VII Seminário Internacional da LARES 25 – 26 de outubro de 2007, São Paulo, Brasil STILT HOUSES : BUILDING TYPOLOGIES IN COASTAL AREAS OF FLORIANÓPOLIS – SC PALAFITAS : TIPOLOGIAS HABITACIONAIS EM ÁREAS COSTEIRAS DE FLORIANÓPOLIS - SC GEISSLER, Helenne Jungblut 1, LOCH, Carlos 2, OLIVEIRA, Roberto de 3 1 Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil Rua João Pio Duarte Silva, s/n, Campus Universitário, Córrego Grande, caixa postal 476, FlorianópolisSC, Brasil. CEP 88040-970. tel (+55) 48 3721-9370 fax (+55) 48 3721-9939 [email protected] 2 3 UFSC, Departamento de Engenharia Civil, [email protected] UFSC, Departamento de Engenharia Civil, [email protected] Palavras-chave: habitação, palafitas, APO, áreas inundáveis ABSTRACT This analysis concerns to stilt houses trough a world approach and insertion in Florianópolis-SC in three crafts and professional fisheries nuclei. The method included bibliographical, photographic research, interviews and other to measure the housing performance using Post-Occupation Evaluation (POE) criteria. The difficulties were the availability to data access, due to land conflicts, negative image (stigma) from human inhabitants, whose use wood as a construction resource in spite of bricks.The case study was the stilt houses of Leal Spit (continent), Coral Spit and Tapera at island of Santa Catarina. Make use of the palafita type profits the inhabitant in several ways. Rustic and light construction technologies create a possibility to integrate the home to the environment, adds quality to coastal housing, e.g. Polynesia Islands, Venice, and other. Infer value to vernacular building systems is a typological option to rescue people’s culture. Thus, represents the potentials of that type in association with fisheries mollusks, and crustacean’s extractions with recreation and tourism activities. Also, reduces the risk of flooding in low coastal Brazilian areas as an adaptative effort to face the Global Heating Effects. RESUMO Essa análise aborda a tipologia palafita no panorama mundial e a inserção em Florianópolis-SC, em três comunidades de pescadores artesanais e profissionais. O método consistiu em pesquisa bibliográfica, fotográfica, entrevistas, comparando casos; mensurando o desempenho através de critérios de Avaliação Pós-Ocupação (APO). As limitantes desse ensaio foram a disponibilidade em acessar dados existentes, por tratar-se de área com irregularidade fundiária e de Marinha e a postura predominante que estigmatiza os habitantes, que usam a madeira e bambu ao invés de tijolos. Incorporar a palafita beneficia o genius loci, através da biofilia, do aspecto simbólico e do atávico. Independentemente do status quo, o tipo e a tecnologia construtiva empregada; gera rusticidade e fluidez permitindo integrar a habitação ao meio físico, agregando qualificação, ex. Ilhas da Polinésia, Veneza e outras. Oferece inúmeros benefícios por associar atividades produtivas relacionadas à pesca, ao cultivo de moluscos e crustáceos, lazer e turismo. Isso demonstra as potencialidades de habitações vernaculares resistirem à abrasão marinha e como meio de reduzir a susceptibilidade a inundações em áreas costeiras baixas advindas do Aquecimento Global. 1 1. INTRODUÇÃO É certo, que os núcleos litorâneos, no Brasil, exercem uma atração histórica sobre a população. Se no passado a convergência ocorria devido à facilidade no transporte e acesso, mais recentemente sofreu incremento pela busca de status social. Contudo, essa concentração excede a capacidade de meio de suportá-la. O modelo de ocupação massificada de áreas sensíveis, desprovida de maiores cuidados, como falta de saneamento básico, vem a incidir em comprometimento marinho, no Estado de Santa Catarina; que é responsável por 90% do mercado nacional de maricultura. Os episódios de FAN 1 ou maré vermelha experenciados durante o ano de 2007 e anteriormente geram indicadores da extrapolação de parâmetros aceitáveis. Ao mesmo tempo, a situação piora pela ocupação de áreas de fragilidade ambiental legalmente denominadas de Áreas de Preservação Permanente (APPS). Isso reflete de forma negativa sobre áreas bastante sensíveis a perturbações, como estuários, mangues, restingas e outros, causando degradação ambiental e inerente a isso a desvalorização de imóveis adjacentes. Mais recentemente, emergiu o contexto de MC 2 extensas advindas do Aquecimento Global, o que impõe novos e maiores desafios ao Poder Público e à iniciativa privada. De fato, ainda é incerto: o que pode