A ESTRATÉGIA DE LISBOA E O DESENVOLVIMENTO DA POLÍTICA DE INVESTIGAÇÃO EM PORTUGAL José Luís Garcia (ICS-UL) Helena Mateus Jerónimo (ISEG-UTL & SOCIUS) Rita Gomes Correia (ICS-UL) Em Portugal, a esfera científica-tecnológica foi submetida a transformações sucessivas a partir do contexto democrático emergente com a ruptura ocorrida em 25 de Abril de 1974, após quase cinco décadas de vigência de regime ditatorial, e sobretudo depois da entrada do país, em 1986, na então Comunidade Económica Europeia (CEE), hoje União Europeia (UE). Intensificando uma tendência que vinha já da segunda metade da década de 1960, o ensino universitário observa, desde 197475, um processo de expansão massiva, mas é o ingresso de Portugal no esforço de construção europeia que marca um período de promoção e reestruturação da esfera da ciência, tecnologia e investigação. A reorganização do campo científico e tecnológico seguiu, em traços largos, orientações comuns aos principais países europeus e que vieram a desembocar na Estratégia de Lisboa, aprovada em 2000, pelo Conselho Europeu reunido na capital de Portugal. Este documento, que estabeleceu como objectivo tornar a Europa “a economia e a sociedade do conhecimento mais competitiva do mundo”, tornou-se no guia do rumo implementado em Portugal pelo poder político, seja dos partidos da esquerda seja da direita governamental, que procura adaptar a ciência e a tecnologia a um perfil virado para o desenvolvimento de conhecimentos e produtos que possam integrar-se na lógica da competição económica e no esforço de abertura de novos mercados. A lógica de reorganização do sistema de ciência e tecnologia tem revelado uma face antinómica, na medida em que, ao mesmo tempo que aponta para metas de desenvolvimento desse sistema, este é confinado ao exercício de um papel restrito de apoio à economia e ao objectivo de fazer com que seja a investigação pública a pagar o esforço de investigação que caberia às empresas privadas custear e que não têm estado dispostas a fazer. 1. Reorganização do campo científico a partir da entrada na UE A orientação política e económica do regime ditatorial de Salazar estabeleceu um quadro prolongado de relações de poder de cunho autoritário, repressivo e dogmático sobre os cidadãos e a vida pública, tendo sido também responsável por um padrão geral de constrangimento do ímpeto central que a esfera da ciência e da tecnologia conheceu noutros países ocidentais e que a privou de assumir um mais 1 destacado papel como autoridade cultural na sociedade portuguesa. Esta disposição não deve, porém, ser destituída da sua complexidade, ainda que não possa ser examinada neste texto. Não só a ciência moderna teve uma presença relevante, em várias fases, na história da modernidade portuguesa (desde logo ligada às viagens marítimas, aos conhecimentos oceanográficos e muitos outros aspectos conexos à expansão colonial), como no século XX, incluindo o próprio período ditatorial, é possível assinalar importantes surtos tecnológicos e avanços científicos associados ao estabelecimento de redes eléctricas, à hidráulica, às instalações portuárias, e a outros ramos da engenharia e obras públicas, embora sem a pujança e alcance próprios do envolvimento central que a ciência e a tecnologia tiveram em processos de desenvolvimento do capitalismo assentes na extensão ilimitada da industrialização, na aceleração do dinamismo do mercado e no alargamento constante do consumo.1 Como já se referiu, em Portugal, o campo científico-tecnológico começa, na segunda metade da década de 1980, sob o impulso da entrada na então CEE, a ser sujeito a uma intervenção conducente a transformações para o converter num sistema estratégico de suporte a metas de crescimento económico e competitividade comercial. Esta orientação é consentânea com as políticas de desenvolvimento da investigação que vinham sendo traçadas pela Comissão Europeia desde, pelo menos, o Acto Único Europeu de 1986, que faz referência a rumos para a pesquisa e a tecnologia, mas que tinha já como antecedentes os chamados Programas-Quadro de Investigação e Desenvolvimento. A prossecução da reestruturação do sistema científico e tecnológico ocorreu na sequência da resposta que os países centrais, especialmente os EUA e a Grã-Bretanha, tentaram dar, sob uma matriz neoliberal, às dificuldades decorrentes das crises energéticas dos anos de 1970 e das depressões económicas da década seguinte. Embora ainda escasseiem as investigações que assinalem claramente o sentido das mudanças e da reorganização do sistema científico e tecnológico em termos da sua efectiva incorporação nos domínios industrial e comercial, existem já suficientes indicações da tendência para a adopção de lógicas de funcionamento de tipo empresarial e de alterações na sua missão e no estatuto e mandato dos investigadores. A Estratégia de Lisboa é uma orientação da UE que se insere na preocupação de, por intermédio do que é conhecido por “economia do conhecimento” e das novas tecnologias como as biotecnociências, as tecnologias da informação e as nanotecnologias, impulsionar um novo ciclo de negócios num quadro de mundialização dos fluxos económicos e financeiros. A análise dos textos que a Comissão Europeia 1 Para uma súmula de diversas contribuições valiosas para a compreensão deste tópico, ver os estudos coligidos em Rosas et al. (1994) e Brito et al. (2002). 