UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA DA REGIÃO DE CHAPECÓ Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambientais Lindacir Zornitta A PERCEPÇÃO SOCIOAMBIENTAL DOS PESCADORES ATINGIDOS PELA USINA HIDRELÉTRICA FOZ DO CHAPECÓ. Chapecó – SC, 2015. 2 UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA DA REGIÃO DE CHAPECÓ Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambientais A PERCEPÇÃO SOCIOAMBIENTAL DOS PESCADORES ATINGIDOS PELA USINA HIDRELÉTRICA FOZ DO CHAPECÓ Lindacir Zornitta Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade Comunitária da Região de Chapecó – UNOCHAPECÓ, como parte do pré-requisito para obtenção do título de Mestre em Ciências Ambientais. Orientadoras: Profª. Dra. Arlene Anélia Renk Profª. Dra. Gilza M.de S. Franco Chapecó – SC, fevereiro, 2015. 3 4 5 Se lá no povo entre os blocos de cimento Sentir no peito uma espécie de vazio, Junte a piazada tranque seu apartamento Venha pra costa ouvir o canto do rio. Depois de noite quando a lua vem saindo E a prosa mansa na varanda tem início Entre os amigos do Uruguai por parceria, A correnteza chora e canta por capricho. Quem cuida o mato como cuida o passarinho, Quem cuida o rio sem pretensão de pescar mais, Tenha certeza, que o sol nasce mais bonito, Brotam mais flores ao redor dos mananciais. João Chagas Leite 6 RESUMO ZORNITTA, Lindacir. Percepção socioambiental dos pescadores do Rio Uruguai atingidos pela Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó. Dissertação (Mestrado). Universidade Comunitária da Região de Chapecó, 2015.164 p. Desde a década de 1960, a região oeste de Santa Catarina tem sido alvo de estudos para exploração de hidroeletricidade na bacia hidrográfica do rio Uruguai. Nos últimos anos, o número de empreendimentos hidrelétricos instalados no rio Uruguai afetou parte importante da biodiversidade do corredor ecológico que abrange a área. Desde então, muitos empreendimentos têm interceptado o curso normal do rio com obras de barramento e, consequentemente, têm provocado conflitos socioambientais e culturais em toda a região. Apesar desses conflitos, a exploração hidrelétrica continua sendo realizada em grande escala na bacia do rio Uruguai, sem que se apresentem estratégias de mitigação eficazes para os impactos sociais gerados. Esta pesquisa é qualitativa, dada a condição fenomenológica que utiliza dois instrumentos principais desse tipo de trabalho: a observação e a entrevista semiestruturada. As entrevistas procuraram visualizar a essência cotidiana dos pescadores, as percepções de seus espaços e também as narrativas compartilhadas e individuais das experiências de suas lidas no rio. O estudo foi realizado entre os meses de agosto de 2013 e fevereiro de 2014. O universo amostrado foi constituído de 25 entrevistados – 17 homens e 8 mulheres. A pesquisa procurou situar o sujeito além de das suas atividades profissionais, buscou saber quais eram seus conceitos, críticas e posicionamentos sobre as mudanças ocorridas no espaço em que habita, afinal de contas existe uma identificação com o espaço onde vive, espaço em que interage desde criança, onde criou seus filhos, onde estão seus amigos, seus laços sentimentais e de pertencimento e que originam a propriedade das falas. Foi objetivo deste trabalho avaliar o modo como os pescadores artesanais percebem os impactos socioambientais gerados pelo empreendimento através da percepção e organização das comunidades de pescadores na área de influência da UHE. Também são discutidas brevemente as negociações, a lida da pesca, seus instrumentos de lida, seus mitos, suas verdades e sua realidade. A pesquisa evidencia que os impactos ambientais ocorreram, e não só no rio: estendem-se para os deslocamentos, as desapropriações, as dissoluções de comunidades. Mostra também que, apesar das dificuldades enfrentadas pelos pescadores, pode-se considerar que essa é uma classe que luta pela sobrevivência e pela continuação da profissão que está a poucos passos de se extinguir. Palavras-chave: Percepção ambiental. Etnoecologia. Pescadores do rio Uruguai. 7 ABSTRACT ZORNITTA, Lindacir. Socio-environmental perception of Uruguai river by the fishermen reached for the Hydropower Pant Foz do Chapecó. Dissertation (Master). Community University of Region of Chapecó, 2015.164p. Since the 60’s the west region of Santa Catarina has been target of studies to explore the hydroelectricity on the watershed of Uruguai River. On the last years the number of installed hydroelectric projects on the Uruguai River have affected an important part of the ecological corridor’s biodiversity that covers this area, and since than many projects have intercepted the normal river flow with barrage works. As a consequence, it has created cultural and socio-environmental conflicts throughout the region. Besides this, the hydroelectric exploration keeps being largely held on the watershed of Uruguai River, without present any effective mitigation strategy for the social impacts caused. The research is qualitative according to a phenomenological condition that made use of the two main tools for this category of work: observation and semi structured interview applying the ethnography as methodology. The interviews sought view the fishermen’s daily essence, the perception of their spaces and also shared and individual narratives of the experiences of their work on the river. The study was taken between August of 2013 and February of 2014. The sample consisted of 25 interviewers, being 17 men and 8 women. The research sought place the interviewers beyond their professional activities and know their concepts, criticismo and positions on the changes in the space they inhabit, since there is a sentimental connection with the place where they have lived for so many years. The objective of this work was evaluate the way that the artisanal fishermen realize the socio-environmental impacts caused by the projects throughout the perception and organization of fishermen communities on the area of influence of the hydroelectric power plant. This work also briefly discuss about the negotiations, the fishery and its tools, myths, truths and reality. The research shows that the environmental impacts occurred not only on the river but also was extended to displacements, expropriations and dissolution of communities. Moreover, this work shows that besides the difficulties faced by the fishermen, it can be considered that this is a class that struggle for survival and the continuation of their profession which is a few steps to extinguish. Key-words: Environmental perception. Ethnoecology. Uruguai River’s fishermen. 8 AGRADECIMENTOS À minha professora e orientadora Arlene Renk, pela orientação, sugestões valiosas, conversas fortalecedoras, por muitas mensagens de incentivo e principalmente pela amizade. Pela liberdade que me concedeu em seguir meus próprios pensamentos. À professora orientadora Gilza Maria de Souza-Franco, pelas orientações e contribuições e também pelo primeiro apoio que me estimulou a enfrentar o desafio do mestrado. Agora eu sei que valeu a pena todo esforço. Aos meus companheiros (as) de campo, integrantes do Projeto Impactos socioambientais da implantação da Hidrelétrica, em especial a amiga Daniela Comiran, pela parceria e amizade, pelas conversas em campo, por muitas horas agradáveis e de debate nas estradas do interior desta região. Foram momentos valiosíssimos. Aos professores de mestrado pela dedicação e pelo compartilhamento de seus saberes, pela paciência e dedicação. Assim também agradeço a todos que prestam serviços à biblioteca da UNOCHAPECO, e principalmente à Secretaria do Programa de Pós Graduação, em especial à Luciana, que durante este tempo esteve tão prestativa e pacientemente à todas as minhas dúvidas. Aos pescadores e pescadoras de São Carlos, Guatambu, Caxambú do Sul e Chapecó / SC, pelas horas de conversa, pelos muitos e muitos mates, pelos almoços regados a peixes assados e por muita paciência ao ensinar-me as lidas e os saberes da pesca. Obrigada à CAPES pela concessão da bolsa de pesquisa e igualmente à UNOCHAPECÓ e o PPGCA. Obrigada pela oportunidade de crescimento e aprendizados. Obrigada também à FAPESC, que através do projeto Impactos socioambientais da implantação da Hidrelétrica, possibilitou minha inserção em campo e também foi base importante para o desenvolvimento deste trabalho. Ao meu marido, Edson Ferreira, pelo amor verdadeiro, companheirismo, estímulo, apoio e paciência, por todos os momentos que me aguardou pacientemente na sala de estar enquanto 9 eu estava aqui, escrevendo e colocando minhas ideias em ordem. Ao meu filho Marcos Alexandre que sempre me apoiou sem, contudo, queixar-se de minha falta. Também às minhas amadas filhas Ana Carolina e Ana Maria que mesmo à distância sempre estiveram na condição de apoiadoras, incentivadoras na jornada deste mestrado. Amo vocês incondicionalmente! 10 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Balsas construídas pelos balseiros do Rio Uruguai para o transporte da madeira para a Argentina. 17 Figura 2 – Madeiras nobres exploradas a beira do Rio Uruguai durante processo de colonização 18 Figura 3 -Enchente de 1965 relembrada pela destruição que causou 19 Figura 4 -Enchente de 1965 – ao fundo casas sendo carregadas pela enchente 20 Figura 5 - Caracterização do povoamento e colonização do Oeste Catarinense, destacando a migração oriunda do Rio Grande do Sul 23 Figura 6 - Barramento FCE com os túneis de desvio de água 24 Figura 7 - Delimitação da área de estudos de acordo com a influência da FCE 31 Figura 8 - Visualização da Bacia Hidrográfica do Rio Uruguai 32 Figura 9 - Registro do potencial hidrelétrico da sub-Bacia do Rio Uruguai 34 Figura 10 - Faixa etária dos pescadores do Rio Uruguai entrevistados 46 Figura 11- Área alagada a montante da barragem – transformações da paisagem 48 Figura 12 - Comparação entre nível de escolaridade e faixa etária dos pescadores 54 Figura 13 - Acampamentos provisórios de lona. 82 Figura 14 - Pescadores logo após a pesca limpam o pescado a beira do rio 87 Figura 15 - Pescadores guardando os peixes depois da pescaria 87 Figura 16 - Instrumentos utilizados para a pesca. 92 Figura 17 - Instrumento “espera” que utilizam vegetais para captura de peixes 93 Figura 18 - Pescadora do Rio Uruguai 99 Figura 19 - Cipó Imbê utilizado pelos pescadores do Rio Uruguai para produção de instrumentos para a pesca 106 Figura 20 - Árvores submersas em área atingida na formação do lago da FCE 112 Figura 21 - Vista da varanda da entrevistada – árvores submersas e apodrecendo 142 Figura 22 - Trecho do Rio Uruguai a jusante da barragem. “Rio seco” o destaque para o canalão mencionado pelos pescadores 146 Figura 23 - Rio livre - - Antes e depois da barragem 147 Figura 24 - Resultado da pescaria no ano de 1974. “Fartura de peixe.” 151 11 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Categorias de análise da pesquisa 40 Quadro 2 - Caracterização econômica dos entrevistados 44 Quadro 3 – Demonstrativo do nível de escolaridade dos pescadores do Rio Uruguai 53 Quadro 4 – Lista de espécies de peixes capturados pelos pescadores do Rio Uruguai 90 Quadro 5. Fenômenos etológicos dos pelos peixes capturados, segundo a percepção dos pescadores do Rio Uruguai 109 12 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS UHE – Usina Hidrelétrica de Energia (acima de 30 MW de potência instalada) Z-29 – Zona 29 - área da Colônia de pescadores de Chapecó/SC Z-35 – Zona 35 - área da Colônia de pescadores de São Carlos/SC UHEFC - Usina Hidrelétrica de Energia Foz do Chapecó IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística PAC - Plano de Aceleração do Crescimento Econômico BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Social ENERSUL - Estudos Energéticos da Região Sul MAB – Movimentos dos Atingidos pelas Barragens FCE – Foz do Chapecó Energia CPFL- Companhia Paulista Força e Luz FURNAS - Furnas Centrais Elétricas CEEE-GT - Companhia Estadual de Geração e Transmissão se Energia Elétrica, PBA – Plano Básico Ambiental EIA - Estudo de Impacto Ambiental RIMA - Relatório de Impacto Ambiental ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica BPA – Batalhão da Polícia Ambiental IBAMA – Instituto Brasileiro de Meio Ambiente 13 RESUMO 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 9 CAPÍTULO I - CONTEXTUALIZAÇÃO DO ESTUDO ................................................................. 15 1.1 Ocupação dos espaços ás margens do Rio Uruguai. .............................................................. 15 1.2 Usina Foz do Chapecó Energia S.A....................................................................................... 23 CAPÍTULO II - MÉTODO DE PESQUISA E CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDOS . 30 2.1 Método qualitativo ................................................................................................................. 36 2.2 Área de estudos ...................................................................................................................... 30 2.3 Municípios de São Carlos ...................................................................................................... 34 2.4 Município de Caxambú do Sul .............................................................................................. 35 2.5 Município de Guatambu ........................................................................................................ 35 2.6 Município de Chapecó ........................................................................................................... 35 2.7 Os primeiros passos em campo .............................................................................................. 36 CAPÍTULO III - O PESCADOR, A COLÔNIA E A PESCA. .......................................................... 43 3.1 Aspectos Socioeconômicos dos pescadores do Rio Uruguai ................................................. 43 3.2 Colônia de pescadores ........................................................................................................... 58 3.2.1 Participação do MAB............................................................................................................. 61 3.2.2 Negociações ........................................................................................................................... 64 3.3 A lida e a fartura da pesca ...................................................................................................... 75 3.3.1 O Cotidiano feminino da pesca .............................................................................................. 97 CAPÍTULO IV - SABERES, PERCEPÇÕES E O BOM PESCADOR. .......................................... 101 4.1 Na trilha da Etnociências ..................................................................................................... 101 4.2 A percepção Ambiental dos pescadores .............................................................................. 119 4.2.1 A percepção do espaço. ....................................................................................................... 129 4.2.2 Percepção das transformações do cotidiano ........................................................................ 133 4.2.3 Percepção da pesca – Rio livre e Rio seco........................................................................... 141 4.3 O “bom pescador”................................................................................................................ 150 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................................... 157 REFERÊNCIAS ............................................................................................................................... 162 9 INTRODUÇÃO Desde a década de 1960, a região oeste de Santa Catarina tem sido alvo de estudos para exploração de hidroeletricidade na bacia hidrográfica do rio Uruguai (AGNOLIN, 2012). As estratégias de utilização dos recursos hídricos dessa bacia hidrográfica parecem não ter fim. Nos últimos anos, o número de empreendimentos hidrelétricos instaladas no rio Uruguai afetou parte importante da biodiversidade do Corredor Ecológico que abrange a área (JORDAN, 2005). Desde então, muitos empreendimentos têm interceptado o curso normal do rio com obras de barramento como as Usinas Hidrelétricas de Itá, Machadinho e Foz do Chapecó e, consequentemente, têm provocado conflitos socioambientais e culturais em toda a região. Muito embora essas obras tenham seu papel no desenvolvimento da sociedade, as usinas hidrelétricas demandam o uso intensivo de recursos naturais, provocando incalculáveis impactos sociais, culturais e ambientais; prejudicando seriamente as populações ribeirinhas; modificando seu modo de vida e sua forma e de sustento. Segundo Magalhães (2006), em grande parte dos alagamentos provocados por esse tipo de empreendimento, as áreas “afogadas” são áreas utilizadas pelos ribeirinhos para o cultivo de vários produtos e também contam com grande biodiversidade de fauna e flora. Devido à sua grande extensão, os alagamentos provocam a realocação de muitas famílias atingidas, com promessas e garantias nem sempre cumpridas. Para a implantação desses empreendimentos, é necessário apelar para o convencimento da população local – o discurso sobre desenvolvimento e progresso, geração de novos empregos é o mais utilizado por essas grandes administradoras (DIAS; SILVA; MACHADO, 2010). Nos últimos anos, as construções de usinas hidrelétricas têm provocado a realocação de comunidades, muitas vezes inteiras, de suas terras; e essas populações têm enfrentado grandes lutas para garantir seus espaços e seus direitos. Construídas em regiões habitadas, essas obras provocam as migrações compulsórias, que são deslocamentos populacionais de caráter obrigatório, feitos a partir de desapropriações de terras, que nem sempre são pagas em seu valor justo e correto. 10 Alguns estudos apontam que a construção de barragens no Brasil já deslocou mais de um milhão de pessoas de suas terras, alagando aproximadamente 3,4 milhões hectares de terra (ZHOURI; OLIVEIRA, 2007). Segundo o Relatório do Banco Mundial (2008), as UHEs continuarão a desempenhar um “papel predominante” na matriz elétrica brasileira: estima-se que em 2015 serão responsáveis por aproximadamente 75% da eletricidade no País. Só não sabemos ao certo a que custos esse “desenvolvimento” concluirá suas obras. Neste contexto, durante as últimas décadas, a pesca artesanal na região oeste de Santa Catarina vem sofrendo grandes transformações (AGNOLIN, 2012; BARON, 2012) devido a vários fatores, sendo as hidrelétricas um dos principais motivos da transformação do regime dos rios de lóticos paralênticos e até mesmo do bloqueio dos rios pela construção de sucessivas barragens (SCHORK et al., 2012). É neste sentido que se faz necessário o estudo da percepção ambiental destas populações pois, essas transformações podem extinguir muitas características típicas dessas populações e expor esses agentes a situações de extrema dificuldade de ambientação. Este novo modo de vida que tais empresas oferecem descentraliza o núcleo familiar dessas pessoas, coloca-as em um ambiente com novos desafios, desatrelando-as do estilo de vida livre em que foram criadas e em que criaram seus filhos. Segundo Diegues (2001), as populações que desempenham a pesca artesanal dependem diretamente dos recursos naturais (p. 83) e apresentam percepções totalmente diferenciadas das populações urbanizadas, aproximando-se de um estado de simbiose com os meios naturais (p. 61). A percepção ambiental na esteira deste pensamento define a interpretação dos valores e significados do ambiente para os seres humanos. Assim, “a percepção está relacionada ao mundo vivido e a experiência no seu sentido forte assim como o ambiente será entendido como ambientemundo” (CARVALHO e STHEIL, 2013. p.1). Também para Ingold (2011) a posição do ser no mundo é baseada no toal e completo engajamento quando ele fala que “não devemos nos colocar como observadores do mundo, mas sim, temos de imaginar-nos, em primeiro lugar, como participantes, cada um imerso com a totalidade do nosso ser nas correntes de um mundo em formação: à luz do sol que vemos, a chuva que ouvimos e sentimos” (p.129). 11 Por isso a importância dos estudos sobre a dependência destas populações por seus espaços, por seus modos de vida, haja vista que a pesca artesanal no território Brasileiro tem seguido o rumo da falência social desta classe. A grande maioria dos estudos sobre a pesca artesanal no Brasil refere-se às regiões litorâneas de pesca marítima, há poucos estudos sobre a pesca de água doce ribeirinha. Autores como Begossi (1993, 2004), Diegues (2004, 1993, 1999, 2000) e Marques (2001) podem ser citados como desdobradores do tema. Ao comparar-se a variedade dos estudos realizados acerca da pesca de água doce com os sobre a pesca marinha, observa-se que aquela temática ainda é pouco estudada no Brasil. A espera por políticas públicas acessíveis voltadas para os pescadores, e que auxiliem no aumento das atividades pesqueiras, já se faz presente nos meios políticos há muito tempo no Brasil, como por exemplo o PRONAF (BRASIL, 2014), mas há ainda a necessidade de voltar o olhar para a falta de organização social, deficiência de pesquisas científicas e, principalmente, o reconhecimento real através da agregação de valores ao trabalho dessas famílias ribeirinhas e tradicionais. A opção de que o segmento da etnociência seja a mola propulsora deste trabalho deve-se por acreditar que o estudo da percepção pode ser um importante instrumento de gerenciamento dos recursos ambientais, todavia, consciente de que tal caminho requer aceitar a multiplicidade de opiniões dos grupos sociais. Assim, esta dissertação versa sobre a percepção socioambiental dos pescadores do rio Uruguai atingidos pela usina hidrelétrica Foz do Chapecó a partir das mudanças vividas por esses agentes em suas práticas sociais e traz como objetivo avaliar o modo como os pescadores artesanais percebem os impactos socioambientais gerados pelo empreendimento através da percepção e organização das comunidades de pescadores na área de influência da UHE. A decisão de concentrar os estudos na percepção dos pescadores partiu da necessidade de responder a questão norteadora do trabalho: Qual a percepção socioambiental dos pescadores atingidos pela UHFC? É importante destacar que o projeto de pesquisa que originou esta dissertação faz parte de outro projeto maior desenvolvido pela Unochapecó que apresenta como título “Impactos socioambientais da implantação da 12 Hidrelétrica Foz do Chapecó”, financiado pela FAPESC. As primeiras visitas foram realizadas com o grupo de pessoas que constitui este projeto. O projeto de pesquisa que embasou este trabalho foi analisado pelo Comitê de Ética da Unochapecó sob o registro 037/13. Para responder a questão norteadora, procurei abordar os seguintes objetivos específicos: a) compreender como as comunidades de pescadores percebem os impactos ambientais causados pela implantação da UHFC; b) entender como os pescadores percebem e conceituam os recursos e ecossistemas que utilizam para sua sobrevivência; c) entender do ponto de vista dos pescadores quais são as suas perspectivas futuras e de reprodução social e de sucessão familiar diante do atual quadro; d) identificar o perfil do ponto de vista étnico, de gênero e socioeconômico dos pescadores a partir da amostra da pesquisa. Neste trabalho, as discussões foram conduzidas sob o viés interdisciplinar, recorrendo-se às diferentes áreas do conhecimento, tais como, ambientalismo, etnografia, antropologia, ecologia humana. O trabalho está estruturado em quatro capítulos, além das considerações finais. O primeiro capítulo tem o intuito de contextualizar o estudo, delineando o cenário da ocupação do espaço às margens do rio Uruguai no que diz respeito ao oeste de Santa Catarina. Também traz fatos da história da colonização dessa região para contextualizar a origem de sua população. Registra a representatividade que tem a Usina Foz do Chapecó, pois muito tem-se falado e estudado os conflitos que esse evento trouxe para a região estudada. Não é minha intenção aprofundar o histórico da usina, pois sobre as relações de poder e o que esse evento significou para a região muitos trabalhos têm sido publicados, como será visto no decorrer do caminho – a exemplo, citam-se os trabalhos de Agnolin (2012), Winckler, Renk e Agnolin (2012), Rocha (2012) e Baron (2012). 13 O segundo capítulo esboça os caminhos adotados na pesquisa e na metodologia utilizada. A pesquisa é qualitativa, utilizando a técnica “bola de neve” através dos instrumentos principais desse tipo de trabalho: a observação e a entrevista semiestruturada. É uma apresentação das veredas que permearam esta pesquisa. Apresento os municípios que formam a área de pesquisa e os primeiros passos em campo que determinaram os caminhos pelos quais o trabalho se desenvolveu até atingir sua conclusão. O terceiro capítulo tem o propósito de responder quem é o pescador do rio Uruguai para situar a pesquisa e possibilitar entender posteriormente como esse pescador percebe seu espaço. Também discorre sobre as colônias de pescadores e a sua importância no desenvolvimento da atividade da pesca; tenta entender como o pescador é apoiado por essas entidades, qual o papel dessa instituição no desenrolar das negociações durante o processo de implantação da usina. Também neste tópico não é minha intenção aprofundar sobre as negociações, pois, como dito anteriormente, quer-se saber sobre as percepções desse pescador sem deixar de situar o leitor sobre alguns fatos que ocorreram e envolveram os personagens deste trabalho. Ainda nesse capítulo terceiro, procuro discorrer sobre a lida da pesca no rio Uruguai; assim, procurei aprender um pouco do ofício de que esses pescadores tanto se orgulham; saber quais são seus instrumentos de lida, seus mitos, suas verdades e sua realidade. E para encerrar o capítulo adentrei no universo feminino da pesca, para saber quem são as mulheres que enfrentam a lida da pesca sem temores e sem preconceitos; tentei compreender um pouco da rotina dessas corajosas guerreiras que dividem seu tempo entre a pesca, a família e o trabalho doméstico. Não pretendo com isso enobrecer o trabalho feminino no universo da pesca, que por tradição é predominantemente masculino, mas mostrar que o trabalho desempenhado pelas mulheres em nada deixa a desejar comparativamente ao trabalho dos homens. No capítulo quarto, percorrem-se os caminhos dos saberes ecológicos dos pescadores, a etnociência e uma reflexão a respeito do “bom pescador”, sem que se tenha, no entanto, a pretensão de analisar as atitudes corretas ou não dos pescadores, nem mesmo se essas atitudes estão dentro da classificação sustentável ou não, apenas no intuito de refletir sobre a pesca no rio Uruguai a partir da visão de alguns pescadores. 14 Assim inicia-se uma caminhada que foi trilhada com muitas inseguranças, medos e incertezas, mas que finaliza com a sensação de ter-se dado o passo na direção certa. Sigo, portanto, no caminho da percepção para alçar voos mais altos num futuro próximo. 15 CAPÍTULO I CONTEXTUALIZAÇÃO DO ESTUDO 1.1 Ocupação dos espaços às margens do rio Uruguai Com a ocupação das margens do rio por grupos de caçadores-coletores há aproximadamente dez mil anos, o rio Uruguai tem sido um recurso natural que definiu a região oeste de Santa Catarina e noroeste do Rio Grande do Sul (ONGHERO; FRANCESCHI, 2009). No início do século XX, a região oeste de Santa Catarina era povoada pelos caboclos, povo que nasceu da miscigenação entre portugueses e índios, e ainda pelos índios; eles tinham a posse, mas não a propriedade das terras. Tratava-se de um povo excluído, que, ao fim do ciclo das balsas1 na década de 1960, com o fim do comércio da madeira pelo rio Uruguai, perdeu grande parte de sua renda – eram mão de obra barata utilizada no corte da madeira e no seu transporte rio abaixo. As primeiras famílias que chegaram ao oeste de Santa Catarina eram famílias de colonos, oriundos das classes menos favorecidas da população europeia, que vinham em busca de fartura, da liberdade e da obtenção de terras (RENK, 2000). As famílias imigrantes que chegaram ao Brasil são oriundas de diversas partes da Europa, de diversos credos religiosos. Os primeiros imigrantes que chegaram até aqui foram os alemães, que ocuparam primeiramente as regiões do leste do Rio Grande do Sul com a expectativa de liberdade, independência e autonomia econômica. Quanto à religião, foram os italianos que trouxeram 1 Para maior compreensão da importância do ciclo das balsas na região oeste de Santa Catarina, consultar: RAMBO, Lorival Inácio. Um outro olhar sobre a colonização: a relação homem/natureza. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Comunitária Regional de Chapecó. Disponível em: <http://www.unochapeco.edu.br/saa/tese/6664/Dissertacao_completa.pdf>. Acesso em:: jan. 2015. 16 a devoção ao credo católico – os alemães dividiam-se entre católicos e protestantes (ibidem, p. 75-78)2. Os imigrantes, por necessidade de obtenção de terras para os filhos, migraram ao oeste catarinense, atravessando o rio Uruguai e instalando-se na região. Deste modo, a região do alto Uruguai foi colonizada por agricultores vindos do Rio Grande do Sul (RENK, 2000). As áreas foram ocupadas pelos migrantes que compravam as terras da Companhia colonizadora Sul Brasil e demais, sob garantia da propriedade das terras para que pudessem produzir e explorar os recursos contidos nelas e assim garantir a estabilidade para as famílias. Ao longo dos anos, foram sendo construídas relações sociais entre os moradores dos dois estados, à medida que participavam de festas e jogos de futebol, em ambos os lados do rio. Até mesmo namoros e casamentos foram proporcionados pelas visitas que atravessavam o rio utilizando caícos (ONGHERO; FRANCESCHI, 2009). É fácil imaginar como eram esses eventos tão importantes para a caracterização dos povos que hoje margeiam essa região, basta voltar à atenção para a descrição de Malan (1918): A hora do por do sol à margem do Goyo-Em, reveste-se de imponência solene. Recordo às vezes em que a apreciei, embevecido, ao lado do velho mineiro, sentado sobre o alpendre á beira-rio. Um quadro grandioso e soberbo ao redor, montanhas a prumo, mattaria e folhagem escura, onde apenas avultava a copa amareladas das tajubas. Para o lado do poente, pequenas nuvens cirroentas, frócos de algodão tingindo-se de alaranjado [...]. O canto das aves emudece [...]. Em baixo rebrilha a larga fita sinuosa e prateada do Rio, o “Água Grande” dos corôados, a rolar, sereno e majestoso, em murmúrio velado, a enorme massa em demanda do oceano. (p. 280). Os rios, em muitas sociedades tradicionais, são parte integrante de um modo de vida, de um meio de sustento e também podem conter muitos valores simbólicos e místicos. São muitas as diversidades para o uso da água nas diferentes regiões. A construção de barragens, neste cenário, é grande geradora de conflitos, que alteram profundamente os hábitos migratórios de peixes, prejudicando, consequentemente, as comunidades ribeirinhas que dependem da pesca. 2 Para melhor compreensão da imigração das etnias europeias para o Brasil, consultar RENK, Arlene. Sociodicéia às avessas. Chapecó: Grifos, 2000. 440 p. 17 Neste sentido, o rio Uruguai tem sido não só um marco para a história de uma região em desenvolvimento, mas também referência de vida para muitas famílias. Estabeleceram-se nesse cenário muitas relações que ultrapassaram as condições de comércio e constituíram-se muitas amizades, no mesmo estado e ultrapassando demarcações políticas e geográficas. Muitos pescadores apreciavam a descida das balsas carregadas de madeiras pelo rio enquanto trabalhavam as terras às margens do rio Uruguai; em alguns casos, o trabalho de balseiro era o ofício do pai, que conduzia a madeira através do rio para a Argentina. Quando dava enchente, isso enchente de 3, 4 a 5 metros, daí mudava um pouco a cor da água, daí nós ficava olhando as balsas descer que iam pra Argentina o transporte da madeira, isso a gente via muito enquanto trabalhava na lavoura nas barranca do rio, que nós tinha a lavoura nas margens do rio. (PP01T1). Meu pai era balseiro, ele morava em Itá, corria as madeiras de lá e daí ele correu umas madeiras de lá pra cá e se agradou daqui e comprou essa morada e veio morar pra baixo. (PP15T4). A época do trabalho das balsas (figura 1) é compreendida por alguns entrevistados como uma fase em que a degradação ambiental teve sua maior força, destruindo-se grande parte das florestas nativas e causando grandes prejuízos para a região. Figura 1 – Balsas construídas pelos balseiros do rio Uruguai para o transporte da madeira para a Argentina Fonte: Vitorino Zolet 18 Tinha muita balsa, só que foi a destruição aquelas balsa. Aquilo levou embora tudo as melhores madeiras. Aquilo lá sim tinha que ter proibido. Aquilo foi um castigo que levou embora todas as melhores madeiras. No dia de hoje a vou lá (Argentina) buscar as madeiras onde eles levaram as nossas de balsa. (PA01T2). As árvores de maior valor comercial, como o cedro, a cabreúva, o louro, eram intensamente exploradas na época (figura 2). A história do rio Uruguai é construída com contornos épicos, marcados por lutas e fatos que ficaram para sempre na memória do povo que viveu e ainda vive na região. O trabalho dos balseiros registra histórias alegres e tristes. Nas águas do rio Uruguai, são guardadas muitas lembranças; algumas são contadas sob um misto de saudades e alívio por se ter superado tantos perigos. Institui-se, pois, uma história de coragem e bravura, mas também um cenário de necessidades e de exploração. Todos os relatos são de colonos e agricultores que largavam seus comércios e propriedades para aproveitar a época das cheias. Figura 2 – Madeiras nobres exploradas à beira do rio Uruguai durante o processo de colonização Fonte: Jungblut (2004 apud RAMBO, 2007).. As chuvas traziam muitas tristezas quando ocorriam as enchentes (figuras 3 e 4) que carregavam tudo que houvesse pela frente, casas, carros, enfim, geravam muita destruição, mas ao mesmo tempo para os balseiros eram motivo de alegrias porque as cheias trariam 19 trabalho com o transporte das madeiras retiradas das florestas à beira-rio, além da possibilidade de viver mais uma aventura, esperada por muitos deles. A maioria dos balseiros do rio Uruguai possuía atividade agrícola às margens do rio, e as cheias eram a oportunidade de aumentar a renda familiar através do transporte das madeiras. Eram trabalhadores que em outras épocas tinham suas propriedades, cuidavam de animais e com muito espírito aventureiro aproveitavam a oportunidade de viver uma grande jornada e ainda conseguir um trabalho e renda extras. Não se pode dizer que a vida dos balseiros era monótona, diante dos perigos oferecidos pelo rio (GINEZ et al., 2013). Figura 3 – Enchente de 1965, relembrada pelos entrevistados pela destruição que causou Fonte: Vitorino Zolet 20 Figura 4 – Enchente de 1965 – ao fundo casas sendo carregadas pela enchente Fonte: Vitorino Zolet. No começo a madeira era transportada pela ferrovia São Paulo / Rio Grande do Sul, como forma de escoamento da madeira de Santa Catarina para os portos de Santos, Paranaguá e até São Francisco para suprir a demanda da Europa. A travessia das madeiras através do rio foi uma estratégia construída para burlar a fiscalização do governo Getúlio Vargas quando da constituição do Instituto Nacional do Pinho, que determinava sérias punições para os transgressores (GINEZ et al., 2013). Para Nodari (2012), a visão econômica da extração da madeira sempre esteve presente nos discursos dos madeireiros que viveram numa época de exuberância da mata nativa, contrapondo-se ao pensamento das pessoas que mantinham outra atividade e também um relacionamento diferenciado com o meio que os circundava. A derrubada das matas fazia parte do processo de colonização, uma vez que, junto com os colonos, rapidamente foram instaladas serrarias, geralmente pertencentes a pessoas ou grupos que já tinham atuado no ramo madeireiro no Rio Grande do Sul. A exportação de madeira para a Argentina já acontecia no Rio Grande do Sul e, mesmo, em algumas partes do oeste de Santa Catarina. Esse era um objetivo colocado desde o início pelas empresas colonizadoras quando se estabeleceram na região, pois, sabendo que parte dos lucros seria proveniente do aproveitamento das riquezas florestais, montaram serrarias, abriram estradas em locais que lhes interessavam e organizaram o transporte das madeiras. (Op. cit., p. 42). O que se percebe na história da colonização do oeste catarinense é a presença de valores comerciais, trazidos com o desenvolvimento da região às margens do rio, e também 21 um valor intrínseco da cultura que cada família trouxe durante a ocupação; são histórias de vida, de sofrimento, de lutas e de conquistas, assim como a história de uma região construída no trabalho árduo e perigoso dos balseiros e da expulsão das comunidades ribeirinhas que aqui viviam. De acordo com Renk (2000), “Os motivos que levaram à imigração do Brasil repetem-se na migração das colônias velhas do Rio Grande do Sul ao Oeste Catarinense: em busca de liberdade, de fartura e de terras.” (p. 127). Na visão de Zarth (2012), a ocupação da região foi “estabelecida através da transição entre a paisagem encontrada pelos primeiros europeus e a devastação da floresta pela agricultura intensiva, protagonizada pelo processo de colonização a partir do final do século XIX” (p. 55). A colonização, desse modo, significava a espoliação do modo de vida das populações indígenas que habitavam a região, ou, dos índios e caboclos, que passaram a habitar a região de dentro das florestas e às margens dos rios, em regiões que eram montanhosas e de pouco aproveitamento para agricultura. A ocupação das margens do rio Uruguai foi precedida por um processo de exclusão das populações nativas daquela região, pois a adoção do modelo econômico utilizado excluiu e marginalizou todos aqueles que não se adaptaram aos modelos adotados e também os que não possuíam recursos econômicos para a obtenção das terras localizadas nas regiões que favoreciam o desenvolvimento da agricultura ou da pecuária, ficando somente com as áreas íngremes e banhados. Quanto às oportunidades de trabalho, acontecia o mesmo: sobravam apenas os trabalhos braçais ou de transporte como “balseiros”, ou seja, os trabalhos menos favorecidos. Para sobreviver, muitos desses colonos migraram de áreas ribeirinhas do estado do Rio Grande do Sul, onde o hábito da pesca já havia sido estabelecido (FRANCO et al., 2011, p. 823). A ocupação humana em torno dos rios é uma prática muito antiga, e as relações que esses povos estabelecem com a natureza, atualmente, estão sendo empregadas como um instrumento para o gerenciamento hídrico em várias regiões do mundo. A prática de instalação de cidades às margens dos rios é uma estratégia visando à comodidade no que diz respeito à captação e utilização de suas águas. A questão da perda dos territórios das comunidades é um fato histórico, ora pela especulação imobiliária, ora pela ausência de políticas públicas, ou ainda pela política ambiental implementada nas regiões de ocorrência 22 de grandes obras, expulsando o povo, que deixa seu espaço e passa a morar na periferia da cidade – além de outros contextos socioculturais. As famílias vindas da Europa se expandiram (figura 5) para outras regiões atravessando o rio Uruguai para se instalar em Santa Catarina (VICENZI, 2008). A região do rio Uruguai foi colonizada pelos agricultores vindos do interior do Rio Grande do Sul incentivados pelo governo com o intuito de ocupar suas margens através de atividades de pecuária (SOUZA-FRANCO et al., 2011), tornando-se referência para a ocupação da região oeste de Santa Catarina e noroeste do Rio Grande do Sul a sua utilização para as mais diversas atividades comerciais e ao mesmo tempo como suporte de subsistência, transporte, deslocamento e ponto estratégico de organização social (ONGHERO; FRANCESCHI, 2009). Esse movimento pelo estado através das colonizadoras acarretou um rápido crescimento populacional na região. As áreas foram ocupadas pelos migrantes que compravam as terras da Companhia colonizadora Bertaso, restando-lhes garantida a sua propriedade para que pudessem produzir e explorar os recursos contidos nelas e assim garantir a estabilidade para as respectivas famílias. A importância da ocupação desse recurso natural desde a história dos tropeiros que realizavam o comércio no lombo das mulas e cavalos contam as dificuldades enfrentadas e os perigos que rondavam as estradas e as corredeiras do rio àquela época (VICENZI, 2008). Relatos do início do século XX informam que grande parte desse comércio foi incentivada pela extração da madeira e da erva-mate, comercializadas no país vizinho, a Argentina. Anterior às balsas, no final do século XIX e nos anos iniciais do século XX, o transporte de mercadorias como fumo e erva-mate era realizado rio abaixo através de piráguas produzidas com os próprios troncos das árvores – os homens atravessavam o leito do rio em canoas a remo, conforme nos conta Malan: A descida para o Rio desenvolve-se por cerca de meia-légua [...] Mas, apezar dos perigos, não deixavam, anualmente, de descer o Uruguay seis e mais piraguás, exportando pra cima de 20.000 arrobas de herba e notável carregação de fumo. O lucro é evidente, se bem sucedida à empresa: a herba que, nas margens do GoyoEm, apena custava o trabalho do preparo, eram vendidos nos portos argentinos a mais de 5$000 a arroba [...] (1918.p.273). 23 Figura 5 – Caracterização do povoamento e colonização do oeste catarinense, destacando a migração oriunda do Rio Grande do Sul Fonte: Atlas de Santa Catarina (disponível em: < http://christinahipolito.zip.net>). 1.2 Usina Foz do Chapecó Energia S.A. A UHE Foz do Chapecó Energia S.A. (FCE) (figura 6), usina de grande porte, está localizada no rio Uruguai, entre os municípios de Águas de Chapecó, em Santa Catarina, e Alpestre, no Rio Grande do Sul, com potência instalada de 855 MW, o que representa 0,6764% da capacidade de geração de energia do Brasil (ANEEL, 2008). O eixo da barragem pode ser identificado pelas coordenadas geográficas 28050’52” de latitude sul e 530 de longitude oeste (EIA/FCE, 2000). Esse reservatório inunda aproximadamente 79,2 km² de terras, abrangendo um total de doze municípios entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul: Águas de Chapecó, Guatambu, Caxambu do Sul, Chapecó, Paial, Itá, Alpestre, Rio dos Índios, Nonoai, Faxinalzinho, Erval Grande e Itatiba do Sul (FCE, 2014; ROCHA, 2012, p. 99). A água represada é contida por uma barragem de 48m de altura, chegando a 598m de extensão. São 15 comportas de 18,70m x 20,60m de largura que servem de vertedouro; a água passa por dois túneis, medindo cada um 357m de comprimento, sendo que os 103m 24 localizados na margem esquerda fazem a adução da água até as quatro unidades geradoras (FCE, 2014). Figura 6 – Barramento FCE com os túneis de desvio de água Fonte: Lindacir Zornitta, 2014. A implantação da FCE está ligada ao projeto rio Uruguai (VAINER, 2011). A discussão sobre o projeto e aproveitamento do potencial energético da bacia hidrográfica do rio Uruguai acontecia desde a década de 1960, período em que foram realizados os primeiros estudos relacionados ao inventário hidroenergético da região sul do Brasil, pelo Comitê de Estudos Energéticos da Região Sul (ENERSUL), com a supervisão da Canambra (FCE, 2000). Quando o primeiro projeto foi apresentado para a construção da obra, localizava-se acima do rio Chapecó e previa a inundação das cidades de Águas de Chapecó e São Carlos; foi rejeitado pela população local, de modo que acabou sendo cancelado temporariamente (ROCHA, 2012, p. 106; BOAMAR, 2003, p. 151; BARON, 2012, p. 63). Porém, levando em conta a evolução do panorama energético nacional, a obra foi revisada, reprojetada e leiloada pela ANEEL em março de 2001, tendo o consórcio Foz do Chapecó como empresa vencedora (ROCHA, 2012, p. 108). A construção da barragem teve início no ano de 2008, mas o enchimento do reservatório somente ocorreu no ano de 2010. Segundo o Estudo de Impacto Ambiental 25 (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), as formas de utilização das áreas atingidas pelo reservatório eram prioritariamente agricultura temporária (44%), pastagens (30%), agricultura permanente (10%), reflorestamento (7%) e sem atividade definida (8%) (LOCATELLI, 2011). Já as populações ribeirinhas não foram mencionadas no RIMA como população atingida, assim como a atividade da pesca artesanal profissional não foi reconhecida nos estudos ambientais. O reconhecimento ocorreu somente após a concessão da Licença de Instalação, quando o IBAMA forneceu a autorização para o início das obras, somente a partir disso o Plano Básico Ambiental (PBA) previu planos mitigatórios para os atingidos3 (WINCKLER; RENK; AGNOLIN, 2012). Retomando a questão do tempo e tomando-o “como fator de pressão e exclusão” (BARON; RENK, 2012)4, fica cada vez mais evidente que a demora no processo da construção da usina FCE acabou por ser utilizada como uma estratégia de convencimento popular, permanecendo 40 anos na expectativa da população daquela região. A informação que permaneceu imprecisa e importuna no âmbito daquelas famílias por tanto tempo serviu de gatilho para o desenrolar das transações; quando iniciaram as negociações das propriedades rurais, algumas famílias já estavam a ponto de aceitar qualquer proposta, pois queriam mesmo é que o pesadelo vivenciado por tanto tempo terminasse definitivamente. Como veremos no desfecho desta pesquisa, as famílias relatam que essa agonia é vivenciada no seio familiar como um espinho que fere os sentimentos por terem que abandonar seus lugares de origem, lugares repletos de memórias de seus antepassados. Locatelli (2011, p. 147) enfatiza que essa é uma das estratégias utilizadas pelos empreendedores para gerar um comportamento de ansiedade e inquietação nos grupos atingidos: “esse prolongado tempo provocou consequências importantes sobre o comportamento dos distintos agentes em relação a todo o processo”, as empreendedoras implantavam a ideia de que a hidrelétrica seria uma realidade, não importava quando. Portanto, uma geração inteira viveu com a ideia de que o seu lugar, seu espaço, suas 3 Para aprofundar o conceito de “atingidos” consultar: Relações de poder na hidreletricidade : a instalação da UHE Foz do Chapecó na bacia do rio Uruguai. Humberto José da Rocha. Tese de Doutorado apresenta ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. 