TURISMO • revista anual • número 0 • septiembre 2008 • 95-118 • ISSN 1889-0326
A História do turismo na Madeira
Alguns Dados para uma Breve Reflexão
Nos últimos anos a investigação histórica em torno do turismo vem ganhando inúmeros adeptos e o tema tornou-se já um tema de debate e investigação no mundo académico. As escolas universitárias, por força da exigência do trabalho científico têm sido os principais areópagos. Isto acontece seja na Europa, seja na América do Sul. Uma leitura mais atenta de
alguma da leitura revela que a Madeira quase não faz parte do universo do
turismo. Será que o turismo madeirense não tem direito a figurar nos anais
da História Universal?
1. A HISTÓRIA DO TURISMO NA MADEIRA
UMA QUESTÃO A DEBATER E ESTUDAR
Os arquipélagos da Madeira e Canárias assumem uma posição particular
no contexto do turismo e sua História. Foi um das primeiras regiões turísticas do mundo, mantendo uma constância de afirmação do sector desde o
século XVIII até ao presente. Poucas regiões turísticas assumiram tal constância. A hospitalidade madeirense, uma referência histórica desde o século
XV, contribuiu para firmar a posição. O fenómeno afirmou-se de forma
espontânea a partir do século XVIII e obrigou as autoridades e sociedade
civil a criarem condições para a recepção de todos os forasteiros. Assim, as
infra-estruturas de apoio ao turismo surgem por força da constante presença dos estrangeiros, na condição de doentes, cientistas e aventureiro.
No caso da Madeira é insistente a ideia de que a actividade tem mais
de 200 anos, mas faltam estudos, publicações, debates de carácter histórico
para que aquilo que para nós é grandioso, não se limite apenas ao nosso
universo histórico e seja algo do domínio de todos. Compulsados muitos
estudos sobre a História do Turismo, que surgiram nos últimos anos, não
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Alberto Vieira1
1 Ceha (Madeira)
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se vê reflectido o papel da ilha na História do Turismo. Tudo isto acontece
por desconhecimento, mas acima de tudo por falta de divulgação do real
protagonismo madeirense, através de estudos para o público em geral e o
mundo académico.
Na verdade, temos mais duzentos de actividade turística, mas faz falta
um museu que seja o reflexo da realidade e estudos, que são escassos para
não dizer inexistentes. Noutras regiões a presença de espaços museológicos
ou comunidade científica e académica empenhada na pesquisa e divulgação
do tema têm contribuído para a afirmação do real protagonismos e o alcançar dum lugar, por vezes indevido, nos anais da História do Turismo2.
Em História quem não aparece, não existe e perde o lugar que de direito
merece e lhe pertence. Temos que nos afirmar pela positiva, impondo no
nosso entorno e fora dele aquilo que fomos. A História faz-se e afirma-se
pelo discurso, com abertura à divulgação da informação e documentos que
lhe dão suporte. A história do Turismo na Madeira pode e deve ser escrita
de forma dourada e assumir um lugar de relevo nos anais do Turismo em
geral, mas para que isso aconteça há ainda um longo caminho a percorrer. O
Turismo deve também afirmar-se pela investigação histórica e a própria realidade pode ainda ser um dos motivos que nos diferencia dos demais como
um espaço singular. Mas, a história só tem lugar se for estudada, debatida,
publicada e divulgada. É isso que faz falta.
A literatura sobre a História do turismo faz parte duma das opções obrigatórias de compra e leitura de livros. Nos últimos tempos as frequentes
viagens ao Brasil conduziram-nos à descoberta da literatura sobre o tema
na América do Sul. No Brasil, onde o estudo do fenómeno turístico, nalguns
casos como o de Santa Catarina muito recente, induz, por vezes a ideia do
pioneirismo da indústria3. Em muitos dos estudos por nós consultados não
há qualquer referência à Madeira, ao contrário do que sucede com outros
espaços de França ou Itália.
2 Para os Açores e as Canárias temos já diversos estudos, enquanto para a Madeira apenas
podemos assinalar alguns apontamentos e referências isoladas ao tema, faltando uma História
do Turismo no Arquipélago. Para os Açores podemos assinalar: Ricardo Manuel Madruga
da Costa, Açores. Western Islands. Um Contributo para o Estudo do Turismo nos Açores, Horta,
1989. Manuel Ferreira, Turismo em S. Miguel. 100 anos, Ponta Delgada, 1999. Para as Canárias
o inúmero de estudos é vasto podendo-se salientar os seguintes: González Lemus, Nicolás,
El turismo en la historia de Canarias: viajeros y turistas desde la antigüedad hasta nuestros dias,
[Santa Cruz de Tenerife], 2002, Idem, Idem, Puerto de la Cruz y el nacimiento del turismo en
Canarias: apuntes para una interpretación, Puerto de la Cruz, 1999, Idem. El Puerto de la Cruz
: de ciudad portuaria a turística, Puerto de la Cruz, 2005; Guimerá Ravina, Agustín: El Hotel
Taoro: cien años de turismo en Tenerife (1890-1990), Santa Cruz de Tenerife, 1991.
3 Cf. Mário Jorge Pires, Raízes do Turismo no Brasil, São Paulo, 2001.
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Por outro lado temos que insistir na ideia de que os percursos do turismo
na actualidade são bem distintos do passado. Hoje, o turismo pode muito
bem dizer-se que se afirma como um meio de encontro e partilha de homens e culturas. E´, sem duvida, uma actividade privilegiada em que o lazer
se associa a um processo de humanização e inter-acção cultural. O turismo
pode e deve ser um meio de potenciar a identidade local, através da afirmação dos usos e costumes, da cultura e património, do orgulho.
As motivações da viagem não foram nem poderão ser sempre as mesmas. A cada sociedade ou época correspondem determinadas aspirações.
Mas, chegados ao destino, o que comandará a solicitação dos visitantes tem
a ver com aquilo que nos diferencia em relação aos demais no entorno que
nos rodeia. A paisagem como factor de deleite e conhecimento científico, a
cultura, a História, as tradições estarão sempre na linha da frente das prioridades da busca do forasteiro.
Os testemunhos da intervenção dos produtos agrícolas ainda são abundantes e por isso mesmo merecem atenção. Por outro lado os antepassados
clamam a uma necessária homenagem assente na trifuncionalidade agrícola
que os empenhou e acalentou os mais de quinhentos anos. Os restos de
eiras, engenhos, lagares, armazéns e vivendas solarengas, disseminados por
toda a ilha, merecem atenção e o acolhimento do visitante. Para isso seria
necessário a elaboração de um roteiro turístico dos valores patrimoniais,
devidamente enquadrados na realidade social e económica. Só assim será
possível manter o elo que nos liga ao passado económico e contribuir para
consolidar a aposta no turismo.
A Madeira adquiriu uma posição desusada no “ranking” da comunidade científica. A ilha continua a fascinar cientistas e visitantes. O clima, o
endemismo, as particularidades do processo histórico, o protagonismo na
História do Atlântico fazem dela, ontem como hoje, um pólo chave para
o conhecimento científico. Hoje é tema de debate nos diversos areópagos
científicos e cada vez mais se sentem o apelo da comunidade científica para
o conhecimento e divulgação. Tudo isto vai ao encontro daquilo que foi a
História do arquipélago. Porque não buscar vias de rentabilizar esta ideia
em termos do turismo ?
O passado histórico da ilha, relevado quase sempre pelos aspectos económicos e sociais, esquece uma componente fundamental, a inovação e divulgação tecnológica que transformou a rotina das tarefas económicas e
revolucionou o quotidiano dos avoengos. Mais do que isso, o madeirense,
além de exímio inventor – na inevitável tarefa de encontrar solução para as
questões e dificuldades do dia a dia – , foi também um eficaz divulgador da
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tecnologia. A Madeira foi a primeira terra revelada do novo mundo, escala
para a navegação e expansão dos produtos europeus no mundo atlântico.