2 produziu para responder aos imperativos do Conselho de Lisboa de 2000 indicam uma política de investigação pública em inovação que não coloca os resultados científicos no primeiro plano e que aponta para a reestruturação das universidades e os laboratórios públicos no sentido da sua empresarialização e da subordinação destas entidades ao imperativo de serem elas próprias a alavancar a redução dos custos que representam para as empresas o financiamento em matéria de investigação necessária para a competição económica no actual mercado global. Os sucessivos governos de Portugal nas últimas duas décadas, e com mais intensidade a partir da criação do Ministério da Ciência e da Tecnologia em 1995, imprimiram o desenvolvimento do sistema científico e tecnológico de acordo com uma orientação que prossegue as directrizes fixadas pela Estratégia de Lisboa. Numa caracterização que não pretende ser completa, essa orientação de desenvolvimento tem tido três importantes consequências. Em primeiro lugar, a mudança – talvez seja mais rigoroso falar em desdobramento – de um conceito de universidade e de actividade científica como âmbitos onde se procurava gerar conhecimento público e meios para solucionar problemas comuns para um outro que as entende como motor da produtividade industrial e suporte ao interesse privado. Tal mudança encontra expressão nas estatísticas relativas ao investimento em actividades de investigação e desenvolvimento (I&D), embora a sua magnitude em Portugal ainda não seja da mesma dimensão do que na generalidade dos países do Norte da Europa. Nestes, mais de metade do financiamento tem origem no sector empresarial, ao passo que Portugal está mais dependente das instituições e financiamento públicos (ver Graf. 1). Em segundo lugar, o crescimento dos recursos – acompanhado pela tendência para o aumento do ritmo desse crescimento – que se empregam em ciência e tecnologia e das entidades que se dedicam à sua criação e transmissão. É disso prova o número, sempre crescente, de recursos humanos afectos a estas actividades (ver Graf. 2), ainda que, por comparação à maioria dos países da OCDE, se denote em Portugal uma escassez significativa de pessoal técnico auxiliar, o que faz com que os investigadores portugueses tenham de efectuar tarefas que noutros países são executadas por pessoal técnico (ver Graf. 3). Finalmente, o surgimento de novos modos de produção e transferência de conhecimento científico e técnico, impulsionados por entidades que resultam da interpenetração entre ciência, tecnologia e indústria (ou, por outras palavras, tecnociência) e formas de empresarialização da actividade tecnocientífica que buscam maximizar a valorização do conhecimento através da sua transformação em produtos/mercadorias. Em ordem à sua inserção nesta nova economia e sob o enquadramento da UE, Portugal tem procedido a importantes reestruturações de todo o tipo nos centros de 3 produção do conhecimento (universidades, laboratórios, escolas politécnicas, entidades de I&D, etc.), através de instrumentos como redefinição da sua missão, alterações nas leis, mudanças nas estruturas internas, modificação no perfil e estatuto dos profissionais, introdução de novos modelos de gestão, internacionalização da pesquisa, racionalização e burocratização da investigação, incremento da competição e da produtividade, licenciamento de patentes e de outros acordos de uso industrial da inovação desenvolvida na esfera académica. A par destes procedimentos, os governos têm estimulado a promoção da actividade tecnocientífica, o que tem significado colocar vastas áreas da ciência e a tecnologia sob o desígnio da produção de aplicações imediatas e num enquadramento ideológico que as vincula a noções reducionistas de economia confinadas ao mercado. Em consequência desta orientação, a actividade científica e tecnocientífica em Portugal passou a revestir gradualmente características de um sistema que se vai articulando com valores não essencialmente epistémicos, com poderes e interesses de vários tipos, cessando de constituir predominantemente num intento de elucidar, explicar ou compreender a natureza e o mundo, para se converter em actividade profundamente transformadora de toda a realidade em domínios que se supõem ser de aposta mercantil. Esta acção de mudança induzida pela tecnociência mercantil tem conduzido à discussão dos valores que comandam a acção tecnocientífica, os seus objectivos e benefícios, mas também aos problemas e situações de risco, incerteza e perigos que induz, os quais exigem decisões colectivas num contexto fortemente marcado, em alguns casos, pela irreversibilidade. 