acontecer com as cidades costeiras quando o NM 3 subir; quais são os impactos desse fenômeno sobre o meio físico; quais são os pontos vulneráveis diante dos prováveis efeitos, afirma Nobre, 2007. Para a piora do quadro da habitação, em geral, inexistem estudos dos impactos no país. Permanecem desconhecidas as vulnerabilidades da extensa região costeira brasileira, inclusive a capacidade de responder e de se adaptar. O agravo associa-se a diversos fatores, como a falta de metodologias próprias adequadas, de conhecimento sistematizado acerca do meio físico; do ambiente (sub) tropical e sua dinâmica ecossistêmica e da possibilidade de qualificar entornos degradados e agregar qualificação habitacional a tipologias construtivas diferenciadas. O problema é estratégico e da maior gravidade em faixas litorâneas com terrenos planos muito baixos, ou seja, situados em cota topográfica abaixo de 10m acima do NM; bastante vulneráveis. Apesar dessas áreas representarem apenas 1% da extensão costeira brasileira, nela habitam cerca de 8 milhões de brasileiros, a exemplo de Florianópolis, entre inúmeras outras, piorando a exposição a riscos diversos, entre eles o de inevitáveis inundações. Essa realidade denota planejar e gerir com cautela o direcionamento de investimentos públicos e privados em infra-estrutura e edificação nessas áreas. Mesmo porque a intervenção antrópica modifica a dinâmica geo-hidro-morfológica e outros. Ocupar, impermeabilizar e adensar o solo, aterrar, extrair água de aqüíferos subdunares e de lagoas isento de manejo adequado reverte em impactos negativos a médio e longo prazo para o meio construído. Advém erosão costeira, recalque de solos, entre outros efeitos, causados por alteração de correntes marítimas e equilíbrio hídrico entre porções terrestres sobre tênue camada sedimentar e áreas marítimas extensas. As construções na faixa de maré podem redundar em uma série de problemas e conseqüências se não forem corretamente inseridas nesse meio litorâneo bastante frágil. No entanto, tipologias como a palafita, consistem em tipo pertinente, uma vez que aliada à devida requalificação do suporte expressa uma edificação que reduz a vulnerabilidade a inundações. Além disso, as palafitas de Florianópolis remetem a cultura local e conferem identidade e autenticidade ao tipo. 1 2 3 Florações de Algas Nocivas Mudanças Climáticas Extensas advindas do fenômeno de Aquecimento Global, WMO , 2007. Nível Médio do Mar 2 3. REFERENCIAL TEÓRICO Habitação Habitar consiste na identificação do homem com seu entorno, si próprio e orientação. Isso denota proteger de danos e ameaças, poupar, cuidar, acolher, fazer se sentir seguro, Schulz, 1980. Para Oliveira (1995) a habitação envolve complexidades intrínsecas; acesso, garantia de ocupação e abrange uma base para funções e demandas e uma teia de ligações com o meio. Tipologias vernaculares O “tipo” arquitetônico expressa a complexidade da habitação e identidade mediante a linguagem para comparação a outras edificações e aos signos — a idéia a que remete, Martínez, 1998. Isso supõe compreender o conceito, o contexto, a inserção, a origem como processo de composição equacionando função, programa, codificação, materiais construtivos a utilizar através da criatividade e realizar intercâmbio do plano conceitual para o material, Mahfuz, 1995. A habitação precisa captar o genius loci, transformar o lugar comum através de personalização e apropriação, converter a utilidade em ícone, considerar materiais e significados. Isso significa utilizar um tipo adequado às características econômicas e temas que movem o local, valorizar as relações de vizinhança, administrar os limites físicos e trabalhar com as técnicas disponíveis. O tipo expressa a materialização de um produto social e não caracteriza um objeto individual “em si mesmado”, mas um componente não estável sujeito à influência de fatores estocásticos, entre eles a natureza e as relações humanas. Isso introduz um grau expressivo de dinamismo e de susceptibilidade a mudanças, a contemplação, a interação com usuários. Desse prisma um tipo surge em resposta ao enfrentamento de situações diferentes, contribuindo em comportamento segundo circunstâncias variadas com as quais o ser humano se depara, Argan, 2000. O uso racional das formas e materiais construtivos é a característica mais importante das edificações e assentamentos vernaculares, que são produzidos em situações de escassez econômica, quando a necessidade de sobreviver e suprir urgências vitais, como