Com o século XVIII a ilha transformou-se em escala obrigatória das expedições científicas que fizeram saciar a curiosidade inata do Homem das
Luzes.
Também a Madeira foi palco por onde passaram destacadas personalidades oriundas da aristocracia e casas reais europeias, de políticos, cientistas,
escritores, actores e cineastas. Por toda a ilha é fácil encontrar recantos que
recordam a presença. Que fazemos para valorizar a presença como motivo
e atracção turística ?
A viagem, por necessidade ou lazer, impõe-se como um facto do nosso
quotidiano. Hoje, mais do que nunca, o turismo é uma indústria dominadora que serve, ao mesmo tempo, de suporte à viagem e de angariador
de viajantes. A viagem seduz o cidadão e, poucos serão aqueles que, ainda
que em sonho, não tenham viajado. As necessidades económicas, politicas
e religiosas fazem com que esse ancestral espírito aventureiro se afirme. A
viagem é sinónimo de progresso, de afirmação e quebra da insularidade real
ou política, aproxima o Homem, culturas, civilizações. A Madeira foi fruidora no bom sentido da aventura atlântica. Para que a viagem se torne uma
realidade não basta a tendência errante, pois só tem lugar quando existem
os meios e os motivos que a justificam. Até a inesperada viagem de Robert
Machim e Ana Arfet à Madeira, teve uma motivação de base e condições
materiais que propiciaram a concretização.
Hoje insiste-se muito na ideia de que o turismo surgiu a partir de meados do século XIX, sendo as iniciativas do pastor baptista Thomas Cook o
marco a partir do qual se baliza a actividade. Mas como podemos esquecer
as Mémoires d’un touriste (1838) de Stendhal e o caso particular da Madeira.
Será que deveremos ignorar toda a realidade anterior ao século XIX, porque
não foi de iniciativa britânica? Os britânicos sempre procuraram definir
tudo a partir do seu universo de memórias. Daí a valorização na literatura
do”grand tour” do século XVII e das novidades da indústria desde meados
do século XIX4.
Na Antiguidade, sabemos da existência de guias de viagem (periegeses)
muito ironizados por Heródoto e Plutarco. Epidauro refere-nos o turismo
terapêutico na cidade de Esculápio o deus da cura. Que diferença existe
entre as peregrinações religiosas e o turismo? Para alguns apenas o número
de pessoas envolvidas. Na verdade, são múltiplas as motivações geradoras
4 Cf. Miriam Rejowski (organizadora), Turismo no Percurso do Tempo, São Paulo, 2002; Marc
Boyer, História do Turismo de Massa, São Paulo, 2003.
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do fenómeno turístico, que mudam com o correr dos tempos. Na década
de sessenta do século XX, por exemplo, insistia-se no chamado turismo
dos três SSS, isto é: sun, sand, sex. Hoje as motivações serão outras, como se
pode constatar5.
A. Sigfried dizia em 1955 que o século XX era definitivamente o século
do Turismo. Mas para nós que ultrapassámos a barreira da centúria ficanos a ideia de que isso só se concretiza em pleno na actualidade, em que o
direito à preguiça, proclamado em 1883 por Lafargue, genro de Karl Marx,
é um direito adquirido de todos e o sector ganha uma posição destacada na
economia mundial e de muitas regiões como a Madeira. O século XXI será,
sem dúvida, o momento da plena e universal afirmação do turismo.
2. A HISTÓRIA DO TURISMO MADEIRA
QUESTÕES FUNDAMENTAIS
Alguém terá dito que os iniciais promotores do turismo insular foram os
gregos, mas os primeiros turistas foram, sem dúvida, ingleses. Os gregos celebraram, na prolixa criação literária, as delícias das ilhas situadas além das
colunas de Hércules. Os arquipélagos da Madeira e Canárias são mitologicamente considerados a mansão dos deuses, o jardim das delícias, onde eles
convivem com os heróis da mitologia. Foram os ingleses, ainda que muito
mais tarde, a desfrutar da ambiência paradisíaca, reservada aos deuses e
heróis, escolhendo-as como rincão de perma­­nência, breve ou prolongada.
Diz-se até que a primeira viagem de núpcias, embora ocasional, terá sido
protagonizada por um casal in­­glês. Mais uma vez a lenda que ficou conhecida como de Machim
O ilhéu, autêntico cabouqueiro e jardineiro deste rincão, estava por demais embrenhado na árdua tarefa de erguer paredes e arrotear os poios, e
por isso mantinha-se alheio às delícias. A beleza agreste dos declives não
passava de mais um entrave na luta contra a natureza. Enquanto o madeirense cavava e traçava os poios o inglês entretinha-se nos passeios a cavalo
ou em rede pe­los mais recônditos locais da ilha. A verdadeira descoberta
da Madeira foi obra dos ingleses. O português descobriu apenas o caminho
para cá chegar.
A Europa oferecia ao aristocrata britânico motivos para o “grand tour”
cultural6, mas a Madeira tinha algo diferente para dar, quando não lhe pro5 Cf. Miriam Rejowski (organizadora), Turismo no Percurso do Tempo, São Paulo, 2002
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6 Paul Franklim Kirby, The Grand Tour in Italy(1700-1800), Londres, 1952; Jeremy Back, The
British and the Grand Tour, Londres, 1985, Idem, The Grand Tour in the Eighteenth century,
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piciava a recriação dos mitos da antiguidade clássica e reservava-lhe um
ambiente paradisíaco e calmo para o descanso, ou, como sucede no século
XVIII, o laboratório ideal para os estudos científicos. Os ingleses foram
pioneiros nas expedições científicas, como foram também os primeiros a
descobrir as qualidades terapêuticas do clima e a deleitar-se com as paisagens. A Madeira cedo ganhou o epíteto de estância turística do espaço
atlântico, firmando-se como um espaço destacado da história do turismo
no Ocidente7.
A revelação da Madeira como estância de turismo terapêutico aconteceu
a partir da segunda metade do século XVII. As qualidades profiláticas do
clima na cura da tuberculose cativaram a atenção de novos forasteiros. Foi
a busca da cura para a tísica que propiciou aos madeirenses o convívio com
poetas, escritores, políticos e aristocratas. Não obstante a po­lémica causada
em torno destas reais possibilidades de cura, a ilha permaneceu por muito
tempo como local de acolhimento dos doentes, sendo considerada a primeira e principal estância de cura e convalescença do velho continente8.
Londres, 1997.
7 Sobre o turismo: Luísa Filipa Aguiar, “Os Carros do Monte”, in Islenha, 18, 1996, 39-48;
Agostinho Cardoso, A Madeira e o Turismo Nacional, Funchal, 1964; Alberto F. Gomes, “O
Caminho de Ferro Americano”, 1960, Das Artes e da História da Madeira, Vol. V, Nº 30, pp.
30-32; Idem, “Documentos inéditos sobre o exílio de Carlos de Habsburgo na Madeira”,
Das Artes e da História da Madeira, VI, Nº 32, 1962, pp.22-31; Dr. Álvaro Reis Gomes, “A
ilha da Madeira vista por grandes nomes das letras Nacionais e estrangeiras”, Das Artes e da
História da Madeira, vol. VII, Nº 38,196?, pp..27-30; Albino Pina Ribeiro, Irmã Wilson –
Vida – Testemunhos – Cartas, 2.ª Edição, Edição das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora
das Vitórias, Março de 2000; António Ribeiro Marques da Silva, “Os inícios do turismo na
Madeira e nas Canárias. O domínio inglês”, II Colóquio Internacional de História da Madeira
1990 pp. 469; Iolanda Silva, A Madeira e o Turismo. Pequeno Esboço Histórico, Funchal, 1985;
J. Ezequiel Veloza, “Hospital para tuberculosos no sítio da Casa Branca, S. Martinho”, Das
Artes e da História da Madeira, 1949, p. 341; Dr. Elmano Vieira, “A Madeira nas estampas da
primeira metade do século XIX”, Das Artes e da História da Madeira, Vol. I, Nº 2, 1950, pp.
