INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 ANÁLISE DA INTERAÇÃO PROFISSIONAL-CLIENTE E QUALIDADE DA COMUNICAÇÃO EM SERVIÇOS Prof. Dr. José Carlos Gonçalves (UFPE) RESUMO A qualidade dos serviços de uma empresa requer a comunicação interpessoal eficaz , pois a qualidade do atendimento decorre da qualidade da relação profissional-cliente. O trabalho reporta resultados de uma investigação sobre a natureza da comunicação organizacional e o seu papel na qualidade dos serviços. Com base em interações entre profissionais e clientes, gravadas em audio e videotape , os resultados da análise sociolinguística interacional , da análise da conversação com princípios da gestão pela qualidade total (GQT), indicam um grande desconhecimento dos profissionais da importância da comunicação verbal e não verbal para a qualidade do serviço e sugerem a necessidade de treinamento pré-serviço e em serviço de profissionais para a melhoria contínua da qualidade . O presente trabalho reporta alguns resultados preliminares de uma investigação sobre a natureza da comunicação organizacional e o seu papel na qualidade dos serviços. Com o recurso de audiotape, foram gravadas interações entre profissionais e clientes em uma variada gama de contextos, para se detectar os aspectos verbais e não verbais da comunicação no trabalho. Os dados foram analisados utilizando a metodologia sociolinguística interacional , com apoio da análise da conversação e a gestão pela qualidade total (GQT). Os resultados indicam um grande desconhecimento, por parte dos profissionais, da importância da comunicação verbal e não verbal para a qualidade do serviço. Com base nos resultados, são feitas sugestões para treinamento pré-serviço e em serviço de profissionais visando a melhoria contínua da qualidade dos serviços.Consideremos, ainda que rapidamente, algumas características dos serviços.Na diferenciação entre produtos e serviços , é preciso considerar alguns aspectos básicos. Produtos possuem qualidade evidente, são bens tangíveis, estocáveis, cuja produção precede o consumo, e em que há um baixo nível de contato com o consumidor, podendo ser transportados.Serviços, por outro lado, são intangíveis, não podem 1 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 ser estocados e/ou transportados, têm produção e consumo simultâneos, com um alto nível de contato com o consumidor.Qualidade em serviço é, portanto, a capacidade que uma experiência ou qualquer outro fator tenha para satisfazer uma necessidade, resolver um problema ou fornecer benefícios a alguém. Fornecedores fornecem matéria prima e ou insumos e serviços aos clientes, que os avaliam e percebem como sendo e tendo qualidade ou não. Nesta perspectiva, os profissionais são fornecedores de serviços a seus clientes e/ou usuários (receptores de seus serviços), como professores e alunos, médicos e pacientes, vendedores e fregueses, por exemplo. Nesta relação, o padrão fundamental da qualidade é a satisfação do usuário. Uma assimetria muito relevante para a análise da interação profissional/cliente nos contextos de atendimento a clientes é a diferença, e frequentemente tensão, entre a perspectiva organizacional que trata o indivíduo como um “caso rotineiro” e o cliente, para quem o caso dele ou dela é único e pessoal. Um dos problemas recorrentes observados na análise da interação em contextos do trabalho é a atitude impessoal, distante, profissional, de cautela (cautiousness, em Drew & Heritage 1994), característica dos profissionais. Fruto da formação(ou deformação) profissional distanciada da prática, tal atitude entra em choque com a atitude pessoal, subjetiva, envolvida, do usuário, ou cliente. Como nos lembra Albrecht (1992): “Você pode estar condicionado a pensar sobre sua prestação de serviços em termos de departamentos organizacionais e especialidades que precisam operar para que o serviço seja prestado..... Anos de condicionamento e familiaridade com uma atividade de prestação de serviços tendem a distorcer as percepções de uma pessoa” Em encontros de serviços, os profissionais e os clientes parecem operar em esquemas conflitantes. Enquanto os profissionais geralmente vêem o seu serviço como compartimentalizado, específico, independente de outros serviços e setores da mesma empresa, o cliente encara o serviço como um ciclo, que tem começo, meio e fim, cujas partes estão interrelacionadas. O sucesso, ou o fracasso de qualquer uma das partes compromete a qualidade dos resultados finais. O estudo de Gonçalves (1994 ) evidencia como médicos e pacientes operam em esquemas interacionais conflitantes, onde ocorre um choque de estilos e estratégias conversacionais e interacionais, fruto de expectativas e percepções divergentes do 2 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 significado da interação para as partes.No estudo em tela, o médico opera em um clínico/orgânico, esquema onde ocorre a objetificação da consulta, com foco nos aspectos orgânicos das queixas. As estratégias conversacionais usadas são paráfrases técnicas, quantificação pelas perguntas, escolha do tópico, escolha do significado para as queixas dos pacientes.O cliente, ou usuário, (no caso o paciente) , opera em um esquema experiencial, personalizado, quase de narrativa, em que a natureza vaga, desfocada, de suas queixas de problemas somáticos, dores em diferentes partes do corpo e perturbações no funcionamento normal representam, pragmaticamente, atos de fala de pedidos de ajuda ou ação. Contrariamente ao médico, o paciente subjetifica em relação (Goffman,1981) conflitos às atividades a consulta . Tais alinhamentos divergentes representam um problema de footing, dos participantes ou alinhamento desigual dos interagentes no contexto institucional, o que pode levar a e problemas interacionais. Drew & Heritage (1993) também evidenciam alinhamentos diferentes dos participantes da interação em contextos de saúde. O mesmo desalinhamento ocorre, de maneira mais dramática e exacerbada, no estudo de Zimmerman( em Drew &Heritage,1993), em casos de pedido de socorro de emergência feitos à polícia, bombeiros, defesa civil. Como demonstra Albrecht (1992): “O cliente raramente pensa em termos de departamentos ou especialidades. Ele geralmente pensa somente em termos de uma necessidade e de precisar tomar alguma iniciativa para atendê-la. O cliente pensa em termos de um objetivo..” Cautela Profissional A