a de alimentação, resulta na otimização ao nível máximo de recursos disponíveis exercendo forte influência sobre decisões arquitetônicas em habitações. Em povoações palafitárias, seja na Idade do Bronze, ou nas atuais da Melanésia o desperdício não forma parte da tradição dessas culturas, que se sobressaem como exemplo paradigmático de tipologias de edificações economicamente corretas. Nelas o acesso e circulação ocorre essencialmente através de galerias e passarelas frontais ou por canoas na água como nas Ilhas de Almirantazgo, Mascaró, 2004. Palafitas A expressão provém do italiano Palafitte e refere-se a uma stilt village Ameríndia. Esse tipo consiste em um sistema construtivo leve para regiões alagadiças, cuja estrutura se assenta sobre pilotis de madeira. É muito comum em todos os continentes, principalmente em áreas tropicais e equatoriais com alto índice pluviométrico. Tem pouca durabilidade, advinda da biodeterioração; o que gera um horizonte de uso útil de 20 a 30 anos. É bastante utilizada na orla litorânea, em margens dos rios, de lagos e lagunas. Tem inspiração na vegetação de bordas d´água (mangues). A Palafita é uma tipologia vernácula erguida mediante técnicas e materiais tradicionais, madeira, bambu, palha, e outras, Santos apud Metello et al., 2005. Uma palafita é um sistema constituído por base de pilares de madeira e vigas de grande durabilidade natural, fazendo o contraventamento de toda a estrutura do piso, paredes e cobertura. Localiza-se acima do solo (>2,00 m), o que possibilita aproveitar mais o espaço, facilita a manutenção e evita que as inundações atinjam o piso das habitações. No Brasil, usam-se as espécies de Maçaranduba (Manikara sp.), Ipê (Tabebuia spp.), Itaúba (Mezilaurus itauba), Castanha Sapucaia (Lecythis pisonis), sobre as quais se efetua a montagem da habitação propriamente dita, Beraldo apud Metello et al, 2005. 3 Para Soares e Espinheira (2006) o ambiente aquático-palafita, quando comparado ao ambiente em terra firme - conjunto habitacional, revela uma ordenação de vida e de hábitos diferenciado. Um aglomerado de palafitas possui diferenças marcantes, a começar pela configuração urbana, que é um ambiente criado sobre a água, ao contrário de habitações sobre a terra firme. São também dois estilos de vida e de pactos sociais tacitamente estabelecidos. A morada em palafita consiste em artifício habitacional de utilização inadequada do espaço aquático. No Brasil o tipo flagra a precariedade de políticas habitacionais e a pobreza da população. Moradores de palafitas expressam uma variedade de práticas cotidianas, as quais refletem seu ambiente de morada. As práticas envolvem o morador da palafita com o ambiente da maré, como parte do ecossistema. O envolvimento vai além da utilização como morada para um enraizamento produtivo. Nesse contexto, os moradores utilizam-se do ambiente como meio de obtenção de alimentos para autoconsumo e de pesca e mariscagem e comercialização, obtendo com isso rendimentos. As relações na zona de marés elaboram práticas e rituais, que perspassam entre os moradores das palafitas na constituição de suas identidades e no desenvolvimento do sentimento de pertença, como o rito da construção das palafitas (mutirão) e das passarelas, da pesca, a mariscagem, os banhos de mar, os mergulhos lúdicos e os festejos da maré. Esse sentimento em comunidades palafíticas é visível nas relações existentes entre os moradores a partir de múltiplos rituais. O ambiente palafitário traduz-se em "territorialidade" construída historicamente; cujo fator atua como variável na formatação do modo de vida. Antecedentes Históricos Em termos arqueológicos, a Palafita, remete à Pré-história, período Neolítico; Idade do Bronze indicam escavações de Ferdinand Keller. Elas formavam aldeias, como as celtas, ilhas artificiais na região dos Alpes; Áustria, lagos em Zurique-Suíça, na Itália, na Escandinávia e pântanos na Alemanha. Continuam sendo uma prática construtiva no Oeste da África. Nas Américas as Palafitas mais antigas são datadas da Idade Pré-Colombiana, ou período entre o povoamento inicial há cerca de 20 mil anos até o “descobrimento” em 1492, Wikipedia, 2007, Buratto, 2007. Na Oceania e Sudeste da Ásia também persistem as palafitas, como na Polinésia Francesa; Bora-Bora, Moorea, Nunue, Point Ratiti, Tikehau, Tahiti, Vahine, onde a tipologia serve para defesa de animais selvagens, inimigos e subidas das marés. Associa-se a significado simbólico de proteção e místico e facilidade de acesso a