Estudo do Sistema Térmico de um Transformador Pedro de Carvalho Peixoto de Sousa Barros Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Engenharia Electrotécnica e de Computadores Júri Presidente: Prof. Gil Domingos Marques Orientador: Prof. Joaquim António Fraga Gonçalves Dente Co-Orientador: Prof. José Manuel Dias Ferreira de Jesus Vogais: Prof. Maria José Ferreira dos Santos Lopes de Resende Setembro de 2007 2 Agradecimentos Gostaria de agradecer ao Professor Duarte Mesquita pela sua disponibilidade e pela sua ajuda na parte da instrumentação do transformador. Gostaria também de agradecer ao Professor António Dente e ao Professor Ferreira de Jesus, pelo apoio e disponibilidade demonstrada ao longo da realização deste trabalho. 3 Resumo Este trabalho insere-se no âmbito da engenharia electrotécnica na área da energia e tem particular incidência na problemática do aquecimento das máquinas eléctricas, nomeadamente de transformadores. Este relatório apresenta e analisa os resultados de investigações teóricas e experimentais do comportamento térmico de um transformador quando este se encontra sujeito a diferentes condições de carga. Para se efectuar este estudo, procedeu-se à instrumentação de um transformador, colocando-se sensores de temperatura em diferentes zonas do mesmo de modo a se registar e verificar a sua temperatura. Com isto, pretende-se caracterizar as diferentes regiões do transformador de modo a se identificar zonas de temperatura homogénea para posteriormente se criar um modelo onde seja possível estimar-se as elevações de temperatura no transformador. Para o modelo desenvolvido, apresenta-se a metodologia utilizada para o cálculo e determinação dos seus parâmetros. Efectuam-se ensaios para diferentes situações de carga, quantificando o erro do modelo e dando-se particular atenção a situações de sobrecarga e curto-circuitos, salientando-se a importância da utilização de modelos de modo a prever com precisão a temperatura máxima do transformador bem como a sua capacidade de sobrecarga. Outro factor importante, que também se analisa neste projecto, é a identificação do ponto mais quente do transformador bem como a determinação da sua temperatura e a sua influência para o envelhecimento e redução de vida útil do transformador. Apresenta-se também um estudo introdutório da dinâmica térmica do transformador e sua modelação quando este se encontra sujeito a um regime de funcionamento com arrefecimento por convecção forçada, salientando-se a influência deste tipo de arrefecimento na determinação da temperatura do ponto mais quente do transformador. Palavras-chave Transformador, modelo térmico, parâmetros distribuídos, parâmetros concentrados, resistência térmica, capacidade térmica, instrumentação, envelhecimento. 4 Abstract The present report is inserted in the scope of Electrical Engineering in the area of energy and it has a particular incidence in the heating problematic of electrical machines, namely transformers. It presents and analyses results of theoretical and experimental inquiries of a transformer thermal behaviour working with different load conditions. To make this possible, I proceeded with the instrumentation of a transformer, placing temperature sensors in different spots in order to read and verify temperature data. This way, I intended to characterize different spots of the transformer and then identify areas of uniform temperature, creating a model on which is possible to project and simulate different temperature increasing scenarios. For this given model, the report presents the methodology used to calculate its parameters. Different load situations are simulated, quantifying the error and giving special attention on overload and short-circuit situations, outstanding the importance of using models to predict with accuracy the transformer maximum temperature as well as its overload capacity. Another important scenario also analyzed on this report was the determination of the hottest spot of the transformer as well as the calculation of the maximum temperature and its influence on the transformer aging and life-time reduction. The report has also an introductory study for the transformer thermal behaviour and its modulation when operating under forced cooling convection regimen, with special attention on the regimen influence for the hottest-spot temperature calculation. Keywords Electrical transformer, thermal model, distributed parameters, lumped parameters, thermal resistance, thermal capacity, instrumentation, aging. 5 Índice Agradecimentos .................................................................................................... 3 Resumo................................................................................................................ 4 Palavras-chave...................................................................................................... 4 Abstract ............................................................................................................... 5 Keywords ............................................................................................................. 5 Índice .................................................................................................................. 6 Lista de Figuras ..................................................................................................... 8 Lista de Tabelas .................................................................................................... 9 Lista de Abreviaturas ............................................................................................10 1. Introdução .......................................................................................................12 2. Conceitos Teóricos ............................................................................................14 2.1. Aquecimento nos Conversores Electromecânicos ........................................14 2.1.1. Perdas nos Conversores Electromecânicos ..........................................15 2.2. Modelo Térmico dos Conversores Electromecânicos ....................................16 2.2.1. Modelo de Parâmetros Distribuídos ....................................................16 2.2.2. Modelo de Parâmetros Concentrados .................................................18 3. Instrumentação do Transformador ......................................................................22 4. Identificação de Zonas Homogéneas ...................................................................25 5. Modelo de Parâmetros Concentrados ...................................................................30 5.1. Caracterização dos Materiais do Transformador..........................................30 5.2. Determinação dos Parâmetros do Modelo ..................................................32 5.2.1. Calculo das Capacidades Térmicas .....................................................33 5.2.2. Calculo das Resistências Térmicas .....................................................33 5.3. Simplificação do Modelo de Parâmetros Concentrados.................................34 6. Simulações e Resultados ...................................................................................38 6.1. Funcionamento em Regime Permanente....................................................38 6.2. Funcionamento em Regime de Carga Variável............................................40 6.3. Sobrecargas e Curto-Circuitos .................................................................42 6.3.1. Sobrecargas ...................................................................................43 6.3.2. Curto-Circuitos................................................................................47 6.4. Convecção Forçada.................................................................................48 7. Envelhecimento e Redução de Vida Útil dos Transformadores .................................52 7.1. Modelo de Diminuição de Vida Útil............................................................52 8. Conclusão ........................................................................................................55 9. Bibliografia ......................................................................................................58 10. Anexos ..........................................................................................................59 6 10.1. Instrumentação do Transformador..........................................................59 10.2. Identificação de Zonas Homogéneas .......................................................61 10.3. Simulações e Resultados .......................................................................65 10.3.1. Funcionamento em Regime Permanente ...........................................65 10.3.2. Funcionamento em Regime de Carga Variável ...................................66 10.3.3. Sobrecargas e Curto-Circuitos .........................................................67 10.3.4. Convecção Forçada ........................................................................71 7 Lista de Figuras Figura 2.1 - Processo de condução unidimensional....................................................19 Figura 2.2 - Evolução padronizada do aquecimento do conversor................................20 Figura 2.3 - Evolução padronizada do arrefecimento do conversor. .............................21 Figura 3.1 – Localização dos termopares .................................................................23 Figura 4.1 – Variação de temperatura, ensaio em CC. ...............................................25 Figura 4.2 – Temperatura no interior dos enrolamentos na zona central do transformador ..........................................................................................................................26 Figura 4.3 – Variação da temperatura em função das camadas de cobre na zona central do transformador .................................................................................................26 Figura 4.4 – Fluxo de calor no transformador ...........................................................27 Figura 5.1 – Modelo considerado para cada região ....................................................30 Figura 5.2 – Modelo de Parâmetros Concentrados.....................................................31 Figura 5.3 – Modelo Simplificado (primeira simplificação) ..........................................36 Figura 5.4 – Modelo de Parâmetros Concentrados (simplificado).................................37 Figura 6.1 – Ensaio em Regime Permanente ............................................................39 Figura 6.2 – Ensaio em Regime de Carga Variável ....................................................40 Figura 6.3 – Ensaio em Sobrecarga.........................................................................43 Figura 6.4 – Sobrecarga Máxima ............................................................................45 Figura 6.5 – Tempo de Sobrecarga .........................................................................46 Figura 6.6 – Curto-Circuito Franco ..........................................................................48 Figura 6.7 – Ensaio em Regime Permanente – Convecção Forçada..............................50 Figura 10.1 – Localização dos termopares ...............................................................59 Figura 10.2 – Esquema de Ligação dos Termopares ..................................................60 Figura 10.3 – Variação de temperatura, ensaio em CC ..............................................61 