2. A estratégia de Lisboa e as políticas europeias para a investigação Como já foi explicitado, a Estratégia de Lisboa surge num contexto que encontra na ideia de inovação a sua directriz. A promoção da inovação desde as últimas décadas do século XX por um conjunto de líderes empresariais, políticos e figuras dos meios da gestão, da economia e da tecnologia articulava-se directamente com a transformação do capitalismo de “economia do trabalho” em “economia do conhecimento” enquanto mecanismo fulcral da acumulação do capital numa ordem económica que tem procurado tomar a forma de um sistema de mercado auto-regulado à escala mundial. Neste particular, é importante acentuar que o conhecimento que estamos a aludir não deve ser entendido como restringido apenas ao conhecimento científico. As novas indústrias emergem em campos cognitivos e científico-tecnológicos em que as noções de informação, comunicação e o modelo informacional/cibernético (abrangendo pensar a vida biológica como organização informacional) têm usualmente 4 uma relevância considerável. A exploração das utilizações tecnológicas da noção de informação constituiu o motor do grupo de indústrias cuja ascensão se apoia nos resultados promissores obtidos em áreas que abrangem tanto as tecnologias da informação, como as biotecnociências baseadas na recombinação do ADN, campos que aparecem como promissores em termos comerciais e que estão a reestruturar a própria economia capitalista. Neste novo contexto, a economia ganha uma configuração associada a grandes entidades de poder privado à escala multinacional e transnacional. As corporations internacionais tornaram-se uma das forças motrizes dos processos económicos, concebendo e pondo em acção estratégias com efeitos em diversos cenários nacionais. Emerge paralelamente um conjunto de esferas sociais transnacionais e uma camada de actores que abrangem todo o sistema, ultrapassando muitas das relações à escala dos Estados-nação e mesmo entre nações. As autoridades regulamentadoras supranacionais observaram a tendência para colaborar de forma cada vez mais próxima com as corporations, inclinando-se para reduzir as possibilidades da acção regulamentadora dos governos nacionais e permitindo a auto-regulamentação dos grandes conglomerados empresariais. Sob este pano-de-fundo, a UE adopta uma orientação que visa investir o seu universo político e económico de um maior poder no âmbito da economia mundial e das tendências vigentes ao abrigo da “economia do conhecimento” e do objectivo de crescimento através da inovação tecnológica. Através da Estratégia de Lisboa, os países europeus concordaram em fazer da Europa a economia baseada no conhecimento mais dinâmica e competitiva do mundo. Desde 1984, a política europeia de investigação e desenvolvimento tecnológico tem como suporte a existência – já referida anteriormente – de Programas-Quadro plurianuais desenvolvidos com o objectivo de promover a cooperação entre os diversos países membros. Apesar destes projectos de conjugação de esforços entre os diversos países ainda terem uma dimensão muito diminuta e pouco coerente,2 a UE vê-se a si própria como ocupando uma posição de destaque em domínios como a investigação médica e química. Tal circunstância é entendida como um eixo potencial a ser “conservado, reforçado e plenamente explorado em cooperação com empresas, institutos de investigação e universidades fora da Europa”. Emerge assim a noção 3 acerca da necessidade de uma abordagem mais vasta das actividades de investigação, uma coordenação de recursos 2 A este respeito, ver http://europa.eu/legislation_summaries/research_innovation/general_framework/i23010_pt.htm 3 Subjacente a esta análise está a ideia de que, num mundo cada vez mais globalizado, “a investigação e o desenvolvimento tecnológico evoluem a um ritmo acelerado graças ao intercâmbio de investigadores, de informações e de resultados científicos que circulam de um país para outro, cada vez com maior liberdade e rapidez”. 5 e esforços dos vários Estados-Membros, de forma a “explorar plenamente este potencial”,4 dando origem à constituição, em Janeiro de 2000, de um Espaço Europeu da Investigação (EEI) que combinasse a coordenação das diversas actividades, programas e políticas desenvolvidas pelos vários países europeus, a promoção de iniciativas concebidas e financiadas pela União Europeia e a implementação de um “mercado interno” europeu da investigação. 5 Entre 2002 e 2006 vigorou o 6.