beira Interior Sul Centro – Pinhal Interior Sul Centro – Beira Interior Norte Alentejo – Lezíria do Tejo Centro – Pinhal Interior Sul Tipo 4 230 + + + + Maior - - - - Menor Qualidade Vida + + + + Maior - - - - Menor Indicador per capita + + + + + Maior - - - - Menor Poder de Compra + + + + + + Maior - - - Menor Dinamismo Relativo 2 2 2 2 2 2 2 2 3 2 3 2 2 3 3 Total Tiago Neves (Coordenador) + Ovar Valongo Mondim de Basto Celorico de Basto Guimarães S Maria da Feira Centro – Baixo Vouga Norte – Grande Porto Norte – Norte Ave Norte – Tâmega Norte – Norte Ave Norte – Entre Douro e Vouga ta + Vila do Conde Norte – Grande Porto + + + Terras de Bouro Norte – Cavado + Vila Nova de Famalicão Maior - - - Menor Qualidade Vida Norte – Norte Ave Tipo 5 + + + + Maior - - - Menor Indicador per capita + + + + + Maior - - Menor Poder de Compra + + Maior - - - - Menor Dinamismo Relativo 3 3 3 3 3 3 3 4 4 Total Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social 231 Campo Maior Castro Verde Castro Marim Sernancelhe Penedono Aljustrel Mourão Resende Vinhais Penalva do Castelo Alentejo – Alto Alentejo Alentejo – Baixo Alentejo Algarve Norte – Douro Norte – Douro Alentejo – Baixo Alentejo Alentejo – Alentejo Central Norte – Tâmega Norte – Alto Trás-os-Montes Centro – Dão Lafões Tipo 6 + + Maior 232 - - - Menor Qualidade Vida + + + Maior - - - - - Menor Indicador per capita + Maior - - - Menor Poder de Compra + + Maior - - - Menor Dinamismo Relativo 2 2 2 2 2 2 2 2 3 3 Total Tiago Neves (Coordenador) Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Anexo 3: Processo de selecção dos concelhos a incluir no estudo – fase 3 Apresenta-se aqui o cruzamento dos 6 tipos de exclusão social (de acordo com a Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental) com os concelhos de Portugal continental com a maior quantidade de valores extremos (os mais elevados e os mais baixos) relativamente aos indicadores considerados, organizados por Unidades Territoriais para Fins Estatísticos de Nível II (NUTS II) e posteriormente desagregadas em Unidades de Nível III (NUTS III). 233 Mortágua Centro – Dão Lafões 234 Portimão Albufeira São Brás de Alportel Algarve Algarve Algarve Lisboa Oeiras Barreiro Coimbra Lisboa – Grande Lisboa Lisboa – Grande Lisboa Lisboa – Península de Setúbal Centro – Baixo Mondego Tipo 3 Loulé Algarve Tipo 2 S. João da Madeira Braga Norte– Entre Douro e Vouga Évora Alentejo Central Norte – Cávado Monchique Algarve Tipo 1 + + + + + + + + - - - - Qualidade Vida + + + + + + + + - - - - Indicador per capita + + + + + + + - - - - Poder de Compra + + + + - - - - - - - - Dinamismo Relativo 3 4 4 4 4 4 4 4 3 3 3 3 4 Total Tiago Neves (Coordenador) Alcoutim Sabugal Algarve Centro – Beira Interior Norte Terras de Bouro Norte – Cávado 235 Campo Maior Castro Verde Sernancelhe Penedono Resende Vinhais Alentejo – Alto Alentejo Alentejo – Baixo Alentejo Norte – Douro Norte – Douro Norte – Tâmega Norte – Alto Trás-os-Montes Tipo 6 Vila Nova de Famalicão Norte – Norte Ave Tipo 5 Fronteira Alentejo – Alto Alentejo Tipo 4 + + + + - - - Qualidade Vida + + + + - - - - - - - + + - - - - Indicador per capita Poder de Compra + + + + - - - Dinamismo Relativo 2 2 2 2 3 3 4 4 3 3 3 Total Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Tiago Neves (Coordenador) Procurando salvaguardar-se alguma equidade na representação das regiões e a representação dos concelhos de Lisboa e Porto, chegou-se à seguinte selecção: Norte Vila Nova de Famalicão – Norte Ave – Tipo 5 – 3 índices positivos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra); 1 negativo (Dinamismo) Terras de Bouro – Norte Cávado – Tipo 5 – 3 índices negativos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra); 1 positivo (Dinamismo) Vinhais – Norte Alto Trás-os-Montes – Tipo 6 – 2 índices negativos (Qualidade de Vida; IpC) Porto* – Norte Grande Porto – Tipo 3 – 3 índices positivos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra); 1 negativo (Dinamismo) em substituição do Barreiro, 1ª