cautela profissional influencia a orientação do profissional em todas as tarefas institucionais, e interfere nas escolhas lexicais, no desenho do turno e na organização sequencial das interações, e é um traço recorrente do discurso institucionalizado. Drew & Heritage (1993) sugerem que em muitos contextos institucionais os profissionais projetam as suas conversas para manter uma cautela, ou até mesmo uma posição de neutralidade com respeito aos seus co-participantes. No discurso de vendas, há um aparente choque entre a atitude de cautela do vendedor e a necessidade de envolvimento que a situação de vendas requer. Vendedores habilidosos conseguem tirar proveito dessa situação aparentemente conflitante, onde a preservação do território do cliente e o seu envolvimento são estratégias 3 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 importantes para o bom resultado das interações. O princípio da qualidade “fazer a coisa certa, da primeira vez, sempre” se reveste de aplicação prática primordial, pois, ao tratar cada cliente como se fosse o primeiro e o único, o profissional está eliminando este choque de paradigmas , expectativas e estratégias interacionais, através de uma atitude empática de colocar-se no lugar do outro e perceber as suas necessidades e o seu problema como ele gostaria de ser entendido. Esta é a essência da comunicação empática, que traduzimos nos versos singelos de Moreno: “Eu tirarei os meus olhos e colocarei no lugar dos teus. Tu tirarás os teus olhos e colocarás no lugar dos meus. Assim eu te verei com os teus olhos e tu me verás com os meus” Dois conceitos adicionais são a percepção da qualidade e as expectativas dos clientes. A percepção tanto está relacionada aos órgãos dos sentidos, como também à forma como as pessoas interpretam uma situação. Além destes fatores, a percepção está também ligada às crenças, valores e atitudes que adquirimos na vida familiar e na sociedade. Conforme explicita Albrecht (1992 )na equação da qualidade: “Equação da Qualidade: Q=R - E Qualidade =Resultados - expectativas” a percepção da qualidade no atendimento não se limita apenas ao resultado final do serviço, ou seja, à sua dimensão técnica. Se assim acontecesse, bastaria um resultado tecnicamente eficiente para que o serviço fosse considerado de qualidade. Dessa forma, a percepção da qualidade depende tanto do próprio resultado como do processo realizado para se chegar a ele, o que torna necessário chegar não apenas ao resultado tecnicamente correto, mas também chegar a ele de maneira desejada pelo usuário, uma vez que o cliente será influenciado não só pela cortesia do atendimento, mas também por aspectos intangíveis que irão criar a impressão que ele tem sobre o profissional ou sobre o seu serviço, ou negócio. O serviço com qualidade é aquele que tem a capacidade de proporcionar satisfação ao cliente. Albrecht (1992)preconiza: 4 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 “Compreender a realidade da experiência do cliente pode ser tão importante quanto ser um especialista nas tarefas de sua função” A qualidade do serviço é julgada tanto pelo seu recebedor (o cliente), como pelo seu provedor (a organização). Do ponto de vista da empresa, ou do fornecedor, a qualidade do serviço é definida como o grau até o qual um serviço satisfaz os requisitos descritos em suas especificações. Do ponto de vista do mercado, a qualidade do serviço pode ser definida como o grau até o qual um serviço satisfaz as exigências, os desejos e as expectativas do seu recebedor. Desta forma, do ponto de vista do cliente/ recebedor do serviço, a qualidade percebida é fruto da superposição entre a percepção dos serviços e as expectativas dos clientes. MacNeill (1997) comenta: “A qualidade do serviço somente é melhor quando o cliente sente que o serviço é melhor, a despeito daquilo que a gerência da organização de serviços, ou os profissionais, e outras autoridades percebem como aperfeiçoamentos objetivos e factuais... A percepção de um cliente é a chave para o atendimento de qualidade. Um filósofo disse: ‘O que me preocupa não é o modo como as coisas são, mas como as pessoas pensam que são. ...Se o que você faz não é percebido como valioso pelo cliente, então não tem valor mesmo. Administrar as expectativas do cliente o levará ao caminho da excelência no atendimento.” Dimensões da Qualidade em Serviços A qualidade do serviço ou do atendimento pode ser medida em dua dimensões: Dimensão dos Procedimentos: estabelecimento de sistemas e procedimentos que especificam o objetivo e o escopo das atividades para atender as necessidades dos clientes Dimensão Pessoal: atitude, conduta e habilidade na interação com os clientes. Da interação entre estas duas dimensões, podem resultar as seguintes situações, que vão determinar os tipos de serviços: 5 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 Serviço Tipo A Dimensão dos Procedimentos: Serviço lento, inconsistente, desorganizado, caótico e inconveniente; Dimensão Pessoal: Profissional frio, impessoal, apático, desinteressado, indiferente. METAMENSAGEM: “Nós não nos preocupamos com você” Serviço Tipo B Dimensão dos Procedimentos: serviço eficiente, padronizado, oportuno; Dimensão Pessoal: Profissional insensível, frio ou impessoal, apático, desinteressado, indiferente METAMENSAGEM: “Você é um número”. Serviço Tipo C Dimensão dos Procedimentos: serviço lento, inconsistente, desorganizado, caótico, inconveniente; Dimensão Pessoal: profissional amigável, personalizado, interessado, diplomático. METAMENSAGEM: “Nós estamos tentando atendê-lo melhor, mas ainda não sabemos como”. Serviço Tipo D Dimensão dos Procedimentos: serviço eficiente, padronizado, oportuno; Dimensão Pessoal: profissional amigável, personalizado, interessado, diplomático. METAMENSAGEM: “Nós nos preocupamos com você”. 