28-30; Maria da Conceição Vilhena, “Estrangeiros na Madeira: Platon de Waxel, um russo
apaixonado pela cultura portuguesa”, Islenha, N.º 11, 1992, pp. 5-15; Eberhard Axel Wilhelm,
“Visitantes de língua alemã na Madeira (1815-1915)”, Islenha, Nº 6,1990, pp. 48-67; Idem,
“A Madeira entre 1850 e 1900 uma estância de tísicos germânicos”, Islenha, Nº 13, 1993, pp.
116-121Idem, “Hamburgueses falecidos na Madeira (1868-1896)”, Islenha, 20, 1997, pp.6468; Idem, Visitantes e Escritos Germânicos na Madeira 1815-1915, Funchal, DRAC, 1997;
João Cabral do Nascimento, Estampas Antigas da Madeira: Paisagem-costumes-traje-edifíciosmarinhas, Funchal, 1935; idem, Estampas Antigas com Assuntos Madeirenses, in Arquivo
Histórico da Madeira [AHM], Vol. II 1933, IV, 1934-1935. Diogo de Macedo, Notas sobre
Pintores Portugueses que Estiveram na Madeira, in AHM, VII, 1949. João Camacho Pereira,
Colecção de Gravuras Portuguesas, V Série: Ilha da Madeira, Lisboa, 1948.
8 Não será por acaso que muitos guias do século XIX dão especial atenção ao clima e existem
numerosa bibliografia: Adams, J. A., Guide to Madeira With an Account of the Climate, Lisboa,
1801; idem, Observations on Pulmonary Consumption and on the Utility of the Climate of
Madeira. Publicado em Extract of the Medical & Physical Journal. Abril de 1801; Francisco
António Barral, Noticia sobre o clima do Funchal e sua influência no tratamento da tisica pulmo-
Alberto Vieira
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nar, Lisboa: Academia Real das Sciencias de Lisboa, 1854; idem, Le Climat de Madère et son
Influence Thérapeutique sur Ia Phithisie Pulmonaire, Paris: J. B. Baillière et Fils, Libbraires de
I’Académie Impériale de Médicine, 1858; James Mackenzie Bloxam,. The Climate of the Island
of Madeira, or the errors & misrepresentations on this subject contained in a recent work on climate,
Lodon, T. Richards, 1855; Castelo Branco, Hugo Carvalho de Lacerda. Le climat de Madère.
Ebauche dun étude comparative. Le meilleur climat du Monde. Station fixe et Ia plus belle d‘Hiver,
Funchal, 1936 (2ª ed. em 1938); James Clark, The influence of climate in the prevention and
cure of chronic diseases, more particulary of the chest and digestive organs: Comprising an account
of the principal places resorted to try invalids in England, the South of Europe. Londres: Thomas
and George Underwood, 1830; John Driver, Letters from Madeira in 1834; With an Appendix
Illustrative of the History of the Island, Climate, Wines and other information up to the year 1838.
Londres, Longman and Co. Liverpool; J. F. Cannell, 1838; John Driver, Co-aut. A Treatise on
the Climate and Meteorology of Madeira, London: John Churchill. Liverpool, Deighton And
Laughton, 1850; William Gourlay, Observations on the Natural History, Climate and Diseases
of Madeira, during a Period of Eightenn Years. Londres, 1811; Michael Comport Grabham,
The Climate anda resources of Madeira as regarding chiefly the necessities of consumption and the
welfare of Invalids. By Michael C. Grabham, M. D., F. R. G. S. London: John Churchill
& Sons, 1870; Henri Halmes, Études sur le Climat de Madère et la Phthisle. Na Gazette
Médicale de Paris. 1860 ; Charles Heineken, Observations of Climate of Madeira. Em Medical Repository, Vol. XII. Londres, 1824 e Philosophical Magazine, Londres 1827; Alberto
Figueira Jardim,Trad. the Climate of Madeira, with a comparative study, Funchal: Delegação
de Turismo da Madeira, 1938; James Yate Johnson, Ed. lit, Madeira its climate and scenery. A
hand-Book for invalid and other visitors, Edimburgh: Adam and Charles Black, 1857; Macé
de Lepinay, Quelques notes sur le Climat e les Sources Minérales de Madère et des Açores,
in Annales de la Société D’Hidrologie et de Climatologie Médicales. Paris, 1936; G. Lund, The
Climate of the Island of Madeira. Londres, 1853-54; Lyall,Rambles in Madeira and in Portugal
in the early part of 1826 witch an appendix of details, illustrative of the health, climate, produce,
and civil History of the Island. London: Printed for C. and. J. Rivington, 1827; James Macaulay, Notes on the Physical Geography, Geology and Climate of the island of Madeira, in
Edinburgh new Philosophical Journal. Outubro de 1840; João Augusto Martins, A Madeira e
o seu clima, Lisboa: Imprensa Nacional, 1901. Sep, do Boletim da Sociedade de Geographia de
Lisboa; J. A. MASON e outros, A Treatise on the Climate and Meteorology of Madeira, London,
John Churchill. Liverpool, Deighton and Laughton, 1850; Armando da Cunha Narciso, Les
Climats de Portugal. 1934; idem, Le climat de Madère et ses effects thérapeutiques. Porto: Tip. da
Enciclopédia Portuguesa, Ld.ª [1935?]. Sep. do Nº 4 Vol. XVIII, Avril de 1934 (pag. 158 a
161) de Portugal Medico; Georg Peacock, A Treatise on the Climate and Meteorology of Madeira,
London, John Churchill. Liverpool, Deighton And Laughton, 1850. César Augusto Mourão
Pitta, Du climat de Madère et de son influence therapeutique dans le traitement des maladies chroniques en géneral et en particulier de la phthisie pulmonaire, Montpellier, Typ. de Boehm, 1859.
César Augusto Mourão Pitta, Madère, Station Médicale Fixe, Climat des Plaines, Climat des
Altitudes. Accompagné d’un Guide-Madere, Paris, Ancienne Librairie Germer Baillière et Cie.
Félix Alcan, Editeur, 1889; Rambles in Madeira, and in Portugal in the early part of MDCCCXXVI. With an appendix of details, illustrative of the health, climate, produce, and civil history of
the Island, London: C. & J. Rivington, 1827; Francisco de Assis de Sousa Vaz, De I’influence
salutaire du climat Madère. Paris, 1832; Guilherme Telles de Menezes, Climatologia comparada, 1895; Pedro Júlio Vieira, Études médicales sur le climat de Madère. Montpilier, 1852; Robert
White, Madeira. Its climate and scenery. A hand-Book for invalid and other visitors, Edimhurg,
Adam and Charles Black,1857. Hermann Weder, Climatotherapie, 1886.
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A partir da segunda metade do século dezoito foi a revelação da Madeira
como estância para o turismo terapêutico, mercê das qualidades profiláticas
do clima na cura da tuberculose, o que cativou a atenção de novos forasteiros. A tísica propiciou-nos, ao longo do século dezanove, o convívio com
poetas, escritores, políticos e aristocratas. Não obstante a po­lémica causada
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em torno das possibilidades de cura a ilha permaneceu por muito tempo
como local de acolhimento dos doentes, sendo considerada a primeira e
principal estância de cura e convalescença do velho continente.
O turismo na Madeira começou como uma forma de busca da cura para
a tísica pulmonar. Foi este movimento que paulatinamente contribuiu para
que se transformasse rapidamente numa realidade. Na verdade, a partir da
segunda metade do século dezoito foi a revelação da Madeira como estância para o turismo terapêutico, mercê das qualidades profiláticas do clima
na cura da tuberculose, o que cativou a atenção de novos forasteiros. Agustina Bessa Luís diz-nos que foram eles que fizeram a fama da ilha.
