O Simbolismo em Organizações Desportivas – o Caso do Fluminense e seus Hinos
Autoria: Elcio Loureiro Cornelsen
Resumo: Nossa contribuição visa a uma análise das especificidades de construção simbólica
em organizações desportivas. Como objeto de análise, elegemos o Fluminense Football Club
e, especificamente, as letras de seus três hinos, compostos em 1915, 1920 e, respectivamente,
1945. Para nossa análise, partimos do pressuposto de que toda organização, inclusive as
agremiações desportivas, dispõem de um arsenal de estratégias e produtos que permitem a
construção identitária de si, transmitida a sua “clientela” principal, no caso dos clubes de
futebol, seus torcedores. A base teórica principal de nosso estudo se orienta por pesquisas
desenvolvidas na área dos Estudos Organizacionais sobre “simbolismo organizacional”.
Simbolismos, Culturas e Identidades em Organizações Desportivas
Nas últimas décadas, constata-se um crescente número de pesquisas que tomam o
esporte como objeto de análise no âmbito dos Estudos Organizacionais. Uma das hipóteses
plausíveis para essa tendência seria o fato de que, com a intensificação da globalização
econômica a partir da década de 1980, fazendo com que o esporte se tornasse uma importante
indústria da economia mundial, algumas modalidades esportivas e respectivos clubes
passaram a receber atenção especial no que diz respeito não só à gestão administrativa e ao
marketing esportivo, mas também à própria estrutura e cultura organizacional. No caso
brasileiro, sem dúvida, por ser considerado como o “esporte nacional” (Costa, 2005, p. 7), o
futebol é aquele que mais tem recebido atenção por parte de pesquisadores da área, sobretudo
o futebol profissional.
Entretanto, verifica-se que, nessa tendência, ainda há certos aspectos que não foram
contemplados pelas pesquisas, dentre eles, o estudo de agremiações esportivas que tomem por
referência o simbolismo organizacional.
Diante disso, elegemos o Fluminense Football Club e, especificamente, as letras de
seus três hinos, compostos em 1915, 1920 e, respectivamente, 1945, no intuito de contribuir
com uma análise das especificidades de construção simbólica em organizações desportivas,
num período que abrange os primórdios da fase amadora e as primeiras décadas da
profissionalização, fruto da franca popularização pela qual passou o futebol no Brasil a partir
da década de 1920. Para isso, partimos do pressuposto de que toda organização, inclusive as
agremiações desportivas, dispõem de um arsenal de estratégias e artefatos que permitem a
construção identitária de si, transmitida também a sua “clientela” principal, no caso dos clubes
de futebol, seus torcedores.
Entendemos que, como em qualquer organização, os clubes de futebol também podem
ser estudados a partir da ótica do simbolismo organizacional. Pedreira, Moretto Neto e
Schmitt (2007, p. 4) chamam a atenção para o fato de que “[o]s princípios administrativos são
inerentes a toda e qualquer organização, seja ela empresa, universidade, grupo musical ou
instituição esportiva”. Além disso, “[o]s clubes de futebol são organizações sociais nas quais
ocorrem inter-relações de múltiplas variáveis e interesses assumindo características de
organizações complexas” (Pedreira et al., 2007, p. 5).
Consideramos as organizações desportivas um espaço privilegiado de criações e
reproduções simbólicas, por implicarem questões de identidade, espaço, tempo e
territorialidade. Necessariamente, essas questões passam pelo modo como, num dado contexto
e sob influência de valores específicos, uma organização constrói a imagem de si. Nesse
sentido, podemos falar da construção de um “ethos”, conforme postulado por Smircich (1983,
p. 57) e Geertz (1989, p. 143).
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Por sua vez, podemos adotar também uma categoria proposta por Schultz, Hatch e
Larsen, para pensarmos a agremiação desportiva enquanto “organização expressiva” (2000, p.
9), ou seja, aquela que coloca em relevo os pilares simbólicos de suas atividades, como a
identidade, a cultura e a imagem da organização. Ao partirmos desse pressuposto, lançamos a
seguinte questão que norteará este breve estudo: que especificidades podem ser detectadas em
uma dada agremiação desportiva quanto à construção simbólica de sua imagem e identidade?
Procedimentos teóricos e metodológicos
No intuito de tentar responder a essa questão e de atingir o objetivo proposto de
analisar construções simbólicas de agremiações desportivas, elegemos como referencial
teórico conceitos derivados de estudos sobre simbolismo organizacional. Como bem aponta
Boyce (2002, pp. 83-84), baseada nos estudos de Dandridge, Mitroff e Joyce, “[o] simbolismo
organizacional implica a construção de sentido nas organizações e liga-a a uma forma”. Para
Smircich e Calas (1985), os estudos de simbolismo organizacional, dentre outros, focariam
seu interesse em discursos simbólicos. No mesmo sentido, Latouche (1983, p. 272) fala de
uma dimensão “narrativa” na análise simbólica das organizações, que contemplaria slogans,
sagas, lendas e músicas veiculadas discursivamente.
Como nos lembram Pardini, Gonçalves e Kilimnik (2008, p. 52), “o termo ‘símbolo’
pode ser usado para se referir às coisas que emergem dos valores, pressupostos e idéias
compartilhadas na organização”. Para Nascimento (2009, p. 28), baseando-se em Hofstede
(1997), “[o]s valores indicam as manifestações mais profundas da cultura, enquanto os
símbolos representam as manifestações mais superficiais e os rituais e heróis encontram-se
numa situação mais intermédia”. Ainda segundo o autor (Nascimento, 2009, p. 29), “[o]s
símbolos são figuras, palavras, objectos, com uma durabilidade de vida curta, visto que os
símbolos são copiados e substituídos por outros de forma permanente. Daí o seu carácter
superficial”.