6 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 Compreender as características do comportamento verbal e não-verbal que levam as pessoas a agirem e reagirem diante de situações que surgem no atendimento depende também de entender as expectativas dos clientes e o processo de comunicação. O processo de Comunicação na Gestão da Qualidade Total em Serviços A comunicação no trabalho é parte integrante de todos os processos na vida de uma empresa. Para que o serviço a ser prestado tenha qualidade, é preciso que a comunicação que se estabelece entre o profissional e o cliente seja boa, pois a qualidade do atendimento é, antes de tudo, proporcional à qualidade da relação que se estabelece.Do ponto de vista da Gestão da Qualidade Total em Serviços - GQTS - , a comunicação, em qualquer empresa é um macroprocesso, constituído de muitos microprocessos interdependentes e intercomplementares. Ao mesmo tempo em que a comunicação constitui um processo em si , ela é também elemento integrante de muitos outros ( ou de todos os outros) processos. Na gestão da qualidade em serviços, a qualidade da comunicação é parte integrante do próprio serviço. Os processos comunicacionais são vitais e fazem parte do dia a dia de qualquer negócio e , por isso mesmo , passam desapercebidos . São a parte submersa do icebergue organizacional e muitas vezes levam as melhores difíceis empresas a pique, pois são muito mais de enxergar no meio do nevoeiro do dia a dia. No entanto, entender a natureza desses processos , mapeá-los e especificá-los, para poder corrigi-los, implementá-los, ou erradicá-los, conforme seja o caso, é de vital importância para uma empresa pública ou privada que queira ter qualidade no seu atendimento e lucros em seu empreendimento. Para entendermos a natureza desses processos, é necessário compreendermos quem são os seus atores. A cadeia fornecedor/cliente Não se pode falar em qualidade da comunicação em serviços sem levar em consideração a cadeia fornecedor/cliente como dois elos indispensáveis da corrente. Nesta 7 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 relação, o padrão fundamental da qualidade é a satisfação do usuário.Para entender a GQTS como um sistema gerencial que se preocupa em manter sob controle e melhorar continuamente o desempenho dos procesos de trabalho, para satisfazer e exceder às expectativas dos clientes, é necessário entender a noção de cliente , pois, cmo aafirma Albrecht(1992): “A administração de serviços é um enfoque organizacional global que faz da qualidade do serviço, tal como sentida pelo cliente, a principal força motriz do funcionamento da empresa.” Clientes são todos aqueles impactados pelo trabalho de uma organização. Daí a existência de clientes internos (pessoas, setores, departamentos, etc., que recebem o produto ou serviço do fornecedor dentro da própria organização) e clientes externos (pessoas, organizações que recebem e/ou se utilizam de um produto/serviço, e que não fazem parte da organização.) Reportando-nos à visão witgensteiniana de jogo da linguagem, a noção de cliente é uma noção reflexiva e mutuamente constitutiva, em que a atuação de um parceiro conversacional condiciona a atuação e/ou comportamento do outro, por conta da natureza dinâmica do contexto da interação. Em outras palavras, fornecedores e clientes são contextos dinâmicos uns para os outros e a qualidade da comunicação na prestação dos serviços vai ser diretamente proporcional à relação que se estabelece. Qualidade no atendimento Albrecht (1992) nos apresenta duas máximas que resumem a preocupação central da qualidade no atendimento: “Se você não está atendendo a um cliente, seu trabalho é atender a alguém que esteja” (Carlzon) “Em uma organização só há duas funções. Servir ao cliente, ou servir a quem serve ao cliente” Atender o cliente é, principalmente, entender o seu pedido, o seu desejo e a sua necessidade. Quase sempre, ao fazer uma demanda, o cliente pede uma coisa, quer outra e 8 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 precisa de uma outra.A melhor forma de garantir as condições para um bom atendimento investir na qualidade da relação e dos vínculos com é o cliente, pois a qualidade do atendimento é diretamente proporcional à qualidade do relacionamento que se estabelece. Como sugere Brolio (1995) , a razão desta realidade é porque ”o serviço é realizado através das pessoas. E as pessoas relacionam-se de forma individual, ou seja, uma com outra de cada vez. E dependendo da forma com que aconteça essa relação, entre você que presta o serviço e o seu cliente, é que se estabelece a diferença”. Uma vez minimamente revistos alguns conceitos básicos da qualidade em serviços, vamos examinar as funções e a organização da comunicação nos encontros de serviços. A organização sequencial das atividades de fala em encontros de serviços A linguagem em contextos de trabalho é funcional , isto é, relacionada com a(s) tarefa(s) ou atividade(s) de trabalho , estratégica (voltada para objetivos) e especializada (adequada ao contexto).Gonçalves (1994), com base em estudos da interação nos contextos institucionalizados da sala de aula e da comunicação médico-paciente, aponta uma série de fatores linguísticos, interacionais e discursivos que funcionam como parâmetros para medir a assimetria característica da institucionalidade do discurso: o controle do tópico, ou da agenda interacional; a organização tática da interação, isto é o sistema de troca de turnos e as resultantes estruturas de participação no discurso; o grau de planejamento e nível de formalidade da interação; a reciprocidade, não-reciprocidade do discurso; a linguagem funcional apropriada a cada contexto institucional e o conhecimento, ou saber técnico específico de cada área de atuação profissional. A noção de Atividade de Fala A noção de atividade de fala é importante para entender os processos interacionais através dos quais os falantes negociam o significado de suas interações. No artigo Context , Activity and Participation, Goodwin & Goodwin apontam para a diversidade de acepções que a palavra activity tem na literatura linguística. Os autores demonstram como atividades são meios pelos quais “participants both attend to, and consitute context” e como a presença simultânea de atividades alternativas situa os participantes dentro de contextos múltiplos, em 9 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 que, às vezes, os participantes não só percebem o fenômeno da atividade sob perspectivas diferentes mas também têm acesso diferenciado à atividade. Desta forma, através dos detalhes das várias formas pelas quais os participantes participam das interações em cada momento, os co-participantes exibem uns aos outros o seu entendimento do que está acontecendo, e o seu alinhamento em relação a estes eventos. Através destas demonstrações, os co-participantes ratificam as propostas e avaliações oferecidas pelos outros, ou até mesmo as desafiam. Para entender a atividade