ON LINE
TR SFORMAR
Revista dos Associados e Amigos do Forum Abel Varzim
Desenvolvimento e Solidariedade
www.forumavarzim.org.pt
edição
12
novembro 2014
TRÁFICOS HUMANOS
a moderna forma de escravidão
O Forum Abel Varzim, no âmbito das Comemorações do 50.º Aniversário da Morte do Padre
Abel Varzim, organizou uma conferência no Espaço Santa Catarina em Lisboa sobre o tema do
Tráfico Humano.
PROCISSÃO DOS PASSOS
ENCERRAMENTO DAS COMEMORAÇÕES DOS 50
ANOS DA MORTE DO PADRE ABEL VARZIM
siga-nos
Colaboradores :
António Soares
António Leite Garcia
Cristina Monteiro
Artur Lemos
José Carmo Francisco
Sara Dias
Design: nelsongarcez ©
Contactos:
Forum Abel Varzim
Desenvolvimento e Solidariedade
Apartado 2016 - 1101-001 LISBOA
Rua Damasceno Monteiro nº1, r/c
1170 – 108 LISBOA
Telef. 218 861 901
www.forumavarzim.org.pt
[email protected]
Os associados e Amigos que pretendam
efectuar o pagamento das quotas / donativos
por transferência bancária, podem usar o
NIB: 0035-0698-00022001930-29
TRÁFICOS HUMANOS
a moderna forma de escravidão
O Forum Abel Varzim, no âmbito das Comemorações do 50.º Aniversário da
Morte do Padre Abel Varzim, organizou uma conferência no Espaço Santa
Catarina em Lisboa sobre o tema do Tráfico Humano.
O painel, constituído por: Sara Brito, membro da Direcção
do Forum e ex-presidente da Junta de Freguesia da
Encarnação (Bairro Alto); José Morais Gouveia actual
Presidente da Direcção do Forum; Deolinda Machado
associada do Forum e membro da CGTP-IN; Ir. Júlia
Barroso e Ir. Rosilene Linares em representação da
Comissão de Apoio às Vítimas de Tráfico de Pessoas
(CAVITP), animou a sessão onde participaram mais de
60 pessoas.
Esta iniciativa do Forum Abel Varzim, reforça a
importância de um trabalho de sensibilização contra
este flagelo que assola hoje, cidadãos de todos os
Continentes, preocupação de várias Instituições,
nomeadamente da União Europeia, que
assinalou
no passado dia 18 de Outubro, o Dia Internacional AntiTráfico.
O encontro, sinalizou a importância da partilha de
informação em torno do tema do Tráfico Humano,
um flagelo que não acontece apenas em territórios
distantes, mas tem expressão significativa em Portugal,
com mais de 200 casos identificados, anualmente.
Intervenções de
Ana Sara Brito e José Morais Gouveia
Ana Sara Brito começou por apresentar os membros
do painel, contextualizando também tema e
freguesia. A escolha da Freguesia da Misericórdia
para debater esta temática faz todo o sentido: esta
foi a Freguesia de N.ª S.ª da Encarnação que acolheu
o trabalho do Pe. Abel Varzim e na qual foi Pároco. Ao
longo do seu trabalho de 11 anos à frente da Junta
de Freguesia, Sara Brito contactou directamente com
uma população já idosa que conhecia bem a obra de
Abel Varzim, um homem que “lutou sempre contra
a pobreza e a favor dos trabalhadores e que via os
trabalhadores como pessoas que pensam, sonham e
sofrem”. Abel Varzim é citado como um homem que
cedo identifica como sua primeira missão conhecer a
fundo a sua Freguesia, um Pároco que nas próprias
palavras cedo se apercebe: “ser Pároco no B.º Alto é
ter entre as ovelhas centenas de prostitutas”. Sara
Brito prossegue na descrição do homem que nesta
mesma freguesia foi responsável pelos primeiros
esforços de reintegração na comunidade, de
mulheres que se prostituíam e por isso mesmo eram
marginalizadas. Tendo como principio a compaixão,
decidiu trabalhar de perto com mulheres vítimas da
prostituição e desenvolver a sua obra de trabalho em
prol da recuperação destas mulheres.
Segundo Sara Brito, nessa altura o termo “tráfico” não
existia – não se sabia pelo menos da existência de
redes de tráfico – mas muitas à época morriam já de
fome, de tuberculose, das consequências da pobreza
e da sua exploração. Hoje, há no entanto a certeza,
de que “os grandes senhores do crime e do tráfico”
continuam a ter muito poder e influência.