Figura 10.4 – Temperatura no interior dos enrolamentos na zona central do transformador ......................................................................................................62 Figura 10.5 – Variação da temperatura em função das camadas de cobre na zona central do transformador .................................................................................................63 Figura 10.6 – Fluxo de calor no transformador .........................................................64 Figura 10.7 – Ensaio em Regime Permanente...........................................................65 Figura 10.8 – Ensaio em Regime de Carga Variável...................................................66 Figura 10.9 – Ensaio em Sobrecarga .......................................................................67 Figura 10.10 – Sobrecarga Máxima.........................................................................68 Figura 10.11 – Tempo de Sobrecarga......................................................................69 Figura 10.12 – Curto-Circuito Franco ......................................................................70 Figura 10.13 – Ensaio em Regime Permanente – Convecção Forçada ..........................71 8 Lista de Tabelas Tabela 2.1– Características térmicas dos materiais ...................................................17 Tabela 3.1 – Características dos enrolamentos .........................................................22 Tabela 6.1 - Erros máximos do ensaio.....................................................................39 Tabela 6.2 - Erros máximos do ensaio – 0,25*IN ......................................................41 Tabela 6.3 - Erros máximos do ensaio – 0,5*IN ........................................................41 Tabela 6.4 - Erros máximos do ensaio – Desligado ...................................................41 Tabela 6.5 - Erros máximos do ensaio – 0,75*IN ......................................................42 Tabela 6.6 - Erros máximos do ensaio – Vazio..........................................................42 Tabela 6.7 - Erros máximos do ensaio – Ponto Mais Quente .......................................44 Tabela 6.8 - Erros máximos do ensaio – Convecção Forçada ......................................51 Tabela 7.1 – Taxa de Envelhecimento Relativo .........................................................54 9 Lista de Abreviaturas ∆Q - Calor trocado ∆t - Intervalo de tempo ∆U - Variação da energia interna ∆V - Elemento de volume ∆θ - Variação de temperatura A - Área Ca - Constante empírica Cp - Calor específico Cth - Capacidade térmica f - Frequencia h - Coef. de transferência de calor por convecção hf - Coef. de transferência de calor por convecção forçada i - Intensidade de corrente Ief - Valor eficaz da corrente IefN - Valor eficaz da corrente em condições nominais IN - Corrente nominal do transformador k - Condutividade térmica l - Comprimento m - Massa NB - Número de Biot p - Potência de perdas pa - Potência acumulada pc - Fluxo de calor pcu - Perdas no cobre pcuN - Perdas no cobre em condições nominais pcv - Perdas por convecção pd - Potência dissipada pf - Potência fornecida pfe - Perdas no ferro pr - Perdas por radiação ps - Potência no secundário do transformador r - Resistência eléctrica Rth - Resistência térmica SN - Potência aparente nominal T - Período t - tempo TA - Temperatura absoluta do meio ambiente Ti - Termopar i Ts - Temperatura absoluta da superfície emissora ts - Tempo de serviço v - Velocidade do fluido V - Volume x - Factor de carga αe - Coef. de transferência de calor (condução, convecção, radiação) αr - Coef. de transferência de calor por radiação ε - Emissividade 10 θ - Temperatura θf - Temperatura final θi - Temperatura inicial ρ - Densidade τθ - Constante de tempo térmica Ψ - Campo Vectorial 11 1. Introdução Uma das grandes preocupações do sector eléctrico nos dias de hoje é a utilização da energia eléctrica de uma forma cada vez mais racional e optimizada, reconhecendo-se a dificuldade que o sector enfrenta para expandir a oferta de energia, uma vez que os recursos financeiros são escassos. Surge portanto, a necessidade de se estudar alternativas que contemplem o aproveitamento óptimo de equipamentos que fazem parte do sistema eléctrico, seja a nível de geração, transmissão ou distribuição de energia. De entre os equipamentos existentes no sistema eléctrico, o transformador apresenta-se com grande destaque, uma vez que é dos mais utilizados e certamente um dos elementos mais dispendiosos. O projecto e a capacidade de sobrecarga das máquinas eléctricas, nomeadamente dos transformadores, são fortemente condicionados pelo desempenho térmico destas máquinas. Devido às dificuldades de modelação do sistema térmico, existe a consciência de que não se tem aproveitado integralmente as capacidades dos materiais usados na construção de transformadores, fixando-se assim, por precaução, margens de segurança exageradas para o seu funcionamento. Actualmente existem métodos de cálculo numérico, capazes de lidar com geometrias complicadas e representar em simultâneo fenómenos de índole diversa (transporte de calor e massa) que, se usadas criteriosamente e de forma sistemática, podem permitir a criação de modelos numéricos mais precisos, nomeadamente para a componente térmica de transformadores. Neste projecto, efectua-se um estudo térmico do transformador, de modo a ser possível conhecer a sua dinâmica bem como qual o seu ponto mais quente. O interesse em identificar e estudar a zona mais quente do transformador, encontra-se directamente relacionado com a redução da vida útil das máquinas eléctricas, uma vez que o envelhecimento dos materiais que constituem o transformador depende da temperatura a que estes são sujeitos. O ponto mais quente tem também interesse a nível de dimensionamento térmico do transformador, uma vez que como está sujeito a temperaturas elevadas, é provável a existência de avarias nesta região. Pretende-se também identificar quais as variações de temperatura nas diferentes zonas do transformador, uma vez que os modelos mais simples pressupõem uma homogeneidade de temperatura em todo o transformador. Assim sendo, um dos objectivos deste trabalho consiste em identificar a existência de homogeneidades e caracterizá-las. Propõem-se também um modelo térmico de parâmetros concentrados, bem como a justificação e respectiva caracterização dos 12 parâmetros do modelo proposto, realizando-se vários ensaios ao transformador de modo a ser possível validar o modelo e caracterizar o erro. Efectua-se um estudo de situações de sobrecarga do transformador, bem como situações de curto-circuito de modo a se analisar o seu comportamento térmico e determinar a sua capacidade de sobrecarga. Pretende-se também verificar a dinâmica térmica do transformador quando este se encontra sujeito a um arrefecimento com convecção forçada e de que modo este tipo de arrefecimento pode aumentar a eficiência do transformador. 13 2. Conceitos Teóricos Nota: Este capítulo foi retirado da referência [2]. 2.1. Aquecimento nos Conversores Electromecânicos Os conversores electromecânicos são sistemas onde têm lugar fenómenos físicos de natureza diversa. Neles existem e interactuam fenómenos electromagnéticos, mecânicos e térmicos. A modelização detalhada e global é, por isso, um trabalho difícil e pouco eficaz em termos práticos. Em geral, recorre-se a modelos o mais simplificado possível, mas que possibilitem uma representação da realidade com a aproximação quantitativa necessária ao estudo em causa. Entre os fenómenos mais importantes que condicionam o projecto e o desempenho das máquinas eléctricas, contam-se os fenómenos térmicos. Seguidamente, apresentam-se algumas questões relativas ao comportamento térmico destes conversores. Ao processo de conversão de energia está sempre associado, por lhe ser inerente ou por "imperfeições" dos materiais, o aparecimento de perdas com origem diversa, nomeadamente fenómenos electromagnéticos, atritos e ventilação. Estas perdas provocam o aquecimento dos materiais que constituem o conversor, sendo necessário garantir que as temperaturas atingidas não vão deteriorar as suas propriedades. Neste contexto, os materiais isolantes merecem um destaque particular. Estes materiais mantêm as suas propriedades de isolamento de uma forma duradoura desde que não sejam sujeitos a temperaturas relativamente elevadas. Quando a temperatura atinge valores elevados, as características de isolamento deterioram-se rapidamente, encurtando de forma significativa a vida útil da máquina eléctrica. Por exemplo, para certos isolantes orgânicos da classe A de isolamento, o tempo de serviço, expresso em anos, é estimado por 2.1. Nesta expressão K e constantes dependentes das características dos materiais e α são θ é a temperatura de funcionamento. t s = Ke −αθ (2.1) Naturalmente que uma máquina eléctrica durante a sua utilização não trabalha sempre à mesma temperatura podendo atingir temperaturas baixas ou valores de sobrecarga. Este facto não significa que na função 2.1 a temperatura a considerar seja um valor médio, pois o processo de envelhecimento não é reversível. Isto é, se um isolamento é sujeito a uma temperatura elevada que acelera o processo de degradação a máquina não recupera mesmo que em seguida passe longos tempos num funcionamento com temperaturas mais baixas, concluindo-se assim que é necessário saber estimar com alguma precisão as temperaturas de funcionamento dos conversores. 14 No que se segue caracterizam-se as principais perdas dos conversores e apresentam-se modelos térmicos simplificados essencialmente destinados ao utilizador da máquina eléctrica. 2.1.1. Perdas nos Conversores Electromecânicos As perdas mais significativas numa máquina eléctrica são as perdas com origem nos fenómenos electromagnéticos as quais estão essencialmente associadas aos dois tipos de circuitos que nelas se consideram, o circuito eléctrico e o circuito magnético. As perdas vulgarmente conhecidas por perdas no cobre correspondem a perdas existentes nos condutores que resultam do designado efeito de Joule. A potência associada com estas perdas é quantificada pela equação 2.2. p = ri 2 (2.2) Quando a corrente é uma grandeza alternada não há interesse prático em trabalhar com o valor instantâneo das perdas e torna-se mais simples recorrer ao seu valor médio calculado num período de variação das grandezas eléctricas. Por exemplo, quando a corrente é alternada, as perdas por efeito de Joule são calculadas por 2.3 onde a grandeza Ief é designada por valor eficaz da corrente. T p= 1 2 ri 2dt = rI ef ∫ T 0 (2.3) Quando na máquina eléctrica existem vários circuitos eléctricos as perdas globais por efeito de Joule são, naturalmente, a soma das perdas que se verificam em cada um destes circuitos, circuitos do estator e do rotor como acontece nas máquinas rotativas ou circuitos do primário e secundário, como acontece no transformador. A potência eléctrica que uma máquina eléctrica converte é proporcional ao produto tensão corrente, pelo que, num funcionamento a tensão constante, a intensidade de corrente nos seus circuitos é uma medida do nível da sua carga. Num transformador ao valor da corrente corresponde a potência fornecida pelo secundário e numa máquina a corrente é uma indicação do binário (TB). Nestas condições de funcionamento as perdas por efeito de Joule são variáveis com a condição de carga da máquina e de forma aproximada variam com o quadrado da potência fornecida à carga ou com o quadrado do binário desenvolvido. 