INVENTÁRIO FLORÍSTICO DAS PRAÇAS DO BAIRRO DO
RECIFE - PE
Sales, M. R. (1); Gomes, S. M. (2); Silva, K. M. M. (3); Barreto R. C. (4)
[email protected]
(1)
Graduando em Ciências Biológicas (ênfase em Ciências Ambientais), Universidade
Federal de Pernambuco - UFPE, Recife - PE;
(2)
Graduanda em Ciências Biológicas (ênfase em Ciências Ambientais), Universidade
Federal de Pernambuco - UFPE, Recife - PE;
(3)
Mestre em Biologia Vegetal, Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, Recife PE;
(4)
Professora Adjunta do Departamento de Botânica, Universidade Federal de
Pernambuco - UFPE, Recife - PE.
RESUMO
A população brasileira já superou a marca de 80% de habitantes urbanos, uma
população que até a primeira metade do século XX era tipicamente rural e
passou a se aglomerar nas cidades. Durante os processos de migração, as
cidades careciam de planejamento, ocasionando o crescimento desordenado
das mesmas, que levou ao decréscimo da qualidade de vida, devido à intensa
transformação do capital natural. Com isso os espaços livres têm recebido
cada vez mais atenção relacionada à sua importância ecológica, estética e de
lazer nas cidades. O presente trabalho se propõe a avaliar, de maneira qualiquantitativa a vegetação que compõe a paisagem das praças localizadas no
bairro do Recife, com o intuito de verificar, primeiro a necessidade de
adequação do manejo das espécies vegetais e depois observar o estado de
conservação das praças, a fim de se certificar de que a infraestrutura oferecida
por estes espaços, são convidativas ao apreciamento da população. Foram
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identificadas três importantes praças no bairro escolhido para o estudo: a
Arthur Oscar, a Rio Branco e a Tiradentes. A partir da análise dos resultados,
foi possível perceber que as espécies exóticas predominaram sobre as nativas
com porcentagens de 80% e 20% respectivamente.
Palavras-chave: Praças do Recife, Inventário Florístico, Arborização Urbana.
INTRODUÇÃO
A urbanização é um processo relativamente recente no contexto
brasileiro. Em pouco mais de uma geração a partir de meados do século
XX, o Brasil, um país predominantemente agrário, transformou-se em
um país virtualmente urbanizado. Em 1950, tinha uma população de 33
milhões de camponeses – em crescimento - com 19 milhões de
habitantes nas cidades, ao passo que hoje tem a mesma população no
campo – agora diminuindo – e a população urbana sextuplicou para
mais de 120 milhões (DEÁK & SCHIFFER, 1999).
O processo de urbanização brasileiro pode então ser caracterizado pela
rapidez e intensidade com a qual se deu a formação das grandes
cidades. No entanto, devido à falta de planejamento, surgiram cidades
desordenadas e ambientalmente insustentáveis, onde a paisagem
construída vem prevalecendo em detrimento do capital natural,
resultando no declínio da qualidade de vida da população citadina.
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De acordo com o trabalho de Cavalheiro & Del Picchia (1992) é
possível compartimentalizar o espaço urbano, conforme os elementos
do meio físico, em três sistemas integrados, a saber: Sistemas de
espaços com construções, de integração viária e livres de construção.
Como espaço livre entende-se qualquer espaço urbano fora das
edificações e ao ar livre, de caráter aberto e, independentemente do uso,
destinado ao pedestre e ao público em geral. Os espaços livres de
construção, como elementos integradores da paisagem urbana, são
normalmente associados à função de lazer para as categorias como
praças, jardins ou parques, e devem ser entendidos de acordo com as
atividades e necessidades do homem urbano.
Silva et al. (2007) observaram que comumente na maioria das cidades
ocorrem ocupações irregulares, abertura de novas ruas e avenidas,
ampliação de centros comerciais e polos industriais e outras atividades
impactantes modificando a paisagem e suprimindo áreas verdes, sendo
estas essenciais à sadia qualidade de vida.