Sara Brito conclui que o Forum escolheu assim este
espaço na Misericórdia para o debate em torno do
Tráfico Humano devido à acção de Abel Varzim neste
território e como reconhecimento da validade do seu
trabalho.
Complementando a intervenção de Sara Brito, José
Gouveia, em nome da Direcção do Forum, relembra que
toda a luta e trabalho de Abel Varzim não está ainda
terminado, não devendo remeter-se a sua acção ao
passado – a problemática da prostituição e do tráfico
humano são hoje uma dura realidade. Apresentando
o Forum, José Gouveia refere que foi precisamente
esta constatação da existência e continuidade de
muitas problemáticas impeditivas de igualdade entre
cidadãos e de maior justiça social que deu origem ao
Forum e à actualização do trabalho de Abel Varzim.
pág 4
Intervenção
da Irmã Júlia Barroso
No uso da palavra a Irmã Júlia Barroso
referiu o trabalho do CAVITP, tal como o de
Abel Varzim, inspira-se na figura de Jesus
Cristo. – É Ele que se encontra no cerne da
acção destes seguidores. “Jesus Cristo foi um
profeta que não teve medo de denunciar, de
ser forte, de tomar posições difíceis”, numa
referência à imagem em que Jesus expulsa
os vendilhões do Templo (Mc 11: 15-19).
Prossegue dando como exemplo o Papa
Francisco – um homem capaz de se insurgir e
defender os mais desfavorecidos tendo uma
posição firme, por exemplo, relativamente
à proteção dos imigrantes ilegais – “O Papa
pergunta-nos onde está o teu irmão? Onde
está a tua irmã?” O Papa Francisco recordanos que “A globalização da indiferença tirounos a capacidade de chorar.”
Foi descrita a grande actividade do Papa
Francisco em prol desta temática – tendo
criado um plano de trabalho do qual fizeram
parte: um grupo de trabalho e discussão
sobre o tema em Novembro de 2013, uma
Conferência Internacional contra o Tráfico de
Pessoas em 2014 e a criação de uma Rede a Global Freedom Network que surge de um
acordo entre os principais líderes religiosos.
A Irmã Júlia partilhou então com a plateia um caso. Uma jovem
de 16 anos torna-se amiga de outra jovem da mesma idade. Certo
dia a primeira jovem é raptada, por intermédio da recente amiga,
supostamente já da sua confiança. A mãe da rapariga em questão,
conseguiu, em menos de 24h, localizar a filha, numa pensão em
Lisboa - na qual já tinha sido abusada, estando já disfarçada à
força com o cabelo pintado, pronta para seguir para Espanha onde
se tornaria mais uma vítima de tráfico humano, neste caso para
exploração sexual
pág 5
promovendo sessões de trabalho e discussão bem
como o estudo de informação e dados recentes sobre
o tema. Para além desta dinâmica de encontros,
a Comissão promove também o contato com o
terreno, tendo ligação às equipas de rua, das Irmãs
Oblatas e com o CEPAC (Centro Padre Alves Correia).
A Comissão organiza ainda com regularidade
outras ações de sensibilização e informação em:
paróquias, escolas, grupos de jovens, escuteiros,
seminários, congressos, integrando o Secretariado
Nacional para as Migrações e a Semana da Pastoral
Social.
A Irmã passou a apresentar em maior pormenor,
o trabalho da CAVITP – uma Comissão que integra
uma Rede Internacional chamada Talihta Kum (Rede
Internacional da Vida Consagrada contra o Tráfico
de Pessoas). Esta rede nasce em 2004, em parceria
com a OIM e tem como objetivo geral: “partilhar e
optimizar os recursos que a Vida Religiosa possui,
a fim de favorecer intervenções: na prevenção;
na proteção/assistência; na sensibilização e
na denúncia do tráfico de pessoas. A rede está
presente em todos os continentes, tendo um vasto
campo de actuação fortalecido pela facilidade de
comunicação entre as várias a e diversificadas
organizações dedicadas à vida consagrada, já que
estas organizações estão por vocação junto dos
mais vulneráveis.
