1 EDUCAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Aluno: Carlos Augusto Rodrigues de Barros Orientador: Prof. Heitor Bonatto RESUMO Este artigo tem por objetivo investigar a relação entre planejamento e organização financeira versus o nível de endividamento individual, uma vez que a literatura menciona que o endividamento pessoal está ligado à forma como as receitas e despesas são gerenciadas e não com o nível de renda dos indivíduos. A fundamentação teórica deste artigo está organizada da seguinte forma: Primeiramente revisão literária acerca do assunto com o objetivo de verificar o que tem sido discutido sobre o tema finanças pessoal e endividamento. Em seguida, a construção e aplicação de um questionário a uma amostra de 145 estudantes da Escola Superior de Administração, Direito e Economia – ESADE – da cidade de Porto Alegre, distribuídos em turmas de primeiro, quarto e oitavo semestre, para verificar as diferentes percepções à medida que o acadêmico aprofunda os seus conhecimentos no decorrer do seu curso de graduação. E, posteriormente, a análise dos resultados obtidos, com o intuito de analisar a veracidade da premissa e assim, verificar a necessidade da criação de um curso específico referente ao tema destinado à população alvo do estudo. O estudo constatou que o endividamento financeiro pessoal está diretamente relacionado à falta de fundamentos financeiros, isto é, educação financeira. A partir desta constatação, podemos ter indivíduos com diferentes níveis de renda e da mesma forma estarem endividados, não tendo sido verificado relação entre o semestre do curso e a forma de administração financeira. PALAVRAS-CHAVE: Educação Financeira, Finanças Pessoais, Endividamento Pessoal. 1 INTRODUÇÃO Embora o tema finanças e endividamento pessoal estejam tão presente no cotidiano da população e dado a importância do assunto ao se elaborar um plano orçamentário familiar, abrangendo itens que vão desde a elaboração e manutenção de um sistema de controle de receitas e despesas (podendo este ser um simples caderno de anotações ou até uma planilha eletrônica se valendo de todos os recursos dessa ferramenta), do planejamento das compras, 2 até a escolha das formas de pagamento (à vista ou a prazo) e quando da opção pelo parcelamento a fonte responsável por esse financiamento além dos seus custos e prazos envolvidos. Estas são medidas inicialmente básicas e simples, mas quando adotadas à risca são responsáveis por proporcionar um melhor entendimento das finanças domésticas, e assim possibilitar que ocorra à organização dos membros do grupo familiar com o objetivo de reunirem esforços para a manutenção das contas domésticas no campo positivo, longe do endividamento excessivo e ainda com capacidade de geração de poupança. Com base nessas informações o estudo tem como problema de pesquisa a seguinte indagação: existe alguma relação entre educação financeira e endividamento? Para responder a pergunta, a fundamentação teórica inicia-se pela revisão da literatura sobre o tema com o intuito de verificar o que tem sido abordado sobre o assunto, após passase à aplicação de um questionário a uma amostra de 145 alunos de graduação da Escola Superior de Administração, Direito e Economia – ESADE – de Porto Alegre, com o objetivo geral de investigar a relação entre planejamento e organização financeira versus o grau de endividamento individual do corpo discente da ESADE. Em termos de objetivos específicos o artigo apresenta os seguintes: Analisar o nível de conhecimento dos acadêmicos da ESADE sobre finanças pessoais; Analisar o grau de endividamento dos acadêmicos da ESADE; Verificar a influência do semestre em relação ao nível de conhecimento sobre finanças pessoais e o grau de endividamento dos acadêmicos da ESADE; O artigo justifica-se pela inserção do tema no meio acadêmico, tendo em vista a constatação da literatura dos frágeis fundamentos sobre o tema da população em geral, reforçada pelos dados obtidos com a presente pesquisa. 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA “Finanças é o estudo de como as pessoas alocam recursos escassos ao longo do tempo” (BODIE; MERTON, 2002, p. 32). E uma das razões que torna esse assunto tão relevante, diz respeito aos ensinamentos que serão responsáveis por nortear a administração dos recursos pessoais. O conhecimento do assunto proporcionará subsídios suficientes para que seja feita uma melhor avaliação sobre os diversos tipos de investimentos disponíveis no mercado. Além de ampliar horizontes para o mundo dos negócios, mesmo para aqueles que não pretendam mergulhar a fundo nesse universo, pois o prévio conhecimento de termos, 3 expressões e produtos financeiros o colocará em igualdade de condições quando tiver que lidar com tais assuntos e especialistas de mercado. 2.1 EDUCAÇÃO FINANCEIRA O endividamento pessoal não está diretamente ligado a renda do indivíduo, e sim a forma como ele administra as suas receitas e despesas (CERBASI, 2003). Sendo assim, para Kiyosaki e Lechter (2000), fundamentos financeiros deveriam ser ensinados desde os primeiros anos escolares. Uma vez que este será um assunto que acompanhará qualquer indivíduo ao longo da sua vida. E será um dos fatores preponderantes para aqueles que pretendem gozar de uma saúde financeira equilibrada e tranquila. A estabilização da economia brasileira a partir de 1994 proporcionada pelo Plano Real possibilitou aos brasileiros novos hábitos em relação à forma de consumir, como por exemplo, o planejamento de médio e longo prazo para a aquisição de bens de consumo duráveis, sem ter que se preocupar com a inflação que corroia diariamente os rendimentos da classe trabalhadora (JÚNIOR, 1998). Esta seria uma conquista fabulosa não fosse à inabilidade e a falta de costume do brasileiro em lidar com o próprio planejamento orçamentário (CERBASI, 2004). Como efeito colateral do bom cenário econômico proporcionado pelo Plano Real, o endividamento em excesso e a contração de novos empréstimos para rolar dívidas antigas, acaba por se tornar em uma grande armadilha ao cidadão, o colocando em uma verdadeira bola de neve. Esse fenômeno é facilmente observado ao se verificar os cadastros de órgãos de proteção ao crédito como, por exemplo, Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e SERASA conforme pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) apontando que 21,57% dos consumidores brasileiros estavam inadimplentes há mais de um ano (INFOMONEY, 2010). A reboque da estabilização econômica expandiu as formas como o crédito chega até o grande público, o quadro 1 elenca alguns dos principais e mais populares linhas de crédito disponíveis hoje no mercado. Produto Cheque Especial Crédito Direto ao Consumidor Descrição Limite de crédito atrelado a conta corrente de movimentação. Financiamento concedido para aquisição de bens e serviços, sua maior utilização é para aquisição de veículos e eletrodomésticos. 