água; rios e mar. Há um ritual de construção. A posição da casa é o reflexo da idéia do cosmos. A palafita exprime a estrutura social, o status dos moradores e relações familiares. Há normas sobre a ocupação espacial da casa e compartimentos femininos e masculinos. Mais recentemente, o sistema construtivo foi incorporado para resorts. Outros exemplos são encontrados na França; onde as cabanes de tchanquées possibilitam, que os habitantes possam vigiar a coleta de ostras de fazendas aquáticas no Lago de Arcachon em Aquitaine, caracterizando a compatibilidade do tipo com atividades produtivas, Gianini, 2004. As edificações facilitam a mobilidade e o acesso favorecidos pela água e pela utilização de barcos. Obviamente, é indispensável atentar para exemplos como a cidade de Veneza na Itália, construída em ilhas sobre uma laguna. Muitas das construções são palafitas edificadas sobre o mar e/ ou lama. A ocupação indevida a “pérola do Adriático” agravou inundações, recalque da área urbanizada de 23 cm nos últimos 100 anos e poluição hídrica. Há 2 séculos a famosa Piazza di San Marco precisava ser interditada por causa da maré anômala de cerca de 1-1,8m 2 vezes ao ano. Hoje a acqua alta ocorre toda a semana sendo necessário alertar a população com sirenes e evacuar grande parte da cidade causando inúmeros prejuízos. A tendência dos próximos 50 anos é de que as inundações ocorram diariamente. Essa pauta é controversa intervir ou não para evitar a piora do processo na cidade tombada pela UNESCO 4 como Patrimônio Mundial da Humanidade informam, Drake, 2004, Guerin, 1998, id. 2002, 2003, Podger, 2002. 4 Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. 4 New Urbanism A construção de um cenário vernacular aproxima-se do Novo Urbanismo. Ambos exploram a dinâmica das conexões físicas e sociais fazendo referência à procura ou busca de espaços urbanos tradicionais. Neles rejeitam-se os métodos “modernos”, resgatando a vida em comunidades. Jane Jacobs, Aldo Rossi, Vincent Scully, Leon Krier, Christopher Alexander, Salíngrados e Andrés Duany procedem a revivals dos princípios que moldaram comunidades no passado. Exemplos históricos bem sucedidos ressurgem como articulações para a formar uma base conceitual e produzir lugares para melhoria de qualidade de vida, Costa, 2004. Incorporar essa vanguarda implica em abandonar os métodos urbano-arquitetônicos em voga. 4. METODOLOGIA O método utilizado consistiu em pesquisa bibliográfica, fotográfica, coleta de dados, de depoimentos, entre outros, visando analisar e comparar casos de tipologias habitacionais afins de palafitas; avaliar e mensurar o desempenho habitacional utilizando como balizador os critérios de Avaliação Pós-Ocupação (APO) e analisar a proposta de retirada da população. As limitantes foram à disponibilidade em adquirir, acessar e consultar dados existentes, por tratar-se de área com irregularidade fundiária e de Marinha. Além disso, a postura predominante que estigmatiza com baixo status social os habitantes, que fazem uso de materiais como madeira, bambu, entre outros, que constituem um contraponto a casa de “material”, ou seja, de alvenaria. Caracterização da Área de Estudos Os locais utilizados para a presente análise decorreram da existência da tipologia Palafita em três áreas no município de Florianópolis, no Estado de Santa Catarina, Brasil, cujas coordenadas são 27°35'48 “Sul e 48°32'57" Oeste. As áreas analisadas consistem na Ponta do Leal5, situada na porção Continental6, a Ponta do Coral7 (ou do Recife) situada na região Central próxima ao mangue do Itacorubi, ambas na Baía Norte e a Praia da Tapera8 ou Praia de Fora na porção 5 A Ponta do Leal, antiga Ponta da Lama outrora pertencia ao Distrito de João Pessoa. No passado ocorriam outros usos, a exemplo do terminal marítimo para combustíveis realizadas pela Texaco S/A desde 1920. O local era uma comunidade de pescadores, especialmente porque o mar era limpo e piscoso. Atualmente, a pesca ocorre noutros locais. A “ponta” caracteriza área convexa, que avança na Baía Norte e reúne duas pequenas praias em seqüência. A praia tem areia média e escura, entrecortada por pequenos aterros com vegetação ou para avanço de propriedade sobre o mar. A extensão é de 800m, largura de 0-8m. A faixa de areia não é contínua. Há um pequeno pier atracadouro para barcos. 