escolha com 4 índices negativos, para salvaguardar a inclusão das duas principais cidades do país. Centro Mortágua – Dão-Lafões – Tipo 1 – 3 índices negativos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra) Penamacor* – Beira Interior Sul – Tipo 4 – 2 índices negativos (Qualidade de vida; IpC) * em substituição de Alcoutim, 1ª escolha com 3 índices negativos, para salvaguardar uma relativa equidade na representação das Regiões Lisboa Lisboa – Grande Lisboa – Tipo 3 – 3 índices positivos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra) e 1 índice negativo (Dinamismo) Alentejo Campo Maior – Alto Alentejo – Tipo 6 – 2 índices positivos (Qualidade de Vida; IpC) e 1 índice negativo (Dinamismo) 236 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Évora – Alentejo Central – Tipo 1 – 2 índices positivos (IpC; % Poder de Compra) e 1 índice negativo (Dinamismo) Fronteira – Alto Alentejo – Tipo 4 – 3 índices positivos (Qualidade de Vida; IpC; Dinamismo) Algarve Albufeira – Tipo 2 – 4 índices positivos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra; Dinamismo) S. Brás de Alportel – Tipo 2 – 4 índices negativos (Qualidade de Vida; IpC; % Poder de Compra; Dinamismo) 237 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Anexo 4: guião de entrevista 0. Apresentação • 0.1. Apresentação da(s) entrevistadora(s); • 0.2. Apresentação do projecto “Acção local no combate à pobreza e exclusão social”, financiado pelo Instituto de Segurança Social e desenvolvido pela FPCEUP; • 0.3. Agradecimentos pela colaboração e questões relacionadas com a confidencialidade dos dados. 1. Introdução • 1.1. Caracterização sumária, pela(s) entrevistadora(s), da intervenção realizada por aquele organismo/instituição: objectivos fundamentais e áreas prioritárias de actuação no combate à pobreza e exclusão social. Solicitar ao entrevistado que comente esta caracterização sumária. (Exemplo: «Com base nos trabalhos de preparação desta entrevista, a nossa percepção é a de que, no que se refere ao combate à pobreza e à exclusão social, este organismo/instituição tem como objectivos fundamentais xxxxxx e como áreas prioritárias yyyyyy. Gostaria de comentar esta nossa percepção inicial?»); • 1.2. A relação entre os objectivos definidos e modo “como fazem”. (Exemplo: «Como caracterizaria a relação entre os objectivos definidos e o modo como o organismo/instituição desenvolve a sua intervenção?» OU «Como vê a relação entre os objectivos definidos e o modo como a instituição faz o seu trabalho?»). o 1.2.1. Gostaríamos que seleccionasse dois ou três exemplos de intervenções que fossem ilustrativas do modo como o organismo/instituição desenvolve a sua intervenção?» (especificidades da intervenção que caracterizam o “como fazem”/ metodologias) • 1.3. A relação dos objectivos fundamentais e áreas prioritárias com as concepções de pobreza e exclusão social. (Exemplo: «Tendo em consideração aquilo que acabou de nos referir, como caracterizaria a concepção que este organismo/instituição tem da pobreza? E da exclusão social?» – procurar, na medida do possível, um discurso mais 239 Tiago Neves (Coordenador) conceptual, designadamente um discurso que identifique similaridades e distâncias entre as noções de pobreza e exclusão social); 2. Governação • 2.1. A relação entre os processos de liderança e o modo como fazem. o 2.1.1. como se identificam/definem (nomeação, eleição, por inerência de cargos, etc.) os líderes dos processos locais? (interessa conhecer também quem os identifica/define); o 2.1.2. como se caracterizam os processos locais de liderança? (tentar a elaboração de uma tipologia das lideranças: actores e estilos) • 2.2. Especificidade dos modos de governação local. o 2.2.1. como se identificam problemas e necessidades?; o 2.2.2. como se representam e integram localmente os interesses de diferentes organizações e actores?; 2.2.2.1. “Como se articulam (ou não) os vários projectos/intervenções desenvolvidos localmente”. (Objectivo: perceber se existe coordenação