4 BARON, Sadi. RENK, Arlene .UHE Foz Do Chapecó: Estratégias dos Agentes Envolvidos e o Desenvolvimento Regional. Debatem sobre a importância do fator “tempo” no desencadeamento de tomada de decisões e a forma de pagamento de indenizações pelo empreendedor aos atingidos. 26 referências seriam destruídas pelo progresso e desenvolvimento, ouvindo dos pais e avós que, um dia, o lugar onde viviam seria encoberto pela água para produzir energia, e nada iria impedir isso. Então, a única saída era migrar para a cidade, não adiantava construir ou sequer cuidar da terra (LOCATELLI, 2011, p. 148), o que contribuiu para a desvalorização das propriedades e também facilitou o desfecho de muitas negociações realizadas com rapidez e sem muitas reivindicações por direitos, muito menos contrárias à usina. Essa estratégia é reconhecida também pelos entrevistados: Mas isso eles já vem com essas prática já. Imagina se eles viessem aqui dizendo que ia ter problemas que a barragem ia trazer prejuízo... Não tem lógica isso. Em todas as barragens eles fazem isso. (PA06T2). A FCE foi construída num período de quatro anos, iniciando-se as primeiras obras no canteiro de obras em dezembro de 2006 e colocando-se em funcionamento a primeira unidade geradora de energia em outubro de 2010 (WINCKLER; RENK; AGNOLIN, 2012). A obra foi realizada pelo Consórcio Energético Foz do Chapecó (CEFC), formado pelas empresas Companhia Paulista Força e Luz (CPFL), Furnas Centrais Elétricas (FURNAS) e Companhia Estadual de Geração e Transmissão de Energia Elétrica (CEEE-GT), atualmente Foz do Chapecó Energia S.A. O empreendimento alcançou um orçamento na ordem de R$2,64 bilhões, sendo que 70% desse valor foram financiados pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e por um consórcio de bancos privados, restando a responsabilidade da parcela restante da dívida a encargo da própria empresa e de seus acionistas (FCE, 2011). Diante do exposto, fica visível como o governo federal vem concentrando esforços na construção de UHEs como base energética do País. As ações ficam claras no Programa de Aceleração de Crescimento (PAC)5, que mostra a intenção de investimento no setor energético em larga escala. A exemplo, o PAC 2 (segunda etapa do programa), num período de três anos, colocou em operação quatro hidrelétricas, com destaque para as usinas de Jirau 5 Plano de Aceleração do Crescimento Econômico (PAC), divulgado no início de 2007, pelo governo Lula. O PAC teve o objetivo de promover inúmeras ações de grande e médio porte voltadas para a integração de polos regionais, facilitação da aceleração do desenvolvimento sustentável e aumento da produtividade (BRASIL, 2013). O programa tem foco no setor de infraestrutura. Em março de 2010, foi lançado o PAC 2. 27 e Santo Antônio, construídas no rio Madeira, em Rondônia6, aumentando a capacidade de geração de energia em 10.200 megawatts. Estão em construção, pelo PAC 2, nove hidrelétricas (BRASIL, 2014), dentre elas destaca-se o Complexo Belo Monte, que tem originado grandes conflitos sociais e ambientais desde que iniciou suas obras, no segundo semestre de 2011. Do mesmo modo aqui, a usina Foz do Chapecó foi construída com ênfase de um grande evento político apresentando novidades em termos de tecnologia (AGNOLIN, 2012), com discursos de inclusão social das comunidades atingidas (MELCHIOR, 2014), quando na realidade observa-se que as forças políticas são visivelmente desiguais quando analisadas as práticas adotadas para a liberação de documentos necessários para a instalação dessas obras. O modus operandi dos empreendedores desse segmento apresenta-se da mesma maneira em qualquer região, a começar pelo EIA, que apresentou inúmeros problemas e inconsistências; continuando pelas audiências públicas, as quais contavam com a presença de policiais fortemente armados claramente como forma de impressionar os manifestantes que participavam das audiências; o discurso com promessas falaciosas de “desenvolvimento” e “responsabilidade social”, com o intuito de persuadir o povo a apoiar a construção das barragens sem contrariar as condições impostas pela empresa. Outra questão importante é a do deslocamento de centenas de famílias com indenizações duvidosas e negociações injustas (SEVÁ, 2008; VAINER, 2007) e o respaldo do governo que se esforça ao máximo para manter a fluidez nas negociações para que a empresa possa cumprir com o cronograma da obra – isto se verifica em vários empreendimentos, ocorreu na construção da usina Foz do Chapecó e ocorre nas obras do Complexo Belo Monte. Não podemos deixar de mencionar a indiferença ou incredulidade de uma parcela da população frente aos impactos que essas megaconstruções provocam em 6 O Complexo do Rio Madeira abrange as Usinas Hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau. Conforme dados do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), até 2017 a implantação das usinas movimentará um custo de aproximadamente R$25 bilhões (BANCO MUNDIAL. Licenciamento ambiental de empreendimentos hidrelétricos no Brasil: uma contribuição para o debate. Brasília: BIRD, 2008). 28 suas comunidades, apesar de estarem tão próximas das barragens. É uma sequência de ações repetitivas e altamente planejadas. No que diz respeito à FCE, de acordo com o MAB7, essas barragens são impostas para as comunidades, e os atingidos não têm voz e nem vez, não são ouvidos muito menos perguntados sobre se querem ou não tais empreendimentos. É nesse contexto que os conflitos são gerados, pois as fragilidades das comunidades são estudadas e analisadas com antecedência e exploradas de acordo com sua conveniência para quebrar muitas resistências e receber o apoio de parte da comunidade. Por outro lado, a participação dos movimentos sociais de resistência como o MAB aglutinou forças importantes no início do empreendimento (BARON; RENK, 2012). Diante do exposto, cabe-nos refletir sobre a crescente expansão de produção de energia elétrica no Brasil baseada no hidronegócio, que por sua vez está amparado legalmente nos EIA/RIMA, omitindo e desprezando os efeitos provocados pela construção de barragens (VAINER, 1992, p. 57). Esses efeitos são constantemente apontados pelas comunidades ribeirinhas de pescadores que sobrevivem da pesca artesanal e diretamente atingidas, desencadeando sérios conflitos socioambientais e que não são ouvidos pelas esferas governamentais, conforme declarou a secretária executiva nacional do Conselho Nacional dos Pescadores, Maria José Pacheco, em entrevista concedida ao Instituto Humanitas da Unisinos (2012)8. Esse aumento na demanda de energia está relacionado com o uso indiscriminado e insustentável de energia; ora, faz-se necessário e urgente um plano de eficiência energética acompanhado de uma política de utilização consciente da energia disponível, e como prática que ocorra não somente à beira de uma crise energética, mas que seja permanente e eficaz contra o desperdício e o mau uso. Também, é preciso repensar o uso indiscriminado e indireto dos recursos naturais nacionais para beneficiar países estrangeiros através da exportação de matéria-prima beneficiada. O processo de desenvolvimento econômico proporciona conflitos diretos sobre o meio ambiente e a sociedade, com implicações em determinados grupos sociais de forma 7 8 Entrevista fornecida ao autor em junho de 2014. Revista eletrônica IHU. Disponívem em: <http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas>. Acesso em:: jul. 2014. 29 mais acentuada. As diversas fases de implantação de uma usina hidrelétrica provocam efeitos nas comunidades ribeirinhas de grandes amplitudes, podendo atingir o caos social e ambiental. As chuvas que castigaram a região de Santa Catarina e Rio Grande do Sul no mês de junho de 2014 são exemplos recentes de como a natureza pode ser rígida quando não respeitada, manifestando-se com força e capacidade de retornar ao seu espaço, deixando a população em situação crítica e vulnerável. Claro que nossa região possui um enorme potencial hídrico para o desenvolvimento de produção de energia hidrelétrica, no entanto, não podemos aquiescer para a destruição dos meios naturais e culturais de um povo cedendo lugar ao comércio desses recursos que são (ou deveriam ser) de todos. 30 CAPÍTULO II MÉTODO DE PESQUISA E CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDOS Nesta pesquisa, evidenciamos o espaço sendo permeado sob uma condição fenomenológica que possibilitou obter informações sobre a história do local, o envolvimento do pescador e sua família com a pesca, as dificuldades encontradas para o desempenho de suas atividades pesqueiras, as mudanças ambientais provocadas por usinas hidrelétricas instalados na região, assim como algumas de suas lendas e suas crenças surgiram também nas conversas. As discussões procuraram percorrer abordagens de diferentes áreas do conhecimento, tais como antropologia, ecologia humana e biologia. Sob o olhar da antropologia, procuramos debater o campo das inter-relações entre sociedade e meio ambiente, visto sob a perspectiva da antropologia ecológica proposta pelo autor Tim Ingold (2000), que questiona paradigmas tradicionais a respeito da percepção e interação humana sobre o meio ambiente. 2.1 Área de estudos O estudo foi realizado com pescadores dos municípios de São Carlos/SC (Z-35), Caxambu do Sul/SC, Guatambu/SC e Chapecó/SC (Z-29), (figura 7), pois todos eles encontram-se em área de influência da Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó (UHFC). A bacia hidrográfica do rio Uruguai, conforme pode ser observado no mapa a seguir (figura 8), está localizada ao sul do Brasil, entre os paralelos de 27º e 32º latitude sul e os meridianos de 49º 30’ e 58º 15’ WGr (ANEEL, 2008). Atinge uma área de aproximadamente 384.000 km2, sendo 176.000 km2 dessa área situados em território nacional, divididos entre os estados de Santa Catarina, com aproximadamente 46.000 km2, e Rio Grande do Sul, com uma área de aproximadamente 130.000 km2. 31 Figura 7 – Delimitação da área de estudos de acordo com a influência da Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó Fonte: <http://www.ibama.gov.br/publicadas/usina-hidreletrica-de-foz-do-Chapecó>. Possui uma vazão média anual de 3.600m3/s, volume médio anual de 114 km3 (ANEEL, 2008). É delimitada ao norte e nordeste pela Serra Geral; ao sul, pela fronteira com a República Oriental do Uruguai; a leste, pela Depressão Central Rio-grandense; e a oeste, pela Argentina (BRASIL, 2006). Seu principal rio de drenagem é o rio Uruguai, formado da confluência do rio Pelotas com o rio Canoas; a partir daí, percorre 2.200 km de extensão, até a sua foz no estuário do rio da Prata (SANTA CATARINA, 2007). Logo na sua origem, o rio Uruguai divide os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, em seu trecho nacional. Depois, em seu trecho compartilhado, define a fronteira com outro país, a Argentina (BRASIL, 2006). O rio Uruguai tem sua nascente localizada na Serra Geral, numa área de campos naturais, a cerca de 1800m de altitude (CAROLSFELD; HARVEY; ROSS; BAER, 2003; ANA, 2014). Formado pelos rios Pelotas e Canoas, assume a denominação de rio Uruguai a partir da junção com o rio Canoas, ambos com nascentes localizadas na serra catarinense, na região chamada Campo dos Padres (DEVITTE, 2011; PELUSO, 1991, p. 19); recebe outros afluentes ao longo do seu percurso rumo a oeste, demarcando o limite entre estados na parte do oeste de Santa Catarina e o noroeste do Rio Grande do Sul, até a fronteira com a 32 Argentina, local de onde segue para o Sul, até desaguar no RIO da Prata, divisa entre Argentina e Uruguai (BRASIL, 2006; FRANCO et al., 2011; PELUSO, 1991). Conforme o Livro Vermelho da Fauna Brasileira, possui pelo menos 223 espécies de peixes, entre descritas e não descritas (p. 12); entre estas, nove espécies (p. 16) encontram-se ameaçadas de extinção (BRASIL, 2008c). Figura 8 – Visualização da bacia hidrográfica do rio Uruguai Fonte: Caderno da Região Hidrográfica do Uruguai (BRASIL, 2006, p. 24). De acordo com o Plano Nacional de Recursos Hídricos (PNRH/resolução 32/2003),9 a bacia divide o País em doze regiões hidrográficas, que correspondem a apenas 2% do território nacional. Apesar de sua pequena expressão territorial, as atividades agroindustriais e o potencial hidrelétrico colocam a Região Hidrográfica do Uruguai em lugar de destaque no cenário nacional (BRASIL, 2006). 9 O PNRH segue a Divisão Hidrográfica Nacional, aprovada pelo CNRH (Resolução n. 32/2003), que define doze regiões hidrográficas para o território brasileiro, compostas por bacias hidrográficas próximas entre si, com semelhanças ambientais, sociais e econômicas. Também integram esta base informações disponibilizadas pelo IBGE e pela ANA (BRASIL, 2006). 33 A característica da região em cultivar as margens do rio ocorre devido à qualidade dos solos provenientes do basalto; já a importância da região para a implantação de hidrelétricas é proveniente de sua topografia (BRASIL, 2006). Atualmente, no trecho da sub-bacia que compreende a porção do rio Uruguai no território brasileiro, destacam-se as hidrelétricas (figura 9) de Passo Fundo, no rio Passo Fundo, a UHE de Itá, a UHE de Machadinho, a UHE Foz do Chapecó, a UHE Barra Grande e a UHE Campos Novos no rio Uruguai, e a UHE Monjolinho no rio Erechim (RS). Juntas, essas hidrelétricas atingem uma área de alagamento aproximada de 585,36 km² (BRASIL, 2006), equivalente a 58.436 ha de área alagada (HÜFFNER; ENGEL, 2011) – é importante salientar que existe a previsão de instalação de mais UHEs. Essa é uma região em que ocorrem diversos conflitos socioambientais, pois o interesse econômico sempre prevaleceu e continua prevalecendo, com a exploração da hidroeletricidade imposta sobre as demandas sociais, ambientais e culturais da população que vive às margens do rio Uruguai e seus afluentes (HÜFFNER; ENGEL, 2011). Os projetos hidrelétricos em sua totalidade apresentam grandes intervenções na natureza, na biodiversidade local e principalmente na vida das populações locais ribeirinhas e em suas condições socioeconômicas. Diante do exposto, verifica-se que o rio Uruguai é personagem importante para o desenvolvimento do estado de Santa Catarina e Rio Grande do Sul por ser utilizado por diferentes populações de seu entorno para a prática de diversas atividades econômicas, de transporte e pesqueiras (FRANCO et al., 2011), definindo assim a ocupação da região oeste de Santa Catarina. 34 Figura 9 – Registro do potencial hidrelétrico da sub-bacia do rio Uruguai Foz do Chapecó Fonte: Eletrosul (1979 apud ROCHA, 2012). 2.2 Município de São Carlos A cidade de São Carlos (SC) está localizada a jusante da UHFC e é uma das cidades afetadas pela construção da UHFC pelo trecho de vazão reduzida do rio que corresponde a uma distância de 19 quilômetros (FOZ DO CHAPECÓ ENERGIA S/A). Verifica-se a imensa redução da água no leito do rio causada pela UHFC, impossibilitando que os pescadores da região desempenhem suas atividades pesqueiras como eram realizadas antes da construção da barragem. A cidade está localizada às margens do rio Uruguai, próximo à Foz do rio Chapecó. Conta com uma população de 10.291 habitantes, em uma área de 161,292 km². Localizada entre as cidades de Caxambu do Sul e Palmitos, abriga a sede da Colônia de pescadores denominada Z-35. Ao que cabe constar sobre o projeto da FEC, a cidade de São Carlos foi constatada no EIA/RIMA da empresa da seguinte forma: A cidade de São Carlos está situada no lado de jusante da confluência do rio Chapecó com o rio Uruguai e, portanto, na parte da cidade junto ao rio Chapecó as condições atuais serão mantidas sem alteração. Na parte junto ao rio Uruguai, 35 este estará escoando toda a vazão do rio Chapecó, o que é suficiente para as necessidades de diluição de efluentes e eventual abastecimento de água (EIA/RIMA). 2.4 Município de Caxambu do Sul O município localiza-se a montante da UHFC e foi profundamente afetado pelas obras do consórcio de várias formas; destaca-se a extinção da linha Sanga Rosa, que foi completamente inundada, sendo necessária a realocação de 100% da população daquela comunidade – muitos moradores que conviviam há anos no sistema de vizinhança, com vínculos de amizade e até mesmo familiares, foram separados por consequência das transferências. 2.5 Município de Guatambu O município está localizado a montante da UHFC e foi profundamente afetado pelas obras da UHFC através da redução drástica da vazão do rio Uruguai, que alterou a atividade pesqueira daquela região e consequentemente a vida de muitas famílias ribeirinhas. O rio Uruguai foi rota de transporte de balsas conduzidas por balseiros nos anos 40, 50 e 60 do século XX. Essa profissão ajudou a região a crescer e se desenvolver com o escoamento de madeiras (inclusive o pau-marfim ou guatambu) para a Argentina. Após o período das madeireiras, Guatambu passou a desenvolver a agricultura em escala maior, acelerando o processo de extração da erva-mate, criação de suínos e aves (IBGE, 2013). 2.6 Município de Chapecó O Município se localiza a montante da UHFC e é afetado pelo consórcio em função do aumento do nível da água após o enchimento do lago da usina, o que desestabilizou o local onde estão instaladas as redes de pesca no distrito de Goio-Ên. Além da alteração do nível das águas, existem relatos da diminuição de algumas espécies de peixe ao longo do rio. O município de Chapecó exerce a função de capital do oeste catarinense e polo de uma 36 região com mais de 200 municípios, onde se encontram as sedes das principais empresas processadoras e exportadoras de suínos, aves e derivados do Brasil. Estima-se uma população atual de mais de 170 mil habitantes, 93% urbana e 7% rural (IBGE, 2013). 2.3 Método qualitativo A pesquisa é qualitativa e utilizaram-se dois instrumentos principais desse tipo de trabalho: a observação e a entrevista semiestruturada. As entrevistas procuraram visualizar a essência cotidiana dos pescadores, as percepções de seus espaços e também as narrativas compartilhadas e individuais das experiências de suas lidas no rio. O estudo foi realizado entre os meses de agosto de 2013 e fevereiro de 2014, iniciando-se as atividades na cidade de São Carlos (SC) para a prospecção dos possíveis agentes da pesquisa. A decisão por adotar a técnica “bola de neve”10 deu-se por ser muito empregada em pesquisas de educação ambiental em comunidades onde os agentes entrevistados indicam outros participantes, e assim consecutivamente, até que se obtenha um número desejado de entrevistas ou que a coleta de dados perceba que as informações estejam sendo continuamente repetidas sem acréscimo de novas informações que possam ser úteis à pesquisa. Essa técnica foi importante, pois possibilitou, o que lhe é característico, o acesso aos líderes das comunidades. Nos campos das citações no decorrer do trabalho, optei por manter a linguagem original dos entrevistados por considerá-la como uma expressão cultura local. Através das entrevistas, colhemos percepções de espaço, entrelaçamentos de linhas entre terra e água, sentimentos dos pescadores com a comunidade, com o barco, com o rio, com o peixe, com a usina que trouxe tantas mudanças no seu viver. A intenção foi realizar um trabalho “com gente dentro”11, portanto, farei também uso das memórias dos agentes da pesquisa. Segundo Minayo (2010), a entrevista, quando analisada, precisa incorporar o contexto de sua produção e, sempre que possível, ser 10 Técnica que utilizaa “amostragem em bola de neve” ou “cadeia de informantes”, apresentada por Goodman, em 1961. 11 Expressão utilizada pelo autor Tim Ingold (STEIL; CARVALHO, 2011). 37 acompanhada e complementada por informações provenientes de observação participante. A observação, por sua vez, cumpre a função de colocar o pesquisador como observador de uma determinada situação e entender a posição do outro na pesquisa, relatando através do diário de campo fatos e acontecimentos – isto caracteriza a pesquisa de cunho etnográfico, o envolvimento do pesquisador no ambiente natural da pesquisa. Conforme André (1995), A fenomenologia enfatiza os aspectos subjetivos do comportamento humano e preconiza que é preciso penetrar no universo conceitual dos agentes para poder entender como e que tipo de sentido eles dão aos acontecimentos e às interações que ocorrem em sua vida diária. (p. 18). O trabalho de campo é em si um momento relacional, específico e prático (MINAYO, 2010). A pesquisa etnográfica possibilita a participação dos agentes de maneira espontânea e oportuniza ao pesquisador a possibilidade de experimentar sensações diferentes e conhecer múltiplos processos de conhecimentos, não o isentando da responsabilidade e cuidado pelo conteúdo apreendido. É uma excelente oportunidade de entrar no mundo do entrevistado e aprender a articular a teoria com a realidade, sempre respeitando o ponto de vista do outro. Assim, sentir que ao longo desse caminho vidas são vividas, habilidades desenvolvidas, as observações feitas e entendimentos acrescidos (INGOLD, 2011). As experiências adquiridas durante os trabalhos permitiram entender o quanto uma palavra – embora possa parecer apenas uma palavra – pode conter um som tão estridente. Perceber isto só é possível graças à pesquisa etnográfica, que possibilita evidenciar o que está nas entrelinhas das interações interpessoais. Isso sugere realizar uma comparação com a natureza: muitos de seus gritos de apelo desferidos através de alterações ambientais não são percebidos e interpretados como deveriam ser pelo ser humano, assim também são as palavras, gestos e sentimentos dos pescadores entrevistados – por isso, esta pesquisa exigiu um grande esforço para que cada palavra dita nas entrelinhas fosse desvendada, interpretada com veracidade e autenticidade. Uma simples conversa pode parecer uma troca de informações ou uma tentativa de comunicação entre as pessoas, mas aprendi que deve ser muito mais do que isto. Acolhe-se aqui então a argumentação de Ingold (2012), quando afirma que os seres humanos colocam em palavras o que a natureza está falando e, nesse sentido, colocam-se como tradutores mas 38 não como intérpretes que poderiam ser. Aprender e perceber faz parte de uma aquisição de habilidades através de uma percepção direta engajada com outros (p. 372). O universo amostrado foi constituído de 25 entrevistados – 17 homens e 8 mulheres –, segundo a localidade na qual residem: 18 são de São Carlos, 2 de Caxambu do Sul, 3 de Chapecó e 2 de Guatambu (SC). Contou também com a participação dos presidentes das colônias Z-29 e Z-35, assim como de representantes de movimentos sociais como o MAB. A pesquisa preocupou-se com os depoimentos dos agentes da pesquisa, tanto na forma de desenvolvimento das entrevistas quanto com a apresentação dos dados. Antes de cada entrevista, os participantes foram informados sobre os métodos que seriam utilizados para colher os dados da pesquisa, seus objetivos e sobre o uso de aparelhos para gravação das informações. O acordo com os pescadores incluiu a parada em alguns pontos da conversa a critério deles mesmos; quando o entrevistado solicitava que fossem paradas as gravações, era atendido e aquela parte do depoimento não era anexada à pesquisa. Posteriormente, os relatos eram transcritos na íntegra. A preservação do caráter sigiloso dos dados foi garantida. Os participantes eram informados sobre a preservação de sua identidade na pesquisa – alguns afirmaram que não haveria problema algum em divulgar seus nomes, porém, por questões metodológicas, apresentarei apenas a nomenclatura elaborada de acordo com a ordem das entrevistas, localização residencial, localização de atividade pesqueira e classificação na pesca. As entrevistas eram programadas com visitas pré-agendadas e colhidas geralmente nas residências dos entrevistados, faziam uso livre da palavra; por vezes, os entrevistados recebiam visitas, que entravam na conversa, contavam histórias, completavam depoimentos livremente, sem cerimônias, demonstrando a singularidade cotidiana do jeito simples de viver, do modo sereno de compartilhar memórias, demonstrando que a vida de pescador – muito embora se constitua num envolvimento peculiar com a atividade – é uma vida compartilhada em comunidade, é uma vida sempre em “movimento”, em que o fluxo de vitalidade é constante nessa troca de energias entre os envolvidos na história. A pesquisa procurou situar o sujeito além de suas atividades profissionais, buscou saber quais eram seus conceitos, críticas e posicionamentos sobre as mudanças ocorridas no 39 espaço em que habita, afinal de contas existe uma identificação com o espaço onde vive, espaço em que interage desde criança, onde criou seus filhos, onde estão seus amigos, seus laços sentimentais e de pertencimento e que originam a propriedade das falas. Além disso, os pescadores convivem diariamente com as transformações do rio e vivenciam as consequências das ações antrópicas. A maioria dos pescadores prontificou-se imediatamente após a apresentação do projeto para participar da pesquisa. Foi o tempo de estabelecer os critérios para a definição dos entrevistados: a) Pescadores que tivessem sido afetados pela construção da barragem FCE. b) Quando se pensou no fator “idade”, queríamos estabelecer contato com pescadores de diferentes faixas etárias, que pudessem nos fornecer dados ao longo de um tempo para que entendêssemos como, e se, era passada essa profissão de pai para filho como um legado, como uma herança; dessa forma poderíamos agregar maior quantidade de informações sobre o modo de vida e as percepções desses agentes sobre o hábito de pescar e os aprendizados com o rio ao longo de gerações na família, assim como sobre as diferentes percepções das mudanças do rio e do entorno ao longo dos anos. c) Pescadores que conhecessem o rio Uruguai. Profissionais ou não, apenas que tivessem o hábito de pescar, seja para comercialização ou somente para subsistência, mas que tivessem afinidade com o rio. d) Pescadores que concordassem em participar das entrevistas. A seguir, apresento as categorias com os assuntos a serem abordados em cada uma delas. Para abraçar o objetivo de entender a organização dos pescadores entrevistados, foram entrevistados os presidentes das colônias de pescadores Z-29 (de Chapecó) e Z-35 (de São Carlos), assim como representantes de movimentos sociais que tiveram participação em todo o processo de organização dos agentes durante o evento FCE. A pesquisa é norteada a partir de categorização dos dados com vistas a categorias êmicas, ou seja, resultantes dos depoimentos dos entrevistados, da forma como se passa na mente do indivíduo. Através de um roteiro de entrevistas (anexo 1) com perguntas básicas 40 relacionadas ao tema da pesquisa, foi possível determinar categorias (quadro 1), que posteriormente foram analisadas dialogando com as ideias do autor Tim Ingold. Quadro1 – Categorias de análise da pesquisa Categorias Perfil étnico, gênero e socioeconômico Pesca no rio Uruguai Percepção do espaço / território Abrange Socioeconômico, perfil étnico, sucessão familiar na pesca e questões de gênero na pesca. Conhecimentos ecológicos (representações de recursos naturais, manejo e preservação), ictiofauna, instrumentos utilizados na pesca, relação entre os pescadores e com movimentos sociais, atuação de órgãos como IBAMA e P.A., lendas e crenças, importância do rio, rio como parte de sua história, perspectivas futuras. Mudanças causadas pela usina (convivência social, vegetação) lembranças do rio, sentimentos em relação ao rio, percepção do antes e do depois da usina. Fonte: elaborado pela autora. 2.7 Os primeiros passos em campo Numa tentativa de clarear os caminhos metodológicos adotados para esta pesquisa, vamos relembrar os primeiros passos adotados para encontrar o fio da meada e tomar o rumo deste trabalho. Em setembro de 2013, realizei a primeira visita à cidade de São Carlos (SC) para a prospecção dos possíveis agentes de minha pesquisa. Cidade próxima, com um povo gentil, hospitaleiro, num dia muito frio. Nessa primeira entrevista, estávamos eu e mais duas colegas de grupo do projeto já citado, do qual esta dissertação faz parte. A priori, aquele seria o primeiro contato com os agentes da pesquisa do projeto. Procuramos, então, nosso primeiro candidato a entrevistado, pelo qual fomos recebidas à moda tradicional da região, à beira do fogão a lenha, com uma chaleira de água esquentando, uma cuia de mate rodando a cozinha e algumas histórias a serem contadas. Depois de nos apresentarmos e apresentarmos 41 nossos objetivos naquele local, tivemos acesso imediato a muitas informações entalhadas com riquezas de detalhes sobre a obra, todo o seu processo de implantação, os movimentos organizados envolvidos no processo, as associações e repartições públicas envolvidas, enfim, informações valiosas a partir das quais percebi um ponto-chave de meus estudos: as lembranças do rio de antigamente, que, para aquele senhor, era como um santuário – logicamente que essas recordações se referem a um rio de antes da implantação da barragem. Até então eu particularmente não tinha ideia de como iria iniciar minha pesquisa; todas aquelas dúvidas terríveis rodeavam minha cabeça incessantemente, num sentimento terrível de estar rodeada de pessoas, mas completamente perdida. E, de repente! Aqueles momentos únicos que só acontecem uma vez e que só se vive em campo... uma frase. Uma frase bastou para que eu colocasse os dois pés ao chão: “O rio, porque o rio pra mim foi um pai que poucos filhos teve!” Essa citação foi tão importante para mim que definiu praticamente minha inserção em campo. Começou, então, a se desenhar um perfil de pesquisa. Durante a entrevista, eram visíveis as feições que se desenhavam durante seus relatos, denunciando o sentimento, as decepções, as frustrações quando o assunto girava em torno da atual condição ambiental do rio, fonte de renda de muitos moradores do município, pescadores do rio Uruguai. Nesse primeiro encontro, foi interessante ouvir e conhecer os diferentes pontos de vista do entrevistado sobre determinados assuntos e constatar que as pessoas em diferentes associações avaliam suas percepções de maneiras diferentes. Após a conversa, nosso entrevistado indicou-nos mais alguns pescadores para que pudéssemos continuar com nossa pesquisa, dentro da metodologia esperada. Com muito entusiasmo, ficou completamente à vontade em abrir as portas de sua casa para quando eu precisasse voltar para ouvi-lo, deixando claro que era de seu gosto prestar essa colaboração. Depois dessa primeira viagem, resolvi dar meus primeiros passos rumo à minha carreira solo na pesquisa. Iniciei com esse agente, fui visitá-lo novamente na semana seguinte. Quando cheguei em sua casa na outra semana, fui recebida com o mesmo entusiasmo de outrora; após a apresentação de minha pesquisa, tivemos uma longa conversa sobre suas memórias, suas histórias e resolvi visitar, mesmo que de longe, o rio Uruguai para observar alguns detalhes da fala do meu entrevistado a respeito da situação do rio – logicamente que o meu 42 anfitrião quis acompanhar-me, o que foi um grato prazer pois só assim pude entender muitas falas durante nossa conversa. A surpresa, a decepção tomou-me por completo ao verificar o leito do rio completamente descoberto, a céu aberto, desprovido de sua cobertura natural, a água. De posse de muitas fotos e também de alguns nomes que o entrevistado prontamente ofereceu, restou-me apenas dar os encaminhamentos necessários aos trabalhos de forma organizada. Iniciei então a programação de outras visitas ordenadas às cidades de Caxambu do Sul, São Carlos, Guatambu e Chapecó. Preocupei-me, então, em realizar os primeiros contatos com os entrevistados indicados; as entrevistas foram marcadas com os colaboradores com antecedência; e as visitas, realizadas de acordo com a disponibilidade de cada um deles. A partir daqui, nos capítulos que seguem, todas as conversas serão analisadas e discutidas. 43 CAPÍTULO III O PESCADOR, A COLÔNIA E A PESCA 3.1 Aspectos socioeconômicos dos pescadores do rio Uruguai O perfil socioeconômico dos pescadores foi delineado a partir das informações coletadas durante as entrevistas. Como já citado anteriormente, a pesquisa foi realizada com pescadores dos municípios de São Carlos/SC (Z-35), Caxambu do Sul/SC, Guatambu/SC e Chapecó/SC (Z-29), onde as duas colônias de pescadores que representam os pescadores do trecho estudado constituem um cadastro de aproximadamente 350 pescadores profissionais. Para melhor visualização dos dados pessoais dos entrevistados, apresentamos a seguir, no quadro 2, os principais elementos do perfil dos pescadores para posterior análise desses dados. Esclarecemos que a nomenclatura relacionada foi elaborada de acordo com a classificação do entrevistado – pescador profissional (PP) que possui cadastro profissional junto à colônia de pescadores do município, ou pescador amador (PA) no caso dos agricultores que fazem uso da pesca também como complemento alimentar; a ordem da realização das entrevistas; e local onde o pescador exerce sua atividade junto ao rio Uruguai. As nomenclaturas utilizadas são PAxTx e PPxTx: - PP: Pescador profissional; - PA: Pescador Amador; - X: para a ordem das entrevistas; - T: Trecho de atuação no rio Uruguai. Para os trechos, foram designadas as seguintes nomenclaturas: - T1 – São Carlos; - T2 – Caxambu do Sul; - T3 – Águas de Pratas; - T4 – Goio-Ên; 44 - UFR – Única Fonte de Renda. Quadro 2 – Caracterização econômica dos entrevistados Nome Idade Filhos Escol. Pesca UFR Outra FR PA01T1 73 - 5 Não Dom. 2. PA02T2 63 - 2 Agric. 3. PA03T2 62 2 3 Agric. Agric. 30 anos 4. PA04T2 49 2 2 Agric. Agric./Dom. 40 anos 5. PA05T2 52 3 2 Agric. Com. 20 anos 6. PA06T2 47 3 5 Agric. Prof. 30 anos 7. PA07T2 58 2 3 Agric. 8. PP01T1 68 3 2 Principal 9. PP02T1 54 3 2 Sim 48 anos 10. PP03T3 58 3 2 Principal 40 anos 11. PP04T1 38 2 2 Sim Serv. Gerais 28 anos 12. PP05T1 58 1 2 Não Dom. 40 anos 13. PP06T1 60 3 3 Sim Agric. 45 anos 14. PP07T4 48 2 3 Não Serv. Gerais 40 anos 15. PP08T1 57 3 2 Não Com. 22 anos 16. PP09T1 57 3 2 Sim 17. PP10T1 47 2 1 Sim Dom. 40 anos 18. PP11T4 47 3 2 Não Agric. 17 anos 19. PP12T1 51 2 2 Principal Agric. 21 anos 1. Tempo de pesca 50 anos 55 anos 30 anos Empreg. 45 anos 48 anos 45 20. PP13T1 53 2 2 Não Dom. 40 anos 21. PP14T1 56 3 3 Sim Dom. 39 anos 22. PP15T1 47 3 2 Sim Serv. Gerais 40 anos PP16T1 55 4 2 Não Empreg. 50 anos 24. PP17T4 42 3 2 Não Agric./Dom. 20 anos 25. PP18T1 45 3 2 Sim Serv. Gerais 25 anos 23. Fonte: elaborado pela autora. Os agentes da pesquisa apresentam uma faixa etária entre 30 e 70 anos, com uma média de 53 anos de idade (figura 10). A maioria é natural do estado do Rio Grande do Sul e vive nos municípios desde sua infância, tendo migrado com os pais para a região e formando suas famílias nessas cidades. Quanto à situação econômica dos pescadores entrevistados, tanto a montante quanto a jusante da barragem, atualmente não existe uma dependência exclusiva da pesca como fonte de renda familiar, muito embora, durante as entrevistas, grande parte dos entrevistados tenha declarado essa condição em alguma fase de sua vida. A maioria deles alega que já viveu exclusivamente da pesca por algum período, mas, em função da acentuada modificação do rio Uruguai e consequente visível diminuição de peixes, muitos pescadores são obrigados a exercer, simultaneamente, outra atividade, articulando a pesca com outras atividades complementares para sua subsistência. Destaca-se que, na região estudada, a pesca ainda se constitui a principal fonte de renda familiar. 46 Figura 10 – Faixa etária dos pescadores do rio Uruguai entrevistados Fonte: Elaborado pela autora De acordo com as declarações do presidente da colônia Z-29, localizada no trecho a montante da barragem, existe agora a necessidade de o pescador (a montante da barragem) se adequar às novas condições do rio (PP14T4), do ambiente modificado; a realidade do pescador é outra desde que o rio mudou suas características bióticas e abióticas, exigindo nova estrutura para o desenvolvimento da atividade da pesca. Entrevistadora: quais as principais dificuldades que os pescadores encontram hoje nas atuais condições do lago (rio)? Entrevistado: Sim, porque agora tudo depende de novas adequações né? Adequação do espaço, adequação do ambiente. Agora qualquer ventinho formam ondas maiores no lago, não é que nem antes ao natural. Agora qualquer ventinho gera mais ondas do que antes, e dai a gente tem que se afastar do rio. Começou a dar vento tem que sair do meio, se tiver armando rede tem que dar uma para e esperar. Por um lado, em termos de investimento do projeto que eles criaram aqui no Goio-Ên foi ótimo, mas por ouro lado para os pescadores profissional ele trouxe bastante prejuízo. O enchimento do lago, fazendo uma comparação se existia 1000 peixes por metro quadrado, agora existe os mesmos 1000 peixes em 100 milhões de mts quadrados. Ele ampliou bastante o lago né? Então ai esta a comparação de que o pescador foi prejudicado na sua renda. Outra que eles deixaram essa 47 paulera12 aí né? A pesquisa diz que essa paulera na barranca dos rios ela diz que ela é ótima na criação dos alevinos dos peixes na reprodução dos peixes, agora pro pescador é prejuízo porque ele não pode lançar a rede nas beiradas tem que ser só nos canais né? Então vai um bom tempo pro pescador estar se adequando no lago né?(PP11T4). Essas novas condições do rio (lago) a montante da barragem (figura 11) exigem do pescador mais investimento em instrumentos de pesca, o que vai ao encontro da realidade financeira desses profissionais. Hoje a região a montante da barragem vive uma nova realidade, um novo modo de vida pode influenciar nos valores da comunidade, o turismo tem se destacado como uma potencial fonte de renda para os moradores locais. Com isso, a comunidade tem uma forte tendência a passar por uma transição para se adequar a uma nova forma de viver. As declarações do presidente da colônia Z-29 deixam claro que essa nova tendência pode afastar o pescador tradicional de sua cultura local: Aqui no Goio-Ên não é só um ponto de venda, de pescado. Aqui é um ponto turístico, nós podemos utilizar de outras formas, vendendo mais produtos da agricultura, outros produtos também né?eu acredito que os investimentos deles foi forte aqui, foram pesados. A natureza e nossa prainha antiga, eu não trocaria, mas o investimento deles foi alto nesse aterro, nessas oras publicas né? Eu acho que pro turismo ficou melhor. (PP11T4). A população local tem observado as movimentações do turismo e se organizado quanto a receber as pessoas que procuram o local para lazer, e assim a comunidade tem se reunido e organizado em grupos através da associação de moradores. Temos a associação dos moradores aqui se organizamos e tem um que cata o lixo, o outro cuida dos banheiros públicos, desde quando eles criaram esse projeto, porque o povo deixa muito lixo. A venda de outros produtos também tá sendo feito pela população. (PP11T4). 12 Mesmo sabendo que um trabalho acadêmico deva respeitar a escrita correta, optei por descrever a forma de expressão local. 48 Figura 11 – Área alagada a montante da barragem – transformações da paisagem Fonte: Lindacir Zornitta, 2014. É importante destacar que alguns entrevistados são comerciantes13 e agricultores14 e outros trabalham em atividades autônomas de serviços gerais, assim como uma das pescadoras atua na área da educação – devido à sua vivência com o rio e seu relacionamento com a atividade da pesca (portanto não são pescadores profissionais), tornam-se importantes personagens deste estudo, fazem parte do cenário pesqueiro nesses municípios onde a realidade foi intensamente modificada pela FCE. Encontrei alguns pescadores aposentados e que, por esse motivo, não recebem o seguro defeso, mas alegam que nem sempre esse processo de aposentadoria funciona da mesma maneira para todos: citam que existem outros pescadores que também são aposentados e ainda assim recebem o defeso, não entendem como alguns podem ter o direito de pescar sendo aposentados e os pescadores que vivem da profissão não têm o mesmo direito. 13 EA17T2 – Entrevistado atua como comerciante na área de estudos de Caxambu do Sul, porém tem forte ligação com o RU. Foi um dos relocados da Linha Sanga Rosa, que ficou totalmente submersa com o alagamento. 14 EA09T2 – Entrevistado atua como agricultor, foi um dos relocados na área do Lajeado Bonito, totalmente alagada em função da formação do lago, com forte ligação com o RU. 49 Tem uns que tem empresa, tem uns que tem fazenda, tem uns que tem maquinário, tem tudo e ganham piracema 15, ganham tudo os direitos de quem está nos barracão e ali ganharam tudo. Então, que levantamento eles fizeram? Era pra ser um levantamento. Eu sou aposentado, então eu não tenho direito a nada. De piracema, nada. Pago mensalidade, mas não tenho direito. [...] Eles disseram: depois quem pegar os 10.000 não tem direito mais nada, mas falaram depois que todo mundo recebeu. Mas agora não tem direito de mais nada. Aí eu disse direito de mais nada o que? Eu disse, eu tenho minha carteira, eu sou pescador. Mas dai você não vai ter o direito do barracão, nem a piracema. Dai eu disse que pra mim está bom. EU só quero o direito de ir pescar, só quero ser pescador. (PP14T1). No que tange à renda mensal, os pescadores não revelam o valor total arrecadado com a pesca. No entanto, as memórias do pescador PP01T1 esclarecem que nos bons tempos de pesca chegou a pescar 100 kg de peixe numa única noite, o que rendia em média R$800,00 (oitocentos reais), mas ele faz questão de lembrar que esses valores eram conseguidos com o trabalho nos bons tempos de pesca, insinuando a nostalgia de outros tempos. Demonstra organização financeira, preocupado com a sazonalidade da profissão, já que sabe que a natureza é o seu meio de trabalho. Porque eu, o que o rio me dava, e não vou dizer que aproveitei os 100%, mas o caso é que eu apliquei esse dinheiro, eu não esbanjava ele, entende né? , porque muitos que não tem compromisso, pega o peixe, vende o peixe, e ficam jogando sinuca, ficam fazendo isso, ficam fazendo aquilo, não aplica, e eu cuidei, se o rio me dava o peixes, eu vendia, eu tinha um pouco né? Eu cuidei dele (R$) e não esbanjei. Tudo, praticamente, o que eu tenho veio do Rio. (PP01T1). A renda complementar da roça está presente na maioria das falas dos entrevistados, mas o que chama a atenção é que é muito frisada a questão de a renda principal ter sido tirada do rio por muito tempo; só deixou de ser assim depois da instalação da FCE: “naquela época a gente sobrevivia, dava muito peixe, aí foi diminuindo, agora então, não dá nada” (PP13T1). A pesca artesanal brasileira tem enfrentado grandes dificuldades que afetam os estoques pesqueiros e consequentemente os pescadores; além da falta de organização política, parte desses problemas tem sido consequência dos impactos ambientais causados pelos represamentos dos rios, que alteram a composição da ictiofauna, prejudicam a piracema e poluem a água (BEGOSSI, 2004). Semelhante ocorrência pode ser encontrada 15 Na língua Tupi, “piracema” é a palavra que quer dizer “saída dos peixes para a desova”. Os índios já observavam que alguns peixes saíam dos lagos e baías em movimentos migratórios que culminavam com a reprodução, e, mesmo nos dias de hoje, essa ainda é a palavra que melhor traduz toda a complexa sequência do processo reprodutivo dos peixes em condições ambientais propícias (IBAMA, 2008). 