A cobertura vegetal urbana então desponta como importante aspecto a
ser considerado com relação à construção de assentamentos humanos
mais sustentáveis, por contribuir para a melhoria da qualidade de vida
dentro do ambiente urbano.
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A arborização em vias públicas, logradouros, praças e parques das
cidades modernas é uma necessidade para a vida das pessoas que nelas
vivem. As plantas, através do processo fotossintético, captam o gás
carbônico do ar e liberam oxigênio, contribuem para abafar o ruído
produzido pelo trânsito e pelas pessoas e proporcionam refúgio e
alimento à sua fauna urbana, tão indispensável para manter o equilíbrio
biológico. A cobertura vegetal colabora ainda, decisivamente na
absorção
das
águas
pluviais
nas
cidades
cada
vez
mais
impermeabilizadas e proporciona diminuição da temperatura, deixando
as cidades mais agradáveis. A presença de áreas verdes influencia na
amenização das altas temperaturas do verão, reduzindo o calor por meio
da evapotranspiração das plantas, bem como pelo sombreamento que
proporcionam nas calçadas das vias públicas (FREIRE, 2007).
Diante de todos os benefícios já reconhecidos associados à cobertura
vegetal, se faz de fundamental importância o conhecimento acerca dos
elementos constituintes da paisagem vegetal urbana.
MATERIAL E MÉTODOS
O presente trabalho foi desenvolvido no bairro do Recife, que se
encontra inserido na Região Político-Administrativa 1 (RPA-1) da
cidade do Recife. O bairro do Recife apresenta baixo índice de
população residente, apenas 602 habitantes (IBGE, 2010), abrange uma
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área total de 270 hectares e caracteriza-se por seus eixos econômicos
estarem voltados às atividades comerciais e portuárias.
A partir da lista de espaços livres do Recife apresentada por Sá Carneiro
e Mesquita (2000), foram escolhidas três importantes praças a serem
analisadas: as praças Arthur Oscar ou do Arsenal, Rio Branco ou Marco
Zero e Tiradentes.
O levantamento das espécies vegetais encontradas nas praças
selecionadas foi realizado através de trabalhos de campo e de
laboratório, com a finalidade de coletar dados para a construção de uma
tabela que inclui a quantificação e frequência das espécies, respectivos
nomes populares e científicos, famílias botânicas, porte dos indivíduos,
origem e estado fitossanitário.
Para a análise dos indivíduos vegetais existentes nas praças, foram
realizadas visitas periódicas entre os dias 03 e 19 de Junho de 2013,
estas acompanhadas de coletas sistematizadas de amostras destes
indivíduos, auxiliadas por podões, tesouras de poda e prensas, visando
seu estudo em laboratório para a identificação das espécies e origem de
ocorrência. Para isso, foram consultadas bibliografias especializadas,
como Lorenzi (2001), Lorenzi & Melo Filho (2001) e Lorenzi et al.
(1996) e elaborada uma listagem. Para a observação das condições
fitossanitárias dos vegetais, foram levadas em consideração a presença
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ou ausência de parasitas, deformações na copa assim como problemas
causados pelas condições físicas do local.
Os organismos tiveram o seu estado fitossanitário classificados em
bom, regular ou ruim. Os que apresentaram bom estado de fitossanidade
foram aqueles que não tiveram problemas relacionados aos itens
analisados. Já os que se enquadraram na categoria regular apresentaram
problema em pelo menos um aspecto analisado e os considerados como
ruins foram àqueles organismos que se encontraram em situação crítica,
apresentando todos os problemas que foram avaliados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Nas três praças localizadas no bairro do Recife foram inventariados 121
espécimes vegetais, distribuídos em dez famílias botânicas, os quais
variaram quanto ao porte, desde herbáceo até arbóreo. A família
botânica mais utilizada nas praças foi a Arecaceae, com 70 indivíduos
distribuídos em quatro espécies distintas, o que representa 57,85% do
total de indivíduos inventariados neste estudo, em segundo lugar
aparecem as famílias Bignoniaceae e Chrysobalanaceae, ambas com
doze indivíduos da espécie Tabebuia sp. e Licania tomentosa
(19,83%),
e por último Combretaceae com onze espécimes de
Terminalia catappa (9,09%) estas quatro famílias juntas somam 101
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indivíduos, o que representa 86,77% de toda a diversidade das praças
do bairro do Recife.