Por sua vez, segundo Martins e Coltro (1999, p. 5), “[o] símbolo representa uma
intermediação no contato do homem com o mundo, sendo que a cultura torna-se um conjunto
de símbolos elaborados pelo homem na construção de sua existência, como as práticas, as
teorias, as instituições, os valores materiais e espirituais, etc.”
Nesse sentido, Geertz (1989, p. 103) afirma que os símbolos remetem a “um padrão de
significados transmitidos historicamente”, e a “um sistema de concepções herdadas expressas
em formas simbólicas por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem
seu conhecimento e suas atividades em relação à vida”.
No nosso caso específico, em termos metodológicos, optamos pelo paradigma
interpretativista, ou seja, aquele que nos permite pensar nos sentidos e funções de símbolos
nas organizações. Tal paradigma considera “a construção do sentido realizando-se através de
meios simbólicos” (Boyce, 2002, p. 84). Como bem aponta Boyce (2002, p. 88),
[o] simbolismo organizacional, outro contributo para uma perspectiva interdisciplinar,
põe em relevo as múltiplas maneiras de o sentido se formar e se exprimir. No
paradigma interpretativista assume-se que os símbolos têm sentido e que se trabalha
para revelar o sentido dessas formas aos membros da organização. Para o investigador
que se inscreve num paradigma interpretativista, não há apenas uma voz autorizada de
interpretação. Há muitas vozes e muitos sentidos cuja compreensão coincide, colide,
reforça ou silencia outras. O simbolismo organizacional remete-nos para o
caleidoscópio de símbolos e sentidos existentes nas organizações.
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Quando consideramos o simbolismo de um dado clube desportivo enquanto recurso
organizacional que lhe atribui identidade, percebemos que este se constrói a partir de um
arsenal simbólico, que contém, basicamente, os seguintes elementos: aqueles de caráter
documental propriamente ditos, como, por exemplo, o regimento estatutário do clube; além
deste, no caso de organizações desportivas, há toda uma gama de artefatos que, por estratégias
de ordem semiológica, produzem identificação: as cores, o uniforme, o brasão, a bandeira, os
hinos e cânticos entoados pela torcida. Dentre esses elementos, elegemos justamente os hinos
como objetos privilegiados que nos permitem avaliar aspectos que dizem respeito não apenas
à cultura organizacional de um dado clube, como também ao universo de valores vigentes no
momento de sua composição, que auxiliam na construção da identidade e da imagem
organizacional.
De acordo com Colpo e Scroferneker (2010, p. 265), “as organizações usam da
imagem e de seu referencial simbólico para criar discursos, no qual os atores sociais
integrantes do contexto organizacional possam se identificar e sintam-se parte deste cenário”.
Tal definição é plenamente adequada à realidade dos clubes, com a construção de identidade a
partir da adoção de determinados símbolos. Neste caso, nossa atenção se volta para a
construção dos objetos-símbolos, ou seja, dos hinos, como modos de transmissão de
determinados valores, cuja função seria dotar de sentido a identidade clubística.
Cabe lembrar que, de acordo com Dandridge et al. (1980, p. 78), o simbolismo
organizacional abrange, especificamente, três formas de expressão: os símbolos verbais; os
símbolos de ação; por fim, os símbolos materiais. Nosso objeto de estudo se enquadra na
primeira forma de expressão simbólica, pois permite construir, pela palavra e pela melodia,
uma imagem que revista o clube de uma dada identidade.
Inclusive, Carrieri e Saraiva (2007, p. 2) apontam para a importância do simbolismo
organizacional nos Estudos Organizacionais: “a abordagem simbólica para tratar do que se
passa na organização é mais rica do que as visões estritamente funcionalistas porque
humaniza o meio organizacional, aproximando-o mais da complexidade própria dos
empreendimentos humanos”.
Além do simbolismo organizacional, torna-se fundamental, para nosso propósito, o
emprego também da Análise do Discurso, uma vez que nosso corpus de análise é formado por
textos que demandam uma reflexão sobre o “discurso lítero-musical” (Costa, 2001, p. 168)
dos hinos. Para isso, adotamos a vertente francesa da Análise do Discurso, mais
especificamente, da Teoria Semiolinguística, desenvolvida por Charaudeau desde meados da
década de 1980 em obras como Langage et Discours (1983) e Grammaire du sens et de
l’interpretation (1992).
Como nosso foco não é, propriamente, a recepção ou a execução dos hinos, mas sim a
construção discursiva de imagem e identidade do clube veiculadas através da letra de hinos,
torna-se importante trabalhar com um arcabouço conceitual que dê conta, justamente, da
relação entre enunciação (âmbito do sujeito que comunica algo) e enunciado (investimento
discursivo adequado de acordo com estratégias comunicacionais), sem deixar, entretanto, de
considerar também o enunciatário não como um sujeito que interpreta o texto, mas sim como
uma espécie de figura interna do próprio texto, como um “destinatário implícito”.
Cabe ressaltar que, segundo Nascimento (2009, p. 28), “[a] linguagem pode ser
objecto de utilização simbólica. São criados símbolos que criam e fundamentam a orgânica da
organização, através do recurso à linguagem. Por meio da linguagem, os sujeitos dão sentido e
constituem a realidade justamente objectiva para eles”. No mesmo sentido, Fischer (2007, p.
XXIII) argumenta que “o simbolismo é um metaparadigma que torna possível a visão
compreensiva das organizações, incluindo crenças, ideologias, emoções, imagens, artefatos e
todos os tipos de linguagem”.