6 No decorrer dessa pesquisa foi lançado projeto de Porto Turístico para atender a Rota de Cruzeiros Internacionais Transatlânticos, com capacidade para quatro navios e movimentação simultânea de até 10 mil pessoas, aquário gigante reproduzindo a biodiversidade marinha, hotel, instalações para cursos de graduação ligados ao mar e Marina para grandes veleiros; orçado em cerca de R$ 180 milhões de reais, DC, 2007. Isso representa uma ameaça ainda maior para a comunidade de pescadores e, inclusive, à identidade local. O fato, expõe o núcleo de palafitários a risco iminente de rompimento de atividades produtivas tradicionais, artesanais ou profissionais além da perda a prática construtiva vernacular em palafitas, que uma vez qualificada representaria singular atração turística. 7 A Ponta do Coral é um referencial geográfico de muita utilidade à navegação. No passado, assegurava a orientação para entrada de barcos de carga e descarga, apesar do arrecife à sua frente. De 1930 até 1950, abrigou um entreposto de distribuição dos tonéis de gasolina, querosene, óleo combustível e lubrificantes. As duas pequenas praias existentes na Ponta do Recife são de mar, de baía, águas mansas, areia amarelada e de textura média, aparecem e desaparecem com os movimentos de mares. É constituída por duas praias, uma com orientação Norte e outra Sul, cuja extensão é de 350 m e 400 m, respectivamente. A primeira possui 2-8m de largura e segunda 0-6m, SMTCE, 2002. A empresa norte-americana Standard Oil comprou a área da Ponta do Coral de particulares e em 1930 construiu um trapiche e um depósito de combustíveis na área para abastecer os veículos que começaram a circular na Ilha após a inauguração da ponte Hercílio Luz em 1926. Na época, a Prefeitura considerou esse uso perigoso e proibiu a instalação do depósito de combustíveis dentro do perímetro urbano. Essa disputa foi entregue à Justiça catarinense, que deu ganho de causa à Prefeitura. Em 1960, a empresa norte-americana vendeu a área para o Estado de Santa Catarina, que utilizou o prédio ali existente para instalar a lavanderia do antigo Abrigo de Menores e o terreno passou a ser utilizado também como local de lazer comunitário e dos próprios internos do Abrigo. Em 1980, após a implantação da Avenida Beira-mar Norte, a gleba foi dividida em duas partes, separando a Ponta do Coral do Abrigo de Menores. A situação gerou manifestações públicas e protestos, pois a comunidade reivindicava a área como praça pública. Apesar disto, a Ponta do Coral foi vendida a iniciativa privada.Após a venda a lei municipal, que definia o terreno como área verde, foi alterada para permitir a construção de um hotel, o que ainda não ocorreu até hoje, NC, 2004. 8 A Praia da Tapera foi desabitada e abandonada por muitos anos, desde o extermínio e processo de “aculturação” do grupo Carijó, que lá habitava. A (re)ocupação humana da área data do início do século XX; ao final de 1920, quando é construída a Base Aérea. A área passou novamente a servir de apoio, pela proximidade de duas pequenas ilhas, a das Laranjeiras e a da Dona Francisca (ou das Flechas) facilitando a pesca e a coleta de frutos do mar, favorecida pelo enorme baixio da Baía Sul, onde abunda o berbigão e facilita o cultivo do mexilhão e ostra em fazendas aquáticas. A partir de 1960 a Tapera entrou no rol de praias de veraneio e de recreio dos florianopolitanos, adquirindo a característica de praia familiar e semi pública. Com a maior visitação encontrou-se na Tapera sitio arqueológico extenso, que foi explorado exaustivamente entre 5 insular ao Sul da Ilha e na Baía Sul próxima ao mangue homônimo e ao existente na Reserva Extrativista da Costeira do Pirajubaé (RESEX). Esse último local foi um reduto habitado por índios Karai – yo ou Carijó 9, informa PMF, 2007. PONTA DO LEAL PONTA DO CORAL TAPERA Figura 1: localização da área de estudos, fonte: ITIS, 2007. Figura 2: localização das comunidades palafitárias, fonte: adaptado de SMTCE de Florianópolis 2002. 1962 a 1967, recolhendo-se conchas, carvão vegetal, machados polidos, batedores, amoladores, além de 172 sepultamentos. O acervo arqueológico foi encontra-se depositado no Museu do Homem do Sambaqui, em Florianópolis. A praia é uma tradicional colônia de pescadores artesanais do Sul da Ilha, 27 Km distante do Centro. Nos finais de semana ela se transforma, seu cotidiano altera-se pelo afluxo de população que reside no centro de Florianópolis. Atualmente há outros moradores permanentes de maias alta renda provenientes do centro da cidade. A Tapera é uma praia interna de Baía, tem mar calmo. Recebe impacto de vento no sentido Sudoeste e é protegida pelas duas ilhotas. De sua margem é possível avistar