A distribuição espacial das espécies não se deu de forma uniforme,
sendo recorrente a repetição dos indivíduos dentro do mesmo espaço.
Segundo Paiva (2010), esta circunstância não é desejável devido à
vulnerabilidade das espécies a pragas e doenças, que pode levar ao
declínio toda a população.
Um detalhe importante que vale ser destacado relaciona-se a
dominância das espécies exóticas sobre as nativas nas paisagens das
praças analisadas. As espécies exóticas são aquelas que ocorrem numa
área fora de seu limite natural historicamente conhecido, como
resultado da dispersão acidental ou intencional através de atividades
humanas (PNUMA, 1992 apud BLUM et al. 2008). Dentro desse grupo
existem ainda as invasoras, são organismos que, introduzidos fora da
sua área de distribuição natural, ameaçam ecossistemas, habitats ou
outras espécies, sendo estas consideradas como a segunda maior causa
de extinção de espécies no planeta, afetando diretamente a
biodiversidade, a economia e a saúde humana (MMA, 2006).
Observa-se no cenário da vegetação utilizada nas praças do bairro do
Recife, que a representação de espécies nativas é inexpressiva, sendo
apenas 25 dos 121 indivíduos (20,66%) de procedência da flora
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brasileira, o que revela um cenário extremamente preocupante, devido
aos problemas que as espécies exóticas podem vir a acarretar às nativas.
Embora o número de espécies exóticas seja elevado, grande parte delas
não apresenta características que a tornem invasoras potenciais, como
rápido desenvolvimento, altos potenciais de dispersão e adaptação e alta
elasticidade metabólica. Dentre todas as espécies exóticas constatadas, a
única que apresenta indicação como organismo invasor é Terminalia
catappa pela observação de elevado índice de indivíduos juvenis
ocorrendo espontaneamente em brechas de calçadas e abaixo de
indivíduos mais antigos.
Como resultado adicional, foram avaliados alguns requisitos associados
ao estado de conservação das praças, por entender serem essenciais à
atração da população, para momentos de convívios sociais e com a
natureza nestes locais. Para isso, foram avaliados o estado sanitário das
praças e o estado de conservação do mobiliário urbano.
A Praça Tiradentes é a que apresenta pior estado de conservação visto
que o mobiliário urbano contido nesta, encontra-se em estado avançado
de degradação, estando todos os bancos quebrados, as calçadas ao seu
entorno apresentando muitos desníveis e buracos, estando o espelho
d'água tomado de lixo e por conta dessa sujeira foi constatada também a
presença de ratos. A praça possui em sua vizinhança importantes órgãos
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do estado de Pernambuco, a citar: o Tribunal Regional Federal, a
empresa Porto Digital e a própria Prefeitura da Cidade do Recife, não
sendo este fato suficiente para que a praça apresentasse um bom estado
de conservação.
Já as praças Arthur Oscar e Rio Branco, ao contrário da Tiradentes,
encontravam-se em bom estado de conservação, tendo inclusive a
primeira passado por recente processo de revitalização, mas que no
entanto apresentou o maior índice de indivíduos infectados, oito dos
dez indivíduos de Terminalia catappa com Tripodanthus acutifolius,
planta parasita pertencente a família Loranthaceae,
popularmente
conhecida como erva de passarinho.
Tabela 1. Espécies vegetais encontradas na Praça Arthur Oscar ou do Arsenal no
bairro do Recife.
Nº Indivíduos
Estrato
Nome Científico
Família
Nome popular
Origem
Fitossanidade
Frequência %
14
Arbóreo
Roystonea oleracea (Jacq.) O.F. Cook
Arecaceae
Palmeira Imperial
Exótica
Boa
40
28.57
10
Arbóreo
Terminalia catappa L.