2 2 pcu ≅ I ef ≈ TB ≈ Ps 15 2 (2.4) As perdas no circuito magnético, também designadas por perdas no ferro, são essencialmente de dois tipos: as perdas por correntes parasitas e as perdas devidas a fenómenos de histerese do material magnético verificando-se para as perdas por unidade de massa de material magnético a relação 2.5. 2 p fe ≅ k f f 2 BM + k h fBM α (2.5) Quando o regime de exploração da máquina eléctrica é feito num regime de tensão e frequência constante, estas perdas, também designadas por perdas em vazio, têm um valor constante e são por isso assim designadas. Note-se, contudo, que modernamente os motores eléctricos são usados em regimes de velocidade variável. Nestes casos a tensão e a frequência são variáveis e as perdas no ferro também o são. 2.2. Modelo Térmico dos Conversores Electromecânicos 2.2.1. Modelo de Parâmetros Distribuídos As perdas a que se fez referência anteriormente foram quantificadas globalmente, embora se desenvolvam espacialmente no interior dos materiais. Isto é, em cada elemento de volume ∆V caracterizado em termos termodinâmicos pela temperatura θ(x,y,z,t) considera-se que há uma fonte que disponibiliza uma energia de perdas p(x,y,z )∆t∆V. Esta energia vai fazer aumentar a energia interna acumulável no elemento de volume no valor dado por 2.6, onde Cp é o calor específico do material e ρ é a sua densidade, ou é trocada com os elementos de volume circundantes. ∆U = C p ∆θρ∆V (2.6) Para quantificar a energia trocada entre este elemento de volume com os outros elementos de volume adjacentes, é prático recorrer a um campo vectorial Ψ, tal que, a quantidade 2.7 representa o calor trocado no tempo ∆t através da superfície fechada S que delimita um volume de material V. Localmente, isto é, no elemento de volume, esta expressão é quantificada por 2.8. ∆Q = ∆t ∫ (ψ • n)dS =∆t ∫ (∇ •ψ )dV (2.7) ∆Q p = ∆t (∇ •ψ )∆V (2.8) S V 16 O princípio da conservação da energia permite estabelecer a relação 2.9, a qual reflecte o balanço de energia no intervalo de tempo ∆t e por unidade de volume. A energia de perdas “libertadas” no volume elementar ou é em parte acumulada nesse volume aumentando a sua energia interna ou é trocada com os elementos de volume adjacentes. Numa situação limite e por unidade de tempo, esta expressão escreve-se segundo 2.10. ∆t (∇ •ψ ) + C p ρ∆θ = p∆t (∇ •ψ ) + C p ρ (2.9) ∂θ =p ∂t (2.10) De acordo com a lei de Fourier a transferência de calor é proporcional ao gradiente de temperatura correspondendo-lhe a relação 2.11, onde k é a condutividade térmica do material, e que usada em 2.10 permite escrever para um meio isótropo e homogéneo, a relação 2.12. ψ = −k∇θ ∇ 2θ = − (2.11) p C p ρ ∂θ + k k ∂t (2.12) Tabela 2.1– Características térmicas dos materiais Coef. Cond Densidade Calor Específico [g/cm3] [W.s/ºC.kg] Cobre 8,9 388 3,85 Alumínio 2,55 880 2,05 Ferro silicioso 7,6 – 7,8 460 – 480 0,2 – 0,46 Papel 0,9 1680 0,0012 0,95 1800 0,0016 Ar 20ºC 0,0012 1000 0,00025 Isolamento classe A 1,3 1470 0,0012 Isolamento classe B 2,3 1170 0,0015 – 0,002 Material Óleo de Transformadores 17 Térmica [W/ºC.cm] O conhecimento da geometria, das condições fronteira e das características dos materiais, permite a integração da equação 2.12 e, portanto, permite também determinar a distribuição e a evolução da temperatura no material, resultante da existência de libertação de perdas e da sua transmissão por um processo de condução. Este modelo térmico de parâmetros distribuídos permite determinar localmente os valores das temperaturas e, portanto, permite conhecer onde ela atinge o valor mais elevado. Sem dúvida que, no projecto de um equipamento, este conhecimento é importante. Mas, para os seus utilizadores, é suficiente avaliar as possibilidades deste funcionar em diversos regimes de trabalho, sem ultrapassar os limites de temperatura admissíveis nos materiais envolvidos na sua construção. 2.2.2. Modelo de Parâmetros Concentrados Um modelo baseado em 2.12 tem uma utilização difícil devido à complexidade da geometria dos conversores, à diversidade e heterogeneidade dos materiais utilizados, à quantificação da distribuição espacial das perdas e, também, porque deve ainda contabilizar outros processos de transmissão de calor, nomeadamente os processos de convecção em que há simultaneamente transporte de massa e por radiação. Por esta razão interessa estabelecer um modelo térmico simplificado. Com esta finalidade procede-se como na teoria dos circuitos, isto é, constrói-se uma representação por parâmetros concentrados, elementos ideais, que contabilizam de uma forma global os diversos processos térmicos "microscópicos". 2.2.2.1. Resistência térmica Para concretizar, considere-se o processo de condução num sistema unidimensional, como o representado na figura 2.2 em que as trocas de energia com o exterior se processam apenas através das superfícies S1 e S2, caracterizadas respectivamente pelas temperaturas θ1 e θ2. Neste sistema considera-se ainda que não há “libertação” de perdas no seu interior, não há acumulação de energia e a densidade de fluxo de calor tem um valor constante. Nestas condições idealizadas e recorrendo a 2.11 determina-se a equação 2.13, onde A é a área das superfícies e l a distância entre elas que relaciona a variação de temperatura no corpo devida à “passagem” de um fluxo de calor pc por unidade de tempo. Esta situação é análoga à da resistência num circuito eléctrico e corresponde-lhe a inclusão de um elemento ideal - a resistência térmica, (2.14). pc = kA (θ1 − θ 2 ) l 18 (2.13) ∆θ = (θ1 − θ 2 ) = l pc = Rth pc kA (2.14) Figura 2.1 - Processo de condução unidimensional. 2.2.2.2. Capacidade térmica Para representar o processo de acumulação de energia usa-se a relação 2.6 e assume-se um valor de temperatura média para todo o corpo. Assim, para todo o volume do corpo e sendo Cth = CpρV a capacidade térmica do corpo, expressa em J/°C, a variação energia interna por unidade de tempo – energia acumulável – determina-se usando a equação 2.15. pa = Cth d∆θ dt (2.15) 2.2.2.3. Convecção e Radiação Para o estabelecimento de um modelo térmico para as máquinas eléctricas pode-se também contabilizar outros processos de transmissão de calor para além da condução térmica. Em particular a transferência de calor por convecção que ocorre com as trocas de calor com o meio ambiente. Neste caso, há transporte de matéria, vulgarmente ar, o qual se torna menos denso quando aquecido e, por esta razão, tende a subir para camadas mais altas e o ar mais frio a ocupar as camadas inferiores. Outro processo de transferência de calor que também se pode considerar é o efeito da transmissão de calor por radiação, que consiste na transmissão de energia por intermédio de ondas electromagnéticas. Neste trabalho, as transferências de calor por convecção e radiação não são consideradas explicitamente, no entanto é apresentado um capítulo onde se verifica a importância da convecção para o arrefecimento das máquinas eléctricas. Estando caracterizados os processos de acumulação e de transferência de calor, pode obter-se um modelo simplificado considerando em primeira aproximação o sistema electromecânico como um corpo homogéneo 19 em cujo interior se verifica o desenvolvimento de uma potência de perdas pp. Se esse corpo trocar com o meio exterior uma potência pd, o balanço de energia traduz-se pela equação 2.16, onde pa representa a potência térmica acumulada no seu interior. p p = pa + pd (2.16) Com os resultados anteriores, nomeadamente 2.14, 2.15, a equação 2.16 escreve-se na forma 2.17 em que intervém a constante de tempo térmica (2.18) e onde αe deve contabilizar os diversos processos de transferência de calor (nomeadamente a condução, e se forem consideradas, a convecção e radiação). τθ p d∆θ + ∆θ = p dt αe A τθ = Cth αe A (2.17) (2.18) Quando o conversor é sujeito a um regime de funcionamento contínuo em que o valor das perdas é constante, a elevação de temperatura é dada pela expressão 2.19 e corresponde-lhe o andamento padronizado representado na figura 2.2. Em regime estacionário, a elevação de temperatura depende fortemente do valor global das perdas e também da área da superfície de arrefecimento. ∆θ = pp αe A (1 − e − t τθ ) Figura 2.2 - Evolução padronizada do aquecimento do conversor 20 (2.19) Quando as perdas se anulam, o conversor arrefece com um andamento dado pela relação 2.20 e representado na figura 2.3. Salienta-se, uma vez mais, que o modelo apresentado é um modelo global que não considera a distribuição interna das temperaturas nem a propagação do calor no interior do conversor. Por isso, deve haver cautela na interpretação dos resultados obtidos com este modelo. ∆θ = ∆θ i e − t τθ (2.20) Figura 2.3 - Evolução padronizada do arrefecimento do conversor. Em várias situações importa ter um processo expedito para avaliar os parâmetros do modelo térmico recorrendo à informação disponibilizada pelo fornecedor do equipamento. 21 3. Instrumentação do Transformador Para a realização de ensaios laboratoriais, foi necessário proceder à instrumentação de um transformador, ou seja, foi necessária a colocação de sensores de temperatura em vários locais do transformador, (nomeadamente entre os enrolamentos), de modo a ser possível o registo da temperatura ao longo da realização do ensaio. O transformador utilizado, foi um transformador seco, monofásico de 1kVA e tensão nominal igual a 240/120V. Este possui três enrolamentos, sendo o enrolamento interior (mais próximo do núcleo de ferro) designado por enrolamento A. O enrolamento A possui 224 espiras dispostas por cinco camadas, possuindo um comprimento de 72,1m. Entre o enrolamento A e os restantes enrolamentos, existe uma separação de 6mm, criada com o intuito de se avaliar o impacto da convecção forçada na dinâmica térmica do transformador. Nos enrolamentos exteriores, designados por B e C, a tensão nominal é de 120V que quando ligados em série permitem obter uma relação de transformação 1:1. Ambos os enrolamentos possuem 112 espiras dispostas por 2,5 camadas, no entanto, o enrolamento C, como é o mais exterior, possui 46,7m enquanto que o enrolamento intermédio, o enrolamento B, possui 43,7m. De referir que todos os enrolamentos são de cobre esmaltado com 1,6mm de diâmetro, possuindo o esmalte uma espessura de 0,1mm. Tabela 3.1 – Características dos enrolamentos Enrolamento Nº Camadas Nº Espiras por Camada Comprimento total [m] A 5 47+47+46+46+38 72,1 B 2,5 48+45+19 43,7 C 2,5 21+48+43 46,7 Como sensores de temperatura, foram utilizados termopares do tipo J. Optou-se por este tipo de termopares devido ao seu baixo custo, dimensões (para a colocação de sensores no interior dos enrolamentos estes têm que ser muito pequenos) e pelo facto de possuírem uma característica linear na gama de temperaturas utilizadas. Para se obter o valor da tensão aos terminais dos termopares é necessário a temperatura da junção de referência e como a tensão aos terminais dos termopares é inferior a 5mV (para a gama de temperaturas utilizada) foi necessário ligar os terminais dos termopares ao integrado AD594AQ [3] de modo a este gerar a temperatura da junção de referência, bem como a efectuar uma amplificação do sinal dos termopares (ver anexo 10.1). 