de fala, é preciso considerá-la como um todo, em que a fala, a entonação, o movimento corporal operam como diferentes canais para formar uma atividade única. Para atingir a ação coordenada, os participantes devem demonstrar uns aos outros a inteligibilidade dos eventos em que estão engajados, incluindo as atividades presentes e o que eles esperam que aconteça em seguida. Dentro desta visão, as atividades não são estáticas, mas emergem com o tempo, o que constitui uma característica básica do processo. Uma atividade é, então, organizada como um sistema de significação interativamente constituído, através da produção colaborativa de fenômenos verbais e não verbais. As atividades fornecem o contexto para a interpretação dos eventos encerrados dentro delas. Os interagentes não só têm que usar as atividades, mas ao mesmo tempo tem também que construí-las interacionalmente, através da inferência, da ação e de comportamentos linguísticos verbais e não verbais. Desta forma o contexto é mutuamente constituído e constitutivo nas atividades. Os participantes de interações institucionais constróem sua conduta enquanto ela acontece, turno a turno, e progressivamente constituem, e em consequência, criam conjunta e colaborativamente o acontecimento da sua fala, cada um com os seus papéis sociais. A organização global de uma forma de interação institucional é a sucessão ordenada de fases e atividades. A direção e a iniciativa do profissional institucional cria padrões estabelecidos de interações institucionais, em que o profissional tende a desenvolver práticas padronizadas melhores ou piores, para administrar as tarefas dos seus encontros rotineiros. Os eventos interacionais são vistos e vivenciados como um completo e contínuo fluxo de atividades. Para identificar as estruturas de participação que constituem a ação social, é necessário estudos de segmentar o fluxo de atividades em suas unidades constituintes primárias. Em análise da interação em sala de aula, Gonçalves (1983) e de comunicação médico/paciente (Gonçalves 1994), aponta para uma estrutura tripartite de Abertura, 10 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 Produção e Fechamento, característica dos eventos de fala do tipo aulas, consultas médicas , etc., que resumem a ordem invariável das atividades do fluxo interacional: Abertura, Produção e Fechamento ABERTURA Cenas e/ou eventos prévios: Preparação PRODUÇÃO FECHAMENTO Atividades Conclusão, propriamente ditas – Foco finalização Principal e/ou eventos subsequentes: Finalização O evento de fala seguinte ilustra as fases e ou atividades típicas de uma interação de negócios turísticos: _____________________________________________________________________ ____________ Loja de Perfumes no Shopping 01 C: Oi. Tem Dune? 02 P: Tem o masculino, o feminino tá em falta. 03 C: Masculino? eita, eu não conheço não. Deixa eu...tem provador? 04 P: Não... 05 C: Tem não? 06 P: Mas dá para sentir aqui...vê. ((A funcionária oferece um vidro do perfume)) 07 C: É, dá pra sentir mais ou menos,. Tá quanto? 08 P: tá por quarenta reais. 09 C: quarenta? Esse pequenininho? 10 P: Isso.É...são trinta ml,né. 11 C: Certo 12 P: O maior 13 C: mas...tá pra chegar o feminino, não? 14 P: daqui uns quinze dias mais ou menos (ininteligível) 11 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 15 C: tá ok, brigada. ___________________________________________________________________ A Abertura é feita em (01), pela cliente, através da saudação oi e da pergunta Tem Dune? , como se pode ver na parte sombreada. Igualmente a finalização ou Fechamento da interação também é feito pela cliente, iniciando em (13), com o marcador de inversão argumentativa mas, e a pergunta tá pra chegar o feminino, não? Com a resposta da atendente em (14), a cliente encerra a interação em (15), com os marcadores tá ok, brigada, como se pode ver na outra parte também sombreada. A parte central da interação é a Produção, e é executada pela cliente e pela atendente, através de perguntas e respostas, respectivamente. A produção, a fase principal da interação, fornecimento de informação pelo atendente. prossegue com perguntas pelo cliente e Perguntas são atos de fala diretivos, cujas principais funções são: pedir informação (01, 03, 05,07,09,13), direcionar a conversa (13), chegar a um consenso e iniciar a finalização(13). No trecho de (01, 03, 05,07,09), o cliente está solicitando informação . Em (13), ele direciona a conversa, através do marcador de inversão argumentativa mas, sinalizando um pré-fechamento da interação e descartando a venda. Em (15) , através do marcador tá ok e da fórmula de agradecimento brigada , a cliente finaliza a interação. verbais acompanha a Desnecessário dizer , mais uma vez, que uma gama de recursos não produção e o fechamento da interação. Principalmente no final, a interação do olhar, sorriso, gestos, mudança na postura são sinais muito fortes da conclusão da interação. A Segunda parte do par da rotina conversacional de agradecimento (15) brigada, emitida pela cliente, pode ter tido uma resposta não verbal, na forma de um sorriso, um meneio de cabeça, etc. Através de perguntas, a cliente busca informação, direciona a conversa, chega a um consenso e inicia o processo de finalização da interação. Todo esse processo evidencia a nossa afirmação anterior de inversão da assimetria profissional/cliente geralmente observada em outros tipos de interação institucionalizada, tais como a consulta médica, a entrevista e a aula. Neste contexto de vendas e de atendimento ao cliente, a relação de poder se inverte. O poder está com o cliente. O marketing já captou muito bem esta verdade, quando insiste nos slogans publicitários que o cliente é o rei, que o cliente é o número 1, que o cliente tem razão sempre. Contrariamente a outros profissionais, o 12 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 vendedor está numa posição subalterna em relação ao cliente, o que é uma premissa da literatura da qualidade em serviços, na máxima de Albrecht (1992): “Em uma organização só há duas funções. Servir ao cliente, ou servir a quem serve ao cliente” O ciclo dos serviços e a hora da verdade Na análise da interação em contextos de atendimento ao público, dois conceitos são fundamentais para compreender melhor a natureza dinâmica e reflexiva desta atividade e o fluxo de atividades interligadas que constitui os encontros de serviços.O