A Comissão, que conta com a participação de
12 religiosas e uma leiga, reúne mensalmente,
Intervenção da Irmã Rosilene Linares
Ou iniciar a sua intervenção, a
Irmã Rosilene esclareceu que não
sendo académica, trabalha de
perto com este tema, tentando
ser uma especialista em “escutar
a realidade”. Introduziu alguns
dados do tráfico de pessoas – o
tráfico que é hoje “a moderna forma
de escravidão”. O tráfico humano
tem como grande objectivo a
exploração e obtenção de lucros a
partir do aprisionamento humano.
Mas como ocorre esta exploração?
Ela pode assumir diversas formas
de entre: a prostituição ou outras
formas de exploração sexual,
casamentos forçados, trabalho
forçado, mendicidade, remoção
de órgãos, adopção ilegal,
participação em conflitos armados
etc. Em todas as suas formas a
repercussão é sempre traumática
do ponto de vista físico ou
psicológico, para qualquer vítima.
Uma
questão
bastante
importante e reforçada pela
Irmã Rosilene, tem a ver com o
consentimento da vítima e como
o mesmo deve ser encarado
como irrelevante. É frequente o
argumento justificativo de que
as próprias vitimas deram o seu
consentimento perante a situação
de exploração. Para a Irmã, no
entanto, “nenhum ser humano a
quem se explique que irá ter 50
relações sexuais diárias e que
viverá sob fortes restrições à
sua liberdade individual, poderá
consentir
este
tratamento.
Estas pessoas dizem que sim à
Europa e a uma vida com novas
possibilidades - mas não dizem
que sim à exploração.”
Portugal foi visto frequentemente
como um país de transição, no
entanto, actualmente, sabe-se que
Portugal é um país de origem mas
também um país de chegada, onde
permanecem pessoas traficadas.
O Tráfico de Pessoas acontece
em grande parte dos países do
Mundo: dentro de um mesmo país,
entre países fronteiriços e entre
continentes, sendo um fenómeno
com múltiplas rotas e direcções.
Este fenómeno passa por várias
fases, todas elas fundamentais
para a concretização de crime.
A primeira é a fase do aliciamento,
na qual os traficantes utilizam
métodos
fraudulentos
e
enganosos, para captar a atenção
das futuras vítimas, tais como:
pág 6
anúncios em meios impressos,
contactos por internet / chat,
referências de familiares ou
conhecidos
(aproximando-se
frequentemente das famílias das
vítimas e estabelecendo relações
de confiança).
A segunda fase é a fase de
transporte das vítimas – pode
ser um transporte directo ou com
várias escalas. Em cada escala há
um membro da rede com a função
de receber e despachar a vítima.
Os documentos de viagem e
identidade, podem ser oficiais ou
falsos.
Os números dizem-nos que na
Europa anualmente são traficadas
entre 500.000 a 800.000 mil
pessoas todos os anos. A maioria
são mulheres e meninas forçadas
a entrar em redes de prostituição.
A terceira fase á fase da exploração
e aprisionamento, as vítimas
estão impossibilitadas de pagar
as despesas e condicionadas pelo
pagamento da dívida adquirida,
iniciando assim uma relação de
dependência económica com o
seu traficante.
“Mas qual é então a magnitude do problema?” A ONU estima
que 2,4 milhões de pessoas sejam traficadas por ano. Uma
actividade altamente lucrativa que rende 32 bilhões de
dólares. Esta é a 3.ª actividade ilegal mais lucrativa, estando
atrás apenas do tráfico de armas e drogas.
Quanto à situação especifica portuguesa, uma das
instituições de referência com intenso trabalho de
investigação sobre a temática - o Instituto de Estudos
Estratégicos Internacionais, estima que o número de
vitimas portuguesas se situe entre 250 e 270 vitimas por
ano. O continente onde ainda hoje se sinaliza maior número
de vitimas continua a ser África – abrangendo 44% da
totalidade das vitimas.
Também o Observatório do Tráfico de Seres Humanos nos
apresenta dados muito recentes, de 2013, que espelham
a dimensão do problema a nível nacional: em 2013
foram sinalizadas 308 presumíveis vítimas de Tráfico de
Seres Humanos - 299 cidadãos nacionais e estrangeiros
sinalizados em Portugal (49 menores e 250 adultos) e 9
cidadãos nacionais (adultos) sinalizados no estrangeiro.