º Programa-Quadro,6 tendo como principal objectivo contribuir para a criação deste EEI através da integração e coordenação das actividades de investigação desenvolvidas no âmbito dos vários países europeus. Assente na ideia de que a investigação na Europa “está demasiado fragmentada para enfrentar eficazmente os desafios inerentes ao seu tempo”, este programa-quadro visava a criação de dois instrumentos – redes de excelência (que deveriam possibilitar a integração progressiva das actividades dos diversos parceiros ligados) e os projectos integrados (projectos de dimensão considerável centrados em objectivos científicos e tecnológicos previamente definidos). O propósito assumido para o EEI ao nível da investigação e inovação era incentivar “a inovação tecnológica, a exploração dos resultados da investigação e a transferência dos conhecimentos e tecnologias, bem como a criação de empresas tecnológicas”, assim como “contribuir para aumentar o interesse dos investigadores de países terceiros pela Europa”. Ao nível das infraestruturas de investigação, a prioridade era promover a acessibilidade. No que concerne aos projectos, foram definidas sete prioridades temáticas: ciências da vida, genómica e biotecnologia para a saúde7; tecnologias da sociedade da informação; nanotecnologias, materiais inteligentes e novos processos de produção; aeronáutica e espaço; segurança alimentar e riscos para a saúde; desenvolvimento sustentável, alterações climáticas e ecossistemas; e cidadãos e governação na sociedade do conhecimento. A orientação descrita pressupõe de forma evidente a subordinação das políticas nacionais de investigação à política comunitária, a diminuição da investigação “fundamental”, a articulação com lobbies económicos e empresariais, assim como a transformação dos investigadores numa massa móvel e à disposição. 4 http://europa.eu/legislation_summaries/research_innovation/general_framework/i23012_pt.htm A este respeito, ver http://europa.eu/legislation_summaries/research_innovation/general_framework/i23037_pt.htm 6 A este respeito, ver http://europa.eu/legislation_summaries/research_innovation/general_framework/i23012_pt.htm 7 Relativamente a esta prioridade, o objectivo era “ajudar a Europa a explorar os resultados relativos aos genomas dos organismos vivos, muito especialmente no interesse da saúde pública, bem como reforçar a competitividade da indústria europeia de biotecnologia”. 5 6 Em 2007, a Estratégia de Lisboa é revista e adopta a designação de Estratégia de Lisboa Renovada. O objectivo é reforçar o Espaço Europeu da Investigação 8 assente na importância dada ao chamado “triângulo do conhecimento” (investigação, educação e inovação) e no objectivo de consolidar a posição da Europa no domínio da investigação e, consequentemente, dispor de uma maior competitividade nos mercados globalizados. Duas preocupações assumem um carácter proeminente – a sustentabilidade dos recursos humanos científicos9 e a realização da excelência em investigação, independentemente da origem do seu financiamento (público ou privado). Neste âmbito, foi adoptada pela Comissão, em Abril de 2007, a comunicação “melhorar a transferência de conhecimentos entre as instituições de investigação e as empresas em toda a Europa” com o intuito de potenciar as possíveis sinergias existentes entre as fontes de financiamento da UE destinadas à investigação e inovação e identificar os obstáculos que embaraçam a sua concretização. Até esta altura foi preponderante a perspectiva nacional na definição das políticas de I&D. Mas, como os sistemas de I&D se apresentavam cada vez mais interligados, o Relatório Estratégico de 2007 da Comissão enfatizava a dimensão europeia das actividades de investigação realizadas, concretizadas no Espaço Europeu de Investigação, cujo desenvolvimento iria possibilitar ganhos de eficácia ao nível dos sistemas nacionais e alcançar o reforço competitivo do Sistema de Investigação da UE no panorama mundial. Também em 2007 começa a ser executado o 7.º Programa-Quadro (20072013). Com um orçamento total superior em 63% em relação ao seu congénere anterior, este programa consubstancia a grande prioridade atribuída à investigação pela UE. Das suas metas constam a promoção do emprego, competitividade e desenvolvimento sustentável na Europa e o estabelecimento de uma posição de liderança na economia global do conhecimento, sintetizados no objectivo de “colocar a sua política de investigação à altura das suas ambições económicas e sociais através da consolidação do Espaço Europeu da Investigação”. 10 De acordo com este programaquadro, o esforço de investigação europeu deve ser estruturado através de quatro 8 Os objectivos, de longo prazo, definidos para este espaço são: “optimizar a cooperação nos diferentes níveis de acção, coordenar melhor as políticas europeias e nacionais, reforçar as capacidades estruturais e a interligação entre as equipas de investigação; ou seja, aumentar a circulação de pessoas e ideias”, http://europa.eu/legislation_summaries/research_innovation/index_pt.htm 9 Em 2006, cerca de 35% do pessoal de C&T altamente qualificado pertencia à faixa etária 4564 anos, denunciando um progressivo envelhecimento da mão-de-obra do sector da investigação (Relatório da Comissão, 2008). 