22 Foram utilizados nove termopares, designados de T1 a T9 e a sua localização no transformador encontra-se representada na figura seguinte. Figura 3.1 – Localização dos termopares De notar que os enrolamentos estão colocados numa forma de 3mm de espessura, estando esta situada entre o núcleo de ferro e os enrolamentos. Esta não se encontra representada na figura 3.1 de modo a não sobrecarregar a imagem. Pela observação da figura anterior, é possível verificar que T1 encontra-se entre o núcleo de ferro e o enrolamento A, T2 encontra-se no meio do enrolamento A e T3 está situado da parte exterior do enrolamento A. 23 O termopar T4 foi colocado na parte interior do enrolamento B, T5 foi colocado entre o enrolamento B e o enrolamento C ficando o termopar T6 na parte exterior do enrolamento C. Note-se que todos os termopares referidos até aqui se encontram situados “debaixo do núcleo de ferro”. Pelo contrário, os termopares T7 e T8 estão fora da “janela” do núcleo, estando ambos situados entre os enrolamentos B e C, mas com a particularidade de T8 se encontrar mais próximo do exterior dos enrolamentos. No núcleo de ferro, não é possível colocar termopares no seu interior para se efectuar o registo da temperatura, no entanto, colocou-se um termopar (T9) na parte superior do núcleo de ferro de modo a ser possível verificar a sua temperatura. Para se realizar ensaios de varias horas e para ser possível guardar o valor da temperatura de cada termopar, recorreu-se a um sistema de aquisição de dados da marca National Instruments® disponível no laboratório. Uma vez que os termopares são extremamente sensíveis ao ruído, o sinal obtido pelo sistema de aquisição de dados é posteriormente filtrado por intermédio da função filter disponibilizada no Matlab®. 24 4. Identificação de Zonas Homogéneas Um transformador possui na sua constituição vários tipos de materiais, nomeadamente cobre, ferro e vários tipos de isolamento. Cada um dos materiais possui características térmicas diferentes, como tal, será de esperar que a temperatura no transformador não seja a mesma para diferentes pontos deste. Neste capítulo pretende-se identificar as zonas homogéneas de temperatura bem como identificar o ponto de temperatura mais elevada no transformador. O modelo de parâmetros concentrados apresentado no capítulo 2 (2.2.2) é um modelo extremamente simplificado e que apenas permite prever o andamento da temperatura para um único ponto do transformador, (naturalmente o ponto considerado será o ponto mais quente). Ao realizar-se um ensaio no transformador, por exemplo um ensaio em curto-circuito, verifica-se que a temperatura do transformador não é homogénea, existindo zonas de temperatura mais elevada e zonas onde a temperatura é mais baixa. Na figura 4.1 é apresentada a variação de temperatura para um ensaio em curto-circuito. Figura 4.1 – Variação de temperatura, ensaio em CC. Observações: Devido ao sistema de aquisição de dados apenas possuir oito entradas, foram efectuados dois ensaios nas mesmas condições. Um ensaio para registar os valores dos termopares T1 a T8 e outro para registar os valores do termopar T9. Por observação da figura anterior, é possível verificar a não homogeneidade da temperatura no transformador, verificando-se que esta é mais baixa no núcleo de ferro 25 (T9). Nos enrolamentos de cobre, a temperatura é mais baixa no enrolamento A (T1), subindo progressivamente à medida que nos vamos afastando em direcção aos enrolamentos exteriores, atingindo o seu ponto mais alto (para o ensaio em curto circuito), no enrolamento B (T4 e T5) e voltando a baixar na parte exterior do enrolamento C. A titulo exemplificativo apresenta-se nas figuras 4.2 e 4.3 a temperatura no interior dos enrolamentos, bem como a sua variação à medida que nos vamos afastando para as camadas exteriores do cobre. Figura 4.2 – Temperatura no interior dos enrolamentos na zona central do transformador Figura 4.3 – Variação da temperatura em função das camadas de cobre na zona central do transformador 26 Note-se que as figuras 4.2 e 4.3 são obtidas recorrendo a programas de simulação que resolvem as equações do modelo de parâmetros distribuídos apresentadas no capítulo 2.2.1. Na figura 4.2, para simplificação da simulação, apenas se representa a zona central do transformador, ou seja, a zona onde se encontram os termopares T1 a T6. Observando-se a figura 4.3, é possível verificar que a variação de temperatura ocorre no material isolante, enquanto que no cobre e no ferro esta se mantém praticamente uniforme. As diferenças de temperatura verificadas nas figuras anteriores, podem ser explicadas recorrendo à figura que se segue, onde se encontra representado o fluxo de calor na zona em análise. Figura 4.4 – Fluxo de calor no transformador Das figuras mostradas anteriormente, é possível verificar que neste ensaio, o núcleo de ferro aquece muito pouco quando comparado com os enrolamentos. Devido à sua grande superfície de contacto com o meio exterior, este actua como um dissipador de calor dos enrolamentos, explicando-se assim o facto de junto ao núcleo se verificar um ponto onde a temperatura é mais baixa. À medida que nos vamos afastando do núcleo, a temperatura do enrolamento A vai subindo, pois o fluxo de calor terá mais dificuldade em escoar devido à existência de varias camadas de material isolante. Como já foi referido, a temperatura mais elevada verifica-se no enrolamento B, o que seria de esperar pois trata-se de um enrolamento interior possuindo à sua volta várias camadas de material isolante, sendo por isso difícil de escoar o calor. Para além 27 disso, o enrolamento B ligado em série com o enrolamento C, possui mais 18 metros de comprimento que o enrolamento A. Existindo mais cobre, para um determinado valor de corrente existem mais perdas, logo a temperatura será superior. Na parte exterior do enrolamento C, a temperatura volta a diminuir, pois tratando-se de uma região exterior do enrolamento, o calor é facilmente dissipado para o meio ambiente. A separação entre os enrolamentos A e B revela-se ineficiente, pois a forma onde são bobinados os fios de cobre acaba por cobrir uma boa parte desta separação, não se verificando uma convecção muito eficiente. Para além disso os termopares encontram-se colocados debaixo da janela do núcleo de ferro onde a convecção é sentida com menor intensidade. Relativamente aos termopares T7 e T8, que não se encontram debaixo do núcleo de ferro, ao analisarmos a figura 4.1, verificamos que T7 apresenta uma temperatura idêntica à registada por T5, pois ambos se encontram situados entre os enrolamentos B e C e juntos à mesma espira, no entanto, T8 regista uma temperatura substancialmente mais baixa, pois está situado mais próximo do exterior, indicando que a temperatura não é uniforme ao longo das espiras da mesma camada, sendo superior na zona central do enrolamento e diminuindo à medida que nos deslocamos para as espiras mais próximas do exterior. De tudo o que foi observado constata-se que o transformador possui varias zonas com temperaturas diferentes, indicando claramente a sua não homogeneidade de temperatura. No entanto, torna-se difícil efectuar-se o estudo do transformador tendo em consideração todas as diferentes temperaturas. De modo a ser possível estabelecer um modelo de parâmetros concentrados, considerar-se-á então zonas onde se verifica uma homogeneidade a nível dos materiais utilizados, bem como zonas onde se situam as fontes de calor e recorrendo ao número de Biot [14] é possível estabelecer um critério onde se pode afirmar que uma determinada região do transformador se assume como tendo temperatura homogénea. Pode então assumir-se que a temperatura é uniforme se o número de Biot (NB) for inferior a 0,1 (equação 4.1). Isto significa que a resistência interna de condução é muito menor que a resistência de convecção à superfície do corpo. NB = h× L k onde 28 (4.1) L= V A (4.2) Na equação 4.1, h é o coeficiente de transmissão de calor por convecção, L é a relação entre o volume do corpo (V) e a área da sua superfície (A) e k é a condutividade térmica. Conhecendo-se a geometria do transformador e as propriedades dos materiais que o constituem, é possível determinar o número de Biot para as diferentes zonas do transformador. Assim sendo, para o núcleo de ferro, obteve-se um valor igual a 6x10-3, sendo este valor de 1,4x10-3, 1,5x10-3 e 60x10-6 para os enrolamentos A, B e C respectivamente. Como o número de Biot é inferior a 0,1 podemos assumir que em cada uma das quatro zonas consideradas se verifica uma homogeneidade de temperatura sendo estas as regiões consideradas para a construção de um modelo de parâmetros concentrados. Note-se que em todas as zonas será tida em consideração o ponto mais quente. 29 5. Modelo de Parâmetros Concentrados Um dos objectivos deste trabalho consiste na determinação de um modelo de parâmetros concentrados de forma a ser possível a sua utilização de modo simples e com o menor erro possível. A utilização de modelos de parâmetros distribuídos revela-se pouco prática para geometrias complexas como a de um transformador e por vezes difícil de obter resultados devido aos recursos computacionais que exige. Tal como foi referido no capítulo anterior, são consideradas quatro zonas que devido aos materiais que as constituem e também devido ao facto de serem zonas onde se verifica a geração de calor se consideram homogéneas. A ideia inicial é caracterizar cada uma das regiões existentes no transformador por intermédio de um modelo o mais simples possível, ou seja, uma fonte de corrente (que corresponde à geração de calor nesse material), um condensador (para representar o processo de acumulação de energia) e uma resistência (com o intuito de representar a variação de temperatura no transformador devido à “passagem” de um fluxo de calor por unidade de tempo). Figura 5.1 – Modelo considerado para cada região 5.1. Caracterização dos Materiais do Transformador Todas as zonas do transformador podem ser caracterizados com os componentes exibidos na figura 5.1. No entanto, recorrendo às propriedades físicas dos materiais que as constituem, é possível efectuar algumas simplificações. Uma vez que o cobre e o ferro funcionam como fontes de calor, apenas estes possuem na sua representação em termos de parâmetros concentrados a fonte de corrente. O núcleo do transformador não é constituído apenas por ferro, sendo laminado este possui no seu interior material isolante. Nos fios de cobre, verifica-se exactamente a mesma situação uma vez que para os fios estarem isolados, são cobertos com uma resina com propriedades isolantes. 30 Recorrendo à equação 5.1, conhecendo a geometria e os materiais que constituem o transformador, é possível caracterizar com alguma precisão a capacidade térmica. Cth = ρVC p = mC p (5.1) No entanto, para o calculo da capacidade térmica, o material isolante pode ser desprezado considerando-se apenas o ferro ou o cobre. A título de exemplo, considerem-se os enrolamentos; por cada metro de fio, este possui cerca de 90% de cobre sendo os restantes 10% de material isolante. Considerando valores típicos de calor específico (Cp) e de densidade (ρ), apesar de o calor especifico do isolamento ser três vezes superior ao calor especifico do cobre, este ultimo possui uma massa cerca de trinta vezes superior à massa do isolamento, verificando-se assim uma capacidade térmica do cobre dez vezes superior à capacidade do material isolante. Assim sendo, é possível desprezar a contribuição do isolamento no cálculo da capacidade térmica dos enrolamentos. O mesmo tipo de raciocínio pode ser aplicado ao núcleo de ferro. No capítulo anterior, verificou-se que as diferenças de temperatura no transformador ocorrem no material isolante sendo este o principal factor para as não homogeneidades de temperatura. Em contrapartida, no ferro e no cobre a temperatura mantém-se praticamente constante. Este facto é explicado recorrendo ao coeficiente de condução térmica (k) dos materiais utilizados na construção do transformador, verificando-se por exemplo nos enrolamentos, que este valor é cerca de 1000 vezes maior no cobre que no isolamento. Por este motivo, para o cálculo da resistência térmica, apenas os materiais isolantes são considerados. Para representar as quatro zonas do transformador que se consideram homogéneas, apresenta-se na figura 5.2 o modelo de parâmetros concentrados proposto. Figura 5.2 – Modelo de Parâmetros Concentrados 31 Na figura anterior estão identificadas as diferentes zonas do transformador, representando ∆θi a variação de temperatura da zona i, Ci a capacidade térmica de cada região e Pi a potência injectada, ou dizendo de outra forma, Pi representa a fontes de geração de calor. As resistências Ri-j representam a dificuldade de passagem do fluxo de calor entre as zonas i e j, ou seja, a resistência à transferência de calor entre regiões que apresentam diferenças de temperatura. 