4 Penhor Exclusivo da Caixa Econômica Federal tendo como garantia jóias de ouro, prata, platina, diamante ou outro objeto de valor. Microcrédito Destinado à população de baixa renda e aos microempreendedores. Empréstimo em Consignação Com desconto das prestações diretamente na folha de pagamento do tomador. Cartão de Crédito Utilizado para aquisição de bens e serviços nos estabelecimentos credenciados. A forma de pagamento pode ser à vista, a prazo ou parcelado. Quadro 1: Produtos Financeiros Adaptado de Fortuna (2008) Uma das consequências da maior oferta de crédito está diretamente ligada aos prazos de financiamentos que se dilatam cada vez mais, alcançando prazos de 60 meses e em alguns casos 72 meses, principalmente na modalidade de CDC (FORTUNA, 2008) e deixando de atender quase que exclusivamente a bens como veículos e eletrodomésticos e passando a abranger itens que até então não eram contemplados, como por exemplo, pacotes de viagens, material de construção e tratamentos de saúde e beleza (MAIS DINHEIRO, 2009). Em meio a esse novo cenário econômico está o público em geral, que em sua grande maioria está desprovido de preparo para lidar com orçamentos, e por consequência lidar com suas próprias finanças de forma salutar e longe de dívidas onerosas, responsáveis por tirar dos trilhos qualquer plano orçamentário. Além de ser tentado a todo instante por inúmeras ofertas e facilidades de crédito por parte das instituições financeiras, que vendem a falsa ilusão de que o mais importante para a contratação de um empréstimo é possuir parcelas que cabem no “bolso” ao invés de ser uma forma saudável e consciente de capitalização, além de esconder por trás dessa artimanha juros elevadíssimos que acabam por comprometer boa parte da renda do trabalhador com o pagamento desses juros (KIYOSAKI; LECHTER, 2000). A organização das finanças pessoais está diretamente ligada a características individuais de organização, persistência e dedicação individual. Para muitos esse se torna um dos pontos mais difíceis do planejamento juntamente com a necessidade de precisar lidar com o monitoramento constate das receitas e despesas, o que inevitavelmente leva a construção de uma planilha eletrônica ou um caderno de anotações, e para muitos é justamente neste ponto que surge um dos maiores obstáculos, e a explicação deste fenômeno decorre da dificuldade individual em lidar com números, tabelas e conceitos básicos de matemática, tendo sua origem nos bancos escolares que ainda não tem por tradição o ensino da educação financeira. (CERBASI, 2004). 5 2.2 ENDIVIDAMENTO Segundo pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) sobre Endividamento e Inadimplência das Famílias Gaúchas no mês de Abril de 2010, mostra que 66% dos entrevistados consideram-se endividados, quando perguntados sobre dívidas ou contas em atraso o percentual passa para 36% e os que não terão condições de pagar é de 7%. Entre os entrevistados, 69,6% afirmam que possuem dívidas que representam uma parcela entre 11% a 50% da renda familiar. De acordo com os dados da pesquisa é possível verificar que 2/3 dos inquiridos possuem dívidas que vão de um décimo a metade da renda do seu grupo familiar e que pouco mais de um 1/3 possuem obrigações em atraso. Essa informação demonstra o despreparo da população em geral em lidar com suas finanças, representando um passivo que acaba por consumir uma grande parcela de seus rendimentos. Para Bodie e Merton, (2002) passivo é um termo equivalente a débito. Esse tipo de composição das dívidas faz com que os recursos disponíveis para outros compromissos como alimentação, educação, lazer e poupança sejam cada vez menor ou em alguns casos até nulo. Desta maneira serão necessários cada vez mais cortes e apertos em outras contas para que se possa fechar o orçamento do mês, que segundo Frezatti (2008, p. 46) “[...] é o plano financeiro, [...] é mais do que uma simples estimativa, pois deve estar baseado no compromisso [...] em termos de metas a serem alcançadas” e desta forma manter o melhor equilíbrio possível entre gastos e receitas, mantendo-se assim, longe das listas de maus pagadores. Em geral, “o consumidor não se vê endividado até o dia em que não pagou a primeira dívida” (INFOMONEY, 2010), até que se atinja este nível ocorre o empilhamento de dívidas, e de novas dívidas para pagar outras mais antigas. Como mostra a pesquisa da CNC, que o número de famílias usando o cheque especial para o pagamento de outras dívidas é de 30,1% da amostragem. Sendo o cheque especial uma das fontes de financiamento mais caras do mercado, com juros a níveis de 135,53% ao ano como mostrou um estudo realizado em Abril de 2010 pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (ANEFAC, 2010). Dívida é o resultado de um empréstimo, e ao final do prazo estipulado deve ser devolvido o principal acrescido de juros, normalmente são realizados pagamentos periódicos ao longo do período de vigência do mesmo. (ROSS; WESTERFIELD; JORDAN, 2009). Enquanto que o endividamento é considerado o somatório do passivo (BOVESPA, 2010). Nos estudos de análise financeira empresarial, lança-se mão de indicadores estatísticos extraídos a partir do seu balanço patrimonial, com a intenção de verificar a saúde das suas finanças. Entre estes indicadores encontram-se os de endividamento, que possibilita avaliar o 6 montante de suas dívidas. Essa comparação é feita relacionando o montante de dívidas existente, captadas a partir de recursos de terceiros em relação aos seus ativos totais (BODIE; MERTON, 2002). Em finanças empresariais, o índice de liquidez corrente é medido ao relacionar-se o total do ativo circulante com o total do passivo circulante, o primeiro é responsável por demonstrar todas as contas que estão em constante giro e que serão convertidas em dinheiro no máximo dentro do próximo exercício social da empresa, enquanto o segundo representa as obrigações que da mesma forma serão liquidadas dentro do próximo exercício social da empresa (ROSS; WESTERFIELD; JORDAN, 2009). Na prática, uma pessoa física não possui balanço patrimonial, então para que se possa analisar o seu grau de endividamento e liquidez é preciso adaptar alguns conceitos para se chegar a tal resultado, como por exemplo, o endividamento poderá ser calculado ao se obter a relação do montante de dívidas frente à receita líquida de cada indivíduo ou do seu grupo familiar, da mesma forma é possível adaptar indicadores para verificar o seu nível de liquidez, para tal é preciso relacionar o total dos seus ativos com o total dos seus passivos. Essa relação permitirá que seja feito no campo individual/pessoal o mesmo que é realizado no meio empresarial. Em linhas gerais, não existe uma regra que defina o nível ideal de dívidas de uma empresa ou de um indivíduo, mas o que pode ser adotado como sendo uma postura de bom senso, diz respeito à manutenção de um equilíbrio entre o capital de terceiros e o patrimônio líquido. Um sinal de alerta seria o crescimento do patrimônio líquido em menor velocidade quando comparado ao capital de terceiros, a ocorrência dessa situação por sucessivos períodos, certamente enfraquecerá a empresa do ponto de vista econômico, podendo inclusive culminar na sua insolvência (FLEURIET; KEHDY; BLANC, 2003). 