10 A este respeito, ver http://europa.eu/legislation_summaries/research_innovation/general_framework/i23022_pt.htm 7 programas específicos principais: cooperação11 (que visa promover a cooperação e o reforço, num contexto transnacional, das relações existentes entre a investigação e a indústria); ideias12 (que pretende incentivar a descoberta de novos conhecimentos na chamada “investigação de fronteira”, apoiando “os projectos de investigação mais ambiciosos e mais inovadores” e privilegiando “a concorrência e a aceitação de riscos”); pessoas (que procura atrair mais jovens investigadores de qualidade e melhorar as suas perspectivas de carreira através do incentivo à formação e à mobilidade); e capacidades (almejando dotar os investigadores de infra-estruturas, “ferramentas eficientes” como é referido no texto oficial, que lhes permitam alcançar um melhor nível de qualidade e competitividade). Este programa trouxe também como novidade, sob a bandeira de que os conhecimentos e as tecnologias constituem os principais trunfos da Europa para vencer os desafios do crescimento e do emprego, uma orientação expressa referente às políticas nacionais para a investigação – “o programa-quadro deve ter um efeito de alavanca nas despesas nacionais em matéria de investigação, para que o esforço de investigação da Europa atinja os 3% do PIB”.13 Do exposto resulta claro o carácter económico, associado à noção de poder estratégico internacional, dos objectivos das políticas de investigação da UE. Contudo, as motivações referidas no site oficial remetem para objectivos de cariz bem mais social e consensual, como sejam uma melhor gestão dos recursos públicos, 14 uma aplicação tecnológica mais próxima das necessidades da população, a “promoção do papel das ciências nas sociedades modernas”15 e até um carácter quase salvífico da aplicação tecnológica.16 11 O principal objectivo deste programa específico consiste em “construir e consolidar uma liderança europeia em domínios-chave da investigação”. São apontados nove domínios: saúde; alimentação, agricultura e biotecnologias; tecnologias da informação e das comunicações; nanociências, nanotecnologias, materiais e novas tecnologias de produção; energia; ambiente (incluindo as alterações climáticas); transportes (incluindo a aeronáutica); ciências socioeconómicas e ciências humanas; e segurança e espaço. 12 Importa referir que, na síntese oficial disponível para este programa-quadro, é salientado que, à semelhança do 6.º programa-quadro, não serão alvo de financiamento comunitário as investigações relacionadas com: a clonagem humana para fins reprodutivos; a investigação destinada a modificar o património genético dos seres humanos, susceptíveis de tornar tais alterações hereditárias; e a investigação destinada a criar embriões humanos exclusivamente para fins de investigação ou de obtenção de células estaminais. 13 Este valor de referência (3% do PIB) corresponde ao nível de despesa de investigação verificada, no final da década de 1990, nos EUA e no Japão. A média da União Europeia, para o mesmo período, rondava os 1,8% do PIB, http://europa.eu/legislation_summaries/research_innovation/general_framework/i23010_pt.htm 14 http://europa.eu/legislation_summaries/research_innovation/general_framework/ri0003_pt.ht m 15 http://europa.eu/legislation_summaries/research_innovation/general_framework/index_pt.htm 16 Na página Internet que contém as sínteses da legislação da UE é apresentado, como fundamentação para a promoção da interligação patente nas políticas de investigação (“A investigação ao serviço das outras políticas”) com especial destaque que “as viaturas 8 3. O campo científico português pós-Estratégia de Lisboa A partir da entrada na comunidade europeia em 1986, o Estado português foi procurando captar fundos que considerou oportunidades fundamentais para o desenvolvimento científico. Esta captação de fundos significou que num breve período de cinco anos, entre 1986 e 1991, tenha conduzido a um aumento de 163% em actividades de I&D (Godinho, 1993: 192). Um dos primeiros instrumentos de acção a ser implementado foi o Programa Mobilizador de Ciência e Tecnologia (1987-1990). Com a adopção deste programa, as oportunidades de constituição de novas equipas de projecto passaram a ser submetidas a concurso nacional e foi implementado um sistema de avaliação aberto e transparente. As políticas de I&D têm estado associadas à participação em programas específicos no âmbito dos Quadros Comunitários de Apoio caracterizados por uma clara separação entre política de ciência e política de empresa que tem conduzido a uma falta de integração e coerência da política de inovação em Portugal. Se a separação entre política científica e política tecnológica já era tradicional no nosso país, ela foi ainda consolidada com o QCA I (com os programas CIENCIA17 e PEDIP, e depois com o PRAXIS XXI 18), o QCA II (PEDIP II) e o QCA III.19 Os governos constitucionais XV e XVI transformaram estes programas (o POE foi transformado em PRIME, o POCTI em POCI 2010 e o POSI em POS_C) no entanto a separação manteve-se.20 inteligentes para salvar vidas, a energia de fusão para enfrentar a dependência energética, a terapia génica para curar doenças graves, as biotecnologias para preservar a nossa qualidade de vida no respeito pelo ambiente são algumas das numerosas aplicações oferecidas pela investigação para responder às questões e aos desafios sociais”, http://europa.eu/legislation_summaries/research_innovation/research_in_support_of_other_poli cies/index_pt.htm 17 Os principais objectivos dos programas CIENCIA (1990-1993) e Stride-Portugal consistiam na criação de infra-estruturas de ligação entre universidades e indústria, com o intuito de garantir, a médio-longo prazo, o acesso do sector empresarial a conhecimentos científicos com potencial inovador, e na formação avançada dos recursos humanos afectos a essas mesmas infra-estruturas. 