50 em várias partes do Brasil onde se encontram represamento dos rios para a instalação de usinas hidrelétricas, a exemplo da construção da represa três Marias do Rio São Francisco, que desestabilizou a fauna de peixes migradores, prejudicando várias famílias ribeirinhas que sobreviviam da pesca artesanal, assim como interferiu no abastecimento do mercado de outras regiões próximas. A pesca era também uma das importantes fontes geradoras de recursos para sua população ribeirinha. Pescadores desportivos, provavelmente aos milhares, dirigiamse anualmente às margens do rio. Centenas de estabelecimentos comerciais, como hotéis, restaurantes, clubes de pesca, peixarias e lojas, obtinham na pesca sua fonte principal ou secundária de recursos. A receita gerada pela pesca pode ter atingido dezenas de milhões de reais por ano. Além disso, o rio provia proteína animal farta para milhares de ribeirinhos. (GODINHO; GODINHO, 2003, p. 18). Pescadores tradicionais são pescadores que vivem e sobrevivem da pesca e que transmitem seus conhecimentos no ciclo familiar de pai para filho, que tem aspectos culturais baseados na pesca, no respeito à natureza, com acesso aos recursos naturais, demonstram um vasto conhecimento sobre as águas, as luas, as espécies de fauna e flora, diferenciando-se e destacando-se na sociedade brasileira. A principal característica é que esses saberes não são repassados a partir da ciência, dos bancos escolares ou academias, mas sim nas comunidades tradicionais, adquiridos dentro do núcleo familiar por várias gerações de pai para filhos. Comunidades tradicionais são definidas por Toledo (2001) como povos ou comunidades autóctones que apresentam como um dos critérios “povos dos ecossistemas, tais como agricultores, pastores, caçadores, extrativistas, pescadores e ou artesãos que adotam uma estratégia multi-uso na apropriação da natureza”. Segundo o autor, é possível encontrar comunidades assim especificadas tradicionais em 75 dos 184 países do mundo, sendo muitas vezes camponeses que pouco se diferem dos “outros moradores não tradicionais da vizinhança”. No Art. 3o do Decreto n. 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, as comunidades tradicionais são definidas como Grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e 51 econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição. (BRASIL, 2007). Pereira e Diegues (2010) observam que, mesmo que se tenha uma definição jurídica para essas comunidades, antes de tudo devemos considerar que, apesar da existência da definição legal para “populações tradicionais”, é preciso considerar que existem diferentes olhares para essas definições e cada comunidade possui suas características próprias, “entre as quais é evidenciada a transmissão oral, a existência de uma ampla ligação com o território habitado, os sistemas de produção voltados para a subsistência” (p. 39). Quanto às definições para a pesca artesanal, a profissão é prevista na Lei n. 11.959, de 29 de junho de 2009, que dispõe sobre a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura e da Pesca, regula as atividades pesqueiras, em substituição ao Código de Pesca de 1967. A pesca artesanal passou a ser definida somente em 2009, através da referida lei, nos seguintes termos: Art. 8o Pesca, para os efeitos desta Lei, classifica-se como: I – comercial: a) Artesanal: quando praticada diretamente por pescador profissional, de forma autônoma ou em regime de economia familiar, com meios de produção próprios ou mediante contrato de parceria, desembarcado, podendo utilizar embarcações de pequeno porte; II – não comercial: b) Amadora: quando praticada por brasileiro ou estrangeiro, com equipamentos ou petrechos previstos em legislação específica, tendo por finalidade o lazer ou o desporto; [...] Diegues (1988) define “pesca artesanal” como aquela realizada com embarcações de pequeno ou médio porte, sem ser instrumentalizada, cuja comercialização do produto retirado do rio é feita diretamente às peixarias ou de forma direta ao consumidor. Assim, também conforme Diegues (1983, p. 202), os pescadores artesanais são aqueles que, na captura e desembarque de toda classe de espécies aquáticas, trabalham sozinhos e/ou utilizam mão de obra familiar ou não assalariada, explorando ambientes ecológicos localizados próximos à costa, pois em geral a embarcação e aparelhagem utilizadas para tal fim possuem pouca autonomia (DIEGUES, 1973). 52 Vale destacar que, para os agentes desta pesquisa, “[...] a maior parte deles o conhecimento é passado de pai para filho ou pelas pessoas mais velhas e experientes de suas comunidades. Os pescadores conhecem bem o ambiente onde trabalham como o mar, as marés, os manguezais, os rios, lagoas e os peixes.” (BRASIL, 2011). As informações contidas na Constituição Brasileira de 1988 asseguraram o direito aos pescadores artesanais a uma organização social comparada aos sindicatos (art. 8º). Em 2008, a Lei 11.699 foi promulgada para regulamentar o artigo 8º da Constituição. Essa lei reconhece as colônias como Órgãos de classe dos trabalhadores do setor artesanal da pesca, com forma e natureza jurídica próprias, obedecendo ao princípio da livre organização previsto no art. 8o da Constituição Federal. Portanto, as colônias, federações e confederações são responsáveis pela defesa dos direitos e representação aos órgãos públicos de pesca predatória e ações de degradação ambiental. (BRASIL, 2008b). Quanto à questão da escolaridade, apenas um dos entrevistados deles se diz analfabeto, 18 pescadores cursaram até o ensino primário e cinco chegaram até o ensino fundamental. Duas pescadoras chegaram até o nível superior. Os níveis de escolaridade (quadro 3) indicam que a maioria dos pescadores (18) cursaram o ensino fundamental. Apesar de a maioria dos pescadores apresentarem o ensino primário concluído, entende-se que o aproveitamento escolar é muito baixo pelo fato de não terem dado continuidade aos estudos, e isso pode ter ocorrido pelo contexto socioeconômico da família, estimulando assim nos jovens a necessidade de trabalhar mais cedo para ajudar na renda familiar. Quadro 3 – Demonstrativo do nível de escolaridade dos pescadores do rio Uruguai Analfabeto Ens. Primário Ens. Médio Ens. Superior 01 18 4 2 Fonte: elaborado pela autora. De acordo com os dados do IBGE do ano de 2009, a tendência para o ensino fundamental (antigo ensino primário) ainda é muito maior do que para o ensino médio: são 1.107 matrículas para o ensino fundamental e 315 para o ensino médio. Levando em consideração que nossa região tem uma oferta de vagas na rede de ensino, tanto para jovens 53 quanto para adultos, muito maior do que outras regiões do Brasil, considera-se o nível de escolaridade muito baixo. Comparando as diferentes realidades regionais, esses dados apresentam concordância com o estudo realizado por Cortez (2010) em comunidades pesqueiras de Aritingui, Taberaba e Tavares (PB), onde constatou-se que apenas 21% dos pescadores eram alfabetizados (ALVES; NISHIDA, 2003); também, aquela região apresenta baixo aproveitamento de escolaridade dos pescadores tradicionais. Conforme Alves e Nichida (2003), “O abandono dos estudos e a inserção no mundo do trabalho resultam do contexto social e econômico no qual estas comunidades estão inseridas, onde o sucesso na escola, por membros de seu grupo social, constitui uma exceção.” Também para Nishida, Nordo e Alves (2008), A necessidade de contribuir para melhoria da renda familiar e a falta de estímulo para levar adiante os estudos, podem ser apontados como principais agentes para o abandono dos bancos escolares e consequentemente para o baixo nível de escolaridade dos pescadores de um modo geral (p.212). Ao relacionar o nível de escolaridade com a faixa etária do pescador (figura 12), verifica-se que, conforme diminui a faixa etária dos pescadores, a tendência é aumentar o nível de instrução; mesmo havendo uma média de idade alta para os pescadores em geral, os pescadores mais jovens alcançaram um nível de instrução maior em relação aos mais velhos, e esse fato pode refletir na ausência de jovens pescadores em atividade. Neste caso, prepondera que os pescadores de faixa etária mais elevada possuem um conhecimento abrangente sobre a natureza e o ambiente que o cercam, ou seja, o saber tradicional que esses pescadores adquiriram durante suas vidas atuando nessa atividade, e penso que se deve valorizar esse saber tradicional, afinal de contas não encontramos o conhecimento absoluto apenas no âmbito das academias. Para Ingold (2012), o conhecimento tradicional adquire um significado de cooperação responsável por circundar os organismos na paisagem que, por sua vez, os envolve como num horizonte aberto às forças vitais, em vez de simplesmente situar os agentes no ambiente. Trata-se de um conhecimento que se fundamenta através da prática, 54 que não utiliza padrões, que se realiza sem formalidades de protocolos e utiliza experiência e a observação (CARNEIRO; ALMEIDA, 2002). “Um conhecimento que ultrapassa as fronteiras da exclusão geradas no desenvolvimento das ciências [...] para abrir-se aos valores éticos dos conhecimentos práticos e dos saberes tradicionais.” (LEFF, 2011). Figura 12 – Comparação entre nível de escolaridade e faixa etária dos pescadores Escolaridade x Faixa Etária dos pescadores Idade dos pescadores 61 – 70 anos 51 – 60 anos 41 – 50 anos 30 – 40 anos 0 2 4 6 8 10 Número de pescadores Fonte: elaborada pela autora. O fato de a escolaridade se apresentar em menor nível intelectual nos mais idosos pode ser reflexo dos costumes vindos com os antepassados durante a colonização da região. Segundo Renk (2000), “o processo de escolaridade tratava-se do acesso ao ensino fundamental principalmente quando este era custeado pelas comunidades” (p. 278). Em relação à diminuição da frequência de pescadores mais jovens, pode-se relacioná-la com o processo de interiorização do ensino do terceiro grau, ou seja, oferta do ensino mais avançado para os filhos dos colonos a partir da década de 1970, quando o estudo passa a ser visto como uma possibilidade de ascensão social (RENK, 2000, p. 283). Com isto, há o reflexo de pouca expressão de participação jovem na atividade da pesca; os filhos vão para o meio urbano em busca de novas oportunidades enquanto os pais permanecem no local. 55 No que se refere à profissão dos agentes de pesquisa, 18 pescadores declaram que o início da atividade de pescaria aconteceu dentro do círculo familiar, com os pais e tios, e que alguns desses pais eram balseiros na época das viagens através do rio Uruguai para comercializar na Argentina a madeira explorada no oeste catarinense. Apenas três pescadores declaram ter aprendido com outros pescadores mais velhos como auxiliares e prestadores de serviços tarefas como a limpeza das redes e dos peixes para a comercialização. Quatro pescadores declaram que aprenderam sozinhos, que não houve pescadores na família e que praticam a pesca por lazer, por gosto pela pesca. O aprendizado da profissão baseia-se fundamentalmente na observação e insistência da prática na atividade. Ao receberem instruções dos procedimentos da pesca, estão construindo um caminho que possibilitará executar as informações adquiridas, transformado essas informações em conhecimentos através da habilidade adquirida (INGOLD, 2010, p. 18-19). Esse conhecimento só é possível através da permanente observação e orientação, isso exige a atenção para armazenar informações sobre o ambiente que envolve a pesca, ou seja, a água, o vento, a rede, o anzol e as técnicas. Faz parte dessa técnica a observação, o ouvir, o silêncio que incorporam a bagagem necessária para a atividade. Isso nos leva a uma conclusão de extrema importância, de acordo com Ingold: Se a audição é um modo de envolvimento participativo com o meio ambiente, não é porque se opõe a este respeito à visão, mas porque "ouvir" com os olhos, bem como as orelhas. Em outras palavras, é a própria incorporação da visão no processo de percepção auditiva que transforma audiência passiva em escuta ativa. Mas o inverso também se aplica: é a incorporação de audição no processo de percepção visual que converte espectador passivo em olhar ou assistindo ativa. (INGOLD, 2010, p. 277). Cada informação é de suma importância para o desempenho da atividade, pois muitos perigos estarão à espreita, e neste caso a atenção, a percepção e o engajamento com o ambiente são imprescindíveis. Esse canal aqui é estreito e muito fundo, inclusive agora que ele está seco e baixo é onde ele tem mais água e dá uma pressão muito grande, tem dois paredões e dá uma pressão grande. É muito fundo e perigoso. Quando o rio tá cheio ele puxa e dá uns ressojo e tem que ter muito cuidado. (PP08T1). Então, não é simplesmente o ambiente um espaço desconhecido, o único que nos apresenta desafios a serem transpostos, mas sim o corpo inteiro é parte desse desafio, nosso 56 corpo e ambiente são integrados e unificados. A paisagem, portanto, é sempre “a natureza do trabalho em andamento” (INGOLD, 2000, p. 198). A partir deste ponto de vista, podemos entender que o espaço/paisagem pode ser compreendido como um ‘ambiente’ de nossas ações em vez de ‘cenário’ da ação humana. E essa interação, eleita como elemento fundamental na organização e construção da história do mundo e dos agentes que nele habitam. O próprio mundo assume o caráter de um organismo, e os movimentos de animais incluindo os dos seres humanos são partes ou aspectos do seu processo de vida. Isso significa que ao habitar o mundo, nós não agimos sobre ele, ou fazer coisas para ele, mas sim nos movemos junto com ele. Nossas ações não transformam o mundo, mas são partes e parcelas da própria transformação do mundo [...] (INGOLD, 2000, p. 199). Assim, [...] muito, se não tudo o que estamos acostumados a chamar variação cultural na verdade consiste em variações de habilidades. Assim, em terceiro lugar, o estudo da habilidade exige uma perspectiva que situa o praticante, desde o início, no contexto de um engajamento ativo com os constituintes de seu entorno. Eu chamo isso de “perspectiva habitação”. Os seres humanos, em minha opinião, são trazidos à existência como organismo – pessoas dentro de um mundo que é habitado por seres de espécies variados, tanto humanos e não humanos. Portanto, as relações entre os seres humanos, que estamos acostumados a chamar de “social”, mas é um subconjunto de relações ecológicas. (INGOLD, 2000, p. 5). Desse modo, a paisagem/espaço é o conjunto de ações e percepções dos seres humanos que formam o complexo mundo através das tessituras dos ciclos de vida dos agentes, isso forma o conhecimento que se expande através das gerações. Nesse contexto, a percepção é um tema discutido por diversas áreas buscando compreender como os agentes interpretam a realidade, como se sentem e como interagem com o mundo, com os outros e consigo mesmos, envolvendo um conjunto complexo de condições e contextos ambientais. No que tange à escolaridade na questão de gênero, percebi que não existe disparidade significativa quanto ao tempo de estudo entre os pescadores do gênero masculino. No gênero feminino, duas pescadoras apresentam o nível superior de escolaridade. Uma delas, que é pescadora profissional, preferiu praticar a profissão que aprendeu com o pai por se sentir realizada e por manter a independência financeira de forma mais livre e satisfatória, 57 alegando não se submeter a hierarquias masculinas e discriminadoras. A outra é professora e vai ao rio pescar por prazer. Eu já estudei por um tempo. Fiz dois anos de jornalismo, agora a profissão de pescadora pra mim é o que tinha de melhor, porque eu tenho minhas amigas que trabalhava em firmas que tiravam menos que eu no rio. E ainda por cima eu não tinha que passar por humilhação nenhuma, sem constrangimento. (PP09T1). As mulheres foram afastadas de seus direitos sociais e políticos durante tanto tempo, essas relações ainda estão fragilizadas. O nível escolar é uma das formas encontradas para diminuir a sua invisibilidade pela sociedade e mostrar que há capacidade de participar de uma sociedade produtiva e a necessidade de acabar com essa segregação social a que o gênero feminino ainda está submetido. É notável a ocupação feminina no espaço público, porém ainda dominado pelo gênero masculino. Conforme mostra Louro (1997), é preciso notar que essa invisibilidade, produzida a partir dos múltiplos discursos que caracterizaram a esfera do privado, o mundo doméstico, como o ‘verdadeiro’ universo da mulher, já vinha sendo gradativamente rompido pelas mulheres (p. 17). Neste sentido, a primeira conquista ocorreu no ano de 1980, a partir da Lei n. 6.807 (BRASIL, 1980), que criou o Corpo Auxiliar Feminino da Reserva da Marinha (CAFRM), onde algumas pescadoras artesanais que trabalham de forma autônoma na pesca artesanal, de forma embarcada, conseguiram o direito ao registro de pesca. A partir de então, as colônias de pescadores receberam um comunicado oficial das Capitanias dos Portos de cada local para conceder esse registro para as mulheres que respondiam aos requisitos necessários para tal documento. A profissão de pesca artesanal foi reconhecida como atividade comercial pelo Código de Pesca de 1967 através do Decreto-Lei 221; a atividade pesqueira é definida como indústria de base e recebe incentivos fiscais para o desenvolvimento da pesca no Brasil (BORGES, 2008), mas o trabalho feminino na atividade ainda não teve êxito de reconhecimento jurídico. Somente em 2003, com a legislação previdenciária sobre economia familiar, “muitas pescadoras conseguiram o registro de pesca, porém, ainda dependentes de comprovação do envolvimento de familiares com a atividade pesqueira” (SILVA; LEITÃO, 2012). É importante lembrar que o registro é obrigatório para se conseguir receber o seguro defeso na época de piracema, quando é proibida a pesca devido ao período de desova/reprodução dos 58 peixes. A profissão, apesar de ser um motivo de orgulho, a maioria das vezes não tem reconhecimentos e é vista com pouco valor, mas é preciso vencer esses desafios e ultrapassar as dificuldades; assim, a procura pelos direitos vem aumentando e tomando o lugar da falta de conhecimento e informação. 3.2 Colônia de pescadores Não pretendo aqui discutir as questões legais e institucionais desses órgãos e movimentos sociais, pois acredito que trabalhos como Agnolin (2012) e Baron (2012) discutem que a constituição da Colônia de Pescadores representa o reconhecimento tanto pelos Governos e seus órgãos, quanto pelo Consórcio Foz do Chapecó da existência formal de pescadores nesta região. Busco apenas situar o pescador dentro da problemática enfrentada, pois, para definir a população de estudo, encontrei alguma dificuldade em identificar a situação de alguns pescadores, o que está diretamente ligado à atuação principalmente da colônia de pescadores. Foram encontrados pelo menos três grupos de pescadores na região delimitada: a) pescadores considerados profissionais porque estão devidamente cadastrados nas respectivas colônias de pescadores de sua localidade; b) pescadores não cadastrados nas colônias de pesca mas que exercem a atividade da pesca regularmente – são os pescadores amadores; c) um terceiro grupo, e o mais polêmico, muito citado pelos pescadores profissionais, constituído por “pescadores” com cadastro nas colônias de pesca, mas que, efetivamente, não podem ser considerados como pescadores profissionais, pois, segundo os entrevistados, são pessoas que nunca tiveram contato com a atividade pesqueira. O fato de esses “pescadores” terem realizado o cadastramento junto às colônias de pescadores teve como único intuito garantir, para sua conveniência, o direito ao seguro defeso pago pelo governo federal durante a época de reprodução dos peixes, ou seja, a piracema. Isso cria uma dubiedade quanto aos dados fornecidos pelas colônias relativamente 59 ao número de pescadores atuantes no trecho estudado. Durante as visitas, pude observar pontos convergentes e divergentes nas falas dos entrevistados. Observa-se, segundo depoimentos dos próprios pescadores, que a colônia, no que se refere a representar os pescadores artesanais, tem como sua maior preocupação emitir documentos que regularizem a situação do pescador diante dos órgãos governamentais. A multiplicidade de associados é justificada pela necessidade de enquadrar os pescadores na legislação para o reconhecimento da profissão diante dos órgãos governamentais. O presidente da colônia de pescadores Z-29 (PP14T4) reconhece que existem casos de cadastramento de pessoas que não exercem a função de pescadores porém estão devidamente cadastrados e recebem o seguro defeso. Também o presidente da colônia Z-35 de São Carlos (SC) alega que existem pescadores cadastrados e que não exercem a profissão, porém reporta a responsabilidade para o próprio Governo Federal: O Governo Federal, ele tem culpa. Porque que ela tá deixando fazer carteira? Se chegar um pescador aqui pra fazer carteira eu sou obrigado a atender e fazer a carteira dele. Se vier aqui qualquer pessoa, pode ser um juiz ou o prefeito que quiser fazer carteira ou qualquer um de vocês eu tenho que fazer. Pra nós inclusive piorou a situação porque isso está gerando conflitos entre os pescadores. (CP Z-35). Os pescadores, por sua vez, compreendem a problemática e expressam seu descontentamento sobre o assunto e manifestam que muitos outros pescadores cadastrados não conhecem nada sobre o ofício, cobram da colônia a indiferença sobre a questão: Querem fazer barragem, façam, a polícia ambiental deu a licença, o IBAMA deu a licença tão liberados, o juiz assinou, tudo bem, mas vão verificar quem pescou e quem não pescou quem viveu e quem não viveu disso daí. Isso é minha dor. Tem gente interessada se enfiar no meio pra querer ter alguma vantagem. Tem gente que só está aí por causa dos quatro meses do defeso. Então como é que eu vou defender quem não é pescador? [...] mas o presidente da colônia... tu pede para fazer a carteira ele vai fazer , ele está aí para fazer isto. Não estou condenando ele. Este é o trabalho dele. Mas acho engraçado... Eles que assinem um de testemunha para um cara desses né? (PP01T1). Tem carteira e não sabe bota um caíco na água, não sabe pôr uma rede e não sabe fazer nada. Têm vários aqui. Pescador de São Carlos, pescador aqui de SC se tem 60 pescador... não dá 60 que é curtido na água! Eu não sei como é que eles fizeram esse esquema ai, entrou gente, fez carteira, carteira, carteira e nem conhece o rio. O troço foi feito pra derrubar alguns pescador! (PP08T1). Esta “dor” a que o entrevistado se refere, obviamente de forma metafórica, foi relatada por Barbosa (2004), em estudo de caso desenvolvido com pescadores artesanais da 60 Colônia Z-7, em Niterói (RJ), sobre as constantes reclamações dos pescadores daquele local acerca de dores e problemas de saúde como depressão, angústia, tristeza e “dores na alma”; o autor constatou que as atuais transformações socioambientais exercem um significado especial para o sujeito e de alguma forma afetam a sua qualidade de vida (p. 107). Buscando explorar a aplicação nos pressupostos de Ingold (2012), neste caso, percebi que a dor (da alma), para o entrevistado, se expressa como um estado de pertencimento propiciado pelo conhecimento adquirido como pescador e também como organismo, uma forma de se colocar no mundo perante a sociedade. Quando esse estado de pertencimento se torna invisível perante os órgãos competentes sob a forma de desvalorização, surge a metáfora da dor, da frustração e da indignação. Quanto às colônias de pescadores, sua função é regulamentada pela Lei n. 11.699, de 13 de junho de 2008, que “Dispõe sobre as Colônias, Federações e Confederação Nacional dos Pescadores, regulamentando o parágrafo único do art. 8o da Constituição Federal e revoga dispositivo do Decreto-Lei no 221, de 28 de fevereiro de 1967”. A referida lei não apresenta nenhuma especificação sobre os critérios que devam ser tomados nas emissões das referidas carteiras. No seu artigo 4°, diz: “Art. 4o É livre a associação dos trabalhadores no setor artesanal da pesca no seu órgão de classe, comprovando os interessados sua condição no ato da admissão.” E também: Art. 5o As Colônias de Pescadores são autônomas, sendo expressamente vedado ao Poder Público, bem como às Federações e à Confederação a interferência e a intervenção na sua organização. Parágrafo único. São vedadas à Confederação Nacional dos Pescadores a interferência e a intervenção na organização das Federações Estaduais de Pescadores. Voltando aos entrevistados, ao mesmo tempo o mesmo pescador entra em divergência em suas falas quanto à colônia e diz que acredita que ela está cumprindo seu papel quanto ao órgão de representação da classe e que esse é o papel deles: “Coisas assim como documentos, renovar carteiras, essas coisas assim, que é isso aí, o serviço deles é isso. Em outras atividades que é do pescador como é que eles vão ajudar?” (PP08T1). 61 Em contrapartida, outros pescadores menos afáveis em relação à colônia denunciam que estão com muitas carteirinhas em atraso por falta de renovação, o que se torna um problema diante da fiscalização, pois, se no ato da pesca forem surpreendidos pela BPA, sofrerão sérias consequências: “eu tô com minha carteirinha vencida a dois anos já, tá aqui no meu bolso, que não mostro pra ninguém porque se a polícia me pega eu vou preso” (PP06T1). Retomando o assunto dos cadastramentos, o presidente da colônia Z-29, de Chapecó (SC), alega ainda que os pescadores e a colônia de pescadores nunca foram chamados para nenhuma reunião ou qualquer outro tipo de conversa antes do alagamento, para esclarecer quem era ou não pescador profissional, ou mesmo para discutir sobre possíveis ações mitigatórias nas transformações do rio: “Nunca chamaram os pescadores, a gente até nem acreditava que ia sair essa barragem. Era um projeto de longos anos e quando veio, veio muito rápido e até hoje a Foz do Chapecó não investiu nem um centavo nos pescadores.” Segundo o PBA da FCE, Foram realizadas reuniões em todos os municípios atingidos, com o objetivo de organizar-se um fórum representativo para negociação de um acordo que atendesse aos interesses de todos os setores representativos da população atingida pelo AHE Foz do Chapecó, assim como aos do Consórcio empreendedor. (PBA, 2010, p. 34). Esse procedimento do consórcio demonstra que o pescador não era reconhecido como atingido, isso pode ser observado no próprio documento da usina: o EIA não mencionou a existência de pescadores na área de influência da barragem (BARON, 2012, p. 95). Com isso, o direito às indenizações poderia ser facilmente negado para as famílias atingidas. 3.2.1 Participação do MAB Segundo os agentes da pesquisa, o reconhecimento de atingidos ocorreu após a mobilização através do MAB e através do Governo Federal, que determinou os pescadores como atingidos; só então foram “vistos” como partes de direito às indenizações. 62 Desde que o Lula decretou que o pescador era sim atingido, e também o reconhecimento da Foz, pela parte que secou e ia secar na época, porque nós já começamos as negociações bem antes do início da obra, então praticamente três anos a gente recebeu um salário mínimo. No período de oito meses por ano porque no período de Piracema eles não nos pagavam porque nós já tínhamos o seguro Piracema. Já faz um ano que os barracões estão prontos. (PP05T1). Só que daí quem entrou com a negociação foi o MAB. E ali começou e foi, foi. Daí eles tinham uma escolha. Quem queria pegar os 10.000 e procurar outra profissão, ou quem queria continuar na pesca. (PP06T1). O pescador se refere ao decreto n. 7.342, de 26 de outubro de 2010, que condiz com o ato realizado pelo Presidente da República no qual institui o cadastro socioeconômico para identificação, qualificação e registro público da população atingida por usinas de energia hidrelétrica, cria o Comitê Interministerial de Cadastramento Socioeconômico, no âmbito do Ministério de Minas e Energia, e dá outras providências (BRASIL, 2010). Considera-se esse um passo importante para a visualização dos pescadores diante da avançada proliferação de obras que ameaça o modo e a qualidade de vida de tantas comunidades ribeirinhas e tradicionais. Até hoje a definição de quem é considerado atingido e a forma de indenização eram decisões tomadas pelas empresas construtoras (MAB, 2010); assim, através desse decreto, será instituído o Comitê Interministerial do Cadastro Socioeconômico, no âmbito do Ministério de Minas e Energia, com as seguintes funções (ibidem): I - apresentar, no âmbito do processo de licenciamento ambiental, os requisitos para que o responsável pelo empreendimento elabore o cadastro socioeconômico da população atingida por empreendimentos de geração de energia hidrelétrica; II - acompanhar a elaboração do cadastro socioeconômico, a ser realizada pelo responsável pelo empreendimento, e manifestar-se sobre sua adequação. Pode-se considerar mais uma vitória na luta contra a invisibilidade dessas populações que vivem à margem da legislação brasileira. Fica claro nos depoimentos que o MAB mobilizou-se ativamente na defesa dos direitos dos atingidos pela barragem FCE. De acordo com as observações de Baron e Renk (2012), “[...] durante o processo de negociação16, havia uma estratégia do empreendedor em isolar e não legitimar o MAB [...]”, e por final ocorreu uma aproximação tática do consórcio 16 Para uma análise detalhada sobre as negociações de indenizações referente à barragem Foz do Chapecó Energia, consultar Baron (2012), Agnolin (2012), Winckler e Renk (2012). 63 com o intuito de viabilizar a implantação do reassentamento das famílias que seriam realocadas. Essa postura do movimento em manter uma atitude de apoio aos pescadores locais, fazendo-se presentes nas discussões e debates a respeito dos direitos dos atingidos, conquistou o respeito de muitos atingidos. Mesmo assim, há diferentes olhares sobre a atuação do MAB durante as negociações. Alguns pescadores depositam méritos sobre o MAB por este orientá-los em relação aos direitos indenizatórios, mesmo sendo proibido participar das reuniões que a FCE realizava. O pessoal do MAB fazia as e falava as coisas certas né? Eles diziam que eles tinham que estar junto com nós para fazer as negociações, mas a Foz do Chapecó não aceitava o MAB junto. [...] e depois eles (FCE) já vinham com o valor pronto e não tinha como dizer não, não adianta também questionar quanto vale. Eles diziam é tantos reais o metro e pronto é preço de tabela. (PP15T4). Em contrapartida, outros entrevistados esperavam que o MAB pudesse ter uma participação maior que se refere a informações sobre o consórcio, e declaram que o movimento não tinha orientações efetivas de como os atingidos poderiam lutar contra as imposições da FCE. Entende-se, através das falas, que essa era uma luta travada por grande parte da sociedade atingida, até a igreja manifestava-se. Até desde o pessoal da prefeitura era a favor, só que o pessoal do MAB não vinha orientar como que nós tinha que fazer pra se organizar pra ser bem indenizado assim, eles só vinham dizer que nós tinha que lutar contra, contra, contra. O padre também dizia às vezes que a barragem era uma “bucha” e tal. Mas ele também não orientava como a gente tinha que lutar. [...]na nossa comunidade o pessoal se reunia quando a gente pedia o pessoal vinha só que todo mundo com medo. Porque uns diziam que era bom e outros diziam que não. A gente não tinha o esclarecimento. (PA03T2). Na visão do MAB17, a FCE foi planejada no sentido de produção de energia, mas também para movimentar a indústria da eletricidade e, na avaliação do movimento, superfaturaram a obra. Segundo ele, em torno de 725 das famílias acabaram aceitando a indenização em dinheiro, o que para o consórcio foi a melhor escolha. Esse movimento tem sido mediador em muitos conflitos provocados pela indústria de barragem, como Zhouri 17 Pedro Melchior em palestra: Modelo político energético brasileiro: impactos sociais, econômicos e ambientais. In: I Seminário sobre Hidrelétricas na Bacia do Rio Uruguai, realizado nos dias 25 e 26 de junho de 2014. 64 (2012) relata a respeito do projeto do Complexo Belo Monte (PA), onde o MAB tem sido aporte para os atingidos, que, por sua vez, Não são vítimas passivas e têm lutado, seja em coletivos locais, seja no âmbito do movimento dos atingidos por barragens e redes de apoio e assessoria, para sair da condição de objeto ao se colocarem como agentes ativos, com quem se deve, de fato, negociar. (p. 61). 3.2.2 Negociações As negociações ocorreram de forma conturbada e diferem quanto a montante e a jusante da barragem. Muitas vezes os pescadores foram tratados de forma hostil pela FCE e em algumas manifestações foi envolvido apoio de força policial, com discursos políticos por parte do consórcio, com desencontro de informações e de promessas de que o rio não seria alterado em suas condições bióticas e abióticas; “antes era feito um monte de promessas, o rio ia continuar o mesmo” (PP01T1), que a vida dos moradores não sofreria alterações; “eles diziam que era bom pra nós, mas bom agora é pra eles” (idem). “Na indenização, tudo bem, eles pagaram tudo, mas o meu lugar não volta mais e depois da inundação eles nunca mais voltaram” (PA02T2). As constantes promessas da continuidade da pesca eram feitas pelos representantes da FCE com muita convicção: “a promessa era que nós ia sobreviver da pesca depois da barragem, por isso nós aceitamos os barracões porque eles diziam que o ministério da pesca queira que nos ficasse na pesca” (PP13T1). Para entender a questão das indenizações, é preciso esclarecer como aconteceram as primeiras propostas de indenizações no segmento a jusante da barragem. No início das propostas, foram muitas as lutas travadas para conseguir algum direito por parte da usina para os pescadores, que chegaram a manifestar-se diante da obra, paralisando os trabalhos por duas vezes. Nós se reunimos com MAB, e fomos lá e trancamos (a obra). Ficamos naquela espera, não adiantou, depois fomos lá trancamos de novo, subimos até em cima da obra. Mas tudo pacificamente. Daí voltamos de volta, daí vem a polícia, veio a polícia de Chapecó, veio o comandante não me lembro o nome do major. Veio lá e nós dissemos: “Nós vamos se retirar daqui, se tiver um acerto com os caras da empresa. Aí nos se retiramos, mas caso contrário nós vamos ficar, não vamos quebrar nada, nós vamos ficar aqui, só que vocês não vão trabalhar e não entra ninguém”. Dali a pouco veio de Chapecó, não sei se mandaram um email, ou sei lá, o que mandaram lá, mas entregaram lá se comprometendo que ia ter uma assembleia aqui na cidade de São Carlos com os representantes da foz e com a polícia e com os pescadores. O que aconteceu: veio só a polícia com os cachorros, trataram nossos que nem bicho. Esse que ficou de vir ali, que era o senhor Ênio Schneider, não 65 apareceu ninguém. Daí o major estava ali, era o mesmo que estava no dia que eles prometeram. Daí ele viu (o major) como que a empresa funcionava. Que eles eram uns tratantes. Daí surgiu essa reunião, que eu te falei, lá no hotel Bertaso em Chapecó, daí nosso fomos no um grupo para lá, e lá se reuniu todos. Depois da tal reunião que a gente teve em Chapecó, nós tivemos uma reunião no hotel Bertaso em Chapecó com o ministro da energia, Ministro da Pesca, IBAMA, a Foz do Chapecó, todos. E lá foi feito um acerto com eles. (PP01T1). Durante a pesquisa, encontramos quatro propostas diferentes entre os entrevistados, aqui agrupadas para melhor entendimento: - Grupo 01 – Indenizados que receberam 10.000,00 (dez mil reais) – esta proposta era a forma de indenização mais indicada pelos negociadores da barragem, que insistiam para que as famílias aceitassem esse valor. Quem queria permanecer na pesca, eles incentivavam, - lá todas as autoridades... Seria construído um barracão, nós ia ganhar um salário por mês por tanto tempo, isso eles cumpriram, e quem não queria, poderia pegar R$10.000. (PP01T1). Os pescadores que aceitaram essa proposta alegam que o consórcio deixou bem claro que não poderia mais exercer a profissão de pescador: Eles disseram: depois quem pegar os 10.000 não tem direito mais nada, mas falaram depois que todo mundo recebeu. Mas agora não tem direito de mais nada. [...] porque a barragem queria excluir, eu entendi assim que a barragem queria excluir os pescadores, como eles não têm direito de excluir ninguém. Vão excluir a turma deles. Pescador quem exclui é o ministério da pesca, quem é pescador e quem não e pescador. Barragem não tem nada a ver quem é pescador ou não. (PP14T1). Esses R$10.000 era para seguir, começar outra vida, outro rumo, outro caminho. Mas eu não quis... Eu quis ficar na pesca. (PP01T1). - Grupo 02 – “grupos de apoio”, que consistem em três barracões construídos pela barragem (em cada barracão foram constituídos grupos de aproximadamente 30 pescadores) para que os pescadores guardassem seus equipamentos e esses locais pudessem ser um ponto de apoio aos pescadores quando fossem ao rio. Além dos barracões, esse grupo recebeu um montante de aproximadamente 18.000,00 (dezoito mil reais) como forma de compensação até que as obras dos barracões estivessem prontas. Porém, nenhum pescador está satisfeito, pois os barracões foram construídos fora do alcance do rio, ficando totalmente inviável utilizar o espaço; um dos barracões fica tão longe do rio que os pescadores têm que carregar o bote por volta de 1km de distância até alcançar uma parte navegável. 66 Daí fizeram uma proposta para nós, nós não aceitamos e fizemos outra proposta para eles e eles aceitaram, foi onde que eles enfiaram para nós esses barracões, que nós não queria isso, só que eles enfiaram. Quem queria seguir outro rumo, isso já agravado ali que eu falei antes, quem queria seguir outro rumo ia pegar R$10.000, mas ficava com a carteira de pescador e quem não queria os 10.000, ficava no grupo de apoio, nesses barracões que construíram para nós. E nós ganhamos não sei quanto tempo, daí por mês, eles cumpriram com esse trato, mas foi feito sob pressão que se não fosse ter feito isso, eles não iam dar nenhum benefício para nós, porque nós fomos na reunião lá em Chapecó, e se não ia ter acerto nós ia voltar de lá e ia trancar lá em cima os serviços de novo. Daí foi aí que nós conseguimos isso daí. Mais isso para nós foi uma migalha dá pra dizer né? Isso ai foi enfiado goela abaixo para nós - caso o rio não desse mais condições de pesca neste trecho, iria ter um estudo, e cabia uma indenização para os pescadores. Isto está no livro de ata, eu não vou dizer a data porque eu não me recordo, mas é fácil de descobrir. (PP01T1). É importante destacar a fala do entrevistado quando sinaliza que esse foi o único jeito de garantir alguma coisa, o que foi feito sob pressão, porque se não fosse ter feito eles não iam dar nenhum benefício. Essas falas traduzem o descaso do consórcio com um modo de vida e um recurso natural que prestava o serviço ambiental através da produção de peixes, assim tornando-se subsídio para muitas famílias, e que foi totalmente desconsiderado. Hoje somente um dos barracões é utilizado para o fim a que foi destinado, seu funcionamento acontece porque o presidente do barracão convoca os pescadores associados para que se façam presentes ao local de vez em quando. Os outros dois barracões possuem baixa reputação aos olhos da comunidade local, pois os pescadores reclamam que viraram ponto de drogas e prostituição, sendo um perigo até para a sociedade. Esse é mais um dos investimentos errôneos feitos pela empresa FCE e motivo de desabafos dos pescadores quanto às instalações dos grupos de apoio, pois o local onde os barracões foram construídos não trazem retorno algum para os pescadores, além do mais, os valores que foram investidos nesses barracões, segundo o agente, somam quantias exorbitantes e não justificam o custo-benefício das obras. A empresa mais uma vez negligenciou o conhecimento dos moradores ribeirinhos, esqueceu-se de perguntar sobre quais seriam as condições e o melhor local para a construção dos barracões; nesta lógica, é visível que os empreendedores não se preocupam em resolver os problemas dos atingidos, e, diga-se de passagem, problemas que o próprio consórcio estava provocando. Seria interessante se o rio estivesse com o leito normal e com o peixe normal. Assim foi um mero desperdício de dinheiro. Aqui somados, não sei os valores exatos, mas esse ponto aqui, com a luz, a água, poço artesiano, a compra do terreno, tudo junto aqui tem cerca de meio milhão de reais. É um desperdício mesmo. Uma porque 67 no na época, eu alertei a Foz que isso não era futuro, porque eu já andei com minha embarcação aqui, aqui onde nós estamos sentados. Em outubro, a 2 anos atrás, eu andei neste local com meu caíco. E eu alertei o na época porque não há o que colocar definitivamente aqui dentro, por que nós sabemos que a enchente estraga tudo, então por isso a mobília que tem aí,... Antes da água chegar corta todos os acessos fica só as embarcações pra chega até aqui, pode ver que ali é bem mais baixo que aqui. A gente falou, que usasse esse recurso, foi uma sugestão nossa, foram no total em torno de 3 milhões de reais, todo o gasto que eles tiveram com os pescadores e eu sugeri que usassem esse dinheiro como parte da indenização, para resolver o problema, esse conflito. Por parte eles nunca iriam a resolver esse conflito, desde o início eu avisei isso. O governo veio para resolver, porém, na época entrou a contradição, na última reunião o lago já estava fechado, e nós já tínhamos apresentado o defeito que tinha, que os trinta dias que sucedeu o fechamento do lago a redução da água aqui deixou o peixe louco, pescador pego peixe, acabou isso nunca mais deu peixe, e eu fui dizendo isso por que... [...] Antes de construir isso aqui, nós provamos para eles que não têm acesso ao Rio aqui, nos termos do rio Uruguai de um lado e o Rio Barra Grande do outro lado, nós não temos como sair daqui com a nossa embarcação. Se nós não quiséssemos aqui eles iam colocar lá a em cima perto do outro, lá em Pratas, aí sim nós optamos por aqui, porque lá em cima não ia ficar bom para nós, aí escolhemos aqui, nós tínhamos por objetivo na 6 de setembro, até eles iam construir, aí eles passaram o recurso da construção da ponte para o prefeito, e o prefeito disse que não precisava construir a ponte. Gastou sabe-se Deus onde o dinheiro e nós precisávamos da ponte para construir do outro lado, então o acesso, ao posto 6 de setembro que nós teríamos navegação excepcional, tudo ok. Aí afora já tinha repassado dinheiro pediram para a prefeitura construir a ponte. Não tinha mais recurso. Esses 500 m de Rio seco que nós temos aqui era o espaço que nós tínhamos já arrumado recurso para fazer a construção, porém, nos tínhamos um problema, por estrada para chegar ali dá 14 km. Pela ponte daria 500 m. Nós sugerimos a para Foz para construir a ponte aqui, e a foz concordou. Quando a Foz foi perguntar para a prefeitura sobre dinheiro da ponte que havia repassado para a prefeitura o prefeito alegou que tinha gasto dinheiro com educação, saúde e outras coisas no município. Aí quiseram colocar nós em Pratas, imagine isso aqui em Pratas, lá é uma anarquia uma confusão. Esse grupo de pescadores aqui é diferente do que aquele lá de cima, as pessoas aqui são diferentes, os associados aqui são diferentes. Eu não escolhi ninguém para vir aqui, quem fez o grupo foi a Foz. E deu o acaso de dar um grupo bom de pescadores. Aqui é um grupo de pescadores, exceto um que faleceu, ele morava na ilha. Os outros quatro que não pescam mais severamente por causa de saúde. O resto é pescador mesmo. Aqui não foi consumido 2 litros de cachaça sequer, durante toda a construção. Toda esta edificação foi construída por mãos de pescadores, não foi construída por uma empresa, isso daqui fomos nós que construímos. Isso daqui tem uma história, e uma história de boa. (PP05T1). De acordo com as declarações, fica claro que o consórcio não buscou dialogar com os atingidos para buscar ideias com soluções condizentes com a realidade dos ribeirinhos. Neste sentido, buscamos a importância da participação da população local para um desenvolvimento sustentável, que é amplamente discutida na Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, pelos seus conhecimentos e práticas tradicionais, tornando-se fundamental o envolvimento ativo da comunidade no desenvolvimento de projetos, nas fases de concepção, elaboração e execução (PHILIPI et al., 2000). 