A revelação das qualidades terapêuticas do Funchal na cura da tísica
pulmonar aconteceu a partir dos estudos de Thomas Heberden (1751)9,
John Fothergill10 e John Adams11 e provocou a atenção de entidades e enfermos12. A situação corporizava o chamado turismo terapêutico que motivou um movimento desusado de doentes. A Madeira destacou-se, mercê
das referências elogiosas feitas por alguns especialistas, como os doutores
SousaVaz (1832) e J. Clark13 que consideravam o Funchal como a primeira
e principal estância de cura e convalescença da Europa14. O epíteto fez com
que parte significativa do movimento de doentes se orientasse na direcção
da ilha, pelo que no período de 1834 a 1852 a média anual oscilava entre
os 300 e 400 doentes maioria de origem inglesa. Foram tais condições que
justificaram, em 1859, de um sanatório, o primeiro que se construiu em
Portugal. O movimento manteve-se, ampliando as motivações dos visitantes interessados nas belezas e recantos paradisíacos.
A presença cada vez mais assídua de visitantes em estadias prolongadas,
como era o caso dos doentes, provocou a necessidade de criação de infra9 As primeiras observações foram publicadas na Philosophal Transactions, de Londres.
10 On Consuption Medical Observations, Londres, 1775
11 J. Adams, A Guide to Madeira With an Account of the Climate, Lisboa, 1801; “Observations
on Pulmonary Consumption and on the Utility of the Climate of Madeira”, in Extract of the
Medical & Physical Journal. Abril de 1801.
12 Os estudos de T. Heberden e Adams são uma referência sobre o tema, cf. W. Gourlay, Natural
History, Climate and Diseases of Madeira, Londres, 1811, p.71.
13 James Clark, The influente of climate in the prevention and cure of chronic diseases, more particulary of the chest and digestive organs: Comprising an account of the principal places resorted to
try invalids in England, the South of Europe. A comparative estimate of their respective merits in
particular diseases; and general directions for invalids while travelling and residing abroad with an
Appendix, containing a series of tables on climate. 2.º ed. enlarged. Londres: Thornas ard George
Underwood, 1830.
14 Cf. Fernando Augusto da Silva, Clima, in Elucidário Madeirense, vol.I, Funchal, 1984, pp.273274. Agostinho Cardoso, A Madeira e o turismo Nacional, Funchal, 1964, p.24.
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estruturas de apoio: sanatórios, hospedagens e agentes, que serviam de intermediários entre forasteiros e proprietários de acolhimento. O último é o
prelúdio do actual agente de viagens. O turismo, tal como hoje se entende,
dava os primeiros passos. Como corolário disso, estabeleceram-se as primeiras infra-estruturas hoteleiras e o turismo passou a ser uma actividade
estruturada com uma função relevante na economia da ilha. E, mais uma
vez, o inglês é o protagonista. Em termos históricos podemos dizer que
o turismo caminhou lado a lado com o vinho e o aparecimento de novas
actividades económicas. A vinha persistiu nas latadas e fez-se companheira
de vimeiros, bordados e bordadeiras. A harmonia marchava a favor da ilha
e tornava possível a existência de várias formas de actividade que garantiam
a sobrevivência. A variedade de actividades e produtos foi a receita certa
para manter de pé por algum tempo a frágil economia insular. Na década
de 40 do século XX define-se o “comércio, a navegação e o turismo, os grandes
propulsores do desenvolvimento insular”. As actividades em torno da obra de
vimes e bordados tiveram nos estrangeiros, principalmente ingleses, os seus
principais promotores. A primeira metade do século XX foi marcada por
profundas mudanças na economia madeirense. É, para aqueles que a viveram, um momento para esquecer. Primeiro os conflitos mundiais (1914-18
e 1939-45) e depois os problemas políticos e económicos marcaram um
momento negro da vida madeirense. A guerra evidenciou a fragilidade da
economia da ilha e evidenciou a extrema dependência do mercado externo. Os problemas económicos arrastam convulsões sociais que se misturam
com as políticas.
Ao interesse científico pela fauna botânica e flora da ilha veio juntar-se,
a partir de meados do século dezoito, a climatologia. A revelação, através
dos estudos de Herber (1751), Fothergill (1775) e Adams (1801), das qualidades terapêuticas do Funchal, na cura da tísica pulmonar, galvanizaram
o interesse de entidades e enfermos. A situação corporizava o chamado
turismo terapêutico que motivou um movimento desusado de doentes para
as ilhas Atlânticas. A Madeira destacou-se, mercê das referências elogiosas feitas por alguns especialistas, como os doutores Vaz (1832) e J. Clark
(1834) que consideravam o Funchal como a primeira e principal estância de
cura e convalescença da Europa. Em 1859 construiu-se o primeiro sanatório. O último sanatório a ser construído foi feito em 1903 por iniciativa dos
alemães, através do príncipe Frederik Charles de Hohenlohe Oehringen,
ficando conhecido como a Companhia dos Sanatórios da Madeira15. Desta
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15 J. Ezequiel Veloza, “Hospital para tuberculosos no sítio da Casa Branca, S. Martinho”, Das
Artes e da História da Madeira, 1949, p. 341; Eberhard Axel Wilhelm, “A Madeira entre 1850
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iniciativa polémica resultou apenas o imóvel do actual Hospital dos Marmeleiros.
O epíteto fez com que parte significativa do movimento se orientasse na
direcção da ilha, pelo que no período de 1834 a 1852 a média anual oscilava
entre os 300 e 400, sendo na maioria inglesa. Foram tais condições que justificaram em 1859 do Sanatório, o primeiro que se construiu em Portugal.
Por tal motivo a ilha teve o mérito de receber visitantes ilustres que buscavam cá o alívio necessário para as enfermidades. Temos notícia de dois
lustres escritores portugueses, Júlio Dinis e António Nobre, do príncipe
Alexandre dos Países Baixos, em 1848, da princesa D. Amélia do Brasil. A
situação favorável que a ilha desfrutou durante o período contribuiu para a
divulgação do nome da mesma na Europa e criação de uma forte apetência.
Criados e familiares continuam a demandar a ilha. O movimento subsequente fez alterar os anteriores circuitos da cura, ampliando as motivações
geradoras da entrada dos estrangeiros na ilha. O estrangeiro começou a
interessar-se pelas belezas do meio e, deste modo, às qualidades terapêuticas aliaram-se as paisagens e o ambiente paradisíaco.
Tenha-se em conta que este momento de forte afluência de estrangeiros
coincide com a época de euforia da Ciência nas Academias e Universidades
europeias. Desde finais do século XVII as expedições científicas tornaramse comuns e o Funchal foi um porto fundamental de escala, para ingleses,
franceses e alemãs. A função do Funchal como porto de escala das navegações oceânicas e estância de turismo terapêutico contribuiu para afirmar o
papel da ilha e justifica os inúmeros estudos científicos ou de viagem que se
dedicam ou fazem referência à Madeira.
3. MADEIRA
A SALA DE VISITAS DO ATLÂNTICO
A Madeira pode muito bem ser considerada uma das mais destacadas salas de visita do espaço atlântico, pois foi desde os primórdios da ocupação europeia um espaço aberto à presença quase assídua de forasteiros. A
hospitalidade madeirense é uma constante da História que não se cansa
de assinalar a frequência de aventureiros, marinheiros, mercadores, aristocratas, políticos, artistas, escritores, cientistas. Uns surgem apenas de vista
fugaz de passagem, outros vêm ao encontro da ilha, em busca da cura para
e 1900 uma estância de tísicos germânicos”, Islenha, nº 13, 1993, pp. 116-121. Nelson Veríssimo, A Questão dos Sanatórios da Madeira, Islenha, 6 (1990), 124-144.
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Alberto Vieira
as doenças ou do tédio dos ambientes aristocráticos. A todos a ilha acolheu
de braços abertos.