5.2. Determinação dos Parâmetros do Modelo No capítulo 4 identificaram-se as zonas que se assumem como tendo uma temperatura homogénea. Neste capítulo pretende-se estudar com algum pormenor essas mesmas regiões e caracteriza-las em termos de parâmetros concentrados. As equações térmicas do modelo apresentado anteriormente são, na forma matricial, representadas pela equação 5.2. C× d∆θ + G × ∆θ = P dt (5.2) onde C representa a matriz das capacidades térmicas, ∆θ o vector da variação de temperatura para cada região do transformador, G a matriz das condutâncias térmicas e P o vector da fonte de calor para cada zona onde se verifica a geração de calor. Da equação 5.2, é possível verificar que em regime permanente se obtém a equação 5.3. G × ∆θ = P ⇔ ∆θ = G −1 × P ⇔ ∆θ = R × P (5.3) sendo R a matriz das resistências térmicas. Para resolver a equação 5.2, é necessário determinar os parâmetros do modelo. O vector P é um dado de entrada, podendo ser representado em função da carga a que o transformador se encontra sujeito, enquanto que o vector ∆θ representa a variação de temperatura para cada parte específica do transformador associado a uma determinada carga. Desta forma, existem duas variáveis a serem determinadas: a matriz das capacidades térmicas C, e a matriz das resistências térmicas R (a matriz G é obtida por inversão da matriz R). 32 5.2.1. Calculo das Capacidades Térmicas Tal como já foi referido, é possível determinar a capacidade térmica de cada região com alguma precisão, bastando para isso saber a sua geometria e as suas propriedades físicas. Tendo em conta as simplificações apresentadas no capitulo 5.1 e recorrendo à equação 5.1, obtém-se a capacidade térmica de cada zona: CNu = 6253,63 J/K, CA = 485,70 J/K, CB = 294,32 J/K, CC = 314,86 J/K sendo possível escrever a matriz C: C Nu 0 C= 0 0 0 CA 0 0 0 0 CB 0 0 0 0 CC (5.4) 5.2.2. Calculo das Resistências Térmicas O cálculo do valor das resistências térmicas apresenta-se ligeiramente mais complicado do que o cálculo das capacidades térmicas. Uma vez que a geometria do transformador é complexa, torna-se mais simples determinar o valor das resistências térmicas por intermédio de ensaios experimentais. Observando-se a equação de regime permanente (5.3) verifica-se que aquecendo cada uma das diferentes partes do transformador e medindo a variação de temperatura em todas as outras partes, é possíveis determinar o valor das resistências térmicas. Para se aquecer cada zona do transformador, recorreu-se a um ensaio em corrente continua, ou seja, injectando-se um valor conhecido de corrente, é possível determinar qual a potência do calor gerado em cada região (potência de perdas). Este tipo de ensaio é valido quando se pretende aquecer os enrolamentos. Uma vez que não é possível aquecer apenas o núcleo de ferro do transformador (é impossível aquece-lo sem que se aqueça também um dos enrolamentos), para se verificar o aquecimento do núcleo, recorreu-se a um ensaio em vazio onde se monitoriza a potência total injectada no transformador e a corrente que circula no enrolamento de excitação (enrolamento A). Deste ensaio verifica-se que a potencia de calor gerada pelo 33 enrolamento de excitação pode ser desprezada quando comparada com o calor gerado pelo núcleo. Assim sendo, e recorrendo aos ensaios mencionados, torna-se possível calcular os valores da matriz R. Para se determinar correctamente os valores da matriz R, é necessário que esta seja construída de acordo com circuito da figura 5.2. A matriz das resistências térmicas é então dada por: R Nu R R = Nu − A R Nu − B R Nu − C R Nu − A RA R Nu − B R A-B R A-B R A−C RB R B−C R Nu − C R A -C R B−C RC (5.5) onde na diagonal principal se representam todas as resistências ligadas a uma determinada zona (Nu, A, B e C) e fora da diagonal principal encontram-se representadas as resistências térmicas entre cada duas regiões do transformador. Na equação 5.6 apresentam-se os valores obtidos experimentalmente para a matriz R. 0.65 0.66 R= 0.54 0.53 0.66 0.54 0.53 2.33 1.42 1.42 1.42 2.19 2.18 1.42 2.18 2.19 (5.6) 5.3. Simplificação do Modelo de Parâmetros Concentrados No último sub-capítulo calculou-se o valor dos parâmetros do modelo, obtendo-se assim a matriz C e a matriz R. No entanto, observando-se com atenção os resultados obtidos para a matriz R, verifica-se que a terceira e a quarta coluna possuem valores muito próximos, (uma vez que a matriz é simétrica verifica-se o mesmo para terceira e quarta linha). Tal facto já seria de esperar, uma vez que a zona mais quente dos enrolamentos B e C se encontra precisamente na região de junção destes dois enrolamentos, ou seja, no ponto onde se colocou o termopar T5. O facto das duas ultimas linhas (colunas) serem iguais, significa que elas não são linearmente independentes e representam o mesmo ponto. 34 Assim sendo, este resultado permite-nos efectuar uma simplificação no modelo proposto e em vez de se considerar os enrolamentos B e C como zonas diferentes, passa-se a assumir que estes enrolamentos constituem uma única zona homogénea. Dada a simplificação considerada, o modelo de parâmetros concentrados passa a ser constituído apenas por três regiões homogéneas: o núcleo de ferro, o enrolamento A e a união dos enrolamentos B e C, que se passa a designar por BC. Como apenas se consideram três zonas homogéneas, torna-se necessário reescrever as matrizes C e R. Para o cálculo da matriz C, basta somar o valor de CB e CC, obtendo-se assim o valor da capacidade do enrolamento BC, passando C a ser dada pela equação 5.7. C Nu C = 0 0 0 6253.63 0 0 0 = 0 485.70 0 C BC 0 0 609.18 0 CA 0 (5.7) No cálculo da matriz R, uma vez que os valores obtidos anteriormente para os enrolamentos B e C correspondem ao mesmo ponto, basta nas duas primeiras linhas (colunas) da matriz 5.6 calcular o valor médio das duas ultimas colunas (linhas), obtendo-se assim o valor de RNu-BC e RA-BC. Para se obter o valor de RBC, basta calcular a media de RB, RC e RB-C, passando então a matriz R a ser dada por 5.8. R Nu R = R Nu − A R Nu − BC R Nu − A RA R A − BC R Nu − BC 0.65 0.66 0.54 R A − BC = 0.66 2.33 1.42 R BC 0.54 1.42 2.19 (5.8) Por inversão da matriz R é possível obter a matriz das condutâncias térmicas G. G Nu − Ar + G Nu − A + G Nu − BC R = G = − G Nu − A − G Nu − BC −1 − G Nu − A G A − Ar + G Nu − A + G A − BC − G A − BC 2.23 − 0.49 − 0.23 = − 0.49 0.82 − 0.41 − 0.23 − 0.41 0.78 − G Nu − BC − G A − BC = G BC − Ar + G A − BC + G Nu − BC (5.9) Por aplicação das leis de Kirchhoff ao circuito da figura 5.3 (método dos nós), na diagonal principal da matriz das condutâncias térmicas, surgem as condutâncias próprias 35 (soma de todas as condutâncias ligadas a esse nó), enquanto que fora da diagonal principal, surgem as condutâncias térmicas entre cada dois nós considerados (equação 5.9). Na figura seguinte representa-se o modelo térmico com as simplificações consideradas até este momento. Figura 5.3 – Modelo Simplificado (primeira simplificação) No entanto, é ainda possível simplificar um pouco mais o modelo apresentado. Para tal basta considerar os valores obtidos para a matriz G; observando a primeira e a ultima coluna (linha) desta matriz, verifica-se que a soma dos elementos fora da diagonal principal é inferior ao valor obtido na diagonal principal, sendo assim possível determinar o valor de GNU-Ar e GBC-Ar. GNu-Ar = 1,51 W/K, GBC-Ar = 0,14 W/K Ao comparar estes dois valores, verifica-se que GNU-Ar é cerca de dez vezes maior que GBC-Ar, querendo-se dizer com isto que o núcleo de ferro dissipa muito mais calor directamente para o ar do que o enrolamento BC. No entanto, para a segunda coluna (linha), verifica-se que a soma de todos os elementos é aproximadamente igual a zero (a soma apresenta uma diferença de 0.08 W/K, sendo este valor resultado das aproximações efectuados). Isto significa que GA-Ar tem um valor próximo de zero, ou seja, praticamente todo o calor gerado pelo enrolamento A será dissipado para as outras partes do transformador, não se verificando dissipação directa para o ar. Estes factos vêm confirmar a ideia apresentada no capítulo 4 em que a maior parte do calor gerado pelo transformador é dissipado pelo núcleo de ferro, funcionando este como dissipador de calor. 36 Na figura 5.4, apresenta-se o modelo de parâmetros concentrados com todas as simplificações consideradas. Figura 5.4 – Modelo de Parâmetros Concentrados (simplificado) CNu = 6253,63 J/K, CA = 485,70 J/K, CBC = 609,18 J/K, GNu-Ar = 1,51 W/K, GNu-A = 0,49 W/K, GNu-BC = 0,23 W/K, GA-BC = 0,41 W/K, GBC-Ar = 0,14 W/K Este modelo será alvo de estudo nos próximos capítulos, onde se verificará qual o seu erro, bem como se analisará o seu comportamento para diversas situações de funcionamento do transformador. 37 6. Simulações e Resultados Para testar o modelo descrito no capítulo anterior, realizaram-se várias simulações e ensaios experimentais com objectivos diferentes. Inicialmente, apresenta-se um ensaio em regime permanente e respectiva simulação, tendo como objectivo validar o modelo e caracterizar o erro numa situação em que o transformador se encontra em funcionamento nominal. De seguida realiza-se um ensaio, designado como “Regime de Carga Variável”. Com este ensaio pretende-se quantificar o erro do modelo para diversas situações de carga. Efectua-se também um estudo para situações de sobrecargas e curto-circuitos, onde se dará particular relevo ao dimensionamento térmico dos transformadores. Finalmente, apresenta-se alterações ao modelo proposto para situações em que se sujeita o transformador a um sistema de arrefecimento com convecção forçada. No que diz respeito aos resultados que serão de seguida apresentados salienta-se, desde já, a existência de um tremor nas evoluções dos ensaios experimentais da temperatura. Este tremor, tal como já foi referido, deve-se ao facto dos termopares serem extremamente sensíveis ao ruído. Os resultados apresentados foram filtrados por intermédio de um filtro passa baixo, no entanto, no dimensionamento do filtro, teve que ser ter em conta a largura de banda deste, de modo a que o processo de filtragem dos dados não interferisse com as curvas da dinâmica térmica do transformador. Em todos os ensaios experimentais ligou-se em série os enrolamentos B e C do transformador, de modo a se possuir uma relação de transformação 1:1. Deste modo é possível verificar e quantificar as perdas máximas no transformador bem como qual a temperatura máxima atingida por este, pois todos os enrolamentos funcionam como fonte de calor. 