68 Os povos indígenas e suas comunidades e outras comunidades locais desempenham um papel vital na gestão e desenvolvimento do ambiente devido aos seus conhecimentos e práticas tradicionais. Os Estados deverão reconhecer e apoiar devidamente a sua identidade, cultura e interesses e tornar possível a sua participação efetiva na concretização de um desenvolvimento sustentável. (BRASIL / RIO 92). A participação da população local para decisões quanto ao meio ambiente, contando com seus conhecimentos locais, também consta na Declaração do Rio sobre Meio Ambiente: As questões ambientais são melhor tratadas com a participação de todos os cidadãos interessados, ao nível apropriado. Ao nível nacional, cada pessoa deverá ter acesso adequado às informações relativas ao ambiente detidas pelas autoridades, incluindo informações sobre materiais e atividades perigosas nas suas comunidades, e a oportunidade de participar em processos de tomada de decisão. Os Estados deverão facilitar e incentivar a sensibilização e participação do público, disponibilizando amplamente as informações. O acesso efetivo aos processos judiciais e administrativos, incluindo os de recuperação e de reparação, deverá ser garantido. (BRASIL / RIO 92). Trabalhos na área de etnoecologia, como de Diegues (1988), Pieve, Kubo e Souza (2009), Diegues e Viana (2004), têm abordado a importância do conhecimento dos pescadores ribeirinhos no Brasil e descrevem as dimensões do conhecimento e manejo dos recursos naturais por essas comunidades de pescadores tradicionais de várias partes do Brasil. Tais estudos mostram a realidade das populações que habitam as margens dos rios, assim como a importância que esses espaços possuem na vida dos ribeirinhos, ressaltando como as transformações impostas pelas mudanças ambientais refletem nas novas configurações e na organização dessas comunidades (DIEGUES, 2001). Observar a forma como os produtores tradicionais percebem e formam seus conceitos em relação aos seus espaços torna-se importante para balizar novas perspectivas de gestão ambiental “[...] mais ainda, no conceito de uma economia de subsistência, esse conhecimento sobre a natureza se converte em um componente decisivo para o esboço e implantação de estratégias de sobrevivência” (TOLEDO, 2001. p.35), isto seria, segundo Ingold (2000), inserir o ser vivo nos estudos científicos (p. 2-3). Ainda no que se refere às negociações do grupo 02, esse grupo de pescadores recebeu um benefício que totalizou em torno de R$18.000,00 (dezoito mil reais), e ressaltase que ainda cabe recurso quanto à situação atual do rio, que entrou em acordo durante a reunião com o Ministério da Pesca: se houvesse a redução na quantidade de peixes, eles teriam direito a outra indenização: 69 Nós recebemos uma ajuda de custo, que dá para arredondar pra R$18.000, que a gente recebeu entre um atrasado, que foi cerca de R$4.000, eu o restante em um salário mínimo por mês até completar os R$18.000, por cerca de 2 anos gente recebeu isso. Foi o que a gente ganhou além dos barracões. A partir do momento que começou às construções nós não ganhamos mais nada. (PP05T1). Que esse ali para mim é um tronco onde nós temos forças para se agarrar, que lá está..., que se não desse... Vou repetir... Se o rio não desse mais condições de pesca para nós neste trecho ia ser feito uma análise do porque que não tá mais dando condições de pesca e caberia uma indenização para nós. (PP01T1). - Grupo 03 – Não indenizados: pessoas que estão recorrendo na justiça, ainda nos dias de hoje, sem resposta da FEC. Essas famílias dizem não saber os motivos pelos quais foi negada a indenização: Pra mim negaram porque disseram que a minha carteira era muito nova, mas tinha gente que tinha só o protocolo e ganhou. Eu não ganhei nenhum centavo da Foz do Chapecó. Dai a gente está na justiça com a Dra Nilse. Ela está vendo isso pra nós. Foi uma equipe lá em Chapecó e acertaram por carteira, não por idade de carteira, mas por carteira. Foram lá e acertaram com o pessoal da Foz que seria por carteira e todo mundo ia receber. Dai o pessoal veio de lá e comentaram que todo mundo ia ganhar. Quando começaram a chamar um por um, eu vi que fiquei de fora, e dai já soube que eu e mais uns 50 iam ficar de fora[...] eles não alegaram nada, bem no caso, mas teve pescador que disse: “tu não ganhou por pouco tempo de carteira”. Teve gente que tem 10 Anos de carteira e também não ganhou nada[...] sei lá, ele nem quer dar muita explicação sobre isso ai, ele só diz que isso vai sair, vai sair. Mas não temos tendo resposta. Eles nunca ajudaram. Eles poderiam ter ajudado a todo mundo receber, era só ter um pouquinho de paciência. Tem 50 pescadores que ficaram sem.[...] nada, tiraram nos fora disso dali, eu era do grupo dois, e como eu não recebi eu tava fora. Nenhum centavo eu ganhei da Foz do Chapecó, nada, nada.[...] 50 pessoas ficaram fora. Depois o Paulinho, presidente da colônia, acertou com mais 12 por fora, chamou mais doze, acertou com aqueles e o resto ficou fora. E tem gente falando que esse dinheiro saiu né. Nos tamos aí esperando. Mas não sei pra onde foi. (PP02T1). - Grupo 04 – Atingidos que possuíam terras a montante da barragem, desempenhavam a agricultura de subsistência e realizaram negociação individual diretamente com o consórcio. Esse grupo recebeu a visita individual de agentes da FCE para negociar as terras que seriam alagadas. Eles visitavam tudo individualmente. Nós também pedimos se podíamos ser relocalizada, a nossa comunidade inteira, fazer um reassentamento. Nossa comunidade toda. Eles disseram que não [...] muitas vezes chegamos a ir lá conversar com eles. Só que pra um eles diziam uma coisa, pra outros eles diziam outra. Não era aquela coisa firme. Desde o prefeito, Dai quando faziam reuniões, daí lá pro povo “blá, blá, blá”. Mas lá fora era outra coisa. (PA03T2). Em visita à montante da barragem, encontramos uma situação diferente: os pescadores da colônia Z-29 não receberam nenhum tipo de indenização, também não foram 70 concretizadas as ações mitigatórias prometidas e, ainda, as indenizações não obedeceram a uma regra geral para todos: Aqui eles fizeram o recadastramento eles já pediram já tinha nota de pescador, eles já sabiam que era e quem não era pescador, quem tinha vinculo com a pesca e quem não tem. Era “avaloado” o que cada um tinha, se a pessoa só tinha um terreno e a casa ele ganhava outra locação ou só a casa né? [...] eles vinham até a casa de cada um e foram negociando de um a um. [...] Eles fizeram algumas reuniões, mas assim ralas, dentro de quatro anos que eles fizerem o primeiro levantamento e o segundo, os cadastramentos, eles fizeram duas ou três reuniões nas comunidades e depois os acordos de fazer reuniões com a comunidade porque dá bastante polêmica né? [...] eram tratadas mais as explicações que ia sair o lago e que tinha que fazer um cadastramento das famílias e cadastrar as famílias e ver quem queria assentamento das famílias. Porque não era só dizer que queria o assentamento, eram eles que faziam a avaliação né?Eles que diziam quem tinham e quem não tinham direito. [...] alguns eram justas outras nem tanto, por isso que tem tantos processos na justiça. [...] porque tem pescadores que ainda não receberam os direitos né? Porque o pescador foi o que mais teve dificuldade de ser reconhecido né? (PP11T4). Após o reconhecimento dos pescadores pelos órgãos competentes e pelo próprio consórcio, a FCE realizou um levantamento das famílias que, “segundo a empresa”, seriam atingidas para determinar as indenizações: Inclusive eles já mandaram uma lista de quem eles iam dar uma compensação de R$3.000,00 (três mil reais) pra compra de material e pra quem eles não iam dar. [...] na verdade eu vou ser bem claro e bem realista. Na verdade não dá nem pra considerar o que eles estão oferecendo. O que eles estão oferecendo é tão pouquinho que não dá nem pra não da nem pra falar que é indenização. Quando iniciou o processo de desocupação do espaço as opções eram: Ou saía ou resolvia na justiça. Ou negocia ou tu vai ser julgado na justiça né? Quanto a colônia, nós não se envolvemos nessa mediação entre pescador e Foz, porque a colônia nunca foi chamada pra isso, agora é que a colônia esta se envolvendo porque antes eles diziam que a gente não tinha direito de se envolver. (PP14T4). As promessas de melhoramento na infraestrutura do pescador a montante ainda estão no papel. A população ribeirinha ainda espera pela construção das salas de produção do pescado após quatro anos de enchimento do lago. “Aqui no Goio-Ên como é um ponto turístico eles nem vão criar esses barracões, eles vão criar uma sala de processador de pescado, dai em toda região o que for pescado vai ser processado e vendido ali também. (PP14T4).” No que diz respeito ao envolvimento das colônias de pescadores nas negociações, durante as entrevistas, percebeu-se que os pescadores não possuem qualquer tipo de influência sobre as ações das colônias mesmo fazendo parte do quadro social; mesmo durante as negociações as colônias não se envolveram com a situação. Algumas dúvidas 71 também são citadas quanto às negociações que foram feitas com o consórcio e entende-se que muitos pescadores não tiveram esclarecimento sobre as regras da proposta dos barracões. Quantos daqui, de Águas de Pratas que pegaram os dez mil e dai não ficaram com direito de barracão, nem de tanque rede, nem nada. Mas no plano de pescador, eu sou pescador, está lá em Brasília, sou pescador. Está tudo nos documentos, só não tem esse direito de barracão né? Eu não tenho casa sem nada. Tô morando aqui, mas aqui é só juntar a casa, tenho esse piá pequeno, tenho o barraco, moro lá em cima. Que nem lá só dez mil... Dez mil eu tiro de peixe num ano, então veja a diferença que tem né? Mas ainda vou ver o que vão fazer né: já falei quantas vezes pro presidente da colônia pra resolver, chamar os grandes, que nenhum grande da barragem vem nas reuniões, quando vem numa reunião pra discutir, só mandam um intermediário ali ou um outro cara ali e pronto, então só fica nessa enrolação ali e não decide nada. (PP14T1). Outra questão que provoca desconforto aos pescadores é o caso da fiscalização da Polícia Ambiental do Rio Grande do Sul (BPA/RS), que faz apreensões de redes,“é um problema que se arrasta por muito tempo” (PP04T3), sem solução prevista. Os órgãos responsáveis pela fiscalização da pesca in loco são o IBAMA e a Polícia Ambiental (BPA) de Santa Catarina, porém, é comum haver uma confusão a respeito desses fiscalizadores por parte dos pescadores, que nem sempre são identificados corretamente por eles. De acordo com os depoimentos dos entrevistados, a BPA é muito mais presente na fiscalização do que o próprio IBAMA, mesmo contando com um contingente de policiais defasado para a cobertura de uma área tão grande, o que muitas vezes diminui a eficácia na inspeção do rio, constituindo-se numa oportunidade para muitos pescadores amadores (e profissionais) praticarem a atividade da pesca predatória durante o período de defeso (IBAMA, 2014)18. A atuação da BPA , assim como a do IBAMA, tem sido motivo de muitas reclamações dos pescadores principalmente quando se trata da fiscalização no rio; existe uma diferença nas legislações estaduais entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Neste caso, o rio Uruguai tem sido palco de grandes divergências e até mesmo de algumas situações de resoluções jurídicas: a BPA do estado vizinho muitas vezes apreende indevidamente materiais dos pescadores catarinenses devidamente regularizados. Neste 18 Informações fornecidas pelos funcionários do IBAMA em Chapecó (SC), no dia 21 de outuro de 2014. 72 sentido, os pescadores demonstram ter um bom conhecimento sobre as leis que vigoram entre os dois estados: Por que hoje temos um problema, Rio Grande do Sul tem uma lei e Santa Catarina tem outra. Santa Catarina não tem lei, na verdade nós aqui em Santa Catarina não temos lei. Nós estamos amparados na lei federal, que é igual a não ter lei. E o Rio Grande tem lei própria... Que não pode ser aplicada dentro de um rio federal que é o caso do Uruguai. Eu estou respondendo a um processo, justamente por isso, apreenderam todas as minhas redes, e isso que eu estou respeitando moralmente, não existe documento, não usando malha 3,5. A lei federal permite pescar com esta malha, e eu não tenho rede com malha 3,5, não preciso e nem quero. Estava pescando com redes de malha 5,0 em diante, que é um acordo nosso, com o IBAMA de Santa Catarina, uma portaria que nós fizemos que entrou em vigor em 2008, foi criada em 2007 e vigorou 2007 e 2008, e saiu fora, voltou a valer a 3,5. E nós vimos com isso, que era futuro para nós. Era esse o esquema. Eu não tenho rede com malha 3,5, a não ser aquela uma redinha 10 a 15 m para pegar isca. Nós não usamos mais material proibido. E o pessoal do Rio Grande é malha 6,0. Aí não há quem vive. Aí eu não sei o que é que vai dar. (PP05T1). Agora tão mais lá pra cima, mais vinha aqui seguido. Na época que está liberado não e tão seguido. Mas na época da piracema é direto, toda semana. Olha só esses dias, nós tava aqui e minha rede pro lado de lá, tudo identificado certinho, chegou o pessoa do IBAMA pro lado de lá do RG e levou minhas redes, e pegou e levou. Meu irmão que tava no rio eu deixei minhas redes pra ele pescar e eles disseram que o pescador tem que estar no rio. Como que eu vou ficar no rio? Não existe isso! Revistou a rede lava a rede e vai embora. De tarde de meio dia ou de noite vai de novo. (PP13T1). O Estado do Rio Grande do Sul, através do decreto estadual n. 41.672, de 11 de junho de 2002 (RIO GRANDE DO SUL, 2002), proíbe a pesca do dourado (Salminus brasiliensis) e do surubim (Pseudoplatystomacorruscans e Pseudoplatystomafasciatum) por considerar que as espécies citadas encontram-se ameaçadas de extinção no estado, conforme consta no livro vermelho (BRASIL, 2008c); já a lei catarinense proíbe a pesca dessas espécies somente em época de piracema. De acordo com o IBAMA, essa divergência de leis pode até ser favorável quando observada pelos olhos da conservação das espécies de peixes e o órgão não pode interferir na questão. Quanto às fiscalizações, elas ocorrem somente em datas estratégicas como os feriados religiosos e início de piracema, ficando a cargo da BPA realizar as fiscalizações na maior parte do ano. As autuações geralmente são em consequência de captura de espécies protegidas por lei (dourado e o surubim) e da apreensão das redes instaladas em locais não permitidos em lei, por exemplo, atravessando mais de 1/3 do ambiente aquático e/ou na foz de rios tributários do rio Uruguai. O material apreendido não retorna ao infrator, é destruído, 73 conforme preconiza o Decreto Federal 6514/2008 (IBAMA, 2014), que dispõe sobre as condutas infracionais ao meio ambiente e suas respectivas sanções administrativas (BRASIL, 2008a). Alguns pescadores demonstram interesse pelas leis e procuram manter-se informados, buscam essas informações em eventos promovidos por órgãos do governo, o que demonstra que eles têm a preocupação de manter-se dentro da legalidade. Por que eu participo desde 2004 de seminários, de todos, desde 3 de 4, Porto Alegre, Florianópolis, Rio, São Paulo, Brasília e venho tendo informações sempre com o mais alto escalão do seminário, com o pessoal do IBAMA ou coisas assim, e sempre tentei ir lá buscar as informações forma mais correta para trazer para o pescador, porque eu tenho contato com um número muito grande de pescadores e sempre a gente se reúne na roda do chimarrão, e a gente discute isso. Eu tenho pessoas que me procuram para discutir a respeito disso. E os colegas perdiam redes de malha 5,0 e eu não acreditava, nunca cheguei a confrontar com eles sobre isso e nesse dia eu vi a polícia e não fugi, não fugi e não me escondi. Eu apresentei a versão oficial, ele não teve conversa. (PP0571). A maioria dos pescadores relatou que perdeu redes identificadas para a BPA do Rio Grande do Sul, revelando a existência de uma relação conflitante entre pescadores, IBAMA e BPA gaúcha; alguns pescadores reclamam da atuação desses órgãos, alegando uma ação agressiva destes principalmente nas “ilhotas” onde os pescadores acampam: O IBAMA, ambiental de Nonoai furaram tudo a lona a tiro ficou só um barracão comprido pra dormir em baixo e dai o outro eu fiz pra depósito. Eu tava lá, mas tive que correr, porque quando eles chegaram no barranco começaram a dar tiro. Eu tava sozinho lá em cima, ai de repente eles vinham vindo dava uns 200 m vinha os cara com as armas na mão. Eu disse: Sabe o que? Eu vou ficar aqui? Vai me encher de tiro. Fui pro mato. Acabaram com tudo, quebraram tudo. Levaram o facão, levaram tudo o que puderam levar eles levaram. Estragaram também né? Botaram fogo na minha roupa. Não sobrou uma blusa minha, uma bermuda sequer. Daí eu registrei tudo isso. Pescador sofrido. Que é sofrido gente, no rio. Não é fácil. Por tudo isso eu passei. Soltaram meu caíco depois quando eles foram embora tive que entrar na água pra pegar meu caíco rodando. Soltaram atiraram no varejão os cadeados do caíco levaram embora. Pareciam bandido. (PP13T1). Perguntei então se os pescadores tentaram alguma solução para o problema: Mas quantas vezes já fizemos e não anda, não adianta, eles falam em reunião, uma reunião marca outra e marca outra e vem ambiental e vem IBAMA daqui e eles dizem quem manda lá é Ambiental e IBAMA de lá. Porque a ambiental e IBAMA daqui varias vezes fizeram reunião com nós. Mas porque que lá é diferente? Se fosse divisa de país tudo bem, mas é de estado. (PP13T1). 74 Para os pescadores catarinenses, essa incompatibilidade legal gera inúmeros prejuízos e os pescadores têm conhecimento das leis que regulamentam os rios, discutem e possuem argumentos para a discussão: Neste mesmo dia a polícia do Rio Grande do Sul subtraiu, roubou minhas redes marcadas, roubou mesmo, tem um boletim de ocorrência, eu não sei por que a justiça não toca para frente, cuja testemunha está aqui (aponta para o Ernani), uma delas, uma rede perfeitamente bem armada, e eles me roubaram, eu posso prova que me roubaram por um detalhe, se ela estivesse mal armada e tivesse em local proibido, eles teriam que levar o xerox, meu xerox , que estava amarrado na rede junto, para me intimar, para me processar. Ao acabar de puxar a rede para dentro (a polícia ambiental do RS que estava recolhendo a rede do pescador) quando eu comecei a chamar eles, porque eu estava indo de encontro eles, e eu pedi para eles para me esperar, eles terminaram de coletar a rede, cortaram o xerox e fugiram de mim. Isso é a polícia e patrão do Rio Grande do Sul, não estou falando da polícia de Santa Catarina, que até então a gente está bem, hoje não dá para se queixar nem com São Miguel, nem com Chapecó, nós não temos queixa mas agora, a policia do Rio Grande do Sul e inclusive Nonoai, eu não sei onde vai parar isso porque tem pescadores que vai fincar fogo, vai acabar matando alguém de lá. (PP13T1). Claro que me dá prejuízo, que eu quero montar com processo contra o estado do Rio Grande! Pois estava na área permitida né, isso cabe porque eu estava na área permitida na, eu tinha como material todo identificado eles cortaram e deixaram e tudo por água abaixo, e eu pedi para ele (Paulinho da colônia) para nós ir até lá para eu saber qual é o policial que foi, porque lá tem que estar o guia, o registro, porque cabe um processo, porque eu estou pagando e tenho o direito de pescar, e eu não tava em área proibida, e tava em área permitida. Mas como que você vai proibir a pesca (querendo se referir às leis do estado do Rio Grande do Sul que são diferentes das leis de Santa Catarina), como é que nós aqui no estado de Santa Catarina..., eles podem proibir a pesca do dourado, concordo, mas num Rio que atravessa o estado, num Rio que eles sejam donos deste Rio. Isso aqui é uma divisa de dois estados, não atravessa o estado do Rio Grande, é que nem Rio Chapecó, o Rio Chapecó é de Santa Catarina. O rio deles é o Rio Passo Fundo, esse atravessa o estado, ali eles podem botar uma lei, esse aqui é divisa (referindo-se ao rio Uruguai), então, isso aqui não tem como proibir o dourado, e aqui eles são bravos, se eles te pegam com dourado dentro do caíco, eles te levam para a cadeia. Mas se eles me pegarem eu não entrego, não, não, não. Daí vamos parar, porque a prosa não é esta. Eu moro ali, podem me mandar uma intimação, vou comparecer e tudo, mas vocês não vão me levar. Eu compareço lá na audiência. Porque com é que eles vão fazer, esse Rio não é do Rio Grande. (indignado) o Rio Chapecó é nosso, o Rio Passo Fundo é deles. Aqui é o rio Uruguai, é federal O pescador realmente..., ele se intimida aqui [...]. Tu tem que ficar com medo quando se você está errado, quando você está certo você tem que brigar pelo seus direitos. (PP01T1). Em contrapartida, os órgãos fiscalizadores de Santa Catarina mantêm outra postura de relacionamento com os pescadores: Ambiental daqui é boa, essa não tem problema, de vez em quando vão lá no barraco, vão prosear, perguntam se tá pescando irregular. Mas assim é normal, só que os que vêm de fora eles vem pra arrebentar. Mas é pra tudo não é só pra mim não. (PP05T1). 75 Essa gente, assim do IBAMA, meio ambiente e da polícia ambiental quando veem no nosso barraco, não vem para tomar chimarrão. Eles só vêm para ver se você está fazendo alguma coisa errada. (PP01T1). A colônia parece não se envolver diretamente nesses problemas, o que é motivo de reclamação por falta de apoio: Olha, no meu entendimento acho que a colônia deveria ser mais parceira lá na hora da devolução, mas não está sendo. Porém, a colônia defende o que a gente defende, que é a malha 5,0. Tem um advogado que é por conta da colônia, porém, não sei quando, enfim, a política documental está boa, nos termos da colônia. Aí eu me refiro assim, no decorrer da pescaria a gente se senta para conversar. (PP05T1). Não foi aquilo que se esperava, eles poderiam ter sido melhor um pouco. Mas não vou recriminar eles, nada disso. Só que, que nem eu perdi rede para o IBAMA, que estava dentro do permitido, em eles tiraram e levar, todas elas identificadas e eu pedi para eles para ir junto lá tem um Nono aí e eles não foram até agora lá comigo. Que eu quero ir lá né? (PP01T1). 3.3 A lida e a fartura da pesca “Sem rio eu não vivo! Eu só quero o direito de ir pescar, só quero ser pescador! Sou pescador, nada mais!” (PP14T1 – pescador do rio Uruguai). “Eu jamais deixaria de ser pescador! Olha, ser pescador... Eu respeito muito São Pedro e ele foi pescador, ele tem a chave do céu!“ (PP01T1 – Pescador do rio Uruguai). Pescadores tradicionais possuem conhecimentos próprios e uso de técnicas de manejo dos recursos naturais baseados na essência do cuidado com a natureza (ZORNITTA; RENK; SOUZA-FRANCO, 2014). Comunidades que vivem às margens dos rios utilizam desses recursos para comercialização ou para o próprio sustento. Essas comunidades possuem história, cultura e tradição. Numa relação de respeito com a natureza, praticam o extrativismo e a pesca de forma sustentável, garantindo a preservação do meio ambiente (DIEGUES, 2000a). A atividade praticada nesses termos constitui-se de saberes e práticas que fazem parte da tradição dos pescadores. Porém, grandes intervenções sociais e ambientais estão alterando a paisagem da beira dos rios e abolindo a cultura dessas comunidades. 76 A construção das usinas hidrelétricas, como exemplos dessa destruição cultural, afeta imensamente essas comunidades ribeirinhas de várias maneiras, destacam-se as alterações nos meios físico, biótico e socioeconômico, como supressão da vegetação, alteração da qualidade da água, alteração na comunidade ictiíca pela transformação de ambientes lóticos em ambientes lênticos (GUERRA; CARVALHO, 1995), diminuindo a abundância de espécies da ictiofauna local, interrupção da navegação fluvial, além da desestruturação social durante o deslocamento de muitas famílias. As transformações ambientais, tanto no ambiente natural como no ambiente construído, ocorridas nos municípios atingidos pela barragem da FCE, provocaram transformações na vida pessoal, organizacional e financeira desses pescadores, influenciando sua dinâmica cultural. Neste contexto, nas entrevistas com os pescadores mais antigos, encontrei uma série de reminiscências de seus antepassados em que o espaço do rio é considerado por eles como componente de sua história; desta forma, o rio passa a ser compreendido também como direito deles enquanto pescadores. Percebi uma forte ligação sentimental com o rio através de relatos emocionantes dos agentes que manifestam um sentimento de orfandade depois da instalação da barragem, pela perda da dinâmica do rio, pela perda da água corrente, pela perda de muitas espécies de peixes e principalmente pela perda da qualidade de vida que tinham antes de a usina ser instalada. A pesca praticada na região, como já dito anteriormente, pode ser definida como familiar, ou seja, toda a atividade é respaldada por membros da própria família; a pesca em si, a limpeza e a venda dos peixes são geralmente realizadas pela esposa e pelos filhos; a limpeza das redes realizada em terra também conta com a ajuda da família; e muitas vezes o pescador é acompanhado pela família na lida. As mulheres que geralmente auxiliam na pesca não se autodenominam como pescadoras. Todo o pescado é vendido diretamente pelos pescadores, geralmente em suas próprias residências, e esse ofício é realizado pela esposa e pelos filhos. As estratégias utilizadas para a comercialização partem de cada pescador, “tem pescador que vende pros mercado, tem pescador que já tem pedido feito”, mas o importante é que todos os tipos de peixes têm comercialização, ou, como eles próprios assinalam, “se tiver, vende”. 77 Sendo assim, busquei nesta seção as percepções, as lembranças/memórias do passado que pudessem mostrar como as alterações que o rio sofreu puderam em tão pouco tempo mudar tanto a vida das pessoas que nele trabalham e dele vivem. Partindo das entrevistas, pude verificar que alguns pescadores têm saudades do rio de antigamente, de quando a água era límpida, as margens eram cobertas de vegetação nativa e frutíferas e mais ainda como eles percebem que a mudança dessa vegetação trouxe uma consequência pouco apreciada por todos; o desaparecimento de algumas espécies de peixes. Não há uma organização coletiva para o desenvolvimento da atividade da pesca. Cada pescador programa suas pescarias de acordo com sua liberdade de escolha. Geralmente pescam em duplas, mas também há pescadores que pescam sozinhos. Quando a lida é diária, a saída para a pescaria geralmente é de madrugada, antes de o sol nascer para a retirada das redes do rio que foram instaladas na tarde anterior. Depois da retirada dos peixes, a rede precisa ser lavada, pois a água do rio está suja e com muito limo. Ao pôr do sol, as redes são instaladas no rio novamente. A preparação para a ida ao rio começa pela arrumação das tralhas, que são carinhosamente arrumadas pela esposa ou pelo próprio pescador, que fica ansioso para voltar para seu local de trabalho. O sentimento de estar em contato com a água, com a imensidão do rio é de paz e calmaria; “me sinto em paz”, diz o pescador num tom de voz tranquilo e sereno como quem quer demonstrar que o convívio com o rio só pode ser menos prazeroso quando comparado ao convívio familiar. Eu me sinto bem desde quando eu saio de casa, eu me sinto contente, porque eu já saio daqui amparado, porque a (esposa) me ampara desde aqui quando arruma minha roupa, daí quando eu chego lá, dai eu faço a comida do meu jeito, faço feijoada, faço ensopado... Saio já daqui amparado. (PP01T1). Alguns pescadores se aventuram na pescaria em lugares mais distantes de casa, procurando outras águas para compensar a falta do pescado no rio Uruguai, mas nem sempre isso traz bons resultados, pois chegam à conclusão de que os gastos tornam-se maiores do que os lucros pela ausência de peixes também em rios mais distantes e igualmente afetados pelas ações antrópicas. Entrevistadora: dai vocês pescam aonde? 78 Entrevistado: no poço lá na 6 de setembro ali ou aqui em cima ou temos que i lá pra Mondai, nos fomos esses dias pra lá, fizemos uma loucura, fomos pra Campos Novos pescar. Eu gastei 600 reais, deu uns 1.500,00 no mínimo de despesas, fora o desgaste do carro que nós tivemos e peguemos 2 kg de peixe, é, foi. (PP04T3). Outros, no entanto, não possuem espírito aventureiro a ponto de abandonar seu espaço de pesca, preferem ficar onde conhecem e sabem como funciona o ritmo das águas e do remanso. Nem todos pescadores realizam a pesca durante a noite, mas todos concordam que à noite o perigo é muito grande e é necessário ter “respeito pelo rio”. Mesmo com toda a experiência adquirida durante tantos anos de pescaria, entendem que a força das correntezas oferece risco e à noite existe pouca visibilidade no rio. Eu de noite, não gosto de estar do Rio, em cima da água eu gosto de ficar num barraco. O meu material tá lá... O que é para vir vem, como diz o ditado "o que é do burro vendo nos coxo" Eu à noite gosto de estar num barraco. Comer e dormir. Vou dormir cedo e gosto de ficar escutando o barulho. Tem gente que gosta de ir à noite, mas eu não, à noite é para descansar. (PP01T1). As chuvas intensas, os ventos velozes, as redes rasgadas e consertos nos caícos podem ser motivos para não ir para o rio, e também motivo para deixar qualquer pescador frustrado, pois a vontade é estar lá, na água, no barco, içando rede e puxando peixe – essa é a vida de pescador. O trabalho intenso nunca esmoreceu nenhum pescador de verdade porque essa é a lida da pesca, é o seu serviço que rende a “boia” na mesa da família; o que entristece é perceber que a paz já não é mais a mesma, assim como o “rio já morto” não oferece mais os mesmos espetáculos de antes. Eu me sentia em paz e confortável quando não existia a barragem, eu gostava de olhar o peixe na água, escutar a noite o barulho da cachoeira, ver as garças e ver os biguás caçando, ver os peixes brincando, pulando no anzol. Isso é tudo pra mim. Sentar numa sombra com os pés dentro da água no verão. É a coisa mais linda, eu me sinto muito bem lá porque tô amparado até aqui em casa. (PP19T1). Quando o rio “está brabo”, é dia do rio, no dia seguinte será o dia do pescador novamente, porque é preciso respeitar o rio. Esse respeito é demonstrado todos os dias quando o pescador se aprochega às margens do rio e com ele conversa; dialoga com o rio da mesma forma como faz suas orações. Nunca se tem certeza de como o dia vai terminar, mas como ele começa é por conta do pescador. Com um sinal da cruz em nome de Nossa Senhora dos Navegantes, ou Nossa Senhora Aparecida ou mesmo Jesus – cada pescador tem sua crença, seu modo de falar com Deus e pedir a Ele sua benção, porque sem ela não tem como ir pra água. 79 Eu já sofri tempestades e tormentas feias em cima do rio eu sempre venci tranquilo, eu tenho a mão dela. Nossa Senhora dos Navegantes, ela sempre me protegeu, minha santinha, em primeiro lugar é Jesus né, mas a minha santinha é N.S. dos Navegantes. (PP12T1). Eu não sou católica então não tenho oração pronta, mas eu tenho minhas conversas com meu Deus, peço a proteção para o meu dia e que cada dia seja melhor pra mim e minha família. Que seja boa a pescaria hoje e que se hoje não deu que amanha seja melhor. (PP09T1). Assim como as orações, os mitos e lendas também fazem parte da rotina do pescador. Os pescadores contam que o rio Uruguai é detentor de muitas histórias e alguns lugares são cheios de mistérios e assombrações, por isso tais locais do rio são evitados por muitos deles. O pescador PP01T1 diz que não acredita em nenhuma delas, no entanto, evita ir ao rio à noite e também confessa que, naquela parte do rio que os colegas dizem ser assombrada, sente-se mal e não vai de jeito nenhum. Há quem diga que no rio Uruguai foram escondidos vários caixões cheios de ouro pelos índios que ali viviam antes da chegada dos desbravadores. Conta a lenda dos caixões que num lugar próximo de um salto havia uns caixões amarrados a umas correntes no fundo do rio, e quando os pescadores chegavam perto da barranca apareciam muitos bichos, aparecia gente estranha e que não permitia que os pescadores se aproximassem dos caixões porque guardavam o ouro dos índios. Conta a pescadora PP08T1: “Meu pai contava pra gente essa história e todos os pescadores na época falavam.” (PP09T1). Os mitos que rodeiam os rios e águas estão presentes em muitas culturas que dependem da pesca e da caça de animais e vivem à beira dos rios. Muitos desses mitos surgiram das relações entre os seres da água e os humanos, sendo necessário realizar ritos espirituais pedindo permissão para entrar na água e realizar a pesca (DIEGUES, 2007, p. 15). A presença de crenças étnicas é identificada através do respeito tido com as águas do rio, com a benção pedida todos os dias às suas margens e com entidades que possam estar nas barrancas do Uruguai. As crenças podem ser interpretadas, segundo Ingold (2000), como formas de expressões sentimentais codificadas em figuras místicas (p. 24). Podem ser expressas através do som da voz, em forma de música, grito, fala. Neste caso, está expressa em forma de crença e medo de ir para o rio à noite, ou mesmo não passar por determinado local por conta do misticismo que há nele. 80 Olhando por uma perspectiva diferente, as crenças que circundam os mitos podem representar para os povos indígenas as verdades do mundo, o mundo como o próprio sujeito o vê e, desta forma, o mito só pode ser compreendido dentro de sua esfera social, por representar a própria verdade passando a tomar o posto de um relato emocionante e cheio de vida, como se apresenta no estudo realizado por Maizza (2009), que relata a cosmologia da sociedade Jarawara, suas crenças e relações com a alteridade dos espíritos de plantas e animais. Para Ingold (2012), tais representações são impossíveis de serem consideradas quando se é instruído numa sociedade onde a comunidade científica dita as normas com autoridade suprema (p. 16), onde o imaginário é irreal: é a nossa palavra para aquilo que não existe (p. 17). Os mitos, conforme Boff (2011), “são linguagens para traduzir fenômenos profundos, indescritíveis pela razão analítica” (p. 37). Dessa forma, para compreendermos o básico do ser humano, devemos saber combinar os conhecimentos modernos produzidos pelo campo científico com os ensinamentos advindos da mitologia e das simbologias oriundas do passado e que permanecem até a contemporaneidade – isso nos permitirá observar algumas nuances de sua história. O fato de a natureza humana apresentar-se de forma complexa permite que o homem seja analisado por diversas dimensões, possibilitando vários conceitos, permitindo assim a liberdade do pensamento e da análise sobre o “ser”. Conforme Tillich, É errado tomar um método de abordagem do ser humano como o único válido ou subordinar todos os outros métodos a uma única abordagem, seja o método teológico dos tempos antigos, o método racionalista dos tempos modernos ou o método empírico da atualidade. Por outro lado, devemos evitar qualquer atomismo de métodos. (2010, p. 229). O homem, por sua complexidade, não deve ser explicado apenas através da sua capacidade de raciocínio, há que se aprofundar o olhar e refletir sobre a capacidade de criatividade do homem, que é constituído de emoções, sentimentos e paixões, um ser que cria seus símbolos e seus mitos, que produz tecnologias e culturas, portanto, não há pensamento racional sem emoção e, desse modo, somos seres capazes de emoções e decisões (PFEA, 2012). O desenvolvimento humano em sua complexa relação com o mundo só se realiza através do contato com outro, a vida em sociedade, a relação com o outro, a flexibilidade da convivência, que nada mais é do que um processo de socialização iniciado 81 no ato da concepção. A dificuldade da vida está em aprender a mediar a racionalidade sem perder o sentimento, pois não há pensamento racional sem emoção. Para entender o mundo complexo em que vivemos, precisamos entender o cosmos, as essências espirituais, assim como as artes e a integração entre conhecimento acadêmico e popular. Como seres vivos, dependemos inevitavelmente reconhecer nossa identidade terrena física, cultural e biológica. A condição humana na terra mostra que a importância da humanização é primordial quando voltada à educação para a própria condição humana, porque nos mostra a animalidade e a humanidade constituídas juntas, como é, de fato, a condição humana (ZUBEM, 1993). Essa dualidade vem de longa data, e ela já se encontra posta em nossa sociedade. Outras sociedades, como a dos Makuna, um povo indígena que vive na Amazônia às margens do rio Uaupés e seus afluentes, classificam como “gente” as pessoas, os animais e as plantas, já que são todos seres vivos e possuem “vida social” (SILVA, 2006). Para Diegues (1993), a íntima relação do homem com seu meio, sua dependência maior em relação ao mundo natural, comparativamente àquela do homem urbano-industrial, faz com que os ciclos da natureza (a vinda de cardumes de peixes, a abundância nas roças) sejam associados a explicações míticas ou religiosas (p. 47). As crenças e mitos relacionados ao espaço são parte das tradições que ficaram no tempo e lembram seus antepassados tornando-se um interventor na relação com a natureza. Isso fica evidente quando observamos que as crenças interferem e moldam a forma de o sujeito agir no espaço. Independentemente do gênero, os pescadores profissionais passam a maior parte de seu tempo no rio, inclusive muitos deles possuem barracos chamados de “acampamentos”, nos quais ficam alojados por vários dias seguidos nas “ilhotas” para cuidar do material que se encontra armado no rio. Essa é uma necessidade devido às incontáveis ocorrências de furtos de materiais de pesca que ocorrem no rio. Quando os entrevistados alegam que a atividade é diária, muitos deles levam em consideração que o diário é estar lá no acampamento por dias seguidos, e não somente ir e vir todos os dias do rio. Comportamento semelhante é encontrado nos pescadores do rio São Francisco que “realizam seu trabalho em trechos do rio que distam consideravelmente de suas casas e dos trechos urbanos, razão pela qual, quando para lá se deslocam, ficam em acampamentos por vários dias” (VALENCIO et 82 al., 2003, p. 439). Assim como no São Francisco, aqui nossos pescadores também buscam, através dos acampamentos, facilitar o acesso aos pontos de pesca, otimizar o tempo de pesca para consequentemente aumentar a produção; mas, diferentemente de lá, aqui o prazer dos pescadores de estar o mais próximo possível do rio e, mais que isso, em contato direto com a água é o principal motivo para que permaneçam nos acampamentos. Eu sou apaixonado pelo rio, eu sinto de tudo, tudo de bom. Lá no rio eu me renovo, quando eu tô no rio eu vou pra lá vou pra cá, tomo chimarrão no barraco, fico olhando pro rio, fico novo. Me dá uma felicidade muito grande. Não tem dinheiro que me pague, não tem dinheiro que me tire do rio. Se alguém me disser: “você tem que sair” – eu digo: “não vou sair”, não saio. Tenho uma paixão muito grande, eu abandono tudo pra viver no rio. (PP14T1). O barraco, então, tornava-se o lugar onde o pescador encontrava-se consigo mesmo, envolto de uma natureza inebriante, que para ele era seu refúgio. Mas isto já faz parte de outros tempos. Um barraco simples, de chão batido (figura 13), tábuas ou lona para se proteger do rio, da noite ou da chuva, um fogão a lenha, uma cama improvisada, uma chaleira no fogo para esquentar um mate, uma panela pra fazer a boia e uma roda de amigos para contar histórias. Figura 13 – Acampamentos provisórios de lona Fonte: acervo do senhor Silvenio Gnoatto – pescador (2010). 83 Meu deus! Fico pensando, pegava na frente do barraco, pegava peixe, pegava dourado com espera. Em cima da ilha. Hoje fico olhando pro seco né? Porque onde tinha água hoje em não tem mais. [...] Sinto uma tristeza que não respeitaram a natureza. Eu tinha biguá, eu tinha garça que vinha acampar, vinha pousar todas as noites do lado do meu barraco na frente de um ilhote grande. Hoje eles não vêm mais. Isso era mais de mil bichos que vinha ali. Biguá e aquelas garças. Branqueava aqueles Sarandi lá ou pretejava de biguás. Hoje não têm mais, eles não vem mais ali porque não tem água mais ali, até eles foram embora, não tem o que comer. Antigamente era crivado porque tinha o que comer né? Tinha peixe. (PP14T1). Ao ouvir alguns depoimentos, percebi que a voz já não tem mais o mesmo tom, os olhos já não possuem mais o mesmo brilho e a ida ao rio já não tem mais o mesmo sentido. Isso foi um vulcão que passou por ali. Isso acabou não tem o que fazer. Eles acabaram com tudo. Antigamente você defendia alguma coisa, se precisasse você corria pro rio e armava uma rede e tirava uns trocos, agora não tira mais nada. [...] Rio não tem mais, só que ficou as poças de água e está criando pernilongo, queria que soltasse pelo menos um metro de água pra que não criassem tanto pernilongo. Que deixasse pelo menos nesse nível pra eliminar isso né. [...] Eu quero o rio de volta. Tem que ter água, tem que ter correnteza e tem que ter peixe. Sem o rio eu não vivo. Sou doente pelo rio. Eu preciso ir até o rio pelo menos pra molhar os pés todo dia. (PP14T1). Para esse pescador, a água exerce uma importância fundamental para sua vida, significando a vida. Existe ali um fluxo energético visível e perceptível, que encanta o pescador trazendo o sentimento de ligação entre ele e o rio. O rio passa a ser uma extensão de seu corpo, justificando a necessidade que ele define como uma dependência de estar ligado ao rio todos os dias. Para Silva (2009), as práticas míticas não são apenas cartas ou regras de condutas de comportamento, são formas de interpretar, classificar, selecionar as espécies, os lugares, a natureza; de preservar as relações sociais tradicionais e de viver. Quando perguntados sobre a profissão de pescador, percebi que o orgulho da profissão para muitos deles é uma motivação para continuar na lida. A profissão de pescador é uma forma de manter a autonomia quanto ao seu tempo livre, ser patrão e não empregado, agregando valores ao modo de vida. Apesar disso, a maioria dos entrevistados admite que inevitavelmente, num futuro próximo, vá ocorrer a morte social do pescador, alegando que essa profissão não tem futuro e que, no máximo em dois anos (2017), já estará extinta a atividade na região pelas condições do rio. O rio desapareceu e não oferece mais condições de continuar ali. Mas isso não influencia na realização de ser pescador. Mesmo os entrevistados que possuem outras formas de renda, todos eles denominam-se pescadores, a primeira profissão sempre é a de pescador. 