ARISTOCRATAS, POLÍTICOS e ESCRITORES. A Madeira cedo
ganhou o epíteto de estância turística do atlântico, firmando-se como um
espaço destacado da história do turismo no Ocidente. A revelação da Madeira como estância de turismo terapêutico aconteceu a partir da segunda
metade do século XVII. As qualidades profiláticas do clima na cura da tuberculose cativaram a atenção de novos forasteiros. Foi a busca da cura para
a tísica que propiciou aos madeirenses o convívio com poetas, escritores,
políticos e aristocratas.
Dos visitantes que a ilha merecem especial atenção quatro grupos distintos: invalids (=doentes), viajantes, turistas e cientistas. Os primeiros fugiam ao Inverno europeu e encontravam na temperatura amena o alívio
das maleitas. Os demais vinham atraídos pelo gosto de aventura, de novas
emoções, da procura do pitoresco e do conhecimento e descobrimento dos
infindáveis segredos do mundo natural. O viajante diferencia-se do turista
pelo aparato e intenções que o perseguem. É um andarilho que percorre
todos os recantos na ânsia de descobrir os aspectos mais pitorescos. Na bagagem constava sempre um caderno de notas e um lápis. Através da escrita,
do desenho e gravura regista as impressões do que vê. Daqui resultou uma
prolixa literatura de viagens, que se tornou numa fonte fundamental para
o conhecimento da sociedade oitocentista das ilhas. O turista, ao invés, é
pouco andarilho, preferindo a bonomia das quintas, e egoísta, guardando
para si todas as impressões da viagem. O testemunho da sua presença é
documentado apenas pelos registos de entrada dos vapores na alfândega,
pelas notícias dos jornais diários e pelos “títulos de residência”.
A Madeira foi desde então um espaço aprazível de acolhimento para a
maior parte da aristocracia europeia. Bulhão Pato diz-nos que, de entre os
numerosos visitantes da década de 50 do século XIX, muitos são oriundos da aristocracia de dinheiro e de sangue. Alguns rendidos pelo fascínio
das suas belezas, testemunhando em inúmeros livros publicados em inglês,
francês, alemão, outros pela necessidade de encontrar no clima da ilha as
condições de alívio e cura para a tuberculose. Neste grupo podemos enquadrar escritores, como Júlio Dinis (1869), António Nobre (1898-1899), Bernard Shaw (1924), John dos Passos (1905, 1921, 1960) e muitos outros que
deixaram testemunho escrito da passagem pela ilha. Um grupo significativo
de doentes e visitantes situava-se entre a mais destacada aristocracia europeia e mesmo de algumas casas reais, como foi o caso da Rainha Adelaide
de Inglaterra (1847), Princesa Dona Maria Amélia (1853), da Imperatriz
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Isabel da Áustria, mais conhecida por Sissi (1860-1861, 1893-1894), a imperatriz Carlota do México(1859, 1864), Alberto I, Rei da Bélgica(1909),
o imperador da Áustria, Carlos de Habsburgo (1921), Ferdinando I, rei
da Bulgária(1936), Marash de Barodá, soberano indiano(1932), Wilhem
Prinz zu Wied, ex-rei da Albânia(1932).
Também, por força das circunstâncias de o Funchal ser um porto de escala das rotas europeias que ligavam à América e África, tivemos várias personalidades em passagem obrigatória no Funchal, sendo quase sempre alvo
do melhor acolhimento pelas autoridades do arquipélago, que improvisavam
cais de desembarque e faustosas recepções. Em alguns casos a ocorrência
resultou de condições difíceis para os próprios, sendo a ilha porto de escala
de caminho para o exílio, como sucedeu com Napoleão Bonaparte (1815),
o imperador da Áustria, Carlos de Habsburgo (1921), Fulgêncio Baptista
y Zaldivar, ex-presidente de Cuba (1959). Outros mais políticos desfilaram
pelo porto e ruas da cidade funchalense, como os Generais Luís Botha
(1909) e Jan Christian Smuts (1921) da União Sul-Africana. E não poderemos esquecer ainda a estadia temporária de Winston Churchill(1950).
De entre as autoridades portuguesas podemos assinalar a passagem do
DR. Manuel de Arriaga (1883, 1884), Dr. António José de Almeida (1922),
o General Óscar Carmona (1938), o Genral Craveiro Lopes (1955), o Almirante Américo Thomas (1962, 1963, 1969). Mas, na História do século
XX, as visitas mais memoráveis e mobilizadoras dos madeirenses foram
sem dúvida a do Rei D. Carlos I em 1901 e a da imagem de Nossa Senhora
de Fátima em 1948.
EXPEDICIONISTAS E CIENTISTAS. As ilhas entraram rapidamente no universo da ciência europeia. Os séculos XVIII e XIX foram
momentos de assinaláveis descobertas do mundo através de um estudo sistemático da fauna e flora. A procura e descoberta da natureza circundante
cativou toda a Europa, mas foram os ingleses que marcaram presença mais
assídua nas ilhas, sendo menor a de franceses e alemães. Aqui são protagonistas as Canárias e a Madeira. A Inglaterra apostava nas ilhas como pontos
fundamentais da estratégia colonial, acabando por estabelecer na Madeira
uma base para a guerra de corso no Atlântico.
Se as embarcações de comércio e as expedições militares tinham cá escala obrigatória, mais razões assistiam à passagem quase que obrigatória de
inúmeras expedições científicas. Foram inúmeras as expedições científicas
europeias que escalaram o Funchal. Desde a segunda metade do século
XVIII que o porto do Funchal se animou com a passagem assíduas destas expedições. De entre estes expedicionistas podemos contar com ale-
Alberto Vieira
mães (1860, 1874, 1910, 1937), americanos (1838, 1915, 1939), austríacos
(1857), belgas (1897, 1911, 1922), dinamarqueses (1845, 1921), franceses
(1785, 1883, 1903, 1908, 1911, 1913,1923, 1933), ingleses (1755, 1764,
1766, 1768, 1772, 1792, 1816, 1824, 1839, 1841, 1842-1846, 1901, 1902,
1910, 1914, 1921, 1922, 1929, 1934, 1937) e noruegueses (1910, 1914,
1922, 1930).
As ilhas, pelo endemismo que as caracteriza e pela história geo-botânica, permitiram o primeiro ensaio das técnicas de pesquisa a seguir noutras
longínquas paragens. Também elas foram um meio revelador da incessante
busca do conhecimento da Geologia e Botânica.
Instituições seculares, como o Museu Britânico, Linean Society, e Kew
Gardens, enviaram especialistas às ilhas proceder à recolha de espécies, enriquecendo os seus herbários. Os estudos no domínio da Geologia, Botânica e Flora são resultado da presença fortuita ou intencional dos cientistas
europeus. E por cá passaram destacados especialistas da época, sendo de
realçar John Ovington(1695), John Byron(1764), Joseph Banks(1768), James Cook(1768, 1772), Humboldt, John Forster(1772), John Barow(1792),
Robert Scott(1910). O próprio Darwin deslocou-se às Canárias e aos Açores (1836), deixando os estudos sobre a Madeira nas mãos de um discípulo. James Cook escalou a Madeira por duas vezes em 1768 e 1772, numa
réplica da viagem de circum-navegação apenas com interesse científico. Os
cientistas que o acompanharam intrometeram-se no interior da ilha à busca
das raridades botânicas para a classificação e depois revelação à comunidade científica.
4. O TURISMO E A HISTÓRIA DA ILHA
O turismo caminhou lado a lado com o vinho e o aparecimento de novas
actividades. A vinha persistiu nas latadas e fez-se companheira de vimeiros,
bordados e bordadeiras. A harmonia marchava a favor da ilha e tornava
possível a existência de várias formas de actividade que garantiam a sobrevivência. A variedade de actividades e produtos foi a receita certa para
manter de pé por algum tempo a frágil economia insular. Na década de
quarenta define-se o “comércio, a navegação o turismo, os grandes propulsores
do desenvolvimento insular”. As actividades em torno da obra de vimes e
bordados tiveram nos estrangeiros, principalmente ingleses os seus principais promotores.