18 Implementado entre 1994 e 1999, este programa prosseguia os objectivos do programa CIENCIA ao nível da criação e reforço de infra-estruturas, tendo também como metas o desenvolvimento da base do sistema de C&T (nomeadamente através do reforço da qualidade do ensino superior), a mobilização da capacidade científica e tecnológica para a inovação e o desenvolvimento regional (apoiando a modernização e diversificação do aparelho produtivo do país) e a formação avançada de recursos humanos (que permitiriam ampliar e consolidar a presença portuguesa na esfera científica e tecnológica europeia e atrair para Portugal actividades de investigação de âmbito internacional). 19 Este quadro de apoio apresentava, no campo da ciência, o POCTI e o POSI e, na área da empresa, o POE – um sucessor dos dois PEDIP que alargava o seu âmbito ao sector dos serviços. 20 A este respeito, ver Godinho e Simões (2005). 9 A primeira tentativa de conjugação de esforços destes dois eixos de política ocorreu com a criação, no início da década de 1990, da Agência de Inovação (AdI). Seguiu-se, nos anos 2000, o PROINOV (Programa Integrado de Apoio à Inovação) que assentava num conceito de política de inovação amplo e transversal e estabelecia a sua coordenação ao nível do Primeiro-ministro, assumindo que uma influência de topo facilitaria a operacionalização e estimularia a cooperação entre as partes. Este programa (PROINOV) foi abandonado precocemente por razões de ciclo político. A Unidade de Missão Inovação e Conhecimento (UMIC) sucedeu ao PROINOV. Esta unidade detinha competências ao nível da inovação, da sociedade de informação e do governo electrónico, porém, e apesar de estar sob a alçada directa do Ministroadjunto do Primeiro-ministro, apenas concentrou a sua actividade nas duas últimas áreas não tendo chegado a estabelecer um Plano de Inovação como previsto. Em 1998, num documento de trabalho do Observatório das Ciências e das Tecnologias do MCT era apontado que o objectivo de reforço da capacidade tecnológica das empresas seria promovido através de três eixos orientadores (OCT, 1998). Em primeiro lugar, o apoio à investigação aplicada privilegiando as formas de carácter mais estruturante das actividades de I&D, nomeadamente através de empréstimos reembolsáveis para a criação de empresas de base tecnológica. Era especificamente referido que deveria existir “maior empenhamento directo do Estado como contratador de I&D, directamente para resolver problemas de interesse público, e como estruturador de programas de índole intersectorial, a criar, envolvendo vários Ministérios, Laboratórios e Empresas em vectores estratégicos para a melhoria da competitividade ou criação de áreas novas de vantagens competitivas”. Em segundo lugar, o apoio à inovação e à internacionalização fomentando a investigação nacional, a cooperação internacional, o desenvolvimento tecnológico e a endogeneização de tecnologia como respostas aos problemas da reduzida dimensão do mercado nacional e da fraca especialização do sistema tecnológico nacional. Em terceiro lugar surge a busca de melhoria da articulação das universidades com as empresas sendo referida como “uma preocupação central da política científica e tecnológica e do Ensino Superior”. Da leitura do documento ressaltam, pelo menos, quatro ideias-chave. Um dos principais objectivos para o sector da ciência e tecnologia consiste em vencer o atraso estrutural em relação aos restantes países da UE, tendo em vista o alcance de um melhor posicionamento estratégico no contexto europeu e de um mais incisivo desenvolvimento económico. Outra ideia-chave é de que o conceito de desenvolvimento económico surge quase como sinónimo de inovação, aplicação tecnológica e criação de novas empresas. A terceira consiste em que todo o processo 10 de transformação deve ter como pivot o ensino superior, através dos seus recursos científicos, técnicos e humanos. A tal não será certamente alheio o facto de que em Portugal, como já referimos anteriormente, a maior parte dos investigadores se encontrarem vinculados às instituições de Ensino Superior. Por último, pretende-se fomentar uma maior ligação entre a ciência e a sociedade, potenciando junto da população em geral a ideia de que a ciência assume um papel fundamental na resolução dos problemas públicos. Em 