2.3 BOAS PRÁTICAS DE FINANÇAS PESSOAIS De acordo com Kiyosaki e Lechter (2000, p. 13). [...] a falta de instrução financeira nas escolas que nossos filhos frequentam. Muitos dos jovens de hoje tem cartão de crédito antes de concluir o segundo grau e, todavia, nunca tiveram aulas sobre dinheiro e a maneira de investi-lo, para não falar da compreensão do impacto dos juros compostos sobre os cartões de crédito. Simplesmente, são analfabetos financeiros e, sem o conhecimento de como o dinheiro funciona, eles não estão preparados para enfrentar o mundo que os espera, um mundo que dá mais ênfase à despesa do que à poupança. A não abordagem sobre o tema finanças pessoais nos bancos escolares é apontado pela literatura como sendo um fator fundamental por formar adultos incapazes em lidar com suas próprias finanças. Não fornecendo o preparo necessário para tratar do assunto que estará tão presente na vida de qualquer indivíduo economicamente ativo. Nesta lacuna está localizada 7 uma grande armadilha, isso decorre do fato do não recebimento de orientação financeira quando crianças e jovens, resultando em adultos sem tais habilidades. Para que as receitas e despesas possam ser mensuradas de forma precisa se faz necessário a elaboração de um sistema de monitoramento com tal finalidade. Esse pode ser um simples caderno de anotações ou uma planilha eletrônica, isso depende da disponibilidade, conhecimento e habilidade individual (CERBASI, 2003). A construção da planilha orçamentária deve início pelas receitas. Nesse item devem ser relacionadas todas as entradas de recursos, como por exemplo, salário, férias, décimo terceiro salário, horas extras, aluguéis, pensão e tantos outros quanto existirem. Logo abaixo, devem estar relacionados todas as despesas, essas devem estar divididas em dois grandes grupos, fixas e variáveis. Fixas são todas aquelas despesas que existem independentemente do mês, como por exemplo, aluguel ou prestação da casa própria, mensalidade escolar ou faculdade. Variáveis são as despesas que ocorrem todos os meses, assim como as fixas, porém podem oscilar mês a mês, sendo passíveis de um plano de ação com o intuito de reduzi-las. Exemplo, luz, água telefone, combustível, entre outros. Ainda para Cerbasi (2003) é preciso manter olhar vigilante e atento sobre os pequenos valores, arredondamentos e o descaso pela negociação, pois são nestes itens que se esconde um dos maiores ralos, por onde escorre grande parte dos rendimentos familiar. “Trate suas dívidas como trataria uma arma carregada. [...] é importante saber a diferença entre dívida boa e dívida ruim porque a dívida tinha o poder de nos deixar ricos ou pobres. Da mesma forma que uma arma carregada pode nos proteger ou nos matar” (KIYOSAKI; LECHTER, 2001, p. 197). De acordo com o pensamento dos autores a composição das dívidas tem peso fundamental no sucesso das finanças pessoais. Uma vez que a postura frente elas mostra o quão preparado está o indivíduo a lidar com o seu viés. E de acordo com (FLEURIET; KEHDY; BLANC, 2003) uma dívida quando usada para adquirir bens que incorrerão em juros maiores dos que recebidos em aplicações financeiras, serão responsáveis por pesar no orçamento. Agora, quando a situação é inversa, e os juros recebidos em aplicações financeiras são maiores do que os pagos em financiamentos, ou quando os recursos adquiridos são usados para gerar mais recursos dos que serão desembolsados com o seu custo, a dívida assumida passa a se tornar saudável e inclusive capaz de gerar renda para o seu tomador. Para Kiyosaki e Lechter (2000) a diferença entre pessoas financeiramente bem sucedidas e as não tão bem assim, é que as primeiras passam a vida comprando ativos, enquanto que o segundo grupo passa a vida a adquirir passivos. 8 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A pesquisa caracteriza-se por ser bibliográfica, pois buscou embasamento teórico em obras já publicadas. E descritiva, por ter como finalidade a análise e busca de relação com fatos e fenômenos sem que ocorra a sua respectiva manipulação (CERVO; BERVIAN; SILVA, 2007). A amostra da pesquisa é predominantemente composta por alunos dos cursos de graduação da Escola Superior de Administração, Direito e Economia – ESADE – da cidade de Porto Alegre da sede General Vitorino composta por 145 graduandos. Sendo 45 acadêmicos matriculados no primeiro semestre, 54 no quarto semestre e 46 no oitavo semestre. A segregação por semestre tem o objetivo de averiguar as diferentes percepções sobre o tema, à medida que o aluno aprofunda os seus conhecimentos acadêmicos ao longo da graduação, e se esse fator o influência na administração do seu orçamento. A coleta dos dados correu no mês de junho de 2010, por intermédio de um questionário anônimo composto por 25 perguntas. Das quais 10 são dicotômicas, uma tricotômica e 14 questões fechadas de múltipla escolha, para essas não há um número fixo de alternativas, sendo aceito apenas uma resposta para cada questão, no caso de haver duas ou mais respostas em uma mesma pergunta essa passa a ser considerada nula, sem que haja a invalidação do questionário (MARCONI, 2003). Os questionários foram impressos e entregues diretamente pelo pesquisador aos respondentes, que dispuseram de um espaço de tempo no decorrer das suas respectivas aulas para efetuarem o preenchimento, e desta forma poder efetuar a devolução dos mesmos diretamente para o entrevistador à medida que o finalizavam. Desta maneira obteve-se um retorno de 100% dos questionários. 4 ANÁLISE DOS RESULTADOS A seguir, inicia-se a análise dos resultados coletados a partir da aplicação dos questionários a amostra investigada, composta integralmente pelo corpo discente da ESADE. O mesmo está dividido em três grandes grupos, sendo: grupo I perfil dos respondentes, grupo II educação financeira e grupo III endividamento. 