A primeira metade do século XX foi marcada por profundas mudanças
na economia madeirense. É para aqueles que a viveram um momento para
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esquecer. Primeiro os conflitos mundiais (1914-19 e 1939-45) e depois os
problemas políticos e económicos marcaram um momento negro da vida
madeirense. A guerra evidenciou a fragilidade da economia da ilha e evidenciou a extrema dependência do mercado externo. Os problemas económicos arrastam convulsões sociais que se misturam com as políticas.
A maioria dos visitantes, como é óbvio, pertence à aristocracia endinheirada. Um breve olhar pelos registos e testemunhos corrobora esta evidência.
As famílias reais dos Habsburgos eram frequentes na ilha. A lista de aristocratas, príncipes, princesas e monarcas parece ser infinda, mas entre todos
fica o registo da imperatriz Isabel, mais conhecida por Sissi, mulher do imperador Carlos da Áustria. Assídua foi a presença da imperatriz do México,
que legou um registo apaixonado em Un Hiver à Madère (1859-1860).
Ontem como hoje a realização de uma viagem depende também da disponibilidade de infra-estruturas de apoio. Hoje fala-se em hotéis e restaurantes, ontem, eram as estalagens, os albergues e as tabernas. A palavra hotel, deriva do francês hotel, mas com um significado diferente do que aquele
que assumiu na actualidade. Na Idade Média existiam os Hospitalis, casas
para recolha dos peregrinos e doentes. A par disso coexistiam os albergues
e hospedarias, que pelo importante serviço que prestavam à sociedade, mereceram sempre a atenção dos municípios e coroa.
Até ao advento da era industrial, em que o transporte por tracção animal dominava a circulação em terra, a albergaria ou estalagem, regra geral
asseguravam ao viajante apenas cama para dormir, o necessário aprovisionamento de forragem para os animais e algum alimento. A par disso os
viandantes poderiam contar com o acolhimento das igrejas, ordens religiosas e casas particulares. Ao longo dos caminhos de peregrinação, como
o S. Tiago de Compostela, amontoavam-se estas infra-estruturas, sempre
abertas para receber os peregrinos, propiciando-lhe o necessário descanso
e alimento.
No mar o equivalente era conhecido como porto de escala e reabastecimento, estes polvilhavam o vasto oceano e por norma situava-se em ilhas
– Madeira, La Gomera, La Palma, São Tiago, Santa Helena e Terceira. A
principal povoação dispunha de uma enseada natural que servia de ancoradouro para as embarcações, que se abasteciam de água e alimentos frescos,
e os viajantes poderiam usufruir de um albergue para pernoitar e hospitais
para curar os doentes. Era o refresco retemperador da viagem. A Madeira,
através do porto, o Funchal, demarcou-se desde os primórdios da expansão
atlântica como um importante e necessário porto de escala.
Alberto Vieira
Para que o Funchal assegurasse o serviço foi necessário montar as necessárias infra-estruturas de apoio. De acordo com informação de Gaspar
Frutuoso, em finais do século XVI, a Rua dos Mercadores (actual Rua da
Alfândega) era o espaço de acolhimento de forasteiros e mercadores, “a
rua dos mercadores e fanqueiras, ingleses flamengos, e outros forasteiros”. Nada
faltava, desde hortaliças, vinho, legumes, biscoito, água e, até mesmo as meretrizes, que deambularam escandalosamente pela praia. Giulio Landi, que
em 1530 desfrutou da hospitalidade madeirense, refere que ‘os madeirenses
abundam, entre outras, em três coisas: pulgas, ratos e meretrizes. A hospitalidade dos madeirenses é uma evidência, sendo frequentemente realçada
pelos visitantes. Aliás, a fama do turismo na ilha deve-lhe muito. A atitude
é definida de forma exemplar por Henrique Galvão em 1941: A hospitalidade dos madeirenses é a expressão dum sentimento e a força dum hábito. É uma
manifestação de cortesia, cada vez mais rara em todo o mundo, e é também um
prazer dos habitantes”.
Por todo o século XVIII e primeira metade do seguinte, a frequência
assídua de tísicos à procura de cura e os demais que por aí passavam, encontravam fácil acolhimento nas casas particulares. Todavia, o aumento do
tráfego conduziu ao aparecimento dos primeiros hotéis. William Reid, que
se havia fixado na ilha, em 1844, foi, conjuntamente com W. Wilkinson,
primeiro, com intermediário entre os proprietários de casas ou quintas e
os forasteiros. Mais tarde assumem-se como os primeiros proprietários das
iniciais unidades hoteleiras. A família Reid’s começa com The Royal Edimburgh Hotel, mas em 1850 era já detentora de três hotéis – Santa Clara,
Carmo Hotel, Reid’s New Hotels. Os filhos de W. Reid, Alfred e William,
deram continuidade à obra do pai, tendo mesmo, em 1891, escrito um guia
para a Madeira. É de salientar que o Reids Hotel é na actualidade a mais
antiga unidade hoteleira madeirense e de todo o espaço atlântico, sendo
por isso mesmo um marco emblemático do nosso turismo. A par disso o
facto de ali se terem alojado personalidades ilustres, como W. Churchill, B.
Shaw, G. Marconi, entre outros, leva-nos a concluir que foi e continuará a
ser umas principais salas de visita e acolhimento do arquipélago, uma referência do turismo madeirense.
Na Madeira, a exemplo do que sucedeu nas demais ilhas, o principal
porto e cidade, não monopoliza a atenção do viajante. Os passeios a pé, a
cavalo e, no caso madeirense, de rede permitiam incursões no interior. Em
finais da década de quarenta do século XIX, foi Silvestre Ribeiro, Governador civil, lançou as bases para a criação de um conjunto de infra-estruturas
de apoio no interior da ilha. Todavia, só a partir de 1887 temos a primeira
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informação sobre uma rede de estalagens fora do Funchal. O visitante passou a dispor de locais de acolhimento em Boaventura, S. Vicente, Seixal,
Rabaçal, Santana e Santa Cruz.
As unidades de acolhimento não acabaram com a tradicional hospitalidade das casas e quintas mantiveram-se, sendo de referir, em finais do século dezanove, merecendo referência a casa de Mr. Newton Luscombe e as
quintas das Angústias, Santana e Palmeiras. Aliás, em 1889 C. A. Mourão
Pita apresentava com destaque um numeroso conjunto de casas e quintas, preparadas para alugar aos visitantes, estando o serviço assegurado por
angariadores. Até à presente centúria a quinta, nomeadamente, na área de
Santa Luzia e Monte, continuou a colher inúmeros visitantes, não obstante
o florescimento de novas infra-estruturas hoteleiras, a partir da década de
trinta. Hoje, de novo voltam a assumir idêntico papel, albergando no seu
seio luxuosas unidades hoteleiras.
A presença de viajantes e “invalids” na ilha conduziu obrigatoriamente à criação de infra-estruturas de apoio. Se num primeiro momento se
socorriam da hospitalidade insular, num segundo, a cada vez mais maior
afluência de forasteiros, conduziu à montagem de uma estrutura hoteleira de apoio. Aos primeiros as portas eram franqueadas por carta de recomendação. A isto juntou-se a publicidade através da literatura de viagens e
guias. Os guias forneciam as informações indispensáveis para a instalação
no Funchal e viagem no interior, acompanhados de breves apontamentos
sobre a História, costumes, fauna e flora.
A Madeira firmou-se, partir da segunda metade do século dezoito, como
uma das estâncias do turismo terapêutico. A ilha foi considerada por alguns
como uma das principais estâncias de cura e convalescença da Europa. No
período de 1834 a 1852 a média anual de Invalid’s oscilava entre os 300
e 400, na maioria ingleses. Em 1859 construiu-se o primeiro sanatório.