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Entretanto, temos de considerar no horizonte de análise também a subjetividade
intimamente vinculada ao simbolismo, pois, como bem ressaltam Paula e Palassi (2007, p.
219), “o estudo do simbolismo nas organizações não pode prescindir da subjetividade, pois é
a dimensão subjetiva, fundada nas emoções dos sujeitos, que dá sentido aos símbolos, seja
considerando a linguagem e as significações, ou as instituições, baseadas em redes
simbólicas”.
Para tanto, analisaremos as letras dos três hinos do Fluminense Football Club, que
formam o corpus de análise do presente estudo: o primeiro hino oficial data de 1915, e foi
composto pelo escritor Coelho Neto; o segundo hino oficial, composto em 1920, é de autoria
de Cardozo Menezes; o terceiro hino, de caráter popular, foi composto por Lamartine Babo
em 1945. Como poderemos constatar através da análise, o simbolismo organizacional
veiculado pelos dois primeiros hinos se atrela muito mais à tradição da elite carioca no início
do século XX. Em contrapartida, o hino popular, composto fora do universo do clube, em
meados da década de 1940, mas que acabaria se tornando seu hino principal até os nossos
dias, surge de um feliz casamento entre futebol e carnaval.
Por definição, hino (do grego: ὕμνος hymnos, “estrutura sonora”) é uma composição
poético-musical de louvor ou exaltação. O hino é expressão de entusiasmo elevado, um
poema ou cântico de veneração ou louvor à divindade, e não segue, necessariamente, uma
regularidade formal. Originalmente, era composto em ritmo livre e não tinha rima ou
estrofação rígida. Além disso, o hino pode ser de espírito religioso, escrito especificamente
para louvor ou adoração tipicamente endereçado a deuses e heróis (Bilac & Passos, 1930, p.
110). Esse sentido original, cujas raízes remontam à Antiguidade, se transformaria em
séculos, até atingir o seu sentido na Modernidade, quando surgem, então, o hino nacional (de
devoção à nação ou pátria), o hino partidário (de devoção a um partido político), o hino de
organizações em geral e o hino desportivo (de devoção a um clube ou agremiação).
No intuito de analisar as letras dos hinos do Fluminense em seu caráter simbólico,
desenvolvemos um quadro teórico que nos possibilita avaliá-las em seus componentes líricos
(a forma poética propriamente dita), épicos (elementos que alimentam o mito em relação à
determinada agremiação, como alusão a símbolos, conquistas, virtudes etc.) e dramáticos (as
marcas textuais que denotam afetividade, apelo à fidelidade, emoção e louvor em relação ao
clube). Para isso, nos orientamos pela teoria dos gêneros literários proposta por Rosenfeld
(1965, pp. 3-26), ao considerá-los, justamente, de acordo com sua adjetivação, ou seja, como
elementos épicos, líricos e dramáticos que podem estar presentes, simultaneamente, numa
dada obra ou texto.
Num estudo dessa natureza, em termos metodológicos, faz-se necessário também um
breve quadro de contextualização sobre a história do clube na primeira metade da década de
XX, para que este possa fornecer referenciais à análise propriamente dita.
O Simbolismo em Organizações Desportivas e os Hinos de Clubes de Futebol
Sem dúvida, os simbolismos são construídas no percurso histórico de uma dada
organização. Portanto, elas podem ser cambiantes, à medida que não são perenes aos reflexos
das mudanças históricas. De acordo com Pimenta e Corrêa (2007, p. 232),
[o] sentido transformado pelas imagens construídas é o produto próprio de uma
sociedade em um dado momento de sua história. Elas trabalham de maneira contínua
em todos os locais de produção e de trocas simbólicas e se manifestam de formas
distintas, decolando diretamente da produção histórica.
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Além disso, na relação entre símbolo e cultura, surgem duas dinâmicas distintas,
porém complementares: por um lado, os símbolos seriam considerados “veículos para a
manifestação da cultura” e, por outro, “a cultura organizacional é vista como pressuposto que
determina os significados dos símbolos” (Pardini et al., 2008, p. 55).
No caso do simbolismo organizacional de clubes, objetos-símbolos visuais são mais
fáceis de serem apreendidos em seu sentido, como é o caso das cores, do uniforme, da
bandeira e do brasão. Todavia, os hinos são da ordem do discurso lítero-musical, pois sua
significação, na maioria das vezes, se constrói através de um sentido metafórico. Como bem
apontam Pardini et al. (2008, p. 54), a função dos objetos-símbolos é de “comunicar ideais,
conceitos e imagens que forneçam identidade aos indivíduos da organização”.