Combretaceae
Castanhola
Exótica
Ruim
7
Arbóreo
Licania tomentosa (Benth.) Fritsch
Chrysoblanaceae
Oitizeiro
Nativa
Boa
20
3
Herbáceo
Tradescantia pallida (Rose) D.R. Hunt
Commelinaceae
Trapoeraba roxa
Exótica
Boa
8.57
1
Arbóreo
Casuarina equisetifolia L.
Casuarinaceae
Casuarina
Exótica
Boa
2.8
Tabela 2. Espécies vegetais encontradas na Praça Rio Branco (Marco zero) no bairro
do Recife.
Nº Indivíduos
Estrato
Nome Científico
Família
Nome popular
Origem
Fitossanidade
Frequência %
14
Arbóreo
Roystonea oleracea (Jacq.) O.F. Cook
Arecaceae
Palmeira Imperial
Exótica
Boa
100
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Tabela 3. Espécies vegetais encontradas na Praça Tiradentes no bairro do Recife.
Nº Indivíduos
Estrato
Nome Científico
Família
Nome popular
Ocorrência
Fitossanidade
Frequência %
42
Arbóreo
Elaeis guineensis Jacq.
Arecaceae
Dendê
Exótica
Boa
55.26
12
Arbóreo
Tabebuia impetiginosa (Mart. ex DC.) Standl.
Bignoniaceae
Ipê
Nativa
Ruim
10.52
6
Arbóreo
Adenanthera pavonina L.
Fabaceae
Olho de pavão
Exótica
Boa
7.89
5
Arbóreo
Licania tomentosa (Benth.) Fritsch
Chrysobalanaceae
Oitizeiro
Nativa
Boa
6.57
3
Arbustivo
Pthycosperma macarthurii (H. Wendl. ex H.J. Veitch) H. Wendl. ex Hook. f.
Arecaceae
Palmeira-de-
Exótica
Boa
3.94
macarthur
2
Arbóreo
Plumeria rubra var. Acutifolia (Poir.) L.H. Bailey
Apocynaceae
Jasmim vapor
Exótica
Boa
2.63
1
Arbóreo
Delonix regia (Bojer ex Hook.) Raf.
Fabaceae
Flamboyant
Exótica
Boa
1.31
1
Arbóreo
Hibiscus tiliaceus L.
Malvaceae
Algodoeiro da praia
Exótica
Boa
1.31
1
Arbóreo
Terminalia catappa L.
Combretaceae
Castanhola
Exótica
Boa
1.31
1
Arbóreo
Mangifera indica L.
Anacardiaceae
Mangueira
Exótica
Boa
1.31
1
Arbóreo
Schinus terebinthifolius Raddi
Anacardiaceae
Aroeira
Nativa
Boa
1.31
1
Arbustivo
Dypsis lutescens (H. Wendl.) Beentje & J. Dransf.
Arecaceae
Areca bambu
Exótica
Boa
1.31
CONCLUSÃO
A priorização das espécies exóticas em detrimento das nativas, com
índices de 80% e 20% respectivamente, revela um cenário bastante
preocupante da arborização adotada nas praças do bairro do Recife.
A Praça Arthur Oscar, que passou recentemente por processo de
revitalização, foi a que apresentou o maior índice de indivíduos
infectados. Este fato é indicativo da negligência em relação à cobertura
vegetal por parte dos gestores públicos.
A espécie Terminalia catappa não é indicada para a composição da
paisagem urbana, primeiro por se tratar de uma espécie exótica com
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comportamento
potencialmente
invasor
e
segundo
pela
alta
susceptibilidade a ataque de parasitas.
4. Os organismos biológicos constituintes da paisagem local não estão
recebendo os devidos cuidados, sendo este cenário um indicativo de que
a sociedade ainda não despertou para da importância das árvores para o
ambiente urbano.
REFERÊNCIAS
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Acesso em: 25 de Agosto de 2013
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12
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