84 Entrevistado: pescador, sem duvida. O resto é resto. Eu jamais deixaria de ser pescador.Isso é um amor que nem um tio meu falava. É como quando sai uma música linda, como se fosse uma fruta que você senta lá separado pra comer ela sozinha, você tem um prazer incalculável. Uns tem o sentimento pelo futebol, outros por caçar, qualquer atividade, cada um tem um gosto. E o meu é a pesca. E desde o rio, não sei cada ser humano interpreta de um jeito, a água às vezes está baixa, às vezes está meio nível e outras vezes estão meio nível, então o olho da pessoa nunca se cansa de ver, então a água ela limpa ela purifica, ela faz tudo, tanto é que o corpo da gente é quase tudo água né? (PP12T1). A analogia feita pelo pescador sobre a pesca e a música traduz o pensamento de Ingold (2000) quando fala que a arte dá forma ao sentimento humano (p. 23). Assim como um músico sente a melodia em seu íntimo e traduz seu sentimento através do som de sua música, também o pescador traduz o amor pela profissão através do contato com o rio e com peixe – são as sensibilidades que adquirimos através da educação sensorial (p. 24). As falas individuais dos entrevistados constroem um cenário coletivo que evidencia as condições atuais da pesca; eles argumentam que fazem parte de um grupo social em extinção no trecho do rio Uruguai. São esclarecidos sobre a falta de atitude dos órgãos responsáveis pela política pesqueira em nosso país e de inúmeros outros agentes que levaram à crise por que passa o setor pesqueiro neste momento (DIEGUES, 1973); afirmam que estão sendo esquecidos pelos responsáveis das obras grandiosas ocorrentes no curso do rio Uruguai, dada a invisibilidade da profissão e dos costumes desses pescadores. O que me prende aqui? O que me prende aqui é o Rio, eu já fiz a minha habilitação para ônibus, caminhão, enfim, pra sair da pesca. Já estou me preparando aos poucos porque sei que esta profissão não vai mais vingar, como já temos quatro companheiro que abandonaram a pesca em um ano e pouco, abandonaram a profissão da pesca, então isso nos deu um espaço de trabalho momentâneo. Não tem pra ninguém. Mas dá para aguentar ainda um ano, porque é uma escolha, porque eu escolhi ser pescador, é uma coisa que você faz por que você gostou. A mesma coisa lá no início dos estudos quando você escolhe ser médico, você escolhe por que você gostou. A profissão de pescador é a mesma coisa. (PP05T1). Diante de tamanha glória de ser pescador, perguntei a eles se a profissão é repassada aos filhos, se a vontade de cada pescador é ver seu filho na lida, puxando peixe, e as respostas foram as seguintes: Entrevistadora: e seus filhos, passou um ofício para eles? Entrevistado: não, não deixei, nunca permiti que ele se aproximassem, eu sempre afastei eles. Se a coisa fosse boa com certeza eu iria me orgulhar de ter os filhos do meu lado, mas com o passar do tempo eu tempo eu percebi que isso daí estava chegando ao fim, e a gente passa muito tempo passando por muita necessidade. (PP05T1). 85 Mas claro, esse ai (em relação ao filho) eu vou registrar, primeiro vai estudar mas vou fazer a carteirinha pra ele pra não perder a raça e não perder a fama né? (risos). Tenho esperança que o rio mude que a gente ache um lugar que é de acordo que dá pra pescar como antigamente né? Tenho foto lá em cima de todos os peixes que eu peguei, está loco! A gente se emociona quando olha. Esse daqui tem sete anos e já e meu piloto. Já toca o barco pra mim. Ele quer ser pescador. Entrevistadora: e o que você fala pra ele? Entrevistado: eu falo assim: olha, eu não posso te prometer nada. Se tivesse um rio bom eu ia te incentivar pra pescar, mas acho que você vai ter que estudar, porque não vai ter o rio, não vai ter onde pescar. Estuda porque eu acho que vai ser melhor. Mas ele que ir no rio. (PP14T1). Qualquer um deles eu posso colocar lá pra puxar um caíco, ou pra largar uma rede. Esse aí cada pouco está pescando de linha ali na beira a gente tem o caíco com motor direto no rio. Claro que a gente incentiva a estudar, porque hoje o estudo é em primeiro lugar né? Porque se querem escolher outra profissão... Porque eu acredito que a nossa daqui a dez anos não... A nossa região se continuar assim a decadência de peixes vai terminar. A não ser que crie, como eu falei no começo, se tiver incentivo da empresa e do governo e criar em tanque rede a gente vai atrás buscar estes investimentos. (PP11T4). As respostas mostram que, apesar da dificuldade da profissão, das lutas e do eminente fim da atividade na região, os pescadores conservam a vontade de ensinar aos filhos, até ensinam, levam para o rio, mostram a profissão aos filhos, mas incentivam a seguir outro caminho para que não seja necessário os filhos enfrentarem as mesmas dificuldades do pai. Essa mesma preocupação é apontada por Pieva, Kubo e Coelho-deSouza (2009) com pescadores da Lagoa Mirim, na comunidade de Arroio Grande, localizada no Rio Grande do Sul: também incentivam seus filhos a estudar para seguirem uma profissão que não seja a do pai (p. 89), aumentando assim a probabilidade de a profissão de pescador artesanal chegar ao seu fim. A lembrança que mais comove os pescadores certamente recai no dia do barramento do rio, o dia que o rio ficou seco. Os depoimentos são carregados de emoção e de sentimento de revolta pela degradação da natureza provocada pela intervenção humana através do atual sistema de desenvolvimento que busca as melhorias e bem-estar social – o progresso! Eu não tava em casa, eu tava no barraco. Todo mundo falava: vai fechar, não vai fechar, e eu tava no barraco e me acordei as cinco horas da manha com uma conversaiada, um povaréu falando, eras os caras que eles contrataram pra ir recolher os peixes que ficava no leito do rio. Eu falei: pro meu companheiro: Acho que fecharam o rio. Não avisaram ninguém, quando vimos tava o leito do rio seco. Nós fomos a pé no leito do rio recolher as redes. Então viemos embora. Ficou só o canal de água. Dai viemos pra casa e fui pegar meu caíco lá no meio do rio seco, porque carregar nas costa não dava né? Eu fiquei pensando como é que tem gente tão ingrata que toda risada da desgraça dos outros. Eles sabem que a gente precisa desse dinheiro. Olha um cara que se criou em cima do rio e passar por tudo isso, dá 86 vontade de fazer uma besteira. [...] Vim pra casa carregando uma bolsa com as redes dentro no leito do rio, caindo, levantando naquela pedreira. (PP01T1). Deu uma tristeza de olhar tudo que você plantou debaixo d'água. Depois daquela maldita empresa do de IBAMA proibiu de tirar as madeiras, e depois encheu o lago e foi tudo para baixo d'água. (PA03T2). O depoimento ocorre num clima de sentimento de transgressão, em que fica visível a impotência do pescador diante das grandes redes de poder que procuram única e exclusivamente a exploração dos recursos naturais. Tais empreendimentos pertencem a um sistema econômico voltado para a acumulação de bens através do uso de um patrimônio que por direito pertence a todos os cidadãos. Nesse sistema econômico, não cabe o entendimento de que essas pessoas criaram um vínculo de apego ao lugar, um sentimento de pertencimento e de reconhecimento pelo seu espaço. Essas pessoas se sentavam em rodas, contavam histórias, cuidavam de suas redes e apetrechos enquanto contavam suas vidas umas para as outras – assim construíram suas vidas às margens desse rio. Quanto ao armazenamento do pescado, o peixe é limpo no rio mesmo conforme mostra a figura 14 e acondicionado em freezer ou geladeira dos acampamentos quando este é localizado às margens do rio; quando o acampamento se localiza nos ilhotes, o peixe é guardado com gelo em caixas de isopor. Neste caso, a permanência no rio deve ser em tempos mais curtos devido à conservação do peixe. Já em casa, o peixe é lavado novamente com água da torneira, guardado em freezers , abaixo na figura 15 os pescadores armazenam o peixe que já está pronto para a comercialização, que é feita diretamente por eles – geralmente fica a encargo da esposa e dos filhos, diferentemente do que acontece na maioria dos lugares onde o processo de comercialização da produção da pesca artesanal passa por uma rede de atravessadores (GODINHO; GODINHO, 2003, p. 18). 87 Figura 14 – Pescadores logo após a pesca limpam o pescado à beira do rio Fonte: acervo do senhor Gelson Gnoatto – pescador (2010). Figura 15 – Pescadores guardando os peixes depois da pescaria Fonte: acervo do senhor Silvenio Gnoatto – pescador (2010). 88 Embora todos os peixes sejam profundamente importantes para os pescadores, existe uma classificação das espécies mais valorosas para a comercialização. O dourado é considerado a espécie mais importante comercialmente entre os pescadores, pois é tido como um peixe “nobre, com venda garantida”; já o cascudo é considerado o mais lucrativo por ser mais procurado comercialmente. Considerando a escassez do dourado, tem-se tornado cada vez mais constante a venda de outras espécies menos apreciadas para a comercialização, como o grumatão, o curimbatá e a traíra – esta encontrada em maior quantidade depois da última enchente ocorrida no mês de junho de 201419. O que a gente consegue capturar? O curimbatá (grumatão), o dourado em pequena escala, bem pequena escala e o peixe que gente pesca mesmo, que veio na ocupação do cascudo, que era nosso carro-chefe, nós éramos pescador de cascudo, e o dourado, o Bocudo, o pintado amarelo e o curimbatá, isso sim inverteu tudo, o hoje nosso carro-chefe, se nós quisermos sobreviver temos que sobreviver do curimbatá. (PP06T1). Outro ponto abordado pelos pescadores é quanto à vazão da água depois do barramento do rio, que prejudicou a desova das comunidades de peixes alterando seu ciclo reprodutivo. Os peixes capturados hoje evidenciam uma mudança drástica na época de reprodução, sendo encontradas muitas espécies de peixes “ovados” fora da época normal – essa condição é novamente atribuída à barragem da FCE, pela ausência de um corredor para os peixes alcançarem a parte montante da barragem a fim de concluírem a peregrinação de reprodução. Sobre a qualidade do peixe encontrado hoje nas questões de aparência, gosto e cheiro da carne, muitos alegam que não há mais condições de comer certos tipos de peixes. Quando perguntados se sabem o motivo dessa mudança no peixe, alegam que a água tem apresentado mau-cheiro, coloração verde, com limo – pode ser esse o motivo. Outra questão que incomoda os moradores da comunidade é a incidência de infestação de mosquitos, o que não ocorria antes da barragem. Entrevistadora: Qual o peixe que mais pegava? Entrevistado: tainha, mas essa tainha de agora não dá pra comer. No começo até dava, mas agora não dá mais pra comer. Entrevistadora: qual a diferença que vocês perceberam? Entrevistado: o cheiro, um odor muito forte, muito ruim que não dá pra comer. A tainha e o curimbatá. Um gosto na carne que não dá pra comer. A gente até tempera, 19 A enchente que atingiu o norte e noroeste do Rio Grande do Sul e o oeste catarinense foi considerada a maior dos últimos 30 anos na região. Desabrigou mais de 3 mil pessoasem 39 municípios. 89 mas são os cachorros que comem. Essa semana até foi pegado e ainda não experimentamos, mas na semana retrasada não deu pra comer. Um cheiro muito mais forte do que aquele do mar. “ixi”. Muito mais. A montante da barragem, outros problemas aparecem em relação à alteração biótica no corpo do reservatório, influenciam tanto sobre os estoques pesqueiros quanto sobre os recursos hídricos: a introdução de espécies predadoras como a piranha (Serrasalmusmaculatus), que, de acordo com os pescadores, não havia sido detectada nesse trecho do rio até o enchimento do reservatório. Os pescadores pontuam que a redução cadenciada na reprodução dos peixes começou logo no primeiro ano após o fechamento da barragem: [...] Ele (o rio) mudou depois da criação da barragem, dai ele mudou podemos dizer assim que o impacto ambiental foi grande né? Principalmente por causa da vegetação, desta madeira né? Antes não tinha o que mudar, porque a natureza ela tava ali a quantos mil anos né? [...] quanto à quantidade aumentou muito a piranha, a palomita. E diminuiu muito as espécies mais lucrativas como o cascudo. Eu acredito que é por causa do espaço grande de água né? (PP11T4). Quanto às espécies que ainda são encontradas no rio, tratam-se das mesmas que eram encontradas antes da instalação da barragem, o que muda é a quantidade e a falta de algumas delas, como já referido. Entrevistado: que tipos de peixes o Sr. costumava pegar com seu pai aqui no Uruguai? Entrevistadora: dourado, surubi, Pati, tinha bastante. Piava, eram os peixes que mais dava. E hoje ele, tipo assim o pati entrou em extinção, não tem mais, o surubi ainda tem, ele é de poço, mas é bem ralo, a piava também entrou em extinção, é algumas que pega, muito ralo, na nossa região né? Se viajar mais pra baixo, longe ainda consegue capturar a piava ainda, mas bem pouco. No rio Uruguai, encontram-se espécies migradoras de peixes como dourado (Salminus brasiliensis), curimbatá (Prochilodus lineatus), peixes apontados por Filho e Shultz (2003) como de piracema, que utilizam habitats essenciais para o seu ciclo de vida (p. 171). Outras 12 etnoespécies foram citadas pelos pescadores – como surubim, bocudo, grumatã, pintado amarelo, piava, curimbatá, tainha –, divididas entre 8 famílias20, conforme relacionado no quadro a seguir (Quadro 4). Resultados semelhantes são encontrados nos 20 Utilizado o trabalho Diagnóstico da pesca do reservatório da Usina Hidrelétrica de Itá, Região do Alto Rio Uruguai no período de 2004 a 2009 (SHORK, 2012), orientado pelo professor Dr. Evoy Zaniboni Filho (p. 32-33), como referência para a classificação das famílias dos peixes mencionados pelos pescadores. 90 estudos de Thé, Madi e Nordi (2003) no rio São Francisco: as mesmas espécies são identificadas como as mais valorizadas e procuradas comercialmente. Quadro 4 – Lista de espécies de peixes capturados pelos pescadores do rio Uruguai Nome comum Família Characidae dourado piracanjuva Pimelodidae bocudo surubim pintado amarelo pati Prochilodontidae grumatão ou curimba Loricariidae cascudo Anostomidae piava Erythrinidae traíra Mugilidae tainha Auchenipteridae bagre Fonte: elaborado pela autora. É importante destacar que os peixes pati e tainha foram citados durante as entrevistas por vários entrevistados, porém, em pesquisas pela distribuição da espécie, não foram localizadas citações do rio Uruguai como local de distribuição dessas espécies. Hoje a atividade da pesca encontra-se altamente prejudicada, escassa e sinaliza o desaparecimento de algumas espécies de peixes. A espécie de peixe mais citada quanto à situação de escassez é a piracanjuba (Brycon orbignyanus), seguida da piava (Leporinus obtusidens) e do dourado (S. brasiliensis). Segundo o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção (BRASIL, 2008c), a piracanjuba é uma espécie que está sob esse risco (MACHADO et al., 2005). Antigamente, esse peixe era uma das espécies mais 91 importantes na pesca profissional e amadora, hoje já se encontra extinta em algumas regiões hidrográficas como a bacia do Paraná (BRASIL, 2008c, p. 15). Quanto à ausência da piracanjuba, os pescadores entendem que a ausência das árvores frutíferas às margens do rio seja um dos seus principais motivos, seguido pela transformação do ritmo das águas lóticas para lênticas, por consequência do barramento do leito do rio para a construção da FCE: O paqui também sumiu, o cascudo, a piava tá voltando, a piracanjuba faz anos que sumiu, porque sumiu as frutas, é um peixe que depende muito das frutas. (PP01T1). Ate mangueira com pedra meu pai fez uma vez pra pegar piracanjuba e a gente cevava com milho e mandioca lá dentro, de noite ia lá batia a comporta e pegava um monte de piava. Então tudo isso, não tinha o que falar do rio antigamente, o rio tinha água, quando queria, a natureza era tão querida que está loco, tinha fruta na beira do rio, o tipo de fruta que você queria, está loco. (EP1471). Os antigos não tinham rede pra pescar era só no anzol, e pegava de tudo. Aqueles anos lá era só dizer eu vou buscar um peixe, e ele ia. Ainda mais se tinha um pé de fruta na beirada do rio. Aquilo era uma ceva. [...] Nós chegava a fazer bacalhau com os peixes que meu pai trazia pra casa. Ponhava tudo numa linha no sol e aquilo torravam tudo. Dai guardava nas caixas. (EA02T2). O tempo da atividade foi um dos resultados que impressionou, pois dentre os entrevistados a maioria dos pescadores desempenham essa atividade desde crianças; ora, sé o ponto relevante, pois este resultado apresenta um grupo de pessoas com uma idade avançada e com o tempo de atividade similar à idade – o número maior de pescadores ficou estabelecido entre 50 e 70 anos. Quanto aos métodos e materiais utilizados para a captura de pescado pelos pescadores, verificou-se unanimidade na utilização da rede de emalhar (25) como principal instrumento de pesca, conforme demonstrado no gráfico abaixo (figura 16). Além da rede, contam com o auxílio de espinhel (18), vara de caniço (14), espera com anzol (15). Apenas um pescador declarou utilizar rede de emalhar fora dos padrões para capturar peixes pequenos. Como embarcação, todos utilizam o caíco para o desenvolvimento da atividade. 92 Figura 16 – Demonstração dos instrumentos reconhecidos pelos pescadores do Rio Uruguai. Fonte: elaborada pela autora. Os métodos antigos, utilizados inclusive pelos indígenas, aparecem também como prática dos pescadores artesanais. Tratavam-se de fisgas (1), covo (1) e taipas (20) ou mangueiras – estas últimas eram fabricadas com pedras do próprio rio, como uma barreira em forma de piscina para aprisionar os peixes que eram atraídos por comida como mandioca e espigas de milho depositadas dentro das mangueiras. Nas esperas utilizadas pelos pescadores conforme mostra na figura 17, também são utilizados atrativos para os peixes, como espigas de milho. Os comentários dos pescadores surgem como forma de comparar a abundância de peixes de antigamente com a escassez de hoje em dia. Naquele tempo, havia a facilidade de capturar o peixe, a alternativa de escolher o peixe a ser pescado, a abundância de peixes. Pegava bastante tainha e outros peixinhos pequenos. A gente fazia ceva, então a gente ceva no barranco e vai lá e pesca. Nós ia lá de vez em quando pegar só pro gasto. [...] A gente amarrava milho verde uns pé de mandioca, quirela, e depois ficava cevando e pegava com a vara. Pegava tainha e lambari. Mais tainha. (EA09T2). Entrevistado: meus tios. Faziam as “mangueiras” de pedras, as taipas fazia aquilo grande assim, lá no meio do rio. Erguia de pedra, fazia a ceva lá dentro, fazia uma 93 porta e ai de longe ele segurava aquela porta erguida com uma linha, ai lá de longe ele soltava e os peixes ficam presos lá dentro e daí eles fisgavam (fisga). Entrevistado: eu nunca pesquei com covo, mas meus tios usaram muito covo e muito. Eu vi uma vez ele puxa esse covo ai com uns 15 a 20 peixes dentro. Muito peixe. Entrevistadora: era um paraíso então esse rio? Entrevistado: nossa senhora era mesmo. Agora não dá mais graças de ir ali. Eu e meu irmão ficamos acho que um mês mais ou menos, mas peguemos mal a pena pro gasto pra comer, mas dizer que pra vender assim não. (PP12T1). Uns anos atrás pegava: piava, piracanjuba, dourado, surubim, bocudo, grumatão, cascudo. Cascudo dava muito. Nós chegava fisgar cascudo de dia claro na hora do meio dia aproveitava o sol a pique, chegava tinha aqueles cardumes de cascudo a gente escolhia o cascudo pra pegar de fisga pra vender e pra comer. (PP13T1). Figura 17 – Instrumento denominado “espera”, que utiliza vegetais para captura de peixes Fonte: acervo do senhor Silvenio Gnoatto – pescador (2010). Quando Ingold (2005) fala a respeito da interação dos povos caçador-coletores do Círculo Polar Ártico com os animais durante a caça, podemos distinguir a existência de um sistema de respeito entre humanos e animais em relação à natureza, sendo que ambos lutam por sua sobrevivência. Ele destaca que o engajamento entre humanos e animais seria baseado numa relação de confiança, o instrumento maior nesse processo da caça seria o conhecimento das ações do animal em resposta à perseguição humana numa atitude de ofertar-se ao homem. Já no caso acima, nos métodos utilizados pelos pecadores, existe uma relação de dominação em que o engajamento seria baseado no domínio da natureza e do animal no desenvolvimento de habilidades para decifrar o comportamento do peixe, o peixe 94 seria atraído pelos vegetais postos nas mangueiras de ceva. Os instrumentos utilizados nesse caso, a fisga, as pedras, o covo e a rede são os meios utilizados para subordinar o peixe no processo da captura (p. 70). De acordo com os depoimentos, a maior limitação na atividade da pesca no rio Uruguai, além da falta do espaço de trabalho, é a situação lastimável da água que agora está parada, de cor verde, com muito odor e com limo em decorrência da perda da correnteza. As diferenças entre montante e jusante são visíveis: a montante, a formação de “poços fundos” no leito do rio, em alguns lugares eles não conseguem sequer apoitar o bote pela atual profundeza; e a jusante, total falta de água no leito do rio, inconstância das águas devido à abertura das comportas da barragem, sem avisos para a comunidade. Sobre este último, muitos pescadores reclamam que a barragem, na maioria das vezes, não avisa sobre a abertura das comportas e os pescadores acabam tendo muito prejuízo, pois a velocidade e o alto volume de água arrancam e levam embora as redes, até um bote já foi perdido. Esse prejuízo dificilmente é recuperado, pois com a diminuição do pescado a renda também diminui. Além disso, alguns relatos denunciam que peixes aparecem batidos e machucados em função das comportas da represa. As sirenes não funcionam, e o rio sobe de vereda e leva todo o material. Teve gente que perdeu rede, caíco, tudo... Não se sabe quando a água vai subir. Uma hora o rio está seco, daqui a pouco abrem lá as comportas e carrega tudo rio abaixo? (PP02T1). Tem muito peixe batido, machucado, não se sabe onde e como ele se machuca. Dai você coloca ele no freezer quando vai ver está podre. A carne toda machucada. [...] A água tem um limo que não da pra aguentar. Suja as redes, gruda nas redes fica tudo verde, ele da uns fiapos compridos e cheira mal. [...] Isso diminui os peixes porque as redes tem que tar limpinhas pro peixe vir na rede. O peixe é mais esperto que nós ele Vê aquilo na rede e não chega. (EP04T3). Detenho-me a pontuar aqui somente o ponto de vista do pescador por não ter sucesso no contato com a FCE, sem a intenção de provocar opiniões unilaterais, mas com a intenção de pontuar uma questão importante para a elucidação da questão. De acordo com o Plano de Conservação Ambiental de Usos da Água e do Entorno do Reservatório (PACUERA) produzido pela FCE, [...] a equipe de Gestão Ambiental da FCE será responsável por: informar aos pescadores e à população em geral, através do serviço de comunicação Social, qualquer situação de anormalidade que possa prejudicar a atividade, como alterações 95 significativas na qualidade das águas do reservatório, ocorrências extraordinárias de mortandade de peixes e cheias extraordinárias que coloquem em risco a população ou os usuários de embarcações. (PACUERA, 2010, p. 47). Quanto a essa questão, quero apenas salientar o perigo que a população ou usuários de embarcações enfrentam, pois é neste contexto que a maioria dos depoimentos colhidos apresenta-se: E de repente quando a barragem de fica cheia de água e eles abrem as comportas por excesso de água esse limo desce e leva tudo o que nós temos isso não aconteceu só uma vez, foi mais do que uma vez. E isso nós já conversamos com a Foz, porque nós precisamos de mais do que 2 horas para as sirenes soar antes das comportas abrir,... Isso eles disseram que era mentira, que isso não era verdade. (PP05T1). Não toca mais sirene, não existe mais. É assim, o dia que eles resolvem soltar água ele soltam e acabou. Eles largam quando querem e pronto. E bem descontrolado. Não é mais como o natural do rio, da água da chuva que quando chovia você já esperava que o rio ia encher, hoje não, eles largam quando querem, atacam (represam) quando querem, eles mandam. Hoje a chuva não faz mais diferença pra nós. Nos não ganhamos mais água da chuva aqui. Pra nos não suja nossa água como o peixe gosta com água fresca, eles seguram tudo. Ainda que de vez em quando o Chapecó da uma limpada, mas do Uruguai não. (PP02T1). A elaboração desse documento, o PACUERA, é feita sem a participação dos atingidos ou de qualquer liderança local, tornando-se um recurso destinado a poucos. Portanto, uma das formas de exclusão da população atingida, dentre tantas decorrentes da construção de usinas hidrelétricas, se dá na não participação dessas na definição do PACUERA. A geração de energia elétrica beneficia pessoas, entidades e empresas em outras regiões, mas no novo ambiente os ribeirinhos (pescadores e agricultores), bem como a população regional, ficam com o desafio de construção de novas interações cotidianas no novo ecossistema com as angústias e conflitos a serem dirimidos junto ao novo proprietário do reservatório e órgãos de governo. (AGNOLIN; WINCKLER; RENK, 2012.p.12). As tentativas de conversas entre pescadores e a FCE nem sempre resultaram em soluções para os problemas visto que a barragem não leva em consideração as reclamações feitas pelos atingidos e tampouco procura resolver a situação destes. De acordo com o PBA (2010), a população diretamente atingida possui dificuldades para “aceitar” os impactos causados pelas obras e pelo reservatório (p. 33). A política adotada pelo setor elétrico brasileiro no que diz respeito às populações atingidas pelas barragens é preocupante. Os impactos sociais provocados por esse tipo de mudança na paisagem dificilmente são levados em consideração por esse tipo de obra; há 96 indiferença em relação à qualidade de vida das comunidades ribeirinhas, tendo-se como único objetivo a exploração hídrica. Segundo Zhouri, Podemos dizer que os conflitos ambientais surgem das distintas práticas de apropriação técnica, social e cultural do mundo material e que a base cognitiva para os discursos e as ações dos agentes neles envolvidos configura-se de acordo com suas visões sobre a utilização do espaço. [...] Os conflitos se materializam quando essas concepções de espaço são transferidas para o espaço vivido [...] (2010, p. 4). “É a técnica que permite aos homens a apropriação dos espaços ditos naturais e sua transformação.” (SILVA, 2006a.p11). Temos visto costumeiramente relatos de comunidades humanas que perdem seus alicerces sociais e culturais em função das transformações causadas por implantação de usinas hidrelétricas. Não é do interesse dessas obras agregar valor ao espaço, à vida social dessas comunidades e suas culturas, pois financeiramente isto acarreta prejuízos ao empreendimento. O PBA (2003) prevê a execução de programas ambientais, sendo dois deles relacionados à atividade pesqueira do rio Uruguai: programa 11 – monitoramento da ictiofauna (p. 390); programa 12 – que trata do monitoramento da produtividade pesqueira e da qualidade do pescado (p. 416). Analisando os programas de mitigação descritos no PBA (2003), observei especificamente o programa de número 15, que dispõe sobre a comunicação social que rege: [...] Em consequência disto faz-se necessário criar mecanismos de comunicação e interação com a sociedade da região de influência direta e indireta do empreendimento, de forma a captar seus anseios, informar quanto às políticas e ações adotadas e dar-lhe as respostas adequadas no momento oportuno, num processo de diálogo e negociação. O Consórcio Energético Foz do Chapecó, certamente buscará a incorporação das demandas locais ao seu planejamento e a superação dos conflitos de interesses existentes. (PBA, 2003, p. 489, grifo meu). Nesse contexto, observa-se a diferença de potencialidades de reação entre os agentes do processo e a empresa FCE, quando fica exposto que as respostas serão dadas à população no momento “oportuno”. A pergunta que permanece suspensa é a seguinte: Quando? É oportuno para quem? Do que se pode entender, o tempo oportuno é definido quando a empresa achar necessário, enquanto a população atingida tenta a duras penas lutar contra uma força que a reduz a pouco e nada, “tornando-as invisíveis enquanto agentes sociais e agentes políticos dotados de desejos e direitos” (ZHOURI, 2007.p.120). 97 3.3.1 O cotidiano feminino da pesca Percebi que as mulheres que mantêm vínculo direto com a pesca não têm qualquer problema no desempenho da atividade; conseguem desempenhar suas funções de forma programada entre as outras funções domésticas e suas atividades diárias com a pesca, tendo uma rotina de colocar as redes no rio, verificá-las e também retirar os materiais: “Eu sempre vou sozinha, desde 2009 pra cá. Vou lá de manhã tiro a rede, limpo os peixes, lavo a rede, reviso, coloco de novo. De tarde vou de novo, lavo se precisa coloco de novo.” (PP02T1). A rotina da pesca não apresenta obstáculos diante dos companheiros do rio, onde a força feminina não é estranha para os pescadores masculinos: “Eles estão acostumados já, é tudo colega. Porque eu pesco aqui perto do posto, eles já me conhecem.” (PP02T1). O núcleo familiar, na maioria dos casos, representa o espaço onde ocorrem os primeiros passos no processo da formação do pescador artesanal. A influência na prática da profissão nitidamente parte da família. A necessidade de ampliação de recursos financeiros provoca a inserção do gênero feminino nas atividades da pesca desde a infância de maneira tão peculiar que mais parecem brincadeiras, acompanhando os pais e irmãos mais velhos, mas com um tom de seriedade, e as tarefas trazem benefícios financeiros para a mesa da família: Quando criança tirar o peixe, ver ele se mexendo, era um sentimento que não dá pra explicar. E depois quando adulta era o lucro também que envolvia além do prazer da pesca. (PP09T1). Assim se manifestam os primeiros nós de redes, os primeiros puxões e os primeiros anzóis. As primeiras tarefas são uma forma prazerosa de os filhos e filhas terem suas iniciações na lida dos pais pescadores. Não tem mais jeito: o primeiro passo já está dado, o oficio já está passado. Ao mesmo tempo que ocorre o processo de escolarização formal no tempo extraclasse, ocorre a formação técnica da profissão parental. Os trabalhos femininos na pesca geralmente iniciam com tarefas a serem realizadas em terra firme, o ofício se restringe à limpeza do peixe, à pesca à beira rio com vara, limpeza das redes e remendos das redes. Esses trabalhos manuais são muito importantes para dar suporte ao andamento da pesca em água. Conforme as habilidades vão se mostrando maiores e a destreza aumenta, a própria menina mostra sua força e valor no 98 desenvolvimento do trabalho, porém, aos olhos da sociedade, ela já está invisível na cadeia produtiva da atividade pesqueira. A lida inicia cedo para elas, que precisam ir ao rio por volta das cinco horas da manhã, antes do raiar do dia, para averiguar suas redes que foram colocadas no dia anterior. Essa rotina de afazeres precisa ser estrategicamente elaborada pela fragilidade do pescado e também pela responsabilidade de seus afazeres diários de donas de casa, pois as pescadoras realizam suas tarefas na pesca diariamente: Entrevistadora: Dona [...] e como é que a senhora organiza as suas atividades diárias, como é que a senhora divide a sua rotina durante o dia com casa, o marido, os filhos, as atribuições como dona de casa e com a pesca? Eu alevanto a primeira coisa eu vou no rio né, eu volto dai vou fazê os meus serviço dai eu só vou de novo à parte da tardezinha pro rio de volta. (PP17T1). Eu assim ó eu quando dá pra i pro rio, eu de manhã cedo eu alevanto a primeira coisa nóis vamo no rio né, eu volto dai vô faze os meus serviço dai eu só vô de novo na parte da tardezinha pro rio de volta. Dai o dia inteiro eu fico em casa daí. (PP17T1). As mulheres geralmente gostam de pescar mesmo que seja para sair da rotina do dia a dia de sua casa e aproveitar o ambiente do rio, como mostra afigura 18 onde a pescadora mostra com orgulho o pescado do dia. Quando dava vontade de comer peixe com muita chuva eu fazia meu serviço de casa e as crianças iam dormir e o marido também eu pegava meu anzol e ia pegar meus peixinhos. Eu morava aqui (moradia), ai eu sai daqui e ia pelo barranco pegava o caíco e ia pescar aqui no barranco sozinha, pescar de linha. Pegava os peixes, limpava, e ia pra casa e de noite fazia uma polenta e fazia de noite pra comer. Quando todos acordavam tinha peixe com polenta pra comer que eu tinha ido pescar. Tudo no fogão a lenha. Quando eu em lembro disso parece mentira de tudo o que eu fazia. Eu era tão feliz e não sabia. (PP08T1). A convivência com o rio demonstra a habilidade desenvolvida com o passar dos anos de forma a utilizar melhor o tempo pelas mulheres para que todas suas tarefas, em sua dupla jornada, sejam desempenhadas, entre o rio e os afazeres domésticos: Pois é, dai casei e a gente trabalhava na roça, mas sempre tivemos um pezinho no rio. De tardezinha eu vinha do serviço e vinha ajudar ele no rio. Até que eu tive os filhos. Ai depois ficou um pouco difícil quando eles eram pequenos. Às vezes eu fazia eles dormir de meio dia eu ia lavar roupas no rio enquanto eles dormiam pra depois poder ir pra roça né? E depois da roça ia pro rio de novo. Ai tinha vaca de leite, porcos e os deveres da casa. (PP08T1). 99 Mesmo nos horários da lida doméstica, a pesca é parte integrante dos afazeres dessas mulheres, que participam diretamente da comercialização dos peixes, enquanto o marido está no rio. A venda é feita geralmente em casa, quando os clientes procuram pelo produto, que fora acondicionado em freezers. Figura 18 – Pescadora do rio Uruguai Fonte: Silvênio Gnoatto. O papel da mulher na pesca artesanal tem alcançado grandes repercussões na atividade pesqueira. Exemplo disso são os inúmeros trabalhos que têm sido foco desse tema: Gerber (2013), Sautchuk (2007), Fassarella (2008), Cardoso (2008) mostram que a inserção das mulheres no trabalho profissional da pesca tem sido visto como um elemento novo, resultante de dificuldades econômicas e das “novas práticas culturais e identitárias aos estilos de consumo globalizado” (VON BORSTEL, 2008). Mesmo constatando a polivalência feminina no desenvolvimento de suas funções, as mulheres pescadoras nem sempre são reconhecidas como verdadeiras profissionais, mas apenas como auxiliares de pescadores homens, ajudantes para complementar a renda familiar – essa renda também seria, por definição, secundária, complementar, instável e, portanto, insuficiente tanto para sustentar um projeto de autonomia pessoal quanto a sobrevivência e o bem-estar da família (ABRAMO, 2010). 100 Assim como no rio Uruguai, na pesca marítima, também tem sido frequentes os exemplos da participação produtiva feminina através da pesca, como traz a reportagem do Hora de Santa Catarina/ClicRBS do dia 14 de maio de 2011, nominada “Mulheres comandam a pesca de tainha na praia de fora em Palhoça/SC”. Retrata a lida da pescadora e de suas quatro filhas durante a temporada da pesca de tainha, denominando-a como ‘Mariado-Peixe’, e relata como a pesca é a atividade de geração de renda familiar e serve para unir a família ainda mais (HORA DE SANTA CATARINA, 2011). Os pescadores não utilizam nenhum método de manejo na pescaria, e alguns depoimentos revelam que muitos pescadores mantêm uma prática não recomendável. Entrevistadora: antes de fechar a barragem, na pesca de vocês, vocês tinham algum tipo de manejo na pescar pra não exaurir todo o estoque da pesca? Entrevistado: aqui não teve isso. Pescava todo tipo de peixe em todas as épocas, menos na piracema. Nós respeitava a piracema os quatro meses, mas o resto todo o tipo de peixe. Com todos os materiais e todas as épocas. A preocupação de alguns pescadores em respeitar a piracema pode ser vista neste caso como uma relação simbiótica com o peixe, pelo fato de o pescador exercer a atividade da pesca dentro dos limites mínimos. 101 CAPÍTULO IV SABERES, PERCEPÇÕES E O BOM PESCADOR 4.1 Na trilha das etnociências Vocês já viram falar do cipó Imbê? Ele descasca, não vá lá na lua Nova pensar que você vai descascar ele, você não descasca ele! Tem que ser na cheia, ou um dia depois da cheia, aí você descasca ele, é que ele assim e puxa, "Prrrrrrrrrr". (PP01T1 – pescador do rio Uruguai). Para fisgar não pode ser na lua cheia, o peixe enxerga mais que nós! (PP02T1 – pescadora do rio Uruguai). As etnociências dedicam-se aos estudos dos conhecimentos, das percepções, dos sistemas de classificação, das explicações a respeito do mundo natural, sobrenatural e social, bem como das práticas sociais do uso e do manejo dos recursos desenvolvidos por culturas como comunidades indígenas ou comunidades locais, como caboclos, caiçaras, quilombolas, povos insulares, entre outros. Nos principais ramos que constituem a etnociência, encontrase a etnoecologia, que aborda os estudos sobre a percepção do homem em relação ao meio ambiente. As etnociências estão presentes em todas as disciplinas e se subdividem em vários campos como etnografia, etnobiologia, etnopedagogia, etnobiologia. De acordo com Martin (2001), o prefixo “etno” é uma maneira mais simples de explicar a forma como os outros vêem o mundo (MARTIN, 2001 apud ROCHA-COELHO, 2009); tal colocação sugere que a ideia de que o conhecimento científico é a forma única e precisa de conhecimento é equivocada e ao mesmo tempo dá voz e valoriza aqueles que detêm ou desenvolvem esse tipo de saber. Os estudos desenvolvidos em cada área de desdobramentos dessa ciência são na verdade um grande desafio para os pesquisadores que se debruçam sobre essa nova metodologia de investigação, uma vez que buscam compreender e relatar de uma maneira diferenciada o perceber e interpretar o mundo. Não se trata apenas de um estudo 102 comparativo entre culturas, mas de uma nova filosofia que vislumbra a aproximação e a compreensão de diversas culturas por meio de uma abordagem interdisciplinar. Assim, a etnociência é uma das abordagens que mais tem contribuído para os estudos das populações tradicionais (DIEGUES, 2000b). Essa interação entre os seres vivos e o meio ambiente mistura-se à paisagem caracterizando um complexo de práticas e saberes locais que suportam modos de vida favorecedores da manutenção de atividades extrativistas como caça, pesca, cultivo de pequenas áreas ou mesmo produção de artefatos com matéria-prima fornecida pelas florestas. Os estudos etnocientíficos reforçam a ideia de que o manejo adequado dos ecossistemas também significa uma relação de conhecimento e ação entre tais populações e seu ambiente (DIEGUES, 2000). A etnoecologia, por exemplo, é a ciência que visa compreender o ser humano e como ele percebe seu entorno sob o olhar da ecologia. A etnoecologia tem sido um campo dos estudos científicos que discutem de forma interdisciplinar entre várias disciplinas como a antropologia, a ecologia e a biologia, contribuindo para uma maior sensibilização ambiental e questionando as fronteiras estabelecidas por muitas disciplinas e saberes. Marques (2001) apresenta a etnoecologia abrangente, que define a etnoecologia como um campo de pesquisa que estuda os mitos e crenças, sentimentos e comportamentos que intermedeiam as interações entre as populações humanas possuidoras deles e os demais elementos dos ecossistemas que os incluem, bem como os impactos daí decorrentes. A etnobiologia, por sua vez, traz como objetivo analisar a classificação das comunidades humanas sobre a natureza, em particular sobre os organismos (BEGOSSI, 1993). Investiga “o papel da natureza no sistema de crenças e de adaptação” dos seres humanos a determinados ambientes, busca entender como o mundo é percebido, conhecido e classificado por diversas culturas humanas. Assim, disciplinas como botânica, ecologia e zoologia são fundamentais para o suporte de outras abordagens diferentes da êmica (ibidem). Sendo assim, os saberes etnobiológico e etnoecológico são preciosidades que permanecem no anonimato e por isso passam despercebidas pelas políticas públicas de desenvolvimento. Segundo Hanazaki (2008.p.1): 103 Os estudos de ecologia humana, baseados em teorias e princípios da ecologia, enfocam temas como estratégias de forrageio, discussões sobre otimização, amplitude de nicho, diversidade de recursos, territorialidade, dinâmica demográfica, estabilidade e resiliência. A utilização dos recursos naturais por pescadores artesanais é fundamentada nas concepções e crenças adquiridas através de observações, realizadas a partir do contato diário daqueles com o ambiente (DÂMASO, 2006). Nesse contexto, ecossistemas naturais são fontes tradicionais de alimentos para comunidades de camponeses e pescadores. Essas comunidades desenvolvem uma relação cultural com esses ecossistemas (DIEGUES, 1988) e tornam-se importantes agentes na conservação e manutenção de biodiversidade. Através de seus diferentes costumes e modos de vida associados aos seus espaços, constituem um mosaico característico de cada região, envolvendo uma bagagem de conhecimentos sobre seu entorno. Trabalhos realizados especificamente com comunidades tradicionais podem ser citados, como os de Moura e Marques (2007), que descreveram o conhecimento ecológico de uma população tradicional na Chapada Diamantina e apontam como resultado que as populações tradicionais daquele local apresentam um vasto conhecimento a respeito das espécies e dos ecossistemas estudados. Em sentido similar, Clauzet, Ramires e Barrella (2005) estudaram o conhecimento ecológico de uma população de pescadores no litoral sul e norte do Estado de São Paulo e mostram que o conhecimento dos pescadores sobre os recursos naturais é detalhado e compatível com a literatura científica. A importância dos saberes tradicionais no desenvolvimento sustentável é amplamente discutida na Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, efetivando-se como ponto-chave no envolvimento efetivo da comunidade no desenvolvimento de projetos, nas fases de concepção, elaboração e execução (PHILIPI et al., 2000). Os povos indígenas e suas comunidades e outras comunidades locais desempenham um papel vital na gestão e desenvolvimento do ambiente devido aos seus conhecimentos e práticas tradicionais. Os Estados deverão reconhecer e apoiar devidamente a sua identidade, cultura e interesses e tornar possível a sua participação efetiva na concretização de um desenvolvimento sustentável. (BRASIL / RIO 92). 104 No entanto, esse tema também tem sido amplamente discutido em vários momentos na comunidade científica em decorrência do Projeto de Lei n. 7.735/2014, que tramita na Câmara Federal sob regime de urgência, encaminhado pelo Poder Executivo ao Congresso21. Esse PL trata do acesso e uso dos conhecimentos tradicionais e recursos genéticos. Segundo os povos e comunidades tradicionais denunciam quanto aos poderes Legislativo e Executivo, não houve participação no processo de construção desse Projeto de Lei ou qualquer tipo de discussão ou consulta aos povos indígenas, comunidades tradicionais e camponesas. Tal procedimento caracteriza violação de direitos das populações tradicionais. Cabe aqui esclarecer que no Brasil o acesso aos recursos genéticos e aos conhecimentos tradicionais a eles associados é regulamentado pela Medida Provisória 2.186-16/01, que regulamenta a criação do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN), responsável pela análise e emissão de licenças para acesso e coleta de todo o patrimônio natural e seus conhecimentos associados (GODINHO; MOTA, 2014). Como forma de manifestação e denúncia, 54 organizações assinaram uma carta intitulada “De onde brotam os espinhos” como forma de repúdio ao Projeto de Lei (CPT, 2014). Na carta, entre várias denúncias, as entidades evidenciam o descaso e a invisibilidade dos povos tradicionais nos processos de conservação da biodiversidade brasileira, denunciam a omissão das comunidades acadêmicas nas discussões dos direitos dos povos tradicionais, afirmando que estas somente praticam “assédio” com a intenção de obter o conhecimento com interesses voltados para o desenvolvimento tecnológico e industrial, interessadas no desenvolvimento tecnológico a qualquer preço e em altos rendimentos sem ao menos retornar às comunidades com os resultados das pesquisas realizadas (CPT, 2014). Enfatizam, ainda, que o PL tal como foi apresentado É o reconhecimento da falência do Estado Brasileiro no combate à biopirataria e na garantia de direitos coletivos, que subserviente a sistemas corporativos industriais e financeiros, desconsidera o papel de povos e comunidades tradicionais, únicos 21 Para conhecer o andamento de toda a história, acesse AZEVEDO, C. M. A. Biota Neotropica, v. 5, n. 1. Disponível em: <http://www.biotaneotropica.org.br>. 