balneários no continente e que pertencem ao município de Palhoça como a Praia de Fora e a Praia do Sonho, Sul da Ilha, 2007. A praia possui areia média e amarelada. O fundo do mar da Baía Sul apresenta-se levemente lodoso e algumas partes cascalhadas. É piscosa e muito freqüentada por banhistas e pescadores amadores. Integra a área do Distrito do Ribeirão da Ilha. É uma praia de baía, interna, de águas mansas. A Praia da Tapera tem como limites ao Norte a ponta de Caiacangamirim e ao sul a restinga que liga a praia, em marés baixas, a Ilha Dona Francisca, Portal da Ilha, 2007. Não haver consenso sobre as dimensões efetivas da praia 520 a 650m de extensão e 2 a 11 m de largura. A área em que ocorrem as Palafitas é a Tapera do Sul. Essa possui uma faixa longa de mangue e recebe em seu trecho o deságüe de três riachos de maior volume d'agua e outros pequenos formando um largo baixio lodoso, com pequenos bolsões de areia fina, porém de cor cinza. Os limites têm início no Rio Basilio na Base do Morro da Tapera, ao Norte e seque para o Sul, até a Ponta dos Correias. A rodovia, segue paralela à praia, em distância variável de 10 a 40 metros. A área adjacente, entre a estrada e a praia, encontra-se totalmente ocupada, por construções desordenadas constituindo perigo para o ecossistema da Tapera e Rio Basílio. Nesse trecho a extensão é de 1.500 m e largura de 1 a 50 metros. Ibd. A Tapera possui mais de quarenta residências fixas junto à praia e outra centena circunvizinhas, sendo portanto bairro residencial e familiar. A pesca aos poucos, vem sendo deslocada para as praias do Garcia e/ou, Canto do Rio e Saco, SMTCE, 2002. Ambos os recortes selecionados são habitados por comunidade de pescadores artesanais, coletores e cultivadores de moluscos que têm facilidade de acesso à água. 9 Kari – yo ; ou Carijós eram grupos indígenas, que ocupava uma extensa faixa litorânea de Cananéia (SP) até a Lagoa dos Patos (RS). Eram vistos como "o melhor gentio da costa" dóceis, trabalhadores e bem intencionados. De fato, o grupo étnico Carijó pertence ao ramo Guarani. O grupo indígena habitou a Meiembipe (Florianópolis), cujo termo que significa porção de terra após o grande rio, do século XIV ao XVII. Essa etnia indígena foi dizimada ainda em meados do século XVII ou escravizada. Em Florianópolis os Carijós cultivavam na roça alimentos e algodão, fiavam, teciam, produziam redes e agasalhos, trabalhavam também com cerâmica, peles e adornos de plumas e penas, pigmentos e venenos. Dedicavam-se a trabalhos em madeira para canoas, armas, pesca, caça e coleta no mar e nas florestas e outros. Construiam casas, cuja cobertura era realizada com cascas de árvores. Aliás, a etimologia do termo define Tapera como pequena casa de índios. Para o “colonizador” português, a palavra designou casa abandonada, em ruínas, ou simplesmente, local abandonado. Costumavam a ajudar com suprimentos a todos os navios que lhe solicitassem auxílio, até, que ao se dar conta da traição pela sua boa fé, passaram a considerar os brancos inimigos. Os pajés dominavam conhecimentos fitoterápicos e outras técnicas para cura de doenças em estado bem mais adiantado, que os demais povos indígenas do Brasil. Realizavam rituais, bênçãos, feitiços, bruxarias e mandingas. Jesuítas relataram que alguns diziam ter parentesco com ser superior, que denominavam de caraibebes; ou anjos desfrutando de vida mais confortável, recebendo os melhores frutos da terra e as mais cobiçadas caças que fossem abatidas nas cercanias. Os Carijós eram cerca de 100 mil, enquanto os Guaranis somavam 1 a 2 milhões de pessoas, Wikipedia, 2007. 6 5. RESULTADOS As características das palafitas, em Florianópolis, são determinadas pela conformação física do local, adaptação topográfica às condicionantes.A estruturação das unidades ocorre em L, em U e fita linear na Ponta do Leal, na Ponta do Coral e na Tapera, respectivamente. Nesse ínterim, no caso do Estreito e da Tapera, o espaço sobre a areia e a Baía caracterizam espaço semipúblico, sendo que as tipologias de habitação voltam-se para essa área costeira. Ocorre, inclusive, controle visual, que os pescadores e família desenvolvem na área. As palafitas exercem uma relação simbólica diferenciada; ao contrário das demais edificações em alvenaria do entorno, que em sua maioria estruturam fundos de lote em muros cegos para a praia. A Ponta do Coral representa um caso a parte, pois ela encontra-se indiretamente isolada do tecido urbano do entorno pela Avenida Beira-Mar Norte, que delimita