Estes estudos, apesar de significativos, não revelam no
entanto a dimensão do problema no seu todo, pois como
já referido é extremamente difícil que as vítimas admitam
que estão a ser exploradas, contribuindo assim para a
invisibilidade do problema.
A Irmã Rosilene alertou para a necessidade de todos os
cidadãos estarem atentos à realidade que os rodeia, pois
existem inúmeros casos de tráfico em situações e contextos
inesperados.
pág 7
deste número de
desempregados,
uma
percentagem
de 60% não
beneficia de
proteção social
Intervenção de Deolinda Machado
“...eliminar a pobreza,
investir na criação de
postos de trabalho
dignos bem como reforçar
a protecção social e o
papel do Estado enquanto
agente protector dos mais
desfavorecidos.”
Deolinda Machado da CGTP – IN iniciou a sua intervenção
apresentando uma notícia que referia a situação de
vulnerabilidade a que qualquer um poderá estar sujeito,
se ficar sem rendimentos. “Somos, no entanto uma
comunidade humana”. Estes casos que podem acontecer
a qualquer pessoa devem ser prevenidos pela sociedade.
“As organizações criminosas procuram presas fáceis”
- Deolinda faz referência à interligação entre tráfico e
prostituição que andam de mãos dadas – são crimes que
atingem as pessoas quando estão em situação de pobreza
e fragilidade social. Estas práticas são incompatíveis
com a dignidade da pessoa humana e com os valores
expressos no Evangelho.
Na perspectiva da oradora, tornar a prostituição um
trabalho digno não é o caminho a seguir. A prostituição
não é nem pode ser considerada, uma actividade laboral já
que esta traduz uma profunda mercantilização da pessoa
humana. As pessoas só se vêem obrigadas a recorrer à
prostituição devido ao agravamento das suas condições
sociais e perante cenários de pobreza, nos quais os mais
frágeis e vulneráveis encontram na prostituição uma via
possível. É fundamental trabalhar sobre as causas desta
problemática – eliminar a pobreza, investir na criação de
postos de trabalho dignos bem como reforçar a protecção
social e o papel do Estado enquanto agente protector dos
mais desfavorecidos.
“Calcula-se que o desemprego real possa andar em
torno de 20% - deste número de desempregados, uma
percentagem de 60% não beneficia de proteção social – não
podemos aceitar que haja pessoas na nossa comunidade
humana que não tenham qualquer rendimento que lhes
permita viver.”
Deolinda Machado valoriza o trabalho das organizações
que conseguem colmatar através da sua actividade na área
social um conjunto de problemas – através da prestação
de assistência e da distribuição de comida. No entanto,
considera que é importante trabalhar directamente sobre
as causas dos problemas. “Padre Abel Varzim referia que
o operário tem de se libertar” também o Papa Francisco
faz referência a consequências desta Economia “Esta
Economia que mata”.
Para a oradora, as consequências das políticas económicas
que têm sido implementadas são de maior pobreza e
maior fome sendo imperativo acabar com a emigração
forçada e com a precariedade na vida laboral que tem
cada vez mais acabado com os contratos colectivos de
trabalho, colocando o trabalhador em situação cada vez
mais individualizada retirando-lhe assim a sua força.
A realidade da prostituição vive hoje “redes altamente
sofisticadas”.
A possibilidade de legalização da prostituição seria
sinónimo da “legalização do proxenetismo” – como
acontece em vários países como por exemplo na Alemanha.
Esta via, para Deolinda Machado não pode ser uma via
válida para a captação de impostos por parte do Estado.
A realidade hoje é também de “falsos contratos de
trabalho” nesta área – em muitos bares e casas de
alterne, as trabalhadoras apresentam contratos de
trabalho como “animadoras culturais”, uma função
aparentemente compatível com o local da actividade
laboral mas que esconde inúmeros casos de prostituição.
Uma das mais graves consequências da prostituição,
e também do tráfico, é que as pessoas em questão
vêm frequentemente de contextos destruturados, de
gravidezes precoces, assumindo para si, frequentemente,
a indignidade dos actos e um sentimento de culpa que
não lhes permite a reintegração social.
O que se pode então fazer? Existem medidas prementes
segundo Deolinda Machado que deverão ser tomadas:
Apostar na Educação Sexual – para uma sexualidade
responsável, ligada ao afecto, influenciar as politicas de
modo a influenciar o quotidiano; apostar na prevenção
junto das populações; criar mecanismos para o combate à
toxicodependência; trabalhar em prol de uma Legislação
que possa punir severamente o proxenetismo.