2001, no relatório dos cinco anos de actividades (1997-2001) da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, era salientado que, embora a ciência e a tecnologia não possam ser promovidas independentemente do que designam por uma política de inovação, sendo esta determinante e determinada do/pelo mercado, investigação e inovação são actividades estruturalmente distintas que se complementam mas não se substituem (FCT, 2002: 23). Contudo, é também assumido no mesmo documento que o sistema de ciência e tecnologia desempenha um papel estruturante e fundamental para o “progresso económico e social, afirmando-se em cada país como uma infra-estrutura básica para a economia e a sociedade baseadas no conhecimento” (idem: 20). Parte integrante do QCAIII (2000-2006), o POCTI, traçado no âmbito do então Ministério da Ciência e Tecnologia, apresentava como objectivos: (1) ultrapassar o atraso científico e reforçar as instituições científicas; (2) melhorar a qualidade e estimular a internacionalização do sistema científico e tecnológico; (3) reforçar a capacidade tecnológica e a inovação nas empresas; (4) desenvolver a cultura científica e tecnológica. A ênfase concentra-se nos investimentos em ciência, conjecturando que estes venham a ter posteriores repercussões ao nível da inovação sem, no entanto, existir a promoção efectiva de uma qualquer ligação. Como concluiu a avaliação intercalar do POCTI, o desempenho ao nível da ciência apresentou uma melhoria significativa (com o aumento do número de investigadores, de doutoramentos e de publicações científicas), contudo os eixos relativos à tecnologia e inovação apresentaram resultados menos promissores (fraco investimento privado em I&D, fraca capacidade para atrair profissionais com mestrado/doutoramento e baixa intensidade de patenteamento). Na área da empresa, o programa POE assumia claramente a intenção de promover a inovação e o empreendedorismo, tendo ainda sido ampliado este intuito, a quando da sua transformação em PRIME, com a inclusão de um conjunto de incentivos específicos para estimular a I&D, a inovação e o empreendedorismo (SIME Inovação, IDEIA, DEMTEC, NITEC, QUADROS e NEST). Também em relação a estes programas (POE/PRIME) a avaliação intercalar refere que os resultados e o impacto foram 11 inferiores ao esperado, salientando a incapacidade dos programas para estimularem significativamente o reforço da capacidade tecnológica e de inovação das empresas. Em finais de 2004 é aprovado o programa Operacional Ciência e Inovação 2010, com uma vigência de 2004 a 2006. Este programa, sob a égide do novo Ministério da Ciência, Inovação e Ensino Superior, vem reformular o POCTI centrando na inovação as políticas do ensino superior, da formação avançada e da ciência. Da fundamentação da sua proposta constava “a necessidade de alinhamento das políticas públicas nacionais pertinentes com o paradigma de crescimento económico prevalecente, o imperativo de melhorar a situação competitiva portuguesa, bem como o desenvolvimento da ciência e inovação para as políticas públicas e o desenvolvimento regional” (MCIES, 2004). O objectivo principal assumido era a “promoção da competitividade e do desenvolvimento do país” o que, de acordo com o raciocínio exposto, implicava “a implementação de um Sistema Nacional de Inovação” tendo como pedra angular as instituições de ensino superior, com as suas unidades de I&D, e a sua interligação com os sistemas empresarial e institucional. Neste âmbito, foram implementadas diversas medidas21 de incentivo à investigação científica, à transferência de tecnologia e à inovação, sendo também considerado prioritário o desenvolvimento de projectos de divulgação e disseminação do conhecimento científico e tecnológico e promoção da cultura científica, especialmente “nas áreas da matemática e física, do desenvolvimento sustentável e das ciências da vida, da saúde e da biotecnologia”. As políticas portuguesas de C&T parecem apostar, através da canalização dos recursos disponíveis, na criação de competências de inovação assentes nos conhecimentos provenientes das universidades esperando que daí resulte a formação de empresas e sectores de elevado nível de conhecimentos científicos. Autores que têm estudado estes temas apontam algumas questões a este respeito. Em primeiro lugar, salientam que a inovação tecnológica não se baseia apenas no conhecimento científico mas que comummente resulta da experiência já existente ao nível do design, produção e venda do produto, ou seja, de dimensões mais culturais do que científicas. Em segundo lugar, referem o que apelidam de “subalternização da política de difusão relativamente à política de inovação” (Godinho, 1993: 197) – a adopção de estratégias de incentivo à inovação, de maior visibilidade e impacto, em detrimento da procura de uma melhoria da capacidade tecnológica global mais sustentada (através do apoio à aquisição de tecnologia, promoção de acções de 21 Uma destas medidas, medida dinamização da transferência de tecnologia e inovação, apresentava como meta “promover a procura tecnológica e de inovação por parte do tecido empresarial, numa óptica de Oficinas de Transferência de Tecnologia, junto de instituições do ensino superior e do sistema científico, tecnológico e de inovação” ( MCIES, s/d). 