6.1. Funcionamento em Regime Permanente Para este ensaio, colocou-se o transformador a fornecer energia a uma carga resistiva à potência nominal, efectuando-se o registo da temperatura nas diversas partes do transformador até que esta atingisse o regime permanente. De seguida, efectuou-se uma simulação com o modelo apresentado anteriormente de modo a se proceder à sua validação. Na figura 6.1, apresenta-se os resultados obtidos experimentalmente e por simulação. 38 Figura 6.1 – Ensaio em Regime Permanente Da figura anterior, verifica-se que os resultados obtidos por simulação se aproximam dos valores obtidos experimentalmente. Observa-se também que o transformador em estudo apresenta uma variação máxima de temperatura, para o funcionamento à potência nominal, da ordem de 58ºC para os enrolamentos de cobre e 28ºC no núcleo de ferro. Tal como seria de esperar, constata-se que a dinâmica térmica dos enrolamentos é diferente da dinâmica térmica do núcleo de ferro, sendo as suas constantes de tempo da ordem de 3600 (1 hora) e 8200 segundos (2 horas e 18 minutos), respectivamente. Para este ensaio, verificou-se que as perdas no enrolamento A são da ordem dos 10,4W sendo de 13,9W para o enrolamento BC, verificando-se esta diferença devido ao facto do enrolamento BC ter um comprimento superior (ver tabela 3.1). Através de um ensaio em vazio (realizado para o cálculo dos parâmetros do modelo), verificou-se que as perdas no núcleo são da ordem dos 20W. Tabela 6.1 - Erros máximos do ensaio Temperatura Simulado Experimental |Erro absoluto| Erro relativo % TNu 9,5ºC 8,0ºC 1,5ºC 18,8 TA 44ºC 41ºC 3ºC 7,3 TBC 44ºC 41ºC 3ºC 7,3 39 Na tabela 6.1, apresenta-se o erro máximo deste ensaio, verificando-se que este ocorre durante o regime transitório. Note-se que o erro relativo no núcleo de ferro é elevado neste ensaio, no entanto, verifica-se que ocorre para temperaturas relativamente baixas e com um erro absoluto baixo. Em contrapartida, o erro relativo nos enrolamentos de cobre é menor, mas ocorrendo um aumento do erro absoluto. Após se estabelecer o regime permanente de temperatura o erro diminui para valores inferiores a 3,5% no núcleo e 3,8% nos enrolamentos. 6.2. Funcionamento em Regime de Carga Variável Contrariamente ao que se analisou no capítulo anterior, em que apenas se analisou um regime de funcionamento do transformador, pretende-se com este ensaio verificar o comportamento do modelo para diversas situações de carga. Para tal, realizou-se um ensaio em que estando o transformador inicialmente desligado e à temperatura ambiente, se liga uma carga resistiva de modo a que a corrente nos enrolamentos possua um valor da ordem de 25% da corrente nominal, deixando-o em funcionamento durante cerca de quatro horas. Figura 6.2 – Ensaio em Regime de Carga Variável 40 Passado este tempo, aumenta-se a corrente para cerca de 50% da corrente nominal, permanecendo o transformador neste regime durante mais de duas horas, altura em que se desliga por completo o transformador deixando-o arrefecer. Posteriormente, volta-se a ligar o transformador elevando-se a corrente de carga a um valor de 75% da corrente nominal. Finalmente, retira-se a carga deixando-o a funcionar em vazio. Na figura 6.2, apresentam-se os resultados obtidos experimentalmente e por simulação deste ensaio. Globalmente, verifica-se que o resultado obtido por simulação tem um andamento idêntico ao resultado experimental. Nas tabelas seguintes, calculam-se os erros máximos da simulação para cada uma das situações de funcionamento atrás descritas. Tabela 6.2 - Erros máximos do ensaio – 0,25*IN Temperatura Simulado Experimental |Erro absoluto| Erro relativo % TNu 10,3ºC 9,5ºC 0,8ºC 8,4 TA 10,2 9,3ºC 0,9ºC 9,6 TBC 9,3ºC 8,6ºC 0,7ºC 8,1 Tabela 6.3 - Erros máximos do ensaio – 0,5*IN Temperatura Simulado Experimental |Erro absoluto| Erro relativo % TNu 17,3ºC 18,6ºC 1,3ºC 6,9 TA 17,7ºC 16,7ºC 1ºC 5,9 TBC 17,6ºC 16,5ºC 1,1ºC 6,6 Tabela 6.4 - Erros máximos do ensaio – Desligado Temperatura Simulado Experimental |Erro absoluto| Erro relativo % TNu 1,9ºC 4,1ºC 2,2ºC 53,7 TA 2,6ºC 4,7ºC 2,1ºC 44,7 TBC 2,3ºC 4,5ºC 2,2ºC 48,9 Para um valor de corrente na carga de 25% da corrente nominal do transformador, verifica-se que o erro relativo é da ordem de 9%, verificando-se uma diminuição deste ao se aumentar a corrente para 50% do valor nominal. Quando se desliga o transformador, o erro relativo atinge valores da ordem de 50%. No entanto repare-se 41 que a temperatura obtida experimentalmente possui valores inferiores a 5ºC, sendo este valor da ordem do erro associado à leitura dos termopares (3ºC). Pela tabela 6.5, verifica-se que com o aumento da potência e consequente aumento da temperatura, o erro relativo diminui para um valor inferior a 5%. Tabela 6.5 - Erros máximos do ensaio – 0,75*IN Temperatura Simulado Experimental |Erro absoluto| Erro relativo % TNu 15,8ºC 16,5ºC 0,7ºC 4,2 TA 46,4ºC 45,1ºC 1,3ºC 2,9 TBC 45,3ºC 43,9ºC 1,4ºC 3,1 Tabela 6.6 - Erros máximos do ensaio – Vazio Temperatura Simulado Experimental |Erro absoluto| Erro relativo % TNu 14,5ºC 14,8ºC 0,3ºC 2,0 TA 16,7ºC 16,0ºC 0,7ºC 4,3 TBC 13,8ºC 13,5ºC 0,3ºC 2,2 Globalmente verifica-se que o modelo apresenta erros inferiores a 10%, salvo os casos em que o valor da variação de temperatura no transformador se aproxima do valor do erro de leitura dos termopares. Salienta-se o facto de neste ensaio se verificar a propagação do erro, ou seja, ao se alterar o regime de funcionamento do transformador, o erro associado ao regime de funcionamento anterior irá ter influencia para o cálculo computacional da variação da temperatura nos regimes seguintes. Esta propagação do erro torna-se significativa a nível de cálculo do regime transitório de temperatura (nomeadamente no valor das condições iniciais). À medida que nos aproximamos do funcionamento em regime permanente, o erro associado às situações de carga anteriores deixa de ser significativo. 6.3. Sobrecargas e Curto-Circuitos Nos capítulos anteriores, foram analisadas situações de funcionamento do transformador em regimes de carga igual ou inferiores à sua potência nominal. Estas situações não apresentam risco para o transformador, uma vez que este deverá ter sido dimensionado para suportar estas variações de temperatura. No entanto, ao longo da vida de um transformador e em determinadas situações, este poderá ser sujeito a regimes de funcionamento superiores ao nominal. Estes 42 regimes de funcionamento poderão ser propositados, tal como situações de sobrecargas temporárias ou podem ocorrer devido a defeitos, tal como situações de curto-circuito. Neste capítulo pretende-se estudar qual a capacidade máxima de sobrecarga dum transformador, efectuando-se ensaios e simulações computacionais, de modo a que se possa garantir o normal funcionamento do transformador e evitar avarias no mesmo. Relativamente aos curto-circuitos, torna-se importante este estudo principalmente para o dimensionamento das protecções do transformador, de modo a que estas possuam um tempo de actuação suficientemente rápido, evitando que ocorram danos no transformador. 6.3.1. Sobrecargas Na figura 6.3 mostra-se o resultado experimental e computacional obtido para um ensaio em que o transformador se encontra a funcionar à potência nominal, sujeitando-o depois a uma sobrecarga temporária, elevando-se a corrente a um valor 10% superior ao da sua corrente nominal. Posteriormente, reduz-se a corrente até esta possuir um valor de 90% do seu valor nominal. Figura 6.3 – Ensaio em Sobrecarga 43 Naturalmente, ao se verificar a sobrecarga aumentando-se a corrente no transformador em 10%, verifica-se um aumento das perdas nos enrolamentos da ordem de 20% e o consequente aumento de temperatura. Como se pode observar na tabela que se segue o erro dos valores simulados, para o ponto mais quente, é da ordem dos 2% para os enrolamentos e 3% para o núcleo de ferro. Tabela 6.7 - Erros máximos do ensaio – Ponto Mais Quente Temperatura Simulado Experimental TNu 30ºC 31ºC 1ºC 3,1 TA 66,1ºC 67,3ºC 1,2ºC 1,8 TBC 65,1ºC 64,2ºC 0,9ºC 1,4 |Erro absoluto| Erro relativo % Para o estudo das situações de sobrecargas temporárias, um modelo que calcule qual a variação de temperatura com um erro baixo revela-se particularmente útil, ou seja, dado um regime de funcionamento do transformador, é possível determinar com alguma precisão a temperatura máxima do ponto mais quente do transformador, se este for sujeito a uma sobrecarga, bem como qual o tempo máximo que o transformador pode estar sujeito à sobrecarga sem que se verifiquem danos no isolamento. Este modelo também poderá ser útil a nível de dimensionamento térmico do transformador, pois conhecendo-se o valor máximo da temperatura atingida torna-se possível o fabrico de transformadores de dimensão mais reduzida evitando-se assim o sobredimensionamento generalizado a que as maquinas eléctricas se encontram sujeitas. A título de exemplo, considere-se o transformador disponível no laboratório; tal como já foi referido, à potência nominal este possui uma potência de perdas de 20W no núcleo, sendo estas de 10,4W e 13,9W nos enrolamentos A e BC, respectivamente. Uma vez que este transformador possui isolamentos de classe H, este pode ser sujeito a uma variação de temperatura máxima de 125ºC sem ocorram danos no material isolante. Salienta-se o facto de se considerar para o isolamento tipo H, uma variação de temperatura máxima de 125ºC a uma temperatura ambiente de 40ºC e uma margem de erro de 15ºC para a temperatura do ponto mais quente, querendo-se dizer com isto que o ponto mais quente poderá atingir a temperatura máxima absoluta de 180ºC. A figura 6.4 representa uma simulação em que inicialmente o transformador se encontra em regime de funcionamento nominal, aumentando-se posteriormente as perdas nos enrolamentos por um factor de 2,5 ficando o enrolamento A com perdas de 26W e o enrolamento BC com perdas de 34,8W. As perdas no núcleo de ferro podem ser 44 consideradas constantes uma vez que estas apenas dependem do valor da tensão de alimentação. Como se pode observar, o modelo prevê que a variação de temperatura nos enrolamentos atinja o limite máximo admissível, ou seja os 125ºC. Assumindo que a resistência dos enrolamentos de cobre não varia com a temperatura, é possível calcular o valor teórico da corrente que os percorre para a situação que se está a considerar, verificando-se que esta possui um valor de 6,6 amperes. Figura 6.4 – Sobrecarga Máxima Uma vez que a corrente nominal do transformador é de 4,16 amperes, uma corrente de 6,6 amperes corresponde a um aumento de 58% na corrente nominal do transformador, indicando que pelo menos a nível térmico, o transformador disponível no laboratório se encontra claramente sobredimensionado. Na simulação anterior, mostrou-se um caso extremo de sobrecarga, em que o transformador se encontra sujeito a este regime durante um período de tempo suficientemente logo de modo a que a temperatura no transformador atinja o regime permanente. No entanto, é possível sujeitar o transformador a correntes superiores ao valor apresentado anteriormente, desde que não se exceda o tempo que a temperatura nos enrolamentos leva a atingir o seu valor máximo (125ºC). 