O último investimento foi dos alemães que em 1903 através do principie
Frederik Charles de Hohenlohe Oehringen constituiu a Companhia dos
Sanatórios da Madeira. Da iniciativa polémica resultou apenas o imóvel
do actual Hospital dos Marmeleiros. John Ovington, em finais do século
XVII, refere que os negociantes ingleses, que aqui na ilha “seguem a maneira
de viver inglesa característica das suas cidades e casas de campo acolhem nos seus
aposentos compatrícios seus que estejam de passagem na ilha. A falta de albergues insuficientes para acolher os inúmeros transeuntes gerou esta forma
personalizada de acolhimento.
Certamente que a hospitalidade, que não era apenas apanágio dos ingleses, radica as origens no medieval direito de aposentadoria. O rei, os senho-
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res e comitiva, nas deslocações usufruíam da oferta da estância e alimentação concedida pelos moradores do lugar. A exigência deixou de ser força de
lei mas a tradição imortalizou-a como uma forma de bem receber. A partir
do século XV só deveria ser assegurada aos oficiais régios ou municipais,
que se deslocaram em serviço. Será uma forma arcaica das actuais ajudas
de custo? Foi na mística hospitalidade que as infra-estruturas hoteleiras
deram os primeiros passos. O aparecimento assíduo de grupos esgotava
a capacidade de acolhimento e tornava necessário a criação de espaços de
acolhimento adequados à qualidade dos viandantes. A estalagem ou albergue dão lugar aos primeiros hotéis.
As ilhas atlânticas (Açores, Madeira, Canárias), mercê do empenho dos
ingleses nas actividades comerciais cedo se firmaram como um aprazível
recanto para a aristocracia britânica da ilha ou do Novo Mundo. A assídua
frequência de ingleses, em viagem de negócios, passeio, de passagem ou de
regresso das colónias, criou um movimento inaudito no Funchal possibilitado também pela franca hospitalidade dos patrícios ou madeirenses, pois
os poucos albergues não eram suficientes para conter as gentes em trânsito.
Foi a constante presença de forasteiros que motivou a atenção de todos e
motivou as autoridades a apostaram num conjunto de melhoramentos no
Funchal. Assim, desde 1848, com José Silvestre Ribeiro, temos o delinear de
um moderno sistema viário, a que se juntaram novos meios de locomoção:
em 1891 o comboio do Monte, em 1896 o carro americano e finalmente o
automóvel em 1904. Já em 1908, Mota Prego16 é peremptório em afirmar a
importância do turismo na economia madeirense. Orientação que não caiu
no esquecimento uma vez que em 1911 a Junta Agrícola, sob a presidência
do Visconde da Ribeira Brava, fez do turismo a principal aposta do progresso económico da ilha, apontando para o estímulo na iniciativa privada
na construção de hotéis, casinos e campos de golfe, ao mesmo tempo que se
responsabilizava pelo melhoramento da rede viária.
O turismo não se limitou ao espaço urbano, tendo beneficiado alguns
dos concelhos rurais mais solicitados pelas suas belezas. São Vicente e Santana são dois casos paradigmáticos. Mesmo assim o Norte nunca teve o
mesmo número e assiduidade de visitantes que acorriam à vertente sul.
Alguns atreviam-se a rumar à descoberta do Norte, seguindo os sinuosos
caminhos que o ligam ao Funchal. Desde meados do século XIX são frequentes as visitas de estrangeiros que aceitam este sacrifício A circulação
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16 Notas sobre Portugal, Lisboa, 1908.
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a pé entre o Norte e o Sul fazia-se por íngremes caminhos e para isso era
necessário estabelecer casas de abrigo para socorrer os viajantes.
Não temos dados seguros quanto ao desenvolvimento da hotelaria nas
ilhas, pois os dados disponíveis são avulsos. Os hotéis são referenciados em
meados do século XIX mas desde os inícios do século XV que as cidades
portuárias de activo movimento de forasteiro deveriam possuir estalagens.
A documentação oficial faz eco da realidade como se poderá provar pelas
posturas e actas da vereação dos municípios servidos de portos. No caso da
Madeira assinala-se em 1850 a existência de dois hotéis (the London Hotel
e Yate’s Hotel Family) a que se juntaram outros dez em 1889. Em princípios
do século XX a capacidade hoteleira havia aumentado, sendo doze os hotéis
em funcionamento que poderiam hospedar cerca de oitocentos visitantes.
A preocupação dos visitantes em conhecer o interior da ilha, nomeadamente a encosta Norte levou ao lançamento de uma rede de estalagens que
tem expressão visível em S. Vicente, Rabaçal, Boaventura, Seixal, Santana
e Santa Cruz.
5. O TURISMO E O DEBATE POLÍTICO
A actual fase do turismo madeirense começou a dar os primeiros passos no
post Segunda Guerra Mundial. A guerra fez parar o movimento de turistas
obrigando os hotéis a encerrar as portas. O anúncio do fim da guerra foi o
prenúncio da nova era para o turismo madeirense. Em 1952 Ramon Honorato Rodrigues chamava a atenção para a promissora indústria, uma vez que
está a “desenvolver-se em todo o mundo o hábito ou o prazer de viajar.” Na época
a capacidade hoteleira da ilha resumia-se a 453 quartos e o número de turistas era de 9131, sendo 142.135 os que transitavam pelo porto do Funchal.
O turismo madeirense é demarcado pela afirmação da época invernal.
Os protagonistas deste movimento continuam a ser os mesmos europeus.
Já em 1941 Henrique Galvão se lamentava da falta de portugueses: E ainda
hoje não compreendo que havendo já em Portugal tanta gente que viaja por prazer, haja tantos ingleses que vão à Madeira e tão poucos portugueses que a conheçam.”. Apenas a partir da década de setenta ocorreu a mudança mais significativa. O grupo de visitantes alargou-se ao espaço peninsular e a época de
Inverno tem um concorrente forte no período estival. Finalmente, nos anos
oitenta a aposta da Secretaria Regional do Turismo numa animação capaz
de realçar alguns dos aspectos que faziam os cartazes da ilha conduziu a que
o turismo perdesse finalmente o carácter sazonal para se consolidar com a
principal actividade económica.
Alberto Vieira
Na década de sessenta o turismo foi o pólo central e único do desenvolvimento da Madeira. Isto contribuiu para o rápido salto no número de
camas. Em 1967 tínhamos apenas 2295 camas que subiram para 3832 em
1971, como resultado da construção de novos hotéis como o Madeira Palácio (1969). O salto mais significativo foi a partir de 1973, altura em que se
atingiu as 8248 camas. O Madeira Sheraton (1972), Holiday Inn e Matur
(1972), D. Pedro-Machico (1972). Apartamentos Lido-Sol (1970). Finalmente em 1982 atingiu-se as 12.244, para no fim do século se ultrapassar
as vinte mil. A importância do turismo na economia da ilha conduziu a
mudanças ao nível institucional e ao maior interesse e empenho das autoridades. O turismo era definitivamente a principal aposta do arquipélago e o
motor do desenvolvimento económico.
Em 1967 foi criada a Escola de Hotelaria Basto Machado. A preocupação do estado começou em 1930 com a comissão de turismo que antecedeu
a Delegação de Turismo da Madeira que começou a funcionar em 5 de
Setembro de 1936. A mudança para a actual situação ocorreu em 1978 com
a regionalização do sector, que marcou o início do actual boom turístico.
A mudança mais significativa no turismo madeirense ocorreu a partir
da década de 70. O grupo de visitantes alargou-se ao espaço peninsular e a
época de Inverno tem um concorrente forte no período estival. Finalmente, nos anos 80 a aposta da Secretaria Regional do Turismo e Cultura, numa
animação capaz de realçar alguns dos aspectos que faziam os cartazes da
ilha, conduziu a que o turismo perdesse finalmente o carácter sazonal para
se consolidar como a principal actividade económica. Já na década de 60 o
turismo era o pólo central e único do desenvolvimento da Madeira. A mudança para a actual situação ocorreu, pois, em 1978, com a regionalização
do sector, que marcou o início do actual boom turístico.