Em termos de ação simbólica, pensada em relação a clubes de futebol, algumas
consquências derivadas de valores propagados pelos hinos podem ser: a mobilização do
torcedor, a produção de sentidos de identidade, o apelo à fidelidade clubística, além de
despertar sentimentos de emoção e, em certos casos, de verdadeiro louvor ao clube. Segundo
Ruão e Salgado (2008, p. 329), “o desporto tende a gerar extraordinárias respostas emocionais
dos seus públicos, e que são mais fortes do que em qualquer outro sector de actividade”. Por
isso, no âmbito do presente estudo, nosso interesse recai justamente sobre o modo como,
através do hino, se constrói, enquanto discurso lítero-musical, esses elementos que podem
mobilizar os torcedores, a “clientela” mais ampla, “consumidores finais” de dado clube de
futebol no âmbito de sua atuação. De acordo com Pedreira et al. (2007, p. 6), baseados em
Pine e Gilmore (1999), o esporte representaria “a economia onde não há venda de serviços, e sim
de sensações, e deve ser tratado de forma a oferecer a seus clientes, torcedores, um espetáculo,
uma vivência inesquecível”. E os autores asseveram:
O relacionamento clube-torcedor é um dos tipos de relacionamentos existentes no negócio
“futebol”, a sua principal diferença é devido ao fato de estar ligado diretamente com o
fator emocional dos clientes, onde a emoção pode extrapolar os limites da razão, onde os
relacionamentos comerciais podem tornar-se secundários, onde a paixão é um dos poucos
fatores levados em consideração ao se torcer por um time. (Pedreira et al., 2007, p. 6)
(grifos nossos)
Em geral, as letras dos hinos de clubes de futebol carregam o conteúdo positivo da
imagem da organização transmitida a um segmento significativo de relacionamento – o
“cliente-torcedor”, e tal imagem é sempre idealizada e alimentada por determinados mitos,
dentro de um “mercado simbólico” (Schultz et al., 2000, p. 11), pautado por valores,
sentimentos e emoções. Histórias, mitos, metáforas são consideradas “manifestações verbais”
enquanto “artefactos de uma dada cultura organizacional” (Costa, 2015, p. 9), lembrando que,
de acordo com Nascimento (2009, p. 27), manifestações desse tipo “ajudam a firmar os
valores da organização”, enquanto modos de “garantir a manutenção das suas características
fundamentais”.
Como veremos a seguir, o futebol no Brasil, em seus primórdios, ainda era revestido
de certos traços identitários presentes na chamada “fase ancestral” do esporte, designada por
Aidar e Leoncini (2002) como sendo aquela em que o esporte moderno se apresentaria como
prática cultural, lazer da elite e metáfora de um ritual de guerra. Com sua crescente
popularização a partir da década de 1920, o futebol brasileiro passaria por uma redefinição de
seu significado e função, que acarretaria também mudanças de ordem simbólica. Embora
muito mais evidente na chamada “era do espetáculo” como “simbolismo intensivo” conforme
propõe Wood (2000, p. 23), sem dúvida, podemos constatar também em organizações
desportivas essa preocupação com o simbolismo organizacional desde os primórdios,
obviamente, com finalidades distintas, uma vez que em suas origens, ainda como clubes
amadores ou mesmo “semi-profissionais”, tais organizações ainda não conheciam um
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processo de mercantilização tão intenso como nos nossos dias, “numa era em que tudo é
imagem” (Wood, 2000, p. 23).
O Caso do Fluminense Football Club e seus Hinos
O Fluminense Football Club foi fundado em 21 de julho de 1902 por Oscar Cox que,
assim como Charles Miller, o introdutor do futebol em São Paulo, havia estudado em colégios
europeus, mais precisamente na Suíça, onde conhecera aquela modalidade esportiva
emergente. De acordo com Pereira (2000, p. 21), “Cox era mais um entre os muitos jovens
influenciados pela rápida e recente difusão de uma modalidade esportiva chamada ‘football’”.
Carioca filho de ingleses, ao retornar de uma temporada de estudos em Lausanne, Oscar Cox
planejou fundar um time de futebol no Rio de Janeiro. Primeiramente, montou o Rio Team,
que contava com a participação de amigos, muito mais no espírito do lazer. Porém, a
dificuldade maior era encontrar adversários na cidade, de modo que Cox e sua equipe tiveram
de ir onde os primeiros adversários estavam. Por isso, empreendeu em 1901 uma viagem a
São Paulo, onde o futebol já era praticado desde 1895 (C. Mattos, 1997, p. 46).
Todavia, assevera W. Mattos (2004, p. 128), Cox “não estava satisfeito com aquele
grupo capenga, formado às pressas e sem nenhuma organização. Queria um time de verdade,
com estatuto, diretoria, sede própria e, claro, jogadores de futebol”. Por isso, tentou fundar um
novo clube em 1901, juntamente com dois amigos, mas o projeto voltou a fracassar. Por fim,
em 15 de julho de 1902, Oscar Cox distribuiu convites entre os integrantes da elite carioca
com os seguintes dizeres: “Fluminense Football Club, segunda-feira, 21 do corrente, às 8h30
da noite, haverá uma reunião à Rua Marquês de Abrantes, número 51, a fim de tratar-se da
fundação deste clube” (W. Mattos, 2004, p. 128).
O epíteto de “aristocrata” (W. Mattos, 2004, p. 128), desde o início, já indicava o
perfil do clube. Na reunião de fundação, compareceram 20 membros da sociedade carioca,
que não só aprovaram a ideia de Oscar Cox, como também o elegeram primeiro presidente.
Até mesmo um terreno foi cedido pela então abastada família Guinle, próximo ao Palácio da
Guanabara, onde o clube realizaria seus jogos e montaria sua sede. O estatuto foi aprovado em
17 de outubro de 1902. E esse caráter aristocrático se fez presente também no estatuto: os
fundadores que não tiveram como pagar a jóia de 10.000 réis foram desligados do clube.
Como ressalta W. Mattos (2004, p. 128), “[e]stava claro que aquele seria o clube dos nobres e
bem nascidos”. E C. Mattos (1997, p. 50) arremata: “O Fluminense foi o clube perfeito para o
projeto da nova sociedade carioca engendrado na ‘belle époque’.”