105 agentes que efetivamente desenvolvem estratégias para o uso sustentável e a conservação da diversidade biológica brasileira.22 A participação da população local em decisões quanto ao meio ambiente, contando com seus conhecimentos locais, também consta na Declaração do Rio sobre Meio Ambiente: As questões ambientais são melhor tratadas com a participação de todos os cidadãos interessados, ao nível apropriado. Ao nível nacional, cada pessoa deverá ter acesso adequado às informações relativas ao ambiente detidas pelas autoridades, incluindo informações sobre materiais e atividades perigosas nas suas comunidades, e a oportunidade de participar em processos de tomada de decisão. Os Estados deverão facilitar e incentivar a sensibilização e participação do público, disponibilizando amplamente as informações. O acesso efetivo aos processos judiciais e administrativos, incluindo os de recuperação e de reparação, deverá ser garantido. (BRASIL / RIO 92). Nesse contexto, o exercício diário na lida da pesca, o contato direto com o peixe e com o rio fornecem aos pescadores o conhecimento em relação aos ecossistemas dos quais dependem para sobreviver. Interpretar esses conhecimentos através da etnoecologia exige uma sensibilidade para entender certos preceitos desses pescadores que aprenderam a “ler” tais ecossistemas longe das literaturas acadêmicas que versam sobre ecologia, ictiofauna ou mesmo sobre as questões do ambiente que determinam as condições da atividade da pesca. Durante minhas visitas em campo pude perceber que os pescadores possuem um conhecimento peculiar em relação à ictiofauna e, além de conhecimentos etnoictiológicos23, possuem conhecimentos etnobotânicos, pois utilizam da vegetação como isca para a pesca e como material alternativo de apetrechos de pesca – assim revelam conhecimentos etnobotânicos no e para o desenvolvimento da atividade. Esses saberes aparecem nos depoimentos, por exemplo, sobre o cipó imbê (Philodendroncorcovadense), ao qual o entrevistado PP01T1 se refere (figura 19), vastamente utilizado na pesca, na produção das ‘esperas’; ele lembra que esse mesmo material era utilizado em outras atividades, como na lida dos tropeiros, para manter o gado preso, evitando assim a dispersão da manada, e 22 Carta original disponível em: <http://www.axa.org.br/2014/11/comunidades-manifestam-repudio-a-pl-sobreuso-de-conhecimentos-tradicionais-e-recursos-geneticos/>. 23 Termo utilizado pela primeira vez por Anderson Jr., em 1967, em tese defendida na Universidade da Califórnia, que tratou da classificação de peixes por pescadores artesanais de Hong Kong. No Brasil, as primeiras publicações científicas sobre a etnoictiologia são atribuídas a Alpina Begossi e Júlio Cesar Garavello, por volta de 1990 (COSTA-NETO et al., 2002). 106 também como instrumento importante para os balseiros nas amarrações das toras na fabricação das balsas no transporte da madeira para Argentina. Tais lembranças se apresentam como peças componentes do cenário da história do lugar e de suas próprias vidas: Vocês já viram falar do cipó? Esse ali nós descascava ele e trançava e usava para fazer as esperas pra pescar antigamente, se vocês não conhecem eu levo vocês para conhecer, eu sei aonde que tem ainda, na margem do Rio aí para baixo. E ele descasca, não vá lá na lua Nova pensar que você vai descascar ele, você não descasca ele, tem que ser na cheia, ou um dia depois da cheia, aí você descasca ele, é que ele assim e puxa, "Prrrrrrrrrr" ele solta casquinha todo ele, e na Nova (lua) não descasca 2 m, ela ficar grudada na, como é que vão explicar, ela fica apegada, grudada ela não descansa. Eu ainda sei onde tem esse cipó guaimê. Então isso daí nós fazia, mas tem que pegar aquele que sai da bananeira em cima e que desce reto para baixo, ele fica bonito, e se tu vira casca para o lado avesso, ela fica mais marronzinha, fica uma corda pra espera para pescar mais bonitas, só que hoje em dia os pescador não faz mais isso porque antigamente, comprar a linha, uma que não tinham, e a gente tem era carente dos "pila", dinheiro tinha para compra banha para temperar o feijão, ali essas coisas. Então a gente fazia essas cordas para pescar. (PP01T1). Figura 19 – Cipó imbê, utilizado pelos pescadores do rio Uruguai para produção de instrumentos para a pesca Fonte: Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. A etnobotânica, ou seja, o uso de plantas por comunidades ribeirinhas é tema de estudos em muitas regiões brasileiras, porém estes ainda são escassos; segundo Begossi (2004), nos estudos de plantas conhecidas e utilizadas por pescadores, pode-se encontrar um grupo de espécies vegetais diretamente associadas à atividade pesqueira. Essa interação 107 entre pescadores e a vegetação mostra um conhecimento importante sobre recursos vegetais, que podem ser útil na prática da atividade e na diminuição do esforço da captura do peixe. Entre estas plantas destacam-se mais as que são usadas na cultura material, ou seja, na confecção de artefatos usados na pesca, porém, o conhecimento etnobotânico dos pescadores também pode refletir seu conhecimento sobre processos do ecossistema, tais como relações tróficas através da utilização de determinadas espécies vegetais como iscas para a pesca. (Op. cit., p. 45). Nesse contexto, a criatividade aliada ao conhecimento etnobotânico na produção de instrumentos de pesca, ou outras atividades, demonstra a habilidade do pescador em driblar a dificuldade de obter materiais mais resistentes e também fazer uso de materiais com ampla disponibilidade no meio ambiente; como Ingold (2002) sugestiona, tornar-se parte e ativo no campo de envolvimento do mundo, onde a lógica da inversão24 dá espaço para a expressão dos modelos culturais ou esquemas cognitivos internos em forma de ações externas. Assim, o autor argumenta, nossos conhecimentos consistem em habilidades, tornando-nos centro de percepção e agência num campo de práticas em que cada geração passa esses conhecimentos através de uma educação da atenção (INGOLD, 2010). A habilidade, afirma Ingold, é a base de todo o conhecimento e se configura na solução prática para a resolução de uma dificuldade através do processo de aprendizado dirigido (p. 7). Já no conhecimento ictiológico os depoimentos demonstram que os pescadores acumulam conhecimentos sobre o comportamento dos peixes, possibilitando a estes profissionais a capacidade de identificar as diferentes espécies através de características dos peixes, como sons emitidos, tipos de saltos que o peixe faz na água e como o peixe se comporta na rede no ato da pescaria. Se pular é dourado, se ele saltar e bater na água é dourado, o surubim, pintado não pula. [...] se está na rede, ele vem por baixo ou por cima, você não identifica, mas na linha a piracanjuba canta linha, ela briga bastante pra tirar da água. O único que você consegue identificar bem é o dourado. [...] O dourado pelo pulo eu sei se ele está preso ou não, porque a caída dele é diferente quando ele está preso. Quando ele está livre é mais solto e quando ele está preso ele cai de lado. O surubim ronca bastante, quando ele está pego. (PP14T1). 24 Através da inversão, os seres originalmente abertos para o mundo se fecham em si mesmos, fechados por uma fronteira ou casca externa que protege a sua constituição interna do tráfego de interações com o ambiente que os cerca. Repensando o animado, reanimando o pensamento. (Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 7, n. 2, p. 10-25, jul./dez. 2013. Disponível em: <http://www.seer.ufrgs.br>.) 108 O conhecimento começa no olhar, na atenção em tudo que existe em volta, na observação. Neste ponto, a experiência vivida pelos mais velhos e repassada para os mais jovens é valorizada entre os pescadores que relembram dos ensinamentos. Através do conhecimento adquirido com a observação ao longo do tempo, os pescadores descrevem o comportamento de 12 espécies de peixes em 5 categorias etológicas25, conforme quadro 5, apresentado a seguir. Segundo as representações dos pescadores, cada tipo de peixe tem seu comportamento, que pode ser reconhecido quando o pescador está atento à pescaria e presta atenção no comportamento da água. Uma das categorias etológicas descritas pelos pescadores é o comportamento de caça; nesta categoria, o peixe que eles reconhecem como o mais ativo e que “anda mais” é o dourado, que dizem não ter “paradas”, além de ocupar todos os espaços do rio, ele também é o peixe “melhor de ser pescado” por apresentar um comportamento de briga, de luta. O surubim é o peixe que sai quatro vezes por dia pra caçar. Dizem que durante o dia não se pega surubim, somente à noite, quando ele sai pra caçar. Esse peixe tem uma característica diferente em relação aos outros peixes, segundo o pescador PP16T1: a presença de uma nadadeira em baixo das guelras. O bocudo, para os pescadores, é um bom peixe para ser pescado, pois não estraga as redes, não briga pra sair da água e jamais vive no barro de fundo de rio, pode até morar em paus ocos que existem no rio e sai de noite pra caçar em água rasa, é peixe que mora em cavernas. A traíra está presente no rio Uruguai novamente, depois de muito tempo sem ser vista; segundo os pescadores, reapareceu depois das inundações do rio Uruguai ocorridas no mês de julho de 2014. Durante seu depoimento, o pescador PP01T1 apresenta sua opinião sobre a qualidade do pescado do rio Uruguai, diz que o peixe daqui alcança o mais alto posto dentre os pescados do Brasil. Segundo ele, a água desse rio possui grande quantidade de fontes de 25 Etologia é a ciência que estuda o comportamento dos animais humanos e não humanos. Os estudos sobre o comportamento animal proporcionam a compreensão dos problemas através da percepção que possibilita a compreensão da nossa própria humanidade (FREITAS e NISHIDA, 2007). Cientistas como Niko Tinbergen, Konrad Lorenz e Karl von Frisch tiveram um papel destacado no estudo moderno da etologia no século XX. In: DEL-CLARO, Kleber. Comportamento Animal - Uma introdução à ecologia comportamental. Jundiaí/SP. Conceito, 2004). 109 água mineral no seu leito, e isto, segundo o pescador, é a qualidade da água que faz com que a carne do peixe caracterize-o como o melhor peixe do Brasil: Eu já pesquei no Mato Grosso, já pesquei em muitos lugares, mas nunca encontrei e comi um peixe tão gostoso como esse do Rio Uruguai, eu acredito que é por causa de tanta pedra e tanta água mineral que tem no leito desse rio, porque tem tanta água mineral no leito desse rio que ninguém sabe. Eu te conto quatro ou cinco fontes de água mineral dentro dele até na taipa da Foz lá em cima (PP12T1). Outra categoria etológica descrita pelos pescadores, conforme quadro 5, que segue, é a presença ou ausência do ferrão, que tem função de defesa para o peixe – existem diferenças entre o pintado amarelo, que tem ferrão, e o pintado branco, que não tem ferrão. Há costumes de forrageamento noturno, e dependem da época. Quanto à desova, a maioria dos peixes possui o mesmo hábito: realiza-a nas encostas do rio – mas a quantidade de ovos de cada espécie é diferenciada. O dourado desova na corredeira porque os ovos precisam ser “tombados” para não “gorá”; se eles assentarem no fundo do rio, não vingam. O cascudo não tem problema em desovar na água parada, mas o dourado precisa do movimento da água para nascer. Segundo o pescador acima citado, 90% dos peixes desovam entre as 9h e as 10h da noite. As comparações feitas entre os peixes são acompanhadas por expressões como "é da mesma família", "é parente do". Além disso, percebe-se que as observações particulares de cada pescador sobre aspectos etológicos26 dos peixes facilitam a captura do peixe, por conhecerem os seus hábitos, cor, preferência de habitat, entre outras características. De acordo com Mourão e Nordi (2002), existe uma riqueza enorme de informações na classificação etnobiológica, assim como existe na taxonomia científica sobre a biologia, ecologia e etologia; assim, a morfologia (cor, ausência ou presença de escamas, formato do corpo, anatomia externa) é um dos critérios fundamentais utilizados por pescadores artesanais para a classificação dos peixes. Mourão e Nordi (2001) citam Marques (1991) para sinalizar que existe uma analogia entre as comparações realizadas entre o sistema de táxons da área da biologia e a classificação folk (p. 664). 26 Ciência que estuda o comportamento animal. 110 Quadro 5 – Fenômenos etológicos dos peixes capturados, segundo a percepção dos pescadores do rio Uruguai Fenômenos etológicos Comportamento de fuga Comportamento de defesa Comportamento de Caça Comportamento reprodutivo Micro-habitat / Abrigo Etnocategoria Peixe que pula Espécies Dourado Estraga a rede de pesca Traíra Peixe que tem ferrão Pintado amarelo / Cascudo / Bagre Peixe que briga na rede/anzol Dourado / Pintado Peixe de água andando – correnteza Dourado / Cascudo Peixe que explora todo o rio Piava / Dourado Peixe que anda de noite / caça Pati / Bocudo /Bagre / Dourado Desova em ninhos Surubim Desova em água parada Cascudo Desova em barranco do rio Surubim / Dourado / Grumatão / Pintado Peixe de caverna Bocudo / Bagre Peixe que vive no fundo do rio Surubim / Pintado (branco e amarelo) / Cascudo Peixe que vive em galhos/paulera Dourado Peixe que vive nas pedras Cascudo / Traíra Fonte: elaborado pela autora. Segundo Diegues e Viana (2004), as populações tradicionais, além de viverem ligadas à biodiversidade, possuem uma caracterização e classificação próprias das espécies e não existe uma denominação dessa biodiversidade como um recurso natural e sim como seres vivos disponíveis para o uso e com um valor simbólico cosmológico. Assim também os pescadores do rio Uruguai definem os recursos naturais: 111 Entrevistadora: como você definiria recursos naturais com suas palavras? Nesse cenário aqui que esta hoje o rio Uruguai? Entrevistada: é tudo o que é da natureza já está ali pronta, e hoje já está tudo modificada, transformada, então os recursos naturais e enquanto o homem não põe a mão e o homem não modifica o que já esta lá, já nasce à obra de Deus assim onde as pessoas retiram seu sustento sem modificar nada. E esses mudanças de hoje foram feitas pelo homem e pela barragem, claro que antes da barragem já tinha, mas com a barragem foi pior. Durante o processo do enchimento do lago, muitas árvores não foram retiradas ao longo do rio nem nas propriedades que foram indenizadas, provocando indignação perante os atingidos (figura 20). Na ocasião da formação do lago, as explicações que os pescadores alegam ter recebido são de que, quanto à madeira deixada, “era bom pro peixe”. O pescador, por sua vez, sabe que os impactos provocados pela construção desses lagos são irreversíveis (SWITKES, 2010; FUNAI, 2013) e demonstram esclarecimento sobre o assunto. O entendimento dos pescadores é de que essas “madeiramas” ou “pauleras” sujam a água, acumulando sujeira nas redes que espantam os peixes; os peixes não gostam de água “suja”, desta forma, há um acúmulo de trabalho ao pescador, pois as redes precisam estar sempre limpas para dificultar ao peixe que enxergue a rede – segundo o entrevistado PP01T1, os peixes ‘sabem’ que a rede está ali. Figura 20 – Árvores submersas em uma das áreas atingidas na formação do lago da FCE Fonte: Lindacir Zornitta, 2014. 112 Essa visão do pescador sobre o peixe saber ou não se a rede está armada no rio demonstra um conhecimento ecológico e um engajamento do pescador com o peixe. A construção desse saber ecológico do pescador foi possível diante da experiência cotidiana na prática da atividade, ele foi entendendo a dinâmica do peixe no rio, que o peixe “percebe” a rede. Diante dessa observação do pescador, fica claro que existe um esforço para compreender o comportamento do peixe sob as mais diversas condições do rio. Segundo o pescador, “Isto não aconteceria se o rio estivesse normal, se não tivesse sido mudada, a natureza não faria isso.” É comum em empreendimentos hidroenergéticos deixarem árvores submersas durante o alagamento das áreas atingidas, pelo que parece, esta problemática te originado um negócio altamente rentável em vários pontos do Brasil onde se localizam obras principalmente de usinas hidrelétricas. Exemplo disso é a Usina Hidrelétrica de Balbina, que até hoje, depois de 24 anos de atuação, reflete um dos maiores crimes ambientais da história. A Usina Hidrelétrica de Balbina inundou uma área de 2.360 km de mata nativa para gerar apenas 250 megawatts (MW) de energia e desaparecerá depois da usina de Belo Monte ter sido concluída. Mas o que quero argumentar aqui é que toda a madeira submersa por essa usina é vista hoje como um “cemitério” de árvores que pode se tornar um negócio rentável, pois, segundo a Eletronorte, há a intenção de contratação de empresas interessadas no assunto de retirada dessa madeira, que ainda se encontra em ótimos estado de conservação (CERPCH, 2013). As expressões “rio normal” e “rio livre” aparecem com frequência nos depoimentos, evidenciando a insatisfação dos pescadores em relação à drástica mudança provocada pela influência das atividades humanas, e também que o rio em sua condição natural não apresentaria as características atuais, porque, para os ribeirinhos, o natural seria um rio com correnteza, com corredeiras, com água limpa e sempre renovada pelas chuvas e pela própria fluidez da água, o que denota o valor que a água possui para comunidades como expressão de um modo de vida, assim como expressa modos diferenciados de perceber a questão do homem em relação ao meio ambiente (DIEGUES, 2001, p. 41). Antes de existir a barragem se não chovia o rio ficava naquele nível da água, não enchia e não abaixava, já na barragem de Itá iniciou as mudanças. O nível da água 113 quando eles faziam energia já dificultava. Já interferia e bastante e agora com essa daqui acabou de vez. (PP01T1). Durante as entrevistas, ouvi constantemente os pescadores mencionarem as condições do rio de antigamente – a paisagem, a qualidade da água, a vegetação ciliar do rio, as árvores do entorno do rio –, demonstrando que as mudanças que ocorreram em função da instalação da Foz do Chapecó afetaram consideravelmente a vida e o cotidiano dessas famílias, não só no que diz respeito à pesca, mas também na questão de sua referência pessoal, pois tudo mudou – o ambiente, a cidade, as pessoas, o rio, o modo de vida. As pessoas perderam a referência quanto ao lugar, porque agora tudo o que resta são memórias. Para alguns pescadores, a lembrança de um rio “limpo” era sinônimo de saúde; era possível utilizar a água do rio para suprir as necessidades pessoais sem preocupação: A água do rio naquela época era cristal, cristalina. A senhora encostava o peito na pedra do rio Uruguai e matava a sede sem medo de nada. Não atacava o fígado e nada, porque a primeira coisa que ataca quando a água está impura é o fígado e dava amarelão. A água do rio era cristalina naquela época, nós usava pra tudo, pra beber, cozinhar, lavar. (PP01T1). Porque aquela vez tu bebia a água do rio. Nós não tinha poço nem nada a gente usava a água do rio. Hoje não, hoje tu não pode experimentar de tomar água do rio porque te faz mal. (EP14T1). O ato de “encostar o peito na pedra” do leito do rio para o pescador é uma ação simples, sem nenhum propósito maior que não seja a necessidade de matar a sede, porém, submerge o sujeito à essência de “habitar” combinando o ato ao sentimento de pertencimento ao local. Trata-se, portanto, de perceber e envolver-se com seu ambiente a tal ponto de entrelaçar-se a ele como parte de um modo de vida (INGOLD, 2011, p. 137). O sentimento é um modo de engajamento perceptual ativo, um modo de estar, literalmente, "em contato" com o mundo (INGOLD, 2000). Assim, meu ambiente é o mundo como ele existe e assume um significado em relação a mim. A partir dessa perspectiva, a noção de ambiente como um continente habitado por energias dá lugar à noção de engajamento dinâmico e recíproco entre todos os organismos que habitam o mesmo ambiente-mundo, unindo corpo e ambiente num único objeto. Corpo e ambiente mente e mundo, são compreendidos pela fenomenologia no horizonte da prática, onde o sujeito, ao agir, se projeta em direção ao mundo e aos 114 objetos. Do mesmo modo, ao projetar-se no mundo o sujeito também é constituído pelos objetos, criando, assim, um círculo virtuoso onde sujeito e objeto se constituem mutuamente em uma prática ao mesmo tempo criativa e estruturada. (CARVALHO; STEIL, 2012, p. 113). Assim, os todos os organismos vivos são constituídos por materiais energéticos que, por sua vez, não são contidos através da massa corpórea; o corpo passa a ser um instrumento utilizado para realizar as tarefas. A vida é algo maior do que uma energia contida em corpos materiais que, através do contato com outros corpos, atravessa a matéria, dissolvendo as fronteiras estabelecidas pela superfície de seus corpos e de suas mentes (STEIL; CARVALHO, 2011). Há a necessidade de observar como percebemos os ambientes em que estamos inseridos, pois o ambiente nos fornece argumentos que permeiam as fronteiras entre biologia e cultura, e que são interessantes para a compreensão da nossa própria existência na qualidade de seres humanos. Ingold (2000) sugere que a tendência é pensar nos seres humanos divididos em duas partes: uma parte orgânica, entendida como natural e biológica, e outra parte social e cultural. As capacidades de pensar e agir surgem como resultados do desenvolvimento formado através dos relacionamentos com o mundo e com outras pessoas e atribuem o engajamento dos agentes humanos e não humanos no mundo ao primado do conhecimento. Ora, o conhecimento consiste, em primeiro lugar, em habilidades, que são adquiridas na prática, e não em informações que são passadas de geração a geração. Por habilidades eu não quero dizer técnicas do corpo, mas as capacidades de ação e de percepção de todo o ser orgânico (mente e corpo indissoluvelmente), situado em um ambiente ricamente estruturado. Como propriedades de organismos humanos, competências são, portanto, tanto biológica como cultural. Em segundo lugar, e decorrente do anterior, tornando-se especialista na prática de uma determinada forma de vida não é uma questão de fornecer um conjunto de capacidades generalizadas, dadas desde o início como compartimentos de uma natureza humana universal, com conteúdo cultural específico. Skills não são transmitidas de geração em geração, mas estão regrown em cada um, incorporado ao modus operandi do organismo humano em desenvolvimento através da formação e experiência na execução de tarefas específicas. (INGOLD, 2000, p. 05). [...] Isto me leva a concluir que, no crescimento do conhecimento humano, a contribuição que cada geração dá à seguinte não é um suprimento acumulado de representações, mas uma educação da atenção. (INGOLD, 2010, p. 6). Os pressupostos básicos da teorização contemporânea aceitos hoje são de que os seres humanos são mecanismos para processar as informações adquiridas através do 115 conhecimento. Ingold (2009) acredita que “todo ser humano é um centro de percepções e agência em um campo de prática”, ou seja, vai além das “capacidades inatas e competências adquiridas, através de um enfoque sobre as propriedades emergentes de sistemas dinâmicos”. Assim, todos os indivíduos são capazes de “aprender a aprender”, isto é, são capazes de encontrar respostas para todas as situações utilizando seus conhecimentos de experiências anteriores (p. 7). Os pescadores atestam que a pesca é uma atividade em que, além de depender de conhecimentos dos hábitos dos peixes, precisa-se saber entender o rio, saber o que o peixe está falando e também ter sorte; mas o fundamental durante a pesca é o respeito pelas águas do rio, porque, por mais que se conheça o rio, sempre existe o perigo, e o rio é soberano: A água por mais calma que seja cuidado! Porque ela não vai ter um galho pra se agarrar. A água e nossa madrinha, mas ela não quer que abuse, tem que ter respeito por ela. Eu tenho muito respeito pela água porque ela é a dona desse trecho. (PP01T1). Para os pescadores, assim como o respeito ao rio, os fatores climáticos são de suma importância para o desenvolvimento da pesca, tornando-se agentes a serem observados e ligados diretamente à segurança do pescador quando está pescando. Ele está sempre à espera do ‘bom tempo’ para pescar, dos ventos, da lua, da chuva. O etnoconhecimento dos pescadores do rio Uruguai estende-se a respeito da distribuição dos recursos naturais que compõem o seu espaço, permitindo uma compreensão mais detalhada da relação do pescador com seu meio. Percebi que os pescadores acumulam grande conhecimento sobre o clima, comportamento hidrológico do rio, forrageamento, ecologia trófica e nível trófico, morfologia da ictiofauna local e principalmente a respeito das mudanças ambientais por atividades antrópicas. O bom pescador reconhece quando o rio pode dar uma boa pescaria e também o local onde pode capturar determinada espécie – todos esses saberes, baseados apenas na experiência da lida diária. Entrevistado: Isso depende onde tu arma as redes. Tem um negócio de lua, isso existe muito isso daí também. Você tem que saber o lugar mais certo e procurar uma “água boa” pra você pescar e ter material bom né? Entrevistadora: o que é “água boa” pra você? Entrevistado: é uma água que não seja como está hoje, uma água meio turva, meio de chuva, assim sabe, essa é a água que o peixe gosta. Entrevistadora: que tipo de peixe que gosta de água assim? 116 Entrevistado: todo tipo de peixe, dourado, piracanjuba, tainha... Todo peixe vem Entrevistadora: porque que você acha que o peixe gosta dessa água assim? Entrevistado: porque é uma água nova que veio nova que entrou pra dentro do rio, e eles tão ali e a água tá andando. A personificação dos elementos naturais incorpora-se à atividade do pescador, assim o vento pode ser bom ou ruim, depende do lado de que vem. O vento não é bom ou ruim no sentido de influenciar o peixe, mas no sentido de possibilitar a permanência do pescador no rio, pois isso interferiria na segurança do pescador. A água pode ser boa ou ruim, depende da cor, se tem movimento ou não, se o local é de “funduras” ou “à flor d´água/ baixios”. Uma série de variáveis pode significar a fartura na pesca, assim como a falta do peixe. A observação constante das condições climáticas pode significar a segurança e também uma boa pescaria. O olhar fixo no céu, a formação das nuvens, “pra onde elas correm” e a sua coloração podem sim “minguar” a pesca. Assim como a observação da lua: A lua interfere, conforme a temperatura dos bichos. Um dia antes da lua cheia diminui bastante. O problema é a lua cheia. Diminui um “eito” um dia antes e um dia depois. O vento atrapalha bastante pra armar o material, mas pro peixe não tem diferença, mas ele fica andando, só se encher o rio, dai o bicho anda mesmo, ele vem mesmo, com bastante água, mas o vento não. A vegetação também. (PP14T1). Entrevistadora: E a lua, vento? Influenciam? Entrevistado: A lua influencia. A crescente é muito boa pra pegar no anzol, acho que é porque está mais com fome. Mas a lua crescente – perto da cheia- é boa pra dourado. A lua minguante já começa a ficar boa pra pescar no baixio porque a lua começa ficar escura e daí no baixio se é lua clara o peixe enxerga melhor, daí não dá boa pescaria, e quando tá escuro o peixe não enxerga direito. E fisgar não vá com lua clara porque não fisga um peixe, porque ele foge da luz e vai na nova que é escura daí você encontra o peixe e ele para na luz e fica bom pra fisgar, na lua clara ele enxerga, tu bate o celibrin no peixe ele foge porque ele tem muita claridade e no escuro fica muita luz direta nele e ele para. E em noite que tá relampeando nem adianta armar rede que não pega um peixe, acho que ele tem medo. (PP01T1). A influência da lua na pescaria é atribuída pela luminosidade das fases lunares, que possibilitam avistar o peixe no rio. Através das representações de Ingold (2000), essas relações dos seres humanos com os outros componentes do ambiente ocorrem por conta de uma ecologia sensível, que capta exatamente o tipo de conhecimento que as pessoas têm dos ambientes à sua volta, baseado no sentimento que consiste nas habilidades, sensibilidades e orientações que se desenvolvem através da longa experiência de conduzir a própria vida em um ambiente em particular. Essa sensibilidade e capacidade de resposta a respeito do ambiente, diz Ingold, também são consequência da intuição. 117 Na tradição do pensamento ocidental e da ciência, a intuição tem tido uma impressão muito ruim: Comparada com os produtos do intelecto racional, ela é amplamente considerada um conhecimento de ordem inferior, apesar de ser um conhecimento que todos nós temos. De fato, nós a usamos todas às vezes durante nossas tarefas diárias. Além do mais, ela constitui uma base necessária para qualquer sistema de ciência e ética. Simplesmente para existir como seres cientes, as pessoas já devem estar situados em um determinado ambiente e comprometidos com os relacionamentos que isso implica. Esses relacionamentos e as sensibilidades construídas durante seus desdobramentos alteram as nossas capacidades de julgamento e habilidades de discriminação, e cientistas – que são humanos também – dependem dessas capacidades e habilidades, tanto quanto todos nós. (Op. cit., p. 25). Um segundo olhar sobre a questão do envolvimento do indivíduo com seu meio vem de Nalini (2010), que pensa que a ecologia é uma “ciência solidária”, pois, além de ser uma área que abrange múltiplos conhecimentos, não é abstraída do sentimento de vínculo entre todos que se interessam pela manutenção da vida e nem mesmo pode se dar ao luxo de dispensar os conhecimentos acumulados através da prática dos organismos envolvidos (p. 4). O saber sobre lugares mais promissores para a captura dos peixes é também uma das habilidades dos pescadores entrevistados: O grumatão se encontra em qualquer local do rio, o dourado no anzol ele pega na corredeira, o cascudo na corredeira, rio baixo e água limpa porque na água suja não pega, porque na água suja ele fica em baixo das pedras e não sai pra comer e tem que ser corredeira porque na água parada não pega. Só que na corredeira é proibido pra nós. (PP01T1). Segundo Allut (2000), a distribuição dos recursos não é fruto do destino e produto da casualidade, mas está associada a agentes como o tipo de substrato do fundo, a temperatura, a profundidade. Esse conhecimento, por sua vez, não foi passado em centros acadêmicos para esses pescadores, mas é fruto de observação e experiências durante sua vida profissional, confirmando e endossando as palavras de Ingold (2009): “são capazes de encontrar respostas para todas as situações utilizando seus conhecimentos de experiências anteriores” (p. 7). Esse tipo de conhecimento permite que os pescadores relacionem uma espécie a outra, por exemplo, havia presença, nos tempos do rio normal, da lacraia, utilizada como isca viva, era muito comum nas praias do rio Uruguai – hoje não são mais encontradas pelas condições atuais do rio: 118 Porque tinha uma época que nós sempre pegava, de agosto e setembro era uma época que sempre tinha fartura de pintado né, porque tinha uma isca da própria natureza, a tal da lacraia, já ouviram falar? Que a gente catava ela nas praias em baixo das pedras e dai fazia isca dela, da própria natureza e isso dava fartura de pintado pegava lá dez a vinte quilo por noite. Hoje aquela isca desapareceu por causa do próprio impacto ambiental que cobriu tudo as pedras, as lajes, as praias naturais, ela é de corredeira né? (PP11T4). Aqui podem ser associados os “tempos bons e os tempos ruins” à fartura da pesca. Esses elementos agrupados – as pedras, o fundo do rio, o solo das margens, a oferta de alimentos, as espécies de peixes encontrados em cada local –, que caracterizam o lugar que se conhece tão bem, constituem os nichos ecológicos que são explorados pelos pescadores. Para Allut (2000), localizar espacialmente e temporalmente esses locais de pesca é um exercício complexo de acumulação de dados adquiridos com o tempo, assim como a observação leva ao conhecimento sobre a potencialidade do rio como um todo (p. 112). A pesca, nesse contexto, torna-se uma arte, pois depende de conhecimentos integrados a todos os elementos que constituem o ambiente, agregados aos conhecimentos produzidos pelo ser humanos sobre o vento, a lua, as nuvens. Diante do exposto, penso que é importante refletir sobre a importância desses saberes tradicionais. Muitas obras pesquisadas trazem a discussão baseada nos comparativos entre o saber científico e o saber tradicional no intuito de provocar uma reflexão sobre se esses saberes são, de algum modo, semelhantes (CUNHA, 2009). Ora, chegamos, na maioria das vezes, sempre ao mesmo resultado: ambos são formas de entender o mundo e de agir no mundo, cada qual com sua metodologia, ambas ainda inacabadas (p. 302). A ciência e o progresso técnico surgem como a razão e a causa do êxito de nossa cultura, são publicamente admitidos e gozam de estatuto privilegiado, aceitos como ciência exclusiva com capacidade de organizar o mundo experimental com maior nível de segurança (ALLUT, 2000, p. 114); enquanto o saber tradicional é um conjunto de valores que se deve preservar, um acervo fechado transmitido pelos antepassados, ao qual não se deve acrescentar nada (CUNHA, 2009) – o saber fazer não é baseado nas tradições acadêmicas, portanto, pouco confiável. Para se chegar a um equilíbrio, ambas as tradições intelectuais deveriam ser avaliadas pelos seus pressupostos e valorizadas como tal. As raízes das forças que agem naturalmente sobre as sociedades científicas precisam entender que um saber que orienta tantos pesquisadores de várias áreas em pesquisas extremamente importantes têm seu valor e são dignas de reconhecimento. 119 4.2 A percepção ambiental dos pescadores “A natureza uniu todas as partes do seu Império por meio de fios sutis de simpatia magnética, e há uma relação mútua até mesmo entre uma estrela e um homem.” (Mestre Tibetano, texto de 1882). “Os homens deste lugar são mais relativos a águas do que a terras.” (Manoel de Barros, 1985). Os discursos ligados à questão ambiental que circulam atualmente nos acessam de diversas maneiras: nas revistas e nos jornais que lemos diariamente, nos programas de televisão que assistimos na internet, a que temos acesso cada dia mais, nos locais de trabalho, nas conversas cotidianas. Enfim, as preocupações com os riscos de uma deterioração acelerada do planeta, entre outras questões ambientais, tornaram-se tão populares que estão à disposição da massa populacional, saindo das rodas de cientistas e estudantes ou até mesmo de especuladores. A questão está posta para a sociedade; precisamos tomar alguma atitude quanto aos descuidos pessoais em relação ao planeta. A veiculação constante de notícias sobre o aquecimento global nos mais diversos meios de comunicação nos alerta para os riscos eminentes à sobrevivência da espécie humana, trata das necessidades de mudança dos modelos econômicos e industriais vigentes. Diante dessa tempestade de informações e discursos ambientalistas, somos carregados quase que por instinto a nos tornarmos mais “ecológicos” através de nossas ações. É praticamente impossível que ao menos uma das recomendações vistas através da mídia não seja incorporada ao estilo de vida das pessoas, pode ser em maior ou menor grau, mas fatalmente seremos atingidos, talvez pela questão de ética, talvez pela “consciência”, mas apreenderemos algumas coisas simples: desligar a luz ao sair, fechas a torneira enquanto escova os dentes, preferir produtos orgânicos, separar o lixo, e assim por diante. Desta forma, a mídia passa a influenciar nosso estilo de vida, nossas ações, por menores que elas possam ser, e estimula a nossa percepção sobre os acontecimentos em nossa volta. O ser humano procura interpretar e compreender os significados do mundo através de sua capacidade de percepção, observação e pensamento, investigando e procurando respostas para suas dúvidas no intuito de ultrapassar os obstáculos encontrados 120 em seu cotidiano e conhecer melhor a realidade. Ingold (2000, p.9) nos lembra que as formas de atuação do ser humano no seu meio ambiente também são formas de percebê-lo. Desta forma, à medida que julga estar compreendendo a si mesmo e a realidade que o cerca, o sujeito está realizando o processo de conhecimento (PFEA, 2012). A reflexão e a busca pela compreensão da concepção “ser humano” estão presentes nas mais variadas culturas. Desde o século XVIII, estudiosos defendiam a ideia da história humana como a elevação do homem do estado primitivo para a ciência moderna e a civilização. Para esses pensadores, os seres humanos diferem de outras criaturas no que diz respeito à sua forma anatômica, no entanto, foram distinguidos em espécie do resto do reino animal, à medida que tinham sido dotados de mente – através das capacidades da razão, da imaginação e da linguagem, poderiam se submeter a seu próprio desenvolvimento histórico no âmbito de uma forma corpórea constante (INGOLD, 1994, p. 58). As discussões sobre o tema permanecem quanto ao desenvolvimento do pensamento, os modos de identificação e relação entre humanos e não humanos, as supostas distinções entre social e biológico, buscando discutir seu papel na natureza e sociedade. Segundo Boff, A humanidade abriu muitos caminhos na decifração da essência do ser humano [...]. Expressou-se pelos grandes monumentos, por miniaturas de marfim e por uma gama imensa de músicas folclórica. Utilizou a palavra através de mitos, fábulas poemas e narrativas. Usou do pensamento através da filosofia e das cosmovisões. As religiões através de mitos da criação, do fim do mundo e da plasmação do ser humano, ofereceram as decifrações mais ousadas da natureza humana [...]. Todas elas implicitamente encerram uma antropologia, quer dizer, uma determinada compreensão do ser humano, homem, mulher. (2011.p. 36). A reflexão do homem sobre o homem e sua sociedade e a elaboração de um saber são, portanto, tão antigos quanto a humanidade (LAPLANTINE, 2003). A articulação entre as áreas da antropologia física, biológica e sociocultural e a filosofia tiveram seu papel na formação da identidade humana, porém não se pode negar que o grupo formado pelas mitologias e as religiões colaborou e muito para elucidar a essência humana, projetando-se através das simbologias, visões e reflexões e usando de uma linguagem acessível a todas as idades e a todos os tempos. 121 Neste sentido, a vida do ser humano é coexistente a tudo o que o cerca. Dependemos diretamente das complexas relações que mantemos com o meio e, por meio dessa interdependência, tudo o que nos cerca é parte insubstituível para nossa sobrevivência, assim como é parte importante na construção de crenças e valores. A ideia de separação entre ser humano e ambiente é enganosa, e isso torna-se evidente quando observamos as consequências resultantes das agressões aos ecossistemas que nos afetam diretamente (FRACCARO; SILVA; MOLINA, 2010). Assim, o estudo da percepção ambiental serve de base para a melhor compreensão das inter-relações entre o homem e o ambiente, suas expectativas, satisfações e insatisfações, julgamentos e condutas (ZAMPIERON et al., 2003). Neste contexto, o convívio com os pescadores em alguns momentos de suas atividades permitiu a observação de muitas informações que me levaram à reflexão sobre as forma segundo as quais as pessoas interagem com os recursos do seu lugar na obtenção de seu meio de vida; preocupei-me, pois, em apresentar a percepção e a interação dos agentes da pesquisa com seu espaço, seu papel nessa malha à qual ele pertence, o vínculo que ele possui com tudo o que o envolve, sua família, seu barco, suas crenças, sua rede, enfim, tudo o que possa fazer parte de sua rotina e de sua vida, e que estivesse ao alcance de nossa vista durante as entrevistas. Como observa Ingold (2012), o lugar dos seres humanos no mundo é o de um ser imerso no fluxo da vida e dependente dos processos e movimentos dos materiais que constituem nossos corpos e nossas mentes, com o quais traçamos as linhas de nossa história (2000 apud CARVALHO; STEIL, 2012). Procurando olhar dessa perspectiva, pude observar um pouco mais dos pormenores dos agentes entrevistados e procurei encontrar a essência desses agentes e de seus costumes. Na perspectiva de compreender como os agentes da pesquisa organizam e interpretam os recursos de seu ambiente, e ao mesmo tempo entender o envolvimento destes com o processo de constituição de lugar, é necessário definir alguns conceitos que possam servir como eixo teórico para o entendimento sobre o contexto local. A noção de espaço tem sido objeto de reflexões filosóficas desde a Antiguidade (CUNHA, 2008). O termo “lugar” geralmente é adotado para nos referirmos a uma construção histórica e criada culturalmente quando nos apropriamos de um determinado 122 espaço. O lugar envolve um universo de significações e concepções, sejam elas imaginárias ou não, que revelam as características dos grupos humanos que o habitam. Segundo Tuan (1983, p. 151), “[...] o espaço se transforma em lugar à medida que adquire definições e significados”. Esses significados são valores agregados ao espaço, assim nós mesmos o definimos como o “lugar”. No lugar, adquirimos a liberdade da habitação, e assim o espaço seria representado pela liberdade; portanto, segundo o autor, um está interligado ao outro. A definição de Tuan (1983) de “lugar” é entendida pelo viés da biologia, como o habitat de um organismo. Portanto, podemos entender que espaço, lugar e paisagem estão integrados com desenvolvimento/ocupação, identidade/vivência e interatividade (PFEA, 2012). É nesses lugares/espaços onde se concretizam nossas relações que compreendemos, a partir de nossas experiências, de nossas histórias e modos de vidas e do histórico do lugar onde habitamos, os vínculos que nos unem e os significados das singularidades e problemas compartilhados. Desta forma, o espaço constitui-se em um sítio simbólico de pertencimento que “pode ser entendido como um marcador imaginário de espaço vivido” (DORIGON; RENK, 2012). Essa percepção pode nos motivar ao envolvimento com a constituição e o futuro do lugar vivenciado cotidianamente. As vivências culturais adquiridas nesses lugares são experiências indissociáveis e indispensáveis na construção do agente, da coletividade e do ambiente. Assim, todo lugar é resultado de uma ação coletiva, de maneira que todos os problemas ambientais neles existentes são problemas de natureza política (PFEA, 2012). Os sentimentos geralmente não aparecem nos estudos sobre a ecologia, provavelmente em função do paradigma cartesiano vigente, no qual corpo e alma, homem e natureza se separam (MARTINS, 2008). Porém, na coleta de dados, quando estamos em contato direto com nosso entrevistado, podemos perceber que a separação do comportamento da emoção é praticamente impossível, pois toda ação está sendo acompanhada pelo sentimento, pelas afeições ao lugar e ao trabalho desenvolvido, seja ele qual for. No instante em que o agente se percebe como parte ativa na paisagem percebida, a avaliação se torna possível das suas ações nesse sistema; deste modo, como separar as emoções das ações? Como intervir num processo de atitudes diretamente interligadas aos sentimentos? Digo isto porque quando o pescador captura um peixe seu semblante se modifica, seu sorriso é envolvente e cativante – fica explícita a satisfação de desenvolver a 123 atividade. Chamou-me muito a atenção uma leitura que estava fazendo a respeito de um estudo sobre as emoções em animais primatas, em que Durham (2003.p.88) afirma: “As emoções constituem uma base inicial de compreensão entre portadores de culturas diversas. Não podemos subestimar as emoções. O que seria a vida humana sem alegrias e tristezas, raiva, amor e ódio?” Isso explica o enorme envolvimento dos pescadores com o rio e com o seu lugar. Durante a entrevista, essa conexão dos agentes com o lugar em que habitam, ou habitavam, pôde ser constatada através de um sentimento que permanece em suas vidas: a saudade, dos tempos em que tudo parecia ser mais fácil, mais abundante e ao mesmo tempo mais simples. As falas revelam um compartilhamento e interação representados através de uma imagem projetada na memória e que faz parte dos agentes que guardam para si momentos verdadeiros de engajamento com o seu lugar. Assim, a memória torna-se um componente fundamental da reconstrução do passado interagindo com o presente (SOARES, 2006), sendo que este se apresenta muito diferente agora, depois do alagamento, pois, a vida ficou mais difícil. A roça já não é mais a mesma, a pesca diminuiu, e muito, o rio não é mais o mesmo e os vizinhos também não. É preciso, no entanto, atentar para a racionalização que fazemos das coisas que percebemos, estamos envolvidos no mundo e captamos suas particularidades através dos sentidos, atravessados pela cultura e pela memória das vivências que tivemos no ambiente (PFEA, 2012). Neste sentido, é preciso que toda mudança realizada nos ambientes seja realizada respeitando a cultura e a memória das comunidades afetadas. Sem respeitar essas particularidades, as significações dos lugares, seus valores históricos e culturais serão perdidos para sempre, pois são justamente essas peculiaridades são capazes de nos fazer sentir pertencentes ao lugar e concretizar nossa relação afetiva com o ambiente. As diversas mudanças, tanto na paisagem, na cultura, quanto nos relacionamentos sociais, exigem das pessoas um exercício de recordar do seu lugar, e esse exercício possibilita que o sujeito reconheça sua atuação como agente construtor de seus valores, de suas culturas e de sua própria realidade. No caso específico desta pesquisa, o exercício também possibilita ao agente uma visualização da realidade atual do território ocupado, que pode estar à beira de uma ruptura cultural dentro desse grupo de pescadores. 