n. 149, 23 de março de 2010. Ano IV.
"os policiais da mídia, assim como seus precursores televangélicos, preparam-nos
para o advento, a vinda final ou o Êxtase do estado policial" (hakim bey).
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... ela é uma criança. Há quatro anos está internada num hospital psiquiátrico. A justificativa é que ela não é
capaz de desenvolver convívio social. Entre laudos, pedidos, documentos e uma burocracia sem limites, ela é
mantida ali por decisão judicial, apesar dos médicos dizerem que seu quadro não é passível de internação e
que, portanto, ela deveria ir para um abrigo. Ela não é mais sequer um número, é o dejeto de seus pais, da
instituição, da política pública e da própria estatística.
mercado, ciência e disputa farmacológica
Um recente estudo, levado a cabo por um grupo de cientistas nos EUA, publicado há poucos dias na Revista
Science anuncia “a descoberta do mecanismo celular que afeta a capacidade de aprendizado na puberdade e
mostrou como uma droga é capaz de reverter o processo.” O experimento foi testado em camundongos teens
submetidos a tarefas de aprendizado nas quais deveriam evitar pisar em uma área da gaiola que emitia
choques elétricos. Diante da persistência dos teens em pisar fora dos limites adequados, os cientistas
aplicaram a nova droga que age no hipocampo do cérebro, designada como a região responsável pelo
aprendizado e a memória. Por intermédio do que eles denominam de fechadura bioquímica conseguiram
reverter o processo. Este mesmo grupo de cientistas critica o uso de ritalina em crianças e jovens, por sua
vez, recomenda o uso da nova droga. Explicita-se, assim, a disputa negociada no mercado de medicamentos
para a obtenção de obediência química. Escancara-se o óbvio: não param de avançar no cérebro da moçada.
drogas santas, medicinais, ilegais...
A cada drama, a mídia repõe a discussão sobre a legalização das drogas. São convocados a emitir pareceres
os políticos e os especialistas, minimamente sensíveis aos traumas. Argumentam, favoravelmente, pela
discriminalização, legalização com controle severo, condescendências com religião e reescrevem a tese da
prevenção geral atualizada para equacionar o uso constante de drogas ilegais pelos chamados
consumidores. Reiteram, desta maneira, as prescrições para o tratamento, associadas ao falacioso discurso
da cura. Articulam medicina e administração da desgraça, a demonização das drogas santas e consolidam o
discurso geral a respeito da tolerância com responsabilidade social.
liberação das drogas?
Evitam o tráfico. Para este acreditam em programas de policiamento ostensivo, colaboração dos moradores
de favelas, distribuição de cartilhas de direitos, presença de ONGs comprometidas... Enquanto isso o Estado,
por sua vez, governa implementando o PAC. Sobrepõe-se ao mapeamento do tráfico um novo mapa de
controle interno realizado pelas próprias comunidades. Articulam-se saberes científicos, policiais e de controle
como política de contenção ao tráfico. Fogem da luta por uma decisão internacional a respeito do fim do
tráfico com liberação das drogas. Esta guinada problematizaria os interesses das empresas: bélica,
farmacêutica, assistencial, governamental, diplomática. Mas, para elas existirem e prosperarem dependem de
um lucrativo mercado do tráfico!
os lances de dados podem não abolir o ocaso, nem o atraso.
Um artista libertário, morto há trinta anos, conta com uma retrospectiva sob a égide de um dos bancos que
mais lucram no país. Sexo, drogas e demais aspectos perturbadores de sua obra são neutralizados com
alertas de faixa etária, exposição em espaços discretos, quando expostos. Contudo, não há perigo de
diluição; tais trabalhos, feitos com a força da invenção, acabam encontrando eco em quem deles precisa para
intensificar a vida e mudar atitudes. Por outro lado, a consagração do nome compensa o risco do patrocinador
em aparecer ligado a comportamentos condenados. Captura-se o nome de um lado e, de outro, escapam
intensidades vivas. Os dados são lançados. Mas, até que ponto, os patrocínios e verbas às atividades
culturais não ‘viciam’ os dados para que estes mostrem sempre as mesmas séries, ou a do gênio “datado”, na
qual ninguém comum poderá ousar se inspirar, ou a do artista promissor, cheio das influências e modas
inofensivas?
"os privilegiados têm as polícias, as magistraturas, os exércitos, criados de propósito
para defendê-los, e para perseguir, encarcerar, massacrar os oponentes" (errico
malatesta).
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