No futebol brasileiro, o Fluminense Football Club é um dos exemplos mais produtivos
quando o assunto é hino de futebol. Desde sua fundação até os dias de hoje, o clube conheceu
três hinos, sendo os dois primeiros oficiais e o terceiro, de caráter popular. É importante
ressaltar que os dois primeiros hinos foram criados ainda na fase amadora do clube. Se
pensarmos em termos de organizações, cabe frisar que “o futebol amador, nesse caso, possui
estrutura que se origina para agregar valores culturais integrativos” (Ferro, Costa & Maria,
2013, p. 4). O terceiro hino surge já na era da profissionalização, levada a cabo no Brasil em
1933, quando "o futebol perdeu o caráter de diletantismo das elites para se transformar em
meio de vida” (Mósca, Silva & Bastos, 2009, p. 54), porém, num contexto de estrutura e de
gestão esportiva não comparada à dos nossos dias. Pode-se, dizer que, em termos
organizacionais, havia uma forma hibrida que encerrava em si aspectos tanto do amadorismo
quanto do profissionalismo, uma vez que “[o]s clubes permaneciam em sua maioria como
entidades sem fins lucrativos, ainda ligados aos princípios de culto ao amadorismo”
(Figueiredo, 2011, p. 83). No mesmo sentido, Costa (2005, p. 48) afirma que “[m]uitos clubes
de futebol ainda vivem uma lógica comunitária preservando os laços sociais e amadores”.
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O primeiro hino do Fluminense data de 1915 e foi composto pelo renomado escritor
Coelho Neto, membro da cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras e autor de obrasprimas como os romances A conquista e Rei Negro, e música baseada na canção “It's a long,
long way to Tipperary”, de H. Williams. Deputado federal do Estado do Maranhão, o escritor
tornou-se sócio do Fluminense em 12 de dezembro de 1912 (Pereira, 2000, p. 200),
assumindo uma participação efetiva no clube ao se destacar como um dos maiores defensores
do futebol entre os literatos da época, um verdadeiro “sportman”. A começar pelo primeiro
verso que dá titulo ao hino, “O Fluminense é um crisol”, já nota-se um estranhamento
despertado pelo termo “crisol”, totalmente em desuso em nossos dias. Numa primeira
tentativa de, literalmente, traduzi-lo, falaríamos de “cadinho”, que, provavelmente, não diz
muito para as gerações mais novas. Vejamos a seguir a letra do hino na íntegra:
O Fluminense é um crisol
Onde apuramos a energia
Ao pleno ar, ao claro sol
Lutando em justas de alegria
O nosso esforço se congraça
Em torno do ideal viril
De avigorar a nova raça
Do nosso Brasil!
Corrige o corpo como artista
Vida imprime à estátua augusta
Faz da argila uma robusta
Peça de aço onde a alma assista
Na arena como na vida
Do forte é sempre a vitória
Do estádio foi que a Grécia acometida
Irrompeu para a glória
Ninguém no clube se pertence
A glória aqui não é pessoal
Quem vence em campo é o Fluminense
Que é, como a Pátria, um ser ideal
Assim nas justas se congraça
Em torno dum ideal viril
A gente moça, a nova raça
Do nosso Brasil! (Coelho Neto, 1915)
Nota-se, de antemão, uma estrutura formal rígida, à moda de um poema parnasiano,
corrente literária em voga na época, própria para um hino de caráter marcial, típico das
primeiras décadas do século XX. A letra é composta por estrofação e métrica regulares, bem
como pelo estabelecimento de rimas entre os versos.
Quanto aos aspectos épicos, ou seja, aqueles presentes na narrativa, que estabelecem
um simbolismo em torno do clube, de sua territorialidade, e também dos valores por ele
propagados, primeiramente, o hino composto por Coelho Neto possui um “enunciador”, para
usarmos as categorias discursivas propostas por Charaudeau, que oscila entre a 3ª pessoa do
singular – “O Fluminense é um crisol” – e a 1ª pessoa do plural – “Onde apuramos a energia”,
ou seja, do clube como instância de ação para o pertencimento do sujeito da enunciação à
coletividade de torcedores do clube. A subjetividade, neste caso, está ausente em termos
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discursivos, uma vez que em nenhum momento o sujeito da enunciação instaura uma
individuação marcada pelo pronome “eu”. Neste caso, teríamos aqui, em termos metafóricos,
aquilo o que Hilário Franco (2007, pp. 213-224) designa de “espírito clânico”, ou seja, a
imagem da coletividade deve suplantar a imagem da individualidade.
Por sua vez, dos demais aspectos épicos, apenas a identidade simbólica não é marcada
textualmente. Não há no texto, por exemplo, a presença das cores do clube – verde, vermelho
e branco, que, aliás, não são as cores inicias, pois o primeiro uniforme do clube era bicolor,
em cinza e branco, substituído em 1904 por Oscar Cox ao constatar, durante uma viagem à
Inglaterra, que o material esportivo naquelas cores não era mais comercializado (Pereira,
2000, p. 31). Entretanto, a territorialidade enquanto expressão simbólica faz-se presente tanto
no âmbito nacional (Brasil), quanto no espaço do mito e da tradição (Grécia antiga), ou
mesmo local (arena, estádio). E as virtudes são amplamente enaltecidas enquanto valores a
serem simbolicamente transmitidos: energia, combatividade, vigor, virilidade, força, alegria,
mocidade, glória.
Como forma e conteúdo estão intimamente ligados, o vocabulário empregado também
reflete esse caráter. Sem dúvida, o processo de enobrecimento do football – e do Fluminense –
é patente nos versos de Coelho Neto, as referências espaciais procuram unir o Brasil à Grécia
antiga, em que o clube emerge como um celeiro para forjar – o termo é apropriado a “crisol” –
uma “nova raça”, pois “Corrige o corpo como artista/Vida imprime à estátua augusta”, numa
alusão à iconografia no âmbito dos esportes, marcadamente em sua origem pelas artes
plásticas na Antiguidade.
Além disso, os versos “Do estádio foi que a Grécia acometida/irrompeu para a glória”,
hoje em dia, nos soam demasiadamente estranhos como partes integrantes da letra de hino de
um clube de futebol. Poderíamos nos indagar: o que levou Coelho Neto a essa associação?