primeiro é o conceito de ciclo de serviços (ou ciclo do usuário). O segundo é o conceito de hora da verdade. Albrecht( 1992) define o ciclo de serviço: “Um ciclo de serviço é a cadeia contínua de eventos pela qual o cliente passa, à medida em que experimenta o serviço prestado por você. Essa é a configuração natural e inconsciente que está na cabeça do cliente, e que pode não ter coisa alguma a ver com o seu enfoque ‘técnico’ .” No ciclo de serviço, cada momento da interação do cliente com a empresa é um episódio em que a qualidade da comunicação tem que se realizar para que os resultados finais atinjam a satisfação do cliente, pois em cada episódio da sequência de atividades , o cliente entra em contato com algum aspecto da organização e obtém uma impressão da qualidade do serviço. Como o serviço é produzido na hora em que está sendo consumido, os episódios formam uma cadeia de eventos, um conjunto de atividades sequencialmente interligadas, que o cliente vê como um todo, mas que os fornecedores vêem como episódios estanques e sem interconectividade, como se fossem tarefas e responsabilidades individuais isoladas. Este choque de percepções é um dos grandes obstáculos para a qualidade do serviço e do atendimento. Para resolver este impasse, a noção de hora da verdade ajuda o profissional a encarar a prestação do serviço como um fluxo único de atividades interligadas. Citando a afirmação de Einstein “Deus está nos detalhes”, Albrecht (1992) afirma: 13 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 “A qualidade dos serviços está nos detalhes. Ou seja, a relação entre o fornecedor do serviço e o comprador do serviço está presente em muitos pontos individualizados de contato, e não apenas um, pois o serviço é fabricado no ato da entrega, e na maioria dos casos há muitos pontos de entrega”. Para efeito de nosso estudo, apresentamos abaixo uma definição operacional de hora da verdade: Hora da verdade é todo momento em que o cliente entra em contato com uma empresa e dela obtém uma impressão. Com base nesse conceito, podemos ter três tipos básicos de situação: 1. Hora da verdade encantadora ( ou mágica): É o momento em que o cliente recebe um serviço excepcional. Sempre quando ele procura serviços de qualidade, ele lembra de você, ou da sua empresa. Ele está até disposto a pagar um pouco mais, ou andar alguns quilômetros a mais para ter aquele serviço diferenciado que você ou sua empresa oferecem. _____________________________________________________________________ ____________ Guichê de informações turísticas 1 01 P1 : bom dia, eu gostaria de uma informação de como chegar em porto de galinhas. 02 C1 : bem eh... bom dia, a senhora saindo daqui do aeroporto, a senhora vai pegar à direita e segue em frente. 03 P1 : aham. 04 C1 : mais ou menos uns vinte minutos. 05 P1 : certo. 06 C1 : quando a senhora avistar uma fábrica do lado direito chamada coperbo. 07 P1 : coperbo. 14 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 08 C1 : coperbo, a senhora entra à esquerda, logo que avistar () a placa da fábrica da coperbo. 09 P1 : certo. 10 C1 : certo...a senhora entra a esquerda que vai ser a chamada pe- sessenta. 11 P1 : pe-sessenta? 12 C1 : sessenta. 13 P1 : certo. 14 C1 : essa pe-sessenta ela vai ter várias entradas certo...as praias, logicamente do lado esquerdo né? vão ter várias entradas pra as áreas litorâneas... 15 P1 : uhum. 16 C1 : mas, aí vai Ter sinalização certo...falando...eh...de porto de galinhas ou falando mais ao município de ipojuca... 17 P1 : certo. 18 C1 : então a senhora vai se guiando pelas placas do município de ipojuca... 19 P1 : uhum. 20 C1 : quando a senhora avistar uma placa ipojuca...à direita; a próxima entrada a esquerda é a de porto de galinhas. 21 P1 : certo...e me diga uma coisa, você tem alguma informação sobre... eh...hotel na área, alguma coisa assim...com preço bom ! 22 C1 : olha, um hotel muito bom que a gente tem... assim, agora ele é um pouco dispendioso né !, porque fica no litoral é o ocaporã. 23 P1 : aham. 24 C1 : e... o solar porto de galinhas. 25 P1 : desses dois, você tem idéia, qual seja o mais em conta ? 26 C1 : o mais em conta é o solar porto de galinhas que é muito bom ! 27 P1 : porto de galinhas... certo ! 28 C1 : eh, ele é, é uma acomodação mais rústica, mas também de boa infra- 15 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 estrutura. 29 P1 : uhum... tá ok... muito obrigada. 30 C1 : de nada...disponha ! 31 P1 : bom dia ! 32 C1 : bom dia, também. A observação da cliente/pesquisadora sobre este atendimento resume vários dos componentes de uma hora da verdade encantadora:((Atendente do sexo feminino, com idade aproximada de 20 anos, com boa aparência. Durante a interação, se mostrou muito simpática e prestativa. A atendente demonstrou segurança e cordialidade ao responder às perguntas da cliente)) 2.Hora da verdade desencantadora (desastrada): É aquele momento que faz o cliente também se lembrar de você, ou de sua empresa. Só que com efeito absolutamente contrário. Ele se lembra com ódio e raiva pelos momentos desagradáveis que teve com você ou com sua empresa. Em consequência, ele irá falar de sua empresa de forma negativa e dificilmente voltará a fazer negócios com você: _________________________________________________________________ Loja de roupas no shopping center 01 (( pessoas conversam dentro da loja, ninguém aparece para atender )) 02 C1 : qual o preço dessa bolsa ? 03 P1 : ana, o preço dessa bolsa ? 04 C1 : qual o preço dela ? 05 (( a outra vendedora procura a etiqueta dentro da bolsa )) 06 P2 : 143. 07 P1 : ela com desconto, pra dividir três de quarenta e dois e noventa. 08 C1 : três de ? 09 P1 : quarenta e dois e noventa. 10 C1 : isso à vista ou... ? 16 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 11 P1 : cento e vinte e oito pode ser a vista, cartão ou três de quarenta e dois, né ? seria entrada, trinta e sessenta. 12 C1 : ah, tá bom. Tá ok, obrigada tá. 3. Hora da verdade normal: É aquele momento em que você atendeu o cliente, não criou nenhum problema adicional para ele, fez burocraticamente o que estava programado. Mas você perdeu a oportunidade de oferecer-lhe aquele algo mais do seu toque pessoal, a diferença competitiva da sua marca pessoal ou organizacional.A interação abaixo ilustra a hora da verdade normal, nas palavras da cliente/pesquisadora:“A atendente tem aproximadamente vinte anos e não se mostrou muito interessada na venda, quando a cliente procurava por um determinado perfume. Pode-se dizer que a atendente apenas cumpriu sua obrigação, nada além disso. Ela tentava ser um pouco simpática, porém, talvez por timidez algumas vezes respondia à cliente balançando a cabeça.” _____________________________________________________________________ ____________ Loja de Perfumes no shopping center 08 01 C1: boa tarde, vocês tem hidros? 