ou atomização da intervenção); o 2.2.3. como se mobilizam recursos locais e recursos externos?; o 2.2.4. como se articulam recursos locais e externos?; o 2.2.5. como se representam externamente os interesses locais? (marketing da acção local para obtenção de financiamento, criação de redes supra-territoriais, lobbies, etc.); o 2.2.6. Em seu entender, qual o lugar da acção local no combate à pobreza e exclusão social? • 2.3. Financiamento e recursos. o 2.3.1. de que recursos materiais dispõem para fazerem o que fazem?; o 2.3.2. de que recursos humanos dispõem para fazerem o que fazem?; o 2.3.3. de que recursos financeiros dispõem para fazerem o que fazem?; o 2.3.4. quais as origens do financiamento dos processos de acção local? (aqui, tentar perceber a proporção do financiamento oriundo de cada fonte) • 2.4. A relação com a Administração Central. (Exemplo: «Como de240 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social finiria a relação deste organismo/instituição com a Administração Central em termos do combate à pobreza e à exclusão social? Gostaria de aprofundar estas suas impressões?» – e depois explorar as dimensões abaixo indicadas). o 2.4.1. graus de dependência, autonomia e parceria relativamente à Administração Central; 2.4.1.1. relação com os objectivos definidos centralmente; 2.4.1.2. relação com as áreas definidas centralmente; 2.4.1.3. relação com os modos de gestão da Administração Central; 2.4.1.4. em termos políticos, como retroage a acção local sobre a acção central? 2.4.1.5. em termos operacionais, como retroage a acção sobre os serviços públicos? 2.4.1.6. como é que o PNAI chega ao local? o 2.4.2. como caracterizaria as principais tendências das actuais políticas sociais de combate à pobreza e à exclusão? (mesmo correndo-se o risco de esta questão ser demasiado complexa, importa apesar de tudo tentar compreender o que pensam os actores locais acerca disto). 3. Actores e Participação • 3.1. A participação dos actores locais. o 3.1.1. quem participa? (explorar diferentes actores: voluntariado, IPSS, cooperativas, fundações, terceiro sector, empresas privadas, parcerias publico-privadas, ONGs, grupos religiosos, movimentos sociais, redes comunitárias, beneficiários nas suas relações individualizadas com os técnicos no terreno, etc.); o 3.1.2. em que níveis ocorre essa participação? (atender às diferentes fases de planeamento, tomada de decisão, execução e avaliação das acções – solicitar exemplos); o 3.1.3. como se processa a articulação entre a comunidade, técnicos e gestores? (atender às diferentes fases de planeamento, tomada de decisão, execução e avaliação das acções 241 Tiago Neves (Coordenador) – solicitar exemplos); o 3.1.4. como se articulam os conhecimentos científico, técnico-profissional e dos actores locais? (atender às diferentes fases de planeamento, tomada de decisão, execução e avaliação das acções – solicitar exemplos). • 3.2. Parcerias. o 3.2.1. como surgem? o 3.2.2 como se promovem?; o 3.2.3. como se gerem?; o 3.2.4. caracterizar as parcerias (se são apenas parcerias horizontais – actores activos ao nível local – ou parcerias verticais – actores locais, regionais, nacionais, europeus – solicitar exemplos) • 3.3. O lugar do território. o 3.1.1 o território constitui, em si mesmo, uma identidade mobilizadora para os actores locais (e a que território se referem espontaneamente os actores – bairros, freguesias, concelhos, NUT, etc.)? 4. Avaliação • 4.1. «Como fazem» a avaliação «do que fazem»? (Explorar designadamente o que há de desenvolvimento local na acção local: que dinâmicas sistémicas são geradas ou reforçadas? Como se assegura a sustentabilidade das acções e dos resultados?) – solicitar exemplos. 