4.1 CARACTERIZAÇÃO DOS RESPONDETES A análise dos respondentes quanto ao grupo I busca mostrar as diferenças de perfil de acordo com o semestre que estão cursando. 9 Do total de 145 respondentes, os jovens entre 18 e 23 anos e 24 a 29 representam mais de 3/4 dos respondentes nos três segmentos da amostra investigada, que é composta por alunos do primeiro, quarto e oitavo semestres, como mostra o gráfico 1. Faixa Etária 1º Sem. 18 a 23 4º Sem. 24 a 29 30 a 35 36 a 41 8º Sem. 42 a 47 Gráfico 1: Faixa Etária Fonte: Autor Quanto ao sexo é possível identificar um leve equilíbrio entre homens e mulheres nos semestres de início e final dos cursos, diferentemente do quarto semestre onde a superioridade feminina é praticamente de dois para um em relação aos homens, conforme o gráfico 2. Sexo 1º Sem. 4º Sem. Feminino 8º Sem. Masculino Gráfico 2: Sexo Fonte: Autor Quando é analisado o estado civil da amostra é possível ver que a grande maioria dos acadêmicos se declarou solteiros ou casados/união estável, correspondendo a praticamente 90% das respostas nos três grupos investigados, isso pode ser explicado ao se constatar o perfil jovem dos alunos que na sua grande maioria possuem idade entre 18 e 29 anos, conforme o gráfico 3. 10 Estado Civil 1º Sem. Solteiro 4º Sem. Casado/União Estável 8º Sem. Separado/Divorciado Viúvo Gráfico 3: Estado Civil Fonte: Autor Quando inquiridos sobre o número de moradores na residência as respostas foram às seguintes, e mais uma vez pode-se notar a influência da faixa etária ao perceber a forte concentração de respostas apontando para dois, três e quatro pessoas, esse fato pode ser decorrente da presença dos pais e irmãos de acordo com o grande número de solteiros, ou do cônjuge no casso de residirem com mais uma pessoa, conforme o gráfico 4. Quantidade de Moradores na Residência 1º Sem. 1 2 3 4 4º Sem. 5 Mais de 5 8º Sem. Não Resp. Gráfico 4: Quantidade de Moradores na Residência Fonte: Autor A ampla maioria dos estudantes está inserida no mercado de trabalho, tendo os percentuais se comportado de maneira muito semelhante nos três segmentos da amostra, esse fato pode estar diretamente relacionado ao fato de cursarem uma universidade particular, e terem que custear integralmente ou parte das despesas do curso, de acordo com o gráfico 5. 11 Exerce Atividade Remunerada 1º Sem. 4º Sem. Sim 8º Sem. Não Gráfico 5: Exerce Atividade Remunerada Fonte: Autor Quanto à remuneração mensal líquida dos entrevistados é possível perceber a tendência no aumento dos ganhos ao passar dos semestres, enquanto que no primeiro o maior volume de respostas está concentrado na faixa entre R$ 501,00 e R$ 1.000,00 correspondendo a 37,78% do total, no quarto semestre nota-se um forte aumento dos declarantes para a faixa de R$ 1.001,00 a R$ 1.500,00 quando comparados aos do primeiro semestre, enquanto que no oitavo percebe-se um equilíbrio entre todas as faixas de respostas, mas com uma leve vantagem para a faixa de R$ 1.501,00 a R$ 2.000,00 a exceção da menor faixa de zero a R$ 500,00 que apresentou o percentual de 4,35% das respostas, conforme o gráfico 6. Renda Mensal Líquida 1º Sem. De R$ 0,00 a R$ 500,00 De R$ 1.501,00 a R$ 2.000,00 4º Sem. De R$ 501,00 a R$ 1.000,00 Acima de R$ 2.001,00 8º Sem. De R$ 1.001,00 a R$ 1.500,00 Não Resp. Gráfico 6: Renda Mensal Líquida Fonte: Autor Os próximos itens a serem analisados são referentes ao grupo II destinado a verificar o nível de educação financeira. Quando indagados sobre os motivos que os levam a efetuar uma compra ocorre praticamente uma unanimidade de respostas entre os três diferentes públicos respondentes, apontando a satisfação de uma necessidade como fator que os levam às compras, como mostra o gráfico 7. 12 Quando compra pensa em? 1º Sem. Aproveitar oportunidade 4º Sem. Satisfazer necessidade 8º Sem. Influência do Marketing Status Outros Gráfico 7: Quando compra pensa em? Fonte: Autor Ao analisar o que leva os respondentes as compras, a diferença de semestres mostrou quase nenhuma influência nos percentuais de respostas ao ter a grande maioria afirmado que a necessidade é o fator responsável por elas irem às compras. O planejamento foi o segundo ponto mais apontado, mostrando que estratégias comerciais como, promoções, liquidações e crédito pré-aprovado mostrou pouca efetividade no grupo pertencente à amostra, conforme o gráfico 8 abaixo. Por que você compra? Planejou 1º Sem. Necessidade Promoção 4º Sem. Liquidação 8º Sem. Crédito pré-aprovado Outros Não Resp Gráfico 8: Por que você compra? Fonte: Autor O parcelamento de compras é uma prática comum ao se olhar para os percentuais de respostas segmentadas por semestres, correspondendo por praticamente três quartos das opiniões coletadas nos três grupos, de acordo com o gráfico 9 a seguir. 13 Você possui compras parceladas? 1º Sem. 4º Sem. Sim 8º Sem. Não Gráfico 9: Você possui compras parceladas? Fonte: Autor Novamente os respondentes demonstraram comportamento semelhante ao afirmarem que as suas receitas são compostas somente pelos seus ganhos, não se valendo de artifícios como o limite do cheque especial, cartão de crédito ou outras linhas de crédito como forma de aumentar o seu poder compra, de acordo com o gráfico 10. Você usa cheque especial, cartão de crédito ou outras linhas de crédito como forma de aumentar a sua renda mensal? 1º Sem. Sim 4º Sem. Não Não Resp. 8º Sem. Gráfico 10: Você usa cheque especial, cartão de crédito ou outras linhas de crédito como forma de aumentar a sua renda mensal? Fonte: Autor Mais de três quartos dos respondentes afirmaram positivamente para a realização de controle sobre os seus gastos mensais, não havendo alterações significativas ao comparar os semestres investigados, como mostra o gráfico 11. Você costuma manter controle sobre os seus gastos mensais? 1º Sem. Sim 4º Sem. Não 8º Sem. Não Resp. 14 Gráfico 11: Você costuma manter controle sobre os seus gastos mensais? Fonte: Autor Ao se buscar respostas para entender os métodos utilizados para a manutenção do controle orçamentário verificou-se que praticamente um mínimo de 50% dos respondentes nos três segmentos investigados utiliza uma planilha eletrônica ou um caderno de anotações. Porém, uma parcela significante próxima a 17% não realiza controle algum e os demais usam métodos não muito eficazes, como, extrato bancário, fatura do cartão de crédito, comprovante do cartão de débito ou outros, como mostra o gráfico 12. Como você realiza o acompanhamento dos seus gastos mensais? 