45 O gráfico da figura 6.5 apresenta várias simulações para diferentes valores de corrente. Figura 6.5 – Tempo de Sobrecarga Nesta simulação, assume-se como ponto inicial a variação de temperatura em regime permanente, efectuando-se depois uma alteração da corrente nos enrolamentos multiplicando-a por um factor de 1.58, 1.7, 2 e 2.5. O caso em que a corrente nominal vem multiplicada por um factor de 1.58, já foi apresentado, sendo a situação de sobrecarga máxima. À medida que se vai aumentando o valor da corrente, verifica-se que a variação de temperatura atinge mais rapidamente o seu valor máximo. Para as situações consideradas nesta simulação, verifica-se que é possível sujeitar o transformador a uma corrente 70% superior à nominal durante um período máximo de aproximadamente 80 minutos (t3), diminuindo este tempo para 25 minutos se a corrente for o dobro da nominal (t2). Se a corrente tiver um valor de 2.5 vezes a nominal, o tempo de sobrecarga sem que se verifiquem danos no isolamento do transformador desce para 12 minutos (t1). Com esta simulação, pretende-se também realçar a importância relativa da dinâmica térmica do núcleo de ferro, ou seja, funcionando o núcleo como dissipador de calor, de que forma é que este contribui para o arrefecimento dos enrolamentos em situações de sobrecarga. 46 Observando novamente a figura 6.5, verifica-se que, para regimes de sobrecarga suaves (mais próximos do nominal), a constante de tempo térmica do núcleo tem um papel importante no arrefecimento global do transformador, ou seja, o calor gerado no transformador vai sendo lentamente dissipado pelo núcleo fazendo com que a temperatura no ponto mais quente suba de forma mais gradual. À medida que a sobrecarga vai sendo mais violenta (bastante superior ao funcionamento em regime nominal) o calor gerado pelos enrolamentos atinge valores muito elevados, fazendo aumentar rapidamente a sua temperatura. O calor gerado nos enrolamentos necessita de tempo para se propagar até ao núcleo, sendo depois dissipado por este. Como o tempo de aquecimento dos enrolamentos é bastante inferior ao tempo de propagação e dissipação do calor pelo núcleo, a temperatura no cobre irá subir muito mais rapidamente do que a temperatura no núcleo. Veja-se por exemplo o caso em que a corrente é 2.5 vezes a nominal. A temperatura no enrolamento BC demora cerca de 12 minutos (t1) a atingir o seu valor máximo. Nesse mesmo tempo, verifica-se que a temperatura no núcleo praticamente não sobe. A situação extrema de sobrecarga é um curto-circuito franco aos terminais do transformador, situação esta que será analisada no capítulo que se segue. 6.3.2. Curto-Circuitos Curto-circuito designa um percurso de baixa impedância, resultante de um defeito, através do qual se fecha uma corrente, em geral, muito elevada. Trata-se de uma situação anormal em sistemas de energia eléctrica, que requer acção imediata, face aos danos que dela podem resultar. As correntes de curto-circuito, causam fadigas térmicas que danificam os equipamentos por elas percorridos, mas também esforços electrodinâmicos que podem ser prejudiciais, em especial para as máquinas eléctricas. Torna-se, por conseguinte, importante desligar no mais curto espaço de tempo possível a secção da rede onde ocorre o defeito. A utilização de um modelo térmico eficaz permite calcular qual o tempo que um transformador pode estar sujeito a um defeito, sabendo-se com isso qual o tempo máximo de actuação das protecções. Na figura 6.6 ilustra-se uma situação de curto-circuito no secundário do transformador, onde a corrente possui um valor trinta vezes superior ao valor nominal. 47 Figura 6.6 – Curto-Circuito Franco Na figura é possível observar que o núcleo de ferro não tem tempo para aquecer, motivo pelo qual se pode desprezar a dinâmica deste, considerando-se apenas a dinâmica dos enrolamentos de cobre. Para o dimensionamento das protecções, verifica-se que o transformador pode permanecer ligado numa situação de defeito durante cerca de 2,75 segundos, tempo a partir do qual podem ocorrer avarias. Assim sendo, o tempo de actuação das protecções terá de ser obrigatoriamente inferior ao tempo referido. 6.4. Convecção Forçada Nos capítulos anteriores, apresentou-se um estudo da dinâmica térmica do transformador numa situação de convecção natural. Neste capítulo pretende-se apresentar um estudo introdutório da dinâmica térmica do transformador quando este se encontra sujeito a um regime de funcionamento com arrefecimento por convecção forçada. Tal como se pôde observar, o ponto mais quente do transformador, numa situação de funcionamento nominal, encontra-se localizado no interior dos enrolamentos de cobre. O arrefecimento com convecção forçada tem temperatura neste mesmo ponto. 48 como objectivo a diminuição da Para se efectuar o arrefecimento do ponto mais quente, colocou-se a questão da melhor localização de um ventilador, de modo a que o arrefecimento fosse o mais eficiente possível. A ideia inicial seria arrefecer directamente os enrolamentos de cobre uma vez que são estes que mais aquecem. Assim sendo, o transformador foi construído com uma separação entre os enrolamentos A e BC de modo a ser possível uma melhor circulação de ar nesta região do transformador, no entanto, esta separação revela-se ineficiente uma vez que a forma onde se encontram bobinados os enrolamentos cobre quase na totalidade esta separação, impossibilitando por completo um arrefecimento eficiente por convecção forçada. Como já foi referido ao longo deste relatório, observou-se que o núcleo de ferro actua como dissipador de calor. Tendo-se verificado este facto, optou-se por se colocar o ventilador a apontar directamente para o núcleo dissipando-se assim, de forma mais eficiente, o calor proveniente deste. Para se determinar os parâmetros do modelo, procedeu-se como descrito no capítulo 5, realizando-se ensaios em corrente continua de modo a se aquecer separadamente cada um dos enrolamentos de cobre e um ensaio em vazio para se aquecer apenas o núcleo de ferro. Deste modo, foi possível obter o valor dos parâmetros do modelo quando o transformador de encontra sujeito a um modo de arrefecimento com convecção forcada, sendo a matriz das resistências térmicas dada por 6.1. 0,23 0,25 0,21 R = 0,25 1,82 1,05 0,21 1,05 1,84 (6.1) Por inversão da matriz das resistências térmicas é então possível obter a matriz das condutâncias térmicas. 5,20 − 0,55 − 0,28 R −1 = G = − 0,55 0,88 − 0,44 − 0,28 − 0,44 0,83 (6.2) Ao se comparar os valores obtidos para a matriz G com convecção forçada (6.2) e para a matriz G com convecção natural (6.3), observa-se que quase todos os valores são próximos à excepção do valor obtido para a condutância própria do núcleo de ferro. 49 R −1 2,23 − 0,49 − 0, 23 = G = − 0,49 0,82 − 0,41 − 0,23 − 0,41 0,78 (6.3) Este facto já seria de esperar, uma vez que apenas se está a arrefecer o núcleo com convecção forçada está-se a aumentar o valor da condutância térmica entre o núcleo e o ar, GNu-Ar. Como a convecção forçada não se faz sentir noutras partes do transformador para além do núcleo de ferro, todos os outros valores das condutâncias não sofrem alterações significativas. Com o intuito de se comparar o andamento do modelo de parâmetros concentrados com convecção forçada com a evolução real da temperatura, realizou-se um ensaio em que o transformador se encontra inicialmente à temperatura ambiente, colocando-o depois à potência nominal de modo a que a temperatura deste suba até atingir o regime permanente. A figura 6.7 mostra os resultados experimentais e os resultados obtidos por simulação. Figura 6.7 – Ensaio em Regime Permanente – Convecção Forçada Ao se comparar os resultados obtidos com convecção forçada com os obtidos para o mesmo ensaio mas com convecção natural (figura 6.1), verifica-se a diminuição global da temperatura do transformador, indicando que o posicionamento escolhido para o 50 ventilador se revela eficiente. Neste ensaio observa-se que a variação máxima de temperatura nos enrolamentos de cobre é cerca de 43ºC enquanto que sem convecção forçada a variação de temperatura aumenta para 58ºC. Relativamente ao núcleo de ferro, verifica-se uma diminuição para 12ºC face aos 28ºC com convecção natural. Globalmente, com convecção forçada verifica-se uma diminuição de cerca de 15ºC em todo o transformador. Esta diminuição da variação de temperatura, revela-se particularmente útil em situações de sobrecarga, uma vez que possibilita que o transformador esteja sujeito a estas situações durante mais tempo. Para situações de defeito, como curto-circuitos, a localização escolhida para o ventilador pode não ser a melhor uma vez que apenas afecta a dinâmica térmica do núcleo. Tabela 6.8 - Erros máximos do ensaio – Convecção Forçada Temperatura Simulado Experimental TNu 5,8ºC 4,5ºC 1,3ºC 28,8 TA 28,5ºC 25,8ºC 2,7ºC 10,5 TBC 29,1ºC 26,5ºC 2,6ºC 9,8 |Erro absoluto| Erro relativo % Da tabela 6.8, onde é possível observar o erro do modelo, verifica-se um aumento deste quando comparado com o mesmo ensaio mas numa situação de convecção natural. Este aumento do erro deve-se ao facto de não se estar a modelar de forma correcta a convecção forçada, ou seja, representar fenómenos complexos como a convecção, que envolve o transporte de massa, apenas por uma resistência, pode não ser suficiente resultando daí um aumento do erro. 51 7. Envelhecimento e Redução de Vida Útil dos Transformadores O estudo e concepção de um modelo térmico de transformadores, tal como já foi referido, possui bastante utilidade para o estudo das sobrecargas de modo a ser possível determinar com precisão a temperatura máxima do ponto mais quente. No entanto, o efeito destas sobrecargas, podem levar ao envelhecimento prematuro dos materiais constituintes do transformador devido à elevada temperatura a que estes são sujeitos. O processo de envelhecimento do transformador não se deve apenas ao aumento de temperatura, mas é consequência da combinação de varias causas, nomeadamente, térmicas, eléctricas, químicas e mecânicas. No entanto, a questão que se coloca é: durante quanto tempo é possível possuir um transformador a funcionar até que ocorra uma falha? Tal como num ser vivo, a estimativa do tempo de vida de um transformador é de difícil quantificação, dependendo das condições a que este se encontra sujeito durante toda a sua vida. Quando a temperatura atinge valores elevados, as características de isolamento deterioram-se rapidamente, encurtando de forma significativa a vida útil da máquina eléctrica. Segundo [9], a degradação e o envelhecimento dos materiais isolantes representa cerca de 48% das causas de falha de um transformador. Neste capítulo, pretende-se efectuar uma introdução ao estudo do envelhecimento de transformadores, referindo-se no entanto que este tipo de estudos é aplicado a transformadores de potência elevada, não sendo este o caso do transformador disponível no laboratório. 7.1. Modelo de Diminuição de Vida Útil O modelo mais antigo para descrever o envelhecimento térmico dos materiais foi apresentado por Montsinger em 1930 [15]. Este modelo, parte do pressuposto que, se todas as outras influências puderem ser desprezadas, o isolamento irá sofrer um processo de deterioração de natureza química. Este processo é irreversível e leva o isolamento a um estado em que este perde as suas capacidades dieléctricas. De acordo com a lei de Arrhenius, a estimativa do tempo de vida dos materiais é dada por 7.1. β T .V . = e (α + ) T Nesta equação, T.V. é o tempo de vida do material, (7.1) α e β são constantes que dependem dos materiais utilizados no fabrico do isolamento e T é a temperatura absoluta. 