02 (( a vendedora faz que sim com a cabeça )) 03 C1 : quais são os tamanhos que vocês tem ? 04 P1 : cinquenta e oitenta mil. 05 C1 : cinquenta e oitenta, qual o preço de cada um ? 06 P1 : quatorze e oitenta e dezenove e oitenta. 07 C1 : quatorze e oitenta... tá jóia obrigada. P1 : de nada Intuitivamente, o atendimento ao cliente poderia se resumir em quatro grandes grupos de atividades, tarefas ou funções: As fases do ciclo do atendimento 17 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 1. Dar as boas vindas Abertura 2. Atender bem Produção 3. Agradecer pela visita Fechamento 4. Convidar para voltar Fechamento RESTRIÇÕES ÀS CONTRIBUIÇÕES DOS PARTICIPANTES As interações institucionais podem envolver restrições quanto ao tipo de contribuições que os participantes podem fazer ao desenvolvimento da interação. Estas contribuições estão condicionadas aos papéis sociais, identidades, finalidades , interesses e objetivos das interações, além do acesso a recursos conversacionais e participação na interação . Assim, na interação em sala de aula e na consulta médica, por exemplo, os analistas do discurso e da conversação Gonçalves outros têm evidenciado juizes) (1994), Drew & Heritage (1993), entre as atividades dos perguntadores (professores, médicos, policiais, e dos respondedores (alunos, pacientes, réus, etc.). Nas diferentes interações institucionais, os participantes adaptam suas condutas ao nível de restrições naturais aos diversos tipos de interação. Desta forma, as restrições são variáveis de interação para interação, de fase para fase, de tarefa para tarefa. Assimetrias em termos de perspectivas profissionais e perspectivas leigas também são comuns nos contextos de trabalho. Os autores citados acima reportam um achado comum na literatura, em que médicos, professores, entrevistadores, assistentes sociais , entre outros, têm a habilidade de dirigir a conversa estrategicamente de modo a gerenciar o design dos tópicos da conversa e a direcionar a interação através de perguntas estruturadoras e avaliação das respostas dos participantes, controlando, desta forma , a agenda interacional através da sua agenda ‘secreta’ (preestabelecida, de conhecimento só do profissional e à qual os participantes leigos não tem acesso). Na análise da interação em contextos institucionais há uma premissa que as interações institucionais são caracteristicamente recorrente de assimétricas , devido a uma conjugação de fatores complexos como conhecimento, padrões de interação, relações sociais e poder, comparadas com conversas espontâneas, que seriam mais simétricas por natureza. A 18 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 assimetria é uma característica constante das interações de trabalho, em que há uma relação direta entre status e papel, por um lado e direitos discursivos e obrigações, pelo outro. Na pesquisa maior, apresentada em Gonçalves (2000), desenvolvemos uma análise exaustiva do ciclo de serviço e das horas da verdade das diversas fases das interações. Neste trabalho, examinamos como se dá a abertura de interações em encontros de serviços turísticos. FASE 01: DAR AS BOAS VINDAS Abertura Abertura pelo Cliente pelo Atendente 26 07 Fechamento pelo cliente 21 Fechamento pelo Atendente 12 Abertura pelo atendente Comparando as aberturas feitas pelos clientes com as feitas pelos vendedores, pode-se observar que algumas das poucas instâncias ocorridas são de interações ao telefone, como é o caso, no exemplo abaixo: Gravação 01: Companhia Aérea _______________________________________________________________ 01 P1: ((Nome da companhia aérea)) reservas...boa tarde. 02 C: boa tarde...eh:: vocês têm vôo para Miami partindo do Recife? 03 P1: desculpe...pode repetir? 04 C: se vocês têm vôo para Miami...partindo do Recife? 05 P1: só com conexão em Brasília ou em São Paulo. No excerto acima, nota-se a abertura feita pela atendente da companhia aérea, com a identificação do receptor da chamada , seguida da rotina conversacional boa tarde. É importante notar, porém, que a contribuição da atendente é uma resposta ao toque do telefone, 19 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 um sinal não verbal de início de interação que é feito pelo soar do toque, uma intimação (summons) a responder. Quem inicia a interação, então é o cliente, através de um instrumento não verbal. Há, todavia, nesta interação, mesmo sendo iniciada pelo cliente, um aspecto diferente da abertura de outras interações. Ao identificar-se e saudar o cliente, a atendente está sinalizando ao cliente a sua prontidão para atender, iniciando portanto a produção (delivery) do serviço. A abertura de eventos interacionais de serviços envolve uma interação provocada com a finalidade de se obter informações, avaliar condições, e mesmo autorizar-se a prestação do serviço. Pode-se iniciar também por manifestações de oferta do serviço por parte do prestador. Na Fase de boas vindas, há uma série de atividades e/ou funções, entre as quais a saudação inicial é uma das mais importantes. Clientes gostam de ser cumprimentados, de preferência pelo nome, embora isso seja difícil ou impossível na maioria dos atendimentos com clientes novos ou eventuais. Clientes cativos, no entanto, não dispensam essa deferência. Na interação exemplificada acima, depois da identificação da companhia e do setor , a atendente, em (01) inicia a saudação do cliente, desejando-lhe boa tarde . Em (02) o cliente retribui a saudação com a segunda parte do par adjacente boa tarde e dá sequência ao início da produção, através da pergunta Vocês têm vôo para Miami partindo do Recife? , que é prefaciada pelo marcador de hesitação e a pausa em eh:: . Examinando as interações gravadas para este estudo, são raras as vezes em que o profissional inicia a abertura da interação. Ao todo, das 33 gravações estudadas, apenas 07 têm início verbal pelos profissionais, sem mencionar a comunicação não verbal. Examinemos os contextos abaixo: Agência de Turismo 2 01 P1: bom dia ( ) 02 C: bom dia. Éh:: por favor, gostaria de saber:: preço de pacote pra Fortaleza (0.56) 03 P1: cadê a parte de Fortaleza M.? ((P1 fala com outro funcionário)) 04 P2: (tem ao lado, aí na terceira fila) 20 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 05 P1 desculpe. ((P1 refere-se ao cliente)) (0.5) são quantas pessoas, é só você? 06 Agência de Viagens 1 01 P: Oi. 02 C: eu tava querendo informação sobre um... pacote pra Disney...em julho 03 P: Deixa eu pegar o programa Restaurante 1 01 P: bom dia.