É preciso assumir de frente esta temática que “não nos
pode envergonhar.”
A terminar, Deolinda Machado reforçou ainda, uma
mensagem fundamental, a importância do papel
que cada cidadão poderá ter no seu quotidiano “nas
catequeses, nas universidades, nos locais de trabalho,
nos sindicatos, onde quer que seja”, na identificação e
na luta contra as injustiças e no prolongamento da obra
do Pe. Abel Varzim que sempre se bateu pelo trabalho
digno e pela protecção aos mais desfavorecidos.
pág9
“Calcula-se que o
desemprego real
possa andar em
torno de 20% deste número de
desempregados,
uma percentagem
de 60% não beneficia
de proteção social
– não podemos
aceitar que haja
pessoas na nossa
comunidade
humana que não
tenham qualquer
rendimento que
lhes permita viver.”
Intervenção de Carla Madeira
Presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia.
Carla Madeira referiu que para a Junta de Freguesia é uma honra ter
sido escolhido este local para realização deste evento. Relembrou
que neste dia e neste local, há precisamente um ano que o novo
executivo da Junta de Freguesia tomou posse. As Causas do Pe. Abel
Varzim continuam hoje ainda a ser muito nobres e actuais. “Nesta
sala onde nos encontramos foram assumidos vários compromissos
há um ano atrás” – um dos compromissos que referiu foi o trabalho
de intervenção social nesta Freguesia. “É muito importante que
as Juntas possam colmatar alguns efeitos da crise, as Juntas são
órgãos de proximidade que podem apoiar as necessidades mais
imediatas da população.”
Para Carla Madeira o Bairro Alto não é já o que era na época do Pe.
Abel Varzim – mas a prostituição continua a existir de forma intensa
na zona de São Paulo. Esta é uma área onde a Junta ter tido pouca
capacidade de intervenção. Mas é seu objectivo o estabelecimento
de Parcerias e Protocolos com Organizações que possam trabalhar
com a Junta e permitam uma resposta integrada neste território.
pág 10
A Presidente
aproveitou o momento
também para fazer
uma homenagem e
referência ao trabalho
de Sara Brito que
deixou a Presidência
da Junta de Freguesia
da Encarnação (Bairro
Alto) há 9 anos atrás.
“Ainda hoje as pessoas
da freguesia falam de
Sara Brito com enorme
carinho, como se
tivesse deixado de ser
Presidente há pouco
tempo”. Para Carla
Madeira, a ex-autarca é
uma grande referência
de trabalho e de
actuação política.
CONTEXTUALIZAÇÃO
DA TEMÁTICA
O QUE É O TRÁFICO HUMANO?
O tráfico humano, independentemente de
associado a relações de dominação por via
cultural, hierárquica ou familiar constitui
uma das violações mais graves dos direitos
humanos e da liberdade individual. Segundo a
definição das Nações Unidas, o tráfico humano
consiste no: "recrutamento, transporte,
transferência, abrigo ou acolhimento de
pessoas, por meio de ameaça ou uso da força
ou outras formas de coerção, de rapto, de
fraude, de engano, do abuso de poder ou de
uma posição de vulnerabilidade ou de dar
ou receber pagamentos ou benefícios para
obter o consentimento para uma pessoa ter
controlo sobre outra pessoa, para o propósito
de exploração".
ALGUNS NÚMEROS
(segundo dados da organização internacional Global Freedom Center)
• Estimativa do número de casos de tráfico humano no mundo situa-se entre os 20 e os 30 milhões de seres
humanos nesta situação.
• De entre milhões apenas 44.758 foram identificados em 2013 - menos de 1%
• A OIT estima que 68% são reféns de trabalho forçado, 22% vítimas de exploração sexual e 10%
vitimas de trabalho forçado pelo próprio Estado.
• Em 2013, o número de condenações de traficantes aumentou ligeiramente de 4.746 para 5.776.
• Há mais pessoas a serem traficadas para fins laborais do que para fins de prostituição, no entanto das
5.576 condenações, 5.306 correspondiam a traficantes que operavam no meio da prostituição e apenas 470
operavam noutras áreas de trabalho forçado.
• A OIT estima que mulheres e raparigas correspondam a 44% de todas as vítimas de trabalho forçado
e 98% dos casos de tráfico para fins sexuais enquanto que os homens e rapazes constituem os restantes 56%
em trabalho forçado e 2% para fins sexuais.