Para o “nobre esporte bretão” das primeiras décadas do século XX, era importante assegurarlhe um “pedigree” à altura daqueles que o cultuavam – dentro e fora do field –, e nada mais
natural que revesti-lo de um caráter “olímpico”, que sempre desfrutou de um sentido positivo
na civilização ocidental, ainda mais numa época em que o Movimento Olímpico Internacional
se consolidava através dos esforços de Pierre de Coubertin.
Todavia, essa associação através de uma construção simbólica que associa futebol à
Olimpíada pode não ser tão estranha assim, se levarmos em consideração que, desde 1900, na
Olimpíada de Paris, o futebol já figurava como esporte de exibição, e em 1908, nos Jogos de
Londres, ocorreu o ingresso definitivo do futebol como modalidade olímpica, já sob a
chancela da FIFA (Lancellotti, 1996, p. 23).
Esse estilo adotado pelo escritor em associar o futebol com a tradição olímpica, aliás,
pode ser identificado em outros documentos da época, como, por exemplo, o texto do
discurso proferido por Coelho Neto no Teatro República, no Rio de Janeiro, em 09 de julho
de 1918, numa cerimônia de entrega de uma taça oferecida pelo jornal O imperial ao
Fluminense, em homenagem às vitórias que o clube alcançara em São Paulo e Santos:
Prêmios como estes valem por incentivos. Essas taças, que parecem lavradas pelo
próprio deus subterrâneo, que açacalou as armas de Ares e que também forjava os
raios de Zeus, condensador das nuvens, trazem um vinho forte, vinho generoso, só
comparável àquele que Hebe, a dos pés airosos, servia aos deuses nos festins
olímpicos. (Coelho Neto, 2010, p. 59).
De acordo com C. Mattos (1997, pp. 54-56), a letra de Coelho Neto apresentava
aspectos que refletiam certa postura elitista e racista quanto à sociedade brasileira da época.
De origem nobre, um “clube de ingleses”, a “nova raça” do Brasil, apregoada na letra, não se
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referiria à miscigenação, mas sim às origens elitistas do clube, que não aceitava jogadores
negros em suas fileiras, nas duas primeiras décadas do século XX:
Os versos de Coelho Netto deixam claro que a raça então existente, a de mestiços, era
uma raça a ser combatida e superada. O que o Fluminense queria construir era uma
sociedade carioca refinada com origem nobre, quer por uma real ascendência nobre,
quer por uma nobreza adquirida à custa de esforços civilizatórios, tendo sempre a
Europa, principalmente a Inglaterra e a França, como modelo. [...] (C. Mattos, 1997, p.
54)
Sem dúvida, esse foi um fator que influenciou na decisão do clube de se compor um
novo hino oficial para o Fluminense no início da década de 1920, levado a cabo por Antônio
Cardozo Menezes Filho, para que esse traço de racismo fosse suprimido de sua imagem.
Aliás, pelos próprios procedimentos de análise discursiva segundo a Teoria Semiolinguística
proposta por Charaudeau, devemos pensar também no sentido implícito, no “não-dito” que
essa letra comporta, e que diz respeito a uma construção simbólica específica: nas expressões
“apuramos a energia”, “avigorar a nova raça” e “corrigir o corpo” está implícita a ideia de que
a energia carece de aprimoramento, de que a “raça” não tem vigor, e de que a postura corporal
é incorreta e, portanto, deve ser corrigida.
Com relação aos aspectos dramáticos, na letra de Coelho Neto constata-se apenas a
presença de índices textuais de emoção – “Lutando em justas de alegria” –, enquanto a
afetividade, o apelo à fidelidade e o louvor estão ausentes. Esse aspecto é, aliás, típico dos
primeiros hinos, pois neles predominam o sentido de virilidade, revestido de elementos
épicos, e não dramáticos.
Portanto, provavelmente devido a questões de ordem estética e ideológica, foi
composto em 1920 o segundo hino oficial do Fluminense Football Club, com letra e música
de Cardozo Menezes, compositor que havia escrito a peça Dous a zero, encenada em 1919
(Pereira, 2000, p. 126), uma das primeiras obras que destacaram o futebol. Vejamos, a seguir,
o texto da letra na íntegra:
Companheiros de luta e de glória
Na peleja incruenta e de paz
Disputamos no campo a vitória
Do mais forte, mais destro e sagaz!
Nossas liças de atletas são mansas
Como as querem os tempos de agora
Ressuscitam heróicas lembranças
Dos olímpicos jogos de outrora
Não nos cega o furor da batalha
Nem nos fere o rival, se é mais forte!
Nossas bolas são nossa metralha
Um bom goal, nosso tiro de morte
Fluminense, avante, ao combate
Nosso nome cerquemos de glória
Já se ouve tocar a rebate
Disputemos no campo a vitória.
9
Adestra a força e doma o impulso
Triunfa, mas sem alardo
O herói é bravo mas galhardo
Tão forte d'alma que de pulso
A força esplende em saúde
E abre o peito à bondade
A força é a expressão viva da virtude
E garbo da mocidade (Menezes Filho, 1920)
Assim como o primeiro hino oficial, o segundo hino do Fluminense apresenta rigidez
em sua forma, típica de hinos de caráter marcial, bem ao estilo parnasiano.