1º Sem. Não realizo Extrato Bancário Outros 4º Sem. Caderno de Anotações Fatura Cartão de Crédito Não Resp. 8º Sem. Planilha Eletrônica Comprovante Cartão de Débito Gráfico 12: Como você realiza o acompanhamento dos seus gastos mensais? Fonte: Autor Quanto à realização de investimentos os respondentes apresentaram comportamentos levemente distintos entre o primeiro e quarto semestre, tendo imperado no grande grupo a não realização de investimentos, em parte pode ser explicado pelo nível de rendimentos pessoais auferido por esses dois grupos. Diferentemente do oitavo semestre que concentra a maior faixa de renda e investimentos de toda a amostra, como mostrado pelo gráfico 13. Você faz investimentos? 1º Sem. Sim 4º Sem. Não Gráfico 13: Você faz investimentos? Fonte: Autor Não Resp. 8º Sem. 15 Ao serem perguntados sobre a destinação da renda extra obtida por intermédio de férias, 13º salário, P.L.R. (Participação nos Lucros e Resultados) ou outros tipos de bonificação as respostas tendem a demonstrar um leve padrão de comportamento ao passar dos semestres, o que pode ser um indicativo da bagagem adquirida antes do ingresso na universidade, tendo como exceção à utilização no período de férias que mostra um crescente muito forte ao passar dos semestres, podendo ser interpretado devido ao fato do ingresso no mercado de trabalho ocorrer muito próximo ao início do curso superior, coincidindo o período de gozo de férias com o quarto semestre acadêmico. Outro item relevante desse grupo de respostas corresponde ao elevado percentual de inquiridos que afirma utilizar tais recursos extras para a quitação de compromissos em atraso e a falta de tendência clara para a diminuição desses níveis com o avanço do curso e a consequente evolução da renda, de acordo com o gráfico 14. Qual a finalidade você costuma dar para o seu 13º salário, férias, P.L.R. ou outro tipo de bonificação? 1º Sem. 4º Sem. 8º Sem. Investe Quita prestações/obrigações em atraso Antecipa o pagamento de prestações/obrigações Utiliza no período de férias Outros Não Resp. Gráfico 14: Qual a finalidade você costuma dar para o seu 13º salário, férias, P.L.R. ou outros tipo de bonificação trabalhista? Fonte: Autor Ao terem que responder sobre o tamanho dos seus investimentos, utilizando o salário mínimo nacional de R$ 510,00 como referência, obteve-se um ponto de divergência ao ter a alternativa nenhum como a mais respondida nos três segmentos inquiridos, mantendo-se acima de um terço, uma vez que igual parcela afirmou realizar investimentos. A faixa de respostas de investimentos entre 1 e 3 salários mínimos foi a que recebeu o segundo maior volume de respostas. As demais apresentaram percentuais pouco expressivos, como é mostrado pelo gráfico 15. 16 Atualmente seus investimentos representam quantos salários mínimos nacional de R$ 510,00? 1º Sem. Nenhum. 10 a 12 salários 4º Sem. 1 a 3 salários. 13 ou mais salários. 4 a 6 salários Não Resp. 8º Sem. 7 a 9 salários. Gráfico 15: Atualmente seus investimentos representam quantos salários mínimos nacional de R$ 510,00? Fonte: Autor Ao terem que responder por quanto tempo as suas atuais economias é capaz de financiar o atual padrão de vida, verifica-se um percentual de apenas 2,22% dos respondentes do primeiro semestre afirmando não possuir economias suficientes para se autofinanciar. Isso pode decorrer de ser o semestre com maior concentração de jovens na faixa de 18 a 23 anos de idade, que em geral ainda não assumiram todas as despesas de morarem sozinhos, fazendo com que eles possam constituir poupança em maior velocidade quando comparados aos demais, como é possível verificar que mais de 81% desse mesmo grupo possui economias que durariam de 1 a 9 meses. À medida que evoluem os semestres da amostra, o percentual de questionados incapazes de financiar o atual padrão de vida com as suas economias fica superior a um quarto do total. O ponto a ser observado com maior atenção é referente ao número de respondentes que conseguiriam se manter por mais de um ano utilizando apenas as próprias economias que representa 12,96% e 15,22% para o quarto e oitavo semestre, respectivamente, de acordo com o gráfico 16. No caso de perda total da sua fonte de rendimentos, por quantos meses você conseguiria manter o atual padrão de vida utilizando apenas as suas economias? 1º Sem. Nenhum. De 10 a 12 meses. 4º Sem. De 1 a 3 meses. Mais de 12 meses. De 4 a 6 meses. Não Resp. 8º Sem. De 7 a 9 meses. Gráfico 16: No caso de perda total da sua fonte de rendimentos, por quantos meses você conseguiria manter o atual padrão de vida utilizando apenas as suas economias? 17 Fonte: Autor A partir deste ponto são apresentadas as questões e suas respectivas respostas para o grupo III de perguntas, relacionadas ao endividamento. De acordo com o respondido anteriormente no grupo II sobre a realização de compras parceladas em que dois terços dos respondentes acenaram positivamente para a questão, é possível ver que o cartão de crédito é a ferramenta mais usada para tal finalidade em todos os três grupos de respostas, ficando sempre acima de 65% do total. Neste ponto é preciso reforçar o nível de atenção, decorrente do fato do cartão de crédito ser uma das fontes de financiamento menos burocráticas do mercado, e consequentemente a que possui uma das mais elevadas taxas de juros do mercado, podendo vir a se tornar uma enorme fonte de desequilíbrio financeiro na eventual perda de controle, como mostra o gráfico 17. Como você realiza suas compras a prazo? 1º Sem. Só compro à vista CDC 4º Sem. 8º Sem. Cheque pré-datado Cartão de crédito Crediário Outros Empréstimo Consignado Não Resp Gráfico 17: Como você realiza suas compras a prazo? Fonte: Autor O cartão de crédito surgiu como preferência para a realização de compras de bens de consumo duráveis, o que reforça o alerta com a constatação da questão anterior devido as elevadas taxas de juros dessa modalidade de empréstimo, e o fato de que compras dessa natureza possuem maior valor monetário, consequentemente apresentam maior custo quando da incidência de juros. O contraponto desta questão fica por conta da parcela significativa que tende a realizar esse tipo de compra de forma à vista, corroborando a questão do grupo II onde em média um quarto dos respondentes diz ir às compras após a elaboração de um prévio planejamento, que do ponto de vista orçamentário é o mais econômico devido ao poder de barganha por parte do comprador e na impossibilidade de geração de dívida, como segue o gráfico 18. 18 Qual a forma mais utilizada por você para aquisição de bens de consumo duráveis? 