((o garçom entrega os cardápios)) 02 C: um prato é pra dois, né? 03 P: um prato é pra dois, sim. Loja de souvenirs no aeroporto 01 P: boa tarde 02 C: Opa, boa tarde. Quanto ‘tão essas camisas? 03 P: de quinze. Nos exemplos acima, os marcadores oi, bom dia, boa tarde foram os recursos linguísticos usados pelos atendentes para iniciar a interação com os clientes. Temos aí um exemplo de serviço tipo D , utilizando o nosso quadro de dimensões do serviço. A metamensagem que os atendentes estão transmitindo é “Nós nos preocupamos com você” . Quando o atendente é quem inicia o atendimento, verbal ou não verbalmente, ele/a está sinalizando ao cliente a sua prontidão para atender, isto é dando as boas vindas ao cliente e fazendo ele se sentir bem vindo, desejado naquele estabelecimento. Isto tem um efeito psicológico muito importante, pois predispõe o cliente para a compra, ou consumo do serviço do profissional. Ao mesmo tempo o profissional, através de um serviço amigável, personalizado, interessado e diplomático , está fazendo o micromarketing da hora da verdade, 21 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 melhorando ou conservando a boa imagem da sua marca e/ou empresa, pois causar a primeira impressão positiva é essencial. E você, profissional e a sua empresa só têm uma primeira e única chance de causar a primeira impressão positiva. Dar as boas vindas, todavia, não é o suficiente. É preciso fazer o cliente se sentir à vontade. O excerto abaixo ilustra esse ponto: Loja de artesanato 1 __________________________________________________________________ 01 C: Com licença, eu tô dando uma olhada aqui, tô conhecendo. 02 P: Tá, pode ficar à vontade, viu? 03 C: Tá linda, quanto tempo faz que tem isso aqui? __________________________________________________________________ Em (02), acima, a atendente verbalizou explicitamente o convite para o cliente ficar à vontade e sentir-se em casa. Além da verbalização explícita, sinais não verbais, gestos e postura também precisam acompanhar as palavras, para tornar a mensagem congruente e transmitir a prontidão para atender e a sensação de acolhimento. Podemos dar as boas vindas ao cliente, fazê-lo se sentir importante, querido, bem-vindo, ou podemos tratá-lo friamente, hostilmente, ou com indiferença. Como profissionais, podemos escolher a abertura de nossos serviços e o futuro de nossos negócios, consequentemente. O exemplo a seguir ilustra a falta de acolhimento ao cliente: __________________________________________________________________ Serviços Autorizados 01 C: ((a cliente entra no estabelecimento e não tem ninguém na recepção. Ela se dirige a um outro cliente, que também aguarda )) moço:: tem alguém aí::? ((ninguém responde)). Tem alguém aí? 02 P1 E aí? Já chamou? 03 C: já, mas:: num tô vendo ninguém. Como é o nome do rapaz 04 P1: (incompreensível). ((o rapaz entra para chamar alguém)). daqui? 22 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 05 P2: bom dia 06 C: bom dia... eh... trouxe esse:: telefone aqui. _____________________________________________________________________ ____________ Este é um exemplo do serviço tipo A . Na dimensão dos procedimentos, o serviço é lento, inconsistente, desorganizado, caótico e inconveniente. A mensagem não verbal que a postura de atendimento deste estabelecimento está transmitindo é: “Nós não nos preocupamos com você.” ”Nós não queremos você aqui” “Você não existe” ,”você é um estorvo”. Uma categoria intermediária de atendimento é o serviço tipo B Nesta situação o serviço é eficiente, padronizado, oportuno, mas não é eficaz, pois não alcança os resultados da satisfação do cliente. A interação abaixo ilustra esta situação: _____________________________________________________________________ ____________ Empresa Aérea 01 C: boa tarde. Você tem aquele:: desconto pra...até vinte e três anos? 02 P: Tem um desconto maior do que esse, sessenta por cento. 03 C: é? 04 P: Pra onde é? 05 C: Pra são Paulo. 06 P: Cento e noventa e cinco reais e (incompreensível) centavos 07 C: ida, ida e volta? 08 P: (incompreensível) 09 C: só ida? 10 P: (incompreensível) 11 C: (incompreensível) e noventa e dois ida e volta? 12 P: ((o funcionário faz que sim com a cabeça)) 13 C: certo. Tem/...é/ diário, vôo pra São Paulo, como é? 14 P: quatro e meia da manhã, sete e cinquenta e dezessete e trinta 15 C: diário, né? 23 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 16 P: ((o funcionário faz que sim com a cabeça)) 17 C: tá ok. 'brigada. _____________________________________________________________________ ____________ O funcionário, na dimensão dos procedimentos, se resume a dar secamente a informação técnica solicitada, mesmo assim a conta gotas. Age de forma apenas burocrática e padronizada, sem oferecer nenhum algo mais para o cliente. Na dimensão atitudinal, seu atendimento é insensível, frio e impessoal. A metamensagem que ele está transmitindo ao cliente é “você é um número”, “Não estou interessado em lhe atender ou tê-lo como cliente”. Ouvindo a voz do cliente/pesquisador, temos a seguinte impressão deste atendimento, conforme as notas de campo da bolsista (cliente/pesquisadora): ((quando a cliente chegou ao balcão, o funcionário encontrava-se bastante relaxado no balcão, como se estivesse cochilando. Não fez nenhum esforço em ser simpático e dava sempre a impressão de que a cliente estava atrapalhando alguma coisa. O atendimento foi feito sem qualquer entusiasmo.”)) Como traços interacionais , pode-se apontar a falta de cumprimento inicial na abertura, a postura desleixada e despreparada para o atendimento, a falta de retribuição ao cumprimento inicial e final (01 e 17), com o cliente tendo todo o trabalho de conduzir a interação. Além disso há um componente não verbal muito forte que sinaliza à cliente o total desinteresse, descaso, despreparo e apatia do atendente. Seu