Por sua vez, com relação aos aspectos épicos, o modo de enunciação sofre ligeira
modificação que, em termos simbólicos, não acarreta grandes mudanças. Enquanto que na
letra composta por Coelho Neto ocorria uma oscilação entre 3ª pessoa do singular – o clube –
e a 1ª pessoa do plural – o sujeito coletivo, na letra de Cardozo Menezes estabelece-se uma
mudança da 2ª pessoa do singular – “Fluminense, avante, ao combate” –, passando para a 1ª
pessoa do plural – “Disputamos no campo a vitória” – e para a 3ª pessoa do plural enquanto
índice pronominal – “Nossas liças de atletas são mansas”. Portanto, não há enunciação do
sujeito em sua individualidade, típico de letras de caráter marcial, em que predomina o
sentido coletivo. Já a 1ª pessoa do plural constroi, discursivamente, o pertencimento à
coletividade de torcedores do Fluminense, reforçado também pelo emprego da 3ª pessoa do
plural como índice pronominal “nossos” / “nossas”.
Ainda com relação aos aspectos épicos, por um lado, nota-se também a ausência de
marcação textual de identidade simbólica, ausência essa característica dos hinos marciais das
primeiras décadas do século XX. Por outro lado, há uma inflação de termos que constroem,
simbolicamente, a imagem virtuosa do clube: companheirismo, luta, glória, força (04 vezes),
destreza, sagacidade, mansidão, heroísmo, bravura, galhardia, saúde, bondade, virtude, garbo.
E a territorialidade é marcada por termos associados ao campo enquanto praça de batalha e de
guerra. Aliás, a metáfora “futebol é guerra” se faz presente no texto da letra com toda sua
força, por exemplo, nos versos “Na peleja incruenta e de paz”, “Não nos cega o furor da
batalha”, e “Nossas bolas são nossa metralha / Um bom goal, nosso tiro de morte”. Não é por
acaso que Freitas (2007, p. 282) considera a guerra uma “uma metáfora tão devastadora”:
Porque ela [i.e., a guerra] é capaz de reunir em torno de si um simbolismo riquíssimo.
Se existe guerra, é porque existem inimigos; se existe guerra, a minha vida está
ameaçada; se existe guerra, é preciso que eu me defenda; se existe guerra, eu devo
matar ou morrer; se existe guerra, é preciso que eu me arme com que existe de mais
forte; se existe guerra, devo construir o meu ‘bunker’, as minhas alianças e decidir os
métodos mais eficazes para destruir o outro. [...]
Além disso, como não podia deixar de ser, aspectos dramáticos não foram explorados
discursivamente no texto desse hino, num exemplo típico de hinos de caráter marcial, em que
predominam aspectos épicos e o sentido de virilidade e de combatividade – chegando às raias
do belicismo – em detrimento da afetividade.
Cabe ressaltar ainda que o hino oficial do Fluminense, composto por Antonio Cardozo
Menezes Filho, assim como acontece com os primeiros hinos oficiais dos demais clubes do
Rio de Janeiro, é pouco difundido entre a mídia e os torcedores.
Por fim, o terceiro hino do Fluminense Football Club, composto em meados da década
de 1940, com letra de Lamartine Babo e música do maestro Lyrio Pannicalli, vai à contramão
dos hinos anteriores, uma vez que rompe com a tradição marcial, assumindo um caráter
10
eminentemente popular. Há algo específico também no caso deste hino, uma vez que sua
popularização, necessariamente, passou pela influência e alcance da mídia, mais
especificamente o rádio. Além disso, diferindo dos hinos oficiais, o hino de Lamartine não
surge de uma ação institucional autorizada pelo próprio clube, conforme relatamos a seguir.
Antes de iniciarmos a análise do hino popular do Fluminense, necessitamos fazer um
parêntese com relação a Lamartine Babo e seu papel como difusor de um determinado tipo de
composição. Podemos afirmar com segurança que a transição dos chamados hinos marciais
para os hinos populares no âmbito do futebol se consolidou em meados da década de 1940.
Sem dúvida, tal transição está associada a Lamartine Babo (1904-1963), famoso compositor
de marchas de carnaval que compôs nada mais nada menos do que os hinos de 11 clubes do
Rio de Janeiro: América, time de coração do compositor, Botafogo, Flamengo, Fluminense,
Vasco da Gama, Bangu, todos considerados “grandes” na época, e dos times “modestos”
Madureira, Olaria, São Cristóvão, Bonsucesso e Canto do Rio (Xavier, 2009, p. 52). Segundo
consta, “Lalá”, como era conhecido, foi desafiado pelo radialista Héber de Bôscoli, com quem
compunha o “Trio de Osso” juntamente com Yara Sales no programa Trem da Alegria, da
Rádio Mayrink Veiga, a compor um hino por semana para cada clube do Rio de Janeiro,
desafio esse plenamente cumprido pelo compositor (Valença, 1981, p. 158). Aliás, Lamartine
Babo faria escola também quanto ao estilo dos hinos de futebol, compostos como marchasrancho ou “marchinhas”, como também eram conhecidas, e estas se diferenciavam das
marchas militares em sua cadência. De acordo com Jebaili (2006, p. 55), “[o] hino de futebol
escolhe a marcha porque é a festa. E a festa é sublimação da dor. A marcha é uma das
primeiras manifestações de pessoas que se reuniam em blocos na rua para cantar a vida de
forma lúdica”.
Retomando a análise, a letra de Lamartine Babo possibilitou a criação de um dos mais
belos hinos compostos para clubes do futebol brasileiro:
Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O Fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor
Salve o querido pavilhão
Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor
Vence o Fluminense
Com o verde da esperança
Pois quem espera sempre alcança
Clube que orgulha o Brasil
Retumbante de glórias
E vitórias mil
Vence o Fluminense
Com o sangue do encarnado
Com calor e com vigor
Faz a torcida querida
Vibrar de emoção o tricampeão
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Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O Fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor
Salve o querido pavilhão
Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor
Vence o Fluminense
Usando a fidalguia
Branco é paz e harmonia
Brilha com o sol
Da manhã
Com a luz de um refletor
Salve o Tricolor (Babo & Pannicalli, 1945)
Primeiramente, podemos constatar que, em termos formais, a letra apresenta variação,
portanto, sem a mesma rigidez das letras dos primeiros hinos, já assumindo traços da lírica
modernista, que havia se defrontado, justamente, com a estética da lírica parnasiana.