1º Sem. À vista Empréstimo Consignado 4º Sem. Financiamento Bancário Consórcio Cartão de Crédito Outros 8º Sem. Leasing Não Resp. Gráfico 18: Qual a forma mais utilizada por você para a aquisição de bens de consumo duráveis? Fonte: Autor Quando indagados sobre o percentual de comprometimento da renda líquida mensal, fica evidente a grande parcela concentrada nos níveis entre de 31% até 100% correspondendo por mais de 60% do total de respostas nos três segmentos investigados, de acordo com o gráfico 19. Qual o percentual da sua renda líquida mensal está comprometida com prestações/obrigações mensais? 1º Sem. De 1% a 30% 4º Sem. De 31% a 60% De 61% a 90% 8º Sem. De 91% a 100% Gráfico 19: Qual o percentual da sua renda líquida mensal está comprometida com prestações/obrigações mensais? Fonte: Autor Ao terem que se declarar endividados ou não, a relação das respostas está representadas pelo gráfico 20. 19 Você se considera endividado? 1º Sem. 4º Sem. Sim Não 8º Sem. Gráfico 20: Você se considera endividado? Fonte: Autor Os três grupos pertencentes da amostra informaram na sua grande maioria, acima de 70%, não se considerarem endividados. Mesmo com a expressiva parcela dos entrevistados afirmando que o tamanho máximo da sua poupança possui capacidade de autofinanciamento de um ano e o seu tamanho máximo ser equivalente a três salários mínimos nacional. Ao se buscar uma resposta para os hábitos de pagamentos de prestações/obrigações, grande parte dos respondentes em média 80% dos três grupos disse pagar em dia os seus compromissos, não havendo distorções significativas entre os diferentes grupos da amostras, de acordo com o gráfico 21. Em geral você constuma pagar as suas prestações/obrigações? 1º Sem. Adiantado. 4º Sem. Em dia. Atrasado. 8º Sem. Não Resp. Gráfico 21: Em geral você costuma pagar as suas prestações/obrigações? Fonte: Autor O gráfico 22 mostra o percentual de respostas para a questão sobre existência de prestações/obrigações em atraso. 20 Você possui prestações/obrigações em atraso? 1º Sem. 4º Sem. Sim 8º Sem. Não Gráfico 22: Você possui prestações/obrigações em atraso? Fonte: Autor Em contraponto a questão anterior, em média 28% dos inquiridos afirmou possuir compromissos financeiros em atraso, o que acaba por contradizer o afirmado anteriormente onde, praticamente 80% afirmou realizar os seus pagamentos em dia. A seguinte questão mostra um leve crescimento no decorrer dos semestres da quantidade de pessoas que utilizam o cartão de crédito, cheque especial ou outras linhas de crédito para o pagamento de prestações e obrigações. Neste ponto pode estar localizado uma grande armadilha caso não se tenha um controle rigoroso entre entradas e saídas, devido ao fato de muitas vezes os empréstimos instantâneos, como, cheque especial e cartão de crédito proporcionar a falsa ilusão de aumento da renda. A explicação para esse fato pode estar no aumento da receita, constatado anteriormente à medida que os estudantes evoluem no curso de graduação, e desta forma se tornando mais fácil o acesso a essas linhas de crédito e também com limites maiores, de acordo com o gráfico 23. Você utiliza empréstimos como cheque especial, cartão de crédito ou outras linhas de crédito para o pagamento de prestações/obrigações? 1º Sem. 4º Sem. Sim Não 8º Sem. Gráfico 23: Você utiliza empréstimos como cheque especial, cartão de crédito ou outras linhas de crédito para o pagamento de prestações/obrigações? Fonte: Autor 21 Quando a questão é referente sobre o fato de já ter renegociado prestações/obrigações observa-se que a amostra do quarto semestre possui o maior percentual de pessoas que nunca renegociou uma dívida, correspondendo por 68,52% do total. Enquanto, que a amostra do primeiro e oitavo semestre que já repactuaram dívidas correspondem a 53,33% e 47,83% respectivamente, numa análise mais superficial esse fato poderia ser atribuído ao crescimento da renda e da idade, que consequentemente traz mais responsabilidades e obrigações, inclusive as de ordem econômico/financeiras, porém os dados do gráfico abaixo evidência o endividamento oneroso e excessivo ocorrido em algum momento no decorrer da vida dos respondentes. Não cabendo aqui analisar os motivos individuais responsáveis por culminar nesse ponto, como indica o gráfico 24. Alguma vez você já repactuou prestações/obrigações? 1,85% 0,00% 1º Sem. Sim 4º Sem. Não 0,00% 8º Sem. Não Resp. Gráfico 24: Alguma vez você já repactuou prestações/obrigações? Fonte: Autor 4.2 CRUZAMENTO DOS DADOS Ao analisar os percentuais de respostas a grande maioria da amostra, em torno de 2/3 do total de respondentes diz comprar para atender ou satisfazer uma necessidade. E essa mesma proporção de respostas é mantida ao verificar a utilização do cartão de crédito como forma de alcançar o suprimento de tais necessidades e que inevitavelmente leva em média 77,93% da amostra investigada a possuírem compras realizadas de forma parcelada. Ao terem que se declarar endividados ou não, a ampla maioria afirmou não ter essa percepção sobre as suas finanças, correspondendo a 73,10% das respostas, e em geral 80% afirmou efetuar o pagamento de prestações/obrigações em dia, tendo apenas 27,59% dos que responderam a pesquisa ter declarado que possuem compromissos financeiros em atraso. Porém, em média 60,69% das pessoas que responderam a pesquisa possuem comprometimento da sua renda líquida mensal com prestações/obrigações mensais entre 31% e 100%. Neste momento é possível verificar um contra ponto ao analisar a quantidade de 22 respondentes autodeclarantes quanto a não se considerarem endividados, mas de acordo com Fortuna (2009, p. 204) “para evitar endividamento excessivo, o assalariado só pode comprometer com a prestação até 30% de seu salário líquido”. Ao dar continuidade ao aprofundamento visando o melhor conhecimento dos respondentes, para entender o seu comportamento relacionado às suas finanças, constatou-se um leve equilíbrio entre os que já repactuaram dívidas e aqueles que nunca o fizeram, sendo um novo ponto de contradição ao perceber-se o percentual expressivo de pessoas que já repactuaram dívidas ao confrontá-lo aos que não se consideram endividados, essa constatação é reforçada ao verificar o baixo percentual de respostas para a utilização de financiamento bancário para aquisição de bens e produtos a prazo, que possuem menores taxas de juros tornando o seu custo menos elevado. Ao se buscar conhecer a organização das finanças pessoais dos entrevistados, constatou-se que 84,83% dos respondentes afirmaram realizar um controle sobre os seus gastos mensais. Porém, observou-se uma divergência ao verificar que 26,21% da amostra apontam a utilização de métodos não muito eficazes