52 Se se limitar a gama de valores de temperatura entre 80 e 140 graus centígrados é possível aproximar a expressão 7.1 pela expressão exponencial de Montsinger [10]: T .V . = Ae − pθ onde A e p são constantes e (7.2) θ é a temperatura em graus centigrados. No entanto, não existe apenas um único critério para estimar o tempo de vida dos materiais. Em 1948, foi apresentado por Dakin [16] as bases físicas para o estudo do envelhecimento térmico, tendo este estudado as leis que regem as reacções químicas que ocorrem nos materiais originando o seu envelhecimento. Como o critério adoptado pelas normas internacionais para estimar o tempo de vida dos materiais do transformador é o critério de Montsinger, será este que será apresentado neste estudo. Apesar de existirem vários critérios de estimativa, é possível estabelecer algumas comparações com base na taxa de envelhecimento, que no modelo de Montsinger se representa como sendo o inverso do tempo de vida. T .E. = Ke pθ (7.3) Na equação 7.3, K é uma constante e depende de vários factores, nomeadamente da qualidade dos materiais e das condições ambientais a que estes são expostos. Contudo, independentemente destes factores, o coeficiente p pode-se assumir constante na gama de temperaturas consideradas (80ºC a 140ºC). Tendo como base a taxa de envelhecimento, outro factor a ter em conta é a taxa de envelhecimento relativo (7.4) que de acordo com as normas internacionais, se assume que 98ºC é a temperatura normalizada para uma temperatura ambiente de 20ºC. V = 2(θ h −98) / 6 Na equação 7.4, (7.4) θh é a temperatura do ponto mais quente. Da equação anterior é possível verificar que a taxa de envelhecimento relativo depende da temperatura do ponto mais quente tal como se mostra na tabela 7.1. 53 Tabela 7.1 – Taxa de Envelhecimento Relativo θh (ºC) Taxa de Envelhecimento Relativo 80 0,125 86 0,25 92 0,5 98 1,0 104 2,0 110 4,0 116 8,0 122 16,0 128 32,0 134 64,0 140 128,0 Da tabela anterior é possível verificar que a taxa de envelhecimento relativo duplica a cada aumento de 6ºC da temperatura. Se se considerar que a carga e a temperatura ambiente se mantêm constantes durante um determinado período de tempo, o envelhecimento relativo é dado por V x t, onde t é o período temporal considerado. Uma vez que durante a vida dos transformadores estes são sujeitos a vários regimes de funcionamento e consequentemente varias temperaturas, a taxa de envelhecimento relativo também varia. Recorrendo às expressões 7.5 e 7.6 é possível estimar o envelhecimento relativo do transformador durante um determinado período de tempo. t 12 L = ∫ Vdt t t1 L= 1 N (7.5) N ∑V (7.6) n =1 A expressão 7.5 é utilizada se se considerar tempo contínuo e 7.6 é utilizada para tempo discreto, onde n é o número de cada intervalo de tempo e N é o número total de intervalos considerados. De tudo o que foi dito, torna-se evidente que a utilização de modelos de previsão da temperatura se revela útil, pois sabendo-se a temperatura de funcionamento do transformador, torna-se possível estimar o seu tempo de vida. 54 8. Conclusão Este trabalho teve como objectivo o estudo da dinâmica térmica de transformadores e a sua modelização em termos de parâmetros concentrados. Para ser possível efectuar-se este estudo, procedeu-se à instrumentação de um transformador, tendo sido colocados sensores de temperatura (termopares tipo J) em diferentes regiões do mesmo. Com isto pretendeu-se identificar zonas homogéneas de temperatura tendo-se inicialmente considerado quatro zonas: núcleo de ferro e os três enrolamentos (A, B e C). Apresentou-se um modelo de parâmetros concentrados considerando as zonas homogéneas atrás referidas. Conhecida a geometria e as propriedades físicas dos materiais de cada uma destas regiões, foi possível apresentar o cálculo dos valores das capacidades térmicas. Para determinação do valor das resistências térmicas, procedeu-se a ensaios em corrente continua (excepto para o núcleo de ferro, onde se efectuou um ensaio em vazio), ou seja, aquecendo cada uma das regiões e verificando a temperatura nas restantes, foi possível determinar o valor das resistências térmicas para o modelo considerado. Posteriormente, por observação dos resultados obtidos experimentalmente, efectuaram-se algumas simplificações no modelo inicialmente apresentado. A primeira simplificação consistiu em se considerar os enrolamentos B e C como uma zona homogénea, passando-se a considerar um modelo com três zonas homogéneas: núcleo de ferro e dois enrolamentos (A e BC). Dos resultados experimentais para o cálculo do valor da resistência térmica, verificou-se também que sendo A um enrolamento interior, este dissipa praticamente todo o seu calor para as zonas vizinhas (núcleo de ferro e enrolamento BC) não se verificando dissipação de calor directamente para o ar, consistindo este facto na segunda simplificação do modelo. Dos resultados experimentais, verificou-se também que, devido à sua grande superfície de contacto com o meio ambiente, o núcleo de ferro actua como dissipador de calor, pois é o elemento constituinte do transformador que apresenta a menor resistência térmica, dissipando a maior parte do calor gerado pelo transformador para o ar. Tendo-se determinado todos os parâmetros necessários do modelo, procedeu-se à realização de ensaios experimentais com o objectivo de se validar o modelo e de se determinar o seu erro. Para tal, realizaram-se vários ensaios laboratoriais em que se colocou o transformador em diversos regimes de funcionamento, tendo-se iniciado por um ensaio à potência nominal. Neste ensaio, determinou-se que a variação de temperatura à potência nominal é da ordem de 58ºC para os enrolamentos de cobre e cerca de 28ºC no núcleo de ferro, tendo-se verificado também que os enrolamentos A e BC apresentam uma potência de perdas de 10,4W e 13,9W respectivamente. Conclui-se que esta diferença de potências se deve ao facto do enrolamento BC possuir um maior 55 comprimento e consequentemente maiores perdas. Para se determinar as perdas no núcleo, realizou-se um ensaio em vazio tendo-se observado um valor de perdas da ordem de 20W. Para se verificar o andamento do modelo de parâmetros concentrados, realizou-se também um ensaio, designado por ensaio em regime de carga variável, em que se coloca o transformador em diferentes regimes de carga, tendo-se observado que as curvas obtidas por simulação possuem um andamento idêntico às curvas obtidas experimentalmente. É então possível concluir que o erro diminui à medida que nos aproximamos do funcionamento nominal, possuindo neste caso um erro relativo máximo de 7% no cálculo da temperatura dos enrolamentos. Salienta-se o facto de o erro máximo se verificar durante o regime transitório de temperatura. Após se atingir o regime permanente o erro diminui para valores inferiores a 4%. Globalmente e para os vários regimes de carga, o modelo apresenta um erro inferior a 10%, salvo nas situações em que a temperatura do transformador se aproxima do erro de leitura dos termopares (cerca de 3ºC). Verificando-se que o modelo proposto é valido e possui erros relativos baixos, efectuou-se um estudo a situações de sobrecarga do transformador, salientando-se a utilidade da utilização de modelos de previsão de temperatura. Deste modo, é possível prever a temperatura máxima do ponto mais quente sendo possível efectuar-se sobrecargas no transformador sem que ocorram avarias. Neste estudo concluiu-se que, para regimes de sobrecargas suaves (próximos do nominal), a constante de tempo térmica do núcleo possui um papel importante no arrefecimento global do transformador, ou seja, o calor gerado no transformador vai sendo lentamente dissipado pelo núcleo fazendo com que a temperatura do ponto mais quente suba de forma mais gradual. À medida que a sobrecarga vai sendo mais violenta (muito superior ao funcionamento nominal), a temperatura nos enrolamentos atinge rapidamente o seu valor máximo, não se verificando o tempo necessário à propagação do calor até ao núcleo de ferro. Por este facto, para sobrecargas violentas (por exemplo curto-circuitos), pode-se apenas considerar a dinâmica térmica dos enrolamentos não sendo significativa a contribuição do núcleo de ferro. Para esta ultima situação, salienta-se também a utilidade do modelo na previsão do tempo máximo de actuação das protecções. Outro factor que se pretendeu investigar com este trabalho, foi o sobredimensionamento das máquinas eléctricas, tendo-se concluído que o transformador disponível no laboratório se encontra claramente sobredimensionado, determinando-se que, teoricamente, o transformador está dimensionado para suportar uma corrente máxima 58% superior à sua corrente nominal. Finalmente, efectua-se um estudo introdutório do modelo térmico do transformador quando este se encontra sujeito a arrefecimento com convecção forçada. Analisa-se uma 56 situação de arrefecimento em que se coloca o ventilador a dissipar o calor proveniente do núcleo, verificando-se que para este ensaio, a grande alteração nos parâmetros do modelo é o valor da resistência térmica entre o núcleo de ferro e o ar, enquanto que os restantes parâmetros não registam alterações significativas. Tal facto não se revela surpreendente, mas indica que é eficiente arrefecer o núcleo com convecção forçada, verificando-se uma diminuição global da temperatura do transformador em cerca de 15ºC. Verifica-se também um aumento do erro relativo do modelo quando se considera convecção forçada, concluindo-se que modelar fenómenos complexos como os referidos, onde ocorre transporte de massa, por intermédio de uma simples resistência não é suficiente. Deixa-se como sugestão para futuros trabalhos, uma modulação mais eficiente dos fenómenos que envolvem a convecção forçada, a sua aplicação ao modelo térmico proposto e um estudo de possíveis aplicações deste modelo a máquinas rotativas, onde a convecção forçada possui um papel importante. Relativamente ao envelhecimento e redução da vida útil de transformadores, verifica-se que existem metodologias para estimar o seu tempo de serviço e que este varia em função da temperatura a que o transformador se encontra sujeito. O estudo apresentado pretende ser uma introdução ao tema uma vez que toda a investigação desenvolvida nesta área tem como objecto de estudo transformadores de elevada potência, o que não é o caso do transformador disponível no laboratório. Deste capítulo, salienta-se a utilidade do modelo térmico na previsão da temperatura de funcionamento do transformador e a sua influência na estimativa do tempo de vida dos transformadores. 57 9. 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Utiliza-se um amplificador com ganho 10 de modo a que a tensão no conversor A/D seja de 10V (tensão máxima suportada pelo conversor A/D) quando a temperatura atinja os 100ºC. A saída da montagem inversora é posteriormente ligada a um conversor A/D. Para este trabalho utilizou-se o conversor A/D NI-USB6008 da National Instruments com o software de aquisição de dados VI Logger. 60 10.2. Identificação de Zonas Homogéneas Figura 10.3 – Variação de temperatura, ensaio em CC 61 Figura 10.4 – Temperatura no interior dos enrolamentos na zona central do transformador 62 Figura 10.5 – Variação da temperatura em função das camadas de cobre na zona central do transformador 63 Figura 10.6 – Fluxo de calor no transformador 64 10.3. Simulações e Resultados 10.3.1. Funcionamento em Regime Permanente Figura 10.7 – Ensaio em Regime Permanente 65 10.3.2. Funcionamento em Regime de Carga Variável Figura 10.8 – Ensaio em Regime de Carga Variável 66 10.3.3. Sobrecargas e Curto-Circuitos 10.3.3.1. Sobrecargas Figura 10.9 – Ensaio em Sobrecarga 67 Figura 10.10 – Sobrecarga Máxima 68 Figura 10.11 – Tempo de Sobrecarga 69 10.3.3.2. Curto-Circuitos Figura 10.12 – Curto-Circuito Franco 70 10.3.4. Convecção Forçada Figura 10.13 – Ensaio em Regime Permanente – Convecção Forçada 71