Em segundo lugar, por se tratar de uma letra de caráter popular, os elementos épicos se
fazem presentes com toda sua força, a começar pela enunciação, em que predomina a 1ª
pessoa do singular, aspecto sempre ausente nos hinos marciais: “Sou tricolor de coração / Sou
do clube tantas vezes campeão” / “Eu sou é tricolor”. A 3ª pessoa do singular também assume
papel de destaque na letra: “Fascina pela sua disciplina / O Fluminense me domina”; “Clube
que orgulha o Brasil”; “Vence o Fluminense / Com o sangue do encarnado / Com calor e com
vigor / Faz a torcida querida / Vibrar de emoção o tricampeão”; “Vence o Fluminense /
Usando a fidalguia”. Se a 1ª pessoa do singular enfatiza o fascínio do torcedor pelo clube,
assegurando-lhe a sua individualidade, a 3ª pessoa do singular apresenta o clube como agente
da ação.
Além disso, a letra inclui feitos heroicos e conquistas: “Retumbante de glórias / E
vitórias mil” / “Faz a torcida querida / Vibrar de emoção o tricampeão”, sendo que este último
verso refere-se à conquista dos títulos de Campeão Carioca dos anos de 1917, 1918 e 1919. Já
a territorialidade, enquanto marca textual, refere-se ao âmbito nacional no verso “Clube que
orgulha o Brasil”, e a identidade simbólica é amplamente explorada, sobretudo com relação às
cores do tricolor – verde, vermelho e branco: “Salve o querido pavilhão / Das três cores que
traduzem tradição” / “Com o verde da esperança” / “Com o sangue encarnado” / “Branco é a
paz e harmonia” / “Salve o tricolor”.
Por sua vez, os aspectos dramáticos também são bem marcados na letra composta por
Lamartine Babo, algo totalmente ausente na construção simbólica do clube, propagada pelos
dois hinos oficiais ainda na fase amadora. Por seu caráter popular, há espaço para a
afetividade – “Sou tricolor de coração” / “Eu tenho amor ao tricolor” –, a emoção – “Fascina
pela sua disciplina / O Fluminense me domina” / “Faz a torcida querida / Vibrar de emoção o
tricampeão” –, o apelo à fidelidade – “Sou tricolor de coração”; “Eu sou é tricolor” – e o
louvor – “Salve o querido pavilhão”; “Salve o tricolor”.
12
Portanto, podemos afirmar que o hino popular composto por Lamartine Babo e
executado nos momentos de festividade e de conquistas do Fluminense suplanta os hinos
anteriores, pois vai à contramão de ideias de nobreza e eugenia racial do primeiro hino, ou
mesmo do tom belicista do segundo hino. Lamartine Babo, que nem era torcedor do
Fluminense, mas sim torcedor fanático do América do Rio, teve a sensibilidade para compor
um texto que muito nos diz com relação ao modo de cantar os feitos de um clube com alegria
e, sobretudo, tolerância. Se, em princípio, o hino não nasceu de uma ação organizacional, tal
fato não impediu que ele, rapidamente, caísse nas graças da torcida e fosse assumido pelo
próprio clube como seu principal hino.
Considerações Finais
Este estudo teve por objetivo analisar a construção de sentido presente em letras de
hinos de clubes de futebol enquanto “objetos-símbolos” privilegiados. A pesquisa demonstrou
que o simbolismo organizacional se constitui como vertente teórica que nos permite analisar
as transformações pelas quais determinados “objetos-símbolos” passam no processo de devir
histórico de uma dada organização. Desse modo, através da análise pudemos desvendar
significados e associações que os hinos suscitam, enquanto parte do arsenal simbólico do
clube.
De certo modo, nosso estudo possibilitou também a recuperação de parte do histórico
da organização, uma vez que o estudo dos hinos do Fluminense Football Club demonstrou
que, os dois primeiros, compostos na fase em que o futebol brasileiro iniciava seu processo de
popularização, ainda se pautavam por valores e modos de representação contrários ao
Modernismo que, enquanto movimento artístico e literário, começava a ganhar força. Aliás, a
associação entre Futebol e Modernismo já é algo corrente entre os estudiosos, pois ambos
marcam esse momento de valorização de manifestações culturais tidas como “populares”
frente ao academicismo que ainda se apegava a uma estética que não mais condizia com as
transformações sociais da época.
Por sua vez, o terceiro hino, composto já na fase de ampla popularização do futebol,
na chamada “era do rádio”, reveste o clube de outros valores que expressam esse momento,
não mais marcado pelo academicismo de outrora, e sim plenamente imbuído de elementos
que marcam a junção entre esporte e música popular, mais especificamente, o futebol e a
marcha-rancho carnavalesca.
Por fim, cabe ressaltar que, em geral, as pesquisas no campo da Administração e,
especificamente no campo dos Estudos Organizacionais, quando têm por foco uma dada
agremiação clubística, costumam dedicar-se a aspectos de administração e gestão esportiva –
por exemplo, do chamado “futebol-empresa”, sem, entretanto, se pautarem por uma análise do
simbolismo organizacional. Neste sentido, acreditamos que o presente estudo cumpre a tarefa
de contribuir para esse outro modo possível de olhar as organizações no âmbito desportivo.
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