para essa finalidade, devido à lacuna temporal entre a chegada de fato nas mãos do indivíduo de tal instrumento e o seu fato gerador, como por exemplo, extrato bancário, fatura do cartão de crédito, comprovante do cartão de débito, além de 16,55% afirmar não realizar nenhuma espécie de controle sobre os seus gastos e pouco mais da metade diz utilizar um caderno de anotações ou planilha eletrônica especificamente para esta finalidade. Outra grande particularidade percebida ao realizar a análise dos dados, diz respeito à questão em que 53,10% dos inquiridos afirmam não realizar nenhum tipo de aplicação financeira, esse dado chama ainda mais atenção ao se verificar que quase 3/4 da amostra não se considera endividada tanto que 80% realizam a quitação de compromissos financeiros em dia e 72,41% não possui nenhum tipo de atraso quanto às mesmas obrigações, esse é o mesmo percentual de respostas para a não utilização dos limites de cheque especial ou cartão de crédito como forma de aumentar a sua renda. Neste ponto fica claro a pouca percepção financeira individual, pois apesar do nível de respostas demonstrarem organização orçamentária, como por exemplo, a utilização de métodos de controle, é possível perceber um elevado grau de endividamento e o acúmulo de dívidas acima dos 30% da renda líquida individual, a falta de preocupação com a formação de poupança, não só com o intuito de garantir tranquilidade em períodos de aperto financeiro, mas como uma forma de construir riqueza ao longo dos tempos. Ficando mais evidente ao verificar que apenas 23,45% das pessoas utilizam gratificações financeiras, como 13º salário, 23 férias, P.L.R. e outros para investimentos, e que 42,07% não possuem nenhum tipo de reserva financeira e outros 35,86% possui aplicações equivalentes a 1, 2 ou 3 salários mínimos de R$ 510,00. E, que na perda de sua fonte de rendimentos 28,97% não conseguiria manter o atual padrão de vida nem por um mês, enquanto que 30,34% conseguiriam por um período de 1 a 3 meses enquanto que outros 20% por um período máximo de 6 meses. 5 CONCLUSÃO Decorrido as etapas de fundamentação teórica, elaboração e aplicação dos questionários à amostra previamente selecionada e a posterior tabulação e interpretação dos dados coletados, constatou-se o cumprimento do objetivo central do estudo, ao se verificar a pouca percepção financeira do grupo investigado. Contudo, até a chegada neste ponto foram enfrentadas limitações da ordem de escassez literária sobre o assunto, o que acabou gerando a elaboração da fundamentação teórica de forma objetiva, direta e com dados contemporâneos ao se ter que buscar complementação no noticiário jornalístico, com o intuito de preencher algumas lacunas deixadas pela pouca literatura específica sobre finanças pessoais. Em contrapartida não surgiram dificuldades no acesso à amostra investigada, devido ao fato da população ser predominantemente composta por graduandos da ESADE. Embora o nível de respostas que apontam a realização de um acompanhamento referente às suas receitas e despesas mensais serem consideravelmente elevadas indicando o primeiro passo para a construção de um plano orçamentário, os métodos utilizados para essa finalidade se mostraram insatisfatórios, ao ser constato o grande volume de respostas dadas a itens não dinâmicos e passíveis de confusão e erros. Outro ponto de divergência está relacionado ao fato da grande maioria de entrevistados não se declararem endividados, porém ao serem inquiridos sobre o percentual das suas despesas mensais, quase dois terço da amostra apontou um índice de endividamento superior a 30% da sua renda líquida mensal. Isso decorre da cultura brasileira de se considerar endividada somente a partir do não pagamento das suas dívidas. Não percebendo que o endividamento é o somatório de todas as suas despesas, e que à medida que este atinge níveis próximos ao total da sua renda o espaço para manobras na eventualidade de emergências fica seriamente comprometido. A incapacidade de se perceberem endividados fica reforçada ao se constatar um expressivo percentual de respondentes que utiliza bonificações trabalhistas para a quitação de prestações e/ou obrigações em atraso. Embora, uma parcela pouco expressiva aponte comprar motivados pela existência de liquidação, promoção ou por terem crédito pré-aprovado, que 24 muitas vezes escondem armadilhas financeiras ou artimanhas mercadológicas que tendem a tirar o consumidor do seu planejamento, fazendo com que ele compre por impulso ou sem necessidade, fica evidenciada pelos questionários o percentual de respostas afirmando a existência de compras realizadas de forma parcelada. A ocorrência desse fato está diretamente ligada ao planejamento orçamentário, pois quando se faz necessário a utilização de recursos de terceiros para a aquisição de bens, produtos e serviços, é um indicativo de não haver recursos monetários suficientes no momento da aquisição. O ponto chave capaz de demonstrar os rasos conhecimentos financeiros está ligado ao baixo índice de declarantes afirmando realizarem aplicações financeiras, mesmo tendo um elevado grau de respondentes não se considerando endividados, uma vez que não possuem essa percepção é preciso verificar a destinação dada aos recursos que necessariamente devem estar sobrando. A utilização do cartão de crédito por larga parcela da amostra revela uma linha tênue entre o equilíbrio e desequilíbrio financeiro, devido ao fato de ser a fonte de financiamento preferida entre todos os respondentes, e a ocorrência de elevadas taxas de juros quando da ocasião de atrasos. Podendo, um eventual descasamento entre entradas e saídas de receitas, colocar o titular do cartão em sérios apuros financeiros. Tendo em vista a relevância do assunto como um todo para a sociedade, e o fato da população investigada estar inserida no contexto universitário, fica a sugestão para a incorporação do tema a grade curricular da instituição, na forma de disciplina obrigatória, eletiva ou como um curso de extensão, uma vez que uma significativa parcela dos investigados demonstrou executar algum tipo de controle e planejamento orçamentário, da mesma forma que ficou evidente a necessidade de aprofundamento de conceitos e técnicas para tornar mais efetivo o trabalho já iniciado. 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS EXECUTIVOS DE FINANÇAS, ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE. Pesquisa de juros. São Paulo, 2010 13p. BARBETTA, Pedro Alberto. Estatística aplicada às ciências sociais. Florianópolis: Editora da UFSC, 2006. 315 p. BODIE, Zvi; MERTON, Robert C. Finanças. Tradução de James Sunderland Cook. Editora Bookman, 2002. 