a área na face posterior. Aliás, isso que constituiu uma barreira na estruturação de lotes. Ao mesmo tempo, essas três áreas não sofreram com a quebra da relação com o mar, permitindo a continuidade do desenvolvimento de atividades de pescaria por essa comunidade. Opostamente, o projeto da Av. Beira-Mar Continental no Estreito, atinge o núcleo de pesca da Ponta do Leal na face frontal e dificultará a atracação de barcos, que ocorre na área, dificultará ou inviabilizará as atividades pesqueiras e contribuirá para o rompimento da relação com o mar. As palafitas constituem tipo de construção vernácula, que expressa a simplicidade de formas, uso de materiais locais, a escala humana e a integração na paisagem. O tipo em áreas litorâneas representa uma tipologia em madeira com reduzido número de vãos, na qual predomina a adoção do critério do mínimo custo – least cost path, uso da geometria e flexibilidade nas unidades. A tipologia tem conceito baseado em estrutura de madeira sobre a qual assentam-se vedações e cobertura de uma ou duas águas. Muito embora sejam vistas como habitações de pescadores têm estilo e particularidades específicas, que podem ser estendidas a outras edificações em inserção análoga.Em termos morfológicos, podem ser sintetizados 3 tipos de unidades observadas em campo: solta; parcial e/ou completamente geminada. A circulação ocorre através de percursos livres na areia à frente e atrás dos núcleos, passarelas e “pontes” de madeira, a priori restritos ao pedestre em meios a pedras e dentro dos conjuntos. A infra-estrutura urbana dos locais inclui ranchos e galpões para barcos e guardar tarrafas e redes, píer atracadouro de barcos em madeira e em concreto e frente às praias. Os núcleos da Ponta do Leal, Ponta do Coral e Tapera são providos por água encanada, luz elétrica e dotados de sistemas individuais de saneamento na maior parte das unidades. Verificam-se, em campo, tipologias de 1 e 2 pavimentos, padrão geométrico em planta quadrada ou retangular, sendo rotacionada em função das condicionantes, como pedras na borda d´água. Os materiais e técnicas de construção empregados consistem em estrutura de apoio com pilotis com seção circular de concreto ou de madeira roliça; assentada sobre a areia ou pedras. O sistema estrutural é composto de vigas e pilares, além de travamentos diagonais contra a correnteza e maré. As vedações são tábuas de madeira fixadas na vertical e bambu. Nas instalações hidráulicas e para suporte de cargas de caixa d´água, principalmente módulos para bwcs há paredes de alvenaria de tijolos. As aberturas de portas e janelas são rústicas, de material de demolição ou modelos prontos de madeira ou de metal. A cobertura utilizada nas unidades é composta de telhado 1 ou 2 águas utilizando telha leve em telha de fibrocimento, plástica, metálica ou semelhante. As palafitas constituem unidades compactas, porém fluídas, por associar em sua estruturação varandas cobertas, rampas e/ou escadas de acesso ao mar para pedestres ou barcos e “decks”. Outro aspecto a destacar é a preocupação com a demarcação simbólica de cada palafita. Isso se dá por meio da pintura e uso de cores variadas, brancas, vermelhas, amarelas, azuis, verdes, ou mantendo a cor natural da madeira. A personalização inclui ainda gaiola de pássaros de estimação, em geral, canários e curiós, plantas, arvoretas, entre outros, fornecendo uma 7 identidade singular a cada palafita. Além disso, há a manutenção das unidades pela substituição periódica de estrutura e/ou peças danificadas ou apodrecidas, visando à segurança dos usuários. 6. DISCUSSÃO & CONCLUSÃO O exemplo das palafitas de Florianópolis constitui um contraponto autêntico regional a tipos arquitetônicos globalizados. Suas premissas construtivas constituem forma revisitada de sistema racional, otimizado e econômico bastante adequado. Sob diversos aspectos a tipologia apresenta ótimo desempenho, ex. acessibilidade, por mar e/ou por terra, entre outros. Nota-se, sobretudo, que entender uma tipologia vernácula implica (des) construir (pre) conceitos e mentalidade insensível. Implica em (re) ver, compreender, conviver com a diferença, sua autenticidade, seu modus vivendi diferenciado dos modelos “modernos”, como é o caso da tradição da técnica de construção em Palafitas. Em Florianópolis, muitas dessas edificações existem há mais de quarenta anos. Elas representam uma possibilidade oferecida por sistema vernáculo adequado enfrentamento de inundações. Incorporar o tipo no município fornece