Em 1927 o Marquês de Jácome Correia traça-nos o retrato do movimento de passageiros no porto em que a grande aposta está no apoio ao
turismo de cruzeiros: Todos os dias estão a chegar vapores, alguns dos quais
trazem regularmente passageiros, comos os transatlânticos de África do Sul e os
pertencentes à “Mala Real”, além de inúmeros cruzeiros de recreio que de quando
em quando fazem escala pelo porto despejando para terra levas de meio milhar de
viajantes de cada vez.17.
Na década de trinta do século XX o turismo é reconhecido como uma
importante riqueza nacional e no caso madeirense é considerado a indústria
fundamental da ilha. A Segunda Guerra Mundial fez apagar a presença
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17 . A Ilha da Madeira, Coimbra, 1927, 233
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deste efeito vigorante da economia nacional, mas em 194618, terminada a
guerra, o sector surge como uma área estratégica de desenvolvimento nacional. E já nesta data a Madeira é reconhecidamente a principal estância
turística e a que continua a granjear mais nome ao nível internacional. Foi,
assim, no período posterior à Segunda Guerra Mundial que o turismo actual começou a assumir importância especial na economia madeirense até
adquirir uma posição cimeira. O movimento de passageiros em trânsito ou
para estadia temporária é uma constante.
A tradição secular do turismo madeirense, alicerçada nas condições históricas criadas pela comunidade britânica no arquipélago, foi, no decurso do
século XX, o mote dos madeirenses, nomeadamente dos seus deputados ao
Parlamento Nacional, para reivindicar uma atenção especial ao desenvolvimento do sector. A qualquer momento que surge o debate sobre o turismo,
proclamação da Madeira como “a mais bela entre todas as nossas estâncias de
turismo, a de maior fama e renome internacionais”, ou a de “uma das nossas
primeiras e mais afamadas estâncias de turismo”e, porque, não “ a velha capital
lusitana do turismo internacional”, e ainda o “principal centro português de
turismo”19. Tudo isto era dito para fazer ver ao todo nacional que a Madeira
tinha óptimas condições para apostar no turismo e que essa aposta requeria por parte do Governo uma maior atenção. Esta mais-valia do turismo
madeirense não era devidamente tida em conta quando faltavam condições
para a fazer render ainda mais, como facilidades de comunicação e acesso
através do porto.
Em 195820 o turismo era um sector estratégico da economia madeirense,
junto com os bordados e as remessas dos emigrantes. Todavia, como se viu,
será na década seguinte que a actividade terá um momento de grande florescimento. E, para alguns madeirenses, o efeito multiplicador desta situação
era evidente. Segundo declarava em 1962 Agostinho Cardoso, deputado da
nação, “o turismo,…sacudirá a vida económica da Madeira. Criará e distribuirá
riqueza, dará origem a espantoso desenvolvimento da iniciativa particular e à
18 Diário das Sessões, n.º 25, Ano de 1946, 6 de Fevereiro, IV Legislatura, Sessão n.º 25 da Assembleia Nacional, em 5 de Fevereiro, p. 392
19 . Diário das Sessões, N.º 25, Ano de 1946, 6 de Fevereiro, IV Legislatura, Sessão N.º 25 da
Assembleia, Nacional, em 5 de Fevereiro, p. 393; Diário das Sessões, N.º 68, Ano de 1946, 24
de Dezembro, IV Legislatura, Sessão N.º68 da Assembleia Nacional, em 18 de Dezembro,
pp.201-202; Diário das Sessões, N.º 46, Ano de 1954, 20 de Março, Assembleia Nacional, VI
Legislatura, Sessão N.º 46, em 19 de Março, p.766.
20 . Diário das Sessões, N.º 18, Ano de 1958, 29 de Janeiro, Assembleia Nacional, VII Legislatura,
Sessão N.º 18, em 28 de Janeiro, p.381.
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Alberto Vieira
subida do nível da população.”21. A História acabou por confirmar esta previsão. Deste modo, em 1967 o turismo era já entendido como o sector basilar
da economia madeirense no sentido de que era “a única indústria possível em
larga escala e eixo de outras indústrias acessórias”22. Nas vésperas da revolução
de Abril, Eleutério de Aguiar, ao dar conta da ruína da agricultura afirma
que a vida económica madeirense assentava no binómio emigração turismo,
quando em 1965 outro deputado havia afirmado que a economia “nasceu e
vive sobretudo do complexo agricultura + emigração + turismo…”23
A partir da década de sessenta do século XX o turismo foi eleito como
o principal factor de desenvolvimento da Madeira. A partir de então podemos definir o início de uma nova fase na História do turismo madeirense
que marcou a marcha irreversível do arquipélago para a aposta preferencial
neste sector e que propiciou o desenvolvimento ao actual nível. Para isto foi
fundamental o processo de mudança política resultante da Revolução do 25
de Abril de 1974, que conduziu ao processo de autonomia implementado
a partir de 1978. A importância assumida pelo turismo na economia da
ilha provocou mudanças ao nível institucional e o maior interesse e empenho das autoridades. Primeiro tivemos em 1930 a comissão de turismo que
deu origem em 5 de Setembro de 1936 à delegação de Turismo da Madeira,
depois, Secretaria Regional de Turismo. A mudança para a actual situação
ocorreu em 1978 com a regionalização do sector. No contexto da política
regional o Turismo assumiu uma posição relevante a partir da década de
oitenta, coma criação da Secretaria Regional do Turismo (1983). Em 1967 a
ilha dispunha de 2295 camas que subiram em 1971 para 3832. Mas, o salto
significativo do sector, aconteceu a partir de 1973, altura em que se atingiu
as 8248 camas. E, finalmente em 1982 alcançaram-se as 12.244 para no fim
do século se ultrapassarem as vinte mil.
A construção do aeroporto nos anos sessenta abriu novas possibilidades
ao desenvolvimento do turismo. As instalações aeroportuárias, que ao longo dos últimos anos do século XX foi sendo melhorado até se transformar
numa pista intercontinental, marcou a total mudança no turismo, provocada pela substituição dos vapores pelo avião.
21 Diário das Sessões, N.º 44, Ano de 1962, 14 de Março, Assembleia Nacional, VIII Legislatura,
Sessão N.º 44, em 13 de Março, p.1005.
22 Diário das Sessões, N.º 98, Ano de 1967, 24 de Novembro, IX Legislatura, (Sessão Extraordinária), Sessão N.º 98 da Assembleia Nacional, em 23 de Novembro, p.1839.
TURISMO Revista de la Escuela Universitaria de Turismo Iriarte
TURISMO • revista anual • número 0 • septiembre 2008 • 95-118 • ISSN 1889-0326
23 Diário das Sessões, N.º 46, Ano de 1974, 3 de Abril, Assembleia Nacional, XI Legislatura,
Sessão N.º 44, em 2 de Abril, p.903; Diário das Sessões, N.º 5, Ano de 1965, 11 de Dezembro,
Assembleia Nacional, IX Legislatura, Sessão N.º 5, em 10 de Dezembro, p.46.
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A ilha foi e continuará a ser um espaço de busca permanente sendo
infindáveis as motivações da viagem. Primeiro os aventureiros e navegantes
abriram o caminho à sua descoberta, que depois foi motivo de fruição para
políticos, aristocratas, cientistas, escritores e artistas. Uns aproveitaram a
oportunidade da demora da escala para um rápido conhecimento ou estudos, outros vieram obrigatoriamente ao encontro da ilha e dos seus encantos definidos pela beleza natural, amenidade do clima ou propriedades
profiláticas do entorno. A todos encantou mas só de alguns soubemos das
impressões que ficaram testemunhadas nos textos, gravuras e pinturas.
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