12 difusão, reforço na qualificação dos técnicos, etc.). Em terceiro, salientam o facto da definição de áreas estratégicas prioritárias poder conduzir a um desequilíbrio e enfraquecimento da capacidade científica a médio-longo prazo, deixando sequelas na investigação académica. Por último, sublinham que este tipo de estratégia não é passível de diminuir os desequilíbrios regionais existentes em Portugal dado que as actividades de I&D tenderão a ficar localizadas onde o meio envolvente for mais adequado ao seu aperfeiçoamento. A aposta na transmutação da universidade de instituição de características principalmente académicas numa entidade com um forte intuito de prestação de serviços às empresas pode no futuro revelar-se desastrosa, resultando num sistema de C&T, tanto ao nível académico como industrial, débil e inoperante. Sem um conjunto de conhecimentos práticos baseados na experiência (como a engenharia, o marketing e a gestão) a inovação não tem condições para acontecer, independentemente do mérito científico que os desenvolvimentos possam ter. Bibliografia e documentos oficiais Brito, José Maria Brandão de, Manuel Heitor e Maria Fernanda Rollo (coords.) (2002), Engenho e Obra. Uma abordagem à história da engenharia em Portugal no século XX, Lisboa, Instituto Superior Técnico e Dom Quixote. FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia (2002), Cinco Anos de Actividades: Relatório 1997-2001, http://alfa.fct.mctes.pt/documentos/RelatorioFCT-1997- 2001-Final.pdf Godinho, M. M e V. C. Simões (2005), I&D, Inovação e Empreendedorismo 20072013: Relatório Final, http://www.qca.pt/fundos/download/2007_13/01_I_D_INOVACAO.pdf Godinho, Manuel Mira (1993), "Interacção ciência-tecnologia em Portugal (ou algumas razões para se contrariar convicções estabelecidas)", in Maria Eduarda Gonçalves (coord.), Comunidade Científica e Poder, Edições 70, Lisboa, pp. 177-202. Gonçalves, Maria Eduarda (1993), “Ciência, comunidade científica e democracia em Portugal”, in Maria Eduarda Gonçalves (coord.), Comunidade Científica e Poder, Lisboa, Edições 70, pp. 133-150. MCIES, Ministério da Ciência, Inovação e Ensino Superior (2004), Programa Operacional Ciência e Inovação 2010, http://www.qca.pt/pos/download/POCI2010.pdf 13 MCIES, Ministério da Ciência, Inovação e Ensino Superior, Gabinete da Ministra (s/d), Programa Operacional Ciência e Inovação 2010, http://www.mctes.pt/archive/doc/BrochuraPOCI20100_04Jan2004_0.pdf OCT, Observatório das Ciências e das Tecnologias (1998), Política Científica e Tecnológica: Diagnóstico e orientações de médio e de curto prazo, http://www.umic.pt/images/stories/publicacoes2/Livro%20Branco %20POLITICA.pdf Relatório da Comissão (2008), Relatório anual sobre as actividades de Investigação e desenvolvimento tecnológico da União Europeia em 2007, http://eur- lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=COM:2008:0519:FIN:PT:PDF Rosas, Fernando (coord.), Fernando Martins, Luciano do Amaral e Maria Fernanda Rollo (1994), “O Estado Novo (1926-1974)”, in José Mattoso (dir.), História de Portugal, vol. VII, Lisboa, Editorial Estampa. 14 ANEXO Graf. 1 Despesa em I&D, por fonte de financiamento 80,00% 70,00% 60,00% 50,00% 40,00% 30,00% 20,00% 10,00% 0,00% 1982 1984 1986 1988 1990 1992 1995 1997 1999 2001 2003 2005 2007 Empresas 29,96% 30,84% 26,82% 27,37% 27,04% 20,22% 19,47% 21,24% 21,32% 31,54% 31,73% 36,27% 47,03% Estado 61,94% 62,10% 63,52% 66,06% 61,78% 59,41% 65,28% 68,21% 69,68% 60,95% 60,11% 55,96% 44,56% Ensino Superior 0,31% 0,78% 0,38% 0,59% 0,63% 0,73% 1,21% 1,54% 1,31% 0,85% 1,26% 1,01% 0,68% IPSFL2 4,45% 3,87% 6,35% 3,32% 5,92% 4,69% 2,13% 2,88% 2,34% 1,60% 1,91% 2,06% 2,30% Estrangeiro 3,34% 2,40% 2,93% 2,66% 4,64% 14,95% 11,90% 6,13% 5,34% 5,07% 5,00% 4,70% 5,44% Graf.2 Pessoal Total em I&D segundo a Função/Qualificação (ETI) 40 000,0 35 000,0 30 000,0 25 000,0 20 000,0 15 000,0 10 000,0 5 000,0 0,0 2001 2003 2005 2007 Outro Pes s oal 2 371,0 2 098,2 1 683,2 2 865,6 Técnicos 2 873,5 3 189,2 2 918,4 4 292,0 Inves tigadores 17 725,1 20 242,0 21 126,3 28 175,9 15 Graf. 3 Pessoal Total em I&D por sector de execução (ETI) 16.000,0 14.000,0 12.000,0 10.000,0 8.000,0 6.000,0 4.000,0 2.000,0 - 1982 1984 1986 1988 Empresas 1.891,1 1.564,0 Estado 4.053,7 4.543,4 4.354,6 4.114,2 1990 1992 2.015,1 2.041,8 1.996,6 1.881,7 1995 1997 1999 2001 2003 2005 2007 1.916,7 1.980,6 3.260,1 3.874,9 6.123,7 6.133,4 12.784,3 4.229,9 3.955,5 4.715,5 5.229,5 5.901,8 5.970,5 4.917,0 4.533,2 4.523,3 Ensino Superior 2.329,8 2.799,1 3.799,1 4.182,4 4.840,1 6.248,7 6.484,2 8.441,9 9.186,9 10.172,9 11.146,9 11.680,4 14.027,2 IPSFL 277,9 361,0 401,4 545,0 976,0 1.362,5 2.348,9 2.382,7 2.456,9 2.951,3 3.341,9 3.380,7 3.998,7 16