5. Passado, presente e futuro da acção local • 5.1. Mudanças e continuidades da acção local relativamente ao passado recente (últimos 5 anos) – solicitar exemplos (metodologias; sustentabilidade das acções e dos resultados); • 5.2. O que gostariam de fazer que ainda não tenham feito? (Neste âmbito podem recolher-se ideias para apoiar a elaboração do novo PNAI) – solicitar exemplos; • 5.3. Identificam alguns novos problemas a combater? (Neste âmbito podem recolher-se ideias para apoiar a elaboração do novo PNAI) – solicitar exemplos; • 5.4. Para terminar, gostaria que sintetizasse/concretizasse o que entende por acção local. 242 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Anexo 5: lista das instituições entrevistadas A Voz do Operário ADICES – Associação de Desenvolvimento de Iniciativas Culturais, Sociais e Económicas ADILO – Agência de Desenvolvimento Integrado de Lordelo do Ouro ADI-TC – Associação de Desenvolvimento Integrado Terras do Condestável ADRACES – Associação para o Desenvolvimento da Raia Centro-Sul ADRAVE – Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do Ave AEP – Associação Empresarial de Portugal Agrupamento de Escolas de Vinhais Agrupamento de Escolas do Concelho de Fronteira ANAFRE – Associação Nacional de Freguesias ANMP – Associação Nacional de Municípios Portugueses APEXA – Associação de Apoio à Pessoa Excepcional do Algarve ASCRATIA – Associação Socio-Cultural e Recreativa “Os Amigos da Terceira Idade de Albufeira” Associação de Amigos da Criança e da Família – Chão dos Meninos Associação de Moradores da Lomba Associação de Moradores das Lameiras Associação Humanitária Solidariedade Albufeira Associação In Loco Associação Monte – ACE – Desenvolvimento do Alentejo Central Associação Nun’Álvares de Campanhã 243 Associação Teatro Construção ATAHCA – Associação de Desenvolvimento das Terras Altas do Homem, Cávado e Ave Câmara Municipal de Albufeira/Rede Social Câmara Municipal de Fronteira/Rede Social Câmara Municipal de Lisboa/Rede Social Câmara Municipal de Mortágua/Rede Social Câmara Municipal de Penamacor/Rede Social Câmara Municipal do Porto/Rede Social Câmara Municipal de São Brás de Alportel/Rede Social Câmara Municipal de Terras de Bouro/Rede Social Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão/Rede Social Câmara Municipal de Vinhais/Rede Social Cáritas Diocesana de Évora Cáritas Diocesana do Porto Casa do Povo de Campo Maior Centro BALMAR – Fundação de Beneficência e Cultura Centro Cultura e Desporto Trabalhadores da Câmara Municipal e Junta de Freguesia de S. Brás de Alportel Centro de Dia de Nª Sª da Graça dos Degolados Centro de Saúde de Vinhais Centro de Solidariedade Social de Valdozende Centro Social de Covide Centro Social de S. Martinho de Aldoar – CLDS Aldoar Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social Centro Social e Paroquial de Santo André de Vilar da Lomba – CLDS de Vinhais CGTP-IN CLDS – Caritas Diocesana de Évora CNIS – Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade CURPI – Comissão Unitária de Reformados e Pensionistas de Campo Maior Coração Delta – Associação de Solidariedade Social Cruz Vermelha – Delegação de Évora Engenho – Associação de Desenvolvimento Local do Vale de Este Exército de Salvação – Corpo de São Brás de Alportel Fundação Aga Khan Fundação António Silva Leal Fundação Mundos de Vida IEBA – Centro de Iniciativas Empresariais Beira Aguieira Instituto Social Cristão Pina Ferraz Instituto da Segurança Social, I.P. Jardim-Escola João de Deus Junta de Freguesia de Moimenta Junta de Freguesia de Paranhos Junta de Freguesia de São Brás de Alportel Junta de Freguesia dos Anjos Lar Residencial Dona Bárbara Tavares da Silva Médicos do Mundo Raízes – CLDS da Ameixoeira 245 Tiago Neves (Coordenador) REAPN – Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal Rede Social de Évora Santa Casa da Misericórdia de Albufeira Santa Casa da Misericórdia de Cabeço de Vide Santa Casa da Misericórdia de Campo Maior Santa Casa da Misericórdia de Fronteira Santa Casa da Misericórdia de Mortágua Santa Casa da Misericórdia de São Brás de Alportel Santa Casa da Misericórdia de Vinhais União das Misericórdias Portuguesas XARA – Associação de Solidariedade Social e Desenvolvimento Local 246 Acção Local no Combate à Pobreza e Exclusão Social 247