124 As formas de compreender e conceber a realidade podem ter diversas origens – filosófica, mítica, científica, religiosa, senso comum. Uma influência muito forte sobre o conceito de percepção vem da fenomenologia, que é definida por Husserl (2002) como ciência dos fenômenos, sendo o fenômeno compreendido como aquilo que é imediatamente dado em si mesmo à consciência do homem. A fenomenologia assume, principalmente, o papel de um método ou modo de ver a essência do mundo e de tudo quanto nele existe. A fenomenologia, afirma Triviños, É o estudo das essências, e todos os problemas, segundo ela, tornam a definir essências: a essência da percepção, a essência da consciência, por exemplo. Mas também a fenomenologia é uma filosofia que substitui as essências na existência e não pensa que se possa compreender o homem de outra forma senão a partir de sua “facticidade”. (1992, p. 43). Para Merleau-Ponty (1999), a fenomenologia excede a questão do método, ela transpassa o contexto do material para encontrar a essência do contato com o mundo através da energia emanada. A fenomenologia é o estudo das essências, e todos os problemas, segundo ela, resumem-se em definir essências: a essência da percepção, a essência da consciência, por exemplo. Mas a fenomenologia é também uma filosofia que repõe as essências na existência, e não pensa que se possa compreender o homem e o mundo de outra maneira senão a partir de sua "facticidade". É uma filosofia transcendental que coloca em suspenso, para compreendê-las, as afirmações da atitude natural, mas é também uma filosofia para a qual o mundo já está sempre "ali", antes da reflexão, como uma presença inalienável, e cujo esforço todo consiste em reencontrar este contato ingênuo com o mundo, para dar-lhe enfim um estatuto filosófico. (MERLEAU-PONTY, 1999.p.2). É preciso buscar e preservar a essência das coisas; somente através da essência é possível aceitar as diversas visões da percepção. Quando se fala do rio com os agentes desta pesquisa, sabemos que o rio é o mesmo para todos, porém, de acordo com a perspectiva do olhar, tem-se diferentes percepções e significados para o mesmo rio, com essências diferentes. Ao contextualizar o tema através de outros autores, Cortez (2011) afirma que a relação do homem com a natureza se difere no espaço e no tempo. Portanto, cada ser humano tem percepções diferentes, de acordo com sua cultura. Certos fatores como personalidade, cultura, condições socioculturais podem influenciar as percepções de acordo com a visão de cada agente (VARGAS et al., 2006), assim como a experiência no lugar, que é composta de emoções e memórias, possibilita que o agente construa sua realidade a partir do lugar (TUAN, 1983). 125 Na história da evolução humana, vários fenômenos culminaram para que o homem pudesse reverter a situação a seu favor e assim passar de presa para predador e competidor (TUAN, 1983, p. 3). Essa adaptação das culturas humanas aos seus ambientes é originada das mudanças culturais. Segundo Viertler (1988), “[...] adaptar-se significou, em muitos casos, sobreviver por meio de numerosas concessões, por vezes com altos custos físicos e morais [...]”. Podemos entender que a percepção auxiliou na adaptação do homem aos diferentes estados culturais pelos quais a espécie atravessou. “A adaptação é o resultado do processo de interação que se estabelece entre os organismos vivos e os ecossistemas por eles habitados” (BATALHA, 2004, p. 93). De acordo com a abordagem da biologia, esse processo de adaptação ao ambiente exige um equilíbrio entre as necessidades e o tamanho da população do grupo com a capacidade de suporte de um ambiente. Em termos de energética no nível de ecossistema, a capacidade de suporte é atingida quando toda a energia disponível que entra é necessária para sustentar todas as estruturas e funções básicas do grupo (ODUM; BARRET, 2007, p. 130). Estamos falando aqui de um processo em que população e ecossistema influenciam-se mutuamente, formando um ciclo. Para Batalha (2004), a cultura é um instrumento utilizado pelo ser humano para a adaptação em seus ambientes: A história da adaptação humana começa com os caçadores-coletores do Paleolítico e vem até às modernas sociedades urbanas industriais e pós-industriais. Grandes mudanças na adaptação cultural humana ocorreram há cerca de 50 mil anos, como o desenvolvimento de um sistema neurocerebral mais complexo e com maior capacidade de processamento de informação. (p. 93). Ainda segundo o autor, o ser humano passou por muitas adaptações genéticas e morfológicas fundamentais para a sobrevivência e para o sucesso reprodutivo da espécie, que agora dependem somente da adaptação cultural para sobreviver. De acordo com a Teoria de Gaia,27 os organismos individuais, além se adaptarem ao ambiente físico, também adaptam o ambiente geoquímico às suas necessidades biológicas devido à sua ação 27 A hipótese de Gaia considera que os organismos evoluíram com o ambiente físico para proporcionar um sistema de controle intrincado e autorregulatório que mantém as condições favoráveis para a vida na terra (LOVELOCK, 1979). 126 combinada nos ecossistemas (ODUM; BARRET, 2007, p. 42). Como organismos, relacionamo-nos espontaneamente com tudo o que existe no mundo, somos diretamente dependentes das coisas do mundo e ao mesmo tempo interagimos e modificamos a paisagem de acordo com nossas necessidades – assim, percebemos o mundo e nos relacionamos com ele a ponto de não existirem limites e fronteiras. Para Ingold (2011), a questão da evolução humana é discutida do ponto de vista de que, em cada etapa da evolução humana, cada homem possuía suas capacidades e habilidades, porém, cada época apresentou descobertas diferentes – a complexidade das invenções e descobertas ocorreu de acordo com o desenvolvimento de suas habilidades (skill). Para o autor, se tivéssemos a oportunidade de conviver com toda a linhagem da evolução humana nos dias de hoje, todos eles conseguiriam desempenhar as mesmas tarefas que qualquer um de nós, Homo sapiens, pois eles possuíam o mesmo potencial de criatividade, que, contudo, permaneceu irrealizado durante sua existência. Ingold cita Howell (1967) nas descrições dos antecedentes Cro-Magnon: “inteiramente como nós”, as diferenças se baseiam apenas na interpretação – eles eram biologicamente iguais a nós, porém, culturalmente diferentes. Ainda acompanhando as argumentações de Ingold (2011.p.388), “O que os separa de nós não é um processo de evolução biológica, mas de evolução cultural.” Modificamos nossos costumes em função de nossas invenções. Sendo assim, há a necessidade de habilidade para desempenhar algumas funções. Para Ingold, algumas habilidades que desempenhamos hoje, como a de pedalar e andar, nada mais são senão uma habilidade de movimentos que desenvolvemos diante das novas utilidades inventadas e descobertas pelo homem. “Tanto andar como pedalar são competências” desenvolvidas no envolvimento com o ambiente e, portanto, são propriedades do sistema de desenvolvimento constituído pelas relações do sujeito com o ambiente. Ainda segundo o autor, as habilidades que desenvolvemos deixam marcas indeléveis em nosso corpo mecânico, inclusive no cérebro, ou seja, as capacidades e habilidades de desenvolver certas tarefas como ler, escrever, andar e pedalar não estão ligadas à evolução biológica, mas sim são resultados do desenvolvimento cultural ocorrido através dos tempos (INGOLD, 2000), e isto não estava ligado de maneira nenhuma à questão do genoma humano, apenas à interação do sujeito com 127 o ambiente. Deste modo, “as habilidades ou aptidões para a ação, como caminhar, falar, ouvir e tocar emergem dentro do processo de desenvolvimento do organismo/pessoa, processo que tem, como pré-condição a imersão individual, no momento exato do nascimento” (SILVA, 2001.p.8). Porém, esse ambiente é modificado constantemente com os agentes através do tempo, não somente por eles, mas por todos os organismos com os quais eles se relacionam. Essas ações podem repercutir não somente de forma direta, ou seja, em tempo presente, com sua presença no ambiente, mas de forma indireta, quando suas ações permanecem agindo no ambiente, para a história. Sobre a história, Ingold (2002) discorre que a história humana é uma parte de um processo que acontece em todo o mundo orgânico; propõe “que concebamos a história como um processo no qual os seres humanos não são tanto transformadores do mundo, mas, principalmente, atores desempenhando um papel na transformação do mundo por ele mesmo” (p. 20). Todos os seres que habitam o mundo compartilham os traços da paisagem que foram agrupados, construídos ao longo do tempo por todos os habitantes. Essas linhas culturais não são um privilégio apenas “do ser humano, mas de todos os seres que habitam o mundo” (INGOLD, 2011.p.240). Precisamos lembrar que somos compostos de energia que flui e se entrelaça como uma malha interconectada sem limites de invólucros. Para entender a questão da temporalidade da paisagem através de uma perspectiva de habitação, Ingold (2000) utiliza o conceito de taskscape, que indica o conjunto de ações e tarefas realizadas ao longo do tempo, não apenas as atividades realizadas na paisagem, mas, sobretudo, a interação com a paisagem. A temporalidade intrínseca do taskscape encontra-se em suas inter-relações rítmicas ou padrões de ressonância. À primeira vista a oposição entre paisagem e taskscape parece espelhar que, no campo da arte, entre a pintura e a música. No entanto, considerando como taskscape refere à paisagem, a distinção entre eles é finalmente dissolvido, e a própria paisagem é mostrada ser fundamentalmente temporal. (p. 154). Nossas ações não transformam o mundo, mas são partes e parcelas da própria transformação do mundo (INGOLD, 2000). Perceber o mundo, então, é de fato estar atento a 128 todas as nuances do ambiente e interagir com ele de forma integral, com todos os nossos sentidos e assim nos apropriando e transformando o e com o mundo. Na paisagem, cada componente é essencial para a leitura que fazemos do meio, pois através da interação que se realiza com todos os sujeitos é que se efetiva a percepção. O homem habita o mundo através da ação e pela percepção, todas suas ações ficam registradas através do tempo pelas modificações que se faz na paisagem, que, por sua vez, concede ao homem subsídios para que ele imprima em seu horizonte sua passagem pela terra. Desta forma, as interações entre seres humanos e o seu espaço devem ser analisadas cada qual com suas características culturais, pois são diferentes em cada cultura. O termo “percepção” é encontrado no dicionário de língua portuguesa com o significado de “Ato ou efeito de perceber, ação, efeito ou faculdade de perceber, cuja palavra deriva do latim perception.” Segundo Marins, Não é difícil identificar uma amplitude considerável de possíveis significados a partir dessas definições, que vão desde a recepção de estímulos até a intuição, a ideia e a imagem, que são categorias perfeitamente distintas no discurso filosófico. Essa complexidade do termo reflete uma nebulosidade também no entendimento do fenômeno, responsável por uma insistência permanente na busca por elucidações em toda a história do pensamento humano, cuja expressão primeira é a existência de distintas teorias, como os idealismos, os empirismos, o realismo e o materialismo. (2003, p. 206). Sob a ótica da filosofia empirista28, a percepção é definida como a associação de todos os sentidos captados e interiorizados através da repetição. Nossos conhecimentos começam com a experiência dos sentidos, isto é, com as sensações. Os objetos exteriores excitam nossos órgãos dos sentidos e vemos cores, sentimos sabores e odores, ouvimos sons, sentimos a diferença entre o áspero e o liso, o quente e o frio. As sensações se reúnem e formam uma percepção; ou seja, percebemos uma única coisa ou um único objeto que nos chegou por meio de várias e diferentes sensações. Assim, vejo uma cor vermelha e uma forma arredondada, 28 Doutrina filosófica que afirma ser o conhecimento resultado da experiência, restringindo-se ao que pode ser apreendido através dos sentidos ou da introspecção, opondo-se ao racionalismo e à metafísica. Comportamento da pessoa que se pauta em conhecimentos de ordem prática. Procedimento médico que se baseia na experiência sem a utilização de metodologia científica. Na Idade Média, por exemplo, filósofos importantes como Roger Bacon e Guilherme de Ockham eram empiristas; em nossos dias, Bertrand Russell foi um empirista (CHUAI, 2000). 129 aspiro um perfume adocicado, sinto a maciez e digo: “Percebo uma rosa”. A “rosa” é o resultado da reunião de várias sensações diferentes num único objeto de percepção. As percepções, por sua vez, se combinam ou se associam. A associação pode dar-se por três motivos: por semelhança, por proximidade ou contiguidade espacial e por sucessão temporal. A causa da associação das percepções é a repetição. Ou seja, de tanto algumas sensações se repetirem por semelhança, ou de tanto se repetirem no mesmo espaço ou próximas umas das outras, ou, enfim, de tanto se repetirem sucessivamente no tempo, criamos o hábito de associá-las. Essas associações são as ideias. (CHUAI, 2000, p. 88). Sendo assim, podemos entender que a percepção está ligada ao sistema cognitivo, e tudo o que nossos sentidos possa detectar é codificado pelo sistema sensorial, essas informações passam a ser apreendidas. De acordo com Santaella (1993), “[...] perceber é estar diante de algo que se apresenta, não somente vendo, mas utilizando outros sentidos sensoriais e aguçando o sistema cognitivo.” Para Fraccaro, Silva e Molina (2010), quando entendemos que a percepção é um complexo de duas dimensões – como percepção e como cognição –, já estaremos percebendo “o mundo pelo simples ato de receber estímulos, mas que formulamos ideias sobre aquilo que percebemos” (p. 2). Portanto, a forma de se relacionar com o mundo é determinada pelas percepções de acordo como o pensamento e as decisões tomadas por cada um. Independentemente do ambiente, cada qual desenvolve seus conceitos e percebe diferentemente seus ambientes. Para Ingold (2011), a percepção é uma metodologia resultante da união entre a fenomenologia e a ecologia. A percepção consiste num engajamento ativo e exploratório de pessoa inteira em um ambiente ricamente estruturado. Habilidades de ação e de percepção emergem dentro de um processo de desenvolvimento de organismo-pessoa. 4.2.1 A percepção do espaço. Quando perguntados sobre as lembranças do rio e do espaço na época em que o rio “corria livre”, quando iniciaram a atividade da pesca, os pescadores trazem depoimentos emocionantes, pelas memórias guardadas dos locais que descrevem. Lembranças da qualidade da água, da cor da água, da vegetação ciliar do rio, das pedras que compunham o leito do rio, das atividades que eram realizadas em família e da utilidade do rio para as atividades corriqueiras familiares, como lavar roupas, nadar, reunir a família em piqueniques em volta do rio, encontrar com vizinhos para lazer comunitário – enfim, o rio era tido como 130 uma forma de integração tanto familiar quanto comunitária, pois pessoas de outras cidades iam até o rio para passar o dia. Isso contrasta com a realidade de hoje; o rio está seco em alguns lugares e com aparência de podre em outros. Os pescadores percebem também uma grande mudança no núcleo familiar depois da instalação da barragem, atribuem a saída dos filhos para o meio urbano como única alternativa para eles agora, que não têm outra possibilidade se permanecerem em casa. As memórias do espaço antes da construção da barragem são comumente reforçadas por descrições poéticas da paisagem, com refinados detalhes, sugerindo a boa qualidade de vida de que os moradores locais desfrutavam. As memórias relatadas apresentam indícios de tempos vividos na infância, enquanto a mãe lavava roupas no rio, os filhos brincavam na água límpida e transparente – era um costume à época. Assim o rio se transformava em local adequado não só para realizar os afazeres domésticos ou para a pesca, mas também era um local que se tornava fonte de água para beber, e até fazer comida. Tais relatos vieram carregados de tantos sentimentos e emoções que possibilitam recriar imagens da paisagem em minha mente com as descrições detalhadas e vivas na memória dos pescadores. Água do rio naquela época era límpida, tinha peixes de todos os tipos, a água era a coisa mais linda, as corredeiras, peixe à vontade, árvores em volta! (PA02T2). Lá em baixo tinha barrancos de 5m de altura, puro mato ate chegar no rio você olhava em baixo e aqueles peixes, aquela traíras, tu pinxava o anzol lá conforme a linha ficava só com a vara. Pra tu pescar 3 ou 4 k de peixe era que nem aqueles programas da tv de pescaria na Amazônia. (PA05T2). Esse rio era maravilhoso! Limpo, cheio de vida! Livre! (EP12T1). Uma “água viva” sempre mexendo, correndo. Hoje é uma água morta, parece uma água morta. Dá ate nojo de comer o peixe daqui. (PP02T1). Para Diegues (2007), entre essas populações tradicionais, a água de rios e córregos é vista como uma dádiva divina, responsável pela abundância de mantimentos; como ela é proveniente da natureza, deve ser de uso comum e coletivo, de uso polivalente, neste caso, para beber, lavar, cozinhar e nadar – no meio urbano, difere-se dos usos destinados para usos industriais, sem aproveitamento e em larga escala (p. 3). Ao passo que para muitos centros urbanos a água dos rios passa por processos de canalização, ou seja, é desterritorializada, pois a população geralmente não possui contato com a fonte provedora da água da torneira, os povos que sobrevivem dele possuem uma dependência para 131 reproduzir seu modo de vida (ibidem). Essa dependência é representada através de histórias contadas e revividas com saudosismo sobre os locais do rio utilizados para a execução de atividades que hoje não são mais permitidas. Há também um reconhecimento de dependência do rio, quando se referem a ele como um “pai”: “Esse rio Uruguai aqui para mim, foi um pai que poucos filhos teve, eu hoje, esse pai para mim morreu. Hoje temo órfão, nesse trajeto aqui temo órfãos, hoje eu perdi esse pai também, que era o rio Uruguai.” (PP01T1). Análogo ao afeto e ao carinho recebidos de um pai real e humano, este também reconhece que o rio na forma de ambiente e não humano pode ser útil e confortador quando mais se precisa dele. Pode prover a comida, o sustento e o equilíbrio financeiro para desfrutar da vida com conforto. É o meio de sustento dos filhos, da família. É um formulário de referência e uma analogia estabelecida entre as relações mais íntimas de parentesco humano e relações íntimas entre parentesco humano e meio ambiente não humano (INGOLD, 2000, p. 43). Semelhantes formas de significação são encontradas em estudos em diferentes regiões do Brasil, como no trabalho de Postigo (2010) sobre práticas, percepções e conceitos interligados ao espaço de moradores das florestas e águas da bacia do rio Bagé, que traz como resultados “que organismo e ambiente não produzem uma dicotomia, mas antes um processo de elaboração histórica recíproca”. As falas trazem também os conhecimentos de senso comum. Esses conhecimentos são construídos a partir de experiências ou vivências que acontecem ao sabor dos eventos de seu cotidiano. Saberes a exemplo deste depoimento: “porque a primeira coisa que ataca quando a água está impura é o fígado e dava amarelão” – logicamente não foi estudado e analisado cientificamente, porém trata de saberes construídos num determinado contexto sociocultural e ecológico. Todavia, a água era bebida normalmente, sem restrições, e esse depoimento aparece em vários momentos com diferentes agentes da pesquisa. Era comum que se utilizasse a água do rio Uruguai para cozinhar, pois não havia indícios de poluição ou degradação ambiental. Percebi que alguns pescadores são preocupados com as condições biológicas do rio quanto à qualidade de água. Apontam como um dos problemas o despejo de resíduos sólidos e lançamento de esgotos in natura diretamente nos cursos d’água e entendem que, se 132 houvesse uma preocupação maior por parte da população para a preservação do rio, a qualidade de vida poderia ser melhor e também as condições da pesca e da convivência com o rio melhorariam. Eles reconhecem que os problemas ambientais do rio são consequência de mau uso dos recursos e que existe a necessidade urgente de políticas sociais e ambientais mais rigorosas para mudar as atitudes em relação ao rio tanto por parte da população quanto dos pescadores – mas infelizmente a comunidade e muitos pescadores não pensam desta forma. Em primeiro lugar eu condeno as barragens, mas num certo sentido. Em segundo as pessoas, porque você veja, aqui dentro da cidade de São Carlos, mais de 50% do esgoto cai dentro do Uruguai, o rio é vitima de quase todas as cidades que tem por perto. Se acham que é mentira peçam pro pessoal do saneamento básico examinar pra ver se eu tô mentindo, peçam pra eles examinarem onde caem as porcarias da população. (PP01T1). No caso dos municípios participantes da pesquisa, temos um cenário incomum: pelo fato de os municípios serem pequenos, o urbano e o rural possuem limites muito próximos, caracterizando um misto muitas vezes indefinido. A água, neste caso, pode ser veículo transmissor de enfermidades (DIEGUES, 2007, p. 4), justificando a preocupação do pescador. O entrevistado referido a seguir, quando se pronuncia quanto às barragens, referese à condição da água após o barramento do rio, que é outro dos problemas enfrentados não só pelos pescadores, mas por toda a comunidade que margeia o rio. Entrevistadora: Mudou alguma coisa depois da barragem? O quê? Entrevistado: em primeiro quando não tinha as barragem ai que nóis trabaiava nóis pegava, dava pra sobrevive ainda de pexe né, mas agora não dá nem pra come, né termino o pexe, termino nossa água né que nóis sempre, i isso ai tá loco. De acordo com Diegues (2007. p.3), “a água doce é necessidade básica de todos os seres humanos, mas a forma com que essa necessidade é atendida depende da cultura” e também o uso da água se diferencia entre as comunidades tradicionais e as sociedades urbano-industriais, pois, além dos usos normais de lavar, beber, esta última emprega o seu uso para industrialização de produtos e bens de consumo em larga escala. Vem daí a diferença de potencialidade de poluição da água. Neste caso, segundo Diegues, é a cultura que define o que é e o que não é poluição. Boff (2011) entende que a civilização está sentindo um mal-estar que surge como o fenômeno do descuido, do descaso e do abandono, ou seja, a falta de cuidado (p. 23). Neste 133 caso, o rio surge como vítima nas falas dos entrevistados, que tentam explicar que percebem que os descuidos da população (no caso, “o outro”) e descasos políticos colocam o seu espaço em perigo; e esse espaço, como afirma Boff (2011), é o planeta que é a minha casa, o meu endereço. Sendo assim, como posso viver bem numa casa mal-arrumada, malcheirosa, poluída e doente? 4.2.2 Percepção das transformações do cotidiano A vida em e na comunidade reflete a relação com o outro, não só com outras pessoas, mas com o meio como um todo, com o vento, as pedras, o centro comunitário, as pessoas amigas que se foram, e assim demonstra que esse modo de viver transmite a cosmologia na qual se sustentam as atitudes mais corriqueiras do dia a dia. Cada comportamento tem uma significação que reflete que a percepção ambiental dessas pessoas está diretamente ligada ao seu engajamento com seu meio. Muitas pessoas moravam na região desde que nasceram, e formaram histórias de vidas, uma identidade local, construíram verdadeiros tesouros a serem contados. Segundo Ingold (2000), precisamos repensar nossa condição de vida; para o autor, deveríamos visualizar o ambiente e os organismos como um todo, como uma totalidade indivisível, não apenas como uma somatória, mas como partes intrínsecas mutuamente. Desta forma, estaríamos de fato engajados e entenderíamos como a energia sinergética do que nos rodeia é parte de nós mesmos (p. 19). Meu pai criou todos nós ali, nove filhos aqui nesta comunidade. Antes nós pertencia a São Félix, mas a escola sempre era dali. Nós sempre tivemos escola ali. E ai depois, a gente que criou a comunidade então, o meu pai, o avô dela, os mais antigos que estavam ali. Daí nós criamos a igreja também, aí nós tínhamos igrejas e escolas, Campo de futebol, tudo dava 500 metros da nossa casa. Uma comunidade que começou com 32 famílias, e aí e ultimamente estávamos só em 18 famílias, por que o pessoal tinha começado ir embora. (PA09T2). Lá nós se criemo e vivemos lá, é uma história né? Era bom lá. Eu tenho saudade até das pedra que nós tinha lá na frente da nossa casa, tinha uma taipinha que e a gente fez em frente de casa, eu tenho saudade daquelas pedras, que a gente plantava umas florzinhas, umas coisas. Eu tenho saudade... (PA03T2). A comunidade, para eles, é muito importante, pois ali, naquele espaço, eles se identificam como agentes participativos e ativos dentro de uma sociedade. Neste caso, a comunidade pode ser entendida como um grupo de pessoas que tinham suas diferenças, com 134 seus significados diferenciados, assim como opiniões a respeito da organização social desse grupo em específico, mas que ao mesmo tempo interagem e compartilham significações e expectativas em relação ao espaço compartilhado. Para Gareschi (1999 apud PFE, 2012), a noção de comunidade pressupõe um envolvimento mútuo entre os membros de um grupo, na qual se identificam laços de amizades e compartilhamento de sentimentos. O conceito de “comunidade” de Ingold, em A evolução da Sociedade (2003), se apresenta similar ao de Gareschi, quando diz que a comunidade representa as qualidades positivas de cordialidade, familiaridade e confiança nos relacionamentos face a face e no entremesclar das pessoas. Porém, Ingold vai além, traz um histórico da evolução de sociedade separada da comunidade em que o surgimento da dita sociedade civil repercutiu com suas práticas para uma dissolução dos conceitos de sociedade e comunidade; a “sociedade foi modelada no mercado e nas relações sociais de transações mercantis” (INGOLD, 2003, p. 6) e lamentavelmente houve uma perda no sentido de comunidade: a confiança, o companheirismo e a familiaridade que eram características peculiares das comunidades deram lugar aos diversos interesses, e opostos aos da sociedade burguesa (ibidem). A saudade de tudo que havia naquele lugar demonstra que a constituição do local não representa somente as pessoas, mas as coisas que havia ali podiam ser encontradas. Ingold (2011), em seu artigo “Trazendo as coisas de volta á vida”, discute a desconstrução do modelo final das “coisas”, define que “[...] o mundo em que habitamos é composto não por objetos, mais por ‘coisas’.” Para argumentar, Ingold (2012) discorre sobre o trabalho do filósofo Martin Heidegger A coisa, que fala sobre a diferença entre coisas e objetos (e o significado), observando seu entorno e descrevendo-o. Ele entende que todas as coisas que existem no mundo podem ser comparadas a uma mobília, inclusive árvores como a mobília do mundo, porém uma mobília que carrega consigo suas affordances29. Assim, a árvore não é um objeto, mas certo agregado de fios vitais. É isso que entendo por coisa. A coisa, por sua vez, é um “acontecer”, um lugar, onde vários aconteceres se entrelaçam, ou melhor, um lugar onde vários aconteceres se entrelaçam, e a observação dessas coisas é um convite para uma reunião com elas, é fazer parte desse acontecer, é permitir que a sua energia se confunda com a das coisas, enfim, perceber, tocar, sentir. 29 Termo que designa a qualidade de um objeto de convidar e permitir que se faça algo com ele. 135 Assim concebida, a coisa tem o caráter não de uma entidade fechada para o exterior, que se situa no e contra o mundo, mas de um nó cujos fios constituintes, longe de estarem nele contidos, deixam rastros e são capturados por outros fios noutros nós. Numa palavra, as coisas vazam, sempre transbordando das superfícies que se formam temporariamente em torno delas. (INGOLD, 2012, p. 29). Então, podemos considerar que os seres vivos (e neste caso falamos de todos os seres vivos humanos e não humanos) são constituídos de energia livre, translúcida, capaz de ser transpassada por outros materiais que os compõem como organismos. Segundo Carvalho e Stheil (2011), em diálogo com Ingold, a experiência da vida não é vivida no interior de um corpo que se relaciona com outros corpos como um objeto entre outros, mas se dá no fluxo dos materiais como a luz, som, vento, líquidos, texturas que os atravessam, diluindo os limites de seus corpos, de suas mentes e de suas superfícies (p. 31). Assim como as pedras de que a minha entrevistada reclama, sua ausência faz parte de sua vida, agora apenas como memórias, tornou-se uma coisa a ser observada e fez parte das trocas de fluxos energéticos com a agente, ela fez parte da “reunião”, permitiu-se transpassar as energias. Colocando de forma relacional aos caçadores-coletores, as pessoas mantêm um relacionamento umas com as outras e também com os outros componentes do seu espaço, sejam coisas ou animais humanos e não humanos do meio ambiente – existe ali uma reciprocidade (INGOLD, 2003, p. 11). Habitar o mundo é juntar-se ao seu processo de formação, e um mundo que se abre aos habitantes é um ambiente sem objetos (estes por sua vez de fecham-se neles mesmos, dando-nos as costas, trancados em suas formas finais). “Ao habitar o mundo, somos envolvidos pelos múltiplos traços históricos e culturais que foram incorporados na paisagem. Estes traços, no entanto, não são uma prerrogativa dos humanos, mas de todos os seres e objetos que habitam o mundo.” (STHEIL; CARVALHO, 2012 apud INGOLD, 2010, p. 17). E se você vender e sair do lugar você tem como voltar lá pra ver de novo. Mas nós não temos mais como fazer isso. Nós não temos mais como voltar lá e mostrar pros filhos, pro netos e dizer aqui eu me criei, aqui eu fui na escola, aqui eu ia na igreja, aqui me batizei, me crismei... Fica só na lembrança. Nós não temos mais como voltar lá... É uma referência. Fica assim uma recordação que vocês não imaginam. E fica gravado dentro da gente. (PA03T2). O deslocamento das pessoas de seus lugares em função de empreendimentos mercantis, sem levar em consideração a história de vida dessa população, a relação com o ambiente em que está inserida, implica um problema grandioso: a perda do conhecimento 136 local dessas populações e, consequentemente, o uso desse conhecimento no ambiente, seja em sistemas de manejo, seja na construção cultural da população (DIEGUES, 2001). Isso demonstra que os prejuízos causados por esses empreendimentos são profundos e muito abrangentes. Segundo Muller (1995), “ainda que a geração hidrelétrica possa ser considerada por alguns como sustentável, as regiões atingidas tiveram no lugar do tão prometido desenvolvimento um retrocesso insustentável” (p. 45). Quando essas pessoas foram tiradas de seu lugar, não houve preocupação por parte do consórcio a respeito de suas histórias, de suas origens. Ninguém perguntou para eles se era de sua vontade sair daquele lugar, nem mesmo qual o significado que o lugar tinha para eles. As referências dessas pessoas foram aniquiladas, extintas, não há mais nada de concreto, que se possa mostrar para os descendentes, sobre o que se possa dizer “olha lá, ali eu cresci”, “naquela árvore eu subia quando criança”, “naquela igreja eu e seu pai nos casamos”. O deslocamento das pessoas das comunidades afetadas pela usina trouxe consequências para as pessoas de ambos os lados, de quem saiu e de quem ficou, pois existia uma forte ligação entre essas pessoas que eram consideradas como se fossem da família, pois a amizade era muito grande. Para algumas pessoas, o impacto social foi tão grande que trouxe problemas de saúde para mulheres principalmente, que caíram em depressão; quando questionadas se elas sabiam o porquê da depressão, muitas dizem que foi por tristeza de perder amigas e vizinhas de muitos anos. Quando perguntei sobre as pessoas que se mudaram: “[...] todo mundo foi embora, ficou só nós e os Rodrigeri aqui.” Seguindo as falas, tive a curiosidade de saber de quantos anos estávamos falando. Eram amizades de quanto tempo? Quase 50 anos. Nós era uma família. Hoje de vez em quando a gente se encontra numa promoção ou coisa assim... O nosso grupinho tá lá... E todo mundo diz: “Ah saudade do nosso cantinho lá embaixo. Ah! Saudade” Porque era um fundinho, bem lá embaixo, mas nós era feliz. Muito feliz. (PA09T2). Percebe-se claramente o sentimento de tristeza por ter que ir para outro lugar para trabalhar. Em certos casos, em que o pescador se vê obrigado a sair de seu lugar, o sentimento é ainda maior, pois existe ali uma afinidade e uma identidade, sua vida inteira foi construída naquele local. 137 Entrevistado: Quase 50 anos. Nós era uma família. Hoje de vez em quando a gente se encontra numa promoção ou coisa assim... O nosso grupinho tá lá... E todo mundo diz: “Ah saudade do nosso cantinho lá embaixo. Ah! Saudade”. - Porque era um fundinho, bem lá embaixo, mas nós era feliz. Muito feliz. Entrevistadora: e isso não foi valorizado? Entrevistado: não, não tem valor pra eles isso. Nosso sentimento não tem valor pra eles. E isso é muito. Muito triste. Eles pra eles o valor deles é retirar de lá e pronto. (PA03T2). Assim como para quem ficou e viu seus amigos irem embora foi difícil, quem foi deslocado também declarou que as mudanças ocorridas no seu cotidiano pela construção da barragem UHE foram enormes, pois a rotina que tinham na localidade em que nasceram e foram criados era fundamental – agora mudou tudo, o modo de vida, seus costumes, seus hábitos mudaram completamente. Precisamos lembrar que a rotina simples de todo dia, porém, de total engajamento com o espaço habitado, quando percebida pelos agentes, ilustra as complexas conexões que percebem e com as quais interagem no seu dia a dia. Antes eu tinha o que fazer, por exemplo, nos dias de chuva eu pega e ia pro meio do mato ver como estava as árvores, a roça, ia pra lá e pra cá. Agora isso acabou eu não tenho mais pra onde ir. É muito triste, este aqui não é o meu lugar. (EA02T2). Tantos anos nesse rio e estragaram nosso rio, acabaram com nosso rio, foi um terremoto gente, o que aconteceu, dá tristeza de ver, da dó de ver, e os peixes que morreram logo após, hoje ainda tu encontra peixe morto, volta e meia vem um morto pequeninho, baixou o rio ficou aquelas poças de água assim, tu ia caminhar e via cheia de lambarizinho, cascudinho, joaninha, jundiazinho naquelas poças, mortos, que a água secou e eles ficaram. (PP14T1). Tudo nesses espaços tinha importância, pois fazia parte da vida e do modo como cresceram – a família, os vizinhos, o modo de vida, os relacionamentos. A unidade familiar e o convívio com os vizinhos são parte importante no modo de vida dessas pessoas. De acordo com Diegues (2007), o território que caracteriza esses grupos é definido através de um aglomerado de símbolos que passam a representar a ocupação durante um longo período de tempo, como cemitérios, associações, roças (p. 2). Nessa região do oeste de Santa Catarina, podemos encontrar muitos locais com essas características, a exemplo dos faxinais existentes em Chapecó. Embora que tá certo, eles pagaram... Mas o valor que eles pagaram não recompensa o que ficou embaixo da água. Porque isso aí, nunca mais a gente vai ver o que foi importante pra nós. (PP06T1). Amizade de muitos, muitos anos. Uma comunidade muito simples. Tudo muito igualitário todo mundo se ajudava, nos trabalhos que precisassem, ultimamente a aí já começou a diminuir porque as famílias já estavam mais pequenas, mas quando as 138 famílias eram maiores, gente se trocava dias de serviços, serviço nas roças, nas casas umas ajudavam às outras. Uma comunidade de muito igualitária, a gente era bem simples, todo mundo era uma comunidade, ninguém te olhava dos pés à cabeça. Era todo mundo igual. Era um olho no olho. Todo mundo sorria. Ho! era uma beleza. A piazada ia para aula com suas roupas simples, porém, bem limpas, não é como agora que vão todos "emperiquitados". Era tudo muito simples, mas muito boa. (PA09T2). Para os ribeirinhos, o território vai além das fronteiras estabelecidas geograficamente, é demarcado pelos símbolos que se estabeleceram através da história escrita no decorrer do tempo. Os rios, neste caso, também formalizam um símbolo a ser impresso em seu modo de viver. As águas do rio tornam-se uma extensão da terra, possibilitando o exercício da atividade de subsistência. No caso aqui estudado, o deslocamento dessas pessoas de seus locais de origem retira parte do passado através da degradação do meio onde viveram, retira a referência, e junto com ela vai a dignidade. A indenização paga, na maioria das vezes, não cobre sequer o custo de outra propriedade para que essas pessoas possam instalar-se e iniciar uma nova vida; então, além de perder sua referência, há também a perda financeira. A igualdade entre as famílias, a disponibilidade de realizar os “puxirões” para que as tarefas fossem realizadas eram uma prática normal em comunidades rurais, estreitavam os vínculos e demonstravam a disponibilidade que existia entre as pessoas que moravam naquelas comunidades. Nós tinha o Clube de mães e clube de idosos também. Foi em 14 de setembro de 1995, que a gente criou o clube de mães e era bem grande. E esses clubes só terminou quando terminou a comunidade. Nós era uma comunidade pequena mas nós tinha tudo, catequese, crisma, primeira eucaristia. Nós tinha tudo. Era uma casinha pequena, mas nós tinha tudo. O Padre vinha rezar a missa. (PA09T2). Em todas as falas, percebi as marcas que a história da vivência naqueles lugares deixou para essas pessoas. As memórias sociais, os elementos da paisagem são marcos da cultura e da sensibilidade dos seus habitantes. É pela história de vida desenhada nos espaços coletivos que cada cidadão descobre os sentidos do seu pertencimento do seu lugar habitado e compreende os interesses que desenham esse lugar tal qual ele poderia ser hoje, permitindo assim a clareza acerca de quem são os atores desse processo de apropriação e os responsáveis pela sua modificação. Cada ser humano precisa sentir que faz parte das coisas do mundo, das histórias construídas, dos momentos vivenciados em coletividade; assim ele constrói novos significados para as suas vivências cotidianas. É nisso que se encontram as 139 afetividades, a relação poética que estabelecemos com o mundo e com os outros. Assim o ser humano poderá vivenciar sua humanidade, através de seus vínculos com o ambiente; é esse vínculo que sensibiliza nossos sentidos, desprende-nos de certos valores e nos dá novos olhos para percebermos nossa relação com o mundo e com os outros. Quando os agentes olham para a paisagem transformada através da criação da usina, enxergam uma história cheia de significados, cheia de nostalgia e de valorização do lugar a que jamais poderão voltar. As suas referências já não existem mais. Novos moradores que porventura possam vir a morar nesse lugar provavelmente verão apenas os contornos de um lago, ou um rio que se foi, mas jamais serão participantes ou conhecerão a história que motivou a mudança da paisagem, tampouco os interesses que motivaram essa mudança. Semelhante estudo sobre as questões de comunidades desfeitas e suas implicações inerentes à implantação de usinas hidrelétricas foi o trabalho antropológico de Georgeana França (2007)30 sobre as usinas de Santa Clara e Fundão, no Vale do Rio Jordão, Paraná. A autora destaca a relação dos agentes locais e “a gente das usinas” ou “barrageiros”, trata das consequências da realocação dos atingidos e das consequências desses assentamentos serem implantados numa distância muito grande da origem das comunidades realocadas. Além disso, a autora traz uma amplitude histórica sobre a apropriação dos espaços geralmente esquecidos nos relatos convencionais. Ainda quanto à questão do espaço, gostaria de voltar a um assunto já mencionado anteriormente, só que por outro ponto de vista: a problemática das árvores que foram submersas pelo consórcio. Retorno a este assunto pois elas, as árvores submersas, são um ponto central para muitos conflitos que surgiram nos depoimentos. Esse fenômeno causou uma revolta em muitos entrevistados pela forma como ocorreu o alagamento da área atingida pelo lago da usina. Os órgãos responsáveis pela supervisão da tarefa como o IBAMA, Policia Ambiental, MAB e colônia de pescadores também são citados e identificados como negligentes nas entrevistas, como parte importante desse processo por 30 FRANÇA, Georgeana B. Barragens e Barrageiros: Um estudo sobre os processos de construção de identidades coletivas em uma área de empreendimentos hidrelétricos. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2007. Disponível em: <http://dspace.c3sl.ufpr.br/dspace/handle/1884/12004>. Acesso em:: 10 jan. 2015. 140 permitirem que a área de mata tenha sido alagada sem antes retirar todas as árvores do local. Para alguns entrevistados, isso é motivo de sofrimento dado o valor sentimental que a mata representa para eles. Durante a visita de campo, pude entender por que é tão difícil esquecer esse assunto. Numa das casas visitadas, a entrevistada olhava sem parar para baixo de onde nós estávamos sentadas, eu avistava a paisagem como mostra a figura 21, porém só fui compreender quando entramos no assunto de preservar a natureza, então a entrevistada esclareceu-me: Olha essa palavra que você tá falando, eu não esqueço meu pai... Porque nós protegemos o rio desde onde que era nosso até lá embaixo; lado a lado a 15 metros a gente tinha arvore, mato, árvore. Porque nós precisava de cabo de enxada, cabeçalho de arado, e meu pai dizia assim: “olhem bem onde vocês vão tirar esses galhos. Tirem só o que vocês precisam, não tirar dois ou três pra depois deixar lá estragado “ e agora a gente vê apodrecendo no meio da água na frente de casa. Uma que está poluindo e outra que nós perdemos, se eles tivessem me liberado pra cortar e vender pra lenha. (PA03T2). Desta forma, no decorrer das entrevistas, pude perceber a frustração dos pescadores pelo ocorrido, destacando-se o profundo apego ao espaço habitado e da mesma forma ao rio, configurando-se a pesca como uma atividade de grande interação entre o homem e a natureza, na qual o conhecimento tradicional é característico desse grupo (SOUZA, 2004). Perceber-se pescador, para eles, é estar diretamente ligado à sua natureza, “vem de dentro”; ser pescador é uma condição de vida. 141 Figura 21 – Vista da varanda da entrevistada – árvores submersas e apodrecendo Fonte: Lindacir Zornitta, 2014. 