• Ainda segundo a OIT 74% deste total de vítimas são adultos e 26% crianças abaixo dos 18 anos de
idade.
• Mais de 140 países criminalizam todas as formas de tráfico humano.
Recursos Úteis e Fontes de Informação:
. Half the Sky Movement
. Oikos – Cooperação e Desenvolvimento – Dossier Tráfico Humano
. Global Freedom Center
. Global Freedom Network
. Organização Internacional do Trabalho
pág Now”
11
. Campanha “End Slavery
PROCISSÃO DOS PASSOS
Extratos do livro «PROCISSÃO dos PASSOS», da autoria do Pe. Abel
Varzim, relato da sua experiencia no Bairro Alto, na Lisboa dos anos
50, e não só...
« Acaba de passar a Procissão dos Passos. A imagem
de Cristo, em riquíssimo andor, vergava ao peso da
Cruz. Ia, noutro andor, a imagem das Dores.
De um lado e doutro do caminho, filas de
homens, vestindo capas negras, conduziam na mão
lanternas acesas. Grupos de crianças, vestidas a rigor,
figuravam os passos da Paixão. Seguia, depois, o Pálio.
Debaixo dele, três sacerdotes de olhos fitos no chão.
Por fim, marcando o passo dolente do cortejo, uma
banda de música.
Acompanhava a Procissão muito povo,
compadecido, devoto, indiferente ao (ou?) curioso.
Rezavam uns, olhavam outros, comentavam alguns,
sorriam uns tantos.
Não gostei da Procissão!
[... / ...]
A Paixão de Cristo continua ainda e será Paixão
até ao fim dos tempos.
[... / ...]
No entanto, ela continua sem cessar na carne,
na alma e na miséria infinita dos homens. Basta abrir
os olhos para ver – se o cristão deseja ver – na face
dorida da Humanidade a Face do Senhor.
[... / ...]
Na pequenina parcela da Procissão dos Passos que,
todos os dias, passava à minha porta, incorporou-se,
um dia (em 1946), uma prostituta.
Que viria fazer ali? Que parte poderia ter com
Cristo? Naquele rosto macerado pelo vício, naqueles
traços profundos de pecado, poderia esconder-se,
desfigurado embora, o próprio Cristo? Ou, ao contrário,
viria flagelar, como carrasco, o corpo de Jesus? Não
foi precisamente o pecado que O crucificou? Se a
Paixão de Cristo continua ainda, é porque continuam
também os algozes. Sem verdugos, não há Paixão. Nem
tampouco procissão dos Passos!…
Mas ela estava ali, imagem de amargura e de
tristeza, olhos fixos no chão, como se rastejasse a
própria alma na lama do seu corpo.
Todos sabem do Evangelho, que o Senhor tinha
pena delas. Basta ler a cena do banquete, em casa de
Simão:
[... / ...]
pág 12
Passei, portanto, em revista todos os dadores de
trabalho que me pareceram mais católicos, e que,
por isso mesmo, poderiam e certamente desejariam
aliviar, neste ponto, a Paixão de Cristo.
Procurei-os a todos, um por um. E de todos recebi
idêntica resposta:
- Uma prostituta?!!
- Mas ela quer regenerar-se …
-Impossível. Admitir uma mulher dessas na
minha fábrica, bem vê… não pode ser!
- Mas… se não lhe deitarmos a mão … como
poderá salvar-se?
- Compreendo-lhe a intenção. Mas não sabe o
que faz uma maçã podre num cesto de maçãs?…
Não posso nem devo, admiti-la. Desculpe mas não
posso!
Já sabia, por dolorosa experiência, como é
difícil, senão impossível, obter trabalho para um
qualquer condenado. O “Registo Criminal” agarra-selhes à pele como indelével tatuagem. Pode a falta ter
sido leve ou fruto de....»
pág 13
Reedição em
fevereiro de 2014,
da Editora Cáritas,
integrada nas
Comemorações do
50.º Aniversário
da Morte de Abel
Varzim, promovidas
pelo Fórum Abel
Varzim,
LOC/MTC - Movimento
de Trabalhadores
Cristãos e Centro
Social Cultural e
Recreativo Abel
Varzim.
www.forumavarzim.org.pt
Download

Ler/descarregar Revista