448 p. BOVESPA. Dicionário de finanças. Disponível <http://www.enfin.com.br/bolsa/main.php>. Acesso em: 03 de junho 2010. em: 25 CERBASI, Gustavo. Casais inteligentes enriquecem juntos. São Paulo. Editora Gente, 2004. 160 p. ______ Dinheiro: os segredos de quem tem. São Paulo. Editora Gente, 2003. 181 p. CERVO, Amado L.; BERVIAN, Pedro A.; DA SILVA Roberto; Metodologia Científica. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006. 161 p. FORTUNA, Eduardo. Mercado financeiro: produtos e serviços. Rio de Janeiro. Editora Qualitymark, 2008. 864 p. FLEURIET, Michel; KEHDY, Ricardo; BLANC, Georges. Michael Fleuriet: o modelo fleuriet: a dinâmica financeira das empresas brasileiras. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2003. p. 165. FREZATTI, Fábio. Orçamento empresarial: planejamento e controle gerencial. São Paulo. Editora Atlas S.A., 2008. 221 p. INFOMONEY. Mais de 20% dos consumidores tem dívidas por mais de um ano. Disponível em: < http://web.infomoney.com.br//templates/news/view.asp?codigo=1852213&path=/suasfinanca s/>. Acesso em: 29 de maio 2010. JÚNIOR, Carrion. Real: o outro lado da moeda. Porto Alegre. Editora Artes e Ofícios, 1998. 135 p. KIYOSAKI, Robert T.; LECHTER Sharon L. Pai Rico, Pai Pobre. Tradução: Maria Monteiro. 46. Ed. Editora Elsevier, 2000, 187 p. ______ Filho rico, filho vencedor. Tradução: Ana Beatriz Rodrigues. 7. Ed. Rio de Janeiro. Editora Campus, 2001. 307 p. MAIS DINHEIRO. Empréstimos. Disponível <http://www.maisdinheiro.com.br/dicas/emprestimos>. Acesso em: 29 de maio 2010. em: MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de metodologia científica. 5. Ed. Editora Atlas, 2003, 305 p. ROSS, Stephen A.; WESTERFIELD, Randolph W.; JORDAN, Bradford D. Stephen A. Ross: princípios de administração financeira. Tradução: Andrea Maria Accioly Fonsesca Minardi. São Paulo: Editora Atlas, 2009. 519 p. 26 APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO DA PESQUISA Pesquisa sobre Finanças Pessoais Esta é uma pesquisa sobre Finanças Pessoais e parte integrante do Trabalho de Conclusão do curso de Administração de Empresas 2010/01 da Escola Superior de Administração, Direito e Economia - ESADE. Gostaria de contar com a sua colaboração, respondendo algumas perguntas que levarão somente alguns minutos. Suas respostas não serão analisadas individualmente, de modo que será mantido total sigilo quanto às suas opiniões. PARA CADA UMA DAS PERGUNTAS ABAIXO MARCAR APENAS UMA RESPOSTA. 01. Indique a sua faixa etária ( 1 ) Entre 18 e 23 anos. ( 2 ) Entre 24 e 29 anos. ( 3 ) Entre 30 e 35 anos. ( 4 ) Entre 36 e 41 anos. ( 5 ) Entre 42 e 47 anos. ( 6 ) 48 ou mais. 02. Sexo: ( 1 ) Feminino. ( 2 ) Masculino. 03. Estado Civil: ( 1 ) Solteiro. ( 2 ) Casado/União Estável. ( 3 ) Separado/Divorciado. ( 4 ) Viúvo. 04. Quantas pessoas moram na sua casa, incluindo você? ( 1 ) 1 pessoa. ( 2 ) 2 pessoas. ( 3 ) 3 pessoas. ( 4 ) 4 pessoas. ( 5 ) 5 pessoas. ( 6 ) Mais de 5 pessoas. 05. Nível de Escolaridade: ( 1 ) Ensino Médio Completo. ( 2 ) Ensino Técnico/Profissionalizante. ( 3 ) Ensino Superior Incompleto. ( 4 ) Ensino Superior Completo. ( 5 ) Especialização/Mestrado/Doutorado. ( 6 ) Outros. 06. Exerce atividade remunerada? ( 1 ) Sim. ( 2 ) Não. 07. Indique a sua renda mensal líquida. ( 1 ) De R$ 0,00 a R$ 500,00 ( 2 ) De R$ 501,00 a R$ 1.000,00 ( 3 ) De R$ 1.001,00 a R$ 1.500,00 ( 4 ) De R$ 1.501,00 a R$ 2.000,00 ( 5 ) Acima de R$ 2.001,00 08. Quando você compra pensa em: ( 1 ) Aproveitar uma oportunidade. ( 2 ) Satisfazer uma necessidade. ( 3 ) Atender um apelo de marketing. 27 ( 4 ) Status. ( 5 ) Outros. 09. Ao realizar uma compra, você compra por quê? ( 1 ) Planejou com antecedência. ( 2 ) Tem necessidade. ( 3 ) Está na promoção. ( 4 ) Está em liquidação. ( 5 ) Tem crédito pré-aprovado. ( 6 ) Outros. 10. Atualmente você possui compras realizadas de forma parcelada? (crediário, crédito rotativo, cheque pré-datado cartão de crédito, etc) ( 1 ) Sim. ( 2 ) Não. 11. Como você costuma realizar suas compras a prazo? ( 1 ) Nunca. Só compro à vista. ( 2 ) Cheque pré-datado. ( 3 ) Cartão de crédito. ( 4 ) Crediário. ( 5 ) CDC (empréstimo bancário). ( 6 ) Empréstimo consignado. ( 7 ) Outros. 12. Qual a forma que você utiliza com maior frequência para adquirir produtos de bens duráveis? (eletroeletrônicos, móveis, veículos, imóveis, etc) ( 1 ) À vista. ( 2 ) Financiamento bancário. ( 3 ) Consórcio. ( 4 ) Leasing. ( 5 ) Empréstimo consignado. ( 6 ) Cartão de crédito. ( 7 ) Outros. 13. Qual o percentual da sua renda líquida mensal está comprometida com prestações/obrigações mensais? ( 1 ) De 1% a 30% ( 2 ) De 31% a 60% ( 3 ) De 61% a 90% ( 4 ) De 91% a 100% 14. Você se considera endividado? ( 1 ) Sim. ( 2 ) Não. 15. Em geral você costuma pagar as suas prestações/obrigações mensais...? ( 1 ) Adiantado. ( 2 ) Em dia. ( 3 ) Atrasado. 16. Você possui prestações/obrigações em atraso? ( 1 ) Sim. ( 2 ) Não. 17. Você utiliza empréstimos como cheque especial, cartão de crédito ou outros para o pagamento de prestações/obrigações? ( 1 ) Sim. ( 2 ) Não. 18. Você faz uso do limite de cheque especial, cartão de crédito ou outras linhas de crédito como forma de aumentar a sua renda mensal? ( 1 ) Sim. 28 ( 2 ) Não. 19. Você já repactuou (renegociou) prestação/obrigação alguma vez? ( 1 ) Sim. ( 2 ) Não. 20. Você costuma manter um controle sobre os seus gastos mensais? ( 1 ). Sim. ( 2 ) Não. 21. Como você realiza o acompanhamento dos seus gastos mensais? ( 1 ) Não realizo. ( 2 ) Caderno de anotações ( 3 ) Planilha eletrônica. ( 4 ) Extrato bancário ( 5 ) Fatura cartão de crédito ( 6 ) Comprovante cartão de débito. ( 7 ) Outros. 22. Você faz investimentos? (poupança, renda fixa, renda variável, etc.) ( 1 ) Sim. ( 2 ) Não. 23. Qual a finalidade que você costuma dar para o seu 13º salário, férias, PLR (Participação nos Lucros e Resultados) ou outro tipo de bonificação? ( 1 ) Investe. ( 2 ) Quita prestações/obrigações em atraso. ( 3 ) Antecipa o pagamento de prestações/obrigações. ( 4 ) Utiliza no período de férias. ( 5 ) Outros. 24. Atualmente seus investimentos representam quantos salários mínimos nacional, de R$ 510,00? ( 1 ) Nenhum. ( 2 ) 1 a 3 salários. ( 3 ) 4 a 6 salários ( 4 ) 7 a 9 salários. ( 5 ) 10 a 12 salários ( 6 ) 13 ou mais salários. 25. No caso de perda total da sua fonte de rendimentos (salário, pró-labore, outros), por quantos meses você conseguiria manter o atual padrão de vida utilizando as suas economias? ( 1 ) Nenhum. ( 2 ) De 1 a 3 meses. ( 3 ) De 4 a 6 meses. ( 4 ) De 7 a 9 meses. ( 5 ) De 10 a 12 meses. ( 6 ) Mais de 12 meses. Muito obrigado pela sua participação!