autenticidade às edificações locais devido a diversos fatores, como em relação aos setores produtivos beneficiando as relações sócio-econômicas, principalmente em comunidades de pescadores artesanais e extrativistas de frutos do mar; moluscos, crustáceos, favorecendo a escala humana e privilegiando o uso de materiais locais. Entretanto, a falta de visão estratégica quanto à aplicabilidade do sistema construtivo em palafita não estimula, que a tradição permaneça, tanto Florianópolis, como em outros locais. Para a piora do quadro, eliminar o conhecimento tradicional desse tipo vernacular destrói a teia de relações que ocorrem nas comunidades pesqueiras remanescentes. Mais ainda, incide na perda de articulação do meio construído terrestre com o marítimo e o vínculo com atividades produtivas. Sob a lente arquitetônica, os casos analisados suscitam uma revisão dos tipos utilizados na atualidade. As palafitas da Ponta do Leal, do Coral e Tapera expressam arquitetura plurifuncional associada a atividades econômicas e tem, portanto, estreita relação com o mar. Essa pesquisa visa revelar a necessidade de considerar o aspecto cultural, o que indica que manter e valorizar Palafitas propicia um meio de resgatar a edificação enquanto artefato oriundo do legado de povos nativos da região – a Tapera dos índios Karai- yo ; ou Carijós. Em termos construtivos percebe-se que consiste num tipo bastante prático, leve e flexível, cuja velocidade de edificação é uma opção atraente. De certo, que o aspecto perenidade é indispensável numa APO e que as palafitas de Florianópolis, são uns tipos de habitação que sofre biodeterioração, como outras tipologias. Entretanto uma retroalimentação revela, que essas são resistentes e apresentam uma série de vantagens em relação a outros sistemas construtivos. As palafitas resistem à salinidade, a ação de maresia e a abrasão marinha, na região, há mais de quatro décadas. Nesse lócus a madeira é um material muito mais aconselhável quando comparado a estruturas de concreto com armaduras de aço, argamassas armadas e vedações em alvenaria de tijolos ou blocos de concreto. Enquanto esses são seriamente afetados por contato com a água salgada e impacto de ondas, ainda que dentro da área de Baías sofrem a curto e médio prazo desagregação de partículas em curto espaço temporal e perda de suas propriedades físico-químicas, aqueles mantêm seu desempenho construtivo em longo prazo. Incorporar esse conceito de palafitas e capacidade de tipos adaptáveis ao problema pode ser uma solução bastante eficiente somado a flexibilidade dos sistemas construtivos e outras técnicas alternativas. Sugere-se, todavia, integrar na APO o desempenho temporal, pois a priori desconsidera-se a habitação enquanto tipo perecível. É indispensável observar a madeira a utilizar e propriedades específicas, além de utilizar material de origem conhecida, proveniente de manejo florestal adequado como a madeira certificada, evitando o indesejável desmatamento e assegurando a manutenção de florestas nativas. 8 Tomar partido da tipologia responde a demandas sociais “sintonizadas” com a cultura das comunidades, visto que recuperar esse tipo de edificação vernácula aumenta a auto-estima da população e cria meio construído adequado e, inclusive, emocionalmente satisfatório. Incorporar esse tipo construtivo em Palafitas em outros empreendimentos, ainda, oportuniza incrementar a renda através do turismo, venda de artesanato e outros. Mesmo porque implementar a tipologia significa contribuir, inclusive, para resgatar e valorizar saberes tradicionais e destacar a identidade dos habitantes constituindo singular atração turística. 7. REFERÊNCIAS ARGAN, G. C. projeto e destino. São Paulo: Ática, 2000. 334p. BENTLEY, I. ALCOCK, A. MURRAIN, P. McGLYNN, S. SMITH, G. Entornos vitales : Hacia un diseño urbano y arquitetónico más humano: manual práctico. Barcelona : GG, 1999. 151p. BUSQUETS, J. Nuevos fenômenos urbanos y nuevo tipo de proyeto urbanístico. In: Mostra Presente y futuros.. XIX Congresso UIA . Barcelona: College d’Arquitectos de Catalunya, 1996. BURATTO, S. E. Breve Storia Del Veneto:. Disp.: <www.buratto.net/buratto/Veneto.htm> ac. 18 junho 2007 CLARCK, R.H. PAUSE, M. Arquitectura: temas de composición. México: G.G., 1987, 226p. COSTA, A. L. R. M. F. Lugar: absurdo da liberdade. Arquitextos 045. texto 217. 2004. Fevereiro. Disp.: <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp217.asp> ac. 19 abril 2004 DC. 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