desinteresse se evidencia quando ele se limita a responder tecnicamente às perguntas da cliente, que não consegue as informações necessárias sobre se a passagem era de ida e volta, tendo que repetir várias vezes a pergunta, como em (07,09,11), ao que o atendente apenas fez que sim com a cabeça ou resmungou alguma coisa incompreensível. A dúvida da cliente sobre se o vôo é diário fica sem resposta convincente, pois o atendente tem dificuldade de ouvir o cliente (14),respondendo sobre os horários de vôo. Com a insistência da cliente em (15) ele responde não verbalmente em (16) e dá por encerrado seu atendimento, sem nem ao menos retribuir o agradecimento final da cliente em (17). Do ponto de vista atitudinal, portanto, nota-se uma total apatia, desinteresse, indiferença da parte do atendente, o que é transmitido verbalmente, mas enfatizado principalmente não verbalmente pela postura, atitude, tom de voz, como nos informa a 24 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 cliente/ pesquisadora em suas notas de campo:((O funcionário, que aparentava ter aproximadamente trinta anos, não foi simpático e demonstrou má vontade em atender à cliente. Passou as mãos na cabeça várias vezes como sinal de cansaço e indisposição, limitando-se a responder apenas ao que lhe era perguntado. Não deixou a cliente à vontade.)) A interação Agência de Turismo 2, reapresentada abaixo, ilustra, o serviço tipo C: __________________________________________________________________ Agência de Turismo 2 01 P1: bom dia ( ) 02 C: bom dia. Éh:: por favor, gostaria de saber:: preço de pacote pra Fortaleza (0.56) 07 P1: cadê a parte de Fortaleza M.? ((P1 fala com outro funcionário)) 08 P2: (tem ao lado, aí na terceira fila) 09 P1 desculpe. ((P1 refere-se ao cliente)) (0.5) são quantas pessoas, é só você __________________________________________________________________ Do ponto de vista dos procedimentos, o serviço é lento, inconsistente, meio caótico e desorganizado, com a atendente não dispondo de todas as informações e do conhecimento do produto prontamente para o atendimento, como ela evidencia em (06), onde procura as informações sobre Fortaleza e tem de recorrer à outra funcionaria para obter a informação solicitada.. Há , contudo, do ponto de vista atitudinal um tom amigável, personalizado e de interesse no atendimento. A atendente se desculpa pela confusão e falta de informações, em (08), com o marcador desculpe. É ela que inicia o atendimento , com o cumprimento ao cliente, em (01) e mantém, durante toda a interação uma postura atenta e cordial. No decorrer da interação, a atendente se preocupa muito em ouvir a cliente e ratificar se entendeu o seu pedido: 13 P1: 14 C: mas é/ algum desses hotéis você conhece? (o Íbis) 25 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 15 P1: O Íbis você conhece. O Íbis tá duzentos e setenta e seis por pessoa, incluindo as duas noites de hotel e a passagem aérea ida e volta. 16 C: e a noite extra? 17 P1 a noite extra fica no Íbis trinta e quatro reais 18 C: esse é o pacote mais em conta que vocês têm”? 19 P1: mais em conta. Você pretende ir quando? 20 C: quatro de junho 21 P1: julho? 22 C: junho. 23 P1: quatro de junho ((voz de um funcionário que tenta interromper o atendimento para falar com P1)) (0.7) depois eu vejo isso, tá? ((P1 fala com o funcionário e volta a atender o cliente)) quatro de julho é uma Quarta-feira aí você pretende passar mais de duas noites? 24 C: são três noites Uma estratégia constante que a atendente usa, para verificar se entendeu o pedido da cliente é repetir as últimas palavras da sua fala, como ocorre em (15,17, 19,23). A atendente usa habilmente esta estratégia como elemento coesivo do seu discurso e como forma de direcionar a produção, a prestação do serviço. Embora o serviço seja um pouco desorganizado e inconsistente, ela tenta focar o cliente, descartando as interrupções e outras tarefas concomitantes, comuns nestes tipos de atendimento, como em (23), onde o funcionário tenta interromper o seu atendimento, que ela descarta e volta a atender a cliente, repetindo a última informação dada: quatro de julho. A metamensagem que a funcionária passa é “Nós estamos tentando atendê-la melhor, mas ainda não sabemos como”. Em resumo, a fase de boas vindas, envolve dar as boas vindas, fazer o cliente se sentir bem e a vontade, e estabelecer o rapport com o cliente, isto é, alinhar-se positivamente ao cliente, posicionando a sua intenção de atender, encontrar o cliente em seu modelo de mundo, validando os seus valores e crenças, e deslocar-se para a posição do outro, para poder conduzir a interação e prestar um serviço de qualidade. 26 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 Conclusão Os resultados apontam para uma falta de consciência, por parte dos profissionais, da importância da comunicação verbal e não-verbal para a qualidade no atendimento.O choque de perspectivas entre o profissional e o cliente é fonte de desalinhamentos dos participantes em relação às atividades de fala nos encontros de serviços.Para criar e/ou despertar consciência dos profissionais há necessidade de treinamento proativo a (pre-serviço) e requalificação ou reciclagem (em serviços) dos profissionais para a qualidade nos serviços. Bibliografia Albrecht, K. (1992) Revolução nos Serviços: como as Empresas Podem Revolucionar a Maneira de Tratar os seus Clientes. São Paulo. Pioneira. Drew,P.&Heritage,J. (1993)Talk at work: Interaction in institutional settings.Cambridge University Press Goffman,E.(1981) Footing. In Forms of Talk. Philadelphia: University of Pennsylvania Press Gonçalves, J.C. (2000) análise da interação e qualidade da comunicação em contextos do trabalho. Trabalho de Pesquisa elaborado como requisito parcial para o Relatório do Projeto Análise da Interação e Qualidade da Comunicação em Contextos do Trabalho Processo CNPQ Número 520773/96-9 Gonçalves, J.C. (1994) Doctor-patient Communication: Training Practitioners For Change, em Language And Peace , editado por A. Wenden & C.S. Schaffner. Dartmouth Publishing Company, Aldershot, England Gonçalves, J.C.(1994) O Discurso e as Profissões: Análise da Interação em Contextos Institucionais. Investigações, Recife 4:59-71 Goodwin, C. & Goodwin, M. Context , Activity and Participation, em The Contextualization of Language, cópia xerox. 27 INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001 28