4.2.3 Percepção da pesca – rio livre e rio seco A atividade da pesca é passada de pai para filho, mas não é regra que os filhos vão seguir a mesma profissão. Os pescadores dizem que os filhos gostam de pescar, muitos afirmam que seus filhos seguiriam a profissão; mas que os próprios pais não permitem que os filhos se aproximem da profissão como atividade principal devido às condições atuais da pesca, não só localmente, mas em âmbito nacional – acompanham a situação em diversos lugares do Brasil. Apenas um pescador afirmou que ele vai cadastrar o filho como pescador para dar continuidade à profissão. O fato de não permitirem que os filhos sigam a profissão de pescadores não significa que perderam o orgulho pela profissão; todos defendem que se sentem orgulhosos do que fazem e que gostariam de continuar pescando profissionalmente. A profissão aprendida com os pais ou com outros mestres do rio é motivo de orgulho, valorizada em cada gesto e em cada dia de trabalho, porém nem sempre isto se aplica aos outros membros da comunidade onde moram. Para muitas pessoas, a atividade é vista como profissão desvalorizada e desprezada, profissão de pessoas que não querem trabalhar. 142 Pode gravar isso daí em que isso aqui é uma verdade, tem uma senhora que um dia falou para minha filha numa casa, não vou citar nomes porque não é preciso, mais se precisar eu cito. Ela disse "Hoje em dia os pescador ganham cesta básica, ganham isso, ganham aquilo, não se acha nenhum empregado, são tudo vagabundo”. Eu gosto da minha filha porque ela é muito realista, daí minha filha disse: "Opa, pare aí, meu pai pescou a vida inteira, criou nós, e educou nós, e nunca foi vagabundo, - daí a mulher quis "desdizer" - a filha disse: você falou!!! - você falou isso aí e agora você quer cair fora - não é que o pescador é vagabundo! Você falou!. Meu pai criou nós assim, e pescou vida inteira e nunca foi vagabundo, ele trabalhou a vida inteira. (PP01T1). A grande maioria aí fala, nós tivemos isso aqui em São Carlos, quando o prefeito chamou a gente de vagabundo. Chamou os pescadores de vagabundos. Se ele tivesse chamado somente a mim de vagabundo não teria me importado, porque tudo bem,... Mas ele chamou todos nós de vagabundos numa audiência pública e eu intimei ele para conhecer, para ser um pouquinho de vagabundo um dia só, o que citei a parte da bíblia quem, conta que, quando Cristo escolheu seus apóstolos, escolheu três dentre os pescadores a ser apóstolos dele e não escolheu nenhum prefeito. (PP09T1). A pesca artesanal define-se, neste conceito, pelas condições em que o trabalho é realizado: pequenas embarcações, produção dos instrumentos de pesca, utilização de mão de obra familiar, utilização de técnicas com rendimentos reduzidos. Os pescadores, “a partir das experiências e das informações acumuladas, desenvolvem um trabalho artesanal” (RENK, 2000, p. 176). Assim entramos no cerne da questão do que Ingold (2002) discute sobre a teoria do valor. Ingold (2000) cita Marx: a concepção humana define a forma, enquanto a natureza fornece a matéria-prima na qual será impressa a forma. Tal teoria traz que “o trabalho aplicado á matéria bruta na transformação ao produto final dela é que concede o valor àquilo que já é dado pela natureza”. Com esse conceito, o autor faz uma analogia entre o trabalho do artesão e a atividade do agricultor, ou com os criadores de gado, pois ambos transformavam a natureza. Ingold (2006) refere que esse conceito já era proposto de forma contrária por outros autores que argumentavam que o artesão transmite seus conceitos através de desenhos racionais sobre a matéria fornecida pela natureza, sem, no entanto, transformá-la, apenas organizando de outra maneira o que já é criado pela natureza. “Ao contrário, seu trabalho era percebido como um simples rearranjo do que a natureza já tinha criado.” (INGOLD, 2006, p. 26). Assim, a percepção é fundamental tanto para o artesão quanto para qualquer outra atividade relacionada com a natureza, com o meio ambiente, pois o trabalhador precisa ser sensível ao que a natureza desperta para ele, realizando assim seu trabalho. Na questão da técnica, Ingold citado por Silva (2006) entende que, embora a tecnologia consista num 143 conhecimento codificado em símbolos, é conhecimento apenas em um determinado aspecto, e que o conhecimento torna-se, através da tecnologia, virtude de uma "orientação prática para o mundo material" que converte simultaneamente objetos neutros em equipamentos úteis. A habilidade técnica tem a capacidade de unir o conhecimento com a prática simultaneamente, o que a tecnologia não faz. Para isso, precisa haver a união do conhecimento com a habilidade (p. 11-16). Voltando ao ponto do conceito formado por algumas pessoas da comunidade quanto aos pescadores, precisamos também levar em consideração o fator histórico do local, as origens da colonização local, o que predomina fortemente sobre muitos aspectos. Como já citado anteriormente, a região oeste de Santa Catarina foi colonizada pelas etnias alemã e italiana, que vieram em busca de terras; a atividade da pesca ficava em segundo plano, como forma de lazer e complemento de sustento, não de trabalho. A pesca era a opção dos índios e caboclos, que foram acuados a habitar a região de dentro das florestas e às margens dos rios. Outro aspecto que chama atenção é o fato de a maioria dos pescadores referir que a pesca era realizada com instrumentos mais rústicos e se utilizavam estratégias criativas de pesca como a ceva; acima de tudo, que é necessário saber produzir seu material porque assim se define um verdadeiro pescador: Ser pescador pra mim é uma pessoa que vai lá e vai lutar pra pegar o peixe, que luta e que sabe fazer o material, e que sabe iscar um anzol e que sabe manusear uma rede, esse pra mim é ser um pescador. Eu jamais deixaria de ser um pescador. Eu jamais deixaria de ser pescador pra ter outra profissão. Porque se eu chego no rio que tem meu material armado, se eu pegar um dourado de 5 ou 6 kg numa espera e tirar ele o dia está realizado pra mim. Aquilo me dá uma adrenalina uma coisa. Não sei olha, o pescador, eu respeito muito São Pedro e ele foi pescador, ele tem a chave do céu. (PP01T1). Nós pescava com rede e espera antigamente, e fazia aquelas mangueira no rio com pedra pra pegar piava, “taipão” no rio e pegava piava tudo ali, se botar rede hoje também não pega nada. (EP14T1). A interação com o rio representa valores fundamentais, como a continuação do trabalho, e desta forma a manutenção das condições da família com honradez. Quando perguntados sobre o sentimento de estar na água, pescando, realizando seu trabalho, os pescadores respondem: 144 Eu me sinto bem desde quando eu saio de casa, eu me sinto contente, porque eu já saio daqui amparado, porque a Elza me ampara desde aqui quando arruma minha roupa, daí quando eu chego lá, daí eu faço a comida do meu jeito, faço feijoada, faço ensopado... saio já daqui amparado [...] (PP01T1). Os pescadores demonstram ter conhecimentos sobre a biologia e ecologia do rio, que se apresenta como um ator importante no desenvolvimento da atividade. Os depoimentos a respeito da cobertura vegetal do entorno do rio demonstram um conhecimento sobre a influência dessa vegetação no êxito da atividade pesqueira e também sobre os serviços ambientais prestados por essa vegetação nativa; percebem que houve uma ruptura nesses serviços ambientais. Esta forma de ver o seu entorno evidencia a percepção do pescador nas transformações rápidas da paisagem em função dos eventos provocados pelo desenvolvimento econômico, assim como um saber sobre processos ambientais. Entrevistadora: Desde quando vocês perceberam que as mudanças no rio? E estas mudanças são positivas ou negativas? Entrevistado: antes da barragem tinha mudado um pouco já, mas não tanto quanto agora. Agora foi pior. Antigamente tinha nas margens jaboticabeira, amoreira bastante, pitangueira bastante e isso é o que dava a piracanjuba, piava, até o curimbatá comia, hoje tu passa por aqui tu não acha uma arvore, e o que tu achar tá seca porque, isso porque antes tinha as lajes que conservava as partes úmidas e agora na época de seca secou todas elas porque não tem mais essa conservação natural da umidade. O que tem são as “arbacea” como o Sarandi que é uma natural do rio, o que tá se mantendo é o Sarandi ainda em partes, outra parte já está morrendo, o que está acontecendo agora é de outros tipo de matagal está subindo pra cima do leito normal do rio, cipó, coisa que não tinha agora tem, essa margem aqui da ilha aqui ate na outra ilha, só da em baixo da água, da uma flor em baixo da água e na corredeira, se vê bem ali em Pratas. [...] A diferença começou desde a barragem de Itá, uma quebra de no mínimo de 25%, depois que saiu essa daqui a quebra foi de 80%, agora foi de uma vez. Antigamente tinha vários tipos de peixes, a piracanjuba eu vi uma vez na minha vida, o pati o pintado branco pegava 20, 30 por dia, hoje você não acha um. Esses dias eu peguei um pequenininho em Itapiranga, um cara lá falou assim: “esse peixe ai está se extinguindo”, então a diferença de Itapiranga pra São Carlos é a mesma que nós sentimos de Ita. Lá continua pegando peixe, mas é uma diferença muito maior do que daqui. (PP19T1). A paisagem, neste sentido, é não só percebida através dos olhos, pode ser sentida através da perda das referências do trabalho e, por sua vez, manifestar a sensação de degradação ambiental. A paisagem define uma conectividade entre o ser humano e o rio. Para Ingold (2009), a paisagem se forma à medida que incorpora histórias em sua superfície, tecendo-as juntamente com o ciclo de vida de plantas e animais que também a habitam (p. 19). 145 Durante as entrevistas, ficaram claras as frustrações nas comparações feitas pelos pescadores entre a época do ‘rio livre’ e do rio “seco” (figuras 22 e 23), de agora. Tais elementos são constituintes de um panorama assustador no que se refere principalmente à quantidade e à qualidade da água para a manutenção da integridade do ecossistema aquático do qual eles dependem. O que foi um dia fonte vida, de renda e local de lazer e reunião de famílias hoje se encontra em estado de lástima; a chegada do progresso e do desenvolvimento é figura de tristeza e desolação, pois os verdadeiros benefícios se voltam para as grandes organizações, sem que se dê muita importância para a situação das pessoas que antes viviam no local. Figura 22 – Trecho do rio Uruguai a jusante da barragem – “rio seco”, com destaque para o “canalão” mencionado pelos pescadores Fonte: Lindacir Zornitta (15 jul. 2014). 146 Figura 23 – Rio livre – comparação entre o rio livre e o rio seco – antes e depois da barragem Fonte: Silvênio Gnoatto (2005). Conforme se vê nas falas o rio encontra-se muito modificado em função das obras das barragens ao longo do rio emonstrando o apoderamento dos recursos naturais por empresas de hidroenergia. As barragens, de acordo com Sevá (2008 apud França, 2012), são uma das formas mais agressivas de apropriação da natureza empreendidas pelo homem e um dos grandes símbolos do progresso e da tecnologia. Um rio barrado não é mais um rio, é um conjunto de ecossistemas parcialmente gerenciados – esses que o povo chama “lagos” por causa de seu aspecto fotogênico, mas que são de fato reservatórios (SEVÁ, 2008, p. 45). Como é que eles tiram uma coisa que não é deles? A água não é deles, não é minha, não é tua, não é de ninguém. Tirar de nós o sustento. Isso é doído, isso dói. Isso machuca. Tem dias que você fica revoltado. Se a água fosse deles podem usar e abusar, mas não é deles, é nossa! [...] Há tempos atrás tinha um companheiro que tava com um saco de cimento fazendo uma rampinha pra poder levar o barquinho dele mais fácil pra dentro do rio a ambiental viu e disse pra ele que ia poluir o rio. E agora? Com os milhões de sacos de cimento que enfiaram dentro do rio? Não vai poluir? Eles mandam, ele podem, mas um dia eles vão prestar contas pra um maior. (PP01T1). O oeste catarinense é marcado por ocorrências de expropriações forçadas desde os tempos de sua colonização, quando os “brasileiros” foram expropriados de suas terras em função da ocupação dos espaços pelas colonizadoras privadas (RENK, 1997). Os brasileiros 147 que aqui viviam ignoravam a necessidade de legalização documental das terras, pois existia muita terra disponível, “tinha fartura de terra e era tudo do Brasil” (ibidem). Assim, os brasileiros perderam seu espaço e seu modo de vida, sendo confinados em áreas menos favorecidas. Faço, pois, uma analogia do pescador que percebe a perda do rio com a perda da terra percebida pelo caboclo anteriormente. Da mesma forma, uns ficam e outros “vão adiante” (RENK, 2006). O sentimento de perda permanece mesmo naqueles que continuam a buscar o seu sustento no pouca d’água que restou no rio. Também o pescador percebe essa analogia: Hoje onde eu pescava eu sou proibido entrar, por causa da Foz do Chapecó, -não estou criticando eles, não estou ofendendo eles - mas eles indenizaram quem tinham terra pra cima, pagaram, mas onde eu pescava eu não posso entrar lá porque eu posso ser preso por uma polícia ambiental, por essas... É porque que eles não me indenizam? Eu que pescava lá? É a mesma coisa que tirar a terra onde foi atingida pela água, eu fui atingido pelo rio, me tiraram o rio, me tiraram o meu sustento a mais que eu tinha da minha família. Essa isso uma dor que eu sinto. Nunca vou questionar contra a Foz e nem nada. Porque eles têm que ser mais inteligentes que eu. Se eles não enxergam isso é porque eles são egoístas e ignorantes e ambiciosos pelo dinheiro, não pensando num pobre pescador como o Silvênio. É isso. Isso me dói e me dói muito. (PP01T1). As comparações feitas pelo pescador refletem a percepção desse público quanto à monstruosa diferença entre os impactos causados pela usina e os impactos causados pelos por eles, e que são alvos dos agentes fiscalizadores do rio. Entretanto, esse símbolo do progresso utiliza equipamentos refinados, produz grandes e imponentes construções (FRANÇA, 2012), vai provocando mudanças radicais na vida de moradores e trabalhadores, que são obrigados a conviver com as obras e as usinas; um surto com efeitos que vão se sobrepondo na dinâmica dos rios e das bacias fluviais (SEVÁ, 2008). Apesar de ser mencionado enfaticamente que as chuvas que enchem os rios trazem novas oportunidades de pesca, aumentam o volume das águas do rio trazendo nova vida, renovação e movimentação das águas, o que se expressa com maior intensidade é a movimentação da água “podre” em consequência da usina. As águas das chuvas são comparadas a uma reparação aos danos causados ao rio; claro que se entende perfeitamente que não é o bastante, mas já é alguma coisa, uma nova oportunidade, uma nova pescaria com o rio cheio, com água à vontade. Os pescadores se organizam diante do evento das chuvas, dando a impressão de que será um momento esperado para a pescaria. 148 Este sentido à vida e ao meio que circunda todo organismo é discutido por Ingold (2013; 2011) através da lógica da inversão. Ele diz que um organismo não poder ser contido, separado em um “mundo circundante”, o organismo está “do lado de dentro” e a natureza “do lado de fora” desse limite imaginário entre os dois espaços. Ele chama a atenção para uma representação sob a forma de vários fios contínuos como linhas intermináveis e entrelaçadas encontrando-se e afastando-se umas das outras indefinidamente. Nessa representação, não há “dentro” ou “fora”, nem limites que separem os dois domínios. “[...] este emaranhado de fios é a textura do mundo.” (INGOLD, 2013, p. 16; INGOLD, 2011, p. 146). Neste sentido, Leff (2011) menciona que “[...] o ambiente é uma categoria sociológica, e não biológica, não é somente o meio que circunda as espécies e as populações biológicas. É uma categoria configurada por comportamentos, valores e saberes [...]” (p. 224). Quanto à percepção espacial do rio, os pescadores demonstraram um amplo conhecimento espacial, falando desde sobre os pontos de maior atividade pesqueira até a relação da mata ciliar com a qualidade da água. É nítida a relação sinergética entre pescadores e o rio como espaço de suas vivências cotidianas. O sentido para isso se dá no emocionante relato do encontro do barco com a água, da rede com o pescador, da linha com o anzol, tornando esse aglomerado de fios um complexo fluxo de materiais que dão forma ao trabalho de simples pescador; e é isto que dá sentido para a vida do pescador, manifestado através do sentimento com o rio, da compreensão acerca do peixe e da habilidade com os instrumentos utilizados na pesca. As mudanças no rio são consideradas pelos pescadores como uma catástrofe, um desastre na natureza e em seu no meio de convivência. Eles se sentem vulneráveis pela perda do rio – sentimento que exprime o reflexo da instabilidade da profissão num cenário perturbador. A percepção dos pescadores é de que, se não houvesse a usina hidrelétrica, o rio continuaria o mesmo, tudo veio piorar a situação. O desenvolvimento tão pronunciado e anunciado nos tempos de negociações e implantação da usina é lembrado agora como portador de transformações em seus modos de vida, em seu modo de sustentar a família. Um misto de insegurança e tristeza se insere na comunidade de pescadores porque estes não sabem exatamente o que vai acontecer daqui pra diante – a expectativa é de que a profissão de pescador será extinta num curto prazo de tempo. São comuns a todos os pescadores as 149 citações de que há algum tempo atrás a pesca era farta como podemos confirmar na figura 24, abundante, com muitas espécies de peixes; alguns dos pescadores mantinham suas famílias apenas com o produto vindo do rio. Quando eu pegava peixe. Pegava ”montuera ‘ de peixe grandes né? Dourado de 12, 13, 15 kg né? Essa é a melhor lembrança da minha vida. Pegava de tudo, piava, tainha, surubim, essa é uma lembrança que não sai da minha cabeça, “Deusulivre”, vinha com o caíco recheado de peixe. Peixe bom né? Hoje não tem mais. Hoje tu vai lá tira dois ou três cascudinho e vem embora. E naquela época você trazia o caíco cheio de peixe. (EP14T1). Além da implantação da barragem e do esgoto despejado no rio Uruguai, outro fato atribuído pelos pescadores com causa da falta de peixes no rio é a situação de lixo jogado, consequência da falta de educação das pessoas e de desconhecimento da questão de preservação ambiental. Diante do quadro atual, os pescadores acreditam que nem mesmo a tecnologia consegue resolver o problema da falta de peixe. Mesmo sabendo que o desenvolvimento tecnológico pode oferecer meios para solucionar muitos dos nossos problemas, eles sabem que o que a natureza faz ninguém mais pode fazer. Por outro lado, a luta contra essas poderosas empresas é invisível e ineficaz, e desestimula os pescadores a pleitear novas soluções para o problema. Já tinha alguma coisa diferente, eu percebi muita mudança naquela de Itá já né? Mas tava melhor do que com essa daqui. Antes da de Itá não tinha esses problemas que temos hoje, nós tinha o problema com o lixão de Chapecó que caía no rio Chapecozinho e vinha e desaguava aqui, aquele foi problema sério, mas a policia ambiental resolveu, nós pegava muito lixo nas arvores dos ilhotes, mas foi resolvido, isso foi antes da de Itá. Mas dai veio as barragens e acabou com tudo. Eu fico triste porque gosto muito do rio, questionar contra não posso porque eles são uma potencia e a gente é fraco, e jamais um vai apoiar um fraco pra enfrentar um forte. Mas o que eu te falo aqui eu falo em qualquer lugar q não tenho medo. (PP01T1). Pode ter esperança, hoje em dia tem tecnologia pra tudo, eles podem criar dourado, podem criar de tudo pra soltar, mas o rio pra nós ele nunca mais vai ser o mesmo. Isso podem estudar, podem pegar peixe podem fazer tudo o que quiserem. Ele normal como ele era, só se terminar com essas barragens, terminou com essas barragens ele volta ao normal. (PP05T1). E no final das contas resta apenas um pedido, um apelo, uma esperança que permanece ressoando no ar em busca de um apoio, esperando que as palavras que serão escritas através das declarações prestadas para este e outros estudos que já foram realizados possam ser lidas e ouvidas, e tenham um tom mais alto que o da sua própria voz. Esta é a esperança que ainda resta: 150 Liberem o curso normal desse rio como ele era, ele não tava pagando nada pra ninguém, ele invadia quando a natureza mandava chuva, não pra fazer taipa e pra alagar e deixar outra parte seca. Eu queria que viesse a televisão aqui pra mostrar pra todo mundo ver como tá. (PP01T1). Figura 24 – Resultado da pescaria no ano de 1974 – “fartura de peixe” Fonte: acervo de Silvênio Gnoatto (1974). 4.3 O “bom pescador” A pesca no rio Uruguai, como já mencionado neste trabalho, pode ser entendida como de subsistência e de lazer. Porém, diante dos dados coletados, intrigaram-me as falas de alguns pescadores. Obviamente que entendo que a maioria dos pescadores faz o bom uso dos recursos naturais dos quais depende diretamente para sua subsistência, mas também 151 observei que existem abusos e até um descuido por parte de alguns “usuários” 31 do rio. Também entendo que o pesquisador não é e não executa o papel de um policial investigativo, entendo que muitas das declarações acusatórias podem representar uma forma de vingança entre os pescadores, como estratégia de prejudicar o outro que utiliza do recurso para o desenvolvimento da atividade da pesca – mesmo porque as falas dos próprios pescadores admitem que a relação entre esses agentes não se caracteriza como harmônica. Declara o pescador PP01T1: “O pescador é a classe mais desunida.” Refleti muito a respeito dessa declaração e concluí que talvez a situação atual do rio possa ter instigado essa animosidade entre os pescadores: a partir do momento em que existem tantos profissionais trabalhando no mesmo rio com a realidade do esgotamento dos recursos pesqueiros, naturalmente poderia surgir uma concorrência entre eles. Esses dias nos estávamos, fazendo um levantamento do histórico dos o poço da 6 de setembro, hoje tem 40 carteiras que deveriam pescar além, olhando aparentemente o número... o número é exorbitante, foge do princípio.[...] Na pescaria com um barco com motor que consome muito para pescar o dourado, o dourado custaria em torno de R$300 o quilo. Se for contabilizar tudo o custo do dourado seria este, então nós não teríamos capacidade de gastar 300 para pegar ele vender hoje o preço de R$20 o quilo. (PP09T1). Pra cima aqui também não pode pescar, é proibido. Nós estamos aqui onde eles chamam de alça seca da barragem até lá embaixo. Pra nós aqui ficou péssimo, horrível. Nós ficamos só com um pedacinho do poço pra pescar, tem 200mt da barra do Chapecó que não pode pescar, da corredeira pra cima 200mts que não pode descer pra baixo pescar, ai como e que comporta aqui em mil e poucos metros cento e poucos pescadores sendo que a distância entre uma rede e outra é cento e poucos metros? Isso dava de botar 15 redes... Mas tem pescador que bota 5 ou 6 redes porque quer pegar né? E às vezes não pega nada. E dai então em 8 a 10 pescadores já ocupa o espaço que esta liberada e pra baixo é proibido e pra cima também. Só do nosso ponto aqui somos em 22 pescadores. (PP13T1). Neste contexto, perguntei aos pescadores se o processo do barramento do rio e a consequente perda dos peixes trouxeram outras implicações; um pescador fez a seguinte declaração: Olha no nosso dia a dia de pescador, dá pra entender que tem pescadores que não se misturam, as pessoas são só eles... Essas pessoas talvez não tenham perdido mais do que só o peixe ou perderam só o peixe, só o material. Perderam a profissão e pronto. Eu e qualquer ser humano que tenha afinidade para com o próximo perdemos 31 Pois nem todos os pescadores que se encontram no rio estão por conta da necessidade. Como sabemos, muitos pescadores são aqueles que utilizam desse recurso apenas para o lazer. 152 também 50% das pessoas com o qual havia contato com o qual havia uma boa convivência, pelo menos 50% dessas pessoas que nós éramos próximos mesmo dentro do lago, mesmo onde é que esta a taipa da barragem hoje que é um local que nós pescávamos com frequência. [...] Isso também não existe mais. Fica claro que a sociabilidade32 entre os pescadores da região após o barramento do rio foi muito prejudicada. Tive alguns depoimentos que evidenciaram que, durante o processo de negociações com a usina, os grupos foram alvo da metodologia aplicada pela empresa para dissolver qualquer tentativa de negociação coletiva. Então entendi que não se pode ter a inocência de pensar que esses pescadores tenham um relacionamento harmônico entre eles, pois há uma vigilância constante aos pescadores que não cumprem as regras do defeso, apesar de que todos sabem: o rio tem uma capacidade limitada de recursos, quem não cumprir com essas regras torna-se transgressor, e o transgressor está sujeito a sofrer acusações difamatórias. Também entendo que a imagem do “bom pescador” não se aplica a todos os pescadores com os quais conversei, pois percebi em algumas conversas alguns deslizes a respeito de práticas pouco recomendadas ecologicamente. Assim, também acontece a respeito do convívio entre alguns pescadores que ocorre sob um clima de desavenças, principalmente quando se trata dos grupos dos barracões, entre os quais permanecem muitos desencontros de ideias, sempre buscando a diferença “no outro grupo”. Neste contexto, as formas mais comuns de se expressar essas diferenças recaem nas expressões de descontentamento sobre as atitudes de alguns pescadores que praticam a pesca predatória, que pode produzir forte impacto negativo nos estoques pesqueiros. Tanto os pescadores amadores quanto os pescadores profissionais entendem e mencionam que devem respeitar o período de reprodução dos peixes (piracema) e declaram que suspendem a pesca nessa época do ano. No caso dos pescadores profissionais, esse período refere-se ao período de defeso da piracema33, que, de acordo com Instrução Normativa n. 193, publicada no D.O.U. do dia 3 de outubro de 2008, trata do período de 32 Para Ingold, a sociabilidade é uma qualidade característica nos relacionamentos pessoais nas atividades desempenhadas na vida social (1991, p. 372). 33 O defeso da piracema é determinado pela Lei n. 7.679, de 23 de novembro de 1988, e estabelecido anualmente pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), com o envolvimento de órgãos governamentais específicos de cada bacia hidrográfica. 153 defeso na área de abrangência da bacia do rio Uruguai, nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul e estabelece a proibição da pesca em qualquer categoria, modalidade ou trecho durante o período de 1º de outubro e 31 de janeiro. Nesse período, são permitidas a pesca de caráter científico, prévia e devidamente autorizada pelo IBAMA, e a pesca profissional e amadora, embarcada ou desembarcada, utilizando-se linha de mão ou vara, linha e anzol, limitando-se a um desses petrechos por pescador (IBAMA, 2008). No entanto, mesmo com declarações da maioria dos pescadores sobre o respeito ao período da piracema, temos muitos relatos de “pescadores que vão pescar mesmo assim”: Tem o pescador aquele que não respeita a medida. Ele pega o pequeno ele mata. Pega o grande e mata. Não respeitam a piracema também [...] não respeitam a Piracema. A piracema é onde você pega o maior dourado. (PP01T1). Uma vez eu me lembro que nós ia pescar, e tinha gente com aquelas redinhas cascudeiras, pegava tudo aqueles cascudinhos assim (mostra com a mão o tamanho do peixe), então, peguem aqueles cascudinhos mas soltem de volta pro rio, mas não, eles deixavam todo lá na praia morria tudo lá no sol. Mais vai dizer o que de um povo assim. (PA03T1). A captura de animais jovens pode ser um dos fatores que contribui para a diminuição dos estoques pesqueiros. A alta de conscientização neste sentido atrasa o restabelecimento da população de peixes e consequentemente diminui a abundância do recurso, pois o peixe não consegue atingir tamanho suficiente para a reprodução. O menor tamanho a partir do qual a espécie começa a reproduzir-se em determinadas condições ambientais é denominado tamanho de primeira maturação sexual (BAZZOLI, 2003, p. 299). A atitude correta de devolver o peixe pequeno novamente ao rio implica, além da preservação, uma atitude ética. A ética é uma filosofia de vida, é a arte da vida, não uma filosofia da via orgânica, mas da boa vida, da qualidade de vida, do sentido da vida (LEFF, 2011, p. 446); a ética se faz presente no ser individual, mas o retorno é o bem coletivo (p. 466). As informações sobre a importância da proibição da pesca durante a época de reprodução e migração dos peixes parecem não fazer efeitos sobre “os outros pescadores que não respeitam a piracema”, o que pode ser um grande problema para essa região, pois, mesmo sabendo-se que a pesca artesanal tem grande importância no manejo dos recursos naturais e na conservação dos ecossistemas em que atuam as comunidades ribeirinhas, existem evidências de que essa atividade, quando mal-executada, pode ocasionar redução dos estoques pesqueiros, especialmente em espécies de peixes de maior valor comercial 154 (BEGOSSI, 2004), como é o caso do dourado (Salminus brasiliensis), alterando assim o restante das comunidades ictiícas. A época de desova e o tamanho de primeira maturação sexual são parâmetros que fornecem subsídios para a normalização da pesca, especialmente de espécies de importância comercial, para se evitar a captura de adultos na época da desova e de indivíduos imaturos (BAZZOLI, 2003). Portanto, as informações sobre a proibição da pesca na época da reprodução não bastam para que se gere um conhecimento adquirido de que essa prática pode vir a trazer outras consequências para o estoque de peixes. Neste sentido, Ingold (2010) aponta que existe uma diferença entre informação e produção do conhecimento, muito embora sejam complementares, pois a informação é o caminho para a produção do conhecimento, e a conexão entre ambos está no caminho percorrido. Assim como uma receita a ser seguida: Os comandos verbais da receita, em outras palavras, extraem seu significado não de sua ligação a representações mentais na minha cabeça, mas de seu posicionamento dentro do contexto familiar da minha atividade doméstica. [...] Assim, a informação no livro de receitas, em si mesma, não é conhecimento. (p. 19). Também encontrei relatos de que a pesca proibida era realizada sem nenhum tipo de contradição; para esses pescadores, tal pesca era normal, não havia proibição: Entrevistadora: qual a diferença que o senhor percebeu no Rio? Entrevistado: a falta da correnteza, porque na corredeira você pega peixe, mais de água parada só se não peixe criado, que vem na pesqueira assim. Que nem o pintado, o dourado ou o surubim. São peixe de corredeira, cascudo pegava bastante era cascudo, mais tinha que ser mais corredeira, agora vai ali naquelas águas parada naquelas funduras que estão ali agora, aqui embaixo quando era rio tinha lugar que tu apoitava o caíco em poço de até 50 m de poita. Hoje tu vai tu vai apoita lá como que dá quase 100 m de fundura. (PA03T1). Hoje se eu disser para vocês que nós não pegamos peixe na corredeira eu estaria mentindo, a gente vai lá buscar o peixe e eu sei que está sendo gravado, eu não tenho medo de falar isto, se é para passar uma informação enganosa para vocês eu não passo nada, a gente pega alguma coisa na corredeira, pega,... Mas para a nossa subsistência. (PP05T1). A pesca é proibida nas corredeiras devido ao longo tempo que os peixes levam negociando sua passagem por esses ambientes turbulentos, com obstáculos e ressaltos hidráulicos, que favoreceriam sua captura (GODINHO; BRITO; GODINHO, 2003); mas mesmo assim alguns declaram que a pesca nas corredeiras era realizada pelos pescadores. 155 Outro pescador trouxe informações importantes sobre práticas de pesca com um alto risco de degradação ambiental: Depois atravessavam o rio de rede, jogam bomba dentro do rio, tinha gente então, largava o carbureto, um bujão de gás, tu pega um bujão de gás com uma manga e vai bem longe para cima e coloca aquilo dentro do rio, aquilo faz um barulho dentro do rio, um movimento, que os peixes se boleiam de lá tudo para rede. (PA03T1). A pesca com bomba e com botijão de gás, além de ser predatória, afeta a flora, a fauna e o substrato do rio. Segundo a legislação brasileira, a pesca com explosivos transgride o decreto 6514/2008 (art. 36), que estipula multa para quem “Pescar em período ou local no qual a pesca seja proibida, a pesca de espécies que devam ser preservadas ou espécimes com tamanhos inferiores aos permitidos e ainda pescar mediante a utilização de explosivos ou substâncias que, em contato com a água, produzam efeitos semelhantes, ou substâncias tóxicas, ou ainda, por outro meio proibido pela autoridade competente.” (BRASIL, 2008a). Enfim, um desabafo: “Eu sempre digo assim ‘tomara que amanhã ou despois não achem nem um lambarizinho assim no rio do’ só porque o povo é muito provalecido. Assim foram destruindo.” (PA03T1). A pesca de arrasto também é uma prática encontrada nessa região: Sim, eu à noite eu ia tocar os peixes, armava as redes, eu via o movimento dos peixes, eu e meu parceiro com os Caíco, espantar os peixes, raspava ao fundo eles se mandam tudo, fazia arrastão. É coisa que eu falo agora por que eu não falava pros outros pescadores, nós raspava no fundo, e espantava os peixes, daí nas fazíamos aquelas pesca boa. (PP01T1). Assim como alguns pescadores que assumem a prática do arrastão, existem pescadores que assumem outras práticas predatórias, como mencionado neste trabalho (p. 75): a utilização de rede de emalhar com medidas fora dos padrões permitidos e também a pesca durante a piracema, confirmando prática irregular da atividade entre os pescadores profissionais: “Isso aqui tá dando porque a malha é pequena né, mas nós não podemo pesca com a malha pequena, mas a gente usa porque pexe grande não tem né.” (PP03T1). Neste texto, procurei ultrapassar a visão cultural que rotula a atividade de todos os ribeirinhos como harmônica com o meio ambiente. Este capítulo tenta mostrar que, apesar dos discursos prontos que encontrei em campo, é claramente possível encontrar fissuras que mascaram o bom andamento do uso dos recursos naturais à disposição dos ribeirinhos. 156 Obviamente existem os relatos autênticos, mas é necessária habilidade para perceber que nem todos fazem jus à confiança. Se me for questionado se a pesca no rio Uruguai é predatória, certamente não saberei responder, pois a inserção em campo não se prontificou a analisar sob este viés, mas sim quanto à percepção dos ribeirinhos sobre as mudanças causadas por um empreendimento ofensivo aos recursos naturais que ali se encontra. Talvez, e muito talvez, devido a isto (este assunto é merecedor de uma análise mais profunda), a atitude desses “outros pescadores” tenha se convertido para o viés do descaso. Porém, é impossível ficar alheia a fatos relatados que certamente instigam a questionamentos quanto à atuação de certos “pescadores”; são relatos que (volto a frisar) certamente poderiam ser investigados com maior profundidade; e então os resultados deste estudo poderiam mudar o curso de muitas histórias encontradas em campo. 157 CONSIDERAÇÕES FINAIS E se finda mais uma etapa de aprendizagens, de desconstruções e reconstruções; de dias complicados, trabalhosos, porém compensadores. Talvez ainda permaneçam sem respostas muitas das minhas indagações pessoais que surgiram ao longo deste caminho. Mas creio que essas dúvidas não permanecerão por muito tempo estagnadas. Rogo que perdoem minha forma simples de escrever, minha falta de aprimoramento de pesquisadora, mas não é de meu feitio rebuscar as palavras, contudo aprecio a seriedade no trabalho. Talvez pelo fato de caminhar por mim mesma em muitas das fases de construção deste trabalho tenha passado despercebida a esperteza e a astúcia de alguns entrevistados e a profundidade de outros; assim não foi possível chegar a um resultado perfeito. Mas penso que, talvez, as imperfeições tenham mais respostas por elas mesmas do que as tentativas do perfeito. Ao escrever este tópico, ocorreu-me que um dos resultados deste trabalho foi perceber que o rio Uruguai tornou-se o personagem principal desta pesquisa. Tudo ocorre em torno do rio. Fica extremamente claro o sentimento de responsabilidade e sensibilidade da maioria dos entrevistados em relação ao rio Uruguai. Existe ali um sentimento de apropriação, como se o rio fosse parte da família, pois foi nele e dele que muitas famílias foram formadas e sustentadas. Claro que os impactos ambientais ocorreram, e não só no rio. Há muitos outros problemas decorrentes da instalação da usina. Os deslocamentos, as desapropriações, as dissoluções de comunidades, enfim, muitos problemas que foram aqui discutidos, mas o rio sempre esteve na fila da frente, em destaque, não só pela questão financeira, mas pela importância que tem na vida desses pescadores. É um ponto de referência, é uma lembrança dos tempos de criança, uma lembrança dos pais que já se foram, dos dias de lazer compartilhados com a família, da importância que ele teve no desenvolvimento local e da água que corria livre e agora não corre mais. Através do trabalho realizado, foi possível chegar à conclusão de que apesar das dificuldades enfrentadas pelos pescadores, agentes desta pesquisa, pode-se considerá-los uma classe que luta pela sobrevivência e pela continuação da profissão. Ainda que os pescadores artesanais declarem ter sentido os impactos decorrentes do barramento do rio, a 158 presença de pescadores que ainda exercem a atividade da pesca artesanal na região demonstra a imensa capacidade de resistência dessa profissão. Porém, os aspectos culturais como a continuidade da atividade da pesca artesanal se mostram em perigo de extinção, evidenciando a eminência de uma ruptura cultural na região. Também a decadência financeira desses pescadores artesanais apresenta-se evidente, pois a pesca não assegura mais o sustento das famílias, em função da perda do espaço de trabalho pela obstrução do rio causada pela usina hidrelétrica. Estudos realizados34 mostram que desde a usina de Itá, a primeira das muitas usinas hidrelétricas instaladas na bacia do rio Uruguai, as alterações ambientais tornaram-se visíveis, exigindo dos pescadores artesanais um esforço muito maior para manterem-se nesse meio – foi necessária a compra de instrumentos de pesca, por exemplo, sem respaldo financeiro, sequer de políticas públicas. Com a chegada da Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó, em 2008, essas alterações tornaram-se arrebatadoras do ponto de vista ecológico e potencialmente nocivas ao campo social, ambiental e também ao cultural das pessoas que se encontram na área de influência da usina. Apesar desses conflitos, a exploração hidrelétrica continua sendo realizada em grande escala na bacia do rio Uruguai, sem apresentar estratégias de mitigação eficazes para os impactos sociais gerados. Os relatos de pescadores ribeirinhos apresentados neste trabalho não servem somente como descrição relacionada à atividade da pesca, cumprem o papel também de uma porta de entrada para as indagações, as críticas e os desabafos dos pescadores sobre a realidade que estão enfrentando em decorrência da falta de assistência das autoridades sobre as transformações realizadas no meio ambiente, fonte de recursos para essa classe trabalhadora. Cabe também aqui uma reflexão sobre o papel da academia sobre tais problemáticas abordada. 34 Como, por exemplo, o trabalho de Bruno Antonio Picoli, que relata a experiência dos camponeses de Itá atingidos pela usina lá construída e que foram reassentados em Campos Novos (SC) (PICOLI, Bruno Antonio. Sob os desígnios do progresso. Xanxerê, SC: News Print, 2012). 159 Sobre as negociações, tudo indica que esse processo está longe de encontrar um final, pois em meados de outubro de 2014, durante nova visita aos pescadores do trecho T1, recebi a notícia de que novas manifestações estavam por acontecer por parte dos indenizados que pertencem ao grupo dos R$ 10.000; eles estão reivindicando novos direitos sobre a atividade da pesca no rio Uruguai. Mostra-se evidente a necessidade de acompanhamento dos novos rumos que esse ocorrido pode provocar. No que diz respeito à pesca ilegal, há de se pensar que, embora os pescadores não tomem medidas de manejo e alguns deles adotem práticas ilegais, há também outros aspectos que interferem no ambiente, como o despejo de dejetos industriais e domésticos dos municípios localizados no entorno da bacia; a sobreposição de pescadores amadores que utilizam mesmo trecho do rio; e, ainda, o sucessivo barramento do rio, transformando-o num contínuo de lagos, com a transformação de trechos de sistemas lóticos em sistemas lênticos. Esta prática reduz a capacidade de representação social dos pescadores, tirando o meio de sustento e modificando modos de vida de uma população. De maneira geral, os entrevistados demonstraram grande conhecimento sobre as práticas no desempenho da atividade e conhecimentos sobre a ecologia local, assim como possuem informações de âmbito globalizado sobre a situação da pesca. É por meio desses saberes que os pescadores têm alcançado alguns resultados tímidos perante o sistema político, como estratégias de sobrevivência e de garantia de seus direitos legais para conter muitos dos abusos operacionalizados pelos grandes segmentos de aproveitamento hidrológico. A respeito da percepção das mudanças ocorridas no ambiente, os pescadores são extremamente conscientes do aniquilamento ambiental em função da barragem, e o grande desejo de muitos pescadores é a desobstrução do rio. Muitos foram os comentários acerca de “derrubar a barragem”, “explodir a barragem”, “devolvam o nosso rio”, acentuando a dependência que essas famílias possuem não somente em termos financeiros. Fica óbvio que o sustento de muitas dessas famílias está centrado na produção natural do rio, e essa dependência não está somente na pesca, mas no ambiente como um todo. Também as árvores submersas pelo consórcio são uma das questões não aceitas pela população atingida; a presença das árvores mortas diante da porta de casa de alguns entrevistados demonstra o 160 conhecimento da importância da mata em pé figurada na preocupação ambiental. Valho-me aqui da ideia de Nalini (2010.p.147): “assim como a árvore se vai a água também desaparece,e a água é o elo que conecta todas as coisas viva, tão vital como o próprio ar, que por sua vez também está ligado á árvore”. Através dessa perspectiva, percebemos que os pescadores acumulam grande conhecimento sobre o clima, comportamento hidrológico do rio, ecologia trófica da ictiofauna local e, principalmente, a respeito das mudanças ambientais por atividades antrópicas. As mudanças na paisagem regional causadas pela obra têm sido muito grandes, e pouco se tem pesquisado sobre os reais impactos causados por essas mudanças. Os projetos hidrelétricos podem apresentar grandes intervenções na natureza, na biodiversidade local e principalmente na vida das populações ribeirinhas, assim como em suas condições socioeconômicas; muitas vezes, essas consequências não são exatamente a preocupação dos governantes, nem dos empresários, que têm apenas interesses financeiros nessas obras. Neste contexto, percebe-se a recusa da empresa Foz do Chapecó Energia em reconhecer a categoria dos pescadores tradicionais da região, como mostra a própria história da implantação da obra, sendo eles somente reconhecidos depois da licença de instalação. Vemos aqui, pois, a necessidade do acionamento da função do Ministério Público no controle das condicionantes e do cumprimento das especificações constantes no projeto do PBA que ainda não foram colocadas em prática. Há uma lacuna nas informações a respeito das formas de manejo dos recursos naturais das populações ribeirinhas, o que intensifica a necessidade de um número maior de pesquisas para reconhecer o valor e a eficiência dessa forma de preservação e assim propiciar novas políticas públicas como forma de apoio a essas comunidades. Dentro desse contexto, mais do que nunca, estas problemáticas precisam ser levadas à discussão pública e entendidas pela população para que as pessoas possam participar desde os processos de tomada de decisão até os custos referentes à implantação dessas obras. Desta forma, espero que esta pesquisa possa, através de seus resultados, apresentar informações que norteiem esses debates para projetos que possam vir a ser implantados na região. 161 REFERÊNCIAS ABRAMO, Lais. Igualdade de gênero e raça no trabalho: avanços e desafios / Organização Internacional do Trabalho. - Brasília: OIT, 2010. AGNOLINI, GILBERTO LUIZ. 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